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164 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) II. processam-se com base em fidedignos documentos históricos, nos quais há registro detalhado dos usos e costumes das várias nações indígenas. III. ocorreram como reação às tendências nacionalistas do nosso Romantismo, que valorizavam sobretudo a vida urbana e os valores burgueses. Atende ao enunciado o que está em a) I, II e III. b) I e II, apenas. c) II e III, apenas. d) I e III, apenas. e) I, apenas. Questão 04 (Fuvest 2017) TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES A adoção do cardápio indígena introduziu nas cozinhas e zonas de serviço das moradas brasileiras equipamentos desconhecidos no Reino. Instalou nos alpendres roceiros a prensa de espremer mandioca ralada para farinha. Nos inventários paulistas é comum a menção de tal fato. No inventário de Pedro Nunes, por exemplo, efetuado em 1623, fala-se num sítio nas bandas do Ipiranga “com seu alpendre e duas camarinhas no dito alpendre com a prensa no dito sítio” que deveria comprimir nos tipitis toda a massa proveniente do mandiocal também inventariado. Mas a farinha não exigia somente a prensa – pedia, também, raladores, cochos de lavagem e forno ou fogão. Era normal, então, a casa de fazer farinha, no quintal, ao lado dos telheiros e próxima à cozinha. Carlos A. C. Lemos, Cozinhas, etc. Traduz corretamente uma relação espacial expressa no texto o que se encontra em: a) A prensa é paralela aos tipitis. b) A casa de fazer farinha é adjacente aos telheiros. c) As duas camarinhas são transversais à cozinha. d) O alpendre é perpendicular às zonas de serviço. e) O mandiocal e o Ipiranga são equidistantes do sítio. Questão 05 (Fuvest 2017) Além de “tipitis”, constituem contribuição indígena para a língua portuguesa do Brasil as seguintes palavras empregadas no texto: a) “cardápio” e “roceiros”. b) “alpendre” e “fogão”. c) “mandioca” e “Ipiranga”. d) “sítio” e “forno”. e) “prensa” e “quintal”. Questão 06 (Fuvest 2017) TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES Nasceu o dia e expirou. Já brilha na cabana de Araquém o fogo, companheiro da noite. Correm lentas e silenciosas no azul do céu, as estrelas, filhas da lua, que esperam a volta da mãe ausente. Martim se embala docemente; e como a alva rede que vai e vem, sua vontade oscila de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores. Iracema recosta-se langue ao punho da rede; seus olhos negros e fúlgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o estrangeiro, e lhe entram n’alma. O cristão sorri; a virgem palpita; como o saí, fascinado pela serpente, vai declinando o lascivo talhe, que se debruça enfim sobre o peito do guerreiro. José de Alencar, Iracema. No texto, corresponde a uma das convenções com que o Indianismo construía suas representações do indígena a) o emprego de sugestões de cunho mitológico compatíveis com o contexto. b) a caracterização da mulher como um ser dócil e desprovido de vontade própria. c) a ênfase na efemeridade da vida humana sob os trópicos. d) o uso de vocabulário primitivo e singelo, de extração oral- popular. e) a supressão de interdições morais relativas às práticas eróticas. Questão 07 (Fuvest 2017) Atente para as seguintes afirmações, extraídas e adaptadas de um estudo do crítico Augusto Meyer sobre José de Alencar: I. “Nesta obra, assim como nos ‘poemas americanos’ dos nossos poetas, palpita um sentimento sincero de distância poética e exotismo, de coisa notável por estranha para nós, embora a rotulemos como nativa.” II. “Mais do que diante de um relato, estamos diante de um poema, cujo conteúdo se concentra a cada passo na magia do ritmo e na graça da imagem.” III. “O tema do bom selvagem foi, neste caso, aproveitado para um romance histórico, que reproduz o enredo típico das narrativas de capa e espada, oriundas da novela de cavalaria.” É compatível com o trecho de Iracema aqui reproduzido, considerado no contexto dessa obra, o que se afirma em a) I, apenas. b) III, apenas. c) I e II, apenas. d) II e III, apenas. e) I, II e III. Questão 08 (Fac. Pequeno Príncipe - Medicina 2016) Leia as seguintes sentenças sobre a obra Iracema, de José de Alencar. I. Constitui obra de exaltação da flora e fauna brasileira, mas apresenta o índio como representante de uma raça inferior e inculta. II. A obra representa o mito alencariano composto pelo herói, o índio, resistente à colonização e à presença do ‘outro’, e o branco, colonizador agressivo que deseja destruir o nativo. III. A personagem Martim, representação do colonizador europeu, apesar de seu amor por Iracema, resiste à cultura indígena e rejeita a língua e os costumes nativos. IV. A personagem Iracema, representação do índio exaltado pela literatura do período romântico, pode ser considerada um símbolo da terra mãe, o Brasil. V. O romance apresenta, por meio de estilo lírico, uma idealização do índio brasileiro. Considerando-se as características da obra e os princípios estéticos e ideológicos do período romântico brasileiro, pode-se afirmar que: a) somente as sentenças I e II estão corretas. b) somente as sentenças III, IV e V estão corretas. c) somente a sentença I está correta. Aula 16 - Romantismo No Brasil – Prosa 165 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência d) somente a sentença IV está correta. e) somente as sentenças IV e V estão corretas. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Mandara Pereira acender uma vela de sebo. Vinda a luz, aproximaram-se ambos do leito da enferma que, achegando ao corpo e puxando para debaixo do queixo uma coberta de algodão de Minas, se encolheu toda, e voltou-se para os que entravam. – Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira, que vem curar-te de vez. – Boas-noites, dona, saudou Cirino. Tímida voz murmurou uma resposta, ao passo que o jovem, no seu papel de médico, se sentava num escabelo junto à cama e tomava o pulso à doente. Caía então luz de chapa sobre ela, iluminando-lhe o rosto, parte do colo e da cabeça, coberta por um lenço vermelho atado por trás da nuca. Apesar de bastante descorada e um tanto magra, era Inocência de beleza deslumbrante. Do seu rosto irradiava singela expressão de encantadora ingenuidade, realçada pela meiguice do olhar sereno que, a custo, parecia coar por entre os cílios sedosos a franjar-lhe as pálpebras, e compridos a ponto de projetarem sombras nas mimosas faces. [...] Ligeiramente enrubesceu Inocência e descansou a cabeça no travesseiro. – Por que amarrou esse lenço? perguntou em seguida o moço. – Por nada, respondeu ela com acanhamento. – Sente dor de cabeça? – Nhor-não. – Tire-o, pois: convém não chamar o sangue; solte, pelo contrário, os cabelos. Inocência obedeceu e descobriu uma espessa cabeleira, negra como o âmago da cabiúna e que em liberdade devia cair até abaixo da cintura. Estava enrolado em bastas tranças, que davam duas voltas inteiras ao redor do cocoruto. [...] Não se descuidou Cirino, antes de se retirar, de novamente tomar o pulso e, à conta de procurar a artéria, assentou toda a mão no punho da donzela, envolvendo-lhe o braço e apertando-o docemente. Saiu-se mal de tudo isso; porque, se tratava da cura de alguém, para si arranjava enfermidade e bem grave. TAUNAY, A. d’E. Inocência. 3. ed. São Paulo: FTD, 1996. p. 57-58; 72. Questão 09 (UFSC 2012) Com base no trecho acima e no romance Inocência e levando em consideração o contexto do Romantismo brasileiro, marque a(s) proposição(ões) CORRETA(S). 01) O episódio descrito no texto refere-se ao momento em que Cirino vê pela primeira vez Inocência e fica tão apaixonado pela moça que até sua atividade médica é afetada. 02)Dois atos de Cirino – pedir a Inocência que solte os cabelos e tomar-lhe o pulso logo depois de já tê-lo feito – podem ter sido motivados não tanto por razões médicas, mas pelo desejo do rapaz de ver melhor a moça e tocá-la. 04) Inocência reúne algumas características bastante comuns em heroínas românticas: ousadia, agilidade, coragem e excepcional beleza. 08) No último parágrafo, percebe-se como Cirino é contagiado pela malária, doença que acometia Inocência, vindo a ficar depois gravemente enfermo. 16) Diferentemente de outras obras do Romantismo, praticamente não existem em Inocência referências à religião, quer nas falas das personagens, quer nos comentários do narrador. 32) O romance Inocência explora uma temática bastante comum no Romantismo, que é o amor impossível e trágico, mas a obra tem alguns trechos de humor, como o episódio em que Meyer é atacado por formigas e tem que se despir. Questão 10 (Puccamp 2017) TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO José de Alencar retratou o seu herói goitacá em prosa, a exemplo do que o escocês Walter Scott havia feito com os cavaleiros medievais na célebre novela Ivanhoé. Para evocar um mítico passado nacional, na falta dos briosos cavaleiros medievais de Scott, o índio seria o modelo de que Alencar lançaria mão. (...) O índio entrara como tema na literatura universal por influência das ideias dos filósofos iluministas e especialmente, da obra de Jean- Jacques Rousseau (...). As teses de Rousseau sobre o “bom selvagem”, por sua vez, bebiam na fonte das narrativas de viajantes do século XVI, os primeiros europeus que haviam colocado os pés no chão americano. Foram esses viajantes os responsáveis pela propagação do juízo de que, do outro lado do oceano, existia um povo feliz, vivendo sem lei nem rei (...). (NETO, Lira. O inimigo do Rei. Uma biografia de José de Alencar. São Paulo: Globo, 2006. p. 166-167) A afirmação de que José de Alencar valeu-se do modelo heroico dos cavaleiros medievais para compor personagens de cunho nacionalista fez com que concebesse e apresentasse Peri, protagonista de O Guarani, como um a) autêntico guerreiro goitacá. b) explorador aliado do colonizador. c) nativo com qualidades aristocráticas. d) lacaio valente de um nobre português. e) pajé dotado de poderes sobrenaturais. Questão 11 (Enem 2009) No decênio de 1870, Franklin Távora defendeu a tese de que no Brasil havia duas literaturas independentes dentro da mesma língua: uma do Norte e outra do Sul, regiões segundo ele muito diferentes por formação histórica, composição étnica, costumes, modismos linguísticos etc. Por isso, deu aos romances regionais que publicou o título geral de Literatura do Norte. Em nossos dias, um escritor gaúcho, Viana Moog, procurou mostrar com bastante engenho que no Brasil há, em verdade, literaturas setoriais diversas, refletindo as características locais. CANDIDO, A. A nova narrativa. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 2003. Com relação à valorização, no romance regionalista brasileiro, do homem e da paisagem de determinadas regiões nacionais, sabe- se que a) o romance do Sul do Brasil se caracteriza pela temática essencialmente urbana, colocando em relevo a formação do homem por meio da mescla de características locais e dos aspectos culturais trazidos de fora pela imigração europeia. b) José de Alencar, representante, sobretudo, do romance urbano, retrata a temática da urbanização das cidades brasileiras e das relações conflituosas entre as raças. c) o romance do Nordeste caracteriza-se pelo acentuado realismo no uso do vocabulário, pelo temário local, expressando a vida do 166 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) homem em face da natureza agreste, e assume frequentemente o ponto de vista dos menos favorecidos. d) a literatura urbana brasileira, da qual um dos expoentes é Machado de Assis, põe em relevo a formação do homem brasileiro, o sincretismo religioso, as raízes africanas e indígenas que caracterizam o nosso povo. e) Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz, Simões Lopes Neto e Jorge Amado são romancistas das décadas de 30 e 40 do século XX, cuja obra retrata a problemática do homem urbano em confronto com a modernização do país promovida pelo Estado Novo. Questão 12 (Enem Cancelado 2009) O sertão e o sertanejo Ali começa o sertão chamado bruto. Nesses campos, tão diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e ressecado pelo ardor do sol transforma-se em vicejante tapete de relva, quando lavra o incêndio que algum tropeiro, por acaso ou mero desenfado, ateia com uma faúlha do seu isqueiro. Minando à surda na touceira, queda a vívida centelha. Corra daí a instantes qualquer aragem, por débil que seja, e levanta-se a língua de fogo esguia e trêmula, como que a contemplar medrosa e vacilante os espaços imensos que se alongam diante dela. O fogo, detido em pontos, aqui, ali, a consumir com mais lentidão algum estorvo, vai aos poucos morrendo até se extinguir de todo, deixando como sinal da avassaladora passagem o alvacento lençol, que lhe foi seguindo os velozes passos. Por toda a parte melancolia; de todos os lados tétricas perspectivas. É cair, porém, daí a dias copiosa chuva, e parece que uma varinha de fada andou por aqueles sombrios recantos a traçar às pressas jardins encantados e nunca vistos. Entra tudo num trabalho íntimo de espantosa atividade. TAUNAY, Visconde de. Inocência. O romance romântico teve fundamental importância na formação da ideia de nação. Considerando o trecho acima, é possível reconhecer que uma das principais e permanentes contribuições do Romantismo para construção da identidade da nação é a a) possibilidade de apresentar uma dimensão desconhecida da natureza nacional, marcada pelo subdesenvolvimento e pela falta de perspectiva de renovação. b) consciência da exploração da terra pelos colonizadores e pela classe dominante local, o que coibiu a exploração desenfreada das riquezas naturais do país. c) construção, em linguagem simples, realista e documental, sem fantasia ou exaltação, de uma imagem da terra que revelou o quanto é grandiosa a natureza brasileira. d) expansão dos limites geográficos da terra, que promoveu o sentimento de unidade do território nacional e deu a conhecer os lugares mais distantes do Brasil aos brasileiros. e) valorização da vida urbana e do progresso, em detrimento do interior do Brasil, formulando um conceito de nação centrado nos modelos da nascente burguesia brasileira. Questão 13 Leia o trecho de Noite na taverna, de Álvares de Azevedo. “– Quem eu sou? na verdade fora difícil dizê-lo: corri muito mundo, a cada instante mudando de nome e de vida. Fui poeta e como poeta cantei. Fui soldado e banhei minha fronte juvenil nos últimos raios de sol da águia de Waterloo. Apertei ao fogo da batalha a mão do homem do século. Bebi numa taverna com Bocage – o português, ajoelhei-me na Itália sobre o túmulo de Dante e fui à Grécia para sonhar como Byron naquele túmulo das glórias do passado. – Quem eu sou? Fui um poeta aos vinte anos, um libertino aos trinta, sou um vagabundo sem pátria e sem crenças aos quarenta. Sentei-me à sombra de todos os sóis, beijei lábios de mulheres de todos os países; e de todo esse peregrinar, só trouxe duas lembranças – um amor de mulher que morreu nos meus braços na primeira noite de embriaguez e de febre – e uma agonia de poeta... Dela tenho uma rosa murcha e a fita que prendia seus cabelos. Dele olhai... O velho tirou de um bolso um embrulho: era um lenço vermelho o invólucro; desataram-no: dentro estava uma caveira.” O trecho selecionado recupera a fala de um velho que interrompe a história, contada pelo jovem Bertram, um dos rapazes presentes na Taverna. As palavras dessa personagem expressam, nas entrelinhas, a) a confissão doarrependimento pela vida errante do passado e o desejo de um cotidiano mais regrado. b) a descrição de cada um dos lugares por onde passou e viveu. c) a indignação frente à miséria e às injustiças presenciadas em todos os lugares visitados. d) a dificuldade de mostrar-se diante da plateia que escutava a narrativa de Bertram, o segundo, naquela noite, a relatar sua trágica história. e) o sofrimento de um amante e poeta que, durante toda a sua peregrinação, não conseguiu realizar-se como Homem. Questão 14 (Unifesp 2016) A(s) questão(ões) a seguir focalizam uma passagem da comédia O juiz de paz da roça do escritor Martins Pena (1815-1848). JUIZ (assentando-se): Sr. Escrivão, leia o outro requerimento. ESCRIVÃO (lendo): Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. “Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a V. Sa. mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher”. JUIZ: É verdade que o senhor tem o filho da égua preso? JOSÉ DA SILVA: É verdade; porém o filho me pertence, pois é meu, que é do cavalo. JUIZ: Terá a bondade de entregar o filho a seu dono, pois é aqui da mulher do senhor. JOSÉ DA SILVA: Mas, Sr. Juiz... JUIZ: Nem mais nem meios mais; entregue o filho, senão, cadeia. (Martins Pena. Comédias (1833-1844), 2007.) O efeito cômico produzido pela leitura do requerimento decorre, principalmente, do seguinte fenômeno ou procedimento linguístico: a) paródia. d) paráfrase. b) intertextualidade. e) sinonímia. c) ambiguidade. Questão 15 (Unifesp 2016) O emprego das aspas no interior da fala do escrivão indica que tal trecho a) reproduz a solicitação de Francisco Antônio. b) recorre a jargão próprio da área jurídica. c) reproduz a fala da mulher de Francisco Antônio. d) é desacreditado pelo próprio escrivão. e) deve ser interpretado em chave irônica. CURSO ANUAL DE LITERATURA Prof. Steller de Paula VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência AULA 17 - REALISMO E NATURALISMO INTRODUÇÃO Realismo e Naturalismo “Devem-se encarar o Realismo e o Naturalismo como movimentos estéticos específicos do século XIX. Porquanto, antes de se concretizarem numa época histórica, eles eram categorias estéticas ou temperamentos artísticos, tendências gerais da alma humana em diversos tempos, como Classicismo e Romantismo, surgindo o Realismo sempre que se dá a união do espírito à vida, pela objetiva pintura da realidade. (...) Do mesmo modo, o Naturalismo existe sempre que se reage contra a espiritualização excessiva, como em certas expressões do erotismo Barroco ou na ficção naturalista do século XIX.” Afrânio Coutinho, A Literatura no Brasil O CONTEXT HISTÓRICO O Realismo reflete as profundas transformações econômicas, políticas, sociais e culturais da segunda metade do século XIX. A Revolução Industrial, iniciada no Século XVIII, entra numa nova fase, caracterizada pela utilização do aço, do petróleo e da eletricidade. O capitalismo se estrutura em moldes modernos, com o surgimento de grandes complexos industriais, e resulta em um maior abismo entre ricos e pobres, formando uma população marginalizada que não partilha dos benefícios gerados pelo progresso industrial, mas pelo contrário, é explorada e sujeita a condições subumanas de trabalho. Esta nova sociedade motiva uma nova interpretação da realidade, gerando teorias de variadas posturas ideológicas. Surgem, então, diversas teorias científicas e filosóficas, que influenciarão não só a política, a economia, as ciências naturais, mas também a arte Realista e Naturalista: CIENTIFICISMO - O Positivismo, de Auguste Comte – teoria científica que defende posturas exclusivamente materialistas e que afirma só ser válido o conhecimento passível ser provado cientificamente. O pensamento positivista, elaborado por Auguste Comte, estabelecia que o saber, baseado nas leis científicas, era superior ao saber teológico ou metafísico. Foi uma forma de pensamento que valorizou o progresso material como um elemento capaz de eliminar os males sociais. - O Determinismo de Hippolyte Taine – defende a tese de que o comportamento humano é determinado por três fatores: o meio, a raça, e o contexto histórico. O Realismo e, sobretudo, o Naturalismo radicalizaram a teoria do determinismo elaborado por Hipólito Taine: o homem é um produto de leis físicas e sociais. A arte realista/naturalista vê o homem como produto do meio ambiente em que vive: a raça, o meio, o momento histórico – e como produto da cultura a que está sujeito. - O Evolucionismo de Charles Darwin – teoria científica que mostra o processo de evolução das espécies a partir da seleção natural, ou seja, “os fortes”, aqueles que têm condições de se adaptar as adversidades, sobrevivem, enquanto os mais fracos morrem. Por força da corrente científica liderada por Charles Darwin – o evolucionismo -, a arte realista-naturalista postula também que a seleção natural do homem na sociedade é o veículo de transformação. Vence o mais forte; o fraco acaba sendo explorado e esmagado. - O Socialismo Científico de Karl Marx e Friederich Engels – teoria científica que estimula as lutas de classe e a organização política do proletariado. É uma tentativa de resposta à exploração do operário nas fábricas e nos grandes centros urbanos. Nessa teoria, Marx e Engels mostram o quanto o aspecto social está vinculado ao processo econômico e político. REALISMO E NATURALISMO NO BRASIL A partir do final da década de 1860, a produção literária brasileira já anunciava uma mudança na postura dos autores diante da realidade, prenunciando o fim do Romantismo: Castro Alves, Sousândrade e Tobias Barreto faziam uma poesia romântica na forma e na expressão, mas apresentando temas voltados para a realidade político-social. Em 1872, José de Alencar, com Senhora, fazia uma severa crítica à burguesia. Na década de 70 o Brasil passava por um conturbado momento histórico, sob o signo do abolicionismo, do ideal republicano e da crise da monarquia. Em ressonância a isso, surge a chamada Escola de Recife, com Tobias Barreto, Sílvio Romero e outros, aproximando-se das ideias europeias ligadas ao Positivismo, ao Evolucionismo e, principalmente, à filosofia alemã. Em 1857, o mesmo ano em que no Brasil era publicado O Guarani, de José de Alencar, na França é publicado Madame Bovary, de Gustave Flaubert, considerado o primeiro romance realista da literatura universal. Em 1865, Claude Bernard publica Introdução à medicina experimental, com uma tese sobre a hereditariedade. Em 1867 Émile Zola publica Thérèse Raquim, inaugurando o romance naturalista. 1881 é considerado o ano inaugural do Realismo no Brasil. Nesse ano foram publicados dois livros que mudaram o curso da nossa literatura: Memórias Póstumas de Brás Cubas, o primeiro romance realista da nossa literatura, e O mulato, de Aluísio Azevedo, primeiro romance naturalista do Brasil. Características Comuns Ao Realismo E Ao Naturalismo Os escritores, diante desse quadro de mudanças ideológicas e sociais, sentem a necessidade de criar uma literatura sintonizada com a nova realidade, capaz de abordá-la de modo mais objetivo e realista do que, até então, fazia o Romantismo. As teorias científicas, as ideias de reformas políticas e de revolução social exigiam dos escritores, por um lado, uma literatura 168 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência Aula 17 - Realismo e Naturalismo de ação, comprometidacom a crítica e com a reforma da sociedade, e de outro, uma abordagem mais profunda e complexa do ser humano, visto agora à luz dos conhecimento das correntes científico-filosóficas da época. Surge, então, o Realismo, que procura, na literatura, atender às necessidades impostas pelo novo contexto histórico-cultural. Assim, que o objetivismo aparece como negação do subjetivismo romântico e nos mostra o homem voltado para aquilo que está diante e fora dele; o personalismo cede terreno para o universalismo. Dessa forma, os personagens de romances realistas- naturalistas são, em geral, personagens esféricos e estão muito próximos das pessoas comuns, com seus problemas cotidianos. Há, também, uma grande incidência de personagens tipificados, ou seja, personagens representativos de uma categoria: uma empregada, um patrão, uma dona de casa, um agregado... Os personagens típicos permitem estabelecer relações críticas entre o texto e a realidade histórica em que eles se insere, apresentando comportamentos e valores típicos, posturas padõres de classes específicas diante de determinadas realidades e situações. A linguagem é outra preocupação importante: ela deve ser simples, direta, predominantemente denotative. No Realismo e no Naturalismo, o materialismo leva à negação do sentimentalismo e da metafísica. O nacionalismo e a volta ao passado histórico perdem importância; os artistas só se preocupam com o presente, com a contemporaneidade. Realismo e naturalismo criticam fortemente a burguesia e todas as instituições burguesas (escola, Igreja, Governo e, principalmente, a família, célula-mãe da sociedade). CARACTERÍSTICAS DO REALISMO/NATURALISMO: - Concepção materialista da realidade: o homem, a natureza e o universo estão intimamente associados num todo orgânico, sujeitos às mesmas leis naturais. - A realidade deve ser captada através da observação, objetivamente, de modo imparcial, como faz o cientista em seu laboratório. - Os fatores psicológicos e sociais estão sujeitos às leis naturais; nada têm de espirituais ou transcendentais. - Preocupação em ser objetivo no trato dos personagens. - Retrata a vida contemporânea dos personagens, pois só a vida do momento pode ser objeto de análise e observação. - A narrativa realista move-se lentamente e é cheia de pormenores, usados propositalmente para retratar de modo mais fiel a realidade. - Não existe o livre-arbítrio. O comportamento humano é motivado por forças biológicas, atávicas e sociais. - Clareza e harmonia; correção gramatical; linguagem próxima da realidade. “Outrora uma novela romântica, em lugar de estudar o homem, inventava-o. Hoje o romance estuda-o na sua realidade social. Outrora no drama, no romance, concebia-se o jogo das paixões a priori; hoje analisa-se a posteriori, por processos tão exatos como os da própria fisiologia. Desde que se descobriu que a lei que rege os corpos brutos é a mesma que rege os seres vivos, que a constituição intrínseca duma pedra obedeceu às mesmas leis que a constituição do espírito duma donzela, que há no mundo uma fenomenalidade única, que a lei que rege os movimentos dos mundos não difere da lei que rege as paixões humanas, o romance, em lugar de imaginar, tinha simplesmente de observar. (...) A arte tornou-se o estudo dos fenômenos vivos e não a idealização das imaginações inatas...” Eça de Queirós. Idealismo e realismo. In: Cartas inéditas de Fradique Mendes. Apud: SIMÕES, J. G.: Eça de Quirós – trechos escolhidos. Rio de Janeiro, Agir, 1968. DIFERENÇAS ENTRE REALISMO E NATURALISMO O Naturalismo é fortemente influenciado pela teoria evolucionista de Charles Darwin. Por isso, vê o homem sempre pelo lado biológico. Assim, para o naturalista o Homem se comporta como um animal, guiado mais por seus instintos naturais do que pela razão. O determinismo também é levado ao extremo no Naturalismo, que cria personagens e situações com o objetivo de defender a tese segundo a qual o comportamento humano nada mais é do que o reflexo do meio e do context histórico em que o homem vive (esse meio é composto por educação, pressão social, o próprio meio ambiente etc.) e o homem, que ainda é subjugado pelo fator hereditariedade física, estando preso a um destino que ele não consegue mudar. O Naturalismo, portanto, aprofunda a visão científica do Realismo. A temática também é um dos pontos em que há diferenças significativas entre o Naturalismo e o Realismo. Os autores Naturalistas, sempre por meio de uma análise rigorosa do meio social e dos aspectos patológicos, trazem para sua obra temas como a miséria, a criminalidade, o alcoolismo e os problemas relacionados ao sexo como o adultério, a prostituição e o homossexualismo feminino e masculino. Esses temas são abordados, geralmente, por meio de personagens que representam os grupos marginalizados da sociedade. Trecho I Uma bela noite, porém, o Miranda, que era homem de sangue esperto e orçava então pelos seus trinta e cinco anos, sentiu-se em insuportável estado de lubricidade. Era tarde já e não havia em casa alguma criada que lhe pudesse valer. Lembrou-se da mulher, mas repeliu logo esta ideia com escrupulosa repugnância. Continuava a odiá-la. Entretanto este mesmo fato de obrigação em que ele se colocou de não servir-se dela, a responsabilidade de desprezá-la, como que ainda mais lhe assanhava o desejo da carne, fazendo da esposa infiel um fruto proibido. Afinal, coisa singular, posto que moralmente nada diminuísse a sua repugnância pela perjura, foi ter ao quarto dela. A mulher dormia a sono solto. Miranda entrou pé ante pé e aproximou-se da cama. “Devia voltar!... pensou. Não lhe ficava bem aquilo!...” Mas o sangue latejava-lhe, reclamando-a. Ainda hesitou um instante, imóvel, a contemplá-la no seu desejo. Estela, como se o olhar do marido lhe apalpasse o corpo, torceu-se sobre o quadril da esquerda, repuxando com as coxas o lençol para a frente e patenteando uma nesga de nudez estofada e branca. O Miranda não pôde resistir, atirou-se contra ela, que, num pequeno sobressalto, mais de surpresa que de revolta, desviou-se, tornando logo e enfrentando com o marido. E deixou-se empolgar pelos rins, de olhos fechados, fingindo que continuava a dormir, sem a menor consciência de tudo aquilo. Ah! ela contava como certo que o esposo, desde que não teve coragem de separar-se de casa, havia, mais cedo ou mais tarde, de procurá-la de novo. Conhecia-lhe o temperamento, forte para desejar e fraco para resistir ao desejo. SEMANA 17 - LITERATURA - Realismo e Naturalismo - STELLER sem respostas