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Recife, 2010 Análise e Interpretação de Textos Ivanda Martins Volume 2 Universidade Federal Rural de Pernambuco Reitor: Prof. Valmar Corrêa de Andrade Vice-Reitor: Prof. Reginaldo Barros Pró-Reitor de Administração: Prof. Francisco Fernando Ramos Carvalho Pró-Reitor de Extensão: Prof. Paulo Donizeti Siepierski Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação: Prof. Fernando José Freire Pró-Reitor de Planejamento: Prof. Rinaldo Luiz Caraciolo Ferreira Pró-Reitora de Ensino de Graduação: Profª. Maria José de Sena Coordenação Geral de Ensino a Distância: Profª Marizete Silva Santos Produção Gráfica e Editorial Capa e Editoração: Allyson Vila Nova, Rafael Lira e Italo Amorim Revisão Ortográfica: Marcelo Melo Ilustrações: John Pablo, Allyson Vila Nova, Diego Almeida e Glaydson da Silva Coordenação de Produção: Marizete Silva Santos Sumário Apresentação ...................................................................................................4 Conhecendo o Volume 2 .................................................................................5 Capítulo 1 – A Diversidade Linguística ..........................................................7 Capítulo 2 – Descobrindo os Níveis de Linguagem ...................................22 Capítulo 3 – Vamos Conversar sobre Leitura? ...........................................34 Capítulo 4 – A Importância da Leitura no Mundo........................................51 Considerações Finais ....................................................................................64 Conheça a Autora ..........................................................................................67 Apresentação Caro(a) Cursista, Seja bem-vindo(a) ao segundo módulo da disciplina Análise e Interpretação de Textos. No primeiro módulo, você percebeu a importância da comunicação no mundo globalizado e tecnológico. Você também observou que o processo de comunicação envolve vários componentes, tais como: emissor, mensagem, receptor, canal, código, contexto. Para cada elemento da comunicação, há uma determinada função da linguagem que é priorizada quando estabelecemos atos comunicativos. Assim, você descobriu a importância das funções da linguagem (fática, emotiva, referencial, apelativa, metalinguística, fática) quando da análise e interpretação de textos diversos. Neste segundo módulo, vamos dar continuidade às discussões sobre a importância da língua como instrumento de interação social. O objetivo principal deste segundo módulo é apresentar a diversidade linguística como componente constitutivo das práticas de linguagem, visando ampliar o debate sobre os níveis de linguagem utilizados em várias situações comunicativas. Assim, entraremos no universo dos níveis de linguagem e do mundo fascinante dos textos que circulam socialmente. Vamos descobrir as diversas concepções subjacentes ao ato de ler como prática sociocultural, percebendo que a leitura se revela como atividade intertextual e interdisciplinar. Você precisa compreender que os textos circulam socialmente e estão dialogando com vários fatores (sociais, culturais, regionais, etc.). Tais fatores repercutem diretamente nas formas de usarmos a língua como instrumento de interação social. Os textos são produzidos de acordo com as convenções sociais, culturais e históricas. Assim, para interpretarmos e compreendermos melhor os textos, precisamos entender um pouco mais sobre os processos de comunicação em que os textos são utilizados. Desse modo, as práticas de leitura, análise e interpretação de textos serão abordadas, considerando as relações dialógicas entre autores, textos e leitores, ancoradas nos processos sociais, históricos e culturais, subjacentes à comunicação na era tecnológica em que vivemos. Pronto(a) para embarcar novamente nesta viagem? Então, vamos lá? Retome o fôlego e prepare-se, pois a viagem continua neste segundo módulo. Abraços Virtuais, Ivanda Martins Professora Autora Conhecendo o Volume 2 Neste segundo volume, você irá encontrar o Módulo 2 da disciplina Análise e Interpretação de Textos. Para facilitar seus estudos, veja a organização deste segundo módulo. Módulo 2 - Diversidade Linguística, Leituras e Textos Objetivo do Módulo 2: Identificar a diversidade linguística como constitutiva das práticas de linguagem, reconhecendo a multiplicidade de textos e níveis de linguagem. Conteúdo Programático do Módulo 2: » A diversidade linguística e o preconceito linguístico. » Níveis de linguagem. » Concepções de leitura. » Leitura e criticidade. » Níveis e objetivos de leitura. » Leitura e intertextualidade. 6 Análise e Interpretação de Textos Capítulo 1 O que vamos estudar neste capítulo? » Diversidade linguística. » Fatores que contribuem para a diversidade linguística (fatores regionais, socioculturais, contextuais, naturais). » Preconceito linguístico. 7 Análise e Interpretação de Textos Capítulo 1 – A Diversidade Linguística Vamos conversar sobre o assunto? Você já percebeu que usamos a língua de várias formas em diferentes situações comunicativas? Ainda não pensou nisso? Então, é bom começar a refletir um pouco mais sobre o assunto. Vamos lá? Você sabia que a língua1 sofre influências de fatores extralinguísticos? Tais fatores contribuem para a diversidade linguística que percebemos nos modos de fala dos indivíduos. Apesar de os falantes estarem usando uma mesma língua, as falas dos indivíduos revelam-se completamente diferentes, já que cada um tem expectativas diferentes, culturas diversas, visões de mundo e ideologias totalmente diferentes. Os falantes utilizam, assim, a língua, mas desenvolvem uma maneira peculiar, bem própria para expressar mensagens através de suas falas. No Brasil, por exemplo, a extensão territorial do país, as desigualdades sociais e econômicas, as diferenças étnicas, culturais e religiosas são fatores que influenciam os usos sociais da língua. Apesar de os brasileiros usarem a língua portuguesa, eles não se expressam da mesma forma, pois cada um emprega a língua de acordo com alguns elementos determinantes nessa diversidade linguística, tais como: contexto social, situação comunicativa, idade, sexo, raça, grau de escolaridade, crenças e valores dos indivíduos, intencionalidade do emissor, relações entre emissores e receptores, etc. Link 1 Revise os conceitos de língua, linguagem e fala apresentados no volume 1 da disciplina Análise e Interpretação de Textos. 8 Análise e Interpretação de Textos Os usos variados da língua dependem de uma série de fatores que influenciam a diversidade linguística. Podemos destacar os fatores regionais, culturais, contextuais e naturais, os quais iremos estudar neste capítulo. Vamos conhecê-los melhor? Fatores Regionais Você já deve ter percebido, por exemplo, que o português falado no Sul do país difere do português falado no Nordeste. Assim, cada região apresenta um padrão linguístico diferenciado, em função das diversas formas de comunicação utilizadas. A diversidade de sotaques2 é um bom exemplo dessa diversidade linguística. Dentro de uma mesma região, também encontramos variações no uso da língua, como, por exemplo, a língua utilizada por um cidadão que vive na capital e aquela utilizada pelo habitante da zona rural. Veja a tirinha abaixo e observe a linguagem usada pela personagem. Você observou que a personagem da tirinha fala de modo diferente, em função de seu padrão linguístico ser característico daquele usado na zona rural do país. Note, também, que pelo fato de as histórias em quadrinhos representarem ficcionalmente aspectos da realidade, essa caracterização da fala da personagem é apenas uma representação criada pelo autor, a qual provavelmente não corresponde exatamente às dimensões reais, tendo em vista tratar-se de um texto ficcional. Além dos fatores regionais, também os aspectos socioculturais são determinantes nas formas utilizadas pelos usuários da língua nas trocas comunicativas. Vamos conhecerum pouco os fatores socioculturais? Saiba Mais 2 O sotaque envolve a variedade de pronúncias. Uma mesma expressão pode ser pronunciada de diversas maneiras, de acordo com as convenções de cada grupo social e de cada local em que os falantes estão inseridos. 9 Análise e Interpretação de Textos Fatores Socioculturais Você já parou para refletir sobre as relações entre o grau de escolarização, a formação cultural dos indivíduos e a diversidade linguística? Ainda não? Então é hora de aprofundarmos nossas reflexões sobre o assunto. O grau de escolarização e a formação cultural do indivíduo são também fatores que determinam usos diferentes da língua. Uma pessoa escolarizada utiliza a língua de maneira diferente da pessoa que não teve acesso à escolarização formal. Como exemplo, a linguagem utilizada por um indivíduo analfabeto não será igual àquela utilizada, por exemplo, por um profissional em seu ambiente de trabalho. Mas, certamente, o indivíduo analfabeto será mais vítima do preconceito linguístico3, em função dos processos de discriminação social que valorizam mais determinados perfis sociais em relação a outros. Além dos fatores regionais e socioculturais, aspectos relativos à diversidade de contextos ou situações comunicativas são também decisivos para a variação linguística presente no Brasil. Vejamos a seguir os fatores contextuais. Fatores Contextuais Será que utilizamos a língua da mesma forma em diferentes situações comunicativas? Claro que não, não é verdade? Um mesmo falante pode alterar o registro de sua fala de acordo com a situação em que se encontra. Em uma roda de amigos em que se discute futebol, o falante utiliza a língua de maneira diversa daquela que utilizaria ao solicitar emprego em alguma empresa. A modalidade oral da língua geralmente se caracteriza por uma maior espontaneidade em relação à forma escrita. Assim, a situação comunicativa é determinante para as escolhas que os usuários da língua farão para estabelecer a comunicação. O importante é ajustarmos os usos da língua ao contexto em que ela é empregada, a fim de conseguirmos transmitir mensagens adequadas à situação comunicativa. Saiba Mais 3 Segundo Marcos Bagno (2000), o preconceito linguístico é um fenômeno social que interpreta, de modo estigmatizado, o dialeto não- padrão, ou seja, aquela linguagem usada no dia a dia em situações informais. Não há uma forma certa ou errada de se falar, o que existem são variações, formas diferentes de se comunicar. Leia o livro de Bagno. Você irá adorar! (BAGNO, M. Preconceito linguístico. São Paulo: Loyola, 2000). Acesse também o site de Marcos Bagno para conhecer um pouco mais sobre o preconceito linguístico (www. marcosbagno. com.br) 10 Análise e Interpretação de Textos Em síntese, podemos metaforicamente associar a língua à roupa que usamos, ou seja, para cada situação comunicativa, vamos ajustando os usos da língua de acordo com os graus de formalidade ou informalidade das diversas situações comunicativas. Como exemplo, imagine alguém indo à praia caracterizado da seguinte forma: terno, gravata, sapato social e pasta de executivo. Seria um pouco estranho, não é mesmo? O ambiente da praia é informal e, portanto, exige padrões de roupas mais descontraídos (chinelos, calção de banho, boné, camiseta, etc.). Agora, tente imaginar um executivo chegando ao seu escritório de calção de banho, chinelos e óculos de sol. Imaginou? Já pensou o que os funcionários da empresa iriam comentar a respeito? A formalidade do ambiente de trabalho certamente exige um outro padrão de vestimentas. Então, deu para perceber que temos uma espécie de “armário linguístico”. Quando precisamos usar alguma peça deste armário, deveremos pensar na situação comunicativa e no ambiente em que iremos usar aquela ou qualquer outra roupa. Assim, vamos adaptando os usos da língua à diversidade de contextos e situações comunicativas que vamos encontrando nas diferentes experiências de interação. 11 Análise e Interpretação de Textos Você percebeu que nossas escolhas linguísticas estão associadas a fatores extralinguísticos extremamente importantes? Somando-se aos fatores regionais, socioculturais e contextuais, alguns aspectos naturais também interferem nos modos de utilização da língua. Vejamos como isso ocorre. Fatores Naturais O uso da língua pelo falante sofre influência de fatores naturais, tais como: idade e sexo. Uma criança4 não utiliza a língua da mesma maneira que um adulto, assim como os adolescentes também não se comunicam da mesma forma que os idosos. Desse modo, a gíria, por exemplo, revela as relações entre a língua e as diferenças de idade entre os usuários. Segundo Ernani Terra (1997, p. 66): “A gíria é uma variante da língua padrão utilizada por indivíduos de um grupo social ou profissional em circunstâncias especiais. Claro que cada grupo distinto tem sua própria gíria, daí encontrarmos vários tipos de gíria: a dos malandros, a dos jovens, a dos surfistas, a do futebol, etc. A gíria de certos grupos profissionais é chamada de jargão . Nesse caso, ela visa à precisão técnica e, normalmente, aparece também na forma escrita em publicações especializadas. [...] A gíria, por ser uma variante da língua, também sobre evolução: constantemente surgem novas gírias e outras desaparecem. Há algum tempo, era moda entre os jovens uma moça dizer: Fiquei gamada naquele broto porque ele era um pão. Se hoje alguém falar assim com você, siga este conselho: “Sai dessa rapidinho, cara!”. Fonte: TERRA, Ernani. Linguagem, língua e fala. São Paulo: Scipione, 1997. Percebeu que os exemplos dados pelo autor refletem as diferenças de idade entre os usuários da língua? “Broto” e “pão” já foram palavras que assumiam a posição de gírias e foram utilizadas por gerações passadas. Se alguém falar assim hoje, você já pode inferir a possível idade da pessoa que usa esse tipo de gíria. Assim, percebe-se que a gíria é “passageira”, pois acompanha as transformações da língua no processo histórico-social. Atualmente, por exemplo, em função da revolução tecnológica, novas gírias começam a ser usadas, tais como: nerd, bug, googlar, etc. Glossário 4 A aquisição da linguagem é um processo de desenvolvimento de língua materna em criança. [O processo, geralmente, é caracterizado como tendo quatro fases: (a) o balbucio (3), até os 12 meses; (b) o estágio de uma palavra, quando surgem os primeiros vocábulos enunciados em isolado; (c) o estágio de múltiplas palavras, dos 18 aos 30 meses, quando as palavras começam a constituir estruturas da língua-alvo.] (Novo Dicionário Aurélio). 12 Análise e Interpretação de Textos Além da idade, também a variável sexo é determinante nos usos da língua. Estudos sociolinguísticos revelam padrões de linguagem diferentes utilizados por homens e mulheres nas trocas comunicativas. Conheça Mais Estude mais sobre os fatores que interferem na diversidade linguística, lendo o livro Língua, linguagem e fala, de Ernani Terra, uma publicação da Editora Scipione. Também leia mais sobre o preconceito linguístico, conhecendo a obra A língua de Eulália5, de Marcos Bagno. Curiosidade A Sociolinguística é uma disciplina que estuda a variação linguística. O termo Sociolinguística, relativo a uma área da Linguística, fixou-se em 1964. Mais precisamente, surgiu em um congresso, organizado por William Bright, na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Segundo Bright, o objeto da Sociolinguística é a diversidade linguística. A Sociolinguística considera que o sistema da língua não é homogêneo, mas heterogêneo e dinâmico. A diversidade linguística está relacionada com alguns fatores: a) Identidade social do emissor ou falante – relevante no estudo dos dialetos de classes sociais e das diferenças entre falas femininas e masculinas. b) Identidade social do receptor ou ouvinte – relevante no estudo das formas de tratamento.c) O contexto social – relevante no estudo das diferenças entre forma e função dos estilos (formal e informal), existentes na maioria das línguas. d) Julgamento social distinto que os falantes fazem do próprio comportamento linguístico sobre o dos outros, atitudes linguísticas. Dica de Leitura 5 Este livro é muito interessante, conta a história de Eulália, uma empregada doméstica que é vítima do preconceito linguístico. Vera, Sílvia e Emília são professoras e universitárias. Elas vão passar férias na casa de Irene, uma Doutora na área de Linguística. As meninas criticam o Português falado por Eulália (empregada da casa). A partir de então, Irene resolve explicar questões linguísticas a elas e mostra que o preconceito linguístico não possui fundamento, visto que a história da Língua Portuguesa passou por diferentes fases e cada uma delas justifica o uso de variedades linguísticas. 13 Análise e Interpretação de Textos Você Sabia? Você sabia que existe o preconceito linguístico? Assim como há o preconceito racial, social, religioso, enfim, qualquer forma de discriminação contra as minorias, também existe o preconceito linguístico, ou seja, o julgamento que as pessoas fazem da linguagem usada pelos indivíduos que se comunicam por meio de um dialeto não–padrão. As elites impõem uma forma padrão de comunicação de acordo com a norma culta da língua. Este dialeto padrão é difundido pelos meios de comunicação de massa, pelos materiais didáticos trabalhados na escola e pelo ensino tradicional de língua portuguesa. O dialeto padrão está pautado na tradição escrita, preso às convenções normativas da língua, ao contrário do dialeto não-padrão, baseado na oralidade, livre das regras, inovador, desprestigiado socialmente. Marcos Bagno, em seu livro O Preconceito Linguístico, aborda alguns mitos voltados para o tratamento dado à língua portuguesa dentro e fora da escola, tais como: Mito 1 - A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente Mito 2 - Brasileiro não sabe Português, só em Portugal se fala bem o Português Mito 3 - Português é muito difícil Mito 4 - As pessoas sem instrução falam tudo errado Mito 5 - O lugar onde melhor se fala português é no Maranhão Mito 6 - O certo é falar assim porque se escreve assim Mito 7 - É preciso saber gramática para falar e escrever bem Mito 8 - O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social Segundo Marcos Bagno (2000), o preconceito linguístico está baseado na crença de que só existe uma língua portuguesa, ou seja, aquela ensinada nas escolas, catalogada nos dicionários e descrita nas gramáticas. Essa visão preconceituosa é mantida pelas elites que dominam o português padrão e visam à manutenção do status quo, no sentido de se manterem no poder, por meio da manipulação daqueles que utilizam o dialeto não-padrão. 14 Análise e Interpretação de Textos Ainda na perspectiva do autor, considerando a visão preconceituosa dos fenômenos da língua, a transformação de L em R nos encontros consonantais, como em Cráudia, chicrete, pranta é estigmatizada e até, às vezes, considerada como sinal de “atraso mental” das pessoas que falam assim. Você já riu de alguém que fala assim? Se respondeu afirmativamente saiba que está perpetuando o preconceito linguístico. Do mesmo modo que existe o preconceito contra a fala de determinadas classes sociais, também há o preconceito contra a fala característica de certas regiões. Veja, por exemplo, quando o dialeto nordestino é representado nas novelas televisivas, em que as personagens falam de modo artificial e beiram ao ridículo. Por que será que o dialeto nordestino é alvo do preconceito linguístico? Certamente esse fato envolve questões políticas, sociais, econômicas que influenciam diretamente os usos linguísticos e as visões estereotipadas sobre as práticas de linguagem. O uso que as pessoas fazem da língua é um ato social e político marcado pelo prestígio de determinadas camadas sociais que se comunicam usando a forma padrão de linguagem. Aqueles que ocupam uma posição social pouco privilegiada, não tiveram acesso aos padrões de escolaridade normal e se comunicam usando a linguagem não-padrão certamente serão mais vítimas do preconceito linguístico. Atividades e Orientações de Estudo Reflita sobre os temas abordados neste capítulo. Pesquise mais sobre os assuntos e realize as atividades propostas a seguir. 15 Análise e Interpretação de Textos Atividade 1 Entreviste pessoas sobre o tema do preconceito linguístico. Para a realização de sua pesquisa, tente considerar perfis sociais distintos e diferentes profissionais. Como exemplos, você poderá entrevistar uma emprega doméstica, um jornalista, um pintor, um técnico, um professor, um médico, enfim, você pode pesquisar mais de uma pessoa e avaliar as respostas de cada um sobre o tema. Você poderá observar o roteiro a seguir para auxiliá-lo(a) na entrevista. Observe! a) Você já ouviu falar sobre o preconceito linguístico? b) Alguma vez você já falou algo e sentiu que as pessoas olharam de modo diferente para você? Conte o que aconteceu, se você passou por uma experiência semelhante. c) Você já riu de alguém que fala de modo diferente? Após a realização da entrevista, você deve participar de um fórum de discussão que será coordenado pelos(as) professores(as). Não perca essa chance de discutir com os colegas e aprofundar a discussão sobre as entrevistas realizadas. Atividade 2 Vamos desenvolver uma WebQuest6 sobre o assunto apresentado neste capítulo? Que tal pensarmos na questão da diversidade linguística e criarmos situações dinâmicas de aprendizagem no sentido de socializarmos nossas experiências de leitura e produção textual? Vamos lá? Saiba Mais 6 Segundo Bernie Doge, WebQuest é “uma investigação orientada, na qual algumas ou todas as informações com as quais os aprendizes interagem são originadas de recursos da Internet”. Acesse: www.webquest. futuro.usp. br∕artigos∕textos_ bernie.html 16 Análise e Interpretação de Textos Título da WebQuest: Diversidade linguística nas histórias em quadrinhos. Introdução As histórias em quadrinhos são extremamente ricas na diversidade linguística, revelando como seus diferentes personagens estabelecem contratos comunicativos diferenciados e exploram diversos níveis de linguagem, em decorrência das características das personagens, do local onde vivem, do contexto de comunicação, etc. A Tarefa Você irá assumir o papel de escritor de revistas em quadrinhos, explorando as potencialidades expressivas da linguagem verbal e da linguagem não-verbal, utilizando os recursos das onomatopéias (expressões que indicam barulhos), explorando os diversos níveis de linguagem de acordo com o perfil de cada personagem. Sua missão é elaborar uma pequena tirinha, com o objetivo de mostrar duas personagens dialogando de forma diferente, usando expressões típicas de regiões diferentes do Brasil. 17 Análise e Interpretação de Textos Você pode escolher uma personagem da zona rural que fale diferente de outra personagem da zona urbana. Um outro exemplo seria colocar uma personagem nordestina falando de forma diferente de uma personagem do Sul ou do Sudeste, por exemplo. O Processo Para conseguir elaborar a sua tirinha, acesse o site da turma da Mônica http://www.monica.com.br/ e leia as tirinhas de Chico Bento, as quais revelam a variação linguística presente nas falas das personagens criadas por Maurício de Souza. Para você ter uma ideia, leia a tirinha a seguir: Você também poderá pesquisar sobre tirinhas no site: http://www.cbpf.br/~eduhq/ No site indicado, você encontrará uma diversidade de tirinhas de acordo com vários temas (meio ambiente, ciências, educação, etc.). Tente estudar mais sobre o assunto diversidade linguística, coletando informações sobre diferentes formas de comunicação usadas nas diversas regiões brasileiras. 18 Análisee Interpretação de Textos Após seu trabalho de leitura e pesquisa, concentre-se nos passos a seguir: » Pense em uma personagem (personagem A) que more em um certo local do Brasil e que use um padrão de linguagem bem peculiar, ou seja, uma linguagem característica daquele local. Ex: um nordestino que use expressões locais. » Pense em outra personagem (personagem B) originária de outro local do Brasil e que esteja estabelecendo comunicação com a primeira personagem que você criou (personagem A). Ex: um sulista que use expressões características do Sul. » Crie um diálogo entre essas duas personagens. Na situação de diálogo, construa uma interação marcada por ruídos culturais de comunicação. » Ilustre sua tirinha de forma bem criativa, use cores, dinamismo nas sequências de ações. Tente desenhar as personagens, caracterizando-as fisicamente de modo coerente com o local de origem desses sujeitos. » Após a elaboração da sua tirinha, você deverá publicá-la no ambiente virtual, de acordo com as orientações dos professores que estarão ajudando você nas atividades propostas. Além disso, você será convidado a participar de um fórum de discussão, a fim de socializar sua experiência no processo de pesquisa e de elaboração final da tirinha. Para ajudar você na criação e composição de sua tirinha, acesse o site: http://stripgenerator.com/create/ Esse site irá ajudar muito você na criação da tirinha. Você poderá compartilhar com seus colegas o resultado da atividade, publicando sua tirinha no ambiente para que todos visualizem a sua produção. Os professores que estarão orientando você nos ambientes virtuais de aprendizagem irão ajudar nesse processo. Você irá adorar essa experiência. Use toda a sua criatividade e divirta-se! A Avaliação Na avaliação da atividade, serão observados os seguintes critérios: 19 Análise e Interpretação de Textos a) A criatividade do(a) cursista na produção da tirinha b) A adequação da produção textual às convenções do gênero textual em foco. c) A articulação entre a linguagem verbal e a linguagem não- verbal, quando da elaboração do produto final: a tirinha. d) A habilidade do(a) cursista em relação à elaboração dos diálogos entre as personagens, evidenciando a compreensão dos conceitos ruídos culturais de comunicação7 e diversidade linguística. e) A competência do educando nos processos de discussão on line sobre as etapas de pesquisa e de produção da atividade. Será avaliada a participação significativa do aluno nos fóruns de discussão orientados pelos professores Conclusão Caro(a) Cursista, Agora que você já produziu, pesquisou, planejou, elaborou e socializou sua produção textual, ou seja, a tirinha sobre diversidade linguística, é hora de continuar aprendendo e pesquisando sobre o tema. Vamos continuar conversando sobre diversidade linguística em chats e fóruns de discussão, pois o assunto é fascinante e aberto a novas reflexões. Referências Pesquise nos sites indicados para que você consiga desenvolver a atividade proposta de forma eficaz. www.webquest.futuro.usp.br∕artigos∕textos_bernie.html http://www.monica.com.br/ http://www.tirinhas.com/ http://stripgenerator.com/create/ http://www.cbpf.br/~eduhq/ Link 7 É importante revisar o conceito de “ruídos”, apresentado no volume 1. Releia o capítulo sobre Ruídos na Comunicação, apresentado no volume 1. 20 Análise e Interpretação de Textos Vamos Revisar? Vamos continuar estudando um pouco mais sobre o assunto abordado neste capítulo? É hora de você aprofundar os seus estudos e continuar aprendendo. Lembre-se! Aprender a aprender é um pilar da educação muito importante quando pensamos em cursos na modalidade a distância. O sucesso no curso e nesta disciplina de Análise e Interpretação de Textos depende muito do seu esforço, no sentido de ampliar a motivação para “aprender a aprender”, descobrindo o prazer da aprendizagem significativa nos ambientes virtuais de aprendizagem. Então, vamos aprender juntos? Leia com atenção o resumo a seguir e bons estudos! Resumo Neste capítulo, você percebeu que existem vários fatores que interferem nos usos linguísticos variados que realizamos em diferentes contextos. Fatores regionais: o espaço geográfico interfere no modo como usamos a língua. No caso do Brasil, por exemplo, a extensão territorial do país é determinante para a variação linguística que há em cada região, em cada estado. O português falado no Nordeste não é o mesmo usado no Sul ou no Sudeste, por exemplo. Fatores socioculturais: o nível de escolaridade e o padrão socioeconômico de cada sujeito também interferem na diversidade linguística. Há variações que serão mais vítimas do preconceito linguístico, como a linguagem usada pelas pessoas socialmente marginalizadas que não tiveram acesso a níveis mais elevados de escolarização. Fatores contextuais: os variados tipos de contextos interferem na variação linguística. Em contextos formais, o nível de linguagem a ser empregado deverá estar de acordo com a formalidade da situação comunicativa, ao passo que em situações informais de comunicação, os usuários podem utilizar gírias, expressões mais coloquiais, empregando a língua com naturalidade e de forma espontânea. Fatores naturais: a idade e o sexo também exercem influência na diversidade linguística. As crianças, os adolescentes, os adultos e os idosos usam a língua com propósitos distintos e de formas diversas. 21 Análise e Interpretação de Textos Capítulo 2 O que vamos estudar neste capítulo? » Níveis de linguagem: reflexões. » Nível formal-culto. » Nível coloquial-popular. » Nível técnico-profissional. » Nível artístico. 22 Análise e Interpretação de Textos Capítulo 2 – Descobrindo os Níveis de Linguagem Vamos conversar sobre o assunto? Como vimos no capítulo anterior, os usos que fazemos da língua em diversas situações comunicativas dependem de uma série de fatores: regionais, contextuais, socioculturais e naturais. Esses diferentes usos são reflexos dos vários níveis de linguagem que utilizamos nas diversas situações. Como cada sujeito concretiza a língua de forma diferente, por meio da fala, com sotaques diversos, dialetos8 distintos, propósitos diferentes, vamos observando a riqueza da variação linguística nos diferentes níveis de linguagem que vão orientando nossas estratégias comunicativas. Podemos destacar alguns níveis de linguagem, utilizando uma classificação abrangente. Vejamos, pois, alguns níveis de linguagem. Nível Coloquial-popular O nível coloquial-popular é o mais utilizado em nosso dia a dia, sobretudo nas situações mais informais. Caracteriza-se pela espontaneidade, ou seja, quando empregamos o nível coloquial- popular, não estamos muito preocupados em saber se aquilo que falamos ou escrevemos está de acordo ou não com as normas estabelecidas pelas convenções do uso formal. Assim, usando o nível coloquial-popular, poderemos romper com as regras gramaticais, utilizando uma linguagem mais livre das convenções. Como exemplos, o nível coloquial-popular é priorizado em conversas familiares, conversas com uso de gírias, bate-papos informais, escrita de textos informais (recados, bilhetes, cartas e mensagens eletrônicas informais), linguagem utilizada em chats, blogs, orkuts, etc.. Saiba Mais 8 O dialeto inclui diferenças de gramática e vocabulário. O dialeto apresenta o seu próprio sistema léxico, sintático e fonético. O léxico está ligado às palavras, o plano sintático diz respeito às relações entre palavras, enquanto que o aspecto fonético envolve a pronúncia, os sons das palavras. 23 Análise e Interpretação de Textos Nível Formal-culto O nível formal-culto é aquele normalmente utilizado pelas pessoas em situações formais, bem como pela maioria dos meios de comunicação de massa. Caracteriza-se por um cuidado maior com o vocabulário e pela obediência às regras que estabelecem o uso padrão. Em geral, o nível formal-cultoda linguagem é predominantemente utilizado em jornais, revistas, gramáticas, dicionários, textos científicos, relatórios, comunicações em congressos, discursos políticos, conferências, cartas comerciais, monografias, dissertações, teses, artigos de jornais, editoriais, etc. Vamos ler o texto abaixo que prioriza o nível formal-culto da linguagem? Ótica: Explicação sobre a cor do céu “Vemos o céu azul porque a luz proveniente do Sol atravessa uma camada menos espessa da atmosfera, deslocando-se para a extremidade azul da sucessão de cores de que se decompõe”. Fonte:http://super.abril.com.br/super2/superarquivo/1987/sumario-edicao-002.shtml Nível Técnico-profissional Esse nível é muito utilizado pelos indivíduos em ambientes profissionais, ou seja, locais que exigem estratégias comunicativas ligadas às demandas da profissão dos sujeitos. Como exemplo, alguns profissionais, tais como: advogados, médicos, economistas e outros priorizam o nível técnico-profissional quando utilizam uma linguagem bem técnica em seus ambientes de trabalho. Há algumas expressões típicas de certas profissões que são amplamente usadas quando se pretende explorar o nível técnico ou profissional. Veja um trecho de uma bula de remédio e observe a linguagem técnica usada. 24 Análise e Interpretação de Textos Bristol Myers Squibb Farmacêutica Ltda. CAPOTEN CAPTOPRIL FORMAS FARMACÊUTICAS E APRESENTAÇÕES USO ADULTO E PEDIÁTRICO ORAL CAPOTEN (captopril) é apresentado como comprimidos brancos: - alongados com um corte (sulco) de 12,5 mg, apresentados em cartuchos com 15 ou 30 comprimidos. - quadrados com dois cortes (bissulcados) de 25 mg, apresentados em cartuchos com 16 ou 28 comprimidos. - ovais com um corte (sulco) de 50 mg, apresentados em cartuchos com 16 ou 28 comprimidos. COMPOSIÇÃO Cada comprimido de CAPOTEN (captopril) 12,5 mg ou 25 mg ou 50 mg contém captopril 12,5 mg ou 25 mg ou 50 mg, respectivamente. Os ingredientes inativos são: celulose microcristalina, amido de milho, lactose e ácido esteárico. Fonte: http://bulario.bvs.br/index.php?action=search.2004031518315556998982000107& mode=dir&letter=C#inicio Além dos níveis coloquial-popular, formal-culto, técnico-profissional, o modo como os artistas utilizam as estratégias de comunicação está intimamente ligado ao nível artístico da linguagem, como veremos a seguir. Nível Artístico O nível artístico da linguagem envolve a utilização das formas de linguagem com finalidade expressiva e artística. Como exemplos, os poemas, crônicas, contos, romances, pinturas, esculturas, música, 25 Análise e Interpretação de Textos além de várias outras expressões artísticas priorizam o uso desse nível de linguagem. Os poetas populares também exploram o nível artístico da linguagem, quando elaboram cordéis, repentes e várias outras formas que divulgam a poesia popular. Veja a seguir o trecho do cordel “O galo da madrugada”, criado pelo cordelista José Honório. O texto explora o nível artístico da linguagem. Observe: No Galo se vê de tudo Em termos de carnaval Tem o frevo que domina Sendo o prato principal Nesse banquete de ritmos Que levantam nosso astral. Tem abre-alas, baianas Toureiros e mandarins Passistas, porta-estandartes Tocadores de clarins Tem colombinas faceiras Pierrôs e arlequins. Palhaços, xeiques, piratas Odaliscas, enfermeiras Bailarinas, normalistas Diabos, padres e freiras Onças, anjos, gatas, noivas Tiazinhas, feiticeiras. Tem folião casual Que não vai fantasiado Usa bermuda e camisa Um sapato já sambado Se embala com o frevo E faz o passo rasgado Fonte: http://www.josehonorio.com.br 26 Análise e Interpretação de Textos Saiba Mais "O Clube de Alegoria Galo da Madrugada foi criado em dezembro de 1977, numa reunião de amigos do bairro de São José no carnaval. O assunto primordial era a diferença entre os carnavais antigos e o atual (daquela época). Segundo Enéas Freire, presidente perpétuo da agremiação a idéia inicial foi de se formar um clube de frevo. O clube foi fundado oficialmente em 24 de janeiro de 1978, na Rua Padre Floriano, 43, no bairro de São José, O seu principal objetivo é reviver as verdadeiras origens e tradições do carnaval de rua. Para isso, O Galo convoca e congrega todos os seus foliões em um grandioso e sensacional desfile, através das manifestações mais espontâneas e populares, unindo clubes de frevo e grupos de mascarados, nessa grandiosa festa que se realiza todos os anos com êxito." Autora: Claudia M. de Assis Rocha Lima Pesquisadora Fonte: http://www.fundaj.gov.br/docs/text/carnav7.html Você Sabia? Você sabia que um único texto pode apresentar vários níveis de linguagem? Por exemplo, um poema pode utilizar o nível artístico da linguagem pela natureza dos recursos sonoros e imagéticos do fazer poético, como também pode revelar traços de um nível coloquial- popular. Observe a poesia de Patativa do Assaré, a qual se revela como um bom exemplo para ilustrar esse caso. 27 Análise e Interpretação de Textos Vaca Estrela e Boi Fubá Patativa do Assaré, do LP “A Terra é Naturá” Seu doutor me dê licença pra minha história contar. Hoje eu tô na terra estranha, é bem triste o meu penar Mas já fui muito feliz vivendo no meu lugar. Eu tinha cavalo bom e gostava de campear. E todo dia aboiava na porteira do curral. Ê ê ê ê la a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela, ô ô ô ô Boi Fubá. Eu sou filho do Nordeste , não nego meu naturá Mas uma seca medonha me tangeu de lá pra cá Lá eu tinha o meu gadinho, num é bom nem imaginar, Minha linda Vaca Estrela e o meu belo Boi Fubá Quando era de tardezinha eu começava a aboiar Ê ê ê ê la a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela, ô ô ô ô Boi Fubá. Aquela seca medonha fez tudo se atrapalhar, Não nasceu capim no campo para o gado sustentar O sertão esturricou, fez os açude secar Morreu minha Vaca Estrela, já acabou meu Boi Fubá Perdi tudo quanto tinha, nunca mais pude aboiar Ê ê ê ê la a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela, ô ô ô ô Boi Fubá. Hoje nas terra do sul, longe do torrão natá Quando eu vejo em minha frente uma boiada passar, As água corre dos olho, começo logo a chorá Lembro a minha Vaca Estrela e o meu lindo Boi Fubá Com saudade do Nordeste, dá vontade de aboiar Ê ê ê ê la a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela, ô ô ô ô Boi Fubá. Fonte: http://www.facom.ufba.br/pexsites/musicanordestina/patatilet.htm 28 Análise e Interpretação de Textos Minibiografia Patativa do Assaré nasceu em 9 de março de 1909. Foi criado em um ambiente rural, na Serra de Santana, próximo a Assaré. A sua vocação de poeta, cantador da existência e cronista das mazelas sociais despertou cedo, aos cinco anos já exercitava sua poesia popular. A mesma infância que lhe testemunhou os primeiros versos presenciaria a perda da visão direita, em decorrência de uma doença, segundo ele, chamada “mal d’olhos”. Seus versos denunciam os conflitos e as injustiças sociais, propagando sempre a consciência e a perseverança do povo nordestino que sobrevive e dá sinais de bravura ao resistir ao condições climáticas e políticas desfavoráveis. Observe a estrofe da música Cabra da Peste, na qual o poeta afirma sua identidade nordestina: “Eu sou de uma terra que o povo padece Mas não esmorece e procura vencer. Da terra querida, que a linda cabocla De riso na boca zomba no sofrê Não nego meu sangue, não nego meu nome. Olho para a fome, pergunto: que há? Eu sou brasileiro, filho do Nordeste, Sou cabra da Peste, sou do Ceará.” Patativa do Assaré Atividades e Orientações de Estudo Agora que você já estudou o assunto e discutiu com seus(suas) colegas, participando dos fóruns de discussão e chats nos ambiente virtuais de aprendizagem, é hora de praticar. Tente resolver os exercícios propostos. Se precisar de ajuda, busque orientações dos(as) professores(as) que irão orientar você durante o desenvolvimento da disciplina. Lembre-se! É preciso praticar e experienciar os assuntos abordados, por meio dasatividades propostas. Bons estudos e boa sorte! Vamos começar a resolver as atividades propostas? 29 Análise e Interpretação de Textos Atividade 1 Elabore um pequeno texto, explorando o nível formal-culto de linguagem. Lembre-se: utilizamos o nível formal-culto em situações formais de comunicação, empregando o uso padrão da linguagem. A clareza e a correção deverão orientar a produção do seu texto. Motivação para a produção: Imagine que você trabalha como professor(a) em uma escola e está desenvolvendo um projeto educacional com os alunos. Você está precisando de patrocinadores para implementar o seu projeto. Assim, você precisa enviar um e-mail para alguma empresa que poderá patrocinar o projeto. Vamos lá? Tente elaborar um texto breve, claro, coerente, priorizando o uso formal-culto da linguagem. Seu texto deverá ter entre 5 a 7 linhas (no máximo). A mensagem deve ser curta e atraente para o leitor. De: Para: Assunto: Mensagem: 30 Análise e Interpretação de Textos Atividade 2 Identifique o nível de linguagem predominante em cada texto abaixo e justifique sua resposta: Texto 1 As Covas (Mário Quintana) O bicho, quando quer fugir dos outros, faz um buraco na terra. O homem para fugir de si, fez um buraco no céu. Nível de linguagem predominante no texto 1: ________________ Texto 2 Pesquisa revela: quase 80% dos turistas querem voltar a Pernambuco Informações da Secretaria de Turismo de Pernambuco “Quase 80% dos turistas que conhecem Pernambuco afirmaram que gostariam de retornar ao Estado no futuro e 87% avaliaram a estada como boa ou ótima. Estes foram os principais resultados da pesquisa Perfil Socioeconômico do Turista, realizada pelo Departamento de Estatística da Empresa de Turismo de Pernambuco (Empetur). Foram aplicados 853 questionários entre os dias 22 e 24 de março, durante o período da Semana Santa”. 18/05/2008 11:45 Fonte: http://www.folhape.com.br/ Nível de linguagem predominante no texto 2: ________________ Atividade 3 Leia o texto a seguir. 31 Análise e Interpretação de Textos Texto 3 Sketchs9 Dois homens tramando um assalto. - Valeu, mermão? Tu traz o berro que nóis vamo rendê o caixa bonitinho. Engressou, enche o cara de chumbo. Pra arejá. - Podes crê. Servicinho manero. É só entrá e pegá. - Tá com o berro aí? - Tá na mão. Aparece um guarda. - Ih, sujou. Disfarça , disfarça ... O guarda passa por eles. - Discordo terminantemente. O imperativo categórico de Hegel chega a Marx diluído pela fenomenologia de Feurbach. - Pelo amor de Deus! Isso é o mesmo que dizer que Kierkegaard não passa de um Kant com algumas sílabas a mais. Ou que os iluministas do século 18... O guarda se afasta. - O berro, tá recheado? - Tá. - Então vamlá!. (Luís Fernando Veríssimo. O estado de São Paulo, 08/03/98). Após a leitura do texto, responda: a) Quais os níveis de linguagem predominantemente empregados no texto Sketchs? b) Por que os personagens mudam o nível de linguagem quando o guarda se aproxima deles? Vamos Revisar? Vamos continuar estudando um pouco mais sobre os níveis de linguagem? Glossário 9 Esquete [Do ingl. sketch.] Substantivo masculino. 1.Teatr. Pequena cena de revista teatral, ou de programa de rádio ou televisão, quase sempre de caráter cômico. [Equiv. ao fr. pochade (q. v.). Sin. (lus.): rábula.] (Novo Dicionário Aurélio). 32 Análise e Interpretação de Textos É hora de você aprofundar os estudos e continuar revisando. Observe o resumo a seguir: Resumo Neste capítulo, você percebeu que há vários níveis de linguagem que são empregados em diferentes situações comunicativas: nível coloquial-popular, nível formal-culto, nível técnico-profissional, nível artístico. Nível coloquial-popular: empregado em situações informais de comunicação (ex: diálogos cotidianos, bilhetes, mensagens em chats, MSN, orkuts, etc.). Nível formal-culto: usado em contextos mais formais de comunicação (ex: monografias, artigos científicos, notícias de jornais, etc.). Nível técnico-profissional: é aquele utilizado pelos profissionais em seus ambientes de trabalho (ex: a linguagem usada pelos médicos nos consultórios, a linguagem usada pelos advogados nas sessões dos tribunais, etc.). Nível artístico: utilizado em expressões artísticas com finalidade estética (ex: poemas, esculturas, pinturas, romances, peças teatrais, etc.). 33 Análise e Interpretação de Textos Capítulo 3 O que vamos estudar neste capítulo? » Concepções de leitura. » O ato de ler como ação sociocultural. » Níveis de leitura. » Objetivos de leitura. » Leitura e intertextualidade. 34 Análise e Interpretação de Textos Capítulo 3 – Vamos Conversar sobre Leitura? Vamos conversar sobre o assunto? Após discutirmos sobre a diversidade linguística, apresentando fatores extralinguísticos que interferem nos modos de utilização da língua, bem como nas discussões apresentadas sobre os diferentes níveis de linguagem, é hora de começarmos a refletir sobre as práticas de leitura. Você precisa compreender que o modo como lemos os diversos textos que circulam socialmente está diretamente ligado a aspectos históricos e culturais. Assim, as concepções de leitura recorrentes no Brasil, provavelmente, são diferentes daquelas apresentadas em outros países, em função de aspectos políticos, históricos, econômicos e sociais. Você já tentou, alguma vez, realizar a leitura de um texto e foi interrompido(a) por alguém? Provavelmente sim, não é verdade? Comumente, tentamos estudar em casa ou em qualquer outro ambiente e logo chega alguém para “bater papo” conosco, pensando que estamos sem fazer absolutamente nada. Provavelmente isso ocorre, pois as pessoas têm uma visão deturpada da leitura, como se o ato de ler fosse algo secundário ou menos importante que outras atividades diárias. Uma outra curiosidade sobre a leitura pode ser observada no seguinte exemplo. Alguma vez você já tentou fazer um passeio com os amigos e tentou levar um livro para “relaxar” e realizar a leitura como forma de lazer? Certamente se isso ocorreu você teve dificuldades para se concentrar na leitura, pois os seus amigos provavelmente 35 Análise e Interpretação de Textos dirão: ― Que é isso, você vai ler em pleno feriado? Vamos conversar e nos divertir. Deixe a leitura para quando você estiver estudando ou trabalhando. Fecha esse livro, amigo(a)! É interessante como o ato de ler está, no Brasil, atrelado à obrigação das atividades escolares e profissionais, por questões históricas, políticas e culturais. As pessoas acreditam, em geral, que ler é uma tarefa cansativa e árdua, a qual necessariamente não está atrelada ao lazer ou ao prazer de ler uma obra de ficção, por exemplo, apenas para “relaxar”, passar o tempo. Dessa forma, é importante que comecemos a investigar as concepções de leitura que estão subjacentes às práticas socioculturais, assunto que será focalizado a seguir. O que é ler? Vamos iniciar a discussão sobre as concepções de leitura fazendo alguns questionamentos para você. Tente refletir sobre as possíveis concepções sobre o ato de ler. Pense no seu papel como leitor diante de um texto. Para você, o que é ler? Como você define a leitura? Escolha a opção que você acha que define melhor a leitura. Ler é... Um jogo de sentidos 36 Análise e Interpretação de Textos Viajar Imaginar Descobrir o mundo Buscar informações Reconstruir e produzir sentidos 37 Análise e Interpretação de Textos Interação Compreender/ entender mensagens Certamente você deve ter selecionado todas as opções anteriormente listadas. Deu para perceber que cada um, intuitivamente, tem sempre uma compreensão do que seja ler um texto. Mas o que é texto? Você já parou para pensar nesse assunto? Afinal, o que é texto? Tradicionalmente, entende-se por texto10 um conjunto de enunciados relacionados, formando um todo significativo adequado às circunstâncias e condições de uso da língua, isto é, à situação comunicativa.No entanto, observa-se que o conceito de texto não está atrelado à proporção do enunciado. Uma frase, um fragmento de um diálogo e, até mesmo, palavras de situação, tais como: “Fogo!”, “Socorro!”, “Silêncio!”, “Tubarão!” podem ser interpretados como textos, quando inseridos em contextos específicos. Saiba Mais 10 A palavra texto vem do latim “textum “ que quer dizer “tecido 38 Análise e Interpretação de Textos Imagine, por exemplo, que você está em uma praia e alguém grita Tubarão! Imaginou? Provavelmente, você sairá correndo, principalmente se estiver dentro d’água. Então, podemos tirar algumas conclusões. Observe! O conceito de texto, sob o ponto de vista das modernas teorias linguísticas, pode ser entendido de maneira mais abrangente. Ao ampliar esta noção, duas abordagens devem ser consideradas: a primeira mantém-se numa perspectiva ainda estritamente linguística; a segunda se estende para outras linguagens além da verbal. Vamos discutir essas duas abordagens? a) Abordagem estritamente linguística: de acordo com essa abordagem, texto é toda mensagem elaborada por um emissor a um receptor num determinado contexto. A mensagem é construída a partir do código oral ou do código escrito selecionado pelo emissor. Na perspectiva linguística, o texto é verbalmente organizado, ou seja, utiliza a linguagem verbal para se organizar. Nesse sentido, podemos ler um poema, uma bula de remédio, um aviso, etc. Vamos ler um exemplo de texto verbalmente organizado? A Onda Manuel Bandeira a onda anda aonde anda a onda? a onda ainda ainda onda ainda anda aonde? aonde? a onda a onda Fonte: Livro Estrela da Tarde, 1963. Disponível em: http://www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/poesias/manuelbandeira_aonda.htm b) Abordagem semiótica: definição mais ampla, segundo a qual texto é toda mensagem comunicada ao receptor a partir de quaisquer códigos, (oral, escrito, pictórico, etc). Nesse sentido, podemos ler um quadro, um filme, uma escultura etc. Essa definição engloba tanto os textos verbais quanto os não- verbais. Vamos observar alguns exemplos? 39 Análise e Interpretação de Textos Fotografia Pintura Escultura Exemplo 1 Trabalhadores sem terra Exemplo 2 Pintura de Picasso Mulher com o livro Exemplo 3 Charges Exemplo 4 Exemplo 5 Analisando os exemplos anteriores, percebemos que diversas mensagens podem ser transmitidas por diferentes linguagens. Observe que, para compreendermos os exemplos 1, 2, 3 e 4, temos que ampliar nossa competência visual, tentando imaginar o que pode estar por trás das imagens apresentadas. O exemplo da charge 4 revela o diálogo entre texto e contexto, fazendo referência à descoberta de novas reservas de petróleo em solo brasileiro. O chargista prioriza o signo icônico (a imagem) para transmitir a mensagem de forma cômica, colocando a figura do presidente do Brasil surfando na onda de petróleo. Já o exemplo 5 revela o contexto de violência do Rio de Janeiro, no qual nem o Cristo Redentor é poupado. Observe que a charge 5 apresenta uma relação com o texto bíblico, retomando o momento 40 Análise e Interpretação de Textos da crucificação e morte de Cristo. Neste caso, temos um exemplo de intertextualidade, quando revisitamos o texto bíblico e ativamos nosso conhecimento prévio, a fim de interpretarmos a charge. O exemplo da charge número 5 relaciona o código verbal (as palavras) ao código não-verbal (a imagem), transmitindo a mensagem de forma crítica e irônica. No momento em que o receptor se depara com uma mensagem e ele consegue compreendê-la, observamos a leitura de um texto. Logo, texto é qualquer mensagem transmitida por alguém (por um emissor), para alguém (receptor), em certo contexto. Nesse sentido, podemos ler filmes, telas, fotografias, esculturas, enfim, qualquer mensagem que seja transmitida por qualquer código em uma dada situação comunicativa. Você Sabia? Você sabia que há uma distinção entre textos e gêneros textuais? Vamos observar o quadro a seguir. Tipos textuais Gêneros textuais Segundo Marcuschi11 (2002), tipo textual deve designar uma espécie de construção teórica definida pela natureza linguística de sua composição. Em geral, os tipos textuais abrangem categorias conhecidas como: narração, descrição, dissertação. Os gêneros textuais envolvem os tipos textuais e apresentam características sócio- comunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo, composição estrutural. Os gêneros são inúmeros: charges, telefonema, sermão, carta, romance, bilhete, reportagem jornalística, bula de remédio, piada, aulas, charges, etc O mundo é um grande texto: vamos ampliar nossas leituras? No contexto atual, a leitura ganha destaque devido à explosão de informações da Internet e em virtude da necessidade de o indivíduo manter-se atualizado nos mais diversos assuntos que circulam socialmente. A leitura não pode ser considerada como simples decodificação de signos ou como atividade mecânica que determina uma postura passiva diante do texto. Saiba Mais 11 Marcuschi é um autor que se destaca no campo da Linguística com suas publicações referenciadas mundialmente. Professor Titular em Linguística da UFPE, publicou várias obras, tais como: Linguística do texto: o que é e o que faz (1983), Da fala para a escrita: atividades de retextualização (2002); Hipertexto e gêneros digitais (2004). 41 Análise e Interpretação de Textos Paulo Freire12, em seu livro “A importância do ato de ler”, afirmou: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto”. (FREIRE, 1985, p. 11). A leitura é uma atividade necessária no mundo de hoje e não deve restringir-se às finalidades de estudo. É preciso ler para se informar, para participar, para ampliar conhecimentos e alcançar uma compreensão melhor da realidade atual. Segundo Ezequiel Silva (1998), “o ato de ler se constitui num instrumento de luta contra a dominação”, uma vez que ler é “possuir elementos de combate à alienação e ignorância”. Ainda segundo Silva (1998), o importante é destacar os propósitos básicos da leitura, uma vez que não se pode ler um jornal, do mesmo modo como se lê um poema, uma receita culinária, um artigo científico, etc. Objetivos e Níveis de Leitura Será que lemos todos os textos e gêneros textuais da mesma forma? Claro que não, não é mesmo? Para cada tipo de texto e gênero textual, vamos desenvolvendo expectativas e objetivos diferentes em relação à leitura. Quando lemos uma notícia de jornal, temos um propósito bem definido, ou seja, buscamos saber o que aconteceu, quais os fatos mais marcantes que ocorreram. Assim, vamos buscando encontrar informações. Quando estamos diante de um poema, já temos outras intenções. Por meio do poema, a leitura torna-se um jogo Saiba Mais 12 Paulo Freire foi um grande pensador que escreveu vários livros sobre educação. Freire é hoje reconhecido mundialmente por suas abordagens sobre “pedagogia do oprimido”, “pedagogia da autonomia”, além de vários outros temas estudados pelo autor. Leia mais informações sobre Paulo Freire no site do Centro Paulo Freire: http:// www.paulofreire. org.br/asp/Index. asp 42 Análise e Interpretação de Textos de encobertas e descobertas de sentidos, vamos dialogando com os autores, por meio das pistas textuais, relacionamos a poesia as nossas experiências de vida (amores, desilusões, alegrias, etc.). Vamos conhecer alguns objetivos para desenvolvermos melhor nossas práticas de leitura? a) Informação Quando o indivíduo precisa ler para buscar as informações que circulam socialmente, a fim de se manter atualizado, a leitura associa- se à necessidade de conhecer as notícias, articulando-sea leitura da palavra à leitura do mundo. O acesso à informação está cada vez mais democrático e fácil devido às novas tecnologias. Como exemplos desse nível de leitura, podemos citar: leitura de jornais, revistas, notícias, sites informativos, etc. b) Conhecimento Esse nível de leitura é mais enfatizado pela escola, pelas faculdades e universidades, na medida em que o aluno precisa ler com os propósitos de: estudar, fazer uma prova, realizar um exercício, etc.. Nesse sentido, a leitura articula-se à construção do conhecimento, tendo em vista alguma atividade prática. As leituras de artigos, textos científicos, monografias, relatórios, por exemplo, podem ilustrar esse nível de leitura. Note que, neste exato momento, você está desenvolvendo esse nível de leitura, já que está diante de um texto didático, visando construir aprendizagens significativas, a fim de ampliar os seus conhecimentos. c) Prazer estético Nesse último nível, a leitura é livre, ou seja, é preciso ler sem compromisso com os exercícios escolares, ou com a busca de informações cotidianas. Nesse plano, a leitura associa-se ao prazer estético que a obra de arte permite, sem necessariamente ter um compromisso com alguma atividade prática. Podemos exemplificar com a leitura de poemas, letras de música, pinturas, etc. 43 Análise e Interpretação de Textos Os objetivos da leitura estão interligados aos níveis de leitura. Quando lemos um texto, vamos realizando o ato de ler por meio de etapas. Quais são os níveis de leitura que poderemos encontrar? Vamos conhecer um pouco o assunto? Níveis de Leitura Ezequiel Silva, em seu livro “Criticidade e leitura”, destaca os seguintes níveis de leitura: 1. Constatação: compreensão primeira dos conteúdos pretendidos, ou seja, é a leitura literal, na qual o leitor apenas decodifica o que está no texto. Esse nível de leitura corresponde ao ato de “ler as linhas”, ou seja, decodificar o que está explicitamente exposto no texto. 2. Cotejo: a partir de sua experiência anterior, o leitor seleciona informações presentes no texto. Nesse plano, a intertextualidade, ou seja, a relação dialógica entre os textos torna-se um fator primordial na habilidade de leitura do receptor. O leitor consegue associar um texto que leu no passado com algum outro texto que está lendo no momento presente, fazendo comparações entre os dois textos e construindo uma interpretação mais ampla a partir de sua experiência intertextual. Esse nível corresponde ao ato de “ler as entrelinhas”, ou seja, conseguir estabelecer as relações entre o dito e o subentendido no universo textual, estabelecendo conexões com outros textos e outras leituras. 3. Transformação: ação sobre o conteúdo do conhecimento extraído do texto, ou seja, esse nível corresponde à leitura inferencial, aquela em que o leitor vai reconstruindo os vazios do texto, imaginando o que poderia ter acontecido, preenchendo as entrelinhas e extrapolando os limites da significação textual. Nesse sentido, a leitura torna-se um ato de transformação social, em que o sujeito leitor consegue desenvolver uma compreensão crítica do mundo. Esse nível corresponde ao 44 Análise e Interpretação de Textos ato de ler “para além das linhas”, ou seja, ir além significa interagir com o texto, modificar-se no processo de leitura. Observe os exemplos a seguir: Exemplo 1 Exemplo 2 Exemplo 3 Após realizar a leitura dos exemplos 1, 2 e 3, você conseguiu se lembrar de algum outro texto? Certamente você deve ter realizado comparações entre os exemplos anteriores e o célebre quadro de Leonardo da Vinci, a pintura da Mona Lisa13. Saiba Mais 13 A tela Mona Lisa revela uma mulher com olhar enigmático. Leonardo da Vinci começou a pintar o quadro em 1503 e finalizou três ou quatro anos mais tarde. A pintura encontra- se no Museu do Louvre, em Paris. O quadro é um dos mais famosos na História da Arte 45 Análise e Interpretação de Textos Minibiografia Leonardo da Vinci nasceu no pequeno vilarejo de Vinci, nas proximidades de Florença, em 1452. Autor de Monalisa, um dos quadros mais famosos da história, Leonardo era filho ilegítimo de um tabelião. Ele não teve educação formal e sabia pouco ou nenhum latim, condição que o enchia de um certo ressentimento em relação aos colegas mais ilustrados.[...] Em 1503, Francesco del Giocondo, um rico florentino, encomendou a Leonardo - e pagou-lhe muito bem por isso - um retrato de sua mulher, Monalisa. Quatro anos depois o quadro não está pronto. Aqui começa o grande debate: quem é a dama do quadro? A mulher de Giocondo? É este o retrato de uma jovem de 26 anos? Ou é o retrato de Constança d’Avalos, Duquesa de Francavilla, “inclusive com o véu negro de viúva?” Há quem afirme - e a sério - que o encantador sorriso é de um jovem, travestido.” Fonte: http://biografias.netsaber.com.br/ver_biografia_c_1153.html Veja o quadro de Leonardo da Vinci a seguir. Veja como há uma relação dialógica entre os textos (intertextualidade). A clássica pintura Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, é retomada sob várias formas. Os autores recriam o texto original (intertexto) a partir de suas intenções comunicativas. Observe que os produtores de propagandas retomam o quadro de Da Vinci com fins publicitários, visando seduzir o leitor para os produtos que os anunciantes pretendem divulgar (veja exemplo 01). Quando realizamos a leitura intertextual, percebemos o nível do cotejo, pois vamos lendo os textos por meio de comparações com outros textos, vamos ampliando nossa memória de leituras, ativando o nosso conhecimento prévio. 46 Análise e Interpretação de Textos A pintura “O nascimento de Vênus14”, de Botticelli15, também é retomada e recriada, evidenciando mais um caso de intertexualidade, como você pode observar a seguir. Note que as semelhanças nos detalhes, bem como a sintonia entre os estilos e técnicas de pinturas usados para nas telas evidenciam todo o processo de recriação do intertexto, ou seja, o texto de base (O Nascimento de Vênus”, de Botticelli). Ressalte-se que não é um trabalho de cópia ou plágio, mas sim um amplo processo de reconstrução e recriação artística. Atividades e Orientações de Estudo Atividade 1 Vamos trocar experiências de leitura? Em um fórum de discussão, você deve trocar ideias com outros(as) colegas sobre as preferências de leitura. Quais são os livros que você já leu? Que autores você prefere? Você gosta de ler obras literárias (romances, contos, poemas, etc.)? Prefere ler gêneros textuais informativos (notícias de jornais, artigos de revistas, etc.)? Você gosta de ler textos/gêneros que circulam na Internet ou prefere ler textos/ gêneros em meio impresso? Vamos socializar nossas experiências de leitura? Saiba Mais 14 O Nascimento de Vênus é uma pintura de Sandro Botticelli, encomendada por Lorenzo di Pierfrancesco de Médici para a Villa Medicea di Castello. A obra está exposta na Galleria degli Uffizi, em Florença, na Itália. Consiste de têmpera sobre tela e mede 172,5 cm de altura por 278,5 cm de largura. A pintura representa a deusa Vênus emergindo do mar como mulher adulta, conforme descrito na mitologia grega. Fonte: http:// pt.wikipedia. org/wiki/O_ Nascimento_ de_Vênus 47 Análise e Interpretação de Textos Atividade 2 Agora, que você já conheceu um pouco sobre os objetivos e percebeu também que há diferentes níveis de leitura, é hora de praticar. Vamos ler alguns textos? Texto 1 Fome e subdesenvolvimento “A fome é, de longe, o sintoma mais grave e mais geral do subdesenvolvimento. Resulta de todo um conjunto de causas e provoca toda uma gama de consequências. Sendo a alimentação a necessidade primeira do homem e a busca da alimentação tendo sido, durante milênios, uma preocupação quase obsessiva, a fome é, entre as características do subdesenvolvimento, aquela que mais profundamente choca a opinião dos países ricos. É a manifestação mais flagrante da miséria,a expressão das privações que não é possível ignorar: admite-se que os homens fiquem nus, que se alojem em cabanas, que sejam doentios, etc.. mas não é possível admitir a fome. Sua denúncia é, de fato, o único meio de levar a opinião pública dos países desenvolvidos a tomar consciência dos problemas do subdesenvolvimento. Atualmente a fome caracteriza a totalidade dos países subdesenvolvidos”. (LACOSTE, Yves. Geografia do subdesenvolvimento. São Paulo: Difel, 1975, p.29) Texto 2 Comida (Titãs) Bebida é água Comida é pasto Você tem sede de quê? Você tem fome de quê? A gente não quer só comida A gente quer comida, diversão e arte A gente não quer só comida A gente quer saída para qualquer parte A gente não quer só comida A gente quer bebida, diversão , balé A gente não quer só comida A gente quer a vida como a vida quer Bebida é água Comida é pasto Você tem sede de quê? Você tem fome de quê? A gente não quer só comer A gente quer comer, quer fazer amor A gente não quer só comer A gente quer prazer pra aliviar a dor A gente não quer só dinheiro A gente quer dinheiro e felicidade A gente não quer só dinheiro A gente quer inteiro e não pela metade. Saiba Mais 15 Sandro Botticelli foi um dos mais importantes nomes do Renascimento. Algumas de suas obras, como O Nascimento da Vênus e Primavera, são consideradas exemplos perfeitos do ideal renascentista. Nascido em Florença, Alessandro Di Mariano Filipepi era filho de um curtidor de couro. O nome Botticelli foi derivado do apelido de seu irmão mais velho, Giovani, conhecido como Il Botticello (o pequeno barril). Fonte: http:// www.netsaber. com.br/ biografias/ver_ biografia_c_116. html 48 Análise e Interpretação de Textos Texto 3 Explorando a Leitura dos Textos Há uma relação entre os textos lidos? Se houver, qual é a relação que você percebeu? Agora, construa um texto informativo sobre a fome no Brasil. Crie um título e explore as causas e consequências do problema-fome em nosso país. Você deve tomar como base os textos lidos.Pense que seu texto poderá ser publicado em um jornal. Portanto, use uma linguagem simples e acessível aos leitores. Seu texto deverá ter início (introdução), meio (desenvolvimento), fim (conclusão). Você estará produzindo um texto dissertativo16, ou seja, um texto que irá expressar sua opinião sobre o assunto. Após elaborar seu texto, socialize sua produção com outros colegas nos fóruns de discussão. Discuta sobre o tema com os colegas em um chat. Vamos Revisar? Vamos continuar estudando um pouco mais sobre o assunto abordado neste capítulo? É hora de você aprofundar os estudos e continuar revisando. Link 16 Vamos estudar mais sobre textos dissertativos no próximo módulo. 49 Análise e Interpretação de Textos Observe o resumo a seguir. Resumo Neste capítulo, você percebeu que lemos de acordo com os objetivos que orientam a nossa interação com os textos e gêneros textuais que circulam socialmente. Não se pode ler uma charge da mesma forma que uma receita culinária, ou uma notícia de jornal, por exemplo. Assim, quando lemos as notícias dos jornais e procuramos saber o que está acontecendo no mundo estamos interessados nas informações veiculadas pelos jornais. O ato de ler como forma de construir o conhecimento está mais presente quando estudamos um texto para realizarmos uma prova, um exercício, apresentarmos um trabalho a um professor, etc. A leitura como forma de prazer estético se concretiza quando estamos diante de um poema, uma canção, uma tela, uma escultura, ou seja, qualquer manifestação artística que nos convida a descobrir as múltiplas possibilidades de interpretação das obras artísticas. Os objetivos de leitura estão integrados aos níveis de leitura: constatação (ler as linhas), cotejo (ler as entrelinhas) e transformação (ler para além das linhas) (SILVA, 1998). 50 Análise e Interpretação de Textos Capítulo 4 O que vamos estudar neste capítulo? » A leitura na Sociedade da Informação. » Práticas de leituras e análise de textos. » Etapas e estratégias de leitura. » Intertextualidade. 51 Análise e Interpretação de Textos Capítulo 4 – A Importância da Leitura no Mundo Vamos conversar sobre o assunto? Muito se tem discutido sobre a importância da leitura, mas o ato de ler quase sempre é trabalhado nas escolas, nas faculdades e nas universidades como uma tarefa cansativa, obrigatória. Nesses ambientes, deve-se ler para fazer uma prova, um exercício, apresentar um seminário, ou seja, a leitura sofre um processo de escolarização, na medida em que o ato de ler vincula-se, predominantemente, às tarefas escolares. É preciso que o indivíduo reconheça a leitura como prática social que faz parte do seu dia a dia. Assim, é preciso que consigamos ler os textos e os gêneros textuais, reconhecendo a variedade de estratégias de leitura diante da diversidade que encontramos, tais como: narrativas, dissertações, descrições, cartas, avisos, outdoors, faixas, placas, bilhetes, cartas, jornais, relatórios, memorandos, artigos, resumos, enfim, uma infinidade de textos e gêneros textuais que fazem parte da rotina de qualquer pessoa. A leitura e a busca da informação Vivemos a era da Sociedade da Informação17, na medida em que as tecnologias digitais criaram novos canais de comunicação e de informação, exigindo outros papéis dos leitores e produtores de textos. Na maior parte das vezes, o ato de ler, atrelado à busca da informação, torna-se um exercício cada vez mais requisitado no mundo digital, marcado pelo fenômeno da globalização, em que as fronteiras geográficas e culturais entre os países tornam-se tênues, Saiba Mais 17 Com os avanços tecnológicos, vivemos a era da Cibercultura, marcada pela explosão de informações divulgadas pelas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). Assim, a Sociedade da Informação surge como novo pardigma, atrelado ao fenômeno da globalização, além dos crescentes avanços nos recursos tecnológicos. A condição primordial para a Sociedade da Informação avançar é a ampliação de investimentos para a inclusão social-digital, permitindo que todos(as) tenham amplo acesso às Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). É preciso usar criticamente os meios tecnológicos, a fim de transformar a simples e êfemera informação em conhecimento. 52 Análise e Interpretação de Textos na medida em que a humanidade caminha para uma cultura global, em que a massificação dos padrões culturais já é evidente. A leitura de artigos publicados em jornais e revistas, notícias, sites informativos, entre outras práticas de leitura tornam-se atividades rotineiras para qualquer indivíduo que precisa se manter atualizado devido à competitividade do mercado de trabalho, além da rapidez e da velocidade com que as informações trafegam no mundo digital. Estratégias para motivar as práticas de leitura Você já deve ter se questionado inúmeras vezes: » Como devo ler textos de forma eficaz? » Quais são as etapas para praticar a leitura de um texto, visando à análise crítica? Vamos tentar fornecer algumas pistas para você melhorar suas práticas de leitura. Como ler textos? a) Preparação para a leitura Antes de ler o texto, pense e reflita: » Qual o tipo de texto? Qual o gênero textual? Reflita sobre as 53 Análise e Interpretação de Textos seguintes questões: » É um texto narrativo? Uma descrição? Uma dissertação? Uma charge? Um poema? Uma notícia? » Qual o objetivo da leitura? Com que finalidade você está lendo o texto? Lazer? Estudo? Informação? » Em que contexto o texto foi produzido? Qual o ano de publicação? O texto reflete o tema/ as visões de um determinado momento histórico? » Qual o autor do texto? » Em que suporte de comunicação, o texto está sendo veiculado? Jornal em meio impresso/eletrônico? Livro? E-book? ... b) Leitura propriamente dita Após contextualizar a atividade da leitura, com basenos questionamentos anteriores, considere os seguintes passos: Primeira Etapa: Análise Geral do Texto Essa etapa é fundamental no levantamento de informações, responsável para contextualizar a atividade da leitura. É preciso obter informações sobre o autor, contexto em que o texto foi produzido, dados históricos, enfim, toda e qualquer informação relevante para o entendimento global do texto. Para se realizar essa etapa, observe os seguintes passos: Passo 1 - Realize a leitura global do texto, tentando obter uma ideia geral sobre as informações que são transmitidas. Tente captar a ideia central do texto por meio dessa leitura de reconhecimento. Vá sublinhando, destacando palavras/frases, elementos que você considera importantes a partir da leitura global do texto. 54 Análise e Interpretação de Textos A leitura global do texto poderá ser realizada utilizando a técnica de sublinhar ou destacar palavras-chave relevantes para a compreensão global da mensagem. Pode-se usar essa técnica com diversos objetivos: assimilar melhor o texto, memorizar, preparar uma revisão rápida do assunto, aplicar em citações e, principalmente, resumir, esquematizar. Para sublinhar, é indispensável, antes de tudo, a compreensão do texto, pois este é o único processo que permite a seleção do que importante e do que é secundário. A técnica de sublinhar pode ser desenvolvida a partir dos seguintes procedimentos: » Leitura integral do texto (leitura de reconhecimento) » Esclarecimentos de dúvidas de vocabulário, termos técnicos e outros » Releitura do texto, a fim de identificar as ideias principais » Identificar as palavras que contêm a ideia-núcleo e os detalhes importantes » Assinalar, à margem do texto, com um ponto de interrogação, os casos de discordâncias, as passagens obscuras, os argumentos discutíveis » Ler o que foi sublinhado para verificar se há sentido » Reconstruir o texto, retomando as palavras sublinhadas. Vamos observar o exemplo a seguir, no qual o leitor usou a técnica de sublinhar para realizar a leitura global da mensagem. “Quatro funções básicas têm sido convencionalmente atribuídas aos meios de comunicação de massa: informar, divertir, persuadir e ensinar. A primeira diz respeito à difusão de notícias, relatos, comentários etc. sobre a realidade, acompanhada, ou não de interpretações ou explicações. A segunda função atende à procura da distração, da evasão, de divertimento, por parte do público. Uma terceira função é persuadir o indivíduo- convencê-lo a adquirir certo produto, a se comportar de acordo com os desejos do anunciante. A quarta função - ensinar - é realizada de modo direto ou indireto, intencional ou não, por meio de material que contribui para a formação do indivíduo ou para ampliar seu acervo de conhecimentos, planos, destrezas, etc.” (SAMUEL PFROMM NETO). Você observou que o leitor destacou apenas as palavras-chave essenciais à compreensão da mensagem? Quando se dedicam 55 Análise e Interpretação de Textos à técnica de sublinhar, no ato da leitura, muitos leitores começam a destacar frases e parágrafos inteiros, o que poderá dificultar a elaboração futura de esquemas de leitura. É preciso selecionar as ideias essenciais que precisam ser destacadas, a fim de facilitar a compreensão do texto e a elaboração de resumos, esquemas com base no material destacado. Passo 2 - Com base nessa leitura inicial, tente esquematizar a ideia principal e as ideias secundárias. Elabore um gráfico ou um esquema por meio de tópicos, no sentido de sintetizar o que você conseguiu fixar do texto lido. O esquema é um registro gráfico (bastante visual) dos pontos principais de um determinado conteúdo. Não há normas para elaboração do esquema; ele deve ser um registro útil para você, por isso, é você quem deve definir a melhor maneira de fazê-lo. Dar títulos e subtítulos às ideias identificadas no texto, colocar estes itens no papel como uma sequência ordenada por números (1, 1.1, 1.2, 2, etc.) para indicar suas divisões. Não importa que códigos você irá usar em seu esquema. O importante é que o esquema seja útil, ou seja, lhe permita recuperar rapidamente o argumento e as ideias de um texto com uma simples visualização. Vamos observar o esquema elaborado com base na técnica de sublinhar adotada no exemplo anterior Esquema 1 Meios de comunicação de massa Funções básicas: 1. Informar: difusão de notícias 2. Divertir: distração 3. Persuadir: convencer 4. Ensinar: ampliar conhecimentos/ formação do indivíduo. Agora, observe outro exemplo de esquema que investe muito no apelo visual. 56 Análise e Interpretação de Textos Esquema 2 Segunda Etapa: Análise Temática Essa segunda etapa está muito ligada à primeira. Com base no esquema feito, elencar o tema geral, as ideias principais e secundárias, estabelecer uma conexão entre o tema e o título do texto. Vamos observar os passos para a realização da análise temática? Passos para Análise Temática: » Delimitar a ideia principal do texto. Quais os argumentos principais? » Identificar as ideias secundárias e articulá-las com a ideia principal » Estabelecer conexões entre o tema geral apresentado ao longo do texto e o título » Tente dar um outro título ao texto lido, por exemplo. » O texto lido remeteu você a alguma outra leitura que você já realizou? Pense na intertextualidade, ou seja, nas possíveis relações entre os textos. Terceira Etapa: Interpretação e Avaliação Crítica do Texto Essa é a etapa final na qual o leitor é motivado a produzir o seu próprio texto no ato dinâmico da leitura. A partir do que leu, o leitor é capaz de concordar, discordar, preencher os vazios, perceber o não- dito, as entrelinhas, a fim de atingir o nível de criticidade. 57 Análise e Interpretação de Textos Passos para Interpretação e Avaliação Crítica do texto: Com base na leitura e nas etapas descritas anteriormente, o leitor deverá: » Concordar ou discordar do que foi lido » Revelar sua opinião crítica » Preencher os vazios, os implícitos, articulando o dito ao não- dito » Produzir o seu próprio discurso crítico » Produzir o seu próprio texto, sendo capaz de falar sobre o que leu, comentando as ideias/os temas apresentados pelo autor » A partir da interpretação e da avaliação crítica, o leitor poderá desenvolver o seu próprio texto escrito, seja um resumo, uma resenha, um roteiro, um ficha, com base na leitura efetivada. Como Elaborar Resumos? Resumir é apresentar, de forma breve, concisa e seletiva, um certo conteúdo. Isto significa reduzir a termos breves e precisos a parte essencial de um tema. Um resumo bem elaborado deve obedecer aos seguintes passos: » Apresentar, de maneira concisa, o assunto da obra/texto » Respeitar a ordem das ideias e dos fatos apresentados » Empregar linguagem clara e objetiva » Evitar transcrição de frases do original » Apontar as conclusões do autor Características do Resumo » Breve e conciso: no resumo de um texto, por exemplo, devemos deixar de lado os exemplos dados pelo autor, detalhes e dados secundários. » Logicamente estruturado: um resumo não é apenas um apanhado de frases soltas. Ele deve trazer as ideias centrais (o argumento) daquilo que se está resumindo. Assim, as ideias 58 Análise e Interpretação de Textos devem ser apresentadas em ordem lógica, ou seja, como tendo uma relação entre elas. O texto do resumo deve ser compreensível. Tipos de Resumo a) Resumo indicativo ou descritivo Também conhecido como abstract (resumo, em inglês), este tipo de resumo apenas indica os pontos principais de um texto, sem detalhar aspectos como exemplos, dados qualitativos ou quantitativos etc. Esse tipo de resumo é muito utilizado em artigos científicos18. A função desse resumo é fornecer uma ideia global do texto que será lido. b) Resumo crítico ou resenha O resumo crítico é uma redação técnica que avalia de forma sintética a importância de uma obra científica ou literária. A resenha19 (ou resumocrítico) não é apenas um resumo informativo ou indicativo. Antes de começar a escrever seu resumo crítico, você deve se certificar de ter feito uma boa leitura do texto, identificando: 1. Qual o tema tratado pelo autor? 2. Qual o problema que ele coloca? 3. Qual a posição defendida pelo autor com relação a este problema? 4. Quais os argumentos centrais e complementares utilizados pelo autor para defender sua posição? Praticando a Leitura... Vamos ler os textos abaixo? Use a técnica de sublinhar/destacar para a leitura do texto 1 (Usinas nucleares: ainda um grande risco).Tente esquematizar as ideias principais do texto. Saiba Mais 18 Artigo é um trabalho técnico- científico, escrito por um ou mais autores, visando à publicação em revistas ou jornais científicos. Você poderá encontrar vários artigos científicos no portal http://www. scielo.org/php/ index.php Hiperlink 19 Visite o site indicado e pesquise mais sobre elaboração de resenhas http://www.lendo. org/como-fazer- uma-resenha/ 59 Análise e Interpretação de Textos Texto 1 Usinas nucleares: ainda um grande risco Samuel Murgel Branco "As primeiras bombas atômicas produzidas pelos Estados Unidos e Segunda Guerra Mundial eram baseadas no princípio da fissão do átomo de urânio, que se transforma em chumbo. Já as bombas de hidrogênio, que vieram anos depois, eram baseadas na fusão de núcleos segundo o mesmo princípio observado no Sol, ou seja, átomos de hidrogênio fundindo-se entre si transformaram-se em átomos de hélio. Para que essa fusão seja possível é necessária uma temperatura extremamente elevada. No caso das bombas, essa temperatura é obtida com a explosão inicial de uma bomba de fissão. Daí não se ter conseguido até hoje a fusão de forma controlada e não-explosiva. Por conseguinte, para a geração de energia elétrica, as usinas nucleares continuam baseadas na fissão de núcleos de urânio. O grande inconveniente do processo de fissão está na produção de radioatividade e na contaminação radioativa do meio ambiente, com todas as conhecidas consequências para a vida de seres humanos, animais e vegetais observadas em locais onde houve explosão de bombas atômicas." (BRANCO, Samuel. O meio ambiente em debate. São Paulo : Moderna, 2004). Agora que você já leu o texto 1, tente realizar comparações com os textos a seguir. Pense nas semelhanças e nas diferenças entre os textos. Vamos ler os textos e descobrir possíveis relações entre eles? Texto 2 Rosa de Hiroshima (1973) Vinícius de Moraes e Gerson Conrad Interpretação: Secos e Molhados Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas oh não se esqueçam Da rosa da rosa Da rosa de Hiroshima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida e inválida A rosa com cirrose A anti-rosa atômica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada www.paixaoeromance.com/70decada/rosa_iroshima/h_rosa_de_hiroshima.htm 60 Análise e Interpretação de Textos Texto 3 Texto 4 Explorando a Leitura dos Textos Observe como os textos usam linguagens diferentes, mas se aproximam do ponto de vista do tema abordado. O texto 1 apresenta informações sobre bombas atômicas utilizadas 61 Análise e Interpretação de Textos em guerras mundiais. O poema (texto 2) revela o olhar especial do poeta que faz uma comparação entre a explosão da bomba atômica e o desabrochar de uma rosa, usando uma linguagem figurada (conotativa). Assim, por meio da linguagem figurada, o texto permite várias interpretações, abrindo as possibilidades de leitura. O texto 3 representa um desenho que retoma uma foto histórica (texto 4), por meio de uma relação intertextual. O desenhista atualizou o tema da bomba e colocou as personagens no cenário dos Estados Unidos, que vivenciaram o dia 11 de setembro como o dia marcado pelo terrorismo. Por ironia do destino, foram os EUA que lançaram a bomba atômica em Hiroshima e utilizaram outras armas, como Napalm, na guerra do Vietnã. A histórica fotografia (texto 4) revela a imagem assustadora de crianças fugindo de um ataque com Napalm20. Atividades e Orientações de Estudo Atividade 1 Vamos realizar um júri-simulado? Agora que você já leu os textos, qual a sua opinião sobre a utilização da energia nuclear no Brasil? Você é a favor ou contra a ampliação de investimentos nesse tipo de energia em solo brasileiro? Vocês devem se organizar em grupos, sob orientação dos(as) professores(as). Essa atividade será uma oportunidade para que vocês pratiquem aprendizagens colaborativas, utilizando os fóruns de discussão como ferramentas para socializar as experiências de aprendizagem. Assim, na atividade proposta, vamos utilizar o fórum de discussão para socializarmos as argumentações de cada grupo. Para realizar essa atividade, vocês precisam perceber a importância da argumentação como estratégia de convencer, persuadir o destinatário da mensagem. Observe: Argumentar é relacionar fatos, estudos, pontos de vista acerca de determinado tema, visando persuadir o destinatário da mensagem sobre a ideia que se pretende transmitir. Saiba Mais 20 Napalm foi desenvolvido durante a Segunda Guerra Mundial nos EUA. Trata-se de uma arma química e foi usada em lança-chamas e bombas pelos EUA e nações aliadas durante a segunda guerra mundial e na Guerra do Vietnã. 62 Análise e Interpretação de Textos Seguem algumas dicas para você melhorar suas estratégias de argumentação: Dicas sobre argumentação » Os argumentos devem ter um embasamento; nunca se deve afirmar algo que não venha de estudos ou informações previamente selecionadas. » Os exemplos dados devem ser coerentes com a realidade, ou seja, podem até ser fictícios, mas não podem ser inverossímeis. » Caso haja citações de pessoas ou trechos de textos. Estes devem ser razoavelmente confiáveis, não se podendo citar qualquer pessoa. » Experiências que comprovem os argumentos devem ser também coerentes com a realidade. Sobre a estrutura do texto » Deve conter uma lógica de pensamentos. Os raciocínios devem ter uma relação e um deve continuar o que o outro afirmava. » No início do texto, deve-se apresentar o assunto e a problemática que o envolve, sempre tomando cuidado para não se contradizer. » No desenvolvimento do texto, vão sendo apresentados os argumentos propriamente ditos, juntamente com exemplificações e citações (se existirem). » No final do texto, as ideias devem ser arrematadas com uma tese (a conclusão). Essa conclusão deve vir sendo prevista pelo leitor durante todo o texto, à medida que ele vai lendo e se direcionando para concordar com ela. Fonte: Texto adaptado de http://www.infoescola.com/redacao/argumentacao/ Vamos organizar os grupos? Grupo 1: Advogados de Defesa / A favor do uso da Energia Nuclear no Brasil Se você é a favor da utilização da energia nuclear no Brasil, elabore uma lista dos pontos positivos para o uso dessa energia. Tente elaborar uma argumentação convincente acerca do seu ponto de vista sobre o tema. Grupo 2: Advogados de Acusação/ Contra o uso da Energia Nuclear no Brasil Se você é contra a utilização da energia nuclear no Brasil, elabore uma lista dos pontos negativos para o uso dessa energia. Considere argumentos capazes de persuadir/convencer os destinatários da mensagem. Grupo 3: Júri Um grupo deverá assumir o papel do júri que irá avaliar os argumentos dos advogados de defesa e dos advogados de acusação. O resultado final será divulgado pelo júri. O trabalho será organizado pelos(as) professores(as) na mediação entre os grupos. 63 Análise e Interpretação de Textos Réu: Tema - Energia Nuclear no Brasil Enquete Vamos elaborar uma enquete sobre o tema? Essa atividade também poderá gerar uma enquete, a partir da qual vocês deverão votar contra ou a favor ao uso da energia nuclear depois da socialização dos argumentos dos grupos no fórum de discussão sobreo tema. Vamos Revisar? Resumo Neste capítulo, você observou que a leitura de textos informativos é uma prática recorrente no contexto atual, cenário da Sociedade da Informação em que as novas tecnologias digitais estão exigindo maior aprimoramento das nossas competências comunicativas. Também destacamos a importância da argumentação e da contra-argumentação por meio da leitura de textos que mantêm relações intertextuais. Considerações Finais Olá, Cursista! Chegamos ao final de mais um módulo. Você gostou dos assuntos abordados neste segundo módulo? Esperamos que você tenha respondido de modo afirmativo, pois tentamos abordar temas bem interessantes, a fim de aproximá-lo(a) da Análise e Interpretação de Textos como práticas socioculturais. Neste segundo módulo, você estudou a diversidade linguística, reconhecendo a importância dos diferentes níveis de linguagem (coloquial-popular, formal-culto, técnico- profissional, artístico). Assim, você percebeu a necessidade de ajustarmos os usos da língua aos diferentes contextos e situações comunicativas, observando o universo fascinante dos textos que circulam socialmente. O preconceito linguístico foi outro tema abordado e você certamente conseguiu perceber que as diferenças linguísticas são reveladoras de aspectos sociais, históricos e culturais que estão subjacentes às formas como utilizamos a língua. Também abordamos alguns objetivos e níveis de leitura, no sentido de ajudá-lo(a) a compreender as conexões entre o ato de ler e aspectos sociais. Você descobriu que o mundo é um grande texto, como já afirmou o grande educador Paulo Freire, entendendo- se que linguagem, realidade e sociedade estão dialogicamente relacionadas. Além das relações entre os textos e as dimensões socioculturais, você percebeu que a intertextualidade evidencia o caráter dialógico das relações que se estabelecem entre diversos textos produzidos em contextos distintos. Esperamos você tenha aproveitado ao máximo este segundo módulo, enriquecendo e aprimorando seus conhecimentos nas trocas interativas com os colegas, os(as) professores(as) e os materiais didáticos. No próximo módulo, você vai conhecer um pouco mais as práticas de leitura, pois iremos investigar as diferentes estratégias para lermos textos narrativos, descritivos e dissertativos. Para darmos continuidade a essa fascinante viagem, convidamos você mais uma vez para participar do próximo módulo. Até lá e bons estudos! Ivanda Martins Professora Autora 65 Análise e Interpretação de Textos Referências BAGNO, M. O preconceito linguístico. São Paulo: Loyola, 2000. BLIKSTEIN, I. Técnicas de comunicação escrita. São Paulo: Ática, 2001. CHALHUB, S. Funções da linguagem. São Paulo: Ática, 1999. FREIRE, P. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 1995. KLEIMAN, A. Oficina de leitura: teoria e prática. Campinas: Editora da Unicamp/Pontes, 1993. MARTINS, D,; ZILBERKNOP, L. Português instrumental. Porto Alegre: Prodil, 2000. MARTINS, M. H. O que é leitura? São Paulo: Brasiliense, 1994. PLATÃO & FIORIN. Para entender o texto. São Paulo: Ática, 1999. LÉVY, P. Cibercultura. Rio de Janeiro: Editora 34, 1999. MARCUSCHI, L.; XAVIER, A. Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de construção de sentido. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. MARTINS, D,; ZILBERKNOP, L. Português instrumental. Porto Alegre: Prodil, 2000. SILVA, E. O ato de ler. São Paulo: Cortez, 1991. ______. Leitura na escola e na biblioteca. Campinas: Papirus, 1995. ______. Criticidade e leitura. Campinas: Mercado de Letras, 1998. _____. Elementos de pedagogia da leitura. São Paulo: Martins Fontes, 1998. VALENTE, A. A linguagem nossa de cada dia. Petrópolis: 66 Análise e Interpretação de Textos Vozes, 1997. VANOYE, F. Usos da linguagem: problemas e técnicas na produção oral e escrita. São Paulo: Martins Fontes, 1991. TERRA, E. Linguagem, língua e fala. São Paulo: Scipione, 1997. ZILBERMAN, R.; SILVA, E. (Orgs.). Leitura: perspectivas interdisciplinares. São Paulo: Ática, 1995. 67 Análise e Interpretação de Textos Conheça a Autora Olá, Pessoal! Sou Ivanda Martins, professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Estou atuando na equipe de Educação a Distância da UFRPE, no Departamento de Estatística e Informática (DEINFO), como professora autora. Tenho experiência na elaboração de materiais didáticos para cursos na modalidade a distância, ofertados pela UFRPE e pela UPE, produzindo materiais didáticos para disciplinas, como Didática, Práticas de Leitura e Produção Textual e Português Instrumental. Tenho Doutorado na área de Letras (UFPE) e desenvolvo pesquisas sobre letramento digital, formação de professores e Educação a Distância. Adoro desenvolver pesquisas e escrever textos nas áreas de letras/linguística e educação. Já escrevi e organizei alguns livros, tais como: Literatura em sala de aula: da teoria literária à prática escolar (2005), publicação de minha tese de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação em Letras/UFPE; Produção textual: múltiplos olhares (2006), Literatura: alinhavando ideias, tecendo frases, construindo textos (2008), Ensino, Pesquisa e Extensão: múltiplas conexões (2007), Laços Multiculturais (2006), publicações editadas pela Baraúna/Recife. Espero encontrar você em novas aventuras virtuais. Até lá! Ivanda Martins Professora Autora