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Teoria Literária II 
João Camillo Penna 
2020.2 remoto 
Primeira atividade 
Escreva um texto corrido de pelo menos três páginas, em word, font Times New Roman 12, espaço, 1,5. Data da entrega: 18 de maio (você tem duas semanas. Caso seja necessário mais prazo conversaremos a respeito). O trabalho deve ser feito individualmente. A atividade é composta de três questões. A questão 
3) é dupla. Você deve escolher uma delas e responder apenas a ela. Apoie-se sempre nos textos para dar a sua resposta. Para compor o trabalho, por favor siga as indicações que estão no documento “Guia para formatação do trabalho”, que se encontra no primeiro item das Atividades (Trabalhos de avaliação, Calendário Geral etc.). O roteiro é longo porque nele resumo o que discutimos nas aulas síncronas e assíncronas. 
1)Nosso curso no início girou em torno da discussão sobre a primeira pessoa. De fato, lemos alguns textos organizados dessa maneira. A presença ou a ausência da primeira pessoa serve além disso para distinguir o texto literário do texto crítico aonde a primeira pessoa é rara, porque o crítico é suposto falar do ponto de vista objetivo, e não ser subjetivo. Claro está que, graças a Deus, essas categorias têm se modificado bastante. Podemos dizer que hoje em dia enfatiza-se muito, ao contrário, a experiência individual/coletiva do eu, ponto de partida de muitos textos que são escritos agora. Seguindo a deixa de José Miguel Wisnik, que se baseia aqui nas leituras de Alexandre Nodari sobre a obliquação, podemos dizer que nos textos literários, “eu é ele, você é eu, e as pessoas são obliquadas num mim” (p. 138). Isso porque o “eu” que fala neles não “exprime e confessa o seu mais íntimo e verdadeiro eu”, como escreve ainda Wisnik. Assim, há algo de Clarice Lispector na narradora de “A quinta história”, da mesma maneira que no conto “Espiral”, há elementos biográficos de Geovani Martins. Já no caso de “O outro” há mais distância entre o eu que narra e a vida de Rubem Fonseca. Mas mesmo aqui podemos supor que existe alguma coisa da vida do autor na do narrador. Em cada caso, no entanto, o eu que narra o texto literário mesmo que possa ter elementos biográficos do autor, não pode ser confundido com este. Muito diferente é o que ocorre no Diário de Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo. Vejamos a primeira entrada do livro (que está na pasta Textos secundários): 
15 DE JULHO DE 1955 Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar. 
Eu não tinha um tostão para comprar pão. Então eu lavei 3 litros e troquei com o Arnaldo. Ele ficou com os litros e deu-me pão. Fui receber o dinheiro do papel. Recebi 65 cruzeiros. Comprei 20 de carne. 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açúcar e seis cruzeiros de queijo. E o dinheiro acabou-se. 
Passei o dia indisposta. Percebi que estava resfriada. A noite o peito doía-me. Comecei tussir. Resolvi não sair a noite para catar papel. Procurei meu filho João José. Ele estava na rua Felisberto de Carvalho, perto do mercadinho. O ônibus atirou um garoto na calçada e a turba afluiu-se. Ele estava no núcleo. Dei-lhe uns tapas e em cinco minutos ele chegou em casa. 
Ablui as crianças, aleitei-as e ablui-me e aleitei-me. Esperei até as 11 horas, um certo alguém. Ele não veio. Tomei um melhoral e deitei-me novamente. Quando despertei o astro rei deslisava no espaço. A minha filha Vera Eunice dizia: - Vai buscar água mamãe! (p. 9). 
O diário de Carolina é um testemunho, um outro gênero literário. Nesse caso, seguindo ainda Wisnik, “eu é eu e ele é ele, obedecendo a uma diretividade referencial” (p. 137). Esse é o caso do relato factual, do testemunho, da reportagem jornalística, da biografia e da autobiografia. 1) Comente as diferenças entre os textos ficcionais, utilizando-se dos exemplos lidos em sala (ou outros que ocorrerem a você) e o texto de Carolina. 2) Faça uma leitura desse trecho do texto de Carolina, salientando os aspectos que mais saltam os olhos a você. Dica: de que fala essencialmente o texto. O papel dos dois filhos. Fale sobre a ênfase nos números. Qual o significado dessa ênfase? A referência à escravidão (“somos escravos do custo de vida”). Fale sobre ela. O lixo e o presente. Fale sobre a relação entre a profissão de catadora de papel e a escrita. 
2) Na seção “Ficção ou fato” do mesmo ensaio, Wisnik explora a hipótese de Alexandre Nodari, segundo a qual a ficção funciona como a antropologia ou como uma ciência humana em geral. Essas ciências têm a peculiaridade de ter “seu objeto, não num isto ou num ele, mas num outro – um sujeito, um eu – que põe em causa o investigador e seu mundo” (Wisnik, p. 131) Para a ficção como para a antropologia “não se trata [...] de passar simplesmente do eu ao tu, do subjetivo ao objetivo, mas de habitar a posição transversal em que se está ao mesmo tempo e conjuntamente na posição de sujeito e objeto, transitando da posição reta do pronome (eu) à posição oblíqua (mim) — o eu de um outro” (Wisnik, p. 132). Podemos dizer que o trabalho da ficção nesse romance póstumo de Clarice Lispector, consiste em uma série de obliquações: Clarice se obliqua em Rodrigo S.M., que se obliqua em Macabéa, ao mesmo tempo nós, leitores, nos obliquamos em Rodrigo S.M., em Macabéa... Dificilmente nos obliquaremos em Olímpico, no entanto! Observe por exemplo este trecho, aonde o autor explica o que chama de “intertroca”: “Vejo a nordestina se olhando ao espelho e – um rufar de tambor – no espelho aparece o meu rosto cansado e barbudo. Tanto nós nos intertrocamos”. (Clarice Lispector, A hora da estrela, p. 30) 
Ao mesmo tempo quais são os limites dessa transformação? Rodrigo S.M. nunca poderá se transformar de fato em Macabéa, ele é um autor homem, de classe média nunca poderá ter de fato a experiência da pobreza absoluta dela. Na seção do mesmo ensaio, “Intervenção: ficção e ativismo identitário”, Wisnik discute a atualíssima questão da representatividade e do direito à representação de sujeitos historicamente silenciados, excluídos ou exterminados na cultura brasileira e/ou mundial. Poderíamos fazer uma crítica desse tipo a Clarice Lispector: em que medida ela ou o seu alter-ego Rodrigo S.M. tem o direito de falar pela imigrante nordestina, Macabéa? Não seria preciso que a própria Macabéa viesse falar sobre a sua vida? Essa condição parece ser cumprida por Carolina Maria de Jesus, em Quarto de despejo, que fala em seu próprio nome sobre a sua experiência. De uma certa maneira, Tatiana Pequeno também, em seus poemas, por exemplo, em “L’air du temps”, aonde a própria Tatiana fala sobre a sua vida, não sendo necessário se fazer representar por um autor que escreve a sua história. Com Tatiana Pequeno teríamos, de certa maneira, uma Macabéa que 40 e tantos anos depois da publicação de A hora da estrela se transformasse em Clarice, mas guardasse a memória de sua história de vida como Macabéa, e escrevesse sobre ela. 
A situação da enunciação de A hora da estrela se encaixa perfeitamente na afirmação antiessencialista de Djamila Ribeiro de que não podemos entender “lugar de fala” como a exigência de que “somente o negro pode falar sobre racismo” (Wisnik, p. 143) ou, como é o caso de A hora da estrela, somente uma mulher pobre, nordestina, imigrante pode falar sobre Macabéa. Poderíamos argumentar que o autor (e a autora) de A hora da estrela, é capaz de transformar o romance numa “virtualização” de Macabéa, que explicita, denuncia, e elabora os problemas de classe que são a condição da enunciação do romance. Wisnik mais uma vez afirma que “Um texto literário forte absorve a presença do outro não simplesmente representando-o como personagem falante, mas por um abalo e um deslocamento de seu próprio lugar de enunciação” (p. 143). O que ele diz se aplica a A Hora da estrela.1) Use exemplos do livro que mostrem como o autor se transforma em sua personagem. 2) Traga algumas considerações éticas sobre o romance, a escrita, a palavra, contidas em A hora da estrela, aonde Rodrigo S.M. discorre sobre como deve se escrever ou ser para escrever (sobre) Macabéa, já que o romance tem por objetivo “a criação de uma pessoa inteira que na certa está tão vida quanto eu” (A hora da estrela, p. 28). 
Escolha uma das duas questões abaixo e responda apenas a ela. 
3a) Essa questão versa sobre o romance A hora da estrela (1977) de Clarice Lispector, a adaptação do romance ao cinema, a cargo de Suzana Amaral (1985), e o romance de Graciliano Ramos, Vidas secas (1938) (O romance de Graciliano se encontra na pasta de textos secundários). Vitor em nossa turma fez a comparação entre os romances de Clarice e de Graciliano, o que me deu uma deixa para propor essa questão. Tematicamente, como concluí aquela aula, poderíamos dizer que Macabéa retoma a trajetória de retirante de Fabiano, depois do fim do romance de Graciliano, quase quarenta anos depois. Em Macabéa teríamos uma espécie de Fabiano mulher, sem a família, vivendo na cidade e não no campo, já estabelecida na cidade-destino de sua “Fuga”, o Rio de Janeiro. Em suma, uma retirante urbana que fugiu da seca nordestina do semiárido, e aqui tem que se haver com outro tipo de opressão. Há muitas diferenças, no entanto, entre os dois romances. Uma delas, bastante notável, que nos interessa particularmente no curso, é a presença do narrador/autor Rodrigo S.M. em A hora da estrela e a ausência de narrador em Vidas secas. Fato que diferencia inclusive Vidas secas, entre os romances de Graciliano, que são eles também frequentemente em primeira pessoa. A excelente adaptação de Suzana Amaral com Marcélia Cartaxo no papel de Macabéa omite inteiramente a figura do narrador, o que transforma radicalmente a narrativa. Estão ausentes do filme toda questão da ética da representação e o trabalho de transformação (ou equivocação), que caracteriza o romance de Clarice. Nesse sentido a adaptação de A hora da estrela nos lembra em certos aspectos a forma “realista” de Vidas secas. O romance de Clarice, 
por outro lado, é inteiro filtrado pela voz narrativa, que nos faz ver como em um palco de teatro as coxias da representação, o trabalho dos atores, etc. Há um capítulo particularmente significativo de Vidas secas, “O soldado amarelo”, no qual Fabiano reencontra na caatinga o soldado que o havia gratuitamente colocado na prisão e açoitado, sem qualquer razão (capítulo “Prisão”). Quando o reencontra sozinho, Fabiano decepciona o leitor, ao não se vingar do soldado amarelo, açoitando-o, que sozinho, mostra-se covarde e temeroso. A decepção é tanto mais pungente que o próprio soldado esperava que Fabiano revidasse a violência que sofreu. No entanto, ao contrário de nossa expectativa ele nada faz. Essa cena/capítulo pode ser comparada com o terrível diálogo de Olímpico com Macabéa em A hora da estrela. Entre, digamos: 
Ele: – Pois é. 
Ela: – Pois é o quê? 
Ele: – Eu só disse pois é! 
Ela: – Mas “pois é” o quê? (p. 53, no pdf) 
E: 
Ela disse para Olímpico: 
– Sabe que na minha rua tem um galo que canta? 
– Por que é que você mente tanto? 
– Juro, quero ver minha mãe cair morta se não é verdade! 
– Mas sua mãe já não morreu? 
– Ah, é mesmo... que coisa... (p. 61 no pdf). 
A cena é intensamente abusiva, Olímpico não perdendo oportunidade de agredir verbalmente Macabéa, que, em nenhum momento, contesta ou reage às violências que recebe. Compare essas duas cenas de opressão, passividade e não-revide. O que está em jogo nelas? O que há é diferente entre elas? Fale sobre a sua reação a ambas, e a maneira como cada não-reação afeta a você. Comente sobre a importância das duas cenas para o projeto de Clarice e Graciliano, respectivamente. 
3b) O filme Vazante (2017) de Daniela Thomas (que se encontra na pasta de filmes) foi objeto de intensa polêmica quando do seu lançamento. José Miguel em seu artigo (p. 144-146) faz uma leitura do filme, no contexto dos temas que estamos abordando, resumindo aspectos da discussão, e inserindo-a no contexto do que ele chama “contestação identitária” ao filme. Ele num dado momento refere-se a um ponto da polêmica: “Ao que parece, a principal contestação identitária ao filme se baseava na ideia de que os escravizados não têm, nele, o direito à voz, e que, submetidos à escravidão, seriam, também, silenciados pela ficção. É de se notar, no entanto, que no filme tudo é calado, e que o silêncio opressivo e ensurdecedor desse microcosmo social é estrutural. A opressão escravista, apresentando-se isolada, fora de contato com mundos, no filme, é um microcosmo no qual podemos reconhecer, em anatomia espectral, a essência da mesma violência brasileira que hoje (literal e deiticamente hoje) mostra sua cara sem meios termos, atravessando tudo, das relações produtivas à ordem da intimidade” (p. 146). Juliano Gomes faz uma aguda análise do filme na revista Cinética: 
http://revistacinetica.com.br/nova/a-fita-branca/. Nela, Juliano acusa o filme de reproduzir um certo “arranjo colonial” que “consiste em certos tipos de alinhamento, dos quais o que resulta afinal é somente manutenção do status quo.” Essencialmente, para ele, o filme reproduz a divisão do racismo estrutural que denuncia, não conferindo subjetividade ao espetáculo de corpos negros de escravos, por oposição ao núcleo dramático do filme. Em resumo o filme não desloca essa estrutura de opressão visual. Coisa que seria necessário ocorrer em 2017, quando o filme foi lançado. A exceção talvez seja, para Juliano, a representação de Feliciana no filme, que poderia trazer o “germe da descolonização”. 
Para o que nos interessa no curso, as linhas que se opõem no debate são claras: uma defesa do filme, da representação do silencio e do drama da violência escravista representada nele, como representações da realidade histórica do racismo estrutural brasileiro. E uma acusação de que ao supostamente narrar essa realidade histórica, sem deslocá-la, o filme a reproduz, e assim mostr o seu racismo latente, por detrás da denúncia que ele conscientemente veicula. 
Podemos ler vestígios escritos do debate entre Daniela Thomas e Juliano Gomes. Daniela respondeu às acusações feitas contra ela, principalmente pelo próprio Juliano, em um artigo, “O lugar do silencio”, na revista Piauí (https://piaui.folha.uol.com.br/o-lugar-do-silencio/), e Juliano respondeu a ela, na mesma revista com o artigo, “O movimento branco” (https://piaui.folha.uol.com.br/o movimento-branco/). Comente sobre o filme a partir das questões colocadas por José Miguel Wisnik, pela leitura de Juliano Gomes, levando em conta a sua própria leitura do filme.

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