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184 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) 
meia-bruxa, meia-fera, 
risinho modernista 
arranhando na garganta, 
malandra, bicha, 
bem viada, vândala, 
talvez maquiavélica, 
e um dia emburrei-me, 
vali-me de mesuras 
(era comércio, avara, 
embora um pouco burra, 
porque inteligente me punha 
logo rubra, ou ao contrário, cara 
pálida que desconhece 
o próprio cor-de-rosa, 
e tantas fiz, talvez 
querendo a glória, a outra 
cena à luz de spots, 
talvez apenas teu carinho, 
mas tantas, tantas fiz… 
Ana Cristina Cesar 
Estou atrás 
do despojamento mais inteiro 
da simplicidade mais erma 
da palavra mais recém-nascida 
do inteiro mais despojado 
do ermo mais simples 
do nascimento a mais da palavra. 
Ana Cristina Cesar 
Fagulha 
Abri curiosa 
o céu. 
Assim, afastando de leve as cortinas. 
Eu queria entrar, 
coração ante coração, 
inteiriça 
ou pelo menos mover-me um pouco, 
com aquela parcimônia que caracterizava 
as agitações me chamando 
Eu queria até mesmo 
saber ver, 
e num movimento redondo 
como as ondas 
que me circundavam, invisíveis, 
abraçar com as retinas 
cada pedacinho de matéria viva. 
Eu queria 
(só) 
perceber o invislumbrável 
no levíssimo que sobrevoava. 
Eu queria 
apanhar uma braçada 
do infinito em luz que a mim se misturava. 
Eu queria 
captar o impercebido 
nos momentos mínimos do espaço 
nu e cheio 
Eu queria 
ao menos manter descerradas as cortinas 
na impossibilidade de tangê-las 
Eu não sabia 
que virar pelo avesso 
era uma experiência mortal. 
Ana Cristina Cesar 
Mocidade Independente 
Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem medir 
mais as consequências. Por que recusamos ser proféticas? E que 
dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei para cima: 
é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma graça 
atravessando o Estado de São Paulo, de madrugada, por você, e 
furiosa: é agora, nesta contramão. 
Ana Cristina Cesar 
Soneto 
Pergunto aqui se sou louca 
Quem quer saberá dizer 
Pergunto mais, se sou sã 
E ainda mais, se sou eu 
 
Que uso o viés pra amar 
E finjo fingir que finjo 
Adorar o fingimento 
Fingindo que sou fingida 
 
Pergunto aqui meus senhores 
quem é a loura donzela 
que se chama Ana Cristina 
 
E que se diz ser alguém 
É um fenômeno mor 
Ou é um lapso sutil? 
Ana Cristina César 
PAULO LEMINSKI 
Leminski foi tradutor, professor de história e de judô, publicitário, 
romancista e músico. Sua poesia é sintética, concisa e bem 
humorada. Para Caetano Veloso, Leminsk a poesia concreta com a 
literatura beatnik dos americanos dos ano 50. Publicou vários livros 
independentes – reunidos pela primeira vez em 1983, na coletânea 
Caprichos & relaxos. Em 1987, lançou “Distraídos venceremos”. 
Leminski morreu em 1989. Entre suas obras póstumas estão “Lavie 
em close” (1991) e “Winterverno” (1994). 
Pegando carona na Poesia Marginal, mas desenvolvendo um 
caminho mais independente, surge a poesia plural de Paulo 
Leminski. 
Tendo se interessado pela obra dos concretistas, Leminski 
explorou os trocadilhos, flertou com o processo de “palavra puxa 
palavra” e enveredou pela composição de haicais. 
Haicai 
 a estrela cadente 
me caiu ainda quente 
na palma da mão 
 
cortinas de seda 
o vento entra 
sem pedir licença 
 
Aula 33 – Concretismo e Poesia Marginal 
 
 
 
 
 
 
185 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
*Haicai é uma forma poética oriental formada por 17 sílabas 
distribuídas em versos de 5 – 7 sílabas métricas. Também 
deve conter um termo referente a uma das estações do ano 
Não Discuto 
não discuto 
com o destino 
 
o que pintar 
eu assino 
Paulo Leminski 
Eu 
eu 
quando olho nos olhos 
sei quando uma pessoa 
está por dentro 
ou está por fora 
 
quem está por fora 
não segura 
um olhar que demora 
 
de dentro de meu centro 
este poema me olha 
Paulo Leminski 
Se 
se 
nem 
for 
terra 
 
se 
trans 
for 
mar 
Paulo Leminski 
Carrego o peso da lua 
Carrego o peso da lua, 
Três paixões mal curadas, 
Um Saara de páginas, 
Essa infinita madrugada. Viver de noite 
Me fez senhor do fogo. 
A vocês, eu deixo o sono. 
O sonho, não. 
Esse, eu mesmo carrego. 
Paulo Leminski 
Incenso fosse música 
 isso de querer 
ser exatamente aquilo 
 que a gente é 
ainda vai 
 nos levar além 
Paulo Leminski 
 
O assassino era o escriba 
Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente. 
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida, 
regular como um paradigma da 1ª conjunção. 
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial, 
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito 
assindético de nos torturar com um aposto. 
Casou com uma regência. 
Foi infeliz. 
Era possessivo como um pronome. 
E ela era bitransitiva. 
Tentou ir para os EUA. 
Não deu. 
Acharam um artigo indefinido na sua bagagem. 
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, 
conectivos e agentes da passiva o tempo todo. 
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça. 
Paulo Leminski 
 
 
 
 
 
 
 
 
 186 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) 
EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM 
 
São evidentes as marcas da linguagem do espaço urbano moderno na produção literária atual, 
sobretudo na poesia. Outdoors, inscrições, pichações, logotipos, signos públicos, grafites passam a 
constituir uma espécie de comunicação entre as várias camadas da sociedade, dos empresários aos 
excluídos, da cultura pop às criações das grandes agências publicitárias, das manifestações populares 
às campanhas políticas ou institucionais. Há uma espécie de fermentação de signos desejosos de 
expor seja o rosto triunfante do capitalismo, seja a reação aos valores que ele propaga – fenômeno a 
que muitos poetas contemporâneos se mostram sensíveis. 
(SEPÚLVEDA, Alaor, inédito) 
 
Questão 01 (Puccamp 2017) 
Nos anos de 50 e 60 do século passado surgiu e consolidou-se uma vanguarda poética, o 
Concretismo, que assumiu modelos de composição inspirados, por exemplo, 
a) nos recursos de uma poética clássica pela qual se valorizavam as narrativas de cunho mítico. 
b) no aproveitamento gráfico do espaço e na linguagem visual dos signos, renunciando a uma sintaxe 
tradicional. 
c) na rearticulação mais ousada de versos modernos em formas tradicionais, como a do soneto. 
d) nas múltiplas formas do poema em prosa, garantindo assim a incorporação de originais 
narrativas. 
e) em formas musicais consagradas, como a da sonata, com destaque para a técnica do contraponto. 
 
 
(CAMPOS, Augusto de. In: MENEZES, Philadelpho. "Roteiro de leitura: poesia concreta e visual". São Paulo: Ática, 1998. p. 71.) 
 
Questão 02 (Uel) 
Sobre o poema acima, considere as afirmativas. 
I. O poema explora de modo simplista a linguagem poética, já que é composto por apenas duas 
palavras. 
II. O poema apresenta uma simetria que revela racionalidade no ato de composição, pois há uma 
relação de verticalidade com a chuva e de horizontalidade com o rio. 
III. O poema aproveita-se da semelhança sonora entre as palavras com significados diferentes que, 
entretanto, não são independentes no poema. 
IV. O poema apresenta abolição do verso, colocando em destaque o pictórico, o sonoro e o verbal. 
Assinale a alternativa correta: 
a) Apenas as afirmativas I, II e III são corretas. 
b) Apenas as afirmativas I, II e IV são corretas. 
c) Apenas as afirmativas II, III e IV são corretas. 
d) Apenas as afirmativas I e III são corretas. 
e) Apenas as afirmativas II e IV são corretas. 
 
Questão 03 (Uff ) 
No governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960), presidente que adorava serestas, novas propostas 
culturais aproveitaram os ares de liberdade e ousaram. Estilos originais surgiram como a Bossa Nova, 
o Cinema Novo e a Poesia Concreta que apostava na integração entre texto e imagem, influenciando, 
anosdepois, movimentos como o do Poema/Processo. 
 
Anotações 
 
Aula 33 – Concretismo e Poesia Marginal 
 
 
 
 
 
 
187 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
Em relação ao meio de expressão presente no poema/processo reproduzido acima, pode-se afirmar 
que: 
a) a utilização de uma palavra em ambiência geométrica produz um efeito estilístico de desagregação, 
restringindo a pluralidade interpretativa do texto. 
b) o emprego de palavra e imagem cria uma possibilidade de codificação cuja leitura não se efetiva 
como um todo. 
c) a valorização das linhas sobre a palavra enfatiza a contemporaneidade do visual sobre o verbal, 
negando as possibilidades interpretativas expressas pela palavra. 
d) a unidade textual formada por palavra e imagem (SOS e linhas) admite o desenvolvimento de uma 
variada estratégia de interpretação. 
e) a instauração de uma nova linguagem centrada no binômio palavra e imagem promove a 
valorização de um código comunicativo incapaz de expressar uma visão da realidade social. 
 
Questão 04 
Com referência ao texto poético a seguir ("Caprichos e Relaxos"), de autoria de Paulo Leminski, como 
também a respeito de sua obra como um todo, assinale o que for correto. 
cansei da frase polida 
por anjos de cara pálida 
palmeiras batendo palmas 
ao passarem paradas 
agora eu quero a pedrada 
chuva de pedras palavras 
distribuindo pauladas. 
I - O lirismo reflexivo de Leminski nos impulsiona para a leitura intertextual dos seus versos; 
percebemos que a partir da linguagem se auto-referencia em uma atitude crítica diante do mundo. 
II - A metalinguagem constitui um traço marcante desse poeta; ao mesmo tempo que elabora a 
poesia, discute o fazer poético. 
III - Leminski indica que não quer ser formal, polido, bater palmas para o nacionalismo/militarismo 
("paradas"); prefere a verdade das "pedras palavras". 
IV - A inquietude do autor diante dos movimentos com os quais travou diálogo - concretismo, poesia 
marginal, poesia oriental e tropicalismo - e nos quais nunca se fixou, revela a atitude de alguém que 
procurava sua própria direção no espaço literário. 
Assinale a alternativa correta: 
a) Apenas as afirmativas I, II e III são corretas. 
b) Apenas as afirmativas I, II e IV são corretas. 
c) Apenas as afirmativas II, III e IV são corretas. 
d) Apenas as afirmativas I e III são corretas. 
e) As afirmativas I, II, III e IV são corretas. 
 
Questão 05 (Pucpr) 
Leia o poema: 
podem ficar com a realidade 
esse baixo astral 
em que tudo entra pelo cano 
 
eu quero viver de verdade 
eu fico com o cinema americano 
 
O poeta Paulo Leminski neste poema usa de procedimento redundante em sua obra. Assinale a 
alternativa que identifica esse procedimento: 
a) intertextualidade. 
b) ironia. 
c) crítica à sociedade de massa. 
d) fuga à realidade. 
e) desejo de viver intensamente. 
 
Questão 06 (Enem 2ª aplicação 2010) 
Reclame 
Se o mundo não vai bem 
a seus olhos, use lentes 
... ou transforme o mundo 
Anotações 
 
 
 
 
 
 188 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) 
ótica olho vivo 
agradece a preferência 
CHACAL et al. Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2006. 
 
Chacal é um dos representantes da geração poética de 1970. A produção literária dessa geração, 
considerada marginal e engajada, de que é representativo o poema apresentado, valoriza 
a) o experimentalismo em versos curtos e tom jocoso. 
b) a sociedade de consumo, com o uso da linguagem publicitária. 
c) a construção do poema, em detrimento do conteúdo. 
d) a experimentação formal dos neossimbolistas. 
e) o uso de versos curtos e uniformes quanto à métrica. 
 
Questão 07 (Enem 2012) 
Logia e mitologia 
Meu coração 
de mil e novecentos e setenta e dois 
Já não palpita fagueiro 
sabe que há morcegos de pesadas olheiras 
que há cabras malignas que há 
cardumes de hienas infiltradas 
no vão da unha da alma 
um porco belicoso de radar 
e que sangra e ri 
e que sangra e ri 
a vida anoitece provisória 
centuriões sentinelas 
do Oiapoque ao Chuí. 
CACASO. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7Letras; São Paulo: Cosac & Naify,2002. 
 
O título do poema explora a expressividade de termos que representam o conflito do momento 
histórico vivido pelo poeta na década de 1970. Nesse contexto, é correto afirmar que 
a) o poeta utiliza uma série de metáforas zoológicas com significado impreciso. 
b) “morcegos”, “cabras”, e “hienas” metaforizam as vítimas do regime militar vigente. 
c) o “porco” , animal difícil de domesticar, representa os movimentos de resistência. 
d) o poeta caracteriza o momento de opressão através de alegorias de forte poder de impacto. 
e) “centuriões” e “sentinelas” simbolizam os agentes que garantem a paz social experimentada. 
 
Questão 08 (Enem 2015) 
Aquarela 
O corpo no cavalete 
é um pássaro que agoniza 
exausto do próprio grito. 
As vísceras vasculhadas 
principiam a contagem 
regressiva. 
No assoalho o sangue 
se decompõe em matizes 
que a brisa beija e balança: 
o verde - de nossas matas 
o amarelo - de nosso ouro 
o azul - de nosso céu 
o branco o negro o negro 
CACASO. In: HOLLANDA, H. B (Org.). 26 poetas hoje. Rio do Janeiro: Aeroplano, 2007. 
 
Situado na vigência do Regime Militar que governou o Brasil, na década de 1970, o poema de Cacaso 
edifica uma forma de resistência e protesto a esse período, metaforizando 
a) as artes plásticas, deturpadas pela repressão e censura. 
b) a natureza brasileira, agonizante como um pássaro enjaulado. 
c) o nacionalismo romântico, silenciado pela perplexidade com a Ditadura. 
d) o emblema nacional, transfigurado pelas marcas do medo e da violência. 
e) as riquezas da terra, espoliadas durante o aparelhamento do poder armado. 
 
Anotações 
 
	SEMANA 33 - LITERATURA - Concretismo e Poesia Marginal - STELLER
	Soneto
	Ana Cristina César

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