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109 Unidade 8 Linguagem figurada Maria Antonieta Antunes Cunha Na unidade anterior, vimos algumas características de todas as artes, e, portanto, da literatura. Entre elas, tratamos em especial da “paixão pela forma”, quer dizer, a preocupação com o nível da expressão, e do emprego da conotação, que gera a plurifi- cação. Nesta unidade, vamos analisar mais de perto essas características na literatura, trabalhando as chamadas “figuras de linguagem”, que dizem respeito às palavras, à sonoridade e às estruturas da frase. Se você buscar um estudo desse assunto, verá que são incontáveis as classificações dessas figuras, apresentadas em geral com nomes gregos muito pomposos, às vezes destacando diferenças muito sutis e irrelevantes entre elas.Também observará que essas figuras são estudadas quase que exclusivamente em textos literários. Nosso estudo, nesta unidade, terá outra orientação. Primeiramente, não nos interes- sam tantas figuras nem tantos nomes, mas a compreensão do mecanismo de criação dessas figuras. Em segundo lugar, vamos procurar mostrar que, se são usados sistematica- mente na linguagem literária, esses recursos aparecem com muita freqüência na nossa linguagem cotidiana. Assim, para estudarmos esse assunto, dividimos a unidade em três seções. A primeira, chamada A expressividade da linguagem cotidiana, mostrará como todos nós usamos e abusamos das figuras de linguagem; a segunda, Figuras e linguagem literária, vai apresentar várias figuras de palavras que se filiam a duas figuras-matrizes; a terceira, Elementos sonoros e sintáticos da expressividade, estuda algumas figuras ligadas à cama- da de sons das palavras e à sintaxe. Nossa expectativa é que, ao final desta unidade, você seja capaz de: 1 – identificar figuras na linguagem cotidiana; 2 – identificar as várias possibilidades da linguagem figurada no texto literário; 3 – identificar figuras do plano sonoro e sintático do texto. Esperamos trazer-lhe boas reflexões e atividades nesta unidade. Iniciando nossa conversa Definindo nosso ponto de chegada TP2 - Análise Lingüística e Análise Literária - Parte I 110 Seção 1 A expressividade da linguagem cotidiana Identificar figuras na linguagem cotidiana. Objetivo da seção Você se lembra do estudo que fizemos da linguagem falada, na Unidade 2 do TP1? Nela, insistíamos que uma das características fundamentais da oralidade é a tendência à exposição mais clara da emoção surgida da situação discursiva. Esse afloramento dos sentimentos e emoções faz aparecer uma série de recursos lingüísticos que têm exatamente a função de evidenciar esses estados de espírito, ainda que o falante não tenha consciência deles, ou não seja letrado. É como se os significados mais convencionais das palavras e a sua organização corriqueira não fossem suficientes para dar conta de nossos sentimentos. Resolvemos, então, inverter a ordem das frases, repetir enfaticamente as palavras, usá-las com outro sentido, fazer comparações - tudo para, consciente ou inconscientemente, escancarar nossas emoções, ou não deixar dúvi- das sobre o que falamos. Esses recursos constituem a chamada linguagem figurada. O trecho transcrito abaixo, que aborda especificamente o futebol, trata desses usos da língua. O ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, disse na semana passada que, em matéria de negociações sobre a Alca, sua função, agora, é “pren- der a bola no meio do cam- po até o juiz apitar o fim do jogo.” O presidente Lula, quando instado a falar so- bre o ministério, mais de uma vez comparou-se a Fe- lipão, na hora de escalar a seleção. Antes, na campa- nha, pediu aos militantes que não baixassem a guar- da até os noventa minutos do segundo tempo. Também na campa- nha, o candidato Ciro Gomes, quando ia bem nas pesquisas, disse uma vez que em time que está ganhando não se mexe. Ou- tro candidato, José Serra, cansou de citar o grande Didi - “Treino é treino, jogo é jogo” -, para argumentar que não subia nas pesquisas porque a verdadeira cam- panha, travada no horário po- lítico da televisão, ainda não começara. E quantas vezes citou-se, por todo lado, a pergunta de Garrincha ao técnico: “E o senhor combi- nou isso com o adversário?” Se não fosse o futebol, como nos entenderíamos? Se não fossem os provérbios do futebol, as frases célebres, as metáforas nele inspiradas, nós nos vería- mos, para nos comunicar uns com os ou- tros, “mais indefesos que goleiro na hora do pênalti, mais perdidos que time toman- do olé.” TOLEDO, Roberto Pompeu de. Aviso aos incautos: o Brasil continua. Veja, 6/nov/2002, p. 134 em matéria de negociações sobre a Alca, sua função, agora, é “prender a bola no meio do campo até o juiz apitar o fim do jogo” Línguagem figurada U ni da de 8 111 Atividade 1 A) Podemos observar, primeiramente, que o autor do texto faz uso da intertextualidade. Qual das formas da intertextualidade ele usa preferencialmente? Dê um exemplo. B) Que elemento ou argumento do texto sugere que a linguagem figurada é comum a todos os falantes da língua? C) O próprio autor faz uso da linguagem figurada, valendo-se da cultura do futebol. Cite esse uso. D) Afirmamos, mais acima, que a oralidade é especialmente expressiva. No entanto, temos aqui um texto escrito. À luz do que vimos sobre oralidade X escrita, registro formal X informal, como você justificaria os recursos do texto de que estamos tratando? E) Indique abaixo as palavras que comentaristas e pessoas ligadas ao futebol usam para designar: A) a bola: B) goleiro ruim: C) a rede do gol: Em todas as citações feitas pelo autor e na sua própria expressão, temos casos da chamada linguagem figurada: nenhum dos candidatos estava disputando um campeonato de futebol. Todos eles achavam que as imagens ligadas ao futebol seriam mais claras ou mais enfáticas para expressar seu pensamento. Voltemos à última frase do texto. “Se não fossem os provérbios do futebol, as frases célebres, as metáforas nele inspiradas, nós nos veríamos, para nos comunicar uns com os outros, mais indefesos que goleiro na hora do pênalti, mais perdidos que time tomando olé.” TP2 - Análise Lingüística e Análise Literária - Parte I A expressividade da linguagem cotidiana Se cç ão 1 112 Temos nesse trecho dois exemplos da figura mais comum da nossa linguagem: a comparação, um paralelo feito entre dois elementos, por meio sempre de uma conjun- ção, ou expressão comparativa, que pode ser: como, feito, qual, que nem, tal como, ou mais ... do que. O autor usou uma comparação, possivelmente, porque achou que era pouco afirmar apenas...”estaríamos indefesos e perdidos”. Atividade 2 Estou mais por fora que umbigo de vedete. Essa comparação, de claro tom humorístico, tinha sua razão de ser em meados do século passado, quando, teoricamente, só as vedetes expunham seus umbigos nos shows musicais. Mas outras comparações aparecem sempre, quando se trata, como nesse caso, de sugerir o nosso desconhecimento sobre determinado assunto. Que comparações (de igualdade ou de superioridade) são usadas em seu ambiente para indicar: a) pobreza: b) pessoa que fala muito: c) pessoa muito lenta:c) pessoa muito lenta: d) pessoa muito boa: e) pessoa muito gorda: Analise os nomes que você indicou na atividade anterior. Com toda certeza, a gran- de maioria dos termos selecionados fazem uma relação entre pessoas com animais e objetos, segundo pontos comuns existentes entre eles, na perspectiva dos falantes. Suponhamos que tenha dado exemplos como: Ela é mole como uma lesma. Ele está redondo como uma bola. Muitas vezes, dessas comparações, surgem apelidos para as pessoas. Como ocorre isso? Línguagem figurada U ni da de 8 113 Primeiro, eliminamos o adjetivo e a conjunção comparativa: Ela é uma lesma. Ela está uma bola. Depois, num segundo passo, substituímos o nome próprio da pessoa ou pronome pelo outro nome com o qual foi comparada. A Lesma ainda não acabou o serviço?!!! Encontramos o Bola ontem. Essas comparações simplificadas, nas quais substituímos umapalavra por outra com a qual fazemos analogias, chamam-se metáforas. Metáfora: figura de linguagem por meio da qual usamos uma palavra no lugar de outra, quando a idéia expressa pelas duas apresenta uma relação de semelhança. Atividade 3 Os apelidos são muito comuns em nossa vida. Nem sempre eles são extraídos dos nomes das pessoas. Muitas vezes, podem realçar as qualidades ou os defeitos das pesso- as. Normalmente, quando são criados a partir de características físicas ou mentais das pessoas, constituem comparações reduzidas feitas com animais e objetos e são exemplos de metáforas. a) Faça uma pesquisa em torno dos apelidos entre as pessoas de suas relações e relacione abaixo os mais interessantes. Explique cada caso. b) Como você lida, em sala de aula ou em outras situações de sua vida, com situações em que o apelido tem conotação negativa? TP2 - Análise Lingüística e Análise Literária - Parte I A expressividade da linguagem cotidiana Se cç ão 1 114 Há muitas figuras que podem ser consideradas tipos de metáforas. Vamos estudá- las na próxima seção. Importante Veja, agora, outra forma de se fazer a substituição das palavras. a) O Brasil é penta!!! b) Ele não pode ver um rabo de saia... c) Ele vive ouvindo Djavan. Nesses exemplos, os termos sublinhados não estão comparados a coisa alguma, não são apresentados como semelhantes a nenhum outro elemento. Atividade 4 Substitua cada uma das palavras sublinhadas por outra com a qual ela se relaciona mais logicamente. a) b) c) Nesses casos, a relação entre essas palavras é “de parentesco”, de proximidade. Um objeto lembra outro, como o filho lembra a mãe, mesmo que não sejam parecidos. A ligação que fazemos entre eles é mais lógica. Podemos fazer, entre outras, substitui- ções como: • lugar por habitantes • pessoa por objeto ligado a ela • pessoa por uma característica sua • autor por sua obra • parte pelo todo • lugar por seu produto • abstrato pelo concreto • concreto pelo abstrato Atividade 5 Indique, entre as relações listadas acima, a existente nos exemplos que se seguem: a) A juventude tenta encontrar caminhos. Línguagem figurada U ni da de 8 115 b) A cidade está muito calma. c) Eles compraram champanhe. d) Você tem cabeça, não vai fazer uma coisa dessas! e) Compramos um Caetano!... f) As velas acabam de chegar do mar. g) É muito cartola para nosso gosto. Temos nesses casos a figura chamada metonímia. Metonímia é uma figura através da qual substituímos uma palavra por outra que tem com ela uma ligação de proximidade, lógica e evidente. Nesse caso, os seres não se relacionam por sua semelhança, como na metáfora. Alguns manuais separam figuras que outros estudam como metonímia: sinédoque, antonomásia, por exemplo. Preferimos englobar todas elas num único nome, uma vez que a diferença entre elas é irrelevante. Importante A partir de um texto literário, ou da fala dos próprios alunos, sugira-lhes uma pesquisa sobre as figuras mais comuns em sua comunidade. Se quiserem, divididos em equipes, podem pesquisar grupos diferentes: trabalhadores de uma atividade mui- to comum no lugar, pessoas idosas, pessoas religiosas. Você vai ajudá-los a pensar em núcleos interessantes para a pesquisa, em função das condições locais. Conforme o caso, a pesquisa pode ser por meio de entrevista, ou simplesmente pela escuta e observação. Se fizerem entrevista, os alunos têm de estar conscientes de que devem deixar claro aos entrevistados que se trata de uma pesquisa de valorização de sua fala. A atitude deve corresponder a essa idéia: de respeito e atenção. Afinal, o interesse pela língua mostra o interesse pela vida das pessoas. Qualquer dúvida sobre Avançando na prática TP2 - Análise Lingüística e Análise Literária - Parte I A expressividade da linguagem cotidiana Se cç ão 1 116 o significado de alguma palavra deve ser desfeita com os entrevistados. Se houver uma pessoa com uma experiência de vida especialmente interessante, pode ser convidada a ir à escola, para conversar com toda a turma. Feita a pesquisa, marque o dia para a apresentação dos resultados. Se as figuras observadas envolverem objetos interessantes, estimule-os a trazê-los para a sala, ou sua foto, ou desenho. Ao final da apresentação, ajude-os a tirar conclusões sobre aspectos culturais e peculiares dos grupos. Resumindo Embora não nos demos conta disso, as figuras de linguagem são muito comuns na nossa fala. São usadas exatamente porque o sentido mais comum, denotativo, das palavras não nos parece suficiente para expressar a carga de sentimentos que quere- mos revelar em certa situação comunicativa. Por enquanto, estudamos: • a comparação: figura mais comum em nossa linguagem, estabelece um parale- lo entre dois seres, por meio de um nexo que pode ser de igualdade (como, feito, que nem, qual, parece, lembra, etc) ou de superioridade (mais....que). • a metáfora: figura que permite, por meio de uma comparação “abreviada”, substituir uma palavra por outra que tem com ela um nível de semelhança. • a metonímia: figura por meio da qual substituímos uma palavra por outra que tem com ela uma relação de proximidade, lógica e possível de ser percebida mais diretamente. A relação metonímica pode ser: autor/obra; pessoa/traço físico; pessoa/ objeto característico; continente/conteúdo; lugar/produto seu, etc.