Prévia do material em texto
COMPLEXOS MATERNO E PATERNO C A M I L A S O U Z A Clínica Junguiana Índice O que são os complexos 1 Complexo materno 5 Complexo paterno 10 Orientação para o tratamento 14 O que são os complexos? De acordo com o ponto de vista da psicologia junguiana, os complexos são núcleos afetivos que se formam ao redor de instintos humanos essenciais. Por exemplo, todos nós quando nascemos recebemos os cuidados das pessoas que são responsáveis por nós. Mas esse processo não é vivenciado de maneira totalmente passiva pela criança, há no humano uma predisposição natural (arquetípica) para receber esses cuidados. Então a criança projeta no adulto cuidador sua necessidade de cuidado e é com base nessas experiências individuais que a criança vai formando um complexo materno ou paterno, por exemplo. Dito de outra forma, no núcleo de cada um dos nossos complexos, encontramos uma força arquetípica, instintiva e universal. E as experiências individuais, bem como os afetos envolvidos na vivência desse arquétipo, vão formando os complexos. 1 No decorrer da nossa vida, novas experiências vão se aglomerando ao redor desses núcleos arquetípicos, então novos complexos vão se formando, enquanto outros se transformam ou ainda perdem a intensidade de sua carga energia. Um exemplo de complexo, é o próprio complexo do EU. Existe no humano a predisposição para a formação da consciência e a maneira como a consciência de cada pessoa vai se organizando vai formando o complexo do eu. Os complexos vão se influenciando mutuamente e esse movimento é responsável pela nossa dinâmica psíquica. Não conseguimos nos livrar totalmente dos complexos, embora possamos aliviar sua intensidade energética conforme vamos tomando consciência deles, minimizando assim o efeito que eles exercem na nossa psique. É importante entender que a existência em si dos complexos não é patológica. 2 Mas pode se tornar quando a nossa consciência passa a tomar uma posição muito unilateral, negando aspectos importantes de nós mesmos. Isso acontece porque uma vez que esses conteúdos são negados, eles passam a exercer uma pressão interna tão intensa quanto a força que os reprimiu. E essa pressão pode levar a altos graus de sofrimento e descontrole emocional. 3 Núcleo Arquetípico = universal, predisposição da espécie Experiência individuais em relação àquele núcleo arquetípico O Complexo: 4 Complexo Materno Quando pensamos na maternidade, logo imaginamos a figura da mãe em seus cuidados básicos à criança, mas é possível que essa função seja desempenhada por outras pessoas ou ainda por um conjunto de pessoas (pai, mãe, avós etc.), dependendo do contexto. Independente da constituição dessa família (pai e mãe, 2 mães, 2 pais, mãe solteira, pai solteiro etc.), o complexo materno é formado com base nesses cuidados essenciais da infância e de acordo com o clima materno da família. É possível, por exemplo, que por parte da mãe a criança tenha um complexo materno positivo e por parte do pai, um complexo materno negativo; ou o contrário. Vou tentar criar um exemplo para que isso fique mais claro. 5 Imagine uma mãe zelosa, carinhosa e atenta às necessidades da criança, essa mãe consegue ter empatia com a criança e assim agir de maneira amorosa e adequada. Mas o pai tem dificuldades de lidar com afeto, então não reconhece os sentimentos da criança, acaba sendo muito duro e agressivo sem necessidade, o que faz com que a criança se sinta insegura e invalidada. Ou ainda mais, as vezes os pais foram negligentes no cuidado com essa criança, mas os avós deram apoio e cuidaram adequadamente do neto. Isso faz com que apesar da característica negativa do complexo materno, essa dor se alivie em combinação com os cuidados positivos recebidos dos avós. Mas os problemas emocionais não são sempre decorrentes do que normalmente chamamos de complexo materno negativo, um complexo materno excessivamente positivo também é prejudicial ao desenvolvimento. 6 O problema, de fato está nos excessos. O complexo materno excessivamente positivo faz com que a criança idealize um mundo em que todas as suas necessidades serão atendidas, se sentirá excessivamente especial e julgará que seus objetivos são sempre justos e devem ser atendidos. É o que popularmente se chama de “criança mimada”. Provavelmente, uma criança com essa característica de complexo materno terá muita dificuldade de se adaptar, de fazer amizades, sempre se sentirá injustiçada e carregará consigo um sentimento de que o mundo deve cumprir com suas expectativas. O caminho de desenvolvimento dessa pessoa é o de se desiludir, de perceber que não é a mais especial entre os seres humanos e que precisará se esforçar para alcançar o que deseja Dependendo da intensidade desse complexo, o sofrimento 7 da desilusão pode ser terrível e assustador, fazendo com que a pessoa tenda a ficar aprisionada em suas fantasias infantis e nunca se realize plenamente na relação com o mundo e com os outros. Já o complexo materno excessivamente negativo tem um efeito contrário, o paciente tende a sentir que não é bem-vindo no mundo, que sua existência é um estorvo para os outros, tem medo de dar trabalho e sente-se inferior em relação aos demais. A pessoa com essa característica de complexo tende a ver a si mesma de maneira mais negativa e o mundo como um lugar frio. Essa característica pode afetar seus relacionamentos, pode levar a uma maior dificuldade de confiar nas pessoas ou ainda uma culpa desproporcional diante de algum erro cometido. Pode também dificultar a construção de uma autoestima mais equilibrada e limitar seu desenvolvimento pessoal e profissional. 8 Nesse caso o desafio começa por começar a confiar no outro e assim melhorar suas relações. Não podemos confiar 100% em todo mundo, mas algumas pessoas são confiáveis e na relação com elas podemos nos perceber de maneira mais positiva. Em geral, não encontramos pessoas com complexos maternos tão extremados, é comum que um complexo materno negativo por parte da mãe possa ser minimamente atenuado por um pai muito amoroso, ou vice-versa. 9 As combinações possíveis são infinitas. Complexo Paterno O complexo paterno diz respeito à iniciação da criança e sua valorização em áreas que são definidas como masculinas pela nossa cultura: estudo, capacidade física, capacidade de organização, liderança etc. Esse complexo carrega as influências que recebemos daqueles que estão mais envolvidos na nossa educação, que nos orientam, que elogiam ou criticam nossas habilidades, que nos incentivam ou repreendem. O complexo paterno tem um papel importante para a construção da nossa autoestima, para a maneira como nos vemos mais ou menos capazes de enfrentar os desafios da vida. Uma pessoa com complexo paterno excessivamente positivo, pode se ver como um grande prodígio, capaz de grandes feitos e com uma alta valorização de sua suposta capacidade intelectual, atlética ou 10 ainda de dar ordem aos que o cercam. Pode acontecer também uma desvalorização dos afetos, da necessidade de descanso e relaxamento, ou ainda uma desvalorização de aspectos que culturalmente são considerados femininos (intuição, sentimento, habilidade de cuidado etc.). Em nosso contexto cultural, pode também estar relacionado à posturas mais machistas e desvalorização da mulher. Já o complexo paterno excessivamente negativo, pode levar a uma sensação de incapacidade e inabilidade em todas as esferas. Uma pessoa assim, tende a não reconhecer suas capacidades de maneira justa, sempre acha que sabe pouco, que sua habilidade não é nada demais, que é limitado e que não vai conseguir muito mais. Pode ainda se sentir muito frágil e com medo de enfrentar os desafios. 11 Pode sentir que tem algo de fundamentalmente errado consigo. No caso do complexo paterno, assim como falamos anteriormente sobre o complexo materno, o ideal é que se encontre algum equilíbrio. Uma autoestima saudável é coerente com o que somos, em nossas melhores habilidades e maiores dificuldades.Também é comum que nos deparemos na clínica com pacientes com características mistas, por exemplo, era muito valorizado em suas habilidades pelo pai, mas desvalorizado pela mãe, ou vice-versa. E geralmente, aquele entre os pais que tem uma personalidade mais forte ou ainda que a criança tinha mais vínculo e identificação exerça uma influência maior. É possível que um complexo paterno negativo seja atenuado caso as habilidades da criança passem a ser valorizada pelos professores na escola ou 12 em outras esferas. Mas é bem comum que a característica negativa inicial continue se apresentando como uma tendência a sempre se questionar sobre a qualidade do que se faz. 13 Orientações para o Tratamento Como vimos, os complexos parentais são fundamentais para o nosso desenvolvimento. Além de sua característica mais negativa ou positiva, podem também ser mais ou menos intensos. Por exemplo, se os pais desvalorizam o filho, mas são pessoas consideradas fracas pela criança, o complexo paterno pode ter uma carga mais fraca. Geralmente a intensidade do complexo condiz com a intensidade da experiência para a criança, o quanto ela sofreu. Isso pode variar de acordo com a experiência em si e com as características de temperamento da criança. O ideal é que conforme vamos nos desenvolvendo, os complexos parentais percam um pouco sua 14 potência em comparação com o complexo do eu. Ou seja, o que os pais pensam ou pensavam quando éramos pequenos, já não importa tanto, passamos a ter uma visão de nós mesmos e do mundo mais adequadas e coerentes. Mas nem sempre isso ocorre. É comum encontramos pessoas adultas e até mesmo idosas que ainda vivem sob uma grande influência de seus complexos paterno e materno. Ainda se inquietam sobre a opinião dos pais, mesmo que esses já tenham morrido. Às vezes a pessoa já se separou dos pais fisicamente, já foi morar sozinha, até mudou para outro país, mas ainda vive de acordo com seus complexos parentais, tendo pouco desenvolvimento pessoal. É comum também que esses complexos parentais sejam projetados nos parceiros amorosos, nas instituições religiosas, na empresa e até no Estado. 15 Então inconscientemente a pessoa projeta sua necessidade de ser amado, de ser cuidado ou ainda de ser valorizado, no outro. E quanto mais intensa é essa projeção e quanto mais o paciente resista em rompê-la, mas sabemos que estamos lidando com alguém cujo complexo do eu ainda está muito enfraquecido. Nesses casos é essencial paciência e cuidado para não forçar o paciente a dar um passo maior do que consegue. Na psicoterapia, é comum que os pacientes projetem também no psicólogo seus complexos parentais e assim, através da conscientização dessas projeções, vamos ajudando o paciente a reorganizar-se. O desafio de uma pessoa adulta e saudável é o de conseguir ser um bom pai e uma boa mãe para si mesmo. Saber se cuidar com carinho e lutar por seus objetivos. O trabalho com os complexos começa por sua expressão, conscientização e confrontação. 16 Os complexos se apresentam às vezes até durante as sessões e nós precisamos permitir que o paciente expresse seu complexo. Depois vamos trazendo à consciência sobre sua característica, para que o paciente possa reconhecer os complexos que o afetam. Por último começamos a incentivar o paciente a confrontar tais ideias e assim construir uma nova compreensão sobre si mesmo e sobre o mundo. Mas esse é um processo que pode variar de pessoa para pessoa, tanto no tempo de duração quanto na amplitude da melhora no quadro. É muito difícil, se não impossível, encontrar um paciente que esteja completamente livre de seus complexos parentais, mas nosso desafio é o de ajudá-lo a ficar menos refém deles, tendo mais liberdade para escolher os caminhos que vai trilhar na vida. 17 P S I C Ó L O G A C L Í N I C A E S P E C I A L I S T A E M P S I C O L O G I A J U N G U I A N A C R P . 0 6 / 1 1 2 0 9 1 Camila Souza