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Autora: Profa. Angélica Carlini Colaboradora: Profa. Tânia Sandroni Direitos Humanos Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Professora conteudista: Angélica Carlini Angélica Carlini é natural de Araraquara, estado de São Paulo, graduada em Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e advogada atuante nas áreas de Direito do Seguro, Responsabilidade Civil e Relações de Consumo. É doutora em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2012); doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2006); mestre em Direito Civil pela Universidade Paulista – UNIP (2002); e tambem é mestre em História Contemporânea pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1995). É pós-doutora em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2015), sob orientação do Prof. Dr. Ingo Wolfgang Sarlet. Professora do curso de Direito da UNIP desde 1998 e membro da Comissão de Qualificação e Avaliação – CQA, desde 2009. Ministra as disciplinas de Direito Empresarial, Direito do Consumidor, Filosofia do Direito, História do Direito, Direitos Humanos e Ciência Política. Escreve material didático para os cursos de Educação a Distância da UNIP e ministra aulas no curso de Gestão de Serviços Jurídicos, Notariais e de Registro. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) C282d Carlini, Angélica. Direitos Humanos / Angélica Carlini. – São Paulo: Editora Sol, 2019. 164 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XXV, n. 2-086/19, ISSN 1517-9230. 1. Direitos humanos. 2. Constituição brasileira. 3. Direitos sociais. I. Título. CDU 341.27 U501.60 – 19 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Prof. Dr. Yugo Okida Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcelo Souza Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dra. Divane Alves da Silva (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Dra. Valéria de Carvalho (UNIP) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Sheila Folgueral Vitor Andrade Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Sumário Direitos Humanos APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................8 Unidade I 1 SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS, TEORIAS SOBRE A CRIAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS, DEFINIÇÃO DE DIREITOS HUMANOS E DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA ...........9 2 CARACTERÍSTICAS E GERAÇÕES OU DIMENSÕES DE DIREITOS HUMANOS ..............................9 2.1 Teorias sobre criação de direitos humanos ...................................................................................9 2.2 Definição de direitos humanos e dignidade da pessoa humana ...................................... 11 2.3 Características dos direitos humanos .......................................................................................... 15 2.4 Gerações ou dimensões de direitos humanos .......................................................................... 17 2.5 Dimensões ou gerações de direitos humanos? ........................................................................ 20 2.6 A primeira geração ou dimensão de direitos humanos ...................................................... 20 2.7 A segunda geração ou dimensão de direitos humanos ........................................................ 26 2.8 A terceira geração ou dimensão de direitos humanos ......................................................... 27 2.9 A quarta geração ou dimensão de direitos humanos ........................................................... 29 2.10 A quinta geração ou dimensão de direitos humanos ......................................................... 33 2.10.1 Trajetória histórica da construção dos direitos humanos ................................................... 36 2.10.2 A Liga das Nações – precursora da ONU..................................................................................... 36 2.10.3 A Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a internacionalização dos direitos humanos ............................................................................................................................................... 37 2.10.4 O Tribunal de Nuremberg e a aplicação de punição contra crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes contra a paz .................................................................... 38 2.10.5 A criação da ONU ................................................................................................................................. 40 2.10.6 Estrutura da ONU ................................................................................................................................. 42 2.10.7 A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 ...................................................... 58 2.10.8 O texto integral da Declaração Universal dos Direitos Humanos ou dos Direitos do Homem da ONU ......................................................................................................................... 61 3 TRATADOS INTERNACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS ................................................................... 71 3.1 Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais ................................................................................... 71 3.2 Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados ................................................................... 74 3.3 Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial .................................................................................................................................. 75 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 3.4 Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher ............................................................................................................................................ 76 3.5 Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanas ou Degradantes .................................................................................................................... 77 3.6 Convenção sobre os Direitos da Criança................................................................................... 78 4 SISTEMA INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS ..................................................................... 80 Unidade II 5 A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E A PROTEÇÃO DE DIREITOS HUMANOS ................ 86 5.1 Introdução histórica ............................................................................................................................ 86 6 DIREITOS FUNDAMENTAIS ........................................................................................................................... 89 6.1 Conceito e classificação de direitos fundamentais ................................................................ 89 6.2 Direitos individuais e coletivos ....................................................................................................... 91 6.3 Direitos dos acusados e condenados .........................................................................................100 7 A EMENDA CONSTITUCIONAL Nº45 E OS DIREITOS HUMANOS NO BRASIL ........................106 7.1 Planos Nacionais de Direitos Humanos.....................................................................................109 8 DIREITOS SOCIAIS NO BRASIL ..................................................................................................................113 8.1 Direito à saúde.....................................................................................................................................114 8.2 Direito à educação .............................................................................................................................120 8.3 Direito à moradia ................................................................................................................................126 8.4 Proteção às mulheres .......................................................................................................................130 8.5 Proteção à criança e ao adolescente ..........................................................................................133 8.6 Proteção às pessoas com deficiência .........................................................................................134 8.7 Proteção ao idoso .............................................................................................................................142 8.8 Proteção aos LGBTIs ..........................................................................................................................148 7 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 APRESENTAÇÃO Esta disciplina tem um duplo objetivo: contribuir para a formação profissional e cidadã dos nossos alunos e alunas. É ousado, mas muito necessário. A sociedade contemporânea, brasileira e mundial, sofre um impacto bastante forte das mudanças ocorridas nos últimos cinquenta anos, em especial com o avanço da tecnologia e dos recursos digitais disponibilizados para parte expressiva da humanidade. Temos maior facilidade para nos comunicar do que tinham nossos antepassados, logramos enorme facilidade para acessar dados e informações, porém tudo isso tem criado uma situação paradoxal: ao mesmo tempo que simplifica nosso modo de viver, também cria novos conflitos e tensões sociais. Estudar direitos humanos é uma forma eficiente de conseguirmos ter conhecimento para analisar o percurso histórico da humanidade no campo das relações sociais; assim percebermos que nossas diferenças devem nos aproximar e não nos afastar. Diferenças de nacionalidade, raciais, culturais, de gênero, sexo e religiosas devem ser respeitadas por todos e devem servir para tornar nossa convivência mais rica, dinâmica e feliz. Direitos humanos são direitos de todos os seres humanos existentes na Terra, independentemente de qualquer contrapartida que esse ser humano possa oferecer. Por isso, é importante conhecê-los, refletir sobre eles, pensar calmamente em todas as situações de aplicabilidade e construirmos nossa identidade profissional e cidadã com parâmetros claramente guiados pelos direitos humanos, direitos de todos e para todos, para não cometermos erros. Na atualidade, tanto no Brasil como em outros países do mundo, há grande preocupação com práticas éticas e transparentes, seja nas atividades profissionais, seja nas atividades da vida de relações sociais. Isso decorre dos muitos problemas que vivenciamos no passado recente, em especial com a corrupção nas relações público-privadas, não apenas no Brasil como também em outros países do mundo. Os prejuízos resultantes de práticas antiéticas e corruptas é tão extenso que é até difícil descrever, mas é possível afirmar que a corrupção gera a degradação moral e ética de uma sociedade, tanto quanto gera miséria e insegurança para todos. Em razão disso, deve ser combatida e substituída por práticas transparentes, confiáveis, que possam ser checadas pelos cidadãos e aprimoradas sempre que necessário. Quando tratamos de transparência e ética nas relações humanas, estamos tratando de direitos humanos, porque é no respeito aos direitos das pessoas, independentemente de sua nacionalidade, origem, raça, sexo ou qualquer outra referência que se materializam os princípios de moral. Em decorrência disso, na atualidade, a sociedade questiona e crítica as práticas de assédio moral, assédio sexual, desrespeito aos trabalhadores, agressões ao meio ambiente, violência contra os animais e tantos outros aspectos cuja raiz, ou seja, os fundamentos, estão no direito que todo homem e toda mulher possuem de viver em ambiente saudável, equilibrado, no qual possam exercer amplamente todos os seus direitos, cumprir seus deveres, viver a vida com dignidade, segurança e com tudo o que for necessário para garantir bem-estar. Assim, tanto nas atividades da vida profissional quanto na vida social, de relacionamento familiar, com amigos e a comunidade, a UNIP Interativa espera que o aluno (a) esteja preparado para respeitar e fazer respeitar os direitos humanos, com a consciência de que todo o direito 8 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 corretamente exercido no plano individual contribui para melhorar a sociedade e propicia a concretização do bem comum. Aproveite ao máximo e bom trabalho! INTRODUÇÃO Os direitos humanos se constituem em estudo muito relevante para a formação cidadã de todos os brasileiros e estrangeiros residentes no Brasil. Independentemente da profissão escolhida, todos nós temos que estar atentos para a defesa dos direitos do cidadão e para o cumprimento dos deveres inerentes a essa mesma condição de cidadania. Neste livro-texto vamos compreender a trajetória histórica internacional e nacional dos direitos humanos e de que forma eles se materializam na legislação brasileira, muito em especial na Constituição Federal, que é a lei mais importante do país. Os direitos humanos são adotados em muitos países do mundo, em especial entre aqueles que são membros da Organização das Nações Unidas (ONU), maior organismo internacional de atuação conjunta de governos de diferentes países. A ONU foi criada após a Segunda Grande Guerra Mundial, em 1948, e representa o esforço de muitas nações em todo o mundo para construir uma cultura de paz e colaboração entre diferentes povos, evitando conflitos para evitar também mortes e destruição. A experiência da Segunda Guerra Mundial foi muito traumática para a humanidade. Milhões de civis foram mortos em bombardeios, ataques aéreos e, infelizmente, também em campos de concentração, que ofendeu todos os princípios de proteção das pessoas e desrespeitou de todas as formaspossíveis a dignidade dos seres humanos que foram submetidos a essas condições degradantes. Era preciso que uma resposta internacional fosse construída, em conjunto, por países e governos determinados a impedir que essas barbaridades voltassem a acontecer. Essa é a linha de origem dos direitos humanos que estudamos na atualidade, embora sua história tenha outros momentos importantes e até anteriores à Segunda Guerra, que vamos analisar, estudar e refletir. Direitos humanos são direitos de todos, de todas as pessoas em quaisquer condições em que se encontrem. Garantir que sejam preservados e protegidos é a única forma de construirmos a sociedade justa, fraterna e solidária que nossa Constituição Federal tem por objetivo. Inicialmente serão tratados aspectos históricos que compõem a trajetória dos Direitos Humanos, bem como questões que caracterizam e definem essa modalidade de direitos. Também vamos analisar as diferentes variedades de direitos humanos, ou seja, gerações ou dimensões. E os tratados internacionais que tratam desses direitos, juntamente com os órgãos internacionais que garantem sua efetividade. Será analisada também a forma como a Constituição Federal do Brasil incorporou esses direitos em seus direitos fundamentais e nos direitos sociais e de que forma os planos nacionais de direitos humanos e a legislação federal têm tornado efetivos esses direitos na vida de todos nós. 9 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Unidade I 1 SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS, TEORIAS SOBRE A CRIAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS, DEFINIÇÃO DE DIREITOS HUMANOS E DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA A proteção dos direitos humanos no Brasil e no mundo não ocorre de forma isolada, mas sim integrada em um sistema nacional e internacional, com instrumentos eficientes para garantir que todos sejam protegidos e, quando ocorrer alguma forma de agressão, seja possível identificar e punir os culpados. Sem um sistema de proteção de direitos humanos seria muito mais fácil transgredi-los ou, simplesmente, ignorá-los. É em razão da existência desse sistema interligado no âmbito nacional e internacional que muitas vezes acontece uma violação de direitos humanos em um país e, imediatamente, organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) se manifestam em repúdio ao ato praticado, ou para exigir que cesse a violação, ou, ainda, para exigir que o governo daquele país garanta a integridade física e psicológica da pessoa ou do grupo de pessoas que está sendo agredido em seus direitos. A importância do funcionamento da proteção de direitos humanos integrada em forma de sistema é enorme, porque todos os organismos atuam em cadeia, interligados, para denunciar violações e torná-las conhecidas de todos, com o objetivo de constranger o agressor a cessar a agressão e, aos governos a identificarem as causas da agressão, punirem os responsáveis e impedir que voltem a acontecer. A ONU é o órgão responsável pelo sistema de proteção de direitos humanos em todo o mundo. Vamos conhecer seu funcionamento e os demais órgãos integrantes desse sistema, mas, primeiramente, é necessário definir direitos humanos e conhecer suas características essenciais. 2 CARACTERÍSTICAS E GERAÇÕES OU DIMENSÕES DE DIREITOS HUMANOS 2.1 Teorias sobre criação de direitos humanos Para definirmos direitos humanos é necessário conhecer as teorias que fundamentam esses direitos. Vamos analisar cada uma delas: • Teoria jusnaturalista: está fundamentada na ideia de que todo ser humano possui um direito natural, que decorre do simples fato de ter nascido humano. Esses direitos existiriam por si só, mesmo que não sejam criadas leis para protegê-los, e são universais e imutáveis porque se referem à própria condição da vida humana e à sua dignidade. É o caso do direito à vida, do direito à liberdade, entre outros. • Teoria positivista: entende que são direitos humanos aqueles que forem escolhidos pelo povo e por seus governantes para serem parte do corpo de leis de uma determinada sociedade, e serão positivados em leis exatamente porque são direitos fundamentais para a vida humana e para toda a sociedade. 10 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I • Teoria moralista: afirma que são direitos humanos aqueles todos que se coadunam com a moral de cada sociedade, de cada povo, reconhecendo que os preceitos morais são diferentes nas várias sociedades existentes na Terra. O principal defensor da teoria moralista foi Charles Perelman, professor e estudioso de Filosofia do Direito, nascido em 1912 em Varsóvia, na Polônia, e falecido em 1984. Conhecer essas teorias é importante para que possamos acompanhar as diversas reflexões que o surgimento dos direitos humanos provocou entre os pesquisadores ao longo do tempo, porém não há necessidade de optarmos por uma teoria e desprezar as outras. Nesse sentido, o Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal brasileiro, que é pesquisador e escritor na área de Direito Constitucional, ao se referir a essas três teorias, afirma: Na realidade, as teorias se completam, devendo coexistirem, pois somente a partir da formação de uma consciência social (teoria de Perelman), baseada principalmente em valores fixados na crença de uma ordem superior, universal e imutável (teoria jusnaturalista) é que o legislador ou os tribunais (esses principalmente em países anglo-saxões) encontram substrato político e social para reconhecerem a existência de determinados direitos humanos fundamentais como integrantes do ordenamento jurídico (teoria positivista). O caminho inverso também é verdadeiro, pois o legislador ou os tributais necessitam fundamentar o reconhecimento ou a própria criação de novos direitos humanos a partir de uma evolução da consciência social, baseada em fatores sociais, econômicos, políticos e religiosos (MORAES, 2003, p. 35). De fato, as teorias são mesmo complementares, nenhum de nós duvida de que qualquer ser humano tem direitos naturais, decorrentes do simples fato de ter nascido humano. É o caso do direito à vida, que é amplamente protegido nas mais diversas sociedades, independentemente da cultura que possuem. Mesmo que o direito à vida não esteja positivado em lei escrita, ou em uma lei maior como a constituição federal de um país, nós todos vamos continuar a respeitar a vida das pessoas tanto quanto vamos exigir que respeitem a nossa. Nenhuma sociedade que conhecemos no mundo adota a liberdade de matar, indiscriminadamente, dependendo apenas da vontade das pessoas. Não aceitamos isso como ato de civilização, ao contrário, definiremos como ato de barbárie uma sociedade que se organize com a permissão de que uns matem os outros, dependendo exclusivamente de sua vontade. Por outro lado, reconhecemos que é muito melhor que os direitos humanos estejam positivados em leis, em especial na maior de nossa sociedade, que é a Constituição Federal. Estando claramente escrito que temos direito à vida, à liberdade, à dignidade, é muito mais fácil exigir que esses direitos sejam respeitados por todos. Então, a teoria positivista tem de fato seu valor. E, finalmente, é preciso reconhecer que cada sociedade forma historicamente sua consciência de direitos a serem respeitados como fundamentais para os seres humanos. A trajetória histórica de cada sociedade permite a ela construir uma experiência única, da qual emanam valores que ela pretende defender para todos, porque são elementos de união, são valores relevantes para todos os membros daquela sociedade. É o caso dos Estados Unidos da América, país que tem na liberdade um de seus11 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS mais expressivos valores. Ser livre para se manifestar, para ir e vir, para adotar decisões para sua própria vida, são valores realmente importantes para os norte-americanos, muito mais do que em outras sociedades que conhecemos e, exatamente por isso, é preciso respeitar as opções que os diferentes povos organizados constroem ao longo de sua história. Portanto, podemos reconhecer que as três teorias são mesmo complementares e se interligam profundamente, de tal modo que não é necessário que façamos uma escolha entre aquela que está mais correta. 2.2 Definição de direitos humanos e dignidade da pessoa humana Conhecidas as teorias mais usualmente utilizadas para justificar a criação dos direitos humanos, vamos pensar em definições que possam nos ajudar a clarificar a ideia sobre esse tema. Não é tarefa simples, porque pontos plurais como esse oferecem certa resistência para uma única definição, mas vamos tentar encontrar definições que possam nos auxiliar. O Ministro Alexandre de Moraes define direitos humanos: O conjunto institucionalizado de direitos e garantias do ser humano que tem por finalidade básica o respeito a sua dignidade, por meio de sua proteção contra o arbítrio do poder estatal e o estabelecimento de condições mínimas de vida e desenvolvimento da personalidade humana pode ser definido como direitos humanos fundamentais (MORAES, 2003, p. 39). O professor Nestor Sampaio Penteado Filho, por sua vez, define direitos humanos da seguinte forma: Poder-se-ia definir direitos humanos como um conjunto de prerrogativas e garantias inerentes ao homem, cuja finalidade básica é o respeito à sua dignidade, tutelando-o contra os excessos do Estado, estabelecendo um mínimo de condições de vida. São direitos indissociáveis da condição humana (PENTEADO FILHO, 2009, p. 27). Figura 1 Figura 2 12 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I Figura 3 Observe detalhadamente as fotos anteriores e volte a ler as definições de direitos humanos de Alexandre de Moraes e Nestor Sampaio Penteado Filho. Sem dúvida, você vai concordar que elas nos mostram claramente que os direitos fundamentais não estão sendo respeitados na infância dessas crianças. São fotos de situações de extrema precariedade na segurança, higiene e saúde, ou seja, as crianças estão em condições que facilitam contrair doenças, se machucar, se contaminar, enfim, condições não adequadas para uma infância feliz e saudável. Se consultarmos na rede mundial de computadores fotos sobre favelas, trabalhadores boias-frias (aqueles que levam suas marmitas para comer na plantação, enquanto trabalham na agricultura e, por isso, elas estão frias no momento de comer), presídios, comunidades dos morros, populações ribeirinhas que residem em palafitas, as vítimas da seca do Nordeste, enfim, inúmeras situações concretas em que vamos nos deparar com a falta de direitos básicos para os cidadãos. Essa pesquisa por fotos de miséria, pobreza e insegurança sociais nos fará compreender melhor do que estamos falando quando definimos direitos humanos. Estamos nos referindo a um conjunto de direitos que permite a cada ser humano, independentemente de seu gênero, masculino ou feminino, desenvolver todas as suas potencialidades e buscar todos os recursos necessários para viver em uma situação de bem-estar e segurança. Direitos humanos são, nessa perspectiva, todos aqueles que podem nos permitir vida com dignidade, qualidade, e, principalmente, com perspectivas de que em cada momento poderemos ter acesso a tudo o que for necessário para viver plenamente. Não há dúvida, portanto, que estamos nos referindo a direitos como: • Segurança contra qualquer tipo de violência, física, moral ou psicológica, praticada por pessoas ou por agentes do Estado (polícia, fiscais ou qualquer outro agente público). 13 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS • Acesso à saúde para prevenção de doenças e para a cura delas, lembrando que em muitos casos o correto atendimento de saúde permite a prevenção de inúmeras doenças graves e que é sempre muito melhor prevenir do que tratar. • Acesso à educação básica que permita às pessoas desenvolverem suas potencialidades intelectuais e cognitivas de forma a só interromperem os estudos se desejarem, e não por precisarem escolher entre trabalhar e estudar. • Condições de empregabilidade que permitam a cada pessoa um salário que lhe garanta vida digna. Além desses direitos mencionados, que estão profundamente ligados com aspectos de vida material (saúde, educação, emprego), também somos portadores de direitos essenciais da nossa condição humana, como o direito de conviver com outras pessoas, sem nenhum obstáculo ou discriminação, o direito de livre manifestação do pensamento, o direito de acesso a bens culturais como arte e cultura, o direito de nos associarmos com outras pessoas para desenvolvermos atividades que nos motivem, entre outros tantos aspectos essenciais para nossa vivência social, emocional, política e cultural. Agora as definições começam a fazer mais sentido, porque é possível aplicá-las em nossas vidas cotidianas. E também vão fazer sentido as definições de direitos humanos que apresentamos agora, a primeira do jurista espanhol Antonio Enrique Péres Luño e a segunda do jurista brasileiro José Afonso da Silva. Pérez Luño afirma: (Direitos humanos) um conjunto de faculdades e instituições que, em cada momento histórico, concretizam as exigências da dignidade, da liberdade e da igualdade humanas as quais devem ser reconhecidas positivamente pelos ordenamentos jurídicos em nível nacional e internacional (PÉREZ LUÑO, 1979, p. 43). José Afonso da Silva, ao se referir a direitos humanos, sugere: Direitos fundamentais do homem constituem a expressão mais adequada a este estudo, porque, além de referir-se a princípios que resumem a concepção do mundo e informam a ideologia política de cada ordenamento jurídico, é reservada para designar, no nível do direito positivo, aquelas prerrogativas e instituições que ele concretiza em garantias de uma convivência digna, livre e igual de todas as pessoas (SILVA, 1999, p. 174). Como podemos perceber, a dignidade humana ou dignidade da pessoa humana é o principal fio condutor das diferentes definições, ou seja, tudo o que diz respeito a direitos humanos está focado na proteção dessa dignidade. 14 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I Para a professora Célia Rosenthal Zisman: A pessoa tem dignidade por ser pessoa, de modo que o princípio da dignidade é o primeiro de todos na escala axiológica – vale mais que qualquer outro direito. [...] Por isso, o ordenamento jurídico interno de cada Estado soberano não cria ou outorga os direitos de liberdades da pessoa, e sim os declara, facilitando a sua proteção (ZISMAN, 2005, p. 54). E a ONU, na Declaração Universal dos Direitos Humanos promulgada em 1948, logo no Preâmbulo, determina: Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo. O Ministro Luis Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal brasileiro, afirma que: A dignidade humana, como atualmentecompreendida, se assenta sobre o pressuposto de que cada ser humano possui um valor intrínseco e desfruta de uma posição especial no universo (BARROSO, 2016, p. 14). Mencionamos a posição do Tribunal Constitucional Alemão sobre o mesmo tema, que afirma: [...] a dignidade humana se situa no ápice do sistema constitucional, representando um valor supremo, um bem absoluto, à luz do qual cada um dos outros dispositivos deve ser interpretado. Considerada como o fundamento de todos os direitos mais básicos, a cláusula da dignidade possui dimensão subjetiva e objetiva, investindo os indivíduos em certos direitos e impondo determinadas prestações positivas para o Estado (BARROSO, 2016, p. 21). E o professor Ingo W. Sarlet afirma: [...] a dignidade [....] passou a ser habitualmente definida como constituindo o valor próprio que identifica o ser humano como tal, definição esta que, todavia, acaba por contribuir muito para uma compreensão satisfatória do que efetivamente é o âmbito de proteção da dignidade, pelo menos na sua condição jurídico-normativa. Mesmo assim, não restam dúvidas de que a dignidade é algo real, algo vivenciado concretamente por cada ser humano, já que não se verifica maior dificuldade em identificar claramente muitas das situações em que é espezinhada e agredida, ainda que não seja possível estabelecer uma pauta exaustiva de violações da dignidade (SARLET, 2013, p. 18). 15 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS De fato, basta olhar as fotos anteriores para identificarmos, imediatamente, que vários direitos estão sendo feridos em relação àquelas crianças e, também, a todas as demais pessoas que vivem na mesma situação. Direito à saúde, à segurança, a um ambiente saudável, limpo e protegido, todas essas dimensões que compõem a dignidade da pessoa humana. Assim, em muitas situações, poderemos até não conseguir consenso sobre um conceito de dignidade da pessoa humana, mas sempre vamos saber, como afirma o professor Sarlet, quando a dignidade está sendo ferida ou agredida. É importante destacar, ainda, que a ONU determina que o reconhecimento da dignidade é um fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo, ou seja, é fundamental para que o mundo se organize de forma equilibrada, livre e justa. Isso nos dá a dimensão da grande importância da dignidade da pessoa humana. Para compreender o sentido e o alcance da dignidade da pessoa humana, é preciso pensar no conjunto de direitos que cada ser humano precisa usufruir para poder ter uma vida digna. Esses direitos podem estar positivados em leis, como a constituição federal de um país e, nesse caso, recebem o nome de direitos fundamentais. E podem estar em tratados internacionais ou, ainda não alocados em textos de lei, quando recebem o nome de direitos humanos. Na Constituição da República Federativa do Brasil temos um amplo rol de direitos fundamentais que consagram entre nós brasileiros os direitos humanos como direitos positivados, incluídos na lei mais importante do país e em outros vários textos de lei que dela derivam. Também respeitamos no Brasil os tratados internacionais de direitos humanos dos quais o país é signatário (que assinou concordando em cumprir), como é o caso de Declaração dos Direitos do Homem da ONU, por exemplo. Assim, a distinção entre direitos humanos e direitos fundamentais é meramente formal, porque os primeiros estão em tratados internacionais ou ainda não alocados em textos de lei, embora já sejam reconhecidos como direitos; e os direitos fundamentais estão positivados em lei, em especial, nas constituições federais dos países que os adotam. 2.3 Características dos direitos humanos Os direitos humanos têm algumas características que precisam ser estudadas por nós. Vamos conhecê-las e analisá-las uma a uma. Essas características são comuns em estudos de muitos pesquisadores da área de direitos humanos, razão pela qual merecem análise cuidadosa. As principais características dos direitos humanos são: • Universalidade: o que significa que todos os seres humanos da Terra têm direito a usufruir da proteção que os direitos humanos expressam. • Indivisibilidade: significa que o rol de direitos humanos compõe um todo que não pode ser dividido. Assim, não é permitido a um Estado que escolha alguns direitos humanos para proteger e deixe outros de lado. • Interdependência: significa que os direitos humanos são inter-relacionados e interdependentes, o que reforça o sentido de que todos são importantes, não há uma escala de relevância entre eles. 16 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I • Imprescritibilidade: significa que nenhuma pessoa perde, por decurso de prazo, o direito de exercício de qualquer um dos direitos humanos. Mesmo que sejam reivindicados depois de um longo transcurso de tempo, a pessoa ainda terá direito ao exercício do direito. • Inalienabilidade: significa que os direitos humanos não podem ser transferidos, negociados ou cedidos, seja a título oneroso (por dinheiro ou outra contrapartida material), seja a título gratuito. Todos têm direito e podem exercê-lo, mas não para aliená-los por qualquer motivo. • Irrenunciabilidade: significa que ninguém pode renunciar aos direitos humanos, ou seja, ninguém pode renunciar ao direito à vida, à liberdade ou a qualquer outro. • Efetividade: significa que o Estado por meio de seus poderes, Legislativo, Executivo e Judiciário, deve atuar sempre para conseguir efetivar os direitos humanos, de forma a garantir que todas as pessoas tenham como exercê-los livremente. • Inviolabilidade: significa que ninguém, Estado ou pessoa (física ou jurídica), está legitimado para desrespeitar direitos humanos. Todos devem respeitar, cumprir e fazer cumprir os direitos humanos. • Complementaridade: significa que os direitos humanos não devem ser interpretados isoladamente, mas de forma conjunta para que sejam alcançados os objetivos para os quais eles foram criados, ou seja, proteger a dignidade humana da forma mais abrangente possível. • Vedação de retrocesso: significa que se um direito é reconhecido como direito humano, não se pode retirá-lo ou diminuir sua aplicabilidade. Em outras palavras, uma vez que um direito é integrado ao rol de direitos humanos, ele não pode ser retirado e também não pode ser minimizado. Essas são as características mais relevantes dos direitos humanos e que aparecem em vários estudos realizados sobre o tema. Existe variação entre os estudiosos, que elaboram uma lista de características mais extensas ou um pouco menos extensas, mas no geral essas são as características que devemos conhecer sobre direitos humanos e que de forma recorrente aparecem nos diferentes estudos de pesquisadores dessa temática. Por essas características, é possível compreender a importância desses direitos para a vida de todos os seres humanos e o enorme prejuízo para toda a sociedade quando eles não são completamente efetivados. Diferentemente de outros direitos que existem nas sociedades organizadas, os direitos humanos não podem ser restringidos, não podem sequer ser objeto de renúncia por parte de seu titular. Os direitos patrimoniais, por exemplo, podem ser objeto de renúncia. Não é usual, mas, se desejar, uma pessoa pode abrir mão de seu direito de herança ou de seu direito de pensão alimentícia, por exemplo. Isso não acontece no campo dos direitos humanos, porque ninguém pode abrir mão de seu direito à vida, à segurança ou à liberdade. Outro aspecto muito importante é o caráter de complementariedade que os direitos humanos possuem. Não basta que o Estado garantaaos cidadãos um ou outro direito que os efetive. É preciso que o Estado execute todos os direitos humanos, garanta ao cidadão a possibilidade de exercício de todos os direitos fundamentais, porque só isso é que garante a dignidade humana. Sem qualquer um dos direitos do rol de direitos humanos, a dignidade humana não estará verdadeiramente protegida e respeitada. 17 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS 2.4 Gerações ou dimensões de direitos humanos Os direitos humanos foram construídos lentamente ao longo da história. Não surgiram todos de uma vez nem foram reconhecidos como direito por todas as diferentes nações ao mesmo tempo. É por essa razão que os estudiosos do assunto partilham a ideia de que os direitos humanos são uma construção contínua, constante, nunca estarão completamente terminados, porque cada época da história da humanidade exige a proteção de novos direitos, ou, se preferirem, cada época histórica da humanidade faz surgir novas necessidades para a integral proteção dos seres humanos. A análise das diferentes épocas da história da humanidade demonstra que já fomos muito mais bárbaros do que na atualidade e, ao mesmo tempo, indica que ainda temos muito o que melhorar, embora, sem dúvida, tenhamos caminhado bastante em termos de proteção de direitos do homem. Figura 4 – Foto da Exposição sobre Auschwitz. Madri, 2018 Figura 5 – Foto da Exposição sobre Auschwitz. Madri, 2018 18 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I As duas fotos anteriores reportam ao período do nazismo na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa época, como sabemos, judeus foram perseguidos, aprisionados, levados para campos de concentração e mortos em câmaras de gás, depois de sofrerem todas as agruras do medo, da fome, do frio e do trabalho excessivo a que foram submetidos. Estima-se que seis milhões de judeus tenham sido mortos na Segunda Guerra Mundial, embora não tenham sido os únicos a serem perseguidos pelos nazistas. Ciganos e homossexuais sofreram perseguições, torturas, entre outros. Repare que o cartaz da exposição sobre Auschwitz tem uma frase logo abaixo em que está escrito: “No hace mucho. No muy lejos.” Essas duas frases, em português, significam: “Não faz muito. Não muito longe.” De fato, a Segunda Guerra Mundial ocorreu entre 1939 e 1945, aconteceu na Europa, continente distante apenas algumas horas de voo do continente americano. Esses horrores praticados contra os judeus aconteceram muito próximo e nem por isso foram evitados ou minimizados. Isso tudo deve nos fazer refletir sobre a importância da preservação dos direitos humanos, tanto quanto os fatos ocorridos no passado mais longínquo, como, por exemplo, a Revolução Russa, de 1917, a escravidão no Brasil, que só terminou em 1888, e a Primeira Guerra Mundial, no período de 1914 a 1918. E se nos aprofundarmos nos estudos da história da humanidade, retrocedendo além do século XIX, mais para trás vamos encontrar também muita violência e muito desrespeito a direitos, como no período da Idade Média, das Cruzadas, do Império Romano, da conquista da América por portugueses e espanhóis, enfim, a história da humanidade se caracteriza por violência, guerra e desrespeito a direitos. Claro que também existem aspectos muito positivos, como o desenvolvimento tecnológico e o avanço da ciência. Isso é, sem dúvida, uma prova da incrível inteligência e capacidade de superação dos seres humanos, que, quando resolvem empreender, não têm limites. Em pouco tempo, o homem deixou de se locomover por meio de cavalos e carroças e criou naves interespaciais capazes de levá-lo à Lua. O avanço tecnológico nem sempre vem acompanhado de evolução no campo dos direitos, por isso a necessidade de conhecermos com profundidade as diferentes épocas dos direitos humanos e, se possível, prospectarmos os direitos que precisarão ser criados na época que vivemos e para o futuro próximo. Na atualidade, os avanços tecnológicos significam benefícios, mas também novos riscos, que podem afetar os direitos de todos nós. É o caso dos riscos de ataques cibernéticos, com vazamento de dados pessoais como senhas de bancos, por exemplo, ou os riscos à saúde que possam ser causados por cosméticos concebidos a partir de nanotecnologia. O professor Wilson Engelmann ensina a respeito de nanotecnologia e seus riscos: O surgimento das nanotecnologias, a partir de investigações em escala nano, é uma realidade da qual o Direito tem obrigação de perceber. [...] 19 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS A percepção de Ivana Zanella quanto às nanotecnologias é no sentido de que se trata de uma nova perspectiva tecnológica que vem surgindo a partir do final do século XX e se refere basicamente à manipulação da matéria em escala nanométrica, ou seja, à manipulação de estruturas atômicas e moleculares que estão presentes em uma escala que corresponde a um bilionésimo de metro [...], denominada nano. Tal tecnologia é a promessa de revolução para doenças até então incuráveis, com perspectivas de grandes mudanças sociais. [...] A criação e a disponibilização, à população em geral, de produtos cosméticos de base nanotecnológica vem chamando a atenção para a segurança e confiabilidade da utilização de tais produtos. A preocupação, quanto aos possíveis riscos advindos da utilização de nanocosméticos, instala-se no uso de nanoestruturas com partículas que possuem diâmetro muito reduzido em relação às barreiras celulares dos seres humanos, segundo avaliação do Comitê Científico de Produtos ao Consumidor da Comissão Europeia. [...] A preocupação reside especialmente quanto à reduzida estrutura dos componentes do produto (nanocosméticos), associado à solubilidade de partículas, e, consequentemente, seu alcance a profundas estruturas do corpo humano e corrente sanguínea (ENGELMANN, 2015, p. 27-56). Em outras palavras, cosméticos como cremes hidratantes e batons podem estar utilizando substâncias em partícula nano e estas podem ser nocivas para a saúde das pessoas que neste momento não sabem que os produtos são nocivos e que tipo de dano à saúde ele pode causar, porque os estudos ainda estão sendo realizados pelos cientistas. Deve ser garantido às pessoas, no entanto, que tenham direito à informação para que decidam utilizar ou não o produto com maior segurança para sua vida e sua saúde. Esse exemplo é bastante útil para nossas reflexões sobre direitos humanos e proteção da dignidade da pessoa humana. Das guerras, torturas e destruições por bombas até a utilização de produtos de consumo sem informações suficientes sobre os riscos para a saúde, existem inúmeras formas de agressão aos direitos humanos. Por isso é que podemos afirmar que os direitos humanos são construídos pouco a pouco, nas diferentes épocas históricas que a humanidade vivenciou, vivencia e ainda vivenciará. Em razão disso, foi mais fácil para os estudiosos organizarem as diferentes fases dos direitos humanos em gerações, ou dimensões, de forma a simbolizar o período histórico em que cada uma surgiu e os tipos de direitos que foram reconhecidos naquele momento histórico. Vamos estudar, então, as dimensões ou gerações de direitos humanos que temos até este momento, sem nos esquecermos que outras muitas surgirão a medida que o leque de direitos humanos for sendo expandido, em razão dos novos riscos que surgirão. 20 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al- D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I 2.5 Dimensões ou gerações de direitos humanos? A respeito da denominação geração ou dimensão de direitos humanos, o professor Nestor Sampaio Penteado Filho alerta: A doutrina aponta a classificação dos direitos fundamentais segundo gerações de direitos, embora a doutrina atual prefira a expressão dimensões de direito. A diferença básica entre elas dá-se no sentido de que a expressão gerações de direitos pode trazer a noção de que o surgimento de uma nova encerra ou finaliza a anterior, dando-nos a falsa ideia de que houve uma limitação temporal. Por outro lado, dimensões de direitos é expressão mais atual, que se traduz na ideia de interação e interconectividade entre os direitos, não havendo encerramento de umas ou de outras, mas, sim, uma relação interativa entre os direitos (PENTEADO FILHO, 2009, p. 21). A lição é oportuna e esclarecedora, porque, de fato, uma geração de direitos humanos não substitui a anterior, ao contrário, a ela se soma. Os direitos de primeira geração se somam aos de segunda, ambos se somam aos de terceira geração e assim sucessivamente. Por essa razão é que a expressão dimensões de direitos humanos é melhor, na medida em que ela deixa claro que existem dimensões temporais e temáticas diferentes, porém todas elas se somam e, principalmente, se complementam. Vamos analisar, então, cada uma das dimensões de direitos humanos que foram construídos ao longo da história da humanidade. 2.6 A primeira geração ou dimensão de direitos humanos A primeira geração ou dimensão de direitos humanos surgiu, simbolicamente, no século XIII, a partir de 1215, quando João Sem-Terra, rei da Inglaterra, aprovou um texto de lei denominado Magna Carta. Por esse texto ele se comprometeu a governar em conformidade com as leis, ou seja, não utilizaria mais seu poder contra o povo e respeitaria a propriedade, a vida e a segurança de todos os seus súditos. Isso pode parecer pouco, mas era uma grande novidade para aquela época, em que os reis tinham poder absoluto, de vida e morte sobre seu povo. Pressionado por esse mesmo povo que estava inconformado com os desmandos do rei, João Sem-Terra se comprometeu a seguir fielmente a lei elaborada pelo poder legislativo e a governar apenas nos limites permitidos por ela. Os direitos de primeira geração ou dimensão são, assim, os direitos do povo contra os abusos do Estado e, por isso, são denominados direitos políticos e civis fundamentais, ou, liberdades públicas. São os direitos que garantem ao povo o direito de escolher seus governantes pelo voto, o direito de não ser condenado sem um processo justo e com amplo direito de defesa, o direito de não ser molestado física ou psicologicamente por ninguém, em especial pelo Estado, e o direito de destituir do poder governantes que não se comportem conforme a lei. Além da Magna Carta, de 1215, outras leis são importantes para confirmar os direitos políticos e civis ou direitos humanos de primeira dimensão ou geração. Entre eles, o Bill of Rights, de 1689, na Inglaterra, que, segundo o professor Alexandre de Moraes, teve as seguintes características: 21 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS O Bill of Rigths, de 1689, decorrente da abdicação do rei Jaime II e outorgada pelo Príncipe de Orange, no dia 13 de fevereiro, significou enorme restrição ao poder estatal, prevendo, entre outras regulamentações: fortalecimento ao princípio da legalidade, ao impedir que o rei pudesse suspender leis ou a execução das leis sem o consentimento do Parlamento; criação do direito de petição; liberdade de eleição dos membros do Parlamento; imunidades parlamentares; vedação à aplicação de penas cruéis; convocação frequente do Parlamento (MORAES, 2003, p. 26). Também contribuíram expressivamente para esse período histórico de afirmação de direitos políticos e civis a Declaração de Direitos da Virgínia, de 16 de junho de 1776, e a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América do Norte, de 4 de julho de 1776. A esse respeito, ensina o professor Alexandre de Moraes: Na Declaração de Direitos da Virgínia, a Seção I já proclama o direito à vida, à liberdade e à propriedade. Outros direitos humanos fundamentais foram expressamente previstos, tais quais, o princípio da legalidade, o devido processo legal, o Tribunal do Júri, o princípio do juiz natural e imparcial, a liberdade de imprensa e a liberdade religiosa. [...] A Declaração de Independência dos Estados Unidos da América do Norte, documento de inigualável valor histórico e produzido basicamente por Thomas Jefferson, teve como tônica preponderante a limitação do poder estatal [...] (MORAES, 2003, p. 26). A Declaração de Independência dos Estados Unidos da América é um documento histórico que deve ser estudado por todos nós. Ele constrói importante narração histórica dos fatos que culminaram com a proclamação da independência e, curiosamente, adotam um tom de justificativa, no sentido de mencionar os fatos e concluir que não havia outro caminho a ser adotado que não fosse a declaração de independência. Ao se separar da Inglaterra, o povo norte-americano tenta justificar sua decisão, elencar os motivos que tornaram aquela escolha a mais benéfica para eles e, certamente, quando analisamos as diversas independências havidas durante a história da humanidade, a constatação que podemos fazer é que eles foram gentis ao fornecerem à Inglaterra as razões que os levaram a adotar essa posição. Vale a pena conhecer trechos da Declaração de Independência dos Estados Unidos: Quando no curso dos acontecimentos humanos se torna necessário a um povo dissolver os laços políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre os poderes da Terra, posição igual e separada, a que lhe dão direito às leis da natureza e às do Deus da natureza, o respeito digno para com as opiniões dos homens exige que se declarem as causas que os levam a essa separação. 22 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade. Que, a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade. Na realidade, a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros; e, assim sendo, toda experiência tem mostrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram. Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objecto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assistem-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos Guardiães para sua futura segurança. Tal tem sido o sofrimento paciente destas colônias e tal agora a necessidade que as força a alterar os sistemas anteriores de governo. A história do atual Rei da Grã-Bretanha compõe-se de repetidas injúrias e usurpações, tendo todos por objetivo directoo estabelecimento da tirania absoluta sobre estes Estados (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, 1976a). É bastante interessante observar que os norte-americanos parecem querer justificar para a Inglaterra que a decisão pela independência decorre da intransigência inglesa em não respeitar os interesses econômicos, sociais e políticos do povo americano. Leia o trecho a seguir e analise: Em cada fase dessas opressões solicitamos reparação nos termos mais humildes; responderam a nossas petições apenas com repetido agravo. Um príncipe cujo carácter se assinala deste modo por todos os atos capazes de definir um tirano não está em condições de governar um povo livre. Tão pouco deixamos de chamar a atenção de nossos irmãos britânicos. De tempos em tempos, os advertimos sobre as tentativas do Legislativo deles de estender sobre nós uma jurisdição insustentável. Lembramos-lhes das circunstâncias de nossa migração e estabelecimento aqui. Apelamos para a justiça natural e para a magnanimidade, e conjuramo-los, pelos laços de nosso parentesco comum, a repudiarem essas usurpações que interromperiam, inevitavelmente, nossas ligações e a nossa correspondência. Permaneceram também surdos à voz da justiça e da consanguinidade. Temos, portanto, de aceitar a necessidade de denunciar nossa separação e considerá-los, como consideramos o restante dos homens, inimigos na guerra e amigos na paz (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, 1976a). 23 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Observe a forma como eles detalham suas razões: Nós, por conseguinte, representantes dos ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, reunidos em CONGRESSO GERAL, apelando para o Juiz Supremo do mundo pela retidão das nossas intenções, em nome e por autoridade do bom povo destas colônias, publicamos e declaramos solenemente: que estas colônias unidas são e de direito têm de ser ESTADOS LIVRES E INDEPENDENTES; que estão desobrigados de qualquer vassalagem para com a Coroa Britânica, e que todo vínculo político entre elas e a Grã-Bretanha está e deve ficar totalmente dissolvido; e que, como ESTADOS LIVRES E INDEPENDENTES, têm inteiro poder para declarar a guerra, concluir a paz, contrair alianças, estabelecer comércio e praticar todos os atos e ações a que têm direito os estados independentes. E em apoio desta declaração, plenos de firme confiança na protecção da Divina Providência, empenhamos mutuamente nossas vidas, nossas fortunas e nossa sagrada honra (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, 1976a). Quase sempre as rupturas institucionais que resultam em independência de um povo em relação ao domínio de outro é justificada apenas e tão somente pelo desejo de ser livre, de possuir autonomia para ditar seu próprio destino e viver em conformidade com suas próprias escolhas. No caso norte-americano a independência ocorreu por outros motivos; além desses, eles desejavam que a Inglaterra os tratasse de forma digna, justa e isso não teria ocorrido. É por essa razão que eles escolhem a independência, mas se preocupam em redigir um documento que explica detalhadamente seus motivos, para que não reste dúvida para os colonizadores que eles erraram no tratamento e em que ponto. Desse modo, os norte-americanos comunicaram aos ingleses que, a partir daquele momento, seriam um Estado independente no qual viveriam homens que foram criados iguais e dotados pelo Criador dos mesmos direitos inalienáveis à vida, à liberdade e a procura da felicidade. Estabeleceram que o governo seria instituído sempre com o objetivo de preservar esses direitos inalienáveis e, nos casos em que o governo se tornasse destrutivo desses fins, o povo poderia se insurgir e escolher um novo governo, que se comprometesse com esses princípios. A grande meta coletiva que os norte-americanos almejavam alcançar era a liberdade, que para eles não era apenas um sentimento, mas muito mais que isso: um verdadeiro projeto de sociedade. Buscar a felicidade e vivê-la com plenitude passava a ser direito natural de cada cidadão, que disporia de total liberdade para concretizar esse projeto, devendo apenas respeitar a liberdade dos demais cidadãos. A liberdade era outro valor supremo para os norte-americanos, que na introdução da Constituição fixaram: A Constituição dos Estados Unidos da América, nós, o povo dos Estados Unidos, a fim de formar uma União mais perfeita, estabelecer a justiça, assegurar a tranquilidade interna, prover a defesa comum, promover o bem-estar geral, e garantir para nós e para os nossos descendentes os benefícios da Liberdade, promulgamos e estabelecemos esta Constituição para os Estados Unidos da América (CONSTITUIÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, 1987). 24 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I “Garantir para nós e para os nossos descendentes os benefícios da Liberdade, promulgamos...”. A frase evidencia por todas as formas que a liberdade é o direito a ser garantido para a atual e as futuras gerações e proclama que a liberdade tem benefícios que todos têm o direito de usufruir. Essas posições e os objetivos traçados para atingir liberdade e felicidade afirmavam que os norte-americanos não aceitavam mais nenhuma forma de arbítrio ou de absolutismo da parte de seus governantes. Ou, em outras palavras, o povo tinha o direito de escolher seus governantes e de substituí-los sempre que não estivessem cumprindo rigorosamente seu papel. E qual o papel de um governante? Para os norte-americanos do século XVIII, era, principalmente, respeitar o povo e garantir que todos tivessem liberdade e meios para concretizar a felicidade. Esses dois objetivos, exercer a liberdade e construir felicidade, estão na base dos direitos humanos de Primeira Geração. Mas, ainda é preciso analisar a Revolução Francesa, que ficou conhecida como a terceira revolução burguesa e teve início com o famoso episódio da Queda da Bastilha, ocorrido em 14 de julho de 1789. Vamos recordar sobre esse episódio emblemático que a Bastilha era uma prisão onde os presos eram tratados em condições desumanas, era um símbolo do absolutismo, ou seja, do poder absoluto dos reis, que, na França daquele momento, era exercido pelo Rei Luiz XVI, que seria deposto pelos revolucionários e morto na guilhotina em 1792. O prédio da Bastilha não existe mais em Paris, mas até hoje é um lugar de muito simbolismo para os franceses e para todos aqueles que estudam as revoluções que determinaram o fim do período absolutista e o nascimento dos direitos políticos e civis. A seguir você pode ver a foto de uma maquete de como era a prisão da Bastilha, ela está no Museu Carnavalet, localizado em Paris, capital da França. Figura 6 25 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Figura 7 A foto anterior é de um monumento em Paris, próximo ao local em que antigamente estava localizada a prisão da Bastilha. Esse monumento foi construído para homenagear a Revolução Francesa e a liberdade que o povo francês adquiriu a partir daquele momento. Liberdade, igualdade e fraternidade são as três palavras que simbolizam até hoje a Revolução Francesa; veja que a liberdade também representa para os franceses revolucionários um ideal a ser concretizado. Dessa forma, nenhum governo que assumisse o controle político depois da revolução poderia pretender usurpar a liberdade dos franceses, porque ela estava no mais alto grau de direito que eles pretendiam proteger e exercer. Célia Rosenthal Zisman ensina: O homem, ao obedecer à lei, obedeceà sua própria vontade, pois escolhe quem fará a lei, de acordo com as suas convicções. De acordo com a Declaração Francesa, embasada nas ideias de Rousseau, a finalidade da sociedade é assegurar a liberdade natural do homem, e a lei, expressão da vontade geral, não pode ser instrumento de opressão (ZISMAN, 2005, p. 74). Após esses importantes momentos históricos, a Independência Norte-Americana e a Revolução Francesa, os ideais de liberdade estavam consagrados, o povo não aceitava mais governantes despóticos e com poderes absolutos. Então, como os governantes poderiam exercer o poder? Respeitando as leis que eram feitas pelos representantes do povo, reunidos no parlamento, ou seja, no poder legislativo. Nenhuma lei poderia subtrair direitos fundamentais do povo, em especial, direito à vida, liberdade e segurança. Os direitos humanos de primeira geração ou primeira dimensão são, portanto, os direitos de liberdade e surgem para proteger o cidadão do arbítrio do Estado, que, naquela época, representado pelo poder dos reis, era exercido de forma absoluta, como uma designação divina e, por isso, com poder de vida e morte sobre os súditos. Com as revoluções do século XVIII o absolutismo dos reis termina e em seu lugar surge a força do poder parlamentar cujos representantes são eleitos pelo povo, com objetivo de redigir 26 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I leis de cumprimento obrigatório para todos, governantes e governados, e leis que respeitem os direitos do povo, em especial, os direitos de liberdade. 2.7 A segunda geração ou dimensão de direitos humanos A segunda dimensão ou geração de direitos humanos surge como necessidade a partir das modificações sociais, econômicas e políticas decorrentes do processo de industrialização, também conhecido como Revolução Industrial, cujo início ocorreu no século XVIII. Até o surgimento da máquina à vapor, que ocorreu em meados do século XVIII, por volta de 1760, na Inglaterra, toda a produção econômica era de manufatura feita por artesãos e trabalhadores rurais. Com o surgimento das máquinas movidas a vapor que podiam produzir centenas de peças em um único dia, o modo de produção econômica foi totalmente modificado e a partir dele a vida social e política daquele período histórico. O surgimento das fábricas por toda a Inglaterra exigiu a procura por mão de obra e, com isso, houve o êxodo rural, com milhares de pessoas se mudando para as cidades para poderem trabalhar nas indústrias recém-criadas, com salários baixos e grande carga de trabalho, quase sempre em torno de 14 a 16 horas por dia. Até a mão obra infantil foi utilizada e muitas crianças trabalhavam de 10 a 12 horas por dia. Desnecessário ressaltar que os homens também trabalhavam muitas horas por dia, e isso gerou muitos acidentes de trabalho, causando lesões e mortes de operários. Os salários eram baixos e os problemas sociais se tornaram de grande extensão. Os trabalhadores moravam de forma precária, se alimentavam mal, sofriam com doenças de todo tipo, viviam sem a menor condição de vida digna. Movimentos contrários àquela situação surgiram entre os próprios trabalhadores. O primeiro que se tem notícia foi o chamado ludismo, cujo nome faz referência a Ned Ludd, que teria sido líder do movimento. O ludismo consistia na invasão de fábricas para quebrar máquinas e teria sido organizado como revolta pelos trabalhadores das manufaturas, que estavam perdendo seus empregos em razão da utilização das máquinas. Mas, posteriormente, os trabalhadores se organizaram em sindicatos e associações para pleitear melhores condições de trabalho. De fato, com a Revolução Industrial surgiu a classe operária, que passou a integrar o sistema capitalista de produção. A partir da classe operária ou do proletariado, toda uma lista de direitos que até então não existiam, como o direito a um salário justo, horas de trabalho que permitam segurança ao trabalhador, horas de descanso para refazimento das condições físicas e psicológicas, serviços de saúde para atender trabalhadores, locais para que os filhos dos trabalhadores pudessem ficar enquanto eles trabalhavam, entre outros que compunham uma relação de direitos, que, para aquela época, eram totalmente novos. A mudança radical nas relações de trabalho, da propriedade rural e da manufatura de artesãos para a produção industrial, que da Inglaterra se alastrou para a Europa e América, fez surgir a Organização Internacional do Trabalho, a OIT, criada em 1919, com objetivo de contribuir para a construção de justiça social. Surgem, então, os direitos humanos de segunda geração ou dimensão, que são direitos econômicos, sociais e culturais inspirados pelo ideal de igualdade. 27 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Repare que estão contidos nesse rol de direitos não apenas o direito ao trabalho, a justa remuneração e as condições dignas de trabalho, mas também o direito à saúde e moradia adequados; ao lazer com acesso à cultura e ao esporte; à assistência e previdência social; à assistência para os casos de doença ou desemprego que impeça a pessoa de prover o próprio sustento; e à previdência para que o trabalhador possa se aposentar e receber um valor que lhe permita a vida com dignidade. Figura 8 – Inauguração da primeira estrada de ferro a vapor (1825), construída por George Stephenson para ligar as localidades de Stockton e Darlington, na Inglaterra Alguns textos de lei foram muito importantes para a consolidação dos direitos humanos de segunda geração ou dimensão, como a Constituição Mexicana de 1917, que foi a primeira a atribuir aos direitos trabalhistas o caráter de direitos fundamentais do homem. E a Constituição de Weimar, Alemanha, de 1919, que se notabilizou pela importância que deu aos direitos trabalhistas e à educação pública, organizando as bases do que mais tarde ficaria conhecido como democracia social. Esses importantes documentos e a Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918, com todos os transtornos, causando mortes, destruição e mutilação de sobreviventes, colocaram o mundo diante dos desafios de tratar as pessoas com respeito e de forma digna, única maneira possível para que possam desenvolver todas as suas potencialidades. Esses direitos, denominados direitos sociais, trazem um caráter coletivo porque se destinam a toda a sociedade, independentemente do país de origem de cada um, da raça, do gênero, da religião ou de qualquer outro fator. 2.8 A terceira geração ou dimensão de direitos humanos O professor Nestor Sampaio Penteado Filho ensina: Direitos fundamentais de terceira geração ou dimensão – decorrentes de profundas alterações sociais na comunidade internacional, causadas pela globalização da economia, avanços tecnológicos e científicos, como as viagens espaciais, a robótica, a internet etc., tais direitos direcionam-se para a preservação da qualidade de vida, tutelando o meio ambiente, permitindo-se o progresso sem detrimento da paz e autodeterminação dos povos, constituindo-se em interesses metaindividuais (difusos), que transcendem o indivíduo ou grupos de indivíduos [....] direitos de solidariedade [...] traduzidos no valor da fraternidade (PENTEADO FILHO, 2009, p. 23). O que teria ocorrido para que a humanidade despertasse para a necessidade de proteger esses direitos coletivos e de fraternidade? O que são esses direitos difusos ou metaindividuais? 28 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I A SegundaGuerra Mundial, de 1939 a 1945, deixou marcas profundadas nos países da Europa e nos Estados Unidos, embora também em outros países as experiências vividas durante o período de guerra tenham sido marcantes, inclusive no Brasil, que cedeu soldados para lutarem na guerra e sofreu com a escassez de bens e alimentos durante o período da guerra. A destruição e o alto número de mortos e feridos de guerra despertou a humanidade para novas necessidades a fim de evitar que aquilo ocorresse novamente. Era preciso construir a paz de forma duradoura, porque só é possível desfrutar de qualidade de vida em um mundo em que haja equilíbrio, segurança, confiança, ou, em uma única palavra, em que haja paz! Além disso, a economia avançou e se tornou globalizada. Cada país e cada setor econômico se viu diante da necessidade de produzir muito mais para poder exportar para outros países e, com isso, trazer mais riquezas. A produção em massa e globalizada atingiu fortemente o meio ambiente, causou poluição do ar, do solo, dos mares, dos rios e, com isso, os temas relacionados à proteção do meio ambiente e da ecologia ganharam destaque na pauta da humanidade. O consumo exagerado também gera preocupações com características de direitos humanos. É preciso que o mundo tenha produtos cada vez mais diversificados, porém não se pode esquecer que a nenhum produtor é dado colocar para consumo produtos que possam afetar a saúde e o bem-estar das pessoas. Por isso, algumas práticas na área de consumo são de grande interesse para os direitos humanos, em especial quando tratamos de produtos farmacêuticos e de alimentos. Como eles são produzidos, como são disponibilizados para consumo, que informações são disponibilizadas para os consumidores, como é feita a publicidade sobre esses produtos, tudo isso é área que interessa muito aos direitos humanos, porque sabemos que alguns medicamentos e alimentos consumidos de forma errada podem levar as pessoas à morte ou a danos de grave extensão para sua saúde. Se a fome ainda é a enorme preocupação no mundo em que vivemos, porque muitas pessoas ainda não conseguem se alimentar com o mínimo necessário todos os dias para terem boa saúde, a obesidade já é tratada em muitos países do mundo como epidemia e traz com ela sérios problemas para a saúde, como as doenças coronarianas, por exemplo. Proteção do consumidor é, portanto, uma modalidade de direitos humanos. Todo consumidor tem direito a receber informações objetivas, precisas, úteis e exatas sobre os produtos ou serviços que consome e, quando esses produtos ou serviços possam ser nocivos à saúde ou ao bem-estar dos consumidores, a responsabilidade dos fornecedores aumenta significativamente. O avanço tecnológico sucessivo e intenso também se tornou um ponto de preocupação para a humanidade. É preciso progredir técnica e cientificamente, mas é preciso que os resultados desse progresso cheguem a todos com igualdade de oportunidades. Além disso, é necessário garantir que o progresso técnico e científico não prejudique nenhuma espécie de vida existente na Terra, em especial, as pessoas. Assim, não se pode admitir a ideia de medicamentos que, para serem desenvolvidos, utilizam pesquisa que cause sofrimento em animais e tampouco que seres humanos participem de pesquisas sem conhecimento e autorização prévia ou em troca de dinheiro, mesmo sabendo que poderão ter sua saúde prejudicada pela pesquisa; muitos fazem isso porque precisam daquele valor para proverem a própria família. 29 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS O progresso técnico-científico é sempre bem-vindo, mas em nenhuma hipótese pode ser construído sem práticas éticas e transparentes, ou com prejuízo para as pessoas, especialmente aquelas que estão em condições de vulnerabilidade econômica ou cultural e, por isso, têm menores chances de lutar por seus direitos e por sua proteção. Saiba mais O filme a seguir discute o tema da relação da indústria de medicamentos, dos governos e a realização de experiências com cobaias humanas: O JARDINEIRO fiel. Dir. Fernando Meirelles, 2005. 129 minutos. É por isso que esse conjunto de direitos da terceira geração ou dimensão é chamado de direitos metaindividuais ou difusos, porque pertencem a toda a humanidade, não há um destinatário específico deles, todos devem ser beneficiados com esses direitos. Por isso também que são chamados de direitos de fraternidade, porque no momento em que a Terra está fortemente interligada pela economia (globalização) e pela comunicação (redes sociais e internet). Esses direitos, como o do meio ambiente saudável e equilibrado, quando forem garantidos para todos os povos, farão o mundo muito melhor, independentemente de onde cada um de nós estiver. 2.9 A quarta geração ou dimensão de direitos humanos São os chamados direitos dos povos. Eles surgiram em decorrência da globalização como um processo irreversível e também dos temores sobre o que a evolução tecnológica poderá significar para a humanidade. Paulo Bonavides explica: São direitos de quarta geração o direito à democracia, o direito à informação e o direito ao pluralismo. Deles depende a concretização da sociedade aberta do futuro, em sua dimensão de máxima universalidade, para a qual parece o mundo inclinar-se no plano de todas as relações de convivência (BONAVIDES, 2007, p. 517). Pluralismo e democracia são os conceitos fundamentais que precisamos compreender para podermos analisar os direitos de quarta geração. Democracia, já sabemos, é o direito de cada cidadão participar das escolhas políticas do Estado em que vive, principalmente por meio de representantes que são eleitos para participar do debate político e para adotar as leis e políticas públicas necessárias para a garantia do interesse de todos, do bem comum. Ocorre que a democracia se tornou uma prática complexa porque dificilmente pode ser direta, ao contrário, em um mundo com superpopulação a participação direta é difícil e substituída por representantes escolhidos pelos diferentes grupos sociais. 30 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I Todos os segmentos sociais conseguem ter representantes? A resposta é não! Só os segmentos sociais que se organizam é que conseguem eleger um ou mais representantes para se dedicarem às suas causas, para defender seus interesses legítimos na esfera pública. E os grupos sociais que não têm força ou recursos econômicos para se organizarem adequadamente? Eles ficarão sem representação? Ficarão sem ninguém para lutar por suas necessidades? Pois é para isso que se discute o pluralismo como um dos direitos humanos de quarta dimensão ou geração. Mulheres, negros, homossexuais, transgêneros, deficientes físicos, crianças e adolescentes são chamados de minorias não porque sejam em menor número de pessoas, mas porque, quase sempre, não contam com representação política que possa defender os direitos que eles possuem. Pergunta: é mais fácil que os ruralistas tenham representantes no poder legislativo, ou é mais fácil que os deficientes físicos tenham representação? Qual tem maior facilidade de organização para apoiar um candidato ou vários candidatos que o representem? Essa representação não se confunde com práticas ilegais como a corrupção, por exemplo. Os ruralistas não se organizam para comprar um deputado que vai fazer somente o que eles quiserem ou os deficientes físicos não se organizam para essa mesma finalidade. Representação significa que o candidato a deputado vai dialogar com esses grupos, conhecer suas necessidades, o que pode ser feito para que a vida deles se desenvolvamelhor. Esse diálogo tem que ser organizado com apresentação de propostas que possam se tornar leis, políticas públicas e, com isso, trazer benefícios para aquele setor social. Existem grupos sociais, no entanto, que se encontram em condição de enorme vulnerabilidade e, por esse motivo, não conseguem se organizar de forma eficiente para poder ter representantes no campo da política. Para esses grupos, a chance de participação democrática fica resumida ao voto, porque o espaço do diálogo não se concretiza na medida em que não conseguem ter representação adequada. Assim, os direitos humanos de quarta dimensão ou geração se voltam para essa preocupação: pluralismo democrático, garantir que todas as pessoas tenham possibilidade de ter voz na vida política, para poderem apresentar suas ideias, reivindicar seus direitos, discutir propostas e soluções de problemas. Só assim teremos uma democracia verdadeiramente plural, em que todos os grupos sociais se sintam representados e ativamente participantes do debate político. Os estudiosos apontam uma outra face dos direitos humanos de quarta dimensão ou geração, a proteção contra os abusos ou desvios que possam ser causados pelo progresso científico. Em especial, há preocupação com o que pode ser prejudicial no campo dos estudos genéticos. Os estudos genéticos avançaram muito e permitem, na atualidade, utilização no campo da engenharia genética e da biotecnologia. Porém, esse avanço não pode ser tratado exclusivamente a partir da ótica do interesse econômico, porque é preciso preservar a ética e o valor da vida humana. Francisco Vieira Lima Neto: (A quarta dimensão de direitos humanos) somente é possível porque as inovações tecnológicas criariam para a humanidade problemas de ordem 31 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS tal que o Direito, forçosamente, sob pena de alteração e deterioração do genoma humano, se veria instado a apresentar soluções, propondo limites e regulamentos às pesquisas e uso de dados com vistas à preservação do patrimônio genético da espécie humana. Com isso, o Direito estaria protegendo não só o homem enquanto indivíduo, mas também, e principalmente, como membro de uma espécie. Dentre os possíveis direitos típicos da quarta geração de direitos humanos, estaria o de não ter seu patrimônio genético alterado, operação que, se na década passada certamente estaria inserida no domínio da ficção científica, hoje, no limiar do terceiro milênio, pode ser realizada em alguns países de maior desenvolvimento econômico e científico, tendo seus limites impostos menos pela ética e pelas leis do que pela falta de conhecimento da localização e função exatas de cada gene humano. “Esses direitos resultam dos novos conhecimentos e tecnologias resultantes das pesquisas biológicas contemporâneas”, conforme ensina Vicente Barreto (LIMA NETO, 2018). A preocupação com as consequências da má utilização do conhecimento genético foi tão intensa que a Assembleia Geral da Unesco – Organização das Nações Unidas para Ciência, Educação e Cultura aprovou em 1997 a Declaração dos Direitos do Homem e do Genoma Humano, por meio da qual cada país participante da ONU assumiu o compromisso de divulgar seu conteúdo e buscar soluções para conciliar o desenvolvimento tecnológico com o respeito aos direitos do homem. No artigo 1º da Declaração dos Direitos do Homem e do Genoma Humano, está consignado que: Artigo 1º O genoma humano constitui a base da unidade fundamental de todos os membros da família humana, bem como de sua inerente dignidade e diversidade. Num sentido simbólico, é o patrimônio da humanidade (UNESCO, 2000). E os artigos 2, 3 e 4 expressam as principais preocupações da Unesco na defesa dos direitos humanos em relação à utilização do conhecimento genético: Artigo 2º a) A todo indivíduo é devido respeito à sua dignidade e aos seus direitos, independentemente de suas características genéticas. b) Esta dignidade torna imperativa a não redução dos indivíduos às suas características genéticas e ao respeito à sua singularidade e diversidade. Artigo 3º O genoma humano, evolutivo por natureza, é sujeito a mutações. Contém potencialidades expressadas de formas diversas conforme o ambiente natural e social de cada indivíduo, incluindo seu estado de saúde, 32 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I condições de vida, nutrição e educação. Artigo 4º O genoma humano em seu estado natural não deve ser objeto de transações financeiras (UNESCO, 2000). O maior risco do uso indevido do conhecimento científico é provocar a biologização da vida, ou seja, utilizar os de mapeamento genético para explicar todos os comportamentos humanos, esquecendo que o meio social que o indivíduo vive influencia diretamente em sua formação moral, ética, política e econômica. Em outras palavras, a engenharia genética não tem o condão de explicar tudo nem pode tentar fazê-lo, sob pena de reduzirmos o ser humano a resultados genéticos sem considerar sua formação psicológica e social. Não pode haver determinismo genético para explicar todas as múltiplas circunstâncias e vivências das quais a vida humana é constituída. O ser humano é complexo, não pode ser explicado apenas pela genética. Outra preocupação relevante protegida pela Declaração da Unesco foi a discriminação fundada em características genéticas. Assim, o artigo 6º da Declaração determina que: “Nenhum indivíduo deve ser submetido à discriminação com base em características genéticas, que vise violar ou que tenha como efeito a violação de direitos humanos, de liberdades fundamentais e da dignidade humana.” Os artigos 10 e 11 estabelecem diretrizes para as pesquisas, em especial no campo da clonagem de seres humanos. A Unesco (2000) recomenda fortemente que: Artigo 10 – Nenhuma pesquisa ou suas aplicações relacionadas ao genoma humano, particularmente nos campos da biologia, da genética e da medicina, deve prevalecer sobre o respeito aos direitos humanos, às liberdades fundamentais e à dignidade humana dos indivíduos ou, quando for aplicável, de grupos humanos. Artigo 11 – Práticas contrárias à dignidade humana, tais como a clonagem de seres humanos, não devem ser permitidas. Estados e organizações internacionais competentes são chamados a cooperar na identificação de tais práticas e a tomar, em nível nacional ou internacional, as medidas necessárias para assegurar o respeito aos princípios estabelecidos na presente Declaração. Como podemos perceber, duas são as preocupações mais relevantes da Unesco: que as pesquisas genéticas continuem sendo feitas com o propósito de beneficiar a humanidade, em especial na busca de cura para os grandes males que afligem os seres humanos, como as doenças autoimunes e os vários tipos de câncer; e que nenhuma pesquisa e nenhum avanço no campo dos estudos genéticos seja negativo ou prejudicial para a dignidade da pessoa humana. 33 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS 2.10 A quinta geração ou dimensão de direitos humanos São os chamados direitos à paz permanente. Figura 9 A foto anterior mostra os momentos iniciais de um dos piores atentados terroristas ocorridos em todo o mundo, quando as Torres Gêmeas de Nova York foram atingidas por dois aviões e desmoronaram, causando a morte de milhares de pessoas. Aquele, infelizmente, foi apenas o primeiro de vários atentados terroristas que têm ocorrido nos últimos 15anos, sempre com muitas vítimas covardemente feridas e mortas. São explosões de homens-bomba, atropelamento com veículos de passeio e caminhões, bombas lançadas em ambientes com muitas pessoas, ataques a tiros, entre outros. Figura 10 34 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I A foto anterior mostra os protestos pacíficos contra o ataque terrorista realizado no jornal Charlie Hebdo, em Paris, em 7 de janeiro de 2015. Milhares de pessoas foram às ruas em várias partes do mundo para protestar, de forma silenciosa e muito sentida. O mundo precisa de paz, os direitos humanos de quinta geração ou dimensão propugnam exatamente por isso, para que todos os países membros da ONU e todos aqueles que não são membros participem de um grande esforço para efetivar a paz, torná-la concreta em todas as partes da Terra. Contudo, sabemos todos que isso não é fácil! Existem conflitos espalhados por vários pontos do planeta e com as mais diversas origens. São conflitos territoriais, religiosos, políticos, econômicos ou ideológicos. Quando não, vários fatores se misturam para formar um conflito de grandes proporções. Os conflitos internos na Síria, a situação de tensão permanente entre Israel e Palestina, as práticas criminosas do grupo Boko Haram, que praticou o sequestro de 200 adolescentes mulheres em 2014, as práticas do grupo terrorista Estado Islâmico, os atentados ocorridos na França, na Espanha e na Inglaterra, todos esses são momentos em que a paz mundial é fortemente abalada e a insegurança toma conta de boa parte do mundo. Em artigo escrito para o jornal Folha de São Paulo em 3 de dezembro de 2006 e ainda muito atual, o professor Paulo Bonavides se refere ao direito à paz da seguinte forma: O DIREITO à paz é o direito natural dos povos. Direito que esteve em estado de natureza no contratualismo social de Rousseau e que ficou implícito como um dogma na paz perpétua de Kant. Direito à paz, sim. Mas paz em sua dimensão perene, à sombra do modelo daquele filósofo. Paz em seu caráter global, em sua feição agregativa de solidariedade, em seu plano harmonizador de todas as etnias, de todas as culturas, de todos os sistemas, de todas as crenças e que a fé e a dignidade do homem propugnam, reivindicam e sancionam. Paz, portanto, em seu sentido mais profundo, perpassado de valores domiciliados na alma da humanidade. Valores providos de inviolável força legitimadora, única capaz de construir a sociedade da justiça, que é fim e regra para o estabelecimento da ordem, da liberdade e do bem comum na convivência universal. A essa ideia de concórdia adere uma ética que tem a probabilidade de governar o futuro, nortear o comportamento da classe dirigente, legitimar-lhe os atos e as relações de poder. Quem conturbar essa paz, quem a violentar, quem a negar, cometerá, à luz desse entendimento, crime contra a sociedade humana. Execrado das presentes e das futuras gerações, o Estado que delinquir ou fizer a paz soçobrar como direito há por certo de responder ante o tribunal das nações; primeiro no juízo coevo, a seguir, no juízo do porvir, perante a história. 35 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Devemos assinalar que a defesa da paz se tornou princípio constitucional, insculpido no artigo 4º, inciso VI, da nossa Constituição. Desde 1988, avulta entre os princípios que o legislador constituinte estatuiu para reger o país no âmbito de suas relações internacionais. E, como todo princípio na Constituição, tem ele a mesma força, a mesma virtude, a mesma expressão normativa dos direitos fundamentais. Só falta universalizá-lo, alçá-lo a cânone de todas as Constituições. Vamos requerer, pois, o direito à paz como se requerem a igualdade, a moralidade administrativa, a ética na relação política, a democracia no exercício do poder (BONAVIDES, 2006). No entendimento do professor Paulo Bonavides (2006), a paz é um direito que precisa estar em todas as constituições de todos os países do planeta, para que os governantes tenham sempre em mente que não se pode romper com a paz e que são necessários todos os esforços possíveis para mantê-la, para concretizá-la de forma satisfatória. Considera Paulo Bonavides que a paz é um direito para todos os povos e um dever para todos os governantes. Sem dúvida, é uma ideia interessante porque coloca a paz em um campo concreto, como um dever de governo e um princípio do Estado, o que, sem dúvida, fortalece o empenho para que os melhores propósitos sejam atingidos. Existem alguns estudiosos, ainda, que inserem no rol dos direitos humanos de quinta geração ou dimensão a proteção para os seres humanos no âmbito dos riscos decorrentes da revolução tecnológica que a internet, a rede mundial de computadores, propiciou em grande parte da Terra. Na atualidade, aqueles que têm acesso constante à rede mundial de computadores e às redes sociais sabem que estão sujeitos a muitos riscos decorrentes de crimes praticados no espaço virtual. São crimes cibernéticos para captura de senhas de acesso ao sistema bancário eletrônico, para disseminação de fotografias de práticas de pedofilia, para divulgação de imagens de crimes de estupro coletivo, uso indevido de imagens, práticas de estelionato virtual, entre outras inúmeras possibilidades de práticas ilícitas. No campo dos direitos humanos, as práticas ilícitas também ocorrem com discriminação de raça, de gênero, de orientação sexual, religiosa, sempre com consequências muito graves. Já são comuns, infelizmente, práticas de bulling pelas redes sociais que levam jovens e adolescentes a se suicidarem ou a desenvolverem doenças psíquicas muito graves, muitas vezes sem contar a seus pais ou professores porque temem ficar ainda mais expostos a serem ridicularizados. São casos em que jovens, adolescentes e até crianças enfrentam problemas sem apoio e sem orientação, o que, sem dúvida, pode provocar atos extremos contra a própria vida. A importância que as práticas ilícitas na rede mundial de computadores adquiriram permite que elas integrem o rol dos direitos humanos de quinta geração ou dimensão, porque combater as práticas e atuar na proteção das vítimas é um tema que envolve todos os países, todas as pessoas e organizações de direitos humanos, até porque se trata de tarefa complexa. Novas dimensões e gerações de direitos humanos surgirão no futuro. O que é importante destacar para finalizar é que os diferentes direitos humanos alocados em cada uma das gerações ou dimensões 36 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I não se sobrepõe aos demais. Todos são importantes e ainda precisam ser praticados mais intensamente nos dias atuais. Todos se complementam, não se excluem e, quando inteiramente garantidos a todas as pessoas, propiciarão um mundo de paz e de felicidade. 2.10.1 Trajetória histórica da construção dos direitos humanos Como já sabemos, a trajetória histórica da construção dos direitos humanos está profundamente atrelada à trajetória histórica da própria humanidade. Na medida que os homens avançam historicamente surgem novas dimensões ou gerações de direito a serem protegidos e, dessa forma, o rol de direitos humanos cresce em quantidade e, consequentemente, em importância. A história dos direitos humanos no mundo se confunde com a história dos organismos que foram criados para defendê-los, entre eles, o mais importante, a ONU. Em 1899, em Haia, na Holanda, foi realizada a Conferência Internacional de Paz,com objetivo de elaborar formas de solução de conflitos de maneira pacífica, para prevenir guerras e organizar regras a serem respeitadas durante os períodos em que existissem conflitos armados. Parece um absurdo para nós, nos dias de hoje, mas no fim do século XIX e início do século XX houve uma preocupação em criar um direito humanitário, ou seja, um direito para proteger aqueles que participavam da guerra. Em outras palavras, uma lei de guerra! O objetivo era fixar limites à atuação dos combatentes de cada país em conflito, para assegurar o respeito aos direitos humanos mesmo nessas situações. A proteção humanitária era destinada, principalmente, para os soldados fora de combate, como feridos, doentes, náufragos e prisioneiros; e para a população civil moradora nas zonas de conflito. Era o Direito Internacional da Guerra, também chamado de Direito Humanitário, que regulamentou a violência no âmbito internacional durante os períodos de guerra. Uma importante contribuição desse conjunto de regras foi exigir, por exemplo, que após um ataque de um inimigo contra outro, fosse liberado um período de tempo sem novos ataques para que as patrulhas pudessem socorrer os feridos. Esses primeiros esforços de proteção humana parecem muito distantes da nossa realidade contemporânea, mas é preciso lembrar que a história da humanidade é repleta de conflitos entre países, o que torna mais fácil compreender a necessidade de organização de um direito internacional de guerra ou direito humanitário, que antecedeu os esforços que seriam feitos depois para a criação dos direitos humanos. 2.10.2 A Liga das Nações – precursora da ONU A entidade considerada como precursora da ONU é a Liga das Nações, instituição criada durante a Primeira Guerra Mundial, em 1919, a partir do Tratado de Versailles. A Liga das Nações tinha como objetivo promover a cooperação, a paz e a segurança no plano internacional e, para isso, condenava agressões externas contra a integridade territorial e contra a independência política de seus membros. A Convenção da Liga das Nações, escrita em 1920, tinha previsões relativas aos direitos humanos, em especial para proteção ao direito do trabalho. Os países que se tornaram signatários da Convenção da Liga das Nações se comprometeram a assegurar condições justas e dignas de trabalho para homens, mulheres e crianças. 37 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS De certa forma, o texto da Convenção da Liga das Nações era uma novidade para aquele período histórico no sentido de que representava uma limitação à soberania dos estados que se tornaram membros daquela entidade. A liberdade de atuação, ou seja, a soberania de cada estado deixava de ser um conceito absoluto para se relativizar, até porque a Convenção da Liga das Nações estabelecia sanções econômicas e militares a serem impostas pela comunidade internacional, pelos demais países participantes, contra os estados que violassem as obrigações assumidas a partir do momento em que assinassem a Convenção. É bastante interessante observar que a partir da assinatura da Convenção da Liga das Nações, cada estado se comprometia a garantir o respeito aos direitos humanos em seu território, mediante a adoção de leis que efetivassem esses direitos. O Estado deveria respeitar os direitos humanos para prosseguir com sua soberania porque, do contrário, seria punido pelos demais. 2.10.3 A Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a internacionalização dos direitos humanos A criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 1919, com objetivo de promover justiça social contribuiu decisivamente para que o debate sobre direitos humanos e sua aplicabilidade em todas as áreas da vida humana fosse ampliado e efetivado. A missão da OIT desde sua criação foi “promover oportunidades para que homens e mulheres possam ter acesso a um trabalho decente e produtivo, em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade”. A OIT foi criada pela Conferência de Paz, realizada após a Primeira Guerra Mundial, e se encontra mencionada na parte XIII do Tratado de Versalhes. Tratado de Versalhes foi o nome dado ao acordo internacional firmado entre várias nações e que colocou fim aos conflitos da Primeira Guerra Mundial, fixando responsabilidades para a Alemanha, em especial, suportar todos os prejuízos causados pela guerra. Em linhas gerais, o tratado apontava a Alemanha como única responsável pelo conflito e por suas consequências materiais, em especial no tocante aos aspectos econômicos. Evidentemente, isso fragilizou a economia alemã, que já havia sofrido muito com a Primeira Guerra Mundial e criou as condições sociais, políticas e econômicas suficientes para que Hitler ascendesse ao poder e levasse a Alemanha para os caminhos que resultaram na Segunda Guerra Mundial. Saiba mais O filme a seguir retrata o período histórico que antecedeu à subida de Adolf Hitler ao poder na Alemanha: HITLER: A Ascensão do Mal. Dir. Christian Duguay, 2003. 150 minutos. É bastante interessante para podermos conhecer quais os mecanismos políticos, sociais e econômicos que propiciaram a ascensão desse líder que marcou de forma tão profundamente negativa a história da humanidade. 38 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I Figura 11 – Reunião das tropas de Hitler na Alemanha e saudação a Benito Mussolini na Itália, chamado de duce (líder) por seus apoiadores A criação da OIT contribuiu muito para a divulgação dos direitos humanos em todo o mundo, porém a maior consolidação desses direitos em caráter internacional ocorreu com a Segunda Guerra Mundial e seus efeitos devastadores em termos de destruição e mortes. Foi preciso que essa grande tragédia abalasse profundamente a humanidade, destruísse lares, famílias e nações para que os direitos humanos pudessem ser tratados institucionalmente, com status de prioridade mundial, como é tratado até hoje. Somente após a morte de 60 milhões de pessoas, algumas em condições de absoluta e total desumanidade, como as vítimas dos campos de concentração, a humanidade despertou para a necessidade de priorizar a efetividade dos direitos humanos como ponto de partida para todas as atividades do século XX e seguintes. No trabalho, na família, na cultura, no lazer, no esporte e em qualquer área da vida do ser humano ele precisa ser respeitado em seus direitos e em sua dignidade. 2.10.4 O Tribunal de Nuremberg e a aplicação de punição contra crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes contra a paz O Tribunal de Nuremberg, que ocorreu durante os anos de 1945 e 1946, também contribuiu decisivamente para a expansão do conhecimento sobre direitos humanos e, consequentemente, para sua internacionalização. Figura 12 – Tribunal de Nuremberg 39 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS O chamado Acordo de Londres, firmado em 1945, criou as bases legais para a responsabilização que o mundo desejava fazer sobre as práticas dos alemães durante a Segunda Guerra. Esse acordo determinou a convocação de um tribunal militar internacional para julgar os chamados crimes de guerra, expressão que em princípio parece contraditória por ser a guerra um crime violento. Porém, o que pretendiam os países que assinaram o Acordo de Londres é que ficasse claro para o mundo que mesmo durante uma guerra é preciso respeitar os direitos humanos de prisioneiros, combatentes e população civil, em especial para que não sejam praticadosatos de tortura, privação de alimentos e de condições mínimas que garantam o respeito à dignidade humana. Criaram o Acordo de Londres os seguintes países: Estados Unidos da América do Norte, Reino Unido, Governo Provisório da República da França e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Aderiram ao Acordo: Grécia, Dinamarca, Iugoslávia, Países Baixos, Checoslováquia, Polônia, Bélgica, Etiópia, Austrália, Honduras, Noruega, Panamá, Luxemburgo, Haiti, Nova Zelândia, Índia, Venezuela, Uruguai e Paraguai. Pelo Acordo de Londres, o Tribunal de Nuremberg estava capacitado para processar e punir as pessoas que fossem apontadas como responsáveis pela prática de crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, categorias que o acordo cuidou de definir adequadamente. Assim, foram definidos: • Crimes contra a paz: planejar, preparar, incitar ou contribuir para a guerra de agressão ou para a guerra, em violação aos tratados e acordos internacionais, ou participar de plano comum ou conspiração para a realização das referidas ações. • Crimes de guerra: violar o direito e o direito costumeiro da guerra; tais violações devem incluir, mas não serem limitadas a assassinato, tratamento cruel, deportação de populações civis que estejam ou não em territórios ocupados, para trabalho escravo ou para qualquer outro propósito. Também foram incluídos como crimes de guerra: assassinatos ou tratamento cruel de prisioneiros de guerra ou de pessoas em alto-mar, assassinato de reféns, saques à propriedade pública ou privada, destruição de vilas ou cidades e devastação injustificada por ordem militar. • Crimes contra a humanidade: assassinar, exterminar, escravizar, deportar ou outro ato desumano cometido contra a população civil, antes ou durante a guerra, ou perseguições baseadas em critérios raciais, políticos e religiosos, para execução de crime ou em conexão com crime de jurisdição do Tribunal, independentemente se em violação ou não de direito doméstico de determinado país em que foi perpetrado. O Tribunal de Nuremberg julgou, essencialmente, oficiais militares alemães e membros do partido nazista, e as condenações foram duras. A instalação do Tribunal de Nuremberg, o julgamento e as condenações que se seguiram foram objeto de muita polêmica e, até hoje, o tema suscita debates acalorados. Parte dos estudiosos defende que o tribunal não foi isento, que os acusados já estavam pré-condenados pela imprensa, em especial, a norte-americana. Também se discute sobre o fato de terem sido julgados alemães e não os oficiais dos exércitos aliados como, por exemplo, Estados Unidos, Inglaterra e União Soviética. Essas críticas levaram o Tribunal de Nuremberg a ser chamado de tribunal 40 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I dos vencedores contra os vencidos, o que, sem dúvida, é uma crítica bastante séria e pejorativa para aqueles que tiveram a iniciativa de organizar esse julgamento. Observação As sentenças impostas pelo Tribunal Militar Internacional de Nuremberg foram as seguintes: Goering (morte), Hess (prisão perpétua), Ribbentrop (morte), Keitel (morte), Kaltenbruner (morte), Rosemberg (morte), Frank (morte), Frick (morte), Streicher (morte), Funk (prisão perpétua), Schirach (20 anos de prisão), Schacht (absolvição), Donitz (10 anos de prisão), Raeder (prisão perpétua), Sanckel (morte), Jodl (morte), Borman (morte), Papen (absolvição), Seyss-Ingurart (morte), Speer (20 anos de prisão), Neurath (15 anos de prisão) e Fritzche (absolvição) (PAULO FILHO, [s.d.]). É importante lembrar, porém, que a discussão em torno do Tribunal de Nuremberg nos leva à reflexão sobre a necessidade de práticas éticas até mesmo quando duas partes estão em confronto. Mesmo em estado de guerra, os inimigos (países, aldeias, grupos religiosos ou raciais etc.) devem respeitar a integridade física, moral e psicológica de seus prisioneiros, de forma a não praticarem atos de tortura ou de barbárie que possam agredir a dignidade humana dos soldados ou da população civil. Evidentemente que o maior desejo coletivo da humanidade é que os conflitos armados deixem de existir tanto no plano interno de cada território, nação ou estado, como no plano internacional entre diferentes grupos políticos ou países. Contudo, enquanto a guerra for uma possibilidade é preciso que exista regramento ético para ela, de forma que não sejam praticados atos de violência além daqueles estritamente necessários para as partes atingirem seus objetivos. Atos de violência contra a população civil não podem ser tolerados, em especial ataques, estupros, invasão de casas, remoção dos lugares de habitação para campos de prisioneiros, privação de alimentos, de água ou de abrigo, ou qualquer outra forma de violência que possa ser praticada contra pessoas. Por essas razões é que, apesar da estranha denominação de crimes de guerra, porque a guerra já é um ato de violência comparável a um crime, é preciso compreender que tal ação foi um esforço para tentar impedir que a violência seja ainda maior, ainda mais negativa para todos. 2.10.5 A criação da ONU As primeiras ideias a respeito de um organismo internacional de direitos surgem em uma mensagem que o então presidente norte-americano, Franklin Delano Roosevelt, encaminha em 6 de janeiro de 1941 para o congresso dos Estados Unidos. Também se atribui a criação da ONU a um documento denominado Carta do Atlântico, assinada em 14 de agosto do mesmo ano pelo primeiro-ministro inglês Winston Churchill e pelo presidente norte-americano Franklin Roosevelt. 41 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS A ONU foi criada para contribuir para a construção de uma nova ordem internacional que tivesse como modelo de conduta a prioridade para a paz e a segurança, para o desenvolvimento de relações amistosas entre países e para a cooperação internacional nas áreas econômica, social e cultural. A ONU foi criada para garantir a proteção internacional dos direitos humanos em todos os setores da vida no planeta, inclusive na saúde, educação, proteção ambiental, o desenvolvimento científico e outros. Na Carta do Atlântico, o presidente norte-americano e o primeiro-ministro inglês fixaram que seus países estavam na Segunda Guerra Mundial para garantir o respeito ao direito de todos os povos escolherem sua própria forma de governo e para lutar pela restauração da liberdade de cada povo se autogovernar, direito do qual haviam sido privados em razão do uso da força pelo inimigo. Pela Carta do Atlântico, Inglaterra e Estados Unidos se obrigavam a atuar para a colaboração mundial, para a melhora das condições dos trabalhadores e para o progresso econômico dos países. Na primeira Assembleia Geral das Nações Unidas, ocorrida em Londres no ano de 1946, ficou acordado entre os países membros que a sede permanente da organização seria nos Estados Unidos, mais precisamente na cidade de Nova York. Com a ajuda do governo federal norte-americano e do município de Nova York, a sede da ONU foi instalada na ilha de Manhattan, local em que se encontra até hoje. Nações Unidas, entretanto, começaram a existir oficialmente em 24 de outubro de 1945. Figura 13 – Foto da sede da ONU em Nova York, Estados Unidos 42 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I O Brasil foi um dos países que assinou a Carta das Nações Unidas e introduziu suas diretrizes no ordenamento jurídico brasileiro por meio do Decreto-lei nº 7.935. Ele aprovoua Carta das Nações Unidas em 4 de setembro de 1945 pelo Decreto-lei nº 7.935. Por meio desse decreto-lei, as determinações constantes da Carta das Nações Unidas passaram a fazer parte do ordenamento jurídico brasileiro e, em consequência, devem ser respeitadas como se fossem uma lei brasileira. Saiba mais Consulte o site a seguir para conhecer na íntegra o Decreto-lei nº 7.935, de 03 de setembro de 1945, que adota para o Brasil o texto da Carta das Nações: BRASIL. Decreto-lei nº 7.935, de 03 de setembro de 1945. Cartas das Nações Unidas. Brasília, 1945. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/ legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-7935-3-setembro-1945-417286- publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso em: 7 jan. 2019. 2.10.6 Estrutura da ONU A ONU é um organismo internacional formada por 193 Estados membros. Ela é constituída por seis órgãos principais, que são: • Assembleia Geral • Conselho de Segurança • Conselho Econômico e Social • Conselho de Tutela • Tribunal Internacional de Justiça • Secretariado Geral Saiba mais A relação completa dos Estados membros pode ser encontrada site da ONU, que está em português e pode ser consultado com muita facilidade: NAÇÕES UNIDAS DO BRASIL (ONUBR). Países membros da ONU. ONUBR, [s.d.]k. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/conheca/paises- membros/>. Acesso em: 24 nov. 2018. 43 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS A sede do Tribunal Internacional de Justiça é na cidade de Haia, na Holanda. Os demais organismos da ONU estão em Nova York, nos Estados Unidos. A Assembleia Geral da ONU tem por função e objetivos: A Assembleia Geral da ONU é o principal órgão deliberativo da ONU. É lá que todos os Estados membros da Organização (193 países) se reúnem para discutir os assuntos que afetam a vida de todos os habitantes do planeta. Na Assembleia Geral, todos os países têm direito a um voto, ou seja, existe total igualdade entre todos seus membros. Assuntos em pauta: paz e segurança, aprovação de novos membros, questões de orçamento, desarmamento, cooperação internacional em todas as áreas, direitos humanos etc. As resoluções – votadas e aprovadas – da Assembleia Geral funcionam como recomendações e não são obrigatórias. Principais funções Discutir e fazer recomendações sobre todos os assuntos em pauta na ONU; Discutir questões ligadas a conflitos militares – com exceção daqueles na pauta do Conselho de Segurança; Discutir formas e meios para melhorar as condições de vida das crianças, dos jovens e das mulheres; Discutir assuntos ligados ao desenvolvimento sustentável, meio ambiente e direitos humanos; Decidir as contribuições dos Estados membros e como estas contribuições devem ser gastas; Eleger os novos Secretários-Gerais da Organização (ONUBR, [s.d.]a). O Conselho de Segurança da ONU tem por função: O Conselho de Segurança é o órgão da ONU responsável pela paz e segurança internacionais. Ele é formado por 15 membros: cinco permanentes, que possuem o direito a veto – Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China – e dez membros não permanentes, eleitos pela Assembleia Geral por dois anos. Este é o único órgão da ONU que tem poder decisório, isto é, todos os membros das Nações Unidas devem aceitar e cumprir as decisões do Conselho. 44 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I Principais funções Manter a paz e a segurança internacional; Determinar a criação, continuação e encerramento das Missões de Paz, de acordo com os Capítulos VI, VII e VIII da Carta; Investigar toda situação que possa vir a se transformar em um conflito internacional; Recomendar métodos de diálogo entre os países; Elaborar planos de regulamentação de armamentos; Determinar se existe uma ameaça para a paz; Solicitar aos países que apliquem sanções econômicas e outras medidas para impedir ou deter alguma agressão; Recomendar o ingresso de novos membros na ONU; Recomendar para a Assembleia Geral a eleição de um novo Secretário-Geral (ONUBR, [s.d.]e). O Conselho Econômico e Social da ONU tem por objetivos: O Conselho Econômico e Social (ECOSOC) é o órgão coordenador do trabalho econômico e social da ONU, das Agências Especializadas e das demais instituições integrantes do Sistema das Nações Unidas. O Conselho formula recomendações e inicia atividades relacionadas com o desenvolvimento, comércio internacional, industrialização, recursos naturais, direitos humanos, condição da mulher, população, ciência e tecnologia, prevenção do crime, bem-estar social e muitas outras questões econômicas e sociais. Principais funções Coordenar o trabalho econômico e social da ONU e das instituições e organismos especializados do Sistema; Colaborar com os programas da ONU; Desenvolver pesquisas e relatórios sobre questões econômicas e sociais; Promover o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais (ONUBR, [s.d.]e). 45 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS O Conselho de Tutela da ONU já não atua mais. Entenda por que: Segundo a Carta da ONU, cabia ao Conselho de Tutela a supervisão da administração dos territórios sob regime de tutela internacional. As principais metas desse regime de tutela consistiam em promover o progresso dos habitantes dos territórios e desenvolver condições para a progressiva independência e estabelecimento de um governo próprio. Os objetivos do Conselho de Tutela foram tão amplamente atingidos que os territórios inicialmente sob esse regime – em sua maioria países da África – alcançaram, ao longo dos últimos anos, sua independência. Tanto assim que em 19 de novembro de 1994, o Conselho de Tutela suspendeu suas atividades após quase meio século de luta em favor da autodeterminação dos povos. A decisão foi tomada após o encerramento do acordo de tutela sobre o território de Palau, no Pacífico. Palau, último território do mundo que ainda era tutelado pela ONU, tornou-se então um Estado soberano, membro das Nações Unidas (ONUBR, [s.d.]e). O Tribunal Internacional de Justiça ou Corte Internacional de Justiça A Corte Internacional de Justiça, com sede em Haia (Holanda), é o principal órgão judiciário das Nações Unidas. Todos os países que fazem parte do Estatuto da Corte – que é parte da Carta das Nações Unidas – podem recorrer a ela. Somente países, nunca indivíduos, podem pedir pareceres à Corte Internacional de Justiça. Além disso, a Assembleia Geral e o Conselho de Segurança podem solicitar à Corte pareceres sobre quaisquer questões jurídicas, assim como os outros órgãos das Nações Unidas. A Corte Internacional de Justiça se compõe de quinze juízes chamados membros da Corte. São eleitos pela Assembleia Geral e pelo Conselho de Segurança em escrutínios separados (ONUBR, [s.d.]b). Por fim, a Assembleia Geral da ONU tem por objetivos e funções: A Assembleia Geral da ONU é o principal órgão deliberativo da ONU. É lá que todos os Estados membros da Organização (193 países) se reúnem para discutir os assuntos que afetam a vida de todos os habitantes do planeta. Na Assembleia Geral, todos os países têm direito a um voto, ou seja, existe total igualdade entre todos seus membros. Assuntos em pauta: paz e segurança, aprovação de novos membros, questões de orçamento, desarmamento, cooperação internacional em todas as áreas, 46 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D iagr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I direitos humanos etc. As resoluções – votadas e aprovadas – da Assembleia Geral funcionam como recomendações e não são obrigatórias. Principais funções Discutir e fazer recomendações sobre todos os assuntos em pauta na ONU; Discutir questões ligadas a conflitos militares – com exceção daqueles na pauta do Conselho de Segurança; Discutir formas e meios para melhorar as condições de vida das crianças, dos jovens e das mulheres; Discutir assuntos ligados ao desenvolvimento sustentável, meio ambiente e direitos humanos; Decidir as contribuições dos Estados membros e como estas contribuições devem ser gastas; Eleger os novos Secretários-Gerais da Organização (ONUBR, [s.d.]a). A ONU possui ainda órgãos específicos para tratar de assuntos como saúde, educação, infância entre outros. Vamos conhecer alguns desses órgãos: Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) lidera os esforços internacionais de erradicação da fome e da insegurança alimentar. Criada em 16 de outubro de 1945, a FAO atua como um fórum neutro, onde todos os países, desenvolvidos e em desenvolvimento, se reúnem em pé de igualdade para negociar acordos, debater políticas e impulsionar iniciativas estratégicas. Atualmente a FAO tem 191 países-membros, mais a Comunidade Europeia. Nossa sede central é em Roma, Itália, e nossa rede mundial compreende cinco escritórios regionais e 78 escritórios nacionais. A FAO também é fonte de conhecimento e informação. Nós ajudamos os países a aperfeiçoar e modernizar suas atividades agrícolas, florestais e pesqueiras, para assegurar uma boa nutrição a todos e o desenvolvimento agrícola e rural sustentável. Desde sua fundação, a FAO tem dado atenção especial ao desenvolvimento das áreas rurais, onde vivem 70% das populações de baixa renda, e que ainda passam fome. 47 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Um compromisso A FAO trabalha no combate à fome e à pobreza, promove o desenvolvimento agrícola, a melhoria da nutrição, a busca da segurança alimentar e o acesso de todas as pessoas, em todos os momentos, aos alimentos necessários para uma vida ativa e saudável. Reforça a agricultura e o desenvolvimento sustentável, como estratégia a longo prazo para aumentar a produção e o acesso de todos aos alimentos, ao mesmo tempo em que preserva os recursos naturais. Linhas de ação da FAO Assistência Técnica aos Países em Desenvolvimento e Cooperação Sul-Sul: Apoia os países em desenvolvimento com a formulação e execução de políticas e projetos de assistência técnica em apoio de programas nas áreas agrícola, alimentar, de desenvolvimento rural, florestal e pesqueira e para a cooperação Sul-Sul. Informação ao alcance de todos: A FAO funciona como uma rede de conhecimentos. Usamos a excelência de nosso staff – agrônomos, engenheiros florestais e outros – para coletar, analisar e disseminar informações. Também publicamos newsletters e livros, distribuímos revistas e criamos material em mídia eletrônica. Assessoramento aos governos: A FAO divide sua experiência com os países membros prestando assessoria sobre política e planejamento agrícola, desenvolvendo legislações e criando estratégias nacionais (ONUBR, [s.d.]d). Organização Pan-Americana de Saúde e Organização Mundial de Saúde A Organização Pan-Americana da Saúde é um organismo internacional de saúde pública com um século de experiência, dedicado a melhorar as condições de saúde dos países das Américas. A integração às Nações Unidas acontece quando a entidade se torna o Escritório Regional para as Américas da Organização Mundial da Saúde. A Opas/OMS também faz parte dos sistemas da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Organização das Nações Unidas (ONU). A Organização exerce um papel fundamental na melhoria de políticas e serviços públicos de saúde, por meio da transferência de tecnologia e da difusão do conhecimento acumulado por meio de experiências produzidas nos Países-Membros, um trabalho de cooperação internacional promovido por técnicos e cientistas vinculados à Opas/OMS, especializados em 48 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I epidemiologia, saúde e ambiente, recursos humanos, comunicação, serviços, controle de zoonoses, medicamentos e promoção da saúde. Todo esse esforço é direcionado para alcançar metas comuns, como iniciativas sanitárias multilaterais, traçadas pelos governos que fazem parte da Opas/OMS, sempre com uma atenção especial aos grupos mais vulneráveis: mães e crianças, trabalhadores, idosos, pobres, refugiados e desabrigados. [...] Trabalho A promoção e apoio a campanhas para erradicação ou eliminação de doenças transmissíveis, o esforço para deter epidemias como a de cólera, a cooperação em situações de emergência e na coordenação de socorro em casos de desastres, a promoção de estilos saudáveis de vida, a redução dos riscos de saúde ocupacional, a capacitação de trabalhadores de saúde e o desenvolvimento de programas de melhoria da saúde da mulher são algumas das frentes de trabalho da Opas/OMS junto a governos e instituições dos Estados membros. A melhoria das condições nutricionais, a redução da mortalidade e da morbidade por doenças diarreicas e a provisão de água potável, saneamento e proteção ambiental são outros importantes campos de colaboração da organização com os diversos países. A Opas/OMS executa projetos em conjunto com outros organismos do sistema das Nações Unidas, como o Sistema Interamericano de Cooperação da OEA, o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, e também diversos governos e fundações filantrópicas. Organizações comunitárias, agências bilaterais, universidades, faculdades e escolas de saúde pública também estão entre os parceiros da Opas/OMS, que possui um amplo programa de publicações para difundir informações técnicas e científicas. A Opas/OMS propõe e apoia campanhas para erradicar ou eliminar doenças transmissíveis, a exemplo do que aconteceu com a varíola em 1973. Mais tarde, em 1985, os países da América decidiram ter como missão erradicar a poliomielite, meta que foi alcançada e ratificada em 1994. A Organização coopera com os países nos preparativos para situações de emergência e na coordenação de socorro em casos de desastres, bem como no controle às doenças transmissíveis como malária, chagas, raiva urbana, lepra e outras que afetam a população americana. Um grande esforço é empreendido para deter epidemias como a de cólera, através da elaboração de planos nacionais de emergência e de planos regionais de investimentos em meio ambiente e saúde. 49 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS A Opas/OMS trabalha para reduzir a mortalidade e a morbidade por doenças diarreicas promovendo o atendimento aos casos e a reidratação oral, divulgando também o diagnóstico adequado e o tratamento das infecções respiratórias agudas. Outro campo de colaboração com os países é relacionado com a provisão de água potável, saneamento e proteção ambiental às comunidades pobres, para reduzir as enfermidades associadas com a má qualidade da água e deterioração do meio ambiente. Os problemas nutricionais e a redução dos riscos de saúde ocupacional na região também integramo trabalho de cooperação da Opas/OMS com os países. A Organização colabora para acelerar a promoção de estilos de vida saudáveis, prevenindo os problemas de saúde típicos do desenvolvimento e da urbanização, como as enfermidades cardiovasculares, câncer, diabetes, acidentes de trânsito, fumo, drogas e alcoolismo. Ela utiliza tecnologias modernas de comunicação e atividades de informação, educação e promoção de saúde. São desenvolvidos também programas destinados a melhorar a saúde da mulher e sua integração à sociedade, assim como sua importância em relação aos serviços de saúde como cliente e como provedora do atendimento. A Organização cumpre a importante função de facilitar a capacitação de trabalhadores de saúde por meio de bolsas, cursos, seminários e fortalecimento de instituições docentes nacionais, e tem um programa de publicações que difunde informações técnicas e científicas, além de uma rede de bibliotecas acadêmicas, centros de documentação e bibliotecas locais especializadas em saúde. A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) foi criada em 16 de novembro de 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de garantir a paz por meio da cooperação intelectual entre as nações, acompanhando o desenvolvimento mundial e auxiliando os Estados membros – hoje são 193 países – na busca de soluções para os problemas que desafiam nossas sociedades. É a agência das Nações Unidas que atua nas seguintes áreas de mandato: Educação, Ciências Naturais, Ciências Humanas e Sociais, Cultura e Comunicação e Informação. 50 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I A Representação da Unesco no Brasil foi estabelecida em 1964 e seu Escritório, em Brasília, iniciou as atividades em 1972, tendo como prioridades a defesa de uma educação de qualidade para todos e a promoção do desenvolvimento humano e social. Desenvolve projetos de cooperação técnica em parceria com o governo – União, estados e municípios –, a sociedade civil e a iniciativa privada, além de auxiliar na formulação de políticas públicas que estejam em sintonia com as metas acordadas entre os Estados Membros da Organização. Áreas de atuação EDUCAÇÃO No setor de Educação, a principal diretriz da Unesco é auxiliar os países membros a atingir as metas de Educação para Todos, promovendo o acesso e a qualidade da educação em todos os níveis e modalidades, incluindo a educação de jovens e adultos. Para isso, a Organização desenvolve ações direcionadas ao fortalecimento das capacidades nacionais, além de prover acompanhamento técnico e apoio à implementação de políticas nacionais de educação, tendo sempre como foco a relevância da educação como valor estratégico para o desenvolvimento social e econômico dos países. CIÊNCIAS NATURAIS O Setor de Ciências Naturais da Unesco promove dois temas prioritários e amplamente integradores do sistema das Nações Unidas: o desenvolvimento científico e tecnológico, baseado em princípios éticos, capazes de induzir a transformação social, a conservação ambiental e o desenvolvimento sustentável. Tais temas são implementados no Brasil a partir de um conjunto de convenções internacionais, programas intergovernamentais e acordos de cooperação nas áreas de formulação e implementação de políticas de ciência e tecnologia, educação científica, avaliação e gestão dos recursos hídricos, educação ambiental e consolidação de Reservas da Biosfera e Sítios do Patrimônio Mundiais. CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS A área de Ciências Humanas e Sociais tem como principal missão expandir o conhecimento e promover a cooperação intelectual para facilitar transformações sociais alinhadas aos valores universais de justiça, liberdade e dignidade humana. No Brasil, essa missão é implementada principalmente abordando os temas de inclusão social, redução da pobreza e das desigualdades, juventude e prevenção da violência, por meio de programas, projetos e parcerias com 51 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS o governo federal, estados e municípios. Entre esses programas destacam- se o Escola Aberta, que promove a abertura de escolas públicas nos finais de semana, oferecendo atividades artísticas, culturais e esportivas a fim de afastar os jovens da violência, e o Criança Esperança, projeto da Rede Globo realizado em parceria com a Unesco. CULTURA Fundamento da identidade, da energia e das ideias criativas dos povos, a cultura, em toda sua diversidade, é fator de desenvolvimento e coexistência em todo o mundo. Nesse sentido, a Unesco elabora e promove a aplicação de instrumentos normativos no âmbito cultural, além de desenvolver atividades para a salvaguarda do patrimônio cultural, a proteção e o estímulo à diversidade cultural, bem como o fomento ao pluralismo e ao diálogo entre as culturas e civilizações. No Brasil, a Unesco tem atuado em cooperação com as autoridades e instituições nacionais em diversas iniciativas para a preservação do patrimônio cultural, seja no apoio à preservação do Patrimônio Mundial e no fortalecimento dos museus, bem como na salvaguarda do rico patrimônio imaterial brasileiro. Também colabora para a proteção e a promoção da diversidade cultural do país, em atividades de formação e elaboração de políticas culturais nas áreas do artesanato, das indústrias culturais e do turismo cultural, entre outras. COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO O setor de Comunicação e Informação é orientado por três objetivos principais: promover a liberdade de expressão e de imprensa, bem como o direito à informação; estimular o desenvolvimento de meios de comunicação livres, plurais e independentes, fortalecendo, assim, a diversidade, a proteção dos direitos humanos e a boa governança; e sedimentar os pilares da sociedade do conhecimento, sobretudo pelo acesso universal à informação, com foco nas tecnologias de informação e comunicação (TICs). No Brasil, as ações da Unesco nesta área priorizam projetos, programas e debates centrados nas relações entre as TICs e a educação, fundamentalmente nas áreas de avaliação de resultados e formação de professores; na garantia do acesso universal às informações públicas, por meio do fortalecimento da governança eletrônica, da política de arquivos e bibliotecas e da gestão da informação; no alcance de um ecossistema midiático plural, com profissionais capacitados e fortalecidos e com meios (antigos e novos) capazes de solidificar a democracia brasileira (ONUBR, [s.d.]d). 52 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I O Fundo das Nações Unidas para a infância tem por objetivo e funções: Assegurar que cada criança e cada adolescente tenha seus direitos humanos integralmente cumpridos, respeitados e protegidos é a principal missão do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Criado em 1946 para ajudar a reconstruir os países mais afetados pela Segunda Guerra Mundial, o Unicef passou a atuar em outras nações quatro anos depois. Hoje, está presente em 191 países. Em 1950, o Unicef chegou ao Brasil e, desde então, trabalha em parceria com governos municipais, estaduais e federal, sociedade civil, grupos religiosos, mídia, setor privado e outras organizações internacionais, incluindo agências das Nações Unidas, para defender os direitos de meninas e meninos brasileiros. No decorrer dessas décadas, o Uniceftem atuado junto com o País nas conquistas alcançadas no campo dos direitos da infância. Esteve lado a lado do Brasil na luta contra a poliomielite, que teve o último registro de ocorrência em 1989; lutou junto com as mulheres para que lhes fosse garantido o direito a amamentar seus filhos; ajudou o governo brasileiro a criar o seu primeiro programa de merenda escolar; colaborou com a redução das mortes por diarreia, com a promoção do uso do soro caseiro; e, nos últimos anos, está apoiando o País a reduzir as disparidades regionais no Semiárido, Amazônia e comunidades populares dos centros urbanos. O Unicef uniu sua voz à dos brasileiros para a redação e aprovação do artigo 227 da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente – que mudaram o marco legal dos direitos da infância no Brasil. Esteve junto com o parlamento brasileiro, o governo e a sociedade para a aprovação da Lei 9.534/97, que tornou gratuito o Registro Civil de nascimento para todos os brasileiros. O Unicef promoveu ainda ações pela aprovação da Emenda Constitucional número 59, que tornou obrigatório o ensino dos 4 aos 17 anos e também garantiu mais recursos para a educação. Vitórias importantes para a Educação neste País, que contaram com o apoio do Unicef desde o começo das discussões. Em todos esses anos de atuação, o Unicef acompanhou também as modificações pelas quais o Brasil passou: de um país dependente de tecnologia e de recursos para uma nação que enfrenta crises econômicas e que se transforma em referência no mundo. De um país com pequena participação social nas decisões públicas para um país que é exemplo de democracia e de participação popular. 53 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Essas transformações mudaram a forma de cooperação entre o Unicef e o governo brasileiro. Hoje, a atuação do Unicef busca contribuir para a construção de políticas públicas que reduzam as disparidades; aproximar e articular parcerias; desenvolver capacidades e difundir e divulgar tecnologias sociais e boas práticas; e produzir e disseminar conhecimentos em centros de pesquisas e universidades, fazendo com que os gestores e a sociedade trabalhem por resultados concretos na vida das crianças e dos adolescentes. Portanto, o Unicef cumpre seu papel com responsabilidade, garantindo a transparência de suas ações e desenvolvendo seu programa baseado em pesquisas e dados atualizados, que permitem conhecer a realidade das crianças e dos adolescentes no País. O Unicef tem ainda como prioridade promover a participação cidadã de adolescentes em suas famílias, comunidades e nos espaços e políticas que lhes dizem respeito, bem como ajudar no enfrentamento da discriminação racial e étnica. O Unicef mobiliza recursos e experiências de diferentes atores sociais para ajudar a garantir os direitos das crianças e adolescentes. A organização realiza, por exemplo, parcerias estratégicas com o setor corporativo, contribuindo para colocar a causa da infância e da adolescência no “DNA” das empresas. Por meio de ações conjuntas com sociedade e governos, o Unicef atua com compromisso e determinação para garantir uma vida melhor para cada criança e cada adolescente no Brasil (ONUBR, [s.d.]l). Existem, ainda, muitos outros órgãos da ONU. Entre eles, o Fundo Monetário Internacional (FMI); o Banco Mundial; a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal); o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD); o Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (Fida); o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR); o Ato Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos (ACNUDH) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Lembrete O FMI e o Banco Mundial tiveram forte influência sobre a adoção de políticas econômicas nas décadas de 1960, 1970 e 1980 no Brasil e em outros países da América Latina. Pesquise esse importante assunto. Além disso, a ONU criou agências para cuidados com políticas nas áreas de Meio Ambiente, Mulheres e Habitat. 54 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I A ONU Meio Ambiente tem por responsabilidade: A ONU Meio Ambiente, principal autoridade global em meio ambiente, é a agência do Sistema das Nações Unidas (ONU) responsável por promover a conservação do meio ambiente e o uso eficiente de recursos no contexto do desenvolvimento sustentável. Estabelecida em 1972, a ONU Meio Ambiente tem entre seus principais objetivos manter o estado do meio ambiente global sob contínuo monitoramento; alertar povos e nações sobre problemas e ameaças ao meio ambiente e recomendar medidas para melhorar a qualidade de vida da população sem comprometer os recursos e serviços ambientais das gerações futuras. Com sede em Nairóbi, no Quênia, a ONU Meio Ambiente dispõe de uma rede de escritórios regionais para apoiar instituições e processos de governança ambiental e, por intermédio dessa rede, engaja uma ampla gama de parceiros dos setores governamental, não governamental, acadêmico e privado em torno de acordos ambientais multilaterais e de programas e projetos de sustentabilidade. Em 2004, a ONU Meio Ambiente inaugurou o escritório de Brasília, como uma estratégia para reforçar suas atividades no país, tendo como objetivo facilitar a identificação de prioridades e desenvolver iniciativas que atendam especificidades sub-regionais e nacionais. No Brasil, a ONU Meio Ambiente trabalha para disseminar, entre seus parceiros e a sociedade em geral, informações sobre acordos ambientais, programas, metodologias e conhecimentos em temas ambientais relevantes da agenda global e regional e, por outro lado, para promover uma participação e contribuição mais intensa de especialistas e instituições brasileiras em fóruns, iniciativas e ações internacionais. A ONU Meio Ambiente opera ainda em estreita coordenação com organismos regionais e sub-regionais e cooperantes bilaterais, bem como com outras agências do Sistema ONU instaladas no país. Dentre as principais áreas temáticas de atuação da ONU Meio Ambiente no período 2010-2011 estão as mudanças climáticas, a gestão de ecossistemas e biodiversidade, o uso eficiente de recursos e o consumo e produção sustentáveis e a governança ambiental. Nessas áreas, a ONU Meio Ambiente procura contribuir para o diálogo entre os gestores públicos, atores da sociedade civil, do setor privado e acadêmico, ao abordar temas como: - Compilação e análise integrada de informações sobre o estado do meio ambiente e os impactos de processos de desenvolvimento sobre os 55 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS recursos naturais, com objetivo de produzir subsídios para tomadores de decisão e apoiar a elaboração de políticas ambientais. - Identificação e desenvolvimento de alternativas para minimizar impactos negativos ao meio ambiente causados por padrões insustentáveis de produção e consumo, enfocando, principalmente, na eficiência de recursos. - Assistência ao desenvolvimento de capacidade, de conhecimento científico e transferência de tecnologias para fortalecer a implementação de acordos ambientais multilaterais. - Implementação de ações integradas e de cooperação sul-sul entre países em desenvolvimento no âmbito de blocos regionais e sub-regionais. - Promoção de parcerias para integrar o setor privado em uma nova cultura de responsabilidade ambiental e criação de espaçospara a preparação e participação da sociedade civil e setores acadêmicos em projetos de gestão ambiental e desenvolvimento sustentável. A ONU Meio Ambiente Brasil atua em estreita colaboração com o Escritório Regional para a América Latina e Caribe, baseado no Panamá, e mobiliza recursos técnicos de suas diversas unidades especializadas localizadas em Nairóbi, Paris, Genebra, Cambridge etc. (ONUBR, [s.d.]h). A ONU Mulheres ou Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres tem por objetivos e funções: A ONU Mulheres é a nova liderança global em prol das mulheres e meninas. A sua criação, em 2010, foi aplaudida no mundo todo e proporciona a oportunidade histórica de um rápido progresso para as mulheres e as sociedades. A ONU Mulheres trabalha com as premissas fundamentais de que as mulheres e meninas ao redor do mundo têm o direito a uma vida livre de discriminação, violência e pobreza, e de que a igualdade de gênero é um requisito central para se alcançar o desenvolvimento. Os Estados membros da ONU e os ativistas dos direitos das mulheres se uniram para criar a ONU Mulheres. Eles reconheceram que tornar as questões de gênero e igualdade reais nas vidas de mulheres e meninas demandava uma organização com alcance mundial, além de uma experiência consolidada e de consideráveis recursos. Por um tempo longo demais, as mulheres foram forçadas a permanecer à margem nas questões de liderança política, segurança em zonas de conflitos, proteção contra a violência e acesso aos serviços públicos. Hoje, as mulheres precisam estar no centro das decisões como líderes, defensoras e agentes de mudanças. 56 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I A ONU Mulheres está surgindo a partir de um forte embasamento, pela fusão de quatro organizações da ONU com um sólido histórico de experiência em pesquisa, programas e ativismo em quase todos os países. Essas organizações incluem a Divisão da ONU pelo Avanço das Mulheres, o Instituto Internacional de Pesquisa e Treinamento pelo Avanço das Mulheres, o Escritório da Assessora Especial para Questões de Gênero e o Avanço das Mulheres e o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para as Mulheres. A ONU Mulheres defende a participação equitativa das mulheres em todos os aspectos da vida e enfoca cinco áreas prioritárias: - Aumentar a liderança e a participação das mulheres; - Eliminar a violência contra as mulheres e meninas; - Engajar as mulheres em todos os aspectos dos processos de paz e segurança; - Aprimorar o empoderamento econômico das mulheres; - Colocar a igualdade de gênero no centro do planejamento e dos orçamentos de desenvolvimento nacional. A ONU Mulheres apoia os Estados membros da ONU no estabelecimento de padrões globais para alcançar a igualdade de gênero e trabalha junto aos governos e à sociedade civil para formular leis, políticas, programas e serviços necessários à implementação desses padrões. A ONU Mulheres coordena e promove o trabalho do Sistema ONU no avanço da igualdade de gênero. A ex-presidenta sul-africana Phumzile Mlambo-Ngcuka é a subsecretária-geral e diretora executiva da ONU Mulheres. Ela traz ao seu cargo um histórico exemplar como líder visionária e defensora da justiça social e dos direitos das mulheres (ONUBR, [s.d.]i). Por fim, temos a ONU-Habitat ou Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos: O Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) estabeleceu-se em 1978, como resultado da Conferência das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos (Habitat I). Com sede em Nairóbi, capital do Quênia, a organização é a Agência da ONU ponto focal para a urbanização sustentável e os assentamentos humanos. Nosso mandato é trabalhar em prol do desenvolvimento urbano social, econômico e ambientalmente sustentável com o objetivo de proporcionar moradia adequada para todas e todos. 57 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Como uma agência de cooperação técnica especializada do Sistema ONU, o ONU-Habitat trabalha com todos os temas relacionados à vida nas cidades e com todos os tipos de atores, como governos (federal, estadual e municipal), universidades, ONGs e demais instituições do terceiro setor, setor privado etc. Nossos principais projetos tratam dos seguintes assuntos: - Planejamento e desenho urbano local e metropolitano - Legislação urbana, solo e governança - Economia urbana e finanças municipais - Habitação e assentamentos precários/informais - Serviços básicos urbanos (água, saneamento, energia, mobilidade urbana e resíduos) - Segurança urbana e espaços públicos - Empoderamento de mulheres e jovens nas cidades - Participação cidadã - Desenvolvimento econômico local - Mudanças climáticas e resiliência - Gestão e redução de riscos de desastres e reabilitação - Boas práticas - Indicadores urbanos (Iniciativa de Prosperidade das Cidades e Observatórios Urbanos) • Pesquisa e desenvolvimento de capacidades O ONU-Habitat participa ativamente das agendas globais, como por exemplo, na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável (A/RES/70/1), que é um plano de ação para as pessoas, o planeta, a prosperidade, a paz e as parcerias norteado pelo princípio de “não deixar ninguém para trás”. Ainda parte desta agenda, que também possui 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), o ONU-Habitat está responsável pelo 58 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I ODS 11, conhecido como ODS Urbano, que busca “tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”. E, mais relacionada ao tema central do trabalho do ONU-Habitat, temos a Nova Agenda Urbana (A/RES/71/256*), adotada em outubro de 2016, na Conferência das Nações Unidas sobre Habitação e Desenvolvimento Urbano Sustentável, conhecida como Habitat III. Esta agenda é um documento orientado para ação que definiu padrões globais para alcance do desenvolvimento urbano sustentável, repensando a forma como construímos, gerenciamos e vivemos nas cidades (ONUBR, [s.d.]g). Saiba mais Existem muitos outros programas da ONU, no mundo e no Brasil, que podem ser pesquisados. Para conhecer vários outros aspectos do trabalho da Organização das Nações Unidas (ONU) acesse a página: <www.nacoesunidas.org>. 2.10.7 A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada em 10 de dezembro de 1948, por aprovação unânime de 48 Estados, com oito abstenções. É reconhecida como um código ou uma plataforma comum de ação, para a qual não houve nenhum voto contrário e, portanto, deve ser cumprida por todos os países signatários. De acordo com o texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, a única condição para ser titular dos direitos que ela especifica é ser pessoa, ou seja, ser um ser humano. Esse requisito está expresso no artigo VI da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, que textualmente afirma: Artigo VI Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei (ONU, 1948). Essa determinação não é aleatória, ao contrário, é resultado porque o Direito, em vários países do mundo, determina que somente podem ser sujeitos de direito aqueles que forem pessoas. Animais, plantas e minerais não são sujeitos de direito, embora devam ser protegidospela legislação como forma de preservação da natureza. Somente as pessoas é que são titulares de direito e podem exigir que eles sejam cumpridos em seu benefício. 59 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Ocorre que em vários momentos da história da humanidade a condição de pessoa foi subtraída de alguns grupos sociais e, com isso, eles deixaram de ser titulares de direitos. Foi o que ocorreu com os negros em vários países do mundo durante o período de escravidão. Eles não eram reconhecidos como titulares de direitos, ou seja, não eram reconhecidos como pessoas e, por isso, foram tratados de maneira degradante, como se fossem animais de carga. A mesma situação ocorreu na Alemanha durante o período do holocausto nazista, porque os judeus, entre outros grupos perseguidos pelos nazistas, deixaram de ser considerados legalmente como sujeitos de direito e, por isso, foram submetidos aos atos mais degradantes e violentos, sempre com a justificativa de que não eram possuidores de direitos porque eram judeus. Em razão desses exemplos históricos, entre outros, a Organização das Nações Unidas deliberou colocar expressamente no texto da Declaração Universal dos Direitos do Homem que todo ser humano tem direito de ser reconhecido como pessoa, ou seja, como titular de direitos e, consequentemente, de proteção do Estado. Esse direito se aplica a todas as pessoas em qualquer lugar do mundo em que estejam e, se, por acaso, ocorrer novamente de um país pretender realizar uma perseguição contra determinado grupo social, subtraindo dele o direito de ter direitos, caberá à ONU e a todos os países que dela fazem parte exigir que o Estado que estiver agindo de forma contrária à Declaração Universal dos Direitos Humanos volte atrás em sua decisão e reconheça os direitos daquele determinado grupo social. Se o Estado não recuar em sua decisão, caberá à ONU e aos países membros efetivar sanções, inclusive bloqueio comercial, ou seja, deixar de ter relações comerciais de compra e venda de produtos com aquele país específico. Desse conceito de que todo ser humano tem direito de ser reconhecido como pessoa, ou seja, como titular de direitos, surgiu a expressão dignidade da pessoa humana, que nem sempre é bem compreendida por aqueles que não estudam direitos humanos. De fato, como compreender a expressão pessoa humana? Sem a devida explicação histórica e jurídica, pode parecer que existem pessoas que não são humanas! Entretanto, na verdade, a expressão pessoa humana é correta porque sabemos que a palavra pessoa está sendo utilizada no sentido jurídico, ou seja, pessoa é todo sujeito de direitos que pode exigir a proteção do Estado para que esses direitos sejam protegidos e efetivados. Portanto, quando você encontrar a expressão pessoa humana saberá que está diante de um conceito jurídico, construído historicamente em razão dos vários momentos da história da humanidade, em que grupos de pessoas tiveram seus direitos usurpados e, consequentemente, foram vítimas de inúmeras agressões. A expressão dignidade da pessoa humana é tão simbólica e representativa da importância do reconhecimento de direitos para todas as pessoas que foi adotada por várias Constituições Federais em diferentes países após a Segunda Guerra Mundial, em especial pela Alemanha. O artigo 1º da Constituição Federal alemã (ALEMANHA, 2011), aprovada em 23 de maio de 1949, na cidade de Bonn, determina que: 60 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I Artigo 1 [Dignidade da pessoa humana – direitos humanos – Vinculação jurídica dos direitos fundamentais] (1) A dignidade da pessoa humana é intangível. Respeitá-la e protegê-la é obrigação de todo o poder público. (2) O povo alemão reconhece, por isto, os direitos invioláveis e inalienáveis da pessoa humana como fundamento de toda comunidade humana, da paz e da justiça no mundo. (3) Os direitos fundamentais, discriminados a seguir, constituem direitos diretamente aplicáveis e vinculam os poderes legislativo, executivo e judiciário. No Brasil, a Constituição Federal aprovada em 05 de outubro de 1988, a primeira a vigorar no país após o regime de ditadura militar ocorrido entre 1964 e 1985 e durante o qual os direitos das pessoas foram duramente restringidos pelos governantes, determinou em seu artigo 1º, inciso III, que: Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I – a soberania; II – a cidadania; III – a dignidade da pessoa humana; IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V – o pluralismo político (BRASIL, 1988). Observe que, no Brasil, a dignidade da pessoa humana é um fundamento republicano, ou seja, toda a ordem republicana formada pela independência e harmonia dos três poderes, legislativo, executivo e judiciário, deve respeitar a dignidade da pessoa humana, porque ela se constitui em um dos alicerces da República Federativa do Brasil. Nenhum poder da república poderá agir de forma a desconsiderar esse fundamento, seja na elaboração de leis, decretos ou atos administrativos, seja na execução de projetos ou políticas públicas, seja, por fim, no julgamento de ações judiciais em qualquer um dos tribunais brasileiros. Todos os poderes republicanos e todos os agentes públicos têm obrigação de respeitar a dignidade da pessoa humana, não podem agir de forma a desrespeitá-la, porque a lei mais importante do país, a Constituição Federal, determina que esse respeito é um fundamento da existência da própria República Federativa do Brasil. Além de constar em constituições federais de vários países do mundo, a dignidade da pessoa humana é um conceito presente em vários tratados e declarações de direitos humanos que foram aprovados ao 61 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS longo da história da ONU e de outras instituições humanitárias internacionais e, por isso, esse conceito é considerado parte integrante do Direito Internacional dos Direitos Humanos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas divide os direitos em duas categorias: os direitos civis e políticos e os direitos econômicos, sociais e culturais. O objetivo foi conjugar o valor da liberdade (direitos civis e políticos) com o valor da igualdade (direitos econômicos, sociais e culturais). O tratamento mais detalhado dos direitos civis e políticos e dos direitos econômicos, sociais e culturais foram tratados posteriormente, em tratados específicos que vão ser analisados por nós neste livro. Antes de conhecermos o texto integral da Declaração Universal dos Direitos Humanos, é importante lembrar que todos os países que fazem parte integrante da ONU e que são chamados de Estados membros têm a obrigação de respeitar os direitos proclamados na Declaração. De fato, os países não se tornaram signatários da Declaração Universal dos Direitos Humanos por mera liberalidade. Ao contrário, ao assinarem a sua participação na Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, os países se comprometeram a cumprir e fazer cumprir aqueles direitos para todos os povos, por meio de mecanismos que garantam que todas as pessoas devam ser respeitadas em seus direitos e, quando eles forem usurpados, possam ter onde reclamar e exigir o devido respeito aos direitos. Desse modo, a proibição à tortura,à escravidão, às prisões infundadas e sem provas de culpabilidade, entre outras práticas de violência contra os direitos humanos, devem obrigatoriamente ser proibidas pelos governos dos países signatários da Declaração Universal dos Direitos Humanos, como é o caso do Brasil. 2.10.8 O texto integral da Declaração Universal dos Direitos Humanos ou dos Direitos do Homem da ONU Reproduzimos aqui o texto integral da Declaração Universal dos Direitos do Homem, também chamada comumente de Declaração Universal dos Direitos Humanos. Esse texto, elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e aprovado pelos países que pertencem ao grupo de Estados membros da ONU, é de cumprimento obrigatório para eles. Trata-se, por isso, de um documento de grande importância, que deve ser minuciosamente conhecido por todos os cidadãos brasileiros. Leia atentamente: Preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos do Homem Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo; Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e 62 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I que o advento de um mundo em que todos gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do ser humano comum; Considerando ser essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo império da lei, para que o ser humano não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão; Considerando ser essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações. Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta da ONU, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor do ser humano e na igualdade de direitos entre homens e mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla; Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos e liberdades humanas fundamentais e a observância desses direitos e liberdades; Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso, agora, portanto, a Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efetiva, tanto entre os povos dos próprios Estados membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição. Artigo I. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade (ONU, 1948). Breve comentário: o artigo destaca que nenhuma condição de nascimento, de raça, ou de qualquer outra categoria, nos priva do direito à liberdade e à igualdade e do respeito que todos merecemos por nossas ideias e crenças (razão e consciência). 63 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Artigo II. 1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. 2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania. Breve comentário: nenhuma condição é suficiente para nos subtrair direitos. Artigo III. Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. Breve comentário: vida, liberdade e segurança pessoal são direitos de todo ser humano, em qualquer condição ou local de nascimento. Artigo IV. Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas. Breve comentário: a escravidão é intolerável em qualquer parte da Terra. Nenhuma situação justifica a escravidão ou o tráfico de escravos. Artigo V. Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante. Breve comentário: nada justifica a prática de tortura ou de tratamento cruel, desumano ou degradante. Não há nenhum argumento que possa ser utilizado para justificar essas práticas. Artigo VI. Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei. Breve comentário: toda pessoa é titular de direitos e nenhuma situação pode justificar que isso não seja respeitado. 64 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I Artigo VII. Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação. Breve comentário: nenhuma forma de discriminação pode ser praticada. Artigo VIII. Todo ser humano tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei. Breve comentário: os direitos fundamentais, como o próprio nome esclarece, são aqueles sem os quais os homens não serão respeitados em sua dignidade. São o direito à vida, à liberdade, à segurança, à liberdade de opinião e de expressão, direito de ser julgado por um tribunal imparcial e com possibilidade de ampla defesa, entre outros. Todas as vezes que esses direitos forem usurpados, o ser humano terá direito a utilizar os tribunais de seus país para exigir que a agressão contra os direitos fundamentais deixe de ser praticada imediatamente. Artigo IX. Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado. Breve comentário: nenhum ser humano pode ser preso ou colocado para fora de seu país de forma arbitrária, ou seja, sem direito a julgamento por um tribunal imparcial e sem direito de apresentar defesa. Artigo X. Todo ser humano tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir sobre seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele. Breve comentário: tribunal imparcial é aquele que garante a oportunidade do acusado apresentar sua defesa e suas provas, com total liberdade para isso. Artigo XI. 1. Todo ser humano acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa. 65 Re vi são: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS 2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Também não será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso. Breve comentário: referente ao item 1, ninguém pode ser considerado culpado antes de ser julgado, ou seja, antes de apresentar sua defesa e as provas que referendam suas alegações. Referente ao item 2, aquele que pratica um ato que não é considerado crime não pode ser julgado posteriormente quando o ato passar a ser considerado criminoso. Retroagir é sempre um desrespeito às leis vigentes na época em que os fatos ocorreram. Artigo XII. Ninguém será sujeito à interferência em sua vida privada, em sua família, em seu lar ou em sua correspondência, nem a ataque à sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques. Breve comentário: a privacidade é um direito atribuído a todas as pessoas e deve ser protegida e preservada. Artigo XIII. 1. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado. 2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar. Breve comentário: referente ao item 1, toda pessoa tem direito de escolher para onde quer ir e onde quer residir. Referente ao item 2, toda pessoa tem direito de sair de seu país ou de qualquer outro, no momento que quiser, e regressar quando quiser, sempre que cumpridas as leis existentes para isso. Artigo XIV. Todo ser humano, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações Unidas. Breve comentário: toda pessoa que estiver sendo perseguida, por exemplo, por ser contrária a um governo, pode pedir asilo (proteção) em outro país. Essa hipótese não se aplica quando a pessoa tiver praticado um crime comum (homicídio ou estupro, por exemplo), ou quando tiver praticado um ato contrário aos objetivos da ONU (tortura contra outras pessoas, por exemplo). 66 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I Artigo XV. 1. Todo homem tem direito a uma nacionalidade. 2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade. Breve comentário: referente ao item 1, todas as pessoas que nascem em um país têm direito de ter a nacionalidade daquele país ou a nacionalidade de seus pais. Referente ao item 2, todos as pessoas têm direito de manter sua nacionalidade enquanto desejarem ou, de adotarem outra nacionalidade, se assim desejarem. Nesse caso, deverão cumprir as regras do país cuja nacionalidade pretendem adotar. Artigo XVI. 1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução. 2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes. 3. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado. Breve comentário: todas as pessoas podem se casar, mas ninguém pode ser obrigado a isso. A família é essencial para a vida em sociedade e deve ser protegida pelo Estado. Artigo XVI. 1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução. 2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes. 3. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado. Breve comentário: todas as pessoas podem se casar, mas ninguém pode ser obrigado a isso. A família é essencial para a vida em sociedade e deve ser protegida pelo Estado. 67 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Artigo XVII. 1. Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros. 2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade. Breve comentário: a propriedade é um direito de todas as pessoas, individual ou de forma partilhada. O direito de propriedade deverá ser protegido, para que ninguém seja impedido de exercer esse direito. Artigo XVIII. Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular. Breve comentário: a liberdade de pensamento e de expressão é essencial para garantir o pleno exercício da dignidade humana. Artigo XIX. Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras. Breve comentário: ninguém poderá ser impedido de manifestar livremente sua opinião sobre qualquer assunto que desejar e tão pouco poderá ser impedido de receber as informações que desejar. Artigo XX. 1. Todo ser humano tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica. 2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação. Breve comentário: referente ao item 1, a liberdade de se reunir é um direito de todas as pessoas, sempre que os objetivos sejam pacíficos, ainda que seja para criticar governos e governantes. Referente ao item 2, ninguém pode ser obrigado a se associar se não desejar fazê-lo. Durante o nazismo muitas pessoas foram obrigadas a se filiar ao Partido Nazista, como forma de se mostrarem favoráveis aos atos de violência que eram praticados. Artigo XXI. 1. Todo ser humano tem o direito de fazer parte no governo de seu país diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos. 68 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I 2. Todo ser humano tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país. 3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto. Breve comentário: referente ao item 1, participar democraticamente do governo do país, por meio de eleições, é um direito de todas as pessoas. Referente ao item 2, utilizar os serviços públicos, em especial de saúde e educação, é um direito de todas as pessoas. Referente ao item 3, a vontade do povo é soberana e todos os governos democráticos têm obrigação de respeitá-la. Artigo XXII. Todo ser humano, como membro da sociedade, tem direito à segurança social, à realização pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade. Breve comentário:os direitos econômicos, sociais e culturais são reconhecidos como indispensáveis para a concretização da dignidade da pessoa humana. Artigo XXIII. 1. Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego. 2. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho. 3. Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social. 4. Todo ser humano tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para proteção de seus interesses. Breve comentário: referente ao item 1, o trabalho é o principal instrumento para uma vida digna, por isso precisa ser protegido. Referente ao item 2, trabalho igual, salário igual, essa é a regra mais justa. Referente ao item 3, a remuneração pelo trabalho deve ser justa, de forma que as pessoas possam garantir sua subsistência e a de seus dependentes a partir do seu trabalho e de sua remuneração. Referente ao item 4, a proteção dos direitos do trabalhador pode ser feita de forma individual ou coletiva e, nesse caso, a atuação dos sindicatos são a melhor forma de proteção para os trabalhadores. 69 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Artigo XXIV. Todo ser humano tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas. Breve comentário: toda pessoa tem direito ao repouso necessário para seu bem-estar físico e mental. Artigo XXV. 1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar-lhe, e a sua família, saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle. 2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio gozarão da mesma proteção social. Breve comentário: referente ao item 1, padrão de vida é um conceito real e não abstrato. E nesse conceito estão todos os elementos indispensáveis para que as pessoas tenham vida digna e segura. Referente ao item 2, nas fases de maternidade e durante a infância, a vulnerabilidade é maior e, por isso, os cuidados e proteção também precisam ser maiores. Artigo XXVI. 1. Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior está baseada no mérito. 2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz. 3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos. Breve comentário: referente ao item 1, a educação nos graus elementares, ensino fundamental e médio, deverá ser acessível a todos. Referente ao item 2, o ensino deverá garantir que todos tenham formação humanista, ou seja, sejam preparados para interagir em sociedade com tolerância, amizade 70 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I e compreensão em relação uns aos outros, de forma a garantir a efetividade do respeito. Referente ao item 3, os pais são os maiores responsáveis pela educação dos filhos e, por isso, devem ter liberdade para escolher que tipo de instrução vão propiciar a eles. Artigo XXVII. 1. Todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir das artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios. 2. Todo ser humano tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica, literária ou artística da qual seja autor. Breve comentário: referente ao item 1, as pessoas devem ter acesso à cultura, a arte e ao progresso científico. Referente ao item 2, todas as obras científicas, literárias ou artísticas devem identificar seu autor, que terá direito aos frutos econômicos de sua criação se assim desejar, ou poderá abrir mão desses frutos se lhe parecer melhor. Artigo XXVIII. Todo ser humano tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados. Breve comentário: os direitos previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU devem ser concretizados. Artigo XXIX. 1. Todo ser humano tem deveres para com a comunidade, na qual o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível. 2. No exercício de seus direitos e liberdades, todo ser humano estará sujeito apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática. 3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos objetivos e princípios das Nações Unidas. Breve comentário: referente ao item 1, todas as pessoas devem cumprir seus deveres sociais. Referente ao item 2, nenhum direito é absoluto, porque os direitos das demais pessoas que vivem em sociedade também deverão ser respeitadas. Referente ao item 3, nenhum direito poderá ser exercido 71 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS com objetivos que não sejam aqueles contemplados nos princípios da ONU, ou seja, direitos somente poderão ser exercidos para o bem, de forma positiva para toda a sociedade. Artigo XXX. Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos (ONU, 1948). Breve comentário: os direitos e liberdades garantidos pela Declaração devem ser praticados de forma mais ampla possível e protegidos pelos Estados. A Declaração Universal dos Direitos do Homem ou dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas é um dos mais importantes documentos de direitos da história da humanidade. Infelizmente, em muitos países do mundo esses direitos ainda não são integralmente respeitados, como acontece no Brasil, por exemplo, em que muitos desses direitos ainda não são concretizados em sua plenitude. Lembrete Pesquise na rede mundial de computadores alguns exemplos de notícias sobre o desrespeito por parte do Estado brasileiro aos direitos humanos contemplados na Declaração da ONU. 3 TRATADOS INTERNACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS Além da Declaração Universal de Direitos Humanos da ONU, que estudamos no item anterior, existem vários tratados internacionais que têm por objetivo proteger os direitos humanos de forma mais específica. Vamos conheceralguns deles. 3.1 Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais Os dois primeiros textos são chamados de pactos e têm por objetivo complementar a Declaração Universal de Direitos Humanos da ONU, ambos criados em 1966. A proposta inicial da Organização das Nações Unidas era a construção de uma Carta Internacional de Direitos Humanos, composta de uma Declaração Universal e um Pacto Internacional, porém naquele momento histórico pós-Segunda Guerra Mundial havia uma disputa entre Estados Unidos e União Soviética, periodo chamado de Guerra Fria, que impediu que eles chegassem à mesma conclusão sobre o que deveria constar da Declaração e do Pacto, em especial no tocante a direitos econômicos, 72 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I porque a União Soviética era contrária à defesa do direito à propriedade privada, porque no regime comunista adotado por ela a propriedade deve pertencer ao Estado, e não aos particulares. Assim, foram criados pactos específicos para Direitos Civis e Políticos e para Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos cuida dos direitos humanos relacionados à liberdade individual, à proteção da pessoa contra a ingerência estatal em sua órbita privada e à participação popular na gestão da sociedade. São os chamados direitos humanos liberais ou liberdades públicas. O Pacto se divide em seis partes: • à autodeterminação dos povos e à livre disposição de seus recursos naturais e riquezas; • ao compromisso dos Estados de garantir os direitos previstos e as hipóteses de derrogação de certos direitos; • aos direitos propriamente ditos; • aos mecanismos de supervisão e controle, especialmente com a criação do Comitê de Direitos Humanos; • às regras de integração com os dispositivos da Carta das Nações Unidas; • às normas referentes à sua ratificação e entrada em vigor. Dos artigos 6º a 27º o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos reitera e pormenoriza os direitos encontrados nos artigos III a XXI da Declaração Universal dos Direitos do Homem, tais como: direito à vida; direito a não ser submetido à tortura ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes; de não ser escravizado ou ser submetido à servidão; à liberdade e segurança pessoal, incluindo não ser preso arbitrariamente; à igualdade perante a lei, entre outros. O artigo 20 do Pacto merece especial destaque: proíbe a propaganda em favor da guerra, da apologia ao ódio nacional, racial ou religioso, que constitua incitamento à discriminação, à hostilidade ou à violência, não só por conteúdo específico, mas por prever não um direito da pessoa, mas uma limitação a esses direitos, especialmente à liberdade de expressão. O artigo pode ser aplicado contra pessoas ou grupo e contra o Estado. O Pacto pode ser considerado um avanço em relação à Declaração de 1948 por prever o direito de a criança ser protegida pela família, pela sociedade e pelo Estado; o direito das minorias étnicas, religiosas ou linguísticas de terem sua própria vida cultural, de professar e praticar sua própria religião e utilizar sua própria língua. 73 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS O Pacto cria, também, um “núcleo inderrogável” de direitos humanos, mesmo em momentos de situações excepcionais que ameacem a existência da nação. São eles: direito à vida, à proibição contra a tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, a vedação da escravidão ou servidão, a proibição da prisão por descumprimento de obrigação contratual, as garantias penais da tipicidade, anterioridade, prévia fixação da pena na legislação e de seu abrandamento se norma posterior assim dispuser, direito de reconhecimento da personalidade jurídica e as liberdades de pensamento, consciência e religião. O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais está dividido em quatro partes: • autodeterminação dos povos e livre disposição de seus recursos naturais e riquezas; • compromisso dos Estados de implementar os direitos previstos; • direitos propriamente ditos; • mecanismo de supervisão por meio da apresentação de relatórios ao Conselho Econômico e Social; normas referentes à sua ratificação e entrada em vigor. Esse pacto tem por objetivo estabelecer sob a forma de direitos as condições sociais, econômicas e culturais para a garantia de uma vida digna para cada pessoa, no âmbito do trabalho, das relações sociais e culturais. São considerados direitos econômicos aqueles relacionados à produção, distribuição e consumo de riqueza, com objetivo especial de disciplinar as relações trabalhistas. Entre eles se destacam o direito de escolha de trabalho, de condições justas e favoráveis para o trabalho com especial atenção à remuneração que atenda às necessidades básicas do trabalhador e sua família, sem distinção entre homens e mulheres quanto às condições de remuneração do trabalho, higiene e segurança, lazer e descanso, promoção por critério de tempo, trabalho e capacidade. É garantido o direito de fundar ou se associar a sindicato e fazer greve, segurança social, proteção da família, das mães e das gestantes, vedação da mão de obra infantil e restrição do trabalho de crianças e adolescentes. No tocante aos direitos sociais e culturais, o Pacto se refere ao estabelecimento de um padrão de vida adequado, incluindo a instrução e participação na vida cultural da comunidade, destacando-se a proteção contra a fome, o direito à alimentação, vestimenta, moradia, educação, participação na vida cultural e de usufruir do progresso científico, entre outras medidas. O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos foi adotado pela Resolução nº 2.200-A da Assembleia Geral das Nações Unidas em 16 de dezembro de 1966. No Brasil ele foi aprovado pelo Decreto Legislativo nº 226, de 12 de dezembro de 1991, e ratificado em 24 de janeiro de 1992. Entrou em vigor em 24 de abril de 1992, promulgado pelo Decreto nº 592, de 6 de julho de 1992. 74 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais foi aprovado pelo Decreto Legislativo nº 226, de 12 de dezembro de 1991, e assinado pelo Brasil em 24 de janeiro de 1992. Entrou em vigor em 24 de fevereiro de 1992, promulgado pelo Decreto nº 591, de 6 de julho de 1992. É importante lembrar que no período de 1964 a 1985 o Brasil viveu sob regime de ditadura militar e, por isso, os pactos criados pela ONU em 1966 só foram reconhecidos pelo Brasil e colocados em vigor em nosso território em 1992, quando já havíamos retornado à democracia. 3.2 Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados Em 1951 foi aprovada a Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados, também conhecida como Convenção de Genebra. Esse documento define o que é um refugiado e estabelece os direitos que os indivíduos nessas condições possuem, em especial o direito de asilo e a responsabilidade das nações que concedem asilo em relação àqueles aos quais foi concedido o direito. O documento também estabelece as situações em que uma pessoa não pode pedir asilo, como, por exemplo, no caso de fuga motivada pela prática de crime de guerra ou de crime comum, como contrabando, por exemplo. Nessa Convenção, refugiado é definido como toda pessoa que em razão de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade,associação a determinado grupo social ou opinião política, encontra-se fora de seu país de origem e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer fazer uso da proteção desse país ou, não tendo uma nacionalidade e estando fora do país em que residia como resultado daqueles eventos, não pode ou, em razão daqueles temores, não quer regressar ao mesmo (ONU,1951). Dados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) informam que 68 milhões de pessoas tiveram deslocamento forçado em 2017, em razão de guerras e outras formas de violência e perseguições. O escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) foi criado em 1950, com objetivo de ajudar milhões de europeus que após a Segunda Guerra não tinham mais casa, porque haviam sido obrigados a fugir em razão da guerra ou haviam sido desapossados de suas propriedades pelos governos totalitaristas. Em sua página nas redes sociais, o ACNUR informa que: Nas últimas décadas, os deslocamentos forçados atingiram níveis sem precedência. Estatísticas recentes revelam que mais de 67 milhões de pessoas no mundo deixaram seus locais de origem por causa de conflitos, perseguições e graves violações de direitos humanos. Entre elas, aproximadamente 22 milhões cruzaram uma fronteira internacional em 75 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS busca de proteção e foram reconhecidas como refugiadas. A população de apátridas (pessoas sem vínculo formal com qualquer país) é estimada em 10 milhões de pessoas. O ACNUR já auxiliou dezenas de milhões de pessoas a recomeçarem suas vidas. Por seu trabalho humanitário, recebeu duas vezes o Prêmio Nobel da Paz (1954 e 1981). Atualmente, a agência conta com quase 12 mil funcionários e está presente em cerca de 130 países com mais de 460 escritórios. Por meio de parcerias com centenas de organizações não governamentais, o ACNUR presta assistência e proteção a mais de 67 milhões de homens, mulheres e crianças. O Estatuto dos Refugiados e o trabalho do ACNUR são verdadeiramente importantes no mundo em que vivemos. 3.3 Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial Em 21 de dezembro de 1965, a ONU aprovou a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, que é uma convenção que tem por objetivo a erradicação do racismo. Em seu preâmbulo, a Convenção afirma: Convencidos de que qualquer doutrina de superioridade baseada em diferenças raciais é cientificamente falsa, moralmente condenável, socialmente injusta e perigosa, e que não existe justificação para a discriminação racial, em teoria ou na prática, em lugar algum. Reafirmando que a discriminação entre os homens por motivo de raça, cor ou origem étnica é um obstáculo às relações amistosas e pacíficas entre as nações e é capaz de perturbar a paz e a segurança entre os povos e a harmonia de pessoas vivendo lado a lado até dentro de um mesmo Estado. Convencidos de que a existência de barreiras raciais repugna os ideais de qualquer sociedade humana. Alarmados por manifestações de discriminação racial ainda em evidência em algumas áreas do mundo e por políticas de apartheid, segregação ou separação. Resolvidos a adotar todas as medidas necessárias para eliminar rapidamente a discriminação racial em todas as suas formas e manifestações, e a prevenir e combater doutrinas e práticas racistas com o objetivo de promover o entendimento entre as raças e construir uma comunidade internacional livre de todas as formas de segregação racial e discriminação racial [...] (ONU, 1965). 76 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I Figura 14 A ONU instituiu o dia 21 de março como Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial. A data foi escolhida para homenagear as vítimas da tragédia ocorrida em 1960, na cidade de Johanesburgo, na África do Sul, no episódio que ficou conhecido como Massacre de Shaperville. Naquela data, cerca de vinte mil negros protestavam pacificamente contra a Lei do Passe, que os obrigava a portar cartões de identificação especificando os locais por onde eles poderiam transitar na cidade, quando foram agredidos por tropas do exército que dispararam contra a multidão, matando 69 pessoas e ferindo outras 186. A ONU incentiva com essa data que todas as pessoas em todo o mundo protestem nesse dia contra o racismo e a discriminação racial. Saiba mais Para saber mais sobre o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial acesse o site: DUARTE, F. Dia Internacional da Luta contra a Discriminação Racial completa 50 anos. Agência Brasil, 21 mar. 2016. Disponível em: <http:// www.ebc.com.br/cidadania/2016/03/dia-internacional-da-luta-contra- discriminacao-racial-e-lembrado-hoje>. Acesso em: 8 jan. 2019. 3.4 Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher Em 1979, a ONU aprovou a convenção que tem por objetivo eliminar a discriminação e assegurar a igualdade entre homens e mulheres. No Brasil, essa Convenção foi promulgada pelo Decreto nº 4.377, de 13 de setembro de 2002. A Convenção prevê a adoção de ações afirmativas pelos Estados signatários, para que seja obtida a igualdade de tratamento, bem como para compensação das desigualdades historicamente ocorridas ao longo dos tempos. 77 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Em seu preâmbulo, a Convenção afirma: Convencidos de que a participação máxima da mulher, em igualdade de condições com o homem, em todos os campos, é indispensável para o desenvolvimento pleno e completo de um país, o bem-estar do mundo e a causa da paz, Tendo presente a grande contribuição da mulher ao bem-estar da família e ao desenvolvimento da sociedade, até agora não plenamente reconhecida, a importância social da maternidade e a função dos pais na família e na educação dos filhos, e conscientes de que o papel da mulher na procriação não deve ser causa de discriminação, mas sim que a educação dos filhos exige a responsabilidade compartilhada entre homens e mulheres e a sociedade como um conjunto, Reconhecendo que para alcançar a plena igualdade entre o homem e a mulher é necessário modificar o papel tradicional tanto do homem como da mulher na sociedade e na família, Resolvidos a aplicar os princípios enunciados na Declaração sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher e, para isto, a adotar as medidas necessárias a fim de suprimir essa discriminação em todas as suas formas e manifestações. De acordo com dados do governo brasileiro, no primeiro semestre de 2018, ocorreram 258 homicídios de mulheres, 13.643 casos de violência física e 13.202 casos de violência psicológica, em sua maioria violência praticada por maridos, namorados e ex-companheiros (ONU, 1979). 3.5 Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanas ou Degradantes É a convenção da ONU que determina a proteção contra atos de tortura e outras formas de tratamento cruel, desumano ou degradante. Além disso, trata do direito de uma pessoa não ser extraditada ou expulsa para um Estado em que haja risco significativo de que ela venha a sofrer tortura ou tratamento desumano ou degradante. Essa Convecção foi promulgada no Brasil pelo Decreto nº 40, de 15 de fevereiro de 1991. Em seu artigo 1º a Convenção define tortura: Para os fins da presente Convenção, o termo “tortura” designa qualquer ato pelo qual dores ou sofrimentosagudos, físicos ou mentais, são infligidos intencionalmente a uma pessoa a fim de obter, dela ou de uma terceira pessoa, informações ou confissões; de castigá-la por ato que ela ou uma 78 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I terceira pessoa tenha cometido ou seja suspeita de ter cometido; de intimidar ou coagir esta pessoa ou outras pessoas; ou por qualquer motivo baseado em discriminação de qualquer natureza; quando tais dores ou sofrimentos são infligidos por um funcionário público ou outra pessoa no exercício de funções públicas, ou por sua instigação, ou com o seu consentimento ou aquiescência. Não se considerará como tortura as dores ou sofrimentos que sejam consequência unicamente de sanções legítimas, ou que sejam inerentes a tais sanções ou delas decorram (ONU, 1984). No Brasil, a prática de tortura em delegacias e penitenciárias ainda é comum e, nem sempre denunciada. Os esforços no combate a essa prática têm sido efetivados pelo governo, inclusive com facilitação de denúncias, porém, ainda não conseguimos erradicar essa prática abominável e degradante. 3.6 Convenção sobre os Direitos da Criança Foi criada pela ONU em 1989 e se constitui em um tratado internacional que torna a criança, definida como todo menor de 18 anos, como sujeito de direitos, com especial proteção e absoluta prioridade. No Brasil, a Convenção sobre os Direitos da Criança foi promulgada em 21 de novembro de 1990 pelo Decreto nº 99.710. Na justificativa para a criação dessa Convenção, a ONU afirma: Recordando que na Declaração Universal dos Direitos Humanos as Nações Unidas proclamaram que a infância tem direito a cuidados e assistência especiais; Convencidos de que a família, como grupo fundamental da sociedade e ambiente natural para o crescimento e bem-estar de todos os seus membros, e em particular das crianças, deve receber a proteção e assistência necessárias a fim de poder assumir plenamente suas responsabilidades dentro da comunidade; Reconhecendo que a criança, para o pleno e harmonioso desenvolvimento de sua personalidade, deve crescer no seio da família, em um ambiente de felicidade, amor e compreensão; Considerando que a criança deve estar plenamente preparada para uma vida independente na sociedade e deve ser educada de acordo com os ideais proclamados na Cartas das Nações Unidas, especialmente com espírito de paz, dignidade, tolerância, liberdade, igualdade e solidariedade; Tendo em conta que a necessidade de proporcionar à criança uma proteção especial foi enunciada na Declaração de Genebra de 1924 sobre os Direitos da Criança e na Declaração dos Direitos da Criança adotada pela Assembleia 79 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Geral em 20 de novembro de 1959, e reconhecida na Declaração Universal dos Direitos Humanos, no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (em particular nos Artigos 23 e 24), no Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (em particular no Artigo 10) e nos estatutos e instrumentos pertinentes das Agências Especializadas e das organizações internacionais que se interessam pelo bem-estar da criança; Tendo em conta que, conforme assinalado na Declaração dos Direitos da Criança, “a criança, em virtude de sua falta de maturidade física e mental, necessita proteção e cuidados especiais, inclusive a devida proteção legal, tanto antes quanto após seu nascimento”; Lembrado o estabelecido na Declaração sobre os Princípios Sociais e Jurídicos Relativos à Proteção e ao Bem-Estar das Crianças, especialmente com Referência à Adoção e à Colocação em Lares de Adoção, nos Planos Nacional e Internacional; as Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça Juvenil (Regras de Pequim); e a Declaração sobre a Proteção da Mulher e da Criança em Situações de Emergência ou de Conflito Armado; Reconhecendo que em todos os países do mundo existem crianças vivendo sob condições excepcionalmente difíceis e que essas crianças necessitam consideração especial; Tomando em devida conta a importância das tradições e dos valores culturais de cada povo para a proteção e o desenvolvimento harmonioso da criança; Reconhecendo a importância da cooperação internacional para a melhoria das condições de vida das crianças em todos os países, especialmente nos países em desenvolvimento [...] (BRASIL, 1990a). O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) está presente no Brasil desde 1950 e, além do Brasil ser signatário da Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU, adotou em 1990 a Lei nº 8.069, conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente. O Estatuto da Criança e do Adolescente define criança como a pessoa até 12 anos e adolescente, aquela entre 12 e 18 anos. Determina, ainda, que a criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata a lei, assegurando-lhes todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social em condições de liberdade e dignidade. Determina o Estatuto da Criança e do Adolescente que é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, 80 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar comunitária. A garantia de prioridade compreende a primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias; precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública; preferência na fórmula e na execução das políticas sociais públicas e destinação privilegiada de recursos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e juventude (BRASIL, 1990b). 4 SISTEMA INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS Para garantia da efetividade da proteção dos direitos humanos foram criados, além da Organização das Nações Unidas, sistemas regionais de proteção nos diferentes continentes da Terra. Assim, além do sistema global de proteção dos direitos humanos realizado pela ONU, existem outros organismos oficiais que cumprem essa mesma tarefa no âmbito de suas regiões. Para as três Américas, do Norte, do Sul e Central, foi criado o Sistema Interamericano de Direitos Humanos, em 30 de abril de 1948, durante a realização da IX Conferência Internacional Americana, realizada em Bogotá e da qual resultou a assinatura da chamada Carta da OEA, que entrou em vigor em dezembro de 1951. No portal da Organização dos Estados Americanos consta expressamente que: A Organização foi criada para alcançar nos Estados membros, como estipula o Artigo 1º da Carta, “uma ordem de paz e de justiça, para promover sua solidariedade, intensificar sua colaboração e defender sua soberania, sua integridade territorial e sua independência”. Hoje, a OEA congrega os 35 Estados independentes das Américas e constitui o principal fórum governamental político, jurídico e social do Hemisfério. Além disso, a Organização concedeu o estatuto de observador permanente a 69 Estados e à União Europeia (EU). Para atingir seus objetivos mais importantes, a OEA baseia-se em seus principais pilares, que são a democracia, os direitos humanos, a segurança e o desenvolvimento (OEA, [s.d.]). A Organização dos Estados Americanos(OEA) é composta de sua Assembleia Geral, órgão mais importante e deliberativo que se reúne uma vez por ano, ou extraordinariamente, quando necessário. Além disso, também existe a Reunião de Consulta aos Ministros das Relações Exteriores, para resolver problemas de caráter urgente e de interesse comum dos Estados Membros; os Conselhos Permanente e o Conselho Interamericano de Desenvolvimento Integral; a Comissão Jurídica Interamericana; a Comissão Interamericana de Direitos Humanos; a Secretaria Geral; as Conferências Especializadas; os Organismos Especializados e outras entidades criadas pela Assembleia Geral. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) foi criada na quinta Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores, realizada em Santiago, no Chile, em 1959. Foi instalada oficialmente 81 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS em 1960, quando seu estatuto foi aprovado pelo Conselho da Organização. A Comissão Interamericana de Direitos humanos é um órgão do Sistema Interamericano e sua finalidade específica é a promoção e proteção dos direitos humanos. Ela é constituída por sete membros que exercem suas funções por um período de quatro anos, podendo ser reeleitos uma única vez; a eleição é feita pelos membros da Assembleia Geral. No sistema interamericano o instrumento de maior importância é a Convenção Americana de Direitos Humanos. Ela foi assinada em San José, na Costa Rica, em 1969, e entrou em vigor em 1978. Somente Estados membros da Organização dos Estados Americanos têm o direito de aderir à Convenção Americana. O Brasil foi um dos estados que mais tardiamente aderiram à Convenção, em 25 de setembro de 1992, após o fim do regime militar, que havia se encerrado em 1985. Observação Os principais direitos protegidos na Convenção Americana são: direito à personalidade jurídica, direito à vida, direito de não ser submetido à escravidão, direito à liberdade, direito a um julgamento justo, direito à compensação em caso de erro judiciário, direito à privacidade, direito à liberdade de consciência e religião, direito à liberdade de pensamento e expressão, direito à resposta, direito à liberdade de associação, direito ao nome, direito à nacionalidade, direito à liberdade de movimento e residência, direito de participar do governo, direito à igualdade perante a lei e o direito à proteção judicial. A Convenção Americana determina aos Estados que alcancem, progressivamente, a plena realização destes direitos mediante a adoção de medidas legislativas e de outras medidas que sejam apropriadas. Em 1988, a Assembleia Geral dos Estados Americanos adotou um protocolo adicional à Convenção, tratando de direitos sociais, econômicos e culturais, e que ficou conhecido como Protocolo de San Salvador. Esse protocolo foi elaborado a partir da constatação de que existe estreita relação entre a vigência dos direitos econômicos, sociais e culturais e os direitos civis e políticos. Na verdade, as diferentes categorias de direitos constituem um todo indissolúvel, que se fundamenta na dignidade da pessoa humana que, para ser concretizada integralmente, exige tutela e promoção permanentes sem que se possa justificar a violação de uns, sob pretexto de realizar outros. As principais previsões do Protocolo de San Salvador são: • Obrigação de adotar medidas (para garantir a plena efetividade do protocolo); adotar disposições de direito interno (para tornar efetivos os direitos, caso não sejam garantidos no plano nacional – constituição de cada estado membro); obrigação de não discriminação; não admissão de restrições; alcance das restrições e limitações (preservar o bem-estar geral); direito ao trabalho; 82 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I condições justas, equitativas e satisfatórias de trabalho; direitos sindicais; direito à previdência social; direito à saúde; direito a um meio ambiente sadio. • Direito à alimentação; direito à educação; direito aos benefícios da cultura; direito à constituição e proteção à família; direito da criança; proteção à pessoa idosa; proteção de deficientes; meios de proteção (obrigatoriedade de apresentação de relatórios periódicos sobre as medidas de implantação). • Reservas (os Estados poderão adotar reservas sobre uma ou mais disposições específicas, desde que não sejam incompatíveis com os fins e objetivos do Protocolo); incorporação de outros direitos e ampliação dos reconhecidos (os Estados membro poderão sugerir outros direitos e liberdades a serem incorporados ao Protocolo) (CIDH, 1988). A competência da comissão alcança todos os Estados membros da OEA. A Comissão Interamericana tem por principais funções: • Observância e proteção dos direitos humanos na América, podendo recomendar aos governantes dos Estados membros a adoção de medidas adequadas à proteção destes direitos. • Preparar estudos e relatórios que se mostrem necessários. • Requisitar aos governos informações relativas às medidas por eles adotadas concernentes à efetiva aplicação da Convenção. • Submeter um relatório anual à Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos. • Examinar as petições encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos, ou ainda por entidades não governamentais que contenham denúncias de violação a direito protegido pela Convenção por Estado que dela seja parte. O Estado, ao se tornar parte da Convenção, aceita automaticamente e, obrigatoriamente, a competência da Comissão para examinar petições individuais, não sendo necessário a elaboração de qualquer declaração expressa e específica para esse fim. A petição individual apresentada por pessoa que tenha tido seus direitos humanos violados deverá atender alguns requisitos prévios, como o comprovado esgotamento dos recursos disponíveis no país em que ocorreu a violação. Somente em caso de injustificada demora processual, ou, no caso em que a legislação do país não prevê a existência de processo judicial para aquele tipo de agressão aos direitos humanos, é que se aceitará a petição individual antes de esgotadas todas as possibilidades de reclamação no próprio país. Além disso, a pessoa que apresenta uma petição inicial sobre direito violado deverá comprovar que não existe outra pendência internacional sobre o mesmo fato. 83 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Estando cumpridos os requisitos, a petição individual é aceita e a comissão solicita informações ao governo denunciado. Recebidas as informações do governo ou decorrido prazo sem que as tenha recebido, a Comissão verifica se existem ou subsistem os motivos de petição. Se não existirem mais, a petição individual será arquivada e se existirem, a Comissão procederá ao exame do assunto, realizando investigação dos fatos, se necessário. Após o exame dos fatos, a Comissão deverá obter solução amistosa entre as partes. Se conseguir, será elaborado um informe que será transmitido ao peticionário e aos Estados partes da Convenção para depois ser comunicado para a Secretaria da OEA. Esse informe deverá conter breve exposição dos fatos e a solução concretizada. Se não for alcançada solução amistosa a Comissão redigirá um Relatório, no qual apresentará os fatos e as conclusões e, eventualmente, recomendações para o Estado membro. Esse relatório tem caráter mandatório e indica se o Estado referido violou ou não a Convenção Americana. O Estado membro terá o prazo de três meses para cumpriras recomendações. Durante esse período, o caso poder ser solucionado pelas partes ou encaminhado para a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Então, se o caso não for solucionado nem encaminhado à Corte, a Comissão fará as recomendações pertinentes e fixará um prazo dentro do qual o Estado deve tomar as medidas que lhe competem para solucionar a situação. Vencido o prazo, a Comissão decidirá por maioria absoluta de votos de seus membros se as medidas recomendadas foram adotadas pelo Estado e publicará o informe no relatório anual de atividades. Apenas a Comissão e os Estados membros podem submeter um caso à Corte Interamericana, que é órgão jurisdicional do sistema regional; o indivíduo não tem legitimidade para ir diretamente com seu caso à Corte. A questão só pode ser submetida à Corte Interamericana se o Estado parte reconhecer, mediante declaração expressa e específica, a competência da Corte no tocante à interpretação e aplicação da Convenção, embora qualquer Estado parte possa aceitar a jurisdição da Corte para um determinado caso. O Brasil reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana em dezembro de 1998, por meio do Decreto Legislativo 89, de 03 de dezembro de 1998. A Corte Interamericana de Direitos Humanos é composta de sete juízes nacionais de Estados membros, eleitos por estes, e tem competência consultiva e contenciosa. No plano consultivo qualquer membro da OEA pode solicitar o parecer da Corte relativamente à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado relativo à proteção dos direitos humanos nos estados americanos. No plano contencioso a Corte tem jurisdição para examinar casos que envolvam a denúncia de que um Estado parte violou direito protegido pela Convenção. Se reconhecer que efetivamente ocorreu a violação à Convenção, determinará que sejam adotadas medidas necessárias para restauração do direito então violado. A Corte poderá, ainda, condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. A decisão da Corte tem força jurídica vinculante e obrigatória e cabe ao Estado seu imediato cumprimento. Nos casos em que a Corte fixar uma compensação à vítima, a decisão valerá como título executivo. O sistema interamericano é um importante instrumento de proteção dos direitos humanos quando as instituições nacionais falham. 84 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade I Observação O Caso Maria da Penha na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Em 1983, a biofarmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes sofreu dupla tentativa de homicídio por parte de seu então marido dentro de sua casa, em Fortaleza, Ceará. O agressor, Marco Antonio Heredia Viveiros, colombiano naturalizado brasileiro, economista e professor universitário, atirou contra suas costas enquanto ela dormia, causando-lhe paraplegia irreversível. Posteriormente, tentou eletrocutá-la no banho. Passados mais de 15 anos do crime, apesar de haver duas condenações pelo Tribunal do Júri do Ceará (1991 e 1996), ainda não havia uma decisão definitiva no processo e o agressor permanecia em liberdade, razão pela qual Maria da Penha, o Cejil-Brasil (Centro para a Justiça e o Direito Internacional) e o CLADEM-Brasil (Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher) enviaram o caso à CIDH/OEA (Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos). Em 2001, a CIDH responsabilizou o Estado brasileiro por omissão, negligência e tolerância. Considerou que nesse caso se davam as condições de violência doméstica e de tolerância pelo Estado definidas na Convenção de Belém do Pará. Resumo A proteção dos direitos humanos no Brasil e no mundo não ocorre de forma isolada, mas sim integrada a um sistema nacional e internacional, com instrumentos eficientes para garantir que todos sejam protegidos. Existem pelo menos três teorias que fundamentam os direitos humanos: a teoria jusnaturalista, a teoria positivista e a teoria moralista. As definições sobre direitos humanos são muitas, mas podemos entender como o conjunto de prerrogativas e garantias inerentes aos homens protege sua dignidade. Dignidade humana, no Brasil, está no topo do sistema constitucional, prevista como fundamento republicano e, por consequência, fundamento de todos os outros direitos de proteção ao ser humano. Os direitos humanos têm algumas características essenciais: universalidade, indivisibilidade, interdependência, imprescritibilidade, inalienabilidade, irrenunciabilidade, efetividade, inviolabilidade, complementaridade e vedação do retrocesso. 85 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Eles podem ser estudados por diferentes dimensões ou gerações, que correspondem às épocas históricas em que determinados direitos foram reconhecidos como direitos humanos. Os estudiosos dividem em pelo menos cinco dimensões ou gerações: os direitos civis e políticos; os direitos econômicos, sociais e culturais; os direitos de fraternidade e solidariedade; os direitos dos povos e o direito à paz permanente. A trajetória histórica dos direitos humanos tem como ponto marcante a criação da ONU, em 1948, logo após a Segunda Guerra Mundial. A ONU se estrutura tendo como órgãos fundamentais a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança, o Conselho Econômico e Social, o Conselho de Tutela, o Tribunal Internacional de Justiça e o Secretariado Geral. A ONU possui vários órgãos para tratar de assuntos específicos, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO); a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e a Organização Mundial de Saúde (OMS); a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco); o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), entre outros. O principal documento de direitos humanos é a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, de 1948, que possui trinta artigos. Depois dela, os dois documentos mais importantes são o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Existem, ainda, documentos legais específicos para proteção de refugiados, mulheres, contra a prática de tortura, proteção de crianças, entre outros. A Organização dos Estados Americanos (OEA) é o principal órgão de proteção dos direitos humanos nas três Américas. 86 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II Unidade II 5 A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E A PROTEÇÃO DE DIREITOS HUMANOS 5.1 Introdução histórica A Constituição Federal brasileira foi outorgada em 05 de outubro de 1988, ou seja, foi entregue pela Assembleia Nacional Constituinte para todo o povo brasileiro e entrou em vigor nessa data, em cerimônia realizada em Brasília, Distrito Federal, e presidida pelo Deputado Federal Ulysses Guimarães, que foi, também, o presidente da Constituinte. Figura 15 A Constituição Federal de 1988 foi a primeira a ser aprovada no País após o encerramento da ditadura militar, que vigorou de 1964 a 1985. Foi um período de ausência completa de respeito aos direitos dos cidadãos, que ficaram impedidos de manifestar livremente suas opiniões, de se associar livremente a partidos ou organizações contrárias ao governo militar, de se reunir para discutir assuntos políticos e até de invocar direitos como o habeas corpus (instrumento jurídico para obter a liberdade quando a prisão for ilegal), entre outros. 87 Re vi sã o: S heila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Durante quase todo o período do regime de ditadura militar vigorou o Ato Institucional nº 05, aprovado em 13 de dezembro de 1968, e muito conhecido pela sigla AI-5. Esse ato institucional federal, que tinha validade em todo o País, determinava suspensão de muitos direitos, como vamos analisar agora. Leia atentamente o artigo 5º do Ato Institucional nº 05, de 13 de dezembro de 1968, transcrito a seguir: Art. 5º A suspensão dos direitos políticos, com base neste Ato, importa, simultaneamente, em: I – cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função; II – suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais; III – proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política; IV – aplicação, quando necessária, das seguintes medidas de segurança: a) liberdade vigiada; b) proibição de frequentar determinados lugares; c) domicílio determinado, § 1º O ato que decretar a suspensão dos direitos políticos poderá fixar restrições ou proibições relativamente ao exercício de quaisquer outros direitos públicos ou privados (BRASIL, 1968). O artigo 5º tratava de expressa previsão de suspensão de direitos políticos dos cidadãos, ou seja, de supressão de direitos que naquele momento eram contemplados na Constituição Federal do País, lei máxima cuja primazia no ordenamento jurídico era incontestável e que, no entanto, estava sendo colocada em plano secundário para que as determinações do governo militar por meio do AI-5 fossem mais importantes. Além da total inversão de supremacia da lei, estava sendo contrariada a liberdade dos cidadãos de circular, frequentar lugares que desejassem, de escolher o domicílio em que quisessem residir, participar da vida política do país com liberdade de expressão, entre outros. Como se pode perceber, os direitos civis e políticos foram fortemente agredidos por esse ato institucional. O artigo 6º do AI-5 também é bastante interessante para análise: Art. 6º Ficam suspensas as garantias constitucionais ou legais de: vitaliciedade, inamovibilidade e estabilidade, bem como a de exercício em funções por prazo certo. § 1º O Presidente da República poderá, mediante decreto, demitir, remover, aposentar ou pôr em disponibilidade quaisquer titulares das garantias referidas 88 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II neste artigo, assim como empregado de autarquias, empresas públicas ou sociedades de economia mista, e demitir, transferir para a reserva ou reformar militares ou membros das polícias militares, assegurados, quando for o caso, os vencimentos e vantagens proporcionais ao tempo de serviço (BRASIL, 1968). As garantias de vitaliciedade, inamovibilidade e estabilidade são, tradicionalmente, no ordenamento jurídico brasileiro, atribuídas aos magistrados para que eles tenham ampla segurança e liberdade para proferir suas decisões. De fato, qual magistrado se sentirá realmente livre e seguro para proferir uma decisão contra interesses de grupos políticos ou econômicos se estiver ameaçado de ter sua estabilidade profissional atingida, ou se estiver ameaçado de ser removido da comarca em que se encontra para outra, muito distante e, por vezes, perigosa para o exercício da atividade de magistrado? E, ainda, que magistrado se sentirá seguro para proferir uma decisão se estiver sob ameaça de perder a vitaliciedade do cargo, conquista por meio de concurso público ao qual ele se submeteu e foi aprovado? Essas três garantias não são outorgadas pela Constituição Federal em prol da pessoa, mas sim do cargo. Elas garantem que o magistrado no exercício de seu trabalho possa tomar todas as decisões legais necessárias, mesmo aquelas que contrariem interesses de poderosos, porque os magistrados são protegidos contra qualquer tipo de vingança que possa afetar a liberdade e a estabilidade de seu cargo. Pois bem, o AI-5 de 1968 acabou com essas garantias dos magistrados, o que demonstra claramente o arbítrio com que se conduziram aqueles que criaram e implementaram essa lei. Com base no parágrafo 1º do artigo 6º do AI-5, foram aposentados compulsoriamente muitos professores de universidades públicas em todo o País, muitos dos quais eram jovens e poderiam ter trabalhado por muitos anos em benefício do conhecimento, da pesquisa e da cultura no Brasil, mas em razão da determinação arbitrária do ato institucional deixaram de contribuir para a formação do conhecimento científico e para a produção cultural do país. O jornal Folha de São Paulo notícia que: Em 30 de dezembro saiu a primeira lista de cassações, com 11 deputados federais, dentre eles Márcio Moreira Alves (MDB-RJ), Hermano Alves (MDB-RJ) e Renato Archer (MDB-MA). A segunda lista, de 19 de janeiro de 1969, incluiu dois senadores Aarão Steinbruck e João Abraão, 35 deputados federais, três ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) – Hermes Lima, Vítor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva – e um ministro do STM (Superior Tribunal Militar) Peri Constant Bevilacqua, que, segundo escreveu o porta-voz de Costa e Silva, Carlos Chagas, era acusado de “dar habeas corpus demais”. Três meses desde a edição do AI-5, encarregados dos inquéritos políticos passaram a poder prender quaisquer cidadãos por 60 dias, dez dos quais deveriam permanecer incomunicáveis. “Em termos práticos, esses prazos destinavam-se a favorecer o trabalho dos torturadores”, conta Elio Gaspari no livro “A Ditadura Envergonhada”. Sessenta e seis professores foram expulsos das universidades, dentre eles Fernando 89 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Henrique Cardoso, Florestan Fernandes e Caio Prado Júnior. Emissoras de televisão e de rádio e redações de jornais foram ocupadas por censores. Artistas como Marília Pêra, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram apenas os primeiros a conhecer as carceragens da polícia política. Ao todo, 333 políticos têm seus direitos políticos suspensos em 1969 (dos quais 78 deputados federais, cinco senadores, 151 deputados estaduais, 22 prefeitos e 23 vereadores). O Congresso permanece fechado até outubro, quando é reaberto para eleger Médici (O AI-5, [s.d.]). Como se pode perceber, os direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros foram fortemente agredidos durante o período da ditadura militar e, por essa razão, a primeira Constituição Federal aprovada após esse período, em 5 de outubro de 1988, tinha que destinar parte expressiva de seus artigos para tratar de direitos fundamentais, individuais e coletivos e, dessa maneira, registrar histórica e politicamente que os cidadãos brasileiros e os estrangeiros residentes no País têm direitos que devem ser respeitados por todos os governos, porque são direitos fundamentais para a completa realização da cidadania. Saiba mais O livro a seguir de Alfredo Sirkis conta sua trajetória no movimento estudantil brasileiro na década de 1960-1970, é uma excelente leitura para quem pretender conhecer melhor o período histórico da ditadura militar no Brasil. SIRKIS, A. Os carbonários. Rio de Janeiro: Record, 1998. Independentemente de ideologias, de apoios partidários ou de opiniões políticas, conhecer a própria história é fundamental para qualquer cidadão construir opiniões bem fundamentadas e contextualizadas. Vale a pena aprofundar o conhecimento sobre todos os períodos históricos do Brasil, isso nos ajudará a compreender melhor o país em que vivemos. 6 DIREITOS FUNDAMENTAIS 6.1 Conceito e classificaçãode direitos fundamentais A expressão direitos fundamentais já nos dá uma boa ideia do conteúdo desses direitos. Evidentemente, relacionamos direitos fundamentais com direito à vida, à liberdade e à segurança, entre outros que igualmente podemos considerar como inseridos nessa classificação. Vamos procurar definições que possam nos auxiliar a formar uma ideia mais concreta sobre direitos fundamentais. 90 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II Nestor Sampaio Penteado Filho afirma: A doutrina costuma empregar expressões, como, por exemplo, liberdades públicas, direitos civis fundamentais, direitos humanos, direitos públicos subjetivos etc., para designar direitos fundamentais. Estes seriam “situações jurídicas, objetivas e subjetivas, definidas no direito positivo, em prol da dignidade, igualdade e liberdade da pessoa humana”. Os direitos fundamentais estão insculpidos, principalmente, no art. 5º da CF (rol meramente exemplificativo), pois não se excluem outros direitos e garantias expressos na Carta, aqueles decorrentes dos princípios básicos do regime democrático (implícitos), bem como os que advierem de Tratados Internacionais dos quais o Brasil seja signatário (PENTEADO FILHO, 2009, p. 47). O que ele nos ensina é que os doutrinadores de direito, ou seja, os estudiosos dessa área do Direito, costumam atribuir aos direitos fundamentais outras denominações, como, por exemplo, liberdades públicas e direitos humanos. Isso, no entanto, não tem maior importância desde que as diferentes denominações utilizadas sempre permitam compreender que se tratam de direitos essenciais, sem os quais a vida humana não tem segurança e não se manifesta em toda sua plenitude e potencialidade. Toda e qualquer pessoa de quem tenha sido subtraído um único dos direitos fundamentais estará vivendo em situação anômala, alijada de uma condição objetiva essencial para garantia da sua plenitude como pessoa. É assim que podemos compreender os direitos fundamentais, por serem fundamentais, essenciais, parte integrante da própria condição humana. Na Constituição Federal brasileira de 1988, os direitos fundamentais se encontram alojados no artigo 5º, mas como ensina o professor Nestor Penteado, aquela é uma relação de direitos de caráter exemplificativo, e não taxativo. Isso significa afirmar que outros direitos que não estejam especificamente contemplados naquele artigo também deverão ser respeitados pelo Estado e por outros cidadãos, porque são parte integrante do rol de direitos fundamentais por estarem relacionados com o que é da essência da pessoa humana, ou, em outras palavras, necessário para que ela viva com toda a plenitude de sua liberdade. Assim, por exemplo, o artigo 5º não precisa especificar que uma pessoa de orientação homossexual tem direito de se manifestar livremente em sua opção, sem que seja necessário que o artigo contemple especificamente a situação. Os estudiosos também se preocupam em classificar os direitos fundamentais, como faz o professor Alexandre de Moraes: A Constituição Federal de 1988 trouxe em seu Título II os direitos e garantias fundamentais, subdividindo-os em cinco capítulos: direitos individuais e coletivos; direitos sociais; nacionalidade; direitos políticos e partidos políticos. 91 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Assim, a classificação adotada pelo legislador constituinte estabeleceu cinco espécies ao gênero direitos e garantias individuais: - direitos individuais e coletivos: correspondem aos direitos diretamente ligados ao conceito de pessoa humana e de sua própria personalidade, como, por exemplo, a vida, dignidade, honra, liberdade. Basicamente, a Constituição de 1988 os prevê no artigo 5º [...]; - direitos sociais: caracterizam-se como verdadeiras liberdades positivas, de observância obrigatória em um Estado Social de Direito, tendo por finalidade a melhoria das condições de vida aos hipossuficientes, visando à concretização da igualdade social, que configura um dos fundamentos de nosso Estado Democrático, conforme preleciona o art. 1º, IV. A Constituição Federal consagra os direitos sociais a partir do artigo 6º; - direitos de nacionalidade: nacionalidade é vínculo jurídico político que liga um indivíduo a um certo e determinado Estado, fazendo deste indivíduo um componente do povo, da dimensão pessoal deste Estado, capacitando-o a exigir sua proteção e sujeitando-o ao cumprimento de deveres impostos; - direitos políticos: conjunto de regras que disciplina a forma de atuação da soberania popular [...]; - direitos relacionados à existência, organização e participação em partidos políticos: a Constituição Federal regulamentou os partidos políticos como instrumentos necessários e importantes para a preservação do Estado Democrático de Direito, assegurando-lhes autonomia e plena liberdade de atuação, para concretizar o sistema representativo (MORAES, 2003, p. 43). Neste momento, são muito relevantes para o nosso estudo e compreensão sobre direitos fundamentais aqueles inseridos na classificação de direitos individuais e coletivos e direitos sociais. 6.2 Direitos individuais e coletivos O artigo 5º da Constituição Federal brasileira de 1988 está alocado no Título II, denominado “Dos Direitos e Garantias Fundamentais” e dá início ao Capítulo I, denominado “Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos”. Em seu início, também chamado de caput pelos estudiosos de direito, o artigo determina que: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a 92 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes [...] (BRASIL, 1988). Assim, no Brasil, todos são iguais perante a lei, independentemente de qualquer característica que possamos possuir, seja de cor, raça, orientação de gênero, estado civil, profissão, ou qualquer outra distinção que possamos imaginar. Independentemente de qualquer situação em que estejamos vivendo, somos todos iguais perante a lei e, em consequência, temos todos o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, elementos essenciais para que possamos viver com dignidade. Após a expressão “nos termos seguintes”, o artigo 5º fornece um rol de 78 incisos (representados na lei sempre por números romanos), referentes a direitos que deverão ser respeitados para todos os brasileiros e estrangeiros residentes no País, além das pessoas que por qualquer motivo (turismo ou trabalho, por exemplo) estiverem aqui por tempo determinado. O número é muito significativo: 78 incisos representando direitos de todos nós. Faça um exercício simples de curiosidade acadêmica: relacione dez direitos que você acredita que estão entre os 78 incisos do artigo 5º da Constituição Federal e, em seguida, consulte os incisos um a um para verificar se os direitos que você relacionou se encontram efetivamente contemplados no artigo. Vamos analisar alguns dos direitos contemplados nos incisos do artigo 5º (BRASIL, 1988). Vejamos, por exemplo, os dez primeiros: I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição; Breve comentário: a Constituição Federal garante igualdade de direitos e obrigações entre homens e mulheres, seja no tratamento uns com os outros, seja no dever decriar e educar filhos, por exemplo. Assim, nenhuma prática de machismo precisar ser tolerada por mulheres porque a maior lei do País garante a igualdade. De outro lado, nenhuma exigência desproporcional pode ser feita por qualquer mulher invocando sua condição de gênero, porque, em tese, homens e mulheres são iguais e têm os mesmos direitos e deveres. II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei; Breve comentário: todos somos obrigados a cumprir as leis em vigor no País, mas, em contrapartida, de nenhum de nós será exigível que se comporte de uma determinada forma sem que haja lei que nos obrigue a isso. Nenhuma exigência poderá ser feita, como, por exemplo, para pagarmos uma taxa ou um imposto, se não houver lei que defina essa obrigatoriedade. III – ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante; 93 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Breve comentário: nenhum crime praticado por alguém, por pior que tenha sido, justifica a prática de tortura ou de tratamento desumano ou degradante, porque se isso fosse autorizado todos nós estaríamos nos equivalendo àquele que praticou o crime. Tortura é sempre violência e não é uma forma de investigação de nenhum ato criminoso praticado. A tortura e o tratamento desumano ou degradante são sempre contrários à Constituição Federal, lei maior do País. IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; Breve comentário: a manifestação do pensamento é sempre livre. Todos nós, brasileiros e estrangeiros residentes no País, podemos manifestar livremente nossa opinião sobre o que desejarmos e não podemos ser censurados. Há que se considerar, no entanto, que fica proibido o anonimato, ou seja, a manifestação do pensamento sem que se identifique o autor do comentário. Isso significa que o direito de se manifestar impõe responsabilidades para quem o faz, de modo a gerar, inclusive, o dever de retratar ou de indenizar aquele que tiver sido prejudicado pelos comentários feitos por outra pessoa. Em outras palavras, a liberdade de manifestação impõe responsabilidade, o que é muito bom para a harmonia e o equilíbrio da sociedade. V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; Breve comentário: todo aquele que for mencionado pela imprensa, ou em um livro, ou, ainda, em uma rede social, tem direito de resposta, que significa que pode expressar sua opinião contrária àquela que foi exposta. E, nos casos em que a referência à pessoa tenha sido negativa e depreciativa, sem motivo ou comprovação, poderá gerar a obrigação de pagar indenização por danos materiais, morais ou à imagem que tenha sido prejudicada. VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; Breve comentário: a Constituição Federal garante a todos a liberdade de praticar crenças e cultos religiosos que desejarem, inclusive a liberdade de não ter nenhuma crença nem praticar nenhum tipo de culto religioso. Os locais de prática de cultos e de manifestações religiosas devem ser respeitados por todos, obrigatoriamente, mesmo que discordem das práticas e crenças. Discordar é possível, mas denegrir e destruir é completamente vetado pela Constituição Federal. VII – é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva; Breve comentário: a assistência religiosa, ou seja, a presença de alguém que professe a religião e atue como orientador ou aconselhador, será garantida nas entidades civis e religiosas de internação coletiva como, por exemplo, nas penitenciárias ou hospitais. É direito daquele que se encontra preso ou internado, inclusive por razões de ordem psicológica ou psiquiátrica, ter acompanhamento religioso quando necessitar ou solicitar. 94 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei; Breve comentário: todos nós podemos professar a crença religiosa ou possuir a convicção filosófica ou política que desejarmos. Essa diversidade é muito importante para a sociedade, permite que aprimoremos nossas perspectivas de mundo, mas, para isso, é imprescindível que haja respeito uns pelos outros. Nossas ideias diferentes não devem nos afastar, ao contrário, são um ponto de partida para nos aproximar e nos permitir pensar com maior amplitude de perspectivas. Somos diferentes, mas não necessariamente divergentes. Temos muito a aprender uns com os outros e, por isso, a Constituição Federal garante que todos tenhamos os nossos direitos preservados, independentemente das nossas crenças e convicções religiosas, filosóficas ou políticas. IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; Breve comentário: todos temos liberdade para nos expressar na atividade intelectual, artística, científica ou de comunicação e não podemos ser censurados por isso. Podemos escrever livros, artigos de revista ou jornal, encenar peças de teatro, pintar, compor letras e músicas com total liberdade de expressão, sem precisar consultar previamente quem quer que seja para saber se podemos agir assim. Mas, novamente aqui, a liberdade implica responsabilidade. Utilizar a arte para incitar a violência de gênero, por exemplo, ou práticas criminosas em geral, pode resultar em consequências negativas, que terão por objetivo preservar a dignidade humana e o equilíbrio da vida em sociedade. X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; Breve comentário: todos os brasileiros e os estrangeiros residentes no País têm direito a sua intimidade. Todos devemos ser respeitados em nossa vida privada, em nossa honra e imagem e nenhum ato pode ser praticado contra esses valores constitucionalmente protegidos. Quem expuser sem autorização fatos de nossa vida privada em redes sociais ou em órgãos de imprensa, por exemplo, poderá ser responsabilizado por isso e condenado judicialmente a indenizar os prejuízos causados. Esses dez incisos que foram analisados brevemente nos permitem ter uma noção da amplitude dos direitos fundamentais individuais e coletivos protegidos pela Constituição Federal brasileira. Alguns outros exemplos são, também, muito importantes para entendermos que vivemos em um país cuja lei mais importante protege verdadeiramente as pessoas, tanto os brasileiros como os estrangeiros aqui residentes ou que estejam de passagem pelo País. 95 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Vamos analisar alguns outros incisos do artigo 5º da Constituição Federal. Por exemplo: XI – a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial; Breve comentário: a casa é protegida como um lugar inviolável, no qual ninguém poderá entrar semo expresso consentimento do morador. Isso significa que mesmo a autoridade policial, quando quiser realizar uma investigação, deverá estar munida de um mandado judicial por meio do qual obtenha autorização para entrar na casa e procurar pessoas, bens ou documentos relativos a um ilícito criminal. Em casos de flagrante delito ou de um desastre, como um desabamento ou alagamento em razão de fortes chuvas, não será necessário para ninguém estar autorizado para ingressar na casa de outra pessoa, porque a emergência é um motivo suficientemente forte para autorizar a entrada. Mas, nas situações normais do cotidiano, é preciso que o morador autorize ou que o agente do estado, que precisa entrar na casa de outra pessoa esteja autorizado judicialmente por um juiz que analisou as razões e entendeu que a determinação constitucional pode ser relativizada naquele caso. XII – é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal; Breve comentário: todos temos direito à privacidade e, portanto, a inviolabilidade de nossa correspondência é só uma consequência desse direito. Ninguém pode abrir a correspondência de outra pessoa sem estar autorizado para isso e, principalmente, autorizado pelo destinatário da correspondência. Na atualidade, precisamos entender que o termo utilizado pela Constituição Federal – correspondência – pode ser aplicado a muitas outras formas de comunicação além daquela tradicionalmente exercida por meio de cartas entregues pelo correio. Também se inclui em correspondência as mensagens eletrônicas e as mensagens trocadas por aparelhos celulares. Em todos esses casos a privacidade estará protegida pela Constituição Federal. Mas, como sempre, existem exceções que devem ser analisadas. O Poder Judiciário, por meio da Justiça do Trabalho, já entendeu em inúmeros julgamentos recentes que os computadores utilizados no trabalho, assim como os celulares utilizados na vida profissional, são parte da atividade laborativa e, por consequência, não estão protegidos pelo princípio do sigilo e da privacidade. Se o empregado recebe o computador e o celular para utilizar em serviço, não pode invocar o direito à privacidade, ou o direito ao sigilo das mensagens eletrônicas trocadas com o uso daquele computador ou celular. A atividade profissional a ser exercida com aqueles equipamentos deve ser de conhecimento de seu empregador, razão pela qual o sigilo não se justifica. XV – é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens; Breve comentário: a liberdade de circulação no território nacional é essencial para todos os brasileiros e estrangeiros residentes no País ou, ainda, para aqueles estrangeiros que se encontram no País por um 96 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II determinado tempo, a trabalho ou para turismo. Circular livremente, escolher onde quer ir e onde quer permanecer é um direito essencial de toda pessoa, razão pela qual a Constituição Federal brasileira consagra esse como um direito fundamental. No entanto, repare que existe um outro direito protegido nesse inciso: o direito de sair do País com seus bens, para qualquer destino que a pessoa desejar e que a receba. Alguns países do mundo restringem a entrada e permanência de estrangeiros em seu território, como é o caso dos Estados Unidos, que exige que a pessoa tenha um visto de entrada e, mesmo assim, só autoriza a permanência por um período determinado de tempo. O visto é concedido pela embaixada norte-americana no país de origem da pessoa que deseja viajar para lá, como acontece aqui no Brasil, lugar em que os Estados Unidos mantêm embaixada localizada em Brasília e consulados nas grandes capitais, locais em que é possível obter o visto de entrada no país. Mesmo com visto obtido, a pessoa só poderá ficar nos Estados Unidos por um determinado período de tempo, depois de expirado esse tempo poderá ser deportada. Em outros países, como os que pertencem à União Europeia, por exemplo, Itália, Inglaterra, Alemanha e França, entre outros, não é preciso visto para ingressar no país, mas uma vez que você tenha passado pela barreira de imigração, só pode ficar naquele território durante 90 (noventa) dias, findo os quais deverá se retirar para seu país de origem ou para outro, porém fora do território da União Europeia. Acredite, nem todos os países do mundo respeitam essa liberdade. Em alguns países do mundo o cidadão não pode sair sem justificar a razão de sua viagem e, mesmo assim, poderá ser proibido de sair. Em outros países, sair é impossível, não há autorização para isso salvo se a viagem for de interesse do governo. Isso ocorre, evidentemente, em regimes totalitários, não democráticos, em que o governo é exercido por um grupo de pessoas que não respeita os direitos humanos! Infelizmente, esses regimes políticos ainda existem no mundo em que vivemos. XVI – todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente; Breve comentário: reunir-se pacificamente para qualquer tipo de atividade, esportiva, política, cultural ou de lazer é um direito de todos os cidadãos. Em especial em lugares abertos, como praças, parques públicos, áreas de lazer, quadras esportivas, entre outros, que são lugares próprios para que a população se organize em reuniões de qualquer motivação que não seja ilícita ou criminosa. Existem, claro, regras para que isso aconteça. Em primeiro lugar, é preciso que a reunião seja pacífica e que os participantes não estejam armados, salvo aqueles que podem andar armados em conformidade com o que determina a lei. Também é preciso que a reunião seja marcada para um local em que não exista outra reunião marcada, justamente para evitar o conflito entre grupos, que, por vezes, partilham de ideias diferentes. Para garantir a organização e a ordem da sociedade, é imprescindível que a reunião seja noticiada à autoridade competente para ser solicitada autorização para isso. Imagine que o sindicato dos professores pretende realizar uma assembleia para discussão de greve caso não haja aumento de salário. Na cidade de São Paulo, por exemplo, uma reunião dessa natureza reúne milhares de pessoas e pode impactar o trânsito de forma negativa, provocando congestionamentos de várias horas e muito atraso no sistema de transporte público. Ora, o direito de algumas pessoas de se manifestar não pode ser mais importante que o direito de outras pessoas chegarem a seus compromissos de trabalho ou particulares. Como explicar para a mãe de um filho doente que ela não pode chegar ao hospital porque há uma passeata de professores insatisfeitos com salário? Para garantir esse equilíbrio, fundamental 97 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS para as atividades da sociedade, é preciso que as autoridades sejam avisadas previamente e autorizem a realização do evento ou sugiram que seja realizado em outro local, em que o impacto para a população será menor [...]. XVII – é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar; Breve comentário: a Constituição Federal garante a todos o direito de se associar para fins lícitos e sem caráter paramilitar.Em outras palavras, todos nós podemos formar associações, organizações não governamentais ou qualquer outro tipo de grupos sociais, para exercer as atividades que quisermos. Podemos fundar um clube de fotógrafos amadores, um grupo de artistas de teatro amador, uma associação de futebol de salão, de vôlei de praia ou de artistas plásticos do município de Salvador, Bahia, não há limites para isso. Porém, em nenhuma hipótese poderemos organizar uma associação de pessoas armadas para fazer a segurança do nosso bairro ou da nossa rua. Empresas de segurança são regulamentadas por lei como atividade empresarial e atendem a uma série de especificações, por isso podem atuar. Mas, grupos paramilitares, armados e organizados para vigiar ruas, bairros ou atividades diversas não são autorizados a atuar e, se isso ocorrer, as pessoas pertencentes a esses grupos poderão ser punidas pelo Estado. XVIII – a criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento; Breve comentário: criar associações, sociedades para desenvolvimento de atividades diversas como estudo, esporte, artes, entre outras, é de livre vontade das pessoas, sem que haja necessidade de autorização prévia do Estado. Também podem ser organizadas cooperativas para produção de artesanato, livros, produtos alimentícios e outras muitas atividades, sem necessidade de autorização e sem qualquer interferência do Estado no seu funcionamento. Isso é muito importante porque estimula que a sociedade brasileira se organize para realizar atividades muito relevantes, em especial na área cultural, artística, esportiva e de lazer. XX – ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer associado; Breve comentário: observe que embora a organização de associações seja livre, ninguém pode ser obrigado a participar de uma associação. Assim, se os moradores de um bairro ou de uma rua organizarem uma associação para melhoria das condições do local, ninguém poderá ser obrigado a participar, mesmo que more no bairro ou na rua. Cada um vai participar ou não em conformidade com sua vontade, sem que possa ser compelido a isso. Essa determinação tem razões históricas, porque governos autoritários já obrigaram as pessoas a participarem de suas organizações, como acontecia na época do nazismo na Alemanha, ou do fascismo na Itália. Na Alemanha da época do nazismo, muitas pessoas foram obrigadas a ingressar no partido nazista para poderem continuar a exercer suas atividades profissionais, como professores, por exemplo, e para não serem perseguidos ou considerados suspeitos de traição à pátria. Por isso, a associação em um país democrático deve ser livre, sem nenhum constrangimento para aqueles que não pretenderem se associar. XXII – é garantido o direito de propriedade; 98 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II Breve comentário: esse é um ponto fundamental que caracteriza os estados democráticos: todas as pessoas têm direito de adquirir uma propriedade, seja para moradia ou para exploração econômica, como plantio ou atividade comercial. A aquisição deve ser feita com recursos econômicos próprios, oriundos de forma lícita e, em alguns casos específicos, será fruto de políticas públicas que facilitem a aquisição por meio de financiamentos. Uma vez adquirida a propriedade o titular desse direito será protegido pela lei maior, a Constituição Federal e por várias leis federais, estaduais e municipais que garantem o exercício do direito de propriedade. Esse direito só será relativizado em casos específicos previstos em lei, como, por exemplo, quando houve interesse público superior ao interesse privado, que é o que acontece, habitualmente, nos casos de desapropriação de um imóvel para que possa ser construída uma estrada, um alargamento de avenida, uma construção de viaduto ou ponte. Nesses casos, o Estado indeniza o proprietário que vai perder seu bem e utiliza a área para construção de um equipamento público, de interesse de todos. XXIII – a propriedade atenderá a sua função social; Breve comentário: ao mesmo tempo em que a Constituição Federal estabelece o direito de todos possuírem uma propriedade, ela impõe uma função a essa propriedade, independentemente do tamanho e do tipo que ela possua: toda propriedade terá que ter uma função social, ou seja, ser utilizada de forma que não prejudique a vida em sociedade e, sendo possível, que contribua para que essa vida em sociedade seja harmônica e equilibrada. Esse pressuposto de função social da propriedade é diretamente decorrente do artigo 3º da Constituição Federal, no qual são tratados os objetivos da República Federativa do Brasil e fica expresso claramente que esses objetivos são: Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Em uma sociedade que adotou como objetivos ser justa e solidária, erradicar a pobreza e a marginalização, reduzir as desigualdades sociais e regionais e promover o bem de todos sem qualquer forma de discriminação, não há espaço para a utilização egoísta da propriedade, a ponto de colocar em risco ou causar prejuízo para os demais membros dessa mesma sociedade. Assim, por exemplo, se alguém é proprietário de extensa área de terra e não a utiliza para nenhuma finalidade, mantém a propriedade totalmente improdutiva sem ao menos cuidar da preservação dos recursos naturais para torná-la uma área de proteção do meio ambiente. É possível destinar aquela área para a reforma agrária, após a realização de um processo judicial por meio do qual será apurado o valor econômico do bem a ser desapropriado e efetuado o pagamento de indenização em títulos da dívida agrária. É o que consta expressamente no artigo 184 da Constituição Federal brasileira, que ora reproduzimos: 99 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Art. 184. Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização será definida em lei. Também consta expressamente do inciso XXIV da Constituição Federal que: XXIV – a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição; Assim, a Constituição Federal garante que cada pessoa possa ter a propriedade de um bem, urbano ou rural, e utilizá-lo para atingir seus objetivos de vida ou objetivos econômicos, com ampla liberdade, porque o direito de propriedade é constitucionalmente protegido. Porém, não é um direito ilimitado ou absoluto, porque a Constituição Federal nos lembra todo o tempo que vivemos em uma sociedade que pretende ser justa e solidária. Sendo assim, a propriedade individual deverá ter uma finalidade social e não egoística. Temos a propriedade para utilizar, usufruir, produzir benefícios pessoais ou econômicos, mas simplesmente por acumulação, enquanto outros não têm e precisam ter, não é uma finalidade socialmente justa. Para issoexistem os limites, mas todos eles fixados na lei. Ninguém poderá ser desapossado de sua propriedade sem fundamentação legal, porque isso não seria justo. Apenas nos casos expressamente previstos em lei é que uma pessoa poderá ser desapropriada, e não são muitas as hipóteses que a lei permite que isso aconteça. Outro importante aspecto que o artigo 5º da Constituição Federal aloca como direito fundamental é a proteção do consumidor. De fato, no inciso XXXII do artigo 5º está definido que: “O Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor” (BRASIL, 1988). No artigo 48, “Disposições Finais e Transitórias”, a Constituição Federal determinou prazo para que fosse feito um Código de Defesa do Consumidor, o que de fato ocorreu em 1990, quando foi aprovada a Lei n° 8.078, que entrou em vigor em 1991, e que é o referido código de proteção e defesa do consumidor, lei muito conhecida no Brasil e facilmente invocada por todos os cidadãos quando se encontram frente a um conflito na área de consumo. Repare que a Constituição Federal elevou a defesa do consumidor, no Brasil, à categoria de um direito fundamental, reconhecendo que as relações de consumo não raramente colocam em risco a vida, a saúde e até mesmo a dignidade do consumidor, em especial quando os produtos consumidos são de alta relevância para a vida e o bem-estar das pessoas, como acontece com medicamentos e alimentos, entre outros. Por essa razão, entendeu o legislador constituinte que a defesa do consumidor deveria ser colocada no mais alto grau de proteção que a Constituição Federal pode proporcionar, ou seja, como um direito fundamental. O artigo 5º da Constituição Federal é extenso e repleto de bons motivos para reflexões. É recomendável que cada brasileiro ou estrangeiro residente no País faça a leitura de todos os incisos e parágrafos do 100 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II artigo 5º, para conhecer o amplo rol de direitos fundamentais individuais e coletivos com os quais somos contemplados pela lei de maior importância do País. Somente se conhecermos os direitos fundamentais individuais e coletivo, poderemos agir em conformidade com eles e exigir do Estado brasileiro que os cumpra e faça com que sejam cumpridos, sempre tendo em mente os objetivos da República Federativa do Brasil: construir uma sociedade livre, justa e solidária, sem nenhuma discriminação de qualquer espécie. 6.3 Direitos dos acusados e condenados Uma das principais razões pelas quais os direitos humanos, no Brasil, são vulgarmente associados com “direitos de bandidos” é a confusão que se estabelece entre as pessoas leigas, que não tiveram boas oportunidades para estudar, de que direitos devam ser garantidos apenas e tão somente para as pessoas que se comportam de forma socialmente aceita. Essa é uma afirmação que tem fundamento na maior parte das vezes, porém, quando se trata de acusados e condenados por práticas criminosas, é preciso lembrar que todas as sociedades civilizadas estabeleceram punições para a prática de crimes, mas não concordam com vingança. E por que a vingança é afastada das sociedades civilizadas? Porque a vingança nos igualaria àquele que praticou o crime. Seria a resposta violenta ao ato igualmente violento praticado pelo criminoso. Para deixar claramente demarcada a fronteira entre punição e vingança, as legislações de sociedades civilizadas, organizadas com objetivo de garantir a todos o cumprimento da lei e o resultado da paz social, da ordem e do equilíbrio, possuem legislação que pune os crimes com supressão do direito de liberdade (prisão ou detenção), porém, impedem qualquer prática de castigos corporais, de trabalhos forçados, de tortura ou assemelhados, porque tudo isso caracterizaria vingança, que não é prática admitida entre pessoas civilizadas. Importante lembrar que o fundamento republicano da dignidade da pessoa humana, adotado no Brasil e em muitos outros países do mundo, representa que todos os seres humanos têm direito a ser tratados com dignidade, exclusivamente pelo fato de serem humanos, sem que seja preciso praticar nenhum ato de contrapartida. Em outras palavras, dignidade da pessoa humana não se aplica apenas a pessoas boas, que cumpram a lei e pratiquem atos considerados socialmente relevantes. Mesmo as pessoas que praticam atos criminosos têm direito de serem tratadas com dignidade. E por quê? Porque não tratá-las com dignidade quando praticam um ato criminoso, violento, seria o mesmo que se equiparar a elas, seria responder violência com violência, o que, com certeza, não nos levaria a construir uma sociedade melhor. Por isso, por maior que seja a nossa revolta e indignação diante de crimes bárbaros que são praticados muitas vezes na sociedade brasileira, a prática de tortura ou de linchamento pode até ser aplaudida como resposta imediata, de raiva, de desespero, mas não é, no fundo, diferente do ato criminoso praticado e que nos causou revolta. 101 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Alguns poderão dizer que se trata de uma reação e, portanto, pode ser praticada porque ela não existiria se o ato violento não tivesse sido feito primeiramente. Esse, no entanto, não é um bom argumento. Nenhum ato de violência pode ser justificado, porque nenhum ato de violência produz algo de bom ou positivo para a sociedade. Responder com violência é se igualar a quem praticou violência. A melhor resposta é a punição, tão severa quanto mais violento for o ato praticado. A supressão de liberdade é, com certeza, nas sociedades civilizadas, a mais severa das penas. Ficar impedido de viver em sociedade, de ter uma família, de poder ir para onde quiser e no momento que quiser, viver uma vida reprimida em todos os momentos, com horários rígidos até para poder estar em contato com o sol (o horário de banho de sol das cadeias é muitas vezes restrito a apenas uma hora por dia), tudo isso é a mais rigorosa punição que uma sociedade civilizada pode praticar contra atos violentos como homicídios, latrocínios, estupros, entre outros. No Brasil, felizmente, a Constituição Federal estabelece direitos para acusados e para presos, inclusive porque muitas pessoas podem ser acusadas de crimes que não praticaram e, exatamente por isso, merecem todo o direito de se defender até que a sentença judicial decida se são ou não culpadas pelo crime que lhes é imputado. Observação Pena de reclusão é aplicada a condenações mais severas, o regime de cumprimento pode ser fechado, semiaberto ou aberto, e normalmente é cumprida em estabelecimentos de segurança máxima ou média. A detenção é aplicada para condenações mais leves e não admite que o início do cumprimento seja no regime fechado. Em regra, a detenção é cumprida no regime semiaberto, em estabelecimentos menos rigorosos como colônias agrícolas, industriais ou similares, ou no regime aberto, nas casas de albergado ou estabelecimentos adequados. A prisão simples é prevista na lei de contravenções penais como pena para condutas descritas como contravenções, que são infrações penais de menor lesividade. O cumprimento ocorre sem rigor penitenciário em estabelecimento especial ou seção especial de prisão comum, em regime aberto ou semiaberto. Somente são admitidos os regimes aberto e semiaberto para a prisão simples (DISTRITO FEDERAL, 2015). Os direitos que os acusados detêm são, basicamente, os seguintes: Artigo 5º [...] XLV – nenhuma pena passará da pessoa do condenado, podendo a obrigação de reparar o dano e a decretação do perdimento de bens ser, nos termos da lei, estendidas aos sucessorese contra eles executadas, até o limite do valor do patrimônio transferido; 102 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II Breve comentário: a pena só pode ser cumprida pelo condenado e por ninguém mais. Não há nenhuma possibilidade de os herdeiros do condenado serem obrigados a cumprir a pena por ele. A isso se dá o nome de princípio da pessoalidade, ou seja, a pena nunca poderá ultrapassar a pessoa do condenado. Por outro lado, se o condenado tiver praticado um crime que tenha gerado danos materiais ou morais à vítima ou seus familiares, como, por exemplo, um acidente de trânsito praticado com dolo e que vitimou de forma fatal um homem casado, pai de três filhos e arrimo de família. Nesse caso, o causador do acidente será condenado no âmbito penal (por homicídio) e no âmbito civil (para reparar economicamente os prejuízos causados, em especial, a perda dos valores mensais que a vítima disponibilizava por meio de seu trabalho para o sustento de sua prole e de sua esposa). Artigo 5º [...] XLVI – a lei regulará a individualização da pena e adotará, entre outras, as seguintes: Breve comentário: esse inciso determina que a pena seja individualizada ao delinquente, impedindo que ocorram sanções coletivas ou de natureza genérica. Além disso, a pena deverá ser cumprida em um estabelecimento apropriado para o tipo de pena imposta ao condenado, em conformidade com sua idade e sexo e assegurando o respeito à sua integridade física e moral. É o que encontramos nos incisos do mesmo artigo 5º que estamos estudando: XLVIII – a pena será cumprida em estabelecimentos distintos, de acordo com a natureza do delito, a idade e o sexo do apenado; XLIX – é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral; Assim, além do princípio da individualização da pena, a Constituição Federal adota o princípio da dignidade da pessoa humana a ser aplicado a todos os brasileiros, estrangeiros residentes no País e estrangeiros que aqui estejam por período limitado de tempo. Todos, sem nenhuma exceção, têm direito a tratamento digno em que sejam respeitadas sua integridade física e moral. E isso inclui os acusados e os condenados. Portanto, nenhum tipo de tortura ou tratamento desumano pode ser praticado nas penitenciárias brasileiras, embora na prática ainda estejamos muito longe do efetivo cumprimento dessa determinação constitucional. Figura 16 103 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS As rebeliões em presídios são frequentes no Brasil, infelizmente, o que demonstra que o sistema prisional precisa ser tratado com maior atenção e maturidade, de forma que esses estabelecimentos cumpram verdadeiramente o objetivo de ressocializar os condenados por crimes, propiciando a eles formação educacional fundamental, profissionalização e atividades que possam servir de apoio para a vida fora do sistema prisional, em especial o apoio psicológico. Os recursos investidos na melhoria do sistema prisional são fundamentais para que o Estado diminua o índice de reincidência no crime, que, na atualidade, segundo dados de pesquisa feita pela Revista Piauí junto ao Conselho Nacional de Justiça, alcança 24,4%, ou seja, um a cada quatro egressos do sistema prisional volta a praticar um ato criminoso, índice considerado muito alto (TARTÁGLIA, 2016). Cumpre destacar, ainda, que os acusados por crimes no Brasil são protegidos pelos incisos destacados na CF (BRASIL,1988) todos muito importantes e que merecem nossa especial atenção nestes estudos sobre direitos humanos: LIII – ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente; Breve comentário: o Brasil possui tribunais competentes para cada tipo de atividade, ou seja, no âmbito penal, civil e trabalhista. A lei fixa qual a autoridade competente para cada tipo de julgamento, o que significa que ninguém poderá ser julgado e condenado senão por um tribunal legalmente competente. Um grupo de cidadãos reunidos não pode julgar ninguém. Somente um tribunal com juízes legalmente instituídos para essa função, preparados para o exercício dela, é que poderá conhecer a acusação, analisar as provas e proferir o julgamento, sempre com cumprimento das leis que regulam aquela matéria. LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal; Breve comentário: nenhuma pessoa, por pior que tenha sido o crime que ela tiver praticado, será privada de sua liberdade sem que haja um processo legal para condená-la. Da mesma forma, ninguém será privado de seus bens sem que um processo legal tenha ocorrido e tenha sido concluído com essa determinação expressa. A lei é a base da vida na sociedade brasileira e, por isso, nada pode ocorrer senão em estrito cumprimento ao que ela determina. LV – aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes; Breve comentário: neste inciso do artigo 5º estão contemplados direitos fundamentais, que são, de fato, essenciais para a vida de todos nós. Esses direitos asseguram que qualquer pessoa no Brasil que estiver na condição de litigante em um processo judicial (movido perante um juiz de direito ou tribunal), ou administrativo (movido por autoridade administrativa como Prefeituras e Procons, por exemplo) terá direito ao exercício do contraditório, ou seja, poderá colocar para conhecimento e julgamento todas as suas razões e argumentos e terá direito à ampla defesa, por meio da apresentação de todas 104 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II as provas em direito permitidas que possam corroborar os argumentos que foram expostos. Prova documental, testemunhal e técnica (feita por peritos especializados em um determinado assunto, como peritos em mecânica, ou em contabilidade, por exemplo) são parte do conjunto de provas que uma pessoa poderá produzir no processo judicial ou administrativo com o intuito de comprovar que suas alegações são verídicas ou para comprovar que as alegações da parte contrária não são verídicas. Esses princípios, contraditório e ampla defesa, são fundamentais para a garantia de um processo judicial ou administrativo que seja justo e cujo resultado final não possa ser contestado por nenhuma das partes. LVI – são inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos; Breve comentário: neste inciso do artigo 5º há exigência expressa para que as provas sejam obtidas por meios lícitos, ou melhor, sejam provas obtidas de forma regular. Essa determinação serve para regular os casos de escuta e gravação de conversas telefônicas feitas pelos órgãos policiais, como a Polícia Federal, por exemplo. Essas escutas e gravações, que se tornaram frequentes no Brasil em casos de apuração de crime de corrupção e de lavagem de dinheiro, com várias operações comandadas pela Polícia Federal nos últimos anos, foram expressamente autorizadas por juízes de direito, que tiveram conhecimento prévio da necessidade de serem efetuadas escutas e gravações, avaliaram se elas eram mesmo necessárias para apuração dos crimes que estavam sendo investigados pela polícia e foram autorizadas por meio de decisão judicial, por meio de um mandado judicial, o qual a Polícia Federal é obrigada a exibir sempre que solicitada. Em outras palavras, para a Polícia Federal investigar alguém por meio de escutas e gravações telefônicas, é obrigada a pedir autorização judicial, o que é muito bom,porque impede a prática de escutas e gravações indevidas de pessoas que não têm nenhuma acusação ou suspeita da prática de qualquer modalidade de crime ou ato ilícito. LVII – ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória; Breve comentário: esse inciso do artigo 5º faz referência ao fato de que o processo judicial deverá estar integralmente finalizado para que o condenado seja preso. Os processos judiciais em razão da determinação da lei podem ter até três fases: a primeira, conduzido por um juiz singular que profere a decisão sozinho; a segunda, em que o processo é analisado novamente e julgado por um colegiado de magistrados, ou seja, por um tribunal, que pode manter ou modificar a decisão proferida pelo juiz singular; e a terceira fase, em que um tribunal federal superior analisa o processo e modifica ou corrobora a decisão adotada anteriormente. Depois dessas fases, ocorre o chamado trânsito em julgado da sentença, que é o momento em que ela se torna imutável, porque não existem mais recursos jurídicos para serem interpostos, ou seja, não existe mais possibilidade de um órgão judicial modificar aquela determinação. Nesse momento, é expedido o mandado de prisão e o condenado deverá se apresentar para iniciar o cumprimento da pena. Esse direito é importante para evitar que alguém seja preso e, mais tarde, no julgamento em segunda instância a sentença seja inteiramente revista e a condenação anulada. Como devolver a uma pessoa os dois ou mais anos que ela passou presa injustamente? Como reparar esse erro? Exatamente para evitar que isso aconteça, a Constituição Federal garantiu o direito de liberdade de todas as pessoas até que se esgotem todos os recursos e tentativas de provar a verdade. 105 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Existem muitos outros incisos importantes no artigo 5º da Constituição Federal. Vamos comentar brevemente mais dois deles. O primeiro, inciso LXXV, determina que haverá responsabilidade civil objetiva do Estado brasileiro se ficar provado o erro judicial, por exemplo, se houver a prisão da pessoa errada; e também nos casos em que for aplicada pena superior ao prazo maior previsto na lei. Nessas situações, a pessoa atingida pelos erros poderá exigir indenização do Estado brasileiro em razão da prisão irregular ou da pena excessiva aplicada ao crime cometido. Também é muito importante o inciso LXXIV, que trata da assistência jurídica integral e gratuita aos necessitados, para que aqueles que não podem pagar um advogado não sejam privados de sua ampla defesa, porque o Estado se incumbirá de indicar e pagar um profissional para defender o acusado. A Defensoria Pública e os advogados conveniados pela Ordem dos Advogados do Brasil cumprem esse papel e o fazem com competência e muita dedicação. Há expressa previsão no artigo 24 da Constituição Federal no sentido de que a União, os Estados e o Distrito Federal deverão manter assistência jurídica e defensoria pública, gratuitas, para todos os cidadãos que necessitarem. De acordo com o artigo 134 da Constituição Federal (BRASIL, 1988): Art. 134. A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e instrumento do regime democrático, fundamentalmente, a orientação jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, na forma do inciso LXXIV do art. 5º desta Constituição Federal Já a advocacia está prevista na Constituição Federal no artigo 133: Art. 133. O advogado é indispensável à administração da justiça, sendo inviolável por seus atos e manifestações no exercício da profissão, nos limites da lei (BRASIL, 1988). Assim, os advogados que exercem sua atividade por meio de convênios para atendimento de pessoas carentes, que não podem pagar honorários de profissionais contratados, estão cumprindo determinação federal expressa na Constituição do Brasil. É bastante recomendável que o artigo 5º seja estudado de forma recorrente por todos os brasileiros e estrangeiros residentes ou de passagem pelo Brasil, porque os direitos fundamentais, individuais e coletivos colocados nesse artigo são, verdadeiramente, essenciais para todos nós. Conhecer esses incisos e pesquisar a sua aplicabilidade prática poderá nos ajudar a deixar de lado muitos dos nossos preconceitos, que são, na verdade, fruto do desconhecimento. É o caso da afirmação de que direitos humanos são direitos de bandidos. Agora sabemos que isso não apenas é verdade, como também é uma afirmação que não faz nenhum sentido perante a Constituição Federal brasileira, lei mais importante da República Federativa do Brasil. 106 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II Direitos humanos são direitos de todos nós! É por isso que a Organização das Nações Unidas determina no artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos que: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade (ONU, 1948). Quando na vida em sociedade um ser humano praticar ato criminoso contra outro, desde que devidamente comprovado, deverá ser punido por esse ato, porém, até no momento da aplicação da pena punitiva deverá ser respeitado em sua dignidade e em seus direitos, porque a violência não nos levará a uma sociedade melhor e a vingança não é ato digno de seres civilizados, que querem viver e agir uns aos outros com espírito de fraternidade. 7 A EMENDA CONSTITUCIONAL Nº45 E OS DIREITOS HUMANOS NO BRASIL A Emenda Constitucional n° 45, de 30 de dezembro de 2004, modificou substancialmente o sistema de proteção de direitos humanos no Brasil. Com aprovação no Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, a EC 45 fixou que os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos serão equivalentes às emendas constitucionais. Esse número de votos é o mesmo utilizado para a aprovação de emendas constitucionais, nos termos do que está previsto no artigo 60, parágrafo 2º da Constituição Federal brasileira. Em decorrência dessa determinação, todos os tratados e convenções aprovados com esse número de votos favoráveis se torna imediatamente uma emenda constitucional, ou seja, passa a integrar a Constituição Federal brasileira, a lei mais importante do País. Emenda constitucional é a mudança pontual ao texto da Constituição de um país ou de um estado federativo, limitada aos temas que especificamente possam ser modificados, visto que alguns temas, como sabemos, são chamados de cláusulas pétreas, e não poderão ser modificados, salvo se outra constituição federal for redigida e aprovada por meio de assembleia nacional constituinte. A Emenda Constitucional n° 45 modificou a Constituição Federal e determinou que os tratados internacionais de direitos humanos assinados pelo Brasil passassem a ter status de texto constitucional sempre que fossem aprovados por 3/5 dos votos dos senadores e deputados federais que compõem o Congresso Nacional. Após a aprovação da Emenda Constitucional nº 45, de 2004, surgiu a dúvida sobre qual o tratamento jurídico a ser dado aos tratados anteriores à emenda. O legislativo brasileiro decidiu que os tratados de direitos humanos anteriores à Emenda Constitucional nº 45 continuariam com status de lei ordinária, porém de caráter supralegal, ou seja, estariam acima das leis ordináriascomuns, embora não sejam leis constitucionais. 107 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Em 2007, a Convenção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, aprovada em 30 de março pelo Decreto 186, foi recepcionada no ordenamento jurídico brasileiro como norma de caráter constitucional, em consonância com a determinação da Emenda Constitucional nº 45. Assim, as determinações daquela convenção internacional destinada à proteção das pessoas com deficiência passam a ser obrigatórias no Brasil, e com status de norma constitucional, de parte integrante da lei mais importante do País. Além disso, a Emenda Constitucional nº 45 é importante porque inseriu na Constituição Federal brasileira, expressamente, que o Brasil se submete à jurisdição do Tribunal Penal Internacional, que fica em Haia, na Holanda, e que foi criado pelo Estatuto de Roma, de 1998. Por fim, outro importante aspecto da Emenda Constitucional nº 45, de 2004, foi possibilitar a federalização dos crimes graves contra direitos humanos, ou seja, conforme consta expressamente do artigo: Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal (BRASIL, 2004). O Procurador-Geral da República deverá analisar o caso concreto que se encontra em fase de inquérito ou de processo judicial e, se concluir que existem indícios de que tenha ocorrido grave violação de direitos humanos, e, consequentemente, descumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais dos quais o Brasil seja signatário, ele poderá requerer perante o Superior Tribunal de Justiça que esse caso seja deslocado da esfera do poder judiciário estadual para o poder judiciário federal, de forma a se tornar um assunto de interesse nacional. Essa determinação é muito importante porque, em determinados casos de violação de direitos humanos, existe forte pressão exercida sobre o juiz singular que está cuidando do caso, inclusive com ameaças contra sua integridade física. Para evitar qualquer tipo de risco, o caso deve ser enviado para esfera federal, de forma a proteger todos aqueles que deverão julgar e para tornar evidente para os grupos de pressão que o assunto é de interesse de toda a nação, e não apenas do estado federativo em que ocorreu a violação. O primeiro caso dessa natureza para o qual foi pedida a federalização foi o assassinato da irmã Dorothy Stang, ocorrido em 12 de fevereiro de 2005 no interior do Pará. Irmã Dorothy Stang era uma missionária católica que atuava junto à população carente da região Norte do país e que, em 12 de fevereiro de 2005, foi assassinada com seis tiros, aos 73 anos, em plena floresta Amazônica, por criminosos que estavam a serviço de proprietários de terra que não desejavam que os projetos de assentamento rural fossem concretizados. Irmã Dorothy e outros religiosos e líderes comunitários atuavam no sentido de garantir o assentamento de famílias que precisavam de terra para produzir e cujos direitos vinham sendo reconhecidos 108 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II pelo poder judiciário brasileiro. Esse ato de inominável violência e covardia, assassinato de uma pessoa desarmada e com 73 anos de idade, foi tratado pelo Procurador-Geral da República naquele momento como caso passível de federalização. No entanto, o Superior Tribunal de Justiça não acolheu o pedido de federalização e o fez fundamentado em dois argumentos construídos pelo Ministro Arnaldo Esteves Lima, que foi o relator do processo: 4. Na espécie, as autoridades estaduais encontram-se empenhadas na apuração dos fatos que resultaram na morte da missionária norte-americana Dorothy Stang, com o objetivo de punir os responsáveis, refletindo a intenção do Estado do Pará em dar resposta eficiente à violação do maior e mais importante dos direitos humanos, o que afasta a necessidade de deslocamento da competência originária para a Justiça Federal, de forma subsidiária, sob pena, inclusive, de dificultar o andamento do processo criminal e atrasar o seu desfecho, utilizando-se o instrumento criado pela aludida norma em desfavor de seu fim, que é combater a impunidade dos crimes praticados com grave violação de direitos humanos. 5. O deslocamento de competência – em que a existência de crime praticado com grave violação dos direitos humanos é pressuposto de admissibilidade do pedido – deve atender ao princípio da proporcionalidade (adequação, necessidade e proporcionalidade em sentido estrito), compreendido na demonstração concreta de risco de descumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais firmados pelo Brasil, resultante da inércia, negligência, falta de vontade política ou de condições reais do Estado-membro, por suas instituições, em proceder à devida persecução penal. No caso, não há a cumulatividade de tais requisitos, a justificar que se acolha o incidente (STJ, 2005). Assim, apesar de existir a possibilidade de federalização, ela não é a regra, mas sim a exceção, que deve ser aplicada em situações específicas para as quais fique constatado que o estado da federação brasileira não está agindo em consonância com a lei ou que não detém recursos necessários para isso. Nessas hipóteses, deverá ser utilizado o instrumento da federalização, que viabilizará que a agressão aos direitos humanos seja apurada em esfera federal e sejam punidos aqueles que forem condenados por ela. O que pode ser realmente considerado relevante é que a possibilidade de federalização de crimes contra direitos humanos, alocada na Emenda Constitucional n° 45, de 2004, se soma aos inúmeros esforços que o Brasil tem efetivado no sentido de garantir a proteção dos direitos humanos em todo o território nacional, superando dificuldades históricas, porém sempre voltado para a mais ampla proteção desses direitos fundamentais. 109 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Saiba mais Para conhecer melhor a vida da irmã Dorothy Stang, desde seu nascimento até o momento de seu assassinato, há muitos elementos importantes para conhecermos melhor não apenas a sua história de vida, mas também a história do Brasil contemporâneo e os conflitos pela exploração da terra, recomendamos a leitura do livro a seguir: LE BRETON, B. A dádiva maior. A vida e a morte corajosa da irmã Dorothy Stang. São Paulo: Globo, 2008. 7.1 Planos Nacionais de Direitos Humanos Os Planos Nacionais de Direitos Humanos foram criados no Brasil a partir de 1996 e sob inspiração da Declaração e Programa de Ação da Conferência de Viena, realizada pela Organização das Nações Unidas naquela cidade da Áustria em 1993. A Declaração e Programa de Ação da Conferência de Viena (OEA, 1993) determina no item 1 que: A Conferência Mundial sobre Direitos Humanos reafirma o empenho solene de todos os Estados em cumprirem as suas obrigações no tocante à promoção do respeito universal, da observância e da proteção de todos os Direitos Humanos e liberdades fundamentais para todos, em conformidade com a Carta das Nações Unidas, com outros instrumentos relacionados com os Direitos Humanos e com o Direito Internacional. A natureza universal destesdireitos e liberdades são inquestionáveis. Neste âmbito, o reforço da cooperação internacional no domínio dos Direitos Humanos é essencial para a plena realização dos objetivos das Nações Unidas. Os direitos humanos e as liberdades fundamentais são inerentes a todos os seres humanos; a sua proteção e promoção constituem a responsabilidade primeira dos Governos. Assim, em 1996, o governo brasileiro criou o Programa Nacional de Direitos Humanos, conhecido como PNDH I, por meio do Decreto 1.904, de 13 de maio daquele ano. O PNDH I determinava como objetivos: I – A identificação dos principais obstáculos à promoção e defesa dos diretos humanos no País; II – a execução, a curto, médio e longo prazos, de medidas de promoção e defesa desses direitos; III – a implementação de atos e declarações internacionais, com a adesão brasileira, relacionados com direitos humanos; 110 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II IV – a redução de condutas e atos de violência, intolerância e discriminação, com reflexos na diminuição das desigualdades sociais; V – a observância dos direitos e deveres previstos na Constituição, especialmente os dispostos em seu art. 5°; VI – a plena realização da cidadania (BRASIL, 1996). O PNDH I foi coordenado pelo Ministério da Justiça com a participação e apoio de todos os órgãos da Administração Pública Federal, e as ações relativas à sua execução foram consideradas prioritárias para o governo. Foi facultado aos Estados, ao Distrito Federal, aos Municípios e entidades privadas que aderissem ao PNDH I, e as despesas decorrentes do cumprimento das metas do programa seriam provenientes de dotações orçamentárias dos órgãos participantes das ações implementadas. Esse primeiro programa nacional de direitos humanos teve por objetivo atuar prioritariamente em relação aos direitos civis e políticos, que também chamamos de direitos humanos de primeira geração ou de primeira dimensão. Em 13 de maio de 2002, por meio do Decreto 4.229, o governo implementou o Plano Nacional de Direitos Humanos 2, com os seguintes objetivos: Art. 2º O PNDH tem como objetivos: I – a promoção da concepção de direitos humanos como um conjunto de direitos universais, indivisíveis e interdependentes, que compreendem direitos civis, políticos, sociais, culturais e econômicos; II – a identificação dos principais obstáculos à promoção e defesa dos direitos humanos no País e a proposição de ações governamentais e não governamentais voltadas para a promoção e defesa desses direitos; III – a difusão do conceito de direitos humanos como elemento necessário e indispensável para a formulação, execução e avaliação de políticas públicas; IV – a implementação de atos, declarações e tratados internacionais dos quais o Brasil é parte; V – a redução de condutas e atos de violência, intolerância e discriminação, com reflexos na diminuição das desigualdades sociais; e VI – a observância dos direitos e deveres previstos na Constituição, especialmente os inscritos em seu art. 5º (BRASIL, 2002). 111 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Nesse segundo plano, a ênfase era para os direitos econômicos, sociais e culturais, acrescido também pelos ambientais. Esses direitos são chamados de direitos de segunda dimensão ou de segunda geração. Finalmente, em 2009, foi criado o Plano Nacional de Direitos Humanos 3, cujas bases foram inspiradas pela 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, realizada em 2008. O Plano Nacional de Direitos Humanos 3 foi criado pelo Decreto n° 7.037, de 21 de dezembro de 2009, que foi alterado pelo Decreto n° 7.177, de 12 de maio de 2010. O PNDH 3 está dividido em seis eixos e foi apresentado da seguinte forma: O Terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos, instituído pelo Decreto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009, e atualizado pelo Decreto nº 7.177, de 12 de maio de 2010, é produto de uma construção democrática e participativa, incorporando resoluções da 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, além de propostas aprovadas em mais de 50 conferências temáticas, promovidas desde 2003, em áreas como segurança alimentar, educação, saúde, habitação, igualdade racial, direitos da mulher, juventude, crianças e adolescentes, pessoas com deficiência, idosos, meio ambiente etc. O PNDH-3 concebe a efetivação dos direitos humanos como uma política de Estado, centrada na dignidade da pessoa humana e na criação de oportunidades para que todos e todas possam desenvolver seu potencial de forma livre, autônoma e plena. Parte, portanto, de princípios essenciais à consolidação da democracia no Brasil: diálogo permanente entre Estado e sociedade civil; transparência em todas as áreas e esferas de governo; primazia dos direitos humanos nas políticas internas e nas relações internacionais; caráter laico do Estado; fortalecimento do pacto federativo; universalidade, indivisibilidade e interdependência dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais; opção clara pelo desenvolvimento sustentável; respeito à diversidade; combate às desigualdades; erradicação da fome e da extrema pobreza. O PNDH-3 estrutura-se em torno dos seguintes eixos orientadores: I. Interação Democrática entre Estado e Sociedade Civil; II. Desenvolvimento e Direitos Humanos; III. Universalizar Direitos em um Contexto de Desigualdades; IV. Segurança Pública, Acesso à Justiça e Combate à Violência; V. Educação e Cultura em Direitos Humanos e VI. Direito à Memória e à Verdade. O Eixo I, Interação Democrática entre Estado e Sociedade Civil, reflete o pressuposto de que o compromisso compartilhado e a participação social na construção e no monitoramento de políticas públicas são essenciais para que a consolidação dos direitos humanos seja substantiva e conte com forte legitimidade democrática. Nesse contexto, o PNDH-3 propõe a 112 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II integração e o aprimoramento dos fóruns de participação existentes, bem como a criação de novos espaços e mecanismos institucionais de interação e acompanhamento. O Eixo II, Desenvolvimento e Direitos Humanos, enfoca a inclusão social e a garantia do exercício amplo da cidadania, garantindo espaços consistentes com as estratégias de desenvolvimento local e territorial e buscando um modelo de crescimento sustentável, capaz de assegurar os direitos fundamentais das gerações presentes e futuras. O Eixo III, Universalizar Direitos em um Contexto de Desigualdades, baseia-se na necessidade de reconhecer as diversidades e diferenças para concretização do princípio da igualdade, visando à superação de barreiras estruturais para o acesso aos direitos humanos. Envolve, portanto, iniciativas relacionadas com a redução da pobreza, a erradicação da fome e da miséria, o combate à discriminação e a implementação de ações afirmativas voltadas para grupos em situação de vulnerabilidade. O Eixo IV, Segurança Pública, Acesso à Justiça e Combate à Violência, envolve metas para a diminuição e prevenção da violência e criminalidade, priorizando a transparência e a participação popular. Inclui ainda medidas de ampliação do acesso à Justiça, por meio da disponibilização de informações à população, do fortalecimento dos modelos autocompositivos de solução de conflitos e da modernização da gestão do sistema de Justiça. O Eixo V, Educação e Cultura em Direitos Humanos, refere-se ao desenvolvimentode processos educativos permanentes voltados à formação de uma consciência centrada no respeito ao outro, na tolerância, na solidariedade e no compromisso contra todas as formas de discriminação, opressão e violência, com base no respeito integral à dignidade humana. O Eixo VI, Direito à Memória e à Verdade, afirma a importância da memória e da verdade como princípios históricos de direitos humanos, e tem como finalidade assegurar o processamento democrático e republicano dos acontecimentos ocorridos durante o regime militar, além das reparações a violações que tenham se passado nesse contexto (O QUE É..., [s.d.]). Como podemos constatar pela análise detalhada dos eixos em que o PNDH 3 está dividido, nele se encontram contemplados os principais temas de direitos humanos, os mais importantes para todo o País. A relevância dos temas abordados nos eixos motivou a criação do Comitê de Acompanhamento e Monitoramento do PNDH-3, composto de 21 ministérios do governo federal e com objetivo de: I – promover a articulação entre os órgãos e entidades envolvidos na implementação das suas ações programáticas; 113 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS II – elaborar os Planos de Ação dos Direitos Humanos; III – estabelecer indicadores para o acompanhamento, monitoramento e avaliação dos Planos de Ação dos Direitos Humanos; IV – acompanhar a implementação das ações e recomendações; e V – elaborar e aprovar seu regimento interno (ENTENDA AS ESTRATÉGIAS..., [s.d.]). Observação Compõem o Comitê de Acompanhamento e Monitoramento do PNDH-3: Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos; a Secretaria-Geral da Presidência da República; o Ministério da Cultura; o Ministério da Educação; o Ministério da Justiça; o Ministério da Pesca e Aquicultura; o Ministério da Previdência Social; o Ministério da Saúde; o Ministério das Cidades; o Ministério das Comunicações; o Ministério das Relações Exteriores; o Ministério do Desenvolvimento Agrário; o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; o Ministério do Esporte; o Ministério do Meio Ambiente; o Ministério do Trabalho e Emprego; o Ministério do Turismo; o Ministério da Ciência e Tecnologia; e o Ministério de Minas e Energia (ENTENDA COMO SÃO CONSTITUÍDOS..., [s.d.]). Além disso, foi constituído o Grupo de Trabalho no âmbito do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), por meio de resolução de 2012, composto de sete representantes do governo e sete representantes da sociedade civil brasileira para que, em paridade de condições, governo e sociedade realizarem o controle social da execução do PNDH 3, discutindo as prioridades, os avanços e os gargalos que impedem a execução do programa. Encontra-se disponível na rede mundial de computadores o portal do Observatório do PNDH 3, que é uma plataforma pública por meio da qual a população em geral e as entidades civis organizadas poderão obter dados fornecidos pelo governo e pelos órgãos que atuam na implementação do programa; com isso, podem monitorar as ações que têm sido efetivadas com objetivo de cumprir as metas do programa. 8 DIREITOS SOCIAIS NO BRASIL No Capítulo II, do Título I – “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”, a Constituição Federal trata dos Direitos Sociais. Eles estão alocados nos artigos 6° a 11. Como podem ser definidos os direitos sociais? 114 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II Para Nestor Sampaio Penteado Filho (2009, p. 121), direito sociais podem ser conceituados como “direitos fundamentais (liberdades positivas) que visam à melhoria da qualidade de vida dos hipossuficientes”. José Afonso da Silva ensina: Direitos sociais, como dimensão dos direitos fundamentais do homem, são prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indiretamente, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitem melhores condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais (SILVA, 1999, p. 286). No artigo 6º a Constituição Federal determina: São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição (BRASIL, 1988). No artigo 7º trata dos direitos dos trabalhadores. No artigo 8º o tema constitucional é a livre associação profissional ou sindical e no artigo 9º o direito de greve. Os artigos 10 e 11 tratam, respectivamente: Art. 10. É assegurada a participação dos trabalhadores e empregadores nos colegiados dos órgãos públicos em que seus interesses profissionais ou previdenciários sejam objeto de discussão e deliberação. Art. 11. Nas empresas de mais de duzentos empregados, é assegurada a eleição de um representante destes com a finalidade exclusiva de promover-lhes o entendimento direto com os empregadores. Nosso principal interesse são os direitos sociais do artigo 6º e a proteção específica destinada no ordenamento jurídico brasileiro para mulheres, crianças e adolescentes, idosos e grupos LGBTIs, porque estes contemplam mais diretamente o rol de direitos humanos, sabido que os direitos do trabalhador são protegidos na Constituição Federal e também em leis próprias como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e outras que regulam atividades específicas. 8.1 Direito à saúde Em 22 de julho de 1946 foram aprovados os estatutos da OMS, que viria a ser fundada em 07 de abril de 1948. A OMS é a agência da ONU especializada em saúde mundial. Nos seus estatutos, de 1946, constam alguns princípios que os Estados membros da ONU, entre eles o Brasil, se comprometem a cumprir. São eles: 115 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade. Gozar do melhor estado de saúde que é possível atingir constitui um dos direitos fundamentais de todo o ser humano, sem distinção de raça, de religião, de credo político, de condição econômica ou social. A saúde de todos os povos é essencial para conseguir a paz e a segurança e depende da mais estreita cooperação dos indivíduos e dos Estados. Os resultados conseguidos por cada Estado na promoção e proteção da saúde são de valor para todos. O desigual desenvolvimento em diferentes países no que respeita à promoção de saúde e combate às doenças, especialmente contagiosas, constitui um perigo comum. O desenvolvimento saudável da criança é de importância basilar; a aptidão para viver harmoniosamente num meio variável é essencial a tal desenvolvimento. A extensão a todos os povos dos benefícios dos conhecimentos médicos, psicológicos e afins é essencial para atingir o mais elevado grau de saúde. Uma opinião pública esclarecida e uma cooperação ativa da parte do público são de uma importância capital para o melhoramento da saúde dos povos. Os Governos têm responsabilidade pela saúde dos seus povos, a qual só pode ser assumida pelo estabelecimento de medidas sanitárias e sociais adequadas. Aceitando estes princípios com o fim de cooperar entre si e com os outros para promover e proteger a saúde de todos os povos, as partes contratantes concordam com a presente Constituição e estabelecem a Organização Mundial da Saúde como um organismo especializado, nos termos do artigo 57 da Cartadas Nações Unidas (BRASIL, 1988). Na atualidade, o conceito de saúde adotado pela Organização Mundial de Saúde tem sido bastante criticado pelos estudiosos do tema, dado à impossibilidade de uma pessoa conseguir se sentir em completo estado de bem-estar físico, mental e social. De fato, existem inúmeros fatores em nosso cotidiano que impedem de nos sentirmos em completo bem-estar físico, mental e social, por vezes fatores relacionados às nossas tarefas corriqueiras de trabalho, estudo, deslocamento nas grandes cidades ou em lugares mais afastados, convivência familiar e social, entre outros que nos impedem e impedirão sempre o completo bem-estar. Porém, há que se salientar na definição adotada pela OMS o sentido ampliado de saúde, que é válido e deve ser respeitado: saúde não é só a falta de doença, é muito mais que isso! É o acesso a tudo que o homem 116 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II precisa para ter condições de bem-estar, seja pela prevenção de doenças, seja pela cura depois que ela se instala. E isso se refere a doenças físicas e psicológicas. O artigo 194 da Constituição Federal determina que a seguridade social, no Brasil, compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos poderes públicos e da sociedade que são destinadas a assegurar os direitos de saúde, previdência e assistência social. A seguridade social se estrutura com base em vários princípios, dos quais destacamos a universalidade de cobertura e do atendimento, o que garante a todos, no Brasil, que sejam atendidos em razão de qualquer tipo de prevenção ou tratamento de doença que necessitarem. No artigo 196, a Constituição Federal brasileira determina a forma como o direito à saúde será efetivado: Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (BRASIL, 1988). Vários aspectos devem ser destacados nesse artigo, principalmente: • A saúde é direito de todos, ou seja, não há nenhuma exigência de contrapartida como, por exemplo, recolhimento de tributos ou taxas específicas que se destinem ao custeio da saúde. Independentemente de pagar ou não tributos, todos os cidadãos brasileiros e os estrangeiros residentes no País, assim como aqueles que aqui se encontrem de passagem, a trabalho ou a turismo, têm direito de ser atendidos por unidades de saúde pública em todo o País, não importando quem seja o responsável pelo custeio delas. • A saúde será prestada por meio de políticas sociais e econômicas, ou seja, todos os governantes do País, sejam do município, do estado federativo ou da União, deverão efetivar esforços no sentido de efetivar políticas públicas de saúde para toda a população, crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, sem nenhuma discriminação. • Acesso universal e igualitário significa que toda a população tem direito a todos os tratamentos e formas de prevenção que forem prestadas, em igualdade de condições, sem prioridade de uns sobre os outros e em todas as fases, seja na promoção, proteção ou na recuperação após a doença haver se instalado. Nem todos os países do mundo possuem essa amplitude no serviço público de saúde. Alguns países, aliás, são bem restritivos e só prestam serviços de saúde a quem comprovar que tenha contribuído previamente mediante pagamento de taxas e impostos específicos para ter direito aos serviços de saúde. Para um país com mais de duzentos milhões de habitantes e com dimensões muito grandes como o Brasil, garantir direito à saúde para todos, com acesso universal, atendimento integral e igualitário, é um compromisso social da mais alta relevância e que deve ser defendido pela sociedade brasileira, em especial, com o uso racional e diligente para que sejam evitados os desperdícios. 117 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS A Constituição Federal delineou as bases do Sistema Único de Saúde (SUS) no artigo 198, que determina: Art. 198. As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único, organizado de acordo com as seguintes diretrizes: I – descentralização, com direção única em cada esfera de governo; II – atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais; III – participação da comunidade. § 1º O sistema único de saúde será financiado, nos termos do art. 195, com recursos do orçamento da seguridade social, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, além de outras fontes (BRASIL, 1988). O SUS é regulado pela Lei nº 8.080, de 1990, que dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes à saúde. Em seu título I, que contém as Disposições Gerais, a Lei nº 8.080, de 1990, contém algumas definições relevantes para nosso estudo. Lei atentamente: TÍTULO I DAS DISPOSIÇÕES GERAIS Art. 2º A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício. § 1º O dever do Estado de garantir a saúde consiste na formulação e execução de políticas econômicas e sociais que visem à redução de riscos de doenças e de outros agravos e no estabelecimento de condições que assegurem acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para a sua promoção, proteção e recuperação. § 2º O dever do Estado não exclui o das pessoas, da família, das empresas e da sociedade. Art. 3º A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do País. 118 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II Parágrafo único. Dizem respeito também à saúde as ações que, por força do disposto no artigo anterior, se destinam a garantir às pessoas e à coletividade condições de bem-estar físico, mental e social (BRASIL, 1990d). Observe que o dever do Estado em prover saúde não exclui o das pessoas, das famílias, das empresas e da sociedade. Qual o sentido dessa afirmação contida no parágrafo 2º do artigo 1º? Considerando que saúde tem aquela definição ampla adotada pela OMS e considerando o que está disposto no artigo 3º da Lei 8.080, de 1990, é possível interpretar o parágrafo 2º do artigo 1º como sendo uma determinação para todos, inclusive para cada membro da população brasileira, que devem ser buscadas as opções de vida pessoal e de trabalho que garantam o maior bem-estar possível, ou, ainda, a maior distância possível dos fatores que possam levar alguém a ficar doente, seja do ponto de vista físico, seja do psicológico. Por isso, cada um de nós, as famílias, as empresas e todos os grupos sociais que se organizem na sociedade devem atuar para promover ações de saúde, cuidar da integridade física e psicológica e contribuir para os processos comprovados de cura com tudo o que esteja ao seu alcance. A determinação da lei funciona como um comando para que a saúde seja prioridade em todas as ações da sociedade brasileira, porque todos somos responsáveis pela integridade da saúde física e psicológica, seja na prevenção,seja no tratamento. E como isso acontece na prática? Por exemplo, as comunidades de qualquer faixa socioeconômica devem ser incentivadas a não descartar lixo em local no qual eles possam se constituir em perigo para a saúde da população. Todos somos responsáveis por desenvolver esforços para que as comunidades tenham um local adequado de descarte de lixo, mesmo quando o Estado não está presente por inércia ou impossibilidade momentânea de prover esses serviços. Toda a população tem dever de se vacinar e providenciar a vacinação das crianças para prevenir doenças. Se não existem meios de locomoção em uma determinada comunidade para que todos possam chegar aos postos de vacinação, é dever da comunidade procurar solucionar esse problema de forma a garantir que todos tenham acesso às vacinas. É muito comum pensarmos na vida em sociedade como sujeitos de direito, mas quando se trata de um bem fundamental como a saúde é preciso pensar que somos também sujeito de deveres, que temos que atuar como uma verdadeira comunidade, buscando realizar os melhores esforços para obter os melhores resultados. Claro que isso não afasta a responsabilidade do Estado, que deve ser o primeiro a organizar as ações de saúde tanto em caráter preventivo como de tratamento. Porém, o fato de o Estado possuir ampla responsabilidade por isso não afasta nossos deveres de cidadania, e esse aspecto da vida em sociedade tem sido pouco tratado pela mídia e pouco debatido pela própria sociedade. Somos cidadãos com direitos, é certo. A Constituição Federal nos mostra isso; porém, somos também detentores de deveres sociais, de iniciativas e esforços que devemos concretizar com o objetivo de tornar a vida em sociedade melhor, com mais justiça e solidariedade. 119 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Repare que a Lei 8.142, de 28 de dezembro de 1990, também regula a atividade do SUS e o faz especificamente para dispor sobre a participação da comunidade em sua gestão e sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros na área da saúde. Art. 1° O Sistema Único de Saúde (SUS), de que trata a Lei n° 8.080, de 19 de setembro de 1990, contará, em cada esfera de governo, sem prejuízo das funções do Poder Legislativo, com as seguintes instâncias colegiadas: I – a Conferência de Saúde; e II – o Conselho de Saúde. § 1° A Conferência de Saúde reunir-se-á a cada quatro anos com a representação dos vários segmentos sociais, para avaliar a situação de saúde e propor as diretrizes para a formulação da política de saúde nos níveis correspondentes, convocada pelo Poder Executivo ou, extraordinariamente, por esta ou pelo Conselho de Saúde. § 2° O Conselho de Saúde, em caráter permanente e deliberativo, órgão colegiado composto por representantes do governo, prestadores de serviço, profissionais de saúde e usuários, atua na formulação de estratégias e no controle da execução da política de saúde na instância correspondente, inclusive nos aspectos econômicos e financeiros, cujas decisões serão homologadas pelo chefe do poder legalmente constituído em cada esfera do governo. § 3° O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e o Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems) terão representação no Conselho Nacional de Saúde. § 4° A representação dos usuários nos Conselhos de Saúde e Conferências será paritária em relação ao conjunto dos demais segmentos. § 5° As Conferências de Saúde e os Conselhos de Saúde terão sua organização e normas de funcionamento definidas em regimento próprio, aprovadas pelo respectivo conselho (BRASIL, 1990d). Repare que o Conselho de Saúde é um órgão colegiado composto de representantes do governo, prestadores de serviço, profissionais de saúde e usuários, ou seja, cidadãos como nós poderão ter assento lado a lado com o governo e os profissionais de saúde, para debater de forma livre e democrática a formulação de estratégias e o controle da execução da política de saúde. Em outras palavras, poderão contribuir para definir como será feito e fiscalizar se aquilo que foi planejado foi executado de forma satisfatória para toda a população. 120 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II A previsão de formação de conselhos em várias áreas dos direitos sociais, em especial saúde e educação, faz da Constituição Federal brasileira um exemplo de democracia, porque ela contempla a forma direta e indireta (por meio da escolha de governantes e representantes parlamentares) do exercício democrático. Isso não é pouca coisa! Ao contrário, é importante e faz aumentar a responsabilidade de cada cidadão brasileiro, que deve participar ativamente de todas as possibilidades criadas pela lei maior do País, de forma a contribuir efetivamente para que o país seja mais justo e solidário, como todos nós queremos. Assim, se temos direito social à saúde porque essa é uma modalidade de direitos humanos, temos também, e na mesma medida, a responsabilidade cidadã por participar de conselhos de saúde que estejam instalados em nosso município, para poder contribuir com ideias e esforços no sentido de garantir a efetividade das políticas públicas de saúde, em especial, para fiscalizar que os recursos públicos sejam utilizados de forma correta, sem ameaça de corrupção ou qualquer outro tipo de desvio ou fraude. 8.2 Direito à educação A educação é outro importante direito social contemplado pela Constituição Federal brasileira de 1988 no artigo 6º. Na Organização das Nações Unidas (ONU), a agência responsável pela educação é a Unesco. No Brasil o planejamento e as ações da área da educação estão a cargo do Ministério da Educação, que organiza todos os níveis de educação existentes no país, sempre a partir de leis que regulam os objetivos a serem alcançados, os recursos econômicos destinados e as avaliações que serão realizadas. A Constituição Federal regula a educação a partir do artigo 205, que estabelece: Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (BRASIL, 1988). A educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família, o que nos reporta, de imediato, às reflexões que fizemos anteriormente sobre a saúde: é preciso destacar que existem direitos e responsabilidades, ou deveres, que, no caso da educação, são diretamente imputados às famílias. Assim, é da família a responsabilidade por matricular as crianças na escola, garantir que sejam assíduas, que compareçam à escola portando o material necessário, que sejam acompanhadas em seu desenvolvimento cognitivo e, principalmente, que sejam incentivadas a respeitar seus professores e a escola como fatores essenciais para o progresso pessoal e de toda a sociedade. Na atualidade, infelizmente, nem sempre constatamos o envolvimento direto da família com a escola e com a aprendizagem dos filhos e, muitas vezes, também não identificamos que as crianças estejam sendo educadas para respeitar seus professores, seus colegas de escola e a própria escola como instituição essencial em suas vidas. Essa falha na atuação das famílias é bastante negativa e, sempre que possível, deve ser corrigida para que os valores da educação e do respeito aos profissionais dessa área sejam enaltecidos, resgatados e impulsionados. 121 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d ata 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS A sociedade também tem o dever constitucional de colaborar com a educação no Brasil. É papel de toda a população contribuir, na medida de suas possibilidades, para que a educação seja fortalecida na sociedade, em especial nas comunidades economicamente mais carentes, nas quais a atuação de grupos sociais organizados, como associações e organizações não governamentais, pode ser fundamental para a melhoria da qualidade de ensino, com a organização de atividades educativas, doação de livros e brinquedos pedagógicos, organização de bibliotecas, atividades esportivas e culturais, entre outros projetos possíveis. Mais à frente, no artigo 206 e seguintes, a Constituição Federal volta a tratar da educação, agora com mais especificidade. Determina o artigo 206 que: Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; IV – gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; V – valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos das redes públicas; VI – gestão democrática do ensino público, na forma da lei; VII – garantia de padrão de qualidade; VIII – piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública, nos termos de lei federal (BRASIL, 1988). O que orienta o processo educativo é a ampla liberdade para acolher o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, sempre orientado pela responsabilidade dos organizadores do processo educativo, diretores, professores e família, para que os melhores resultados sejam obtidos. Educação é sinônimo de liberdade e liberdade só pode ser exercida com responsabilidade para que os objetivos sejam alcançados. Assim, os conteúdos abordados nas escolas, as pesquisas propostas, a vivência junto à comunidade, tudo deve ser liderado pela liberdade de escolhas e de abordagens didático-pedagógicas, sempre ressalvada a premissa anterior, ou seja, não existe liberdade que possa ser praticada sem responsabilidade. A Constituição Federal brasileira exige que os profissionais da educação sejam valorizados, em especial com a adoção de planos de carreira que lhes permitam progredir intelectualmente e, ao mesmo tempo, possuir tranquilidade econômica para sua manutenção. Infelizmente, como todos sabemos, a carreira de professor na área pública ainda é pouco valorizada no Brasil, com ganhos modestos se levarmos 122 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II em conta a importância do trabalho que desenvolvem. É certo, no entanto, que vários esforços foram feitos nos últimos anos para a mudança dessa situação e, certamente, a tendência é que as condições da carreira docente na área pública sejam aprimoradas. O artigo 206 tem, ainda, uma determinação muito importante: a gestão democrática do ensino público. E como essa gestão democrática se materializa? Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que é a Lei nº 9.394 de 1996, “os sistemas de ensino definirão as normas de gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios”: I – participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola; II – participação das comunidades escolares e local em conselhos escolares ou equivalentes (BRASIL, 1996). Assim, a sociedade deve atuar por meio de conselhos escolares ou entidades assemelhadas, por meio das quais se possa construir diálogo e soluções conjuntas a serem aplicadas à educação básica, em conformidade com as peculiaridades de cada comunidade. A organização não governamental Todos pela Educação mantém em sua página na rede mundial de computadores esclarecimentos muito importantes sobre os conselhos municipais de educação. Leia com atenção o trecho a seguir: Os conselhos municipais de Educação estão presentes em 86% das cidades brasileiras. Com funções diversificadas, eles ajudam a estabelecer um maior controle da gestão municipal de ensino e, se bem conduzidos, podem ser um importante pilar de uma gestão democrática, com a participação da sociedade civil nas decisões políticas relacionadas à Educação. Quais são as principais funções de um conselho municipal de Educação? Os conselhos funcionam como mediadores e articuladores da relação entre a sociedade e os gestores da Educação municipal. Destacam-se [as seguintes] funções do órgão: - Normatizar: elaborar as regras que adaptam para o município as determinações das leis federais e/ou estaduais e que as complementem, quando necessário. - Deliberar: autorizar ou não o funcionamento das escolas públicas municipais e da rede privada de ensino. Legalizar cursos e deliberar sobre o currículo da rede municipal de ensino. 123 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS - Assessorar: responder aos questionamentos e dúvidas do poder público e da sociedade. As respostas do órgão são consolidadas por meio de pareceres. - Fiscalizar: acompanhar a execução das políticas públicas e monitorar os resultados educacionais do sistema municipal. Como se dá a criação de um conselho? O Conselho Municipal de Educação (CME) é instituído por meio de lei municipal. Portanto, nas cidades onde ele ainda não existe, é preciso apresentar à câmara um projeto de lei. Após a tramitação, o projeto será submetido à aprovação em plenário e entra em vigor após a sanção do prefeito. O passo seguinte é nomear os conselheiros, que serão definidos por eleição ou indicação, conforme a lei aprovada. A primeira atribuição dos conselheiros é elaborar um plano de atividades. O conselho também deve contar com infraestrutura que possibilite as reuniões periódicas, materiais e equipamentos. Para que possa iniciar suas atividades, o conselho deve recrutar e capacitar uma equipe administrativa, com apoio da secretaria municipal de Educação. Quem faz parte do conselho? Devem compor o conselho representantes do governo, da comunidade escolar e da sociedade civil em geral. O órgão deve contar com membros da secretaria municipal de Educação; docentes; diretores e funcionários das redes de ensino do município. Há a possibilidade também da participação de entidades religiosas, organizações não governamentais, fundações e instituições de capital privado. Todos os municípios são obrigados a ter um conselho próprio? Não existe legislação no Brasil que obrigue uma cidade a ter um conselho municipal de Educação. A criação de um CME deve resultar da vontade da sociedade e do poder executivo. Debater com a comunidade e as lideranças do município as razões e o perfil do CME que será criado (ou reestruturado), definindo sua composição, funções, atribuições e estrutura é a forma mais indicada para mobilizar a sociedade pela educação. Os Conselhos estão previstos em lei? Sim. A existência do conselho municipal de Educação como instituição encontra respaldo na Constituição Federal de 1988, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) nº 9394/96 e no Plano Nacional de Educação (PNE), como estratégia da Meta 19: 124 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d ata 28 /0 1/ 20 19 Unidade II “19.5) estimular a constituição e o fortalecimento de conselhos escolares e conselhos municipais de educação, como instrumentos de participação e fiscalização na gestão escolar e educacional, inclusive por meio de programas de formação de conselheiros, assegurando-se condições de funcionamento autônomo;” O que acontece com as cidades que não têm conselho? As cidades que não têm conselho dependem do conselho estadual de Educação do Estado onde se localizam. Normalmente, a sede do órgão estadual é na capital. Quantos municípios no Brasil têm um conselho municipal de Educação? Atualmente, 4.771 cidades brasileiras contam com o órgão e 799 municípios – 14% do total – não apresentam a entidade em seu sistema de ensino, segundo dados extraídos por relatório do sistema informatizado do Plano de Ações Articuladas (PAR). Onde o município pode encontrar mais informações para criar seu conselho? O Ministério da Educação mantém o Programa Nacional de Capacitação de Conselheiros Municipais de Educação (Pró-Conselho), com objetivo de qualificar gestores e técnicos das secretarias municipais de educação e representantes da sociedade civil para que atuem em relação à ação pedagógica escolar, à legislação e aos mecanismos de financiamento, repasse e controle do uso das verbas da educação. A União dos Conselhos Municipais de Educação (UNCME) também mantém uma página onde há o passo a passo para a criação de um conselho municipal (ENTENDA COMO SÃO CONSTITUÍDOS..., [s.d.]). Repare que os conselhos são compostos de profissionais e por pessoas comuns da sociedade, além de entidades sociais e organizações não governamentais (ONGs) e associações, inclusive de caráter religioso. Isso certamente garante aos conselhos pluralidade de ideias, de olhares, o que é altamente positivo para a educação. Outro aspecto importante do texto reproduzido é que cabe aos conselhos fiscalizar, ou seja, acompanhar a execução das políticas públicas e monitorar os resultados educacionais do sistema municipal. Os conselhos municipais de educação podem, portanto, verificar como o município está empregando os recursos financeiros na educação, compreender as diversas metodologias pedagógicas que estão sendo utilizadas pelos professores, avaliar as medidas adotadas para conter a indisciplina dos alunos e, principalmente, atuar para impedir que sejam desviados recursos destinados a material didático e à merenda escolar. 125 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS A participação da sociedade é o melhor caminho para impedir as práticas de corrupção nos governos, em especial no governo municipal, que é aquele mais próximo de cada um de nós. Saiba mais Conheça a história da Amarribo, uma associação civil sem fins lucrativos que teve início em 1999 em uma reunião de amigos que se conheciam desde criança, todos nascidos em Ribeirão Bonito, uma pequena cidade do interior do Estado de São Paulo, e que resolveram se organizar e arregimentar mais pessoas para lutar contra a corrupção naquele município. Além de construírem uma linda história de participação popular eficiente e responsável, eles escreveram até uma cartilha. Com o passar do tempo outras associações surgiram inspiradas pelo sucesso da Amarribo e, por isso eles criaram a Rede Amarribo. A história desse grupo deve servir de inspiração para todos aqueles que desejam uma sociedade melhor. Visite o portal da AMARRIBO, leia o material didático que eles produziram e se deixe inspirar para participar ativamente da sociedade como um cidadão ativo. <https://amarribo.org.br/a-amarribo/>. Ainda sobre educação, a Constituição Federal brasileira, no artigo 208, determina que é dever do Estado propiciar educação básica obrigatória e gratuita dos 04 aos 17 anos; progressiva universalização do ensino médio gratuito; atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino; educação infantil, em creche e pré-escola; acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um; oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando e atendimento ao educando, em todas as etapas da educação básica, por meio de programas suplementares de material didático escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde (BRASIL,1988). Por fim, cumpre destacar que a Constituição Federa brasileira determina no parágrafo 1º do artigo 208 que o acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo. Isso significa que os pais ou responsáveis por uma criança que está fora da escola por falta de vagas, por exemplo, poderão exigir esse direito perante o Poder Judiciário, por meio de uma ação judicial da qual vão requerer que o poder público municipal ou estadual consiga uma vaga na escola mais perto da residência da criança. Nem todos os direitos constitucionais podem ser exigidos dessa forma. Muitas vezes, as pessoas estão privadas de acesso a direitos que lhe são constitucionalmente garantidos, porém, nada podem fazer a não ser esperar que eles sejam efetivados quando o poder público disponibilizar recursos para isso. Mas, com a educação obrigatória, que é a do Ensino Fundamental, isso não acontece. 126 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II A própria Constituição Federal permite que a criança, representada por seus pais ou responsáveis, compareça perante o Estado, neste caso simbolizado pelo Poder Judiciário, para exigir o cumprimento de seu direito, independentemente dos argumentos que o poder público possa utilizar para justificar a de falta de recursos financeiros para conseguir mais vagas em escolas públicas. Se o Poder Judiciário decidir de forma favorável à criança, e certamente o fará se estiverem preenchidas as condições legais (idade correta da criança e comprovada falta de vaga), o poder público executivo terá que obter a vaga e garantir que a criança tenha acesso à escola. A educação é, sem dúvida, um direito muito bem protegido na Constituição Federal brasileira e, por essa razão, deve ser concretizada com o esforço de todos: poder público e sociedade. 8.3 Direito à moradia O direito à moradia está expressamente garantido na Constituição Federal brasileira, no artigo 6º, como um direito social. A Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU também já havia previsto esse direito no artigo 25, que afirma: Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde, bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle (ONU, 1948). Figura 17 127 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Os problemas de acesso à moradia são muito graves no Brasil e em outros muitos países do mundo, em especial em áreas economicamente menos desenvolvidas, na América Latina e na África. A foto da Favela do Vidigal, na cidade do Rio de Janeiro, mostra que a realidade da situação de moradia é, de fato, muito complexa, porque existem muitas pessoas sem moradia adequada e outras tantas pessoas sem nenhum tipo de moradia. Outros documentos da ONU garantiram o direito à moradia como um dos direitos humanos fundamentais. Assim,temos: Pacto de Direitos Civis e Políticos Artigo 17, parágrafo 1º – Ninguém poderá ser objeto de ingerências arbitrárias ou ilegais em sua vida privada, em sua família, em seu domicílio ou em sua correspondência, nem de ofensas ilegais à sua honra e reputação. Pacto Internacional de Direitos Econômicos Sociais e Culturais Artigo 11, parágrafo 1º – Os Estados partes no presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa a um nível de vida adequado para si próprio e para sua família, inclusive à alimentação, vestimenta e moradia adequadas, assim como uma melhoria contínua de suas condições de vida. Os Estados partes tomarão medidas apropriadas para assegurar a consecução desse direito, reconhecendo, nesse sentido, a importância essencial da cooperação internacional fundada no livre consentimento. Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial Artigo 5º, letra “e”, item III – De conformidade com as obrigações fundamentais enunciadas no artigo 2º, os Estados partes comprometem-se a proibir e a eliminar a discriminação racial em todas suas formas e a garantir o direito de cada um à igualdade perante a lei sem distinção de raça, de cor ou de origem nacional ou étnica, principalmente no gozo dos seguintes direitos: [...] direitos econômicos, sociais e culturais, principalmente: [...] III) direito à habitação. Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher Artigo 14, 2 – Os Estados partes adotarão todas as medidas apropriadas para eliminar a discriminação contra a mulher nas zonas rurais a fim de 128 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II assegurar, em condições de igualdades entre homens e mulheres, que elas participem no desenvolvimento rural e dele se beneficiem, e em particular assegurar-lhes-ão o direito a: [...] h) gozar de condições de vida adequadas, particularmente nas esferas da habitação, dos serviços sanitários, da eletricidade e do abastecimento de água, do transporte e das comunicações. Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança Artigo 16, 1 – Nenhuma criança será objeto de interferências arbitrárias ou ilegais em sua vida particular, sua família, seu domicílio ou sua correspondência, nem de atentados ilegais a sua honra e a sua reputação. Artigo 27, 3 – Os Estados partes, de acordo com as condições nacionais e dentro de suas possibilidades, adotarão medidas apropriadas a fim de ajudar os pais e outras pessoas responsáveis pela criança a tornar efetivo esse direito e, caso necessário, proporcionarão assistência material e programas de apoio, especialmente no que diz respeito à nutrição, ao vestuário e à habitação (BRASIL, 1992). Segundo os estudos sobre moradia adequada desenvolvidos pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP), o direito de moradia não se concretiza apenas com a disponibilidade de um teto e de quatro paredes para que as pessoas, em especial as famílias, se abriguem naquele espaço. Isso não concretiza inteiramente o direito à moradia. O que efetivamente o concretiza é uma moradia digna ou moradia adequada. E qual o conceito que a FAU utiliza para moradia adequada? Leia com atenção: MAIS QUE UM TETO E QUATRO PAREDES O direito à moradia integra o direito a um padrão de vida adequado. Não se resume a apenas um teto e quatro paredes, mas ao direito de toda pessoa ter acesso a um lar e a uma comunidade seguros para viver em paz, dignidade e saúde física e mental. A moradia adequada deve incluir: Segurança da posse: todas as pessoas têm o direito de morar sem o medo de sofrer remoção, ameaças indevidas ou inesperadas. As formas de se garantir essa segurança da posse são diversas e variam de acordo com o sistema jurídico e a cultura de cada país, região, cidade ou povo. 129 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Disponibilidade de serviços, infraestrutura e equipamentos públicos: a moradia deve ser conectada às redes de água, saneamento básico, gás e energia elétrica; em suas proximidades deve haver escolas, creches, postos de saúde, áreas de esporte e lazer e devem estar disponíveis serviços de transporte público, limpeza, coleta de lixo, entre outros. Custo acessível: o custo para a aquisição ou aluguel da moradia deve ser acessível, de modo que não comprometa o orçamento familiar e permita também o atendimento de outros direitos humanos, como o direito à alimentação, ao lazer etc. Da mesma forma, gastos com a manutenção da casa, como as despesas com luz, água e gás, também não podem ser muito onerosos. Habitabilidade: a moradia adequada tem que apresentar boas condições de proteção contra frio, calor, chuva, vento, umidade e, também, contra ameaças de incêndio, desmoronamento, inundação e qualquer outro fator que ponha em risco a saúde e a vida das pessoas. Além disso, o tamanho da moradia e a quantidade de cômodos (quartos e banheiros, principalmente) devem ser condizentes com o número de moradores. Espaços adequados para lavar roupas, armazenar e cozinhar alimentos também são importantes. Não discriminação e priorização de grupos vulneráveis: a moradia adequada deve ser acessível a grupos vulneráveis da sociedade, como idosos, mulheres, crianças, pessoas com deficiência, pessoas com HIV, vítimas de desastres naturais etc. As leis e políticas habitacionais devem priorizar o atendimento a esses grupos e levar em consideração suas necessidades especiais. Além disso, para realizar o direito à moradia adequada é fundamental que o direito a não discriminação seja garantido e respeitado. Localização adequada: para ser adequada, a moradia deve estar em local que ofereça oportunidades de desenvolvimento econômico, cultural e social. Ou seja, nas proximidades do local da moradia deve haver oferta de empregos e fontes de renda, meios de sobrevivência, rede de transporte público, supermercados, farmácias, correios e outras fontes de abastecimento básicas. A localização da moradia também deve permitir o acesso a bens ambientais, como terra e água, e a um meio ambiente equilibrado. Adequação cultural: a forma de construir a moradia e os materiais utilizados na construção devem expressar tanto a identidade quanto a diversidade cultural dos moradores e moradoras. Reformas e modernizações devem também respeitar as dimensões culturais da habitação (CAZALIS, [s.d.]). Essa reflexão é muito importante. No passado recente, muitos administradores públicos imaginaram que poderiam resolver o problema de moradia das camadas de baixa renda da população construindo grandes conjuntos habitacionais, com casas rigorosamente iguais, em pontos afastados do centro das 130 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II cidades. Com isso, segregaram a população economicamente mais pobre e dificultaram imensamente sua qualidade de vida, porque nesses locais não existia infraestrutura necessária como transporte coletivo, escolas, creches, postos de saúde, unidades de pronto-atendimento, segurança, iluminação de rua, água e, às vezes, até luz elétrica nas casas. Isso fez com que as pessoas não conseguissem morar naqueles lugares e voltassem para o centro das cidades ou pelo menos mais perto dos bairros, com atividades econômicas que propiciassem emprego ou atividade de economia informal, e até fossem morar em situação precária, construindo barracos e favelas. Assim, as políticas públicas de habitaçãodevem levar em conta inúmeros fatores que são imprescindíveis para a garantia da moradia digna ou adequada e não podem isolar pessoas em locais de difícil acesso, sem infraestrutura e que não são adequados para viver. Lembrete Pesquise quais são as políticas públicas para concretização de direito à moradia em sua cidade, região e estado. Sempre é bom conhecer o que o poder público tem feito nesse sentido, em especial em relação à construção de conjuntos habitacionais, fornecimento de financiamento para aquisição da casa própria, pagamento de aluguel social para população situada em área de risco, entre outras medidas de políticas públicas custeadas pelos tributos pagos por todos nós. 8.4 Proteção às mulheres Em 2010, a Organização das Nações Unidas criou a ONU Mulheres – Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres. Essa nova entidade atua, preferencialmente, em cinco grandes áreas: • aumentar a liderança e a participação das mulheres; • eliminar a violência contra as mulheres e meninas; • engajar as mulheres em todos os aspectos dos processos de paz e segurança; • aprimorar o empoderamento econômico das mulheres; • colocar a igualdade de gênero no centro do planejamento e dos orçamentos de desenvolvimento nacional. A Constituição Federal brasileira estabelece no artigo 226, parágrafo 8º, que: 131 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. [...] § 8º O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações (BRASIL, 1988). Em 7 de agosto de 2006, o Brasil aprovou a Lei nº 11.340, que, em suas disposições preliminares, fixa: Art. 1º Esta Lei cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8º do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher e de outros tratados internacionais ratificados pela República Federativa do Brasil; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; e estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar. Art. 2º Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social. Art. 3º Serão asseguradas às mulheres as condições para o exercício efetivo dos direitos à vida, à segurança, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, à moradia, ao acesso à justiça, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. § 1º O poder público desenvolverá políticas que visem garantir os direitos humanos das mulheres no âmbito das relações domésticas e familiares no sentido de resguardá-las de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. § 2º Cabe à família, à sociedade e ao poder público criar as condições necessárias para o efetivo exercício dos direitos enunciados no caput. Essa lei é a famosa Lei Maria da Penha. É uma história muito triste que, no entanto, infelizmente, ainda se repete no Brasil. Segundo dados do Ministério de Direitos Humanos, publicados pela Agência Brasil de Notícias, em 07 de agosto de 2018, a violência contra a mulher continua sendo uma grande preocupação em nosso país. 132 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II Leia com atenção a reportagem (BRITO, 2018) transcrita a seguir: Segundo o Ministério dos Direitos Humanos (MDH), que administra a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, o Ligue 180, foram registradas no primeiro semestre deste ano quase 73 mil denúncias. O resultado é bem maior do que o registrado (12 mil) em 2006, primeiro ano de funcionamento da Central. As principais agressões denunciadas são cárcere privado, violência física, psicológica, obstétrica, sexual, moral, patrimonial, tráfico de pessoas, homicídio e assédio no esporte. As denúncias também podem ser registradas pessoalmente nas delegacias especializadas em crime contra a mulher. A partir da sanção da Lei Maria da Penha, o Código Penal passou a prever estes tipos de agressão como crimes, que geralmente antecedem agressões fatais. O código também estabelece que os agressores sejam presos em flagrante ou tenham prisão preventiva decretada se ameaçarem a integridade física da mulher. Pela primeira vez, a lei também permitiu que a justiça adote medidas de proteção para mulheres que são ameaçadas e correm risco de morte. Entre as medidas protetivas está o afastamento do agressor da casa da vítima ou a proibição de se aproximar da mulher agredida e de seus filhos. Além de crime, a OMS ainda considera a violência contra a mulher um grave problema de saúde pública, que atinge mulheres de todas as classes sociais. A lei leva o nome de Maria da Penha Maia, que ficou paraplégica depois de levar um tiro de seu marido. Até o atentado, Maria da Penha foi agredida pelo cônjuge por seis anos. Ela ainda sobreviveu a tentativas de homicídio pelo agressor por afogamento e eletrocussão. Feminicídio Fruto da Lei Maria da Penha, o crime do feminicídio foi definido legalmente em 2015 como assassinato de mulheres por motivos de desigualdade de gênero e tipificado como crime hediondo. Segundo o Mapa da Violência, quase 5 mil mulheres foram assassinadas no país em 2016. O resultado representa uma taxa de 4,5 homicídios para cada 100 mil brasileiras. Em dez anos, houve um aumento de 6,4% nos casos de assassinatos de mulheres. Os dados evidenciam que há muito para ser feito no Brasil para concretização dos direitos das mulheres, apesar das leis já existentes, inclusive da previsão constitucional. A concretização desses direitos deverá ser feita por políticas públicas, não há dúvida, porém, é fundamental que as mulheres participem desse debate, estudem as leis de proteção e os dados 133 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS referentes à violência e se engajem, decididamente, em trabalhos comunitários que possam contribuir para conscientizar a sociedade que homens e mulheres são iguais em direitos e devem ser respeitados em sua dignidade para poderem viver uma vida de paz e de plena realização de suas potencialidades (BRITO, 2018). 8.5 Proteção à criança e ao adolescente O artigo 227 da Constituição Federal brasileira determina que: Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988). Em 13 de julho de 1990, o Brasil colocou em vigor a Lei nº 8.069, que ficou conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente, ou,simplesmente, ECA. Nas Disposições Preliminares o ECA determina que: Art. 1º Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente. Art. 2º Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. Parágrafo único. Nos casos expressos em lei, aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade. Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. Parágrafo único. Os direitos enunciados nesta lei aplicam-se a todas as crianças e adolescentes, sem discriminação de nascimento, situação familiar, idade, sexo, raça, etnia ou cor, religião ou crença, deficiência, condição pessoal de desenvolvimento e aprendizagem, condição econômica, ambiente social, região e local de moradia ou outra condição que diferencie as pessoas, as famílias ou a comunidade em que vivem. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos 134 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende: a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias; b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública; c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas; d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude. Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais. Art. 6º Na interpretação desta lei levar-se-ão em conta os fins sociais a que ela se dirige, as exigências do bem comum, os direitos e deveres individuais e coletivos, e a condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento. Observe que criança e adolescente possuem conceitos diferentes, mas, no entanto, devem gozar de todos os direitos pertinentes à concretização da dignidade da pessoa humana, sem nenhuma discriminação de nascimento, situação familiar, idade, sexo, raça, etnia ou cor, religião ou crença, deficiência, condição pessoal, condição econômica, região ou local de moradia, ou qualquer outra forma que possa ser utilizada para discriminar. Todas as formas de discriminação estão proibidas. Também é relevante observar que o dever do Estado de cuidar e proteger a criança e o adolescente não afasta o dever da família nem o da própria sociedade, independentemente de laços de parentesco. A sociedade é responsável por todas as crianças e adolescentes, e não apenas por aqueles que pertencem à sua família. Em que consiste essa responsabilidade da sociedade? Basicamente em duas ações: não prejudicar e não permitir que prejudiquem, por qualquer meio ou forma de atuação, as crianças e adolescentes que se encontram em seu círculo social, ou seja, em sua rua, no bairro, no condomínio, em qualquer local ou situação em que seja possível constatar que esteja ocorrendo alguma forma de agressão ou de omissão em relação a crianças e adolescentes. 8.6 Proteção às pessoas com deficiência A proteção da pessoa com deficiência foi tratada no Brasil, primeiramente, pela Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988), que em vários artigos faz expressa referência à forma como a pessoa com deficiência será protegida. 135 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Assim, temos: Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: [...] XXXI – proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência; Breve comentário: há evidente propósito em proteger as pessoas portadoras com deficiência que tenham condições de trabalhar e, nesse caso, fica proibida a discriminação no tocante às oportunidades de emprego, bem como discriminação no valor de salários. Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: I – zelar pela guarda da Constituição, das leis e das instituições democráticas e conservar o patrimônio público; II – cuidar da saúde e assistência pública, da proteção e garantia das pessoas portadoras de deficiência; Breve comentário: os cuidados de saúde e assistência pública para proteção e garantia das pessoas portadoras de deficiência é competência concomitante da União, dos Estados federativos, do Distrito Federal e dos Municípios. Isso permite que a assistência seja prestada com maior amplitude e, em tese, seja mais eficiente. Art. 24 Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: XIV – proteção e integração social das pessoas portadoras de deficiência; Breve comentário: aqui também a proteção e integração social são de competência concorrente de todos os entes executivos, tanto federal, estadual como municipal. Art. 203. A assistência social será prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por objetivos: [...] IV – a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; 136 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II V – a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei. Breve comentário: o artigo prevê duas importantes medidas de promoção para a pessoa com deficiência: a primeira, que seja habilitada e reabilitada para viver em sociedade, com a independência possível e com capacidade de escolhas e autonomia. E, a segunda, que tenha uma garantia mínima de renda para sua subsistência nos casos em que isso não possa ser obtido pelo trabalho ou pelo auxílio da família. Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: [...] III – atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino; Breve comentário: atendimento educacional especializado é fundamental para garantir a autonomia e o desenvolvimento de potencialidades da pessoa com deficiência. Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. [...] I – criação de programas de prevenção e atendimento especializadopara as pessoas portadoras de deficiência física, sensorial ou mental, bem como de integração social do adolescente e do jovem portador de deficiência, mediante o treinamento para o trabalho e a convivência, e a facilitação do acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de obstáculos arquitetônicos e de todas as formas de discriminação. Breve comentário: os programas de prevenção e atendimento especializado para as pessoas com deficiência são o melhor caminho para integração social, porque incluem educação, formação para a vida no mundo do trabalho e também para usufruir dos programas de acesso a bens e serviços coletivos disponibilizados pelas três esferas de governo. 137 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS § 2º A lei disporá sobre normas de construção dos logradouros e dos edifícios de uso público e de fabricação de veículos de transporte coletivo, a fim de garantir acesso adequado às pessoas portadoras de deficiência. Breve comentário: acessibilidade tem que ser garantida por todos, governo e particulares, por isso é fundamental que a lei especifique como isso deverá ser feito, inclusive para que sejam garantidas condições técnicas necessárias para a garantia da acessibilidade. Em 13 de dezembro de 2006 a ONU aprovou a Convenção sobre Direitos das Pessoas com Deficiência, em reunião da Assembleia Geral. Os propósitos da Convenção foram definidos da seguinte forma: Artigo 1º - Propósito O propósito da presente Convenção é o de promover, proteger e assegurar o desfrute pleno e equitativo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais por parte de todas as pessoas com deficiência e promover o respeito pela sua inerente dignidade. Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de natureza física, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade com as demais pessoas (BRASIL, 2012). E, os princípios gerais da Convenção foram fixados com a seguinte redação: Artigo 3º – Princípios Gerais A presente Convenção incorpora os seguintes princípios: a) O respeito pela dignidade inerente, independência da pessoa, inclusive a liberdade de fazer as próprias escolhas, e autonomia individual; b) A não discriminação; c) A plena e efetiva participação e inclusão na sociedade; d) O respeito pela diferença e pela aceitação das pessoas com deficiência como parte da diversidade humana e da humanidade; e) A igualdade de oportunidades; f) A acessibilidade; 138 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II g) A igualdade entre o homem e a mulher; e h) O respeito pelas capacidades em desenvolvimento de crianças com deficiência e respeito pelo seu direito a preservar sua identidade (BRASIL, 2012). Em 25 de agosto de 2009, por meio do Decreto nº 6.949, a República Federativa do Brasil promulgou a Convenção da ONU para pessoas com deficiência e, em 06 de julho de 2015, por meio da Lei nº 13.146, instituiu a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, que ficou conhecido como Estatuto da Pessoa com Deficiência. Em suas disposições gerais, o Estatuto determina o que está transcrito. Leia atentamente para ter conhecimento de tudo o que já está garantido pela legislação federal brasileira e que pode ser disponibilizado para as pessoas portadoras de deficiências. Assim, você poderá, como cidadão e como profissional, orientar pessoas que necessitem de alguma medida semelhante às que estão relacionadas e que a lei brasileira já garante. Leia atentamente: DISPOSIÇÕES GERAIS Art. 1º É instituída a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania. Parágrafo único. Esta lei tem como base a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, ratificados pelo Congresso Nacional por meio do Decreto Legislativo nº 186, de 9 de julho de 2008, em conformidade com o procedimento previsto no § 3º do art. 5º da Constituição da República Federativa do Brasil, em vigor para o Brasil, no plano jurídico externo, desde 31 de agosto de 2008, e promulgados pelo Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009, data de início de sua vigência no plano interno. Art. 2º Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. § 1º A avaliação da deficiência, quando necessária, será biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar e considerará: I – os impedimentos nas funções e nas estruturas do corpo; 139 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS II – os fatores socioambientais, psicológicos e pessoais; III – a limitação no desempenho de atividades; e IV – a restrição de participação. § 2º O Poder Executivo criará instrumentos para avaliação da deficiência. Art. 3º Para fins de aplicação desta lei, consideram-se: I – acessibilidade: possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida; II – desenho universal: concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou de projeto específico, incluindo os recursos de tecnologia assistiva; III – tecnologia assistiva ou ajuda técnica: produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivem promover a funcionalidade, relacionada à atividade e à participação da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, visando à sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social; IV – barreiras: qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que limite ou impeça a participação social da pessoa, bem como o gozo, a fruição e o exercício de seus direitos à acessibilidade, à liberdade de movimento e de expressão, à comunicação, ao acesso à informação, à compreensão, à circulação com segurança, entre outros, classificadas em: a) barreiras urbanísticas: as existentes nas vias e nos espaços públicos e privados abertos ao público ou de uso coletivo; b) barreiras arquitetônicas: as existentes nos edifícios públicos e privados; c) barreiras nos transportes: as existentes nos sistemas e meios de transportes; d) barreiras nas comunicações e na informação: qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que dificulte ou impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens e de informações por intermédio de sistemas de comunicação e de tecnologia da informação; 140 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II e) barreiras atitudinais: atitudesou comportamentos que impeçam ou prejudiquem a participação social da pessoa com deficiência em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas; f) barreiras tecnológicas: as que dificultam ou impedem o acesso da pessoa com deficiência às tecnologias; V – comunicação: forma de interação dos cidadãos que abrange, entre outras opções, as línguas, inclusive a Língua Brasileira de Sinais (Libras), a visualização de textos, o braille, o sistema de sinalização ou de comunicação tátil, os caracteres ampliados, os dispositivos multimídia, assim como a linguagem simples, escrita e oral, os sistemas auditivos e os meios de voz digitalizados e os modos, meios e formatos aumentativos e alternativos de comunicação, incluindo as tecnologias da informação e das comunicações; VI – adaptações razoáveis: adaptações, modificações e ajustes necessários e adequados que não acarretem ônus desproporcional e indevido, quando requeridos em cada caso, a fim de assegurar que a pessoa com deficiência possa gozar ou exercer, em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas, todos os direitos e liberdades fundamentais; VII – elemento de urbanização: quaisquer componentes de obras de urbanização, tais como os referentes a pavimentação, saneamento, encanamento para esgotos, distribuição de energia elétrica e de gás, iluminação pública, serviços de comunicação, abastecimento e distribuição de água, paisagismo e os que materializam as indicações do planejamento urbanístico; VIII – mobiliário urbano: conjunto de objetos existentes nas vias e nos espaços públicos, superpostos ou adicionados aos elementos de urbanização ou de edificação, de forma que sua modificação ou seu traslado não provoque alterações substanciais nesses elementos, tais como semáforos, postes de sinalização e similares, terminais e pontos de acesso coletivo às telecomunicações, fontes de água, lixeiras, toldos, marquises, bancos, quiosques e quaisquer outros de natureza análoga; IX – pessoa com mobilidade reduzida: aquela que tenha, por qualquer motivo, dificuldade de movimentação, permanente ou temporária, gerando redução efetiva da mobilidade, da flexibilidade, da coordenação motora ou da percepção, incluindo idoso, gestante, lactante, pessoa com criança de colo e obeso; X – residências inclusivas: unidades de oferta do Serviço de Acolhimento do Sistema Único de Assistência Social (Suas) localizadas em áreas residenciais 141 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS da comunidade, com estruturas adequadas, que possam contar com apoio psicossocial para o atendimento das necessidades da pessoa acolhida, destinadas a jovens e adultos com deficiência, em situação de dependência, que não dispõem de condições de autossustentabilidade e com vínculos familiares fragilizados ou rompidos; XI – moradia para a vida independente da pessoa com deficiência: moradia com estruturas adequadas capazes de proporcionar serviços de apoio coletivos e individualizados que respeitem e ampliem o grau de autonomia de jovens e adultos com deficiência; XII – atendente pessoal: pessoa, membro ou não da família, que, com ou sem remuneração, assiste ou presta cuidados básicos e essenciais à pessoa com deficiência no exercício de suas atividades diárias, excluídas as técnicas ou os procedimentos identificados com profissões legalmente estabelecidas; XIII – profissional de apoio escolar: pessoa que exerce atividades de alimentação, higiene e locomoção do estudante com deficiência e atua em todas as atividades escolares nas quais se fizer necessária, em todos os níveis e modalidades de ensino, em instituições públicas e privadas, excluídas as técnicas ou os procedimentos identificados com profissões legalmente estabelecidas; XIV – acompanhante: aquele que acompanha a pessoa com deficiência, podendo ou não desempenhar as funções de atendente pessoal (BRASIL, 2015). Além disso, a mesma lei ainda determina que toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades com as demais e não sofrerá nenhuma espécie de discriminação. Como podemos perceber, a legislação brasileira é muito boa e contempla inúmeras possibilidades de proteção e promoção das pessoas com deficiência. É preciso que a sociedade, no exercício da cidadania ativa, exija que as autoridades públicas coloquem em prática todas as previsões e garantias que a lei determina. E esse papel é muito necessário, porque, de acordo com a ONU: Segundo a OMS, com dados de 2011, 1 bilhão de pessoas vivem com alguma deficiência – isso significa uma em cada sete pessoas no mundo. A falta de estatísticas sobre pessoas com deficiência contribui para a invisibilidade dessas pessoas. Isso representa um obstáculo para planejar e implementar políticas de desenvolvimento que melhoram as vidas das pessoas com deficiência. 142 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II A ONU alerta ainda que 80% das pessoas que vivem com alguma deficiência residem nos países em desenvolvimento. No total, 150 milhões de crianças (com menos de 18 anos de idade) têm alguma deficiência, segundo o Unicef. Ter alguma deficiência aumenta o custo de vida em cerca de um terço da renda, em média. Completar a escola primária também é um desafio maior para as crianças com deficiência: enquanto 60% dessas crianças completam essa etapa dos estudos nos países desenvolvidos, apenas 45% (meninos) e 32% (meninas) completam o ensino primário nos países em desenvolvimento. Além disso, mais de 50% das pessoas com deficiência não conseguem pagar por serviços de saúde (ONUBR, [s.d.]c). Apesar de os números oficiais serem de 2011, é possível pensar que não tenham se modificado de forma muito positiva nesses anos, porque não somos testemunhas de muitos esforços em prol de pessoas com deficiência em nossas cidades, estados federativos nem no País. Isso serve de alerta para que atuemos como cidadãos e, em nossas categorias profissionais, para exigir das autoridades que destinem recursos para o cumprimento das leis existentes no Brasil, que são boas e só precisam ser efetivadas para que a qualidade de vida dos portadores de deficiência seja garantida e sua dignidade humana respeitada. 8.7 Proteção ao idoso O Brasil vive, na atualidade, intenso processo de transição demográfica com notório aumento da população de idosos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): A população brasileira manteve a tendência de envelhecimento dos últimos anos e ganhou 4,8 milhões de idosos desde 2012, superando a marca dos 30,2 milhões em 2017, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Características dos Moradores e Domicílios, divulgada hoje pelo IBGE. Em 2012, a população com 60 anos ou mais era de 25,4 milhões. Os 4,8 milhões de novos idosos em cinco anos correspondem a um crescimento de 18% desse grupo etário, que tem se tornado cada vez mais representativo no Brasil. As mulheres são maioria expressiva nesse grupo, com 16,9 milhões (56% dos idosos), enquanto os homens idosos são 13,3 milhões (44% do grupo). “Não só no Brasil, mas no mundo todo vem se observando essa tendência de envelhecimento da população nos últimos anos. Ela decorre tanto do aumento da expectativa de vida pela melhoria nas condições de saúde quanto pela questão da taxa de fecundidade, pois o número médio de filhos por mulher vem caindo. Esse é um fenômeno mundial, não só no 143 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X avie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Brasil. Aqui demorou até mais que no resto do mundo para acontecer”, explica a gerente da PNAD Contínua, Maria Lúcia Vieira. Entre 2012 e 2017, a quantidade de idosos cresceu em todas as unidades da federação, sendo os estados com maior proporção de idosos o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul, ambas com 18,6% de suas populações dentro do grupo de 60 anos ou mais. O Amapá, por sua vez, é o estado com menor percentual de idosos, com apenas 7,2% da população (PARADELLA, 2018). A pirâmide demográfica brasileira tem a seguinte perspectiva: Figura 18 A tendência no crescimento da população idosa motiva inúmeras pesquisas e reflexões por parte dos estudiosos do tema, mas é preciso reconhecer que as principais medidas adotadas são simples e, a rigor, já estão previstas na própria Constituição Federal, lei maior do País, como podemos constatar a seguir: 144 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II Art. 203. A assistência social será prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por objetivos: I – a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; [...] V – a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei. Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida. § 1º Os programas de amparo aos idosos serão executados preferencialmente em seus lares (BRASIL, 1988). Além disso, em 1º de outubro de 2003, o Brasil aprovou a Lei n° 10.741, que ficou muito conhecida como Estatuto do Idoso. Nas “Disposições Preliminares” dessa lei, encontramos: Art. 1º É instituído o Estatuto do Idoso, destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. Art. 2º O idoso goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta lei, assegurando-se-lhe, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade. Art. 3º É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. § 1º A garantia de prioridade compreende: I – atendimento preferencial imediato e individualizado junto aos órgãos públicos e privados prestadores de serviços à população; II – preferência na formulação e na execução de políticas sociais públicas específicas; 145 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS III – destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção ao idoso; IV – viabilização de formas alternativas de participação, ocupação e convívio do idoso com as demais gerações; V – priorização do atendimento do idoso por sua própria família, em detrimento do atendimento asilar, exceto dos que não a possuam ou careçam de condições de manutenção da própria sobrevivência; VI – capacitação e reciclagem dos recursos humanos nas áreas de geriatria e gerontologia e na prestação de serviços aos idosos; VII – estabelecimento de mecanismos que favoreçam a divulgação de informações de caráter educativo sobre os aspectos biopsicossociais de envelhecimento; VIII – garantia de acesso à rede de serviços de saúde e de assistência social locais. IX – prioridade no recebimento da restituição do Imposto de Renda. § 2º Dentre os idosos, é assegurada prioridade especial aos maiores de oitenta anos, atendendo-se suas necessidades sempre preferencialmente em relação aos demais idosos. Art. 4º Nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão, e todo atentado aos seus direitos, por ação ou omissão, será punido na forma da lei. § 1o É dever de todos prevenir a ameaça ou violação aos direitos do idoso. § 2o As obrigações previstas nesta lei não excluem da prevenção outras decorrentes dos princípios por ela adotados. Art. 5º A inobservância das normas de prevenção importará em responsabilidade à pessoa física ou jurídica nos termos da lei. Art. 6º Todo cidadão tem o dever de comunicar à autoridade competente qualquer forma de violação a esta lei que tenha testemunhado ou de que tenha conhecimento. Art. 7º Os Conselhos Nacional, Estaduais, do Distrito Federal e Municipais do Idoso, previstos na Lei nº 8.842, de 4 de janeiro de 1994, zelarão pelo cumprimento dos direitos do idoso, definidos nesta lei (BRASIL, 2003). 146 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II Lida com atenção, as “Disposições Preliminares” do Estatuto do Idoso nos colocam diante de vários aspectos muito relevantes que devem ser garantidos aos idosos, não apenas pelo Estado, mas também pelos próprios cidadãos. Repare que os artigos 6º e 7º são claramente destinados para a atuação da cidadania ativa que, conforme temos delineado neste estudo, é aspecto fundamental para que o Estado Democrático de Direito se concretize na sociedade brasileira. O artigo 6º atribui a todos os cidadãos o dever de comunicar às autoridades públicas, federais, estaduais ou municipais todo tipo de violação ao Estatuto do Idoso do qual tenha sido testemunha. Essas denúncias podem ser feitas por meio seguro como o Disque-Denúncia, disponível em muitos estados federativos no Brasil e que permite que o denunciante não seja identificado, mantendo o sigilo como forma de proteção. O artigo 7º faz referência aos conselhos federais, estaduais e municipais que deverão ser criados para que, de forma plural, profissionais, cidadãos e agentes públicos se reúnam sistematicamente para debater os problemas e as soluções viáveis para a proteção do idoso. Em ambos os artigos há um convite ao exercício pleno da cidadania ativa, que depende da motivação de cada um de nós! Vamos aceitar esse convite? Nos artigos subsequentes, o Estatuto do Idoso garante direitos fundamentais para os idosos em todo o Brasil. Lei atentamente: Do Direito à Vida Art. 8º O envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito social, nos termos desta lei e da legislação vigente. Art. 9º É obrigação do Estado garantir à pessoa idosa a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de políticas sociais públicas que permitam um envelhecimento saudável e em condições de dignidade (BRASIL, 2003). Figura 19 147 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Em 16 de dezembro de 1991, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a Resolução 46, que de forma resumida, estabelece como direito dos idosos a serem protegidos por todos os países membros da entidade, inclusive o Brasil: Independência Ter acesso à alimentação, água, moradia, a vestuário, à saúde, terapoio familiar e comunitário. Ter oportunidade de trabalhar ou ter acesso a outras formas de geração de renda. Poder determinar em que momento deverá afastar-se do mercado de trabalho. Ter acesso à educação permanente e a programas de qualificação e requalificação profissional. Poder viver em ambientes seguros adaptáveis à sua preferência pessoal, que sejam passíveis de mudanças. Poder viver em sua casa pelo tempo que for viável. Participação Permanecer integrado à sociedade, participar ativamente na formulação e implementação de políticas que afetam diretamente seu bem-estar e transmitir aos mais jovens conhecimentos e habilidades. Aproveitar as oportunidades para prestar serviços à comunidade, trabalhando como voluntário, de acordo com seus interesses e capacidades. Poder formar movimentos ou associações de idosos. Assistência Beneficiar-se da assistência e proteção da família e da comunidade, de acordo com os valores culturais da sociedade. Ter aceso à assistência da saúde para manter ou adquirir o bem-estar físico, mental e emocional, prevenindo-se da incidência de doenças. Ter acesso a meios apropriados de atenção institucional que lhe proporcionem proteção, reabilitação, estimulação mental e desenvolvimento social, em um ambiente humano e seguro. 148 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II Ter acesso a serviços sociais e jurídicos que lhe assegurem melhores níveis de autonomia, proteção e assistência. Desfrutar os direitos e liberdades fundamentais, quando residente em instituições que lhe proporcionem os cuidados necessários, respeitando-se sua dignidade, crença e intimidade. Deve desfrutar ainda o direito de tomar decisões quanto à assistência prestada pela instituição e à qualidade de sua vida. Autorrealização Aproveitar as oportunidades para total desenvolvimento de suas potencialidades. Ter acesso aos recursos educacionais, culturais, espirituais e de lazer da sociedade. Dignidade Poder viver com dignidade e segurança, sem ser objeto de exploração e maus-tratos físicos e/ou mentais. Ser tratado com justiça, independentemente da idade, sexo, raça, etnia, deficiências, condições econômicas ou outros fatores (ONU, 1991). Repare que, com pequenas alterações, as diretrizes são as mesmas contempladas na Constituição Federal brasileira e no Estatuto do Idoso, o que demonstra que o Brasil está alinhado com a ONU na proteção e garantia do bem-estar e dignidade dos idosos. 8.8 Proteção aos LGBTIs A Constituição Federal brasileira determina no artigo 3º que: Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (BRASIL, 1988). 149 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS Assim, nenhuma pessoa pode ser discriminada em razão de sua orientação sexual. Orientação sexual, segundo a pesquisadora Leticia Lanz, pode ser definido como: Gênero, Expressão de – a manifestação do mundo exterior, da identidade de gênero assumida por uma pessoa. Traduz-se pelo conjunto de condutas, atitudes e performances social e culturalmente sancionados para o uso de cada uma das categorias oficiais de gênero, masculino e feminino [...]. Gênero, Identidade – o que uma pessoa sente que é; a categoria de gênero com a qual ela se identifica. Refere-se ao quanto uma pessoa se sente e se vê a si mesma como homem, mulher, as duas coisas ou nenhuma delas, ou seja, o quanto ela se identifica com os estereótipos de gênero em vigor na sociedade. Gênero, Papel(éis) de – refere-se às funções sociais, políticas e econômicas culturalmente atribuídas (reservadas) a cada um dos dois gêneros, masculino e feminino. [...] Orientação Sexual – desejo e/ou atração muito forte que leva o indivíduo a escolher sempre o(s) mesmo(s) tipo(s) específico(s) de pessoa(s) na hora de manter relações sexuais (LANZ, 2015, p. 412). A sigla LGBTI se refere a gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros e intersexuais. Lembrete As siglas que representam o movimento vão acrescendo novas opções de gênero que surgem. Fique atento para acompanhar futuras modificações que possam ser inseridas. A ONU, a respeito desse tema, explica que: É legal discriminar lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros ou intersexuais? Não. O direito à igualdade e não discriminação são princípios fundamentais dos direitos humanos, consagrados na Carta das Nações Unidas, na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos tratados internacionais de direitos humanos. As palavras da abertura da Declaração Universal dos Direitos Humanos são inequívocas: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. 150 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 Unidade II A garantia de igualdade e não discriminação oferecida pelo direito internacional dos direitos humanos se aplica a todas as pessoas, independentemente de sexo, orientação sexual e identidade de gênero ou “outra situação”. Não existem cláusulas escondidas em letras miúdas em qualquer um dos tratados de direitos humanos que permitem um Estado garantir os direitos para alguns, mas negá-los a outros com base na orientação sexual e identidade de gênero. Além disso, os organismos de tratados de direitos humanos da ONU confirmam, periodicamente, que é proibida – sob o direito internacional dos direitos humanos – a discriminação devido à orientação sexual ou à identidade de gênero. Isso significa que é ilegal fazer qualquer distinção nos direitos das pessoas com base no fato de que elas são gays, lésbicas, bissexuais ou transgêneros (LGBT), assim como é ilegal fazê-lo com base na cor da pele, raça, sexo, religião ou qualquer outra condição. Esta posição foi confirmada repetidamente nas decisões e orientações gerais emitidas por vários órgãos de tratados, como o Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas, o Comitê sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, o Comitê sobre os Direitos da Criança, o Comitê contra a Tortura e o Comitê para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher (O DIREITO INTERNACIONAL...[s.d.]). Figura 20 151 Re vi sã o: S he ila F ol gu er al - D ia gr am aç ão : I sm ae l X av ie r - d at a 28 /0 1/ 20 19 DIREITOS HUMANOS O Ministério Público Federal possui uma Cartilha sobre Igualdade de Direitos LGBTI que deve ser lida atentamente por todos nós, para a defesa dos direitos das pessoas com orientação LGBTI. A Cartilha define intersexualidade da seguinte forma: Há intersexualidade quando ocorre uma variação nas características genéticas e/ou somáticas da pessoa, fazendo com que sua anatomia reprodutiva e sexual não se ajuste às definições típicas do feminino ou do masculino. As pessoas intersexo podem nascer com características sexuais de ambos os sexos, ou com ausência de algum atributo biológico necessário à típica categorização binária de masculino ou feminino. Há questões de identidade de gênero envolvidas e não são raras as situações em que a pessoa é submetida a uma cirurgia corretiva, mas depois manifesta comportamentos que a afastam do gênero atribuído pelos