Prévia do material em texto
Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. A legislação arquivística brasileira: análise da legislação estadual a partir das funções arquivísticas Renato Pinto Venancio Professor de Arquivologia/Associado III Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais -UFMG Pesquisador do CNPq – N2 Este texto tem por objetivo apresentar os resultados de uma pesquisa a respeito dos fundamentos arquivísticos presente nas legislações estaduais brasileiras. Em nossa análise, recorremos a fontes legislativas com o propósito de identificar quais das 27 unidades federais (26 estados e um distrito federal) contam com legislação na área. Em seguida, investigamos, nesses textos, se as sete funções arquivísticas, enumeradas a seguir, são devidamente contempladas: 1) Produção; 2) Classificação; 3) Avaliação; 4) Descrição; 5) Conservação; 6) Aquisição; 7) Difusão. A metodologia de análise que adotamos tem sido implementada em pesquisas de Marcel Lajeunesse e Carol Couture (1991; 2014), constituindo uma forma de avaliar e hierarquizar a qualidade da legislação arquivística existente. Nossa proposta justifica-se em razão da raridade de estudos a respeito do tema, tendo em vista que as publicações internacionais raramente incluem amostragens da legislação brasileira. Arquivos estaduais e legislação arquivística As primeiras tentativas de estabelecer um sistema nacional de arquivos no Brasil datam de 1978. Em 25 de setembro desse ano foi aprovado o Decreto n˚ 82.308, instituindo o Sistema Nacional de Arquivos – SINAR (JARDIM, 2006). Integravam esse sistema, os Arquivos do Poder Executivo e os “dos Poderes Legislativo e Judiciário da União, bem como os existentes nos Estados, Distrito Federal, Territórios e Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. Municípios.” Tratava-se de um primeiro passo no sentido de se definir a autoridade arquivística nacional. Tratava-se também de se pensar uma política pública de arquivos, que, conforme prevê até mesmo o modelo mais simples da área, necessariamente precisa contar com uma primeira etapa de formulação normativa, fixada em leis e normas (JARDIM, 1995; QUEIROZ, 2007; RODRIGUES, 2011). Contudo, pesquisas a respeito dessa legislação revelam que ela não chegou a ser implementada, tendo em vista que não estruturou de forma consistente o Sistema Nacional de Arquivos. O sistema proposto, de fato, não abrangia os arquivos correntes, fragmentando a noção de ciclo de vida dos documentos. Na proposta apresentada, caberia ao Arquivo Nacional os “arquivos intermediários e permanentes, tendo em vista os limites impostos na criação, pelo Governo Federal, em 1975, do Sistema de Serviços Gerais - SISG, ao qual se vinculariam os arquivos correntes da Administração Pública Federal”(ARQUIVO NACIONAL). Uma legislação realmente consistente a propósito do Sistema Nacional de Arquivos teve de esperar até a década de 1990. Em parte, tal legislação decorria da necessidade de se complementar e regulamentar a “gestão de documentos” na administração pública, prevista em texto da Constituição brasileira de 1988. Como resultado disso, em 1991, um Projeto de Lei que há vários anos vinha sendo discutido no Congresso brasileiro foi aprovado, tornando-se a Lei n˚ 8.159, mais conhecida como “Lei de Arquivos”.1 Essa nova legislação reformulava o conceito de Sistema Nacional de Arquivos, através de ações articuladas entre o Arquivo Nacional e o Conselho Nacional de Arquivos-CONARQ, conforme ficou consolidado no Decreto nº 1.173, sancionado em 1994: 1 BRASIL. Lei n˚. 8.159, de 08 de janeiro de 1991. Dispõe sobre a política nacional de arquivos públicos e privados e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8159.htm Acesso em: 02 fev. 2015. Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. Art. 1º. O Conselho Nacional de Arquivos (CONARQ), órgão colegiado, vinculado ao Arquivo Nacional, criado pelo art. 26 da Lei n° 8.159, de 8 de janeiro de 1991, que dispõe sobre a política nacional de arquivos, tem por finalidade definir a política nacional de arquivos públicos e privados, bem como exercer orientação normativa visando à gestão documental e à proteção especial aos documentos de arquivo.2 Muito se discute a respeito da real implementação do Sistema Nacional de Arquivos brasileiro (SILVA, 1994; JARDIM, 2010; INDOLFO, 2008, 2013), sublinhando-se a fraca adesão dos órgãos da administração federal a ele, assim como a fraca força política de seu órgão formulador, o Conselho Nacional de Arquivo-Conarq, e do órgão implementador, o Arquivo Nacional. Além disso, são ressaltadas as dificuldades decorrentes do federalismo brasileiros, que considera os estados e o distrito federal, assim como os municípios, como “entes federativos”, ou seja, subordinados à Constituição, mas com autonomia para produção de legislação complementar e regulamentar. Tendo em vista as dimensões continentais do Brasil, não é difícil imaginar as dificuldades de implementação de ações sistêmicas na área de arquivos (nas outras áreas também!), em um universo formado por 26 estados, 1 distrito federal e 5.570 municípios, todos, conforme mencionamos, dispondo de autonomia e por isso mesmo devendo formular e aprovar suas respectivas leis de arquivos. Nossa hipótese de pesquisa é que essa “autonomia descoordenada”, associada à existência de dois momentos fundadores do sistema nacional de arquivos (1978 e 1991), deram margem a situações muito díspares em termos de legislações estaduais e os sistemas de arquivos que elas propuseram. No entanto, antes de avançarmos nesse caminho, vejamos um pouco mais da metodologia da pesquisa proposta. 2 Decreto nº 1.173, Dispõe sobre a competência, organização e funcionamento do Conselho Nacional de Arquivos (CONARQ) e do Sistema Nacional de Arquivos (SINAR) e dá outras providências . Disponível em:http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1994/decreto-1173-29-junho-1994-449443- publicacaooriginal-1-pe.html Acesso em: 02 fev. 2015. Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. Como avaliar as leis de arquivo O surgimento da Arquivística como um campo técnico-científico é marcado pelo desenvolvimento de alguns princípios, sendo o da proveniência (ou de respeito aos fundos) e o da ordem original os mais citados para caracterizar, em relação ao século XIX, a ruptura epistemológica que caracterizou o surgimento do campo arquivístico.3 No século XX, a esses princípios, agregaram-se outros, como o da territorialidade,4 e, mais recentemente, o referente ao ciclo de vida dos documentos e a metodologia de gestão de documentos que o acompanhou (BROOKS, 1940; COX, 2000). A cada inovação na área, tais princípios são reatualizados.5 Eles também informam e sustentam vários debates teóricos, fundamentando procedimentos ou funções arquivísticas (CAROL, 2014: 120-174), abaixo sintetizadas6: 1- Produção: criação racional e manutenção das condições para garantir a autenticidade e fidedignidade do documento arquivístico; 2- Avaliação: atribuição de valores (primário ou secundário) aos documentos e definição dos prazos de guarda e destinação final (guarda permanente ou eliminação); 3- Aquisição: entrada dos documentos nos arquivos corrente, intermediário e permanente; 3 Há polêmicas a respeito de a quem cabe o pioneirismo dessas propostas,como no caso da origem do “princípio da proveniência” (CAMPILLOS, 1996: 32-47). 4 Eugenio Casanova sublinha que esse princípio passou a ser muito debatido após a I Guerra Mundial, tendo em vista a necessidade reparações e devoluções de acervos arquivísticos confiscados (CASANOVA, 1928: 213). 5 Um exemplo quanto a isso é que, na década de 1990, por ocasião de uma ampla discussão internacional a respeito da descrição arquivística, a base teórica utilizada foi o princípio da proveniência, formulado há 170 anos: “Au Canada, la publication des Règles pour la description des documents d’archives a joué un rôle majeur dans l’adoption du fonds comme base dela description archivistique, non seulement par les Archives nationales,mais aussi par un nombre impressionnant d’établissements d’archives d’un bout à l’autre du pays.” (CAROL, 2014: 119). 6Também foram utilizadas parte das traduções do blog UNBvital. Disponível em http://unbvital.blogspot.com.br/2013/06/funcoes-arquivisticas.html Acesso em: 02 fev. 2015. Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. 4- Conservação: conjunto de procedimentos visando a manutenção da integridade física do documento, diminuindo o processo de degradação; 5- Classificação: Organização dos documentos de um arquivo de acordo com um plano de classificação, código de classificação ou quadro de arranjo; 6- Descrição: Conjunto de procedimentos que leva em conta os elementos formais e de conteúdo dos documentos para elaboração de instrumentos de pesquisa; 7- Difusão: divulgação do acervo e promoção da acessibilidade aos documentos, aproximando o arquivo e do usuário da informação. Conforme é possível perceber, as funções englobam o conjunto de procedimentos técnicos-científicos comuns à Arquivologia, servindo por isso mesmo como um critério de análise da qualidade da legislação arquivística. Arquivos públicos estaduais e políticas públicas arquivísticas O federalismo brasileiro cria a necessidade de múltiplas legislações. As políticas públicas arquivísticas não fogem a essa regra: para efetivamente existirem, elas precisam ser formuladas legalmente no âmbito federal, estadual e municipal. Por isso mesmo, a primeira etapa desta pesquisa consistiu em identificar quais estados dispõem de leis, decretos ou projetos de lei regulamentando a política pública arquivística. Essa dimensão da pesquisa só aparentemente é simples. A primeira dúvida frente a ela diz respeito a qual texto legal selecionar? Para solucionar essa dúvida recorreu-se ao portal do CONARQ. Por se tratar do Conselho Nacional de Arquivos, órgão gabaritado para formular e acompanhar a implantação do Sistema Nacional de Arquivos, considerou-se essa instituição autorizada na identificação do que seria a legislação arquivística estadual. Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. De fato, no portal do CONARQ há uma página com indicação das leis estaduais e municipais.7 Tal compilação, no entanto, encontra-se bastante desatualizada. Além disso, indicam-se leis sem especificar qual marcaria o efetivo início de uma política pública arquivística. Essa situação exigiu uma nova pesquisa, nos portais das respectivas assembleias das unidades federativas. Nesse último levantamento, identificou-se o conjunto da legislação arquivística estadual existente. O Mapa 1 apresenta essas ocorrências. Como é possível observar, a maior parte dos estados brasileiros conta com legislação arquivística. Nos três casos em que não houve essa identificação – Acre, Paraíba e Roraima -, deve-se levar em conta a existência de projetos de lei ainda não aprovados.8 No levantamento detalhado das leis, decretos etc, constata-se que muitos desses itens mencionam claramente a formulação de políticas públicas arquivísticas. Isso ocorreu, por exemplo, em Minas Gerais, cuja lei n˚. 19.420, de 11 de janeiro de 2011, intitula-se: “Estabelece a política estadual de arquivos”. Noutras situações, são utilizadas expressões bastante estranhas à área, conforme ocorre no Estado do Mato Grosso, cuja legislação: “Institui o Programa Estadual de Preservação da Documentação Histórico - PRÓ-DOCUMENTO e dá outras providências”, promulgada após a Lei de 7Legislação arquivística brasileira. Disponível em: http://www.conarq.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=49 Acesso em: 02 fev. 2015. 8 RORAIMA. Projeto de Lei nº. 061, 16 de dezembro de 2014, “Dispõe sobre a Definição de Arquivos Públicos e Arquivos privados de interesse público e social e define as diretrizes para a criação do Arquivo Público Estadual, para a implementação da Política Estadual de Arquivos Públicos e Privados de interesse público e social de Roraima e para a criação do Sistema Estadual de Arquivos de Roraima – SIAR”. Diário da Assembleia Legislativa. Disponível em: http://www.al.rr.gov.br/diarios/diarios-2014/2014- dez/viewcategory/59-dezembro Acesso em 02 fev. 2015. Cabe sublinhar que esse projeto de lei, caso aprovado, incluirá Roraima no grupo dos estados cuja legislação contempla as sete funções arquivísticas: “Art. 13. Compete aos órgãos setoriais: [...] II - implementar e acompanhar rotinas de trabalho desenvolvidas, em seu âmbito de atuação e de seus seccionais, relativamente à padronização dos procedimentos técnicos referentes às atividades de produção, classificação, registro, tramitação, arquivamento, preservação, empréstimo, consulta, expedição, avaliação, eliminação, transferência, recolhimento de documentos ao Arquivo Público Estadual, visando o acesso aos documentos e informações neles contidas”. Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. Arquivos, em 30 de novembro de 1993, e não constando ter sido até o momento expressamente revogada. Mapa 1 – Unidades federativas brasileiras que formularam legislação arquivística Uma vez identificada a legislação arquivística estadual, a etapa seguinte consistiu na avaliação da qualidade dos textos legais; procurou-se identificar as unidades federativas que possuem marcos normativos mais abrangentes e condizentes com as sete funções arquivísticas acima indicadas. Nesse levantamento, sempre que possível levou-se em conta a legislação mais recente e não expressamente revogada. Em Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. seguida, procurou-se hierarquizar a qualidade da legislação,9 conforme apresentado na Tabela 1. Tabela 1 - Número de funções arquivísticas contempladas nos textos das legislações estaduais, 2015 Unidade da Federação N. abs. de funções arquivísticas na legislação Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo 07 Alagoas, Amapá, Bahia, Maranhão, Pará, Rio Grande do Sul, Santa Catarina 06 Amazonas, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul 05 Sergipe, Tocantins 04 Espírito Santo 03 Goiás 02 Ceará 01 Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia Informações incompletas Acre, Paraíba, Roraima Sem legislação arquivística Nesses casos foi possível identificar somente o nome da lei e/ou sua ementa, mas não o texto completo dela. FONTES: ALAGOAS. Lei nº 6.236, de 6 de junho de 2001. Institui o Sistema de Arquivos do Estado de Alagoas; AMAPÁ. Lei nº. 1.492, de 27 de maio de 2010. Dispõe sobre a criação do Arquivo Público Estadual e define as diretrizes da Política Estadual de Arquivos Públicos e Privados de interesse público e social do Amapá e cria o Sistema Estadual de Arquivos – SIESA; AMAZONAS. Decreto 27.071, de 18 de outubro de 2007. Institui o SistemaEstadual de Arquivos e dá outras providências; BAHIA. Lei Delegada nº 52, de 31 de maio de 1983. Dispõe sobre a proteção dos arquivos públicos e privados, e dá outras providências; CEARÁ. Lei nº. 10.746, de 6 de dezembro de 1982. Sistema Estadual de Documentação e Arquivos (SEDARQ); DISTRITO FEDERAL – Brasília. Lei nº 2.545, de 28 de abril de 2000. Dispõe sobre a proteção dos documentos de arquivos públicos; ESPIRITO SANTO. Decreto Nº 2270-E de 24 de novembro de 1981. Institui o Sistema Estadual de Arquivos e Comunicações Administrativas; GOIÁS. Decreto nº 3.466, de 29 de junho de 1990. Institui o Sistema Estadual de Arquivo de Goiás e dá outras providências; MARANHÃO. Lei nº 8.264, de 22 de junho de 2005. Dispõe sobre a política estadual dos arquivos públicos do Estado do Maranhão e dá outras providências; MATO GROSSO. LEI nº 6.320, de 30 de novembro de 1993. Institui o Programa Estadual de Preservação da 9 Tendo em vista a variação terminológica da legislação, foram consideradas as seguintes variáveis: 1) Produção/Criação; 2) Avaliação/Valor/Destinação; 3) Aquisição/Recolhimento; 4) Conservação/ Preservação; 5) Classificação/Arranjo; 6) Descrição/ Instrumentos/Pesquisa; 7) Difusão/Acesso/ Divulgação. Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. Documentação Histórico - PRÓ-DOCUMENTO e dá outras providências; MATO GROSSO DO SUL. Lei nº 1.294, de 21 de setembro de 1992. Dispõe sobre a Política Estadual de Arquivos Públicos e Privados, e dá outras providências; MINAS GERAIS. Lei nº 19.420, de 11 de janeiro de 2011. Estabelece a política estadual de arquivos; PARÁ. Decreto nº 5.961, de 17 de fevereiro de 1989. Institui o Sistema Estadual de Arquivos do Pará – SEAP; PARANÁ. Resolução SEAD nº 3.107, de 25 de setembro de 1995. Dispõe sobre a Organização de Arquivos no âmbito do Poder Executivo do Estado do Paraná; RIO DE JANEIRO. Lei nº 5.562, de 20 de outubro de 2009. Dispõe sobre a política de arquivos públicos e privados do Estado do Rio de Janeiro e dá outras providências; RIO GRANDE DO SUL. Reorganiza o Sistema Estadual de Arquivos do Rio Grande do Sul – SIARQ/RS – e dá outras providências; SANTA CATARINA. Decreto nº 3.427 de 9 de março de 1993. Dispõe sobre a organização, estruturação e funcionamento do Sistema Estadual de Administração Organizacional e Patrimonial, e dá outras providências; SÃO PAULO. Decreto nº 48.897, de 27 de agosto de 2004. Dispõe sobre os Arquivos Públicos, os documentos de arquivo e sua gestão, os Planos de Classificação e a Tabela de Temporalidade de Documentos da Administração Pública do Estado de São Paulo, define normas para a avaliação, guarda e eliminação de documentos de arquivo e dá providências correlatas; SERGIPE. Lei nº 2.202 de 20 de dezembro de 1978. Institui o Sistema Estadual de Arquivo; TOCANTINS. Lei nº 2.571, de 21 de março de 2012. Dispõe sobre a gestão dos documentos de arquivos públicos no âmbito do Estado do Tocantins, e adota outras providências. Em três ocorrências - Piauí, Rio Grande do Note e Rondônia -, os dados estão incompletos: localizou-se o título e/ou a ementa, mas não o texto completo da lei ou do decreto. Dessa forma, foi possível reunir informações apenas para 21 casos, ou seja, 77,7% unidades federativas brasileiras. Cabe aqui ressaltar que nesse levantamento procurou-se identificar, uma a uma, as sete funções arquivísticas. Vejamos alguns exemplos. No que diz respeito à “Produção”, várias leis e decretos tocam nessa questão. No Amapá, a lei que “Dispõe sobre a criação do Arquivo Público Estadual e define as diretrizes da Política Estadual de Arquivos Públicos e Privados de interesse público e social”, de 2010, inclui o seguinte artigo: “IV - racionalizar a produção da documentação arquivística pública”.10 No Rio Grande do Sul, nesse mesmo ano, o decreto que “Reorganiza o sistema de arquivos”, inclui o artigo: “II – racionalizar e padronizar a produção da informação arquivística”. A “Avaliação” é outra função contemplada. Em Santa Catarina, desde 1993, o decreto que “Dispõe sobre a organização, estruturação e funcionamento do Sistema Estadual de Administração Organizacional e Patrimonial”, prevê em um de seus artigos: 10 Grifo nosso, nesse e nos casos seguintes. Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. “e) orientar os órgãos da Administração Pública Estadual sobre a criação de comissões técnicas de avaliação e seleção de documentos e respectivas tabelas de temporalidade, fazendo parte da comissão com pelo menos um representante.” A legislação paulista deu tal relevância a essa função, que a incluiu no título de um decreto de 2004: “Dispõe sobre os Arquivos Públicos, os documentos de arquivo e sua gestão, os Planos de Classificação e a Tabela de Temporalidade de Documentos da Administração Pública do Estado de São Paulo, define normas para a avaliação, guarda e eliminação de documentos de arquivo”. Como seria de esperar, a função “Aquisição”, ou suas variáveis “Transferência” e “Recolhimento”, estão presentes na legislação. No Mato Grosso do Sul, a lei que “Dispõe sobre a Política Estadual de Arquivos Públicos e Privados”, determina: “Art. 11. Compete ao Arquivo Público do Estado de Mato Grosso Sul a gestão, o recolhimento e a preservação dos documentos produzidos e acumulados pelo Poder Executivo Estadual.” Essa mesma legislação, como em outros estados, também prevê a destinação da documentação dos órgãos públicos extintos: “§ 2º A cessação das atividades de instituições publicas e de caráter público implicam recolhimento de sua documentação a instituição arquivística pública ou a sua transferência a instituição sucessora.” A expressão, “Aquisição”, por sua vez, é utilizada para os casos dos arquivos privados: “Parágrafo único. No caso de alienação desses arquivos, o Poder Público exercerá preferência na aquisição.” A função “Conservação” é frequentemente mencionada - como no caso da legislação do Sergipe, que em 1978 “Institui o Sistema Estadual de Arquivo” - , não só para o arquivo permanente, mas também para a fase corrente e intermediária, cabendo ao sistema “II - Orientar o preparo e a organização dos documentos em fase de Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. transferência para o arquivo intermediário ou permanente; III – Supervisionar a conservação de documentos sob custódia.” Na legislação do Rio Grande do Sul, essa preocupação estende-se à preservação dos documentos em diferentes suportes, fazendo aí uma referência indireta aos que nascem em meio digital: “V. elaborar diretrizes de preservação de documentos arquivísticos de valor permanente, em seus diversos suportes”. A função “Classificação”, conforme apareceu no caso de São Paulo, geralmente está relacionada aos “Planos de Classificação”, mencionados em leis e decretos. A função “Descrição”, por sua vez, apresenta-se de forma indireta, fazendo referência à “pesquisa”. No Pará, por exemplo, em 1989, o decreto que “Institui o Sistema Estadual de Arquivos”, menciona em seu título: “arquivos são elementos de prova e instrumento de pesquisa”. Na referida legislação de Santa Catarina, isso é referido de forma ainda mais detalhada, cabendo ao Arquivo Público: “b) receber, sob doação ou custódia, coleção de obras literárias e documentos de valor permanente, de entidades privadas e de pessoas físicas, que estejam relacionadas com o desenvolvimento histórico, cultural, científico e tecnológico do Estado, procedendo seu registro, arranjo e elaboração dos respectivos instrumentos de pesquisa.” Por fim, a função“Difusão” encontra-se referida em várias leis e decretos, sob a forma de valorização do “acesso”, principalmente após a aprovação da Lei de Acesso à Informação, em 2011, Lei n˚ 12.527. Antes desse marco normativo, a Constituição brasileira, de 1988, era citada, conforme ocorreu em São Paulo, em 2004: “Considerando que é dever do Poder Público promover a gestão dos documentos de arquivo, bem como assegurar o acesso às informações neles contidas, de acordo com o § 2º do artigo 216 da Constituição Federal e com o artigo 1º da Lei federal nº 8.159, Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. de 8 de janeiro de 1991”. Outro momento de valorização da difusão diz respeito às pesquisas acadêmicas. Em Sergipe, a referida legislação inclui, entre os objetivos do sistema de arquivos, “IV - Estimular a pesquisa documental”. A valorização do acesso também aparece nas menções às ações educativas e culturais, como no caso do Amapá: “XI - realizar projetos de ação educativa e cultural, com o objetivo de divulgar e preservar o patrimônio documental sobre a história do Estado do Amapá.” Todos estes exemplos são bastante interessantes e ilustram as funções arquivísticas presentes nas legislações estaduais brasileiras. No entanto, cabe aqui retornar à Tabela 1, conforme é possível observar, apenas cinco unidades federativas contemplam, em seus marcos normativos, as sete funções arquivísticas. A Tabela 2 qualifica essas lacunas, as identificando. Como se vê, há uma significativa variação de estado para estado. Uma hipótese que avançamos é a de que a legislação anterior à Lei de Arquivos é a mais precária. A terceira coluna da Tabela 2 testa essa hipótese. Conforme pode ser observado, das cinco melhores legislações estaduais, quatro são posteriores a 1991; enquanto dos cinco piores casos, a situação é exatamente inversa: quatro deles são anteriores a 1991. Trata-se de leis e decretos não revistos e que apresentam problemas. Quanto a isso, o caso do Estado de Goiás é emblemático, sendo o Sistema de Arquivos regional subordinado a um museu: “III - Coordenadoria do Sistema Estadual de Arquivo, da Fundação Museu Pedro Ludovico,” cujos objetivos são principalmente culturais: “VII - promover a organização de eventos culturais relacionados ao Sistema”. Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. Tabela 2 – Funções arquivísticas nas legislações das unidades federativas brasileiras, 2015 Unidade Federativa Funções Ausentes da Legislação Data de Promulgação da Legislação Minas Gerais - 2011 Paraná - 1994 Pernambuco - 1986 Rio de Janeiro - 2009 São Paulo - 2004 Alagoas 6) Descrição 2001 Amapá 6) Descrição 2010 Bahia 5) Classificação 1982 Maranhão 6) Descrição 2005 Pará 5) Classificação 1989 Rio Grande do Sul 5) Classificação 2010 Santa Catarina 6) Descrição 1993 Amazonas 1) Produção; 7) Difusão 2007 Distrito Federal 4) Conservação; 5) Classificação; 2000 Mato Grosso 1) Produção; 5) Classificação 1993 Mato Grosso do Sul 1) Produção; 5) Classificação 1992 Sergipe 1) Produção; 5) Classificação; 7) Difusão 1978 Tocantins 3) Aquisição; 5) Classificação; 6) Descrição 2012 Espírito Santo 1) Produção; 3) Aquisição; 4) Conservação; 5) Classificação 1981 Goiás 1) Produção; 2) Avaliação; 3) Aquisição; 5) Classificação; 6) Descrição 1990 Ceará 2) Avaliação; 3) Aquisição; 4) Conservação; 5) Classificação; 6) Descrição; 7) Difusão 1982 Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. Porém, a deficiência da legislação pode, em alguns aspectos, ser atenuada. Por exemplo: a função “Descrição” geralmente está ausente, talvez devido ao fato de ter sido a que conheceu desenvolvimento mais recente. A natureza excessivamente técnica dessa área também a torne desconhecida por parte da maioria dos legisladores. Apesar dessa ressalva, é importante destacar que, no caso específico do Rio Grande do Sul, tal função é explicitamente citada na legislação, cabendo ao sistema regional promover ações de: “VIII – recolher, preservar, descrever e disponibilizar os documentos, independente da natureza do suporte, sob sua guarda”. Outra dimensão a ser salientada é que algumas funções podem estar implícitas no conceito de “Gestão de Documentos”. Isso parece ocorrer com a função “Classificação”. Esse entendimento está presente em várias leis e decretos. Um exemplo é o caso do Rio Grande do Sul, cuja lei de arquivos é bastante abrangente, mas não menciona em momento algum a referida função, sem que isso comprometa a qualidade do sistema, pois nele consta: “V – avaliar e aprovar os instrumentos de Gestão Documental propostos pelo Órgão Gestor do SIARQ/RS”. Tabela 3 – Menção à “Gestão de documentos/Gestão documental” nos textos das legislações estaduais que estabelecem Sistemas Estaduais de Arquivos, 2015 Estados Menciona “Gestão de Documentos”/ “Gestão Documental” na legislação Alagoas, Amapá, Amazonas, Distrito Federal, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo, Tocantins Sim Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Pará, Santa Catarina, Sergipe Não Fontes: ver Tabela 1. Tendo em vista essa questão, a Tabela 3 agrupa as unidades da federação em que a legislação menciona “Gestão de documentos/Gestão documental”. Muito Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. provavelmente, tal referência também encobre outras lacunas, pois subentende a existência das funções de “Produção” e “Avaliação” - para citarmos apenas dois exemplos. Dessa forma, é possível afirmar que numa perspectiva ampla, várias unidades federativas brasileiras formularam políticas arquivísticas. Por um lado, cinco estados mencionam em suas respectivas leis e decretos, as sete funções arquivísticas; por outro lado, 13 unidades da federação contam com leis e decretos regulando a gestão de documentos. Constatam-se também várias situações intermediárias. Em Santa Catarina, por exemplo, a legislação é ambígua, pois os itens normativos que regulam o sistema – denominado “Sistema Estadual de Administração Organizacional e Patrimonial” - definem que cabe “IV - à Gerência do Arquivo Público - GEARQ: a) receber por transferência, recolher, reunir, classificar, restaurar, preservar e divulgar os documentos produzidos ou recebidos por instituições governamentais em decorrência de suas funções especificas”. Contudo, essas orientações são vagas, pois em momento algum é mencionada a gestão de documentos ou um Sistema Estadual de Arquivos. Tocantins também é um caso ambíguo. A Tabela 3 indica a ausência, na legislação regional, de três funções arquivísticas. Além disso, esta unidade federativa, embora cite na Lei nº 2.571, de 21 de março de 2012, o conceito de “gestão de documentos” , o emprega de forma truncada, reduzindo-o à instituição arquivística: “Art. 2º Considera-se: I - gestão de documentos de arquivos públicos o conjunto de procedimentos desenvolvidos para produção, proteção, tramitação, uso, avaliação, guarda, conservação permanente, arquivamento em fase corrente ou intermediária e eliminação”. Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. Considerações Finais O levantamento realizado teve por objetivo sublinhar que a maioria das unidades federativas brasileiras formulou legislações arquivísticas. A qualidade dessa legislação é, no entanto, muito variável e, em vários casos, estádesatualizada, comprometendo a qualidade da gestão documental e dos arquivos permanentes. Por isso mesmo, seria recomendável uma ação conjunta entre o CONARQ e os arquivos estaduais, no sentido de desenvolverem minutas de leis a serem enviadas às respectivas assembleias estaduais, para se dar início a uma campanha de harmonização dos marcos normativos da área. O levantamento a respeito da efetiva implementação da legislação será a próxima etapa da pesquisa. As sondagens realizadas nos Diários Oficiais dos estados também têm confirmado a existência de uma realidade bastante diversificada. A promulgação de uma legislação “bem formulada” não é sinônimo de sua efetiva implementação. Por outro lado, há casos de flagrantes desrespeitos às leis federais, como no Estado do Acre, que não dispõem de legislação arquivística estadual, mas, através de portarias internas, procede avaliação e eliminação de documentos de arquivo.11 Referências ARQUIVO NACIONAL. História do Sinar. Disponível em: http://www.conarq.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=19 Acesso em 31 jan. 2015. 11 A caracterização das funções da CPAD também é equivocada, ver: PORTARIA nº 687/2014 - Institui a Comissão Permanente de Avaliação e Gestão de Documentos do Departamento Estadual de Trânsito do Acre (CPAD – DETRAN/AC) e dá outras providências. Diário Oficial do Estado do Acre, Caderno Único, 15 abr. 2014. Disponível em: http://www.jusbrasil.com.br/diarios/69113048/doeac-caderno-unico- 15-04-2014-pg-47 Acesso em: 03 fev. 2015. Comunicação apresentada no II Seminário Latinoamericano de Legislación Archivistica, Universidade de los Lagos, Santiago, Chile, 2015. BROOKS, Philip C. The Selection of Records for Preservation. American Archivist, V. 5, p. 226-227, 1940 (ver tradução desse texto: Seleção de documentos para guarda permanente. Revista do Arquivo Público Mineiro, v. XLVIII, p. 146-147, 2012, Disponível em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/rapm/brtacervo.php?cid=1121&op=1 Acesso em 02 jan. 2015). CAMPILLOS, Maria Martin-Pozuelo Paz. El documento de archivo. La construccion teorica en archivistica: el principio de procedencia. Madrid: Boletin Oficial del Estado, 1996. CASANOVA, Eugenio. Archivistica. 2ª Ed., Siena: s/Ed., 1928. COUTURE, Carol. Législations archivistiques et politiques nationales d’archives: étude comparative d'impact. Montréal, EBSI, 1991. COUTURE, Carol; LAJEUNESSE, Marcel. L’archivistique à l’ère du numérique: les éléments fondamentaux. Québec: Les Presses de l’Université du Québec, 2014. COX, Richard J.. Closing an era: historical perspectives on modern archives and records management. Santa Barbara: Greenwood Publishing Group, 2000. INDOLFO, Ana Celeste. As transformações no cenário arquivístico federal. Arquivo e Administração, v. 7, 2008, p. 49-70; INDOLFO, Ana Celeste. Dimensões político-arquivísticas da avaliação de documentos na administração pública federal (2004-2012). XIV Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB 2013) GT 5 – Política e Economia da Informação. Disponível em http://enancib.sites.ufsc.br/index.php/enancib2013/XIVenancib/paper/view/545/468 Acesso em 05 fev. 2015. JARDIM, José Maria. El infierno de las buenas intenciones: legislación y políticas archivísticas. Políticas y sistemas de archivos. México: Secretaria General Iberoamericana: Re de Archivos Diplomáticos Iberoamericanos, 2010, p. 187-199. JARDIM, José Maria. Políticas públicas arquivísticas: princípios, atores e processos. Arquivo & Administração, vol.5, n.2, 2006, pp.5-16. JARDIM, José Maria. Sistemas e políticas públicas de arquivos no Brasil. Niterói: EdUFF, 1995. QUEIROZ, Roosvelt Brasil. Formação e gestão de políticas públicas. Curitiba: Ed. IBPEX, 2007. RODRIGUES, Maria M. Assunpção. Políticas públicas. São Paulo: PubliFolha, 2011 SILVA, Jaime Antunes da. O Arquivo Nacional e a implementação da política arquivística no Brasil. Cadernos BAD, Lisboa, n. 2, p. 121-131, 1994.