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ALTERNÂNCIA PRONOMINAL TU/VOCÊ EM PERNAMBUCO: CONTRIBUIÇÕES PARA UMA PROPOSTA DE EDUCAÇÃO BIDIALETAL NO ENSINO FUNDAMENTAL Resumo: O objetivo central deste artigo é analisar a distribuição e os fatores condicionantes da alternância pronominal tu/você no estado de Pernambuco, e, subsequentemente, discutir suas implicações pedagógicas para desenvolver uma proposta de educação bidialetal no ensino fundamental. Considerando que o português brasileiro (PB) é reconhecido por sua heterogeneidade, a variação dos pronomes de segunda pessoa do singular reflete tanto transformações históricas quanto relações sociopragmáticas ainda que persistam dificuldades de articular a Teoria da Variação com a prática pedagógica escolar, uma vez que a escola impõe a gramática normativa e, com isso, deslegitima suas práticas regionais e locais, fomentando o preconceito linguístico. Para investigar a complexidade dessa variação em um contexto geográfico específico, o estudo utilizou o corpus do Atlas Linguístico de Pernambuco (ALiPE), focando na Carta 05 (tu/você - sujeito) para mapear a distribuição espacial das formas pronominais. A análise revelou que a variação em Pernambuco é multifacetada: ela não se limita à dicotomia simples entre litoral e interior, manifestando-se pela coexistência de tu, você e sujeito oculto. Do ponto de vista pedagógico, o artigo defende que o ensino de língua deve partir do acesso e da reflexão dos alunos sobre a legitimidade das variedades da língua, com uma metodologia que busque combater o preconceito linguístico e ofereça possibilidades de escolhas, promovendo a adequação sociocomunicativa. Palavras-chave: Alternância Pronominal, Tu/você, Pernambuco, Implicações pedagógicas Abstract: The central objective of this article is to analyze the distribution and conditioning factors of the pronominal alternation tu/você in the state of Pernambuco, and subsequently, to discuss its pedagogical implications for developing a proposal for bidialectal education in elementary school. Considering that Brazilian Portuguese (BP) is recognized for its heterogeneity, the variation of the second-person singular pronouns reflects both historical transformations and sociopragmatic relations, although difficulties persist in articulating the Theory of Variation with school pedagogical practice, as the school often imposes prescriptive grammar, thereby delegitimizing students' regional and local linguistic practices and fostering linguistic prejudice. To investigate the complexity of this variation in a specific geographic context, the study utilized the corpus from the Linguistic Atlas of Pernambuco (ALiPE), focusing on Chart 05 (tu/você - subject) to map the spatial distribution of these pronominal forms. The analysis revealed that the variation in Pernambuco is multifaceted: it is not limited to the simple dichotomy between coast and inland, manifesting through the coexistence of tu, você, and null subject. From a pedagogical perspective, the article advocates that language teaching should stem from students' access to and reflection on the legitimacy of the language varieties, employing a methodology that seeks to combat linguistic prejudice and offer possibilities for choices, thereby promoting sociocommunicative adequacy. Keywords: Pronominal Alternation, Tu/você, Pernambuco, Pedagogical Implications Introdução O português brasileiro (PB) é um sistema linguístico dinâmico e multifacetado, marcado pela heterogeneidade seja na pronúncia, seja no léxico, seja na morfossintaxe. Dentre os fenômenos que têm feito parte das inquietações de pesquisadores, destaca-se a alternância pronominal de segunda pessoa do singular, materializada no uso das formas tu e você. Esse fenômeno não é apenas uma curiosidade dialetal, mas um reflexo das transformações históricas e das complexas relações sociopragmáticas que moldam a comunicação no país. Diante disso, o trabalho em tela busca contribuir para a descrição detalhada de um dos segmentos de variação pronominal e, sobretudo, para a discussão de implicações pedagógicas no contexto do ensino fundamental. É fato que a trajetória histórica da alternância tu/você remonta ao processo de substituição do pronome arcaico tu pelo tratamento de polidez vossa mercê, que evoluiu para você. Porém, em dias atuais, sobretudo, no Brasil, a distribuição geográfica dessas formas é heterogênea: enquanto você se consolidou como a forma dominante em grande parte do Sudeste e Centro-Oeste, o tu mantém-se produtivo em áreas do Sul e, notavelmente, em vastas regiões do Norte e Nordeste. No plano sociopragmático, por sua vez, a escolha entre as formas está intrinsecamente ligada a fatores como grau de intimidade, hierarquia social e contexto comunicativo, embora a distinção original de polidez tenha se esmaecido em muitos dialetos, onde a alternância pode ocorrer sem uma clara motivação social. Desse modo, em muitas variedades do PB, o uso do pronome-sujeito tu não é acompanhado pela concordância verbal de segunda pessoa (ex: tu falas), mas sim pela de terceira pessoa (ex: tu fala), que é a mesma utilizada com você. Além disso, a variação se estende aos pronomes oblíquos, com a forma te (associada a tu) competindo com lhe ou outras estratégias de objeto (associadas a você), gerando um sistema híbrido que desafia a noção de uma única norma gramatical. Partindo para a Região Nordeste, a variação pronominal de segunda pessoa do singular no estado de Pernambuco, apesar de sua inserção historicamente conservadora do tu, manifesta-se por meio de uma distribuição diatópica complexa, na qual se observa a coexistência e a competição entre as formas tu e você, com a presença de áreas de predomínio de cada forma e de intensa variação, indicando um processo de mudança linguística em diferentes estágios de difusão. A fim de confirmar essa hipótese, chega-se à relevância desta pesquisa que reside, portanto, na análise de um fenômeno linguístico central em um contexto geográfico específico, contribuindo para o mapeamento da diversidade dialetal brasileira. Para tanto, por meio do corpus do Atlas Linguístico de Pernambuco (ALiPE), pretende-se visualizar a distribuição espacial do uso de tu e você em diferentes pontos de inquérito do estado. Ao articular a descrição linguística e o ensino de língua portuguesa na escola já consciente de que ela, muitas vezes, adota uma postura de exclusão das variedades do aluno, impondo a gramática normativa e deslegitimando as práticas linguísticas locais e regionais, pretende-se estabelecer uma reflexão sobre essa visão monolítica, emergindo, pois, a necessidade de propostas que conciliem o ensino da variedade prestigiada com o reconhecimento e a valorização do dialeto materno do aluno. Dessa forma, o presente artigo tem como objetivo analisar a distribuição e os fatores condicionantes da alternância pronominal tu/você no corpus do Atlas Linguístico de Pernambuco (ALiPE) e, a partir dos resultados descritivos, discutir as implicações pedagógicas para a elaboração de uma proposta de educação bidialetal no ensino fundamental. Acredita-se, então, que a conscientização sobre a variação linguística, aliada a uma metodologia de ensino que promova a adequação sociocomunicativa, pode ser eficaz para a formação de falantes competentes e cidadãos linguisticamente conscientes. Aspectos históricos sobre o uso de tu e você A complexidade dos usos tratamentais costuma ser analisada por pesquisadores sob diferentes perspectivas e, em particular, se observa que o pronome você, embora originário da forma nominal de tratamento vossa mercê e mantendo inicialmente um caráter formal, passou a competir com o pronome tu no Brasil em contextos de solidariedade e intimidade, divergindo do comportamento observado em Portugal. Na realidade, o sistema do Português Europeu (PE) exibe uma complexidade superior, caracterizada pela distribuição complementar entre os dois pronomes, que se ajusta ao tipo de relacionamento entre os interlocutores. De acordo com Nascimento, Mendes e Duarte (2018), aforma de tratamento vossa mercê começou a ser usada porque o pronome vós — que era utilizado para se dirigir a uma única pessoa com respeito (como um rei ou nobre) — perdeu sua função original para esse fim ao longo do tempo, uma vez que: [...] o processo de desenvolvimento de uma nova posição de autoridade para o rei (visto agora não apenas como o chefe militar dos tempos da Reconquista) transformou-o numa personagem social única, para quem a criação de novas formas diferenciadas de tratamento se apresentou como necessidade. A forma tradicional do tratamento formal (vós) não era mais considerada suficiente para marcar tal status. (Faraco, 2017, p. 118). No caso do Português Brasileiro (PB), a adoção de você resultou numa mistura de tratamento, na qual há uma fusão dos paradigmas de segunda pessoa (associado a tu) e de terceira pessoa (associado a você), evidenciada em peças teatrais populares do Rio de Janeiro a partir da década de 1930. Em Roberts e Kato (2018, p. 90), é possível encontrar um exemplo com grifos do autor deste artigo na peça A vida tem três andares escrita por Couto (1938). Carolice - Não digas tolices, menino! (observando) Onde andará esta gente? Formosinho - (sempre muito tímido) Vamos embora, mamãe! Carolice - Não seja bobo, menino! Sabe que dia é hoje? Formosinho - Sexta-feira, treze de janeiro. Carolice - Isso mesmo. Daqui a cinco dias você completa vinte e dois anos. Para Roberts e Kato (op. cit.), essas inconsistências no uso dos pronomes e das formas verbais correspondentes são comuns no texto de 1938, e sinalizam uma tendência em que o pronome tu passou a ser usado alternadamente com o pronome você. Questionando-se, ainda, se o papel do gênero (sexo) teria atuado como fator de progressão na implementação do você e se a escolha pronominal estaria correlacionada com o papel social de homens e mulheres na época, leva-se em conta a hipótese laboviana de que mulheres tendem a alavancar os processos de mudança linguística, atuando como agentes inovadores, ou seja: Os homens tendem a utilizar mais formas não padronizadas, sendo menos afetados pelo estigma social direcionado a elas; por outro lado, as mulheres empregam mais formas consideradas padrão, respondendo ao prestígio explícito (aberto) associado a essas formas. (Labov, 1991, p. 211)[footnoteRef:1] [1: men use more nonstandard forms, less influenced by the social stigma directed against them; or, conversely, women use more standard forms, responding to the overt prestige associated with them.] Já no Português Brasileiro, o uso informal do pronome você em correspondências brasileiras nas décadas de 1920 e 1930 já indicava um estágio avançado de mudança linguística, sendo esse processo impulsionado pelas mulheres, que adotavam esse pronome como uma estratégia social menos invasiva ou ameaçadora ao interlocutor do que o pronome tu, devido ao seu caráter indireto herdado de vossa mercê. A investigação da trajetória histórica de pronomes de tratamento como tu e você cumpre, então, seu papel de favorecer a compreensão da dinâmica da mudança linguística e das relações socioculturais que moldam o português. As percepções sobre as mudanças mencionadas não apenas revelam a evolução gramatical e lexical, mas também iluminam as transformações nas normas de polidez, hierarquia social e intimidade ao longo do tempo por meio das interações sociais e as estratégias comunicativas adotadas pelos falantes em diferentes épocas. Uma visão geral sobre segunda pessoa do singular em estudos do português brasileiro A investigação sobre a variação pronominal de segunda pessoa no português brasileiro, com foco na alternância entre tu e você, revela um panorama regionalmente diversificado, conforme atestam diversos estudos sociolinguísticos e diacrônicos. Na Região Norte, o estudo de Martins (2010) em Tefé, Amazonas, demonstrou que o pronome tu é a forma mais utilizada (42,9%), superando você (22,9%), embora a concordância verbal canônica com tu seja muito baixa (3,7%). O uso de tu é significativamente favorecido em contextos de maior intimidade, em gravações ocultas e em situações de paralelismo pronominal, com uma notável ocorrência de ausência de pronome (28,6%). No Nordeste, a situação é mais heterogênea, com estudos em Pernambuco, Ceará e Bahia. Em Recife, Sette (1980) observou a predominância do você (65%), mas tu é percebido como a forma mais íntima. Em Fortaleza, Guimarães (2014) encontrou um equilíbrio entre tu (47,2%) e você (46,5%), com tu sendo favorecido por fatores como entonação interrogativa, assuntos íntimos e falantes mais jovens e escolarizados. Já em Feira de Santana e Salvador, Nogueira (2013) constatou o predomínio de você (88,03%), com o senhor(a) sendo mais frequente que tu. Em conversas espontâneas em Feira de Santana, contudo, tu (42,2%) se equilibra com você (57,8%), indicando a relevância do gênero discursivo. Almeida (2012), em análise de cartas de Feira de Santana, notou o desaparecimento de tu a partir da década de 1960. A Região Centro-Oeste, com foco em Brasília, apresenta tu como uma variante inovadora. Lucca (2005) registrou 72% de uso de tu entre jovens brasilienses, especialmente em relações solidárias e em estruturas interrogativas, sugerindo uma influência da procedência nordestina dos moradores. Dias (2007), também em Brasília, encontrou uma frequência menor de tu (12,8%), mas confirmou que seu uso é favorecido entre os mais jovens, pelo sexo masculino e em relações de intimidade. Andrade (2010) reforçou a ideia de que tu brasiliense, ainda não nativo, é favorecido em relações simétricas e tem forte indício de origem nordestina, sendo mais usado por adolescentes do que por crianças. Scherre et al. (2015) sintetizaram o mapeamento, classificando a região em subsistemas que variam de você a tu, dependendo da localidade. Na Região Sudeste, os estudos se concentram em São Paulo e Minas Gerais. Em Santos, Modesto (2006) observou que você é a forma preferida (67%), mas tu (32%) é usado em contextos de maior expressividade e menor monitoramento, com sua função objetiva prevalecendo devido à alta ocorrência da forma te. Em São João da Ponte, no Norte de Minas Gerais, Mota (2008) registrou um uso majoritário de você (90%), mas tu (10%) é uma marca da faixa etária de 15 a 25 anos e da zona rural. Em Ressaquinha, também em Minas Gerais, Silva (2017) encontrou 38,5% de uso de tu contra 61,5% de você, um fato notável para um estado onde você é quase categórico, indicando que tu é bem aceito na comunidade. No Rio de Janeiro, Paredes Silva (2003) documentou o retorno de tu na década de 1990, especialmente em falas espontâneas e não monitoradas, contrastando com a quase exclusividade de você em amostras mais antigas e monitoradas. Já na Região Sul, Ramos (1989) concluiu que em Florianópolis coexistem tu e você, com tu sendo a forma mais usada e associada a relações íntimas e informais, enquanto você é visto como mais formal e influenciado por falantes de fora. Loregian-Penkal (2004) ampliou a pesquisa para capitais e cidades do interior, confirmando que Porto Alegre e Florianópolis são semelhantes, com predomínio de tu (com alternância), enquanto Curitiba é categórica no uso de você. A faixa etária de 25 a 49 anos é a que mais utiliza tu, e a entrada de você parece se dar em contextos de distanciamento, como indeterminação do referente ou discurso relatado. Franceschini (2010) complementa o quadro, reforçando a variação e a complexidade do sistema pronominal na região. No Atlas Linguístico do Brasil – ALiB (Cardoso et al., 2014), conforme figura 1, na sequência, é possível verificar o uso da cor vermelha para indicar a ocorrência do pronome tu e a cor amarela para o pronome você, sendo que a intensidade do preenchimento das barras corresponde à porcentagem de uso, conforme detalhado na legenda disposta na carta M02. Almeida (2012) Andrade (2010) Aragão; Silva. (2021) Cardoso et al. (2014) Chomsky (1981) Couto (1938) Dias (2007) Duarte (1996)Faraco (2017) Franceschini (2010) Guimarães (2014) Labov (1991) Loregian-Penkal (2004) Lucca (2005) Martins (2010) Modesto (2006) Mota (2008) Nascimento, Mendes e Duarte (2018) Nogueira (2013) Paredes Silva (2003) Ramos (1989) Roberts e Kato (2018) Sá (2013) Scherre et al. (2015) Sette (1980) Silva (2017) Figura 1: Carta M02 com a variação para tu/você nas capitais brasileiras Fonte: Atlas Linguístico do Brasil – Volume 2 (Cardoso et al., 2014) Uma inspeção visual da carta revela que, apesar de o uso do tu ser minoritário, ele ainda está presente em algumas capitais do país. A maior frequência de uso desse pronome da segunda pessoa do singular foi observada em Porto Alegre, seguida por Florianópolis e Belém. Adicionalmente, em capitais da região Norte, como Macapá, Rio Branco e São Luís, o pronome tu é empregado por uma parcela considerável dos falantes, variando entre 26% e 50%. Em contraste, a figura 1 evidencia que em Campo Grande, Goiânia, Salvador e Vitória, não foram registrados falantes que utilizam esse pronome, preferindo o pronome você. O que mostra o Atlas Linguístico de Pernambuco sobre a variação dos pronomes tu/você A Carta 05 do Atlas Linguístico de Pernambuco (Sá, 2013), intitulada tu/você (sujeito), oferece um panorama da variação no uso dos pronomes de tratamento de segunda pessoa na função de sujeito em diversas localidades do estado, cuja coleta de dados foi realizada por meio da questão 24 do Questionário Morfossintático (QMS 24), a fim de elicitar a forma de tratamento empregada em um contexto informal: "Quando se vê um amigo com uma mala e se quer saber para onde ele vai, como é que se pergunta?". A análise da carta, disposta na figura 2, revela um cenário variável quanto à coexistência de formas, tanto em relação à presença dos pronomes tu e você, quanto no registro de do sujeito oculto ou nulo, comum na língua portuguesa, frequentemente associada a ambas as formas de tratamento. Figura 2: Carta 05 com a variação para tu/você (sujeito) em Pernambuco Fonte: Atlas Linguístico de Pernambuco – Sá (2013) A respeito do sujeito nulo, convém mencionar os estudos de Duarte (1996) acerca da proposição teórica de Chomsky (1981), que trata da existência da Gramática Universal (GU), determinada geneticamente e constituída por regras imutáveis e variáveis que se modificam entre as línguas, como o parâmetro pro-drop do português em que a concordância verbal atua como elemento de modo a perceber o sujeito subentendido. Conforme encontrado em Duarte (1996, p. 109), a simplificação dos modelos flexionais contribuiu para a alteração observada, pois, à medida em que “os pronomes você/vocês passam a ocupar o lugar de tu/vós, registra-se um empobrecimento das formas verbais que perdem elementos mórficos e tornam-se indiferenciadas quanto à pessoa”. Geograficamente, observa-se, a partir da distribuição de ocorrências na carta 05, que o pronome você possui uma distribuição ampla, estando presentes na maioria dos pontos de inquérito, do interior ao litoral, enquanto o uso do pronome tu demonstra uma concentração mais notável em certas áreas, especialmente na porção oeste e central do estado, em localidades próximas às fronteiras com o Piauí e o Ceará (como nos pontos 2 – Petrolina, 4 – Ouricuri, 5 – Salgueiro, 11 – Tupanatinga, 17 – Caruaru e 19 – Limoeiro) Em contraste, quase todos os pontos parecem favorecer o uso do sujeito oculto em detrimento de tu e de você, a exceção do ponto 9 - Custódia, com registro de você para todos os informantes, e dos pontos 1 – Afrânio, 13 – Águas Belas e 15 – São Bento do Una, em que os dois pronomes não foram registrados. A coexistência das três formas (tu, você e sujeito oculto), em muitos pontos, sugere que o estado de Pernambuco se encontra em um processo de variação linguística ativa no que tange ao sistema pronominal de segunda pessoa. Essa variação não se restringe a uma simples dicotomia entre litoral e interior, mas se manifesta de maneira complexa, com diferentes padrões de uso em cada microrregião e entre os diferentes perfis sociolinguísticos (gênero e faixa etária) dos falantes. É conveniente notar, ainda, a existência de duas realizações em que o sujeito foi o tratamento mais polido, o senhor, proferido por um informante homem da faixa 2 no ponto 6 – Floresta e por uma informante mulher da faixa 2 do ponto 3 – Santa Maria da Boa Vista, o que adiciona uma camada de complexidade à variação, indicando que o sistema de tratamento em Pernambuco pode incluir, ainda que de forma residual, formas mais formais mesmo em contextos de inquérito que buscam a informalidade. Por uma proposta de ensino dos pronomes pessoais da segunda pessoa A diversidade linguística do português brasileiro, evidenciada pela coexistência e competição entre as formas pronominais tu e você em diversas regiões, como demonstrado pelo Atlas Linguístico de Pernambuco (ALiPE) (Sá, 2013), impõe à escola a necessidade de uma abordagem pedagógica que transcenda a visão monolítica da gramática normativa. A proposta de educação bidialetal surge, então, como um caminho para conciliar o ensino da variedade prestigiada com o reconhecimento e a valorização do dialeto materno do aluno, promovendo a competência sociocomunicativa, ou seja: A expectativa da metodologia bidialetal é possibilitar aos alunos o domínio dos dois dialetos (ou normas) e, além disso, promover a adequação do discurso em cada contexto de fala ou escrita. Isso só é possível se, na escola, o professor proporciona aos estudantes situações, reais ou simuladas, de trânsito entre os dialetos. (Aragão; Silva. 2021, s/p) Assim, o cerne dessa proposta reside no bidialetalismo funcional, conceito que orienta a prática pedagógica para a conscientização da variação e a adequação do uso da língua aos diferentes contextos sociais. Em função da implementação de uma pedagogia bidialetal para o ensino do sujeito da segunda pessoa no Ensino Fundamental, algumas atividades podem ser aplicadas a partir da reconhecimento e valorização da variedade materna. O ponto de partida pedagógico é a escuta ativa e a valorização da forma pronominal utilizada pelo aluno e sua comunidade (o falar local, que pode ser tu com concordância de 3ª pessoa, você, ou a alternância entre eles). Para isso, a apresentação de gravações de pessoas de diversas regiões, após a qual a execução de diálogos entre eles, a partir de temas distintos, seguindo o padrão de informalidade, pode auxiliar na identificação do uso do pronome. A realização de atividades em sala de aula para identificar as formas de tratamento de 2ª pessoa (tu, você, o senhor/a senhora) utilizadas pelos alunos em diferentes situações (com amigos, pais, professores, líderes religiosos). O uso de textos, músicas, vídeos e conversas gravadas da comunidade para mostrar que a variação é um fenômeno natural e legítimo também pode ser eficaz no uso dos pronomes. Inclusive, o professor deve apresentar os dados de pesquisa sociolinguística (como os do ALiPE) para contextualizar a variação regional, mostrando que o uso de tu ou você não é um "erro", mas uma marca dialetal. Caso o professor tenha a intenção de propor uma reflexão metalinguística sobre a variação, o foco é a análise comparativa entre o falar regional e a norma padrão, transformando a variação em objeto de estudo e reflexão. Assim, uma exposição sobre os conceitos e dimensões da variação linguística de modo a conscientizar o aluno de que a escolha pronominal é condicionada por fatores geográficos e sociais pode ser eficaz. É conveniente, ainda, apresentar o paradigma completo da 2ª pessoa do singular na norma padrão (tu falas, tu és) e contrastá-lo com o uso local (tu fala, você fala), estimulando a percepção do contraste gramatical. O objetivo é que o aluno compreenda a regra de cada falar, e não apenas a "certa" e a "errada". Para aprimorar essa percepção, ainda é possível discutir como a forma você se consolidou no Brasil, assumindo a concordância de 3ª pessoa, e como o tu em muitas regiõesmanteve o pronome, mas perdeu a concordância verbal canônica, resultando em um sistema híbrido na comunidade, no intuito de capacitar o aluno a transitar entre os falares, utilizando a forma mais adequada para cada situação comunicativa. Do ponto de vista prática, o professor pode propor atividades de produção textual e oral em que o aluno precise escolher intencionalmente entre o falar local e o padrão. Por exemplo, escrever uma mensagem para um amigo (dialeto local) e um e-mail para o diretor da escola (dialeto padrão), justificando a escolha pronominal e verbal em cada caso. Isso talvez auxilie o aluno a reforçar que o domínio da norma padrão é um direito e um instrumento de ascensão social, e a variedade materna é parte da identidade e deve ser respeitada. Considerações finais A presente investigação se dedicou a analisar a alternância pronominal de segunda pessoa do singular, materializada nas formas tu e você, no contexto geográfico e sociolinguístico do estado de Pernambuco, cuja gênese decorre das transformações históricas e das tensões sociopragmáticas que moldam o português brasileiro. Ao articular a descrição linguística com a discussão de suas implicações para o ensino fundamental, o estudo teve o intuito de contribuir tanto para a descrição da diversidade dialetal do português brasileiro quanto para a reflexão sobre práticas pedagógicas mais inclusivas e conscientes. As ocorrências registradas na carta 5 do Atlas Linguístico de Pernambuco (ALiPE) (Sá, 2013) revelaram um cenário de variação ativa e competição entre as formas pronominais. Constatou-se a distribuição do pronome você em todo o estado, contrastando com a concentração do pronome tu em áreas específicas do interior. Mais significativamente, a pesquisa evidenciou a proeminência do sujeito nulo em detrimento das formas pronominais explícitas na maioria dos pontos de inquérito, sugerindo que a variação em Pernambuco se manifesta por meio de um sistema híbrido em que a presença do pronome não é categórica e a concordância verbal de terceira pessoa se estabelece como a norma. Essa realidade pernambucana se insere em um panorama recorrente de variação, no qual fatores sociolinguísticos como o grau de intimidade, a faixa etária e o gênero atuam como condicionantes da escolha pronominal, conforme atestado por estudos em diversas regiões do Brasil. A persistência de tu, mesmo que frequentemente associado à concordância verbal de terceira pessoa, e a expansão de você, demonstram a continuidade de um processo de mudança linguística que remonta à evolução histórica de vossa mercê. A relevância desses achados reside, portanto, na confirmação de que a língua em uso desafia a rigidez da gramática normativa, exigindo uma abordagem que reconheça a legitimidade das práticas linguísticas locais como parte integrante da identidade cultural e comunicativa dos falantes. Além disso, urge implementar uma proposta de educação bidialetal no ensino fundamental a fim de superar a postura excludente da escola tradicional, que frequentemente deslegitima o dialeto materno do aluno em favor da variedade prestigiada. É necessário, ainda, preparar o aluno para uma conscientização sobre a variação linguística, permitindo que ele não apenas domine a norma padrão para fins de adequação sociocomunicativa, mas também valorize e compreenda o seu próprio sistema linguístico, transformando a heterogeneidade em um recurso pedagógico. Sugere-se, assim, a realização de estudos longitudinais para monitorar a progressão da mudança linguística em Pernambuco, bem como análises mais detalhadas sobre a variação da concordância verbal associada ao pronome tu e a distribuição dos pronomes oblíquos te e lhe. Em última análise, a investigação reforça a premissa de que a descrição científica da língua em uso é o alicerce para uma educação linguística mais eficaz, que forme cidadãos linguisticamente conscientes e capazes de transitar com criticidade entre as diversas normas e falares do português brasileiro. Referências ARAGÃO, Sheltom Delano Oliveira de; SILVA, Elias Bonfim da. O ensino de Língua Portuguesa no Brasil e as diferenças dialetais: a proposta do bidialetalismo funcional de Magda Soares. Revista Educação Pública, v. 21, nº 37, 5 de outubro de 2021. Apêndice – Atividades para a escola do ensino fundamental 1. Como você fala? Responda de acordo com o seu uso cotidiano. a) Quando você fala com seus amigos, qual pronome usa mais? ( ) tu ( ) você ( ) alterna os dois b) Com seus familiares (pais, avós, tios), você usa: ( ) tu ( ) você ( ) alterna os dois c) Com professores, você fala mais: ( ) tu ( ) você ( ) senhor/senhora d) Dê um exemplo de frase que você realmente usa no dia a dia: _____________________________________________________________________ 2. Observe os vídeos, escute os diálogos e complete: Sugestão: https://www.youtube.com/watch?v=SAiXRi6Rcsg a) Na fala da Região 1, a pessoa usa: Pronome: _______________ Verbo: _______________ b) Na fala da Região 2, a pessoa usa: Pronome: _______________ Verbo: _______________ c) Qual fala é mais parecida com a sua: Região 1 ou Região 2? Por quê?_______________________________________________________________ 3. Leia as frases abaixo (retiradas de músicas, conversas ou postagens locais) e marque o pronome presente. “Tu é trevo de quatro folhas...?” Pronome: ___________________ “Tu vens chegando pra brincar no meu quintal...” Pronome: ___________________ “Você é a razão da minha felicidade...” Pronome: ___________________ “Você é algo assim, é tudo pra mim...” Pronome: ___________________ 4. Observe as frases: Falar local: tu fala Norma padrão: tu falas Uso comum no Brasil: você fala a) Reescreva a frase abaixo nos três modos indicados: Frase base: ___ ir à reunião hoje. Falar local (tu): ___________________________________ Norma padrão (tu): _________________________________ Com você: _________________________________________ 5. Produção escrita a) Escreva uma mensagem de celular para um amigo, usando o modo como você realmente fala: _____________________________________________________________________ b) Agora escreva um pequeno e-mail para o diretor da escola, usando a norma padrão: _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ image1.png image2.png