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O crescimento e desenvolvimento da cultura são influenciados pela variável térmica e pelo número de horas de luz diária. O fotoperíodo é a quantidade de horas de luz de um dia e exerce grande influência no florescimento da cultura. Por essa razão existem cultivares de soja de diferentes grupos de maturação relativa disponíveis de norte à sul do país. De maneira geral, quanto maior a latitude (ou seja, quanto mais ao sul) a região, menores são os grupos de maturação relativa disponíveis. Exemplo: no Rio Grande do Sul são normalmente encontrados cultivares dos grupos de maturação relativa 5 a 6. Já no Tocantins, são encontrados cultivares dos grupos de maturação relativa 7,5 a 8,5.
A temperatura exerce grande influência tanto no florescimento como no acúmulo de biomassa das plantas de soja. Assim, quanto menor a temperatura (abaixo da temperatura ótima e acima da temperatura inferior crítica), menor o acúmulo de biomassa pela planta e mais dias ela levará para florescer (quando comparada à outras plantas do mesmo grupo de maturação relativa e dentro do mesmo fotoperíodo).
Para exemplificar, observem os dados reais de duas áreas de soja da safra 16/17, ambas semeadas com o mesmo cultivar (grupo de maturação relativa 6,2):
- Área 1: Ponta Grossa (PR). Semeadura: 05/11/2016. Florescimento: 10/01/2017.
- Área 2: Piracicaba (SP). Semeadura: 20/11/2016. Florescimento: 06/01/2017.
Observem que, mesmo semeada após a área 1, a área 2 floresceu quatro dias antes. Ou seja, a área 1 floresceu 66 dias após a semeadura, enquanto a área 2 floresceu 47 dias após a semeadura. Analisando a posição geográfica dos dois municípios, observa-se que Piracicaba está mais ao norte que Ponta Grossa, portanto a primeira apresenta um fotoperíodo menor que a segunda. Deve-se considerar também que a área em Piracicaba foi semeada 15 dias após a área em Ponta Grossa, o que acentua as diferenças em fotoperíodo vivenciadas pelas plantas. Entretanto, a diferença no fotoperíodo das duas regiões não é tão acentuada quanto parece: o fotoperíodo médio da semeadura até o florescimento da área de Ponta Grossa foi de 13h e 26 minutos (máximo: 13h e 34 minutos; mínimo: 13h e 07 minutos), enquanto que em Piracicaba o valor médio foi de 13h e 21 minutos (máximo: 13h e 24 minutos; mínimo: 13h e 13 minutos).
É necessário analisar também o fator temperatura. Em Ponta Grossa, as temperaturas médias para os meses de novembro e dezembro de 2016, foram de 19°C e 21°C, respectivamente. Já Piracicaba – SP apresentou temperaturas médias nos meses de novembro e dezembro de 2016 iguais à 23°C e 24°C, respectivamente. Dessa forma, pode-se afirmar que as temperaturas mais baixas nos meses de novembro e dezembro de 2016 na região de Ponta Grossa foram de extrema importância para a diferença no florescimento do cultivar quando comparadas à região de Piracicaba.
Portanto, uma análise conjunta de temperatura e fotoperíodo são determinantes para entendimento do crescimento e desenvolvimento da cultura da soja em diferentes latitudes e épocas de semeadura.
A luz influencia as culturas de diversas maneiras. No caso da soja, essa influência vai além da fotossíntese, afetando o florescimento da cultura. As plantas dessa espécie são classificadas como de dia-curto, isto é, seu florescimento ocorre abaixo de um valor chamado de fotoperíodo crítico. Outro ponto crucial é o chamado período juvenil, o qual é a fase de pré-indução/insensibilidade da espécie ao fotoperíodo.
Vejamos o que significa cada um desses pontos.
1.Fotoperíodo: é a variável climática a qual identifica o período de luminosidade solar na Terra, ou seja, o período que vai do amanhecer ao pôr do sol. Tal valor é maior para as maiores latitudes no verão e menor no inverno para as mesmas. Também, para uma região de latitude maior que zero, o fotoperíodo apresenta um valor máximo no dia 21/12 (início do verão) e mínimo no dia 21/06 (início do inverno). Assim, observa-se que quanto mais ao norte do Brasil, menor o valor de fotoperíodo alcançado durante a época de cultivo da soja; e quanto mais atrasada a semeadura, menor o valor do fotoperíodo.
2.Fotoperíodo crítico: Para entender a função ecofisiológica do fotoperíodo crítico, utilizemos a seguinte situação hipotética: para cultivares com a mesma duração da fase de pré-indução floral, a variedade com maior fotoperíodo crítico será classificada como a de menor grupo de maturação relativa, e consequentemente será indicado para regiões de maiores latitudes (mais ao sul do Brasil, ex.: Passo Fundo-RS) e semeaduras mais antecipadas dentro do zoneamento agroclimático. Assim, o maior fotoperíodo das regiões de maiores latitudes atenderá a fotossensibilidade de cultivares de maior fotoperíodo crítico. Agora, caso este mesmo cultivar fosse semeado em menores latitudes (ex.: Sinop-MT) que apresentam menor fotoperíodo durante a safra de soja, o resultado seria um florescimento precoce, o que resultaria em menor número de nós, menor porte de planta, menor inserção de primeira vagem, menor número de vagens.m-2, e consequentemente, menor produtividade.
3.Período juvenil: Jutamente com o fotoperíodo crítico, a duração da fase juvenil (pré-indução/insensibilidade floral) também determina o florescimento da cultura. Para entendermos o funcionamento dessa caractetística, utilizemos novamente uma situação hipotética com dois cultivares de mesmo valor de fotoperíodo crítico, sendo um deles com período juvenil curto e outro longo. Caso semeados em local ou época onde ocorra fotoperíodo abaixo do crítico desde o início do ciclo da cultura, o cultivar com período juvenil curto irá florescer antes daquele com período juvenil longo, uma vez que o primeiro apresentará apenas poucos dias de pré-indução/insensibilidade. Como consequência, o primeiro cultivar irá apresentar menor estatura do que o segundo cultivar, podendo tal situação ser manejada pelo ajuste da população de plantas (em alguns casos específicos e com menor frequência).
Apesar de utilizarmos exemplos onde consideramos as duas características isoladamente, no Brasil grande parte dos cultivares apresentam ambas. Dessa forma, encontramos no país cultivares que vão desde o grupo de maturação relativa 5 até 9.
Ainda, é essencial destacarmos a importância da descoberta do período juvenil longo para o cultivo de soja em regiões tropicais. O uso de tal característica no melhoramento genético de cultivares brasileiros permitiu a melhor adaptação da soja à regiões tropicais, onde antes se dependia exclusivamente de cultivares com fotoperíodos críticos extremamente baixos. Além disso, o período juvenil longo permitiu a ampliação de uso e estabilidade do mesmo cultivar em uma maior faixa latitudinal.
Portanto, a escolha de um cultivar para uma determinada região e época de semeadura buscando o melhor desenvolvimento da soja deve levar em consideração o seu grupo de maturação relativa, o qual será resultado do fotoperíodo crítico e da duração do período juvenil.
O crescimento da soja é dividido em dois períodos distintos, o vegetativo e o reprodutivo. A duração do crescimento vegetativo é mais “elástico”, ou seja, tende a ter maior variação de acordo com as condições do ambiente. O crescimento reprodutivo, por sua vez, é mais constante, menos impactado pelas condições do ambiente. O somatório da duração do crescimento vegetativo com o reprodutivo define a duração do ciclo da cultura. A duração do ciclo representa o número de dias que a cultura leva para chegar a maturidade. No caso da soja a duração é complexa, pois é influenciada pela temperatura e pelo fotoperíodo, e a sensibilidade para ambas depende da genética do cultivar. Devido a isso, os cultivares são classificados quanto a duração do seu ciclo, ou seja, em grupos de maturidade.
Antigamente classificava-se os cultivares como sendo de ciclo precoce, semitardio, médio, semitardio ou tardio. Essa classificação era eficiente quando se tratava de um local específico, mas se tornava confusa quando se comparava locais. Por exemplo: um mesmo cultivar poderia ser reconhecida comoprecoce em uma região e como tardia em outra. Isso dificultava o entendimento do produtor e de profissionais ligados a agricultura.
Baseado no tempo para o florescimento e para a maturação foi desenvolvido uma classificação da soja em 13 grupos de maturação, que vão do 000, 00 e 0, I, II, III, IV, V, VI, VII, VII, IX e X. Os cultivares do grupo 000 são cultivados nas regiões mais próximas aos pólos (altas latitudes) e os cultivares X próximos a linha do equador (latitude 0°). Essa classificação que tem sido adotada no Brasil é a mesma utilizada nos Estados Unidos, China e Argentina. Entretanto no Brasil usamos com mais frequência números arábicos (1,2,3 ... etc.) do que os números romanos (I, II, III... etc.).
Na região centro-sul do Brasil, compreendido pelos estados do RS até SP predominam cultivares dos grupos 5 a 7. Na região dos cerrados até o norte do Brasil predominam grupos de 7 a 9 (Figura 2). Nesta figura há um exemplo hipotético para uma semeadura em 5 de novembro de um cultivar grupo de maturidade (GM) 6.2 em Ponta Grossa-PR (latitude: ~25º25’) e Piracicaba-SP (latitude: ~22°43’). Na primeira localidade, o ciclo se completaria em aproximadamente 130 dias, na segunda, 115 dias, e quanto mais ao norte fosse semeada, menor seria o ciclo. Os cultivares de soja são adaptados a uma região geográfica norte-sul estreita devido a sensibilidade ao fotoperíodo.
Grupo de maturidade: como é determinado?
Através de cultivares padrões que são cultivados juntamente com os cultivares que se deseja determinar o ciclo. Cultivar padrão é aquele reconhecido como mais estável a variações no ambiente. Por exemplo: um cultivar padrão submetido a uma pequena variação de temperatura média tem seu ciclo inalterado ou pouco influenciado, enquanto outro cultivar não-padrão pode ter o seu ciclo alongado em uma semana.
Esse cultivar de ciclo mais estável normalmente é utilizado como padrão em ensaios para determinação do grupo de maturidade relativa, pois sua estabilidade ambiental é o diferencial que permite comparar o seu ciclo com o de outros cultivares.
Em um ensaio a campo, cultivares com grupo de maturidade relativa desconhecido são conduzidos juntamente com padrões, e com base na duração do ciclo dos padrões, realiza-se uma regressão para estimar o grupo de maturidade relativa dos demais.Como podemos ver, a duração do florescimento não é diretamente relacionada ao grupo de maturidade relativa (Figura 3). Os cultivares utilizados como padrão, exemplos hipotéticos A, B, C, D e E da Figura 3, são cultivados em ambiente comum com os cultivares de grupo de maturidade relativa desconhecido, e com base na duração do ciclo destes em relação aos padrões, obtém-se o grupo de maturidade relativo.
Ao invés de ciclos, grupos de maturação
Pesquisa orienta o produtor rural a classificar as cultivares de soja por nova nomenclatura, para ajustar informação
Acostumados a identificar as variedades de soja em ciclos (super-precoce, precoce, semi-precoce, médio e tardio), os cooperados da Coamo tiveram uma surpresa neste ano durante a 21ª edição do Encontro de Cooperados na Fazenda Experimental. Eles foram orientados a classificar as cultivares por grupos de maturação, o que, segundo a pesquisa, possibilita um refinamento na informação, uma vez que oferece uma precisão maior na terminação do material, ou seja, na quantidade de tempo que uma determinada variedade vai levar para chegar à sua maturação plena.
“É uma nova nomenclatura que deve ser assimilada em pouco tempo pelo agricultor”, assinala o pesquisador da área de Melhoramento de Biotecnologia da Cooperativa Central de Pesquisa Agrícola (Coodetec), Ivan Schuster. A nova classificação evitará, principalmente, a variação no número de dias que cada variedade pode ter dentro de um mesmo ciclo, de acordo com o clima de cada região. “Quando as cultivares são classificadas como grupos de maturação as comparações são mais fáceis. O grupo de maturação é o mesmo nas diferentes regiões, de forma que é mais fácil de comparar as variedades”, explica Schuster.
NUMERAÇÃO – A nomenclatura é relativamente nova para o campo. Na prática, segundo o pesquisador, funciona da seguinte forma: as variedades são classificadas numericamente e as que levam o número abaixo de 6.0 são consideradas super-precoces; de 6.0 a 6.5 estão as precoces; as mais próximas de 7.0 são de ciclo normal e assim por diante.
VARIAÇÕES – Dentro de um mesmo ciclo as variedades podem variam em função do local de cultivo. De acordo com Schuster, “dentro do precoce, por exemplo, se compararmos variedades em diferentes locais elas podem variar de 117 a 123 dias no Oeste do Paraná; menor do que 115 dias no Norte e 125 dias ou mais no Centro-Sul do Estado. Dá para dizer que a cultivar pode ter uma variação, dentro do mesmo ciclo, de 10 a 12 dias, de uma região para outra”, revela o pesquisador.
SUBSTITUIÇÃO – A partir de agora o termo ‘ciclo’ será substituído gradativamente pelo termo ‘grupo de maturação’. “É uma sintonia mais fina para que o produtor possa usufruir mais do potencial do material que ele está plantando”, afirma Shuster, completando que à medida com que o agricultor vá se familiarizando com esta informação ele vai poder calcular corretamente o número de dias que cada cultivar levará para completar a maturação em sua região.

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