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SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
0
nd 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
1
Presidência da República 
Luiz Inácio Lula da Silva 
Ministério da Justiça e Segurança Pública 
Flávio Dino de Castro e Costa 
Secretaria Nacional de Segurança Pública 
Francisco Tadeu Barbosa de Alencar 
Diretoria de Ensino e Pesquisa 
Michele Gonçalves dos Ramos 
Coordenação-Geral de Ensino 
Ana Claudia Bernardes Vilarinho de Oliveira 
Coordenação Pedagógica 
Joyce Cristine da Silva Carvalho 
Coordenação de Ensino a Distância 
Renata Guilhões Barros Santos 
Gerente de Curso 
Raimundo Carlos Viana Mendes 
Conteudistas 
Ynaê Lopes dos Santos 
Thales Monteiro e Vieira 
Jalba Santiago dos Santos Segundo 
Revisão Técnica 
Givânia Maria Sila 
Lucilene Costa 
Revisão Pedagógica 
Evânia Santos Assunção Motta 
Revisão Textual 
Itamara Esteves da Cunha 
Programação e Edição 
Renato Antunes dos Santos 
Fábio Nevis dos Santos 
Designer 
Zulmiro José Machado Filho 
Design Instrucional 
Luana Manuella de Sales Mendes
 
 
SUMÁRIO 
APRESENTAÇÃO DO CURSO ................................................................................................... 3 
OBJETIVOS DO CURSO ............................................................................................................. 3 
ESTRUTURA DO CURSO ........................................................................................................... 4 
MÓDULO I – HISTÓRIA DO RACISMO E SUA RELAÇÃO COM O DESENVOLVIMENTO DO 
ESTADO BRASILEIRO ............................................................................................................... 5 
APRESENTAÇÃO DO MÓDULO ................................................................................................. 5 
OBJETIVOS DO MÓDULO .......................................................................................................... 5 
ESTRUTURA DO MÓDULO ......................................................................................................... 6 
AULA 1 – O CONCEITO DE RACISMO ESTRUTURAL ............................................................... 7 
AULA 2 – O PASSADO ESCRAVISTA E O HISTÓRICO DO RACISMO NO BRASIL ................ 19 
AULA 3 - O NASCIMENTO DA POLÍCIA MILITAR EM MEIO A UMA SOCIEDADE ESCRAVISTA 
E RACISTA. ............................................................................................................................... 31 
AULA 4 - RACISMO CIENTÍFICO E SUA CAPILARIDADE NO BRASIL: O NASCIMENTO DO 
MITO DA DEMOCRACIA RACIAL.............................................................................................. 40 
AULA 5 - O NASCIMENTO DA REPÚBLICA EXCLUDENTE ..................................................... 50 
FINALIZANDO............................................................................................................................ 59 
MÓDULO II – LETRAMENTO E SENSIBILIZAÇÃO ANTIRRACISTA ...................................... 60 
APRESENTAÇÃO DO MÓDULO ............................................................................................... 60 
OBJETIVOS DO MÓDULO ........................................................................................................ 60 
ESTRUTURA DO MÓDULO ....................................................................................................... 60 
AULA 1 – O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL E SUAS IMPLICAÇÕES CONTEMPORÂNEAS 61 
AULA 2 – ESTIGMA, ESTEREÓTIPO E VIOLÊNCIA RACIAL ................................................... 66 
AULA 3 – BRANQUITUDE, BRANQUEAMENTO E AS HIERARQUIAS DE HUMANIDADE ...... 73 
AULA 4 - BRANQUITUDE E VIOLÊNCIA POLICIAL: REFLEXÕES SOBRE RACISMO 
ESTRUTURAL NO BRASIL........................................................................................................ 76 
AULA 5 – O ANTIRRACISMO COMO PRÁTICA ........................................................................ 84 
FINALIZANDO............................................................................................................................ 87 
MÓDULO III – SUSP E O ENFRENTAMENTO AO RACISMO .................................................. 88 
APRESENTAÇÃO DO MÓDULO ............................................................................................... 88 
OBJETIVOS DO MÓDULO ........................................................................................................ 88 
ESTRUTURA DO MÓDULO ....................................................................................................... 89 
AULA 1 – RACISMO SOB A PERSPECTIVA INSTITUCIONAL ................................................. 90 
AULA 2 – CURRÍCULO OCULTO ............................................................................................ 100 
AULA 3 – GESTÃO ANTIRRACISTA ....................................................................................... 103 
AULA 4 – RACISMO E O OPERADOR DO SUSP ................................................................... 110 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................................ 113 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
3
 
APRESENTAÇÃO DO CURSO 
Caras alunas e caros alunos, 
Neste curso, iremos tratar de uma questão que é essencial para as ações dos 
órgãos de Segurança Pública do Brasil: o enfrentamento da desigualdade racial no 
país. 
Nossa ideia é entender um pouco melhor o que é o racismo, as implicações que 
ele tem na história e na sociedade brasileiras e, principalmente, como ele ainda pauta 
uma série de ações na área da segurança pública, para que possamos pavimentar 
uma transformação efetiva em prol de um país mais justo e igualitário. 
Esperamos que todos e todas tenham um bom curso! 
 
OBJETIVOS DO CURSO 
 
Objetivo geral 
Este curso tem, como objetivo, desenvolver, no profissional de segurança 
pública, a mentalidade de trabalho alicerçada nos princípios do Estado de Direito, no 
respeito aos direitos humanos, nas relações raciais, na consciência crítica e ética 
quanto à diversidade de nossa sociedade e numa atuação técnico-operacional, em 
estreito relacionamento com a comunidade, a fim de promover mudanças na cultura 
e na estrutura organizacionais. 
Objetivos específicos 
• reconhecer os aspectos históricos do racismo no Brasil; 
• distinguir o racismo estrutural do racismo institucional; 
• diferenciar os conceitos de estigma, de estereótipo e de violência racial; 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
4
• entender os métodos de atuação policial para enfrentar o fenômeno da 
criminalidade e da violência em contextos de vulnerabilidade social, com 
destaque para os grupos étnico-raciais; 
• conhecer as implicações jurídicas de comportamentos racistas e do 
descumprimento da doutrina e da técnica na atuação do profissional do Susp; 
• discutir o racismo científico no Brasil e suas implicações na atuação do 
profissional do Susp. 
 
ESTRUTURA DO CURSO 
Este curso, de 40 horas, compreende os seguintes módulos: 
Módulo 1 - História das desigualdades e do racismo e sua relação com o 
desenvolvimento do Estado brasileiro; 
Módulo 2 - Letramento racial; 
Módulo 3 - Susp e o enfrentamento ao racismo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
5
MÓDULO I – HISTÓRIA DO RACISMO E SUA RELAÇÃO COM O 
DESENVOLVIMENTO DO ESTADO BRASILEIRO 
 
APRESENTAÇÃO DO MÓDULO 
O enfrentamento da desigualdade racial é um ponto fundamental na construção 
de uma sociedade democrática. Todavia, para que esse enfrentamento aconteça, o 
ponto de partida deve estar no reconhecimento do caráter estrutural do racismo no 
Brasil e suas implicações e desdobramentos na Segurança Pública e nas ações 
policiais. Neste módulo, vamos aprofundar as definições sobre racismo estruturale 
realizar um sobrevoo crítico na história brasileira, a fim de entender como esse 
racismo foi um dos pilares de sustentação do Estado nacional e, consequentemente, 
na fundação e nas ações da polícia e demais forças de segurança do país. 
Acreditamos que o (re)conhecimento e a responsabilização são passos fundamentais 
no processo de transformação do qual este curso faz parte. 
 
OBJETIVOS DO MÓDULO 
Este módulo tem, por objetivos: 
 apresentar o conceito de racismo estrutural; 
 analisar o passado escravista e as consequências do racismo durante a 
vigência da escravidão e no primeiro século do pós-abolição e a ausência de 
políticas públicas para a inclusão da população negra brasileira na sociedade; 
 contextualizar, historicamente, a criação e o uso instrumental do Racismo 
como ferramenta de dominação, inclusive pelo Estado Nacional brasileiro e 
sua força policial. 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
6
ESTRUTURA DO MÓDULO 
Este módulo compreende as seguintes aulas: 
Aula 1 - O conceito de racismo estrutural; 
Aula 2 - O passado escravista e o histórico do racismo no Brasil; 
Aula 3 - O nascimento da polícia militar em meio a uma sociedade escravista; 
Aula 4 - O racismo científico e sua capilaridade no Brasil: o nascimento do mito 
da democracia racial; 
Aula 5 - O nascimento da República excludente e a criminalização do negro. 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
7
AULA 1 – O CONCEITO DE RACISMO ESTRUTURAL 
 
Um curso que pretende reconhecer e combater a desigualdade racial no Brasil 
precisa começar pela constatação do óbvio: o Brasil é um país racista. 
Existe uma diferença fundamental entre dizer que o Brasil é um país de 
racistas e em afirmar que o Brasil é um país racista. Enquanto, no primeiro 
caso, o racismo pode aparecer como um problema de outro - que, muitas vezes, 
podemos entender como algo distante de nós, no segundo caso há uma 
implicação coletiva, que pressupõe que o racismo é algo experimentado pela 
totalidade da população brasileira - mesmo que de formas diferentes. Essa 
última perspectiva é conhecida como racismo estrutural. 
 
Esse conceito é uma perspectiva analítica que defende que o racismo estrutura 
as relações políticas, econômicas, sociais e culturais da modernidade das quais o 
Brasil faz parte. Dito de outra forma, o racismo organiza a sociedade brasileira. 
Nesta aula, iremos analisar, com mais cuidado, o que é o racismo estrutural, 
reforçando, assim, uma afirmação que deve atravessar todo o curso: o Brasil foi, e 
continua sendo, um país racista. E, para que isso mude, ações de diferentes naturezas 
devem ser tomadas. A reeducação é uma delas. 
Mas, afinal de contas, o que é, de fato, o racismo estrutural? 
No Brasil, durante muito tempo, o racismo foi entendido como um conjunto de 
práticas discriminatórias e/ou excludentes que tinham como base o preconceito racial, 
ou o preconceito de cor. Sendo assim, o racismo era entendido a partir de ações 
individuais contra indivíduos pertencentes a grupos raciais específicos. Tais ações 
poderiam variar desde as “piadas de mau gosto”, passando para ações mais violentas, 
como xingamentos com teor racista (basta lembrarmos os episódios que diferentes 
jogadores negros de futebol experimentaram nos últimos anos), e chegando à 
interdição efetiva de pessoas negras, quilombolas, mestiças e indígenas em espaços 
de representação e de poder, assim como de acesso aos bens sociais, como saúde, 
educação, moradia e trabalho digno; e às ações de violência física mais extrema, que 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
8
ocasionam mortes biológicas, culturais, psicológicas, que podem afetar as pessoas 
vítimas de racismo. 
Pois bem, essa é apenas a ponta do iceberg, a parte facilmente visível do racismo. 
E, como veremos ao longo deste módulo do curso, acreditar que, no Brasil, o racismo 
se restringe apenas a essas ações individuais foi uma ideia muito bem construída, 
com o intuito de mascarar a força e a dimensão estrutural que ele teve, e continua 
tendo, em nossa sociedade. 
Um dos maiores argumentos daqueles que defendiam a ideia de que o Brasil era 
um país no qual o racismo não era um problema de grandes dimensões estava na 
comparação entre a sociedade brasileira e a sociedade estadunidense. Como nos 
Estados Unidos existiram leis segregacionistas - conhecidas como as leis Jim Crow, 
algo que não ocorreu no Brasil, se difundiu uma ideia equivocada de que, no Brasil, o 
racismo seria mais brando e pontual. No entanto, é fundamental sublinhar que a 
ausência de leis abertamente segregacionistas não significa ausência de racismo. O 
que vamos ver aqui é que o Estado Nacional brasileiro e boa parte da elite do país 
criaram diferentes tipos de dispositivos (inclusive legais) para garantir a segregação 
racial como um elemento ordenador da nação, sem que isso ficasse explicitado. É 
neste ponto que reside a grande diferença entre a experiência estadunidense e a 
brasileira. Lá, o racismo é algo reconhecido; aqui, no Brasil, ainda existe uma espécie 
de grande véu que encobre as profundezas do nosso racismo. Nosso objetivo aqui é 
tirar esse véu. 
Antes de adentrarmos nas explicações mais conceituais do que é o racismo 
estrutural, gostaria que pensássemos em duas situações recentes na sociedade 
brasileira. Na primeira delas, peço que vocês observem, com atenção, as duas 
fotografias abaixo. Ambas foram tiradas no ano de 2015, no Rio de Janeiro, uma 
cidade na qual a população autodeclarada negra girava em torno de 50% na época. 
 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
9
Figura 1 - Contraste racial e social em duas imagens 
 
 Fonte: Mídia Ninja, 2015. 
Disponível em: 
https://www.facebook.com/MidiaNINJA/photos/a.164308700393950/1022446454580166/ 
 
A primeira fotografia é dos formandos de medicina da UFRJ - Universidade 
Federal do Rio de Janeiro. Já a segunda foto registra os garis da mesma cidade, que 
participavam de um movimento grevista por melhores salários. O que essas imagens 
informam sobre o racismo no Brasil? 
No caso dos formandos de medicina - um dos cursos superiores mais elitistas do 
país, vemos um grupo de, aproximadamente, 40 pessoas, no qual é possível contar a 
presença de duas pessoas negras. Já a imagem dos garis - uma atividade essencial 
para o funcionamento da cidade, porém pouco valorizada e mal remunerada -, o que 
observamos é uma imensidão de homens negros. Lidas em conjunto, essas imagens 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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ilustram o que é o racismo estrutural e a segregação social e racial que ele gera no 
Brasil. Enquanto uma das atividades mais prestigiosas do país é ocupada quase que 
exclusivamente por pessoas brancas, há uma predominância significativa de pessoas 
negras numa atividade enquadrada como inferior ou menos qualificada. Além disso, 
eis o que também é estarrecedor: essas imagens não causam nenhum espanto no 
Brasil, porque nós fomos treinados a entender como normal que pessoas brancas 
estejam em lugares de prestígio, enquanto pessoas negras se restringem à 
subalternidade. 
Muitos podem afirmar que não se trata de um problema racial, mas social, uma 
vez que as fotos retratam pessoas de classes sociais distintas. Sim, isso é verdade, 
mas, no Brasil, a questão racial ordena as classes sociais. Então, para que isso fique 
evidenciado, convido todos e todas a examinarem, com calma, o gráfico abaixo: 
Gráfico 1: Evolução salarial por grau de instrução (2014) 
 
Fonte: RAIS, 2014. Disponível em: <<https://exame.com/wp-
content/uploads/2016/09/size_810_16_9_grafico_negros1.jpg?quality=70&strip=all?quality=70&strip=all&strip
=all>> 
Esse gráfico demonstra que, mesmo dentro da mesma classe social, ainda existeuma disparidade salarial entre a população negra e branca - uma realidade que 
aparece em meio à população mais pobre, e que vai se tornando cada vez mais 
acentuada à medida que o recorte socioeconômico se torna mais alto. Quanto mais 
rica é a classe social, maior a diferença salarial entre negros e brancos (mesmo 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
11
quando ambos têm instrução superior). Que outra razão poderia explicar essa 
disparidade senão o racismo? 
A segunda situação que gostaria de tratar aqui diz respeito, diretamente, ao tema 
do nosso curso: a segurança pública no Brasil. 
Gráfico 2: População negra e negros mortos pela polícia em 2020 (%) 
 
Fonte: Rede de Observatórios de Segurança (2020). 
Disponível em: <<https://cesecseguranca.com.br/reportagens/estudo-diz-que-86-dos-mortos-em-acoes-
policiais-no-rj-sao-negros-apesar-de-grupo-representar-517-da-
populacao/#:~:text=A%20popula%C3%A7%C3%A3o%20negra%20no%20RJ,de%20mortes%2C%20com%2
0415%20registros>> 
 
Em 2020, a Rede de Observatórios de Segurança mapeou, por meio de pesquisa, 
a violência policial em seis estados brasileiros. Em todos eles, observou-se que a 
porcentagem de pessoas negras mortas em ações policiais é significativamente maior 
que o percentual da população negra em cada um dos estados. Como explicar o 
porquê de negros e negras serem os maiores alvos de letalidade da polícia brasileira? 
Antes que a resposta se restrinja a uma explicação socioeconômica, pontuando 
que a população negra é mais pobre e, consequentemente, mora em mais áreas de 
risco, é importante frisar que o gráfico 2 demonstra uma discrepância significativa 
entre o percentual de mortos e o percentual da população negra nos estados Se o 
racismo não fosse um fator influenciador das ações policiais, o máximo que 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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observaríamos seria uma equivalência entre o percentual da população negra e o 
percentual de pessoas mortas nas ações policiais. E ainda há o outro lado da moeda: 
as mesmas ações policiais que acarretam maior letalidade da população negra 
também matam mais policiais negros do que brancos, mesmo quando a porcentagem 
de efetivos negros é menor. Ou seja, independente de que lado estejamos tratando, 
o resultado é o mesmo: pessoas negras morrem numa proporção muito maior em 
circunstâncias mais críticas, que envolvem a garantia da segurança (e o bem-estar) 
dos cidadãos brasileiros. 
Essas duas situações foram trazidas para ajudar a sedimentar o conceito de 
racismo estrutural, mas poderíamos ter analisado outros aspectos da sociedade 
brasileira, como a superlotação dos presídios, a pouca representatividade negra nas 
novelas e demais veículos do audiovisual brasileiro, ou até mesmo o menor grau de 
escolaridade da população negra, quando comparada com a população branca. 
Mas é preciso sublinhar que os dados trazidos aqui, a título de exemplo, 
demonstram que a) brancos ocupam espaços de privilégio; b) negros são a maioria 
em serviços considerados subalternos; c) dentre a mesma classe social, brancos 
ganham mais do que negros; d) as ações da polícia brasileira acarretam uma 
letalidade significativamente maior da população negra (tanto entre os civis, como 
entre os policiais mortos). Talvez, um dos aspectos mais perversos em tudo o que foi 
elencado acima é este: nós não vemos nenhum problema em nenhuma das 
observações levantadas, porque todas fazem parte da nossa “normalidade”. Vale 
destacar que, entre “as mortes normais ou por balas perdidas”, além de serem 
majoritariamente negras, muitas delas são crianças e adolescentes, que, por vezes, 
são alvejadas no interior de suas casas e escolas. 
 
Uma maneira simples de explicar o que é racismo estrutural seria exatamente essa: a 
normalidade com a qual encaramos e experimentamos as diferenças raciais no Brasil, como 
se fosse “natural” que negros que concluíram o Ensino Superior ganhem menos do que seus 
colegas brancos de profissão; ou então que seja quase banal o fato de que a população 
negra segue sendo desproporcionalmente atingida por ações violentas das forças de 
segurança. 
Na Prática 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
13
A questão é que essa aparente normalidade não existe na natureza, não faz 
parte do “ar que respiramos”. Ela é fruto da construção de um sistema de poder 
que tem uma história longa, de raízes profundas. Esse sistema de poder é o que 
chamamos de racismo. 
Sendo assim, uma das formas mais eficientes de entender a dimensão estrutural 
do racismo é justamente entendê-lo como um sistema de poder. Essa é uma 
percepção fundamental, porque permite que tenhamos uma compreensão mais densa 
do que ele é e de como ele funciona. No Brasil, é comum que o preconceito racial, 
quando reconhecido, seja tratado como um “problema do negro”. Existem estudos de 
diferentes áreas do conhecimento que tentam compreender como o racismo impacta 
a vida da população negra. Embora essa seja uma dimensão importante, pois negros 
e negras são as vítimas do racismo, é crucial perguntarmos: qual a implicância que a 
população branca tem numa sociedade racista? Ou melhor dito: quais as 
responsabilidades e os privilégios que as pessoas brancas têm numa sociedade 
racista? Se olharmos para o Congresso Nacional brasileiro, as Supremas Cortes, os 
tomadores de decisões em relação aos destinos de nosso país, as camadas mais 
favorecidas e o mundo empresarial, não demoramos para encontrar a resposta. 
É possível que poucas pessoas (sobretudo brancas) já tenham feito a si mesmas 
esse tipo de pergunta. Além disso, a ausência de um questionamento que implique a 
população branca na lógica racista é, nada mais, nada menos, do que o racismo em 
pleno funcionamento. No entanto, se formos seguir um pensamento lógico, vamos nos 
deparar com a seguinte encruzilhada: se pessoas negras, mestiças e indígenas e 
quilombolas são vítimas das mais variadas formas de violência, alguém é racialmente 
violento com elas. Então, voltando à afirmação que abriu essa aula, nós somos uma 
sociedade racista, porque somos uma sociedade de pessoas racistas. 
Reconhecer e entender que a população branca faz parte da dinâmica de 
funcionamento do racismo é o ponto de partida para compreender que o 
racismo estrutural é um sistema de poder. 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
14
Esse sistema tem como premissa o fato (irreal) de que a humanidade está dividida 
em raças. Por muito tempo, acreditou-se que essas eram biologicamente diferentes, 
e essas crenças foram cruciais na organização de uma sociedade, que tomava as 
características fenotípicas como atributos para hierarquizar as experiências humanas. 
Foram construídos estereótipos negativos sobre a população negra baseadas em 
traços físicos, capacidade intelectual, moralidade e cultura, tornando-os bases para 
inferioridade, definindo, assim, que existiam alguns tipos de vidas humanas que eram 
superiores a outros tipos. Ou seja, existiam umas que importavam mais do que outras. 
Embora, desde o começo do século XX, a ciência já tenha comprovado que raças 
humanas não existem, o conceito de raça continuou fazendo sentido para entender e 
explicar a organização social, política, econômica e cultural do mundo. 
Se estamos tratando o racismo como um sistema de poder, isso significa dizer 
que, nesse sistema, existem pessoas que detêm poder, enquanto outras, não. A 
questão central é que esse preconceito determina que as pessoas que detêm o poder 
sejam as pessoas brancas, enquanto todos os demais grupos não-brancos ficam à 
margem dos espaços de poder e prestígio. Desse modo, existe uma ideia de 
supremacia branca que embasa todo esse sistema: brancos detêm o poder porque 
são considerados - e se consideram - superiores aos demais. E, neste caso,não 
estamos falando apenas do poder político e econômico, mas também do poder 
simbólico que a pele branca tem, como se o fato de ter nascido branco garantisse uma 
série de vantagens (que também são chamadas de privilégios), que nem o homem 
negro mais rico poderá alcançar. 
Para ajudar na compreensão da complexa trama do racismo, é interessante 
dialogar com pensadores que estão analisando essa questão há muito tempo. Um 
importante nome nos estudos sobre racismo é o do sociólogo jamaicano Charles W. 
Mills. Ele desenvolveu uma teoria na qual defende que, desde o século XV, a 
humanidade vive sob um pacto racial. Esse tem como base o princípio da supremacia 
branca (também conhecido como branquitude). No entanto - e aí temos a “jogada de 
mestre” deste pacto -, o princípio dessa supremacia não é revelado, ele se camufla 
na ideia de universalismo. Dito de outra forma, tudo o que é considerado universal 
está diretamente ligado à experiência branca e eurocentrada, enquanto todo o 
restante da humanidade é racializado e entendido como minoria social. 
Palavra do 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
15
Um exemplo fácil que comprova esse aspecto do contrato racial está no fato de 
não nos referirmos às pessoas brancas como pessoas brancas; na lógica do racismo, 
essas são apenas pessoas. Mas, quando estou me referindo a um sujeito não-branco, 
a sua condição racial é rapidamente acionada. Isso acontece em situações do nosso 
dia a dia, quando descrevemos ou nos referimos a alguém, ou quando, na escola, 
aprendemos a história da Europa como se ela fosse a história universal (e, 
consequentemente, a mais importante). 
Esse sistema nos faz crer que tudo que advém da Europa, por ser universal, 
abarca toda a existência humana. Um exemplo clássico disso é o pouco (ou quase 
nada) que estudamos nas nossas trajetórias escolares sobre os demais continentes. 
O africano, por exemplo, da forma como é apresentado nos livros didáticos, nos leva 
a construir uma ideia de país, e não de um continente com diversos países, cultura, 
idiomas, economias, biomas, organizações sociais e políticas diferentes. Para falar do 
continente africano, o foco sempre se volta para as guerras, a fome e a miséria. 
Essa percepção ordena todas as dimensões do nosso cotidiano, fazendo com 
que, desde muito cedo, nós sejamos ensinados a naturalizar os privilégios que o 
racismo cria para todas as pessoas brancas, mesmo aquelas que não 
necessariamente concordem com a existência desses privilégios. Além de uma gama 
enorme de vantagens materiais que o racismo cria para a população branca, há, 
também, o enorme benefício dessa população não se pensar de forma racializada. 
Não por acaso, frases, como “eu não vejo cor, só vejo pessoas”, são comumente 
ditas por pessoas brancas quando confrontadas em alguma situação na qual a 
discriminação racial fica explícita. Pois bem, em meio ao contrato racial que nos 
organiza, apenas as pessoas brancas têm o luxo de não enxergarem a cor de sua 
pele como um atributo que define grande parte de suas vidas. Isso significa que essas 
não sofram, não passem dificuldades e não sejam marginalizadas? De forma alguma, 
mas é importante pontuar que, mesmo as dores e dificuldades que pessoas brancas 
passam, não são, em grande medida, definidas pela cor de sua pele. 
É importante reconhecer os privilégios que o racismo cria para a população 
branca para que possamos compreender outros dois conceitos problemáticos, 
que costumam ser muito evocados quando o assunto é racismo: meritocracia 
e racismo-reverso. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
16
A meritocracia é um conceito falho, pois ele parte do pressuposto simplista 
que basta o esforço pessoal de um indivíduo para que ele consiga sucesso na 
vida. Se esse princípio estivesse correto, nossa segunda conclusão seria que, 
salvo raras exceções, no Brasil apenas pessoas brancas seriam esforçadas, pois 
a experiência de sucesso costuma ser branca. Na realidade, a própria ideia de 
merecimento está diretamente vinculada à vida de pessoas brancas. Ainda que o 
esforço pessoal seja uma característica importante na trajetória de um indivíduo, 
o alcance dele está diretamente ligado à sua pertença racial. Como vivemos em 
uma sociedade profundamente desigual, uma pessoa pobre e preta terá que se 
esforçar mais do que uma pessoa branca de classe média - e mesmo esse esforço 
hercúleo não garante que o sucesso desejado seja alcançado. Claro que existem 
exceções, mas, como diz o ditado popular, “são as exceções que confirmam a 
regra”. 
Racismo-reverso também é um conceito falho, porque ele pressupõe a 
possibilidade de uma pessoa negra ser racista e uma pessoa branca sofrer racismo. 
Acontece que ser racista significa estar num espaço de poder e de privilégio que as 
pessoas negras têm mais dificuldade de alcançar, justamente por serem o que são: 
pessoas negras. Embora algumas possam compactuar com práticas racistas, elas não 
podem o ser, porque isso significa exercer um poder que lhes foi negado a priori, não 
importando o quanto ricas/famosas essas pessoas negras possam vir a ser. 
É crucial apontar que esse caráter estrutural do racismo também fundamenta a 
organização e o funcionamento do Estado. Como dito por Charles Mills, 
 
 
 “o contrato racial estabelece um regime político racial, um Estado racial e um 
sistema jurídico racial nos quais o status de brancos e não-brancos está claramente 
demarcado, seja por lei, seja por costume.” (MILLS, 2023, p. 46). 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
17
Ou seja, o contrato racial que funda o sistema de poder, que é o racismo, também 
define que as instituições sejam racistas - não um aberto e declarado que costuma 
aparecer em situações de governos mais autoritários e extremistas, mas por meio de 
leis e costumes que entendem as desigualdades existentes entre brancos, negros e 
indígenas como atributos naturais da experiência humana. Um exemplo bem 
elucidativo é o fato de, no Brasil, termos pouquíssimos presidentes de empresas 
negros, e isso não ser um problema ou fator de indignação. 
Como explicar que, num país no qual 56% da população se autodeclara negra, 
nem 10% dos maiores empresários sejam negros? Será que eles não se esforçam o 
suficiente, ou será que apesar dos esforços, há um sistema que impede ou limita as 
possibilidades de ascensão social de um homem e de uma mulher negra? Outro 
exemplo pode ser atestado pela baixa representatividade negra no Congresso 
Nacional. É complexo encontrar outra resposta que nos mostre o porquê de, num país 
que tem mais da metade da população autodeclarada negra, apenas 20% dos 
parlamentares sejam negros, que não o racismo. 
É curioso que a mesma naturalidade com a qual vemos espaços de poder e 
privilégio como atributos quase exclusivos da população branca também é acionada 
quando nos deparamos, por exemplo, com os dados da Justiça, ou então os índices 
da Segurança Pública brasileira. Não há nenhuma perplexidade quando observamos 
sentenças expedidas pelo poder Judiciário, que definem penas distintas para pessoas 
negras e brancas que cometeram o mesmo crime, ou, então, que membros desse 
mesmo Judiciário façam uso de teorias abertamente racistas (como a antropologia 
criminal) para determinar a culpa de um réu negro. Também, parece não haver 
incomodo algum quando nos deparamos com os dados de letalidade nas ações 
policiais citados acima: negros sempre foram mais mortos pela polícia, não é mesmo? 
Um outro exemplo elucidativo pode ser visto na pesquisa realizada pela 
Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas do Brasil e pela 
ONG Terra de Direitos em 2018. Ela não só revela o alto índice de assassinatos de 
pessoas quilombolas, mas também demonstra que o sistema de justiça não fez quase 
nenhummovimento que gerasse algum tipo de punição. Esses dados estão disponível 
em: http://conaq.org.br/noticias/a-publicacao-racismo-e-violencia-contra-quilombos-
no-brasil-esta-disponivel-para-download/ 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
18
 
Como foi dito no começo desta aula, a violência endêmica das forças 
policiais contra as pessoas negras e indígenas do país é a ponta de um iceberg, 
que nada mais é do que nosso racismo estrutural. Mas essa ponta também é 
parte do problema, e deve ser bem estudada. 
 
Este curso é uma das medidas necessárias para que comecemos a (re)conhecer 
o caráter estrutural do racismo no Brasil e, a partir de então, elaborarmos ações e 
políticas públicas que coloquem em xeque a ordem racista que nos estrutura. O 
preconceito racial é uma das principais engrenagens da sociedade brasileira. Assim, 
como bem disse a advogada e professora Thula Pires, é fundamental que coloquemos 
pedras para interromper o funcionamento dessas engrenagens. Há séculos, negros e 
indígenas vêm sendo as pedras massacradas pelas máquinas do racismo, mesmo 
porque não tenha havido, e ainda haja, muita escolha para essas populações. Desse 
modo, quem se compromete com a luta pelo fim da desigualdade racial está se 
propondo a ser pedra também. Essa é uma escolha que causará incômodos, dores, 
angústias, mas é a única forma de mudarmos a estrutura racial que temos. 
Nas próximas aulas deste módulo, iremos fazer um passeio sobre a história do 
Brasil, em meio a uma perspectiva crítica, para que possamos entender como e por 
que a Segurança Pública brasileira foi, e continua sendo, ordenada pelo racismo. 
Imaginamos que esse possa ser um bom começo para as mudanças necessárias. 
 
 
 
 
 
 
Na Prática 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
19
AULA 2 – O PASSADO ESCRAVISTA E O HISTÓRICO DO RACISMO 
NO BRASIL 
Pensar na trajetória histórica do racismo estrutural no Brasil significa um recuo 
imenso. É possível, inclusive, afirmar que não há história do Brasil sem racismo, 
sobretudo se estivermos pensando na Constituição e nas amarras do pacto racial do 
qual nos fala Charles Mills (conforme visto na Aula 1). Além disso, há uma instituição 
da história brasileira (uma das mais longevas) que nos ajuda a compreender a 
estruturação que o racismo desempenhou no Brasil, essa instituição é a escravidão. 
Entender o racismo estrutural de hoje significa compreender a Constituição e a 
vigência da supremacia branca, que, por sua vez, deita suas raízes no passado 
escravista. Acontece que essa relação causal é pouco evidenciada. Assim como o 
racismo, a escravidão costuma ser pensada e trabalhada como um problema do 
negro, como um fato histórico que se encerrou com a falha “abolição”, tendo em vista 
que somente as pessoas negras (e também as indígenas) eram passíveis de serem 
escravizadas. No entanto, uma sociedade de escravizados também é uma sociedade 
de senhores de escravos, e pouco, ou nada, se fala sobre essa dimensão da nossa 
história e do impacto que ela tem nos dias atuais. Esse é mais um dos silêncios que 
constitui a história brasileira. 
Mas, como bem colocado por Cida Bento: 
 
“É urgente fazer falar o silêncio, refletir e debater essa herança 
marcada por expropriação, violência e brutalidade para não 
condenarmos a sociedade a repetir indefinidamente atos anti-
humanitários similares. Trata-se de uma herança inscrita na 
subjetividade do coletivo, mas que não é reconhecida 
publicamente. O herdeiro branco se identifica com outros herdeiros 
brancos e se beneficia dessa herança, seja concreta, seja 
simbolicamente.” (BENTO, 2022, p.24). 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
20
Nesta aula, nós iremos entender um pouco melhor como a escravidão se 
constituiu em uma herança perversa que ajudou a determinar privilégios e poderes do 
Brasil racista. 
Em primeiro lugar é fundamental pontuar que a escravidão é uma instituição que 
existiu em diferentes momentos e diferentes partes da história da humanidade. Em 
segundo lugar, precisamos sublinhar que existem sociedades que têm escravizados 
e as sociedades escravistas. As primeiras são aquelas que não dependem da mão de 
obra escravizada para funcionar – podemos tomar como exemplo o Brasil atual, no 
qual nos deparamos com inúmeras situações de trabalhadores em condições 
análogas à escravidão, mas o trabalho livre e assalariado é a norma. Já as sociedades 
escravistas são aquelas que dependem do trabalho escravo. Conhecemos o exemplo 
do Império Romano e da escravidão moderna que foi empregada na colonização das 
Américas. 
Uma diferença fundamental entre a escravidão romana e a moderna é o fato de a 
segunda ter sido racializada. Ou seja, apenas pessoas de determinados grupos raciais 
poderiam ser escravizados. Essa condição tem reflexo até hoje, marcando as relações 
modernas de trabalho, as quais definem quem são os trabalhadores e as 
trabalhadoras urbanos(as) e rurais que podem usufruir de direitos constitucionais ou 
não. Em meio à construção do racismo estrutural, a escravidão racializada foi um dos 
primeiros privilégios usufruídos pela população branca: eles não poderiam ser 
escravizados. Isso significa que todos os negros e indígenas eram escravizados? Não. 
Mas, além de todos eles estarem sujeitos a essa condição, a escravidão também se 
tornou uma espécie de mancha, de mácula que acompanhou a vida de todos os 
homens e todas as mulheres negros, negras, indígenas e quilombolas. Uma dor que 
nem a Abolição da escravidão foi capaz de dissolver, inclusive pelo seu caráter 
ilusório. 
Pois bem, assim como em outras localidades do continente americano, a 
escravidão foi uma instituição que organizou e dinamizou a colonização portuguesa 
na América. 
Como bem se sabe, quando os portugueses chegaram ao território que hoje 
chamamos de Brasil, em 1500, essa era uma terra densamente habitada por milhares 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
21
de povos indígenas. Os primeiros anos da colonização foram marcados por uma 
ocupação incipiente do território, fazendo com que a presença portuguesa não 
passasse de iniciativas individuais e privadas. A transformação na situação ocorreu 
de maneira abrupta a partir da metade da década de 1530. Isso se deveu a uma 
combinação de fatores, incluindo os reveses enfrentados pelos portugueses em suas 
empreitadas nas rotas do Índico e as investidas de outras potências europeias que 
buscavam conquistar o novo território. 
Em 1534, após a expedição liderada por Martim Afonso de Souza, o rei 
português Dom João III, apelidado de "O Colonizador", empreendeu sua primeira 
tentativa de organizar a posse americana, introduzindo o sistema de capitanias 
hereditárias. No entanto, diante dos resultados insatisfatórios desse modelo, o 
rei instituiu, em 1548, o Governo Geral, uma estrutura administrativa portuguesa 
voltada para a centralização do poder e a implementação de mecanismos para 
fortalecer e estimular a administração colonial. 
Do ponto de vista econômico, a colonização das Américas se tornou uma 
empreitada extremamente atraente e rentável para a Coroa portuguesa, graças ao 
advento do açúcar e ao complexo sistema econômico que girava em torno dele. O 
cultivo do açúcar nos engenhos das capitanias do Nordeste resultou em uma dinâmica 
econômica que, posteriormente, serviria como modelo em outras colônias 
americanas, caracterizada pela produção em larga escala de um único produto 
tropical, sendo a mão de obra formada predominantemente por africanos 
escravizados e seus descendentes. 
Por muito tempo, a história inicial do Brasil foi marcada por uma abordagem 
superficial e preconceituosa, especialmente em relação à mudança na força de 
trabalho explorada pelos portugueses. Gerações de brasileiros aprenderam, nas 
escolas,que a substituição da mão de obra indígena era justificada pela alegada 
aversão dos nativos ao trabalho árduo em contraposição à suposta superioridade 
física dos africanos. Essas visões, de teor marcadamente racista, perpetuaram a ideia 
errônea de que os indígenas eram preguiçosos, enquanto os africanos eram 
considerados "animais de carga", destinados a realizar trabalhos pesados. 
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Embora os africanos tenham desempenhado um papel essencial na produção de 
açúcar, foram os indígenas escravizados que compuseram a mão de obra inicial dos 
primeiros engenhos, entre os anos de 1550 e 1580. Nas décadas seguintes, era 
comum observar indígenas e africanos trabalhando lado a lado nesses ambientes. 
Apesar de o tráfico transatlântico já ter sido iniciado pelos portugueses, a sua 
organização e sistematização nas Américas portuguesas demoraram algumas 
décadas para se consolidarem. Nesse meio-tempo, os africanos escravizados eram 
significativamente mais caros que os indígenas escravizados, o que explicava a 
manutenção sistemática da escravidão de sociedades indígenas até os primeiros anos 
do século XVII. 
É importante pontuar que a substituição sistêmica de indígenas escravizados por 
africanos nas mesmas condições contou com o forte apoio e a legitimação da Igreja 
Católica. Antes mesmo dos portugueses chegarem ao que hoje chamamos de Brasil, 
essa já havia dado permissão para que os reis lusitanos escravizassem africanos. Em 
1455, o papa Nicolau V publicou uma bula papal dirigida ao rei português D. Afonso 
V, definindo que: 
 
“Guinéus e negros tomados pela força, outros legitimamente 
adquiridos foram trazidos ao reino, o que esperamos progrida até a 
conversão do povo ou ao menos de muitos mais. Por isso nós, tudo 
pensando com devida ponderação concedemos ao dito rei Afonso a 
plena e livre faculdade, entre outras, de invadir, conquistar, subjugar a 
quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, 
a todos reduzir à servidão e tudo praticar em utilidade própria e dos 
seus aos mesmos D. Afonso e seus sucessores, e ao infante. Se 
alguém, indivíduo ou colectividade, infringir essas determinações, seja 
excomungado.” 
 
As justificativas para a escravização dos africanos e de seus descendentes foi 
encontrada a partir da leitura de determinadas passagens do Antigo Testamento, 
sobretudo as histórias vinculadas a Caim e a Cam. Em ambos os casos, os africanos 
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eram punidos pelos pecados cometidos por seus antepassados, e a punição residia 
justamente no fato de eles serem negros. 
Ainda que fossem entendidos como sociedades inferiores, os indígenas ocuparam 
outro lugar dentro da lógica católica. Vistos como pagãos, aos indígenas foi concedida 
a “dádiva” da catequese, um processo de aprendizagem que impunha os valores 
cristãos e europeus para sociedades nativas. Aqueles que se recusassem à 
catequese poderiam (e deveriam) ser escravizados. 
Como o Brasil era uma colônia de dimensões continentais, o que se observou foi 
que, a partir de meados do século XVII, africanos escravizados passaram a trabalhar 
em atividades vinculadas ao mercado externo, e a presença de indígenas 
escravizados era mais frequente em espaços destinado à economia interna da 
colônia, mas, muitas vezes, esse padrão foi alterado. De todo modo, o que tivemos, 
ao longo da experiência colonial, foi a confirmação reiterada de um dos primeiros 
pressupostos do racismo científico: o fato de que apenas os grupos racializados eram 
passíveis de serem escravizados. 
O modelo de produção de açúcar em plantations, que se tornou característico, só 
foi plenamente estabelecido a partir das primeiras décadas do século XVII. No entanto, 
a escravização dos indígenas não foi totalmente abolida, e o tráfico de africanos 
escravizados continuou a crescer, principalmente nas plantations, resultando em 
lucros dobrados para a metrópole portuguesa. E, agora, é fundamental abrir um 
subcapítulo para tratar do tráfico transatlântico de africanos escravizados. O infame 
comércio (como era chamado) pode ser entendido como o ciclo econômico de ampla 
envergadura e longa duração, impactando, significativamente, o desenvolvimento da 
América portuguesa e, depois de 1822, do Brasil. 
No entanto, havia outro fator a ser levado em consideração: o tráfico transatlântico 
de africanos escravizados era uma atividade altamente lucrativa. A rentabilidade do 
tráfico é um ponto fundamental na compreensão do porquê a escravidão africana ter 
sido amplamente difundida no Brasil. Esse mercado foi um dos maiores e mais 
nefastos crimes contra a humanidade. Sua lógica estava organizada a partir de um 
processo de desumanização sistemático das sociedades africanas que, conforme 
visto acima, eram entendidas como inferiores aos europeus. A compra e venda de 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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africanos escravizados tornou-se uma das empresas mais lucrativas de todo o mundo, 
viabilizando a) criação de fortunas, b) acumulação primitiva de capital, c) 
financeirização da economia mundial e surgimentos de bancos. Durante 200 anos, 
nada dava mais dinheiro no mundo do que comprar e vender gente negra. 
A dinâmica do tráfico começava com o sequestro de homens, mulheres e crianças 
em diferentes partes do continente. Essas pessoas eram levadas para cidades 
litorâneas nas quais existiam portos de embarque, e ficavam presas em barracões por 
semanas, ou até mesmo meses, vivendo em condições insalubres e mal alimentadas 
– o que levava muitas dessas pessoas à morte. O embarque nos navios negreiros era 
o momento mais traumático do processo. Em primeiro lugar, porque muitos africanos 
e muitas africanas não sabiam o que existia do outro lado do Oceano (em algumas 
sociedades africanas, imaginava-se que o Atlântico fosse um extenso rio que dividia 
o mundo dos vivos para o mundo dos mortos). Em segundo lugar, porque a entrada 
no navio negreiro era uma espécie de morte em vida: as pessoas se despediam de 
um território que conheciam para serem escravizadas num lugar completamente 
desconhecido e por pessoas desconhecidas. 
Por fim, a travessia Atlântica – que poderia durar de 8 a 14 semanas – era 
absolutamente terrível. Para ampliar os lucros, os traficantes chegavam a colocar 300 
africanos nos porões de navios que comportariam de 100 a 150 pessoas. Isso 
significava que não havia espaço, nem comida, nem água potável para todos. A falta 
de condições mínimas de higiene era responsável pela difusão de inúmeras mortes: 
20 a 30% dos africanos embarcados morriam na travessia e tinham seus corpos 
jogados ao mar. Não por acaso, outro nome dado a esses navios era tumbeiro. 
Aqueles que sobreviviam à travessia recebiam a escravidão como recompensa. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
25
Figura 2 – Planta baixa de um navio negreiro
 
Fonte: Gravura publicada em 1830 no livro Notices of Brazil in 1828 and 1829, de R. Washl. Domínio 
público, Arquivo Nacional – Ministério da Justiça Disponível em: https://multirio.rio.rj.gov.br/index.php/historia-
do-brasil/america-portuguesa/8739-o-tr%C3%A1fico-negreiro. 
 
 Temos poucos registros em primeira pessoa de africanos que vivenciaram esse 
processo. Um dos mais importantes é o relato de Baquaqua, um homem nascido no 
atual país do Benin (África Ocidental), que foi capturado como escravizado em 1845. 
 
 Os seus horrores, ah! Quem poderá descrever? Ninguém poderá 
representar tão verdadeiramente os seus horrores como o pobre infeliz, 
miserável desgraçado que foi confinado dentro dos seus portais. Ó amigos 
da humanidade, tenham piedade do pobre africano, que foi ludibriado e 
vendido do convívio dos seus amigos e do seu lar, e enviado para o porãode um navio negreiro, para esperar por mais horrores e misérias em uma 
terra distante, no meio dos religiosos e benevolentes. Sim, exatamente no 
meio deles; mas rumo ao navio! Fomos lançados no porão do navio em 
estado de nudez, os homens espremidos de um lado e as mulheres do 
outro; o porão era tão baixo que não conseguíamos ficar de pé, mas 
éramos obrigados a nos agachar sobre o piso ou a nos sentarmos; dia e 
noite eram a mesma coisa para nós, o sono nos era negado pela posição 
de confinamento dos nossos corpos, ficamos desesperados com o 
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sofrimento e a fadiga. [...] A única comida que tínhamos durante a viagem 
era milho cozido mergulhado em água. Não consigo dizer quanto tempo 
ficamos confinados daquela maneira, mas pareceu um período muito 
longo. Nós sofremos muitíssimo com a falta d'água, mas nos era negado 
tudo o que precisávamos. Meio litro por dia era tudo o que era permitido, e 
nada mais; e um grande número de escravos morreu na travessia.” 
(Baquaqua, 1854) 
 
É preciso repetir, uma vez mais, que a desumanização de africanos negros foi o 
ponto de partida, e o ponto de chegada da empresa mais lucrativa que existiu entre 
os séculos XVII e XIX. Foi esse processo que permitiu que o tráfico transatlântico de 
africanos escravizados se expandisse ao longo dos séculos, atingindo o seu apogeu 
no século XIX. O comércio impulsionou consideravelmente a entrada de africanos na 
América portuguesa, consolidando a escravidão como um sistema profundamente 
enraizado. A presença e o papel dos traficantes brasileiros foram fundamentais para 
o influxo maciço de africanos, estabelecendo um ciclo de comércio bilateral que 
fortaleceu os laços entre o Brasil e algumas sociedades africanas. Não por acaso, o 
Brasil foi a localidade das Américas que mais recebeu africanos escravizados: 4,8 dos 
12 milhões de africanos sequestrados de suas terras de origem desembarcaram e 
trabalharam no Brasil - o último país a abolir a “escravidão” nas Amáricas. 
Esse enorme volume do tráfico é o principal fator que explica por que o 
escravizado se tornou o tipo de propriedade privada mais acessível em toda a colônia 
e também nas primeiras décadas do Império do Brasil. A alta lucratividade na compra 
e venda de pessoas africanas fez com que muitos brasileiros se tornassem traficantes, 
o que, por sua vez, facilitou o acesso da população aos escravizados. Ainda que o 
africano escravizado fosse uma propriedade significativamente cara, até mesmo 
pessoas de condições mais módicas poderiam comprá-lo, pois os traficantes 
brasileiros criaram cartas de crédito que facilitavam a aquisição de um cativo. 
Justamente por isso, os senhores de escravizados eram uma classe diversificada, 
abarcando indivíduos com diferentes níveis de riqueza e influência. Ainda que a maior 
parte deles tivessem de 1 a 3 escravizados como propriedade, existiam aqueles que 
possuíam dezenas e até mesmo centenas de pessoas em condição de escravidão. 
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A disseminação do escravizado como a principal propriedade privada no Brasil 
tinha como razão principal o fato de que ele era uma propriedade e, ao mesmo tempo, 
um investimento. Tanto no período colonial, como no Império, os escravizados negros 
(africanos e nascidos no Brasil) realizaram as mais variadas atividades: trabalharam 
na produção de açúcar, café, algodão, tabaco; criaram gado; extraíram ouro e pedras 
preciosas; cuidaram de todas as atividades domésticas (inclusive a amamentação das 
crianças brancas); trabalharam numa variada gama de atividades nos principais 
centros urbanos - vendiam produtos, carregavam mercadoria nas alfândegas, 
calçaram ruas, eram músicos, boticários, quituteiras. 
É necessário pontuar que boa parte dessas atividades eram executadas a partir 
de saberes e tecnologias que africanos e africanas trouxeram de suas sociedades de 
origem, tais como a pecuária extensiva e a metalurgia (ambas desconhecidas pelos 
portugueses), e uma série de processos de cura executados pelos mestres 
sangradores, pelas parteiras e pelos boticários. A presença dos escravizados era 
tamanha que, durante a vigência da escravidão, eles podem ser entendidos como 
sinônimo de trabalho - uma condição que era herdada pelos seus descendentes, 
mesmo aqueles que conseguiam comprar sua liberdade por meio da carta de alforria. 
No Brasil, até 1888, os negros e as negras eram, antes de mais nada, trabalhadores 
e trabalhadoras. 
Era a exploração sistemática do trabalho escravo que tornou os escravizados algo 
tão atraente para os proprietários, mesmo aqueles mais pobres. Em tese, a 
administração dos escravizados era uma responsabilidade dos proprietários, que 
determinavam todos os aspectos de suas vidas, incluindo alimentação, trabalho e até 
casamentos. Grosso modo, os assuntos relacionados aos escravizados estavam 
circunscritos à esfera privada das relações, porque o escravizado era uma 
propriedade privada. Tanto era assim que os proprietários podiam dispor dos seus da 
forma como bem quisessem. Não se tratava apenas da exploração de seu trabalho, 
mas também da violência de seus corpos, o que poderia acontecer tanto pelo estupro, 
como pela aplicação de castigos (que, muitas vezes, levavam à morte proposital da 
pessoa escravizada). 
Justamente por isso, quando a luta daqueles em situação de escravidão pela 
liberdade colocava a ordem escravista em xeque, o que se observava era a aliança 
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entre poderes metropolitanos, eclesiásticos e colonos sendo profundamente eficaz - 
uma aliança que era orquestrada por homens brancos, que pareciam ter uma 
percepção racial apurada. Nesse sentido, as primeiras ideias de policiamento que 
foram implementadas no período colonial tinham a função de fazer valer os interesses 
dessa parcela específica da população, mantendo a ordem escravista por meio de 
atuações violentas contra corpos de pessoas escravizadas (sobretudo negras). 
Todavia, é importante dizer que uma característica que atravessou a história do Brasil 
desde o período colonial é o fato de as elites políticas, que detinham o poder (e, muitas 
vezes, eram os representantes máximos do Estado), terem plena consciência da 
importância de não fomentar uma identidade racial e meio a uma sociedade racial e 
desigualmente estruturada. 
Não por acaso, boa parte dos órgãos de repressão que foram criados 
contaram com a participação efetiva da população pobre e, muitas vezes, negra 
e mestiça. Muitos capitães-do-mato eram homens de cor livres, que ganhavam 
a vida capturando escravizados negros foragidos. O Terço dos Henriques (uma 
milícia armada do período colonial formada apenas por homens negros e 
mestiços) era um corpo militar frequentemente solicitado quando o assunto era 
o desmantelamento de mocambos e quilombos. Ainda que negros e mestiços 
fossem vistos como seres inferiores, era fundamental que existisse uma 
diferenciação dentre eles para que o fomento de uma identidade racial não 
acontecesse. Dito de outra forma, uma maneira eficaz de manter a ordem 
escravista no Brasil colônia e no Brasil Império era organizar forças de 
repressão compostas por homens negros (livres e libertos). Essa foi uma lição 
que o Estado brasileiro aprendeu muito bem, e que foi adaptada para a 
experiência republicana, até porque, quando organizadas de acordo com os 
interesses que visavam à manutenção dos privilégios, a presença negra e 
mestiça nesses órgãos de repressão garantiam que o lado mais frágil das duas 
pontas às ações policiais fossem pessoas negras. 
Voltando para o período colonial, é possível afirmar que uma das maiores 
heranças legadas para o Império do Brasil foi a escravidão negra. Isso significa dizer 
reconhecer não só a dependência queo Brasil tinha em relação ao trabalho realizado 
pelos escravizados, como também pontuar que essa dependência criou uma 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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sociedade na qual o oposto de ser escravo era ser senhor de escravos. Isso mesmo: 
no Brasil, uma das condições mais almejadas durante séculos era ser proprietário de 
alguém, e esse alguém sempre era uma pessoa negra. 
Essa era uma condição tão entranhada na sociedade brasileira que, em meio a 
uma das transformações políticas mais significativas da nossa história – o Processo 
de Independência em 1822 -, as elites brancas do país refizeram o pacto em nome da 
escravidão e da segurança de seu lugar como proprietário de escravizados. Essa 
talvez tenha sido a maior aposta daquele período; o Brasil, independente e soberano, 
apostava na escravidão para o futuro. 
Contudo, é preciso ressaltar que, quando o Brasil se tornou um país 
independente, a escravidão era uma instituição combatida não só pelos escravizados, 
mas também por um movimento abolicionista crescente. No início do século XIX, a 
Inglaterra (que havia sido a maior traficante de africanos escravizados do mundo) se 
tornou uma espécie de bastião da causa abolicionista, pressionando seus parceiros 
comerciais a abolirem a escravidão. Um dos países pressionados foi Portugal. O rei 
português D. João VI criou diferentes estratégias diplomáticas para adiar ao máximo 
a abolição do tráfico transatlântico para o Brasil. A principal razão para isso era que o 
rei luso precisava atender aos interesses de seus súditos, e os mais ricos súditos 
brasileiros daquele momento eram os traficantes. 
Na verdade, o que se observa no período joanino (1808-1821) era um incremento 
do tráfico transatlântico para o Brasil. Dito de outra forma: nunca tantos africanos 
escravizados entraram nos portos brasileiros. D. Pedro I herdou de seu pai o 
compromisso em abolir o tráfico transatlântico, e assim como ele tentou adiar essa 
tarefa ao máximo, porque para governar seu novo Império, precisava atender às 
demandas e exigências de seus súditos mais importantes e ricos: os traficantes e os 
senhores de escravos. 
Desse modo, como bem colocado pelo historiador Luis Felipe de Alencastro: o 
Brasil foi uma nação que apostou na escravidão, lançando-a para seu futuro. Foi a 
partir do lugar de senhor de escravo que as elites brasileiras se reconheceram e 
construíram o Império do Brasil. Essa foi uma aposta tão pactuada que fez com que 
essas mesmas elites e o Estado Nacional brasileiro se colocassem contra uma lei que 
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havia sido elaborada e promulgada pelo Congresso do país. Explico: depois de anos 
de pressão, em 1831 o governo regencial finalmente assinou a lei que abolia o tráfico 
transatlântico no Brasil. Os principais portos de desembarque foram desativados e 
políticos mais progressistas comemoraram o feito. No entanto, a crescente demanda 
do mercado internacional pelo café brasileiro fez com que os cafeicultores (muitos 
deles políticos brasileiros) exercessem forte pressão pela reabertura do tráfico. Em 
1835, num grande acordo entre cafeicultores e esses políticos, o tráfico transatlântico 
de escravizados foi reaberto, só que essa reabertura se deu na ilegalidade com a 
anuência do Estado Nacional. Entre 1835 e 1850, mais de 800 mil africanos 
escravizados entraram no Brasil, a despeito das leis do próprio país. 
Esse acordo é uma das maiores provas do peso que a escravidão exerceu no 
Brasil Independente (por meio de uma escolha deliberada das elites do país), e da 
responsabilidade que o Estado Nacional brasileiro (independente e soberano) teve na 
manutenção do tráfico e na propagação da escravização ilegal de africanos em 
território nacional. A constatação dessa ilegalidade do Estado foi um dos principais 
argumentos para que, em 2012, o Supremo Tribunal Federal fosse convencido da 
necessidade em aprovar as cotas raciais nas universidades brasileiras. Essa 
aprovação era o reconhecimento da implicância do próprio Estado frente às piores 
condições econômicas, sociais e políticas que a população negra tinha - uma 
população que era descendente de homens e mulheres negros que foram ilegalmente 
escravizados. 
A aprovação da Lei de Cotas foi um importante ato de responsabilização do 
Estado na luta contra a desigualdade racial. Entender a formação das forças policiais 
no Brasil e como elas foram operadas a mando de uma classe senhorial escravista, 
que comungava com os pressupostos do racismo científico, é outra importante forma 
de tal Estado se responsabilizar pela sua implicância e manutenção de práticas 
racistas. Esse será o tema de nossas próximas aulas. 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
31
 AULA 3 - O NASCIMENTO DA POLÍCIA MILITAR EM MEIO A UMA 
SOCIEDADE ESCRAVISTA E RACISTA. 
A história da polícia no Brasil começa antes mesmo de o Brasil existir enquanto 
uma nação independente e soberana. Durante a longa experiência colonial, a ideia de 
policiamento se fez sentir de diferentes formas, a depender das características dos 
lugares em questão - uma variação que dizia muito sobre a diversidade e 
complexidade que compunham as diversas regiões da colônia. De maneira geral, a 
função policial ficou a cargo de ações conjuntas do vice-rei e ouvidores gerais, e 
também sob a responsabilidade dos governadores de capitanias. É preciso lembrar 
que uma dimensão importante da ideia de policiamento se fez sentir na materialidade 
e organização urbanística das vilas e cidades, que tinham as cadeias como um dos 
edifícios que representavam a presença do poder colonial. 
 
No entanto, foi apenas no contexto da transferência da Corte 
portuguesa que temos a criação das duas primeiras instituições policiais do 
Brasil: a Intendência Geral da Polícia da Corte, criada em 1808, e a Guarda 
Real de Polícia, fundada em 1809, ambas no Rio de Janeiro, que se tornava 
a nova sede do Império lusitano. Como pontuado pelo historiador Marcos 
Bretas, esses foram os “primeiros organismos públicos a carregarem o 
nome e a acepção de polícia” (BRETAS, 1997, p.167). 
 
A Intendência Geral da Polícia da Corte do Brasil foi instituída pelo Príncipe 
Regente D. João, por meio do Alvará de 10 de maio de 1808. A instituição tinha as 
mesmas atribuições da Intendência existente em Lisboa, que, por sua vez, havia sido 
inspirada no modelo francês de policiamento. O objetivo de D. João era criar uma 
instituição que não só garantisse a ordem e a boa administração da nova Corte, mas 
que também tivesse condições de manter a segurança do Império português frente a 
possíveis espiões franceses de Napoleão – que, naquele momento, era inimigo 
declarado de Portugal. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
32
Não por acaso, o Intendente Geral de Polícia da Corte tinha status de ministro, 
ficando responsável por: 
 
“todos os órgãos policiais do Brasil [...], inclusive, sobre ouvidores 
gerais, alcaides mores e pequenos, corregedores, inquiridores, 
meirinhos e capitães de estradas e assaltos. Era também sua tarefa 
a organização da Guarda Real de Polícia da Corte. Em resumo, as 
atribuições da Intendência Geral cobriam as funções de justiça, de 
governo e de administração interna.” (MINAYO, SOUZA, 
CONSTANTINO, 2008, p.44) 
 
Sem sombra de dúvidas, a Intendência se tornou um dos órgãos administrativos 
de maior importância na nova Corte portuguesa, pois também ficavam a cargo da 
instituição os assuntos ligados às obras públicas, à segurança coletiva e pessoal, a 
vigilância da população, a investigação de crimes e a punição de criminosos. Durante 
o período Joanino (1808-1821), o rei tinha reuniões quase diárias com Paulo 
Fernandes Vianna, o primeiro homem a ocupar o cargo de Intendente da Polícia da 
Cortedo Brasil. 
As informações sobre a Guarda Real são mais escassas. Criada em 13 de maio 
de 1809 para auxiliar a Intendência Geral de Polícia da Corte, essa instituição era uma 
força policial uniformizada de tempo integral, que tinha autoridade judicial sobre delitos 
menores, tendo como funções principais perseguir os criminosos e manter a ordem. 
Tanto a Intendência Geral de Polícia da Corte como a Guarda Real foram mantidas 
após o processo de Independência do Brasil. Os historiadores Marcos Bretas e 
Thomaz Holloway apontam que essa seria a Instituição que fundou a Polícia Militar no 
Brasil, dando as bases para a implementação de políticas públicas acerca da 
segurança nacional, como bem demonstra a promulgação do Código Criminal em 
1830. 
Em 1831, a Guarda Real foi extinguida pelo Regente Antônio Feijó. Vale lembrar 
que esse foi um ano especialmente atribulado na história política do país, marcado 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
33
pela abdicação de D. Pedro I e o início do Período Regencial (1831-1840). Um dos 
momentos de tensão se deu justamente no Rio de Janeiro, quando tropas rebeldes 
de Guarda Real participaram de motins que, dentre outras coisas, reivindicava o fim 
dos castigos físicos contra os negros pertencentes às corporações. 
Em resposta a esse movimento, e imbuído de princípios liberais que preconizavam 
uma percepção mais racial e humanizada de segurança pública, o Regente Feijó 
extinguiu a Guarda Real, substituiu-a pelo Corpo de Guardas Municipais Permanentes 
por meio da lei de 10 de outubro de 1831. A lei determinava que: 
 
 Art. 1º O Governo fica autorizado para criar nesta Cidade um Corpo de 
guardas municipais voluntários a pé e a cavalo, para manter a tranquilidade 
publica, e auxiliar a Justiça, com vencimentos estipulados, não excedendo o 
número de seiscentas e quarenta pessoas, e a despesa anual a cento e 
oitenta contos de réis. 
 
 Art. 2º Ficam igualmente autorizados os Presidentes em Conselho para 
criarem iguais corpos, quando assim julguem necessário, marcando o 
número de praças proporcionado. 
 
 Art. 3º A organização do corpo, pagamento de cada indivíduo, a nomeação 
e despedida dos Comandantes, as instruções necessárias para a boa 
disciplina, serão feitas provisoriamente pelo Governo, que dará conta na 
futura sessão para a aprovação da Assembleia Geral. 
 
 Art. 4º Ficam revogadas todas as Leis em contrário. Manda, portanto, á 
todas as Autoridades, a quem o conhecimento, e execução da referida Lei 
pertencer, que a cumpram, e façam cumprir, e guardar tão inteiramente como 
nela se contém. O Secretario de Estado dos Negócios da Justiça a faça 
imprimir, publicar e correr. Dada no Palacio do Rio de Janeiro aos dez de 
Outubro de mil oitocentos trinta e um, decimo da Independência e do Império. 
 
 
 
Como é possível observar, o Corpo de Guardas Municipais era uma organização 
paramilitar e civil, remunerada, uniformizada e cujo alistamento era voluntário. – e que 
por isso é considerada a instituição que deu origem à Polícia Militar no Brasil. À 
semelhança de outras instituições policiais existentes na Europa, Feijó desejava que 
as Guardas Municipais tivessem uma atuação menos bruta, agindo de modo a 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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prevenir e reprimir delitos vinculados ao cotidiano da vida na Corte, apostando numa 
maior e melhor proximidade com a sociedade civil - a ideia era mesmo vigiar e punir 
(quando necessário). Ainda que essa fosse uma instituição policial permanente e 
uniformizada, o Regente Feijó fez questão de desvinculá-la do Exército, colocando-a 
como atribuição do Ministério da Justiça, definindo melhores soldados e garantindo a 
proibição de castigos físicos. 
As principais funções do Corpo de Guardas Municipais Permanentes eram: 
 autorizar e se responsabilizar por eventos públicos, controlando e prendendo 
pessoas que estivessem em agitações; 
 revisitar pessoas suspeitas; 
 prender quem estivesse cometendo crimes; 
 controlar o ajuntamento de pessoas; 
 realizar patrulhas na cidade, tanto no centro, como nos subúrbios. 
 
Como a lei de 1831 deixava entrever, outras províncias do Império também 
poderiam criar suas próprias Guardas Municipais Permanentes. A preocupação com 
as ações policiais do Império também se fez sentir com a criação da Guarda Policial 
em 1833, um corpo armado constituído a partir de voluntários locais cujas ações 
estavam atreladas aos juízes de paz de cada distrito, apresentando uma dimensão 
descentralizada das ações policiais. Tal dimensão foi ratificada com o Ato Adicional 
de 1834, que definia a maior autonomia provincial na administração de sua polícia. 
O que se observa a partir de então é que o Corpo de Guardas Municipais 
Permanentes e a Guarda Policial passam a existir nas províncias do Brasil, embora 
as duas instituições se estruturassem de formas distintas. Assim, cito Bruna Teixeira: 
 
“A Guarda Policial Permanente deveria atuar como a força de polícia da 
capital e sublinhar apenas as localidades provinciais que estivessem sua 
ordem perturbada [...]a administração da Guarda Municipal Permanente 
era feita diretamente entre presidente de província e comandante do corpo. 
Já a Guarda de Polícia era a força das demais localidades provinciais, ou 
sejam a instituição se configurou como inúmeros corpos de polícia 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
35
espalhados pelo interior e litoral provincial. Nesse sentido, sua 
administração era feita de maneira a envolver além do presidente da 
província e comandante do corpo, uma série de agentes locais, como juiz 
de paz, prefeito, delegado, subdelegado, chefe de polícia e ainda as 
Câmaras Municipais.” (TEIXEIRA, 2019 p. 36) 
 
A partir de 1835, as diferentes províncias do Império do Brasil fizeram uso da 
autonomia garantida pelo Ato Adicional e criaram suas Guardas Municipais 
Permanentes e suas Guardas Policiais, cujas atuações foram marcadas pelas 
especificidades de cada província. 
No entanto, a perspectiva liberal de atuação da Polícia que o Regente Feijó 
defendeu na implementação da Guarda Municipal e da Guarda Policial ficou distante 
daquilo que se via nas ruas das vilas e cidades do Império. Em primeiro lugar, é 
importante pontuar quem eram os homens que compunham essas guardas: em 
ambos os casos, o que observamos são instituições formadas por homens pobres e 
de baixa instrução. Além disso, ao entrarem nessas corporações, esses homens não 
experimentaram nenhum tipo de ascensão social ou mudança real de status social. 
Outra questão que diferenciava a teoria da prática era o fato de a maior parte dos 
alistados não serem voluntários, mas homens jovens que foram recrutados, por meio 
da força, a fazerem parte de uma instituição que continua lhes pagando mal, o que, 
em grande parte, explica por que a maioria deles deixava a instituição depois dos 3 
anos “obrigatórios” de serviços. Também, é preciso sublinhar que não havia uma 
formação sistemática dentro dessas corporações, cujos membros atuavam a partir de 
uma espécie de “senso comum” compartilhado. 
Desse modo, a ideia de uma polícia que fosse racional e cuja atuação se desse 
por meio da vigilância não aconteceu. O que se observa, ao longo do século XIX, é a 
atuação de uma polícia mal remunerada (por vezes vítima de castigo físico), com 
pouquíssima instrução e que fazia uso da força e da brutalidade na sua forma de agir. 
Um dos exemplos notórios disso ocorreu quando a Guarda Permanente esteve sob o 
comando do major Luís Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias. Além de 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
36
sufocar duas rebeliões – fazendo uso deliberado da violência, o então major também 
redefiniu as atribuições das duas corporações recém-criadas. 
A força e a brutalidadedas ações policiais ficavam especialmente evidentes no 
trato das forças policiais com a população escravizada e negra do Império. Conforme 
visto na Aula 2, até meados do século XIX, o Brasil foi uma sociedade que se 
organizou por meio da escravidão. Tanto foi assim, que a pessoa escravizada era o 
tipo de propriedade privada mais adquirido, até mesmo dentre a população mais pobre 
(que conseguia comprar um escravizado a prazo). Assim, boa parte das ações 
policiais tinham, como objetivo, controlar a população escravizada, sobretudo nas 
grandes cidades do país. 
Thomas Holloway, um dos primeiros historiadores a se debruçar sobre a história 
da Polícia no Brasil, aponta que, ao longo do século XIX, no Rio de Janeiro (capital do 
país), grande parte do trabalho da polícia se concentrava na vigilância, no controle e 
na punição da população escravizada. Essa não era uma tarefa simples, pois os 
escravizados chegaram a compor de 30 a 40% da população desses centros urbanos, 
e eram a mão-de-obra primordial para o funcionamento das cidades, trabalhando 
principalmente nas ruas e em espaços públicos. Dessa maneira, a polícia precisava 
atuar com cautela para que mantivesse a ordem, sem ferir o direito que todo cidadão 
brasileiro tinha naquela época em ter um escravizado e tratá-lo como bem quisesse. 
Essa era uma equação difícil de ser executada, porque a alta concentração de 
escravizados nas maiores cidades do Brasil fazia com que esses fossem espaços 
potencialmente perigosos. Fuga de escravizados, maltas de capoeiras, constituições 
de mocambos e quilombos, pequenos motins, e até mesmo rebeliões foram 
protagonizados nesses espaços, o que fazia com que a preocupação com a população 
escravizada fosse constante. A imagem abaixo é uma litogravura que foi feita pelo 
artista britânico Augustus Earle, que esteve no Brasil na década de 1820. A obra 
retrata um jogo de capoeira jogado, provavelmente, por escravizados da cidade do 
Rio de Janeiro que estava prestes a ser interrompido pela ação de um soldado da 
Guarda Real. 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
37
Figura 3 - Capoeira (Rio de Janeiro c. 1820) 
 
Fonte: Augustus Earle, Negroes fighting, c. 1820, Biblioteca Nacional da Austrália. Disponível em: 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Augustus_Earle#/media/Ficheiro:CapoeiraEarle.JPG. 
 
Uma das medidas tomadas foi a proibição de ajuntamentos de mais de três 
escravizados, e também o controle daqueles que trabalhavam nas ruas. 
Contudo, essa medida cautelar não era suficiente e, para manter a ordem na 
Corte, a partir da década de 1820, a polícia passou a ter o direito legal de punir 
os escravizados que praticassem capoeiragem, bem como açoitá-los, de acordo 
com as leis municipais, e aprisioná-los no Calabouço (uma prisão específica para 
a população escravizada, localizada no Morro do Castelo). 
Se isso não bastasse, é fundamental lembrar que, mesmo numa sociedade 
marcada pela escravidão racializada, como o Brasil, população escravizada e 
população negra não eram sinônimos. Isso porque existia um percentual significativo 
de negros e negras que eram homens e mulheres livres e libertos, muitos deles 
cidadãos e trabalhadores brasileiros, que se somavam aos escravizados na execução 
das mais variadas atividades cotidianas. Nos grandes centros urbanos, era muito 
difícil distinguir, dentre a população negra, quem era escravizado e quem era livre. 
Sendo assim, umas das estratégias de policiamento desenvolvidas ainda na 
década de 1820, foi tratar a população negra como sinônimo de escravizada, por meio 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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do princípio da suspeição generalizada. Todo(a) negro(a) poderia ser um 
escravizado(a) e, por isso mesmo, deveria ser tratado(a) como suspeito(a). Dito de 
outra forma, primeiro se prendia a população negra para, depois, averiguar se a 
pessoa em questão era ou não escravizada. No Rio de Janeiro, o coronel Miguel 
Nunes Vidigal e seus granadeiros ficaram conhecidos por conta do policiamento 
ostensivo e da repressão truculenta contra a população negra, uma prática que se 
estendeu a outras corporações policiais do Brasil. Embora essas ações não 
contassem com aporte legal e, em tese, fossem criticadas pelo alto escalão dos 
órgãos policiais, pouco - ou nada - foi feito para impedir o uso desmedido de violência 
contra a população negra. 
Ações de natureza semelhantes aconteceram durante as décadas de 1870 e 
1880, quando o movimento abolicionista brasileiro cresceu e ganhou maior adesão da 
população brasileira. Enquanto o Exército brasileiro se posicionou favorável à pauta 
abolicionista, ainda na década de 1870, as forças policiais foram amplamente 
utilizadas pelo Estado Nacional para tentar frear essa onda que inundava o Brasil. O 
uso desenfreado da força física e da brutalidade se tornaram frequentes nas tentativas 
de contenção e repressão dos Comícios Abolicionistas feitos em espaços públicos. E, 
não por acaso, as maiores vítimas dessas ações continuavam sendo homens e 
mulheres de pele preta, pouco importante se eram ou não escravizados. A imagem 
abaixo foi tirada da Revista Illustrada, um importante veículo do Movimento 
Abolicionista. A ilustração representa as forças policiais da província de São Paulo 
tentando controlar uma fuga de escravizados, orquestrada em conjunto com 
abolicionistas de Campinas. 
Figura 4 - Policiais da Província de São Paulo tentando impedir a fuga de escravizados em Campinas 
 
Fonte: Revista Illustrada. Rio de Janeiro: [s.n], ano 12, n. 468, 1887. Disponível em 
http://www.memoriaescravidao.rb.gov.br/revista_ilustrada.php?pg=4 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
39
Na realidade, como veremos na próxima aula, ao longo do século XIX, o racismo 
científico foi uma pseudociência que não só legitimou a brutalidade e truculência 
contra negros e negras, como ofereceu uma falsa sustentação moral e científica para 
que tais ações acontecessem. Além disso, os pressupostos dessa ciência irreal 
ordenaram as ações policiais, não só no século XIX, como em boa parte do século 
XX. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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AULA 4 - RACISMO CIENTÍFICO E SUA CAPILARIDADE NO BRASIL: 
O NASCIMENTO DO MITO DA DEMOCRACIA RACIAL 
 
Raça é um conceito que teve diferentes definições ao longo da história. Conforme 
visto na nossa Aula 2, por muito tempo esse conceito esteve atrelado às explicações 
do mundo elaboradas pela Igreja Católica, uma das instituições mais poderosas da 
humanidade, e que, por séculos, teve papel central no desenvolvimento e na 
disseminação do conhecimento em todo o Ocidente. Contudo, a partir do final do 
século XVIII, o movimento Iluminista catapultou a ciência como novo sistema de 
explicação do mundo. Foi neste contexto que surgiu o racismo científico. 
O legado do Iluminismo desempenhou um papel crucial no desenvolvimento do 
racismo científico, uma pseudociência que defendia que a humanidade estava dividida 
em raças biologicamente definidas, ressaltando, ainda, que essas raças não eram 
iguais entre si. Haveria uma escala evolutiva entre a raça humana mais primitiva e 
inferior (a negra) até a raça humana mais evoluída e superior (a branca), e a 
organização do mundo deveria se dar a partir dessa percepção. Os pressupostos do 
racismo científico legitimaram uma série de ações violentas e criminosas da nossa 
história, de forma que cito aqui três exemplos: o processo de invasão e colonização 
da África, da Ásia e Oceania; experimentos científicos e a criação de campos de 
concentração em algumas localidades do continente africano; e também o holocausto 
judeu e cigano na Segunda Guerra Mundial. 
Não podemos esquecer que foi no contexto do racismo científico que a 
eugenia foi desenvolvida.Essa foi uma pseudociência desenvolvida por Francis 
Galton, em 1883, que almejava realizar mudanças genéticas entre os seres humanos, 
a fim de selecionar apenas os melhores exemplares. As premissas da escola 
determinista, especialmente aquelas que promoviam a superioridade de uma raça em 
particular, estabeleceram a ideia de que o progresso só seria alcançado em 
sociedades puras, sem mistura racial, e que apenas uma raça, a ariana, estava 
destinada à perfeição. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
41
Vale lembrar que o racismo científico foi desenvolvido em países europeus 
e nos Estados Unidos por homens brancos. Esse é um ponto fundamental que não 
pode ser “naturalizado”, caso queiramos compreender a organização de um sistema 
de explicação da humanidade que era falho, não só por partir de uma premissa 
equivocada, mas também por não seguir os métodos científicos de análise, já que 
havia manipulação dos dados empíricos coletados para que eles apontassem para 
conclusões previamente concebidas. Dito de outra forma: boa parte dos cientistas da 
época faziam experimentos e manipulavam os resultados para que eles 
comprovassem as teses que eles defendiam. E, como bem sabemos, não é assim que 
se produz ciência. 
 
 
Era um sistema quase perfeito: homens brancos (europeus 
em sua maioria) desenvolveram uma nova mentalidade, na qual a 
liberdade e a igualdade eram entendidas como conceitos que 
definiam a experiência humana. Para dar conta da ‘grandiosidade’ 
do mundo que criavam, eles consideravam suas experiências como 
universais, tomando a si próprios como exemplares dessa 
humanidade que ansiava progresso” SANTOS, 2022, p. 
 
Ao longo do século XIX, inúmeras ações violentas reafirmaram a desumanização 
de determinados grupos humanos, reforçando a ideia de superioridade branca. 
Zoológicos humanos e caçadas humanas são exemplos de que o racismo científico 
se transformou em prática, e que essa prática foi sinônimo de violência, morte e 
extermínio. 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
42
Figura 5: Militar britânico Gordon Robley e sua coleção de cabeças humanas tatuadas e secas (1895) 
 
Fonte: Henry Stevens (1843-1925) (original photo). Requested image credit: Wellcome Images. - Wellcome 
Library, London. 
Disponível em: 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Horatio_Gordon_Robley#/media/Ficheiro:Robley_with_mokomokai_collection_2.jpg 
 
 
Embora o racismo científico tenha sido abertamente combatido a partir das 
décadas de 1930, não podemos negar que, por muito tempo, essa pseudociência foi 
entendida como verdade absoluta, servindo de sustentação moral do racismo como 
um sistema de poder. Por isso, é necessário compreendermos, com mais calma, 
alguns pressupostos básicos do racismo científico para entendermos o papel que ele 
desempenhou no Brasil e as heranças que ele deixou. 
Conforme dito, ao longo do século XIX, esse tipo de racismo teve status de ciência 
e, por isso, suas proposições tiveram grande impacto na produção do saber e, 
sobretudo, na legitimação do racismo. 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
43
 
A fim de suplantar os dogmas da Igreja Católica, uma das perguntas 
centrais que o racismo científico tentou responder foi a possível origem da 
humanidade. Duas correntes de pensamento foram desenvolvidas a fim de 
responder essa questão: monogenistas e poligenistas. 
Na batalha das ideias, monogenistas e poligenistas se enfrentavam. Enquanto os 
primeiros acreditavam que todos os seres humanos tinham a mesma origem e que as 
diferenças entre eles eram apenas resultado da proximidade com o Éden (teoria 
apoiada pela Igreja), os poligenistas, embasados em estudos científicos recentes (e 
falhos), defendiam a existência de diferentes centros de surgimentos e 
desenvolvimento para os distintos grupos humanos. 
O debate ganhou novo fôlego com a chegada do livro "A origem das espécies", 
de Charles Darwin, em 1859. A partir daí, o conceito de raça passou por duas 
mudanças significativas. Por um lado, o termo raça saiu do campo da Biologia e se 
estendeu para discussões culturais e políticas. Por outro lado, começou a ser 
associado à ideia de evolução, sendo distorcido ou "adaptado" pelas correntes 
científicas e filosóficas que debatiam a origem do homem (monogenismo e 
poligenismo) de acordo com suas próprias conveniências. 
Os poligenistas passaram a considerar a espécie humana como diferentes 
espécies dentro do gênero humano, e a diversidade cultural passou a ser vista como 
diferença entre essas espécies. A humanidade foi dividida e hierarquizada, e quanto 
mais distante uma "espécie" estivesse da outra, melhor para todos. No entanto, os 
poligenistas se viram confrontados com a questão da miscigenação, que não se 
encaixava em sua lógica de análise. Surgiram perguntas, como "o que fazer com 
os grupos mestiços?" e "como conciliar a miscigenação com a evolução das 
raças humanas?" 
A maioria dos estudiosos e cientistas europeus e americanos, como Broca, 
Gobineau e Le Bon, consideravam a miscigenação um erro, uma quebra das leis 
naturais e uma subversão do sistema, que poderia criar sub-raças inferiores. Como 
Lilia M. Schwarcz destaca, 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
44
 
os mestiços exemplificavam, segundo essa última interpretação, a diferença 
fundamental entre as raças e personificavam a ‘degeneração’ que poderia 
advir do cruzamento de espécies diversas”. (SCHWARCZ, 1993, p.56) 
 
Para os eugenistas, a miscigenação era vista como algo irracional e em oposição 
às "leis naturais". A eugenia atendia aos interesses políticos, tanto da Europa, quanto 
dos Estados Unidos. Os europeus acreditavam que eram um grupo humano puro, livre 
de miscigenação, mais próximo da perfeição e, por essa razão, responsáveis pela 
civilização dos demais grupos. Esse argumento justificou e legitimou a colonização 
americana e o "imperialismo europeu", além do conceito do "fardo do homem branco". 
Por outro lado, os americanos, mesmo tendo sido colonizados pela Grã-Bretanha, 
acreditavam que haviam comprovado seu desenvolvimento através da eugenia, 
principalmente por terem evitado a miscigenação entre os brancos dominantes e os 
negros escravizados. Por isso, também estavam destinados ao progresso e à 
civilização. Como veremos adiante, essa foi uma pedra de toque para as elites 
intelectuais do Brasil da época, que diferentemente do que acontecia na Europa, 
precisavam examinar e lidar com uma sociedade reconhecidamente miscigenada. 
Junto com a condenação da miscigenação humana, a visão poligenista abriu 
caminho para o fortalecimento de disciplinas baseadas no discurso científico. 
Podemos elencar aqui: 
a) Antropologia Criminal - pseudociência que tem, por objeto, o estudo do 
criminoso conforme suas características anatômicas e psíquicas e as 
repercussões do ambiente social na atividade do delinquente; 
b) Antropometria – um ramo da Antropologia que media os corpos humanos 
correlacionando essas medidas com comportamentos sociais e raciais; 
c) Craniologia – uma subárea da Antropologia do século XIX que estudava o 
tamanho dos crânios correlacionando essas medidas com comportamentos 
sociais e raciais; 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
45
d) Frenologia – uma teoria do comportamento humano baseada na crença de 
que o caráter e as faculdades mentais de um indivíduo se correlacionavam com 
o formato da sua cabeça. 
Essas falsas ciências ganharam grande relevância e exerceram forte impacto na 
sociedade, sobretudo no que diz respeito à segurança pública e policiamento. Nomes 
de cientistas, como Andrés Retzius, Paul Broca e Cesare Lombroso ficaram famosos 
na época graças à divulgação de seus estudos que estabeleciam relaçõesdiretas 
entre as características fenotípicas dos sujeitos e suas propensões “naturais” para 
determinados comportamentos (inclusive criminosos). 
Os sistemas policiais de diferentes partes do Ocidente foram diretamente 
impactados por essas pseudociências. Vale dizer que o século XIX foi marcado pela 
maior presença e importância dos órgãos de polícia no controle e punição da 
sociedade, sobretudo nos centros urbanos - que cresciam significativamente tanto na 
Europa, como nas Américas. Estudos feitos na área da Frenologia e Antropologia 
Criminal prometiam auxiliar os órgãos de segurança pública, na medida em que eles 
informavam “quais tipos humanos” eram “naturalmente” mais propensos ao crime, 
desse modo fazendo uso desses estudos, as forças de segurança poderiam se 
preparar ou até mesmo antever possíveis crimes. O médico italiano Cesare Lombroso 
chegou a afirmar que existiriam rostos típicos de criminosos, e que a Antropologia 
Criminal (pseudociência que ele criou) ajudaria a definir esses tipos. 
A imagem abaixo mostra alguns dos estudos feitos com a medição de crânios, 
cujas conclusões eram utilizadas pela polícia. 
Figura 6 – Uma ilustração anatômica da Frenologia 
 
Fonte: “Dictionnaire pittoresque d'histoire naturelle et des phenomenes de la nature" - 1833/1834. 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
46
E o Brasil nisso tudo? 
Assim como em outras partes do mundo, o Brasil foi diretamente impactado pelo 
racismo científico. Se, por um lado, o pressuposto da inferioridade de negros, 
quilombolas e indígenas não era uma novidade no Brasil (graças ao longo passado 
de colonização e escravização), o racismo científico oferecia novas explicações, não 
só para a manutenção da escravidão de africanos e seus descendentes, mas também 
para a manutenção de políticas de extermínio ou de marginalização da população 
indígena. 
Durante a vigência da escravidão, parte das teorias do racismo científico 
formataram a ideia de que a população negra era inferior e biologicamente perigosa. 
Exemplo disso está no fato de que os senhores de escravizados, que defendiam a 
permanência da escravidão e do tráfico transatlântico de escravizados – apesar das 
pressões inglesas e do Movimento Abolicionista –, passaram a dizer que a escravidão 
era uma condição que civilizava os africanos e seus descendentes, e que, portanto, a 
escravidão era uma espécie de ação humanitária que salvaria os africanos da barbárie 
existente em seu continente de origem. E, aqui, vale uma pequena reflexão: o racismo 
científico defendia que os africanos eram tão inferiores na escala evolutiva, que 
estavam mais próximos aos símios do que aos homens brancos. 
Não por acaso, um dos principais xingamentos racistas que vigoram 
até os dias de hoje é chamar um homem ou uma mulher negra de macacos, 
uma herança direta deste período. 
A violência existente em boa parte das ações policiais contra a população negra, 
tinha agora argumentos “científicos”. A própria ideia de que todo negro era um 
suspeito em potencial ganhou ainda mais força, porque o racismo científico 
corroborava com esse pressuposto, defendendo que a condição biológica e 
inferiorizada da população negra a enveredava para o caminho do crime. Sendo 
assim, o racismo científico deu um “verniz científico” para as atrocidades que já eram 
cometidas contra as populações negras e indígenas, além de tomá-las como objetos 
de análise científica, como demonstra a imagem abaixo. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
47
Figura 7 - Galeria de tipos negros fotografados por Alberto Henschel. Pernambuco, 1869 
 
Fonte: “Convénio brasilianafotografica.bn.br/ Instituto Moreira Salles - Leibniz-Institut für 
Länderkunde”. 
Disponível em: https://www.brmais.net/blog/o-racismo-cientifico 
 
Outra implicação fundamental do racismo científico no Brasil diz respeito à 
formação da intelectualidade nacional. Os homens que foram considerados os 
grandes pensadores do Brasil da época, e as instituições que eles formaram 
compactuaram com a ideia da existência da desigualdade das raças humanas. 
Museus, faculdades de Medicina e de Direito, Institutos Históricos e Geográfico 
desenvolveram pesquisas e elaboraram explicações sobre o Brasil que tinham o 
racismo como ponto de partida. 
Um dos exemplos mais contundentes da força que o racismo científico exerceu 
na formação da própria ideia de Brasil pode ser observada na escolha que foi feita 
para se contar a história do país. Em 1843, o Instituto Histórico e Geográfico no Brasil 
(IHGB) promoveu um concurso para definir como a história do Brasil deveria ser 
narrada. O vencedor deste concurso foi o médico e naturalista alemão Von Martius, 
que viveu alguns anos no Brasil. Ele produziu um documento no qual justificava as 
bases a partir das quais a ideia de Brasil deveria ser construída. Segundo ele: 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
48
 
 
Qualquer um que se encarregar de escrever a Histó-ria do Brasil, 
país que tanto promete, jamais deverá perder de vista quais os elementos 
que aí concorreram para o desenvolvimento do homem. São, porém, estes 
elementos de natureza muito diversa, tendo para a formação do homem 
convergido de um modo particular três raças, a saber: a de cor de cobre 
ou americana, a branca ou caucasiana, e enfim a preta ou etiópica. Do 
encontro, da mescla, das relações mútuas e mudanças dessas três raças, 
formou-se a atual população, cuja história por isso mesmo tem um cunho 
muito particular. [...] Pode-se dizer que cada uma das raças humanas 
compete, segundo a sua índole inata, segundo as circunstâncias debaixo 
das quais ela vive e se desenvolve, um movimento histórico e característico 
particular. [...] O sangue português, em um poderoso rio, deverá absorver 
os pequenos confluentes das raças Índias e Ethiopica (VON MARTIUS, 
1845, pp. 64-65). 
 
 
Em uma tacada só, Von Martius (esse pensador e cientista europeu) resolvia boa 
parte dos problemas da intelectualidade brasileira. Por um lado, ele apresentava o 
Brasil como um país multirracial, se distanciando das perspectivas negativas que o 
determinismo científico europeu pregava. Por outro, ela reforçava que os portugueses 
eram superiores aos outros grupos raciais que compunham a matriz brasileira. Para 
Von Martius, o Brasil nascia da confluência de três raças humanas, e isso era 
potencialmente positivo. No entanto, Martius compartilhava o pressuposto de que 
havia uma hierarquia entre essas raças: como ele mesmo disse, o sangue poderoso 
era o português, e era ele que deveria absorver os pequenos confluentes dos negros 
e dos indígenas. 
Não por acaso, a proposta de Von Martius foi bem recebida e amplamente 
propagada em todo Brasil, tendo papel fundamental na criação do Mito da Democracia 
Racial, uma teoria equivocada, que defende que o Brasil é um país multirracial sem 
racismo. Esse é um ponto que será analisado com mais cuidado no Módulo II deste 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
49
curso. Todavia, é fundamental sublinhar que a ideia que o Brasil seria uma espécie 
de paraíso racial, no qual as três raças viveriam de forma harmoniosa e pacífica, 
surgiu no século XIX, durante a vigência do racismo científico como quadro teórico 
que explicava o mundo. O que ocorreu ao longo do século XX foram atualizações 
deste mito. Ter a dimensão histórica da construção do Mito da Democracia Racial é 
um indicador crucial na compreensão de como o Brasil, e a própria ideia de brasilidade 
foram conformados a partir de pressupostos abertamente racistas numa história que 
tem quase 200 anos. 
Além disso, engana-se quem imagina que o racismo científico só vigorou no Brasil 
durante a o período da escravidão. O que observamos após a Abolição da Escravidão 
em 1888 é um Estado Nacionale elites política e intelectual eminentemente brancas, 
desenvolvendo novos modelos explicativos e políticas públicas, que seguiam 
apostando na desigualdade entre as raças e na supremacia branca. E, como será 
tratado na última aula deste módulo, assuntos correspondentes à segurança pública 
e ao policiamento seguiram sendo aspectos especialmente reveladores dessa lógica 
racista. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
50
AULA 5 - O NASCIMENTO DA REPÚBLICA EXCLUDENTE 
 
Os mais de 300 anos de escravidão tiveram papel fundamental na maneira como 
o racismo se estruturou no Brasil. O intenso volume do tráfico transatlântico - 
fundamentado na falsa ideia da inferioridade das sociedades africanas -, permitiu que, 
no Brasil, a escravidão fosse uma propriedade privada significativamente acessível, 
até mesmo para as pessoas mais pobres. Junto a isso, o fato da escravidão moderna 
ser racializada fez com que a experiência negra ficasse colada à condição escrava, 
mesmo frente à existência e ao crescimento da população negra livre. Criou-se um 
círculo vicioso, no qual negritude e escravidão pareciam espelho um do outro, fazendo 
com que a liberdade da população livre de cor fosse marcada pela precariedade, 
estando sempre a perigo. 
Se não bastasse as justificativas religiosas, espirituais e morais criadas pela Igreja 
Católica, ao longo do século XIX, a legitimação da escravidão negra ganhou mais um 
grande aliado: o racismo científico. Essa pseudociência determinava a inferioridade 
inata dos africanos e seus descendentes, uma premissa que foi muito bem utilizada, 
não só para manter a escravidão, mas também para garantir que, mesmo em 
liberdade, o negro soubesse qual era o seu lugar. 
Apesar dessa estrutura racial e racista, no mesmo século, a histórica luta negra 
por liberdade encontrou, no Abolicionismo, um grande aliado pelo fim da escravidão. 
É verdade que, muitas vezes, esse aliado comungava da premissa que os negros 
estavam num degrau abaixo da escala da evolução humana - temos alguns exemplos 
de importantes abolicionistas de pele preta que defendiam a inferioridade da 
população negra. No entanto, não há como negar que o Abolicionismo, primeiro 
grande movimento social da história, teve papel crucial para que a tenebrosa 
instituição finalmente fosse abolida em 13 de maio de 1888. 
Mas… o que aconteceu a partir do 14 de maio de 1888? 
É profundamente perverso que grande parte da população brasileira 
simplesmente não tenha aprendido nada sobre as experiências negras no pós-
abolição. No entanto, é preciso dizer que o silenciamento do negro na história do Brasil 
foi uma atitude proposital daqueles que estavam à frente da Primeira República. Na 
lógica do racismo estrutural que nos ordenou - e ordena -, é interessante que as vidas 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
51
e trajetórias negras no Brasil estejam circunscritas apenas à escravidão. Esse 
apagamento das histórias negras na experiência republicana e cidadã do país é mais 
uma faceta do racismo estrutural, que segue ditando quais lugares a população negra 
deve estar. E, no caso da história brasileira, esse lugar é a escravidão. O 
silenciamento sistemático sobre a população negra no período após a abolição 
também máscara um dos grandes projetos levados a cabo pelas elites e pelo Estado 
Nacional brasileiro: as exclusões social, econômica e política da população negra e a 
tentativa escancarada de embranquecer o país. 
Uma das heranças que o Brasil Império deixou para o Brasil República foi a 
crença de que uma nação só seria moderna e civilizada caso ela seguisse o 
modelo europeu. Não podemos ignorar que a abolição da escravidão em 1888 e 
a Proclamação da República em 1889 foram transformações significativas na 
história brasileira. A ausência do imperador simbolizou a descentralização do 
poder em prol do federalismo. A separação da Igreja também foi notável, 
estabelecendo o caráter laico do Estado. Novos grupos sociais, especialmente a 
alta cúpula militar, emergiram como detentores de poder político e o exercício da 
cidadania não era mais sombreado pela escravidão. Todavia, a transição do 
regime Imperial para o republicano não resultou em uma sociedade mais inclusiva 
e democrática. Ao contrário disso, nos primeiros 40 anos da experiência 
republicana no Brasil, foi estabelecido um Estado que manteve as exclusões 
racial, social e política como bases da sua força motriz central. 
Conforme mencionado, essa manutenção estava alicerçada no racismo científico, 
que continuava pautando boa parte das ações do Estado nacional e das elites 
políticas, econômicas e intelectuais do país. O fim da escravidão não significou uma 
compreensão igualitária da população negra. Na realidade, uma das questões centrais 
que esteve na agenda do Estado republicano era o que fazer com os negros, 
indígenas e mestiços do Brasil, já que eles eram entendidos como obstáculos para o 
desenvolvimento e a civilização nacional. Foi nesse contexto que a política do 
embranquecimento foi desenhada. 
É possível pontuar que essa política teve duas grandes ações que estavam 
completamente interligadas. A primeira delas foi o desenvolvimento de uma política 
massiva de imigração europeia para o Brasil. A segunda foi a criação de uma série de 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
52
dispositivos cujos objetivos eram dificultar que a população negra pudesse se inserir 
na sociedade de classes e usufruir dos direitos cidadãos - o que, em tese, estavam 
assegurados pela Constituição de 1891. Como ainda veremos, as forças policiais 
tiveram função importante nessa segunda ação desenhada pelo Estado Nacional 
republicano. Mas comecemos pela política de imigração. 
Entre a década de 1890 e 1930, milhares de imigrantes europeus chegaram ao 
Brasil para compor a mão de obra de um país que tentava entrar na "era do 
progresso". O argumento econômico para justificar o financiamento dessas milhares 
de viagens (custeadas pelo Tesouro Nacional) consistia na necessidade de substituir 
a mão de obra escrava pelo trabalho livre e assalariado. Nesse período, foi 
amplamente divulgado que os egressos do cativeiro se recusariam a trabalhar no 
campo, preferindo uma vida distante de qualquer coisa que os lembrasse da 
escravidão, e o trabalho era uma delas. Essa justificativa é profundamente 
tendenciosa e mascara uma condição que marcou os últimos anos de vigência da 
escravidão no Brasil: às vésperas da abolição da escravidão, apenas 15% da 
população negra era escravizada. Os outros 85% eram homens e mulheres que, como 
não podiam deixar de ser, eram trabalhadores. E mais: grande parte desses 
trabalhadores e trabalhadoras tiveram papel central a organização sindical do Brasil, 
como no caso dos estivadores negros do Rio de Janeiro. 
Vale destacar que, nesse momento, centenas de povos indígenas e quilombolas 
já ocupavam terras, no entanto não tiveram o mesmo reconhecimento para a 
legalização dessas. Ao contrário, foram e continuam sendo expropriados, violentados 
e desumanizados por, historicamente, resistirem, ocuparem e preservarem esses 
territórios. Ao mesmo tempo em que o Estado-nação criava mecanismos de 
legalização de terras para os imigrantes europeus, criava barreiras impeditivas para o 
acesso à terra por parte dos ex-escravizados. Um exemplo que podemos observar é 
a Lei de Terras, de 18501, e, posteriormente, o Estatuto de Terras, de 19642. As 
normas aqui mencionadas provam que o grande objetivo do Estado era impedir que a 
 
1 Disponível em: 
https://legislacao.presidencia.gov.br/atos/?tipo=LIM&numero=601&ano=1850&ato=8350TPR9EeJRVT
7f0, 
2 Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1950-1969/D55891.htm 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL53
população negra pudesse ser proprietária de terras, aumentando ainda mais as 
desigualdades entre negros e brancos. 
Cabe, então, a pergunta: por que não aproveitar esse contingente nacional de 
trabalhadores e trabalhadoras brasileiros(as) (negros, em sua maioria)? Para 
responder a essa pergunta, precisamos entender que a política de imigração foi 
pensada dentro de uma lógica abertamente racista, que, conforme dito, queria tornar 
o Brasil um país branco, à imagem e semelhança da Europa Ocidental. Isso fica 
evidente já no primeiro parágrafo da Lei de Imigração de 1890: 
 
 
 Art. 1º E' inteiramente livre a entrada, nos portos da República, dos 
indivíduos válidos e aptos para o trabalho, que não se acharem 
sujeitos á acção criminal do seu paiz, exceptuados os indigenas da 
Asia, ou da Africa que sómente mediante autorização do Congresso 
Nacional poderão ser admittidos de accordo com as condições que 
forem então estipuladas. 
 
A República brasileira não tinha nem experimentado seu primeiro processo 
eleitoral, mas já estabelecia que africanos não eram bem-vindos como trabalhadores 
livres. O mesmo país que recebeu quase 5 milhões de africanos escravizados se 
recusava a receber africanos sob o signo da liberdade. 
Essa recusa foi uma das tantas formas por meio das quais o racismo 
científico se fez presente na formulação de políticas públicas brasileiras. Vale 
dizer que, nesse período, os principais intelectuais brasileiros mantinham uma defesa 
fervorosa da inferioridade inata dos africanos. O médico Raimundo Nina Rodrigues 
(1862-1905), considerado pai da medicina legal do país, era um dos maiores 
expoentes dessa perspectiva, e exerceu forte influência, tanto nos cursos de Medicina 
Legal, como de Direito Penal - áreas fortemente marcadas pelos pressupostos do 
racismo científico. 
Sua crença no primitivismo dos negros era tamanha que Rodrigues chegou a 
elaborar um documento chamado As Raças Humanas e a Responsabilidade Penal no 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
54
Brasil (1894), no qual ele propunha alterações no código penal brasileiro com o 
argumento de que, pelo fato de os negros terem uma tendência natural para o crime, 
eles deveriam ter penas diferenciadas, pois não teriam “culpa” de sua natureza 
criminosa. Segundo Nina Rodrigues: 
 
A civilização ariana está representada no Brasil por uma fraca 
minoria da raça branca a quem ficou o encargo de defendê-la, não só 
contra os atos antissociais – os crimes – dos seus próprios 
representantes, como ainda contra os atos antissociais das raças 
inferiores, sejam estes verdadeiros crimes no conceito dessas raças, 
sejam ao contrário manifestações do conflito, da luta pela existência entre 
a civilização superior da raça branca e os esboços de civilização das 
raças conquistadas, ou submetidas. (RODRIGUES, 1957, p. 43) 
 
O documento não foi aprovado, no entanto ele guarda aspectos que eram 
abertamente comungados dentre as elites brasileiras. De tal modo, eram necessárias 
duas medidas distintas: enquanto a imigração europeia apontava para o futuro 
(promissor) da nação brasileira, as ações dos órgãos de repressão do país deveriam 
garantir que a ordem e o progresso, estampados na bandeira brasileira, se 
efetivassem em meio a uma população formada por homens e mulheres de raças 
inferiores, passíveis de atos selvagens e criminosos. 
Ainda sobre a política de imigração, vale pontuar que ela foi divulgada oficialmente 
pelo Estado brasileiro durante o Congresso Mundial das Raças, que aconteceu em 
Londres, em 1911. Nessa ocasião, e a mando do presidente Hermes da Fonseca, o 
antropólogo João Lacerda apresentou para mundo a política de embranquecimento: 
 
 
as constantes levas de imigrantes europeus jovens iriam se relacionar 
com as mulheres negras e mestiças do país, resultando em crianças com 
a pele e os traços cada vez mais brancos. Na idade adulta, essas 
crianças mestiças se casariam com outros imigrantes – por isso a 
imigração era vista como uma política de média duração -, branqueando 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
55
ainda mais a geração seguinte. Num intervalo de 4 gerações, os estudos 
apontavam que o percentual de negros no país chegaria a zero. Além de 
abertamente racista, essa política partia do princípio da subalternidade 
das mulheres negras e mestiças (ditas apenas como “reprodutoras” para 
o alcance do embranquecimento), e da exclusão sistêmica dos homens 
negros. (SANTOS, 2022) 
 
Por meio de estudos "antropológicos" e demográficos, Lacerda garantia que a 
entrada massiva de imigrantes brancos, europeus e católicos, que estavam mais 
afeitos a terem relações sexuais e afetivas com as mulheres negras e indígenas, 
extinguiria a população negra no país. 
 
Figura 8 - Infográfico apresentado por Lacerda no Congresso Mundial das Raças, 1911 
 
Fonte: LACERDA, João Baptista de. Informações prestadas ao Ministro da Agricultura Pedro de Toledo. Rio 
de Janeiro: Papelaria Macedo, 1912 
Além da disseminação nacional da inferioridade negra e da execução, por mais 
de 3 décadas, de uma política pública que tinha por objetivo eliminar o negro da 
sociedade brasileira, a política de embranquecimento e imigração também acabou por 
macular, propositalmente, a imagem do trabalhador negro. Na verdade, essa política 
acabou criando uma relação quase que exclusiva entre trabalho livre e assalariado e 
trabalhadores negros, dificultando significativamente a entrada desses no mercado de 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
56
 
trabalho, que era não só disputado, como também racialmente hierarquizado. Essa 
dimensão fica especialmente evidente nos anúncios de jornais feitos por muitos 
empregadores, que tinham clara preferência em empregar brancos. 
Não por acaso, a população negra, especialmente os homens negros, viveram 
grandes dificuldades em conseguir emprego. Essa dificuldade acabava deixando 
poucas opções para esses homens, que, muitas vezes, viviam de “bicos” trabalhos 
sazonais intercalados por tempo ocioso, pobreza, alcoolismo e, em alguns casos, 
loucura. 
Embora saibamos que questões, como loucura e alcoolismo, têm razões sociais 
muito mais determinantes do que possíveis predisposições genéticas, não era isso 
que era defendido nos primeiros anos da nossa república. Sendo assim, os órgãos de 
repressão do Estado brasileiro, ordenados pela perspectiva racista do Estado, 
respondiam com truculência e violência àquilo que eles entendiam como distúrbio da 
ordem. Vale lembrar que o Código Criminal vigente na época, tipifica a vadiagem como 
crime. E quais eram os homens mais propensos a serem vadios, por terem maiores 
dificuldades para conseguir empregos? Os homens negros. Não é coincidência que a 
maior parte das prisões por vadiagem vitimaram homens negros, aumentando, assim, 
um circuito fechado: 
negros eram inferiores > por isso tinham maior dificuldade em conseguir 
empregos > muitos ficavam na ociosidade > muitos eram presos por vadiagem 
> a prisão por vadiagem corroborava sua inferioridade e propensão a 
comportamentos que poderiam levar a execução de crimes. 
Era um fechamento que corroborava com uma máxima existente desde o período 
da escravidão: todo negro é um criminoso em potencial e por isso deve ser 
tratado como suspeito. E não era só a polícia que prendia um número cada vez 
maior de homens (e também mulheres) negros. Conforme dito, alcoolismo e loucura 
eram comportamentos que foram relacionados diretamente à inferioridade inata 
da população negra. De tal modo, o começo do século XX foi marcado pelo 
encarceramento compulsório da população negra em instituições asilares, como os 
hospícios e as colônias. Ainda que essa tenha sido uma prática mais frequente nas 
primeiras décadas da República, como uma das marcas da implementação de 
SUSPE O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
57
políticas higienistas e sanitárias, a ideia falaciosa que negros tinham mais propensão 
à loucura atravessou todo o século XX, como bem demonstra o livro "O Holocausto 
brasileiro", de Daniela Arbex. 
No entanto, não eram só os negros considerados vadios que estiveram na mira 
frequente da polícia. As expressões culturais de matriz africana eram entendidas 
como práticas que perturbavam a ordem, colocando a segurança em perigo, além de 
serem vistas como expressões de selvageria e barbárie. Nesse sentido, espelhando 
as crenças e práticas racistas que organizavam o Estado Nacional brasileiro, as 
instituições policiais entendiam que a capoeira, os terreiros de Candomblé e de 
Umbanda, as rodas de samba e as práticas de cura de matriz africana deveriam ser 
combatidas, pois não se enquadraram nos padrões civilizatórios almejados. 
Não restam dúvidas de que a população negra criou uma série de estratégias para 
lutar contra a agenda racista implantada pela Primeira República. A história do Brasil 
também é fruto dessas lutas, e nós somos herdeiros delas. Mas a ordenação 
racista do país conseguiu manter algumas máximas, e aqui cito duas: a primeira delas 
é a suspeição generalizada contra a população negra (quer pelos órgãos policiais, 
quer pelo sistema de Justiça), que segue sendo vista como potencialmente criminosa; 
a segunda é a desumanização sistemática e naturalizada da população negra 
que, como apontado no início deste módulo, faz com que pessoas negras sejam as 
maiores vítimas dos confrontos policiais, independentemente do lado em que elas 
estejam. Essa manutenção se fez sentir nas estratégias de repressão e tortura 
desenvolvidas durante a Ditadura Militar, no encarceramento em massa que vivemos 
hoje, no assassinato de jovens negros a cada 23 minutos e nas ações policiais mal 
planejadas que, frequentemente, resultam na morte de civis (negros em sua maioria). 
Reconhecer essa manutenção e entender que ela está atrelada a um sistema de 
poder cuja história é longa e violenta, é o primeiro passo para a responsabilização e 
a execução de mudanças efetivas. Se a polícia e demais órgãos de segurança pública 
foram ensinados a enxergarem e tratarem as populações negra e indígena de maneira 
desumanizada e potencialmente criminosa, essa mesma polícia e esses mesmos 
órgãos podem e devem ser treinados a reconhecer e respeitar a humanidade e 
cidadania desses grupos, por meio do combate das desigualdades raciais que ainda 
nos ordenam. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
58
 
Nos últimos anos, houve uma profunda e importante revisitação crítica 
da história brasileira, trazendo a questão racial para o centro do debate. Além 
de uma importante produção historiográfica (parte dela consta na bibliografia 
do curso), indico, aqui, outras ferramentas midiáticas que nos ajudam a 
entender mais e melhor a nossa história: 
 
 Podcast “Projeto Querino” (Rádio Novelo) 
Link: https://projetoquerino.com.br/ 
 
O que é racismo estrutural? Silvio Almeida 
Link: https://www.youtube.com/watch?v=PD4Ew5DIGrU 
 
 Documentário “Menino 23” (Infâncias Perdidas) 
Link https://www.youtube.com/watch?v=7wHNxOohoPA&t=10s 
 
Documentário “Atlântico Negro: na rota dos Orixás” 
Link: https://www.youtube.com/watch?v=7m0Ifj0YfAQ 
 
 Projeto Passados-Presentes (LABHOI-UFF) 
Link:http://passadospresentes.com.br/ 
 
Projeto Salvador Escravista 
Link: https://www.salvadorescravista.com/ 
 
Museu Afro-Brasil Emanoel Araujo 
Link:http://www.museuafrobrasil.org.br/o-museu/apresentacao 
 
 
 
 
 
 
Saiba mais! 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
59
FINALIZANDO 
Neste módulo, você aprendeu: 
 o conceito de racismo estrutural e de pacto racial, que ordenou a 
modernidade, incluindo o Brasil; 
 o peso que a escravidão teve na história do Brasil e como ela foi uma 
instituição que estruturou nossa história por mais de 300 anos; 
 os pressupostos do racismo científico e como eles tiveram papel fundamental 
na construção da ideia de brasilidade; 
 como a Primeira República manteve uma lógica racista que marginalizou e 
criminalizou compulsoriamente a população negra. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
60
 MÓDULO II – LETRAMENTO E SENSIBILIZAÇÃO ANTIRRACISTA 
APRESENTAÇÃO DO MÓDULO 
Cara (o) aluna (o), 
Nesta parte, trabalharemos alguns conceitos que permeiam as relações 
raciais no Brasil e buscaremos fazer um chamado para uma prática antirracista a 
partir do entendimento das tecnologias e processos nos quais o racismo impede o 
bem viver da população negra. 
Além disso, refletiremos sobre a segurança pública como um direito para a 
população negra, e fazer, dos agentes, um instrumento garantidor dele. 
OBJETIVOS DO MÓDULO 
Este módulo tem, por objetivo: 
 evidenciar o fenômeno do racismo nas relações sociais, nos discursos cotidianos 
e nas práticas institucionais. 
ESTRUTURA DO MÓDULO 
Este módulo compreende as seguintes aulas: 
Aula 1 - O mito da democracia racial e suas implicações contemporâneas; 
Aula 2 - Estigma, estereótipo e violência racial; 
Aula 3 - Branquitude, branqueamento e as hierarquias de humanidade; 
Aula 4 - O antirracismo como prática. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
61
AULA 1 – O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL E SUAS IMPLICAÇÕES 
CONTEMPORÂNEAS 
O Brasil é frequentemente exaltado por sua suposta harmonia racial, sendo 
aclamado como um país em que a diversidade étnica convive pacificamente. Esse 
mito da "democracia racial" tem sido amplamente debatido e criticado por diversos 
autores, que apontam para a persistência do racismo estrutural e suas consequências 
no presente. Nesta parte do curso, exploraremos a origem desse mito, os principais 
autores que o questionaram e as implicações contemporâneas do racismo no Brasil. 
 
O mito da democracia racial no Brasil tem suas raízes no século XIX, quando 
intelectuais, como Gilberto Freyre, desenvolveram a ideia de que a convivência 
amigável entre raças foi possibilitada pela miscigenação. Freyre, em sua obra 
"Casa-Grande & Senzala", descreveu a relação paternalista entre senhores e 
escravizados como uma base de convivência harmônica, ignorando a 
brutalidade e desigualdades subjacentes. 
Entretanto, a origem do mito da democracia racial no Brasil não se limita 
apenas às obras de Gilberto Freyre. Outros autores também contribuíram para 
a formação dessa narrativa, que enaltecia a convivência supostamente pacífica 
entre diferentes grupos étnicos. Vamos, agora, explorar alguns desses autores 
e suas perspectivas. 
 
Antes de Gilberto Freyre, Silvio Romero foi um dos primeiros intelectuais a 
explorar a ideia de harmonia racial no Brasil. Em sua obra "História da Literatura 
Brasileira", de 1888, ele enfatizou a mestiçagem como uma característica única da 
sociedade brasileira, sugerindo que isso contribuía para a ausência de conflitos 
raciais. No início do século XX, Oliveira Vianna, em sua obra "Populações Meridionais 
do Brasil", de 1920, também abordou a suposta pacificação racial no Brasil. Ele 
argumentou que a miscigenação resultava em uma população homogênea, 
Palavra do Especialista 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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minimizando as tensões raciais. No entanto, sua perspectiva também continha traços 
de elitismo, ao considerar a "branqueza" como um indicador de progresso. 
Aqui, reside uma das principais questões do mito da democracia racial e suas 
implicações, pois, ao se defender, de forma errônea, que a miscigenação é fruto de 
uma convivência harmoniosa entre as raças, ignora-se a escravização, seus efeitos e 
as dificuldades encontradas pela população negra no pós-escravização.Além disso, 
a miscigenação é enxergada como uma forma de embranquecimento da população, 
já que seria, também, uma maneira de apagar os traços negros através das gerações. 
Esses mecanismos de produção de desigualdades raciais foram construídos de 
tal forma que asseguraram, aos brancos, as posições mais altas na hierarquia social, 
sem que isso fosse encarado como privilégio de raça. Isso porque a crença da 
democracia racial isenta a sociedade brasileira do preconceito e permite que o ideal 
de liberdade e igualdade de oportunidades seja apregoado como realidade. Desse 
modo, a ideologia racial oficial produz um senso de alívio entre os brancos, que podem 
se isentar de qualquer responsabilidade pelos problemas sociais identificados como 
dos negros. 
Compreendemos, então, que o contexto multirracial brasileiro propicia mediações 
bastante diferenciadas para a constituição de sujeitos e, portanto, para a subjetividade 
de brancos e não brancos. A marca dessa diferença e dessa desigualdade perpassa 
toda socialização desses indivíduos, seja em casa, na escola e na rua, por exemplo. 
Além disso, em todos os espaços públicos e na justiça criminal observa-se a 
supervalorização da branquitude e a preferência do branco em relação ao não branco. 
Ao longo do século XX, diversos autores refutaram o mito da democracia racial, 
trazendo à tona a realidade das desigualdades raciais no Brasil. Destacam-se autores, 
como Florestan Fernandes e Abdias do Nascimento, que ressaltaram a persistência 
do racismo e suas ramificações nas estruturas social e econômica do país. Fernandes, 
em "A integração do negro na sociedade de classes", argumentou que as barreiras 
econômicas e educacionais perpetuavam a marginalização de pessoas negras. 
O mito da democracia racial no Brasil, uma construção que, durante muito tempo, 
obscureceu as profundas desigualdades raciais, está sendo cada vez mais desafiado 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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por autores e movimentos sociais. As implicações contemporâneas do racismo 
continuam a afetar a vida dos afrodescendentes, destacando a necessidade de ações 
efetivas para promover a igualdade racial. Somente através de uma análise crítica 
do passado e do compromisso com mudanças reais será possível superar as 
barreiras que impedem uma sociedade verdadeiramente justa e inclusiva para 
todos. Portanto, o que se busca não é apenas a igualdade, e sim a equidade. 
As vozes críticas dos autores contemporâneos têm desafiado, vigorosamente, o 
mito da democracia racial no Brasil. Suas análises, ancoradas em dados históricos 
e sociológicos, têm revelado a persistência do racismo estrutural e as 
desigualdades que afetam a população negra. Ao questionar a narrativa de 
harmonia racial, esses autores têm contribuído para uma compreensão mais profunda 
das questões raciais no país e para a promoção de ações que buscam a justiça social 
e a igualdade para todos. 
O "mito da democracia racial", a título de reforço, é um conceito que se refere à 
ideia falsa de que a sociedade é igualitária e livre de discriminação racial, 
especialmente em relação à população negra. Esse mito, que é historicamente 
difundido, tem profundas implicações cotidianas para encobrir as diversas 
desigualdades e injustiças raciais que persistem na sociedade. Os efeitos práticos 
dele, para a população negra, podem ser bastante prejudiciais e abrangentes, 
afetando diversos aspectos de suas vidas. Cito estes efeitos: 
Invisibilidade das desigualdades: 
o mito da democracia racial contribui para a invisibilização das desigualdades 
raciais existentes. Ao perpetuar a ideia de que não há discriminação racial, a 
sociedade pode ignorar ou minimizar os problemas enfrentados pela população 
negra, como acesso limitado à educação de qualidade, empregos dignos, serviços 
de saúde adequados e oportunidades econômicas; 
 
Negligência institucional: 
a crença no mito da democracia racial pode levar a uma negligência por parte das 
instituições governamentais e privadas em abordar questões específicas que 
afetam a população negra. A falta de políticas públicas eficazes para combater a 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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discriminação racial e promover a igualdade pode perpetuar a exclusão social e 
econômica; 
 
Naturalização da discriminação: 
o mito pode levar a uma aceitação passiva da discriminação racial. As pessoas 
podem acreditar que, uma vez que a sociedade é "racialmente democrática", 
quaisquer disparidades são resultado das escolhas individuais ou capacidades, 
ignorando os obstáculos estruturais e sistêmicos que contribuem para essas 
disparidades; 
 
Estigmatização e preconceito: 
a crença no mito da democracia racial pode, também, reforçar estereótipos e 
preconceitos. As pessoas podem acreditar que a população negra está em uma 
posição de igualdade, o que pode aumentar a culpabilização por situações de 
pobreza, violência ou falta de oportunidades, sem considerar os fatores históricos 
e sociais que contribuíram para essas condições; 
 
Sub-representação e falta de voz: 
a ideia de que a igualdade racial já foi alcançada pode desencorajar a participação 
da população negra em processos políticos e de representação. Isso resulta em 
sub-representação nos governos, instituições e mídia, o que limita a influência e a 
capacidade de abordar as questões que afetam diretamente essa população; 
 
Impacto psicológico: 
o mito da democracia racial pode causar um impacto psicológico negativo na 
população negra. Ao enfrentar constantemente a negação de suas experiências, 
de sua estética, de sua história e lutas. As pessoas podem desenvolver sentimentos 
de inadequação, raiva, inferioridade e alienação, além de enfrentar questões de 
identidade e autoestima, ao passo que a população branca continua mantendo 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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seus privilégios: aceitação com ser universal, status de poder e de dominação que, 
em muitos casos, são transformados em opressões contra as pessoas negras; 
 
perpetuação do ciclo de desigualdade: 
a sociedade, ao não reconhecer a existência de desigualdades raciais e não tomar 
medidas para combatê-las, faz com que o mito da democracia racial contribua para 
a perpetuação do ciclo de desigualdade ao longo das gerações. A falta de 
oportunidades e acesso a recursos impede o progresso social e econômico da 
população negra. 
 
Em resumo, o mito da democracia racial tem efeitos práticos profundamente 
prejudiciais para a população negra, perpetuando a discriminação, as desigualdades e as 
injustiças. Reconhecer a existência desses problemas e trabalhar ativamente para 
superá-los é fundamental para alcançar uma sociedade mais justa e igualitária. 
Enfrentar as implicações contemporâneas do racismo exige uma abordagem 
multidimensional. Além de políticas afirmativas, é necessário um esforço contínuo para 
educar a sociedade sobre as raízes históricas do racismo e sua influência nas estruturas 
atuais. Iniciativas de conscientização e diálogo intercultural podem ajudar a desconstruir 
preconceitos arraigados. 
 
 
 
 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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AULA 2 – ESTIGMA, ESTEREÓTIPO E VIOLÊNCIA RACIAL 
A ideia de racializar os estudos que pretendem analisar a segurança pública e o 
direito penal não é nova, há um vasto lastro bibliográfico e diversas correntes de 
pensamento que se debruçaram nesse tipo de análise. Dentre esses, destacam-se os 
estudos conhecidos como “Teoria Crítica da Raça”, uma doutrina jurídica que se 
desenvolveu gradualmente a partir dos anos de 1970, nos Estados Unidos da 
América, em resposta à morosidade da jurisprudência do país em produzir reformas 
raciais significativas por meio das decisões em litígios acerca de direitos civis. 
Aproposta central da Teoria, segundo HARRIS (2002), é a compreensão da 
relação de constituição recíproca entre raça e direito, bem como considerar a 
possibilidade de que este último “produz, constrói e constitui o que se entende por 
raça, não só em domínios em que a raça é explicitamente articulada, mas também 
naqueles nos quais a questão racial é silenciada ou desconhecida”. 
A contribuição da Sociologia nessa análise se dá principalmente na compreensão 
da ideia de que o racismo não é um comportamento considerado anormal, mas é 
experienciado diariamente na sociedade, nas instituições e nas estruturas de poder 
dessa. Nesse sentido, destaca-se a análise do sistema de supremacia branca 
(white-over-color ascendancy) que, de acordo com PIRES E SILVA: 
 
“Funciona como uma espécie de sistema de convergência de interesses, fazendo 
com que o racismo, de um lado, implique a subalternização e destituição material 
e simbólica dos bens sociais que geram respeito e estima social aos negros – ciclo 
de desvantagens – e, de outro, coloque os brancos imersos em um sistema de 
privilégios assumido como natural, como norma.” (PIRES e SILVA, p. 66) 
 
Vários estudos se debruçaram na aplicação desigual de regras e procedimentos 
jurídicos para diferentes grupos sociais, com maior ou menor grau de enfoque racial. 
Especificamente no campo da justiça criminal, destacam-se os estudos pioneiros de 
Coelho (1987), Ribeiro (1995), Adamo (1983), Fausto (1984), Adorno (1996) e Kant 
de Lima (2004). As conclusões desses apontaram que, em relação à seletividade 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
67
racial, nos períodos analisados, aos negros eram aplicadas penas mais severas em 
comparação aos brancos, e que a estrutura judicial brasileira privilegiava esse tipo de 
conduta. 
Um exemplo desse tipo de tratamento está nos estudos de VARGAS (1999), que 
verificou que, em crimes de estupro, na fase judicial do oferecimento da denúncia, a 
porcentagem de brancos e negros acusados é próxima, entretanto, na fase da 
sentença, há mais condenação para pretos e pardos. Publicada nos anos 2000, uma 
pesquisa da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) analisou todos 
os registros criminais relativos aos crimes de roubos, no estado de São Paulo, entre 
1991 e 1998. A constatação foi que réus negros são, proporcionalmente, mais 
condenados que réus brancos e permanecem, em média, mais tempo presos durante 
o processo judicial (LIMA; TEIXEIRA; SINHORETTO, 2003). 
A análise proposta neste módulo do curso calca-se a compreender o racismo 
como um elemento sistêmico, como uma secreção histórica. É importante ser 
ressaltado que ele, portanto, não é unicamente um problema de relações 
interpessoais, nem de valores morais ou religiosos, e muito menos de simples 
preconceitos, “mas um sistema coerente de dominação, com uma enorme 
longevidade que lhe permite ser elástico, totalmente transversal e abrangente” 
(MOORE, 2007). O entendimento do racismo como um sistema nos permite analisar 
as desigualdades raciais e a seletividade punitiva a partir da compreensão que há 
uma apropriação monopolística das instituições, dos recursos e da própria liberdade 
pelo fenótipo branco em detrimento do não branco, em especial o preto. 
O racismo é um elemento estruturante na constituição do Brasil, com amplos 
efeitos no desenvolvimento do país, e é objeto de constantes atualizações. Qual o 
impacto do racismo na forma de se fazer, pensar e elaborar políticas de 
segurança? Para debater a atuação policial e das forças de segurança como um todo, 
é necessário compreender que toda instituição está situada em uma determinada 
cultura, com determinados valores e práticas. As polícias não estão apartadas da 
sociedade na qual estão inseridas, entretanto as instituições podem ser, também, 
indutoras de novas formas de se pensar e agir em busca de uma sociedade melhor. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
68
 
É por isso que refletir sobre as desigualdades raciais é um caminho importante para 
uma prática policial mais justa, efetiva e transformadora. 
Nesse caminho, é importante afirmar que, quando estamos falando de raça, não 
estamos o fazendo do ponto de vista biológico. A ciência, através dos estudos sobre 
genética, já provou que não há diferenças significativas entre pessoas negras, 
brancas e indígenas que justifiquem algum nível de diferenciação genética. Se não há 
essa diferença biológica, o que faz com que, do ponto de vista histórico e social, as 
diferentes raças estejam em posições sociais desiguais? A população branca – 
embora também existam brancos pobres – permanece em vantagem em todos os 
indicadores sociais, e a população negra, em desvantagem econômica, de 
expectativa de vida, de acesso à saúde e aos serviços públicos. 
Há, portanto, uma estrutura social baseada na cor da pele que desiguala e 
estigmatiza cidadãos que não estão no topo da hierarquia, que não são brancos. 
O que está colocado do ponto de vista da criação de estigma, a partir do fenótipo, 
é uma hierarquização de humanidades. “Por definição, é claro, acreditamos que 
alguém com um estigma não seja completamente humano. Nós acreditamos 
nisso. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das 
quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos as chances de vida 
do estigmatizado”. (GOFFMAN, 1981) 
Entretanto, quando fazemos a análise do campo da segurança pública brasileira, 
é possível observar que, historicamente, o marcador raça foi estrategicamente 
invisibilizado na construção das políticas de segurança – mesmo com o índice de 
morte da população negra sendo muito superior ao de pessoas brancas. Acreditou-
se, em boa parte do século XX, que o Brasil vivia uma democracia racial, em que as 
diferentes raças conviviam pacificamente, de forma harmônica, e que, com o passar 
do tempo, já não seria mais possível enxergar qualquer tipo de diferenciação entre 
elas - seríamos uma nação de mestiços. Essa tese, sustentada por importantes 
intelectuais, não envelheceu bem. Todos os dados demonstram que, por um lado, os 
de pele mais escura experimentam a pior parte dos indicadores sociais; por outro, os 
brancos estão em posições de maior estima social, tem mais acesso a direitos básicos 
e possuem a maior renda em relação aos negros. 
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Haver diversidade e diferença não era para ser algo problemático, mas se torna 
quando transformamos atributos de diferença em atributos de desigualdade: esse é o 
ponto sobre como raça incide na produção de hierarquias, porque se transforma em 
desigualdade o que deveria ser apenas diferença. 
As instituições de Segurança Pública têm uma oportunidade e uma 
responsabilidade de – ao ser garantidora da lei – também garantir que ela funcione e 
seja aplicada de forma igualitária, apesar das diferenças. O fazer policial deve, ao 
texto da lei, estar ancorado em garantir que as diferenças não se transformem em 
desigualdades de tratamento e da própria aplicação penal. 
Quando é debatida a ideia de que o racismo é estrutural, traz-se consigo a 
compreensão da ideia de que ele não é um comportamento considerado anormal, 
mas é experienciado diariamente na sociedade, nas instituições e nas estruturas de 
poder dessa. Considerar o racismo como algo aberrante ou pertencente a um 
comportamento individualizado é cair em uma armadilha que consiste em confiná-lo 
a uma questão étnica-moral ou a um problema de relações interpessoais. Ocorre justo 
o contrário: ele é um fenômeno permanente da sociedade, na medida em que cria e 
recria, nos âmbitos estrutural, simbólico e comportamental, todas as condições para 
sua perenidade. 
Portanto, não se trata nem de uma aberração, nem de um acidente. O racismo 
funciona racionalmente em total benefíciode alguns e em absoluto detrimento de 
outros. E, nessa trama, não há lugar para as demandas de compartilhamento 
equitativo dos recursos. Simplesmente, tais exigências se opõem ao próprio modo de 
funcionamento do racismo já convertido em sistema. 
Nesse sentido, o perfilamento racial, que é a abordagem motivada pela cor da 
pele, é uma estratégia arbitrária, desvantajosa, intencional e estratégica, portanto, se 
estratégica, serve para benefício de outrem. Tal perfilamento é, por consequência, 
uma expressão violenta de supremacia racial branca e uma consequência do racismo 
estrutural. É um sistema que tem, em seu cerne, o favorecimento do grupo social 
identificado como branco. É importante destacar que o branco não é apenas o 
favorecido dessa estrutura racializada, mas também é produtor ativo dela, já que, em 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
70
 
sua esmagadora maioria, os gestores tomadores de decisão são auto identificados, 
também, como brancos. 
Esses mecanismos de produção de desigualdades raciais foram construídos 
de tal forma que asseguraram, aos brancos, as posições mais altas na hierarquia 
social, sem que isso fosse encarado como privilégio de raça. 
Esse curso apresenta uma grande inovação aos estudos da Sociologia do Direito 
e na compreensão das questões raciais que balizam nosso sistema jurídico; pensar 
uma estrutura que é racialmente desigual, a partir da branquitude, inverte uma lógica 
acadêmica histórica que trata das questões raciais a partir da normatividade branca e 
do estranhamento com outros grupos sociais. Ademais, os estudos pregressos nesse 
tema consideram a “questão racial” como sendo um problema dos negros, isentando 
o branco da problemática. O Estado não pode ficar em silêncio frente a tudo isso. É 
preciso buscar respostas para combater suas próprias armadilhas, entre elas a da 
criação e do fortalecimento dos privilégios brancos. Assim sendo, criar, efetivar e 
fortalecer políticas públicas voltadas para equidade racial, apresenta-se como um 
caminho viável. 
A desumanização e os estereótipos negativos associados à população negra no 
Brasil são questões profundamente enraizadas que refletem a história e a estrutura 
social do país. Ao longo dos séculos, a construção de uma sociedade racialmente 
hierarquizada gerou uma série de percepções distorcidas e discriminatórias em 
relação aos indivíduos de ascendência africana. Buscaremos, aqui, explorar a 
complexidade desses problemas, analisando suas origens históricas, os impactos 
contemporâneos e as ações necessárias para promover a igualdade e o respeito. 
As raízes dos estereótipos negativos e da desumanização no Brasil remontam ao 
período colonial, quando o sistema escravista foi estabelecido. Durante séculos, 
africanos e seus descendentes foram submetidos a condições desumanas, 
explorados como propriedade e privados de seus direitos mais básicos. A escravidão 
não apenas perpetuou a ideia de inferioridade racial, mas também foi fundamental 
para a construção de narrativas de estereótipos negativos. A justificativa ideológica 
para a exploração baseava-se na crença de que os africanos eram culturalmente 
primitivos e biologicamente subdesenvolvidos. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
71
Os estereótipos negativos enraizados durante a escravidão continuaram a 
influenciar a forma como a população negra é percebida até os dias atuais. Mídia, 
literatura e outras formas de expressão cultural desempenharam um papel crucial na 
disseminação dessas representações distorcidas. A associação de negros à 
criminalidade, preguiça e falta de inteligência criou um ambiente em que indivíduos de 
ascendência africana são frequentemente marginalizados e subestimados. Esses 
estereótipos também se refletem nas práticas de contratação, de acesso à educação 
e de oportunidades econômicas, perpetuando ciclos de desigualdade. 
Os impactos dessas problemáticas são profundamente prejudiciais para a 
população negra. A desumanização pode ser observada nas interações cotidianas, 
em que a população negra é, muitas vezes, tratada com desprezo, hostilidade e 
violência. Isso é evidenciado pelo uso excessivo de força policial, encarceramento em 
massa e altas taxas de homicídios entre negros. Ela também contribui para a 
perpetuação das desigualdades sociais e econômicas, com consequências diretas 
nas oportunidades educacionais e no acesso a empregos dignos, moradia adequada, 
entre outros. Um conjunto de medidas com ênfase em mitigar esses propósitos levará 
o país a um maior desenvolvimento socioeconômico. 
Para superar a desumanização e os estereótipos negativos, é essencial adotar 
uma abordagem abrangente e multidimensional. A educação desempenha um papel 
fundamental na desconstrução desses preconceitos enraizados. Introduzir currículos 
escolares que abordem a história afro-brasileira, de maneira honesta e 
contextualizada, pode promover uma compreensão mais profunda e empática da 
experiência negra. Além disso, é vital que a mídia desempenhe um papel mais 
responsável na representação da população negra, evitando a perpetuação de 
estereótipos prejudiciais para a população negra. 
Humanizar as representações da população negra significa pensá-la em diversos 
contextos: familiares, territoriais, escolares, políticos e regionais, e buscar respostas 
adequadas para cada um deles. Além disso, políticas públicas devem ser 
implementadas para combater o racismo estrutural. Isso inclui a promoção de 
igualdade de oportunidades no mercado de trabalho, a implementação de medidas de 
ação afirmativa e o investimento em programas de capacitação econômica e 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
72
educacional para a população negra. O fortalecimento das leis de combate à 
discriminação racial e o treinamento das forças policiais para prevenir o uso excessivo 
de força também são passos cruciais. Portanto, as forças de segurança são parte 
fundamental para contribuir em um processo de superação do racismo e constituição 
de humanidade plena para a população negra. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
73
AULA 3 – BRANQUITUDE, BRANQUEAMENTO E AS HIERARQUIAS 
DE HUMANIDADE 
A discussão sobre a branquitude e a desumanização da população negra no Brasil 
revela as complexas dinâmicas raciais que permeiam a sociedade brasileira. A 
branquitude, termo que se refere ao privilégio e à perspectiva de quem é branco, 
está intimamente ligada à forma como a população negra é tratada e representada. 
Essa relação entre a branquitude e a desumanização dos negros tem suas raízes na 
história do país, marcada pela escravidão e pela construção de uma hierarquia racial. 
A branquitude se manifesta nas relações sociais, na cultura e nas estruturas 
institucionais, contribuindo para a perpetuação de estereótipos negativos e a 
marginalização da população negra. A ideia de superioridade racial branca foi 
historicamente construída, e isso influenciou na maneira como os negros foram, e 
ainda são, vistos. A desumanização, por sua vez, é uma consequência dessa 
percepção distorcida, na qual os negros são reduzidos a estereótipos que negam sua 
humanidade plena. 
Essa desumanização é observada em diversos contextos, desde em veículos 
midiáticos até a criminalização dos negros em determinados espaços. A mídia, por 
exemplo, muitas vezes, retrata os negros de maneira estigmatizada, associando-os, 
frequentemente, a crimes e a comportamentos negativos. Isso reforça a visão 
equivocada de que a população negra é inerentemente perigosa ou problemática, 
contribuindo para a perpetuação de atitudes preconceituosas. Além disso, esse 
problema se reflete na violência policial e nas altas taxas de encarceramento, que 
afetam, desproporcionalmente,os negros. O preconceito racial, muitas vezes, leva a 
abordagens mais agressivas por parte das autoridades, resultando em tratamentos 
desumanos e injustos. A falta de acesso a oportunidades educacionais e econômicas 
também é uma consequência direta da desumanização, já que a população negra 
enfrenta barreiras sistêmicas que limitam suas perspectivas de crescimento. 
Para combater, tanto a desumanização, quanto a branquitude no Brasil, é 
essencial promover a conscientização sobre a história do racismo e suas ramificações 
atuais. A educação antirracista, prevista pelas leis nº 10.639/03 e 11.645/08, que 
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74
alteraram a lei nº 9394/96, institui o ensino das culturas africana, afro-brasileira e 
indígena nos currículos da Educação Básica no Brasil. Essas políticas podem ajudar 
a desconstruir estereótipos prejudiciais e a criar uma compreensão mais profunda da 
experiência negra e indígena. Além disso, políticas públicas voltadas para a igualdade 
racial, como ações afirmativas e programas de empoderamento econômico, são 
fundamentais para enfrentar as desigualdades estruturais. 
Outro aspecto importante a ser observado, no Brasil, são as cerca de 6 mil 
comunidades quilombolas, espalhadas em todo território nacional, que lutam para 
garantir o direito aos seus territórios, preservando, a partir de suas culturas, os bens 
materiais e imateriais. Uma ação importante, que terá, como consequência, a melhoria 
nas condições de vida desses grupos, é o Estado assegurar o que diz a Constituição 
Federal de 1988: o artigo. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias 
afirma que “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam 
ocupando suas terras, é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado 
emitir-lhes os títulos respectivos”. Nesse sentido, é dever do Estado garantir a 
posse legal das terras dos quilombolas, fazendo com que esses possam se 
desenvolver e acessem uma educação que valorize e fortaleça as identidades, assim 
reduzindo as desigualdades frente aos demais grupos. 
Em resumo, a interligação entre a branquitude e a desumanização da população 
negra, no Brasil, reflete uma história de discriminação e hierarquia racial. A superação 
dessas questões exige um esforço coletivo para reconhecer e desconstruir os 
preconceitos enraizados na sociedade, promovendo uma abordagem mais 
inclusiva e respeitosa para com todas as pessoas, independentemente de sua 
origem étnica. 
O processo de desumanização a que os negros são submetidos há alguns séculos 
nessas terras é irmão siamês de toda violência descomunal que lhe é perpetrada. 
“Ora, se há um modelo ideal de humanidade, que é uma contraposição a quem eu 
sou, logo minha vida é indigna e o meu corpo indesejado.”. Aqui, mora o casamento 
entre as percepções simbólicas criadas pelos brancos a partir do modelo único de 
humanidade e a materialidade brutal do racismo diário. Nesse sentido, existe uma 
simbiose entre aquilo que está na ordem ideológica do sistema de dominação racial e 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
75
a tangibilidade desse sistema, seja através do monopólio das instituições, dos 
símbolos e dos postos de maior estima social, seja em sua face mais perversa, como 
nos assassinatos recorrentes de pessoas negras. 
A violência, portanto, atua como um instrumento de garantia das hierarquias de 
humanidade entre brancos e todos os outros corpos indesejados, racializados e que 
são, por não humanos, indignos de vida. Mas ora, o que está oculto nestas 
classificações de humanidade, por parte da branquitude, é que, ao criar gradientes de 
humanidade, também está́, em contraposição justa, colocando em xeque a sua 
própria. Ao aplicar o conceito de raça ao outro, é inevitável que o outro lhe racialize, e 
esse movimento é a reação necessária para identificar, na sociedade brasileira, o 
grupo que detém o poder. Esses aspectos se diferem das formas hierarquizadas que 
a população negra é, então, racializada. 
Nesse sentido, são muito bem-vindos a emergência de estudos sobre branquitude 
e o debate sobre privilégio branco, pois eles são a outra face da moeda do extermínio 
da população negra, já que não há maior benefício do que poder enxergar o mundo 
através de uma lente que confere, a si mesmo, o referencial daquilo que é desejado. 
O reconhecimento do privilégio branco e a ação sobre ele expressam a via de 
reconstituição daquilo que entendemos como humanidade. Uma agenda sistemática 
de pesquisas e escrutínio sobre a branquitude brasileira nos ajudará a revelar as 
nuances e as características do poder, da dominação e da violência no Brasil. 
Pensar em uma reversão do cenário atroz de violência é apostar em uma 
restauração radical das percepções sobre o sujeito universal. Examinar a branquitude, 
em sua base, e fazer um chamamento à responsabilização de pessoas brancas é uma 
forma de destituir a universalidade da zona do ser e tornar intragáveis políticas 
públicas que neguem a humanidade de não brancos. A branquitude, nesse sentido, é 
um modo de comportamento social, a partir de uma situação estruturada de poder, 
baseada numa racialidade neutra, não nomeada, mas sustentada pelos privilégios 
sociais continuamente experimentados. Portanto, o problema racial no Brasil deve 
ser discutido não como “um problema de negros”, mas como um problema das 
relações entre negros e brancos, pois sua solução certamente envolverá os dois 
grupos. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
76
 
AULA 4 - BRANQUITUDE E VIOLÊNCIA POLICIAL: REFLEXÕES 
SOBRE RACISMO ESTRUTURAL NO BRASIL 
 
A discussão sobre branquitude e violência policial oferece uma lente poderosa 
para analisar as profundas desigualdades raciais presentes na sociedade brasileira. 
A primeira, enquanto privilégio e perspectiva conferidos aos indivíduos brancos, está 
intrinsecamente ligada às dinâmicas de violência policial, que afetam, de forma 
desproporcional, a população negra. Explorar essa conexão é essencial para 
compreender o racismo estrutural enraizado nas instituições do Brasil e para buscar 
soluções que promovam justiça e igualdade. 
A branquitude é moldada por um legado histórico de colonização, 
escravidão e racismo, que persiste até os dias de hoje. Durante a 
colonização, a superioridade branca foi estabelecida como justificativa para a 
exploração de povos indígenas e africanos. Essa ideologia permeou as 
instituições e moldou as estruturas sociais, resultando em uma hierarquia racial 
arraigada. A branquitude manifesta-se de diversas maneiras, desde o acesso 
privilegiado à educação, a emprego e a oportunidades, até a invisibilidade dos 
privilégios raciais. 
 
Os estudos críticos de branquitude 
Branquitude é um conceito criado na década de 1990 e que ganhou aderência 
nos Estados Unidos da América com o nome de critical whiteness studies, cuja 
tradução literal para o português é “estudos críticos da branquitude”. No Brasil, esses 
estudos só ganharam aderência no início do século XXI, a partir da tese de doutorado 
em Psicologia Social de Maria Aparecida Bento, intitulada “Pactos narcísicos no 
racismo: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público", de 
2002. 
A socióloga britânica Ruth Frankenberg (1957 – 2007) propõe que a branquitude 
deve ser compreendida como uma localização social estruturada na dominação. Para 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
77
ela, é um lugar de vantagem estrutural nas sociedades estruturadas na 
dominação racial. Compreender a branquitude como uma localização social implica 
pensá-la como um “ponto de vista”, um lugar a partir do qual os brancos se veem, 
veem os outros e as ordens nacionais e globais, e, a partir daí, emulam a si mesmos 
como uma espécie de norma e/oupadrão de humanidade a ser alcançado. 
A branquitude se insere em um conjunto de práticas, costumes, identidades 
culturais, normas e preceitos não nomeados ou nomeados com categorias globais, 
como nacionalismo, por exemplo. O primeiro estudo que investiga o branco como 
categoria identitária analítica é do sociólogo, historiador, filósofo e ativista político 
W.E.B. Du Bois (1868 – 1963), em seu livro “Black Reconstruction in the United 
States”, cuja tradução literal para o português é “Reconstrução Negra nos Estados 
Unidos”, publicado em 1935, em que se debruçou sobre a classe trabalhadora branca 
norte-americana em perspectiva comparada com o trabalhador negro. A tese central 
do estudo é de que, apesar de compartilhar das mesmas condições degradantes de 
trabalho, havia, por parte dos trabalhadores brancos, uma aceitação do racismo como 
uma estratégia de se aproximar dos benefícios produzidos por ele, aquilo que que Du 
Bois nomeou de salário público e psicológico, que resultavam em acessos a bens 
materiais e simbólicos que os negros não tinham. 
O psiquiatra e filósofo da Martinica, Frantz Fanon (1925 – 1961), também olhou 
para o branco (colonizador) como objeto de estudo ao afirmar em “Peles Negras, 
Máscaras Brancas”, de 2008, publicado originalmente em 1952, que o mesmo racismo 
que é constituinte da identidade negra é, de maneira assimétrica, também constituidor 
de uma identidade branca através de um sentimento de superioridade em relação a 
todos aqueles não brancos. 
No Brasil, o primeiro intelectual a olhar para os estudos sobre raça e trabalhar em 
perspectiva relacional, portanto colocando também os brancos no centro da 
problemática, foi o sociólogo Guerreiro Ramos (1915 – 1982), em seu artigo “Patologia 
Social do Branco Brasileiro”, publicado em 1957. Nele, Ramos questiona o fato de que 
os estudos em relações raciais só são capazes de enxergar o negro como tema, sendo 
essa, também, uma patologia social dos brancos. Para o sociólogo, aquilo que era 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
78
 
encarado como “problema de negro” carecia de análise e questionamento sobre o 
porquê de o branco ser considerado o ideal, a norma ou o “valor por excelência”. 
No pioneiro texto, Guerreiro Ramos argumenta que a minoria dominante branca, 
para garantir a espoliação, recorria não somente à violência, como também se 
utilizava de um sistema de pseudo justificações e estereótipos (RAMOS, 1957), 
fazendo com que os brasileiros rejeitassem sua negritude e desejassem a 
branquidade, o que não significa que eles desejavam apenas ser brancos, mas o que 
isso acarretava em relação a um status social decorrente do embranquecimento. O 
argumento extraído do autor é que, ao “embranquecer”, deseja-se pertencer a uma 
estrutura de privilégios ampliada que exclui e nega os não brancos. 
Após um hiato de quase 50 anos, dentre outros autores que passaram a 
debruçar-se sobre o tema da branquitude, destacam-se PIZA (2000); BENTO 
(2002) – a primeira tese de doutorado defendida no Brasil com o tema da 
branquitude assumindo centralidade -; SOVIK (2004); OLIVEIRA (2007); 
SCHUCMAN (2012) e CARDOSO (2014). A autora Edith Piza desenvolve a ideia 
de que o branco não se enxergava como um ser racializado. Isso significa que a 
branquitude seria uma identidade racial não marcada, isto é, o branco não 
“enxergaria” sua identidade racial, por isso ela seria “invisível”. Aliás, para a 
autora, quando o branco defronta-se com sua própria branquitude, causa-lhe um 
grande impacto, semelhante a uma pessoa desavisada que se choca com uma 
porta de vidro (CARDOSO, 2011). 
Para BENTO (2002), o que ocorre na branquitude brasileira seria o conceito “pacto 
narcísico”, isto é, os brancos procurariam unir-se para defender seus privilégios 
raciais. A autora sustenta a tese de que, através da branquitude, sujeitos acumulam 
vantagens e reproduzem desigualdades raciais. Em outras palavras, para 
compreender melhor as desigualdades raciais em nossa sociedade, seria importante 
entender o pacto entre os brancos, ou seja, seria necessário refletir sobre os 
preconceitos e práticas racistas que ocorrem “por interesse”, porque tanto a prática 
racista oriunda da ignorância (que leva ao preconceito), quanto por interesse, resultam 
na manutenção dos privilégios da branquitude. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
79
É importante marcar, aqui, a diferenciação entre BENTO (2002) e PIZA (2002): 
se, na segunda, a identidade branca é marcada pela invisibilidade, para Bento há uma 
intenção de manutenção do interesse dos brancos em preservarem seus privilégios 
raciais, logo ele se entende enquanto grupo e obtém vantagens na hierarquia social a 
partir desse entendimento. Essas duas trilhas são exploradas e caminhadas por 
outros atores que, prioritariamente, analisam a branquitude na perspectiva identitária 
e buscam compreender como, internamente, criam-se subdivisões e novas 
hierarquizações entre os próprios brancos. Nesse sentido, vale destacar a tese de 
doutorado de SCHUCMAN (2012), a segunda defendida no Brasil sobre o tema, que 
trouxe como título “Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, 
hierarquia e poder na cidade de São Paulo”. Os estudos críticos de branquitude vêm 
crescendo em produção e assumindo centralidade nas discussões sobre relações 
raciais no Brasil e no mundo, sobretudo a partir do esforço de intelectuais e ativistas 
negras e negros em responsabilizar e implicar os brancos no olhar estrutural do 
racismo. 
 
A ideologia do embranquecimento no Brasil 
A ideologia do embranquecimento no Brasil é um fenômeno histórico que se 
desenvolveu como resultado da interseção entre racismo, colonialismo e a busca por 
uma identidade nacional moldada por padrões europeus. Essa ideologia sustentava 
que a mistura de raças no Brasil, particularmente com europeus, levaria à "melhoria" 
da população e à sua aproximação dos ideais de brancura e civilização. 
Um exemplo marcante dessa ideologia pode ser encontrado na obra "A Redenção 
de Cam", pintada por Modesto Brocos em 1895. A pintura retrata um homem negro, 
Cam, que, na tradição bíblica, foi amaldiçoado por seu pai Noé. No entanto, na 
interpretação de Brocos, Cam é apresentado como um homem negro submisso e 
agradecido, sendo "redimido" por um homem branco, possivelmente Noé. A cena é 
carregada de simbolismo e reflete a crença de que a miscigenação com europeus 
"purificaria" as raças inferiores, como a negra. O quadro, então, personifica a ideologia 
do embranquecimento ao retratar a subserviência e a necessidade de redenção do 
homem negro diante do homem branco. A pintura não apenas reforça a noção de 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
80
inferioridade racial, mas também sugere que a "redenção" do negro está vinculada à 
sua assimilação e miscigenação com o branco, como se a branquitude fosse o 
padrão de superioridade a ser alcançado. 
 
Imagem 1: Óleo sobre tela: A Redenção de Cam, de Modesto Brocos, 1895 
 
 Disponível em: <<https://artsandculture.google.com/asset/redemption-of-can-modesto-
brocos/_gH_m-s_zK3Wzg?hl=pt-br>> 
 
Essa ideologia não se limitou à arte, mas permeou muitos aspectos da sociedade 
brasileira, influenciando políticas de imigração e até mesmo padrões estéticos. A 
busca pelo clareamento da população, frequentemente enfatizando a beleza europeia 
como o ideal, levou à promoção de produtos e práticas para clarear a pele e alisar o 
cabelo. Apesar de serem profundamente enraizados, os resquícios dessa ideologia 
persistem de maneira menos explícita na contemporaneidade. O sistema educacional, 
a representação midiática e os conceitos de beleza continuam refletindo padrões 
eurocêntricos, contribuindo para a perpetuação de estereótipos e desigualdades 
raciais. Desmantelar a ideologiado embranquecimento requer uma abordagem 
abrangente que reconheça sua influência passada e presente. Isso envolve a 
promoção da educação antirracista, a valorização da diversidade cultural e 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
81
 
racial, a garantia de igualdade de oportunidades e a conscientização sobre os 
impactos das ações e representações cotidianas. 
Em última análise, a compreensão crítica da ideologia do embranquecimento, 
como representada pelo quadro "A Redenção de Cam", é essencial para a construção 
de uma sociedade mais justa e inclusiva. Ao reconhecer e confrontar as crenças e 
práticas que perpetuam desigualdades raciais, o Brasil pode se mover em direção a 
uma realidade onde a valorização das diferenças e a equidade de oportunidades 
sejam fundamentais. 
Na busca por uma sociedade mais justa e igualitária, é imperativo enfrentar os 
desafios contemporâneos que surgem da persistência da ideologia do 
embranquecimento no Brasil. A despeito dos avanços sociais e das mudanças legais, 
as raízes históricas desse fenômeno ainda influenciam a maneira como as relações 
raciais são construídas e vivenciadas no país. Para efetivamente desconstruir essa 
ideologia, é crucial analisar tanto os aspectos institucionais quanto culturais que a 
sustentam. 
 
Raízes históricas e perpetuação institucional 
As raízes da ideologia do embranquecimento remontam ao período colonial, 
quando a mistura racial foi concebida como um meio de "melhorar" as raças 
consideradas inferiores. Essa mentalidade continuou a moldar as políticas de 
imigração no século XIX, com a vinda de europeus sendo incentivada como forma de 
"clarear" a população brasileira. O mito da "democracia racial", surgido no século XX, 
também contribuiu para a manutenção da ideologia do embranquecimento, pois 
sugeriu que a miscigenação no Brasil havia eliminado o racismo. 
As instituições também desempenham um papel fundamental na 
perpetuação dessa ideologia. A discriminação racial enraizada no sistema de 
justiça criminal, a falta de representatividade política da população negra e as 
disparidades no acesso à educação e saúde são reflexos de uma estrutura 
institucional que reforça desigualdades raciais. A ideia de que a branquitude é 
superior persiste nas relações sociais e profissionais, dificultando a mobilidade 
e o sucesso da população negra. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
82
A ideologia do embranquecimento também se manifesta nas esferas culturais e 
midiáticas. O padrão estético eurocêntrico é frequentemente promovido como ideal de 
beleza, marginalizando e desvalorizando os traços físicos de origem africana. A mídia 
desempenha um papel significativo na reprodução desses padrões, dando mais força 
à ideia de que a branquitude é mais atraente e digna de respeito. A falta de 
representação diversificada na televisão, no cinema e na publicidade perpetua uma 
imagem limitada da sociedade brasileira. 
Para desmantelar a ideologia do embranquecimento, é crucial uma abordagem 
abrangente que inclua medidas educacionais, políticas públicas e mudanças culturais. 
A educação antirracista é fundamental para desconstruir estereótipos e promover uma 
compreensão crítica da história do Brasil. Isso inclui a revisão de currículos escolares 
para incluir uma narrativa mais diversificada e precisa sobre a contribuição dos negros 
à sociedade brasileira. 
Políticas públicas voltadas para a equidade racial também são vitais. A 
implementação de medidas de ação afirmativa em instituições de ensino e no mercado 
de trabalho é um passo importante para corrigir as disparidades históricas. A 
promoção de serviços de saúde e educação de qualidade em áreas marginalizadas 
também são cruciais para garantirem que todos os brasileiros tenham acesso 
igualitário a oportunidades. 
A desconstrução da ideologia do embranquecimento também requer uma 
mudança cultural profunda. Isso envolve a promoção da representatividade e 
diversidade em todos os setores da sociedade, incluindo mídia, política e cultura 
popular. A celebração das diversas raízes culturais do Brasil e o reconhecimento do 
valor de todas as identidades raciais são passos essenciais para superar os padrões 
eurocêntricos. 
O quadro "A Redenção de Cam", de Modesto Brocos, visto anteriormente, é uma 
obra que encapsula a ideologia do embranquecimento. Através da representação 
visual, o quadro reforça a noção de superioridade branca e a necessidade de 
"redenção" do negro pela assimilação com o branco. O diálogo entre essa obra e a 
discussão sobre a ideologia do embranquecimento é fundamental para a 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
83
 
conscientização sobre as raízes históricas desse fenômeno e como ele ainda ressoa 
na sociedade atual. 
A ideologia do embranquecimento é uma herança histórica que moldou 
profundamente a sociedade brasileira. No entanto, o Brasil também possui 
uma história rica de resistência e luta por igualdade. A desconstrução dessa 
ideologia exige ações coletivas, políticas progressistas e mudanças 
culturais profundas. Ao reconhecer os desafios e as raízes dessa ideologia 
e ao trabalhar ativamente para superá-las, o Brasil pode avançar em direção 
a uma sociedade mais justa, inclusiva e igualitária, na qual todas as 
identidades raciais sejam valorizadas e respeitadas. 
As hierarquias de humanidade entre brancos e negros no Brasil são um 
testemunho das profundas feridas deixadas pela história de escravidão e 
discriminação. Embora avanços tenham sido feitos, a batalha contra o racismo 
continua. Enfrentar as hierarquias de humanidade exige uma autoavaliação 
sincera, como sociedade, e a disposição de adotar medidas concretas para 
construir um Brasil verdadeiramente inclusivo e igualitário para todas as raças. 
Somente por meio do reconhecimento de nossa história e do compromisso com a 
mudança poderemos transformar a realidade e construir um futuro mais justo para 
todos os brasileiros. 
 
 
 
 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
84
AULA 5 – O ANTIRRACISMO COMO PRÁTICA 
 
A segurança pública é uma missão vital e desafiadora para as forças policiais de 
todo o mundo, incluindo o Brasil. No entanto, essa missão não pode ser abordada de 
forma isolada, pois está profundamente entrelaçada com questões de violência racial, 
racismo e desigualdades. Neste texto, exploraremos a interconexão desses temas e 
como os policiais podem desempenhar um papel fundamental na promoção de 
uma segurança mais justa e equitativa. 
A violência é um fenômeno complexo e multifacetado que se manifesta de várias 
maneiras na sociedade. Os policiais frequentemente se encontram na linha de frente, 
confrontando situações de violência e lidando com suas consequências. No entanto, 
é fundamental que os profissionais de segurança entendam que a violência não pode 
ser combatida com mais violência. Estratégias de prevenção, mediação e diálogo são 
igualmente essenciais para abordar as raízes profundas da violência. 
A segurança pública vai além da repressão policial. Ela envolve a construção 
de relações de confiança com as comunidades, a promoção da prevenção do crime e 
a busca por soluções inovadoras para desafios complexos. Os policiais têm o poder 
de influência específica em suas comunidades, agem como agentes de mudança e 
construtores de paz. Isso requer uma abordagem humanizada, baseada no 
respeito pelos direitos humanos e na proteção dos cidadãos. 
A confiança entre as forças policiais e as comunidades é essencial para a 
segurança efetiva. Os policiais devem adotar uma abordagem proativa para construir 
relacionamentos positivos com todos os segmentos da sociedade. O engajamento 
com líderes comunitários, a participação em eventos locais e a criação de programas 
de policiamentocomunitário são maneiras de fortalecer essas relações e coletar 
informações valiosas para prevenir o crime. Portanto, é extremamente importante se 
pensar em uma atuação das forças de segurança pública que tenham o 
antirracismo como uma prática enraizada na atuação cotidiana, fazendo com que 
não haja aplicações desiguais das regras em cidadão de diferentes raças, credos e 
etnias. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
85
O antirracismo transcende a mera adesão a ideologias políticas ou sociais - ele 
se firma como uma atitude consciente, um compromisso diário em combater as 
estruturas discriminatórias enraizadas na sociedade. A prática dele não é apenas um 
movimento, mas uma transformação profunda que requer a desconstrução de 
preconceitos arraigados e a construção de relações igualitárias. Nesta aula, 
exploraremos a importância do antirracismo como prática cotidiana, discutindo sua 
definição, as formas de incorporá-lo à rotina e os impactos que pode ter na construção 
de uma sociedade mais justa e inclusiva. 
É uma abordagem que visa combater o racismo e suas manifestações em todas 
as esferas da vida. Ele se opõe à ideia de superioridade racial e busca eliminar as 
desigualdades resultantes de preconceitos baseados na cor da pele, na origem étnica 
e na cultura. Diferentemente do mero conceito teórico, o antirracismo exige ação 
constante, pois a luta contra o racismo não é tarefa passageira, mas uma jornada 
contínua. 
O antirracismo como prática cotidiana é uma jornada que exige empenho, 
educação e reflexão constantes. Não é apenas uma declaração de princípios, mas 
uma ação contínua para desconstruir preconceitos, promover a igualdade e construir 
uma sociedade mais justa. Ao incorporarmos essa prática em nossa rotina diária, 
estamos contribuindo para uma transformação cultural profunda e para a construção 
de um futuro mais equitativo para todos. A luta contra o racismo é uma 
responsabilidade de todos, e é por intermédio da prática cotidiana do antirracismo que 
podemos trabalhar para alcançar esse objetivo. 
 
A interseção entre antirracismo e Segurança Pública é um ponto crucial 
no cenário de luta por igualdade e justiça. Historicamente, as comunidades 
marginalizadas, especialmente as pessoas negras, têm sido 
desproporcionalmente afetadas por práticas discriminatórias no âmbito da 
segurança pública. O movimento antirracista busca desafiar esses viéses 
arraigados e reformar as instituições de segurança para garantir um tratamento 
equitativo para todos os cidadãos, independentemente de sua cor de pele. 
Na Prática 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
86
A relação entre as práticas de segurança pública e a necessidade do antirracismo 
é evidenciada pelo alto número de casos em que há um uso desproporcional e 
excessivo de força contra pessoas negras por parte de profissionais da segurança 
pública, um problema sistêmico que tem sido amplamente denunciado. O antirracismo 
confronta essa realidade, buscando responsabilizar os policiais por abusos e exigindo 
a implementação de treinamentos e políticas que eliminem o preconceito racial nas 
abordagens. Além disso, a reforma das políticas de policiamento é uma parte 
essencial do movimento antirracista. Isso inclui reavaliar práticas, como a stop and 
frisk (parar e revistar), que frequentemente têm, como alvo desproporcional, as 
pessoas negras, e adotar abordagens mais baseadas na comunidade que busquem 
construir laços de confiança e respeito. 
A representação também é fundamental. A diversidade dentro das forças policiais 
é importante para garantir uma compreensão mais abrangente das comunidades 
atendidas. Além disso, a transparência nas ações policiais, por meio da 
documentação de abordagens e do uso de câmeras corporais, pode ajudar a prevenir 
abusos e responsabilizar aqueles que agirem de maneira discriminatória. 
No âmbito da Segurança Pública, o antirracismo também se manifesta na 
necessidade de repensar as políticas de encarceramento em massa. As taxas 
desproporcionais de prisões de pessoas negras têm raízes no preconceito e na 
desigualdade. A luta antirracista busca promover alternativas ao encarceramento e 
programas de reabilitação que atendam às necessidades das comunidades afetadas. 
Em última análise, o antirracismo e a segurança pública estão intrinsecamente 
ligados por um objetivo comum: justiça igualitária. A transformação do sistema de 
segurança pública para se tornar mais inclusivo, imparcial e comprometido com a 
proteção de todos os cidadãos é uma meta que ecoa os princípios centrais do 
antirracismo. À medida que a sociedade se empenha em desafiar o racismo sistêmico, 
a reforma da segurança pública emerge como uma parte fundamental dessa jornada, 
trabalhando em direção a um futuro no qual todas as vidas sejam verdadeiramente 
valorizadas e protegidas. 
A superação do racismo em uma sociedade racialmente estruturada é o principal 
objetivo de mudança social. O foco na igualdade de direitos e oportunidades faz 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
87
com que nos posicionemos em um lugar estratégico na luta antirracista, pois 
assim é possível construir diálogos aderentes e fortalecer a capacidade de ação na 
compreensão das dinâmicas que sustentam os brancos nos lugares de maior estima 
social, ao passo que os convocamos para somarem na construção de uma sociedade 
mais igualitária. Portanto, a ação antirracista visa não somente destituir os lugares de 
poder racialmente determinados, mas também construir pontes de diálogo com os 
próprios brancos para a construção de uma sociedade com oportunidades igualitárias 
para todos. 
 
FINALIZANDO 
Neste módulo, você aprendeu que: 
 o “mito da democracia racial” obscureceu, por muito tempo, as profundas 
desigualdades raciais no país. Essa crença falsa teve várias implicações 
negativas, incluindo a invisibilidade das desigualdades raciais, a negligência 
institucional na resolução dessas questões, a naturalização da discriminação 
racial e o impacto psicológico negativo na população negra. Reconhecer a 
existência desse mito e suas implicações é fundamental para enfrentar o 
racismo estrutural no Brasil; 
 a conscientização sobre as desigualdades raciais e a luta por justiça social e 
igualdade continuam sendo necessárias na sociedade contemporânea. Isso 
inclui políticas afirmativas, educação sobre as raízes históricas do racismo e 
esforços para desconstruir preconceitos arraigados por meio do diálogo 
intercultural; 
 a hierarquia de humanidade entre as raças no Brasil é reificada diuturnamente 
na atuação do Estado e nas relações sociais, portanto é fundamental uma 
atuação antirracista por parte dos agentes; 
 o antirracismo é uma prática diária de garantia de direitos fundamentais para 
toda população. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
88
 
MÓDULO III – SUSP E O ENFRENTAMENTO AO RACISMO 
APRESENTAÇÃO DO MÓDULO 
Após compreendermos o processo histórico de existência do racismo na formação 
da sociedade brasileira, bem como a dinâmica atual do racismo no Brasil e seus 
efeitos sociais, iniciaremos, neste módulo, uma abordagem voltada à relação entre o 
racismo e o Sistema Único de Segurança Pública (Susp). 
Partiremos da perspectiva das instituições que compõem, de forma ampla, o Susp. 
Mostraremos os efeitos negativos do racismo para as instituições, exemplificando 
como elas podem reforçar práticas racistas, afastando-se, assim, das suas funções 
originais, podendo, eventualmente, prejudicar a sua própria atuação. Além disso, 
incentivaremos a busca e a construção de soluções para fortalecer o papel do Susp 
na luta contra o racismo no Brasil. 
Concluiremos, então, com uma narrativa voltada para o ponto de vista do operador 
de segurança pública. Também trataremosda prática deste operador, apontando suas 
responsabilidades individuais no enfrentamento ao racismo, e os caminhos legais, 
técnicos e doutrinários a serem seguidos. 
 
OBJETIVOS DO MÓDULO 
Este módulo tem, por objetivos: 
 identificar características e definições das instituições componentes do Susp, 
tais como seus elementos formadores, cultura organizacional e fundamentais 
para a compreensão do racismo institucional na segurança pública; 
 conhecer as noções básicas de Currículo Oculto e seus efeitos na cultura 
organizacional, além de sua contribuição para o racismo institucional; 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
89
 mostrar e analisar as práticas de uma gestão antirracista na administração 
pública; 
 demonstrar como o operador do Susp pode contribuir para o enfrentamento 
da desigualdade racial; 
 identificar as normas e os parâmetros legais sobre a atuação antirracista do 
operador do Susp. 
 
ESTRUTURA DO MÓDULO 
Este módulo compreende as seguintes aulas: 
Aula 1 - Racismo sob a perspectiva institucional; 
Aula 2 - Currículo oculto; 
Aula 3 - Gestão antirracista; 
Aula 4 - Racismo e o Operador do Susp. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
90
AULA 1 – RACISMO SOB A PERSPECTIVA INSTITUCIONAL 
Vamos explorar a compreensão sobre o racismo nas instituições que 
integram o Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Este conhecimento é vital 
para que possamos, efetivamente, combater a desigualdade racial no contexto da 
segurança pública. Para tanto, se fazem pertinentes os seguintes questionamentos: 
 O que é uma instituição? 
 Quais são as particularidades das instituições do Susp? 
 Como o racismo se manifesta nessas instituições? 
É importante ressaltar que a compreensão da lógica que sustenta a estrutura e 
operação de determinadas instituições é fundamental, já que as ações e decisões dos 
profissionais de segurança pública são moldadas pela maneira como elas existem e 
operam. Portanto, se queremos criar ações de combate à desigualdade racial no 
Susp, precisamos entender profundamente seu funcionamento institucional. 
Tais espaços estabelecem uma relação de dupla troca, influenciando e sendo 
influenciadas pelo comportamento humano e pelo contexto social. No entanto, não 
podemos afirmar que a estrutura social é simplesmente um conjunto dessas (HIRSCH, 
2007, p. 18). 
(...) instituições são modos de orientação, rotinização e coordenação de 
comportamentos que tanto orientam a ação social como a tornam normalmente 
possível, proporcionando relativa estabilidade aos sistemas sociais (HIRSCH, 
2007, p. 18). 
Segundo Almeida, essa estabilidade social parece ser dependente da capacidade 
desses espaços de absorverem os conflitos e os antagonismos que são inerentes à 
vida social. Para ele, absorver significa normalizar estabelecendo padrões às ações 
dos indivíduos. Observamos, então, uma amostra de como, ao interferirem no 
contexto social, os espaços institucionais também influenciam no comportamento 
humano. 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
91
Neste contexto, trataremos o racismo como um exemplo de conflito entre a missão 
institucional e a prática observada. 
É importante entender que o conflito é visto quando se estabelece padrões de 
ação a serem adotados pelos indivíduos que compõem as instituições, bem como ao 
determinar suas normas sobre a questão racial na sociedade. Via de regra, designa-
se um vetor, direcionando seu funcionamento para o combate ou acolhimento da 
problemática. Podemos afirmar que surge, então, um elemento cultural identitário 
interno. 
Não obstante, o estabelecimento de orientação, rotina e coordenação de 
comportamentos, que estruturam o funcionamento institucional são frutos, também, 
da cognição e dos processos políticos e individuais. A esfera cognitiva se dá pela 
percepção pessoal de elementos externos, de controle externo, por processos 
políticos, pelas relações interpessoais e pelos processos individuais. 
Tal conjunto de eventos, que chamaremos de regramento institucional, surge 
de um processo no qual um indivíduo, ou um grupo, exerce sua capacidade decisória 
ao regularizar as respectivas normas. Consequentemente, caberá às pessoas as 
seguirem conforme o referido regramento. Assim, observa-se um exemplo de como 
as ações individuais e coletivas exercem influência em contextos de caráter oficial. 
O comportamento humano não é algo constante, retilíneo. Ele sofre interferência 
de outros fatores, que vão além do regramento. Fatores externos, tais como a opinião 
pública, os históricos cultural e educacional individuais, as características 
socioambientais do local onde esses indivíduos estão situados e outros fatores 
internos, a exemplo do tipo da dinâmica interativa entre os integrantes da corporação, 
do modelo administrativo adotado e do nível disciplinar exigido na execução das 
atividades, influenciam para uma atividade mais ou menos alinhada (ou fiel) à norma. 
O conjunto dessas ações definiremos como cultura organizacional. 
“Falar em cultura implica falar sobre a capacidade de adaptação do indivíduo à 
realidade do grupo no qual está inserido” (MACEDO e PIRES, 2006). No entanto, 
apenas o exercício individual desta adaptabilidade não é suficiente para constituir uma 
cultura. Para haver cultura, é necessário que ocorra coincidência, coletividade, soma 
de “individualidades”. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
92
A cultura expressa os valores e as crenças que os membros desse grupo partilham. 
Tais valores manifestam-se por meio de símbolos, como mitos, rituais, histórias, 
lendas e uma linguagem especializada, orientando os indivíduos de uma referida 
cultura na forma de pensar, agir e tomar decisões. (MACEDO e PIRES, 2006, p.84) 
Tal conduta surge de ações e expressões individuais que geram traços de 
identidade de uma coletividade ou grupo (a exemplo de instituições) e que, 
ciclicamente, também influenciam nas atividades individuais. Vemos, aqui, que há 
semelhança na dinâmica de existência das normas e dos hábitos. Além da 
semelhança, eles também se influenciam mutuamente. 
A cultura possui três características: ela não é inata, e sim aprendida; suas distintas 
facetas estão inter-relacionadas; ela é compartilhada e de fato determina os limites 
dos distintos grupos. A cultura é o meio de comunicação do homem. (HALL, 1978, 
p.80, citado por, MACEDO e PIRES, 2006, p.84) 
Observemos, então, que é algo construído, aprendido e tem efeito delimitante 
(simbolicamente normativo e identitário). 
A partir de uma definição mais ampla, iremos abordar o que é tal prática 
organizacional e a sua importância. 
A atribuição do termo cultura, para uma organização, é relativamente recente. O 
termo cultura organizacional apareceu, primeiramente, na literatura de língua inglesa 
nos anos 1960, como sinônimo de clima. O equivalente “cultura corporativa”, usado 
nos anos 1970, ganhou popularidade após a publicação do livro, com o mesmo título, 
de Terrence Deal e Allan Kennedy, em 1982. Desde então, a literatura técnica 
específica vem utilizando o termo (MACEDO e PIRES, 2006, p.87/88). 
Há outras definições que nos ajudam a compreender a aplicabilidade dessa 
ideia no nosso caso. Ressaltamos, aqui, os elementos que, além de convergentes, 
são importantes para o estudo das instituições do Susp em um contexto de 
enfrentamento à desigualdade racial. Segundo Mintzberg e colaboradores (2000), o 
conjunto de práticas organizacionais é observado como a base da organização. São 
as crenças comuns que se refletem nas tradições e nos hábitos, bem como em 
manifestações mais tangíveis — histórias, símbolos, ou mesmo edifícios e produtos. 
Para o autor, a força de uma cultura está em legitimar tais crenças e os valores 
compartilhadosentre os membros de um ambiente corporativo. A cultura 
organizacional não existiria sem as pessoas. 
A cultura organizacional é um conceito essencial à construção das estruturas 
organizacionais. Percebe-se, então, que (...) será um conjunto de características que 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
93
a diferencia em relação a qualquer outra. A cultura assume o papel de legitimadora 
do sistema de valores, expressos através de rituais, mitos, hábitos e crenças comuns 
aos membros de uma organização, que assim produzem normas de comportamento 
genericamente aceitas por todos (MACEDO e PIRES, 2006, p. 88). 
 
Ademais, é imperioso salientar que produzir normas de comportamento 
“genericamente aceita por todos”, não significa que essa norma é recepcionada pelo 
regramento institucional, que tem um caráter formal e específico, não genérico. A 
existência dessa dissonância entre a norma comportamental cultural e a institucional 
estabelece o que chamaremos de currículo oculto, assunto que veremos na próxima 
aula. 
E as instituições que compõem o Susp? 
O Susp é composto pelas instituições elencadas no artigo 9º da sua lei de criação 
13.675 de 11 de junho de 2018, conforme elencado abaixo: 
Art. 9º É instituído o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), que tem como 
órgão central o Ministério Extraordinário da Segurança Pública e é integrado pelos 
órgãos de que trata o art. 144 da Constituição Federal, pelos agentes penitenciários, 
pelas guardas municipais e pelos demais integrantes estratégicos e operacionais, que 
atuarão nos limites de suas competências, de forma cooperativa, sistêmica e 
harmônica. 
§ 1º São integrantes estratégicos do Susp: 
I - a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, por intermédio dos 
respectivos Poderes Executivos; 
II - os Conselhos de Segurança Pública e Defesa Social dos três entes federados. 
§ 2º São integrantes operacionais do Susp: 
I - polícia federal; 
II - polícia rodoviária federal; 
III - (VETADO); 
IV - polícias civis; 
V - polícias militares; 
VI - corpos de bombeiros militares; 
VII - guardas municipais; 
VIII - órgãos do sistema penitenciário; 
IX - (VETADO); 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
94
X - institutos oficiais de criminalística, medicina legal e identificação; 
XI - Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp); 
XII - secretarias estaduais de segurança pública ou congêneres; 
XIII - Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec); 
XIV - Secretaria Nacional de Política Sobre Drogas (Senad); 
XV - agentes de trânsito; 
XVI - guarda portuária. 
 
Os integrantes do Susp caracterizam-se por serem organizações públicas, as 
quais possuem um conjunto de garantias, deveres e direitos que se aplicam às 
relações sociais sob a perspectiva jurídica. Logo, tal regime regula as relações desses 
espaços públicos e legais, onde deve-se respeitar os princípios elencados no art. 37 
da nossa Carta Magna: 
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, 
dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de 
legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao 
seguinte: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998). 
 
Dos princípios elencados pela Constituição, daremos destaque aos que se 
relacionam diretamente com a atividade do operador do Susp. No entanto, é 
fundamental ter em mente que todos os princípios devem ser fielmente seguidos sob 
pena de nulidade dos respectivos atos administrativos e de possível 
responsabilização por ato de improbidade administrativa, conforme disposto na 
lei 8.429/92. 
Podemos observar, em uma breve análise, que os princípios elencados na 
Constituição Federal atuam pelo direcionamento normativo estatal/institucional: 
1. da legalidade, pelo comprometimento subjetivo individual do agente público; 
2. da impessoalidade e moralidade, e pelo compromisso de prestação de 
contas à sociedade; 
3. da publicidade e eficiência. Vale ressaltar que o último está diretamente 
relacionado ao uso dos meios corretos para legitimar o resultado, o que é 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
95
diferente de eficácia, a qual representa a garantia do resultado livre da análise 
dos meios. 
Isso posto, pautado no referente à legalidade, cabe ao operador de segurança 
(representando sua respectiva instituição) agir tão somente dentro dos limites 
estabelecidos pela norma. 
Lembrando que, juridicamente, não cabe interpretação extensiva para 
normas em matéria de direito administrativo. 
Uma vez que existe uma hierarquia entre as normas, podemos presumir que, 
inevitavelmente, haverá também harmonia entre elas, já que qualquer contradição 
será dirimida pelo direcionamento da lei superior. Assim, qualquer tratado 
técnico/doutrinário, (incluindo-se aqui os de técnicas e táticas de policiamento e 
demais atividades de segurança pública) que, porventura, exista nas instituições de 
segurança pública direcionando o operador a um comportamento racista, já se mostra 
com vício de origem, pois a própria Constituição veda o tratamento discriminatório 
pela raça ou qualquer outro fator, como demonstrado abaixo. 
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: 
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; 
II - garantir o desenvolvimento nacional; 
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e 
regionais; 
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e 
quaisquer outras formas de discriminação. (CF,1988) 
 
O princípio da impessoalidade condiciona o operador de segurança a suprimir 
suas convicções e preferências particulares em seus atos de serviço. O operador não 
está ali representando os próprios interesses, ele representa o Estado (por meio de 
sua respectiva instituição) na defesa dos interesses públicos, da sociedade, da 
coletividade. Nesse sentido, a opinião pessoal do operador sobre um comportamento 
ou costume não deve ser levada em consideração, a referência sempre será a 
legalidade e o interesse público. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
96
Em consequência do princípio da moralidade, o indivíduo deve adotar 
frequentemente um comportamento pautado em boa fé, ética e lealdade. Esse 
princípio, em tese, abrange inclusive a esfera pessoal de comportamento do 
funcionário público. Obviamente, resta evidente que qualquer comportamento 
considerado discriminatório estará em afronta direta ao compromisso público 
institucional. 
Além da submissão ao regramento advindo do regime de direito administrativo, as 
instituições do Susp devem obediência, também, às demais normas do ordenamento 
jurídico brasileiro, destacando-se as de Direito Penal e Direito Civil, às quais os seus 
operadores chegam a responder por responsabilidade objetiva direta. O integrante do 
Susp pode ser processado diretamente pelos seus atos, sendo, eventualmente, 
dispensada a necessidade de se processar o Estado para que esse ingresse com 
ação regressa de responsabilidade contra o servidor. 
Sob um viés de enfrentamento à desigualdade racial, as instituições do Susp 
também devem seguir diversas normas do ordenamento nacional e até internacional, 
tais como: 
 Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948; 
 Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, 1966; 
 Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, 1966 
 Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, 
1966; 
 Convenção Americana sobre Direitos Humanos, 1969; 
 Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989; 
 Lei nº 14.532, de 11 de janeiro de 2023. 
No âmbito das instituições, as práticas racistas normalmente se originam em sua 
esfera normativa,em sua cultura organizacional, ou em ações individuais, podendo 
ou não levar à incorporação a cultura institucional. 
Quando a instituição absorve, em seu rol normativo, regras e doutrinas que 
resultem em comportamentos ou fatos racistas, sob a égide da organização, é 
fundamental que a regra/doutrina em questão seja considerada nula. Juridicamente, 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
97
a Carta Magna, em seu artigo 59, estabelece aquilo que se denominam instrumentos 
primários de introdução de normas no direito brasileiro. 
Art. 59. O processo legislativo compreende a elaboração de: 
I - emendas à Constituição; 
II - leis complementares; 
III - leis ordinárias; 
IV - leis delegadas; 
V - medidas provisórias; 
VI - decretos legislativos; 
VII - resoluções. 
Parágrafo único. Lei complementar disporá sobre a elaboração, redação, alteração e 
consolidação das leis. 
 
Nesse sentido, a doutrina jurídica referenda o seguinte entendimento: 
Desta forma, “todas as demais normas reguladoras das condutas humanas 
intersubjetivas, neste país, têm juridicidade condicionada às disposições legais”. 
Assim, conforme os ensinamentos de Paulo de Barros Carvalho, tais normas 
reguladoras “recebem o nome de ‘instrumentos secundários’”. Isto se deve ao fato de 
que tais normas “não possuem, por si só, a força vinculante capaz de alterar as 
estruturas do mundo jurídico-positivo, (...) apenas realizam os comandos que a lei 
(instrumentos primários) lhe autoriza e na precisa dimensão que lhes foi estipulada”. 
Considera-se que tais normas secundárias irão complementar as leis (instrumentos 
primários) contidas no artigo 59 da Constituição da República, e a elas estarão 
subordinadas. Como exemplo de tais normas secundárias, pode-se destacar os 
decretos regulamentares, as instruções ministeriais, as instruções normativas, 
circulares, ordens de serviços, atos declaratórios e outros atos normativos expedidos 
pelas autoridades administrativas. (MENDES, 2014, p.23) 
 
 Logo, pautado no princípio da hierarquia das normas, e considerando, inclusive, 
as diretrizes constitucionais e tratados internacionais, já elencados, cabe à gestão de 
cada espaço institucional possibilitar e efetivar a devida fiscalização e tais correções 
normativas. 
Porém, sendo o racismo um elemento estruturante, os próprios órgãos de controle 
não estarão imunes à sua influência, o que aumenta a responsabilidade do operador 
em obstruir todo e qualquer ato nessa direção. É importante frisar que a 
responsabilidade por cumprimento de ordem ou norma “ilegal” pode atingir, 
objetivamente, o respectivo operador, independente da “postura organizacional”. 
A Professora Doutora Maria Aparecida Bento, em sua obra “Pacto da 
Branquitude”, apresenta uma abordagem objetiva sobre as manifestações racistas 
que se originam na cultura organizacional das corporações. Segundo ela, o racismo 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
98
institucional destaca-se por ser “como uma prática que tem caráter rotineiro e 
contínuo, sistêmico, às vezes burocrático, e que pode variar entre aberta ou 
encoberta, visível ou escamoteada da visão pública.” (BENTO, 2022, p.48) 
Devemos lembrar que o conjunto de práticas em uma corporação é formado por 
repetições de ações individuais coincidentes. Não há necessidade de um amparo 
normativo, mas há uma legitimação pelas pessoas que compõem a instituição, 
inclusive (e, talvez, principalmente) aquelas que deveriam coibir tais práticas. 
Bento, durante sua pesquisa para o livro supracitado, entrevistou Moema, uma 
mulher branca que trabalha como psicóloga organizacional. Nesse sentido, durante a 
conversa, Moema reconheceu que tem preconceitos e que eles surgem de acordo 
com o convívio próximo no ambiente de trabalho, por exemplo. Tal declaração ressalta 
a forma complexa com a qual pessoas negras são integradas ao mercado de trabalho, 
demonstrando que a premissa de haver neutralidade e objetividade não existe em 
sociedades historicamente preconceituosas, como o Brasil. 
O exemplo de entrevista supracitado representa muito bem o modus operandi do 
racismo no âmbito institucional. Há a seguinte máxima no Brasil: “Racismo existe, 
mas ninguém é racista.”. Nas instituições que integram o Susp, essa lógica poderia 
ser traduzida desta forma: “Minha instituição não é racista, já que nela nenhuma 
norma ou doutrina é racista!”. 
 É necessário ter consciência de que a cultura organizacional também faz parte 
do ambiente corporativo e, consequentemente, o racismo que nele se origina, passa 
a existir em sua composição. 
Lembro-me de um caso relatado por meu irmão anos atrás, quando ele assumiu a 
liderança da área de contabilidade de uma grande empresa. Entre as contratações 
que fez à época, estavam três pessoas negras, e um colega o questionou se ele 
pretendia “enegrecer a empresa”. O fato é que, enquanto o departamento era 
composto exclusivamente de pessoas brancas, questionamentos sobre raça não 
existiam, mas bastou a contratação de três funcionários negros — no meio de 
quarenta brancos — para que se sentissem ameaçados. (BENTO, 2022, p.50). 
 
Quando o racismo se manifesta por meio da cultura organizacional, em 
dissonância com o regramento institucional, é importante que se adotem ações 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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voltadas para o reforço normativo e doutrinário nos espaços de trabalho para combater 
práticas ilícitas e indesejadas, bem como para alcançar a isonomia de processos e de 
práticas. 
No entanto, o racismo também pode se materializar em ações individuais que não 
se alinham às normas e que não chegam a influenciar na cultura de um ambiente 
corporativo. Normalmente, posturas como essas geram consequências que atingem 
objetivamente a população, afetando tal espaço, em caráter subsidiário, por meio da 
opinião pública sobre a sua imagem. Nestes casos, a implementação de ações de 
sensibilização, conscientização racial e fortalecimento de mecanismos 
normativos/correcionais das organizações são medidas a serem adotadas para a 
efetiva mudança. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
100
AULA 2 – CURRÍCULO OCULTO 
 
Aprendemos que a cultura organizacional é composta por ações que podem, ou 
não, estar alinhadas à normatividade do ambiente de trabalho. Com o convívio diário 
entre as pessoas e por meio do contato com as regras postas, pode surgir o que 
chamaremos de currículo oculto. 
Esse é um termo frequentemente adotado nos ambientes educacionais e que 
surgiu relacionado aos estudos da área da Pedagogia. Pautados em alguns desses 
saberes, faremos um paralelo em relação às instituições do Susp. Para tanto, 
partiremos do entendimento do conceito de currículo, de forma ampla, com o intuito 
de alcançarmos a compreensão da definição do termo em questão. 
Contribuindo com a discussão do tema e ciente da relevância que ele representa 
para as relações estabelecidas no âmbito das instituições de segurança, temos a 
Matriz Curricular da Senasp, documento orientador metodológico para as ações 
formativas de profissionais de segurança pública. Nela, o currículo, em sentido amplo, 
engloba um conjunto de informações, atividades, concepções e práticas, dentre outros 
aspectos, que servem para auxiliar os profissionais no desenvolvimento de 
competências que os possibilitam a inserção crítica, consciente e ativa nos contextos 
sociais e no mundo do trabalho. Nesse sentido, é pertinente o que dizem ROSA, 
SILVA, DA SILVA (2023): 
[...] o objetivo principal do currículo é a estruturação de influências diretas e 
significativas na prática pedagógica. Ou seja, ele é constituído por um conjunto de 
ações vivenciadas pela pessoa, as quais têm a capacidade de modificar ações que 
repercutem na identidade de cadaindivíduo. ( p. 2 e 3). 
No âmbito da prática educacional e profissional, surge o conceito de currículo 
oculto, que pode definido como: 
[...]o conjunto de atitudes, valores e comportamentos que não fazem parte de forma 
explícita do currículo formal, os quais são ensinados por meios das relações sociais, 
dos rituais e práticas que são desenvolvidas na escola. (ROSA, SILVA, DA SILVA. 
2023. p.5). 
Se substituirmos, na citação acima, a palavra “escola” pela palavra “instituição”, 
teremos a noção exata de como o currículo oculto também emerge nos ambientes 
organizacionais do Susp. Cabe, aos operadores e gestores do Susp, a concentração 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
101
de esforços para minimizarem as práticas anacrônicas ou que se desvirtuam da 
técnica e da legalidade. 
No âmbito da gestão, processos de capacitação, reforço 
técnico/doutrinário/normativo e sensibilizações sobre a missão, a visão e os valores 
institucionais são ações preventivas recomendadas. No entanto, eventualmente as 
ações preventivas não são dotadas de eficácia plena. Ações correcionais podem ser 
requeridas para o alinhamento da cultura organizacional de forma a não validar 
possíveis práticas de currículo oculto, fundamentadas em concepções racistas. 
Então, por via transversa, tal ferramenta influencia na composição do currículo 
regular ou formal, ou seja, é necessário reconhecer que existem hábitos que podem 
se dissociar da norma e que contribuem para o amadurecimento institucional. Mas 
isso não implica uma aceitação das práticas implícitas e preconceituosas, porém é 
fundamental reconhecer sua existência para corrigi-las ou absorvê-las, caso o 
processo evolutivo social assim exija. 
Diante do exposto, é válido ressaltar que a estruturação e execução do currículo 
envolve muitas demandas, até mesmo aquelas que não são explicitadas em 
documentos oficiais. Ora, o processo de formação deve ser constante, uma vez que 
precisamos compreender os conhecimentos acerca das teorias do currículo oculto, 
podendo assim contribuir com a docência para e na educação profissional. (ROSA, 
SILVA, DA SILVA. 2023. p.8) 
 
Contribuem, para o debate, MATOS, COSTA, LIMA, SILVA, CHAVES, 
SOUSA, (2020) que chamam atenção para a relevância da ferramenta em questão: 
O currículo oculto serve tanto quanto o currículo real. A diferença parcial é que um 
torna-se basicamente uma representação que deve melhorar, mas não pode ser 
trabalhado e o outro é a realidade estudada e transmitida. A supressão de 
conhecimento ou de propostas que podem ser estudadas para melhoria do 
favorecimento educacional, é também representado pelo currículo oculto. (MATOS, 
COSTA, LIMA, SILVA, CHAVES, SOUSA, 2020. p 327) 
As práticas que compõem esse instrumento devem ser observadas 
criteriosamente pelos gestores, buscando identificar situações em que elas refletem 
manifestações impregnadas de concepções racistas, oportunidade em que devem ser 
imediatamente corrigidas. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
102
Ações racistas, em determinado momento histórico, já foram elementos que 
compunham o currículo formal das instituições públicas brasileiras. Hoje, são 
elementos do currículo oculto que devem ser repelidas dos processos de ensino-
aprendizagem de uma instituição de qualquer natureza. 
Por parte dos operadores do Susp, é fundamental a compreensão de que a 
atividade de promoção de segurança pública, inclusive pela sua submissão aos 
princípios que regem a gestão pública, deve vivenciar seu processo evolutivo pelas 
vias formalmente instituídas para tal. Ao notar a necessidade contextual de evolução 
e melhoria das práticas institucionais, cabe a tal colaborador a utilização dos meios 
formais de comunicação e provocação, para que sejam gerados os estudos e 
procedimentos para a devida revisão técnica, doutrinária ou normativa. 
Ademais, é imprescindível que o operador do Susp se mantenha atualizado sobre 
as regras do seu espaço de trabalho, devendo adotar, na sua prática cotidiana, a 
devida disciplina e fidelidade a esse regramento. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
103
AULA 3 – GESTÃO ANTIRRACISTA 
Nesta aula, quero convidar você a fazer algumas reflexões sobre a 
construção de uma gestão antirracista nas instituições do Susp. Partiremos de um 
método de autorreflexão para chegarmos ao ponto desejado. O que é uma gestão 
antirracista? Será que a instituição da qual faço parte tem uma gestão 
antirracista? Como eu posso colaborar para que essa cultura antirracista possa, 
de alguma forma, se tornar realidade no meu dia a dia? 
Primeiramente, à primeira pergunta, responde-se que é uma gestão a qual 
não se limita apenas a empresas e organizações, mas principalmente às ações de 
governo através da positivação de leis e de práticas que proporcionem uma mudança 
cultural e que crie um ambiente inclusivo, acolhedor, justo e igualitário. 
Ao considerarmos que “organizações são instrumentos criados para 
atingirem outros fins” (MACEDO e PIRES, 2006, p. 87), podemos concluir, 
logicamente, que a administração das entidades que fazem parte do Sistema Único 
de Segurança Pública deve ter, como principal objetivo, prover segurança pública à 
sociedade brasileira, com o compromisso contínuo e multifacetado de criar um 
ambiente mais justo e equitativo para as pessoas. 
Dessa forma, foi promulgada a Lei 13.675 de 11 de junho de 2018, que 
institui o Susp, a qual preconiza o seguinte: 
Art. 1º Esta Lei institui o Sistema Único de Segurança Pública (Susp) e cria a Política 
Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS), com a finalidade de 
preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, por 
meio de atuação conjunta, coordenada, sistêmica e integrada dos órgãos de 
segurança pública e defesa social da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos 
Municípios, em articulação com a sociedade. 
Art. 2º A segurança pública é dever do Estado e responsabilidade de todos, 
compreendendo a União, os Estados, o Distrito Federal e os Munícipios, no âmbito 
das competências e atribuições legais de cada um. (lei 13.675, 2018) 
Por sua vez, a Carta Magna estabelece, no capítulo III, sobre Segurança 
Pública: 
 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
104
 
Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, 
é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e 
do patrimônio, através dos seguintes órgãos: (CF, 1988) 
Observando os dois dispositivos legais apresentados, observamos que o 
exercício da segurança pública se vincula à preservação da ordem pública, resultado 
final a ser obtido pelo Susp. 
É crucial destacar que o papel do Estado, na garantia da segurança pública, 
vai além do que pode ser simplesmente definido como “obrigação policial”. Uma 
gestão antirracista envolve uma revisão crítica, por parte dos líderes, na diversidade 
de inclusão, na conscientização e na educação, bem como por meio de ações 
afirmativas, correção de desigualdades históricas, transparência e compromisso para 
criar uma compreensão mais profunda dos desafios enfrentados por pessoas negras 
e indígenas. 
Sabiamente, a própria Constituição Federal demonstra, em seu texto, que 
a finalidade da segurança pública deve ser preservar a ordem pública. Nesse 
ínterim, destaca-se que o ato de “preservar” é diferente de “implementar”, assim só é 
possível realizar a preservação do que já está estabelecido. Vale ressaltar alguns 
pontos que facilitam a nossa compreensão: 
1. quando não há presença do Estado nos campos da saúde, educação, 
transporte, saneamento básico e demais direitos essenciais à dignidade 
humana, garantidos pela própria constituição, não existe ordem pública. 
2. essa está relacionadaobjetivamente à possibilidade do exercício de direitos 
fundamentais, o que inclui o gozo da vida livre do racismo em qualquer 
perspectiva (individual ou social). 
3. um dado de extrema importância é que mais da metade dos brasileiros 
são negros. Segundo dados do PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra por 
Domicílio), apresentados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e 
Estatística), no último censo, em 2022, constata-se que 56% da população 
brasileira se autodeclara negra. Ou seja, pensar em ordem ou da segurança 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
105
públicas, a ausência da compreensão de que o racismo afeta ambos iguala-se 
a ignorar os direitos e interesses da maioria dos brasileiros aos quais o Estado 
e a gestão pública deveriam servir, e ainda prejudicar, subsidiariamente, todos 
os demais, tendo em vista que racismo é um mal que prejudica toda a 
sociedade brasileira. 
Sendo assim, podemos afirmar que o racismo: 
 desvirtua a educação e exclui, da população negra, o acesso a ela; 
 deturpa e mitiga a medicina para os negros; 
 manipula a política e a economia de modo a vedar o acesso de 
pessoas negras aos ambientes de poder e gestão. 
Dessa maneira, é correto concluir que o racismo desvia o destino de 
recursos públicos para os nichos embranquecidos, provocando problemas, como a 
favelização dos ambientes urbanos, evento que interfere diretamente na dinâmica de 
segurança pública, inclusive gerando efeitos à imagem institucional dos órgãos do 
Susp perante a opinião pública. 
Ignorar a necessidade de um Estado objetivamente antirracista 
significa negar o direito à ordem e à segurança públicas à maioria dos 
brasileiros. 
Destacamos, então, o elemento primordial da promoção de segurança (bem como 
de qualquer exercício de cidadania): a educação, pois em seu sentido mais amplo, é 
a “tela na qual se desenhará” todas as imagens formadoras da ordem pública e que 
deve ser preservada pelas forças de segurança, desde o engajamento intelectual na 
gestão responsável e na fiscalização para tal, até a formação da consciência individual 
de que é necessário controlar impulsos e desejos quando eles invadem e prejudicam 
o espaço de direito de outras pessoas. A educação é o instrumento dessa 
construção comportamental. 
Concluímos, portanto, que a obrigação do Estado em promover a segurança 
pública se inicia para além da própria ação seguradora, e que a atividade policial é 
apenas o final da jornada em sua busca. 
SUSP E O ENFRENTAMENTO DA DESIGUALDADE RACIAL NO BRASIL 
 
 
 
 
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O QUE ESPERAR EM UMA GESTÃO VOLTADA PARA O ENFRENTAMENTO 
À DESIGUALDADE RACIAL? 
 A influência das ações de líderes no comportamento dos membros de uma 
organização, e por consequência, na cultura organizacional, é incontestável. 
Os líderes dentro de uma organização são o elo primordial interferente no 
desempenho da mesma; tidos como identificadores e comunicadores de valores 
coletivos, asseguram recursos para as pessoas internamente e ouvem a maior parte 
do tempo, pois são modeladores e defensores de culturas voltadas para o 
desempenho. Esses profissionais removem equipes para servirem ao bem comum, 
em muitas vezes em detrimento de objetivos pessoais, considerando que a 
liderança menos direta é favorecida pela orientação de exemplos e de uma 
comunicação e de uma visão de valores estimulantes muito mais alicerçada em 
escutar e cuidar dos seguidores. (ARRUDA, CHRISÒSTIMO e RIOS, 2010, p.2) 
Uma vez que os gestores comunicam os valores institucionais, é esperado 
que um diálogo se estabeleça, não só por canais formais, mas também por meio de 
ações diárias. O gestor é observado e avaliado, por sua equipe, servindo de elemento 
balizador das condutas esperadas. 
Existe uma diferença entre ser um mero gerente e ser um líder. Para 
implementar uma gestão antirracista em uma sociedade que ainda está imersa em 
uma cultura de práticas racistas, o exercício da gestão exige uma liderança ativa 
e orientada ao antirracismo. 
 O gerente tem seu apoio nas regras, normas e procedimentos, enquanto o líder se 
apoia em suas capacitações, habilidades e nas pessoas que trabalham sob seu 
comando. Para o gerente, a rotina diária é uma batalha constante a ser vencida; 
enquanto, para o líder, ela é o reinício de novas oportunidades. Para o gerente, as 
crises são problemas desgastantes e aborrecidos. Para o líder, são situações 
inevitáveis que têm de ser enfrentadas com competência e discernimento. Diante 
disto, e apesar do valor do gerenciamento nas empresas, dentro da visão e situação 
atual das organizações, há maior necessidade de liderança do que gerenciamento 
(BOTELHO, 1992, citado por, ARRUDA, CHRISÒSTIMO e RIOS, 2010, p.4). 
Nota-se que uma gestão antirracista vai além de ações pontuais que 
fornecem apenas respostas a acontecimentos racistas no âmbito da instituição. Dessa 
maneira, o gestor deve fomentar ações preventivas, contra o racismo, que surtam 
influência, tanto no campo estrutural da instituição, quanto no campo particular dos 
membros da organização. No estrutural, podemos exemplificar ações na esfera 
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107
normativa, técnica/doutrinária e compliance (conjunto de disciplinas e procedimentos 
a fim de cumprir e se fazer cumprir as normas). Já no particular, os exemplos são 
medidas de sensibilização, letramento, capacitação e motivação. 
A gestão institucional deve atuar em caráter preventivo e combativo contra 
o racismo. Ao gestor, cabe o exercício de liderança perante os membros da 
organização, agindo cotidianamente de maneira a exemplificar que é viável o 
cumprimento da missão institucional pautado em práticas antirracistas. 
É importante frisar que as instituições sofrem e reproduzem o racismo 
constantemente, tendo em vista a estruturalidade do fenômeno. Dessa forma, é 
fundamental que as instituições assumam medidas de combate à desigualdade 
racial de forma permanente, sistemática e evolutiva. 
Há também um caráter interseccional no racismo. Muitas vezes, atos 
discriminatórios ocorrerão de maneira associada: racismo e machismo, racismo e 
LGBTQIAPN+fobia, racismo e xenofobia; ou ocorrerão de maneira secundária: 
machismo, LGBTQIAPN+fobia e/ou xenofobia com recorte racial. Nesse sentido, a 
professora Nilma Lino Gomes afirma, no prefácio da obra “Como ser um educador 
antirracista”, de autoria da Professora Doutora Barbara Carine, o seguinte: 
O racismo não é desconstruído sozinho. É preciso que essa desconstrução se dê 
também em relação a outros fenômenos perversos, tais como o machismo, a 
LGBTQIAPN+fobia, o capacitismo e o fundamentalismo religioso. São ideologias 
e ações que desumanizam as pessoas, em especial aquelas que a sociedade 
cunhou como inferiores porque fazem parte de coletivos diversos historicamente 
marginalizados. (Gomes, 2023, p.14) 
Concluímos, então, que é impossível exercer uma gestão institucional 
voltada ao enfrentamento da desigualdade racial, sem enfrentar outros tipos de 
discriminações. Inclusive, conforme o arcabouço legislativo já apresentado, o 
enfrentamento a todos os tipos de desigualdade não é uma opção, mas obrigação 
da gestão pública. 
Gestores sensibilizados e capacitados terão mais condições de 
implementar ações com parâmetros antirracistas; além de normatizar e fiscalizar o 
cumprimento de regras. Assim, a gestão antirracista se retroalimenta, se fortalece e 
se naturaliza nas instituições públicas. Iniciar os processos de sensibilização e 
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108
capacitação, envolvendo os extratos superiores das organizações, é um fator 
diferencial para a efetividade da gestão. 
Podemos pontuar, então, que, no âmbito do Susp, uma gestão antirracista 
deve: 
 compreender que a segurança pública é complexa e multifatorial; 
 contar com oengajamento dos gestores, pautada na liderança pelo 
exemplo; 
 adotar medidas de sensibilização e capacitação para todas as pessoas da 
instituição, a começar pelos gestores; 
 buscar se aproximar da comunidade, traçando seus objetivos em favor dos 
interesses dela e adotando práticas de prestação de contas e verificação de 
eficácia com base na opinião comunitária; 
 promover constante revisão normativa institucional, pautada na verificação 
de eficácia, resultando em uma prestação de serviço cada vez mais qualificada. 
Tais medidas podem ser sistematizadas em um ciclo de ações que se 
complementam, conforme segue: 
Figura 9: Ciclo de ações antirracistas 
 
Fonte: elaborado pelo autor, 2023. 
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109
Os resultados esperados, quando aplicado o ciclo acima, são: 
 sensibilização e capacitação dos agentes; 
 aumento da qualidade de interação com a comunidade; 
 melhoria dos resultados finalísticos; 
 melhoria da imagem institucional; 
 aumento da autoestima e da qualidade de vida dos operadores; 
 diminuição dos efeitos do racismo na instituição. 
Uma gestão institucional antirracista é feita por gestores, regendo a 
conduta de outros operadores, buscando uma melhor prestação de serviço para a 
sociedade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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110
AULA 4 – RACISMO E O OPERADOR DO SUSP 
 
Agora que você está familiarizado com o conceito de uma gestão 
antirracista, vamos estudar de que maneira o operador do Susp pode atuar 
adequadamente frente às situações de racismo e de violação dos direitos humanos 
dos grupos étnicos discriminados. 
Nesta aula, abordaremos, inclusive, as responsabilidades do operador do 
Susp para o êxito do enfrentamento à desigualdade racial e os efeitos nocivos do 
racismo que atingem até mesmo o próprio operador. 
Qual deve ser o papel do profissional do Susp no enfretamento ao racismo? 
 
A Declaração Universal de Direitos Humanos, elaborada pela Organização das 
Nações Unidas, promulgada em 1948, considera todos os seres humanos iguais, sem 
distinção de nacionalidade, etnia, idioma, raça, sexo ou outra condição. 
Dentre as suas principais características, destaca-se a universalidade, 
uma vez que todos os direitos devem ser aplicados de forma igualitária, sem restrições 
de qualquer tipo e sem discriminação, a qualquer pessoa, considerados de igual valor 
no que diz respeito à promoção e dignidade humana. 
O Brasil, como signatário dos instrumentos internacionais de direitos 
humanos, tem avançado na implementação e na discussão de políticas públicas, 
visando assegurar a proteção dos direitos fundamentais da pessoa humana. No que 
diz respeito à segurança pública, é possível notar um progresso, sobretudo nas 
mudanças propostas na malha curricular de formação inicial e continuada dos 
profissionais de segurança pública. 
A Secretaria Nacional de Segurança Pública (2003), por meio da Matriz 
Curricular Nacional (Senasp), desde 2003, tem buscado efetivar um processo de 
ensino-aprendizagem significativo, transformador e autônomo. Além disso, visa 
evidenciar a condição humana na formação em segurança pública, destacando o 
componente curricular “Direitos Humanos”, como principal tema transversal. 
Segundo a Matriz, o profissional de segurança pública, competente e 
profissionalizado em padrões de excelência, deve estar eticamente envolvido com os 
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111
direitos humanos. Essa é a principal referência de uma atuação técnica para atender 
aos anseios de justiça e legalidade do sistema democrático, sem prejuízo da eficiência 
e da força na prevenção e repressão do crime (BRASIL, 2014, p. 114). 
Nessa perspectiva, o operador de segurança pública deve compreender 
que a proteção dos direitos fundamentais da pessoa humana é uma obrigação 
do Estado e do governo em favor da sociedade, sendo ele próprio um dos agentes 
que promove e protege esses direitos. 
Assim sendo, espera-se que esse profissional atue para garantir o respeito 
aos direitos humanos de indivíduos em situação de vulnerabilidade, tais como 
mulheres, crianças e adolescentes, pessoas com deficiência, lésbicas, gays, 
bissexuais, travestis, homens e mulheres trans, pessoas idosas, vítimas da 
criminalidade do abuso do poder, usuários e dependentes de drogas, pessoas em 
situação de rua, negros (afro-brasileiros), indígenas e ciganos (BRASIL, 2014, p. 
114). 
Além disso, é crucial que os agentes de segurança pública cumpram as 
normas estabelecidas por cada instituição. É importante salientar que os princípios da 
administração pública e os requisitos do ato administrativo não se limitam aos serviços 
prestados, mas requerem um comportamento probo para aqueles que, de forma 
voluntária, representam o Estado. 
Essa exigência é particularmente relevante para a segurança pública, uma 
vez que as ações administrativas de agentes de segurança pública, em muitos casos, 
envolvem restrições de direitos e a possibilidade de ações letais contra pessoas. 
Apesar dos avanços, no âmbito da segurança pública, na promoção e na 
garantia dos direitos humanos da pessoa em situação de vulnerabilidade, o racismo 
presente na sociedade brasileira, por vezes negado pelo discurso, também influencia 
comportamentos e condutas no âmbito das organizações. Ele é uma mácula nas 
instituições que, ao se tornar uma prática habitual de seus operadores, repercute na 
cultura organizacional, prejudica a imagem institucional e, também, da classe 
trabalhadora. 
Em contraste com a prática de comportamentos racistas, especialmente no 
que diz respeito à atuação policial, pesquisadores e profissionais discutem um modelo 
de segurança pública que possibilite, aos seus operadores, uma atuação humanizada, 
fundamentada no uso da inteligência e na valorização profissional. 
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112
Vamos refletir um pouco? 
 
Em seu material de estudo, escreva a sua resposta para estas questões: 
 
Na sua opinião, o que seria uma segurança pública antirracista? Quais 
práticas de enfrentamento ao racismo existem na sua instituição? 
Neste módulo, você aprendeu que: 
 o racismo é estrutural, ou seja, está enraizado nos comportamentos e 
expressões sociais, culturais e institucionais da sociedade, estando muito 
presente no ambiente organizacional; 
 o currículo oculto é o conjunto de valores e comportamentos que não 
estão explícitos no currículo formal, os quais são aprendidos por meio 
das relações sociais, rituais e práticas desenvolvidos na escola e em 
qualquer ambiente institucional; 
 uma gestão antirracista requer uma análise criteriosa por parte dos 
líderes em termos de inclusão, conscientização e educação, ações 
afirmativas, correção de desigualdades históricas, transparência e 
compromisso para se ter uma compreensão mais aprofundada dos 
desafios enfrentados por pessoas negras e indígenas; 
 é essencial o papel dos profissionais do Susp no enfrentamento da 
desigualdade racial no Brasil. 
 
 
 
 
 
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