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Prévia do material em texto

ÉTICA, CIDADANIA E DIREITOS 
HUMANOS
Professor Dr. Jefferson Aparecido Dias
Reitor
Márcio Mesquita Serva
Vice-reitora
Profª. Regina Lúcia Ottaiano Losasso Serva
Pró-Reitor Acadêmico
Prof. José Roberto Marques de Castro
Pró-reitora de Pesquisa, Pós-graduação e Ação 
Comunitária
Profª. Drª. Fernanda Mesquita Serva
Pró-reitor Administrativo
Marco Antonio Teixeira
Direção do Núcleo de Educação a Distância
Paulo Pardo
Coordenação Pedagógica do Curso
Ana Lívia Cazane
Edição de Arte, Diagramação, Design Gráfico
B42 Design
*Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Informamos
que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos.
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A 
violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código 
Penal.
Universidade de Marília 
Avenida Hygino Muzzy Filho, 1001 
CEP 17.525–902- Marília-SP
Imagens, ícones e capa: ©freepik, ©envato, ©pexels, ©pixabay, ©Twenty20 e ©wikimedia
BOAS-VINDAS
Ao iniciar a leitura deste material, que é parte do apoio pedagógico dos 
nossos queridos discentes, convido o leitor a conhecer a UNIMAR – 
Universidade de Marília.
Na UNIMAR, a educação sempre foi sinônimo de transformação, e não 
conseguimos enxergar um melhor caminho senão por meio de um ensino 
superior bem feito. 
A história da UNIMAR, iniciada há mais de 60 anos, foi construída com base 
na excelência do ensino superior para transformar vidas, com a missão 
de formar profissionais éticos e competentes, inseridos na comunidade, 
capazes de constituir o conhecimento e promover a cultura e o intercâmbio, 
a fim de desenvolver a consciência coletiva na busca contínua da valorização 
e da solidariedade humanas.
A história da UNIMAR é bela e de sucesso, e já projeta para o futuro novos 
sonhos, conquistas e desafios.
A beleza e o sucesso, porém, não vêm somente do seu campus de mais de 
350 alqueires e de suas construções funcionais e conectadas; vêm também 
do seu corpo docente altamente qualificado e dos seus egressos: mais 
de 100 mil pessoas, espalhados por todo o Brasil e o mundo, que tiveram 
suas vidas impactadas e transformadas pelo ensino superior da UNIMAR.
Assim, é com orgulho que apresentamos a Educação a Distância da UNIMAR 
com o mesmo propósito: promover transformação de forma democrática 
e acessível em todos os cantos do nosso país. Se há alguma expectativa 
de progresso e mudança de realidade do nosso povo, essa expectativa 
está ligada de forma indissociável à educação.
Nós nos comprometemos com essa educação transformadora, 
investimos nela, trabalhamos noite e dia para que ela seja 
ofertada e esteja acessível a todos. 
Muito obrigado por confiar uma parte importante do seu 
futuro a nós, à UNIMAR e, tenha a certeza de que seremos 
parceiros neste momento e não mediremos esforços para 
o seu sucesso!
Não vamos parar, vamos continuar com investimentos 
importantes na educação superior, sonhando sempre. Afinal, 
não é possível nunca parar de sonhar! 
Bons estudos!
Dr. Márcio Mesquita Serva
Reitor da UNIMAR
Que alegria poder fazer parte deste momento tão especial da sua vida! 
Sempre trabalhei com jovens e sei o quanto estar matriculado 
em um curso de ensino superior em uma Universidade de 
excelência deve ser valorizado. Por isso, aproveite cada 
minuto do seu tempo aqui na UNIMAR, vivenciando o ensino, 
a pesquisa e a extensão universitária. 
Fique atento aos comunicados institucionais, aproveite as 
oportunidades, faça amizades e viva as experiências que 
somente um ensino superior consegue proporcionar.
Acompanhe a UNIMAR pelas redes sociais, visite a sede 
do campus universitário localizado na cidade de Marília, 
navegue pelo nosso site unimar.br, comente no nosso blog 
e compartilhe suas experiências. Viva a UNIMAR!
Muito obrigada por escolher esta Universidade para a 
realização do seu sonho profissional. Seguiremos, 
juntos, com nossa missão e com nossos valores, 
sempre com muita dedicação. 
Bem-vindo(a) à Família UNIMAR.
Educar para transformar: esse é o foco da Universidade de Marília no seu 
projeto de Educação a Distância. Como dizia um grande educador, são as 
pessoas que transformam o mundo, e elas só o transformam 
se estiverem capacitadas para isso.
Esse é o nosso propósito: contribuir para sua transformação 
pessoal, oferecendo um ensino de qualidade, interativo, 
inovador, e buscando nos superar a cada dia para que você 
tenha a melhor experiência educacional. E, mais do que isso, 
que você possa desenvolver as competências e habilidades 
necessárias não somente para o seu futuro, mas para o seu 
presente, neste momento mágico em que vivemos.
A UNIMAR será sua parceira em todos os momentos de 
sua educação superior. Conte conosco! Estamos aqui para 
apoiá-lo! Sabemos que você é o principal responsável pelo 
seu crescimento pessoal e profissional, mas agora você 
tem a gente para seguir junto com você. 
Sucesso sempre!
Profa. Fernanda 
Mesquita Serva
Pró-reitora de Pesquisa, 
Pós-graduação e Ação 
Comunitária da UNIMAR
Prof. Me. Paulo Pardo
Coordenador do Núcleo 
EAD da UNIMAR
007 Aula 01:
016 Aula 02:
022 Aula 03:
029 Aula 04:
035 Aula 05:
043 Aula 06:
049 Aula 07:
057 Aula 08:
063 Aula 09:
071 Aula 10:
078 Aula 11:
083 Aula 12:
087 Aula 13:
093 Aula 14:
098 Aula 15:
102 Aula 16:
Conceito de Direitos Humanos
Ética
Cidadania
Desenvolvimento Histórico da Construção dos Direitos 
Humanos (1ª Parte)
Desenvolvimento Histórico da Construção dos Direitos 
Humanos (2ª Parte)
Direitos Humanos e Direitos Fundamentais
Eficácia Vertical e Horizontal dos Direitos Humanos e 
Fundamentais
O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos 
Humanos
Sistemas Regionais de Proteção dos Direitos Humanos
Diversidade Cultural e Direitos Humanos
Os Direitos Fundamentais na Constituição de 1988
Solução para a Colisão de Princípios
Igualdade na Ordem Constitucional
Liberdade na Ordem Constitucional
Fraternidade na Ordem Constitucional
Temos Direitos Humanos! E os Nossos Deveres?
Introdução
O que são os direitos humanos?
Eu, como ser humano, tenho direitos pelo simples fato de ter nascido ou os
meus ancestrais, com suas lutas, são os grandes responsáveis para que, no
presente, meus direitos sejam garantidos e respeitados?
Os meus direitos podem ser exigidos apenas em relação ao Estado ou eu posso
pleitear direitos humanos em minhas relações interpessoais?
Além de direitos, eu também tenho deveres?
Essas são algumas das perguntas que pretendo responder com o texto a
seguir, em 16 (dezesseis) aulas, nas quais é apresentado amplo conteúdo a ser
investigado, a �m de que todos nós possamos, juntos, evoluir no
reconhecimento e garantia dos direitos humanos.
Importante frisar que, como orientando do saudoso Joaquín Herrera Flores
(vale a pena consulta a obra do maestro), defenderei uma posição mais crítica
em relação aos direitos humanos, em especial em relação à teoria tradicional
que os contempla como produtos naturais, decorrentes da essência dos seres
humanos. Mas, a par disso, serão apresentados conceitos clássicos em
homenagem justamente a essa teoria tradicional.
Ao �nal, espero que a leitura do presente texto e dos demais materiais
disponibilizados pela Unimar EaD permita que todos nós possamos
desenvolver e manter vivos os processos de luta em defesa dos direitos
humanos, a �m de que alcancemos uma situação de empoderamento cidadão
e possamos lutar por uma vida digna de ser vivida.
6
01
Conceito de 
Direitos Humanos
O que são os direitos humanos? Essa, provavelmente, é uma das perguntas que
mais intrigam os estudiosos, tamanhas as polêmicas que envolvem a
conceituação de direitos humanos, muitas delas vinculadas à sua origem e
amplitude. A presente aula pretende trazer algumas respostas possíveis e
convidar a todos para uma re�exão sobre o que são os direitos humanos.
Direitos Humanos– Produtos
Naturais?
Para uma teoria tradicional dos direitos humanos, os direitos humanos são
produtos naturais, ou seja, decorrem da própria natureza dos seres humanos.
Nesse sentido, querido(a) aluno(a), pelo simples fato de nascer,
independentemente do local em que isso ocorra, todos nós, seres humanos, já
teríamos garantidos os nossos direitos humanos.
Essa, em certa medida, é a concepção adotada pela Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão, proclamada em 26 de agosto de 1789, com a Revolução
Francesa, que em seu artigo 1º  previa que: “Os homens nascem e são livres e
iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade
comum”.
No mesmo sentido restou estabelecido na Declaração Universal dos Direitos
Humanos que, em seu artigo 1, estabelece que: “Todos os seres humanos
nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e
consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de
fraternidade” (NAÇÕES UNIDAS, 2018). Essas premissas levaram Comparato
(2019, p. 15) a a�rmar em sua obra “A a�rmação histórica dos direitos humanos”
que:
O que se conta, nestas páginas, é a parte mais bela e importante de
toda a História: a revelação de que todos os seres humanos, apesar
das inúmeras diferenças biológicas e culturais que os distinguem
entre si, merecem igual respeito, como únicos entes do mundo
capazes de amar, descobrir a verdade e criar a beleza.
8
Em razão desses conceitos, defende-se que os direitos humanos são dotados
de essencialidade, pois seriam inerentes a todos os seres humanos e vinculados
diretamente à sua essência. Outra decorrência lógica dessa concepção de
direitos humanos é que eles seriam universais, ou seja, titularizados por todos
os seres humanos, independentemente do seu local de nascimento e mesmo
do contexto social no qual vivem. Assim, pouco importaria, para �ns de garantia
dos direitos humanos, se uma pessoa nasceu em um país da África ou em
algum país europeu, pois os direitos humanos, sendo naturais e universais,
deveriam ser garantidos para todos, independentemente de seu contexto
social.
Essa concepção universalista dos direitos humanos foi estabelecida
inicialmente com a Revolução Francesa e, posteriormente, foi rea�rmada pela
ONU ao ser aprovada a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Apesar de universais, contudo, os direitos humanos teriam sido consagrados
gradativamente, num processo que segundo alguns autores se deu por meio
de gerações ou dimensões de direitos humanos, as quais estariam vinculadas
aos valores defendidos pela Revolução Francesa: liberdade, igualdade e
fraternidade.
A primeira geração ou dimensão estaria relacionada aos direitos civis e políticos,
os quais imputariam obrigações negativas ao Estado, a quem caberia garantir a
liberdade individual do cidadão. Já a segunda geração contemplaria os direitos
PARA GABARITAR
Regra básica quando se fala em direitos humanos é rechaçar toda e
qualquer forma de discriminação que possa defender a sua violação,
em especial de minorias que, frequentemente, são ignoradas pelos
textos normativos. Assim, cuidado com qualquer manifestação que
possa transparecer preconceituosa, seja nas mídias sociais ou em
provas, pois alguns concursos tendem a eliminar os candidatos que
defendam uma eventual violação de direitos humanos.
9
sociais, econômicos e culturais, os quais exigiriam uma atuação positiva do
Estado, que seria obrigado a garantir a igualdade de direitos para todos os
cidadãos.
Por �m, os direitos de terceira geração, relacionados ao ideal de fraternidade,
diriam respeito aos direitos difusos e coletivos, que envolveriam a atuação do
Estado e dos próprios cidadãos na garantia dos direitos titularizados por todos,
como é o caso do meio ambiente saudável.
Particularmente não me agrada essa divisão dos direitos humanos em
gerações ou dimensões, pois ela pode trazer a ideia equivocada de que a
conquista de direitos humanos deve ocorrer de forma escalonada, ou seja, a
luta pelos direitos de segunda geração somente deve ocorrer após todos terem
conquistado os de primeira geração. Na verdade, parece-me que o ideal é que
os direitos humanos sejam concebidos de forma integrada, e que a luta por sua
concretização ocorra independentemente de qual geração lhe seja atribuída.
Apesar dessa minha posição crítica, tenho que reconhecer que, na atualidade,
ao contrário do que ocorria no passado, tem crescido a preocupação com os
supostos direitos de terceira geração, ou seja, os relacionados com a
fraternidade ou com a solidariedade. Essa preocupação tem motivado posições
altruístas, a partir das quais os cidadãos têm colaborado cada vez mais com as
pessoas que, por uma razão ou outra, buscam auxílio junto a seus pares.
A partir dessa concepção, conforme leciona Norberto Bobbio, o problema da
atualidade já não seria justi�car ou estabelecer os direitos humanos, mas sim
adotar meios para torná-los efetivos.
10
CONECTE-SE
Em homenagem aos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos
Humanos, a ONU publicou textos explicativos sobre cada um dos
seus artigos, cuja leitura é imprescindível.
Direitos Humanos – Produtos
Culturais?
Se para a teoria tradicional de direitos humanos eles devem ser concebidos
como produtos naturais e vinculados à essência dos seres humanos, para uma
teoria crítica, os direitos humanos, na verdade, são produtos culturais
construídos e conquistados historicamente pelos seres humanos dentro de
seus contextos sociais.
11
https://go.eadstock.com.br/eD
Se para a teoria tradicional de direitos humanos eles devem ser concebidos
como produtos naturais e vinculados à essência dos seres humanos, para uma
teoria crítica, os direitos humanos, na verdade, são produtos culturais
construídos e conquistados historicamente pelos seres humanos dentro de
seus contextos sociais.
Nesse sentido, para Joaquín Herrera Flores, os direitos humanos são “resultados
provisórios de lutas sociais por dignidade.” (HERRERA FLORES, 2009, p. 120).
Uma vez que o autor conceitua a dignidade humana como o acesso igualitário,
não previamente hierarquizado, aos bens necessários para uma vida digna de
ser vivida, é possível conceituar direitos humanos como os resultados
provisórios de processos de luta pelo acesso igualitário, não previamente
hierarquizado, aos bens necessários para uma vida digna de ser vivida
(HERRERA FLORES, 2009).
Por essa concepção, os direitos humanos não são, portanto, garantidos a todos
os seres humanos pelo simples fato de nascerem, sendo necessário que lutas
sejam travadas para que os direitos sejam conquistados e, posteriormente, tais
El tres de mayo de 1808 en Madrid, de Goya (1814)
Fonte: acesse o link disponível aqui
12
http://www.xtec.cat/~fchorda/goya/dosincc.htm
lutas continuam a ser necessárias para que os direitos humanos sejam
mantidos.
Outra consequência da adoção dos direitos humanos como produto cultural é
que eles deixam de ser considerados universais e ganham conotação regional
ou local. Assim, já não se pode falar que os direitos humanos são
necessariamente os mesmos independentemente do local de nascimento e o
contexto social no qual vive cada ser humano.
É possível encontrar, portanto, seres humanos em situações diferentes em
relação à conquista e efetivação de direitos humanos, pois dependem em
grande parte do contexto no qual se pretende garanti-los.
A obra “El tres de mayo de 1808 en Madrid'', de Goya, é usada por Joaquín
Herrera Flores para explicar como o suposto universalismo dos Direitos do
Homem e do Cidadão consagrados pela Revolução Francesa não foram
garantidos aos espanhóis em 1808:
[...] do que se defendiam os homens e mulheres que estavam a
ponto de ser fuzilados pelos soldados franceses pintados por Goya?
Atacando ideais universalistas da Ilustração francesa, os “rebeldes”
se deixavam matar por ideais, do mesmo modo, universalistas da
tradição anti-ilustrada espanhola. Ao mesmo tempo, os soldados do
exército da liberdade os assassinavamem nome dos ideais mais
universais surgidos da Revolução ilustrada. De dois particularismos
chegava-se à violência, pois eles se apresentavam como ideais
universais que todos deveriam aceitar. (HERRERA FLORES, 2009, p.
173).
Por outro lado, porém, como o autor adverte, não se pode admitir um
regionalismo absoluto, pois se estaria diante de um novo universalismo ou,
conforme defende, um universalismo de retas paralelas.
Da mesma forma que um universalismo de partida não é desejável, pois ele
desconsidera o contexto social no qual os seres humanos nascem e vivem, um
universalismo de retas paralelas também não deve ser buscado, pois ele acaba
por desconsiderar as características particulares dos demais, sendo válido
apenas o local.
A solução, assim, seria um universalismo de chegada, a ser buscado a partir do
diálogo intercultural, no qual os seres humanos possam conhecer novas
realidades diferentes daquelas existentes em seu contexto, e buscar, no contato
com os outros seres humanos, estabelecer quais direitos deverão ser
universalizados:
13
Ao universal, há que se chegar – universalismo de chegada ou de
con�uência – depois (não antes) de um processo de luta discursivo,
de diálogo ou de confrontação em que se rompam os preconceitos
e as linhas paralelas. Falamos do entrecruzamento de propostas, e
não de uma mera superposição (HERRERA FLORES, 2009, p. 162).
A garantia e efetividade dos direitos humanos exigem, portanto, uma grande
vigilância, pois é necessário lutar para que eles sejam reconhecidos pelos textos
normativos, mas isso não basta, pois é necessário que se continue a lutar para
que os textos normativos sejam efetivamente colocados em prática.
Não basta que o direito à saúde seja reconhecido pelo texto constitucional e
por inúmeras leis, mas é necessário que os governantes efetivamente
disponibilizem médicos, remédios, hospitais, etc. para que tal direito seja
usufruído pelo cidadão, que tem no voto e na participação popular a sua maior
arma.
14
NA PRÁTICA
No Brasil, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC),
vinculada ao Ministério Público Federal, atua de forma intensa na
defesa dos direitos humanos, seja por meio da emissão de notas
técnicas referentes a atos normativos, seja por meio de outras formas
de atuação extrajudicial. Em sua página da internet, a PFDC divulga
todas as suas atuações em defesa dos direitos humanos.
Além disso, o cidadão que se sentir prejudicado por alguma medida
adotada pelo Governo Federal pode oferecer uma representação por
meio da “Sala de Atendimento ao Cidadão”:
15
https://go.eadstock.com.br/eE
https://go.eadstock.com.br/d5g
02
Ética
“Ética” é uma expressão que faz parte do nosso dia a dia como algo que deve
ser respeitado por todos. Repetimos de forma quase que automática que
somos éticos e, com a mesma facilidade, julgamos as atitudes dos outros e as
classi�camos como antiéticas. Mas, a�nal, o que é ética?
Conceito de Ética
A expressão ethos, que se originou da palavra ética, era utilizada pelos gregos
para representar “aquela dimensão da vida humana sobre que incidem normas
[...] destinadas a fornecer parâmetros para decidir entre opções de conduta
futura igualmente possíveis e mutuamente contraditórias.” (ADEODATO, 2012,
p. 71).
Assim, a ética estava relacionada ao estabelecimento de regras de conduta que
tivessem como perspectiva a escolha do certo ao invés do errado, do justo ao
contrário do injusto.
Em razão disso, a ética é conceituada como “a ciência ou �loso�a que fará a
eleição das melhores ações tendo como horizonte o interesse coletivo,
universal.” (ALMEIDA; CHRISTMANN, 2009, p. 4).
Essa busca pelo coletivo e pelo universal, inclusive, seria a diferença
apresentada entre ética e moral, pois esta segunda não teria “pretensões de
universalização, porque ela tem como base o próprio comportamento social,
não uma re�exão sobre ele [e] não se baseia numa re�exão, mas nos costumes
de determinada sociedade em determinado lugar, em um preciso tempo
histórico. Ele é, portanto, costumeiro, tradicional, e não �losó�co” (ALMEIDA;
CHRISTMANN, 2009, p. 4).
Apesar dessa suposta distinção de moral e ética, não raras vezes as duas
palavras são utilizadas como sinônimos, pois ambas estariam relacionadas ao
agir humano e teriam como objetivo delimitar se esse agir é correto, justo.
Aristóteles (2001), em sua obra “Ética a Nicômacos”, defende que o justo (e,
portanto, o que seria moral e ético) é agir com proporcionalidade, no meio
termo, evitando os excessos que se caracterizariam como injustos.
Assim, para Aristóteles, a atuação correta e justa é aquela que pode ser
considerada proporcional e que se afasta dos extremos, sendo que as condutas
extremas e, portanto, desproporcionais, seriam violadoras da moral e da ética.
17
Emmanuel Kant, ao de�nir moral, sustenta que: “O princípio supremo da moral
é, portanto: age segundo uma máxima que possa ter valor como lei geral. Toda
máxima que não seja suscetível dessa extensão é contrária à moral.” (KANT,
1993, p. 40). Para ele, o agir moral é desejado por todos, pois bene�cia a todos,
ao contrário da ação imoral, que prejudicaria não apenas o seu autor, mas toda
a comunidade na qual ele está inserido.
Trazendo essas situações para os nossos dias, é possível veri�car que a atuação
ética e moral de um político tende a bene�ciar toda a comunidade na qual ele
está inserido, ao contrário do agir imoral e antiético, que além de prejudicar a
comunidade, também acaba por prejudicar até mesmo o país como um todo.
FICA A DICA
Livro
Nos tempos atuais, muitos são os dilemas morais
que se apresentam, em especial em razão do
desenvolvimento de novas tecnologias. É certo que
tais tecnologias, por si só, não podem ser
classi�cadas como boas ou más, mas, infelizmente,
o uso que delas se faz pode ser considerado bom
ou mal. Sobre o tema, é muito interessante o livro
“Justiça: o que é fazer a coisa certa”, de Michael J.
Sandel, no qual o autor discute vários temas
instigantes dos nossos tempos tais como suicídio
assistido, aborto, imigração, impostos, os limites
morais do mercado, etc. Trata-se de uma excelente
leitura.
18
Ética na Prática
Como se vê, os conceitos de ética, moral e justiça, apesar de não serem
idênticos, acabam por se entrelaçar, pois todos dizem respeito às regras de
condutas impostas aos seres humanos e que tenham como resultado algo que
pode ser tido como certo, apesar da imensa di�culdade que tais conceitos
impõem.
Interessante que essa di�culdade em de�nir o correto, o certo, en�m, o justo, é
tão difícil que o legislador brasileiro optou, no caso da Lei de Improbidade
Administrativa, em indicar o que é errado ou injusto.
Neste sentido, para a mencionada Lei, são considerados como atos de
improbidade administrativa e, portanto, atos imorais e injustos, aqueles que (1)
tenham como objetivo o enriquecimento ilícito do agente público, (2) resultem
em prejuízo ao Patrimônio Público e (3) violem os princípios que devem nortear
a atuação da Administração Pública (BRASIL, 1992).
Assim, em resumo, ética pode ser considerada a ciência que se dedica a
estudar o que deve ser considerado como sendo um agir moral e justo ou, em
outras palavras, o estudo que permite diferenciar o certo do errado.
A partir desse conceito, praticamente todas as pro�ssões elaboram o seu
Código de Ética, que traz regras de conduta e vedações que servem de
orientação para que os pro�ssionais ajam de forma correta e não adotem
posturas que possam ser consideradas inadequadas.
Assim, a título de exemplo, no caso dos médicos, o Conselho Federal de
Medicina editou o Código de Ética Médica, o qual estabelece que, em respeito
aos direitos humanos (Capítulo IV), é vedado ao médico: “Deixar de obter
consentimento do paciente ou de seu representante legal após esclarecê-lo
sobre o procedimento a ser realizado, salvo em caso de risco iminente de
morte.” (BRASIL, 2010, p. 37).
19
Como vimos na aula anterior, os direitos humanos podem ser concebidoscomo
produtos naturais, vinculados à própria essência dos seres humanos e de
observância obrigatória por todos, ou como produtos culturais, resultados
provisórios de processos de luta pela dignidade humana.
Em qualquer um dos dois sentidos, porém, os direitos humanos demandam
uma atuação tendo em vista a si próprio e o outro, ou seja, impõem uma
conduta que, a despeito de permitir o exercício do meu direito, também
respeite o direito garantido ao outro.
Existe um dito popular no sentido de que “o meu direito vai até onde começa o
direito do outro”. Apesar de tê-la ouvido com enorme frequência, não consigo
concordar com tal frase, pois ela transmite a ideia de que a única forma que
possuo para aumentar os meus direitos é reduzindo os direitos dos outros.
Assim, parece-me que uma melhor formulação da frase seria que “o meu
direito vai até onde VAI o direito do outro”, pois, se para mim é garantido o
direito à saúde, é porque esse é um direito que é garantido para todos, ou seja,
um direito humano.
Assim, a garantia dos direitos humanos depende de um compromisso ético de
todos “com nós mesmos, com os outros e com a natureza [...] compromisso
com os direitos humanos”, que consiste em “criar as condições e as
PARA GABARITAR
Da mesma forma que o Conselho Federal de Medicina, praticamente
todas os conselhos de classe possuem um Código de Ética, o qual é
de observância obrigatória pelos pro�ssionais. Além disso, os
preceitos dos Códigos de Ética com frequência são exigidos em
concursos públicos. No caso da OAB (Ordem dos Advogados do
Brasil), o Código de Ética (Resolução nº 02/2015) é um dos temas
exigidos no Exame de Ordem, cuja aprovação é imprescindível para o
Bacharel de Direito que pretenda advogar.
20
possibilidades sociais, econômicas, culturais, políticas e jurídicas de ter, exigir e
garantir as responsabilidades que assumimos nesse processo de humanização
do humano.” (HERRERA FLORES, 2009, p. 214).
A�nal, não se podem garantir direitos humanos se os humanos não agirem
com ética em relação a si mesmos e à natureza.
CONECTE-SE
Infelizmente, nem sempre os agentes públicos respeitam a ética em
suas condutas e, nesses casos, acabam sendo processados pela
prática de atos de improbidade administrativa. O Ministério Público
Federal disponibiliza um “Mapa da Improbidade” no qual é possível
veri�car o número de ações de improbidade administrativa em curso
e, inclusive, ter acesso a documentos relacionados a cada uma destas
ações.
21
https://go.eadstock.com.br/eG
03
Cidadania
Imagine-se morando na Europa antes da Revolução Francesa, durante os
Estados Absolutistas. Imaginou? Bom, �que sabendo que naquele momento
histórico inexistia a �gura do cidadão, e os seres humanos eram tidos como
objeto (e não titular) de direito dos que detinham o poder.
Assim, o Estado tinha o poder soberano de “deixar viver e fazer morrer”,
conforme leciona Foucault (1999), pois os seres humanos eram tidos como
vinculados à terra que ocupavam e junto com ela integravam a propriedade de
seu dono.
Com a revolução francesa, surge a �gura do cidadão e, como vimos na primeira
aula, é criada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
PARA GABARITAR
Quando você lê a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”,
imagina que nela também estão contemplados os direitos das
“Mulheres e Cidadãs”? Saiba que não, pois, na época, apesar dos
ideais de liberdade, igualdade e fraternidade defendidos pelos
franceses revolucionários, os direitos foram conquistados apenas para
os homens, pois as mulheres permaneceram sendo consideradas
objeto de direito. Olympe de Gouges defendeu a aprovação, também,
de uma “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, nos exatos
termos da versão masculina, mas foi decapitada pelos
revolucionários.
23
Assim, a �gura do cidadão surge apenas com a Revolução Francesa, a partir da
qual passam a ser estabelecidos direitos deste em relação ao Estado. E hoje,
como podemos conceituar a cidadania?
FICA A DICA
Livro
Uma leitura interessante é a história em
quadrinhos de Olympe de Gouges:
Olympe de Gouges
Autores: José-Louis Bocquet e Catel Muller
Editora: Record
Conceito de Cidadania
Atualmente, já não estamos num estado absolutista, e o poder soberano foi
substituído, no caso das democracias, pelo poder do povo. No caso do Brasil, a
Constituição Federal de 1988 é expressa em a�rmar que: “Todo o poder emana
do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos
termos desta Constituição.” (parágrafo único, do art. 1º. BRASIL, 1988).
Votar em candidatos que possam representá-lo e participar diretamente, nos
termos da Constituição, da gestão do país são direitos do cidadão, que também
pode se candidatar para ocupar cargos públicos eletivos, como Presidente da
República e demais cargos do Poder Executivo e do Poder Legislativo.
24
Assim, cidadania pode ser conceituada como a "capacidade para o exercício
dos direitos políticos, como processo de transformação do poder soberano em
órgão representativo." (FRANCO, 2019, p. 106).
Como no Brasil os direitos de votar (cidadania ativa) e ser votado (cidadania
passiva) são exclusivos dos brasileiros, o conceito de cidadão, em certa medida,
acaba se confundindo com o de nacional ou naturalizado.
E como �cam os estrangeiros?
E os Estrangeiros?
No Brasil, os direitos e deveres dos estrangeiros estão previstos na Lei nº 13.445,
de 24 de maio de 2017, a qual instituiu a Lei da Migração. Para referida lei, são
adotados os seguintes conceitos:
II - imigrante: pessoa nacional de outro país ou apátrida que
trabalha ou reside e se estabelece temporária ou de�nitivamente no
Brasil;
III - emigrante: brasileiro que se estabelece temporária ou
de�nitivamente no exterior;
IV - residente fronteiriço: pessoa nacional de país limítrofe ou
apátrida que conserva a sua residência habitual em município
fronteiriço de país vizinho;
V - visitante: pessoa nacional de outro país ou apátrida que vem ao
Brasil para estadas de curta duração, sem pretensão de se
estabelecer temporária ou de�nitivamente no território nacional;
VI - apátrida: pessoa que não seja considerada como nacional por
nenhum Estado, segundo a sua legislação, nos termos da
Convenção sobre o Estatuto dos Apátridas, de 1954, promulgada
pelo Decreto nº 4.246, de 22 de maio de 2002 , ou assim reconhecida
pelo Estado brasileiro.
Para tais pessoas, ao contrário do que ocorre com o nacional, não é garantido o
direito ao voto, razão pela qual é possível concluir que eles não são titulares de
cidadania ativa ou passiva. Apesar disso, a mencionada Lei de Migração é
expressa em a�rmar que para todos os acima mencionados é adotado como
princípio a “universalidade, indivisibilidade e interdependência dos direitos
humanos.” (art. 3º, inciso I).
25
Assim, apesar de não serem cidadãos brasileiros, os estrangeiros, qualquer que
seja a sua classi�cação de acordo com a lei, são titulares de direitos e de
deveres. Nesse sentido:
Os estrangeiros praticamente se igualam aos nacionais quanto ao
exercício de direitos e deveres. Evidentemente, contudo, que se lhes
atribuem algumas limitações próprias. (...)
Os direitos políticos não são reconhecidos aos estrangeiros,
ressalvado os portugueses, consoante se constata do § 2º  do art. 14
da CF. Assim, não podem votar, nem podem ser eleitos para o
exercício de cargos políticos. Também estão impedidos de
apresentar ação popular (art. 5º, LXXIII, da CF). Igualmente, não
podem exercer cargos, empregos ou funções públicas (art. 37, I, da
CF), salvo na forma da lei (art. 37, I, in �ne, e art. 207, § 1º). Nem
podem subscrever projeto de lei de iniciativa popular (art. 61, § 2º, da
CF).(TAVARES, 2018, p. 681).
Apesar de o Brasil não admitir o direito de voto para os estrangeiros, o que
também ocorre na Argentina, alguns países da América do Sul o admitem.
Vejamos um breve resumo sobre o tema (BAHTEN, 2013):
Paraguai: os estrangeiros residentes no país podem votar nas eleições
municipais;Uruguai: os estrangeiros com família constituída e vivendo há mais de 15
anos no país, com boa conduta e que possuam capital ou propriedade, ou
que desempenhem alguma atividade pro�ssional no país, podem votar
nas mesmas condições que os nacionais;
Chile: os estrangeiros residentes há mais de 5 anos no país podem votar
nas mesmas condições que os nacionais.
Assim, no Uruguai e no Chile, preenchidas algumas condições especiais, os
estrangeiros também podem votar, tal qual os nacionais. Essa equiparação do
nacional e o estrangeiro, no que diz respeito ao voto são “tentativas
explanatórias que procuram ultrapassar a �gura da cidadania clássica de�nida
pelo pertencimento a um território (país) para dar conta da crescente
mobilidade dos cidadãos do mundo e, diante disso, da falta de ferramentas
jurídico-políticas para garantir seus direitos.” (CHELIUS, 2011, p. 233).
Dentre os estrangeiros, porém, existem alguns que têm sofrido ainda mais em
relação à violação de seus direitos e esses são os refugiados, que estudaremos
no próximo tópico.
26
Cidadania e Direitos Humanos: o
Desa�o dos Refugiados
Como vimos no item anterior, apátridas são pessoas que nenhum Estado
reconhece como nacional. Isso pode ocorrer por alguns motivos (PEREIRA,
2014, p. 12):
O fato de o apátrida não ser reconhecido como nacional e, portanto, cidadão de
qualquer país, acaba por exigir um tratamento especial por parte do país no
qual ele reside.
No caso dos refugiados, Segundo Pereira:
11
A discriminação das minorias nas legislações nacionais,
pela retirada da nacionalidade de alguns grupos em
virtude de posições políticas, étnicas ou religiosas.
22 A não inclusão de todos os residentes do país no patamar
de “cidadãos” quando o Estado se torna independente.
33
Pelos critérios soberanos de distribuição da nacionalidade
que podem entrar em con�ito em determinadas
situações.
27
[...] a discussão não está diretamente atrelada à questão da
cidadania como decorrência da nacionalidade, mas sim na
impossibilidade de um ser humano manter uma vida em segurança
no seu país de nascimento, em virtude de bem fundado temor de
perseguição por questões políticas, raciais, religiosas, sociais e
étnicas, dentre outras que envolvam grave afronta aos direitos
humanos. (PEREIRA, 2014, p. 12).
Os refugiados, assim, são forçados a deixarem os seus países e ingressarem em
outros Estados a �m de tentar garantir a própria vida. Para se ter uma ideia do
crescente desa�o que é garantir os direitos dos refugiados, dados do ACNUR,
Agência da ONU para Refugiados, indicam que, em 2017, o número de
refugiados chegou a 68,5 milhões de pessoas (ACNUR, 2018).
Assim, da mesma forma que para os estrangeiros devem ser garantidos todos
os direitos humanos garantidos aos cidadãos, também os refugiados precisam
ser tratados com igual respeito e consideração, levando-se em consideração a
sua condição especial de perseguido, obrigado a deixar para trás o próprio país.
CONECTE-SE
A situação dos refugiados é dramática e, infelizmente, parece longe
de ter um �nal feliz. Para manter-se atualizado sobre o tema, a
consulta à página da ACNUR, Agência da ONU para os Refugiados é
imprescindível: ACNUR. Refugiados. Disponível em: 
28
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04
Desenvolvimento 
Histórico da Construção 
dos Direitos Humanos 
(1ª Parte)
A compreensão da evolução histórica dos direitos humanos depende de qual a
concepção que deles se adota, pois, se entendermos que os direitos humanos
são produtos naturais, que decorrem da própria essência dos seres humanos,
eles teriam surgido no exato instante em que o homem foi criado
(criacionismo) ou nasceu (evolução natural).
Por outro lado, se a teoria adotada for a que atribui aos direitos humanos a
qualidade de produtos culturais (resultados de processos de luta), tais direitos
nasceram justamente após uma luta realizada para a sua consagração.
Em resumo, se forem concebidos como produtos naturais, os direitos seriam
apenas revelados (pois já existiriam, desde sempre, junto com o homem), ou
criados (a partir das lutas) se tidos como produtos culturais.
Antecedentes Históricos
No próximo item, estudaremos a Magna Carta de João Sem-Terra, de 1215, tida
como um dos primeiros documentos a reconhecer direitos humanos. Antes
dela, porém, Castilho apresenta os seguintes documentos que, em tese,
representariam as primeiras manifestações em defesa dos direitos humanos:
No Egito do ano 1250 antes de Cristo, consta que Moisés recebeu no
monte Horeb os dez mandamentos que lhe foram entregues por Deus.
Supõe-se ter sido o primeiro documento escrito, relacionado com direitos
humanos.
Na China do século IV antes de Cristo, os �lósofos Mêncio e Mo-Tseu
reformaram a teoria do altruísmo, de Confúcio, e passaram a chamá-la de
teoria do amor universal. Segundo esses �lósofos, todas as pessoas, de
todas as classes sociais, são iguais. E os indivíduos, governantes ou
governados, devem ter sua dignidade respeitada por meio da tolerância,
da generosidade e da conduta reta.
Na Roma do ano 450 antes de Cristo, os plebeus obtiveram a votação da
Lei das XII Tábuas, que diminuiu o poder arbitrário dos cônsules.
Na Roma do ano 413, Santo Agostinho publicou “Cidade de Deus”,
re�etindo sobre as diferenças entre governos tirânicos e governos que
agem conforme a lei. (CASTILHO, 2018, p. 31).
30
Esses documentos não são citados como sendo os portadores de regras e
princípios de direitos humanos, mas é certo que eles, de alguma forma, podem
ter sido utilizados para a elaboração de documentos futuros, que possuem em
seu conteúdo normas relacionadas a direitos humanos.
CONECTE-SE
A temática dos direitos humanos tem ganhado grande destaque nos
últimos anos, a ponto de serem criadas várias bibliotecas (virtuais e
físicas) a ela dedicadas. Que tal visitá-las e conhecer mais sobre a
história dos direitos humanos? Indicamos algumas delas:
Biblioteca Temática de Direitos Humanos da Cidade de São Paulo. 
Biblioteca Virtual do Instituto Brasileiro de Direitos Humanos.
31
Portal de Busca Integrada da Universidade de São Paulo.
https://go.eadstock.com.br/eJ
https://go.eadstock.com.br/eK
https://go.eadstock.com.br/eL
A Magna Carta de João Sem-
Terra
Um dos primeiros documentos históricos a mencionar os direitos humanos é a
Magna Carta, assinada pelo Rei João Sem-Terra, no dia 15 de julho de 1215, a �m
de fazer cessar as hostilidades que recebia por parte dos barões do reino
(COMPARATO, 2019, p. 83-86).
Vários são os preceitos da Magna Carta que inspiraram regras e princípios
atuais, dentre as quais merece destaque a sua cláusula 39, que prevê o
princípio do devido processo legal, atualmente previsto no art. 5º, inciso LIV, da
Constituição Federal (COMPARATO, 2019, p. 94).
Além disso, em sua cláusula 61, a Magna Carta traz o “primeiro esboço de um
mecanismo de responsabilidade do rei perante os seus súditos, vale dizer, o
início do processo de abolição do próprio regime monárquico.” (COMPARATO,
2019, p. 94).
Importante destacar, contudo, que a Magna Carta não teve como objetivo
garantir os direitos do cidadão, mas sim os direitos dos barões do reino, ou seja,
da burguesia que buscava se proteger do arbítrio existente em um Estado
absolutista que, por sua vez, nem sempre respeitou os preceitos nela contidos.
Nesse sentido,
[...] o documento nunca pretendeu ser uma declaração duradoura
de princípios legais. Foi apenas uma solução prática para uma crise
política e serviu exclusivamente aos nobres e religiosos que queriam
limitar o comportamento despótico do rei. E�caz ou não, a Magna
Carta de 1215 foi um marco na história,tornando-se o início da
monarquia constitucional inglesa e um primeiro passo para o
constitucionalismo no mundo ocidental. (CASTILHO, 2018, p. 52-53).
Realmente, apesar de hoje ser questionável a e�cácia que a Magna Carta
possuiu na época, é evidente que muitos de seus preceitos serviram de fonte
de inspiração para a construção do constitucionalismomoderno e, também,
para a sua posterior conversão em direitos que devem ser garantidos para
todos os seres humanos.
32
A Declaração de Virgínia
A Declaração de Virgínia, de 1776, que marca a independência dos Estados
Unidos, é considerada um dos mais importantes documentos de
reconhecimento dos direitos humanos, pois pela primeira vez é reconhecido o
“direito à vida, que só voltaria a aparecer no século XX” (CASTILHO, 2018, p. 84).
Além disso, a mencionada Declaração pela primeira vez reconhece a soberania
popular e a existência de direitos inerentes a todos os seres humanos (e,
portanto, naturais). Nesse sentido, é a lição de Comparato (2019, p. 117):
A importância histórica da Declaração de Independência está
justamente aí: é o primeiro documento político que reconhece, a
par da legitimidade da soberania popular, a existência de direitos
inerentes a todo ser humano, independentemente das diferenças
de sexo, raça, religião, cultura ou posição social.
Neste sentido, merecem ser transcritos os dois primeiros artigos da Declaração
de Virgínia, que trazem os preceitos acima mencionados (CASTILHO, 2018, p.
85):
Declaração dos Direitos da Virgínia (Williamsburg, 12 de junho de
1776)
(Declaração de direitos formulada pelos representantes do bom
povo de Virgínia, reunidos em assembleia geral e livre; cujos direitos
que pertencem a eles e à sua posteridade, como base e
fundamento do governo)
Artigo 1º: Que todos os homens são, por natureza, igualmente livres
e independentes e têm certos direitos inatos, dos quais, quando
entram em estado de sociedade, não podem por qualquer acordo
privar ou despojar seus pósteros e que são: o gozo da vida e da
liberdade com os meios de adquirir e de possuir a propriedade e de
buscar e obter felicidade e segurança.
Artigo 2º: Que todo poder é inerente e, consequentemente, deriva
do povo; que os magistrados são seus mandatários e seus servidores
e, em qualquer momento, perante ele responsáveis.
33
Importante mencionar ainda que os preceitos representam “historicamente a
transição dos direitos de liberdade legais ingleses para os direitos fundamentais
constitucionais.” (CASTILHO, 2018, p. 84), distinção que será mais bem explicada
em nossa aula 6.
Apesar de discordar dessa concepção jusnaturalista, ou seja, de que os direitos
humanos são produtos naturais, entendo que é perfeitamente possível
conceber, a partir da Declaração de Virgínia, os direitos humanos como sendo
produtos culturais, pois ela e os direitos por ela consagrados (criados) surgiram
justamente como resultado de processos de luta pela independência dos
Estados Unidos. A discussão que restaria, portanto, é saber se tais direitos são
realmente “universais e absolutos” ou se comportam certos “ajustes” que
permitam que eles sejam concebidos a partir de determinados contextos como
regionais e relativos, tema que abordaremos em aula futura.
34
05
Desenvolvimento 
Histórico da Construção 
dos Direitos Humanos 
(2ª Parte)
Em nossa aula anterior, dedicada ao estudo da história dos direitos humanos,
vimos alguns antecedentes históricos que precederam a elaboração de
documentos especí�cos para tratar dos direitos humanos, bem como a
Declaração de Virgínia, elaborada no contexto da Independência dos Estados
Unidos e na qual foram contemplados, pela primeira vez, alguns direitos
humanos garantidos até hoje.
Agora estudaremos a Revolução Francesa e os documentos de direitos
humanos que dela decorreram, direta ou indiretamente.
Revolução Francesa e
Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão
A Declaração de Virgínia de 1776, mencionada na aula anterior e que marcou a
independência dos Estados Unidos, é tida como a primeira declaração
moderna sobre direitos humanos, e teria servido de inspiração para a
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada em 1789 pela
Revolução Francesa e considerada “um dos mais importantes documentos
sobre o tema dos direitos humanos de todos os tempos.” (CASTILHO, 2018, p. 31).
É importante que reconheçamos o contexto social no qual eclodiu a Revolução
Francesa, num momento de governos absolutistas que desconheciam a �gura
do cidadão, pois ainda prevalecia a concepção dos seres humanos como
súditos. Assim, retirando o Clero e a Realeza, que por serem os detentores do
poder tinham, por consequência, “direitos”, os demais seres humanos eram
tidos como “objeto” de direito e não “titulares” de direito.
Os súditos não tinham praticamente qualquer direito em relação ao seu
soberano, sendo impensável imaginar que eles pudessem pleitear o
reconhecimento de direitos em face do Estado, cuja personalidade se
confundia com a do próprio governante, como se pode concluir pela célebre
frase de Rei Luiz XIV de que o “Estado sou eu” (no original, “L’État c’est moi"). A
frase completa seria (FUKS, s.d.) “Je suis la Loi, Je suis l'Etat; l'Etat c'est moi" (Eu
sou a Lei, eu sou o Estado; o Estado sou eu!) e bem demonstra o tamanho do
poder do rei na época, o qual concentrava em suas mãos o poder sobre tudo e
sobre todos.
36
Nesse cenário, eclode a Revolução Francesa quando, impulsionados pelos
ideais iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade, os revolucionários
derrubaram o regime absolutista e instauraram uma Assembleia Constituinte
que marcou o início do regime republicano (COMPARATO, 2018, p. 140).
A Assembleia Constituinte, no dia 26 de agosto de 1789, aprovou a Declaração
dos Direitos do Homem e do Cidadão, a qual trazia em seu preâmbulo que
(COMPARATO, 2018, p. 165-166):
Os representantes do povo francês, constituídos em Assembleia
nacional, considerando que a ignorância, o descuido ou o desprezo
dos direitos humanos são as únicas causas das desgraças públicas e
da corrupção dos governos, resolveram expor, numa declaração
solene, os   direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem, a
�m de que essa declaração, constantemente presente a todos os
membros do corpo social, possa lembrar-lhes sem cessar seus
direitos e seus deveres; a �m de que os atos do poder legislativo e os
do poder executivo, podendo ser a todo instante comparados com a
�nalidade de toda instituição política, sejam por isso mais
respeitados; a �m de que as reclamações dos cidadãos, fundadas
doravante em princípios simples e incontestáveis, redundem
sempre na manutenção da Constituição e na felicidade de todos.
Em consequência, a Assembleia nacional reconhece e declara, na
presença e sob os auspícios do Ser Supremo, os seguintes direitos
do Homem e do Cidadão.
PARA GABARITAR
Os revolucionários franceses estavam tão convencidos de que
inauguravam uma nova era com a Revolução Francesa que adotaram
um novo calendário, em substituição ao calendário gregoriano. O
novo calendário francês tinha os seguintes meses: Pluvioso, Ventoso,
Germinal, Floreal, Prairial, Messidor, Termidor, Frutidor, Vendemiário,
Brumário, Frimário e Nivoso (CALENDÁRIO, 1989, p. 51-53).
37
Seguindo, em seu artigo primeiro, consagra o princípio da igualdade, ao a�rmar
que: “Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. As
distinções sociais só podem fundar-se na utilidade comum.” (COMPARATO,
2018, p. 166).
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, bem como os ideais de
liberdade, igualdade e fraternidade inspiraram praticamente todos os demais
documentos que consagram direitos humanos no mundo ocidental. Contudo,
é sempre bom alertar que, no contexto história da Revolução Francesa, apenas
os direitos dos homens eram contemplados, pois as mulheres continuavam a
ser consideradas como “objeto” e “não titulares” de direitos.
CONECTE-SE
O texto integral da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
está disponível na Biblioteca Virtual de Direitos Humanos da USP.
38
https://go.eadstock.com.br/eM
A Declaração Universal dos
Direitos Humanos
Em 10 de dezembro de 1948, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, foi
aprovada a Declaração Universal dos Direitos Humanos que, reiterando os
ideias defendidos durante a Revolução Francesa,proclama, em seu artigo I, os
“três princípios axiológicos em matéria de direitos humanos: a liberdade, a
igualdade e a fraternidade.” (COMPARATO, 2019, p. 233).
A referida Declaração (e a própria internacionalização dos direitos humanos),
nas palavras de Piovesan (2018, p. 210), “constitui, assim, um movimento
extremamente recente na história, que surgiu a partir do pós-guerra, como
resposta às atrocidades e aos horrores cometidos durante o nazismo.” A autora
também a�rma que “apresentando o Estado como o grande violador de
direitos humanos, a Era Hitler foi marcada pela lógica da destruição e da
descartabilidade da pessoa humana, o que resultou no extermínio de onze
milhões de pessoas.” (PIOVESAN, 2018, p. 210).
A referida Declaração tem como principais características a amplitude, por
de�nir um extenso rol de direitos, a indivisibilidade dos direitos humanos, e a
universalidade, ao prever que tais direitos devem ser garantidos para todos os
seres humanos, independentemente de sua nacionalidade ou condição
especial, como aconteceu com o regime nazista, “que condicionava a
titularidade de direitos à pertinência à determinada raça (a raça pura
ariana).” (PIOVESAN, 2018, p. 231).
A Declaração não é um tratado, tampouco tem força de lei, mas é considerada a
“interpretação autorizada da expressão ‘direitos humanos’, constante da Carta
das Nações Unidas, apresentando, por esse motivo, força jurídica vinculante.”
(PIOVESAN, 2018, p. 238).
Além disso, a Declaração é um importante marco na implantação de um
Sistema Internacional de Direitos Humanos, como se verá em aula futura.
39
Outros Momentos e Documentos
Históricos
Além dos importantes documentos analisados nestas duas aulas dedicadas à
história dos direitos, outros momentos da história, tanto do Brasil, como de
outros países, têm importância na consagração (ou construção) dos direitos
humanos. Dentre esses momentos, Castilho destaca os seguintes:
40
- No Brasil de 1850 foi promulgada a Lei de Extinção do Trá�co
Negreiro no Brasil (Lei nº 581), chamada “Lei Eusébio de Queiroz”.
- Nos Estados Unidos de 1854, o chefe indígena Seattle enviou uma
carta ao então presidente Franklin Pierce, que havia proposto
comprar uma parte das terras da tribo, oferecendo em troca outra
reserva. A carta tem sido divulgada pela ONU como o maior libelo
em favor do meio ambiente na história.
- Nos Estados Unidos de 1863, o presidente Abraham Lincoln
proclamou a emancipação dos escravos, num documento que
resultou na aprovação da 13ª emenda da Constituição norte-
americana, que proíbe escravidão ou trabalhos forçados.
- Na Suíça de 1864, foi aprovada a Convenção da Cruz Vermelha
sobre o socorro aos feridos nos campos de batalha.
- No Brasil de 1871, o país dá mais um passo na direção da abolição
da escravatura, votando a Lei do Ventre Livre.
- No Brasil de 1888, a�nal é abolida a escravidão por meio da Lei
Áurea (Lei nº 3.353). Foi o último país a tomar tal atitude.
- Na Bélgica de 1890, o Ato Geral da Conferência de Bruxelas
dispunha sobre a repressão ao trá�co de escravos africanos.
- Na Roma de 1891, o papa Leão XIII promulgou a encíclica Rerum
Nova-rum, sobre a situação dos trabalhadores.
- Na França de 1898, Émile Zola divulga o seu famoso “Eu Acuso!”,
um libelo contra o processo do capitão Dreyfus.
- No Brasil de 1908, é fundada a Cruz Vermelha brasileira, tendo sido
seu primeiro presidente o médico Oswaldo Cruz.
- Na Rússia de 1918, Lênin proclamou a Declaração dos Direitos do
Povo Trabalhador e Explorado, um ano após a revolução socialista. O
fundamento principal era eliminar a exploração da força de trabalho.
- Na Inglaterra de 1942, Mahatma Gandhi (“Mahatma”, do sânscrito
“A Grande Alma”) a partir do seu discurso “Um Apelo à Nação”,
propõe e funda o moderno estado indiano. Sua revolução tinha
como princípio o chamado Satyagraha, uma forma não violenta de
protesto.
- No Brasil de 1951, é aprovada a Lei Afonso Arinos (Lei nº 1.390), que
inclui entre as contravenções penais a prática de atos resultantes de
preconceitos de raça ou de cor.
- Nos Estados Unidos de 1963, Martin Luther King Jr. profere o
discurso “Eu tenho um Sonho”, na Marcha para Washington.
(CASTILHO, 2018).      
Como se vê, muitas foram as lutas para que os direitos humanos fossem
consagrados (ou criados), mas é importante destacar que o fato de um direito
ser reconhecido não garante que ele será respeitado e mantido, pois é
necessário que as lutas continuem a �m de que os preceitos contidos na
Constituição e na lei sejam efetivamente concretizados.
41
Figura - Martin Luther King.
42
06
Direitos Humanos e 
Direitos Fundamentais
Vimos nas aulas anteriores como se deu a consagração histórica dos direitos
humanos: por meio de instrumentos internacionais que os reconheceram
como sendo direitos universais, a serem garantidos a todos os seres humanos,
independentemente de qualquer condição especial.
Alguns direitos humanos, porém, já estão reconhecidos pelos ordenamentos
jurídicos dos países e, com isso, ao serem positivados, são classi�cados como
direitos fundamentais e passam a ter um caráter nacional, apesar de
continuarem a ter uma aspiração universal.
Assim, a diferença entre direitos humanos e direitos fundamentais seria o fato
de o  primeiro, universal, nem sempre estar positivado; ao passo que o segundo,
nacional, sempre está positivado na Constituição ou nas leis do Estado. Nesse
sentido, Sarlet esclarece:
[...] “direitos fundamentais” se aplica para aqueles direitos do ser
humano reconhecidos e positivados na esfera do direito
constitucional positivo de determinado Estado, ao passo que a
expressão “direitos humanos” guardaria relação com os
documentos de direito internacional, por referir-se àquelas posições
jurídicas que se reconhecem ao ser humano como tal,
independentemente de sua vinculação com determinada ordem
constitucional, e que, portanto, aspiram à validade universal, para
todos os povos e tempos, de tal sorte que revelam um inequívoco
caráter supranacional (internacional). (SARLET, 2010, p. 29)
 Uma versão ampliada deste texto pode ser encontrada em: SERVA, Fernanda
Mesquita. DIAS, Jefferson Aparecido. A repercussão dos direitos fundamentais
nas relações particulares a partir de uma teoria crítica de direitos humanos. In 
FERREIRA, Jussara Suzi Assis Borges Nasser. AMARAL, Ana Cláudia Corrêa Zuin
Mattos do. Empresa, negócio jurídico e responsabilidade civil. Florianópolis:
Qualis Editora, 201, p. 247-275.
1
44
Corroborando tal posição, Rodrigo Maia Santos (2014, p. 36-37) ressalta a
importância da diferenciação no que tange ao aspecto geográ�co para a
distinção de direitos fundamentais e direitos humanos:
Se não considerarmos o critério do plano de positivação, seremos
obrigados a concordar que não há diferenças entre direitos
humanos e direitos fundamentais.
[...]
Há pesquisadores que utilizam a terminologia "direitos humanos
fundamentais", porém só é possível concordar se se referir aos
direitos humanos inseridos na ordem constitucional, por exemplo.
Neste caso, será possível, pois haverá identidade de conteúdo
(material) e hierarquia constitucional (formal).
CONECTE-SE
Além dos termos “direitos humanos” e “direitos fundamentais”,
também são usados outros termos, como “direitos humanos
fundamentais”, mas, basicamente, a diferença entre estes termos
consiste no fato de eles estarem ou não previstos na Constituição ou
nas leis do país. Utilizando a expressão “direitos humanos
fundamentais”, o Ministério Público Federal lançou uma coletânea de
artigos, em homenagem aos 70 anos da Declaração Universal dos
Direitos Humanos e 20 anos do reconhecimento da jurisdição da
Corte Interamericana de Direitos Humanos e as mudanças na
aplicação do direito no Brasil.
45
https://go.eadstock.com.br/eN
No mesmo sentido, destacando a característica relacionada aos direitos
fundamentais, de estarem estes consagrados em preceitos de ordem jurídica,
Gilmar Ferreira Mendes (2014, p.147) a�rma que esse é “o divisor entre asexpressões direitos fundamentais e direitos humanos”.
A partir de tais premissas, a expressão direitos humanos:
[...] ou direitos do homem, é reservada para aquelas reivindicações
de perene respeito a certas posições essenciais ao homem. São
direitos postulados em bases jusnaturalistas, contam com índole
�losó�ca e não possuem como característica básica a positivação
numa ordem jurídica particular. A expressão direitos humanos,
ainda, e até por conta da sua vocação universalista, supranacional, é
empregada para designar pretensões de respeito à pessoa humana,
inseridas em documentos de direito internacional. (MENDES, 2014,
p. 147).
Já a expressão direitos fundamentais:
[...] é reservada aos direitos relacionados com posições básicas das
pessoas, inscritos em diplomas normativos de cada Estado. São
direitos que vigem numa ordem jurídica concreta, sendo, por isso,
garantidos e limitados no espaço e no tempo, pois são assegurados
na medida em que cada Estado os consagra. Essa distinção
conceitual não signi�ca que os direitos humanos e os direitos
fundamentais estejam em esferas estanques, incomunicáveis entre
si. Há uma interação recíproca entre eles. Os direitos humanos
internacionais encontram, muitas vezes, matriz nos direitos
fundamentais consagrados pelos Estados e estes, de seu turno, não
raro acolhem no seu catálogo de direitos fundamentais os direitos
humanos proclamados em diplomas e em declarações
internacionais. É de ressaltar a importância da Declaração Universal
de 1948 na inspiração de tantas constituições do pós-guerra.
(MENDES, 2014, p. 147).
No caso do Brasil, faz-se oportuno salientar que a tutela dos direitos humanos
pelo ordenamento jurídico concretizou-se por meio das incorporações dos
Tratados Internacionais e, também, pela sua expressa adoção em nível
constitucional como direitos fundamentais.
Nesse sentido, Piovesan (2018c, p. 70-71) sustenta que:
46
Preliminarmente, é necessário frisar que a Constituição Brasileira de
1988 constitui o marco jurídico da transição democrática e da
institucionalização dos direitos humanos no Brasil. O texto de 1988,
ao simbolizar a ruptura com o regime autoritário, empresta aos
direitos e garantias ênfase extraordinária, situando-se como o
documento mais avançado, abrangente e pormenorizado sobre a
matéria, na história constitucional do País.
[…]
Ao �m da extensa Declaração de Direitos enunciada pelo art. 5º, a
Carta de 1988 estabelece que os direitos e garantias expressos na
Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos
princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a
República Federativa do Brasil seja parte. À luz desse dispositivo
constitucional, os direitos fundamentais podem ser organizados em
três distintos grupos: a) o dos direitos expressos na Constituição; b) o
dos direitos implícitos, decorrentes do regime e dos princípios
adotados pela Carta constitucional; e c) o dos direitos expressos nos
tratados internacionais subscritos pelo Brasil. A Constituição de 1988
inova, assim, ao incluir dentre os direitos constitucionalmente
protegidos, os direitos enunciados nos tratados internacionais de
que o Brasil seja signatário. Ao efetuar tal incorporação, a Carta está
a atribuir aos direitos internacionais uma hierarquia especial e
diferenciada, qual seja, a de norma constitucional.
Concluindo, veri�ca-se que a distinção precípua entre direitos humanos e
direitos fundamentais é no plano de consagração. O primeiro, universal,
reconhecido a todos os seres humanos, embora nem sempre positivado; o
segundo, nacional, reconhecido pela Constituição ou leis de cada país.
47
PARA GABARITAR
Agora que você já sabe a diferença entre direitos humanos e direitos
fundamentais, que tal ler o artigo 5º da Constituição da República
Federativa do Brasil, que traz um extenso rol de direitos fundamentais
expressamente garantidos em nosso país? A Constituição está
disponível no seguinte endereço eletrônico: BRASIL, Constituição da
República Federativa do Brasil de 1988.
48
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07
Eficácia Vertical 
e Horizontal dos 
Direitos Humanos e 
Fundamentais
Como vimos nas aulas anteriores, os direitos humanos têm como uma de suas
principais funções proteger o cidadão em relação ao Estado. Essa característica
está presente tanto nos documentos atuais que consagram direitos humanos,
como as Constituições modernas, quanto nos documentos mais antigos, como
a Magna Carta, a Declaração de Virgínia, a Declaração dos Direitos do Homem e
do Cidadão e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nesse caso,
estamos diante da “e�cácia vertical” dos direitos humanos.
Ao lado dessa e�cácia, também se questiona se os direitos humanos também
condicionam e devem ser observados nas relações entre particulares, ou seja,
se possuem, ao lado de uma “e�cácia vertical”, também uma “e�cácia
horizontal”. Esse é o tema da aula de hoje¹.
Ao se trazer à baila a discussão dos direitos fundamentais nas relações
particulares, observa-se que a doutrina denomina de “e�cácia horizontal” a
aplicação destes direitos previstos na Constituição da República nas relações
entre os indivíduos. Saleme (2011, p. 15), utilizando essa terminologia, apresenta
a classi�cação das funções dos direitos fundamentais:
Prestação perante terceiros - Aqui se fala em e�cácia horizontal dos
direitos fundamentais, ou seja, o reconhecimento dos direitos
individuais para a solução de con�itos entre indivíduos. O Estado
deve intervir para garantir a proteção interindividual. Pode-se
exempli�car a ação do juiz que, antes de qualquer análise, deve
veri�car os direitos individuais e suas projeções no campo
interpessoal.
No mesmo sentido, leciona Barroso (2013, p. 397/399):
O segundo desenvolvimento doutrinário que comporta uma nota
especial é a aplicabilidade dos direitos fundamentais às relações
privadas. O debate remonta à decisão do caso Lüth (v. supra), que
superou a rigidez da dualidade público/privado ao admitir a
aplicação da Constituição às relações particulares, inicialmente
regidas pelo Código Civil.
Diante da importância para o tema, faz-se oportuno trazer algumas
considerações sobre o caso de Lüth, acima mencionado.
50
Trata-se de decisão proferida pelo Tribunal Constitucional Alemão
em que se tratou a respeito da vinculação ou não, e de que forma os
particulares estariam vinculados ou não a direitos fundamentais.
Em 1950, o Presidente do Clube de Imprensa de Hamburgo, Erich
Lüth sustentou boicote a um �lme (Amada Imortal), dirigido por um
cineasta, Veit Harlan, que havia produzido um �lme anti-semita
produzido durante o 3º Reich. Este cineasta conseguiu no Tribunal
de Justiça de Hamburgo que Lüth abstivesse-se de boicotar o �lme,
com base no art. 826 do BGB que reza: “quem causar danos
intencionais a outrem, e de maneira ofensiva aos bons costumes,
�ca obrigado a compensar o dano”. Lüth, insatisfeito com a
represália sofrida em seu direito de livre manifestação de
pensamento/expressão, recorreu ao Tribunal Constitucional
alegando ofensa aos seus direitos fundamentais. A Corte deu
provimento ao recurso de Lüth entendendo que o Tribunal de
Justiça desconsiderou o signi�cado do direito de expressão e
informação de Lüth também no âmbito das relações entre
particulares, como se o mesmo fosse aplicável somente nas relações
estabelecidas com o Estado. Reconheceu, assim, a e�cácia irradiante
dos direitos fundamentais. Nesta decisão apontou-se que o Poder
Judiciário, como órgão do Estado, não poderia deixar de intervir na
questão, eis que, em relação a ele há uma e�cácia direta e imediata
dos direitos fundamentais. Assim, o Estado, através de seu órgão de
Poder Judiciário, ao omitir-se de adentrar na questão dos direitos
fundamentais que lhe fora trazida à tona, estaria atuando como
agressor a estes direitos fundamentais. Trata-se, neste caso, da
teoria dos deveres de proteção (MATEUS, 2007, p. 79).
No que tange aos sujeitos passivos dos direitos fundamentais, tem-se
entendido que pode �gurar tanto o Estado comoo particular. Assim, os direitos
fundamentais incidem não apenas nas relações entre o Estado e o cidadão,
mas também naquelas entre particulares (cidadãos).
¹ Uma versão ampliada deste texto pode ser encontrada em: SERVA, Fernanda
Mesquita. DIAS, Jefferson Aparecido. A repercussão dos direitos fundamentais
nas relações particulares a partir de uma teoria crítica de direitos humanos. In:
FERREIRA, Jussara Suzi Assis Borges Nasser. AMARAL, Ana Cláudia Corrêa Zuin
Mattos do. Empresa, negócio jurídico e responsabilidade civil. Florianópolis:
Qualis Editora, 2015, p. 247-275.
51
Aduz Gilmar Ferreira Mendes (2014, p. 175-176), mediante breves apontamentos
históricos, que:
A História aponta o Poder Público como o destinatário precípuo das
obrigações decorrentes dos direitos fundamentais. A �nalidade para
a qual os direitos fundamentais foram inicialmente concebidos
consistia, exatamente, em estabelecer um espaço de imunidade do
indivíduo em face dos poderes estatais. Os desdobramentos
originados pelas crises sociais e econômicas do século XX, contudo,
tornaram evidente que não se poderia mais relegar o Estado ao
simples papel de vilão dos direitos individuais. Percebeu-se que aos
Poderes Públicos se destinava a tarefa de preservar a sociedade civil
dos perigos de deterioração que ela própria fermentava. Deu-se
conta de que o Estado deveria atuar no seio da sociedade civil para
nela predispor as condições de efetiva liberdade para todos. A�nal,
tornou-se claro também que outras forças sociais, como grupos
econômicos ou políticos de peso, poderiam, da mesma forma, trazer
para o indivíduo vários dos constrangimentos que se buscavam
prevenir contra o Estado. As razões que conduziram, no passado, à
proclamação dos direitos fundamentais podem, agora, justi�car que
eles sejam também invocados contra particulares. 
PARA GABARITAR
Além das e�cácias vertical e horizontal, Bruna Pinotti Garcia Oliveira e
Rafael de Lazari (2018, p. 118). também destacam a chamada “e�cácia
diagonal dos direitos humanos/fundamentais, aplicada às relações
entre particulares em que há subordinação entre eles, notadamente
nas relações de trabalho (empregador/empresa e empregado).”
Segundo os autores, essa subordinação exigiria que os direitos
humanos/fundamentais fossem aplicados de forma proporcional �m
de promover o equilíbrio entre os agentes. Apesar de reconhecer a
sua importância, os autores adotam postura restritiva e crítica à sua
aplicação.
52
Nota-se que a problemática do tema envolve, em muitos casos, o aparente
con�ito entre dois princípios constitucionais: o da autonomia da vontade
(implícito) e o da aplicação imediata dos direitos fundamentais (explícito – art.
5º, § 1º da Constituição da República de 1988). Nesse sentido, Mendes (2014, p.
177) assevera que:
[…] há direitos — em especial direitos de defesa -—em que se põe a
questão de saber se, e em que medida, alcançam as relações
privadas.
A resistência a que esses direitos se sobreponham à manifestação
de vontade nas relações entre os cidadãos preza o fato de que,
historicamente, tais direitos foram concebidos como proteção
contra o Estado, e que este seria fortalecido no seu poder sobre os
indivíduos se as relações entre os particulares fossem passíveis de
conformação necessária pelos direitos fundamentais. Haveria, então,
detrimento de outro princípio básico das sociedades democráticas
— o da autonomia individual, em especial no que tange à liberdade
de contratar.
A discussão sobe de ponto quando consideramos que o princípio da
autonomia da vontade, mesmo que não conste literalmente na
Constituição, acha no Texto Magno proteção para os seus aspectos
essenciais. A Carta de 1988 assegura uma liberdade geral no caput
do seu art. 59 e reconhece o valor da dignidade humana como
fundamento do Estado brasileiro (art. 3º, III, da CF) — dignidade que
não se concebe sem referência ao poder de autodeterminação.
Tudo isso con�rma o status constitucional do princípio da
autonomia do indivíduo.
Essa limitação da autonomia da vontade também é reconhecida por Jussara
Ferreira e Maria de Fátima Ribeiro (2007, p. 91), as quais apontam que:
A limitação da autonomia privada vem de�nida pela ordem pública,
pelo princípio da função social, pelos bons costumes e pelo princípio
da boa-fé. Não se questiona a necessidade da liberdade para
negociar desde que considerada a questão da igualdade de
contratar. A mudança de paradigma contribui na pós-modernidade
para o assentamento da de�nição dos limites indispensáveis ao
novo modelo negocial.
Adotou-se, portanto, a teoria da ponderação de interesses para veri�car quando
e em que medida os direitos fundamentais obrigam os particulares nas suas
relações privadas. Sobre isso, Mendes (2014, p. 178-179) pontua:
53
De�nir quando um direito fundamental incide numa relação entre
particulares demanda exercício de ponderação entre o peso do
mesmo direito fundamental e o princípio da autonomia da vontade.
Há de se efetuar essa ponderação à vista de casos concretos, reais
ou ideados. Cabe ao legislador, em primeiro lugar, estabelecer em
que hipóteses a autonomia da vontade haverá de ceder. Assim, o
próprio legislador já pune, e com pena criminal, as decisões
tomadas por particulares que importem discriminação racial, não
valendo, em casos assim, dizer que, por alguém ser o proprietário de
um prédio, possa vir a restringir, odiosamente, a entrada nele a
pessoas de certa etnia. Ao Judiciário incumbirá o exame da
conformidade da deliberação legislativa com as exigências da
proporcionalidade e estabelecer outras ponderações, nos casos não
antevistos pela lei.
Essa possibilidade dos direitos fundamentais serem aplicados nas relações
entre particulares, com e�cácia horizontal, é facilmente percebida pela simples
leitura de vários preceitos elencados na Constituição da República de 1988. Por
outro lado, alguns direitos consagrados na constituição, evidentemente, são
aplicáveis apenas nas relações entre os cidadãos e o Estado, possuindo,
portanto, apenas uma e�cácia vertical. A exemplo, destaca-se que teriam
e�cácia somente vertical os seguintes preceitos constitucionais:
1) 5º, inciso XXXVII: proibição de juízo ou tribunais de exceção;
2) 5º, inciso LI: direito do brasileiro nato de não ser extraditado;
3) 59, inciso LXXIV: assistência jurídica integral e gratuita aos
hipossu�cientes;
4) 59, inciso LXXV: indenização pelo Estado ao condenado por erro
judiciário ou ao que �car preso por tempo excedente;
5) 59, inciso XXXIV: direito à indenização quando ocorrer a
desapropriação.
  Em sentido diverso, teriam e�cácia tanto vertical quanto horizontal os
seguintes direitos consagrados constitucionalmente:
54
1) 1º, inciso III: princípio da dignidade da pessoa humana;
2) 3º, inciso IV: princípio da vedação à discriminação odiosa;
3) 5º, caput: princípio da igualdade;
4) 5º, inciso V: direito de resposta, proporcional ao agravo (o sujeito
passivo pode ser o órgão de imprensa particular);
5) 5º, caput e inciso X: princípio da liberdade e da privacidade;
6) 5º, incisos LIV e LV: princípio do contraditório e da ampla defesa;
7) 6º e 7º: direitos sociais, especialmente o direito ao trabalho
(e�cácia direta contra empregadores privados);
8) 79, inciso XVII: gozo de férias anuais remuneradas, acrescidas de ⅓
constitucional;
9) 79, inciso XXX: proibição aos empregadores de estabelecer
diferenças salariais e de critérios de admissão, por motivo de sexo,
idade, cor ou estado civil.
Nesse aspecto, veri�ca-se que alguns direitos fundamentais admitiriam uma
e�cácia vertical, ou seja, seriam aplicáveis apenas nas relações do cidadão com
o Estado e outros, além dessa e�cácia vertical, também teriam uma e�cácia
horizontal, regulando as relações entre particulares.
Essas posições, contudo, não são unânimes, pois também existem teorias no
sentido da ine�cácia horizontal (ou doutrina da State Action), segundo a qual os
direitos humanos não podem ser aplicados às relações entre particulares e a
teoria da e�cácia horizontal indireta,a qual prevê que os direitos “só se aplicam
indiretamente aos particulares, sob o argumento de que, do contrário [...]
acabaria aniquilando por completo a autonomia da vontade.” (OLIVEIRA;
LAZARI, 2018, p. 119).
55
CONECTE-SE
O STF (Supremo Tribunal Federal) expressamente reconheceu a
possibilidade de aplicação dos direitos humanos nas relações entre
particulares, ou seja, com e�cácia horizontal, ao julgar o Recurso
Extraordinário nº 201.819/RJ, no qual decidiu que sociedade civil sem
�ns lucrativos não poderia expulsar associado sem a observância do
devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório. BRASIL,
Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 201.819/RJ: União
Brasileira de Compositores UBC x Arthur Rodrigues Vilarinho.
Relatora: Ministra Ellen Gracie. Relator para acórdão: Ministro Gilmar
Mendes. Julgamento: 11/10/2005. Publicação: DJ 27/10/2006.
56
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08
O Sistema Internacional 
de Proteção dos Direitos 
Humanos
De certa forma, a aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos
pode ser considerada a certidão de nascimento do Direito Internacional dos
Direitos Humanos, pois, a partir de então, o mundo passou a ter um
documento que se propôs a garantir e impor a adoção de mecanismos de
respeito aos direitos humanos de forma universal, ou seja, a todos os países,
permitindo a criação, na sequência de um Sistema Internacional de Proteção
aos Direitos Humanos.
Antes da Declaração, porém, alguns fatos podem ser considerados os
precedentes históricos desse novo Sistema, pois, conforme observa Piovesan, “o
Direito Humanitário, a Liga das Nações e a Organização Internacional do
Trabalho situam-se como os primeiros marcos do processo de
internacionalização dos direitos humanos” (PIOVESAN, 2018b, p. 203).
O Direito Humanitário é o direito relacionado às guerras, ou seja, aos con�itos
armados e, ainda segundo a autora (PIOVESAN, 2018b, p. 203), sua origem
remonta “à Convenção de 1864, tem como fontes principais as quatro
Convenções de Genebra de 1949 e os seus princípios devem aplicar-se hoje
quer às guerras internacionais, quer às guerras civis e a outros con�itos
armados”.
Já a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho foram criadas
após a Primeira Guerra Mundial, também contribuíram para o processo de
internacionalização dos direitos humanos e serviram de fundamento para a
criação do Sistema Internacional (ou Global) de Direitos Humanos que tem,
dentre os seus principais órgãos, a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança,
o Conselho de Tutela, o Conselho Econômico e Social, a Corte Internacional de
Justiça e o Secretariado (art. 7, da Carta da ONU, 1945).
58
CONECTE-SE
A Carta das Nações Unidas foi assinada em São Francisco, em 26 de
junho de 1945 e está disponível no seguinte endereço eletrônico.
Assembleia Geral
A Assembleia é formada por todos os membros das Nações Unidas, sendo que
cada um deles pode indicar até cinco representantes, o que “não signi�ca que
cada membro possa votar cinco vezes, pois a Carta é expressa no sentido de
que cada qual possui um voto.” (OLIVEIRA; LAZARI, 2018, p. 844).
As questões importantes precisarão contar com a aprovação de um quórum
quali�cado de dois terços dos membros presentes e votantes. Tais situações,
segundo o art. 18 da Carta da ONU, são:
[...] recomendações relativas à manutenção da paz e da segurança
internacionais; à eleição dos membros não permanentes do
Conselho de Segurança; à eleição dos membros do Conselho
Econômico e Social; à eleição dos membros do Conselho de Tutela,
de acordo como parágrafo 1 (c) do artigo 86; à admissão de novos
membros das Nações Unidas; à suspensão dos direitos e privilégios
de membros; à expulsão dos membros; questões referentes ao
funcionamento do sistema de tutela e questões orçamentárias.
59
https://go.eadstock.com.br/d9i
Nos demais casos, as deliberações poderão ser tomadas, segundo o mesmo
preceito, pela maioria simples dos membros presentes e votantes.
Interessante destacar, contudo, que, em todos os casos, tal qual ocorre em um
condomínio, onde o condômino em débito não tem direito a voto, o mesmo se
dá na ONU, segundo o preceito contido no art. 19 da Carta da ONU:
O membro das Nações Unidas que estiver em atraso no pagamento
de sua contribuição �nanceira à Organização não terá voto na
Assembleia Geral, se o total de suas contribuições atrasadas
igualarem ou excederem a soma das contribuições
correspondentes aos dois anos anteriores completos. A Assembleia
Geral poderá, entretanto, permitir que o referido membro vote, se
�car provado que a falta de pagamento é devida a condições
independentes de sua vontade.
Assim, a falta de pagamento da contribuição �nanceira devida por cada um dos
países da ONU impede-o de participar das suas deliberações, salvo caso da
permissão especial prevista no �nal do preceito acima mencionado.
Conselho de Segurança
O Conselho de Segurança da ONU é composto por quinze membros, sendo
cinco permanentes (França, China, Reino Unido, Rússia e Estados Unidos) e dez
não permanentes (temporários), eleitos pela Assembleia Geral para um
mandato de 2 anos. O Brasil já foi um membro não permanente no Conselho
de Segurança por dez vezes (BRASIL, s.d.):
[...] nos biênios 1946-47, 1951-52, 1954-55, 1963-64, 1967-68, 1988-89,
1993-94, 1998-99, 2004-05 e 2010-11. Para o último, foi eleito com 182
votos (dentre 183 países votantes), o que demonstra o amplo
reconhecimento das contribuições do Brasil à atuação do Conselho.
O papel do Conselho de Segurança é extremamente importante, pois, segundo
o art. 14 da Carta da ONU:
60
A �m de assegurar pronta e e�caz ação por parte das Nações
Unidas, seus membros conferem ao Conselho de Segurança a
principal responsabilidade na manutenção da paz e da segurança
internacionais e concordam em que no cumprimento dos deveres
impostos por essa responsabilidade o Conselho de Segurança aja
em nome deles.
Assim, a manutenção da paz e da segurança internacionais são as principais
responsabilidades do Conselho de Segurança da ONU.
NA PRÁTICA
No Conselho de Segurança existe a possibilidade de os membros
permanentes, quais sejam, França, China, Reino Unido, Rússia e
Estados Unidos, exercerem o poder de veto, o que impede que a
medida votada seja implementada. Assim, mesmo que 14 dos 15
membros votem a favor de alguma medida, se um dos membros
permanentes vota contra a medida não será aprovada. Sobre o tema:
GUIMARÃES, Fernanda. CARVALHO, Patrícia Nasser de. A atuação do
conselho de segurança das nações unidas na guerra civil síria:
con�itos de interesse e impasses entre os P5 e a consequente falta de
resolução para a questão. Austral: Revista Brasileira de Estratégia e
Relações Internacionais, v.6, n.12, Jul. /Dez. 2017, p.66-83.
61
https://go.eadstock.com.br/eR
A Corte Internacional de Justiça
A Corte Internacional de Justiça é o principal órgão judicial da ONU e tem seu
funcionamento regulado por seu Estatuto, que foi anexado à Carta da ONU. É
composta por quinze juízes e possui competência contenciosa e consultiva.
Somente os Estados-partes podem �gurar nos seus processos (PIOVESAN, 2018,
p. 219).
PARA GABARITAR
Para a defesa dos Direitos Humanos, Bruna Pinotti Garcia Oliveira e
Rafael de Lazari destacam que o Sistema Internacional contempla o
Comitê de Direitos Humanos, criado pelo Pacto Internacional dos
Direitos Civis e Políticos de 1966, e o Conselho de Direitos Humanos,
órgão intragovernamental criado pela Resolução nº 60/251, de
15/03/2006, com o “objetivo de proteger todos os direitos humanos e
liberdades fundamentais em relação a todas as pessoas.” (OLIVEIRA,
LAZARI, 2018, p. 906).
62
09
Sistemas Regionais de 
Proteção dos Direitos 
Humanos
Ao lado do Sistema Internacional (ou Global) de Direitos Humanos, estudado
em nossa última aula, também temos os sistemas regionais, os quais
congregam o Sistema Europeu, o Sistema Interamericano e o Sistema Africano,
os quais analisaremos nos próximostópicos.
PARA GABARITAR
Além dos Sistemas acima mencionados e que estudaremos a seguir,
importante destacar que Bruna Pinotti Garcia Oliveira e Rafael de
Lazari também abordam o Sistema Islamo-Árabe de Direitos
Humanos, cujos principais documentos são a Declaração Islâmica
Universal dos Direitos Humanos (19/09/1981), a Declaração do Cairo de
Direitos Humanos no Islã (05/08/1990) e a Carta Árabe de Direitos
Humanos (15/09/1994) (OLIVEIRA; LAZARI, 2018, p. 900).
64
Sistema Europeu de Direitos
Humanos
O Conselho da Europa foi criado em 5 de maio de 1949, após a Segunda Guerra
Mundial, “com o objetivo de uni�car a Europa.” (PIOVESAN, 2018a, p. 123).
Posteriormente, em 4 de novembro de 1950, os países membros do Conselho
elaboraram a Convenção Europeia de Direitos Humanos, criando o Sistema
Europeu de Direitos Humanos.
Para compreender esse Sistema, imprescindível conhecer o contexto no qual
ele surgiu:
[...] um contexto de ruptura e de reconstrução dos direitos humanos,
caracterizado pela busca de integração e cooperação dos países da
Europa ocidental, bem como de consolidação, fortalecimento e
expansão de seus valores, dentre eles a proteção dos direitos
humanos (PIOVESAN, 2018a, p. 123).
Assim, os países da Europa ocidental vencedores da Segunda Guerra Mundial
adotaram a Convenção como um mecanismo para impedir que os horrores da
mencionada Guerra voltassem a ocorrer e, também, para buscar a uni�cação
da Europa, fragmentada em razão de anos de con�itos, bem como rea�rmar a
importância dos direitos humanos.
Dentre os seus órgãos, o mais importante é a Corte Europeia de Direitos
Humanos, criada em 1⁰ de novembro de 1988, por meio do Protocolo n⁰ 11, que
teve como grande inovação a previsão do direito de petição para indivíduos,
grupos de indivíduos e organizações não governamentais, os quais passaram a
ter a possibilidade de demandar diretamente perante a Corte no caso de
violações de direitos humanos (PIOVESAN, 2018a).
65
CONECTE-SE
As decisões da Corte Europeia de Direitos Humanos são
disponibilizadas na internet, mas apenas em inglês ou francês.
(EUROPA. European Courts of Human Rights).¹
Em língua portuguesa, alguns documentos e decisões podem ser
encontrados na página disponibilizada pelo Ministério Público de
Portugal (PORTUGAL. Ministério Público. Gabinete Documentação e
Direito Comparado: direitos humanos).²
Sistema Interamericano de
Direitos Humanos
No Sistema Interamericano de Direitos Humanos, três temas precisam ser
estudados: a Convenção Americana, a Comissão e a Corte Interamericana de
Direitos Humanos.
66
https://go.eadstock.com.br/eS
https://go.eadstock.com.br/ea3
A Convenção Americana de Direitos Humanos, também denominada Pacto de
San José da Costa Rica, é o “documento de maior importância” no mencionado
Sistema, segundo Piovesan (2018a, p. 149), assegurando, dentre outros:
[...] o direito à personalidade jurídica; o direito à vida; o direito a não
ser submetido à escravidão; o direito à liberdade; o direito a um
julgamento justo; o direito à compensação em caso de erro
judiciário; o direito à privacidade; o direito à liberdade de
consciência e religião; o direito à liberdade de pensamento e
expressão; o direito à resposta; o direito à liberdade de associação; o
direito ao nome; o direito à nacionalidade; o direito à liberdade de
movimento e residência; o direito de participar do governo; o direito
à igualdade perante a lei; e o direito à proteção judicial (PIOVESAN,
2018a, p. 150).
Visando garantir o cumprimento de tais preceitos e a observância dos direitos
humanos nos países do continente americano, o Sistema conta com a
Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que tem como atribuições:
[...] fazer recomendações aos governos dos Estados-partes, prevendo
a adoção de medidas adequadas à proteção desses direitos;
preparar estudos e relatórios que se mostrem necessários; solicitar
aos governos informações relativas às medidas por eles adotadas
concernentes à efetiva aplicação da Convenção; e submeter um
relatório anual à Assembleia Geral da Organização dos Estados
Americanos (PIOVESAN, 2018a, p. 153).
Note-se que a Comissão não é um órgão jurisdicional, papel reservado para a
Corte, e tem como principal objetivo atuar como uma instância que visa
garantir a observância dos direitos humanos por parte dos estados parte da
OEA (Organização dos Estados Americanos).
Além disso, tal qual ocorre com a Corte Europeia de Direitos Humanos, o
cidadão, grupos de cidadãos ou organizações não governamentais também
podem apresentar petições perante a Comissão para questionar atos
praticados pelos países que possam resultar na violação de direitos humanos.
Recebida a petição, a Comissão veri�cará se ela preenche os requisitos de
admissibilidade previstos no art. 46 da Convenção Americana de Direitos
Humanos (OEA, 1969), dentre elas, o esgotamento dos recursos na jurisdição
interna do país. Admitida a petição, passa-se à fase do contraditório, com a
solicitação de informações ao país demandado. Obtidas as informações e
superado o prazo para a sua prestação, a Comissão tomará uma decisão,
67
arquivando a petição se inexistir violação, ou, caso tal violação resulte provada,
adotará medidas visando buscar uma solução amigável negociada para o
problema. Obtida a solução negociada, o caso é arquivado e, caso ela não seja
possível, a petição será enviada para a Corte Interamericana de Direitos
Humanos (PIOVESAN, 2018a).
A Corte Interamericana de Direitos Humanos é o órgão jurisdicional do Sistema,
composto por “sete juízes, nacionais dos Estados membros da Organização,
eleitos a título pessoal dentre juristas da mais alta autoridade moral, de
reconhecida competência em matéria de direitos humanos” (art. 52, OEA, 1969).
A Corte possui atribuições consultivas, quando emite uma Opinião Consultiva
sobre algum tema suscitado por um Estado-parte, e contenciosa, quando
decide sobre alguma denúncia de violação de direitos humanos praticada por
um Estado-parte (PIOVESAN, 2018a).
CONECTE-SE
A apresentação de petição para a Comissão Interamericana de
Direitos Humanos pode ser feita pela internet: OEA. Comissão
Interamericana de Direitos Humanos. Portal do Sistema Individual de
Petições.
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CONECTE-SE
As decisões da Corte estão disponíveis na internet e, inclusive, em
português, no seguinte endereço: OEA. Casos da Corte.
Sistema Africano de Direitos
Humanos
O Sistema Africano de Direitos Humanos é o mais recente dos Sistemas
Regionais, uma vez que a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos
somente foi aprovada em 1981, entrando em vigor em 1986.
Tal Carta, segundo Piovesan, traz quatro particularidades, aferíveis desde o seu
preâmbulo: é conferida grande atenção às tradições históricas e aos valores da
civilização africana; prevê uma gramática dos “direitos dos povos”; traz, além de
direitos civis e políticos, um rol de direitos econômicos, sociais e culturais; e, por
�m, apresenta uma concepção de deveres ao lado dos direitos: “o gozo dos
direitos e liberdades implica o cumprimento dos deveres de cada um.”
(PIOVESAN, 2018a, p. 247-248).
Visando dar garantia aos direitos e a observância dos deveres nela previstos, a
Carta prevê uma Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, com as
seguintes competências (PIOVESAN, 2018a, p. 251):
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[...] elaborar estudos e pesquisas; formular princípios e regras;
assegurar a proteção dos direitos humanos e dos povos; recorrer a
métodos de investigação; criar relatorias temáticas especí�cas;
adotar resoluções no campo dos direitos humanos; e interpretar os
dispositivos da Carta. Compete-lhe ainda apreciar comunicações
interestatais (nos termos dos artigos 47 a 49 da Carta), bem como
petições encaminhadas por indivíduos ou ONGs que denunciem
violação aos direitos humanos e dos povos enunciados na Carta (nos
termos dos artigos 55 a 59 da Carta).
Por �m, o Sistema Africano também conta com uma Corte, que, talqual as
demais Cortes dos Sistemas regionais, possui competências consultiva e
contenciosa. Contudo, ao contrário das demais Cortes, a Africana somente
poderá conhecer uma petição formulada por indivíduos ou ONG se houver
declaração formulada por Estado-parte para este �m (PIOVESAN, 2018, p. 257).
CONECTE-SE
A Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos está disponível na
internet e em português: Comissão Africana dos Direitos Humanos e
dos Povos. Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos.
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10
Diversidade Cultural e 
Direitos Humanos
A globalização cultural que gera  intenso debate sobre a homogeneização
cultural, localismo e transculturação também se estende para os direitos
humanos, os quais, a�nal, são concebidos por alguns como produtos culturais
(HERRERA FLORES, 2009).
Por outro lado, porém, a Declaração Universal dos Direitos Humanos,
proclamada em Paris, em 10 de dezembro de 1948, durante a Assembleia Geral
da Organização das Nações Unidas (ONU), estabeleceu em seu art. I que:
“Artigo I - Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e
direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos
outros com espírito de fraternidade.” (ONU, 2019). Assim, segundo a
mencionada Declaração, os direitos humanos são universais e devem ser
garantidos a todos os seres humanos, desde o nascimento.
Segundo Mazzuoli, trata-se de um instrumento com foco na “[...] positivação
internacional dos direitos mínimos dos seres humanos, em complemento aos
propósitos das Nações Unidas de proteção dos direitos humanos e liberdades
fundamentais de todos, sem distinção de sexo, raça, língua ou religião.”
(MAZZUOLI, 2018, p. 83).
Apesar disso, há que se ressaltar que, de acordo com  Comparato (2018), os
Direitos Humanos, estabelecidos pela Declaração Universal de 1948, não têm
efeito vinculante, ou seja, trata-se de uma “recomendação” das Nações Unidas,
adotada sob a forma de resolução da Assembleia Geral, mas não propriamente
consagrada como regra constitucional escrita, daí a necessidade da adoção de
tratados ou acordos posteriores. Obviamente que o referido contexto não
interfere na absoluta concordância da necessidade de assegurar, pelos atores
internacionais, os direitos que garantam a plena dignidade dos indivíduos.
Assim que:
Reconhece-se hoje, em toda parte, que a vigência dos direitos
humanos independe de sua declaração em constituições, leis e
tratados internacionais, exatamente porque se está diante de
exigências de respeito à dignidade humana, exercida contra todos
os poderes estabelecidos, o�ciais ou não. (COMPARATO, 2018, p. 232).
Essa garantia dos direitos humanos de forma inata e universal, segundo a
Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, promulgada pela UNESCO,
no ano de 2001, deve respeitar a diversidade cultural e o direito dos povos:
72
DIVERSIDADE CULTURAL E DIREITOS HUMANOS
Artigo 4º – Os direitos humanos, garantes da diversidade cultural
A defesa da diversidade cultural é um imperativo ético, inseparável
do respeito pela dignidade da pessoa humana. Implica o
compromisso de respeitar os direitos humanos e as liberdades
fundamentais, em particular os direitos das pessoas que pertencem
a minorias e os dos povos autóctones. Ninguém pode invocar a
diversidade cultural para violar os direitos humanos garantidos pelo
direito internacional, nem para limitar seu alcance.
Neste quadro, a diversidade cultural não pode ser invocada para impedir a
aplicação dos direitos humanos, inatos e universais, consagrados em nível
internacional. A pergunta que resta, contudo, é saber como agir nas situações
em que os supostos direitos humanos internacionalmente consagrados não
condizem com a realidade existente no contexto social no qual se pretende que
ele seja aplicado, tema que será tratado no próximo item.
³ Uma versão ampliada deste texto pode ser encontrada em: DIAS, Jefferson
Aparecido. FERRER, Walkiria Martinez Heinrich. Cultura e direitos humanos:
entre o absolutismo e o relativismo (no prelo).
O Absolutismo e o Relati�smo
Cultural
Segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos e os textos que dele
decorreram, os direitos humanos devem ser concebidos como produtos
naturais, vigentes desde o nascimento dos seres humanos, e que buscam
validade universal. Se está diante do que se pode chamar de um olhar
absolutista (ou universalista), que teria as três seguintes condições (HERRERA
FLORES, 2007, p. 58):
73
1. A crença em universalismos abstratos [...]
2. A crença na existência de uma realidade ‘absolutamente’ objetiva
[...]
3. A crença na existência de um fundamento último (originário ou
�nalista) de toda prática social garantida por alguma instância,
procedimento ou racionalidade de corte transcendental.
Por essas premissas, independentemente do seu local de nascimento, bem
como do contexto no qual estão inseridos, os seres humanos são titulares dos
mesmos direitos, que teriam validade universal e absoluta, além de serem
inatos, decorrentes da própria natureza humana. Seriam, portanto, algo
homogêneo, aplicável e exigível em todo o planeta. Nesse sentido, “o
pensamento absolutista nega, pois, toda concepção interativa do real e, com
isso, rechaça toda crítica e todo questionamento, dado que, “por natureza”, está
acima das práticas sociais que possam afetá-lo.” (HERRERA FLORES, 2007, p. 61).
Nesse cenário, como conciliar a construção de uma identidade cultural e
assegurar os direitos humanos, de forma supostamente universal? Nesta
discussão, ressalta-se o histórico embate entre as correntes universalistas e
relativistas, pelas quais se discutem os níveis de in�uência da cultura local na
de�nição dos direitos humanos universais.
Para a posição relativista, que parte da premissa de que os direitos humanos
são produtos culturais e, portanto, não inatos, três também deveriam ser as
condições a serem observadas. A primeira delas é que (HERRERA FLORES,
2007, p. 60):
1) O universalismo do fortalecimento. O único que se pode e se deve
universalizar e generalizar é que todas e todos tenham acesso a
condições materiais e imateriais que lhes permitam ter o poder
su�ciente para “fazer valer” suas propostas de um marco de
igualdade e de reconhecimento [...].
Por essa concepção, nem todos os direitos humanos internacionalmente
garantidos são aptos a serem aplicados em todos os contextos sociais da
mesma forma, sendo necessário que se leve em consideração o contexto social
local e o anseio de seus integrantes. As outras duas condições que estariam
vinculadas ao relativismo são (HERRERA FLORES, 2007, p. 60):          
74
2) A distinção entre “estados de fato” e “realidade”. Como veremos,
um “estado de fato” está aí, mais ou menos à margem de nossas
ações. Mas, a realidade nós a construímos ao nos relacionarmos –
plural e diferenciadamente – com tais estados de fato e ao
reagirmos culturalmente [...]
3) Uma �loso�a da imanência que a�rme que o único horizonte da
política, da ética e da ciência é nossa interação criativa com o
mundo.
Nesse sentido, utilizando-se dos conceitos desenvolvidos na primeira parte do
presente trabalho, não se deve (ou se pode) exigir sempre a homogeneidade
cultural (e, portanto, dos direitos humanos, como produtos culturais), sendo
possíveis situações nas quais devam prevalecer o localismo e a transculturação,
que devem decorrer de “nossa interação criativa com o mundo”.
Importante salientar, contudo, que pela posição aqui adotada, não se pode
admitir um localismo “puro”, no qual as culturas locais sempre prevaleçam
sobre todas as outras concepções culturais, pois se estaria diante de outro
universalismo, um “universalismo de retas paralelas que somente se
encontrarão no in�nito do magma das diferenças culturais.” (HERRERA
FLORES, 2007, p. 162).
Segundo Joaquín Herrera Flores, tanto o universalismo a priori, quanto o
universalismo de retas paralelas devem ser desprezados, sendo necessário
construir, por meio da interaçãohumana e cultural, um universalismo de
chegada (HERRERA FLORES, 2007, p. 162):
Ao universal, há que se chegar – universalismo de chegada ou de
con�uência – depois (não antes) de um processo de luta discursivo,
de diálogo ou de confrontação em que se rompam os preconceitos
e as linhas paralelas. Falamos do entrecruzamento de propostas, e
não de uma mera superposição.
Assim, não se pode ter concepções pré-concebidas, sejam elas globais
(universais) ou locais (particulares), pois tais posturas acabam por ignorar o
contexto social no qual estão inseridos os seres humanos e tendem a excluir do
debate os próprios seres humanos, que acabam sendo concebidos como meio
e não �m do processo de garantia de seus direitos.
Dessa forma, os debates sobre a prática de algumas tribos indígenas em
enterrar vivas crianças com alguma de�ciência física ou psíquica ou, ainda, a
prática do infanticídio do quarto �lho pelos Tapirapé, para garantir a
sobrevivência pelo controle populacional, pois, “segundo eles, a população se
75
manteria em número reduzido (aproximadamente 1000 habitantes) e poderia
garantir que o ecossistema local supriria as necessidades de sobrevivência do
grupo” (PINEZI, 2010) devem ser realizados dentro de seus contextos sociais e
sem preconceitos, pois, a�nal, tais práticas não são muito diferentes da adotada
por uma médica que decide abreviar a vida de pacientes terminais para liberar
leitos em UTI, para que eles possam receber pacientes com melhor prognóstico
de vida e é absolvida (NUNES, 2017) ou da decisão de um tribunal inglês que
impediu a transferência para os Estados Unidos de criança portadora de uma
doença rara, que acabou morrendo (G1, 2017).
Se o direito humano à vida é inato, absoluto e universal, como justi�car tais
condutas? Elas, na verdade, apenas demonstram que, efetivamente, o direito à
vida não possui a validade universal que a priori lhe é atribuída, ou seja, para ser
efetivado, ele depende do contexto no qual os seres humanos estão inseridos.
Assim, essa pergunta, para ser respondida, depende de um amplo debate, no
qual os envolvidos, desprovidos de qualquer preconceito, possam buscar
caminhos para que os direitos humanos sejam analisados e postos à prova, a
�m de que, ao �nal, se for o caso, sejam universalizados. Nesse cenário,
portanto:
O único universalismo válido consiste, então, no respeito e na
criação de condições sociais, econômicas e culturais que permitam
e potencializem a luta pela dignidade ou, em outras palavras, na
generalização do valor da liberdade, entendida esta como a
“propriedade” dos que nunca contaram na construção das
hegemonias. A partir dessa caracterização, é necessário abandonar
toda abstração – seja esta universalista ou localista – e assumir o
dever que nos impõe o valor da liberdade: a construção de uma
ordem social justa (artigo 28 da Declaração de 1948) que permita e
garanta a todas e a todos lutar por suas reivindicações. (HERRERA
FLORES, 2007, p. 162).
Dessa forma, no que diz respeito aos direitos humanos, não é possível admitir a
homogeneização cultural pretendida pela globalização no aspecto econômico
(que se baseia e tenta justi�car um universalismo a priori), tampouco a
prevalência do localismo (que acaba por gerar um universalismo de retas
paralelas). Deve-se buscar, incansavelmente, um universalismo de chegada.
Assim, ao analisar os exemplos apresentados, é bem provável que se chegue à
conclusão de que a atuação humana não foi capaz de criar as “condições
sociais, econômicas e culturais” para que o direito à vida fosse efetivamente
respeitado, apesar de garantido não apenas em nível internacional, mas
também nos ordenamentos jurídicos locais.
76
No mesmo sentido, a propriedade privada, que aportou em solo latino-
americano vindo da Europa, pode e deve dialogar com o conceito de
propriedade comunitária ou coletiva, do art. 393 e seguintes da Constituição
boliviana (BOLÍVIA, 2019), da mesma forma que o meio ambiente sustentável,
garantido como direito humano por documentos internacionais pode ser
mesclado com o conceito de “pacha mama” trazido pela Constituição do
Equador (ECUADOR, 2008).
Nesse caminho, contudo, como concluiu Joaquín Herrera Flores, “não temos
feito mais que começar.” (HERRERA FLORES, 2007, p. 162).
77
11
Os Direitos 
Fundamentais na 
Constituição de 1988
A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 foi generosa na
consagração de direitos fundamentais, tendo destinado o Título II, aos “Direitos
e Garantias Fundamentais” e, nele, tratado no Capítulo I, “Dos direitos e deveres
individuais e coletivos” (art. 5º); no Capítulo II, “Dos direitos sociais” (arts. 6º a 11);
no Capítulo III, “Da nacionalidade” (arts. 12 e 13); no Capítulo IV, “Dos direitos
políticos” (arts. 14 a 16); e no Capítulo V, “Dos partidos políticos” (art. 17).
A colocação dos direitos fundamentais já no início do texto constitucional, por si
só, demonstra a importância que lhe foi atribuída pelo constituinte de 1988,
pois, a   título de comparação, na Constituição de 1967, os direitos e garantias
individuais foram previstos nos arts. 150 e 151 e, na Constituição de 1946, nos
arts. 141 e 144 (CAMPANHOLE; CAMPANHOLE, 2000, p. 407-410 e 487-490).
Além dessa antecipação no texto constitucional, os direitos e garantias
fundamentais ganharam uma importante proteção diante de futuras
alterações da Constituição, pois o art. 60, §4º, prevê que
§ 4º Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente
a abolir:
I - a forma federativa de Estado;
II - o voto direto, secreto, universal e periódico;
III - a separação dos Poderes;
IV - os direitos e garantias individuais.
Assim, os direitos e garantias individuais, ao lado da forma federativa de Estado,
o voto (direto, secreto, universal e periódico) e a separação dos Poderes
compõem o núcleo intangível e imodi�cável do texto constitucional, chamados,
por alguns autores, de cláusulas pétreas. São imutáveis e considerados a
essência do regime democrático adotado pela Constituição.
Interessante destacar que não apenas os direitos e garantias fundamentais
expressamente previstos no art. 5º da Constituição estão protegidos, pois o
texto constitucional foi expresso em a�rmar que (BRASIL, 1988):
§ 2º Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não
excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela
adotados, ou dos tratados internacionais em que a República
Federativa do Brasil seja parte.
§ 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos
que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em
dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros,
serão equivalentes às emendas constitucionais. (Incluído pela
Emenda Constitucional nº 45, de 2004).
79
Ao rol previsto no art. 5º precisam ser incorporados, assim, os direitos e
garantias fundamentais que “decorrem do regime e dos princípios por ela
adotados” e, ainda, os direitos e garantias trazidos por tratados e convenções
sobre direitos humanos aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em
dois turnos, por três quintos dos votos.
Obtiveram esse quórum especial de votação e, portanto, devem ser
considerados como inseridos no texto constitucional e impossíveis de serem
modi�cados os direitos e garantias fundamentais constantes dos seguintes
tratados e convenções:
Note-se que, para que um tratado ou convenção internacional passe a ter
validade no Brasil, ele precisa ser aprovado pelo Congresso Nacional, por meio
de um Decreto Legislativo, e, posteriormente, promulgado por meio de um
Decreto do Presidente da República, trâmite que efetivamente ocorreu nos dois
casos acima indicados. Piovesan (2018b, p. 128), contudo, apresenta alguns
problemas com a sistemática adotada pela constituição:
11
Convenção sobre os Direitos das Pessoas com De�ciência
e de seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova Iorque,
em 30 de março de 2007 (aprovada pelo Decreto
Legislativo nº 186 de 2008 e promulgada pelo Decreto nº
6.949, de25/08/2009).
22
Tratado de Marraqueche para Facilitar o Acesso a Obras
Publicadas às Pessoas Cegas, com De�ciência Visual ou
com outras Di�culdades para Ter Acesso ao Texto
Impresso, concluído no âmbito da Organização Mundial
da Propriedade Intelectual (OMPI), celebrado em
Marraqueche, em 27 de junho de 2013 (aprovado pelo
Decreto Legislativo nº 261 de 2015 promulgado pelo
Decreto nº 9.522, de 08/10/2018).
80
[...] a Constituição brasileira de 1988, ao estabelecer apenas esses
dois dispositivos supracitados (os arts. 49, I, e 84, VIII), traz uma
sistemática lacunosa, falha e imperfeita: não prevê, por exemplo,
prazo para que o Presidente da República encaminhe ao Congresso
Nacional o tratado por ele assinado. Não há ainda previsão de prazo
para que o Congresso Nacional aprecie o tratado assinado,
tampouco previsão de prazo para que o Presidente da República
rati�que o tratado, se aprovado pelo Congresso. Essa sistemática
constitucional, ao manter ampla discricionariedade aos Poderes
Executivo e Legislativo no processo de formação dos tratados, acaba
por contribuir para a afronta ao princípio da boa-fé vigente no
Direito Internacional.
Diante desses problemas, alguns tratados e convenções internacionais
demandam um grande lapso temporal antes de entrar em vigor em solo
brasileiro, apesar de ter sido assinado pelo Presidente da República.
Outra polêmica diz respeito aos tratados e convenções internacionais sobre
direitos humanos aprovados antes da Emenda Constitucional nº 45 (BRASIL,
2004), que passou a exigir o quórum quali�cado (3/5) e aprovação de dois
turnos de votação para que os preceitos por eles trazidos passassem a ter status
constitucional.
Piovesan (2018b, p. 151) é enfática em defender que os direitos humanos
contemplados nesses tratados e convenções foram incorporados no
ordenamento jurídico brasileiro com hierarquia constitucional, diante de quatro
argumentos:
[...] ou seja, anteriormente à Emenda Constitucional n. 45/2004, têm
hierarquia constitucional, situando-se como normas material e
formalmente constitucionais. Esse entendimento decorre de quatro
argumentos: a) a interpretação sistemática da Constituição, de
forma a dialogar os §§ 2º e 3º do art. 5º, já que o último não revogou
o primeiro, mas deve, ao revés, ser interpretado à luz do sistema
constitucional; b) a lógica e racionalidade material que devem
orientar a hermenêutica dos direitos humanos; c) a necessidade de
evitar interpretações que apontem a agudos anacronismos da
ordem jurídica; e d) a teoria geral da recepção do Direito brasileiro.
Assim, além dos direitos e garantias fundamentais expressa e implicitamente
previstos no texto constitucional, também  possuem o mesmo status aqueles
decorrentes de tratados e convenções internacionais aprovados antes ou
81
depois da Emenda Constitucional nº 45 (BRASIL, 2004), exigindo-se o quórum
quali�cado e a dupla aprovação apenas para aqueles aprovados depois da
vigência da Emenda.
CONECTE-SE
Na página da Presidência da República é possível veri�car quais os
tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos trazem
preceitos que possuem hierarquia constitucional.
82
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12
Solução para a Colisão 
de Princípios
Na vida em sociedade, seja nas relações entre particulares ou entre estes e o
Poder Público, as normas desempenham papel fundamental para estabelecer
as condutas que devem ser adotadas ou, ainda, as consequências que deverão
ocorrer diante de condutas indesejadas.
As normas, assim, são razões para se agir desta ou daquela forma, dependendo
dos objetivos que se pretende atingir ou as consequências que se pretende
evitar. Também nos con�itos de interesses, as normas são importantes para
estabelecer qual interesse deverá prevalecer e qual sucumbirá.
Na maioria dos casos, esses con�itos são facilmente solucionáveis pela
aplicação das regras estabelecidas pelo legislador no ordenamento jurídico,
regras que, de forma simples, estabelecem algumas situações nas quais serão
aplicadas, existindo outros casos mais complexos, que demandarão a aplicação
de princípios para a solução da colisão (DWORKIN, 2002, p. 46).
Esses choques serão solucionados de forma diversa, de acordo com a natureza
das normas que se entrechocam, ou seja, dependendo se neles ocorre um
con�ito de regras ou uma colisão de princípios.
Em alguns casos, deparamo-nos com um con�ito de regras em que a aplicação
de uma exclui a possibilidade de aplicação da outra, cabendo ao intérprete (ou
mesmo ao Poder Judiciário) a solução deste con�ito.
Nestes casos, o con�ito entre as regras poderá ser solucionado:
�. pela inclusão de uma cláusula de exceção em uma das regras;
�. pelo reconhecimento de invalidade de uma das regras, eliminando-a do
ordenamento jurídico; ou
�. pela conclusão de inaplicabilidade de uma das regras ao caso.
Se uma regra impõe uma conduta e outra a proíbe, é impossível a coexistência
de ambas, sendo necessário que uma delas seja reconhecida inválida e
eliminada do ordenamento jurídico, ou que seja incluída uma cláusula de
exceção em uma delas ou, ainda, que seja reconhecida a inaplicabilidade de
uma delas no caso concreto.
Outras situações, porém, não admitem a solução do con�ito pela inclusão de
cláusula de exceção em uma das regras, ocasião em que teremos de usar
outros métodos para reconhecermos qual regra deverá prevalecer e solucionar
o con�ito.
Dentre esses métodos, poderemos prestigiar a regra mais nova em face da
anterior, a regra especial em face da geral e, ainda, veri�car as competências e
atribuições para o estabelecimento das regras, adotando aquela exarada pela
84
autoridade competente ou hierarquicamente superior. Em todos estes casos, os
con�itos serão solucionados pelo reconhecimento de invalidade de uma regra
em relação à outra ou de inaplicabilidade de uma das regras no caso concreto.
Os con�itos entre regras, portanto, devem ser solucionados numa perspectiva
de “tudo ou nada” (DWORKIN, 2002, p. 39), em que uma regra é ou não
aplicada, não se admitindo a aplicação gradual delas.
Além do con�ito entre regras, algumas vezes nos deparamos com situações nas
quais um princípio impõe uma solução que, por sua vez, acaba por afrontar
outro princípio. As colisões entre princípios, concebidos como mandamentos
de otimização, não admitem uma solução de tudo ou nada e impõem uma
ponderação para a sua resolução.
Partindo da premissa de que em algumas colisões de princípios todos podem,
num primeiro momento, ser aplicados ao caso concreto, não sendo o caso de
aplicarmos uma relação de precedência previamente estabelecida,
precisaremos veri�car em quais condições um dos princípios terá precedência
sobre os demais.
Deveremos analisar quais os princípios colidentes são aplicáveis ao caso
concreto e veri�car qual deles deve prevalecer por meio de uma ponderação,
utilizando uma relação de precedência condicionada (ALEXY, 1993, p. 92), na
qual deverá ser avaliado qual o peso que cada princípio possui no caso
especí�co.
Imaginemos um princípio P1 e outro princípio P2, ambos aplicáveis a um caso
concreto, mas que levariam a resultados diferentes.
Diante dessa colisão, precisaremos veri�car qual princípio deve prevalecer
sobre o outro, e para tanto, deveremos veri�car quais as condições especí�cas
daquele caso concreto.
As soluções possíveis para esta colisão de princípios podem ser representadas
pelas seguintes fórmulas, nas quais “p” signi�ca a prevalência de um princípio
em face do outro, e “C”, as condições nas quais isto ocorrerá:
�. P p P
�. P p P
�. P p P2 C
�. P p P C
As duas primeiras fórmulas de solução são as adotadas quando aplicamos
relações de precedência previamente estabelecidas, ou se admitíssemos a
existência de um princípio absoluto, uma vez que são incondicionadas, ou seja,
independem das condições do caso concreto.
1 2
2 1
1 1
2 1 2
85
Já as duas últimas representam uma relação de precedência condicionada,
pela qual devemosanalisar as condições do caso concreto e veri�car qual dos
princípios (P1 ou P2), nestas circunstâncias, tem um peso maior em relação ao
outro, como se utilizássemos a balança de Themis e, dependendo do lado para
o qual pender a balança, um dos princípios deverá prevalecer sobre o outro no
caso apresentado, sem que isto resulte na sua invalidação ou inaplicabilidade
do princípio preterido.
Ambos os princípios colidentes deverão ser respeitados, porém, em graus
diferentes, pois, ao prestigiarmos um princípio em relação ao outro, não
podemos eliminar ou mesmo não aplicar de forma completa o princípio
preterido, uma vez que todos os princípios válidos possuem um núcleo
intangível que sempre coexistirá com os outros princípios aplicados ao caso
concreto.
Os princípios concebidos como mandatos de otimização podem ser
representados por meio de um grá�co de círculos concêntricos de diferentes
tamanhos, no qual o círculo central representa o núcleo intangível que sempre
sobreviverá a todas as colisões com outros princípios, somente desaparecendo
nos excepcionais casos em que reconhecermos a invalidade de um deles.
Numa outra colisão entre os mesmos princípios, sob condições diferentes, o
princípio ora preterido poderá prevalecer sobre o outro, sempre de acordo com
o caso concreto. Assim, tal qual o encontro das águas de dois rios de colorações
diversas, em que ora prevalece a coloração de um e ora prevalece a coloração
do outro de acordo com as condições climáticas, como a precipitação
pluviométrica enfrentada por eles no seu curso, também os princípios cedem
mutuamente e são aplicados gradualmente, ora prevalecendo um, ora o outro
de acordo com as condições do caso concreto, mas sempre sobrevivendo e
sendo aplicados os princípios colidentes.
Importante destacar, ainda, que em todos os casos a constrição de um dos
princípios deverá corresponder à maior aplicação do outro, ou seja, ao
limitarmos a aplicação de um princípio, restringido o seu conteúdo, deveremos,
pelo menos na mesma proporção, ampliar o conteúdo do princípio que
concluirmos preponderante naquele caso.
No caso brasileiro, o desenvolvimento de uma cultura de ponderação na
aplicação da Constituição é imprescindível, pois o constituinte optou por
organizar todo o sistema jurídico a partir de princípios expressos no texto
constitucional, inovando a ponto de estabelecer expressamente quais os
princípios que devem nortear a atuação da Administração Pública.
86
13
Igualdade na Ordem 
Constitucional
A Constituição de 1988, no caput do seu art. 5º, prevê expressamente que:
“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se [...] a inviolabilidade do direito à [...] igualdade” e complementa
em seu inciso I que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações,
nos termos desta Constituição”.
A partir de tal preceito e dos demais conceitos que são atribuídos ao princípio
da igualdade, ele frequentemente é analisado em dois aspectos: a igualdade
material e a igualdade formal.
Como igualdade material, teríamos o tratamento equivalente que deve ser
dispensado para todos os seres humanos, de acordo com as suas características
pessoais e com o objetivo de superar eventuais di�culdades geradas pela
desigualdade natural entre as pessoas.
Nas precisas palavras de Boaventura de Souza Santos (2003, p. 56), “[...] temos o
direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a
ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade
de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não
produza, alimente ou reproduza as desigualdades”. Assim, tratamento
igualitário não é aquele que possui as mesmas características, mas sim aquele
que busca os mesmos resultados, apesar das diferenças entre as pessoas.
Além dessa igualdade material, também existe a igualdade formal, conhecida
como isonomia, que é a igualdade perante a lei. Segundo essa igualdade
formal, todos são iguais perante a lei, sendo vedadas práticas discriminadoras.
Tal preceito está consagrado no art. 5º de nossa Constituição, o qual sentencia
que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade”.
Uma análise mais detida da igualdade formal deixa claro que ela não é
su�ciente para garantir direitos e promover justiça, já que tratar igualmente os
desiguais acaba sendo tão injusto quanto tratar desigualmente os iguais, razão
pela qual ganha importância a igualdade material.
Nesse sentido, é bastante interessante a lição de Amartya Sen (2001), que
defende que, por serem as pessoas naturalmente desiguais, é necessário
estabelecer quais aspectos da vida são importantes a ponto de merecerem
tratamento materialmente igualitário e, a partir de então, adotar medidas
práticas visando garanti-lo. Tal tratamento igualitário tem um aspecto
importante da vida, porém, representará um reconhecimento, expresso ou
tácito, de que outros aspectos da vida serão colocados em segundo plano.
Nas palavras da autora (2001, p. 51):
88
Fossem todas as pessoas exatamente similares, a igualdade em um
espaço (p. ex., rendas) tenderia a ser congruente com as igualdades
em outros (p. ex., saúde, bem-estar, felicidade). Uma das
consequências da “diversidade humana” é que a igualdade num
espaço tende a andar, de fato, junto com a desigualdade noutro.
Assim, ao de�nir as cotas sociais nos vestibulares, os seus organizadores
expressamente abrem mão de tratamento igualitário no quesito nota, já que
poderá ocorrer a aprovação de alunos com notas divergentes, justamente para
ampliar o acesso ao ensino superior para determinadas pessoas.
Nas palavras de Celso Antonio Bandeira de Mello (1999, p. 18):
Com efeito, por via do princípio da igualdade, o que a ordem jurídica
pretende �rmar é a impossibilidade de desequiparações fortuitas ou
injusti�cadas. Para atingir este bem, este valor absorvido pelo
Direito, o sistema normativo concebeu fórmula hábil que interdita, o
quanto possível, tais resultados, posto que, exigindo igualdade,
assegura que os preceitos genéricos, os abstratos e atos concretos
colham a todos sem especi�cações arbitrárias, assim proveitosas
que detrimentosas para os atingidos.     
Assim, eventuais tratamentos desiguais se justi�cam justamente na
desigualdade das pessoas, razão pela qual devemos �car atentos, pois vivemos
numa época em que muito se fala sobre a igualdade e suas consequências
para o dia a dia.
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Muitos defendem uma igualdade plena, mas não se dão conta que, ao tratar
igualmente os desiguais, provavelmente acabaremos por gerar graves violações
a direitos humanos. Por outro lado, estabelecer tratamento desigual para
pessoas iguais também pode resultar em privilégios indevidos.
CONECTE-SE
Um instrumento muito utilizado para tentar promover igualdade
material tem sido o estabelecimento de cotas, tanto no ensino
superior, quanto em concursos públicos para cargos do Governo
Federal. Para saber mais sobre o tema, que tal consultar algumas leis?
Veja: BRASIL. Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012. Dispõe sobre o
ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de
ensino técnico de nível médio e dá outras providências.
BRASIL. Lei nº 12.990, de 9 de junho de 2014. Reserva aos negros 20%
(vinte por cento) das vagas oferecidas nos concursos públicos para
provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da
administração pública federal, das autarquias, das fundações
públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista
controladas pela União.
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Realmente, o fato de sermos desiguais impõe a necessidade de elegermos os
aspectos nos quais queremos ser tratados com “igualdade”, bem como em
admitir que em outros aspectos sejamos tratadosde forma “desigual”.
Na atualidade, a título de exemplo, uma das dúvidas é se homens e mulheres
devem se aposentar na mesma idade e mediante as mesmas regras, ou se deve
ser mantida uma idade inferior (cinco anos a menos) para as mulheres.
Alguns defendem que a diferença de idade ainda se justi�ca porque as
mulheres continuam a suportar de forma mais intensa as atividades
domésticas e, portanto, ostentam uma dupla jornada. Outros, por outro lado,
defendem que a igualdade buscada pelas mulheres em relação aos homens
impõe a �xação de uma mesma idade, com as mesmas regras.
Não pretendo apresentar a minha opinião especí�ca sobre esse tema, mas
acho que precisamos eliminar de�nitivamente de nossos vocabulários, no que
diz respeito às atividades domésticas, as “coisas de homem” e as “coisas de
mulher”.
Assim, inadmissível que sejam consideradas como atividades exclusivamente
femininas a conduta de lavar e passar roupas, cozinhar, lavar pratos, etc. Não é
possível que ainda considere uma conduta digna de elogios a prática do
marido que “ajuda” a mulher nas atividades domésticas.
A�nal, se todos estamos concordes que se deve buscar a igualdade em alguns
aspectos, é imprescindível que homens e mulheres “dividam” as
responsabilidades domésticas da forma mais adequada para que ambos
possam realizar as suas atividades usuais sem se sentirem sobrecarregados.
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NA PRÁTICA
Situação peculiar no Brasil é a dos casais homoafetivos que, apesar de
não terem os seus direitos reconhecidos expressa e formalmente por
leis (aqui concebidas em sentido formal), tiveram seus direitos
reconhecidos e garantidos a partir de decisões judiciais, por meio da
aplicação do princípio da igualdade. A�nal, os direitos garantidos aos
casais heteroafetivos realmente precisam ser garantidos aos casais
homoafetivos. Um rol dessas decisões pode ser consultado em:
DIREITO HOMOAFETIVO. Consolidando conquistas. Jurisprudência.
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Liberdade na Ordem 
Constitucional
No dia 6 de janeiro de 1941, durante o seu discurso do Estado da União, perante
o Congresso norte-americano, o então Presidente Franklin D. Roosevelt
defendeu que aos seres humanos é necessário que sejam garantidas quatro
liberdades essenciais: a liberdade de expressão, a liberdade religiosa, a
liberdade de viver sem penúria e a liberdade de viver sem medo (COMPARATO,
2018).
Esse discurso e as quatro liberdades defendidas por Roosevelt foram
expressamente citados como fontes de inspiração para a Declaração Universal
dos Direitos Humanos, aprovada pela ONU (Organização das Nações Unidas)
em 10 de dezembro de 1948. A partir de então, tais liberdades ganharam
formalmente o status de direitos humanos (COMPARATO, 2018).
No caso da Constituição brasileira, foram contempladas expressamente a
liberdade de expressão e, também, a liberdade religiosa, mas, paralelo a estas,
também foi prevista a liberdade em sentido geral, que contemplaria as outras
duas liberdades defendidas por Roosevelt.
Liberdade de Expressão
A liberdade de expressão, no caso do Brasil, é expressamente prevista na
Constituição de 1988 que, em seu art. 5, inciso IV, estabelece que “é livre a
manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato” (BRASIL, 1988) e,
em seu inciso IX, que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística,
cientí�ca e de comunicação, independentemente de censura ou licença.”
(BRASIL, 1988).
O texto constitucional brasileiro não é tão amplo quanto o consagrado pela
Constituição Espanhola de 1978, que prevê em seu art. 20 (ESPANHA, 1978, p.
12): “Se reconhecem e protegem os direitos: a) a expressar e difundir livremente
os pensamentos, ideias e opiniões mediante a palavra, o escrito ou qualquer
outro meio de reprodução; b) à produção e criação literária, artística, cientí�ca e
técnica; c) à liberdade de cátedra; e d) a comunicar ou receber livremente
informação verdadeira por qualquer meio de difusão. A lei regulará o direito à
cláusula de consciência e ao segredo pro�ssional no exercício dessas
liberdades”.
Apesar disso, é possível extrair do texto da Constituição de 1988 que a liberdade
de cátedra, bem como as demais liberdades previstas no texto espanhol,
também estão amparadas pela liberdade de expressão.
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Diante desse cenário, vê-se que, de um lado, o direito de expressar-se
livremente é fundamental para os seres humanos, mas, por outro, que tal
liberdade não é absoluta e, de nenhuma forma, inconsequente. Isso ocorre
porque ao meu direito de expressar-me livremente soma-se o direito do outro
também expressar-se livremente, o que impõe, no caso de discordância de
discursos, que ambos tenhamos a capacidade de respeitar-nos mutuamente.
Esse respeito mútuo em caso de discursos dissonantes, infelizmente, tem sido
raro há alguns anos, num contexto em que “esquerda” e “direita” elegem-se
mutuamente como inimigos, alimentando um discurso de ódio que se
alimenta de si mesmo (MACHADO; DIAS; FERRER, 2018).
Claro que os excessos devem ser prevenidos e, caso ocorram, punidos, mas é
necessário que a liberdade de expressão reencontre o campo do diálogo, no
qual juntos possamos construir as melhores soluções para todos. Precisamos,
de�nitivamente, substituir o “eu” e o “outro” pelo “nós”!!
Liberdade Religiosa
A liberdade religiosa, em certa medida, foi substituída pelo conceito do
princípio da liberdade de crença e não crença. Claro que não se trata de um
conceito novo, mas me pareceu bastante interessante a utilização dessa
expressão e não a expressão que é mais usual, que é a do princípio da liberdade
religiosa.
O atual fundamento jurídico para ambos os princípios é encontrado no art. 5º,
inciso VI, da Constituição, que prevê que “é inviolável a liberdade de consciência
e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida,
na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.
Realmente, quando optamos por utilizar a expressão “liberdade religiosa”,
parece que estamos excluindo a possibilidade de um cidadão optar pela “não
religião”, ou seja, a liberdade que cada um tem de ser ateu. Neste ponto, a
adoção do princípio de crença e não crença traz explícita esta possibilidade.
Este suposto detalhe é bastante importante, pois é crescente o número de
pessoas que declaram ser ateias. No caso do Brasil, não existem dados o�ciais,
mas existem países em que os ateus são a maioria. A título de exemplo, na
Suécia, 85% da população é ateia ou não tem religião (SANT’ANA, 2018).
Impossível imaginar que estas pessoas ateias não possuam o direito de não
professar qualquer crença.
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Além disso, ao usarmos o princípio da  liberdade religiosa, pode-se argumentar
que acabamos por restringir a liberdade das pessoas, pois estas, em tese,
estariam na posição de poder escolher sua religião dentre um rol pré-
estabelecido de religiões existentes e reconhecidas.
Assim, estariam excluídas aquelas pessoas que, a despeito de não serem ateias,
não se identi�cam com qualquer religião especí�ca e, assim, consideram-se
“sem religião”. Este grupo é dos que mais cresce no Brasil (junto com os que se
declaram evangélicos) e já representam 8% da população segundo dados do
Censo de 2010 do IBGE (G1, 2012).
É certo que alguns autores defendem que a liberdade religiosa é mais ampla e
inclui a opção de escolher qualquer prática religiosa mesmo que ela não seja
reconhecida o�cialmente, ou seja, o cidadão poderia optar por uma religião só
dele, uma religião própria e individual.
Contudo, a adoção do princípio da liberdade de crença e não crença elimina
qualquer possibilidade de dúvida, deixando claro que tal aspecto da liberdade
inclui a possibilidade de o cidadão professar ou não qualquer fé.
O fortalecimento de tal princípio, por outro lado, também permite o
consequente fortalecimento da laicidade do Estado, uma vez que traz expressa
a necessidade do Estado prestigiar os dois polos da liberdade, pois, ao deixar
claro que tanto a crença como a não crençadevem ser respeitadas, resta ao
Estado apenas adotar a imparcialidade, a neutralidade e a equidistância que
dele se exige.
Assim, nas palavras do Ministro Marco Aurélio, no julgamento da ADPF 54/DF
(BRASIL, 2013): 
Não se cuida apenas de ser tolerante com os adeptos de diferentes
credos pací�cos e com aqueles que não professam fé alguma. Não
se cuida apenas de assegurar a todos a liberdade de frequentar esse
ou aquele culto ou seita ou ainda de rejeitar todos eles. A liberdade
religiosa e o Estado laico representam mais do que isso. Signi�cam
que as religiões não guiarão o tratamento estatal dispensado a
outros direitos fundamentais, tais como o direito à
autodeterminação, o direito à saúde física e mental, o direito à
privacidade, o direito à liberdade de expressão, o direito à liberdade
de orientação sexual e o direito à liberdade no campo da
reprodução.
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NA PRÁTICA
O CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) possui duas
publicações nas quais defende a adoção do estado laico e a liberdade
de crença e não-crença. Para saber mais: BRASIL. Conselho Nacional
do Ministério Público. Em defesa do estado laico: coletânea de
artigos. Vol. 1. Brasília: CNMP, 2014.
BRASIL. Conselho Nacional do Ministério Público. Em defesa do
estado laico: prática processual. Vol. 2. Brasília: CNMP, 2014.
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https://go.eadstock.com.br/ebp
https://go.eadstock.com.br/ebq
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Fraternidade na Ordem 
Constitucional
A Constituição brasileira de 1988 não possui, em seu texto, a palavra
“fraternidade” como era de se esperar, já que ela, ao lado da igualdade e da
liberdade, compõe os ideais que inspiraram o movimento iluminista que
resultou na Revolução Francesa, marco na consagração dos direitos humanos.
Apesar dessa omissão, outras palavras e expressões contidas no texto
constitucional trazem na sua essência a mesma proposta da fraternidade.
Nesse sentido, o preâmbulo da Constituição prevê que dentre os seus objetivos
está a garantia de uma “sociedade fraterna” e, em seu art. 3º, que:
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as
desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça,
sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Assim, construir uma sociedade fraterna e solidária é um dos objetivos
fundamentais da República Federativa do Brasil. Mas, a�nal, qual o conceito
que deve ser atribuído à palavra solidariedade?
Segundo Silva (2013, p. 1):
A solidariedade passa pela empatia, mas nela não se encerra. Ao
contrário, vai além dela. Enquanto a empatia é a capacidade de se
colocar no lugar do outro, a solidariedade consiste na preocupação
com a situação alheia e na tomada de ações para minimizar o
sofrimento do próximo.        
Assim, o agir solidário pressupõe uma preocupação com o outro e com o seu
bem-estar, pois o objetivo é que o viver bem seja uma realidade compartilhada
por todos dentro da sociedade. Nas palavras de Eros Grau (2006, p. 215):
Solidária a sociedade que não inimiza os homens entre si, que se
realiza no retorno, tanto quanto historicamente viável, à Gesellschaft
– a energia que vem da densidade populacional fraternizando e não
afastando os homens uns dos outros.
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Assim, a solidariedade pressupõe uma inter-relação entre os seres humanos e,
apesar de ter aplicação plena em todos os âmbitos da relação do Estado com o
cidadão e na própria relação entre cidadãos, sua repercussão ocorre de forma
especial em algumas temáticas, nas quais a sua in�uência é ainda maior.
Em primeiro lugar, a solidariedade é imprescindível para a manutenção de uma
República, na qual os direitos de todos precisam ser respeitados e exercidos
harmonicamente, além de existir, ao lado dos bens de cada um, os bens que
são de todos, a res publica, os quais precisam ser utilizados visando atender o
interesse da coletividade.
Além de ser um fundamento da República, a solidariedade também merece
especial atenção no campo do Meio Ambiente, pois cabe à geração atual agir
de forma a garantir um meio ambiente ecologicamente equilibrado para as
futuras gerações, conforme preceitua o art. 225 da Constituição (BRASIL, 1988):
Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia
qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o
dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras
gerações.
Trata-se da chamada solidariedade intergeracional, que impõe a uma geração
obrigações em relação a outras gerações, a partir da qual “[...] há um vínculo
jurídico que, pela atual Constituição, se desenvolve como “contrato de justiça
social”, com a obrigação solidária de distribuir as vantagens e as onerosidades
da sociedade política, da sociedade do risco.” (KÖLLING; MASSAÚ; DAROS, 2016,
p. 262).
Assim, a distribuição das vantagens e onerosidades não deve se dar apenas
entre a presente geração, mas também envolver as futuras gerações de forma a
permitir que eles possam ter garantido um meio ambiente equilibrado. Em
razão disso, ao adotar medidas no presente, há que se pensar no futuro,
também.
Esse é um grande desa�o, pois, conforme nos alerta Oscar Vilhena Vieira,
muitas vezes os seres humanos não são aptos a identi�car e proteger as suas
metas de longo prazo, que “constantemente são subavaliadas por maiorias
ávidas por maximizar seus interesses imediatos” (VIEIRA, 1997, p. 54). Em razão
dessa tendência para a não solidariedade, as Constituições modernas acabam
adotando mecanismos de autolimitação ou pré-comprometimento, que
atuariam como reserva de justiça (VIEIRA, 1997) e muitos deles baseados na
solidariedade, inclusive intergeracional.
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A solidariedade também ocupa posição de destaque no sistema de Previdência
Social e de Saúde Suplementar. No caso da Previdência Social, os segurados
contribuem não apenas para os seus próprios benefícios, mas também para os
benefícios a serem recebidos por outros segurados. O próprio Governo e os
empregadores também contribuem para o Sistema. Assim, o fato de um
segurado contribuir por dezenas de anos e, depois, não se aposentar, não o
autoriza a receber de volta o valor das contribuições que recolheu, uma vez que
elas são utilizadas para garantir o pagamento de outros segurados.
O mesmo ocorre no âmbito da Saúde Suplementar, pois os Planos de Saúde
promovem o rateio dos custos dos procedimentos para todos os titulares dos
planos, não existindo uma relação direta entre as mensalidades pagas e os
valores utilizados nos procedimentos.
Nos dois casos, todos contribuem para todos, numa lógica de solidariedade que
é da essência dos referidos sistemas.
PARA GABARITAR
Uma opção para o sistema baseado na solidariedade é o chamado de
sistema de capitalização. No caso da Previdência Social, com o
sistema de capitalização, o trabalhador recolheria contribuições para
a própria aposentadoria. O mesmo ocorreria no caso dos Planos de
Saúde, no qual o consumidor recolheria mensalidades para uma
conta individual e, posteriormente, ao realizar procedimentos,
descontaria os respectivos valores da mencionada conta. O tema é
bastante polêmico e ainda causa bastante insegurança (BRASIL.
Senado Federal. Capitalização prevista na reforma da previdência
provoca incertezas).
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Temos Direitos Humanos! 
E os Nossos Deveres?
Um dos livros mais famosos do jus�lósofo Norberto Bobbio se chama “A Era dos
Direitos”. Nele, o autor italiano defende que já não precisamos discutir a origem
dos direitos ou mesmo os seus fundamentos, uma vez que eles já foram
estabelecidos, cabendo, a partir de agora, começar a discutir como efetivar tais
direitos.
Tenho algumas reservas com relação a esta a�rmação, pois a maioria dos ditos
“direitos humanos” atualmente vigentes foram estabelecidos no mundo
ocidental,por homens, religiosos, brancos, heterossexuais, magros e
proprietários.
A consequência disso é que muitos dos direitos vigentes não se aplicam às
pessoas que não preenchem os pré-requisitos dos seus criadores, ou seja,
muitas vezes as mulheres, os não religiosos, os negros, os de�cientes, os
homossexuais, os gordos e os trabalhadores não proprietários são
simplesmente excluídos do rol de pessoas reconhecidas como titulares de
direitos. Na aula de hoje, porém, não pretendo analisar os direitos das minorias,
mas sim os deveres da maioria.
Neste aspecto, é interessante observar que falamos muito de direitos e, por
outro lado, quase não discutimos os nossos deveres. Infelizmente, em nosso dia
a dia, é comum pessoas que acham que elas apenas têm direitos, sendo
impensável imaginar que tais direitos possam trazer, como acompanhamento,
um rol de deveres. O outro, nessa lógica, não é concebido como alguém
também titular de direitos. O outro é, simplesmente, o inimigo.
Essa postura é lamentável, uma vez que faz com que a vida em sociedade
perca muito de seus atrativos e, às vezes, se torne um fardo quase que
insuportável de ser carregado. É imprescindível uma mudança de paradigma,
com a adoção de uma nova lógica que reconheça que, além dos direitos, que
devem ser respeitados por todos e pelo Poder Público, também temos deveres
que precisamos observar, não apenas em relação ao outro e à natureza, mas,
também, em face do Poder Público.
Canotilho (1998) defende a existência de duas espécies de deveres: os  conexos,
com direitos fundamentais (ou deveres fundamentais correlativos a direitos) e
os deveres autônomos. No caso dos deveres conexos com direitos
fundamentais, a sua observância é obrigatória para que possam ser garantidos
os direitos fundamentais de todos, razão pela qual a todos são impostos
deveres fundamentais. É o caso do meio ambiente que, conforme já
mencionado, exige que todos atuem com o dever de garantir um meio
ambiente ecologicamente equilibrado.
Ao lado de tais deveres, existem autônomos, como o dever de pagar impostos,
o dever de fazer com que a propriedade cumpra a sua função social, dever de
defesa da pátria, etc. São deveres que não estão diretamente relacionados a
103
direitos fundamentais (CANOTILHO, 1998).
Interessante destacar que nos Sistemas de Direitos Humanos, tanto Global
quanto Regionais, apenas a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos
apresenta uma concepção de deveres ao lado dos direitos, partindo da
premissa de que “o gozo dos direitos e liberdades implica o cumprimento dos
deveres de cada um.” (PIOVESAN, 2018a, p. 248).
Além disso, segundo Canotilho, apesar de não existir uma divisão clara, é
possível “detectar deveres primordialmente cívico-políticos (dever de defesa da
pátria, dever de voto), e deveres de caráter econômico, social e cultural (dever
de defender a saúde, dever de defesa do patrimônio)” (CANOTILHO, 1998, p.
480).
Da leitura de nosso texto constitucional, é possível extrair, dentre outros, os
seguintes deveres (BRASIL, 2013):
Votar para escolher nossos governantes.
Cumprir as leis.
Respeitar os direitos sociais de outras pessoas.
Educar e proteger nossos semelhantes.
Proteger a natureza.
Proteger o patrimônio público e social do País.
CONECTE-SE
A Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos está disponível na
internet e em português: Comissão Africana dos Direitos Humanos e
dos Povos. Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos.
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Colaborar com as autoridades.
Ao lado de tais deveres, é importante reconhecer que a Administração Pública
(uma das facetas do Estado) também passou por um processo de evolução,
pois, se inicialmente à Administração Pública bastava prestar serviços, com o
passar do tempo, ela também passou a ter como uma de suas obrigações atuar
da forma mais transparente possível e dando ouvidos ao cidadão, cuja opinião e
manifestação ganharam relevância na tomada de decisões pela Administração
Pública.
Surge o que se convencionou chamar de “Administração Pública dialógica”, na
qual a atuação da Administração Pública deveria ser construída a partir do
diálogo constante com os cidadãos, única forma de construirmos uma nova
sociedade, a partir de um movimento “de baixo para cima”, na qual o cidadão
seja elevado ao posto de protagonista de sua história, exigindo os seus direitos,
mas cumprindo �elmente os seus deveres, inclusive o de participar da vida em
sociedade.
Assim, como se vê, precisamos reconhecer que vivemos numa era de direitos e
deveres, cabendo a cada um de nós a busca por uma vida digna de ser vivida, a
partir de um pacto de respeito recíproco.
NA PRÁTICA
Um tema que tem ganhado importância é a defesa dos direitos dos
animais e demais formas de vida, ou seja, dos direitos não humanos.
O respeito a tais direitos, por consequência, exigirá que os seres
humanos assumam um novo rol de deveres em relação aos demais
seres vivos. Para um estudo mais aprofundado, leia ROCKENBACH,
Ramiro. Para além dos direitos humanos: uma defesa da vida e a paz
como caminho comum. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2018.
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Conclusão
Para o signi�cado da palavra contexto, podemos conceber um determinado
momento na história de uma cidade, estado ou país, como também uma situação
especí�ca na qual uma pessoa ou instituição se encontra. Assim, o estudo do
contexto é de extrema importância quando se pretende analisar um fato, uma vez
que as circunstâncias que permeiam a sua ocorrência podem ser decisivas para a
sua compreensão.
Em sua obra “A reinvenção dos direitos humanos”, o Prof. Joaquín Herrera Flores
propõe a utilização do “diamante ético”, uma metáfora que contempla doze
elementos que devem ser levados em consideração na avaliação de um
determinado contexto.
Tais elementos estariam divididos em dois eixos: um conceitual, no qual estão as
teorias, a posição, o espaço, os valores, a narração e as instituições, e outro, material,
no qual estão as forças produtivas, a disposição, o desenvolvimento, as práticas
sociais, a historicidade e as relações sociais.
O saudoso professor espanhol argumentava que a garantia dos direitos humanos e
o desenvolvimento de uma comunidade somente é possível se o seu contexto
social for considerado e não apenas com a simples aplicação da lei, de forma
descontextualizada. Se aplicarmos os elementos do “diamante ético” na atualidade
brasileira, veremos que ele não é dos mais positivos.
Vivemos uma crise econômica que motiva propostas absurdas de mudanças
constitucionais e legislativas que podem resultar na eliminação de direitos
duramente conquistados. Apesar dessa situação aparentemente negativa, é
extremamente interessante como muitos brasileiros insistem em sonhar e
concretizar os seus sonhos, seja casando, tendo �lhos, investindo em novos
empreendimentos, enfrentando com bom humor as adversidades e, ainda,
conseguindo rir de si próprio, deixando claro que o melhor do Brasil realmente é o
brasileiro.
Tais pessoas dão concretude ao ensinamento de Gilles Deleuze, que sustenta que
“a vida não pode �xar-se em uma descrição que imobilize o seu poder de mudança
e devenir. Ou, em outras palavras, a vida não se de�ne pelo que é, mas sim pelo
que pode ser, pelo poder de um corpo de afetar e ser afetado, de multiplicar
conexões, de criar novas relações, de aumentar sua capacidade de atuar”.
Na verdade, essas pessoas, ao acreditarem num devenir promissor, apesar do
aparente contexto negativo do presente, são imprescindíveis para que a realidade
seja alterada, ou seja, que um novo amanhã possa �orescer.
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Assim, convido a todos os alunos a viverem seus sonhos e projetos para que
possam construir futuro melhor; construir um novo contexto no qual a vida seja
cada dia mais digna de ser vivida.
Livro
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Web
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111
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113
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	Conceito de Direitos Humanos
	Ética
	Cidadania
	Desenvolvimento Histórico da Construção dosDireitos Humanos (1ª Parte)
	Desenvolvimento Histórico da Construção dos Direitos Humanos (2ª Parte)
	Direitos Humanos e Direitos Fundamentais
	Eficácia Vertical e Horizontal dos Direitos Humanos e Fundamentais
	O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos
	Sistemas Regionais de Proteção dos Direitos Humanos
	Diversidade Cultural e Direitos Humanos
	Os Direitos Fundamentais na Constituição de 1988
	Solução para a Colisão de Princípios
	Igualdade na Ordem Constitucional
	Liberdade na Ordem Constitucional
	Fraternidade na Ordem Constitucional
	Temos Direitos Humanos! E os Nossos Deveres?

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