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Como citar este material: ALENCAR, Michael. Aspectos introdutórios do Sistema Tributário Nacional. Rio de Janeiro: FGV, 2023. Todos os direitos reservados. Textos, vídeos, sons, imagens, gráficos e demais componentes deste material são protegidos por direitos autorais e outros direitos de propriedade intelectual, de forma que é proibida a reprodução no todo ou em parte, sem a devida autorização. SUMÁRIO ASPECTOS INTRODUTÓRIOS DO SISTEMA TRIBUTÁRIO NACIONAL .............................................. 5 CONCEITO DE TRIBUTO E SUAS ESPÉCIES ...................................................................................... 6 Espécies de tributo .................................................................................................................... 8 COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA .............................................................................................................. 8 PRINCÍPIOS DO SISTEMA TRIBUTÁRIO NACIONAL ...................................................................... 11 Princípio da capacidade contributiva .................................................................................... 13 Princípio da legalidade ............................................................................................................ 13 Princípio da isonomia .............................................................................................................. 14 Princípio da irretroatividade ................................................................................................... 14 Princípio da anterioridade ...................................................................................................... 14 Princípio do não confisco ........................................................................................................ 15 Princípio da transparência dos impostos ............................................................................. 15 Princípio da não cumulatividade do IPI e do ICMS .............................................................. 15 LIMITAÇÕES DA GESTÃO E DO PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO ................................................... 16 Evasão fiscal, elisão fiscal e elusão fiscal ......................................................................... 17 CONCLUSÃO ..................................................................................................................................... 19 PROFESSOR-AUTOR ....................................................................................................................... 20 MICHAEL ALENCAR .......................................................................................................................... 20 Formação .................................................................................................................................. 20 Experiências profissionais ...................................................................................................... 20 Neste curso, apresentaremos uma visão geral do funcionamento do Sistema Tributário Nacional, analisaremos os seus principais conceitos e princípios, destacaremos a competência tributária e abordaremos os limites legais do planejamento tributário como uma ferramenta que pode ser adequada à estratégia de economia tributária. É lugar-comum considerar o tributo como responsável por grande parte dos problemas enfrentados pelas empresas brasileiras. É corrente a referência ao amontoado de normas e regras tributárias que gera uma arrecadação crescente e desproporcional e que desafia o setor produtivo, comprometendo os recursos necessários à sobrevivência e à valorização das empresas. Uma inevitável questão deriva desse cenário: para que servem os tributos? Dentro desse contexto, outros questionamentos encontram lugar, como: Qual é o impacto econômico do tributo? Qual é a justificativa atual para a grande diversidade de tributos? Há limites para a tributação? Questionamentos como esses são comuns entre os gestores, que enfrentam, cotidianamente, o desafio de analisar o status jurídico e o impacto econômico do nosso Sistema Tributário Nacional. Antes considerada uma atribuição exclusiva de advogados e contadores, a análise tributária é, atualmente, também papel dos gestores, que devem estar preparados para os desafios provocados pelo impacto da tributação dentro das empresas. Sendo assim, neste curso, apresentaremos a você o pano de fundo do nosso emaranhado tributário, com o objetivo de sintetizar e elucidar os princípios e os conceitos que norteiam e justificam a existência e a aplicação do fato jurídico tributário. ASPECTOS INTRODUTÓRIOS DO SISTEMA TRIBUTÁRIO NACIONAL 6 Conceito de tributo e suas espécies A tributação pode ser estudada a partir de diversas abordagens e por profissionais de diferentes áreas. O economista realizará uma análise funcional, com o objetivo de retratar a eficiência econômica do tributo. Já o advogado tributário buscará descrever e sistematizar o ordenamento jurídico tributário bem como recomendar formas lícitas para uma tributação menos onerosa. O contador, por sua vez, procurará conhecer e deverá cumprir as muitas exigências fiscais e tributárias impostas pelos órgãos reguladores, de forma a garantir a legalidade e a conformidade dos registros contábeis que resultarão na arrecadação dos tributos. Finalmente, o gestor financeiro buscará analisar o impacto dos tributos no resultado das organizações. “Dificilmente se encontrará quem sustente com seriedade o desaparecimento do Estado como forma de organização política. A existência de um Estado implica a busca de recursos financeiros para a sua manutenção” (SCHOUERI, 2019, p. 17). A partir dessa afirmação, podemos concluir que um dos principais fatores que justificam a existência da tributação é a presença do Estado. É função precípua deste, no exercício do poder de tributar, respeitar os limites previstos na Constituição Federal, além de promover, por meio das suas decisões e atividades, a estabilidade econômica, o crescimento e o bem-estar social do país, garantindo aos contribuintes, além de outros direitos, o de possuir a capacidade econômica de pagar tributos. Como instrumento de arrecadação, o tributo precisa ter uma finalidade econômica. Essa finalidade pode ser sintetizada como a função distributiva de renda atribuída ao Estado. Gimbiagi e Alem (2011) observam que “a função distributiva, como política fiscal do Estado, está associada a ajustes na distribuição da renda que permitam que a distribuição prevalecente seja aquela considerada mais justa pela sociedade.” O conceito de tributo é ambíguo e varia de acordo com diferentes perspectivas (econômica, jurídica, social, política, histórica), guardando ainda relação com o agente que dele faz uso. A tributação deve ter previsão em lei e necessário conteúdo econômico, tendo a sua natureza jurídica determinada pelo fato gerador da obrigação. O art. 3º da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional – CTN), assim define o tributo: 7 Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada. Embora o CTN seja datado de 1966, a Constituição Federal de 1988 moldou, significativamente, o Sistema Tributário Nacional (STN). De acordo com Rezende e Afonso (2014), “o sistema atual teve como premissa básica, a criação de um sistema de repartição de receitas da União para os Estados e Municípios e do Estado para os Municípios.” Desse modo, podemos sintetizar o conceito de tributo da seguinte forma: deve ter origem em Lei; deve possuir finalidade econômica distributiva de renda; deve limitar-se à capacidade contributiva do agente passivo, ou seja, aquele que arca como ónus da tributação. A figura a seguir ilustra esse tripé conceitual. Figura 1 – Tributo: tripé conceitual Essa é, contudo, uma visão macroeconômica do tributo. Machado (2020) destaca que, “no mundo moderno, o tributo é amplamente utilizado com o objetivo de intervir na economia privada, estimulando ou desestimulando atividades e setores econômicos ou regiões.” Nesse sentido, o tributo pode assumir as seguintes funções: fiscal – de arrecadação do Estado para o cumprimento da sua finalidade; arrecadação prevista em lei Constituição Federal e CTN – (base) limitações: capacidade contributiva função: econômica distributiva de renda 8 extrafiscal – quando o seu objetivo principal é a interferência no domínio econômico, buscando um efeito diverso da simples arrecadação de recursos financeiros; parafiscal – quando o seu objetivo é a arrecadação de recursos para o custeio de atividades que, em princípio, não integram funções próprias do Estado, mas este as desenvolve por meio de entidades específicas. Espécies de tributo O conceito de tributo extraído do art. 3º do Código Tributário Nacional caracteriza o tributo como um gênero que se desdobra, de acordo com o critério estabelecido, em até seis espécies cujo regime jurídico lhes é comum. São espécies de tributos: impostos; taxas; contribuições de melhoria; empréstimo compulsórios; contribuições sociais; contribuições especiais. Considerando os objetivos desta apostila, destacaremos dentro das espécies existentes, os principais tributos inerentes à dinâmica empresarial. São eles: Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços (ICMS); Imposto sobre Serviços (ISS); Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI); Programa de Integração Social (PIS); Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins); Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) ; Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Competência tributária Como destaca Coêlho (2016), “o Brasil inundou a Constituição com princípios e regras atinentes ao Direito Tributário. Notadamente, somos o país cuja constituição é a mais extensa e minuciosa em tema de tributação.” Essa afirmação nos direciona a duas importantes conclusões: Os fundamentos do Direito Tributário brasileiro estão enraizados na Constituição, de onde se projetam sobre as ordens jurídicas parciais da União, dos estados e dos municípios; O Direito Tributário posto na Constituição deve, antes de tudo, merecer as primícias dos juristas e dos operadores do Direito, porquanto é o texto fundante da ordem jurídico-tributária. 9 Em conformidade com a estrutura federativa do Brasil, os estados são dotados de Constituições, sendo as leis estaduais e municipais submissas às Constituições desses entes federativos. Na esfera municipal, não existe uma Constituição, mas uma Lei Orgânica que cumpre esse papel. Podemos observar essa estrutura na figura a seguir. Figura 2 – Estrutura legislativa no Brasil A Constituição Federal tem caráter soberano e é a responsável por estabelecer as diretrizes para a elaboração e a interpretação das demais leis. A Constituição Estadual regula uma determinada unidade federativa e organiza o estado com liberdade e autonomia, porém com simetria constitucional. A Lei Orgânica Municipal funciona como uma “Constituição” com dupla vinculação, submetendo-se à Constituição Federal e às Constituições Estaduais. As leis tributárias têm origem, majoritariamente, em leis federais. A Lei Complementar n° 116, de 31 de julho de 2003, e as suas alterações, por exemplo, dispõem sobre o Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN) e servem de fonte para todos os Códigos Tributários Municipais. Podemos definir competência tributária como a capacidade conferida pela Constituição Federal aos entes federativos (União, estados, Distrito Federal e municípios) para que, dentro dos seus territórios e por meio de lei, instituam determinados tributos. A Constituição Federal não institui, portanto, qualquer tributo, mas autoriza que os entes federativos o façam, com base na competência a eles outorgada. CONSTITUIÇÃO FEDERAL CONSTITUIÇÃO ESTADUAL LEI ORGÂNICA MUNICIPAL 10 Neste ponto, entendemos ser necessário realizar uma síntese da estruturação do ordenamento jurídico constitucional para o Sistema Tributário Nacional. Nos termos dos incisos I, II e II do art. 145 da CF/88, a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios poderão instituir os seguintes tributos: impostos; taxas, em razão do exercício do poder de polícia ou pela utilização, efetiva ou potencial, de serviços públicos específicos e divisíveis, prestados ao contribuinte ou postos à sua disposição; contribuições de melhoria, decorrentes de obras públicas. Para assegurar aos contribuintes garantias necessárias, a CF/88, nos incisos I e II do seu art. 150, veda à União, aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios: exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça; instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente, proibida qualquer distinção em razão de ocupação profissional ou função por eles exercida, independentemente da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direitos; Conforme os incisos I e II do art. 151 da CF/88, é vedada à União: instituir tributo que não seja uniforme em todo o território nacional ou que implique distinção ou preferência em relação à Estado, ao Distrito Federal ou a Município, em detrimento de outro, admitida a concessão de incentivos fiscais destinados a promover o equilíbrio do desenvolvimento socioeconômico entre as diferentes regiões do País; instituir isenções de tributos da competência dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Quanto aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, conforme o art. 152, é vedado estabelecer diferença tributária entre bens e serviços, de qualquer natureza, em razão da sua procedência ou do seu destino. A partir desses destaques da legislação, notamos uma preocupação legítima dos constituintes com os limites e com a isonomia dos atores que operam o Sistema Tributário Nacional, cuja estrutura nos remete à ideia de ordenação bem como de uma classificação lógica e correlacionada entre unidades de um todo. Essas unidades – como já vimos, classificadas como entes federativos – recebem da CF a atribuição de regular e operar um complexo sistema de tributação que, em síntese, deve arrecadar tributos com base em lei, observando a capacidade contributiva do agente passivo e em condições ordinárias, no uso das suas funções fiscal, extrafiscal ou parafiscal, para, com finalidade social e econômica, promover a distribuição de renda e contribuir para o crescimento e o equilíbrio do País, dos estados e dos municípios. 11 Os conceitos vistos até este ponto são fundamentais para a compreensão do funcionamento do sistema tributário. No quadro a seguir, demonstramos a distribuição dos tributos que serão objeto de estudo nesta apostila, de acordo com a sua espécie, a sua competência tributária (atribuída pela Constituição Federal), a sua base legal e a sua função principal. Quadro 1 – Distribuição dos tributos nacionais tributo competência base legal função principal ICMS estados 155, II CF fiscal e extrafiscal ISS municípios 156, III CF fiscal IPI União 153, IV CF; 46 CTN fiscal e extrafiscal PIS União 195, I, b e 239; parafiscal Cofins União 195, I, b e 239; parafiscal IRPJ União 153, III; 43 CTN fiscal e extrafiscal CSLL União 195, I, b e c; parafiscal Princípios do Sistema Tributário Nacional Ferramental de trabalho essencial para a aplicação dos tributos na gestão, os princípios e as normas que instruem a sistemática tributária serão os temas abordados neste tópico. A funçãoessencial dos princípios tributários constitucionais é limitar o poder de tributar, o que corrobora a sua importância na proteção dos direitos dos contribuintes. Princípio nos remete à essência do que o termo representa. O início de tudo. Podemos ainda referenciar o termo como a base de algo, que, neste caso, é a tributação. Como observa, Machado Segundo (2019), “todo Ordenamento Jurídico é composto de um ou alguns princípios fundamentais, que se desdobram em outros princípios decorrentes e, posteriormente, em regras.” 12 Nesse sentido, Castro et. al (2010, p. 31) argumentam o seguinte: O Brasil é um Estado democrático de direito, expressão que revela, a um só tempo, o sistema político ao qual o país se vincula, que é a democracia, como também os ideais que direcionam a atuação do Estado, que se resume no respeito aos direitos de cidadania, ligados à ordem constitucional, na qual os direitos fundamentais do cidadão convertem-se em instrumentos efetivos ao pleno desenvolvimento da pessoa. Como pudemos observar, é questão fundamental no estudo da gestão tributária o conhecimento dos princípios tributários, especialmente porque eles estão ligados, de modo implícito, à Constituição, que, como vimos, tem caráter soberano e é a responsável por estabelecer as diretrizes para a elaboração e a interpretação das demais leis. Os princípios tributários são os fundamentos normativos que direcionam os aplicadores do Direito Tributário. Dessa forma, estabelecem os limites ao poder de tributar do Estado, sendo necessários para oferecer garantias vitais ao contribuinte, que é, diariamente, desafiado pela complexidade e pelos altos custos demandados pelo Sistema Tributário Nacional. Um estudo do Banco Mundial divulgado no relatório Doing Business 2021 estima que, por ano, 62,5 dias (ou 1.501 horas) são necessários para que empresários paguem impostos no Brasil. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o tempo despendido pelos países-membros é, em média, de 158,8 horas, 10,5% do que é gasto no Brasil. Esse cenário coloca o Brasil como um país com pouca atratividade para investimentos, especialmente de empresas estrangeiras, que atribuem ao nosso Sistema Tributário Nacional a interposição de um desafio muitas vezes intransponível, por ser pouco transparente, injusto e inviável economicamente. No quadro a seguir, apresentamos os princípios tributários de maior relevância e que recebem destaque dos principais estudiosos da matéria. Em sequência, apresentamos uma síntese com a descrição e a aplicabilidade desses princípios. 13 Quadro 2 – Princípios tributários princípio base legal princípio da capacidade contributiva Art. 145, § 1°, da CF/88 princípio da legalidade Art. 150, Inciso I, da CF/88 princípio da isonomia Art. 150, inciso II, da CF/88 princípio da irretroatividade Art. 150, inciso III, a, da CF/88 princípio da anterioridade Art. 150, inciso III, b e c, da CF/88 princípio do não confisco Art. 150, inciso IV, da CF/88 princípio da transparência dos impostos Art. 150, § 5°, da CF/88 princípio da não cumulatividade do IPI e ICMS Art. 153, § 3°, inciso II, da CF/88 – ICMS Art. 155, § 2°, inciso I, da CF/88 - IPI Princípio da capacidade contributiva O princípio da capacidade contributiva estabelece que, sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte. Isso quer dizer que o legislador deverá considerar, sempre que possível, a situação singular de cada contribuinte, objetivando uma tributação justa em relação à capacidade econômica deste. Coêlho (2016) afirma que “o princípio da capacidade econômica, do ponto de vista objetivo, obriga o legislador ordinário a autorizar todas as despesas operacionais e financeiras necessárias à produção da renda e à conservação do patrimônio afetado pela exploração.” Dessa afirmação extraímos que a garantia guardada pelo princípio é a de viabilizar a continuidade da empresa contribuinte. Princípio da legalidade O princípio da legalidade veda que a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios instituam ou aumentem impostos sem que a lei o estabeleça. Dessa forma, limita a atuação do poder de tributar dos entes federativos em favor da segurança jurídica dos contribuintes. Não é, de fato, razoável considerar que a Administração Pública tenha liberdade para tributar sem qualquer restrição e a qualquer tempo. Como observa, assertivamente, Machado Segundo (2019): “Por legalidade entende-se a garantia concedida aos cidadãos de que estes somente por lei poderão ser obrigados a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa [...] E que toda a atividade processual tributária, desenvolve-se nos termos previstos previamente em lei.” 14 Princípio da isonomia O princípio da isonomia dispõe que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Trata-se de um princípio que, sob o aspecto formal, impõe que as prescrições legais sejam aplicáveis a todos, sem qualquer distinção. No entanto, uma questão que deve ser necessariamente colocada é: que critério deve amparar o legislador na aplicação desse princípio? Em observância a essa pauta, Schoueri (2019, p. 353) preconiza o significado da isonomia tributária da seguinte forma: [...] para que se possa concretizar o Princípio da Isonomia, é preciso que se tenha um critério de comparação constitucionalmente justificado. Ou seja: para que se atenda ao Princípio da Isonomia, percorrem-se três etapas: primeiro, encontra-se um critério, em seguida, busca-se fundamentação constitucional para o critério encontrado. Finalmente, comparam-se as situações a partir do critério eleito. Princípio da irretroatividade O princípio da irretroatividade pressupõe que não haverá cobrança de tributos sobre fatos geradores que ocorram antes da vigência de nova lei que tenha regulado a instituição ou o aumento do tributo. É bastante significativo o fato de a Constituição prever, de modo expresso, esse princípio como um dos limitadores da tributação. Como afirma Amaro (2018): “[...] o que a Constituição pretende, obviamente, é vedar a aplicação da lei nova, que criou ou aumentou tributo, a fato pretérito, que, portanto, continua sendo não gerador de tributo, ou permanece como gerador de menor tributo, segundo a lei da época de sua ocorrência.” Princípio da anterioridade O princípio da anterioridade constitui um importante pilar da segurança jurídica, impedindo que nova lei venha instituir imposto de forma imediata. Subdivide-se em dois tipos, de acordo com art. 150, da CF/88: conforme alínea “b”, veda a aplicação do tributo no mesmo exercício financeiro em que foi publicada lei que o instituiu ou aumentou; conforme alínea “c”, veda a aplicação do tributo antes de decorridos 90 dias da data em que foi publicada lei que o instituiu ou aumentou. Como observa Sabbag (2018), “a anterioridade objetiva ratificar o princípio da segurança jurídica, evitando-se que o contribuinte se veja diante de inesperada cobrança tributária.” 15 Princípio do não confisco O princípio do não confisco prevê, expressamente, que os tributos não sejam utilizados com efeito confiscatório, expõe a necessidade de um limite máximo para a pretensão tributária e estende- se a todos os tributos. É importante destacar que tal princípio veda, inclusive, que o fisco tribute atividade ilícita, sob a pretensão de impedi-la. Dessa forma, o princípio veda o exagero, limitando o tributo à sua estrita finalidade. Como versa, de forma contundente, Schoueri (2019, p. 363): O dispositivo apresenta um conteúdo imediato: não pode o tributo ser proibitivo. Se uma atividade é ilícita, o legislador não pode valer-se de subterfúgio para impedi-la. A uma atividade ilícita, aplica-se uma sanção. Esta sim, constitui seu consequente. Por outro lado, se a atividade é ilícita, o tributonão pode ser exagerado, e impedir seu exercício. Princípio da transparência dos impostos O princípio da transparência dos impostos estabelece que a lei estabelecerá medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços. A transparência fiscal é, portanto, uma obrigação imposta pela lei. É importante destacar que esse dispositivo obriga o contribuinte a prestar esclarecimentos ao emitir uma nota fiscal bem como a declarar os encargos e tributos incidentes na operação. Princípio da não cumulatividade do IPI e do ICMS A Constituição Federal de 1988, ao tratar do IPI e do ICMS, determina que ambos os impostos sejam não cumulativos. De acordo com Schoueri (2019, p. 415), “a não cumulatividade é, ainda, opção aberta pelo constituinte derivado para as contribuições sociais. Cabe, assim, conhecer a não cumulatividade, enquanto técnica inserida no âmbito do estudo da tributação sobre o consumo.” Todos os princípios e conceitos apresentados pela literatura jurídica brasileira são sujeitos à interpretação pessoal. Além disso, tais princípios carecem, por vezes, de viabilidade prática, uma vez que a matéria tributária não é uma ciência exata e, portanto, está sujeita à subjetividade. 16 Limitações da gestão e do planejamento tributário Após analisarmos os principais conceitos e princípios tributários, vamos refletir sobre as limitações da gestão e do planejamento tributário. Para tanto, partiremos da meta básica do planejamento tributário, que é proporcionar, nos limites da lei, uma forma menos onerosa de tributação. No entanto, como já evidente, o nosso arcabouço legislativo tributário é complexo, o que, por vezes, promove intermináveis disputas legais acerca de matérias tributárias. Uma considerável preocupação do gestor tributário é contribuir com um embasamento legal sólido, capaz de fomentar decisões que promovam garantias de segurança jurídica ao planejamento tributário. O ofício da gestão tributária compreende a correta organização das atividades empresariais por meio da elaboração de contratos, fundamentos jurídicos, estruturas societárias e sistemas de informações contábeis e fiscais integradas, capazes de afastar, reduzir ou postergar o fato gerador do tributo. Em síntese, a gestão tributária deve promover uma lícita desoneração tributária. Nesse cenário, além do Direito Tributário, a Contabilidade e a Controladoria exercem funções fundamentais para que o planejamento tributário seja bem-sucedido, haja vista os procedimentos a serem observados no tratamento contábil das receitas. As receitas, especificamente, têm papel essencial na tributação, independentemente do regime escolhido. Por esse motivo, a sua correta escrituração é essencial para a organização contábil, com potencial de promover economia tributária, observada a segurança jurídica. O Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), por meio do Pronunciamento Técnico CPC 47, correlacionado com o International Financial Reporting Standards – IFRS 15 (Padrão Internacional de Relato Financeiro), fornece orientações a respeito da contabilização da receita de contratos com o cliente. Os itens de 9 a 45 do CPC 47 estabelecem as cinco etapas para o reconhecimento de receitas. Vejamos: 1. Identificação do contrato. 2. Identificação das obrigações de desempenho. 3. Determinação do preço da transação. 4. Alocação do preço da transação às obrigações de desempenho. 5. Reconhecimento da receita quando, ou à medida que, a entidade satisfizer a obrigação de desempenho. Nesse sentido, uma importante contribuição foi trazida pela Lei n° 12.973/2014, que altera a legislação tributária federal, inclusive os tributos IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. O art. 58 da referida lei versa: “A modificação ou a adoção de métodos e critérios contábeis, por meio de atos administrativos emitidos com base em competência atribuída em lei comercial, que sejam posteriores à publicação desta Lei não terá implicação na apuração dos tributos federais até que lei tributária regule a matéria.” 17 Dessa forma, coube à Receita Federal do Brasil (RFB) regular a matéria trazida pelo CPC 47, uma vez que esse pronunciamento promoveu mudanças nos métodos e critérios contábeis e foi publicado após a referida lei. A RFB regulou a matéria por meio da Instrução Normativa n° 1.881/2019, que trouxe importantes alterações para a legislação do IRPJ, da CSLL, do PIS e da Cofins, constantes da Instrução Normativa n° 1.700/2017. Sobre as mudanças promovidas pelo CPC 47 em relação ao reconhecimento de receitas, a IN n° 1.881/2019 desconsiderou o efeito prático dessa norma para fins tributários. Por meio do seu art. 1°, a IN n° 1.881/2019 inclui o § 4° ao art. 26 da IN 1.700/2017, que passou a constar da seguinte forma: “Salvo disposição em contrário, a receita bruta será reconhecida no período de apuração em que for configurada a aquisição de sua disponibilidade econômica ou jurídica, independentemente da avaliação quanto à probabilidade de não recebimento do valor pactuado ou contratado.” Sendo assim, a RFB determina que, independentemente da avaliação quanto à possibilidade de receber o valor pactuado no contrato ou da entrega da obrigação de desempenho, a empresa deve reconhecer, no período de apuração em que for configurada a aquisição da sua disponibilidade econômica ou jurídica, a receita para fins tributários, tornando-se, nesse ato, devedora do tributo. Nota- se que uma rubrica apenas, “Receitas de Contrato com Clientes”, precisa ser analisada e configurada à luz dos princípios constitucionais, das leis e Decretos, das Normas Contábeis e das Instruções Normativas, para uma correta interpretação e alocação do fato gerador tributário, que neste caso, ainda é diferente do “fato gerador” contábil. Evasão fiscal, elisão fiscal e elusão fiscal A multiplicidade de entendimentos e de aplicações provocadas pelo emaranhado de leis e normas contábeis e tributárias torna o planejamento tributário um desafio constante. As mudanças na legislação são incessantes, e os gestores precisam conhecê-las e interpretá-las de maneira correta para garantir uma precisa escrituração contábil e fiscal e, por consequência, uma correta apuração tributária. Devem ainda, quando possível, contribuir para a geração de uma carga tributária menos onerosa, capaz de promover o fluxo de caixa necessário à continuidade da empresa. Tantos dispositivos legais também abrem terreno para uma outra face do planejamento tributário. Acerca disso, Abreu (2019, p. 397) traz uma importante reflexão para o debate quando observa que: [...] a validade dos planejamentos tributários, tanto no Brasil como no mundo, passou a ser de extrema importância, não apenas pela crescente necessidade de incrementação da arrecadação tributária, mas também pelo aumento da criatividade dos contribuintes na organização de seus negócios, trazendo ao debate tributário, conflitos entre os princípios da liberdade, legalidade, capacidade contributiva e solidariedade. 18 Nesse contexto, é importante conhecermos os conceitos de elisão fiscal, evasão ou sonegação fiscal e elusão fiscal. Vejamos: a) Evasão ou sonegação fiscal: A evasão, conhecida como sonegação fiscal, é caracterizada pelo uso de meios ilícitos para evitar o pagamento de tributos. Normalmente, dá-se por meio da omissão de informações, de falsas declarações e da elaboração de documentos que contenham informações inverídicas. A prática de evasão fiscal é crime, com previsão de pena de reclusão de dois a cinco anos e multa (art. 1° da Lei n° 8.137, de 27 de dezembro de 1990). b) Elisão fiscal: A elisão fiscal é caracterizada pelo uso de meios lícitos – a partir do prévio planejamento tributário e do respeito ao ordenamento jurídico – para reduzir a carga tributária de um orçamento. De forma específica, a elisão fiscal busca evitar a ocorrência do fato gerador da obrigaçãotributária. A elisão fiscal pode ocorrer também em decorrência das lacunas na legislação, por meio do uso de instrumentos não proibidos expressamente em lei. c) Elusão fiscal: A elusão fiscal é caracterizada pelo abuso da liberdade quando da formulação do planejamento tributário. Trata-se de uma zona cinzenta entre a elisão fiscal e a sonegação fiscal. Nessa dimensão, não apenas a legalidade do planejamento tributário é considerada, mas também a sua legitimidade. Segundo Torres (2012), a “elusão fiscal seria a economia do tributo obtida pela prática de um ato revestido de forma jurídica que não se inclui na descrição abstrata da lei ou no seu espirito.” Ainda que seja possível estabelecer um conceito claro acerca do que seria um planejamento fiscal lícito ou abusivo, o conceito jurídico de abuso é, de certa maneira, vago e, portanto, sujeito à interpretação. Sabe-se que é direito do contribuinte estabelecer uma organização contábil ou societária no intuito de perceber uma economia de tributo, desde que em estrito atendimento à legislação vigente. No entanto, conforme observamos, as limitações impostas pela complexidade e pela subjetividade do ordenamento jurídico colocam o planejamento tributário em uma zona de risco, levando à possibilidade de a sua legitimidade ser questionada e, consequentemente, o seu efeito ser contrário ao pretendido. De modo a tornar mais claros os conceitos, Torres (2012) nos apresenta a seguinte classificação: evasão ilícita – ocorre quando há sonegação e fraude após a ocorrência do fato gerador tributável; evasão ou elisão lícita – ocorre quando o planejamento fiscal afasta o fato gerador, não produzindo, dessa forma, a obrigação tributária; elisão ilícita – ocorre quando um planejamento fiscal é considerado abusivo. 19 Conclusão Neste curso, analisamos, de forma geral, o funcionamento do Sistema Tributário Nacional bem como os seus principais conceitos e princípios. Além disso, estabelecemos alguns limites legais a serem observados na elaboração de um planejamento tributário cujo objetivo seja o de promover os benefícios da economia tributária, sempre em observância aos preceitos legais. É importante destacarmos, novamente, que o nosso objetivo não é esgotar o assunto, mas sim apresentar os fundamentos necessários ao desenvolvimento de um planejamento tributário sólido, embasado em princípios e responsável por promover economia tributária com segurança jurídica. 20 PROFESSOR-AUTOR Michael Alencar Formação Doutorando em Contabilidade e Administração pela Universidade Regional de Blumenau (Furb). Mestre em Gestão Empresarial pela FGV EBAPE, com extensão na Warwick Business School em Londres (UK). Especialista com MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pelo FGV IDE. Bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Experiências profissionais Managing partner em uma proprietary trading com sedes no Brasil e na Europa. Procurador do Estado do Rio de Janeiro. Empresário contábil, sendo responsável técnico pela contabilidade bem como pelo planejamento tributário e financeiro de empresas nacionais e estrangeiras dos setores de óleo e gás e de serviços. Consultor tributário e financeiro, e analista de planos de negócio para novos empreendimentos e investimentos. https://www.instagram.com/fgv.educacaoexecutiva/ https://www.linkedin.com/school/fgv-educacaoexecutiva/ SUMÁRIO ASPECTOS INTRODUTÓRIOS DO SISTEMA TRIBUTÁRIO NACIONAL Conceito de tributo e suas espécies Espécies de tributo Competência tributária Princípios do Sistema Tributário Nacional Princípio da capacidade contributiva Princípio da legalidade Princípio da isonomia Princípio da irretroatividade Princípio da anterioridade Princípio do não confisco Princípio da transparência dos impostos Princípio da não cumulatividade do IPI e do ICMS Limitações da gestão e do planejamento tributário Evasão fiscal, elisão fiscal e elusão fiscal Conclusão PROFESSOR-AUTOR Michael Alencar Formação Experiências profissionais