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Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva Ministério da Justiça e Segurança Pública Flávio Dino de Castro e Costa Secretaria Nacional de Segurança Pública Francisco Tadeu Barbosa de Alencar Diretoria de Ensino e Pesquisa Michele Gonçalves dos Ramos Coordenação-Geral de Ensino Ana Claudia Bernardes Vilarinho de Oliveira Coordenação Pedagógica Joyce Cristine da Silva Carvalho Coordenação de Ensino a Distância Renata Guilhões Barros Santos Gerente de Curso Danilo Bruno Moreira Conteudistas Módulo 1 - Rafael Zanatta Módulos 2 e 3 - Daniel Edler Duarte Módulo 4 – Aulas 1 e 4: Marcio Julio da Silva Santos Módulo 4 – Aulas 2 e 3: Pedro CL Souza Módulo 5 - Marcio Julio da Silva Santos Módulo 6 - Erivelton Pires Guedes, Murilo Goes de Almeida, Ana Cecilia Gonzalez Galvão Ferreira Revisão Ana Paula Santos Meza Luciana Costa Jatahy de Castro Revisão Textual Daniele Rosendo dos Santos Revisão Pedagógica Ardmon dos Santos Barbosa Programação e Edição Fabio Nevis dos Santos Renato Antunes dos Santos Design Instrucional Wagner Henrique Varela da Silva Colaboração dos profissionais da DGI no Módulo 5: Alan Cardek Milhomes Marques Alan Cordeiro Rodrigues Aline Brígida Barata da Silva André Guedes Leandro Armando Slompo Filho Carlos Magno Delegado Costa de Oliveira Clodoaldo Bandeira da Silva Daniel Caixeta Barroso Flavio Soares da Silva Francisco Carlilton Morais de Queiroz Gabriela Marcondes Cruz Giovanni Markus Barroso Jackson da Silva dos Santos Jefferson Pereira da Silva Julia Mitiko Sakamoto Kleber Maciel de Farias Junior Natanael Silva de Oliveira Niura de Lourdes Norberto Pholiane Jannaine Reis Ferreira Rafael Pereira de Souza Rafael Rodrigues de Sousa Railana Berenice Amoras Oliveira Renato Mendes Fonseca Robson Niedson de Medeiros Martins Sione Guilhermina Interaminense Willijeans Batista de Souza SUMÁRIO APRESENTAÇÃO DO CURSO ............................................................................................ 8 OBJETIVOS DO CURSO .................................................................................................... 18 ESTRUTURA DO CURSO .................................................................................................. 18 MÓDULO 1: INTRODUÇÃO ÀS TECNOLOGIAS E SEGURANÇA PÚBLICA ................ 19 APRESENTAÇÃO .............................................................................................................. 19 OBJETIVOS DO MÓDULO ................................................................................................. 22 ESTRUTURA DO MÓDULO ............................................................................................... 22 AULA 1. O QUE É ÉTICA? ............................................................................................. 23 AULA 2. O QUE É A ÉTICA NO USO DE TECNOLOGIAS? .......................................... 28 AULA 3. ÉTICA DA PRECAUÇÃO E SUA APLICABILIDADE PARA SEGURANÇA PÚBLICA ..................................................................................................................................... 32 FINALIZANDO ................................................................................................................ 40 MÓDULO 2 - OS USOS DE SISTEMAS DE RECONHECIMENTO FACIAL NO CAMPO DA SEGURANÇA PÚBLICA ........................................................................................................... 41 APRESENTAÇÃO .......................................................................................................... 41 OBJETIVOS DO MÓDULO ............................................................................................. 42 ESTRUTURA DO MÓDULO ........................................................................................... 42 AULA 1. O FUNCIONAMENTO DOS SISTEMAS DE RECONHECIMENTO FACIAL .. 43 AULA 2. PANORAMA DO USO DE TECNOLOGIAS DE RECONHECIMENTO FACIAL NO BRASIL E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A ATIVIDADE POLICIAL .................................... 50 AULA 3. OS RISCOS RELACIONADOS AO RECONHECIMENTO FACIAL NO CONTEXTO DA SEGURANÇA PÚBLICA .................................................................................. 57 FINALIZANDO ................................................................................................................ 63 MÓDULO 3 - SISTEMAS DE ANÁLISE CRIMINAL E POLICIAMENTO PREDITIVO ...... 64 APRESENTAÇÃO .......................................................................................................... 64 OBJETIVOS DO MÓDULO ............................................................................................. 65 ESTRUTURA DO MÓDULO ........................................................................................... 65 AULA 1. ANTECEDENTES DO USO DA ANÁLISE ESTATÍSTICA NO PLANEJAMENTO OPERACIONAL DAS POLÍCIAS ................................................................. 66 AULA 2. COMO OPERAM OS SISTEMAS ATUAIS DE POLICIAMENTO PREDITIVO? ..................................................................................................................................................... 72 AULA 3. LIMITAÇÕES TÉCNICAS E DILEMAS ÉTICOS.............................................. 80 FINALIZANDO ................................................................................................................ 85 MÓDULO 4 - CÂMERAS CORPORAIS E SEGURANÇA PÚBLICA ................................ 86 APRESENTAÇÃO .......................................................................................................... 86 OBJETIVOS DO MÓDULO ............................................................................................. 86 ESTRUTURA DO MÓDULO ........................................................................................... 87 AULA 1. HISTÓRICO DAS CÂMERAS CORPORAIS EM SEGURANÇA PÚBLICA .... 88 1.1 DEFINIÇÕES SOBRE CÂMERAS CORPORAIS .................................................................... 88 1.2 LINHA DE TEMPO DAS CÂMERAS CORPORAIS EM SEGURANÇA PÚBLICA ............................ 93 AULA 2. METODOLOGIAS UTILIZADAS E QUALIDADE DA AVALIAÇÃO ................ 98 AULA 3. EFEITOS DO USO DE CÂMERAS CORPORAIS .......................................... 104 AULA 4. PROJETO NACIONAL DE CÂMERAS CORPORAIS ................................... 112 FINALIZANDO .............................................................................................................. 119 MÓDULO 5 – FERRAMENTAS TECNOLÓGICAS MJSP ............................................... 123 APRESENTAÇÃO ........................................................................................................ 123 OBJETIVOS DO MÓDULO ........................................................................................... 127 ESTRUTURA DO MÓDULO ......................................................................................... 127 AULA 1. SOLUÇÕES TECNOLÓGICAS SINESP ....................................................... 128 1.1 OBJETIVOS DO SINESP ............................................................................................... 131 1.2 FINALIDADES DO SINESP ............................................................................................ 141 1.3 INTEGRAÇÃO E ATUAÇÃO OPERACIONAL DOS ÓRGÃOS DE SEGURANÇA PÚBLICA .......... 142 1.4 AFERIÇÃO DAS ATIVIDADES DE POLÍCIA OSTENSIVA E PRESERVAÇÃO DA ORDEM PÚBLICA ................................................................................................................................................... 143 1.5 ANÁLISE PREDITIVA E O PLANEJAMENTO OPERACIONAL ............................................... 144 1.6 ADOÇÃO DE PADRÕES DE INTEGRIDADE, DISPONIBILIDADE, CONFIDENCIALIDADE, CONFIABILIDADE E TEMPESTIVIDADE DOS SISTEMAS INFORMATIZADOS DO GOVERNO FEDERAL ....... 145 1.7 INTEGRANTES DO SINESP........................................................................................... 146 1.8 SINESP SEGURANÇA .................................................................................................. 150 1.8.1 Funcionalidades Chave do Sinesp Segurança ................................................ 151 1.9 SINESP CAD (CENTRAL DE ATENDIMENTO E DESPACHO) ............................................ 153 1.9.1 Funcionalidades Chave do Sinesp Segurança ................................................ 155 1.10 SINESP PPE (PROCEDIMENTOS POLICIAIS ELETRÔNICOS) ......................................... 156 1.11 SINESP DEVIR (DELEGACIA VIRTUAL) ...................................................................... 159 1.12 SINESP INFOSEG ..................................................................................................... 162 1.12.1 Missão do Sinesp INFOSEG ......................................................................... 164 1.12.2 Funcionalidades do Sinesp Infoseg ............................................................... 165 1.12.3 Acesso Restrito para a Segurança Pública ................................................... 165 1.12.4 Impacto e Reconhecimento ........................................................................... 165 1.12.5 Resultados Concretos ................................................................................... 166 1.13 SINESP AUDITORIA .................................................................................................. 166 1.14 SINESP INTEGRAÇÃO ............................................................................................... 168 1.15 SINESP DW ANÁLISE ............................................................................................... 172 1.16 SINESP AGENTE DE CAMPO ...................................................................................... 174 1.17 SINESP CIDADÃO ..................................................................................................... 175 1.18 SINESP JC/VDE ...................................................................................................... 179 1.18.1 Sinesp VDE .................................................................................................... 180 1.19 SINESP GEOINTELIGÊNCIA ........................................................................................ 184 AULA 2. ADESÃO ÀS SOLUÇÕES DO SINESP ............................................................ 188 AULA 3. CÓRTEX E OUTRAS SOLUÇÕES TECNOLÓGICAS ..................................... 190 3.1 CÓRTEX .................................................................................................................... 190 3.1.1 Integração entre Sistemas ............................................................................... 191 3.1.2 Orientações Iniciais de Acesso ao Sistema Córtex e Principais Funcionalidades do Cercamento Eletrônico ..................................................................................................... 192 3.2 BRASIL MAIS ............................................................................................................. 199 3.3 PESQUISA PERFIL DAS INSTITUIÇÕES DE SEGURANÇA PÚBLICA (PISP) ........................ 203 3.4 IDENTIDADE FUNCIONAL ............................................................................................. 206 FINALIZANDO .............................................................................................................. 208 REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 211 8TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA APRESENTAÇÃO DO CURSO Olá discentes, Sejam bem-vindos e bem-vindas ao curso de Tecnologias Aplicadas à Segurança Pública. É com grande satisfação que disponibilizamos um conteúdo inteiramente pensado para você - profissional que integra o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), que tem buscado se atualizar frente às novas Tecnologias da Informação e Comunicação - as TICs. Trata-se de capacitação que pretende identificar oportunidades e benefícios quanto ao emprego das ferramentas tecnológicas na gestão da segurança pública e defesa social, bem como discutir desafios relativos à implementação desses recursos pelas instituições que compõem o Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Você será apresentado aos recursos e sistemas tecnológicos atualmente disponíveis aos operadores e operadoras da segurança pública no país. Contudo, antes de prosseguir, propomos alguns questionamentos relevantes: Como você classifica a sua familiaridade com os sistemas e equipamentos tecnológicos disponíveis na atualidade (fluência digital)? Como você avalia a disponibilidade e o emprego dos recursos digitais pelos gestores e operadores da segurança pública? A sua organização faz uso adequado dos instrumentos informatizados explorando as potencialidades das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs)? 9TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Você seria capaz de enumerar algumas ferramentas tecnológicas que poderiam ser mais bem exploradas na prevenção e no enfrentamento à criminalidade? Após refletir sobre essas questões, avancemos a leitura sobre o tema... Sistemas modernos de gestão de segurança têm como base a utilização intensiva de indicadores pelas organizações, tanto no planejamento e desenvolvimento de estratégias, quanto no monitoramento e avaliação de seus resultados. Atendimentos, registros de ocorrências, acompanhamento de processos e diligências culminam na produção e armazenamento de uma elevada quantidade de dados, distribuídos entre os inúmeros setores que atuam na preservação da ordem e investigação criminal. Esses dados, quando adequadamente utilizados, se revelam como rica fonte de pesquisa e apontam tendências para a atuação dos agentes de segurança pública. DADOS e INFORMAÇÕES devem ser os insumos básicos (inputs) a serem considerados pelas organizações de segurança para uma atuação técnica, eficiente e de qualidade. O modo como elas produzem, organizam, disponibilizam e utilizam esses recursos é que determinarão a natureza e efetividade das atividades desenvolvidas. Logo, atuar de forma preventiva e proativa está diretamente relacionada à capacidade de gestão do conhecimento pelas instituições. Sites, e-mails, tablets e computadores...o que esses itens possuem em comum? Além de serem populares, todos compõem o grupo das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) que, apesar de terem surgido em nosso dia a dia há relativamente pouco tempo, alteraram significativamente o modo 10 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA como trabalhamos e nos relacionamos. De igual modo, têm conquistado espaços públicos e privados, transformando consideravelmente ambientes residenciais e corporativos. Pense bem... tarefas repetitivas e cálculos matemáticos, por exemplo, têm encontrado nas TICs novos métodos de resolução - mais práticos e eficientes. Ademais, o registro e a análise de diversas ações policiais, como o controle de pessoal, estoque de materiais e despachos de ocorrências fazem uso frequente de tais soluções. Inúmeras outras funções - administrativas e operacionais, passaram a ser executadas com apoio das TICs, assim como os procedimentos para identificação de padrões criminais; os relacionamentos entre pessoas, locais e objetos; histórico e antecedentes de suspeitos; o planejamento de operações e execução de projetos - só para citarmos alguns. Enfim, é fácil observar que centenas de tarefas que podem usufruir das facilidades do progresso digital. Noutra ponta, práticas consideradas obsoletas, executadas manualmente por meio de processos físicos e com o emprego de sistemas analógicos já não atendem mais às exigênciasdas pessoas e instituições. Assim, a Administração Pública não comporta práticas ultrapassadas, fundadas na impressão aleatória de papéis ou no preenchimento de requerimentos manuscritos – por exemplo. A manutenção desses serviços baseada em alegações de que “há necessidade de se verificar a veracidade dos dados ou das informações prestadas” já não fazem jus à realidade. Há algum tempo é possível prestar serviços, verificar a autenticidade de pessoas e documentos mediante o emprego das TICs e o melhor: sem abrir mão da segurança e da privacidade dos envolvidos. Talvez você não se sinta apto a experimentar os benefícios que a inovação tecnológica pode trazer para o seu trabalho ou sua casa, seja por insegurança, desconhecimento ou até mesmo por preferir “não mexer naquilo que 11 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA está dando certo”. Então, se esse for o seu caso, está matriculado no curso exato para superar essa(s) barreira(s). Resistir às mudanças é, até certo ponto, natural de qualquer ser humano, porém é importante perceber que “o novo sempre vem” e cabe a cada um de nós aceitar o desafio e se adaptar. Dessa forma, é sempre bom lembrar: tantos se agarraram à máquina de escrever, mas nada impediu o avanço do computador. Figura 1: Frase proferida por Leon C. Meidison, professor da Louisiana State University, Durante discurso proferido em 1963, onde apresenta a sua interpretação da "A Origem das Espécies" de Charles Darwin. Fonte: Pensador (2023) Você já parou para pensar como é fácil se sentir ultrapassado ou até mesmo excluído do processo de inovação tecnológica atual? Nesse ponto, chamamos atenção para a velocidade como as TICs crescem e se multiplicam, ocupando espaços de forma cada vez mais acelerada, despertando, na maioria das vezes, sentimento de impotência e despreparo para a sua utilização. É importante destacar, porém, que não se trata de uma sensação que deva causar estranheza. Na verdade, é um fenômeno considerado bastante comum e que aflige um número muito maior de pessoas do que você imagina - sobretudo Vamos Refletir 12 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA aquelas que não têm o dever funcional ou o hábito de empregar novas tecnologias no dia a dia. O excesso de informações e o volume de recursos disponibilizados atualmente podem dificultar a familiarização e compreensão das novidades divulgadas pelo mercado. Ou seja, o lançamento diário de soluções tecnológicas pode fazer com que a tarefa de se manter atualizado seja considerada até mesmo exaustiva. A diversidade de ferramentas existentes no mercado pode, inclusive, despertar efeito contrário no indivíduo que, ao invés se guiar rumo à melhor escolha, se afasta das TICs e aprofunda o seu estranhamento. Perder o lançamento de um dispositivo que esteja causando barulho nas redes sociais pode gerar pensamentos de se estar atrasado e fora do cenário da tecnologia por anos, simplesmente, porque você não acompanhou as novidades da última semana. No entanto, isso não pode ser motivo de desespero! Ademais, por mais que haja a intenção de se manter atualizado, é comum não querer saber tudo o que é publicado acerca de determinado item. A experiência tecnológica deve ser uma prática prazerosa, um facilitar para necessidades do usuário e não uma obrigação incômoda. Como vimos, as tecnologias têm inaugurado novas formas de relacionamento, comunicação e trabalho. Grandezas como tempo e espaço; distância e velocidade têm impactado diretamente as noções históricas de bens e valores. 13 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Sigamos... Proprietários de terra, outrora detentores quase que exclusivos do capital, deram lugar àqueles ligados à tecnologia e à inovação. Fenômeno de uma sociedade que experimenta a Era do Conhecimento. Hoje, as maiores fortunas do mundo estão concentradas, em grande parte, entre investidores e empresários ligados ao ramo da tecnologia (ainda que indiretamente, por ocasião da influência e dependência desse setor). Grandes organizações já não comercializam produtos ou serviços relacionados à manufatura de outrora; elas passaram a dispor e negociar dados e informações – ativo pouco explorado anteriormente, cuja valorização representa uma ruptura de paradigmas na economia mundial. Essa trajetória ainda se encontra em desenvolvimento com promessas e desafios típicos da relação homem e máquina. Estudo recente do Comitê Gestor da Internet no Brasil trouxe números importantes e considerações acerca do uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) tanto sobre a prestação de serviços públicos ofertados remotamente no país quanto os hábitos do brasileiro de acesso à internet. Nos últimos dois anos, a prestação de serviços digitais no país e a população conectada às redes registraram crescimento em todas as esferas do setor público brasileiro. Você sabia? 14 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 2: Domicílios com acesso à Internet, por região – 2021 Fonte: CGI.BR (2022). Em 2022, três de cada quatro órgãos federais (75%) declararam disponibilizar de forma digital o serviço público mais procurado pelos cidadãos, cenário bem diferente daquele obtido em 2019, quando pouco mais da metade desses órgãos afirmaram a intenção de utilizar os serviços em formato online. Nas entidades estaduais, a oferta pela Internet do serviço mais procurado cresceu de 31%, em 2019, para 45%, em 2021. Observou-se ainda uma diminuição de órgãos públicos que reportaram não oferecer o serviço mais buscado pela internet, como nos órgãos federais (de 8% para 2%) e estaduais (de 20% para 13%). A pesquisa demonstra um aumento na adoção de chats em websites, seja com atendentes humanos ou de forma automatizada. No âmbito federal, o uso de chats com atendentes em tempo real passou de 8%, em 2019, para 30%, em 2021. Nos órgãos estaduais, o uso que era de 5% em 2019 alcançou 18% em 2021 (CGI.Br, 2022). 15 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Gráfico 1: Perfis dos usuários de internet que recorrem aos serviços públicos nos últimos 12 meses (%) Fonte: CGI.br (2022). Pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nos domicílios brasileiros – TIC Domicílios 2021. De acordo com o estudo, a adoção de soluções tecnológicas ainda ocorre de forma tímida no setor público brasileiro e, entre as iniciativas pesquisadas, as tecnologias ligadas à Inteligência Artificial (IA) apareceram como as mais utilizadas (no entanto representando uma pequena quantidade no país). Já a Internet das Coisas (IoT) e o blockchain foram soluções empregadas por menos de 20% das organizações federais e estaduais dos Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público. Em se tratando da segurança pública, os serviços ofertados remotamente alcançaram apenas 14% das instituições analisadas (Gráfico 2): 16 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Vamos Refletir Gráfico 2: Tipos de Informações referentes a serviços públicos procuradas ou serviços públicos realizados em 2021. Fonte: CGI.Br (2022). Diante dessa porcentagem - abaixo da média obtida em outros segmentos, reflita: Em sua opinião, quais fatores contribuem para esse cenário? Por que o número de serviços ofertados digitalmente na segurança pública é menor que nos demais setores? Você acredita que há espaço para crescimento? Em sua instituição, o registro de ocorrências, o atendimento aos cidadãos e acompanhamento de processos poderiam, em determinados casos, ser ofertados remotamente? 17 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Verifica-se na segurança pública que as TICs ainda são pouco exploradas, revelando inúmeras alternativas para a aplicação.Iniciativas focadas na predição de ambientes, correlação de agentes e análise de infrações têm despontado como ferramentas potencialmente relevantes para o enfrentamento à criminalidade. Ações de monitoramento, investigação e inteligência também têm se beneficiado do avanço tecnológico. As perspectivas, todavia, exigem necessariamente capacitação. É difícil imaginar uma polícia que faz uso intensivo de dados sem treinamento específico para isso. Usar mais dados e tecnologia é uma mudança de visão do trabalho policial que deve ser fomentada nas academias de polícias, algo ainda incipiente em muitas polícias do Brasil. (IBRE, 2022) Por fim, o material apresenta outras questões relevantes, como a difusão da internet em praticamente todos os segmentos do setor público, a adesão maciça da comunicação eletrônica e o emprego de ferramentas digitais para análise de dados em um considerável número de organizações. Essas constatações serão abordadas nas próximas páginas. Você está preparado para avançar? Vamos lá! 18 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA OBJETIVOS DO CURSO Este curso tem como objetivo capacitar os profissionais que compõem o Sistema Único de Segurança Pública (Susp) a fim de que possam (re)conhecer os benefícios do emprego e do investimento em soluções tecnológicas que despontam na atividade de gestão e execução para a defesa da cidadania, de direitos e defesa da ordem pública. Ademais, pretende-se que o discente seja capaz de adotar recursos adequados, utilizando-se eticamente das funcionalidades e dispositivos destinados ao aprimoramento das atividades de segurança pública. ESTRUTURA DO CURSO Esse curso possui carga-horária de 50 horas, distribuídas em cinco módulos: Módulo 1 - Introdução às Tecnologias e Segurança Pública. Módulo 2 - O Uso de Sistemas Reconhecimento Facial no Campo da Segurança Pública. Módulo 3 - Policiamento preditivo. Módulo 4 - Câmeras Corporais. Módulo 5 - Ferramentas Tecnológicas MJSP. 19 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA MÓDULO 1: INTRODUÇÃO ÀS TECNOLOGIAS E SEGURANÇA PÚBLICA APRESENTAÇÃO Neste módulo trataremos do uso ético de tecnologias na segurança pública. Para tanto, abordaremos o que significa ética, quais as preocupações do campo da ética da tecnologia, quais os princípios éticos desenvolvidos por profissionais de segurança pública e policiamento em países democráticos e no que consiste uma ética da precaução no uso de novas tecnologias da informação na segurança pública. Antes de avançar, leia a manchete abaixo: Figura 3: Câmera de segurança em banheiro de colégio estadual Fonte: Bom dia, Paraná - RPC Cascavel (2022). A instalação de câmeras em banheiros e vestiários, o uso de microfones em alojamentos e as revistas íntimas no trabalho. Tudo vale a pena em nome da segurança? 20 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Quais os limites para a implantação de medidas de proteção? Até que ponto é legal e ético o emprego das tecnologias? A seguir, algumas notícias que tratam do emprego das tecnologias e consequências quanto ao seu uso. Figura 4: Imagens de reportagens sobre o uso e consequências do emprego das tecnologias nas ações de segurança e investigação policial (Parte1) Fonte: Montagem COED (O GLOBO (2023) https://oglobo.globo.com/mundo/epoca/noticia/2023/08/07/gravida-e-presa-por-engano-quem-e-a- mulher-acusada-de-roubo-por-erro-em-tecnologia-de-reconhecimento-facial-nos-eua.ghtml; AfirmATIVA (2023) - https://revistaafirmativa.com.br/reconhecimento-facial-prisoes-no-carnaval- reacendem-o-debate-de-uma-tecnologia-com-altas-taxas-de-erros/ ; Olhar Digital (2020) - https://olhardigital.com.br/2020/12/30/noticias/reconhecimento-facial- falha-e-homem-inocente-passa-10-dias-na-cadeia/; e G1 Bahia (2023) - https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2023/09/01/com-mais-de-mil-prisoes-na-ba-sistema-de- reconhecimento-facial-e-criticado-por-racismo-algoritmico-inocente-ficou-preso-por-26-dias.ghtml ). 21 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 5: Imagens de reportagens sobre o uso e consequências do emprego das tecnologias nas ações de segurança e investigação policial (Parte2) Fonte: TILT UOL (2023) - https://www.uol.com.br/tilt/reportagens-especiais/como-os- algoritmos-espalham-racismo/ ; LAW Innovatin (2021); e O DIA (2019) - https://odia.ig.com.br/rio- de-janeiro/2019/07/5662023-reconhecimento-facial-falha-e-mulher-e-detida-por-engano.html VOCÊ PERCEBE OS DILEMAS ÉTICOS E COMO DEVE SE DAR ESSA ESCOLHA? PARA MELHOR COMPREENDER ESSA QUESTÃO, ACOMPANHE AS PRÓXIMAS AULAS. 22 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA OBJETIVOS DO MÓDULO Fomentar a reflexão sobre o significado da ética para profissionais da segurança pública; Diferenciar as discussões sobre conduta ética individual da discussão sobre usos éticos de tecnologias e desenvolver habilidades para reflexões éticas em novas tecnologias; e Desenvolver habilidades analíticas para se pensar a utilização de novas tecnologias do ponto de vista de uma ética da precaução, focada em identificar incertezas, riscos e mitigações possíveis. ESTRUTURA DO MÓDULO Aula 1. O que é ética? Aula 2. O que é ética no uso de tecnologias? Aula 3. Ética da precaução e sua aplicabilidade na segurança pública. 23 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 1. O QUE É ÉTICA? A ética, desde sua formulação na Grécia Antiga, é uma área do saber que diz respeito ao conceito de boa vida. O que é viver uma boa vida? Como viver uma boa vida em sociedade? Como devemos nos tratar e como devemos decidir o que é certo e errado a partir de certos valores? É importante fazermos uma diferenciação básica entre ética e moralidade. A ética é um ramo da filosofia que lida com questões de comportamento humano, valores, moralidade, certo e errado. Ela envolve o estudo e a reflexão sobre o que é considerado bom, justo e correto em diferentes contextos e situações. A ética busca estabelecer princípios e diretrizes que orientem as ações e decisões das pessoas de maneira a promover o bem-estar geral e a justiça na sociedade. A moralidade refere-se às normas, valores e princípios que uma sociedade, cultura ou grupo específico considera adequados. Ela determina o que é certo ou errado dentro de um contexto social particular. A moralidade muitas vezes é influenciada pela ética, mas pode variar significativamente entre diferentes culturas e comunidades. A ética está intrinsecamente ligada à busca de uma boa vida. A ideia é que a ética fornece um conjunto de princípios e valores que podem guiar as pessoas em direção a uma vida que seja considerada valiosa, significativa e justa. Para muitos filósofos éticos, a boa vida envolve não apenas a busca da felicidade pessoal, mas também a consideração do bem-estar dos outros e a promoção do bem comum. Este é um ponto muito importante para as reflexões de ética para profissionais de segurança pública, considerando que as atividades policiais e de segurança pública voltam-se à promoção do bem-estar da comunidade e das pessoas. A obediência e a hierarquia não são os únicos valores em jogo quando se trata de uma ética da segurança pública. Essa preocupação com a comunidade, e a promoção de seu bem-estar, é um princípio ético de longa data das atividades policiais e de segurança pública. Por exemplo, em 1957, a Associação Internacional dos Chefes de Polícia, nos 24 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Estados Unidos da América, aprovou o seu primeiro Código de Ética para Agentes de Lei, que diz o seguinte no seu primeiro parágrafo: Como agente da lei, o meu dever fundamental é servir a comunidade; para salvaguardar vidas e propriedades; proteger os inocentes contra o engano, os fracoscontra a opressão ou intimidação e os pacíficos contra a violência ou desordem; e respeitar os direitos constitucionais de todos à liberdade, igualdade e justiça. Acesse e confira o original: https://www.theiacp.org/resources/law-enforcement-code-of-ethics Possuir ética e estabelecer padrões éticos significa basicamente fazer a coisa certa, na hora certa e da maneira certa. Os cidadãos esperam que os responsáveis pela aplicação da lei tenham um conjunto de valores e normas pelos quais vivam. Consequentemente, sem um conjunto de âncoras para medir o comportamento, teríamos uma situação ética confusa. Em 1992, o Instituto Josephson de Ética propôs os “seis pilares” para decisões éticas, que são usados pela Indiana Law Enforcement Academy para formação de profissionais de policiamento nos EUA*. *Acesse e saiba mais: https://www.in.gov/ilea/files/Police_Ethics_I.pdf 25 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Os “seis pilares” éticos são: 1 Confiabilidade – integridade, honestidade, cumprimento de promessas, lealdade 2 Respeito – cortesia, autonomia, diversidade 3 Responsabilidade – dever, prestação de contas, busca pela excelência 4 Justiça/equidade – abertura, consistência, imparcialidade 5 Cuidado – bondade, compaixão, empatia 6 Virtudes cívicas/cidadania – licitude, bem comum, ambiente Em 1995, o “Comitê de Padrões para Vida Pública”, do Reino Unido, formulou um conjunto de princípios para um policiamento ético e para profissionais de segurança pública. O Código diz que toda pessoa trabalhando para a polícia deve desempenhar um trabalho honesto e ético. O público espera que a polícia faça a coisa certa da forma certa. Os princípios auxiliam na tomada de decisão para profissionais de segurança pública. Em 2014, em reedição do Código de Ética para Policiamento,1 esses princípios foram reafirmados e eles dizem o seguinte: 1 Ver https://www.college.police.uk/ethics/code-of-ethics 26 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA No Brasil, também possuímos Códigos de Ética que regulam atividades de profissionais da segurança pública e que abordam valores para a conduta ética. A Polícia Federal, por exemplo, aprovou em 2015 um Código de Ética que define o seguinte: São princípios e valores éticos que devem nortear a conduta profissional do agente público do Departamento de Polícia Federal: a dignidade, o decoro, o zelo, a probidade, o respeito à hierarquia, a dedicação, a cortesia, a assiduidade, a presteza e a disciplina; e a legalidade, a impessoalidade, a moralidade, a publicidade, a eficiência e o interesse público*. * Resolução n. 004 CSP/DPF, 2015, Código de Ética da Polícia Federal. Princípios de Policiamento Ético (College of Policing, 2014) Responsabilidade: Você é responsável por suas decisões, ações e omissões. Justiça: você trata as pessoas de maneira justa. Honestidade: Você é verdadeiro e confiável. Integridade: Você sempre faz a coisa certa. Liderança: Você lidera pelo bom exemplo. Objetividade: Você faz escolhas com base em evidências e seu melhor julgamento profissional. Abertura: Você é aberto e transparente em suas ações e decisões. Respeito: Você trata a todos com respeito. Altruísmo: você age no interesse público. 27 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Este Código de Ética também diz que é dever do agente público zelar pela utilização adequada dos recursos de tecnologia da informação. Esse compromisso ético tem uma profunda conexão com o dever de respeito à dignidade da pessoa humana, que é um dos valores do Estado Democrático de Direito da República Federativa do Brasil.2 Até o momento, analisamos o que é ética e quais os princípios que ajudam a compreender ações motivadas por valores éticos no campo da segurança pública. A seguir, vamos analisar o problema específico da ética no uso das tecnologias, considerando as grandes transformações que estamos passando nos últimos anos com a sociedade da informação, da expansão dos computadores e tecnologias da informação e a facilidade de uso de dispositivos tecnológicos com capacidade de captação, tratamento e armazenamento de dados. 2 Constituição Federal da República Federativa do Brasil, Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I - a soberania; II - a cidadania; III - a dignidade da pessoa humana; IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V - o pluralismo político. 28 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 2. O QUE É A ÉTICA NO USO DE TECNOLOGIAS? A discussão sobre ética e transformação tecnológica é bastante rica, pois remonta ao período de início do surgimento da computação e das primeiras pesquisas sobre Inteligência Artificial nas décadas de 1950 e 1960. As décadas de 1950 e 1960 foram um período crucial para os debates sobre ética e tecnologia, especialmente com o surgimento da cibernética e os trabalhos de Norbert Wiener e Joseph Weizenbaum, dois importantes filósofos da ética no uso de novas tecnologias. A cibernética, um campo interdisciplinar que estudava sistemas de controle e comunicação, trouxe à tona questões éticas relacionadas ao controle e à automação. O matemático Norbert Wiener, professor de cibernética do MIT, explorou como as máquinas poderiam ser usadas para controlar processos naturais e artificiais, o que levantou preocupações sobre o uso responsável dessa tecnologia. Figura 6: Professor Norbert Wiener, conhecido como o pai da cibernética. Fonte: Alfred Eisenstaedt, 1949 Wiener estava preocupado com o aumento da automação e da tecnologia, especialmente em contextos industriais e militares. Ele via a automação como uma força potencialmente desumanizadora e argumentava que a tecnologia poderia ser 29 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA usada para ampliar o controle sobre as pessoas, levando à alienação e à perda de autonomia. Uma das soluções que Wiener propôs para suas preocupações foi a ideia de um “controle ético” da tecnologia. Ele argumentou que as decisões sobre o desenvolvimento e o uso de tecnologias avançadas deveriam ser influenciadas por considerações éticas e morais, e que deveria haver uma supervisão adequada para garantir que os avanços tecnológicos fossem compatíveis com valores humanos. Wiener também promoveu a ideia de uma abordagem interdisciplinar para abordar as questões éticas relacionadas à tecnologia. Ele argumentava que a ética cibernética deveria ser uma disciplina que reunisse especialistas de diversas áreas para abordar os desafios éticos da tecnologia. As ideias de Wiener, formuladas na década de 1960, são bastante atuais ao pensarmos o uso ético de novas tecnologias na segurança pública. Vou fornecer um exemplo concreto de como o "controle ético" de tecnologias, conforme defendido por Norbert Wiener há décadas, poderia ser aplicado no campo do uso de novas tecnologias na segurança pública. Suponha que uma agência de segurança pública esteja considerando a implementação de sistemas de reconhecimento facial para auxiliar na identificação de suspeitos em áreas públicas. Para aplicar o controle ético nesse contexto, a agência pode seguir as seguintes diretrizes: Transparência e Escrutínio Público: Antes de implementar qualquer sistema de reconhecimento facial, a agência deve ser transparente sobre sua intenção de usá-lo e envolver o público em discussões sobre os riscos e benefícios. Isso inclui consultas públicas, debates abertos e avaliações independentes dos sistemas; Limitação de Uso: A agência deve definir claramente os casos de uso do reconhecimento facial e estabelecer limitespara sua aplicação. Por exemplo, pode ser usado apenas em investigações criminais específicas, e não para monitorar rotineiramente cidadãos em espaços públicos; 30 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Proteção da Privacidade e dos Dados Pessoais: É necessário implementar salvaguardas rigorosas para proteger a privacidade das pessoas e para proteger o direito fundamental à proteção de dados pessoais. Isso inclui a identificação da base legal para tratamento dos dados pessoais, a identificação de finalidade específica, o respeito ao princípio da minimização, a anonimização de dados, o armazenamento seguro e o acesso restrito aos registros de reconhecimento facial; Prevenção de Viés e Discriminação: A agência deve garantir que os sistemas de reconhecimento facial sejam treinados e testados de maneira a minimizar viés e discriminação racial, étnica ou de gênero. É importante monitorar e ajustar constantemente os algoritmos para evitar resultados injustos; Acesso Legalmente Autorizado: O acesso aos dados de reconhecimento facial deve ser restrito e requerer autorização legal adequada, como mandados judiciais, para evitar o uso indevido; Supervisão e Responsabilidade Humana: Os sistemas de reconhecimento facial devem ser supervisionados por pessoal treinado em ética e direitos humanos, que possa intervir em caso de erros ou uso inadequado; Avaliação Ética Contínua: A agência deve realizar avaliações regulares da ética do uso da tecnologia, considerando as preocupações levantadas pela comunidade e atualizando suas políticas e práticas de acordo com as normas éticas estabelecidas; 31 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Alternativas e Mitigação de Riscos: A agência deve considerar alternativas ao reconhecimento facial, como métodos de identificação menos invasivos e implementar medidas de mitigação de riscos, como treinamento de pessoal e avaliação de impacto à privacidade e à proteção de dados pessoais. Essas diretrizes representam um exemplo de como o controle ético pode ser aplicado ao uso de tecnologia, como o reconhecimento facial, na segurança pública. A ideia-chave é que a tecnologia deve ser usada com responsabilidade, considerando os princípios éticos e respeitando os direitos fundamentais dos cidadãos, com supervisão e transparência adequadas para garantir a confiança do público. Isso também significa que uma tecnologia pode não ser utilizada, se for julgado que as violações éticas são significativas. Abordaremos, a seguir, o que é uma “ética da precaução” no uso das novas tecnologias em segurança pública a partir do pensamento do filósofo Hans Jonas, um pensador bastante conhecido na filosofia da ciência e que nos ajuda a pensar por um viés precaucionário, que busca analisar e discutir os efeitos a longo prazo no uso de uma nova tecnologia. Como veremos, a ética da precaução também tem valores democráticos profundos, pois busca exercitar uma reflexão sobre incertezas e efeitos a longo prazo que afetam não só uma comunidade, mas também as gerações futuras. Saiba mais Acesse: https://www2.iel.unicamp.br/litpos/2020/06/12/ap rendizagem-e-inteligencia-na-obra-cibernetica-e- sociedade-de-norbert-wiener/ 32 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 3. ÉTICA DA PRECAUÇÃO E SUA APLICABILIDADE PARA SEGURANÇA PÚBLICA Hans Jonas, um filósofo alemão, é conhecido por seu trabalho sobre ética e responsabilidade na era da tecnologia. Em seu livro "O Princípio Responsabilidade: Ensaio de uma Ética para a Civilização Tecnológica", do final da década de 1970, ele apresenta argumentos fundamentais sobre como devemos abordar a ética em um mundo cada vez mais dominado pela tecnologia. Figura 7: Retrato do Professor Alemão Hans Jonas. Foto: Effigie / Bridgeman Images Jonas argumenta que o avanço da tecnologia moderna concedeu à humanidade um poder sem precedentes sobre a natureza e a vida. Esse novo poder traz consigo a responsabilidade de considerar cuidadosamente as consequências de nossas ações tecnológicas. Existe um processo de “autonomização” das forças tecnológicas, que apresenta um novo grau de risco à humanidade. Podemos considerar aqui as junções das transformações das energias atômicas com as transformações na computação e nos sistemas de inteligência artificial. O conceito central de Jonas é o "Princípio da Responsabilidade", que exige que consideremos as implicações de longo prazo de nossas ações tecnológicas. 33 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Vamos Refletir Ele enfatiza que devemos tomar decisões que não prejudiquem as gerações futuras, a biosfera ou a humanidade como um todo. Por isso, precisamos de uma ética intergeracional, que considere também os efeitos para o futuro. Há uma necessidade de uma ética orientada para o futuro, em contraste com uma ética tradicional que se concentra principalmente nas relações humanas presentes. Jonas defendeu a adoção do princípio de precaução como parte integrante da tomada de decisões tecnológicas no campo da ética. Isso significa que, quando enfrentamos incertezas significativas sobre os resultados de uma ação, devemos adotar uma abordagem mais cautelosa e evitar riscos graves. A ética da precaução enfatiza a importância do dever de cuidado para com a natureza e a humanidade, o que também se relaciona com um valor ético básico de “cuidado”, como vimos anteriormente. Isso implica que devemos agir com prudência e responsabilidade ao usar tecnologias que possam afetar a vida na Terra. A ética da precaução nos coloca em situação semelhante a de um pai ou uma mãe que está cuidando de uma criança: há um dever de responsabilidade com o futuro de toda a humanidade. Por isso, o uso de novas tecnologias não deve estar relacionado a um efeito imediato e concreto. É preciso pensar: Essas tecnologias modificam nosso comportamento? Quais seus efeitos a longo prazo? Elas fazem com que sejamos menos autônomos e menos conectados com nossa natureza humana? As novas tecnologias não devem ser usadas para fins que ameacem a existência de outras espécies ou que prejudiquem o bem-estar humano de maneira irreversível. Na ética da precaução, reconhece-se a importância do diálogo ético e da conscientização pública sobre as questões tecnológicas. A sociedade como um todo deve estar envolvida na discussão e na tomada de decisões relacionadas às novas tecnologias, especialmente o uso de drones, sistemas de reconhecimento facial e softwares de análise preditiva de crimes com base em Inteligência Artificial. 34 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA A ética da precaução sugere que, quando enfrentamos incertezas significativas sobre as consequências de uma tecnologia, devemos adotar uma abordagem mais cautelosa e tomar medidas para evitar possíveis danos. Vamos tomar como exemplo a decisão sobre uso de drones (veículos aéreos não tripulados) na segurança pública: 1 Identificação do problema: • O problema é o potencial uso de drones (veículos aéreos não tripulados) na segurança pública, como para patrulhamento, vigilância e resposta a emergências. 2 Avaliação das incertezas: • Identificar as incertezas significativas relacionadas ao uso de drones, como o impacto na privacidade das pessoas, riscos de segurança cibernética, possibilidade de uso indevido e riscos para a segurança aérea. 3 Estabelecimento de cenários negativos: • Imaginar cenários negativos possíveis decorrentes do uso de drones, como abusos de poder, violações de privacidade em massa, acidentes aéreos ou ataques cibernéticos que comprometem a segurança dos drones. 4 Identificação de medidas de precaução: • Com base nas incertezas e nos cenários negativos, identificar medidas de precaução que possam ser implementadas para mitigarou evitar esses riscos. Isso pode incluir: • Limitar estritamente as situações em que os drones podem ser usados, garantindo que seja apenas para fins legítimos e bem definidos, como busca e salvamento em desastres naturais. 35 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA • Estabelecer regulamentos rígidos para a privacidade e a coleta de dados, com salvaguardas para proteger informações pessoais. • Exigir treinamento adequado para operadores de drones para evitar acidentes e garantir a segurança. • Desenvolver protocolos de segurança cibernética para proteger os sistemas de drones contra-ataques. • Implementar supervisão e fiscalização rigorosas do uso de drones para evitar abusos. 5 Responsabilidade e supervisão: • Definir claramente quem é responsável pela supervisão e fiscalização do uso de drones na segurança pública. Garantir que haja responsabilidade e prestar contas em caso de uso indevido ou acidentes. 6 Acompanhamento e avaliação constante: • Implementar um sistema de monitoramento e avaliação contínua para revisar regularmente o uso de drones, avaliar os resultados e ajustar as medidas de precaução conforme necessário. 7 Envolvimento público e debate ético: • Envolver o público, incluindo especialistas em ética, defensores da privacidade e comunidades afetadas, em um debate ético contínuo sobre o uso de drones na segurança pública. Incorporar comentários e preocupações do público nas políticas e regulamentações. Essa abordagem exemplifica como a ética da precaução pode ser aplicada para analisar os efeitos ao longo prazo do uso de drones na segurança pública, destacando a importância de tomar medidas cuidadosas e responsáveis para evitar possíveis danos antes que eles ocorram. 36 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA A ética da precaução pode auxiliar profissionais da segurança pública a estabelecer rotinas e processos que auxiliam nas definições de cenários de mitigação de riscos, diante de novas decisões que precisam ser tomadas diante da possibilidade sociotécnico de uso de novos dispositivos. Um segundo exemplo que podemos mencionar de como aplicar a ética da precaução neste setor é o debate sobre câmeras corporais usadas em segurança pública, explorando cenários negativos de usos secundários de dados obtidos por essas câmeras.3 1 Identificação do problema: • O problema é o uso de câmeras corporais por policiais para documentar interações com o público, visando a transparência e a prestação de contas. No entanto, há preocupações sobre os usos secundários dos dados pessoais capturados por essas câmeras, que são armazenados e podem ser reutilizados de forma secundária. 2 Avaliação das incertezas: • Identificar as incertezas significativas relacionadas ao uso de câmeras corporais, como quem terá acesso aos dados, como eles serão armazenados e por quanto tempo e como podem ser usados posteriormente. Identificar possibilidades de ataques cibernéticos e grau de incerteza de invasão de sistemas informáticos que podem habilitar a reutilização das imagens ou corromper os arquivos armazenados. 3 Para uma análise em profundidade neste tópico, ver a contribuição da Data Privacy Brasil na audiência pública do Ministério da Justiça e Segurança Pública: https://www.dataprivacybr.org/documentos/cameras-corporais-nota-tecnica-audiencia-publica-e-a- contribuicao-da-data-privacy-brasil/?idProject=2481 37 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 3 Estabelecimento de cenários negativos: • Imaginar cenários negativos possíveis decorrentes dos usos secundários dos dados das câmeras corporais, como: • Uso indevido de imagens e áudio capturados para chantagem ou assédio. • Vazamento de dados sensíveis para terceiros, incluindo informações de vítimas, testemunhas ou suspeitos. • Monitoramento indiscriminado ou vigilância em massa de grupos específicos. • Discriminação racial ou étnica baseada na análise dos dados das câmeras. • Pressões políticas para uso dos dados em processos seletivos ou promoções de policiais. 4 Identificação de medidas de precaução: • Com base nas incertezas e nos cenários negativos, identificar medidas de precaução que possam ser implementadas para mitigar ou evitar esses riscos. Isso pode incluir: • Limitar estritamente o acesso aos dados das câmeras corporais a pessoal autorizado, para fins legais. • Estabelecer políticas claras sobre a retenção e a eliminação segura de dados (política de ciclo de vida dos dados), incluindo prazos específicos. • Implementar medidas de segurança rigorosas, como criptografia, para proteger os dados contra vazamentos e criar mecanismos de auditorias para o princípio da segurança da informação conforme Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais. • Realizar auditorias independentes regulares para garantir a conformidade com políticas e regulamentações. 38 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 5 Responsabilidade e supervisão: • Definir claramente quem é responsável pela supervisão e fiscalização do uso secundário de dados das câmeras corporais. Garantir que haja responsabilidade e prestação de contas em caso de violações. 6 Acompanhamento e avaliação constante: • Implementar um sistema de monitoramento e avaliação contínuo para revisar regularmente o uso secundário de dados das câmeras corporais, avaliar os resultados e ajustar as medidas de precaução conforme necessário. 7 Envolvimento público e debate ético: • Envolver o público, incluindo organizações especializadas em proteção de dados pessoais, grupos de direitos civis e comunidades afetadas, em um debate ético contínuo sobre o uso secundário de dados das câmeras corporais. Incorporar comentários e preocupações do público nas políticas e regulamentações. Essa abordagem exemplifica como a ética da precaução pode ser aplicada para analisar os cenários negativos de usos secundários de dados obtidos por câmeras corporais na segurança pública, destacando a importância de tomar medidas cuidadosas e responsáveis para evitar possíveis danos decorrentes do uso inadequado desses dados. Como vimos até aqui, a adoção da ética da precaução ajuda a minimizar os riscos associados à implementação de novas tecnologias na segurança pública. Isso significa que as autoridades podem evitar tomar medidas que, mesmo que pareçam benéficas, possam ter consequências não previstas e potencialmente prejudiciais para a sociedade. A implementação cuidadosa de tecnologias com base na ética da precaução ajuda a construir e manter a confiança do público. Quando as pessoas veem que as autoridades estão tomando medidas para evitar danos potenciais, elas estão mais propensas a apoiar a adoção dessas tecnologias. 39 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA A ética da precaução ajuda a evitar abusos de poder que podem ocorrer quando tecnologias são usadas de maneira inadequada ou excessiva. Ela incentiva a supervisão, a prestação de contas e a responsabilidade nas operações de segurança pública. Ao considerar cuidadosamente os riscos e os potenciais impactos negativos das novas tecnologias, as agências de segurança pública podem melhorar sua eficácia na prevenção e resposta a crimes e emergências. Isso ocorre porque as tecnologias são implementadas de formas mais informativas e direcionadas. A ética da precaução é fundamentada no respeito pelos princípios éticos de justiça, dignidade humana e respeito pelos direitos fundamentais, que estão previstos na Constituição Federal da República Federativa do Brasil. A adesão a esses princípios ajuda a manter a integridade e a legitimidade das operações de segurança pública. 40 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA FINALIZANDO Neste módulo, você aprendeu: A ética é um ramo dosaber que diz respeito a sistemas de valores e crenças sobre a condução de uma boa vida. A ética abrange não apenas valores para uma boa vida individual, mas também os valores para boa vida em comunidade. O surgimento de valores éticos para profissionais da segurança pública e o modo como eles são estruturados para garantir o bem- estar da comunidade, o respeito aos direitos fundamentais e uma conduta respeitosa, no sentido de fazer a coisa certa do jeito certo. O modo como a ética da precaução desenvolvida por Hans Jonas possui relação com a noção de controle ético da tecnologia de Norbert Wiener e o modo como ela atribui força aos valores humanos dos usos de novas tecnologias. Como uma ética da precaução leva a uma avaliação de longo prazo dos usos das tecnologias e como podemos utilizar de procedimentos de identificação de riscos e de mitigação como parte de nossa conduta ética na utilização de novas tecnologias. 41 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA MÓDULO 2 - OS USOS DE SISTEMAS DE RECONHECIMENTO FACIAL NO CAMPO DA SEGURANÇA PÚBLICA APRESENTAÇÃO Nos últimos anos, instituições de segurança pública têm investido cada vez mais em tecnologias digitais como forma de aumentar sua eficiência na manutenção da ordem e no controle da violência. Os avanços na indústria de monitoramento urbano, nos algoritmos de análise de risco e nos sistemas de gestão policial afetaram decisivamente tanto na oportunidade para que crimes sejam cometidos, quanto para a capacidade da polícia de registrar ocorrências e se antecipar à ação criminosa. Travas de segurança, sistemas de alarmes e dispositivos de rastreio, por exemplo, levaram à queda nos índices de roubos de veículos (Farrel et al., 2011). Se os efeitos dissuasórios de sistemas de vigilância em espaços públicos e privados são ainda incertos, ao menos o acesso às imagens tem aumentado a capacidade investigativa da polícia, produzindo evidências que melhoram a qualidade dos inquéritos e reduzem a impunidade nos tribunais (Norris, 2011). Do mesmo modo, a produção massiva de dados georreferenciados tem levado ao aprimoramento dos softwares de análise criminal, o que permite a alocação de patrulhas em áreas de maior incidência de delitos (Sherman, 2013). Os avanços nas tecnologias de comunicação e gerenciamento dos serviços de despacho de viaturas (o serviço do 190, por exemplo) lograram ainda reduzir o tempo médio de resposta em atendimentos emergenciais, aumentando tanto o apoio às vítimas quanto as chances de prisão em flagrante (Vidal & Kirchmaier, 2018). 42 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA OBJETIVOS DO MÓDULO Apresentar o panorama do desenvolvimento e uso de sistemas de reconhecimento facial, sobretudo as aplicações recentes na preservação da lei e da ordem nos estados brasileiros; e Além disso, o módulo vai debater alguns dos limites desses sistemas e os riscos que acarretam tanto em termos de discriminação racial quanto nos potenciais abusos de sua instalação em um contexto de escassa regulação. ESTRUTURA DO MÓDULO Aula 1 - O Funcionamento dos Sistemas de Reconhecimento Facial. Aula 2 - Panorama do uso de tecnologias de reconhecimento facial no Brasil e sua contribuição para a atividade policial. Aula 3 - Os riscos relacionados ao reconhecimento facial no contexto da segurança pública. 43 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 1. O FUNCIONAMENTO DOS SISTEMAS DE RECONHECIMENTO FACIAL Tecnologias biométricas são usadas para identificar indivíduos a partir de características fisiológicas, que podem ser mensuradas e autenticadas com base em atributos morfológicos (traços de aparência externa) ou análises biológicas (por exemplo, por DNA). Tecnologias de reconhecimento facial (TRFs) são um tipo específico de sistema biométrico e podem ser implementadas com múltiplas funções, incluindo a simples detecção de rostos humanos em imagens, a classificação de rostos a partir de diferentes categorias (sexo, raça, idade) e a busca por marcadores de expressão e emoção (sorriso, felicidade, raiva). Embora esses usos tenham suas próprias trajetórias de desenvolvimento e suscitem diferentes controvérsias, neste módulo, nos debruçamos sobre o emprego de TRFs particularmente em dois processos: Figura 8: Sistemas Biométricos Fonte: Image by macrovector on Freepik 44 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 1 Autenticação de identidade: Processo em que se verifica se uma pessoa é realmente quem diz ser, por exemplo, ao tentar acessar uma conta de banco (comparação 1:1). Nesse caso, o sistema já “sabe” quem está procurando. Portanto, a pergunta que a tecnologia busca responder é: a pessoa que está acessando a conta é, de fato, o “José da Silva” (nome fictício do titular)? Em outras palavras, a autenticação é uma busca fechada, o que “indica que o universo a consultar é único e direcionado dentro do banco de dados” (Kanashiro, 2011, p. 27). 2 Identificação de indivíduos: Processo mais complexo de comparação de duas ou mais fontes de dados (comparação 1:N), o que ocorre, por exemplo, quando a polícia cruza imagens capturadas por câmeras de vídeo com galerias de fotos de suspeitos. Nesse caso, o sistema de videomonitoramento captura a imagem de uma pessoa cometendo um crime, por exemplo, e precisa fazer a identificação. Portanto, a pergunta que a tecnologia busca responder é: quem é a pessoa da imagem? Em outras palavras, esta forma de autenticação é uma pesquisa aberta, na qual o sistema “busca todos os registros do banco de dados e retorna uma lista de registros com características suficientemente similares à característica biométrica apresentada” (Kanashiro, 2011, p. 27). A busca por formas de identificação através da parametrização de atributos faciais tem uma longa história. Ainda no século XIX, a criminologia recorreu à medicina para determinar marcadores biométricos que poderiam distinguir um indivíduo dos demais (o sistema de Bertillon, por exemplo), além de desenvolver técnicas forenses para compreender as supostas determinações físicas de pessoas violentas ou propensas ao crime (Pavlich, 2009). Já na década de 1960, pioneiros do campo da visão computacional aplicaram métodos ainda embrionários de aprendizado de máquina (machine learning) para interpretar imagens e identificar padrões faciais. Essa tecnologia, no entanto, só começou a se disseminar a partir dos anos 1990, quando o avanço na capacidade de processamento computacional 45 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA e a disponibilização de amplas bases de dados para treinamento dos algoritmos levaram ao ganho de precisão e à redução de custos, permitindo o desenvolvimento de sistemas comercialmente viáveis. Algoritmo é um termo amplo usado para nomear o conjunto de etapas necessárias na realização de determinada tarefa. Uma receita de bolo, por exemplo, é um algoritmo, pois define uma série de ações que precisam ser realizadas de forma sequencial para que o alimento fique pronto (quebrar ovos, separar claras e gemas, bater a clara em neve, adicionar xícaras de açúcar etc.). No campo da ciência da computação, especificamente, o algoritmo é um processo matemático preciso e padronizado utilizado para solucionar determinado problema. Em nossas atividades rotineiras estamos cercados por algoritmos, mesmo que estes não sejam sempre visíveis. Algoritmos são essenciais, por exemplo, em sistemas de recomendação de conteúdos em redes sociais e serviços de streaming, como a Netflix. Nesses casos, os sistemas recebem nossos dados de uso (digamos, filmes assistidos) e realizam uma série de operações para identificar nosso padrão de interesse e sugerir conteúdos que podem nos agradar. Para entender mais sobre ofuncionamento de algoritmos e sua influência atual na sociedade contemporânea, ver: Amadeu (2019) A partir de então, diversas instituições passaram a implementar dispositivos capazes de fazer a autenticação de identidade (1:1) a partir de bases reduzidas de dados (por exemplo, profissionais credenciados a acessar determinados espaços, como usinas nucleares ou zonas militares). Também datam desse período os primeiros experimentos em redes de videomonitoramento urbano. No entanto, naquele período, a identificação em tempo real e em espaços abertos ainda representava um desafio técnico. Devido à baixa qualidade da captura do vídeo e Saiba mais 46 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA do processamento da imagem para cruzar com as informações armazenadas nas bases de dados, era necessário que o indivíduo a ser identificado estivesse em um ambiente com farta iluminação, se posicionasse em frente à câmera por alguns segundos e que o sistema se limitasse a buscas fechadas. Além disso, mesmo nesses casos, pequenas mudanças, como corte de cabelo e pelos faciais, envelhecimento, maquiagem, ganho ou perda de peso e adereços (óculos, chapéu etc.) podiam impossibilitar a identificação. Portanto, foi apenas na última década, com a popularização das redes neurais convolucionais (CNN), que TRFs deram um salto de qualidade e se popularizaram. Como explica David Leslie (2020, p. 8), diretor do Instituto Alan Turing do Reino Unido: “Quando uma imagem digital é apresentada a um algoritmo de visão computacional, o que ele, de fato, “enxerga” é apenas uma matriz de valores de pixels (linhas e colunas de números indicando intensidade de cor e brilho).” Para identificar um rosto na matriz, o algoritmo precisa ter sido treinado para aprender os padrões numéricos que representam a classe “rosto”. No caso das CNNs, ocorre um processo chamado de aprendizado supervisionado, ou seja, o algoritmo identifica os padrões referentes aos rostos a partir da análise repetitiva de bases de dados pré-rotulados (em geral, esse processo envolve a análise de milhões de exemplos de rostos humanos retirados de redes sociais, cadastros públicos e outras fontes). Para uma explicação mais detalhada sobre o funcionamento técnico de redes neurais nas TRFs, ver: Leslie (2020). Os principais sistemas de reconhecimento facial disponíveis atualmente funcionam a partir da codificação de determinados aspectos nas imagens, incluindo a seleção do rosto e a codificação deste em vetores, para produzir uma digital da face, ou faceprint. Neste processo, a análise biométrica é reduzida a alguns marcadores faciais, que permitem o armazenamento de informações e seu rápido processamento. Deste modo, os sistemas não comparam imagens inteiras ou Saiba mais 47 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA fenótipos, mas apenas uma representação numérica – uma codificação binária (sequências de 0s e 1s) – dos pixels que compõem certas partes da imagem. Especificamente, o que a maioria dos sistemas faz é uma avaliação de intensidade e direção de luz e sombra em cada pixel que, uma vez agregados, podem compor partes do rosto, como formato de olhos, traçado de maxilar, linha frontal do nariz, distância entre orelhas etc. Alguns sistemas mais apurados são capazes de capturar linhas faciais tênues, poros, diferenças de temperatura, covas e rugas, mas o nível de detalhamento depende da resolução das imagens capturadas. Apesar das variações técnicas dos produtos disponíveis no mercado, as TRFs atuais funcionam, em geral, a partir de alguns passos específicos. 1 Imagens são capturadas por instituições públicas ou privadas (forças policiais, departamentos de trânsito, agências de identificação civil, empresas privadas de segurança, bancos etc.) 2 As imagens são convertidas em códigos alfanuméricos que conferem unicidade aos dados, que passam então a integrar as bases com as quais serão feitas as análises, por exemplo, o Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP) mantido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) 3 Na fase operacional, uma nova imagem é capturada (por exemplo, pelo sistema de videomonitoramento da polícia). Essa nova imagem passa pelo mesmo processo de parametrização (mensuração de alguns traços faciais e diferenças de luminosidade nos pixels) e é comparada com o arquivo mantido na base de dados para verificação de identidade. No caso da segurança pública, esse processo pode ocorrer ainda durante uma abordagem, quando o policial fotografa o indivíduo suspeito e envia a imagem para o centro de operações para que essa seja cruzada com a base do CNJ. 4 O resultado do sistema algorítmico não é uma resposta definitiva (sim ou não), mas um cálculo de probabilidade (uma porcentagem de certeza) que afere a chance de que a nova imagem seja da pessoa cujo dado biométrico estava no arquivo. 48 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 9: Como funciona o reconhecimento facial? Fonte: BBW (2018, p. 7). Dependendo do contexto de implementação, as probabilidades usadas para a identificação variam tanto no que afeta a comodidade, a eficiência e a segurança do sistema. Por exemplo, dispositivos que buscam verificar se a pessoa que requer acesso a um aplicativo bancário é, de fato, o titular da conta precisam ter alto grau de certeza de que não se trata de uma fraude. No entanto, se o sistema tiver um limiar muito alto para a identificação, é possível que alguns clientes percam acesso ao aplicativo, o que pode gerar prejuízos e reclamações. Já os sistemas utilizados pelas forças de segurança, em sua maioria, oferecem ao operador uma série de opções de “match” (indivíduos com algum grau de semelhança ao suspeito procurado) e porcentagens da probabilidade de cada comparação. Nesse caso, um limiar baixo vai gerar muitos “falsos positivos” – alertas de identificação para pessoas que não estão no BNMP, por exemplo –, mas um limiar muito alto fará o inverso, gerando “falso negativos” em abundância – o software falha em reconhecer 49 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA uma pessoa procurada que se encontra na imagem. Há, portanto, uma escolha a ser feita na definição do limiar de identificação (ou seja, qual é o grau de certeza do sistema sobre o qual os operadores devem agir) que se resolve a partir do contexto de uso da ferramenta e, fundamentalmente, a partir das consequências do erro (se o sistema disparar um número excessivo de alertas falsos isso afetará negativamente a capacidade de atuação da polícia). Atualmente, a identificação biométrica tem múltiplas funções no campo da segurança. O controle de acesso a serviços digitais, como sistemas do governo ou aplicativos de celular, exige, com frequência, que indivíduos escaneiem seus rostos para autenticação de identidade. O trabalho de controle de fronteiras passa pelo mesmo processo de automatização, com a instalação de totens eletrônicos em que passageiros tiram fotografias do rosto para comparação com documentos cadastrados. Mecanismo semelhante ocorre no monitoramento de catracas em sistemas de transporte público, na identificação de torcedores em estádios esportivos, no combate a cambistas em festivais de música, no controle de ambientes de trabalho e na segurança do espaço doméstico (em portarias eletrônicas, por exemplo). Segundo projeções da indústria, esses múltiplos usos devem ainda se expandir nos próximos anos. Estimativas apontam um mercado global de tecnologias de reconhecimento facial de quase 13 bilhões de dólares em 2027, um salto de 297% em relação a 2019 (Fortune Business Insights, 2019). 50 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 2. PANORAMA DO USO DE TECNOLOGIAS DE RECONHECIMENTO FACIAL NO BRASIL E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A ATIVIDADE POLICIAL Tecnologias de reconhecimentofacial são cada vez mais comuns em meio ao conjunto de equipamentos de monitoramento à disposição das instituições policiais brasileiras. Patrulhas de diversos estados ganharam aplicativos de verificação de identidade a serem utilizados durante abordagens e as câmeras de monitoramento passaram a ter a possibilidade de realizar a identificação biométrica em tempo real, cruzando as imagens registradas com bases de dados mantidas pelos sistemas de justiça criminal. Até pouco tempo, as bases de imagens eram fragmentadas (em muitos casos, fitas de vídeo específicas para as diferentes câmeras, que se mantinham estáticas e gravavam imagens de baixa qualidade) e raramente eram vistas (gravações precisavam ser feitas em cima de imagens antigas e só eram recuperadas com ordens judiciais após os eventos criminais). Ao transformar os vídeos em dados estruturados que podem ser integrados e classificados, as TRFs prometem superar essas limitações. Por exemplo, se antes para a investigação de um crime era necessário destacar uma equipe para coletar fitas e observar as milhares de horas de vídeo de diferentes câmeras, atualmente há softwares que permitem selecionar dinâmicas ou indivíduos de especial interesse, reduzindo em muito o material que precisa ser de fato analisado por policiais. Em São Paulo, o governo do estado inaugurou em 2020 o Laboratório de Identificação Biométrica - Facial e Digital, que conta com cerca de 30 milhões de registros biométricos. Integrado a circuitos de videomonitoramento, bancos de dados sobre suspeitos, e registros geolocalizados de ocorrências, o laboratório tem como objetivo prover “maior celeridade, confiabilidade e capacidade de Na Prática 51 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA processamento na produção de provas técnicas, dando mais agilidade a diversas investigações conduzidas pela Polícia Civil” (Governo de São Paulo, 2020). O laboratório permite ainda o aprimoramento da capacidade de vigilância dos agentes de segurança, que já contam com projetos de monitoramento em tempo real como o Detecta e o City Câmeras. Figura 10: Reconhecimento facial por celular Fonte: Freepik Image. Apresentado como o “sistema nervoso” das forças de segurança do estado de São Paulo, o Detecta foi planejado para integrar diferentes bases de dados com o objetivo de apoiar operações em tempo real de policiamento ostensivo, mas também permitir buscas por eventos recentes que auxiliem na investigação de crimes. Especificamente, a plataforma foi desenvolvida para realizar análises algorítmicas de imagens coletadas no espaço urbano e cruzar com bancos de dados, como o Infocrim (registros de ocorrência) e o FotoCrim (identificação biométrica de suspeitos). Para uma análise detalhada do processo de desenvolvimento e implementação do Detecta em São Paulo, ver: Peron & Alvarez (2019). Saiba mais 52 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Na Bahia, a secretaria de segurança investiu inicialmente na instalação de câmeras com reconhecimento facial em Salvador, cobrindo o centro histórico, estações de metrô e o aeroporto. O sistema é alimentado por um banco de dados com fotos de suspeitos e indivíduos com passagens pela polícia e levou, nos primeiros quatro anos de uso, a pelo menos 600 prisões, além de inúmeras abordagens que não resultaram no encaminhamento dos indivíduos à delegacia (Falcão, 2021). Após esta primeira etapa, o governo decidiu investir na expansão do sistema. A expectativa é que nos próximos anos a polícia baiana tenha a seu dispor mais de 4 mil câmeras em 77 cidades, incluindo cidades menores de zonas rurais (Falcão, 2021). No Rio de Janeiro, o governo anunciou testes com sistemas de reconhecimento facial no carnaval de 2019. Inicialmente, foram instaladas 34 câmeras em Copacabana que, segundo dados da polícia militar do estado, detectaram oito mil indivíduos suspeitos, mas poucos foram abordados e levados à delegacia (Silva, 2019). Em uma segunda fase, além da expansão do parque de câmeras em Copacabana, o sistema foi instalado no entorno do Maracanã, totalizando cerca de 140 câmeras. No período de testes foram realizadas mais de 350 prisões. A polícia militar previa testes com outras ferramentas, mas críticas da sociedade civil, a falta de recursos e o início da pandemia de COVID-19 levaram ao adiamento do cronograma. A partir de 2022, no entanto, as TRFs voltaram à pauta do governo do estado com o anúncio da instalação de 22 câmeras no Jacarezinho, favela da zona norte do Rio de Janeiro. Estão previstos ainda investimentos nos próximos anos em câmeras capazes de detectar expressões faciais, tipo e cor de roupas, idade aparente e formas de caminhar a serem instaladas em viaturas, delegacias e diversas repartições públicas. Os casos de São Paulo, da Bahia e do Rio de Janeiro servem para ilustrar um processo que tem dimensão nacional. Embora não haja um 53 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA levantamento consolidado de todas as forças de segurança que fazem uso de TRFs, mapeamento realizado pela equipe do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) aponta que a tecnologia já é usada cotidianamente por forças de segurança em praticamente todos os estados. Figura 11: Mapeamento do uso de tecnologias de reconhecimento facial pelas forças de segurança brasileiras. Fonte: Nunes, 2023, p. 49. A rápida expansão das TRFs entre as polícias brasileiras foi estimulada por uma série de fatores, que passam pela disseminação do uso de tecnologias digitais 54 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA de uma forma geral, o que reduziu a resistência entre os agentes e as melhorias nos próprios sistemas de identificação biométrica, que contam com mais bases de dados, algoritmos mais precisos e custos menores. Cabe destacar, no entanto, dois pontos centrais: o incentivo institucional por parte do governo federal e as demandas por formas mais eficazes e objetivas de controle que partem de dentro das instituições policiais, mas também da sociedade civil. O uso de TRFs em atividades de patrulhamento rotineiro e investigação policial ganhou mais atenção da administração federal após a publicação da portaria nº 793/2019 do Ministério da Justiça e Segurança Pública que regulamenta formas de incentivo financeiro para ações de “enfrentamento à criminalidade violenta” (Brasil, 2019). A portaria prevê que recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) devam ser destinados à disseminação de dispositivos de inteligência artificial, incluindo “o fomento à implantação de sistemas de videomonitoramento com soluções de reconhecimento facial” (Brasil, 2019). Nessa mesma direção, a Polícia Federal (PF) implementou, em 2021, o sistema ABIS (Solução Automatizada de Identificação Biométrica). Este visa, entre outros atributos, a unificação das bases de dados biométricos das secretarias de segurança de todo o país, podendo chegar ao armazenamento de registros faciais de até 200 milhões de pessoas. A construção de uma base biométrica nacional serve para organizar e integrar dados antes dispersos e coletados de forma pouco sistemática, o que auxiliaria na resolução de crimes, mas também na identificação de pessoas desaparecidas (Polícia Federal, 2021). Além disso, deputados federais passaram a designar emendas parlamentares para o investimento nessa tecnologia em seus estados, o que impulsionou o processo de implementação mesmo em cidades menores. Em termos de ganhos de eficácia e objetividade das políticas de controle da criminalidade, as TRFs são mecanismos para a redução de erros e injustiças cometidos através de identificação de suspeitos pelo “faro policial” ou pelo reconhecimento fotográfico nas delegacias. Em outras palavras, entusiastas do uso de TRFs no âmbito da segurança públicanão negam que estas são capazes de cometer erros, levando a abordagem de pessoas inocentes (basta lembrar do debate sobre “falsos positivos” e “falsos negativos” da primeira parte deste módulo), 55 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA mas apontam que os algoritmos têm desempenho muito superior ao olhar clínico de policiais, vítimas e testemunhas quando se trata de identificar suspeitos. Diversas pesquisas apontam que o racismo é elemento definidor da seletividade penal no Brasil, onde negros têm maior chance de serem abordados, presos e mortos pela polícia (Sinhoretto et al., 2022). Essa constatação tem alimentado demandas por mudanças no processo de formação policial (incluindo, por exemplo, disciplinas de direitos humanos), mas também por novas estratégias de patrulhamento e novas tecnologias que possam reduzir a discricionariedade dos policiais e aumentar a supervisão sobre suas ações. Nessa perspectiva, ao direcionar as abordagens apenas para indivíduos com mandados de prisão em aberto (o caso do BNMP do CNJ), as TRFs diminuiriam as abordagens indevidas, aumentando a eficiência e a legitimidade da ação policial. O mesmo ocorreria com a substituição do reconhecimento de suspeitos nas delegacias por algoritmos de identificação biométrica. Os números comprovam que, no dia a dia, a prática de reconhecimento fotográfico enfrenta sérios problemas, tanto em termos de produção de evidências juridicamente robustas, quanto em termos de proteção dos direitos individuais. Em alguns casos, o inquérito policial é incapaz de levantar um conjunto amplo de provas para sustentar pedidos de condenação pelo Ministério Público e acaba se pautando principalmente no reconhecimento feito por vítimas ou testemunhas a partir de catálogos fotográficos. No entanto, preocupa a falibilidade desse método, que não tem regras claras e padronizadas para a construção das bases de dados (são usadas, por exemplo, fotos de redes sociais), que cataloga imagens de baixa qualidade, e que nem sempre segue as normas para o reconhecimento definidas no art. 226 do Código de Processo Penal, o que gera anulações posteriores pelos tribunais de justiça (Salomão Junior, 2022). Entre 2012 e 2020, apenas no estado do Rio de Janeiro, 73 pessoas inocentes foram presas após erros de identificação fotográfica. Estas passaram, em média, 9 meses no cárcere (em alguns casos, inocentes passaram mais de dois anos presos) (CNJ, 2022). 56 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Observando esse cenário, diversos especialistas apontam que TRFs representam solução adequada para alguns dos problemas operacionais e administrativos enfrentados pelas instituições que cuidam do policiamento ostensivo e das práticas investigativas (Marques Neto, 2022). Nessa perspectiva, os algoritmos não são apenas mais eficientes e tecnicamente superiores às análises realizadas por humanos, mas oferecem ferramentas de tomada de decisão que não dependem da discricionariedade individual. O pressuposto é que as câmeras veem sem inferência subjetiva ou interpretação, de modo que o monitoramento pela polícia se despiria de qualquer preconceito. Para os entusiastas, portanto, trata-se de uma tecnologia que não apenas reduz a violência, mas que ainda contribui para dirimir o histórico problema da discriminação na atividade policial. Assim, a sociedade e as autoridades deveriam se concentrar no aprimoramento técnico dos sistemas e dos procedimentos de uso por parte das polícias. 57 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 3. OS RISCOS RELACIONADOS AO RECONHECIMENTO FACIAL NO CONTEXTO DA SEGURANÇA PÚBLICA Como vimos nas partes anteriores desse módulo, tecnologias de reconhecimento facial têm transformado práticas policiais no Brasil. Nos últimos anos, diversos estados fizeram investimentos em dispositivos de monitoramento que identificam cidadãos em espaços públicos e disparam alertas para a polícia sobre potenciais suspeitos. O trabalho de investigação também passou a ser auxiliado por sistemas integrados de imagens capazes de fazer pesquisas por pessoas específicas, o que contribui na produção de evidências para os inquéritos criminais. As promessas de redução da impunidade e da violência, no entanto, escondem alguns riscos inerentes ao uso dessas tecnologias no contexto da segurança pública. Erros na identificação biométrica têm levado à prisão de inocentes e podem, ao contrário do que se esperava inicialmente, acabar aprofundando precisamente as características dos procedimentos de abordagem que precisariam ser revertidas, apoiadas pela tecnologia. Além disso, a disseminação desses dispositivos nos centros urbanos cria uma capacidade inédita de monitoramento que, sem regulação ou transparência, pode contribuir com práticas autoritárias de controle. Ainda faltam estudos mais detalhados sobre os efeitos das TRFs na segurança pública no Brasil, de modo que grande parte das análises guarda forte caráter especulativo. Enquanto algumas instituições policiais se mostram refratárias a avaliações independentes de impacto, diversas organizações da sociedade civil denunciam casos de erros nos sistemas causados por vieses nos algoritmos. De uma forma geral, críticos apontam que as câmeras com TRF não contribuem de forma decisiva para manutenção da ordem, violam direitos dos cidadãos e ainda geram custos desnecessários para a polícia, já que recursos escassos são empenhados em operações pouco efetivas. Diante dessas críticas, foram lançadas campanhas pelo banimento do uso de TRFs no país e diversos projetos de lei já foram apresentados para restringir seu uso. A última aula desse módulo vai discutir justamente os dilemas do uso de TRFs no campo da segurança pública, enfatizando os riscos de discriminação pelo algoritmo e os prejuízos 58 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA gerados pela ausência de mecanismos externos de supervisão do uso de sistemas de identificação biométrica. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), em vigor desde 2020, prevê maior controle para o processamento de “dados pessoais sensíveis”, entre eles, as características biométricas dos indivíduos. No entanto, o uso desses sistemas por parte das polícias está em um limbo jurídico. Em seu artigo 4º, a LGPD prevê que atividades de investigação criminal, uso repressivo por parte das polícias militares e mesmo questões ligadas à defesa nacional e segurança do Estado, seriam regulados por lei complementar, a “LGPD penal”. Enquanto esta lei não é aprovada, não há regulação clara sobre os limites dos usos de TRFs por forças de segurança. E é nesse cenário de incerteza jurídica que diversos estados têm investido na tecnologia. A lei 13.709, conhecida como Lei Geral de Proteção de Dados, tem como objetivo criar um enquadramento regulatório amplo para as atividades de coleta, tratamento, armazenamento e compartilhamento de dados pessoais por entes públicos e privados. Um dos atributos centrais da lei é a separação entre “dados pessoais” - informações como nome, RG e CPF (mas também dados identificáveis como endereço de IP e geolocalização) - e “dados pessoais sensíveis”, que se referem, por exemplo, à origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação a sindicato ou a organização de caráter religioso, filosófico ou político, dado referente à saúde ou à vida sexual, dado genético ou biométrico. A LGPD entende, portanto, que determinados dados, como a biometria facial, envolvem mais riscos para os direitos individuais e devem ser protegidos com maior cautela. Para uma análise mais profunda do marco regulatório criado pela LGPD, bem como de suas limitações, ver: Mulholland (2020) Saiba mais 59 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA As denúncias acerca dos erros cometidospor TRFs contra negros ganharam destaque após o lançamento do documentário Coded Bias (2020). No documentário, Joy Buolamwini, pesquisadora do Massachusetts Institute of Technology (MIT), apresenta os resultados de um estudo de avaliação de precisão de sistemas de reconhecimento facial oferecidos pelas principais empresas do mercado, incluindo IBM, Microsoft e Face++. Buolamwini aponta que a maioria das TRFs carrega erros de identificação que chegam a 1% em casos de homens brancos, 12% em casos de homens negros e 35% em casos de mulheres negras. Após essa constatação, algumas empresas adotaram moratórias para a comercialização de seus produtos. O viés algoritmo pode ser causado por uma série de fatores, entre eles a escolha equivocada dos parâmetros que compõem o modelo analítico. No caso das TRFs, o viés se dá, em geral, por problemas na fase de treinamento dos algoritmos. A discrepância identificada por Buolamwini se dá pois o espectro de luminosidade usado pela maioria dos sistemas é ajustado para peles brancas, o que faz com que pixels de peles negras sejam vistos como iguais. Mais precisamente, o sistema identifica pequenas variações/gradações em peles brancas, mas não em peles negras, o que atrapalha a identificação desses rostos. Outra dificuldade se revela nos padrões geométricos faciais. Quando os sistemas são treinados com rostos caucasianos, os modelos algorítmicos formulados carregaram parâmetros (por exemplo, distância dos olhos, formato da mandíbula, traços do nariz) que se adequam à amostra usada. No entanto, se estes parâmetros não são ajustados para outros rostos, podem gerar resultados flagrantemente racistas, como o algoritmo do Google Photos que confundiu rostos de homens negros com gorilas, ou das câmeras Nikon que confundiram olhos alongados (fenótipo comum no leste asiático) com pessoas piscando.Para entender melhor o processo de produção de vieses em sistemas algorítmicos e seu impacto nocivo para determinados grupos sociais, ver: Silva (2021). Saiba mais 60 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA As moratórias, no entanto, começam a ser suspensas com o argumento de que as TRFs têm se aperfeiçoado com o tempo. É importante, contudo, ponderar os argumentos sobre os avanços tecnológicos. Mesmo que os sistemas de identificação biométrica tenham melhorado, eles nunca chegarão a 100% de precisão. Trata-se de uma tecnologia que funciona por aferição probabilística, ou seja, um “match” perfeito entre a imagem capturada na rua e àquela armazenada no banco de dados é indicação de fraude (exatamente a mesma imagem foi usada na verificação de identidade). Além disso, mesmo 0.01% de erro pode representar um nível de falha com consequências sociais indesejáveis, seja pelo volume de rostos analisados todos os dias, seja por indicar uma total inoperância do sistema. No primeiro caso: podemos pensar nos usos correntes dessa tecnologia nas grandes cidades brasileiras. Se as câmeras de monitoramento capturarem cinco milhões de rostos por dia (nas ruas, sistemas de transportes, entradas de espaços públicos etc.), uma taxa de erro de 0.01% indica que, em média, 500 pessoas sofrerão com abordagens equivocadas. No segundo caso: podemos pensar em um grande evento, como um festival de música, que chegue a 100 mil pessoas. Se dentro desse grupo existirem 10 homicidas procurados pela justiça, o sistema de monitoramento pode não identificar ninguém e ainda assim afirmar que possui acurácia de 99.99%. Além dos problemas com viés algorítmico, organizações da sociedade civil têm apontado que TRFs causam prejuízos para os direitos civis e políticos. O videomonitoramento tradicional já registra fluxos nos centros urbanos, mas as TRFs fazem com que todas as movimentações, hábitos e interações de um indivíduo possam ser documentadas e catalogadas sem grande esforço operacional. Não é necessário seguir um suspeito para flagrar atividades ilegais. Basta fazer uma pesquisa em um banco de dados para ter acesso a todas as imagens em que 61 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA determinado indivíduo aparece. E esses registros não são possíveis apenas para alvos de investigação, mas estão disponíveis para absolutamente todos os cidadãos. Em questão de segundos, policiais pode descobrir, por exemplo, todas as vezes em que uma pessoa foi a um bar, visitou amigos, chegou atrasada no trabalho, frequentou uma casa de prostituição, fumou na calçada, participou reuniões dos alcóolicos anônimos ou traiu seu parceiro conjugal. Ou seja, a monitoramento biométrico carrega um potencial de controle que pode constranger comportamentos rotineiros, sejam esses ilegais ou não. Lançada, em 2022, e apoiada por mais de 50 organizações da sociedade civil, a campanha “Tire meu rosto da sua mira” argumenta que as TRFs representam enorme risco de violação do direito à privacidade e carregam vieses contra determinados grupos populacionais, o que agrava o problema da discriminação social. Segundo a campanha, as TRFs são “capazes de identificar, seguir, destacar individualmente e rastrear pessoas em todos os lugares aonde elas vão, podendo violar direitos como: privacidade, proteção de dados, liberdade de reunião e de associação, igualdade e não-discriminação”. Indo além, as organizações argumentam que “nenhuma proteção técnica ou legal pode eliminar totalmente a ameaça que essas tecnologias representam... [O] potencial de abuso é muito grande e as potenciais consequências, muito graves... [de modo que] elas nunca devem ser usadas em atividades de segurança pública”. Para mais informações sobre a articulação de grupos da sociedade civil para barrar o desenvolvimento e uso de TRFs pelas instituições policiais, Acesse: https://tiremeurostodasuamira.org.br/ No Brasil, a ausência de lei específica sobre o uso de marcadores biométricos para fins de segurança pública e defesa nacional contribui para um cenário de incerteza e aumenta as preocupações acerca de abusos. O limbo jurídico e a indefinição sobre regras e limites para o uso de TRFs são especialmente Saiba mais 62 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Vamos Refletir problemáticos pois não estão claros os limites que o direito à privacidade impõe à vigilância biométrica. Os indivíduos têm direito de saber que seus dados estão sendo capturados? Há possibilidade de recusar esse monitoramento? É possível saber quais dados estão armazenados? Como um cidadão pode apontar erros e exigir mudanças nos dados? Quando são presos a partir da identificação biométrica, os indivíduos e seus advogados devem ser informados disso? Podem ter acesso (ou contestar) o resultado do reconhecimento facial? Como avaliar a precisão dos sistemas utilizados e corrigir o problema dos vieses algorítmicos? Essas são algumas questões centrais para as quais a legislação ainda não apresenta respostas claras. 63 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA FINALIZANDO Neste módulo, você aprendeu: Sistemas de reconhecimento facial funcionam através da análise automatizada de traços faciais e que podem servir para autenticação (1:1) e identificação (1:N). A precisão desses sistemas depende tanto da qualidade das câmeras, quanto dos algoritmos que fazem as análises e das bases de dados com as quais são feitos os cruzamentos. As TRFs já estão disseminadas no país, servindo como mecanismo de segurança em espaços públicos e privados. No caso da segurança pública, também há uma crescente adesão por parte das forças policiais, que as utilizam no policiamento ostensivo, guiando abordagens, e em investigações, auxiliando no processo de identificação de suspeitos. Se as TRFs podem conferir enormes ganhos de eficiência ao trabalho de policial, diminuindo a impunidade e fazendo justiçapara as vítimas, há também alguns riscos em termos de direitos individuais. Sem regulação clara, os sistemas de reconhecimento facial podem gerar formas invasivas monitoramento e agravar o problema da discriminação através dos vieses algorítmicos. 64 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA MÓDULO 3 - POLICIAMENTO PREDITIVO APRESENTAÇÃO Na última década houve enorme aumento da quantidade de softwares desenvolvidos com a promessa de somar-se à atividade policial a partir do fornecimento de análises preditivas. Esses sistemas, em geral, têm o objetivo de trazer inteligência estratégica às ações da polícia, usando dados sobre o local de crimes, padrões de delito, identidade de suspeitos e perfis de vítimas para auxiliar no trabalho de prevenção. Há diferentes definições para o policiamento preditivo, mas estas costumam convergir para dois pontos centrais: 1 Trata-se de uma estratégia de policiamento que se vale de ferramentas que aplicam modelagem estatística para prever a atividade criminal no futuro próximo; 2 As previsões que resultam dos métodos quantitativos informam os processos de tomada de decisão, guiando o emprego de recursos humanos e materiais. Portanto, a introdução destes softwares não visa apenas a reorientar políticas de controle do crime (de um princípio reativo para a antecipação de tendências), mas promove também a implementação de um modelo de gestão no qual a atividade policial passa a se basear no uso de indicadores de desempenho para controle de resultados, emprego racional de recursos, descentralização administrativa, incorporação de medidores de qualidade do serviço, enxugamento de pessoal, entre outros (Batitucci, 2019). O pressuposto é que estatísticas criminais informam práticas de gestão mais técnicas, objetivas e neutras, aumentando o accountability e a eficiência das instituições policiais. Assim, estes softwares se tornaram símbolo do processo de modernização da polícia, sendo seu uso visto como responsável pela queda em índices de criminalidade e aumento no número de prisões. 65 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Neste módulo, serão apresentados alguns dos pressupostos criminológicos e das técnicas utilizadas no policiamento preditivo. Mais especificamente, o módulo busca explicar de que forma tecnologias de predição de crimes incorporam perspectivas teóricas acerca da distribuição desses eventos no tempo e no espaço, atribuindo as causas do comportamento criminal ao cálculo de custos e benefícios de potenciais infratores e seus determinantes situacionais (por exemplo, como a configuração do território influência nas taxas de criminalidade em determinado local). Além disso, serão debatidos alguns dos limites técnicos dos softwares de análise criminal, incluindo os dilemas éticos do uso de sistemas preditivos para a construção de perfis de suspeição e para a determinação das áreas prioritárias de patrulhas. OBJETIVOS DO MÓDULO Apresentar o panorama do desenvolvimento e uso de sistemas de policiamento preditivo, sobretudo no trabalho de prevenção exercido no policiamento ostensivo. Além disso, o módulo vai ainda debater alguns dos limites técnicos desses sistemas e os riscos que eles acarretam ter na reprodução de padrões enviesados de policiamento. ESTRUTURA DO MÓDULO Aula 1 - Antecedentes do uso da análise estatística no planejamento operacional das polícias. Aula 2 - Como operam os sistemas atuais de policiamento preditivo? Aula 3 - Limitações técnicas e dilemas éticos. 66 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 1. ANTECEDENTES DO USO DA ANÁLISE ESTATÍSTICA NO PLANEJAMENTO OPERACIONAL DAS POLÍCIAS É comum ouvirmos que ferramentas de predição de crimes representam “a transformação mais radical da história do policiamento” (Dodd, 2014), substituindo o “faro policial” por modelos matemáticos capazes de estimar a incidência futura de crimes e riscos de vitimização. No entanto, coleta de dados, análises estatísticas e mapeamento de ocorrências remetem a uma longa trajetória de quantificação do crime e gerenciamento da atividade policial. A produção de conhecimento estatístico está ligada ao próprio surgimento de instituições policiais modernas ainda no século XIX, quando o objetivo de antecipar ações criminosas para prevenir ocorrências já ditava a lógica da atividade policial. Ainda nas décadas de 1820 e 1830, Adolphe Quetelet, Adriano Balbi e André-Michel Guerry, expoentes do movimento que ficou conhecido como “escola cartográfica”, começaram a coletar informações sobre população prisional e a relacionar a incidência de crimes com dados demográficos (pobreza, níveis educacionais, composição étnica dos bairros, consumo de álcool etc.), comprovando ser possível identificar padrões recorrentes de criminalidade (Eck & Weisburd, 1995). Já se percebia, portanto, que o conhecimento estatístico permitia extrapolar a experiência do passado para tendências futuras. Assim, crimes não eram mais vistos como eventos peculiares, atos divinos ou “acidentes”, mas como regularidades que poderiam ser previstas e alteradas a partir de ações do Estado. Os primeiros autores da “Escola Cartográfica” desenvolveram técnicas de visualização de dados, como “mapas coropléticos”, gráficos e tabelas, produzindo conhecimento sobre o crime e informando ações das instituições policiais. Esta perspectiva teve grande influência na criminologia até os anos 1880. Ao comparar estatísticas criminais com informações do censo francês, Balbi e Guerry concluíram, por exemplo, que áreas com maior incidência de crimes contra a propriedade apresentavam índices baixos para crimes contra pessoas. Análises demográficas de períodos mais longos realizadas por Saiba mais 67 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Quetelet revelaram ainda que alguns fenômenos apresentavam incidência relativamente estável, incluindo taxas de crimes, nascimentos e suicídios, o que contribuiu para o planejamento de gestores públicos, incluindo instituições policiais. Outros momentos de proximidade entre técnicas cartográficas e a criminologia surgiram com a influência dos mapas de zonas concêntricas desenvolvidos pela “Escola de Chicago” nos anos 1920, e com as grandes mudanças advindas dos avanços computacionais e dos sistemas de informação geográfica, principalmente a partir dos anos 1980. Apesar dos avanços e recuos na relação entre a cartografia e criminologia, é importante notar que departamentos de polícia mantiveram esforços de mapeamento durante todo esse período, enfrentando os desafios de visualizar a distribuição espacial e temporal do crime. Para mais, ver: Eck & Weisburd (1995) Recuperando suas raízes mais recentes, o policiamento pautado em modelos algorítmicos aprofunda uma tendência no campo da segurança pública cujos contornos são claros desde os anos 1980, quando propostas de reforma nas doutrinas e práticas policiais passaram a se debruçar de forma sistemática sobre o registro de eventos e a identificação de padrões normais de distribuição, agindo para prevenir a ocorrência de crimes em locais e horários de maior concentração. Neste período, dois fatores foram fundamentais: 1 Avanços computacionais, que permitiram a popularização de sistemas automatizados de informação geográfica (SIG) e a digitalização das bases de dados policiais (por exemplo, os registros georreferenciados de ocorrências criminais); 2 Transformação no pensamento criminológico, que passou a privilegiar iniciativas de engenharia situacional para a redução de condições criminógenas. Em outras palavras, a ação criminosa deixou de ser vista apenas como consequência de psicopatias ou privações socioeconômicas e se tornou produto da ação racional, derivada de cálculos de custo- 68 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇAPÚBLICA benefício e fruto de situações oportunas (como preconizava, por exemplo, a famosa teoria das “janelas quebradas”). Segundo a famosa formulação de James Wilson e George Kelling (1982), espaços com “janelas quebradas” são um convite à desordem e acabam por reunir grande parte dos crimes violentos. Ou seja, os autores constatam que áreas urbanas degradadas (sem cuidado com manutenção de parques e ruas, por exemplo) concentram pequenos delitos e esses, com o tempo, tenderiam a evoluir para crimes violentos. Nesse sentido, tão importante quanto as minuciosas investigações de assassinatos em série, por exemplo, seria a repressão ao uso de drogas, prostituição, pichação e destruição do patrimônio público. Caberia à polícia, portanto, redirecionar seus esforços para a identificação de áreas de risco e distribuir recursos de forma a gerar desincentivos a atividade criminal. Para uma apresentação mais detalhada dos pressupostos da teoria das “janelas quebradas”, ver: Wilson & Kelling (1982) A relevância dos avanços computacionais não pode ser subestimada. Dificuldades técnicas eram obstáculos formidáveis ao uso de mapas e abordagens estatísticas. Mesmo em países desenvolvidos, a coleta de dados não era sistemática e padronizada, o que impedia estudos comparativos e gerava grande imprecisão em análises criminais com largas escalas temporais. Profissionais de segurança pública e estatísticos trabalhavam com bases incompletas e não tinham técnicas para compensar o problema de subnotificação (Santos, 2013). Além disso, a produção de mapas requeria investimento de tempo, mão de obra e espaço (geralmente, paredes inteiras), recursos escassos na maioria das instituições policiais. Saiba mais 69 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Os primeiros mapas eram representações em papel de áreas de atuação dos departamentos de polícia, onde crimes eram geolocalizados com alfinetes coloridos. No entanto, na medida em que mais crimes eram cometidos, a visualização de sua distribuição geográfica tornava-se confusa, dificultando a distinção de padrões e séries de eventos relacionados. A análise de tendências também não era tarefa simples, já que mapas precisavam ser atualizados de tempos em tempos e informações sobre diferentes períodos só estavam disponíveis em fotos de arquivo. Em resumo, as polícias não dispunham de dados georreferenciados detalhados – a atualização das bases era analógica, o que gerava erros e tomava muito tempo – e os métodos de visualização não eram muito sofisticados. Figura 12: Análise georreferenciada de crimes pela Scotland Yard em 1964 Fonte: https://www.alamy.com/stock-photo/crime-map-history.html?sortBy=relevant Transformações na pesquisa criminológica também tiveram papel de destaque. Estudos sobre ocorrências em microrregiões começaram a mostrar que crimes estão concentrados em poucas áreas (esquinas e segmentos de ruas) e que os níveis de adensamento variam pouco ao longo do tempo (Eck & Weisburd, 1995). Análises sobre vitimização e perfis de suspeição também começaram a 70 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA encontrar padrões de repetição de vítimas (roubos de domicílio, por exemplo, tendem a ocorrer em áreas próximas de residências roubadas no passado próximo) e concentrações de crimes em certos grupos populacionais (algumas poucas redes representam grande parte de criminosos e vítimas). Caberia, então, às autoridades públicas investir no desenvolvimento de mecanismos de prevenção situacional. Ao invés de distribuir policiais aleatoriamente pelas ruas e torcer para que estes flagrem ações criminosas, os comandantes deveriam mapear a incidência de crimes e “colocar os policiais nos pontos [de concentração]” (Braga et al., 2019, p. 544). Como resultado, a demanda por respostas rápidas e investigação reativa foi, aos poucos, substituída nos manuais modernos de operação por um novo consenso em torno do “policiamento baseado em evidências” (Ratcliffe, 2016). Portanto, foi a soma desses fatores - a preocupação acerca da ecologia do crime como forma de guiar a alocação de recursos policiais, os avanços em técnicas de mapeamento e modelagem estatística, e o desenvolvimento de computadores com alta capacidade de processamento com custos acessíveis à maioria das instituições policiais - que permitiu a popularização de softwares de informação geográfica, a digitalização das bases de dados de ocorrências criminais, e, fundamentalmente, a popularização dos sistemas modernos de análise criminal. Esse processo encontrou contornos mais claros no CompStat, a ferramenta computacional de georreferenciamento de ocorrências e gestão de recursos implementada em 1994 pela polícia de Nova York. Cortes no orçamento público, aliados a demandas por mais transparência nas ações policiais, levaram a NYPD a reestruturar cadeias de comando, descentralizar processos de tomada de decisão e a estabelecer metas de desempenho. Em reuniões periódicas, os comandantes de diferentes unidades eram instados a apresentar os dados criminais de suas circunscrições, analisar padrões, selecionar táticas e definir a alocação de recursos. Nesse ambiente, informações eram trocadas, “boas práticas” ganhavam escala e resultados positivos rendiam ganhos pecuniários para os agentes. 71 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Entre 1993 e 1998, taxas de criminalidade caíram em quase todas as regiões da cidade, incluindo: homicídios (-67%), invasões de domicílio (-53%) e roubos de rua (-54%) (Police Executive Research Forum, 2013). Desde o sucesso do CompStat, instituições policiais ao redor do mundo têm investido cada vez mais na previsão de crimes, de modo que o policiamento reativo abre espaço para uma estratégia preventiva cujo objetivo final é dissuadir a ação criminal antes que essa ocorra, “tornando a bala obsoleta” (Coldewey, 2017). No entanto, há ainda certa confusão conceitual acerca do que é policiamento preditivo, das diferenças entre as várias ferramentas disponíveis e, fundamentalmente, de seu impacto na rotina policial. Esses temas serão abordados na próxima aula. 72 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 2. COMO OPERAM OS SISTEMAS ATUAIS DE POLICIAMENTO PREDITIVO? Como vimos na aula anterior, cabe certo ceticismo acerca do discurso de que análises algorítmicas representam “uma revolução que mudará tudo [nas polícias]”, sendo mais exato entender os softwares atuais como “aprimoramentos incrementais” nas atividades já exercidas pelas forças de segurança há várias décadas (Hollywood, 2012, p. 33). Além disso, é importante estar atento às diferenças entre os sistemas disponíveis no mercado, uma vez que o termo “policiamento preditivo” funciona como uma espécie de guarda-chuva sob o qual lógicas algorítmicas distintas são agrupadas. Ou seja, técnicas de predição, apesar de partirem da identificação de correlações estatísticas entre os múltiplos fatores que incidem sobre a dinâmica criminal, têm pressupostos e implicações para as operações policiais que podem variar, servindo para prever o perfil de vítimas, potenciais criminosos ou locais de concentração de crimes. Dessa forma, os bancos de dados utilizados para o treinamento dos diferentes sistemas também podem variar. Enquanto alguns sistemas têm como base os registros de vitimização, perfis de redes sociais, dados de secretarias de assistência social, dados bancários e censitários etc., outros se valem de bases os registros criminais agregados, dados meteorológicos e informações geográficas (por exemplo, a localização de bares, condomínios, pontos de ônibus, favelas, parques, escolas etc.) para identificar tendências de eventos criminais em células urbanas (microrregiões da cidade, como esquinas e segmentos de ruas). Além disso,as próprias técnicas de análise preditiva têm funcionamentos distintos, sendo comuns softwares que se valem de modelagens de risco de terreno (RTM), processos de auto excitação de pontos (SEPP), análises de repetição próxima (NR), análises geoestatísticas com cadeias de Markov, estimativas de densidade Kernel (KDE), entre outros. 73 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Softwares de policiamento preditivo se amparam em um conjunto de técnicas responsáveis por moldar os processos decisórios de máquina, e incorporam pressupostos e teorias correntes acerca de como é entendido o fenômeno criminal. Em regra, a predição é baseada em pessoas quando o intuito primário é o de detectar indivíduos que apresentem maior risco de cometer crimes (por exemplo, a partir da criação e identificação de perfis criminais e listas de potenciais suspeitos) e baseada em lugares quando o intuito é detectar padrões criminais no tempo-espaço. Nos dois casos, as predições focam em determinados fatores de risco. No caso de predições baseadas em lugares, são comuns a inclusão de fatores como a ausência de iluminação pública adequada, pouco comércio e circulação urbana, além do histórico de eventos criminais no local. No caso de predições baseadas em indivíduos, alguns dos parâmetros considerados nos modelos matemáticos são: condenação prévia, estrutura familiar, local de residência, emprego, histórico de uso de drogas etc. Para entender mais sobre as variadas técnicas de análise da concentração de crimes no espaço, no tempo, em determinados grupos populacionais ou mesmo em perfis de suspeição criminal, ver: Perry et al. (2013) Podemos perceber, portanto, que há inúmeros sistemas preditivos, já que os diferentes objetivos seguem os diferentes escopos dos órgãos de segurança. As polícias investigativas: As polícias investigativas, por exemplo, costumam ter maior interesse em sistemas que analisam perfis de suspeição, guiando o trabalho de coleta de evidências. Saiba mais 74 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Ministério Público Federal: Já órgãos responsáveis por reprimir crimes financeiros, como o Ministério Público Federal, tendem a buscar algoritmos que identifiquem transações que fujam da normalidade, alertando para possíveis fraudes ou práticas de lavagem de dinheiro. Além das funcionalidades descritas acima, há sistemas no mercado que fazem avaliação de risco de reincidência para informar decisões de juízes sobre progressão de pena, que avaliam o perfil de requerentes de vistos de entrada no país, que apontam os locais mais prováveis de futuros acidentes de carro, que monitoram dados sobre ações da própria polícia para apontar indícios de má conduta. O que todos esses sistemas têm em comum é que são pautados por modelos algorítmicos de análise de padrões que “buscam conhecimento [sobre práticas criminais], não a partir de processos dedutivos ou de evidências levantadas em investigações, mas a partir da indução estatística” (Guzik, 2009, p. 7) Para organizar um pouco esse complexo campo, pode-se dizer que, em geral, os sistemas de policiamento preditivos utilizados pelas forças policiais se dividem em quatro grupos, delimitados a partir dos alvos de intervenção (indivíduos ou espaços) e das técnicas analíticas implementadas. Tabela 1: Diferentes modelos de previsão de crimes (exemplos de sistemas de predição) FATORES DE RISCO HISTÓRICO DE EVENTOS Indivíduos Perfilamento criminal (Compass) Análises de redes de suspeitos Espaços Modelagem de risco de terreno (RTM) (HunchLab) SEPP (PredPol) Fonte: https://www.chicagomag.com/city-life/August-2017/Chicago-Police-Strategic- Subject-List/ Adaptado pelo conteudista 75 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Fora do Brasil, são comuns os sistemas que se valem de dados pessoais e do entorno social (incluindo passagens pela polícia, informações sobre desempenho escolar etc.) para a identificação de indivíduos que venham a cometer crimes ou a participar de grupos violentos, como a Strategic Subject List de Chicago e a Gangs Violence Matrix de Londres. No Brasil, contudo, a maioria dos sistemas atualmente em uso contribui para o policiamento ostensivo e se debruça sobre os padrões espaço-temporais do crime. Como apontamos anteriormente, esses sistemas estão baseados em dois pressupostos: 1 Padrões criminais do passado servem como forma de inferir a distribuição de crimes no futuro; 2 A configuração territorial é fator central para compreender a incidência de crimes em microrregiões. Enquanto a análise criminal pautada em “áreas quentes” (hot spots) costuma incluir apenas um parâmetro de análise - “[crime futuro] ≅ f [crime passado]” (crime futuro é uma função do crime passado) - os algoritmos mais sofisticados tendem a testar múltiplos fatores que influenciam na dinâmica criminal, construindo estimativas mais precisas e mais maleáveis (adaptáveis a diferentes contextos). Em termos de modelos matemáticos, esses pressupostos se expressam como: “[crime futuro] ≅ f [crime passado, outros tipos de crime, informações sobre eventos de desordem no local, registros sobre atividade suspeita; informações demográficas; dados econômicos; previsões do tempo; etc...]”. 76 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 13: Fluxograma do funcionamento de sistemas de predição de crimes Fonte: adaptado de Hardyns & Rummens (2018, p. 205) Figura 14: Interface operacional do sistema de previsão de crimes da HunchLab (destacando áreas prioritárias de patrulhamento para determinado turno e indicando o risco de diferentes tipos de delitos em cada região Fonte: Arrigue et al (2019, p. 5). 77 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Infelizmente, como costuma ocorrer no campo da segurança pública, são raros os estudos de avaliação de impacto do policiamento preditivo, problema agravado por ainda “não haver consenso entre pesquisadores sobre as melhores formas de avaliar e comparar novos métodos”, o que torna análises sistemáticas do uso de diferentes softwares em ambientes operacionais virtualmente inexistentes (Adepeju et al., 2016, p. 2135). Em geral, as avaliações se resumem a análises desenvolvidas pelas próprias empresas que comercializam os softwares. A PredPol, por exemplo, realizou ensaios controlados randomizados (RCTs) que apontaram maior precisão nas abordagens policiais (Mohler et al., 2015). A empresa afirma que seu sistema é capaz de prever de 1.4 a 2.2 vezes mais crimes se comparado aos métodos utilizados até então por analistas criminais em Los Angeles (EUA) e Kent (Reino Unido). Além disso, o uso do software causou a queda média de 7.4% em crimes durante o período de 24 semanas de testes nessas cidades. Outro estudo da mesma empresa afirma que o uso do algoritmo levou a números de prisões entre grupos minoritários igual ou menor nas áreas testadas do que nas áreas de controle (Brantingham et al., (2018). Em resumo, o software otimizaria a ação repressiva da polícia, diminuindo as críticas acerca da natureza discriminatória de seu trabalho. De fato, segundo os estudos das próprias empresas, a aplicação de modelos estatísticos na decisão sobre a alocação de patrulhas e na prevenção do comportamento criminal tem apresentado resultados satisfatórios em termos de redução da violência urbana. Na Prática 78 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Pearsall (2010) indica, por exemplo, que um dos primeiros testes com algoritmos preditivos, realizado em Richmond (EUA) no dia do réveillon, levou à queda de 47% dos tiroteios. Contudo, estas conclusões não estão livres de dúvidas. Rachel Santos (2014): Afirma que as evidências disponíveis impedem uma avaliação criteriosa acerca dos efeitosde sistemas preditivos. Perry et al., 2013; Hunt et al., 2014; Meijer & Wessels, 2019: Apontam que estes sistemas apresentam ganhos pouco significativos em relação a métodos convencionais de análise criminal. De fato, avaliar o impacto destes softwares não é simples, uma vez que eles oferecem diagnósticos de incidência criminal, mas não determinam a estratégia policial em si. As avaliações, portanto, dependem de uma série de fatores, incluindo a disposição das patrulhas de seguir rigorosamente as recomendações para alocação de recursos. Contribui para esta incerteza o fato desses sistemas raramente serem implantados de forma avulsa, mas integrarem, em geral, um conjunto de inovações (por exemplo, novos protocolos de abordagem, sistemas de videomonitoramento, câmeras corporais etc.) É central, ainda, a deficiência em termos de transparência. Muitos dos sistemas utilizados atualmente são serviços contratados de empresas privadas que não revelam detalhes dos modelos empregados. A opacidade dos softwares, protegidos por patentes, garante a vantagem competitiva das empresas e o valor comercial dos algoritmos. Logo, estes raramente são auditáveis por organizações 79 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA da sociedade civil e agências reguladoras. Temos então um cenário em que as próprias instituições policiais são, em geral, incapazes de avaliar a precisão dos sistemas ou a qualidade dos modelos que influenciam sua tomada de decisão. Meta-análises, estudos que coletam resultados de avaliações de impacto de sistemas de policiamento preditivo, apresentam resultados pouco consistentes, de modo que não há consenso sobre os benefícios advindos de sua implementação. Para uma análise mais detalhada dos resultados, bem como dos variados métodos de seleção e análise dos estudos de impacto, ver: Moses & Chan (2016); Fitzpatrick et al. (2019), Kounadi et al. (2020). Saiba mais 80 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 3. LIMITAÇÕES TÉCNICAS E DILEMAS ÉTICOS Nas aulas anteriores, discutimos o desenvolvimento de sistemas de análise criminal e alertamos para a necessidade de explorar as diferenças entre os softwares de policiamento preditivo disponíveis no mercado. Como apontado, técnicas de predição, apesar de partirem da identificação de correlações estatísticas entre os múltiplos parâmetros que incidem sobre a dinâmica criminal, têm pressupostos analíticos e implicações operacionais que podem variar. Nesta última aula do módulo, abordaremos criticamente o impacto de estratégias de gerenciamento de risco e antecipação de eventos no policiamento contemporâneo. Mapas de crimes futuros advêm da automatização de formas de classificar, mensurar e visualizar o fenômeno criminal. Estes, portanto, codificam e reproduzem muitos dos padrões de atuação já arraigados na cultura policial. Ainda assim, desenvolvedores de softwares preditivos costumam negligenciar os vieses de origem das bases de dados que alimentam seus algoritmos. Os padrões tradicionais de distribuição das patrulhas influenciam nos locais onde crimes são mais registrados (em geral, onde há maior presença de policiais, há maior quantidade de registros de ocorrências). Do mesmo modo, as prioridades estabelecidas nas políticas de segurança pública determinam quais crimes serão mais reprimidos (por exemplo, roubos à propriedade e tráfico de drogas, etc.). Desse modo, as bases de registros de ocorrências utilizadas pelos sistemas preditivos refletem um padrão anterior de policiamento que tenderá a ser reforçado nas análises algorítmicas, o que especialistas chamam de “feedback loop”. O resultado, como alguns críticos apontam, é que os sistemas não trazem um conhecimento novo sobre a distribuição espaço-temporal do crime, mas sim mapas que refletem os padrões de distribuição das próprias patrulhas policiais (Lum & Isaac, 2016). 81 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 15: O processo de reprodução dos padrões iniciais de policiamento nas previsões de crimes (feedback loops) Fonte: do conteudista. Esta crítica é central para entender os efeitos do policiamento preditivo tanto sobre a eficácia geral da polícia, quanto a repressão a grupos populacionais específicos. A lógica dos sistemas preditivos é que o futuro se torna previsível a partir da apreciação de regularidades do passado, uma racionalidade tautológica segundo a qual certos lugares são criminógenos porque crimes foram lá registrados (Jefferson, 2020). Portanto, em um cenário no qual as estatísticas estejam condicionadas por padrões discriminatórios de policiamento, o que o algoritmo faz é reforça-los. Se há acusações de que “faro policial” leva a um perfil de suspeição marcado por forte caráter racial (por exemplo, jovens negros), o que os sistemas fazem não é corrigir o foco das abordagens, mas treinar os modelos estatísticos para automatizar o alvo da repressão, o que os críticos chamam de “discriminação algorítmica” (Richardson et al., 2019) 82 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Outra crítica recorrente ao uso de softwares de policiamento preditivo está na falta de articulação dessas ferramentas com estratégias mais amplas de contenção da atividade criminal. Ao melhorar a eficiência da alocação de patrulhas, os softwares tendem a diminuir a incidência de crimes em micro-regiões, mas, sem o uso da inteligência investigativa para desorganizar os grupos que cometem crimes, o que tende a ocorrer é um “espalhamento da mancha”. Ou seja, criminosos se adaptam aos novos padrões de policiamento e buscam novas áreas de atuação. Mesmo que o resultado final seja uma redução nos índices gerais de crimes (afinal, nem sempre os criminosos encontram novos espaços de atuação), as quedas costumam ser bem menores do que aquelas identificadas inicialmente e propagandeadas pelas empresas privadas. Jerry Ratcliffe (2016), ex-policial da Polícia Metropolitana de Londres (MET) e professor da Universidade de Temple, compara essa estratégia ao jogo “acerte a toupeira” (whack-a-mole), em que o animal sai da toca e a pessoa deve acertá-lo na cabeça, fazendo-o retornar temporariamente ao seu lugar. Para Ratcliffe, sozinha, a estratégia de policiamento preditivo não seria mais do que um paliativo, já que o crime pode diminuir em uma esquina apenas para ressurgir em outra mais à frente. Isso nos leva para outra crítica corrente. O fim do interesse pela causalidade do crime (por exemplo, os fatores que levam alguém a cometer delitos) tem uma implicação social mais profunda: a redução das políticas de segurança pública à ação repressiva da polícia, ignorando um conjunto mais amplo de ações do Estado e da sociedade que podem levar à construção de cidades menos violentas. Dito de outro modo, estratégias de redução do crime acabam se tornando sinônimos de estratégias punitivas, jogando toda a responsabilidade para as polícias. Nesse processo, o policiamento preditivo pode levar a um aumento do encarceramento enquanto reduz a atenção ou interesse por atingir as raízes complexas do fenômeno criminal. Na medida em que se consolida uma visão instrumental da 83 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA polícia, reflexões mais amplas sobre as causas do crime e agendas públicas com políticas sociais de amplo espectro tendem a ser abandonadas. A falta de transparência dos algoritmos: Por fim, a falta de transparência dos algoritmos, como discutido na última aula, também representa um problema. A opacidade dos sistemas dificulta a interpretação dos analistas criminais, o que tem, em geral, dois efeitos: policiais passam a ignorar os resultados apresentados pelos softwares, mantendo as práticas convencionais, ou, ao contrário, delegam a decisão, distribuindo recursos policiais de formaacrítica e automática. O primeiro caso é bem documentado. A introdução de novas tecnologias e projetos de transformação gerencial nas polícias não segue uma lógica linear. Diversas pesquisas demonstram que a cultura institucional e a rotina das operações acabam por transformar os usos de novas tecnologias, podendo gerar repercussões inesperadas ou, até mesmo, impactos nulos. Ao observar a implementação de ferramentas de mapeamento e análise estatística nos Estados Unidos, Manning (2011, p. 251), por exemplo, argumenta que, apesar das demandas por patrulhas mais eficientes, pouca coisa mudou, pois, “a penetração da tecnologia na rotina de trabalho depende totalmente da utilidade percebida [pelos policiais] na base”. Ou seja, se os policiais não compreendem a racionalidade por trás desses sistemas, podem evitar seu uso, resistindo às ordens de comando ou empregando estratégias em suas rotinas para adaptar a patrulha a outros padrões. Deste modo, a eficácia do sistema é reduzida. 84 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Por outro lado, é comum também que policiais deleguem todo o trabalho de análise criminal para o software, tornando-se meros burocratas que seguem os ditames da máquina. Na medida em que isso ocorre, policiais perdem o conhecimento especializado que caracteriza o profissional de segurança pública, ficando sem a capacidade de avaliar criticamente os sistemas preditivos e propor correções de rumo. Assim, sem incorporar a experiência local, os sistemas algorítmicos podem apresentar mais dificuldade de adaptação. Isto é, não identificam padrões diversos, pois são incapazes de incluir novos parâmetros nos modelos preditivos. Uma disputa entre gangues ou mesmo estratégias concomitantes de policiamento impactam na dinâmica criminal e, se não se tornarem variáveis nos modelos matemáticos, podem gerar distorções. Há então o risco de os sistemas ficarem ultrapassados e produzirem resultados cada vez menos precisos, até se tornarem, porventura, obsoletos. É neste contexto que é possível diferenciar os softwares de policiamento preditivo das análises de evidências que são recomendadas para a produção de políticas de segurança pública de qualidade. As análises de dados diversos - da segurança pública e de outras áreas - são cruciais e requerem, por exemplo, ampla capacidade de processamento e interpretação de dados. Contudo, o que a maior parte dos pesquisadores aponta é que esta produção e análise de informações deve estar unida a uma ampla gama de conhecimentos dos profissionais da segurança pública, gestores e sociedade civil para que levem à construção de políticas que, ainda que possam falhar, passarão pelo crivo do debate e questionamento dos atores envolvidos. Podem, ainda, ser escrutinadas e ajustadas de forma mais transparente do que os softwares de predição permitem até o momento, e talvez tenham maior probabilidade de sucesso por incorporarem a este amplo processamento de grandes bases de dados elementos de conhecimento qualitativo com potencial para identificar e reverter as diversas tendências negativas que os softwares podem estar reproduzindo. 85 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA FINALIZANDO Neste módulo, você aprendeu: Sistemas de policiamento preditivos são uma contribuição aos métodos de análise estatística e cartográfica da atividade criminal. Existem diversos modelos de policiamento preditivo, que podem ser divididos tanto pelo foco da predição (por exemplo, indivíduos propensos ao crime ou espaços criminógenos) quanto pelas técnicas algorítmicas empregadas. Em geral, o trabalho de policiamento ostensivo faz uso de sistemas preditivos voltados para a identificação de padrões de distribuição espaço-temporal do crime (onde o crime se concentra em cada momento). Não há consenso acerca do impacto de ferramentas preditivas na redução de crimes. Enquanto diversas pesquisas apontam efeitos positivos (em geral, financiadas pelas empresas que desenvolvem os sistemas), outras pesquisas apontam efeitos muito reduzidos ou nulos. Críticos apontam que a maioria dos sistemas preditivos atualmente no mercado sofrem com “feedback loops”. Ou seja, são análises estatísticas comprometidas por vieses de origem das bases de registros criminais. Isso contribui também para que padrões discriminatórios de policiamento não sejam eliminados, mas reproduzidos pelos sistemas algorítmicos. Os sistemas não devem ser empregados de forma automática. Para evitar que erros passem despercebidos e padrões discriminatórios sejam reproduzidos, é preciso que o analista criminal mantenha uma postura crítica em relação aos mapas apresentados pelos softwares. 86 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA MÓDULO 4 - CÂMERAS CORPORAIS APRESENTAÇÃO Até o momento atual, mais de cento e cinquenta publicações se dedicaram à análise do impacto das câmeras corporais da polícia em suas atividades operacionais. O objetivo deste capítulo é fornecer um resumo crítico e conciso das principais conclusões retiradas da extensa literatura sobre as implicações mais significativas da adoção das câmeras corporais para o trabalho policial. Para ilustrar isso com exemplos, a literatura internacional demonstra que as câmeras corporais têm tido um efeito na redução de reclamações de conduta, tais como procedimentos administrativos e sindicâncias. Além disso, é importante destacar o que não foi observado. Por exemplo, várias suposições plausíveis foram minuciosamente investigadas, como a ideia de que as câmeras poderiam levar os policiais a adotar uma postura mais passiva. No entanto, essas conjecturas não encontraram respaldo nos dados disponíveis. OBJETIVOS DO MÓDULO Conhecer e compreender os principais marcos da utilização das soluções de câmeras corporais em perspectiva histórica; Refletir sobre a evolução da utilização de soluções de câmeras corporais enquanto inovações tecnológicas; Conhecer o Projeto Nacional de Câmeras Corporais; Para entender adequadamente a rica literatura sobre esse tema, é fundamental começar compreendendo a metodologia utilizada para avaliar o impacto dessas câmeras no passado. Isso nos permitirá distinguir entre evidências de qualidade variável, que vão desde baixa até alta qualidade, e identificar os problemas metodológicos que dificultaram a avaliação dessas políticas no passado. 87 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA A seguir, apresentamos um resumo das principais descobertas da literatura em relação às diversas dimensões da atividade policial que podem ser afetadas pelo uso de câmeras corporais. Essas dimensões incluem, por exemplo, a redução de incidentes de uso excessivo da força, o impacto nas interações com o público e o aumento da responsabilidade e da transparência policial. Figura 16: Policiamento e Uso de Câmeras Fonte: MJSP ESTRUTURA DO MÓDULO Aula 1 - Histórico das câmeras corporais em segurança pública. Aula 2 - Metodologias utilizada e qualidade da avaliação. Aula 3 - Efeitos do uso de câmeras corporais. Aula 4 - Projeto Nacional de Câmeras Corporais. 88 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 1. HISTÓRICO DAS CÂMERAS CORPORAIS EM SEGURANÇA PÚBLICA 1.1 Definições sobre câmeras corporais As câmeras corporais ganharam atenção das organizações de segurança pública desde o início dos anos 2000. As inovações tecnológicas têm redefinido as formas de realização do policiamento em diferentes níveis e formas (Mattos, 2021). Desde a utilização de sistemas computacionais para a análise de dados, tecnologias de transmissão embarcada de dados, até a utilização de soluções nos próprios uniformes. Esse é o caso das câmeras corporais. De uma maneira geral e introdutória, esta seção apresentará uma visão geraldo uso de câmeras corporais ao longo do tempo, com foco em características centrais, como seu impacto, benefícios, desafios e principais estágios de desenvolvimento. Mas, antes de começarmos, você sabe o que são câmeras corporais? Tecnicamente, são dispositivos portáteis que captam registros audiovisuais (imagens e sons) das interações com o ambiente e outras pessoas e que são acoplados nos uniformes dos profissionais. As câmeras são comumente fixadas no colete, no capacete ou no ombro. Existem diferentes mecanismos de fixação e que influenciam a utilização dos equipamentos. As câmeras compõem um conjunto de soluções de gerenciamento, controle e compartilhamento dos registros. Essas soluções são comumente softwares desenvolvidos para garantir que os registros sejam confiáveis, auditáveis, úteis e seguros para os diferentes fins que serão utilizados. Ou seja, as câmeras são apenas parte das soluções de registro audiovisuais, devendo ser acompanhadas de instrumentos para manusear as evidências produzidas ao longo de sua utilização. Vamos Refletir 89 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 17: Fixação no ombro Fonte: GEEKBLOG. Figura 18: Fixação no peito Fonte: City of Twin Falls Idaho. Existem diferentes tipos de câmeras, com designs e funcionalidades que variam de acordo com o fabricante. Além disso, essas características evoluem e se modificam ao longo do tempo. De uma forma geral, as câmeras apresentam funcionalidades principais como as descritas na imagem abaixo: teclas de volume, microfone, tecla de acionamento, tecla de início, lentes, porta usb, visores das gravações e teclas de manuseio dos registros. 90 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 19: Tipo de câmera corporal Fonte: AXON, Tradução livre pela COED. A diversidade dos equipamentos disponíveis aumenta a necessidade de que sejam definidas diretrizes e procedimentos gerais a serem seguidos na implementação de câmeras corporais. De uma forma geral, os principais pontos a serem destacados incluem: Tabela 2: Tipos de categorias de diretrizes e exemplos de recomendações Item Descrição Exemplos Público-alvo Definições sobre as circunstâncias e os profissionais que utilizarão as câmeras corporais Todos os policiais em atividades de policiamento ostensivo ou Uso vedado durante operações de inteligência 91 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Posicionamento no uniforme Descrição inequívoca dos locais de fixação dos equipamentos de registro Os equipamentos deverão ser fixados na o centro da parte superior do colete de proteção balística Direitos de privacidade Circunstâncias e limites na utilização dos equipamentos Vedação da utilização em situações que exponham a constrangimento de si ou de outrem; ou Durante a realização de refeições ou necessidades fisiológicas, os equipamentos deverão ser removidos mediante informação prévia ao supervisor imediato Protocolo de Registro Definições sobre quando os profissionais devem ou não registrar as interações; como deve ser o aviso sobre a gravação Todas as interações deverão ser registradas; ou As interações que envolvam ocorrências policiais deverão ser registradas em nível mais elevado de qualidade; ou Antes do início do registro, o profissional deverá avisar as demais pessoas da interação 92 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Armazenamento Definições sobre as características do armazenamento dos registros audiovisuais (por exemplo, o tempo e a qualidade do armazenamento) Todos os registros serão armazenados por período mínimo de 60 dias; ou Os registros de ocorrências que envolvam uso da força deverão ser armazenados por período mínimo de 1 ano. Integridade dos dados Definições sobre os critérios de acesso, as regras de custódia e de compartilhamento dos registros audiovisuais O acesso ao sistema de evidência de registros das câmeras corporais será realizado mediante login e senha, de acordo com a necessidade institucional; ou O compartilhamento de registros audiovisuais será autorizado mediante solicitação formal deferida pelo responsável de gestão de inteligência da organização, sendo concedida prioridade às solicitações do Ministério Público, 93 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Tribunais e Defensorias em casos em curso. Treinamento Diretrizes sobre os conteúdos e as rotinas de treinamento na formação e capacitação continuada para operação das soluções de registro tecnológico Apenas profissionais previamente treinados para operação das soluções tecnológicas e na doutrina de uso diferenciado da força poderão utilizar câmeras corporais Avaliação de impacto Definições sobre formas e instrumentos de avaliação das medidas de implementação e operacionalização das câmeras corporais O programa de câmeras corporais deverá ser avaliado anualmente e de forma independente quanto ao impacto sobre as interações com a população, à produtividade da organização e às percepções dos profissionais Fonte: Elaborado pelo autor a partir de Miller et al (2014). 1.2 Linha de tempo das câmeras corporais em segurança pública Agora que já sabemos a definição das câmeras corporais e conhecemos os principais tipos de diretrizes das organizações, passaremos ao seu histórico de utilização em segurança pública. Para isso, propomos a divisão em três momentos distintos: o período inicial (1995-2005), o período experimental (2006-2015) e o período de expansão (2016 até os dias atuais). 94 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA A. Período inicial (1995-2005) O uso das câmeras corporais começou no final da década de 1990, com o primeiro caso documentado no Reino Unido (GOODALL, 2007). A polícia de Devon e Cornwall começou a fazer experimentos com esses dispositivos em 1998. Já em 2005, foram realizados os primeiros estudos piloto em Plymouth, na Inglaterra (HARRIS, 2010). De uma maneira geral, as câmeras corporais podem ser compreendidas a partir de sua relação com as câmeras de circuitos fechados de televisão (CFTV) e as câmeras embarcadas em viaturas (dashcams). Nesse sentido, as câmeras corporais são uma extensão do objetivo de registrar o trabalho policial e, especialmente, as suas interações cotidianas de forma mais próxima, contínua e detalhada. Nesse período inicial, a utilização das câmeras corporais foi registrada de forma ainda incipiente em polícias do Reino Unido. As suas características eram ainda limitadas. A qualidade das gravações não permita o detalhamento dos registros e a geolocalização. B. Período experimental (2006-2014) No início dos anos 2000, vários departamentos de polícia nos Estados Unidos e no Reino Unido realizaram programas-piloto para testar a eficácia das câmeras corporais. Esses testes iniciais tinham como objetivo avaliar seu impacto no comportamento dos policiais, nas interações com os cidadãos e na coleta de evidências para processos criminais. Esse período ficou conhecido pelo avanço tecnológico e o acúmulo de evidências de estudos científicos. Em relação ao avanço tecnológico, os equipamentos se tornaram mais leves, seguros e acumularam novas funcionalidades, como a capacidade de transmissão de dados por rede de dados telefônicos, a geolocalização e o rastreamento, a transmissão em tempo real de áudio e vídeo, além de características de segurança, como a criptografia ponta a ponta das comunicações. Em particular esse último aspecto está relacionado às condições de integridade das evidências em casos criminais. 95 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Por outrolado, o crescente acúmulo das evidências de estudos científicos mostrou uma incomum realidade em políticas públicas na área de segurança: a quantidade e a qualidade dos dados para subsidiar a elaboração de novas medidas por agências governamentais. Nem sempre foi assim. Por vezes, na ausência de informações qualificadas, as organizações de segurança pública iniciavam a implantação das câmeras corporais sem evidências sobre os resultados possíveis das novas tecnologias. Em última medida, não se sabia ao certo se as câmeras poderiam atender às elevadas expectativas geradas em torno do aumento da transparência, controle e accountability das polícias. As evidências científicas são elementos decisivos para a tomada de decisão em políticas públicas e, em relação às câmeras corporais, o cenário é bastante promissor. Por exemplo, a imagem abaixo reproduz a quantidade de estudos existentes e analisados a partir das principais revisões sistemáticas na área (BWC TTA, 2023; LUM et al., 2019, 2015; MASKALY et al., 2017; WHITE, 2014). Figura 20: Resumo de referências sobre câmeras corporais em série histórica Fonte: do conteudista. White (2014): 5 estudos Lum et al (2015): 14 estudos Maskaly (2017): 24 estudos Lum et al (2019): 70 estudos BWC TTA (2023) 137 estudos 96 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA C. Período de expansão (2015 até os dias atuais) A partir de meados dos anos 2000, as câmeras corporais ganharam popularidade entre organizações de segurança pública em todo o mundo. Nesse período, as câmeras passaram a fazer parte das rotinas dos policiais e a compor o seu conjunto de equipamentos básicos. O rápido avanço das câmeras corporais está associado ao papel do Governo Barack Obama na área de segurança Pública. Na época foi instituída uma comissão composta por acadêmicos, gestores e policiais para propor mudanças no modelo de policiamento do país. Uma das políticas incentivadas foi a adoção das câmeras corporais. A Força-Tarefa Presidencial para o Policiamento do Século XXI, criada pelo Presidente Barack Obama em dezembro de 2014, desempenhou um papel significativo na formação de políticas de aplicação da lei, incluindo a adoção de câmeras corporais nos Estados Unidos. A força-tarefa tinha como objetivo fortalecer o policiamento comunitário e a confiança entre as agências de aplicação da lei e as comunidades que elas atendiam. De forma retrospectiva, os principais fatos sobre a Força-Tarefa foram: 1. Criação da força-tarefa (dezembro de 2014): em resposta a casos de violência policial, o Governo Federal dos EUA criou a Força- Tarefa para identificar as melhores práticas e fazer recomendações para aprimorar as estratégias de policiamento, a responsabilização e a transparência das organizações policiais. Um dos casos mais conhecidos foi a morte de Michael Brown, em Ferguson, no Estado de Missouri em agosto de 2014. 2. Divulgação do relatório da força-tarefa (maio de 2015): A força-tarefa divulgou seu relatório final em maio de 2015, delineando recomendações Saiba mais 97 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA abrangentes para as polícias. Uma das principais recomendações foi a implementação de câmeras corporais como uma ferramenta para aumentar a transparência, a responsabilidade e a confiança da comunidade nas polícias. 3. Financiamento e apoio federal (2015-2016): em resposta às recomendações da força-tarefa, o Departamento de Justiça (DOJ) forneceu financiamento e apoio às polícias em todo o país para ajudá-los a adquirir e implementar programas de câmeras corporais. No lançamento do programa, o Governo Federal dos EUA destinou 75 milhões de dólares para a implementação de mais de 50 mil câmeras corporais em todo o país (WHITE; MALM, 2020). A expansão nos Estados Unidos foi rapidamente captada em estudos científicos. De acordo com levantamento realizado em 2015 pelo Police Executive Research Forum mais de 35% dos chefes de polícia que responderam ao questionário já possuíam programas de câmeras corporais, sendo que 47% registraram o planejamento de implementar no futuro (FORUM, 2018). Logo, mais de 80% das polícias tinham ou planejavam adquirir câmeras corporais nos Estados Unidos em 2015. Segundo dados de levantamento realizado em 2015, cerca de 135.000 câmeras corporais foram vendidas para organizações policiais no mundo, principalmente na Europa Ocidental e nos Estados Unidos (Flight, 2019). No Brasil, as câmeras corporais também avançaram de forma rápida nesse período. Não se sabe exatamente, qual foi a organização de segurança pública brasileira que iniciou a utilização de câmeras corporais. Contudo, as principais iniciativas de implementação e avaliação de resultados foram conduzidas no Rio de Janeiro (MAGALONI et al., 2019), em Santa Catarina (BARBOSA et al., 2021) e em São Paulo (MONTEIRO et al., 2022). Segundo levantamento realizado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) em agosto de 2023, 26 das 27 unidades da federação realizavam testes ou estudos ou já possuíam projetos de câmeras corporais em curso (MATTOS; MACEDO; BRASIL, 2023). 98 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 2. METODOLOGIAS UTILIZADAS E QUALIDADE DA AVALIAÇÃO Há na literatura uma ampla quantidade de estudos sobre câmeras corporais, em sua maioria realizados em contextos em países desenvolvidos como os Estados Unidos ou Reino Unido. É seguro dizer que os contextos nos quais as câmeras são inseridas diferiram, nestes estudos iniciais, da relevância do caso brasileiro ou de outros países em desenvolvimento, em particular nos quais os desafios de policiamento são maiores e mais complexos do que naqueles onde as câmeras haviam anteriormente sido avaliadas. Além da importância de o contexto requerer estudos em múltiplos locais, é importante ressaltar que a metodologia dos estudos foi, no passado, díspar. Em linhas gerais, os estudos podem ser divididos em três grandes categorias: A. Sem grupo de controle e/ou testes estatísticos: Para avaliar adequadamente o impacto das câmeras corporais, é fundamental estabelecer um grupo de controle, que atua como um ponto de referência para entender o que teria acontecido em ocorrências policiais ou em atividades da corporação caso as câmeras não tivessem sido usadas. Claro que medir diretamente esse cenário alternativo é impossível, já que se trata de uma suposição sobre uma situação que não ocorreu - ou seja, o que teria acontecido nas ocorrências com câmeras se as câmeras não tivessem sido utilizadas. Em resumo, o grupo de controle possibilita a reconstrução desse cenário alternativo e, em muitos casos, permite identificar o efeito das câmeras. No entanto, existem estudos que não conseguem estabelecer um cenário de controle claro. Isso significa que não é possível afirmar com segurança o que teria ocorrido na ausência das câmeras, ou seja, qual seria o efeito das câmeras. Um exemplo disso são os estudos que comparam os resultados "antes" e "depois" da adoção das câmeras. Esses estudos não 99 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA incluem um grupo de controle efetivo, porque não é possível determinar o que teria ocorrido no período "depois" se as câmeras não tivessem sido utilizadas. Para ilustrar esse ponto, considere o caso em que câmeras corporais são adotadas para o patrulhamento em áreas turísticas logo antes do verão. Sabe-se que há um padrão sazonal no comportamento dos turistas, com mais visitantes durante os meses mais quentes e isso está relacionado à atividade criminal nessas áreas. Ou seja, existe uma variação sazonal na atividade criminosa que não está diretamente ou indiretamente ligada às câmeras corporais. No entanto, se fizermos uma comparação "antes-depois"após a adoção das câmeras, é possível que sejam detectados aumentos na criminalidade. No entanto, esses efeitos são, na verdade, coincidentes com o padrão sazonal, e não causados pelas câmeras. Em outras palavras, a comparação "antes-depois" não permite construir um cenário de controle para entender o que teria ocorrido durante o verão caso as câmeras não tivessem sido utilizadas, pois não controla os efeitos sazonais e não permite separá-los do efeito das câmeras. Outra situação que dificulta a criação de um grupo de controle é conhecida como o problema de seleção. Isso ocorre quando indivíduos ou grupos optam por adotar uma política (como o uso de câmeras) com base em seus próprios interesses, características ou expectativas de resultados. Para ilustrar esse desafio metodológico, considere a seguinte situação: suponha que batalhões em áreas com alta atividade criminal decida usar câmeras corporais por conta própria, enquanto outros batalhões recebem essa decisão de forma externa, por exemplo, por ordem do comando central da Polícia Militar. Em ambos os casos, ao comparar batalhões com e sem câmeras, poderia ser erroneamente sugerido um aumento na criminalidade quando as câmeras são usadas. Isso ocorreria porque, nesse cenário hipotético, as câmeras teriam sido alocadas aos batalhões localizados em áreas mais violentas e não porque as câmeras aumentaram a criminalidade nesses locais. Em outras palavras, os batalhões sem câmeras não seriam um grupo de controle apropriado. 100 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Além disso, existem outras razões que constituem problemas metodológicos, como estudos que não realizam os testes estatísticos apropriados, tornando impossível determinar se as diferenças observadas podem ser atribuídas às câmeras ou a flutuações estatísticas. Por fim, muitos trabalhos fazem uso de dados agregados, que são resumos estatísticos de informações mais detalhadas. Em contraste, os "microdados" são observações individuais detalhadas. Por exemplo, para avaliar o impacto das câmeras na atividade criminal, os dados agregados seriam o número de crimes registrados em uma determinada área geográfica em um determinado período. No entanto, os microdados incluiriam informações detalhadas de cada incidente criminal. O uso de microdados oferece vantagens, como maior precisão estatística devido ao tamanho da amostra maior e a capacidade de controlar para efeitos contextuais e sazonais. B. Estudos experimentais ou quase-experimentais com problema de contaminação: Muitos estudos nesta categoria adotam abordagem experimentais, isto é, a determinação aleatória sobre um grupo de tratamento e um grupo de controle. Este tipo de estudo é conhecido como "estudo de controle aleatório" e é o padrão-ouro na avaliação de políticas públicas. Em linhas gerais, os estudos de controle aleatório permitem estabelecer o efeito de políticas com maior confiança porque controlam para efeitos de seleção. Isto ocorre porque a designação de quais unidades utilizam as câmeras corporais se dá por meio aleatório e, por isso, não é contaminada por fatores externos (como, no exemplo acima, a correlação entre designação de câmeras e intensidade da atividade criminal). Alguns estudos nesta categoria utilizam abordagens quase- experimentais. Esse termo é empregado quando os pesquisadores não aplicam diretamente um processo de aleatorização, mas em vez disso, fazem 101 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA uso de fontes de variação que ocorrem naturalmente e que podem ser exploradas para fins de pesquisa. Em outras palavras, em um estudo quase-experimental, os pesquisadores não têm controle direto sobre a atribuição das condições de estudo, como no caso de um experimento randomizado típico, onde os participantes são aleatoriamente designados para grupos de tratamento e controle. Em vez disso, eles observam situações da vida real onde as condições variam de forma não planejada, usam essa variação natural para tirar conclusões sobre os efeitos da intervenção, como o uso de câmeras corporais. Essa abordagem permite que os pesquisadores investiguem o impacto das câmeras em um ambiente do mundo real, embora não tenham controle completo sobre a alocação das câmeras. Embora não seja tão rigorosa quanto a aleatorização, a abordagem quase-experimental ainda fornece evidências valiosas sobre os efeitos das câmeras corporais em situações em que a aleatorização completa não é viável. Embora esses estudos ofereçam promissoras oportunidades de pesquisa, frequentemente enfrentam problemas metodológicos que complicam a avaliação precisa do impacto das câmeras. Esses problemas são conhecidos como efeitos de contaminação e podem assumir várias formas, como ilustrado a seguir. Vamos supor que um pesquisador selecione aleatoriamente alguns policiais para usar câmeras e outros para não usar. No contexto de estudos experimentais, o primeiro grupo é chamado de grupo de tratamento, enquanto o segundo é chamado de grupo de controle. Suponha que o pesquisador deseje avaliar se as câmeras corporais afetam o uso da força policial. Nesse cenário, é muito provável que a comparação entre o uso de força pelos policiais no grupo de tratamento e no grupo de controle não revele o verdadeiro efeito das câmeras, devido a problemas de contaminação. Isso acontece porque, na maioria dos casos, o atendimento a ocorrências não é feito por um único policial. Na realidade, muitas Polícias 102 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Militares operam com guarnições compostas por um par de policiais. Suponha que nessa guarnição hipotética haja um policial no grupo de tratamento (com câmera) e outro no grupo de controle (sem câmera). Nessa situação, é evidente que toda a dinâmica operacional será afetada pela presença de pelo menos uma câmera. Portanto, o policial no grupo de controle também está indiretamente exposto à influência das câmeras, já que a situação em que ele se encontra é amplamente afetada pelo uso do dispositivo. O resultado estatístico é que a comparação entre o grupo de tratamento e o grupo de controle pode não refletir o verdadeiro impacto das câmeras. Isso pode ocorrer mesmo que as câmeras sejam dispositivos que, em teoria, reduzam o uso da força. O que acontece nesse caso é que a diferença entre o grupo de tratamento e o grupo de controle não é representativa do efeito real do uso de câmeras, uma vez que ambos os grupos sofreram, mesmo que de forma indireta, com o uso do equipamento. Uma outra variação do problema de contaminação ocorre quando o uso da câmera é aleatorizado entre diferentes turnos de um mesmo policial, alternando entre turnos de tratamento (com câmera) e turnos de controle (sem câmera). Nesse caso, a preocupação é que o policial passe a se comportar de maneira diferente mesmo nos turnos em que não estiver portando a câmera, devido a efeitos relacionados à memória e atrasos. Esse efeito sugere que os turnos de controle não seriam um contrafactual adequado para os turnos de tratamento na ausência do uso da câmera. C. Sem grupo de controle e/ou testes estatísticos: Esse tipo de estudo visa controlar os efeitos de contaminação, existem duas abordagens principais para fazê-lo: Em contextos experimentais, a abordagem ideal é considerar a unidade de análise como sendo a própria ocorrência em si, em vez de focar nos policiais individuais ou nos turnos de trabalho dos policiais. Isso ocorre porque é intuitivo pensar que a presença de pelo menos uma câmera em uma situação pode afetar todos os policiais envolvidos e até mesmo as interações 103 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA com os cidadãos. Para implementar essa abordagem, é necessário utilizar dados detalhados e granulares ou agregar os dados de forma cuidadosa, de modo a não propagar os efeitosde contaminação. Um exemplo disso é o desenho experimental adotado para avaliar o uso das câmeras corporais no Estado de Santa Catarina (Barbosa, Fetzer, Soto e Souza, 2022), que será discutido posteriormente na seção que aborda os estudos realizados no Brasil. A segunda abordagem pode considerar que todas as unidades dentro de uma determinada área geográfica (por exemplo, um batalhão) sejam tratadas de maneira uniforme, ou seja, todas adotam o uso das câmeras. Essa abordagem pode ser viável quando não há interações frequentes entre as diferentes áreas geográficas (por exemplo, quando as guarnições de um batalhão atendem principalmente ocorrências dentro desse mesmo batalhão). Em certas condições específicas, essa abordagem pode permitir a identificação dos efeitos das câmeras. Isso é exemplificado nos estudos realizados em São Paulo. (Monteiro, Fagundes, Guerra, e Piquet, 2022; Monteiro, Fagundes e Souza, 2023) Essas duas abordagens buscam minimizar os problemas de contaminação ao considerar a unidade apropriada de análise e as condições específicas de interação entre as unidades geográficas, tornando possível a avaliação mais precisa dos efeitos das câmeras corporais. 104 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 3. EFEITOS DO USO DE CÂMERAS CORPORAIS A partir da leitura da literatura, pode-se dizer que, até a presente data, já há consenso sobre algumas áreas nas quais as câmeras têm efeitos comprovados, outras onde há comprovação da ausência de efeitos e dimensões nas quais o efeito não foi comprovado e necessita de estudos posteriores. A seguir, estes efeitos serão revisados, um a um, de acordo com a literatura internacional: Acionamento e Protocolo: A primeira medida de resultado no uso de câmeras corporais diz respeito à sua ativação durante interações entre policiais e cidadãos. Nesse aspecto, há uma considerável variação entre diferentes contextos, casos e protocolos de ativação. Para ilustrar essa diversidade, apresentaremos alguns exemplos. Em Phoenix, durante o período de 2010 a 2015, evidências iniciais sugeriram que a gravação ocorria em uma faixa que variava entre 13,2% e 42% dos incidentes (Katz et al., 2015; Hedberg, Katz e Choate, 2017). Em Londres, no Reino Unido, estudos prévios indicaram que cerca de 42% dos policiais registravam pelo menos dez vídeos em um mês (Grossmith et al., 2015). Em contraste, um estudo em Santa Catarina (Barbosa, Fetzer, Soto e Souza, 2022), realizado antes da implementação das câmeras corporais em todo o estado, relatou uma taxa de ativação de aproximadamente 23%. Essa variação significativa se deve, em parte, aos diferentes protocolos de ativação adotados pelas várias agências policiais. Um dos protocolos mais abrangentes atualmente é aquele que envolve a gravação contínua durante todo o turno de serviço, como ocorre no projeto Olho Vivo em São Paulo. Nesse caso, as câmeras gravam vídeo de forma ininterrupta, e o acionamento manual é necessário para registrar o áudio, 105 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA aumentar a qualidade e resolução do vídeo ou marcar pontos específicos. Em contraste, o protocolo atual em Santa Catarina é misto, com ativação automática quando a guarnição está em deslocamento para atender a uma ocorrência, acionada por um sinal eletrônico enviado para as câmeras. Por outro lado, algumas agências policiais adotam um protocolo de ativação manual durante interações entre policiais e cidadãos. Nesse cenário, há diretrizes claras que exigem a gravação em certos cenários, mas o acionamento propriamente dito ainda é feito manualmente pelo policial. Essa diversidade de protocolos de ativação contribui para as diferenças nas taxas de acionamento das câmeras corporais e, consequentemente, impacta a quantidade e a qualidade dos dados de vídeo disponíveis para análise em estudos sobre o uso desses dispositivos. Outros protocolos, embora não recomendáveis, deixam o acionamento das câmeras à discricionariedade completa dos policiais. Uso de Força: Vários estudos têm analisado o impacto das câmeras corporais na incidência de uso de força policial. Alguns desses estudos não encontraram efeito significativo, mas em muitos casos, esses resultados estão associados a estudos experimentais ou quase-experimentais que enfrentam problemas de contaminação. Isso significa que esses estudos podem oferecer informações limitadas sobre o verdadeiro impacto do uso das câmeras no uso da força policial. No entanto, nos estudos que conseguem controlar adequadamente o efeito de contaminação, especialmente no contexto brasileiro, é possível afirmar com segurança que as câmeras corporais têm um impacto muito significativo na redução do uso de força. Por exemplo, em um estudo realizado em Santa Catarina, que adotou uma definição abrangente de uso de força abrangendo todas as variações, desde as menos letais até as mais letais, foi 106 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA observada uma redução de 61,2% no uso de força em ocorrências registradas com câmeras corporais (Barbosa, Fetzer, Soto e Souza, 2022). Em São Paulo, outro estudo revelou uma redução de 57,1% na letalidade policial, além de uma diminuição ainda mais expressiva na vitimização de pessoas negras, chegando a 79,1%. Além disso, estima-se que as lesões corporais resultantes de intervenção policial tenham diminuído em cerca de 62,3%. (Monteiro, Fagundes, Guerra, e Piquet, 2022; Monteiro, Fagundes e Souza, 2023) É importante notar que a redução no uso de força não necessariamente implica uma diminuição no uso de força abusiva ou excessiva pela polícia. Os resultados desses estudos podem ser explicados, em parte, pela redução do uso de força dentro dos limites estabelecidos pelos protocolos de operação policial. Isso pode ocorrer se as câmeras induzirem um comportamento mais pacífico por parte de todos os envolvidos ou se houver uma maior conformidade com os protocolos existentes. É provável que os efeitos observados nos estudos de Santa Catarina e São Paulo sejam resultado de uma combinação de fatores, incluindo a redução da força em situações previstas pelo protocolo, mas que anteriormente envolviam força desproporcional (excesso de força), bem como o uso de força em situações não previstas pelo protocolo (abuso de força). Por fim, é importante destacar que as câmeras corporais também têm demonstrado eficácia na redução do uso de força policial em situações de baixo risco. Isso sugere que essas câmeras desempenham um papel crucial na prevenção do escalonamento de situações potencialmente perigosas. Além disso, há evidências sólidas de que as câmeras são particularmente eficazes em áreas onde o uso de força era previamente elevado antes de sua implementação, apontando para efeitos positivos de redistribuição ao longo do tempo no patrulhamento policial. 107 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Vitimização do policial: Até o momento, não existem estudos conclusivos sobre esse tópico, tanto no Brasil quanto internacionalmente. A literatura apresenta resultados variados, com alguns estudos apontando para efeitos substanciais, como uma redução na vitimização do policial em até 60%, enquanto outros não encontram nenhum efeito significativo ou produzem resultados incertos (Kim, 2020). Essa diversidade de resultados pode ser atribuída a diferentes metodologias utilizadas nos estudos, bem como a questões de contaminação metodológica, como mencionado anteriormente. Embora a questão da vitimização dos policiais ainda não tenha sido totalmente esclarecida na literatura, é seguro afirmar que situações que envolvem o uso de força tendem a representar um risco mais elevado também para os policiais. Portanto, a redução no uso de força, quando ocorre, pode estar associada a um possívelefeito protetor para os policiais, embora mais pesquisas sejam necessárias para compreender completamente essa dinâmica. Reclamações de conduta: Existe um consenso na literatura de que o uso de câmeras corporais por policiais reduz significativamente o número de reclamações contra a conduta policial, em torno de 50%. Essa redução é geralmente considerada substancial e duradoura. Essa diminuição no número de reclamações pode ser interpretada de várias maneiras. Uma explicação possível é que a presença das câmeras esteja desencorajando reclamações falsas contra a conduta policial, o que é uma preocupação comum em muitas instituições policiais e órgãos de segurança pública. Em alguns casos, reclamações falsas podem ser usadas como forma de pressão ou intimidação contra a polícia. Além disso, os vídeos registrados pelas câmeras podem esclarecer mal-entendidos sobre a conduta 108 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA policial, levando a uma redução nas reclamações. Por fim, a redução nas reclamações também pode ser resultado do cumprimento mais rigoroso dos protocolos de conduta policial quando as câmeras estão em uso. É importante ressaltar que estudos anteriores, principalmente nos Estados Unidos (Braga et al., 2017), analisaram o custo-benefício das câmeras corporais em relação às reclamações de conduta. Embora seja relativamente fácil quantificar os custos associados à aquisição e operação das câmeras, os benefícios são multifacetados e difíceis de serem traduzidos em termos monetários. No entanto, esses estudos sugerem que a redução nas reclamações de conduta, juntamente com a aceleração dos processos de investigação quando as reclamações ocorrem, pode ser suficiente para cobrir os custos associados à implementação das câmeras. Isso ocorre porque as reclamações de conduta geralmente desencadeiam investigações que consomem recursos, como o tempo dos funcionários encarregados de conduzi-las. Investigações e classificação de ocorrências: Evidências recentes sugerem que o uso de câmeras corporais por policiais tem um impacto significativo na maneira como os eventos são registrados e classificados. Um estudo baseado em dados de Santa Catarina, conduzido por Barbosa, Fetzer, Soto-Vieira e Souza (2022), demonstra que a quantidade de casos não classificados cai em cerca de 6% quando as câmeras estão em uso. Além disso, os pesquisadores analisaram quais tipos de ocorrências passaram a ser mais frequentemente registrados e identificaram um aumento notável nos casos de violência doméstica, totalizando um aumento de 69% em relação aos casos em que as câmeras não foram utilizadas. Esses resultados sugerem que a presença das câmeras melhora a qualidade e a precisão dos dados registrados. É importante destacar que a classificação adequada das ocorrências é fundamental para várias finalidades, como identificar áreas de alto risco, 109 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA conscientizar as autoridades policiais sobre padrões de ocorrências e, por fim, desenvolver e implementar políticas direcionadas para a segurança da população em situações específicas. Efeitos semelhantes foram observados em estudos realizados em São Paulo, onde o aumento na incidência de dados relatados sobre violência doméstica foi ainda maior, correspondendo a um aumento de mais de 100%. Esses estudos, tanto no Brasil quanto em outros lugares, sugerem que o uso das câmeras corporais pode levar a um aumento na frequência com que as ocorrências são encaminhadas para órgãos de investigação, como a Polícia Civil no caso brasileiro. A magnitude desse efeito foi estimada em cerca de 9% no caso de Santa Catarina. Em São Paulo, observou-se um aumento substancial nos casos de porte ilegal de drogas e armas. No entanto, essa tendência também levanta preocupações em relação ao potencial aumento na carga de trabalho e nas demandas logísticas para outras entidades de segurança pública, além da possibilidade de criminalizar casos de menor gravidade, como pequenos portes de drogas. Portanto, é fundamental monitorar os efeitos secundários do uso das câmeras nas demais agências de segurança pública e, a partir desse ponto, considerar ajustes nas regras, regulamentos, protocolos e leis para mitigar esses possíveis riscos. Passividade e despoliciamento: Inicialmente, havia preocupações de que o uso de câmeras corporais poderia ter efeitos indesejados, como levar os policiais a patrulharem áreas diferentes ou adotarem uma postura mais passiva durante o serviço. Por exemplo, acredita-se que os policiais com câmeras poderiam escolher atuar em áreas onde há menos ocorrências de uso da força, ao contrário da ideia de que o uso da força seria reduzido sem mudanças no local de patrulhamento. Para avaliar essa possibilidade, vários estudos analisaram a localização das patrulhas com e sem câmeras corporais, usando dados de GPS, por exemplo. 110 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Os estudos, em geral, concluem que as câmeras corporais não afetaram o local de patrulhamento dos policiais. Não houve diferenças significativas nas coordenadas geográficas, no tempo de resposta às ocorrências, ou nas características das áreas patrulhadas, como a frequência de uso da força antes da adoção das câmeras corporais ou a renda das áreas. Portanto, não foi encontrada evidência de que as câmeras corporais levam a um fenômeno conhecido na literatura como "despoliciamento", onde os policiais, devido ao uso das câmeras, reduzem seu envolvimento ou esforço, por medo ou preocupação de que suas ações não sejam interpretadas adequadamente nas gravações. Pelo contrário, a evidência apresentada, como o aumento nas investigações e na classificação de ocorrências, sugere que, se houver algum efeito, ele é de aumento na atividade policial quando as câmeras corporais estão em uso. Demais efeitos: legitimidade e confiança na polícia e acesso à Justiça: É seguro dizer que, apesar do número de trabalhos já existentes na literatura, o estudo sobre o efeito de câmeras corporais policiais ainda não se exauriu. Entre as margens que merecem destaque na literatura futura, ressaltam-se os efeitos sobre legitimidade e confiança na polícia, efeitos sobre o sistema judiciário, e corrupção policial. Ainda se carece de estudos nestas áreas por dificuldades de diversas ordens. É seguro afirmar que câmeras corporais policiais tem como principal foco o estabelecimento e fortalecimento das relações entre polícia e sociedade, instigando a confiança da população nas forças do Estado; e transmitindo legitimidade e legalidade às suas ações. Estudos preliminares apoiam esta noção: Grossmith et al (2015) sugere forte apoio da população londrina, atingindo mais de 90% de concordância como frases tais como "câmeras me asseguram que a polícia faz a coisa certa.” Números similares foram reportados em outros locais, como no estado norteamericano de Washington (White, Todak, Gaub, 2016), e redução de menções negativas 111 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA relativas à polícia em mídias sociais (Kim, 2020). Em todo caso, neste tópico, apesar de contar com evidências sugestivas, ainda tem espaço para a produção de evidências no Brasil. Ademais, os efeitos no sistema judiciário são intuitivos e potencialmente claros: é razoável supor que as câmeras, além de um dispositivo policial, têm efeito em cascata no sistema judiciário na medida que os dispositivos geram vídeos com valor comprobatório. Os efeitos se dão em múltiplas dimensões, dado que a produção de vídeos não apenas aumenta a produção de evidências, mas também provê celeridade aos processos e, em alguns casos, pode tornar o andamento dos processos mais eficientes. No entanto, estudos existentes esbarram na dificuldade técnica de traçar todo o trajeto que começano atendimento de uma ocorrência até o sistema judiciário. Sendo assim, mais estudos são necessários para compreender os efeitos nesta dimensão. 112 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 4. PROJETO NACIONAL DE CÂMERAS CORPORAIS No contexto nacional, o Ministério da Justiça e Segurança Pública tem conduzido o Projeto Nacional de Câmeras Corporais. Trata-se de uma política pública que tem como objetivo geral o estímulo à profissionalização das organizações de segurança pública por meio da melhoria de processos de proteção dos profissionais, treinamento, doutrina operacional, comunicação e controle, impulsionados pela utilização de soluções de gestão e registro audiovisuais. Com isso, espera-se ainda: 1 melhorar a legitimidade e a transparência das organizações; 2 proteger profissionais e cidadãos em suas interações cotidianas; 3 qualificar as evidências criminais tornando mais efetiva a persecução criminal; 4 oferecer melhores condições de controle formal e informal e prestação de contas das organizações; 5 estimular o reconhecimento social e a confiança nas organizações. Para tanto, estão em curso atividades de sete eixos distintos de estruturação do Projeto Nacional de Câmeras Corporais. São processos que, em conjunto, convergem para o atingimento dos objetivos citados. Os eixos são os seguintes: 113 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 21: Eixos de estruturação do Projeto Nacional de Câmeras Corporais Fonte: MJSP. 1. Diagnóstico: Reúne atividades de avaliação quantitativa e qualitativa sobre diferentes aspectos das câmeras corporais no Brasil. Dentre eles: os diferentes estágios de implementação nas organizações estaduais e municipais; as percepções dos gestores e operadores; a compreensão de diferentes modelos de implementação e suas potencialidades; realização de eventos e seminários para discussão de resultados e trocas de experiência. Estão sendo contratados consultores e firmadas parcerias com universidades para a realização dessas atividades. As duas primeiras entregas do Projeto foram a realização do 1º Encontro Técnico Nacional sobre Câmeras Corporais, realizado em Brasília-DF nos dias 26, 27 e 28 de agosto de 2023, além da publicação do Diagnóstico Nacional sobre Câmeras Corporais no Brasil, o qual está em fase de diagramação. 114 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA A publicação do Diagnóstico Nacional sobre Câmeras Corporais no Brasil é um passo importante na compreensão do estado da arte em relação ao tema nas organizações de segurança pública do país. Dentre os resultados mais relevantes, podemos destacar que: • Mais de 30 mil câmeras corporais estão em uso pelas organizações de segurança pública brasileiras; • A maior quantidade de câmeras corporais está na Polícia Militar do Rio de Janeiro, com mais de 13 mil unidades, sendo que a maioria das instituições possuem menos de 50 unidades em uso; • Os projetos de câmeras corporais são comumente geridos por setores de tecnologia da informação e não pelas áreas responsáveis pelas rotinas operacionais; • Dentre os principais usos dos registros das câmeras corporais, estão a avaliação do trabalho, treinamento, comunicação social e controle interno; • Na maior parte dos casos, o acionamento das câmeras é realizado automaticamente e não mediante ação dos profissionais. Além disso, o modelo prevalente registra todo o turno de serviço • A maior parte dos custos de contratação dos serviços é referente ao armazenamento. 2. Amparo legal e diretrizes de atuação: Reúne atividades de nivelamento conceitual, administrativo e legal sobre a utilização das câmeras corporais em segurança pública no país. Para tanto, foi composto grupo de trabalho com representação de todas as organizações de segurança pública estaduais e municipais para a proposição de minuta de portaria com as Diretrizes Nacionais de Utilização das Câmeras Saiba mais 115 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Corporais. O planejamento é concluir as atividades e publicar o normativo ainda em 2023. Além disso, serão elaborados e publicados cadernos de referências para a padronização de procedimentos sobre processos básicos, como a gravação, o armazenamento, a disponibilização, a gestão e a custódia dos registros audiovisuais. 3. e 4. Padronização e certificação: Reúne atividades de normalização dos equipamentos e das soluções de câmeras corporais no contexto brasileiro. Para tanto, serão publicadas as normas de ensaio e certificação desses equipamentos, conferindo um elevado nível de qualidade de forma específica para os usos em segurança pública. Serão contemplados desde as câmeras até os softwares associados aos processos de armazenamento, gestão e custódia dos registros. Em termos práticos, será definido um conjunto de critérios para a avaliação e a certificação dos equipamentos que serão utilizados na segurança pública. O planejamento dessa ação prevê a sua conclusão ainda em 2023 e está sendo conduzida no âmbito do projeto Pró-Segurança. O Pró-Segurança é o Programa Nacional de Normalização e Certificação de Produtos de Segurança Pública. Ele tem o objetivo de conferir o adequado grau de qualidade e segurança quanto ao uso, além de desempenho aos equipamentos, produtos e serviços utilizados na segurança pública, por meio da normatização e posterior certificação destes itens. Essas normas técnicas são construídas de forma participativa e transparente, com participação dos órgãos de segurança pública de todo o Brasil, além de empresas e especialistas. Essa participação é realizada em audiências e consultas públicas. Há um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com o Inmetro para tal, além da produção de materiais de referência e de colaboração técnica. Saiba mais 116 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Em 2023, foram certificados 6 modelos de coletes de proteção balística provenientes da indústria brasileira com padrão internacional de qualidade, 3 placas balísticas, mais 2 Armas Eletroeletrônicas de Incapacitação Neuromuscular (AINM) e 1 fuzil, sendo essas as primeiras certificadas no mundo. Foram publicadas 3 normas técnicas em 2023: - NT-Senasp nº007/2023-1 - Granadas Policiais – Explosivas; - NT-Senasp nº007/2023-2 Granadas Policiais - Não Explosivas; - NT-Senasp nº007/2023-3 Granadas Policiais - De lançamento por artefato próprio. Ainda em 2023, devem ser publicadas mais 6 normas técnicas: as NT- Senasp de Avaliação da Conformidade de Lote aplicável em certames de Equipamentos de Proteção Individual (EPI's) de Vestimentas, Botas, Luvas, Balaclavas e Capacetes, bem como a inédita NT-Senasp de Câmeras Corporais para emprego na Segurança Pública. Mais informações estão disponíveis em: https://www.gov.br/mj/pt- br/assuntos/sua-seguranca/seguranca-publica/pro-seguranca 5. Treinamento: Reúne atividades de qualificação profissional sobre o uso das câmeras e das suas soluções, além da oferta de cursos sobre uso diferenciado da força. Este curso que você está realizando se insere nesse eixo do projeto. Além dele, haverá formações específicas para utilização dos equipamentos (em nível básico e avançado), operação dos softwares (em nível básico e avançado), inclusão de conteúdos em matrizes de formação e aperfeiçoamento, além de cursos práticos de simulações reais utilizando funcionalidades das câmeras corporais. Serão contemplados desde as câmeras até os softwares associados aos processos de armazenamento, 117 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA gestão e custódia dos registros. Em termos práticos, será definido um conjunto de critérios para a avaliação e a certificação dos equipamentos que serão utilizados na segurança pública. O planejamentodessa ação prevê a sua conclusão ainda em 2023 e está sendo conduzida no âmbito do projeto Pró- Segurança. 6. Aquisições: Reúne medidas de incentivo à aquisição e à manutenção das soluções de registro audiovisual, além de equipamentos de menor potencial ofensivo. Nesse sentido, em 04 de agosto de 2023, foi publicada a Portaria MJSP nº 439, que regulamenta as áreas temáticas e o rol de itens financiáveis com recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública. As câmeras corporais (art. 5º, VIII) e os equipamentos de menor potencial ofensivo (art. 5º, X) estão objetivamente previstos dentre os itens financiáveis. Além disso, a SENASP/MJSP iniciou processo de registro de ata para a contratação desses equipamentos, os quais serão ofertados para adesão a instituições de todo o país. A Portaria MJSP nº 439/2023 pode ser acessada no link: https://dspace.mj.gov.br/bitstream/1/10736/2/PRT_GM_2023_439.html 7. Avaliação de impacto: Reúne atividades de acompanhamento e avaliação do projeto, além de análises sobre o impacto das medidas adotadas em diferentes aspectos, tais como a produtividade das organizações, as percepções dos profissionais e da população, o impacto sobre os custos econômicos e a confiança da Saiba mais 118 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA população. Estas atividades serão realizadas em conjunto com universidades e centros de pesquisa nacionais e internacionais. O Projeto Nacional de Câmeras Corporais é uma política pública dinâmica e em constante evolução. A realidade com a qual lidamos em segurança pública não permite iniciativas que não tenham a capacidade de se adaptar às diferentes condicionantes e contingências. Com isso, foi elaborada uma página que reunirá as informações sobre o projeto, com o objetivo de servir de consulta e orientação para as organizações em nível local. O link é o seguinte: https://www.gov.br/mj/pt- br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/susp/susp Você chegou ao final do módulo! 119 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA FINALIZANDO Neste módulo, você aprendeu: As câmeras corporais ganharam atenção das organizações de segurança pública no início dos anos 2000 e compõem um conjunto de soluções de gerenciamento, controle e compartilhamento dos registros. Ou seja, as câmeras são apenas parte das soluções de registro audiovisuais, devendo ser acompanhados de instrumentos para manusear as evidências produzidas ao longo de sua utilização. Existem diferentes tipos de câmeras, com designs e funcionalidades que variam de acordo com o fabricante. A diversidade dos equipamentos disponíveis aumenta a necessidade de que sejam definidas diretrizes e procedimentos gerais a serem seguidos na implementação de câmeras corporais. As evidências científicas são elementos decisivos para a tomada de decisão em políticas públicas e, em relação às câmeras corporais, o cenário é bastante promissor. De acordo com levantamento realizado pelo Police Executive Research Forum mais de 35% dos chefes de polícia que responderam ao questionário já possuíam programas de câmeras corporais, sendo que 47% registraram o planejamento de implementar no futuro. Logo, mais de 80% das polícias tinham ou planejavam adquirir câmeras corporais nos Estados Unidos. Segundo levantamento realizado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça e Segurança Pública em agosto de 2023, 26 das 27 unidades da federação realizavam testes ou estudos ou já possuíam projetos de câmeras corporais em curso. 120 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Estudos de controle aleatório permitem estabelecer o efeito de políticas com maior confiança porque controlam para efeitos de seleção. Isto ocorre porque a designação de quais unidades utilizam as câmeras corporais se dá por meio aleatório e, por isso, não é contaminada por fatores externos. A primeira medida de resultado no uso de câmeras corporais diz respeito à sua ativação durante interações entre policiais e cidadãos. Em Londres, no Reino Unido, estudos prévios indicaram que cerca de 42% dos policiais registravam pelo menos dez vídeos em um mês. Em contraste, um estudo em Santa Catarina, realizado antes da implementação das câmeras corporais em todo o estado, relatou uma taxa de ativação de aproximadamente 23%. Em contraste, o protocolo atual em Santa Catarina é misto, com ativação automática quando a guarnição está em deslocamento para atender a uma ocorrência, acionada por um sinal eletrônico enviado para as câmeras. Essa diversidade de protocolos de ativação contribui para as diferenças nas taxas de acionamento das câmeras corporais e, consequentemente, impacta a quantidade e a qualidade dos dados de vídeo disponíveis para análise em estudos sobre o uso desses dispositivos. Outros protocolos, embora não recomendáveis, deixam o acionamento das câmeras à discricionariedade completa dos policiais. Vários estudos têm analisado o impacto das câmeras corporais na incidência de uso de força policial. Alguns desses estudos não encontraram efeito significativo, mas em muitos casos, esses resultados estão associados a estudos experimentais ou quase- experimentais que enfrentam problemas de contaminação. Estudo realizado em Santa Catarina, que adotou uma definição abrangente de uso de força abrangendo todas as variações, desde as 121 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA menos letais até as mais letais, foi observada uma redução de 61,2% no uso de força em ocorrências registradas com câmeras corporais. Os resultados desses estudos podem ser explicados, em parte, pela redução do uso de força dentro dos limites estabelecidos pelos protocolos de operação policial. É provável que os efeitos observados nos estudos de Santa Catarina e São Paulo sejam resultado de uma combinação de fatores, incluindo a redução da força em situações previstas pelo protocolo, mas que anteriormente envolviam força desproporcional, bem como o uso de força em situações não previstas pelo protocolo. Existe um consenso na literatura de que o uso de câmeras corporais por policiais reduz significativamente o número de reclamações contra a conduta policial, em torno de 50%. Uma explicação possível é que a presença das câmeras esteja desencorajando reclamações falsas contra a conduta policial, o que é uma preocupação comum em muitas instituições policiais e órgãos de segurança pública. Além disso, os vídeos registrados pelas câmeras podem esclarecer mal-entendidos sobre a conduta policial, levando a uma redução nas reclamações. Por fim, a redução nas reclamações também pode ser resultado do cumprimento mais rigoroso dos protocolos de conduta policial quando as câmeras estão em uso. Estudo baseado em dados de Santa Catarina, demonstra que a quantidade de casos não classificados cai em cerca de 6% quando as câmeras estão em uso. Além disso, os pesquisadores analisaram quais tipos de ocorrências passaram a ser mais frequentemente registrados e identificaram um aumento notável nos casos de violência doméstica, totalizando um aumento de 69% em relação aos casos em que as câmeras não foram utilizadas. Esses resultados sugerem que a presença das câmeras melhora a qualidade e a precisão dos dados registrados. 122 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Estudos, tanto no Brasil quanto em outros lugares, sugerem que o uso das câmeras corporais pode levar a um aumento na frequência com que as ocorrências são encaminhadas para órgãos de investigação, como a Polícia Civil no caso brasileiro. 123 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA MÓDULO 5 – FERRAMENTAS TECNOLÓGICAS MJSP APRESENTAÇÃO Nestemódulo, o profissional do Sistema Único de Segurança Pública (Susp) conhecerá as soluções tecnológicas oferecidas pelo MJSP bem como conceitos e práticas da coleta, operação e integração de dados em segurança pública. Pretende-se demonstrar como tais ferramentas podem ajudar na prevenção e redução da violência, propiciando uma atuação policial mais efetiva e segura a partir do uso adequado de dados e ferramentas operacionais. Serão vistos exemplos de uso de tais sistemas e como eles ajudam a reduzir a criminalidade. É importante recordar que este curso se articula com outros oferecidos pelo MJSP. Assim, eventualmente, outras capacitações da Rede EaD Senasp serão recomendadas. Antes de iniciar seus estudos, leia o parágrafo a seguir: Você sabia que o MJSP desenvolve e fornece diversos sistemas para os profissionais do SUSP? E que tais sistemas são oferecidos sem custo às forças policiais? Assista ao vídeo a seguir... 124 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 22: Vídeo Sinesp Segurança Fonte: Sinesp. O uso de sistemas integrados e interoperáveis tem o poder de aumentar muito a eficiência e eficácia da segurança pública no país. O compartilhamento de dados em tempo real, de forma automatizada e confiável, traz mais efetividade para o trabalho policial, bem como propicia um ambiente de trabalho mais seguro para todos. Reflita sobre o tema abordado acima partindo das seguintes questões: Por que estatísticas são importantes para instituições de segurança pública? Quais os custos e dificuldades você percebe no cotidiano de sua instituição que dificultam o uso de sistemas informatizados colaborativos? Você saberia comparar a situação do feminicídio no DF e no estado de MG? Após a reflexão, guarde as respostas para uso ao longo do estudo do módulo. 125 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Por fim, acompanhe a história a seguir que, apesar de verídica, será relatada com nomes fictícios. A narrativa se passou no Rio de Janeiro, entre os meses de março e junho de 2006 e foi protagonizada por três pessoas que se viram juntas em meio ao acaso da vida. Entre os personagens que compõem a trama, é preciso conhecer o primeiro vértice deste triângulo, a gentil e carente Maria Morena - mulher balzaquiana, casada há 5 anos com José dos Anzóis com quem dividia pacotes de sal. A harmonia do casal foi abalada quando Morena foi fisgada pelas frases bonitas e intenções misteriosas de seu novo vizinho, Felício Felino. A paquera logo avançou para a fase dos encontros, que apesar de discretos, não passaram despercebidos pelos olhares mais atentos e curiosos de alguns moradores. A fofoca cumpriu sua sina e alcançou José, que àquela altura era o último a saber. O que sabia, no entanto, era que, apesar de viver outros dois romances extraconjugais simultâneos, precisava se vingar e partiu à procura de Felício. Para azar de ambos, o encontro ocorreu quando José, de tocaia no escuro, qual bicho do mato, enxergou um Felino, desprevenido e despreocupado, num beco que não dispunha de uma parede sequer em que pudesse se esconder. Anzóis, descontrolado e com a cabeça cheia, não tinha planos para o ato seguinte. Em um curto instante, o marido traído desferiu dois disparos e acertou precisamente o rival, que caiu desfalecido. Já não havia Felício e em breve também não haveria mais José. E agora, José? Sem saber para onde fugir, José estava só. Sem mulher e sem carinho, pensou em ir para Minas, mas decidiu começar uma nova vida no Ceará. 126 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Anos se passaram e José acabou, mas não virou um sem nome. Adotou uma outra identidade. Não sem antes conseguir uma certidão de óbito para dar fim a tudo que houve antes. Na busca pelo criminoso, a polícia do Rio de Janeiro tomou conhecimento da certidão de óbito do foragido, emitida em 2019, no Ceará. O documento tinha a assinatura de um médico e a informação de que ele teria sido sepultado. Apesar disso, tanto o médico, o hospital e os dois cemitérios do município negaram terem registros de uma pessoa com o nome de José dos Anzóis. Conforme apurado posteriormente, o antigo José se estabeleceu em outra cidade e iniciou uma nova vida com outros documentos e abriu um negócio. Trabalhando apenas localmente, a polícia do RJ não conseguia avançar nas investigações. No entanto, com a evolução dos sistemas, a polícia obteve êxito ao descobrir que havia conseguido nova identidade. Uma cooperação entre a Polícia Federal e os bancos nacionais de mandados de prisão encontraram indícios de que nos últimos 10 anos passou a se apresentar como Tristonho dos Santos. Diante das desconfianças e a partir da confirmação obtida mediante reconhecimento biométrico, José, há uma década Tristonho, recebe uma visita inesperada: _ Toc, Toc, Toc… era a Polícia Federal que batia à porta. E tudo isso graças à integração de sistemas e bases de dados que permitiram a comparação e correspondência biométrica do passaporte de Tristonho, que há 10 anos escondia José. 127 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA OBJETIVOS DO MÓDULO Apresentar os sistemas oferecidos pelo MJSP para entidades do SUSP, abordando seu potencial de uso e principais funcionalidades. É importante lembrar que alguns destes sistemas são de uso obrigatório por todos os componentes do SUSP, enquanto outros são de uso opcional. Entretanto, caso o ente escolha outros sistemas, deve haver uma interoperabilidade entre todos. Importante: este curso possui forte relação com o curso de Análise Criminal. ESTRUTURA DO MÓDULO Aula 1 - Soluções Tecnológicas – SINESP. Aula 2 - Adesão às Soluções SINESP. Aula 3 - Córtex e Outras Soluções. 128 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 1. SOLUÇÕES TECNOLÓGICAS SINESP As “Soluções tecnológicas do SINESP” são ferramentas produzidas pelo MJSP, voltadas ao cumprimento da missão do SINESP. Neste módulo trataremos destas soluções. De forma geral, elas possuem o nome de “SINESP” + “nome da solução específica”. Ou seja, cada solução tecnológica trata, em geral, de apenas um problema em particular da segurança pública. Figura 23: Soluções tecnológicas fornecidas pelo MJSP Fonte: Sinesp Estas soluções são mantidas e hospedadas em ambiente adequado para suportar o volume e a criticidade de tais dados. Além disso, conta com sistemas de segurança e auditoria planejados para o uso da segurança pública, entregando as informações de forma facilitada aos agentes. 129 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 24: Implantações das soluções Sinesp. Fonte: DGI/Sinesp. Custos das soluções É importante destacar que tais soluções apresentam custo elevado, tanto para desenvolvimento e manutenção quanto para hospedagem. No entanto, tais custos são suportados pelo governo federal, sem nenhum tipo de cobrança para os entes que se utilizam de tais sistemas. 130 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA IMPORTANTE! Não confunda “Soluções tecnológicas do Sinesp” com SINESP! O SINESP, em sua concepção original é um sistema - na sua compreensão mais abrangente - que visa ordenar o conjunto de ações, políticas, recursos e informações relacionadas à segurança pública. Neste módulo abordamos o SINESP para que todos possam compreender o conjunto das ações e, assim, entender melhor o papel de cada um nos processos. SINESP (Lei 12.681/2012) x Sinesp (Lei 13.675/2018) O Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais, de Rastreabilidade de Armas e Munições, de Material Genético, de Digitais e de Drogas (Sinesp) é um sistema utilizado no Brasil para coletar e fornecer dados e informações, bem como disponibilizar serviçosrelacionados à segurança pública. Seus primórdios remetem a Lei nº 12.681, de 2012, a qual foi a responsável por instituir o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais e sobre Drogas - SINESP no âmbito nacional, estabelecendo as diretrizes gerais do sistema e definindo as informações que seriam disponibilizadas aos órgãos de segurança pública e aos cidadãos. No entanto, a Lei 13.675, de 2018, também conhecida como a “Lei do Susp”, revogou a “Lei do SINESP” do Artigo 1º ao 8º, e instituiu o “Sinesp” no seu Artigo 35. A Lei nº 13.675, de 2018 (Susp), trouxe algumas modificações e aprimoramentos ao instituir o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais, de Rastreabilidade de Armas e Munições, de Material Genético, de Digitais e de Drogas (Sinesp). Essa lei alterou dispositivos da lei anterior e ampliou as possibilidades de consulta e acesso às informações pelo sistema. Além disso, ela estabeleceu a obrigatoriedade de integração entre Saiba mais 131 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA os órgãos de segurança pública para o compartilhamento de dados e informações. A Lei do Susp também trouxe a previsão de que o acesso ao Sinesp poderia ser estendido a outros órgãos públicos e entidades privadas, desde que fosse de interesse da segurança pública. Em resumo, a Lei nº 12.681, de 2012, foi a responsável por instituir o “SINESP”, enquanto a Lei nº 13.675, de 2018 o revogou e instituiu o “Sinesp”, trazendo alterações e ampliações ao sistema, permitindo um acesso mais amplo às informações de segurança pública e estabelecendo a obrigação de integração entre os órgãos de segurança. 1.1 Objetivos do Sinesp De acordo com o Artigo 36 da Lei do Susp, os objetivos do Sinesp são: I - Realizar a coleta, análise, atualização, sistematização, integração e interpretação de dados e informações relacionados às políticas de segurança pública e defesa social: Esse objetivo estabelece a importância do Sinesp como um sistema abrangente e centralizado para coletar, analisar e interpretar dados e informações relevantes às políticas de segurança pública e defesa social. O objetivo é fornecer subsídios para o desenvolvimento e aprimoramento dessas políticas, bem como para a formulação de estratégias eficazes de combate à criminalidade e promoção da segurança na sociedade. Através da coleta e análise desses dados, o Sinesp busca gerar informações atualizadas e sistematizadas que possam ser interpretadas e utilizadas de forma inteligente na tomada de decisões, no planejamento e no acompanhamento das políticas de segurança pública e defesa social. Isso contribui para uma atuação mais eficiente e embasada dos órgãos e 132 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA instituições responsáveis por essas áreas, visando à proteção da população e à promoção de um ambiente seguro no país. II - Disponibilizar estudos, estatísticas, indicadores e outras informações para auxiliar na formulação, implementação, execução, monitoramento e avaliação de políticas públicas: Esse objetivo legal destaca a importância do Sinesp como um sistema que visa disponibilizar informações relevantes para a formulação, implementação, execução, monitoramento e avaliação de políticas públicas relacionadas à segurança. O sistema tem a finalidade de fornecer estudos, estatísticas, indicadores e outras informações que possam subsidiar a tomada de decisões e o desenvolvimento de estratégias eficazes na área da segurança pública. Ao disponibilizar essas informações, o Sinesp contribui para o embasamento das políticas públicas, permitindo que sejam desenvolvidas com base em dados concretos e atualizados. Isso facilita o acompanhamento e a avaliação dos resultados dessas políticas, auxiliando na identificação de medidas bem-sucedidas e na correção de eventuais problemas ou desafios enfrentados. Em resumo, o objetivo do Sinesp é não apenas coletar e analisar informações, mas também disponibilizá-las de forma acessível para que sejam utilizadas na formulação de políticas públicas mais efetivas e embasadas, contribuindo para a melhoria da segurança e defesa social no país. 133 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA III - Promover a integração das redes e sistemas de dados e informações de segurança pública e defesa social, criminais, do sistema prisional e sobre drogas: Este objetivo enfatiza a importância do Sinesp como um sistema que busca a integração das redes e sistemas de dados e informações relacionados à segurança pública, defesa social, questões criminais, sistema prisional e informações sobre drogas. A integração das redes e sistemas é essencial para garantir o compartilhamento eficiente e seguro de informações entre os diferentes órgãos e entidades responsáveis pela segurança pública. Ao promover essa integração, o Sinesp facilita o acesso e a troca de informações relevantes, proporcionando uma visão mais abrangente e completa das questões relacionadas à segurança, crime, sistema prisional e drogas. Essa integração também permite uma atuação mais coordenada e sinérgica dos órgãos e instituições envolvidos, facilitando a identificação de padrões, a análise de tendências e o desenvolvimento de estratégias conjuntas para enfrentar os desafios nessas áreas. Em resumo, o objetivo do Sinesp é promover a integração das redes e sistemas de dados e informações relacionados à segurança pública, defesa social, sistema prisional, questões criminais e drogas, visando aprimorar a cooperação entre os órgãos e a eficácia das ações e políticas de segurança no país. 134 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 25: Soluções por público-alvo Fonte: Diretoria de Gestão e Integração de Informações (DGI/Senasp) 2023 IV - Garantir a interoperabilidade dos sistemas de dados e informações, conforme os padrões definidos pelo conselho gestor: Esse objetivo ressalta a importância de assegurar a interoperabilidade dos sistemas de dados e informações dentro do âmbito do Sinesp. A interoperabilidade refere-se à capacidade dos sistemas e redes de compartilhar e trocar dados de forma eficiente e integrada, independentemente das suas estruturas ou plataformas tecnológicas. O objetivo é estabelecer padrões e diretrizes definidos pelo conselho gestor do Sinesp para garantir a compatibilidade e a interconexão dos diversos sistemas de dados e informações relacionados à segurança pública, prisional, rastreabilidade de armas e munições, material genético, digitais e drogas. 135 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Essa interoperabilidade é fundamental para viabilizar a troca ágil e precisa de informações entre os diferentes órgãos e instituições envolvidos no âmbito do Sinesp. Ela permite uma visão mais abrangente e integrada dos dados, facilitando a análise, o compartilhamento de conhecimentos, a tomada de decisões e a formulação de políticas públicas mais eficazes no campo da segurança. Ao garantir a interoperabilidade dos sistemas de dados e informações, o Sinesp busca superar barreiras técnicas e promover a colaboração entre os diversos atores envolvidos na segurança pública, possibilitando uma atuação mais coordenada e eficiente no enfrentamento dos desafios relacionados à segurança e defesa social. V - Produzir dados sobre a qualidade de vida e a saúde dos profissionais de segurança pública e defesa social: Essa adição à lei enfatiza a importância de monitorar e produzir dados sobre a qualidade de vida e a saúde dos profissionais que atuam na área de segurança pública e defesa social. Reconhece-se que esses profissionais enfrentam desafios específicos e podem estar expostos a riscos e situações que afetam sua saúde e bem-estar. Produzir dados nessa área permite obter informaçõesrelevantes sobre aspectos como condições de trabalho, saúde mental, estresse ocupacional, acidentes de trabalho e demais fatores que impactam a qualidade de vida desses profissionais. Esses dados podem subsidiar a implementação de ações e políticas voltadas para a melhoria das condições de trabalho, a prevenção de doenças e a promoção da saúde e bem-estar dos profissionais de segurança pública. Ao incluir esse objetivo, o Sinesp amplia seu escopo para além das questões criminais e da segurança em si, reconhecendo a importância de cuidar e acompanhar a saúde dos profissionais que atuam nessa área fundamental para a sociedade. 136 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Essa adição demonstra o compromisso com o bem-estar dos profissionais de segurança pública e defesa social, buscando não apenas garantir a segurança da população, mas também promover condições adequadas de trabalho e cuidado com a saúde dos servidores que desempenham um papel essencial na proteção da sociedade. VI - Produzir dados sobre a vitimização dos profissionais de segurança pública e defesa social, inclusive fora do horário de trabalho: Essa adição à lei ressalta a importância de coletar e produzir dados sobre a vitimização dos profissionais que atuam na área de segurança pública e defesa social. Reconhece-se que esses profissionais podem ser alvo de violência e vitimização, tanto no exercício de suas funções quanto em momentos fora do horário de trabalho. Produzir dados nessa área permite obter informações relevantes sobre a incidência de violência e vitimização enfrentadas pelos profissionais de segurança pública. Esses dados podem subsidiar a implementação de ações e políticas voltadas para a prevenção da vitimização, o fortalecimento das medidas de proteção e o suporte adequado aos profissionais que sofreram violência. Essa adição reforça o compromisso com a segurança e bem-estar dos profissionais de segurança pública, reconhecendo os riscos e desafios que eles enfrentam no exercício de suas atividades. Ao produzir dados sobre a vitimização, o Sinesp busca fornecer subsídios para a implementação de medidas efetivas de proteção, aprimoramento das condições de segurança e atendimento adequado aos profissionais que foram vítimas de violência. Dessa forma, o Sinesp amplia seu escopo para além das estatísticas de criminalidade, contemplando também a realidade da vitimização dos próprios profissionais de segurança pública e defesa social. 137 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA VII - Produzir dados sobre os profissionais de segurança pública e defesa social com deficiência em decorrência de vitimização na atividade: Essa adição à lei ressalta a importância de coletar e produzir dados sobre os profissionais de segurança pública e defesa social que adquiriram deficiência em decorrência de vitimização durante o exercício de suas atividades. Reconhece-se que esses profissionais podem sofrer lesões ou desenvolver deficiências físicas, mentais ou sensoriais como resultado de eventos violentos ou traumáticos relacionados ao trabalho. Produzir dados nessa área permite obter informações relevantes sobre a ocorrência de deficiências em decorrência da vitimização dos profissionais de segurança pública. Esses dados podem subsidiar a implementação de ações e políticas voltadas para a prevenção de vitimização, o fortalecimento das medidas de proteção, a reabilitação e o suporte adequado aos profissionais com deficiência. Reforça o compromisso com a segurança, bem-estar e inclusão dos profissionais de segurança pública que sofreram vitimização e adquiriram deficiência como resultado disso. Ao produzir dados sobre os profissionais com deficiência em decorrência da vitimização, o Sinesp busca fornecer subsídios para a implementação de medidas efetivas de prevenção, proteção e apoio aos profissionais que passaram por essa situação. Dessa forma, o Sinesp amplia seu escopo para contemplar a realidade das pessoas com deficiência que atuam na segurança pública e defesa social, levando em consideração suas necessidades específicas e promovendo a inclusão e a garantia de direitos desses profissionais. VIII - Produzir dados sobre os profissionais de segurança pública e defesa social que sejam dependentes químicos em decorrência da atividade: Destaca a importância de coletar e produzir dados sobre os profissionais de segurança pública e defesa social que desenvolvem dependência química 138 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA em decorrência das atividades relacionadas ao trabalho. Reconhece-se que esses profissionais podem estar sujeitos a situações de estresse, traumas e pressões que podem levar ao uso abusivo de substâncias químicas. Produzir dados nessa área permite obter informações relevantes sobre a ocorrência de dependência química entre os profissionais de segurança pública. Esses dados podem subsidiar a implementação de ações e políticas voltadas para a prevenção do uso abusivo de substâncias, a promoção da saúde mental, o tratamento e o suporte adequado aos profissionais que desenvolveram dependência química. Demonstra o reconhecimento dos riscos específicos que os profissionais de segurança pública enfrentam em relação à dependência química e ressalta a importância de oferecer suporte adequado a esses profissionais. Ao produzir dados sobre os profissionais dependentes químicos em decorrência da atividade, o Sinesp busca fornecer subsídios para a implementação de medidas de prevenção, tratamento e acompanhamento para aqueles que necessitam de apoio nesse sentido. Dessa forma, o Sinesp amplia seu escopo para além das questões de segurança e criminalidade, contemplando também a saúde mental e a dependência química dos profissionais que atuam na segurança pública e defesa social. Essa inclusão visa garantir o bem-estar e o cuidado com a saúde dos profissionais, oferecendo as medidas adequadas para lidar com a dependência química que possa surgir em decorrência da atividade. IX - Produzir dados sobre transtornos mentais e comportamento suicida dos profissionais de segurança pública e defesa social: Essa adição à lei ressalta a importância de coletar e produzir dados sobre os transtornos mentais e o comportamento suicida dos profissionais de segurança pública e defesa social. Reconhece-se que esses profissionais podem estar sujeitos a altos níveis de estresse, traumas e desafios 139 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA emocionais decorrentes do trabalho, o que pode levar ao desenvolvimento de transtornos mentais e ao risco de comportamento suicida. Produzir dados nessa área permite obter informações relevantes sobre a prevalência e as características dos transtornos mentais, bem como sobre o comportamento suicida entre os profissionais de segurança pública. Esses dados podem subsidiar a implementação de medidas e políticas de prevenção, promoção da saúde mental, suporte psicológico e intervenção adequada para aqueles que estejam enfrentando essas situações. Esse objetivo reflete a preocupação em garantir o bem-estar e a saúde mental dos profissionais de segurança pública e defesa social. Ao produzir dados sobre transtornos mentais e comportamento suicida, o Sinesp busca fornecer subsídios para a implementação de ações de prevenção, detecção precoce, tratamento e suporte psicossocial, a fim de melhorar a qualidade de vida e reduzir os riscos enfrentados por esses profissionais. Dessa forma, o Sinesp amplia seu escopo para incluir a saúde mental dos profissionais que atuam na segurança pública e defesa social, reconhecendo os desafios específicos que eles enfrentam em relação a transtornos mentais e comportamento suicida. A coleta de dados nessa área possibilita uma compreensão mais abrangente das necessidadesdesses profissionais e contribui para a implementação de políticas e práticas que visam à promoção da saúde mental e à prevenção do suicídio. Além dos objetivos do Sinesp definidos na Lei do Susp, ao analisar todo o conteúdo do marco legal depreende-se a amplitude de ação do Sinesp, que engloba desde coleta e tratamento de dados para auxiliar na formulação e avaliação das políticas de segurança pública, até mesmo a integração das informações de segurança pública de forma operacional. 140 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 26: Soluções Sinesp Fonte: DGI/Sinesp. 141 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 1.2 Finalidades do Sinesp A Lei nº 13.675, de 11 de junho de 2018, estabelece a criação do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais, de Rastreabilidade de Armas e Munições, de Material Genético, de Digitais e de Drogas (Sinesp). O artigo 35 da referida lei institui o Sinesp com o objetivo principal de armazenar, tratar e integrar dados e informações que auxiliem na formulação, implementação, execução, acompanhamento e avaliação de políticas relacionadas às seguintes áreas: 1 Segurança pública e defesa social; 2 Sistema prisional e execução penal; 3 Rastreabilidade de armas e munições; 4 Banco de dados de perfil genético e digitais; e 5 Enfrentamento do tráfico de drogas ilícitas. A partir dessa disposição legal, o Sinesp é reconhecido como um instrumento essencial para o compartilhamento e a gestão de informações relevantes nessas áreas. O sistema visa integrar dados de diversas fontes, permitindo uma visão abrangente e estruturada das questões relacionadas à segurança pública, sistema prisional, rastreabilidade de armas e munições, perfil genético e digitais, bem como o combate ao tráfico de drogas. Ao armazenar, tratar e integrar essas informações, o Sinesp busca oferecer subsídios para a tomada de decisões, o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes e a avaliação do impacto das ações implementadas. Além disso, o sistema contribui para a coordenação entre os órgãos responsáveis pela segurança pública 142 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA e justiça criminal, promovendo uma atuação mais eficiente e integrada no enfrentamento dos desafios nessas áreas. Passaremos a discorrer sobre alguns destes dispositivos: 1.3 Integração e Atuação Operacional dos Órgãos de Segurança Pública A atuação operacional recebe destaque no Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, sobretudo quanto a eficiência e integração na prestação dos serviços. O Art. 4º estabelece como princípio do PNSPDS a eficiência na prevenção, controle, e repressão das infrações penais (Inc IV, V e VI), bem como em emergências e desastre, além de preconizar a otimização de recursos (Inc. XIII). Já o Art. 5º estabelece como Diretriz do PNSPDS o Atendimento Imediato ao Cidadão (Inc. I), a atuação integrada nas ações de segurança pública, através da coordenação, cooperação e colaboração dos órgãos e racionalização dos meios (Inc IV e V), além da Unidade de Registro Policial (Inc. XXII) e uso do Sistema Integrado de Informações (Inc. XXIII). O Artigo 6º, por sua vez, define como objetivos do plano o fomento à Integração Estratégica e Operacional (Inc I) e a Padronização de Tecnologia dos órgãos de segurança pública (inc. III). Neste mesmo diapasão, o Art. 10 estabelece como meio para a integração e coordenação dos órgãos as operações integradas (Inc. I) e o compartilhamento e a integração das informações de segurança pública (Inc. IV e V cominado com § 4º). Por fim, cabe destacar que a PNSPDS, Artigo 14, inciso I, estabelece como responsabilidade do Ministério da Justiça e Segurança Pública disponibilizar sistema padronizado, informatizado e seguro que permita o intercâmbio de informações entre os integrantes do Susp. Para permitir esta importante integração operacional, ao longo dos anos muitos Estados investiram em Centros Integrados de Operações, mantendo em um mesmo espaço físico agentes, gestores e despachantes de diversas agências. 143 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Entretanto, nem sempre esta integração física é possível, seja por questões administrativas ou de recursos. Desta forma, o que o PNSPDS busca é uma integração sistematizada por meios eletrônicos, disponibilizada pelo Sinesp, que seja interoperável, eficiente e transparente, permitindo aos órgãos integrados compartilhar informações relevantes que ocorrem em tempo real em suas circunscrições e arredores e solicitar os respectivos auxílios quando for necessário. Além da integração operacional, o sistema deve permitir um atendimento imediato ao cidadão. 1.4 Aferição das Atividades de Polícia Ostensiva e Preservação da Ordem Pública A lei estabelece que o Ministério da Justiça e Segurança Pública deve aferir as atividades de polícia ostensiva e de preservação da ordem pública por meio de parâmetros do Sinesp: Art. 12. A aferição anual de metas deverá observar os seguintes parâmetros: III - as atividades de polícia ostensiva e de preservação da ordem pública serão aferidas, entre outros fatores, pela maior ou menor incidência de infrações penais e administrativas em determinada área, seguindo os parâmetros do Sinesp; Neste sentido, é necessário considerar a dualidade organizacional existente no Brasil, que separa as atividades de polícia judiciária das atividades de polícia ostensiva. Esta separação é refletida no registro dos eventos atinentes à segurança pública, tendo em vista que nem todas as ocorrências registradas pela polícia ostensiva são efetivamente registradas como boletim de ocorrência na polícia judiciária. 144 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Além disso, embora ainda não definidos pelo Sinesp, entre os outros parâmetros previstos no Art. 12, Inciso III, é inegável a importância de aferir as atividades preventivas da polícia ostensiva e de preservação da ordem pública, como abordagens, patrulhamentos, averiguações, entre outras. Desta forma, os parâmetros para definir a atividade de polícia ostensiva certamente devem ser balizados a partir dos dados dos atendimentos emergenciais realizados e registrados pela polícia ostensiva em suas centrais de operações. 1.5 Segurança Pública baseada em evidências e o Planejamento Operacional Dentre os objetivos do Sinesp estabelecidos pela PNSPDS, o inciso II do artigo 36 prevê a disponibilização de estatísticas e indicadores para formulação e execução de políticas públicas. Além disso, o inciso XX do artigo 5º estabelece como diretriz a distribuição de efetivos através de critérios técnicos. Em outras palavras, os dispositivos legais preveem que seja realizado o planejamento operacional dos órgãos de segurança pública através da análise criminal com base no maior número possível de informações disponíveis, buscando descobrir tendências espaciais e temporais nos dados de criminalidade, para empregar os recursos disponíveis de forma eficiente para prevenção da ação delituosa. Disto tudo se depreende que o Sinesp, além de realizar a coleta e tratamento dos dados do policiamento ostensivo, deve permitir, através da análise de dados diversos, a recomendação do policiamento inteligente orientado para a resolução do problema, através do emprego adequado dos recursos, formando um verdadeiro ciclo completo de informações. Ou seja, através de um Agente Policial os dados são coletados, e a própria solução devolve a informação através de propostas de ações de policiamento, como áreas a serem patrulhadas com o efetivo disponível. 145 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 1.6 Adoção de Padrões de Integridade, Disponibilidade, Confidencialidade, Confiabilidade e Tempestividadedos Sistemas Informatizados do Governo Federal O parágrafo único do Artigo 36 da Lei do Susp estabelece que o Sinesp deve adotar os padrões de integridade, disponibilidade, confidencialidade, confiabilidade e tempestividade dos sistemas informatizados do governo federal. Essa disposição ressalta a importância de garantir a segurança e a eficácia dos sistemas de informação utilizados pelo Sinesp. Os padrões mencionados, como integridade, disponibilidade, confidencialidade, confiabilidade e tempestividade, são critérios fundamentais para assegurar a qualidade e a robustez dos sistemas de informação governamentais. A adoção desses padrões implica em assegurar que os dados e as informações armazenadas e processadas pelo Sinesp sejam: 1 precisos, completos e não sofram alterações indevidas (integridade), estejam acessíveis quando necessários (disponibilidade), 2 sejam protegidos contra acessos não autorizados (confidencialidade), 3 sejam consistentes e confiáveis (confiabilidade) e 4 estejam disponíveis de forma oportuna para atender às necessidades dos usuários (tempestividade). Esses padrões são cruciais para garantir a confiabilidade e a segurança das informações no âmbito do Sinesp, especialmente quando se trata de dados sensíveis e estratégicos relacionados à segurança pública, prisional, rastreabilidade de armas, material genético, digitais e drogas. Ao adotar esses padrões, o Sinesp demonstra o compromisso em cumprir requisitos de segurança e confiabilidade exigidos pelo governo federal, contribuindo para a proteção dos dados e das informações e para a efetividade das políticas e ações relacionadas à segurança pública. Portanto, o parágrafo único do Artigo 36 da Lei do Susp enfatiza a importância de assegurar a adoção dos padrões adequados de segurança e 146 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA confiabilidade nos sistemas de informação do Sinesp, a fim de garantir a qualidade e a proteção das informações e dados utilizados no âmbito desse sistema. 1.7 Integrantes do Sinesp O Artigo 37 da Lei nº 13.675, de 11 de junho de 2018, estabelece que todos os entes federados devem integrar o Sinesp por meio de órgãos criados ou designados para esse propósito. Essa disposição destaca a necessidade de participação de todos os entes federados - União, estados, Distrito Federal e municípios - no Sinesp. Para isso, é esperado que cada ente federado estabeleça órgãos específicos que serão responsáveis por integrar e contribuir com o sistema. A integração de todos os entes federados no Sinesp é fundamental para promover a cooperação, a troca de informações e o compartilhamento de dados entre as diversas esferas governamentais. Isso permite uma visão mais abrangente e integrada da segurança pública, contribuindo para o desenvolvimento de políticas mais eficazes, a coordenação de ações conjuntas e a otimização dos recursos disponíveis. Ao estabelecer essa integração, a lei busca fortalecer a articulação e a cooperação entre os diferentes níveis de governo no que diz respeito à segurança pública, prisional, rastreabilidade de armas, material genético, digitais e drogas. Essa colaboração é essencial para enfrentar os desafios e as demandas relacionados à segurança, bem como para promover a eficiência e a eficácia das políticas e ações nessa área. O Artigo 37 da Lei do Susp estabelece a obrigatoriedade de participação de todos os entes federados no Sinesp, por meio de órgãos específicos, com o objetivo de promover a integração e a cooperação na área de segurança pública. Essa medida busca potencializar a efetividade das ações e o compartilhamento de 147 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA informações entre os diferentes níveis de governo, visando a um sistema mais abrangente e eficiente. Dessa forma, o organograma do Sinesp, segundo o Art. 37 da Lei nº 13.675, de 11 de junho de 2018, está disposto da seguinte maneira: a) Nível Federal: Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP): Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) Departamento de Polícia Federal (DPF) Departamento de Polícia Rodoviária Federal (DPRF) Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) Outros órgãos federais relacionados à segurança pública e controle de drogas. b) Nível Estadual: Secretaria de Segurança Pública Estadual: Polícia Civil Polícia Militar Corpo de Bombeiros Militar Departamento de Trânsito Estadual (Detran) Órgão de Administração Penitenciária Estadual Outros órgãos estaduais relacionados à segurança pública e controle de drogas. 148 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA c) Nível Municipal: Secretaria de Segurança Pública Municipal: Guarda Municipal Secretaria de Trânsito Municipal Órgão de Administração Penitenciária Municipal Outros órgãos municipais relacionados à segurança pública e controle de drogas. É importante destacar que os integrantes do Sinesp, previstos no Art. 37 da Lei do Susp, não se confundem com os integrantes do Susp, dispostos no Art. 9º do mesmo dispositivo. Portanto, embora tanto o Sinesp quanto o Susp estejam relacionados à segurança pública, eles possuem características distintas em termos de seus integrantes. O Sinesp é composto por representantes específicos de determinadas entidades, conforme mencionado no Art. 37, enquanto o Susp abrange um conjunto mais amplo de órgãos e entidades envolvidos na segurança pública, conforme estabelecido no Art. 9º. É fundamental compreender essa diferença para uma correta interpretação e aplicação das disposições legais relacionadas à segurança pública no Brasil. A Lei nº 13.675/2018, de 11 de junho de 2018, que “Disciplina a organização e o funcionamento dos órgãos responsáveis pela segurança pública, nos termos do § 7º do art. 144 da Constituição Federal; cria a Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS); institui o Sistema Único de Segurança Pública (Susp); altera a Lei Complementar nº 79, de 7 de janeiro de 1994, a Lei nº 10.201, de 14 de fevereiro de 2001, e a Lei nº 11.530, de 24 de outubro de 2007; e revoga dispositivos da Lei nº 12.681, de 4 de julho de 2012.” 149 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA O ponto importante desta lei, para o tema que estamos estudando, é a criação do Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Esta lei reafirma que a segurança pública é dever do Estado e responsabilidade de todos, compreendendo a União, os Estados, o Distrito Federal e os Munícipios. Esta lei induz tais entes realizar integração e coordenação de esforços em prol da segurança pública. Um aspecto muito importante desta coordenação nacional é a integração e interoperabilidade das informações e sistemas. Por outro lado, produzir sistemas informatizados é custoso para o estado por vários motivos: 1 existe um custo de concepção; 2 existe um custo de criação; 3 existe um custo de manutenção; 4 existe um custo de hospedagem e ambiente; e 5 existe um custo operacional de contratação e segurança. Assim, em função dos ganhos de escala no desenvolvimento de sistemas de alcance nacional e em função da necessidade de padrões de bancos de dados, o MJSP passou a investir na criação de tais soluções. Vamos conhecer cada uma das ferramentas disponíveis para os agentes e para as instituições? Ademais, na Aula 2, verificaremos como ocorre a adesão para utilização nos estados e municípios. 150 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 1.8 Sinesp Segurança O sistema Sinesp Segurança é uma solução abrangente voltada para prover serviços essenciais relacionados à autenticação, autorização e gestão de usuários, perfis e papéis, máquinas e Estruturas Organizacionais – EO para todas asaplicações do Sinesp e ferramentas integradas dos órgãos parceiros, com o objetivo de fornecer informações cruciais no contexto da segurança pública nas esferas administrativas federal, estadual e municipal. Por se tratar de um sistema de autenticação e autorização de usuários focado na segurança da informação desempenha um papel fundamental na proteção dos dados e sistemas do Sinesp e de qualquer organização, garantindo a integridade, confidencialidade e disponibilidade das informações. O serviço de autenticação forte assegura que apenas usuários autorizados tenham acesso aos dados sensíveis da organização. Isso impede que informações pessoais e profissionais dos usuários, assim como àquelas fornecidas por sistemas como o Sinesp Infoseg caiam nas mãos erradas. Já o serviço de autorização controla o que os usuários podem fazer após a autenticação. Isso evita que indivíduos não autorizados executem ações indevidas nos sistemas ou aplicativos integrados. Juntos os dois serviços dificultam o sucesso de ataques cibernéticos, como invasões por força bruta e tentativas de phishing, garantindo resiliência para os sistemas, mitigando riscos internos e externos, garantindo que os servidores acessem apenas os recursos necessários para as suas funções, evitando congestionamentos da infraestrutura e mantendo a disponibilidade de sistemas críticos, sendo, portanto, a primeira linha de defesa na segurança da informação do Sinesp, garantindo a conformidade com regulamentações de segurança de dados do Governo Federal. Além de prover serviços como assinatura eletrônica e autenticação documental para todas as aplicações de segurança pública que forem integradas, o Sinesp Segurança possibilita realizar a integração de qualquer sistema dos órgãos de segurança pública permitindo o Single Sign-On (SSO), simplificando o gerenciamento de autenticação e melhorando a experiência dos usuários. O SSO é uma funcionalidade que permite que os usuários acessem múltiplos sistemas ou 151 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA aplicativos com apenas uma única autenticação, simplificando a gestão de identidades, economizando tempo e esforço que seriam gastos em logins repetidos, e proporcionando benefícios significativos em termos de segurança, produtividade e eficiência para as organizações. Por se tratar de uma aplicação que dispõe de uma base de dados biográficas e biométricas dos servidores das diversas instituições do Sistema Único de Segurança Pública, essa ferramenta pode ser utilizada em apoio no fornecimento e gerenciamento dessas informações para vários projetos e programas da Política de Segurança Pública como o Sistema de Gestão de Identidades Funcionais e o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania – Pronasci. 1.8.1 Funcionalidades Chave do Sinesp Segurança 1) Autenticação e Autorização: O Sinesp Segurança oferece mecanismos seguros para autenticação de usuários, garantindo que apenas pessoas autorizadas tenham acesso às informações sensíveis. Isso é essencial para proteger dados críticos e garantir a integridade das operações realizadas nos sistemas de segurança pública providos pelo Sinesp. 2) Gestão de Usuários, Perfis e Papeis: A plataforma permite a administração eficiente de usuários, perfis e papéis, garantindo que cada membro da equipe de segurança tenha o nível apropriado de acesso e responsabilidades. 152 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 3) Máquinas e Estruturas Organizacionais: O Sinesp Segurança gerencia não apenas os usuários humanos, mas também máquinas e estruturas organizacionais (organograma das instituições), facilitando a coordenação de recursos e informações em grande escala. 4) Assinatura Eletrônica e Autenticação Documental: A capacidade de assinatura eletrônica e autenticação de documentos é crucial para garantir a validade e autenticidade de registros e documentos utilizados nos sistemas do Sinesp ou integrados. 5) Acesso a Aplicações da Plataforma Sinesp: O sistema oferece acesso a uma variedade de aplicações e serviços que apoiam as atividades de segurança pública, tornando-o uma ferramenta central para os profissionais dessa área. 6) Integração de Sistemas: O Sinesp Segurança é projetado para se integrar perfeitamente com sistemas de órgãos de segurança pública em diferentes níveis administrativos, promovendo uma comunicação eficaz e compartilhamento de informações críticas. 7) Single Sign-On (SSO): Trata-se de uma tecnologia que permite aos usuários fazerem login uma única vez em um sistema central, a partir desse ponto acessar diversos outros sistemas e aplicativos sem a necessidade de autenticação repetida. 153 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 8) Painel de acompanhamento: O Sinesp Segurança disponibiliza aos gestores painéis com informações sobre as atividades dos sistemas integrados, possibilitando uma gestão eficiente dos usuários e recursos dos sistemas. 1.9 Sinesp CAD (Central de Atendimento e Despacho) O Sinesp CAD – Central de Atendimento e Despacho – é uma das soluções do Sinesp, gerenciada pela Diretoria de Gestão e Integração das Informações (DGI) da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp). A solução dá suporte aos serviços públicos emergenciais, permitindo a integração do atendimento de instituições de segurança pública (Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros Militar, Polícia Rodoviária Federal, Guardas Municipais etc.), otimizando a gestão de recursos e diminuindo o tempo resposta, além da melhoria no planejamento operacional. O sistema fornece aos profissionais de segurança pública uma solução de tecnologia da informação que permite o atendimento às ocorrências solicitadas a partir de números tri dígitos emergenciais (190, 191, 192, etc) ou de outros canais de acionamento de atendimento ao cidadão, abarcando os processos de atendimento, despacho e fechamento dos atendimentos, além da integração entre as agências de segurança pública em âmbito nacional, estadual e municipal, promovendo uma gestão mais eficaz dos recursos humanos e operacionais disponíveis. 154 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 27: Sinesp CAD Fonte: DGI/Senasp. 155 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 1.9.1 Funcionalidades Chave do Sinesp Segurança Otimizar sistematicamente, por meios eletrônicos, todos os passos do fluxo de atendimento emergencial, desde o chamado do solicitante até o atendimento da demanda em campo, buscando a redução do tempo de resposta; Integrar os serviços de notificação de uma demanda emergencial de segurança pública, seja através dos tri dígitos nas centrais telefônicas (190, 191, 193, 181, etc.), ou por meio de aplicativo mobile voltado ao cidadão com esta finalidade, ou ainda através de dispositivos automatizados de notificação, como centrais de alarme de incêndio, câmeras de reconhecimento de placa veicular e facial, sistemas de alerta de redes sociais e montadoras de automóveis etc; Padronizar o atendimento ao cidadão nas Centrais de Atendimento e Despacho, definindo através de protocolos os critérios de prioridade e de agências a serem envolvidas conforme árvore de perguntas e respostas para cada tipo de natureza; Gerenciar, em nível local regional e nacional, a força de trabalho da segurança pública, permitindo o empenho dos recursos mais eficazes para cada demanda solicitada; Integrar, por meio eletrônico, órgãos e agências envolvidos nas emergências de segurança pública, mesmo que não estejam vinculadas à mesma Central de Atendimento e Despacho, permitindo o compartilhamento de informações e solicitações de apoio via sistema; 156 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Simplificar, padronizar e desburocratizar o atendimento de ocorrências policiais, descentralizando, sempre que possível, o atendimento de forma a torná-lo menos formal, mais célere, econômico e eficiente, priorizando a resolução no local do fato; Registrar o atendimento através de banco de dados unificado e integrado, permitindo o envio de documentos e métodos para os órgãos envolvidos no fluxo da persecução penal de maneira interoperável; Disponibilizar dados mensuráveis para aferir a qualidade de cada etapa do fluxo do atendimento emergencial, desde o chamado pelo solicitante, passando pelo registro único da ocorrência e consultando de forma interoperável os procedimentos decorrentes da intervenção do estado na emergência; Propor emprego de recursos eficiente para prevenção criminal, através de planejamento operacional baseado em análise preditiva automatizada. 1.10 Sinesp PPE (Procedimentos Policiais Eletrônicos) O ordenamento jurídico brasileiro fundamenta os procedimentos policiais na legislação vigente, notadamente no Código de Processo Penal (CPP), que estabelece as diretrizes para a atuação da polícia na investigação e esclarecimento de crimes. O Artigo 6º do CPP atribui à autoridade policial o dever de apurar a materialidade e autoria das infrações penais. No contexto da confecção de boletins de ocorrência, instrumento essencial para comunicar à autoridade policial a ocorrência de fatos relevantes, o CPP prevê 157 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA a competência da polícia judiciária para sua elaboração, conforme expresso no Artigo 167. Esses boletins são cruciais não apenas para iniciar a ação penal pública, mas também para documentar diversas situações como crimes, acidentes e perdas de documentos. Figura 28: Sinesp PPE Fonte: DGI/Senasp. O Sinesp PPE é uma das soluções de entrada e produção de dados (registro de ocorrências e demais procedimentos eletrônicos) para o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública – Sinesp, seu desenvolvimento, manutenção e evoluções são totalmente custeados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e desenvolvidos pela empresa Serviço Federal de Processamento de Dados - SERPRO. Essa solução tecnológica desempenha um papel fundamental ao criar boletins de ocorrência e procedimentos eletrônicos de maneira simples e intuitiva. O Sinesp PPE utiliza recursos digitais para agilizar e facilitar a elaboração de 158 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA boletins e procedimentos, proporcionando maior celeridade no registro de ocorrências seja pela sua interface amigável ao usuário quanto pela sua integração com diversas bases de dados. Ao integrar o Sinesp PPE aos processos eletrônicos de sua instituição, os usuários poderão se beneficiar de uma plataforma moderna que não apenas otimiza o tempo dedicado à elaboração de boletins de ocorrência, mas também contribui para a eficácia das investigações ao consolidar dados de maneira organizada e acessível. Além do registro de boletins o sistema abrange uma vasta gama de procedimentos eletrônicos tais como: Termos Circunstanciados de Ocorrência, Boletins de Ocorrência Circunstanciados, Inquéritos Policiais, Autos de Prisão em Flagrante, Auto de Investigação Administrativa Interna e Auto de Apreensão em Flagrante de Adolescente Infrator. A utilização das soluções Sinesp pelas forças da polícia civil, polícia militar, corpo de bombeiros militar, guarda municipais e demais integrantes do Sistema Único de Segurança Pública – Susp, em especial do Sinesp PPE possibilita a padronização de uma metodologia de registro a nível nacional, por meio de parametrizações de tabelas corporativas, tabelas de naturezas de fatos típicos e atípicos permitindo a obtenção de um dado de altíssima qualidade. A diversidade e ampla gama de cobertura de atuação das forças de segurança evidenciam o impacto positivo do Sinesp PPE na coleta, tratamento e integração de dados nacionais para o aprimoramento das políticas de prevenção da violência e combate à criminalidade, proporcionando uma abordagem mais eficaz no enfrentamento dos desafios relacionados à segurança pública. 159 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 1.11 Sinesp DEVIR (Delegacia Virtual) O Código de Processo Penal (CPP) estabelece as diretrizes para a atuação da polícia na investigação e esclarecimento de crimes. O Artigo 6º do CPP atribui à autoridade policial o dever de apurar a materialidade e autoria das infrações penais, sendo o boletim de ocorrência o instrumento adequado para comunicação de infrações penais à autoridade policial. Figura 29: Sinesp DEVIR Fonte: DGI/Sinesp A Delegacia Virtual - DEVIR do Ministério da Justiça e Segurança Pública, é uma das soluções SINESP que foi desenvolvida com o objetivo de facilitar a comunicação entre o cidadão e a autoridade policial, permitindo a confecção de boletins de ocorrência por meio da internet. 160 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 30: tela inicial da Delegacia Virtual. Fonte: DGI/Sinesp. Os boletins de ocorrência são registros que não só desempenham um papel fundamental no início da ação penal, mas também na documentação de uma variedade de situações, incluindo crimes, acidentes e extravios de documentos. Com um layout simples, moderno, intuitivo e interface responsiva, permite que qualquer cidadão, registre a comunicação de um crime ou fato que necessite atendimento policial, bastando o acesso à rede mundial de computadores, seja através de um computador ou mesmo por dispositivo móvel (smartphones, tablets etc.). A Delegacia Virtual - DEVIR é nativamente integrada com as soluções Sinesp, em especial ao sistema Procedimentos Policiais Eletrônicos - PPE, ferramenta de registro de Boletins de Ocorrência e Procedimentos Policiais, contudo, desde sua concepção inicial, pretendeu-se desenvolver uma solução que permitisse a sua integração com quaisquer sistemas de registro de boletim de 161 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA ocorrência da Polícia Judiciária, de forma que sua utilização não esteja restrita apenas ao uso do Sinesp PPE. Figura 31: tela de comunicação de ocorrência na DEVIR. Fonte: DGI/Sinesp. O sistema encontra-se em condições para utilização imediata nos estados que aderiram ao uso do Sinesp PPE, bem como aos demais entes federados que utilizam sistema próprio para registro de boletim de ocorrência e/ou procedimentos eletrônicos, neste último caso, sendo necessário a execução de ações voltadas para integração entre estes sistemas e a Delegacia Virtual - DEVIR. O sistema é composto por dois módulos, sendo o primeiro o próprio Portal de acesso público através da url: https://delegaciavirtual.sinesp.gov.br/portal/, onde serão registradas as comunicações de fato e, o segundo, módulo de validação, responsável pela recepção das comunicações geradas a partir do Portal, com 162 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA acesso restrito a servidores previamente cadastrados e habilitados para função de avaliação das comunicações. Além de estar plenamente em acordo com a legislação em vigor, oferece uma estratégia mais efetiva na abordagem dos obstáculos ligados à segurança pública. Seu desenvolvimento, manutenção e evoluções são totalmente custeados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e desenvolvidos pela empresa Serviço Federal de Processamento de Dados – SERPRO. 1.12 Sinesp Infoseg (Busca inteligente de acesso restrito) O Sinesp Infoseg é uma plataforma que integra diversas bases de dados relacionadas à segurança pública no Brasil. Esse sistema permite o acesso a informações relevantes para profissionais da área de segurança, justiça, fiscalização e órgãos de controle. Figura 32: Sinesp InfosegFonte: DGI/Sinesp. O Infoseg do MJSP disponibiliza dados em diferentes categorias, incluindo: 163 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Pessoas: Fornece informações sobre pessoas, como Interpol, índice Nacional, Receita Federal CPF e CNPJ, condutores registrados no BNMP (Cadastro Nacional de Monitoramento de Prisões), SUS (Sistema Único de Saúde), MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), e SISME (Sistema de Informações do Mercosul). Veículos: Oferece informações sobre veículos como SINIVEM (Sistema Nacional de Informações de Veículos), SISME (Sistema de Informações do Mercosul) e outros dados relacionados a veículos. Armas: busca no Sinarm. O Infoseg é uma ferramenta importante para auxiliar as atividades de polícia ostensiva, preservação da ordem pública e investigação criminal, permitindo o acesso a informações cruciais para as autoridades de segurança pública. É importante observar que o acesso ao Infoseg é restrito aos profissionais de segurança pública e demais órgãos autorizados, visando garantir a confidencialidade e a segurança das informações disponíveis no sistema. O Sinesp INFOSEG ou Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais e sobre Drogas, desempenha um papel crucial no cenário da segurança pública brasileira. Essa plataforma, mantida pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, representa um avanço significativo na gestão de informações relacionadas à segurança, sistema prisional e controle de drogas no país. Aqui, vamos explorar mais profundamente como o Sinesp INFOSEG funciona e seu impacto na comunidade de segurança pública. 164 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 1.12.1 Missão do Sinesp INFOSEG A missão do Sinesp INFOSEG vai além de ser apenas um banco de dados; ele atua como uma ponte vital entre diversas entidades, como polícias, instituições judiciárias, Ministério Público e outras. Sua missão central é integrar e disponibilizar informações relevantes para melhorar a gestão e a eficácia das atividades relacionadas à segurança e justiça no Brasil. Isso resulta em um compartilhamento de informações estratégicas que ajuda a fortalecer as operações de segurança pública em todo o país. Auxílio na Luta Contra o Crime: Uma das principais funções do Sinesp INFOSEG é auxiliar na investigação e combate ao crime. Com acesso a um amplo conjunto de informações, as autoridades podem traçar conexões entre suspeitos, veículos e armas, o que torna a resolução de casos mais eficaz. Além disso, o sistema contribui para a formulação de políticas públicas de segurança e fornece dados para a produção de estatísticas e análises sobre a criminalidade e a segurança pública no país. Um destaque notável é a integração de Boletins de Ocorrência (BOs) de todos os estados, o que amplia a capacidade das autoridades de acessar informações cruciais para suas investigações. Saiba mais 165 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 1.12.2 Funcionalidades do Sinesp Infoseg O Sinesp Infoseg é uma plataforma ágil e eficaz que permite a busca de informações e análise de vínculos relacionados a indivíduos, veículos e armas. Sua interface moderna oferece acesso a painéis de gestão de órgãos e usuários bem como auditoria. Além disso, a geração de relatórios dinâmicos segue os padrões estabelecidos pela Doutrina Nacional de Inteligência de Segurança Pública (DNISP). As consultas podem ser realizadas com até dez parâmetros simultâneos, permitindo uma análise detalhada e rápida das informações. 1.12.3 Acesso Restrito para a Segurança Pública É crucial destacar que as informações do Sinesp Infoseg são restritas a agentes de segurança pública e órgãos conveniados da União, estados e municípios. Isso garante que as informações sensíveis sejam usadas apenas para fins legais e atividades operacionais, investigativas e de produção de conhecimentos estratégicos. 1.12.4 Impacto e Reconhecimento O impacto do Sinesp Infoseg foi reconhecido por sua premiação no Concurso Inovação no Setor Público, promovido pela Escola Nacional de Administração Pública (Enap). Isso demonstra a importância da ferramenta na modernização e melhoria dos serviços de segurança pública no Brasil. 166 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 1.12.5 Resultados Concretos Desde sua ampla disponibilização, em abril de 2017, o Sinesp Infoseg alcançou resultados impressionantes, com mais de 160 mil usuários. Isso superou significativamente o desempenho da antiga ferramenta, a Rede Infoseg, evidenciando seu impacto positivo e eficácia na comunidade de segurança pública. Em resumo, o Infoseg e sua evolução para o Sinesp Infoseg representam avanços significativos na área de segurança pública no Brasil. Essas ferramentas modernas e eficientes têm se mostrado essenciais no combate ao crime, na investigação de casos e na formulação de políticas de segurança, contribuindo para tornar o país mais seguro e preparado para enfrentar os desafios do século XXI. Por fim, é importante saber que o Infoseg compartilha diversas de suas bases de busca com o Sistema Córtex do MJSP (essa ferramenta será tratada na AULA 3 desse módulo). 1.13 Sinesp Auditoria Um dos grandes problemas em segurança é identificar quem ou o que causou algo. Essa identificação é possível pela gravação e manutenção de uma trilha de ações realizadas no sistema, chamadas trilhas de auditoria. Auditoria em software significa um conjunto de funções de um sistema, pela gravação e manutenção de uma trilha de ações realizadas no sistema e, posteriormente, pela análise ou visualização desta, ou seja, o sistema mantém os registros de tudo o que foi feito nele de forma que, em caso de problema de segurança, alguém possa identificar o que causou. Portanto a auditoria é fundamental para o levantamento de rastros/vestígios e após análise tida, poderão tornar-se evidências importantes em apurações administrativas e à produção de provas. 167 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Um dos grandes desafios da Auditoria é o respeito a privacidade dos usuários, sem comprometer o uso adequado do sistema. A LGPD, em sua seção II, em seu Artigo 50, estabelece algumas boas práticas e governança sobre as normas de segurança, padrões técnicos, mecanismos internos de supervisão e mitigação de riscos e outros aspectos relacionados ao tratamento de dados pessoais. O Decreto nº 9.489, de 30 de agosto de 2018, em seu art.18 §4º diz que: O fornecimento de dados dos usuários, de acessos e consultas do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais, de Rastreabilidade de Armas e Munições, de Material Genético, de Digitais e de Drogas ficará condicionado à instauração e à instrução de processos administrativos ou judiciais, observados, nos casos concretos, os procedimentos de segurança da informação e de seus usuários. Posto isso, infere-se que o decreto protege os usuários dos Sistemas Sinesp, seus acessos e consultas. Concluindo que as auditorias nos sistemas que visa fornecer os dados dos usuários e os acessos, bem como as consultas nos sistemas, precederão de instauração ou a instrução de processos administrativos ou judiciais. Um dos princípios relacionados com a segurança da informação e comunicação previstos na Portaria MJSP nº 2, de 28 de janeiro de 2022, que Instituiu o Sistema de Governança do Ministério da Justiça e Segurança Pública, é a auditoria. Competindo sua execução, segundo a Resolução CONSINESP/MJSP 168 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Nº 1, DE 17 DE JUNHO DE 2021, privativamente à Diretoria de Gestão e Integração da Informação, a manutenção dos registros e atividades junto ao Infoseg, promovendo as auditorias necessárias no referido sistema. Em razão disso, foi criada comouma das soluções de sistemas de informação desenvolvidos para o Sinesp, o Sinesp Auditoria, desenvolvido com o objetivo de fornecer insumos para subsidiar as auditorias dos projetos integrantes da solução Sinesp, não só do sistema Infoseg. Permitindo reportar os acessos a recursos e sua utilização pelos usuários das organizações. Portanto para se manter um sistema com nível alto de segurança, além do controle de acesso, é necessário também a Auditoria dos sistemas, com o intuito de identificar usuários mal-intencionados, considerando a privacidade do usuário, fornecendo às autoridades solicitantes de auditoria elementos para instruções processuais relacionados aos usos das Soluções Sinesp, quando solicitado respeitando os preceitos legais. 1.14 Sinesp Integração O Sinesp Integração é uma solução que tem o propósito de integrar informações provenientes de boletins de ocorrência de todo o país. Esta integração é obrigatória para todas as UFs e ocorre em no máximo 1 hora após o fato. O boletim de ocorrência (BO) é um documento oficial elaborado pelas autoridades policiais para registrar informações sobre um incidente, crime ou evento que requer a intervenção ou o acompanhamento das forças de segurança. O BO é usado para documentar detalhes importantes, como a data, hora, local e natureza do incidente, além de informações sobre as partes envolvidas e testemunhas, quando aplicável. 169 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 33: Sinesp Integração Fonte: DGI/Sinesp A elaboração do boletim de ocorrência é uma etapa fundamental no processo de investigação policial e é usada para diversos fins, incluindo: 1. Investigação: O BO serve como ponto de partida para as investigações policiais. Ele contém informações iniciais que podem ajudar os policiais a entenderem o que aconteceu e a coletar evidências relevantes. 2. Registro legal: Um BO fornece uma base legal para o registro formal de um incidente ou crime. Isso pode ser importante em casos de litígio ou para fins de seguro. 170 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 3. Estatísticas criminais: Os BOs são usados para criar estatísticas criminais que ajudam as autoridades a entenderem e analisar tendências criminais em uma determinada área. 4. Solicitação de medidas legais: Em casos de crimes, como roubos, agressões ou vandalismo, as vítimas muitas vezes precisam de um BO para solicitar medidas legais, como ordens de restrição, indenizações ou prisões. 5. Documentação: Um BO pode servir como documento de referência para as partes envolvidas, como vítimas, testemunhas e suspeitos, e pode ser usado em processos judiciais. Os estados da federação têm duas formas de enviarem os boletins de ocorrência. Podem enviar através do WebService do Sinesp Integração ou usar o sistema Sinesp PPE. Os boletins gerados pelo Sinesp PPE (Procedimentos Policiais Eletrônicos) são integrados automaticamente ao Sinesp Integração. O Sinesp Integração desempenha um papel central na consolidação dos boletins de ocorrência de todo o país. Além disso, ele disponibiliza uma tabela corporativa que desempenha um papel crucial na padronização do preenchimento desses boletins, o que, por sua vez, simplifica a inclusão das seguintes categorias de informações: Lista de Municípios Lista de Unidades da Federação Lista de Países Lista de Profissões Lista de Tipos de Documento Lista de Tipos de Local Lista de Subgrupos de Local Lista de Calibres de Armas Lista de Marcas de Armas Lista de Modelos de Armas Lista de Espécies de Armas Lista de Armas 171 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Lista de Tipos de Objeto Lista de Grupos de Objeto Lista de Subgrupos de Objeto Lista de Subgrupos de Unidade Lista de Meios Empregados Lista de Naturezas da Ocorrência A Portaria Nº 845, de 19 de novembro de 2019, estabelece os critérios para adesão e classificação de adimplência dos estados e do Distrito Federal. Conforme o Artigo 3º, Parágrafo 2º, apenas os participantes que mantiverem a consistência no envio de dados e informações para o (Sinesp) serão considerados aderentes efetivos ao Sinesp Integração e/ou ao Sinesp PPE. O integrante aderente que deixar de fornecer ou atualizar seus dados e informações no Sinesp não poderá receber recursos, nem celebrar parcerias com a União para financiamento de programas, projetos ou ações de segurança pública e defesa social e do sistema prisional. A integração de informações de boletins de ocorrência é uma ferramenta poderosa para as autoridades de segurança pública. Primeiramente, possibilita a identificação de padrões de criminalidade em nível nacional, revelando áreas com maiores índices de crimes, tipos de delitos mais comuns e características dos criminosos. Essa análise profunda das estatísticas é essencial para orientar as estratégias de policiamento e prevenção, permitindo uma alocação mais eficiente dos recursos e a implementação de ações direcionadas. Outro benefício crucial é a capacidade de prevenir crimes. O uso da análise de dados integrados possibilita a identificação de fatores de risco associados à criminalidade. Essas informações são cruciais para o desenvolvimento de políticas públicas de prevenção, como programas Saiba mais 172 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA educacionais e de assistência social, que visam abordar as raízes da criminalidade e criar ambientes mais seguros para a comunidade. 1.15 Sinesp DW Análise Trata-se de uma solução do tipo Business Intelligence (BI), isto é, consiste em um ambiente que permite a visualização e a extração de dados dos boletins de ocorrência integrados. O Sinesp DW utiliza a plataforma MicroStrategy, a qual oferece recursos interativos para a criação de dashboards personalizados para visualização de dados e a transmissão de informações complexas por meio de suas ferramentas de apresentação. O Sinesp DW tem com fonte de dados o Sinesp Integração que integra de forma eletrônica os Boletins de Ocorrência (BOs) de todas as Unidades Federativas, tanto aqueles registrados no Sinesp PPE (solução do pacote Sinesp para registro de procedimentos policiais eletrônicos), quanto aqueles registrados em sistemas próprios dos órgãos de segurança. Após passarem por um processo de ETL (Transformação e Estruturação de Dados) esses boletins são armazenados na Base de Dados do Serviço Federal de Processamento de Dados – SERPRO, passando a estar disponíveis para consulta. Além disso, o Sinesp DW é disponibilizado de forma online, sem necessidade de instalação de software. A solução recebe nova carga de dados diariamente, sempre refletindo as informações até o dia anterior (D-1) e é disponibilizada para os usuários de segunda a sexta, das 07h às 22h. Em funcionamento, comporta até 100 usuários conectados simultaneamente. Para acesso à ferramenta, um perfil de acesso deve ser atribuído ao usuário com base em três características: 173 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA a) Utilização do Sistema: • Básico (apenas visualização de dados e dashboards) • Avançado (consulta, edição e criação de dashboards). b) Perfil Geográfico: Federal (acesso a consulta de dados em nível nacional) Estadual (acesso a consulta de dados em nível estadual). c) Dados Sensíveis: Estatística (acesso anonimizados) Inteligência (acesso a dados sensíveis e suscetíveis a identificação). Atualmente, o Sinesp análise possui um total de 171 usuários cadastrados, representando a abrangência de todas as Unidades Federativas do país. A inclusão de novos usuários está condicionada a solicitação de um gestor estadual. Principais Características: Ferramenta web. Base de dados originária do Sinesp Integração,podendo consumir população pelo IBGE e veículos pelo SENATRAN. Aceita 12GB de utilização de dados externos. Atualização diária com informações do dia anterior (D-1). Disponibilidade de acesso por 15h nos 5 dias uteis, das 07h às 22h; Estimativa de transações com o banco de dados 240 consultas/hora; Aceita 100 usuários no sistema logados simultaneamente; Tem-se 556 atributos e 65 métricas para análise. 174 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Público-Alvo: o acesso à ferramenta é de uso exclusivo para profissionais do Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Assim, o Sinesp Análise se consolida como a solução responsável por fornecer aos gestores e demais interessados os meios apropriados para a construção de estudos e estatísticas nacionais de segurança pública, além de apoiar os processos de investigação e inteligência. 1.16 Sinesp Agente de Campo Figura 34: Sinesp Agente de Campo Fonte: DGI/Sinesp. Aplicativo gratuito, disponível para dispositivos móveis com sistema operacional Android ou iOS, destinado para os integrantes dos órgãos da segurança pública (Polícias Militar e Civil, Corpo de Bombeiros Militares, Guarda Municipal, Defesa Civil, entre outros). Nele, os profissionais podem acessar informações em tempo real, ganhando mais agilidade e rapidez no atendimento à 175 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA população, na oferta de serviços públicos efetivos de segurança e na elucidação de crimes. Figura 35: Telas demonstrativas do Sinesp Agente de Campo. Fonte: DGI/Sinesp. 1.17 Sinesp Cidadão O Sinesp Cidadão é um aplicativo móvel do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) que oferece ao cidadão brasileiro acesso direto a serviços do Ministério da Justiça e Segurança Pública relativos à segurança pública. 176 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 36: Sinesp Cidadão. Fonte: DGI/Sinesp. O aplicativo está disponível para os sistemas operacionais Android, através da loja de aplicativos Google Play, e para iOS na Apple App Store. Após a instalação do aplicativo Sinesp Cidadão, o usuário tem acesso a diversos módulos, que consultam diferentes bases de dados relacionadas à Segurança Pública. Confira abaixo os módulos do aplicativo: 177 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 37: exemplo de telas do Sinesp Cidadão Fonte: DGI/Sinesp. a) Veículos: O módulo de veículos permite ao cidadão realizar consultas de placas veiculares e verificar dados básicos como marca e modelo dos veículos, parte do número do chassi e se o veículo possui ou não restrições. Os dados provêm da base de dados de veículos do Senatran, combinados com informações de outros sistemas como o Sinesp CAD. É possível consultar placas de quaisquer veículos para verificar restrições de furto e roubo. Para veículos de propriedade do cidadão é possível consultar todos os detalhes do cadastro junto à Senatran. É importante ressaltar que o próprio cidadão pode registrar uma restrição a veículos. Ao vincular a um veículo do qual é proprietário, o cidadão pode reportar ocorrências de roubo e furto. A restrição permanece por um período de 72 horas e pode perdurar por mais tempo caso o proprietário registre um Boletim de Ocorrência informando o fato à autoridade policial). 178 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA b) Mandados de Prisão: Este módulo permite consultar mandados de prisão que ainda não foram cumpridos, com o intuito de comunicar à polícia. As informações são consultadas diretamente no Banco Nacional de Mandados de Prisão do Conselho Nacional de Justiça – BNMP/CNJ. c) Mais Procurados: Aqui, é exibida a lista dos mais procurados nacionais, que inclui líderes criminosos com atuação nacional e, eventualmente, internacional. As informações são inseridas e atualizadas por meio do Sistema de Gestão de Procurados, gerido pela Senasp. d) Desaparecidos: O módulo de desaparecidos permite ao cidadão pesquisar pessoas que foram registradas como desaparecidas. As informações vêm de registros de ocorrências de desaparecimentos feitos pelas Polícias Civis dos Estados e enviados ao Sinesp Integração. O processo de coleta de informações de desaparecidos segue o fluxo abaixo: 1. Registro da Ocorrência: O indivíduo vai à delegacia comunicar o desaparecimento de uma pessoa, onde é registrado um boletim de ocorrência em que a pessoa desaparecida figura como vítima de uma das naturezas de desaparecimentos do SINESP; 2. Integração do BO: O BO é enviado de forma automática para o Sinesp Integração BO, ficando disponível para ser consumido através de um banco de dados virtual (VDB); 3. Cadastro/Atualização de Desaparecido: A cada hora um script busca boletins de pessoas desaparecidos e localizados, selecionando dados de cada registro e atualizando o banco de dados de desaparecidos hospedado no Ministério da Justiça; 179 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 4. Disponibilização para Consulta: Os dados do desaparecido ficam disponíveis no módulo desaparecidos do Sinesp Cidadão; caso exista um BO de localizado da pessoa considerada desaparecida o registro deixa de ser exibido no Sinesp Cidadão; 5. Vinculação e Atualização de Desaparecido: Por meio do aplicativo Sinesp Cidadão, o cidadão pode vincular um desaparecido a sua pessoa e inserir novas informações sobre o desaparecido, seja imagens ou o informe de localização; 6. Emergência: um novo módulo de Emergência será adicionado ao aplicativo Sinesp Cidadão. Este módulo permitirá ao cidadão se comunicar diretamente com as centrais de atendimento, permitindo novos meios de interação como a capacidade de enviar mensagens de texto, áudio e imagens. 1.18 Sinesp JC/VDE A Senasp já vinha empregando esforços na coleta de dados e informações de interesse da segurança pública desde o ano de 2001, visando a implementação de ações e políticas públicas mais qualificadas. A coleta informatizada de dados teve origem na implantação do Sistema Nacional de Estatística de Segurança Pública e Justiça Criminal - SinespJC, em 2004 (substituído em 2023 pelo Sinesp VDE). A solução reunia dados AGREGADOS oriundos das Unidades da Federação, permitindo a elaboração de relatórios e indicadores estatísticos. Seu conteúdo era gerado a partir dos boletins de ocorrência registrados pelas Polícias Civis dos Estados e Distrito Federal, reunindo assim, informações sobre o número de ocorrências, natureza do fato registrado, perfil da vítima, perfil do autor, meios empregados, dentre outras. A partir de 2012, com a instituição do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais e sobre Drogas - SINESP, por meio da Lei n º 180 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 12.681/12, iniciaram-se os projetos para a coleta automatizada de dados e a integração dos sistemas estaduais de registro de ocorrências policiais. Em dezembro de 2014, após a conclusão da primeira etapa de planejamento e desenvolvimento da plataforma Sinesp, foi implementado o Boletim Nacional de Ocorrências Policiais - Sinesp PPE (Procedimentos Policiais Eletrônicos) no estado de Roraima, dando início à coleta de dados de registros de ocorrência em tempo real. Posteriormente, a solução foi implantada em outras Unidades da Federação. Neste cenário, em 2015, foi desenvolvido e disponibilizado às UFs o Sinesp Integração (ver tópico específico sobre isso), solução destinada à consolidação de dados e informações de múltiplas fontes em uma única Base Nacional, permitindo, dentre outras atividades, a análise de microdados e a produção de estatísticas e relatórios mais qualificados. 1.18.1 Sinesp VDE Em maio de 2023 o MJSP lançouoficialmente o novo Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública Validador de Dados Estatísticos (Sinesp VDE), plataforma usada pelos agentes de segurança pública dos estados para reportar crimes e outras ocorrências. Esta versão substituiu o antigo Sinesp JC e amplia o painel de indicadores de segurança pública dos nove atuais para 28 dados e mudando a frequência, passando de 90 para 30 dias de atraso. Outra importante mudança é que o novo sistema apresentará os indicadores a partir do número de vítimas e não apenas de ocorrência, o que possibilita dados mais minuciosos, como gênero, raça e idade. Consiste numa das soluções da Plataforma Sinesp desenvolvida para inserção, consolidação, consulta e homologação dos Dados Nacionais de Segurança Pública. Essa ferramenta é composta por 28 indicadores, conforme 181 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA estabelecido pela Resolução CONSINESP Nº 06 de 08 de novembro de 2021, que abrangem diversas informações relevantes para a segurança pública, tais como: homicídio doloso, roubo seguido de morte (latrocínio), lesão corporal seguida de morte, tentativa de homicídio, feminicídio, morte de agente do estado, morte a esclarecer, morte no trânsito ou decorrente dele, morte por intervenção de agente do Estado, suicídio, suicídio de agente do Estado, estupro, roubo e furto de veículos, roubo a instituição financeira, roubo de carga, tráfico de drogas, apreensão de cocaína, maconha e armas de fogo, pessoas desaparecidas e localizadas, mandados de prisão cumpridos, atendimento pré-hospitalar, busca e salvamento, combate a incêndios, emissão de alvarás de licença e realização de vistorias. O sistema permite que o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) tenha dados nacionais oficiais validados até o décimo quinto dia do mês subsequente, possibilitando sua divulgação no prazo máximo de 30 (trinta) dias, otimizando os subsídios para as tomadas de decisões e implementação de políticas públicas, assim como para a produção e para a publicação de estatísticas criminais em âmbito nacional Os gestores de estatística são os responsáveis por classificar os usuários do Sinesp VDE em diferentes perfis, de acordo com as permissões de acesso necessárias para desempenhar suas atividades no sistema. Conforme os seguintes perfis: a) Visualizador: perfil com acesso restrito às informações, limitado a consultas nas bases de dados. b) Cadastrador: recebe permissões específicas, este usuário pode inserir dados no sistema, consolidar informações já existentes e realizar consultas abrangentes sobre todos os dados disponíveis. 182 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA c) Homologador: sua função primordial envolve a minuciosa conferência e homologação dos dados. Além disso, possui a prerrogativa de inserir e consolidar novas informações, bem como realizar consultas no sistema. Por fim, é responsável pela gestão do acesso dos usuários locais, garantindo a integridade e a confiabilidade do banco de dados. Os 28 Dados Nacionais de Segurança Pública estão organizados em nove formulários, distribuídos conforme sua categorização. A classificação dos formulários é a seguinte: Formulário 1 – Vítimas por sexo e municípios: Homicídio Doloso Lesão Corporal Seguida de Morte Roubo Seguido de Morte Morte no Trânsito Suicídio Morte a Esclarecer sem Indício de Crime Tentativa de Homicídio Feminicídio. Formulário 2 – Vítimas por sexo e Profissionais de Segurança Pública: • Morte de Agente de Segurança Pública • Suicídio de Agente de Segurança Pública. 183 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Formulário 3 – Vítimas por sexo: • Estupro • Mortes por Intervenção de Agente do Estado. Formulário 4 – Ocorrências: • Roubo de Veículos • Roubo de Carga • Roubo a Instituição Financeira • Furto de Veículo • Tráfico de Drogas. Formulário 5 – Quantidade (Peso em Quilogramas): • Apreensão de Maconha • Apreensão de Cocaína. Formulário 6 – Quantidade de armas por tipo: • Apreensão de Armas de Fogo Formulário 7 – Vítimas por sexo e faixa etária: • Pessoa Desaparecida • Pessoa Localizada Formulário 8 – Mandados por município (Pessoas Presas: • Mandado de Prisão Cumprido 184 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Formulário 9 – Atendimento/Documentos: • Atendimento pré-hospitalar • Busca e Salvamento • Combate a Incêndios • Emissão de Alvarás de Licença • Realização de Vistorias Os dados nacionais de Segurança Pública serão acessíveis ao público por meio do portal oficial do Ministério da Justiça e Segurança Pública, sendo regularmente atualizados em intervalos mensais. Essa prática assegura a transparência e a oportunidade de acesso constante a informações cruciais, fortalecendo a comunicação eficaz entre as autoridades e a sociedade. Atualmente, o Sinesp VDE conta com um total de 169 usuários registrados, representando a abrangência de todas as Unidades Federativas do país. 1.19 Sinesp Geointeligência O Sinesp Geointeligência é uma ferramenta web, concebida pela Senasp em parceria com a Universidade Federal do Ceará, para a visualização de eventos e “manchas criminais” destinada aos órgãos integrantes do SUSP aderentes ao Sinesp. 185 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 38: tela demonstrativa do Sinesp Geointeligência Fonte: DGI/Sinesp. É uma ferramenta para análise de eventos espaço-temporais relacionados com ações delituosas. Permite a criação de manchas criminais dinâmicas geoespaciais e rotas que podem ser utilizadas para inúmeras finalidades, por exemplo, o policiamento ostensivo e comunitário. Esse sistema de geolocalização indica quando e onde aconteceu um crime, através de representações gráficas. A principal fonte de dados da ferramenta é o Sinesp Integração, solução que integra bases de dados de boletins de ocorrência de todo o país, tenham sido eles produzidos por outra solução do pacote Sinesp, ou outro sistema legado das Unidades Federativas, desde que válidos. Além disso, a solução permite o carregamento de dados externos do tipo ponto e/ou polígonos (como por exemplo limites de municípios e áreas de policiamento ou pontos de interesse, como unidades policiais, agências bancárias etc.). As principais funcionalidades do Sinesp Geointeligência envolvem a criação de cenários e a utilização de modelos de análise espaço-temporais pré-definidos, a nível municipal, entre as quais destaca-se: 186 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 1. Plotagem de pontos (eventos criminais georreferenciados); 2. Delimitação de áreas de maior incidência com base na estimativa de densidade de Kernel (KDE); 3. Delimitação de áreas de maior incidência com base no limiar da estimativa de densidade de Kernel (MSKDE); 4. Criação de filtros espaciais; 5. Plotagem de marcos e pontos de interesse; Para acesso à ferramenta, dois perfis de acesso estão disponíveis: um Federal (que permite a visualização e criação de cenários com dados criminais dos municípios de todas as Unidades Federativas) e um Estadual (que tem as mesmas permissões, mas apenas para dados criminais da Unidade Federativa a qual o usuário pertence). No momento, o Sinesp Geointeligência possui 458 usuários cadastrados de 15 Unidades Federativas diferentes (Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Espírito Santo, Minas Gerais, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Paraná, Piauí, Rio Grande do Norte, Roraima, Rio Grande do Sul e Sergipe). 187 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA CONSELHO GESTOR – SINESP Para assegurar o bom funcionamento e a governança adequada para uso e difusão das soluções que compõem o Sinesp, foi criadoo Conselho Gestor do Sinesp, (CONSINESP), responsável por estabelecer diretrizes, definir critérios e promover a articulação entre os órgãos e entidades participantes do Sinesp. Ele é composto por representantes de diversos setores, além dos representantes do próprio Ministério da Justiça e Segurança Pública (DGI, SENAPPEN, PF, PRF), há a participação do Ministério dos Direitos Humanos e cinco representantes dos Estados ou do DF, sendo um de cada região geográfica. A importância do Conselho Gestor reside na sua capacidade de promover a transparência, a participação de diversos atores e a responsabilidade na gestão do Sinesp. Ao envolver representantes de diferentes órgãos governamentais, o Conselho Gestor assegura uma visão ampla dos desafios e das necessidades no campo da segurança pública. Além disso, sua atuação contribui para evitar o uso indevido das informações e garantir o respeito aos direitos fundamentais dos cidadãos. Juntos, o Sinesp e o Conselho Gestor representam um compromisso sólido com a segurança e o bem-estar dos cidadãos. É fundamental que continuemos a fortalecer essas instituições, investindo em tecnologia, capacitação e cooperação, para podermos construir uma sociedade mais segura e justa. Saiba mais 188 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 2. ADESÃO ÀS SOLUÇÕES DO SINESP O parágrafo 3º do Artigo 37 da Lei nº 13.675, de 11 de junho de 2018, autoriza o Ministério da Segurança Pública a celebrar convênios com órgãos do Poder Executivo que não façam parte do Susp (Sistema Único de Segurança Pública), com o Poder Judiciário e com o Ministério Público. Esses convênios têm como objetivo promover a compatibilização de sistemas de informação e a integração de dados, desde que respeitadas as limitações constitucionais de sigilo e desde que o objetivo principal dos acordos seja a prevenção e a repressão da violência. Essa disposição busca fomentar a cooperação e a integração entre diferentes órgãos e poderes públicos no combate à violência e à criminalidade. O Ministério da Justiça e Segurança Pública é autorizado a estabelecer convênios com órgãos do Poder Executivo que não estejam diretamente ligados ao Susp, bem como com o Poder Judiciário e o Ministério Público, visando à compatibilização de sistemas de informação e à integração de dados relevantes para o enfrentamento da violência. É importante destacar que a celebração desses convênios está sujeita às vedações constitucionais de sigilo, ou seja, não podem ser compartilhadas informações que estejam protegidas por segredo constitucionalmente estabelecido. Além disso, é necessário que o objetivo principal dos acordos seja a prevenção e repressão da violência, o que demonstra a finalidade voltada para a segurança pública. Essa autorização reforça a importância da colaboração entre diferentes instituições governamentais no enfrentamento da violência e na promoção da segurança pública. A integração de sistemas de informação e a compartilhamento de dados relevantes entre esses órgãos e poderes contribui para uma atuação mais 189 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA eficaz e coordenada na prevenção e repressão dos crimes, facilitando a troca de informações e o desenvolvimento de estratégias conjuntas. Portanto, o parágrafo 3º do Artigo 37 da Lei do Susp proporciona uma base legal para o Ministério da Justiça e Segurança Pública estabelecer convênios com órgãos do Poder Executivo, Poder Judiciário e Ministério Público, visando à compatibilização de sistemas de informação e à integração de dados com foco na prevenção e repressão da violência, desde que observadas as restrições constitucionais de sigilo. Aqui, encerramos os tópicos que tratam das soluções Sinesp e das tecnologias que são disponíveis aos agentes e órgãos do Susp, ofertadas pelo MJSP. Na próxima aula, trataremos do Sistema Córtex! Vamos lá? 190 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA AULA 3. CÓRTEX E OUTRAS SOLUÇÕES TECNOLÓGICAS Nesta aula você estudará como se deu a construção do sistema Córtex e como esse moderno recurso de monitoramento tem auxiliado na execução das operações integradas e na produção de dados e informações em segurança pública no Brasil. Trata-se de uma ferramenta que teve início em 2018 e que tem sido objeto de diversas inovações, com melhorias incorporadas continuamente, conforme as necessidades de integração e agilidade que um sistema de segurança pública integrado exige para que seja efetivo e atinja os resultados esperados. Ademais, você conhecerá a evolução do sistema Córtex, desde o seu surgimento aos dias atuais, entendendo como e quem poderá acessá-lo, assim como acerca de suas condições de uso. 3.1 Córtex Sabe-se que as redes digitais facilitam a transmissão e o armazenamento de grandes volumes de dados, os quais são tratados e atualizados em tempo real, agilizando, assim, o processo decisório (BRASIL, 2015). A partir da constatação quanto à importância de dispor de uma tecnologia de informação adequada, criou-se o sistema Córtex. O sistema Córtex é uma plataforma criada para configurar e gerir módulos que compreendem todas as funcionalidades para executar determinadas tarefas relacionadas à gestão de operações integradas e criar e gerenciar os usuários que vão usufruir das suas permissões nos respectivos módulos a eles atribuídos, sendo uma ferramenta imprescindível para a consciência situacional e a tomada de decisões na segurança pública. 191 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA INTEROPERABILIDADE DOS SISTEMAS E CONSCIÊNCIA SITUACIONAL Um ambiente integrado e proativo somente é possível por meio da interoperabilidade dos sistemas, que inclusive é um dos objetivos da Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, conforme dispõe o Art. 6º, inciso VII, da Lei n.º 13.675, de 11 de junho de 2018. Mas o que você entende por interoperabilidade de sistemas? Você saberia definir? Segundo a DNAISP (2019), a interoperabilidade dos sistemas se refere à capacidade de promover a comunicação entre os sistemas (informatizados ou não), compartilhando dados e informações entre os órgãos envolvidos para gerar conhecimento e assessorar a gestão e a tomada de decisão. A interoperabilidade, portanto, é fundamental para subsidiar a consciência situacional, a qual, quando tratada apenas nos baixos níveis, gera como impacto atraso e prejuízo ao planejamento, na medida em que o Comando da Operação adiará as decisões a serem tomadas até que haja elementos de informações necessários para esse mister (ALBERTS; GARSTKA; STEINS, 1999, p. 164). 3.1.1 Integração entre Sistemas É importante você saber que o primeiro passo nesse sentido foi a integração realizada pela parceria entre as Diretorias do MJSP a fim de desenvolver um módulo destinado ao Cercamento Eletrônico. Na época, este módulo iniciou utilizando os dados disponibilizados pelo então Denatran (atual Senatran) para a Saiba mais 192 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Diretoria de Inteligência (atual DIOPI) e, ao se integrar com as câmeras de monitoramento urbano de diversos municípios, por meio de acordos de cooperação, permite a detecção de veículos com alerta de pendência documental e/ou indicador criminal registrado, como furto, roubo, entre outros. As informações são organizadas e exibidas de maneira funcional pela equipe de desenvolvimento do sistema Córtex em módulo próprio. Com o tempo, novas bases de dados foram integradas no Sistema, como por exemplo Receita Federal (Pessoa Física/Jurídica), Banco Nacional de Monitoramento de Prisões (BNMP – CNJ), Boletins de Ocorrência (BOPC), Registro Nacional de Condutores (RENACH), SIRC (Certidão de Nascimento, óbito, casamento), dentre outrasbases que estão em vias de celebração de Acordos de Cooperação Técnica. Note que, quanto mais bases de dados integradas, maior será o valor na consulta que será realizada e mais insumos o profissional de segurança pública terá para realizar o seu trabalho. Saiba que novas iniciativas de integração já foram sinalizadas e que devem prever diferentes ferramentas que agreguem valor ao sistema Córtex dentro do seu principal objetivo, hoje é atender com inteligência demandas operacionais comuns em diversas regiões do país, e que pode ampliar os horizontes conforme avança o seu uso por diferentes estados e órgãos de segurança pública. Por fim, vale ressaltar que o Sistema Córtex possui portaria própria (Portaria Nº 218, de 29 de setembro de 2021), que normatiza o uso da ferramenta. 3.1.2 Orientações Iniciais de Acesso ao Sistema Córtex e Principais Funcionalidades do Cercamento Eletrônico O Córtex é um sistema de colaboração mútuo entre órgãos, portanto, para que um órgão tenha acesso ao sistema, deverá primeiro formalizar um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com o MJSP. Neste ACT, será elaborado um plano de trabalho, onde o órgão aderente se responsabiliza em disponibilizar bases de dados próprias, para assim, receber em contrapartida o acesso ao sistema Córtex e ter 193 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA acesso as bases já integradas. Desta forma, o profissional de segurança pública deve primeiramente verificar se o seu órgão possui ACT firmado com o Córtex. Caso positivo, deve procurar o ponto focal do órgão, que é o responsável pela realização do cadastramento de novos usuários. Lembrando que o MJSP se responsabiliza unicamente no cadastramento do ponto focal, indicado pela autoridade máxima daquele órgão. Este, por sua vez, será responsável pelo cadastramento de usuários de sua instituição. Tendo o ACT devidamente formalizado, ponto focal cadastrado e usuário disponibilizado, a porta de acesso do sistema Córtex é https://cortex.mj.gov.br. Na tela inicial, é possível verificar que o usuário deve possuir conta no sistema GOV.BR. Importante salientar que o usuário deve possuir uma conta nível OURO. Sobre os níveis na conta do gov.br, é possível maiores informações na página inicial da ferramenta (https://www.gov.br/governodigital/pt-br/teste- css/identidade-digital/saiba-mais-sobre-os-niveis-da-identidade-govbr). Figura 39: Tela inicial do Sistema Córtex Fonte: https://cortex.mj.gov.br 194 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Ao realizar o login, note que no menu da lateral direita irá exibir opções de acesso na ferramenta. Os itens irão depender do nível de acesso do usuário, desta forma, pode ser que algumas funcionalidades não sejam visíveis. Vamos nos focar nesta aula, apenas no cercamento eletrônico, sobretudo nas funcionalidades básicas que são comuns a maioria dos perfis, que possuem uma gama de ferramentas de apoio ao profissional de segurança pública. Verifique na Figura 8 que tais ferramentas possuem finalidades diversas, seja de consultas, seja de emissão de alertas. Figura 40: Menu de opções do Sistema Córtex. Fonte: https://cortex.mj.gov.br Clicando na funcionalidade “Alertas Gerais”, será exibido um painel conforme a Figura acima. Note a importância desta tela, pois, o sistema está exibindo alertas em tempo real sobre diversas situações envolvendo veículos e pessoas. 195 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 41: Alertas Gerais do Sistema córtex. Fonte: https://cortex.mj.gov.br. Os alertas exibidos, atualmente, são das seguintes situações abaixo: Veículo furtado/roubado; Ação criminosa Procurado pela Justiça Falecido Desaparecido Batedores / escolta / trajeto adverso Possível veículo clonado Observe que os alertas das situações supramencionadas se dão por conta de veículos que passaram por dispositivos de radar integrados ao córtex, ou mesmo dispositivos de bilhetagem (ex: ônibus/metrô), onde houve uma interação humana. Desta feita, seria possível um alarme de um veículo cujo proprietário é procurado, ou uma pessoa desaparecida que acabou de passar por uma catraca de ônibus. É importante salientar que o assunto não se esgota por aqui, sendo a criatividade dos policiais o limite para a implementação de novas formas de alertas. 196 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Em uma situação em que o indivíduo é procurado, além do alerta, é possível verificar os dados do mandado, que estão integrados no Córtex. Em alguns mandados, quando disponível, exibe-se a foto do procurado pela justiça. Figura 42: Detalhamento de alerta – Mandado de Prisão. Fonte: https://cortex.mj.gov.br Importante salientar que o Córtex é um consumidor de bases de dados, não podendo ser utilizado como prova. Caso o profissional tenha lidado com uma situação de individuo procurado alertado pelo sistema, é imprescindível a conferência do mandado no site oficial do CNJ, para evitar qualquer tipo de embaraço com o cidadão abordado Agora, vamos verificar as ferramentas de consultas. As principais consultas do córtex são separadas em “Veículos” e “Pessoas”. Com uma pesquisa básica (ex: placa ou CPF), o Sistema realiza cruzamento em diversas bases de dados e apresenta um resultado único. A Figura abaixo demonstra uma consulta de veículo. Note na imagem que, além dos dados básicos do veículo, também é exibido se ele possui alguma restrição administrativa ou criminal, além de exibir em um mapa os últimos lugares que o veículo teve registros nos dispositivos de radares integrados ao Córtex. 197 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 43: Consulta de Veículo Fonte: https://cortex.mj.gov.br É possível ainda realizar uma pesquisa diretamente de um sensor de radar, ou seja, podemos perguntar algo do tipo: “quais veículos passaram nesse sensor de radar neste período?”. Desta forma, o sistema irá responder os veículos. A Figura abaixo demonstra a tela onde o sensor é selecionado, para visualização posterior dos veículos: 198 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 44: Pesquisas em sensores de Radar. Fonte: https://cortex.mj.gov.br. A pesquisa de pessoas possui como principal chave o CPF do indivíduo. Se não tiver essa informação, o usuário deve possuir nome completo do indivíduo e nome de mãe ou data de nascimento para que ele seja encontrado. Novamente, assim como o emplacamento, serão buscados dados deste indivíduo em diversas bases de dados, conforme é verificado na próxima Figura (Pesquisa de Pessoas). Lembre-se que a pesquisa é feita também para pessoas jurídicas. 199 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 45: Pesquisa de Pessoas Fonte: https://cortex.mj.gov.br 3.2 Brasil Mais O Programa Brasil M.A.I.S. – Meio Ambiente Integrado e Seguro, coordenado pela Polícia Federal, é um dos projetos estratégicos do Ministério da Justiça e Segurança Pública, sendo o maior projeto operacional de sensoriamento remoto do país. O Brasil M.A.I.S fornece imagens diárias de satélite em alta resolução de todo o Brasil além de alertas automáticos indicando desmatamento, garimpo, incêndio e plantio de culturas ilícitas, por exemplo. A adesão de órgãos públicos adicionais não possui custo, bastando um acordo com a Polícia Federal. 200 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 46: tela de abertura do Brasil MAIS Fonte: MJSP. Este programa atua na área de segurança pública, por meio do acesso a imagens de satélite de alta resolução. Tem o objetivo de promover a aplicação da geotecnologia em apoio às funções de segurança pública, polícia judiciária, administrativa e demais atividades de Estado relacionadas ao Ministério. O Programa foi planejado e desenvolvidoatravés de subprogramas, projetos, atividades e ações de interesse comum dos órgãos e entidades da Pasta, bem como dos integrantes estratégicos e operacionais do Sistema Único de Segurança Pública (Susp). 201 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 47: Programa de Meio Ambiente Integrado e Seguro. Fonte: DGI. Com a incorporação do Programa Brasil MAIS como um dos projetos estratégicos do Ministério da Justiça e Segurança Pública, tornou-se possível sistematizar e acompanhar indicadores alinhados com os utilizados no âmbito do SUSP. Além disso, o Programa promove a formação, capacitação, instrução, pesquisa e desenvolvimento de técnicas e tecnologias aplicadas. Através do Programa, também é possível produzir informações, conhecimento e estatísticas relacionadas às atividades de segurança pública. O Programa Brasil MAIS proporciona o acesso e compartilhamento das imagens diárias da constelação PlanetScope. Essas imagens são adquiridas pela maior constelação de satélites de Observação da Terra do mundo. Além de oferecer alta tecnologia global com soluções inteligentes para geração de alertas de detecção de mudanças, visando a proteção dos recursos naturais e o combate ao crime organizado, o programa possibilita o monitoramento diário de todo o Brasil, tornando as mudanças visíveis e acessíveis para ações efetivas. Por meio da aquisição de imagens diárias e do uso de tecnologias avançadas são gerados produtos e serviços online, como mosaicos analíticos e em cores naturais atualizados mensalmente de todo o Brasil, além de índices de processamento. A Plataforma Web funciona de forma intuitiva e permite o acesso 202 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA às imagens diárias, mosaicos mensais, alertas e a emissão de relatórios automáticos analíticos. Essa plataforma também oferece o cruzamento dinâmico de dados e indicadores, atendendo a milhares de usuários. Figura 48: alerta de abertura de pistas de pouso - Brasil MAIS Fonte: Brasil MAIS. 203 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Figura 49: alerta de abertura de pistas de pouso2 - Brasil MAIS Fonte: Brasil MAIS. Um ponto importante a ser destacado é que o programa possui serviços que podem ser integrados aos sistemas já existentes, simplificando o acesso aos alertas. 3.3 Pesquisa Perfil das Instituições de Segurança Pública (PISP) A Pesquisa Perfil das Instituições de Segurança Pública é realizada anualmente, desde 2004, pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública por intermédio da Secretaria Nacional de Segurança Pública com o objetivo de coletar informações, em todas as Unidades da Federação, sobre a estrutura organizacional e funcionamento dos órgãos de segurança pública do país (Polícias Civis, Polícias 204 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Militares, Corpos de Bombeiros Militares e Institutos Oficiais de Perícia), visando subsidiar a elaboração e a execução de políticas públicas para a área. Atualmente, o questionário da Pesquisa Perfil é constituído em torno de sete grandes eixos: Estrutura Organizacional, Orçamento, Gestão da Informação, Recursos Materiais, Recursos Humanos, Capacitação e Valorização Profissional e Resultados. Figura 50: Pesquisa Perfil Fonte: DGI/MJSP Neste sentido, a aplicação do questionário eletrônico é regulamentada pela Portaria nº 265 de 26 de abril de 2021, que disciplina as etapas e o cronograma de execução da Pesquisa. A pesquisa inicia-se com o encaminhamento às Unidades Federativas que distribuem os formulários do tipo survey aos respectivos órgãos respondentes. Estes por sua vez, elegem servidores responsáveis pelo preenchimento das informações, tendo como referência o ano anterior e usando, quando arbitrável, a data de referência de 31 de dezembro (que corresponde à situação do órgão no último dia do ano). Em seguida, abre-se o prazo para preenchimento das informações e devolutiva à Senasp, que, por meio da Coordenação-Geral de Estatística e Análise, realiza a primeira análise de consistência e abre novo período de correções, caso seja necessário. 205 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Por fim, os dados são consolidados e divulgados em duas etapas: uma prévia, para os colegiados dos órgãos respondentes da PISP e uma oficial, para o público em geral, que tem acesso aos dados, aos painéis gerenciais e aos relatórios divulgados por meio do site do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Entre o início da coleta e a divulgação dos resultados, o tempo de execução previsto é de até um ano. Após a conclusão da Pesquisa Perfil das Instituições de Segurança Pública, os dados ficam disponíveis de forma ampla e online, onde também podem ser consultadas as edições anteriores. A realização da Pesquisa simboliza o esforço da Secretaria Nacional de Segurança Pública de produzir informações em âmbito nacional que viabilizem a elaboração de diagnósticos organizacionais que, por sua vez, venham a fortalecer os órgãos de segurança pública, nos diversos níveis. Consulte os resultados da última edição da PISP em: Acesse: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-seguranca/seguranca- publica/estatistica/pesquisaperfil/pesquisas-perfil-da-instituicoes-de-seguranca- publica Consulte outros dados da Segurança Pública no Portal do MJSP. Disponível em: https://www.gov.br/mj/pt-br/composicao/orgaos-especificos- singulares/secretaria-nacional-de-seguranca-publica/diretoria-de-gestao-e- integracao-de-informacoes/coordenacao-geral-de-estatistica-e-analise Saiba mais 206 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA 3.4 Identidade Funcional O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) está criando um sistema que tem como objetivo padronizar a identidade funcional de todos os servidores da segurança pública do país. As identidades estão sendo concebidas em acordo com as diversas agências do sistema e serão implantadas gradualmente. Cada agência terá liberdade para aderir ao sistema, que será totalmente digital. Assim, cada órgão poderá cadastrar e atualizar os servidores da sua corporação no sistema Sinesp, assim como emitir documentos de identidade funcional no formato digital. Essa padronização visa facilitar o intercâmbio de informações entre as instituições de segurança pública e otimizar o atendimento à população. O processo seguirá etapas definidas em portarias publicadas pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Como o processo ainda está em andamento, nem todas as portarias estão publicadas. Assista ao vídeo abaixo e conheça um pouco mais sobre o projeto... Assista em: https://sinespdrive.mj.gov.br/index.php/s/IdentidadeFuncionalPadrao 207 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA Depois do trâmite, se todos os documentos estiverem corretos, a secretaria concederá acesso ao Sistema de Gestão de Identidade Funcional. A Senasp vai realizar treinamentos aos gestores indicados para garantir a implementação correta do sistema. O principal objetivo desta padronização é a possibilidade de validação simplificada e segura destas identidades. Com o aplicativo da identidade funcional, o profissional da segurança pública terá como confirmar a identidade de outros profissionais, incluindo biometria facial. O aplicativo não precisará de internet para realizar tal operação. Prossiga os estudos em outras capacitações disponibilizadas pela Rede EaD Senasp! Até mais!!! 208 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA FINALIZANDO Neste módulo, você aprendeu: O Ministério da Justiça e Segurança Pública dispõe de soluções tecnológicas para utilização pelos Estados com foco no registro de dados, análise, gestão, inteligência e a modernização das instituições. O compartilhamento se dápor meio de acordos que objetivam promover a compatibilização de sistemas de informação e a integração de dados, desde que respeitadas as limitações constitucionais de sigilo e a finalidade pretendida, relativa à prevenção e a repressão da violência. O sistema Sinesp Segurança é uma solução abrangente voltada para prover serviços essenciais relacionados à autenticação, autorização e gestão de usuários com o objetivo de fornecer informações cruciais no contexto da segurança pública nas esferas administrativas federal, estadual e municipal. Dentre os objetivos do Sinesp é possível identificar disponibilização de estatísticas e indicadores para formulação e execução de políticas públicas. Além de prover serviços como assinatura eletrônica e autenticação documental para todas as aplicações de segurança pública que forem integradas, o Sinesp Segurança possibilita realizar a integração de qualquer sistema dos órgãos de segurança pública permitindo o Single Sign-On, simplificando o gerenciamento de autenticação e melhorando a experiência dos usuários. O SSO é uma funcionalidade que permite que os usuários acessem múltiplos sistemas ou aplicativos com apenas uma única autenticação, simplificando a gestão de identidades, economizando tempo e esforço que seriam 209 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA gastos em logins repetidos, e proporcionando benefícios significativos em termos de segurança, produtividade e eficiência para as organizações. O SINESP PPE é uma das soluções de entrada e produção de dados para o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública – SINESP, seu desenvolvimento, manutenção e evoluções são totalmente custeados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e desenvolvidos pela empresa Serviço Federal de Processamento de Dados - SERPRO. Além do registro de boletins o sistema abrange uma vasta gama de procedimentos eletrônicos tais como: Termos Circunstanciados de Ocorrência, Boletins de Ocorrência Circunstanciados, Inquéritos Policiais, Autos de Prisão em Flagrante, Auto de Investigação Administrativa Interna e Auto de Apreensão em Flagrante de Adolescente Infrator. A utilização das soluções SINESP pelas forças da polícia civil, polícia militar, corpo de bombeiros militar, guarda municipais e demais integrantes do Sistema Único de Segurança Pública – SUSP, em especial do SINESP PPE possibilita a padronização de uma metodologia de registro a nível nacional, por meio de parametrizações de tabelas corporativas, tabelas de naturezas de fatos típicos e atípicos permitindo a obtenção de um dado de altíssima qualidade. A Delegacia Virtual - DEVIR do Ministério da Justiça e Segurança Pública, é uma das soluções SINESP que foi desenvolvida com o objetivo de facilitar a comunicação entre o cidadão e a autoridade policial, permitindo a confecção de boletins de ocorrência por meio da internet. 210 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA O Sinesp Infoseg é uma plataforma que integra diversas bases de dados relacionadas à segurança pública no Brasil. Esse sistema permite o acesso a informações relevantes para profissionais da área de segurança, justiça, fiscalização e órgãos de controle. Sinesp Auditoria objetiva garantir a integridade e a governança dos sistemas Sinesp, com o intuito de identificar usuários mal- intencionados, considerando a privacidade do usuário, fornecendo às autoridades solicitantes de auditoria elementos para instruções processuais relacionados aos usos das Soluções Sinesp, quando solicitado respeitando os preceitos legais. o Sinesp Análise se consolida como a solução responsável por fornecer aos gestores e demais interessados os meios apropriados para a construção de estudos e estatísticas nacionais de segurança pública, além de apoiar os processos de investigação e inteligência. O Sinesp Cidadão é um aplicativo móvel do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública que oferece ao cidadão brasileiro acesso direto a serviços do Ministério da Justiça e Segurança Pública relativos à segurança pública. Sinesp Geointeligência é uma ferramenta para análise de eventos espaço-temporais relacionados com ações delituosas. Permite a criação de manchas criminais dinâmicas geoespaciais e rotas que podem ser utilizadas para inúmeras finalidades, por exemplo, o policiamento ostensivo e comunitário O integrante aderente que deixar de fornecer ou atualizar seus dados e informações no Sinesp não poderá receber recursos, nem celebrar parcerias com a União para financiamento de programas, projetos ou ações de segurança pública e defesa social e do sistema prisional. 211 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA REFERÊNCIAS ABRAMOVAY, R. A heurística do medo, muito além da precaução. São Paulo: Estudos Avançados, v. 30, 2016, pp. 167-179. ADEPEJU, M.; ROSSER, G.; CHENG, T. Novel evaluation metrics for sparse spatio-temporal point process hotspot predictions - a crime case study. International Journal of Geographical Information Science, v. 30, n. 11, 2016, pp. 2133-2154. 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Brasília: Ministério da Segurança Pública, 2018. 214 TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA BRASIL. PORTARIA MJSP Nº 2, DE 28 DE JANEIRO DE 2022. Institui o Sistema de Governança do Ministério da Justiça e Segurança Pública, 2022. BRASIL. Portaria MJSP nº 439 de 4 de agosto de 2023. Ministério da Justiça e Segurança Pública, 2023. BRASIL. Portaria nº 793, de 25 de outubro de 2019. Ministério da Justiça e da Segurança Pública. Diário Oficial da União, Brasília, DF, edição 208, seção 1, p.55. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-793-de-24-de- outubro-de-2019-223853575 Acesso em: 14 Set. 23. BRASIL. Presidência da República. Decreto nº 9.489, de 30 de agosto de 2018. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 2018/2018/decreto/D9489.htm\ Acesso em: 18 jul. 23. BRASIL. Presidência da República. Lei nº 13.675, de 11 de junho de 2018. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 2018/2018/lei/L13675.htm\ . 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