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HISTÓRIA DA ARTE E DO DESIGN AULA 6 Profª Débora Jordão Cezimbra 2 CONVERSA INICIAL Nessa nossa longa jornada, viajamos da Ásia para o Mediterrâneo, fomos à Europa, ao Novo Mundo e ao Brasil, descobrimos e questionamos a expressão artística dos diversos povos, desde a antiguidade até os nossos dias. Ademais, vimos o nascimento do objeto industrial e como ele transitou entre o utilitário e o “somente belo”, e agora trataremos sobre a construção da linguagem modernista no design gráfico na Alemanha e na Rússia, o crescimento do consumo e do design no pós-guerra, a pós-modernidade e as origens do ensino dos ofícios e do design no Brasil. Apresentamos a seguir o quadro com os principais acontecimentos e movimento específicos à história do design e como as mudanças resultantes das duas grandes guerras estabeleceram a economia mundial e, em consequência, os caminhos do design. Figura 1 – História do design Fonte: Adaptado de Fiell e Fiell, 2004. A HISTÓRIA DO DESIGN 1.850 d.c. 1.900 d.c. 1.950 d.c. 2.000 d.c. Aesthetic Movement Jugendstil Art Nouveau Deutscher Werkbund Construtivismo Russo Vkhutemas Estilo Tipográfico Internacional Estilo Internacional Art Déco Streamlining Radical Design Pós-Modernismo Memphis Arts and Crafts Ulm ESDI Bauhaus Pós-Guerras Styling 3 CONTEXTUALIZANDO Podemos, estranhamente, ter a percepção de que, nas artes visuais e no design como reflexo de nossa cultura, ao nos aproximarmos das conjunturas de nossa época, maior será a dificuldade de interpretarmos racionalmente as linguagens ou sistemas de signos que estão a nos orientar. É quase como se fossemos tomados por certa miopia tendenciosa que embaça nossa clareza perante aquilo que nos é tão próximo, ainda mais tomando como exemplo nós mesmos e a nossa sociedade pós-moderna. Em aulas anteriores sobre os princípios do design, apresentamos e argumentamos sua origem junto à Revolução Industrial e às tendências e movimentos que ocorreram após esse período, principalmente em relação à construção dos artefatos e suas lógicas mercadológicas e produtivas em uma sociedade que avançava enormemente na tecnologia, mas que matinha seus valores e modos de vida ainda muito próximos à antiguidade. Agora, trabalharemos o design até a atualidade, ou até o ponto que conseguimos vê-lo sem tantas distorções. Outro ponto a se considerar é que agora nossa abordagem tratará sobre o aspecto comunicativo do design, ou como diz Paiva (2018), no caráter reflexivo do design como campo que, ao mesmo tempo em que conduz ao consumo de massa, possibilita reparar certas incongruências da sociedade de consumo, “ou seja, o designer como produtor e criador onde assume uma responsabilidade social no sentido de influenciar a construção da cultura visual e por conseguinte atribuir significados que irão interferir na estrutura de uma sociedade” (Paiva, 2018). E se em aulas anteriores comentamos que o design segrega, nesta, buscaremos evidenciar o papel agregador do design e sua intervenção sociocultural. Buscaremos finalizar nossa conversa – teórica – apresentando algumas relações desenvolvidas por Moraes (1999) quanto aos dualismos existentes no campo do design e que foram evidenciados pelos teóricos na pós-modernidade, como no exemplo de que os países ditos periféricos não deveriam seguir os mesmos princípios projetuais que foram estabelecidos pelos países amplamente industrializados no início do século XX, justificando a origem dos termos design de centro e design de periferia. Mesmo sendo um quadro com relações simples, 4 ele elucida certas categorias de problemas que lidamos ainda, de forma constante, em nossa prática profissional. Figura 2 – Dualismos no campo do design Fonte: Adaptado de Moraes, 1999. TEMA 1 – O CONSTRUTIVISMO RUSSO A faceta social e política da arte, e por consequência do design, encontrou no período moderno e no contexto nacionalista de alguns países da Europa e da Ásia um fértil campo de representação entre o fim do sec. XIX e início do XX, haja vista o exemplo da Bauhaus e da resistência do país ao fim da Primeira Guerra, e em que saiu derrotado, mas que conduziu ao incentivo do que seria “verdadeiramente alemão”. Cardoso (2004) explica que pelo nacionalismo presente na Alemanha após conflito, fez-se crescer o patriotismo e o orgulho nacional. Para o autor, a ideia de nação como a “instância máxima de representação das pessoas e não mais o rei soberano, mas sim uma nação soberana (soberania nacional)” passa a vigorar nas sociedades globais durante e após o período, e de certa forma estimulada pela concorrência econômica e pelos avanços técnico-científicos. Contudo, o cenário russo era diferente dos demais países, já que se apresentava resistente à economia capitalista e ao liberalismo econômico, mantendo-se ainda vinculado a uma governança monárquica nas mãos de um artesanal X industrial arte pura X arte aplicada forma X função natural X artificial método X intuição mecânica X eletrônica local X global real X virtual materialismo X pós-materialismo moderno X pós-moderno socied. industrial X socied. pós-industrial 5 czar e a riqueza fundamentada na produção agrícola, adotando um regime de trabalho muito próximo ao existente na idade média. Tal contexto conduziu à revolta tanto burguesa, que não via no horizonte crescimento e os mesmos privilégios dados à Igreja, quanto popular, insatisfeita com as condições de vida, trabalho e sustento. O período foi, então, marcado por desacordos internos e revoltas sangrentas que culminaram em uma guerra civil (aproximadamente 1917-1921) e com o estabelecimento de um “novo sistema” liderado por Lênin (1870-1924), que trouxe mudanças nas relações com os camponeses (rural) e operários (indústria), na abertura econômica “aos moldes capitalistas” e no fortalecimento da cultura e da liberdade artística, levando, então, anos depois, à criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS (1922-1991), quando se estabelece a luta anti-imperialista e de liberdade social (Santos, 2014). Durante esse período, a vanguarda artística russa se organiza em diversificados movimentos, com destaque ao Suprematismo e ao Construtivismo. O primeiro caracterizado pela arte de Kazimir Malevich (1870- 1935) e que tinha no “Quadrilátero Preto” o grande ícone moderno por considerá- lo uma abstração em si mesmo, não ser nada além do que é (Janson, 1994). A abstração geométrica – e suas ramificações – foi muito influente no construtivismo russo liderado por Vladmir Tatlin (1885-1953). Para Tatlin, a arte está no resultado “do processo ativo entre o material e a técnica”, sendo, portanto, uma construção e não uma representação, seguindo a oposição clássica à “arte de cavalete”. O cubo-futurismo alicerçou diversos movimentos e tendências de vanguarda, como o neoplasticismo, o futurismo russo (que difere do italiano pelo menor apresso à máquina, ver também Raionismo), e o próprio construtivismo. Outro ponto a se considerar influente, tanto na vanguarda russa quanto em grande parte da produção artística até hoje, foi o cubismo de faceta de Picasso e Braque, o qual estabeleceu duas importantes estéticas: a colagem e a desconstrução. No cubismo, com base em Picasso, é evidente a intenção de desconstruir a natureza observada para então reconstruí-la ao julgo do artista e da livre expressão modernista. Já a justaposição de planos, ou quadros – e, ousamos aqui dizer, dos frames pós-modernos – na colagem se compõe também pela aparência do material. Recordemos os artistas do Dadá. Para Le Bot (2008), 6 na modernidade, diferentemente de toda arte anterior, a técnica deixa de ser o adjetivo, o “meio”, e passa a ser o substantivo. No construtivismo russo, talvez os dois grandes “meios” tenham sido afotomontagem e o pôster (<https://www.internationalposter.com/>). Para Fabres (2012), o pôster, como objeto artístico, pertencente ao ambiente urbano, sendo um meio de chamar a atenção persuadindo pela mensagem. É possível encontrar pôsteres de filmes (cinema construtivista russo) acessando o seguinte site <https://theculturetrip.com/europe/russia/articles/a-gallery-of-constructivist- film-posters/>. A propaganda russa se destina à população em considerável número de analfabetos, justificando, até certo ponto, o emprego de símbolos (e imagens “simbólicas”) acompanhado de frases curtas e objetivas como os elementos compositivos. Embora esses elementos tenham sido sempre básicos no anúncio publicitário, com o construtivismo os elementos se integram, ou até mesmo combinam, em uma linguagem definitivamente própria. Contudo, diferentemente do simbolismo místico nas narrativas dos vasos gregos e nos sepulcros da arte paleocristã, os quais serviam ao reconhecimento da presença da fé entre os perseguidos, no construtivismo ele serve para “garantir o apoio das massas”, fortalecendo a nação. Como exemplo, na bandeira soviética há a foice e o martelo e a estrela de cinco pontas (Santos, 2014). No ensino, similar às intenções da Bauhaus alemã, havia, na Rússia, escolas voltadas à arte e cultura, com destaque ao Vkhutemas – Instituto Superior de Arte e Técnica, fundado em 1920 – e que foi tema de exposição no Sesc Pompéia, na cidade de São Paulo, no ano de 2018 (<https://www.youtube.com/watch?v=2BuO0aEy-6E>). Para Santos (2014), o incentivo de Lênin à cultura visava tornar a arte acessível a todos, principalmente ao proletariado, distanciando da tradição clássica europeia de arte ao serviço da burguesia. Tal intenção foi possibilitada pela impressão gráfica em massa de pôsteres. Contudo e sob o comando de Stalin, iniciou-se o controle da produção artística, dando lugar ao movimento denominado Realismo Social, menos conceitual que o construtivismo, com forte teor nacionalista, além do excesso de militarismo e da valorização do “líder” da nação. 7 Figuras 3 e 4 – Selos postais soviéticos (1963 e 1965): influência do Realismo Social Crédito: Life_Is_Fantastic/Shutterstock; Amateur007/Shutterstock. Esses contextos todos acabam por definir os caminhos do design gráfico na Rússia, o da propaganda política1. Para Cardoso (2004), os movimentos de vanguarda caminharam ao lado no design gráfico moderno na Rússia com Malevich e Tatlin, e também Alexander Rodchenko (1891-1956), El Lissitzky (1890-1941), Varvara Stapanova (1894-1958), Alexander Vesnin (1883-1954) e na influência artística Aleksandra Ekster (1882-1949), Liubov Popova (1889- 1924), Olga Rozanova (1886-1918), Antoine Pevsner e seu irmão Naum Gabo. Nesse mesmo contexto e fora da Rússia, os fundamentos do design gráfico moderno foram sendo determinados pelos trabalhos desenvolvidos na Bauhaus por Herbert Bayer (1886-1918), Jan Tschchold (1902-1974), Joost Schimidt (1893-1948), Theo van Doesbur (1883-1931) e Moholy-Nagy. TEMA 2 – O DESIGN ENTRE GUERRAS Aspecto relevante quanto à produção no design gráfico da Bauhaus, antes de retomarmos aos aspectos universais do design após a década de 1930, foi o surgimento, em 1928, da Nova Tipografia, a qual que vem, anos depois, a se consolidar como o principal modo de concepção do design gráfico modernista através do Estilo Tipográfico Internacional na Suíça. 1 Vale a atenção na equivocada afirmação que o construtivismo russo inaugurou o tema político na arte. Para quem o profere cabe o desconhecimento da arte em Roma e do teor nacionalista do romantismo. A estratégia de design da Werkbund e da Bauhaus também era política, a partir da ideia de fortalecimento da nação. Recomenda-se a leitura do livro “O Papel Social do Design Gráfico” da Editora Sena São Paulo. 8 Para Hollis (2001), a tipografia da Bauhaus partia de diferentes tipos, mas que tinham em comum a “ausência da serifa, os grandes numerais e preferência pela caixa baixa, e as informações eram organizadas visualmente com o auxílio de barras e linhas horizontais e verticais”, podendo ser vista nas publicações editoriais da escola desenhadas por Moholy-Nagy, que afirma não existir preferência por forma, tamanho ou cores para os tipos. Com Jan Tschchold, a nova tipografia cresce em “importância de funcionalidade2 tipográfica”, em layouts concisos, e o conteúdo ordenado é distribuído “de forma intuitiva” na página, estabelecendo relações visuais entre os elementos (modelo hierárquico). No estilo tipográfico internacional, surgido na década de 1950 na Alemanha e Suíça, a expressividade compositiva se subverte na composição da página, exigindo, primeiramente, a estruturação geométrica do grid e de suas proporções matemáticas. Acreditava-se que, dessa forma, seria possível produzir uma “composição anônima e que não expressasse uma autoria direta e individual” (Araújo; Mager, 2016). As autoras relatam a importância do trabalho do designer e professor suíço Josef Müller-Brockmann (1914-1996), o qual indiscutivelmente clarifica a mágica existente em determinar visualmente uma retícula sobre o mundo visível e as inúmeras combinações harmônicas possíveis entre os elementos de uma página. Quem sabe tal proposição de Müller-Brockmann tenha se aproximado do vigor sentido na renascença com a descoberta da perspectiva e suas janelas? Contudo, o mesmo impasse: o que fazer ao fim, quando todas as possibilidades de combinação tiverem sido testadas? Novas ordens seriam necessárias, senão na matemática no meio, como nas atuais técnicas de “prototipação” (wireframe) para o design de experiência ou na constatação que o estilo não era tão anônimo assim, estando sujeito a maneirismos. Müller-Brockmann foi um importante teórico dos princípios gráficos praticados na Suíça durante as décadas de 1950 e 1960, promovendo uma expressão gráfica universal e que não evidenciasse a subjetividade do designer, atenuando as técnicas persuasivas da publicidade. Foi um dos fundadores da revista Neue Grafik (New Graphic Design), responsável por divulgar o “Estilo Suíço” à comunidade Internacional (Quadros; Quadros Jr., 2003). 2 A funcionalidade da tipografia é arbitrária, privilegiando, às vezes, a legibilidade, e em outras a multiplicidade de significações na perspectiva da semiótica. 9 Para Cardoso (2004), as proposições que seguiram da nova tipografia ao estilo internacional e formaram as “feições” do design gráfico moderno “tendeu a se tornar enfadonho e repetitivo” a boa vontade democrática de um design pautado em objetivos técnico-científicos – com suas raízes na Bauhaus – acabaram por “afastar a criatividade individual e uma não tão interessante pretensão de criar normas e regras para o design”. Cauduro (2000) argumenta que o design gráfico só irá abandonar “a monotoni” a partir da década de 1960, com o trabalho de outros suíços Wolfgang Weingart (1941) e o coletivo O&T (Odermartt & Tissi) com a “volta do humor, da improvisação e do simbolismo”. Para Kopp (2002), a transição do modernismo para o pós-modernismo no design gráfico envolve a fórmula já conhecida nas transições artísticas, com o resgate aos “modos antigos” e prioridade da atitude (expressão) em detrimento à exatidão da informação (razão) a partir da New Wave Typography e da Revolução Digital, além das iniciativas de grupos italianos como o Memphis e do movimento Retrô (Cauduro, 2000). No outro lado do Atlântico, os Estados Unidos deixaram um difícil período econômico na década de 1930, expandindo sua produção industrial tanto para abastecer o conflito com armas, aviões e insumos básicos quanto para auxiliar a Europa, impossibilitada de produzir e que perdeu sua hegemonia no setor. O Brasil também alcançou, entre 1940 e 1950, crescimento por meio da produção agrícola, de minériose petróleo (Cardosos, 2004). O autor contextualiza que as mulheres, que haviam tomado a frente de trabalho no país, ao fim da guerra, e o retorno dos homens e a necessidade de reposicioná-los no mercado de trabalho acabou por contribuir para o desenvolvimento de uma estratégia social e cultural (American way of life) ao retorno das tradicionais – e vitorianas – necessidades femininas na constituição do lar, através de uma ampla oferta de artigos domésticos, principalmente eletrodomésticos e suas campanhas promocionais, intencionando “dar trabalho às mulheres ao invés de poupar-lhes”. 10 Figura 5 – Cozinha norte-americana da década de 1950 Crédito: Everett Collection/Shutterstock. TEMA 3 – O DESIGN DE 1960 A 1980 O pós-modernismo como movimento sócio e cultural remonta ao fim da URSS em 1991 e da queda do muro de Berlim em 1989. Baldo (2005) relata que, para o teórico Fredric Jamenson, a pós-modernidade apresenta-se mais como uma “dominante cultural” do que um estilo em específico. Essa “dominante” foi se configurando a partir das diversas crises da atualidade e de um mundo globalizado (social e econômico), impulsionada pela terceira fase do capitalismo, em que a ideia moderna de tempo presente (fugaz), passado (determinador) e futuro (inatingível) não existe mais. Como esclarece Fabbrini (2012), para Jamenson, o fim das vanguardas artísticas – e do projeto moderno –, assim como a ideia de progresso, do aperfeiçoamento e da linearidade do andar sempre à frente, é substituída pela fragmentação, a quebra dos mitos e pela multiplicidade de perspectivas. A linguagem visual do período moderno permanece viva. De todo modo, “a produção estética se funde à produção de mercadorias” e o “espaço mundial é do capital internacional”. A década de 1960 antecede e aproxima a pluralidade que viria no pós- modernismo, sendo uma época repleta de movimentos das minorias e radicalismo social, como em maio de 1968, em Paris, e a Lei dos Direitos Civis dos Negros, em 1964, o Movimento Beat e o anti-guerra do Vietnã, nos EUA, da libertação das mulheres e direitos LGBT e muitos outros de contracultura, os hippies, o psicodelismo e a música nos guetos e suas inscrições urbanas, o grafite. A rua ganha dimensão ideológica e artística, como Jean-Michel Basquiat (1960-1988). Hoje com Banksy, Hijack e Os Gêmeos. 11 Para Garner (2008), a multiplicidade da década de 1960 enriqueceu o design, sustentado pela década anterior e pela cultura do consumo e produção industrial crescente dos EUA e Japão, além da retomada econômica dos países europeus. A importância da moderna arquitetura do Estilo Internacional e seu racionalismo elegante e funcional estava nos espaços públicos e privados. O Good Design3 (Guten Form de Max Bill e Maldonado em Ulm) e o design escandinavo, tendo como um dos seus principais expoentes o designer Alvar Aalto (1898-1976) (<https://designculture.com.br/o-design-escandinavo>), foram fortalecidos na década de 1950. Na outra ponta, da metade em diante da década de 1960, as percepções sobre o universo jovem nas ruas de Londres ganhou destaque pelo designer Ettore Sottsass (1917–2007) para a revista italiana Domus (<https://www.design-is-fine.org/post/51808625201/ettore- sottsass-memoires-di-panna>). O Kitsch ressurge na década de 1950 em oposição ao Good Design e com o incentivo ao consumo de objetos não funcionais, chegando aos anos de 1970 como uma forma consciente e irônica de empregar o mau gosto, principalmente na decoração. Em fato, o termo kitsch já aparece na década de 1920 e 1930 para referenciar a produção popular tida como duvidosa, com réplicas malfeitas e baratas e normalmente em plástico (Fiell; Fiell, 2005). A Itália, ao fim da década de 1960, vivia a retomada do protagonismo criativo, principalmente pela atuação de designers e grupos vinculados ao Anti- Design e a ideia, até certo ponto jocosa, do uso do ornamento pelo seu aspecto simbólico e que havia sido renegada pelo funcionalismo na produção de objetos “frios e sem vida” (Fiell; Fiell, 2005). Em fato, o anti-design, que produziu em grande parte protótipos, foi um movimento de contracultura no design em oposição à servidão aos interesses industriais – ao consumo desenfreado e à intencionalidade da obsolescência estilística dos objetos – propondo que o design fosse conceitual (ver arte conceitual) e que designers expressassem sua postura crítica quanto às causas sociais, políticas e culturais (Paiva, 2018). Por outro lado, havia o design pop e inflável – do grupo De Pas, D’Urbino & Lomazzi, com as icônicas cadeiras Blow. O Design Radical foi outro movimento italiano na arquitetura, arte e design, e fizeram parte desse movimento Alessandro Mendini (1931-2019), o Gruppo Strum, Superstudio, Archizoom Associati e o Studio Alchimia, que daria 3 Ver também ‘10 princípios do Bom Design’ de Dieter Rams (1932). 12 origem ao Memphis, em 1981, buscando retomar os trabalhos do Design Radical (1960) e fizeram parte, além de Sottsass, Andrea Branzi, Barbara Radice, Michele de Lucchi, Marco Zanini, Nathalie Du Pasquier, Hans Hollein, Javier Mariscal, Massaroni Umeda, Michael Graves, Peter Shire, entre outros. O design vibrante e juvenil do Memphis caracterizou o que viria na pós-modernidade, sendo tão plural quanto a sociedade contemporânea global. O grupo, ciente que fazia parte da efemeridade da moda, encerra suas atividades a partir de 1988 (Fiell; Fiell, 2005). Outros grupos do período, porém ligados às artes visuais, foram o Gruppo T (Anceschi, Boriani, Colombo, Devecchi), o Gruppo N e os franceses do Recherches Visuelles (Morellet, Le Parc, Sobrino, Yvaral, Stein) (Dorfles, 1978). TEMA 4 – O CENÁRIO PÓS-MODERNO O termo pós-industrial, para Daniel Bell, vem definir a mudança da estrutura social que deixa sua base industrial e migra para uma estrutura econômica da informação e da tecnologia. No entanto, e como já discutimos aqui em momentos anteriores, os termos necessitam de seu tempo até se tornarem “definitivos”, e mesmo assim sempre a depender do contexto do interpretante, ainda mais quando tratam de terminologias contemporâneas. Leite (2019) argumenta que o termo “sociedade da informação” teve melhor aceite na comunidade política internacional do que uma real definição teórica de sua abrangência, contudo, “vingou” perante a supremacia da globalização, mas como colocado por Paiva (2018), sobre o vídeo/campanha criado a pedido da empresa sueca Semcon, a sociedade conectada à informação não é, necessariamente, uma sociedade inteligente ou sociedade da inteligência. O vídeo pode ser acessado em: <https://vimeo.com/221449473> Para Colombo (2012), sentido há na crítica do filósofo Gilles Lipovetsky sobre a sociedade pós-moderna, na qual as relações se definem pela imagem, que é antes de tudo publicitária por persuadir, seduzindo pelo consumo, ação esta de natureza efêmera e que encontra, na lógica contemporânea, o argumento institucionalizado da obsolescência estilística e em que as empresas que não produzem constantemente o novo (superior ao antigo, como dito por Dorfles), perdem seu valor de mercado. Contudo, pensemos que talvez a não satisfação em determinado produto possa ser a estratégia para que o novo surja melhor, aperfeiçoado. 13 Cardoso (2004) coloca que o consumo como atividade de lazer se institui na Europa, sendo que antes do século XIX, “ir às compras” não era algo muito interessante pelo fato da pouca opção de oferta. Era possível encontrar o produto padrão e aquele um pouco melhor. Foi com a ampliação no consumo de produtos supérfluos, tidos na época como de luxo, que incentivaram a mudança nos hábitos de consumir, tornando-a uma atividade de lazer. O cenário, a partir da segunda metade do século XX, é outro. A sociedade pós-industrial, no design, abandona uma era (de1910 a 1960) em que a tônica não está mais na subserviência à indústria de massa típica do fordismo, e o design, além de serviços, passa a oferecer produtos “únicos”, concebidos com maior expressividade criativa, como nos trabalhos de Ron Arad (1951), Tom Dixon (1959) e Philippe Starck, e nas novas práticas para o design, como a “obra de arte utilizável” (Fiell; Fiell, 2005). Figura 6 – Stand da empresa italiana Alessi na Mostra de Milão, em 2014 Créditos: TINXI/Shutterstock. Moraes (1999) apresenta um quadro comparativo e complementado pelo sociólogo Domenico de Masi, anteriormente iniciado por Daniel Bell, quanto às diferenças existentes nas eras da pré-industrialização (fim do século XVIII), industrial (do século XVIII ao XX) e pós-industrial (a partir da Segunda Guerra). Conforme o autor, a pós-industrialização é caracterizada, entre outros, por instituições flexíveis, democráticas e neoliberais, pela ampliação de setores de inteligência, informação e pesquisa, redes múltiplas de comunicação e 14 participação e os desafios quanto à qualidade de vida, pobreza, saúde (psíquica) e ecologia e as necessidade pós-materialistas. Para Cardoso (2004), a pós-modernidade, para o design, além da perda das certezas, envolve o novo entendimento quanto ao progresso e numa nova métrica qualitativa em relação às mudanças, à cibercultura e ao avanço das tecnologias eletrônicas e computacionais e seus respectivos projetos (UX e UI como exemplos), e o equilíbrio – se é que há – entre mercado e meio ambiente, além das tendências orientadas às tecnologias digitais para a produção, como o Crowdsourcing, Open design, Movimento Maker, Fabricação Distribuída, Indústria 4.0 e Design Generativo (OGG, 2019). Dentre todos esses aspectos e sendo pertinente às pesquisas futuras e que envolvem conceitos e práxis do design, deixo, ao fim deste nosso estudo, dois importantes e, até certo ponto, atuais aspectos para reflexão. O primeiro diz respeito ao que se define como Estética Relacional (e o Design Relacional), com base nas proposições do crítico Nicolas Bourriaud sobre os cenários em que se articulam relações humanas espontâneas, cada vez mais difíceis, e definidas por nichos de consumo, observadas em coletivos, cafés e outras formas de ativismo, e que interagem por diversas (e novas) técnicas e formatos de comunicação. Esse conceito, até certo ponto produtivista e orientado ao processo (método), pode estar na origem dos novos modelos de design voltados à experiência, como o projeto de serviços, de UX e da arquitetura da informação, assim como na intervenção, puramente visual, do design gráfico (Reactor, 2010). As demais metodologias projetuais, principalmente as voltadas aos sistemas ecológicos, como o Life Cycle Design, Projeto para o Ciclo de Vida, e as amplas estratégias conceituais e produtivas e que visam ao melhor uso para os artefatos e a redução do emprego de recursos materiais e naturais não renováveis, assim como a promoção e melhoria da qualidade de vida para todas as populações. Esses argumentos são elucidados nas teorias de Victor Papanek (1923- 1998), Ezio Manzini (1945), Thierry Kazazian, Carlo Vezzoli, Cindy Kohtala e muitos outros designers e teóricos desse campo. TEMA 5 – O ENSINO DO DESIGN NO BRASIL Estudamos, em temas anteriores, sobre as primeiras escolas modernistas de design na Rússia e na Alemanha e que definiram a linguagem, os preceitos e métodos seguidos no avançar do ensino do design durante os séculos XX e 15 XXI. Contudo, desde o início da Revolução Industrial, alguns países já investiam na melhoria da mão de obra local, como a britânica Schools of Design, de 1837 (Cardoso, 2004). Conforme o autor, no Brasil Império, mesmo com os esforços na criação da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, fundada no Rio de Janeiro, em 1827, o país se manteve em uma tradição agrícola, limitando sua produção industrial à fabricação em pequena escala e que visava ao consumo interno. Para Ferreti e Silva Jr. (2002), as mudanças quanto à propedêutica foram, no Brasil, diferentes do resto do mundo devido à estrutura que manteve durante muito tempo a força de trabalho na mão dos escravos, e que foram sendo substituídos por mão de obra “previamente qualificada” dos imigrantes vindos da Europa e da Ásia. Em fato, o período pós-escravatura influenciou o desenvolvimento da indústria nacional e os valores capitalistas. Ademais, com a implantação do Ensino de Ofícios na República Velha, e devido ao perfil social, cultural e principalmente da política nacional, essas iniciativas de ensino buscavam muito mais “corrigir” e “ocupar” os jovens do que realmente ensiná- los para a valorização da “força de trabalho” e, em consequência, do produto, ou uma “forma de fazer” (práxis) nacional (Wiedmann; Neto, 2016). Cunha (1979) coloca que, mesmo com a fundação da Escola de Belas Artes, em 1820, e as demais formações em nível superior de base militar no Rio de Janeiro e na Bahia (e o curso de desenho técnico em 1818), possibilitadas pela chegada da família real no país, em 1808, os fatores existentes entre a coroa e a colônia e a posição portuguesa, que em partes favorecia a Inglaterra em meio às ordens napoleônicas, conduziu, durante certo tempo, a não permissão da atividade “de artesãos” na colônia, o que foi mudando gradualmente somente sob o controle do príncipe regente e com a República. De toda forma, Gonçalves (1981) coloca que houve tentativas, em 1881, de exposições e escolha dos melhores produtos manufatureiros, como cerâmicos e materiais de construção, para participarem da Internacional de Londres, de 1863, porém, sem sucesso significativo frente ao já avançado sistema e produtos industriais europeus. O design retornará aos temas nacionais somente na década de 1930, principalmente pela influência norte-americana, sendo fundado, em 1948, o Estúdio de Arte de Palma por Lina Bo Bardi (1914- 1992) e Giancarlo Palanti (1906-1977), com a produção de móveis adequada à realidade brasileira. Em 1950, houve o início do curso, que durou apenas dois 16 anos, de Desenho Industrial no Museu de Arte Moderna, e o surgimento dos primeiros escritórios profissionais autônomos. Uma filial do escritório de Raymond Loewy foi inaugurada em São Paulo no ano de 1947, e mesmo com bons clientes, encerrou as atividades no mesmo ano (Cardoso, 2004). No entanto, foi a ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial e hoje vinculada à UFRJ (<http://www.esdi.uerj.br/>), aberta em 1963, que veio a instituir a permanência – e estilo – do ensino do design no Brasil. Pensemos que, com as duas guerras e o encerramento da Bauhaus, muitos professores e profissionais migraram para os EUA, como exemplo as iniciativas de Moholy-Nagy em Chicago até a abertura do Institute of Design, em 1944, e hoje o IIT (<https://id.iit.edu/>). Outrossim, a principal iniciativa foi na cidade de Ulm, na Alemanha, a Hochschule für Gestaltung, mais conhecida como Escola de Ulm (Cardoso, 2004). A Escola de Ulm, apesar da inspiração bauhasiana e com a presença de parte de seus membros e forte tendência funcionalista, diferenciou-se por introduzir aos métodos de ensino disciplinas como a semiótica, a antropologia e psicologia, indicando o olhar aos aspectos humanos. Neste ponto, é importante pensar que, no período, avançavam os estudos comportamentais e motivacionais nas organizações por Elton Mayo, assim como a psicologia cognitiva. A Escola de Ulm contou com professores e teóricos como o argentino Tomás Maldonado (1922-2018), Gui Bonsiepe4 (1934-) Charles Eames (1907- 1978), Hans Gugelot (1920-1965), Horst Rittel (1930-1990) e Max Bill (1908- 1994). Max Bill esteve proferindo palestras no Brasil em 1956 no incentivo à abertura e desenvolvimento dos cursos de desenho industrial, assim como Maldonado. No entanto, a pouco estruturalocal atrasou, em parte, esses planos. A ESDI inicia suas atividades no ano de 1963 após a viagem do secretário de cultura (do antigo estado da Guanabara) à Europa para conhecer a Ulm e que, em seu retorno, trouxe para o país a ideia de uma escola com o objetivo de formar profissionais em nível superior e que pudessem “atender às demandas 4 O designer alemão Gui Bonsiepe atuou no Brasil e no CNPq com políticas voltadas ao design e que contribuíram para a formação do Programa Brasileiro de Design. Para mais informações sugere-se a leitura do artigo: <http://pdf.blucher.com.br.s3-sa-east- 1.amazonaws.com/designproceedings/ped2016/0148.pdf>. Gui Bonsiepe atuou também nos contextos do ‘design periférico’ e é autor do livro “Design: do material ao digital”. 17 industriais através de uma formação técnica, científica, artística e cultural em industrial design e graphic design” (Gonçalves, 1981). Fizeram parte do quadro docente da ESDI os designers Aloísio Magalhães (1927-1982), Alexandre Wollner (1928-2018), Karl Heinz Bergmiller (1928-), Goebel Weyne (1933-2012) e outros importantes profissionais das áreas de jornalismo, artes e comunicação. Para Basso e Staudt (2010), o currículo proposto pela ESDI foi seguido pela grande parte dos cursos nacionais que surgiram posteriormente, sendo hoje determinados pelas Diretrizes Curriculares para os Cursos de Graduação e pela Resolução n. 5 de março de 2004. A partir desse pequeno fragmento histórico sobre o ensino dos ofícios e inserção do ensino do design no Brasil, eixamos também a reflexão quanto aos atuais e importantes aspectos e necessidades da indústria e dos setores social e cultural (Economia Criativa entre outros) e que focam na necessidade de o desenvolvimento nacional ser realmente atendido a partir das lógicas (e linguagens estrangeiras) importadas de outros modelos internacionais, assim como deixamos a indicação de acesso aos inúmeros endereços eletrônicos que disponibilizam os nomes e trabalhos desenvolvidos por nosso designers, como: <https://www.canva.com/pt_br/aprenda/40- designers-graficos-brasileiros-voce-precisa-conhecer/> e os vídeos da série Designers Brasileiros <https://canalcurta.tv.br/series/serie.aspx?serieId=436>. TROCANDO IDEIAS A proposta deste Trocando Ideias envolverá questionar a transição do design gráfico modernista para o período pós-moderno. Para isso, a proposta deste wiki envolverá o texto Vanguarda + Tecnologia = David Carson, disponível em: <https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4370022/mod_resource/content/1/Zan on%20vanguarda%20_%20Tecnologia%20David%20Carson.pdf>. Sugere-se também a busca por mais matérias e os trabalhos de David Carson, considerado um “anti-grid”. Traga para seus questionamentos e argumentos a importância que você dá ao grid e às técnicas de execução e ferramentas digitais, e como elas interferem no processo criativo do designer. 18 NA PRÁTICA A atividade deste Na Prática envolverá o seu lado “designer ativista” para desenvolver um pôster em tamanho A3 de acordo com uma causa importante para você, podendo estar num contexto social, político, cultural e ambiental. Você deverá: 1. Escolher uma causa com a qual se identifique e que gostaria de defender. 2. Escolher a(s) imagem(s) ou ilustração que expresse sua causa. 3. Escolher uma frase, ou texto, que dialogue com a imagem e sua causa, determinando a tipografia que acredite se relacionar ao contexto. 4. Justificar todas as suas escolhas, mesmo as intuitivas. FINALIZANDO Nesta aula, abordamos: • A linguagem gráfica russa. • O Estilo Tipográfico Internacional. • A linguagem modernista no design gráfico e de produto. • A importância social do design. • O contexto do design na pós-modernidade. • A estrutura curricular do ensino do design. 19 REFERÊNCIAS ARAÚJO, G. O.; MAGER, G. B. Contribuições da Nova Tipografia e do Estilo Internacional para a hierarquização visual da informação. Infodesign, Revista Brasileira de Design da Informação, v. 13, n. 2, p. 119-142, 2016. BALDO, L. M. L. Olhares sobre o pós-moderno. Trama, v. 1, n. 2, Unioeste, 2005. BASSO, C. R.; STAUDT, D. A influência da Escola de Ulm e Bauhaus na estrutura curricular das escolas. Revista Conhecimento Online, Periódicos Feevale, Novo Hamburgo, v. 2, 2010. CARDOSO, R. 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