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DIREITOS HUMANOS
E CIDADANIA
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DIREITOS HUMANOS
E CIDADANIA
Responsável Técnico:Maria Lígia Said Sena (CRB11/1098)
Biblioteca CEUNI-FAMETRO
FAMETRO
Av. Djalma Batista, Nossa Sra. das Gracas. Manaus, AM
Ficha catalogada na Biblioteca CEUNI-Fametro
Todos os direitos reservados© FAMETRO
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Wellington Lins de Albuquerque | Presidente - IME
Cinara da Silva Cardoso | Reitora
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Iyad Amado Hajoj | Diretor de EaD e Expansão
Leonardo Florêncio da Silva | Diretor Editorial e Gestor de EaD
Ana Maria Oliveira de Araújo | Coordenação Pedagógica EaD
Luciana Braga | Projeto Gráfico e Direção de Arte
Anderson Souza | Diagramação
Ana Augusta de Oliveira Simas | Supervisora de Produção e Revisão
Thamires Moura | Revisora
Imagens | depositphotos.com
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"Nos termos da Lei n.º 9.610/98, o autor desta obra é titular de todo o complexo de
direitos autorais sobre a presente criação. Assim, é vedada a cópia, reprodução,
edição ou distribuição desta obra sem autorização expressa do Autor ou da Editora e,
ainda é vedado utilizar, citar, publicar esta obra integral ou parcialmente sem deixar
de indicar ou anunciar o nome, pseudônimo ou sinal convencional do autor sob pena
da aplicação das medidas previstas nos Art. 101 a 110 da Lei n.º 9.610/98."
Pa
la
vr
a
da
Re
ito
ra
“É a educação que faz
o futuro parecer um
lugar de esperança e
transformação”.
(Marianna Moreno)
“Sejam todos e todas bem-vindos ao EaD
do Centro Universitário Fametro”
O Centro Universitário Fametro acredita que o
papel de uma instituição de ensino é formar não apenas
profissionais, mas também formar profissionais no
Ensino Superior, com valores éticos, humanísticos e
com respeito ao meio ambiente capazes de contribuir
para o desenvolvimento da nossa Amazônia.
A Fametro, portanto, tem premissas claras a
cumprir como instituição de ensino de qualidade.
Praticar o ensino, pesquisa e extensão é a sua principal
bandeira.
A Fametro, ao longo das últimas duas décadas,
vem se consolidando como a melhor instituição de
ensino do Norte, um espaço democrático e docentes
com variadas visões de mundo. Somos uma instituição
de ensino plural que avança a cada ano embusca sempre
de desenvolver a economia da Amazônia. Nossa
estrutura é moderna, estamos em diversos municípios
levando uma educação inclusiva e de qualidade.
Conheça o Centro Universitário Fametro e viva a
experiência em estudar numa instituição com o corpo
docente com mestres e doutores e de qualidade de
ensino comprovada pelo MEC.
Maria do Carmo Seffair
Reitora
Su
m
ár
io
UNIDADE II - CONTEXTUALIZAÇÃO
HISTÓRICA E SOCIAL
Direitos Humanos: Contextos
Históricos Marcantes
14
A Cidadania na Perspectiva Histórica 20
Direitos Humanos – Visão Conceitual 24
Cidadania – Visão Conceitual 29
Convivência Democrática 36
UNIDADE II - VALORES E IGUALDADE
DE DIREITOS
Valores Fundamentais para
Viver em Sociedade
46
Princípio da Dignidade Humana 52
Igualdade de Direitos 58
Indivíduo, Diversidade, Tolerância
e Respeito às Diferenças
63
Multiculturalismo 69
UNIDADE III - DIREITOS BÁSICO
PARA CONVÍVIO EM SOCIEDADE
Direito à Educação 80
Direito à Saúde 84
Direito ao Meio Ambiente Sadio 88
Direito à Liberdade Real 92
Direito à Vida 96
UNIDADE IV - DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS
DIREITOS HUMANOS E A CONSTITUIÇÃO
BRASILEIRA
Declaração Universal dos
Direitos Humanos
103
Declaração Universal dos Direitos
Humanos: do Art. 1 ao Art. 15
106
Declaração Universal dos Direitos
Humanos: do Art. 16 ao Art. 30
109
Direitos Humanos e Cidadania na
Constituição Federal Brasileira: parte 1
113
Direitos Humanos e Cidadania na
Constituição Federal Brasileira: parte 2
117
Os Estatutos do Homem
Thiago de Mello
123
Referências 126
U
ni
da
de
1
Videoaula 2
Videoaula 4
Videoaula 1
Videoaula 3
Videoaula 5
12
13
CONTEXTUALIZAÇÃO
HISTÓRICA E SOCIAL
Tratar de Direitos Humanos e da Cidada‐
nia é uma tarefa desafiadora, dada a comple‐
xidade de ambos os temas. Nesse sentido,
esse estudo será realizado por meio de
recortes selecionados para promover pensa‐
mentos, identificar algumas definições e
alcançar determinadas reflexões. No entanto,
não pretende-se esgotar os dois assuntos,vis‐
to que a busca por compreender a pluralidade
dos temas também faz parte do processo de
aprendizagem.
Nessadireção, tambémépossível afirmar
que os assuntos em questão estão presentes
nas inúmeras áreas do conhecimento. Alguns
autores perpassampela Filosofia e Sociologia,
outros tratamdemodomais técnicopelo ramo
do Direito, e existem ainda aqueles que os
Anotações:
14
abordam pela ótica da educação. No entanto, aqui,
verifica-se aspectos advindos de todos esses, uma
vez que o amplo leque de percepções é imprescin‐
dível para conhecer mais acerca dos conteúdos.
Diante disso, é importante destacar que os
conceitos, as definições e os contextos que trare‐
mosaqui,muitas vezes, estãoespelhadosemautores
que abordamos Direitos Humanos e a Cidadania em
suasobras. Desta forma, nãopretendemosorganizar
um material com perspectivas inéditas, pelo
contrário, o objetivo é oferecer um escopo de
estudiosos que possam auxiliar a prática de estudo
sobre o tema.
No mais, dividimos esta primeira unidade em
5 subseções, quais sejam: 1.1 Direitos Humanos:
contextos históricos marcantes; 1.2 A cidadania na
perspectiva histórica; 1.3 Direitos Humanos – visão
conceitual; 1.4 Cidadania – visão conceitual e 1.5
Convivência democrática em sociedade.
Direitos humanos: contextos históricos
marcantes
Inicialmente, partiremos da compreensão
histórica que envolve a construção dos Direitos
Humanos.Para tanto, oprincipal autorquenosguiará
neste percurso é Marinho (2012), destacando-se a
obra “Educar em Direitos Humanos e formar para
Cidadania no Ensino Fundamental”. Trata-se de um
livro que segue principalmente a ótica educacional,
masque, emumprimeiromomento, focanocontexto
histórico para a compreensão do tema, dito isso,
passamos às primeiras reflexões.
Os Direitos Humanos – semquerer defini-los –
podem ser entendidos como garantias que se
modificam, isto é, são efêmeros, não permanecem
Anotações:
15
estáveis, vistoqueasociedademudaconstantemen‐
te e precisam se adaptar a isso. Deste modo, ao
longo da História humana, o tema foi ganhando
nuances diferenciadas até se tornar o que conhece‐
moshoje. Assim, para compreender essemovimento
dinâmico, observamos que:
[...] para determinar a origem da afirmação dos
DireitosHumanosdevemos retornar basicamente
a três documentos fundamentais – seja pela
relevância e também pela capacidade de
influenciar osmovimentos históricos posteriores
(MARINHO, 2012, p. 26).
Marinho (2012) cita a relevância de três docu‐
mentos que influenciaram a dinâmica que originou
o pensamento do que se entende por Direitos
Humanos. Para tanto, o autor resgata, primeiramen‐
te, a seguinte ótica documental e histórica:
A declaração inglesa de direitos, de 1689,
conhecida como “Bill of Rights” (MONDAINI, 2006),
foi o primeiro documento a reconhecer de forma
explícita os direitos naturais. Elaborada pelo
parlamento e assinada por Guilherme de Orange,
como condição para que este assumisse o trono
inglês, foi o documento quemelhor sintetizou os
objetivosdachamadaRevoluçãoGloriosade 1688.
Esse marcou a supremacia do parlamento sobre
a coroa e libertação da burguesia inglesa, frente
ao Estado absolutista que com seu permanente
intervencionismo era um entrave importante
para um processo mais amplo de acúmulo de
capital (MARINHO, 2012, p. 26).
Anotações:
16
Nota-se, nessa primeira retomada histórica do
autor, o destaque dado ao termo “direitos naturais”
do ser humano. Trata-sedeumaexpressãoqueainda
será adensada em outra seção desta primeira
unidade, mas que, de modo geral, vai reconhecer o
homem como alguém que já nasce livre.
Ainda no tocante à citação de Marinho (2012),
é importante verificar a fala direcionadaà palavra
“libertação”, usada para configurar a vitória da
burguesia sobre o Estado absolutista. Destamanei‐
ra, destaca-se tambémocontexto comumno século
XVII, sobretudo na Europa, no qual as monarquias e
regimes totalitários foram dando lugar às ideias
mais liberais.
Caminhandomais nos espaços históricos aqui
levantados, vemos que:
O segundo documento fundante da Declaração
Universal dos Direitos Humanos é a declaração
do estado da Virgínia (1776), como o primeiro
documento a expressar o caráter universal dos
direitos do Homem. Apesar de se distinguir da
francesa, cujos protagonistas eramefetivamente
vindos de camadas menos favorecidas da
população, a Revolução Americana também
trouxe em seu bojo o desejo de libertação das
estruturas de poder e sociais estabelecidas pela
monarquia, no caso a inglesa (MARINHO, 2012, p.
28).
O contexto em que o autor nos situa refere-se
à Independência dos EstadosUnidos e à Declaração
atribuída a esse fato. Marinho (2012) aborda que a
referida Declaração foi o primeiro documento a
trazer o caráter universal dos direitos do homem,
Anotações:
17
abrangendo a percepção e globalizando seu sentido.
Além disso, é visível, mais uma vez, o chamado
“desejo de libertação das estruturas de poder e
sociais estabelecidas pela monarquia”.
Marinho (2012), ainda relacionado àDeclaração
do estado da Virgínia, expressa que:
[...] o fato marcante dessa revolução, do ponto
de vista dos direitos, está justamente em que
procura favorecer e expressar os interessesmais
específicos do homem, esse tambémmuitomais
concreto do que aquele que observamos na
Declaração francesa. Por exemplo, além da
emancipação, a Declaração americana introduz
o direito à Felicidade (MARINHO, 2012, p. 29).
É curioso encontrar a subjetividade da “felici‐
dade” em um documento tão importante do ponto
de vista histórico. Em consonância a isso, percebe-
se que o documento ganha ainda mais importância
por esse motivo, afinal, trata-se de um aspecto
fundamental na vida do homem: ter direito à
Felicidade. Nesse caso, vale destacar que o termo,
com o passar dos anos, foi adquirindo outras
conotações e configurações mais específicas para
a natureza institucional.
Dando prosseguimento aos documentos e
contextos, de acordo comMarinho (2012, p. 29):
Outro documento que melhor expressou a
radicalidade das mudanças ensejadas [...] foi a
Declaração dosDireitos doHomemedoCidadão.
Publicada em 1789, ela representa a inauguração
simbólica da moderna acepção dos direitos
humanos. Os princípios que deramorigema essa
Declaração [...] são por si mesmos revolucioná‐
rios.
Anotações:
18
Com base nisso, acrescenta-se:
Em 1789, durante a Revolução Francesa, a
AssembleiaNacional promulgouaDeclaraçãodos
Direitos doHomemedoCidadão, a qual proclama
a liberdade e a igualdade de todos os homens e
reivindica como direitos naturais imprescritíveis
a liberdade, a propriedade, a segurança, a
resistência à opressão, em vista dos quais se
constitui a associaçãopolítica legítima (MARINHO,
2012, p. 30).
Nesses excertos, extraídos dos estudos
aprofundados pelo autor, percebemos um teormais
específico, no qual se destacam um principal fator:
a liberdade e o direito de buscar melhores em
diversas direções. Mais tarde, em nossos estudos,
também será possível problematizar os limites
dessa referida liberdade. Nomais, é válido dizer que
essa primeira caminhada remete a direitos mais
voltados aocampopolítico, embora se tenhambases
daquilo que viriam a se tornar os direitos civis.
Dandoumsaltonessa trajetória dedocumentos
que influenciaram as noções de Direitos Humanos,
Marinho (2012, p. 31) nos explica que:
[....] ao analisar a segunda geração dos Direitos
Humanos, trata-se da dimensão dos direitos de
caráter social mais geral, como o direito à
educação, saúde, habitação, lazer e, novamente,
segurança. São direitosmarcados pelas lutas dos
trabalhadores já no século XIX e acentuadas no
século XX (MARINHO, 2012, p. 31).
Anotações:
19
Dentro dessa ótica de pensamento do autor, é
preciso observar que os reflexos dessas tratativas
relacionadas aos direitos mais sociais são conse‐
quências da Segunda Revolução Industrial. A partir
dela, surgiram inúmeros fatores que influenciaram
o mundo do trabalho e o modo de vida das popula‐
ções, até mesmo daquelas que ainda não haviam
passado pelo processo de industrialização. Logo, foi
preciso novas garantias para o bem-estar coletivo.
Alcançando outro espaço histórico, damos
mais um salto em direção à segunda metade do
século XX, período contextualizado por Marinho
(2012) da seguinte maneira:
Após a experiência de horrores e de barbárie que
nos propiciaram os domínios imperiais de países
europeus sobre a África, na segunda metade do
século XIX, e, principalmente, as duas Guerras
Mundiais, na primeirametade do século XX, outra
declaração veio firmar o caráter insubstituível e
incondicional dos direitos humanos. É a Declara‐
çãoUniversal dosDireitosHumanos, assinada em
1948 pelo conjunto de países que subscreveu a
criaçãodaOrganizaçãodasNaçõesUnidas (ONU).
Essa nos possibilitou confirmar o século passado
como aquele em que triunfou o discurso em
defesa dos direitos humanos (MARINHO, 2012, p.
31).
Como vemos, o autor remonta os traços
marcantes de injustiças históricas, as quais ele
destaca comoexperiências de horrores e barbáries,
para culminar na justificativa de construção daquela
que vem a ser a principal sistemática que organiza
este material: a Declaração Universal dos Direitos
Anotações:
20
Humanos (DUDH). Essa é configurada como um
documento coletivo que simboliza um tratado
universal acerca das garantias que precisamnortear
as nações.Tal documento será detalhado e comen‐
tado com maiores descrições na Unidade 4 deste
produto bibliográfico.
No mais, podemos encerrar esta seção com o
seguinte pensamento:
Emcerto sentido, osDireitosHumanos sãodesde
sempre a experiência de liberdade, a expressão
da luta para libertar os indivíduos da repressão
externa e permitir sua autorrealização. Não por
outro motivo, a luta pelos direitos humanos
esteve, desde o século XVIII, diretamente
relacionada às revoluções, embora não somente
a estas (MARINHO, 2012, p. 30-31).
Agora, passamos a uma breve seção para
entender os contextos que também perpassam a
concepção de cidadania, outro objeto de estudo
deste material.
A cidadania na perspectiva histórica
Esta seção se encaminha para algumas
observações contextuais acerca da cidadania no
decurso histórico. Para tanto, utilizaremos as
composições teóricas e explicativas deDallari (2004)
e Morais (2013). Cabe ressaltar que, para expressar
os aspectos relativos ao tema da cidadania, não
pretendemos especificar uma área de conhecimen‐
to, trazendo, portanto, um plano abrangente.
Inicialmente, partimos da visão de Dallari
(2004), autor que remonta uma perspectiva históri‐
ca mediante o pensamento de um dos maiores
pensadores da Antiguidade:
Anotações:
21
NaGréciaantiga, comose lêno filósofoAristóteles
(384 a.C – 322 a.C), já havia o reconhecimento do
direito departicipar ativamenteda vidadacidade,
tomando decisões políticas, embora esse direito
ficasse restrito a um número pequeno de
pessoas (DALLARI, 2004, p. 23).
O autor traça uma diretriz para nos fazer
entender uma concepção embrionária a respeito do
“cidadão” da Grécia Antiga. Nesse caso, aquele que
vivia na cidade exerce sua “cidadania” (relativizando
o sentido do termopara aquela época), contudo, não
havia uma universalização do exercício dos direitos,
isto é, não se tinha uma uniformidade na prática dos
direitos.
Por sua vez, Morais (2013), retrata que:
Na Roma antiga, os termos gentilis, patricius e
civis remetiam igualmente à noção de cidadania,
denominando uma mesma figura social. Assim,
destaca-se que a história de Roma atribuía uma
noção bastante extensa aos critérios de
cidadania, sendo relevante destacar-se que,
posteriormente, tais direitos seriam conferidos
aos habitantes do império de um modo em geral
(MORAIS, 2013, p. 3).
Dallari (2004) nos propõe um salto histórico
para entendero movimento que, de fato, fez surgir
a visão de cidadania.
Foi a partir da concepção romana que se adotou
oconceito de cidadania, na Françado séculoXVIII
[...]. E foi também a partir da França que se
introduziu nas legislaçõesmodernas a diferenci‐
ação entre cidadania e cidadania ativa (DALLARI,
2004, p. 23).
Anotações:
22
Com base nisso, notamos que a França teve
umpapel decisivo noprocessodeconstruçãodoque
se compreende como cidadania. Isso coincide com
o que vimos na unidade 1.1, quando trabalhamos os
Direitos Humanos no contexto histórico. Por essa
razão, observamos ainda que ambos os conceitos
são interligados pela teoria que representam, mas
também no contexto histórico pelos quais passa‐
ram.
Na visão de Morais (2013, p. 3):
[...] desvinculado de explicações naturalistas, o
conceito de cidadania volta-se para o mundo da
política, dacomunidade, ganhando relevância seja
na polis grega seja como surgimento dafigura do
burguês na idade medieval, ou mesmo com a
transição para amodernidade,momento emque
adquire caráter de fundamento filosófico,
sobretudo com o contratualismo de John Locke
e de Jean-Jacques Rousseau, nos séculos XVII e
XVIII, afirmando a noção de contrato social
realizado entre os cidadãos e o próprio Estado.
DESTAQUE PARA O SEU ESTUDO
A ideia de cidadania ativa está no compromisso cívico
enadeliberação coletiva acerca de todosos temasque
afetam a comunidade política. A cidadania passiva
consiste no acesso aos direitos (políticos, sociais,
civis), e a cidadania ativa traz a dimensão das
responsabilidades que os sujeitos têm coma comuni‐
dade política à qual pertencem (SOARES, 2002, p. 101).
Anotações:
23
Em outro salto contextual, Dallari (2004)
demonstra comoosentido da cidadania foi receben‐
do outras conexões e interpretações, remontando a
um sentido plural. Desta forma, o autor ainda
contextualiza os fatores do entendimento acerca do
tema no espaço brasileiro:
A cidadania, que no século XVIII teve sentido
político, ligando-se ao princípio da igualdade de
todos, passou a expressar uma situação jurídica,
indicando um conjunto de direitos e de deveres
jurídicos. Na terminologia atual, cidadão é o
indivíduo vinculado à ordem jurídica de um
Estado. [...] Assim, por exemplo, o Brasil
considera seus cidadãos, como regra geral, as
pessoas nascidas em território brasileiro ou que
tenham mãe ou pai brasileiro. Essa vinculação
significa que o indivíduo terá todos os brasileiros
que a lei assegura aos cidadãos daquele Estado,
tendo tambémodireito de receber a proteção de
seu Estado se estiver em território estrangeiro
(DALLARI, 2004, p. 23, grifo meu).
O sentido de cidadão explicitado pelo autor
remete à ideiamais direcionada à vinculação do ser
humanoaumadeterminadanação. Seno início desta
subseção vimos o sentido político, aqui já se
aproxima um sentido mais técnico. Nesse sentido,
é possível enxergar a ampliação ou especificação
inerente ao termo, por isso, é necessário expandir
as situações contextuais que giram em torno da
compreensão da cidadania.
Anotações:
24
Direitos humanos – visão conceitual
Esta subseção tem a finalidade de tratar o
sentido conceitual e as concepções teóricas que se
inserem no campo de estudo de importantes
autores, no que tange ao termo Direitos Humanos.
Para isso, nos baseamos, sobretudo, em: Dallari
(2004) e Gomes (2016).
É importante destacar que existem outros
teóricos cuja visão pode ser mais específica, em
comparação com as que serão tratadas aqui.
Contudo, expressamos uma visão coerente com o
ponto de vista da convivência em sociedade.
Assim, começamospela visãodeDallari (2004),
segundo o qual:
A expressão direitos humanos é uma forma
abreviada demencionar os direitos fundamentais
da pessoa humana. Esses direitos são conside‐
rados fundamentais porque sem eles a pessoa
humana não consegue existir ou não é capaz de
sedesenvolver edeparticipar plenamenteda vida
(DALLARI, 2004, p. 12).
O autor é enfático na relevância dada aos
direitos da pessoa humana, como uma espécie de
garantia da própria existência. De modo ainda mais
detalhado,Dallari (2004) comenta que:
Para entendermos com facilidade o que signifi‐
cam direitos humanos, basta dizer que tais
direitos correspondemanecessidadesessenciais
da pessoa humana. Trata-se daquelas necessida‐
des que são iguais para todos os seres humanos
e que devem ser atendidas para que a pessoa
possa viver com a dignidade que deve ser
assegurada a todas as pessoas (DALLARI, 2004,
p. 13).
Anotações:
25
Percebe-se, nessa passagem do autor, outro
aspecto extremamente importante: a questão da
igualdade de direitos, elemento que será descrito
commaioresdetalhesnaúltimapartedestaUnidade.
Vale salientar que o aspecto preponderante da
democracia espelhada nessa acepção visa uma
universalização entre os homens e mulheres que
convivem em sociedade. Tal visão é ampliada e
refletida da seguinte forma:
Os direitos humanos têm-se apresentado como
princípio orientador na direção de uma humani‐
dade menos desumana. Não são poucos os
personagens que passaram pela história e que
ainda nos inspiram a prosseguir nessa luta e,
consequentemente, a sonhar um outro mundo
possível: Martin Luther King, Mahatma Gandhi,
NelsonMandela, Desmond Tutu, Madre Teresa de
Calcutá, em âmbito internacional; e, no Brasil,
Dom Hélder Câmara, Margarida Genevois, Dom
Paulo Evaristo Arns, Paulo Freire, Therezinha
Zerbini eDalmodeAbreuDallari. Alémdeles, cada
cidadão que se engaja anonimamente nos
movimentos sociais, órgãos colegiados etc.,
diariamente, faz toda a diferença (SÃO PAULO,
2015, p. 20).
Nessa direção, a importância direcionada aos
líderes mundiais é também uma interessante
questão a ser considerada, porque ao longo da
história humana, destacaram-se figuras que lutaram
contra as desigualdades de condições e sempre
buscaram justiça e dignidade para todos, sem
distinções. Alémdisso, destacam-se as instituições
que, pormeiodepessoas “comuns”, fazemmuitopela
garantia dos direitos.
Anotações:
26
Com base nessas visões, Gomes (2016, p. 25)
levanta que:
As posturas universalistas defendem que os
Direitos Humanos são capazes de abranger todo
e qualquer ser humano, em qualquer lugar do
planeta, pertencente a qualquer sociedade e a
qualquer tradição cultural. Um dos principais
defensores dessa postura é ofilósofo e sociólogo
alemãoJürgenHabermas. ParaHabermas (2004,
2008), apesar das diferenças culturais ao redor
do planeta, continua existindo algo de comum
entre essas várias culturas. Apegando-se a
concepções ligadas ao Iluminismo, ele dirá que
esse algo é a capacidadehumanadeusoda razão,
por meio da qual é possível, no interior de
qualquer cultura, chegar-se à compreensão da
necessidade universal de respeito aos Direitos
Humanos (GOMES, 2016, p. 25).
A visão destacada pelo autor leva em conta o
alcance que pode ser dado à ideia de direitos
humanos atingindo, especialmente, a universaliza‐
ção desses direitos. Em outras palavras, qualquer
ser humano, em qualquer parte do planeta, deve ter
como garantia tudo aquilo que o permite viver com
dignidade. Assim, os direitos humanos passam a
fazer parte da noção de coletividade enquanto seres
damesmaespécie, independentementedequestões
geográficas ou especificidades culturais.
Anotações:
27
A abordagem legalista preocupa-se menos com
a fundamentação filosófica dosDireitosHumanos
e mais com sua efetivação. Assim, essa aborda‐
gem assume como Direitos Humanos aquele
conjunto de direitos que estão inscritos em
normas jurídicas, geralmente tratados e acordos
denatureza internacional cujo conteúdo refere-se
a aspectos fundamentais da dignidade universal
do ser humano (GOMES, 2016, p. 28).
Gomes (2016, p. 26-27), a partir dessa definição
básica, algumas características dos Direitos
Humanos são, então, elencadas.
Anotações:
28
Quadro 01 – Características dos direitos humanos
Característica Descrição
Historicidade Os Direitos Humanos surgem, consolidam-se e alteram-se historicamente,
como resultadode lutas sociais ao longodo tempo.
Inexauribilidade O sentido e o conteúdodos Direitos Humanos são inexauríveis, o que
significa que os Direitos Humanos já reconhecidos em tratados e acordos
jurídicospodemterseu sentidoexpandidoenovosDireitosHumanospodem
sempre vir a surgir.
Universalidade Os Direitos Humanos referem-se a e devem alcançar todos os seres
humanos, independentemente de qualquer característica externa, como
nacionalidade, crença religiosa, classe, gênero, idade, raça, orientação
afetivo-sexual ouqualqueroutra.
Imprescritibilidade OsDireitosHumanosnãoseperdemcomopassardo tempo.Mesmoquenão
sejam exercidos por alguémpor um longo período de tempo, essa pessoa
semprepoderá,a qualquermomento,reivindicá-los.
Inalienabilidade Os DireitosHumanosnãopodemser transferidos deumapessoaa outrapor
nenhummotivo,seja doação, venda,renúnciaou qualqueroutromeio
Irrenunciabilidade Exatamente porque não podem ser alienados, transferidos, é impossível
também renunciaraos DireitosHumanos.Mesmoquealgumapessoanãoos
queira,ela continuasendoprotegidaporessesDireitos
Inviolabilidade Os Direitos Humanos previstos em tratados e acordos jurídicos
internacionais não podemser violados pelas Constituições dos países, isto
é, pelodireito internodecada país.
Interrelacionaridade A proteção dos Direitos Humanos deve ocorrer tanto em nível local quanto
emnível regional, nacional e internacional, devendohaver uma interrelação
entre essesdistintosníveisdeorganizaçãopolítica.
Efetividade É dever do poder público providenciar mecanismos de efetivação dos
DireitosHumanos.
Indivisibilidade Os variados Direitos Humanos não podem ser compreendidos de modo
isolado,mas apenas como parte de umtodo indivisível.Logo,nãohá, dentre
osvariadosDireitosHumanos,algunsmais importantesdoqueoutros:todos
são igualmente relevantes.
Interdependência Exatamenteporque fazemparte deumtodo indivisível,osDireitosHumanos
devem ser entendidos como interdependentes, de modo que a realização
adequada de qualquer um dos Direitos Humanos não é possível sem a
realização adequada,ao mesmotempo, de todosos outros.
Concorrenciabilidade Embora indivisíveis e interdependentes,é possível queemcasos concretos
dois ou mais Direitos Humanos concorramentre si como o mais adequado,
ou os mais adequados, para oferecer uma solução ao caso. Em situações
como essa, deve-se buscar uma interpretação capaz de manter a
integridadedosistemade DireitosHumanoscomoum todo.
Vedação do retrocesso Embora surjam, alterem-se e consolidem-se historicamente, aqueles
DireitosHumanosque jáforamreconhecidoscomotaisnãopodemdeixarde
sê- lo. Ou seja, não é possível que haja retrocessos, diminuindo o rol de
garantiasque compõemos DireitosHumanos.
Anotações:
29
Nota-se, portanto, uma série de questões
interdependentes que moldam, influenciam e
caracterizam a construção e dinâmica do que
conhecemos como direitos humanos. Assim,
compreende-se que a efetivação daquilo que se
considera como direito é uma constante luta.
Cidadania – Visão conceitual
A cidadania, de acordo com Dallari (2004, p.
22):
[...] expressa um conjunto de direitos que dá à
pessoa a possibilidade de participar ativamente
da vida e do governo de seu povo. Quem não tem
cidadania estámarginalizado ou excluído da vida
social e da tomada de decisões, ficando numa
posição de inferioridade dentro do grupo social.
Com base nisso, é pertinente observar que a
cidadania caminha num sentido coletivo e partici‐
pativo, apesar da complexidade do contexto emque
vivemos demonstrar outros tipos passivos de
cidadania, como veremos emoutromomento. Além
disso, Dallari (2004) nos aponta as consequências
da exclusão daqueles que não gozamdos direitos de
cidadão, por isso, a relevância dada a essa dimensão
da vida social.
Como exemplificação, o autor ilustra que:
[...] a cidadania pode designar o conjunto das
pessoas que gozamdaqueles direitos. Assim, por
exemplo, pode-se dizer que todo brasileiro, no
exercício de sua cidadania, temodireito de influir
nas decisões do governo (DALLARI, 2004, p. 22).
Anotações:
30
Noutra busca por definição – ou pelo menos
discussão e reflexão acerca do termo –, buscamos
em Gomes (2016) um pensamento que apresenta
correlação comoqueDallari (2004) nos apresentou.
A cidadania está direcionada ao constructo de
modos de agir que conectamos indivíduos e grupos
sociais – as cidadãs e os cidadãos como um todo –
ao sentido geral de sua vida em sociedade (GOMES,
2016), ou ainda que “a cidadania expressa a inserção
e a participação do sujeito na vida social em que ele
existe” (GOMES, 2016, p. 46).
Esse sentido de pertencimento e até de
“existência” social é fator que aparece nas duas
definições até aqui vistas, contudo, a “existência” do
cidadão não significa exatamente que esse a exerça,
isto é, seja participativo ou protagonista nas
questões sociais. De formamais específica:
podemos entender que cidadania é um conjunto
de direitos e deveres que denotam e fundamen‐
tam as condições do comportamento de cada
indivíduo em relação à sociedade, ou seja, a
cidadania designa normas de conduta para o
convívio social, determinando nossas obrigações
e direitos perante os outros integrantes da nossa
sociedade (PIERITZ, 2013, p. 135).
Nessa direção, o autor ainda elenca algumas
categorias advindasdoconceito decidadania.Nesse
caso, Pieritz (2013, p. 135) tenta descrever as
características da seguinte forma:
Anotações:
31
Nesse sentido, nos apoiamos nas reflexões
gerais que os autores Costa e Ianni (2018) nos
fornecem, salientando nova articulação com os
pensamentos dos autores que já mostramos até
aqui. Com isso, temos que:
CIDADANIA CIVIL
Referem-se aos direitos advindos da liberdade de cada
indivíduo, como, por exemplo: o livre-arbítrio para
expressar nossos pensamentos; o direito de proprie‐
dade (venda e compra de um imóvel, um bem ou
serviço); entre outros.
CIDADANIA POLÍTICA
Podemos considerar que a cidadania política se
legitima quando os homens exercem seu poder
político de eleger e ser eleito para o exercício do poder
político, independentemente da instituição pública ou
privada na qual venha exercer suas atribuições.
CIDADANIA SOCIAL
Compreendida como o conjunto de direitos concer‐
nentes ao conforto de cada cidadão, no que tange à
sua vida econômica e social, ou seja, do seu bem-estar
social.
Anotações:
32
Cidadania é o status daqueles que são membros
de uma comunidade e são por ela reconhecidos.
É, também, o conjunto de direitos e deveres que
um indivíduo temdiante da sociedade da qual faz
parte. Historicamente e genericamente, a
cidadania temuma referência espacial, constitu‐
ída da relação dos indivíduos com um dado
território (organização sociopolítica do espaço)
(COSTA; IANNI, 2018, p.47).
Se em outras definições verificamos a noção
de pertencimento a um determinado grupo social,
aqui observamos o reconhecimento do sujeito pelo
grupo. Logo, essa relaçãomútua de reconhecimento
e pertencimento é uma convenção social que faz
homensemulheres viverememcondições equilibra‐
das na sociedade. Por isso, quando há uma ruptura
deste acordo, é preciso que existam as formas de
intervir.
Nessa linha de construção social, Costa e Ianni
(2018, p.47) afirmam que:
[...] cidadania é uma noção construída social‐
mente e ganha sentido nas experiências sociais
e individuais. Por isso, será aqui compreendida
com uma identidade social política. Ora, se
identidade pessoal/individual é o conjunto das
características e dos traços próprios de um
indivíduo, a identidade social são as característi‐
cas que o identificam perante as demais
comunidades. E, emcertamedida, a consciência
de pertencer a algo maior, a um coletivo, a uma
sociedade.
33
O fragmento exposto reitera as reflexões e
descrições que vínhamos trazendo até então. Agora,
imergimos no constructo dos elementos que os
mesmos autores sistematizam em seus estudos.
Para tanto, no quadro 02 é sintetizada e organizada
a configuração da cidadania como identidade
política e social estruturada a partir de:
a. vínculos de pertencimentos,
b. participação política/coletiva e
c. consciência de ser portador de direitos e
deveresSalienta-se que as ideias expressas a seguir
são um recorte da obra de Costa e Ianni (2018, p. 49-
60).
Anotações:
34
Quadro 02 – Configuração dos elementos da
cidadania
Fonte: adaptado de Costa e Ianni (2018).
Elemento constituidor
da cidadania
Descrição/característica
Vínculo de
pertencimento
“É o conceito de Estado-Nação que se configura
como central na definição de uma identidade
nacional,depertencimentocoletivoede inclusãoem
determinadacomunidadepolítica.
Assim, no sentido mais estreito e de acordo com o
senso comum, cidadania poderia ser reduzida à
nacionalidade, isto é, a uma afiliação formal de
indivíduos aos Estados-Nacionais. Essa concepção
estaria relacionada ao sentimento de lealdade
perante um grupo, uma comunidade, a sociedade
civil, o Estado, o que faz com que a cidadania esteja
associada a uma identificação subjetiva e a um
sentimentodepertençaa uma dada sociedade”.
Participação política e
coletiva
“Cidadania não é apenas um critério passivo de
pertença a uma comunidade nacional de direitos e
deveres conferidos pelo Estado. É também uma
prática social que os indivíduos assumempara além
doEstado,pormeiode instituiçõesdasociedadecivil
e de ações civis.
Sob essa perspectiva, o exercício da cidadania
permite a práxis da negociação com o Estado e a
participação política da comunidade, estando o
exercício da cidadania vinculado fundamentalmente
a umEstadodemocrático”.
Consciênciade ser
portadordedireitose
deveres
“A ideia moderna de direito, portanto, é inerente ao
conceito de indivíduo, um ente que tem valor em si
mesmo, dotado de direitos naturais. A matriz
individualistatemcomo baseo fundamentodequeo
indivíduo antecede o Estado e a sociedade e, dessa
forma, contrapõe-se àconcepçãoorgânica, segundo
a qual a sociedade é um todo. A máxima dessa
concepção pode ser identificada na frase: todos
nascemlivrese iguais. Issoquerdizerqueo indivíduo
É concebido como um ser de direitos e que esses
direitos antecedem a organização social e política,
bem como têm prevalência sobre os deveres. No
prenúncio da modernidade, como pode ser
percebido, houve uma mudança qualitativa nos
Anotações:
35
Na esteira da sistematização, Costa e Ianni
(2018) demonstram que esses elementos descriti‐
vos, que estão elencados no quadro 02, são indis‐
pensáveis para a categorização dos tipos de cidadão
na sociedade. Assim, esses teóricos elencam três
grupos: o de cidadão pleno, o de cidadão politica‐
mente passivo e o de cidadão tutelado.
CIDADADÃO PLENO
É constituído pelas três dimensões, ou seja, o
pertencimento, a participação política/coletiva e o
detentor de direitos e deveres. A principal característi‐
ca desse grupo é a de serem cidadãos politicamente
ativos, com consciência de seus deveres, e que lutam
pela garantia e ampliação dos direitos (COSTA; IANNI,
2018, p. 71).
CIDADÃO POLITICAMENTE PASSIVO
Composto pelas dimensões de pertencimento e
detentor de direitos e deveres. Esse grupo é caracte‐
rizado pelos que não participam da vida política, seja
por apatia ou descrença em relação à política e às
instituições políticas atuais, ou por se encontrarem
impossibilitados (COSTA; IANNI, 2018, p. 71).
Anotações:
36
Esses três grupos, apesar das distinções,
representam de forma global a constituição de
nossa sociedade. Com isso, é preciso que haja uma
harmonia ou equilíbrio entre eles, demodo que isso
seja assegurado pelo que conhecemos como
democracia. Logo, a seção seguinte busca elaborar
um caminho discursivo sobre a convivência demo‐
crática.
Convivência democrática
Esta última seção da primeira Unidade se
encaminha para uma espécie de relação entre as
concepções que vimos acerca dos Direitos Huma‐
nos, bemcomoasperspectivas acerca da cidadania.
CIDADÃO TUTELADO
é constituído apenas pelo primeiro elemento, o de
pertencimento. Os cidadãos desse grupo são caracte‐
rizados por não conseguirem exercer seus direitos
políticosepor não teremgarantidos seusdireitos como
cidadãos. Emsuamaioria, são indivíduos considerados
inimputáveis, isto é, não responsáveis por seus atos,
e encontram-se tutelados pelo Estado ou por outro
indivíduo responsável por eles. São os indivíduos em
situação de grande vulnerabilidade social, como os
doentes mentais. Estes, na maioria das vezes, são
considerados cidadãos apenas pelo pertencimento a
um Estado-Nação, pois nem sempre possuem
condições de garantir sozinhos os seus direitos,
deveres e o livre exercício político (COSTA; IANNI, 2018,
p. 72).
Anotações:
37
Para isso, pretendemos observar o quanto a demo‐
cracia semostra basilar numconvívio emsociedade.
Coma finalidadedenortear este trajeto, vamos
nos apoiar, principalmente em Dallari (2004), autor
com o qual já dialogamos em diversos outros
momentos deste material. Assim, para iniciarmos
as reflexões, temos que:
A sociedade humana é um conjunto de pessoas,
ligadas entre si pela necessidade de se ajudarem
umas às outras no planomaterial, bemcomopela
necessidade de comunicação intelectual, afetiva
e espiritual, a fim de que possam garantir a
continuidade da vida e satisfazer seus interesses
e desejos ( p. 26).
Percebe-se com a definição do autor, no que
tange à sociedade humana, a ampla visão de
conjunto estabelecida para as conexões entre as
pessoas. Nesse âmbito, existe uma troca de valores
e uma aceitação entre os sujeitos em torno daquilo
que pode garantir a relação coletiva. Quando se
aborda sobre direitos, é preciso apontar também a
relevância dos deveres e do quanto todos os demais
sujeitos pertencentes amesma sociedade também
possuem seus direitos, por isso, falamos em
aceitação.
Numsentidomais ontológico dessa relação de
convivência, Dallari (2004) nos mostra a vida em
sociedade como algo inevitável para o ser humano.
Anotações:
38
Sem a vida em sociedade, as pessoas não
conseguiriam sobreviver, pois o ser humano,
desde que nasce e durante muito tempo
necessita de outros para conseguir alimentação,
abrigo e outros bens e serviços indispensáveis.
E no mundo moderno, com a grande maioria das
pessoas morando nas cidades e com o aumento
das populações, persistiram e ganharam maior
volume as antigas necessidades e a elas se
acrescentaram outras, em consequência de
hábitos e modos de vida que tornaram necessá‐
rios muitos outros bens (DALLARI, 2004, p.
26-27).
Dallari (2004) nospropõe, então, ummovimento
reflexivo para indicar as nuances que as sociedades
sofreram e que hoje acarretam no que temos como
mundo moderno. Esse processo demonstra como
as conexões entre as pessoas são necessárias para
a suaprópria existência, de talmaneira queohomem
é visto como um ser social.
De formacomplementar, Dallari (2004, p. 26-27)
ressalta que:
As regras de comportamento social, mesmo
quando refletema vontade da grandemaioria dos
membros de um grupo social, são vistas sempre
como limitações, que restringem a liberdade
individual. Entretanto, é preciso ter em conta,
antes de tudo, que o ser humano é associativo
por natureza. Isso já foi afirmado hámais de dois
mil anos pelo filósofo grego Aristóteles, quando
escreveu que “o homem é um animal político”,
querendo dizer, em linguagem de hoje, que o ser
humano é um animal que não vive fora da
sociedade.
Anotações:
39
A democracia, neste caso, surge como uma
forma de garantir que todos convivam de forma a
aceitar a coletividade, sem que o individualismo se
sobressaia ou que os regimes se tornem autocráti‐
cos. O senso de coletividade é uma forma de
estabelecer conexões importantes no campo dos
direitos e do exercício da cidadania. Sendo assim,
as problemáticas sociais emdireção ao convívio são
inúmeras, logo, consideramos o seguinte pensa‐
mento:
Como todos os seres humanos são livres e cada
um temsua individualidade, a convivência é fonte
permanente de divergências e de conflitos. Para
que seja possível a convivência harmônica,
necessária e benéfica, é indispensável que
existam regras de organização e de comporta‐
mento social. Essas regras não devem ser
impostas por uma pessoa ou por umgrupo social
sem a participação dos demais membros da
sociedade,pois isso afrontaria o direito à
igualdade. Assim, por mecanismos democráti‐
cos, respeitando a liberdade e a igualdade de
todos, são fixadas as regras. E aquelas conside‐
radas mais importantes são de obediência
obrigatória. É assim, e para isso, que nasce o
direito, e é desse modo que se estabelece uma
organização justa para a sociedade humana
(DALLARI, 2004, p. 28).
O que o autor direciona, portanto, é uma
maneira defixar caminhos para os descaminhos que
possam vir a surgir por conta das divergências que
incidem na sociedade. Afinal, não há um grupo que
consiga conviver comabsoluto equilíbrio e harmonia
Anotações:
40
de ideias, concepções e desejos. Para isso, a
democracia se destaca como uma forma de estabe‐
lecer diálogo, mesmo entre aqueles que não apre‐
sentamomesmoponto de vista. Contudo, o que não
pode ocorrer é uma inversão daquilo que é direito e
aquilo que fere os limites da convivência com o
próximo, pondo em risco, muitas vezes, a vida de
outras pessoas.
[...] as regras de comportamento social, que
também podem ser denominadas regras de
convivência, são necessárias e benéficas para a
humanidade,mesmoque signifique restrições ao
comportamento das pessoas. Mas é preciso que
essas regras sejam justas, não sendousadas para
garantir privilégios nem para impor tratamento
indigno a uma parte da humanidade. Sociedade
organizada com justiça é aquela em que se
procura fazer com que todas as pessoas, sem
discriminações de qualquer espécie, possam
satisfazer suas necessidades essenciais [...]
(DALLARI, 2004, p. 28).
Deste modo, o senso do que é justo deve ser
asseguradopela imparcialidadedaqueles que regem
os poderes de determinada nação, devendo o povo
participar da escolha desses representantes,
assegurando a democracia política. A complexidade
desse equilíbrio, no entanto, é umdesafio constante.
Para o encerramento das reflexões aqui
elencadas, salienta-se que:
41
[...] a cidadania democrática supõe a igualdade
de condições socioeconômicas básicas para
garantir a dignidade humana. No Brasil, temos a
“mutilação da cidadania”, pois historicamente
grande parcela da população vive totalmente à
margem das conquistas definidas no plano das
leis e das normas, sem sequer conhecê-las
(BENEVIDES, 2007 apud MARINHO, 2012, p. 69).
Diante deste olhar crítico, passaremos à
próxima Unidade, com o intuito de compreender os
direitos pelos quais os cidadãos devem lutar e
respeitar.
U
ni
da
de
2
Videoaula 2
Videoaula 4
Videoaula 1
Videoaula 3
Videoaula 5
44
45
VALORES E
IGUALDADE DE
DIREITOS
Esta unidade tem como objetivo
organizar uma discussão geral acerca de
valores e princípios relacionados aos
Direitos Humanos e, por consequência, ao
princípio da cidadania. Para tanto, as
subseções serão divididas em 5 partes
principais, intituladas da seguintemaneira:
a. Valores fundamentais para viver
em sociedade;
b. Princípio da dignidade humana;
c. Igualdade de direitos;
d. Indivíduo, diversidade, tolerância
e respeito às diferenças;
e. Multiculturalismo.
Anotações:
46
Pode-sedizer, combasenos títulos dadosaqui,
que a Unidade 2 traça uma percepção abrangente
de aspectos relevantes para os sujeitos possam
conviver em sociedade.
Os autores com os quais versaremos no
decorrer das reflexões são: Menezes (2022), Gomes
(2016), Pieritz (2012), Leite (2020), Dallari (2004),
Melo (2015) entre outros. Desta forma, cooperamos
para que o leque de opções bibliográficas seja o
maior possível, a fim de possibilitar o acesso aos
diferentes olhares e promover a ampliação dos seus
conhecimentos.
De forma geral, o que propomos neste cenário
de estudo é dialogar com variadas fontes e referên‐
cias, pois com isso direcionamos um caminho
profícuo para sua formação. No mais, cumpre-se
tambéma ementa fundamental do curso e ressalta-
se que as todas as unidades estão interligadas por
um continuum que se completa na unidade 4, com
os documentos característicos da concretude dos
Direitos Humanos. Assim, para este conjunto de
estudos, almejamos um debate relevante sobre
importantes questões do âmbito humano.
Valores fundamentais para viver em
sociedade
Nesta subseção, trabalharemos com alguns
termos específicos que representam valores
necessários para o convívio saudável na sociedade.
Para tanto, serão necessárias reflexões sobre a
importância de compreender o desenvolvimento de
cada um deles, pensando num ser humano integral.
De certo modo, é por meio dos valores a serem
Anotações:
47
elencadosqueohomemse tornahumano, no sentido
amplo da expressão.
Assim, fazemparte desse construto de valores
as seguintes dimensões:
a. O respeito;
b. A honestidade;
c. A humildade;
d. A empatia;
e. O senso de justiça;
f. A solidariedade;
g. A ética.
Por meio do desenvolvimento dessas dimen‐
sões, o ser humano aprende a conviver socialmente.
Nesse caso, cabe destacar a importância que as
instituições sociais, como a escola, apresentam no
processo de compreensão e aplicação desses
valores. Obviamente, tal processo não se restringe
às instituições oficiais de ensino, mas não se pode
negar a relevância delas.
Diante disso, passamos a compreender o que
éo respeito, tendo como lente teórica o pensamento
de Menezes (2022):
O respeito é a capacidadede ter emconsideração
os sentimentos das outras pessoas. É um dos
valoresmais importantes na condução da vida de
uma pessoa, pois pode influenciar as decisões,
os relacionamentos e omodo de viver. Esse valor
pode ser manifestado de diferentes formas. Um
exemplo é o respeito às diferenças. Em uma
sociedade existem variadas formas de viver e de
pensar, assimcomoexistemdiversas percepções
sobre a vida. Para uma boa convivência coletiva
seja positiva é fundamental cultivar e exercitar o
respeito por pessoas e por decisões diferentes (
2022 [online]).
Anotações:
48
Como se pode ver, o respeito é uma dimensão
que contribui diretamente para a boa convivência,
tendo em mente que a ausência dessa dimensão
pode fazer sobressair um lado extremamente
negativo do ser humano. Em outras palavras, é por
meio do respeito que se inicia uma conduta demo‐
crática. Contudo, não se pode confundir o que o
termo representa, uma vez que existem situações
em que determinadas pessoas falam ou cometem
atrocidades e, em troca, pedem respeito aos seus
discursos e atos.
Outro valor que trazemos para esta discussão
é voltado para um campo individual e ao mesmo
tempo coletivo. Trata-se da honestidade, que
segundo Menezes (2022):
[...] é um valor fundamental para o ser humano e
pode influenciar todos os aspectos da vida de
uma pessoa. Ter honestidade significa agir com
ética e verdade nas relações humanas e no
cumprimento de obrigações, agindo conformeos
princípios éticos. Entretanto, o sentimento de
honestidade não é associado somente com as
relações externas, nos relacionamentos entre
pessoas. A honestidade também está ligada à
própria consciência do indivíduo, que age com
integridade em relação aos seus próprios
sentimentos e princípios (MENEZES, 2022,
[online]).
Percebemos, nas acepções do autor, que a
honestidade representa uma forma de consciência
do que é certo ou errado dentro das arbitrariedades
sociais. Nesse caso, ser honesto é compreender que
existem normas e regras que não podem ser
Anotações:
49
descumpridas, sendo, portanto, uma decisão do
próprio indivíduo num espaço coletivo. Além disso,
na prática, tornar-se uma pessoa honesta não
significa apenas seguir as leis oficiais,mas também
as deliberações estabelecidas no cotidiano, nas
ações diárias. Desta forma, as micro ações realiza‐
das no decorrer do dia vão formando o cidadão
honesto.
Essa percepção está diretamente relacionada
ao campo da ética:
A ética pode ser definida como a reunião de
princípios que determinam as atitudes de uma
pessoa. Assim, agir com ética significa viver de
acordo com valores morais fundamentais. De
acordo com a Filosofia, ética é um conjunto de
princípios determinantes para o comportamento
humano e para a vida em sociedade (MENEZES,
2022, [online]).
No que tange ao espaço discursivo do senso
individual,há também o valor da humildade, defini‐
do como:
[...] uma virtude muito valiosa na vida de um
indivíduo, pois significa a sua capacidade
de reconhecer suas falhas ou suas dificuldades.
O conceito de humildade se relaciona coma ideia
de agir com modéstia, de ter simplicidade em
suas atitudes e saber reconhecer suas próprias
limitações. Esta característica baseia-se na
capacidade de reconhecer-se comoum indivíduo
incompleto, reconhecendo as próprias dificulda‐
des e possibilitando a realização de novas
experiências e aprendizados (MENEZES, 2022,
p.20).
Anotações:
50
Combase noque vemos, a humildade demons‐
tra um exercício de autoavaliação das próprias
ações e domodo como agimos e nos comportamos
em grupo. Essa perspectiva, que não funciona de
modoobjetivo, é retratada porMenezes (2022) como
uma virtude, logo, é necessário o contínuo exercício
de estímulo daquilo que a caracteriza. Ter consciên‐
cia de nossa incompletude é fundamental para
desenvolver outros valores, como o respeito, por
exemplo.
Nessa direção, entramos na definição de
empatia, termo muito difundido no senso comum
dos últimos anos. Esse valor, por sua vez, é tido
como:
[...] a capacidade que uma pessoa possui
de perceber os sentimentos de outras pessoas,
colocando-se "no lugar dela". É um valor impor‐
tante para manter as boas relações humanas
porque a partir dela é possível entender os
pensamentos e as atitudes dos outros. Desenvol‐
ver a empatia implica conseguir afastar-se de
suas próprias ideias e convicções e olhar para um
assunto com a percepção de outra pessoa
(MENEZES, 2022, p.10).
Para tanto, exige-se, nodesenvolvimentodesse
valor, um caminho desafiador no sentido da solida‐
riedade.
Anotações:
51
A solidariedade é a capacidade de ter simpatia e
atenção com outra pessoa, o que demonstra a
valorização e a importância dada às outras
pessoas. Esse sentimento se caracteriza pelo
interesse verdadeiro de se unir ao sofrimento ou
à necessidade de alguém, ajudando-o no que for
possível. Para que a solidariedade possa ser
colocada em prática, são precisos sentimentos
de desapego, de empatia e de compaixão
(MENEZES, 2022, [online]).
Isso demonstra a conexão que essas dimen‐
sões apresentam umas com as outras. Assim, falar
de empatia e de qualquer outro valor aqui, é imergir
no desenvolvimento do próprio ser humano enquan‐
to ser social. Por isso mesmo, é fundamental que
toda e qualquer ação desenvolvida por homens e
mulheresseja reconhecidapelo viésdocompromisso
com os direitos humanos.
Por fim, o senso de justiça é delimitado por
Menezes (2022) como:
ter a habilidade de avaliar a existência de justiça
ou injustiça nas situações. Ser justo é ter como
princípio de vida agir com integridadee igualdade,
tomando decisões corretas, tanto para simesmo
como para os outros. O senso de justiça também
pode se manifestar pela capacidade de indigna‐
ção.Diantedeumasituaçãode injustiça, a pessoa
se sente obrigada a intervir, opondo-se àquela
situação, ainda que não seja um acontecimento
emrelaçãoa si próprio (MENEZES, 2022, [online]).
Anotações:
52
Em referência ao que estudamos no primeiro
capítulo, observamos que o senso de justiça é um
dos valores que permeiam a busca pelos Direitos
Humanos, historicamente falando.Desta forma, esse
senso é uma forma de nos mover em direção à
concretude do que é certo dentro do convívio social.
Agora, passaremos à próxima seção, cujo tema está
diretamente associado a todos os valores que vimos
até aqui.
Princípio da dignidade humana
Para esta seção, serão dispostas observações,
definições e reflexões sobre algumas concepções
que dão base aos Direitos Humanos, destacando-se
as suas relevâncias para os documentos oficiais
(nacionais e internacionais), que tratam dessas
questões.Nesse sentido, nos apoiaremosemGomes
(2016), Pieritz (2012), Frias e Lopes (2015) e Leite
(2020). Esses autores trazem recortes pertinentes
aocampodosDireitosHumanos, emarticulaçãocom
os preceitos já vistos até aqui.
Assim, consideramos que já falamos em
convivência democrática, e que já refletimos sobre
como o respeito às diferenças é necessário para a
harmonia coletiva, partimosdaseguinteobservação:
“a ideia de igualdade, como nós a conhecemos, é
algomuito recente na história humana e seu sentido
relaciona- semuito de perto à ideia de Dignidade da
Pessoa Humana” (GOMES, 2016, p. 15). O autor nos
dirige para o senso de consciência da igualdade e
nos fala também de como essas noções, que
parecem ser naturais hoje em dia, são na verdade
recentes.
Anotações:
53
Para ser mais específico com relação ao
princípio que dá título a esta subseção, observamos
que:
[...] aos poucos foi sendo consolidado, historica‐
mente, o referido entendimento segundo o qual
todas e todos são iguais por natureza. Para
fundamentar esse conceito, a ideia de Dignidade
da Pessoa Humana cumprirá papel de extrema
relevância. O núcleo dessa ideia possui conteúdo
simples e direto: todo ser humano, para além de
qualquer característica externa – como cor, raça,
classe, crença religiosa, nacionalidade, orienta‐
ção sexual –, é dotado de um valor universal que
lhe é atribuído pelo mero fato de se tratar de um
ser humano (GOMES, 2016, p. 17).
Diante disso, salienta-se um ponto principal
que rege o princípio aqui estudado: o de que todos
terão seus direitos iguais independentemente de
sua “cor, raça, classe, crença religiosa, nacionalida‐
de, orientação sexual”. Em outras palavras, todos
nós somos seres humanos e, por isso mesmo, não
deve haver distinções que foram por injustiças
sociais no decorrer da história humana. Nessa
direção, Gomes (2016, p.17) denota um paralelo
histórico:
Se antes da Modernidade cada grupo distinto de
pessoas possuía um status mais ou menos
valorizado pela sociedade de acordo com seu
contexto social de nascimento, agora toda e
qualquer pessoa, independentemente de
qualquer contexto, possui o mesmo valor.
Anotações:
54
Com efeito, compreende-se que a sociedade
humana não é linear, do ponto de vista histórico.
Suas nuances demonstram que as mudanças e
transformações possuem um caráter positivo em
determinados aspectos, uma vez que, quando
comparamosos direitos dos homens e dasmulheres
de séculos anteriores, percebemos os avanços
obtidos até então. Contudo, ainda hámuito o que ser
feito,mas essa história de conquistas dos direitos é
também parte desse movimento histórico que já
destacamos.
Na direção do que se compreende por igualda‐
de, é também fundamental avaliarmos os grupos
sociais que, ao longo da história humana, tiveram
seus direitos negados. Por isso, Pieritz (2012, p.69):
traz um apanhado geral desta reflexão:
todos os homens fazemparte de uma sociedade,
de um grupo social, de uma estrutura social,
portanto, podemos dizer que os homens em
sociedade convivememgrupo. Cada grupo social
possui diferentes características culturais e
morais, por exemplo: os povos indígenas, os
orientais, os africanos, os alemães, os franceses,
os italianos, os americanos, os brasileiros, entre
muitos outros. Cada sociedade possui suas
normas de conduta comportamental e seus
princípios morais, ou seja, cada grupo social ou
cada sistema social constitui o que é certo e
errado, o que é o bem e o mal para o seu povo.
Portanto, nem sempre o que é certo para nós
pode ser certo para outro grupo social, e vice-
versa.
Anotações:
55
Nestaabordagemdaautora, podemosobservar
o destaque dado para determinados grupos sociais,
como os povos indígenas. Trata-se de umgrupo que
sofre as consequências de uma exploração datada
emdiversas obras e que, hoje, necessita de políticas
que garantam sua própria sobrevivência. A autora
destaca ainda a inevitabilidade das diferenças entre
os grupos sociais e de como os seres humanos
devem estabelecer suas normas de convívio social,
com foco no respeito aos diferentes costumes e
condutas.
Demodo enfático, a autora expõe que:
[...] o ser humano nunca conseguirá ser homem
sem interagir diretamente com os outros
homens, e que neste convívio ele deverá procurar
o equilíbrio emseus comportamentos peranteos
outros, procurando constantemente se adaptar
ao meio em que está inserido. Ou seja, o ser
humano necessita respeitar as diferenças para
assim melhorar sua condição de vida e angariar
sua dignidade humana (PIERITZ, 2012, p. 70).
Aqui, destaca-se um aspecto já explorado nas
subseções anteriores, nas quais ilustramos a
relevância da busca pelo equilíbrio das relações
sociais para o convívio coletivo. A autora utiliza a
expressão “procurando constantemente se adaptar
aomeio emque está inserida", demonstrando que a
harmonia deve ser uma espécie de meta contínua
das sociedades.
Frias e Lopes (2015, p. 653), numadireçãomais
legislativa e documental, ressaltam a importância
dos organismos institucionais para a garantia dos
direitos. Assim, os autores dizem que:
Anotações:
56
Ao longo do século XX a dignidade da pessoa
humana se tornou um princípio presente em
diversos documentos constitucionais e tratados
internacionais, começando pela Declaração
Universal dos Direitos Humanos (1948) e se
espalhando pelo Pacto Internacional sobre os
DireitosEconômicos, Sociais eCulturais (PIDESC)
(1976) e pelas constituições de Itália (1947, art. 3º),
Alemanha (1949, art. 1º), Portugal (1976, art. 1º),
Espanha (1978, art. 10), Grécia (1975, art. 7º), Peru
(1979, art. 1º), Chile (1980), Paraguai (1992, art. 1º),
Bélgica (após a revisão de 1994, art. 23) e
Venezuela (1999, art. 3º), dentre diversos outros
pactos, tratados, declarações e constituições.
Apesar deste destaque, os autores ressaltam,
contudo, que:
[...] a ideia de dignidade não surgiu no século XX
e nem sempre esteve associada aos direitos
humanos ou fundamentais. No período romano
ela se referia à qualidade de quempossuía certas
ocupações e posições públicas. Foi apenas
durante amodernidadequeela passoua se referir
a um valor possuído por todas as pessoas (FRIAS
E LOPES, 2015, p. 653).
Num diálogo importante para a construção
desse pensamento, Leite (2020) destaca algumas
questões históricas que também acarretaram a
busca pela garantia da dignidade humana.
Anotações:
57
O reconhecimento e a proteção da dignidade da
pessoa humana nos textos constitucionais
aumentaramapósSegundaGuerraMundial, como
forma de reação às práticas ocorridas durante o
nazismo e o fascismo e contra o aviltamento
desta dignidade praticado pelas ditaduras ao
redor do mundo. A dignidade humana tornou-se
umsuper princípio quepassoudoplanoéticopara
o campo normativo, sendo o centro de todo o
direito. Foi um marco histórico e essencial da
nova fase do neoconstitucionalismo (pós-positi‐
vismo) (LEITE, 2020, p.20).
Diante disso, podemos chegar a uma tentativa
dedefinição, combasena afirmaçãodeLeite (2020).
Todavia, não queremos aqui estabelecer um único
campo de construção do conhecimento acerca dos
direitos humanos. Trata-se de uma forma de
didatizar nossos estudos. Logo, o princípio da
dignidade humana:
Éo fundamento axiológico do constitucionalismo
contemporâneo e do neoconstitucionalismo, a
dignidade é considerada o valor constitucional
supremo e serve como razão para decisão de
casos concretos e, principalmente como diretriz
para a elaboração, interpretação e aplicação das
normas que compõem a ordem jurídica e o
sistema de direitos fundamentais (LEITE, 2020,
p. 20).
Anotações:
58
Por fim, resume-se que:
[...] os direitos fundamentais são prerrogativas
próprias dos cidadãos em função de sua especial
condição de pessoa humana, e as garantias
fundamentais são os instrumentos e mecanis‐
mos necessários para a proteção, a salvaguarda
ou o exercício desses direitos. Porém, os direitos
fundamentais não podem ser considerados
absolutos, posto que todos os direitos são
passíveis de relativização e podem entrar em
conflito entre si (LEITE, 2020, p. 22).
A partir dessa visão abrangente, é necessário
ampliar a noção de igualdade que foi discutida no
início desta subseção, a fim de entender o movi‐
mentoconstantedasconcepçõesquedirigemotema
dos Direitos Humanos e da cidadania.
Igualdade de direitos
Nesta subseção, trataremos de umadimensão
essencial para o entendimento do conteúdo de
“Direitos Humanos e Cidadania”. Para tanto, serão
utilizadas inicialmente quatro definições dicionari‐
zadas para construir um caminho de entendimento.
Os termos que serão explorados neste caso são os
seguintes:
IGUALDADE
ISONOMIA
IGUAL
EQUIDADE
Anotações:
59
Assim, de formadicionarizada, temos, segundo
Bechara (2011):
As definições dicionarizadas nos dão um
panorama direcionador para os nossos objetivos de
compreensão. Observamos, principalmente, a
existência de um senso democrático que assume o
valor de equilíbrio e respeito mútuo. Além disso,
percebe-se que os quatro termos caminham no
sentido regulador da harmonia, uma vez que a
efetividade deles permite que as pessoas percebam
no outro a necessidade do bem-estar coletivo.
IGUAL:
“Sem diferença; que não muda; que ou quem
tem a mesma condição; do mesmo modo; nas
mesmas condições; sem vantagens [...]”.
IGUALDADE:
“Qualidade do que não apresenta diferenças;
relação entre dois valores iguais”.
EQUIDADE:
“Reconhecimento do princípio de que todas as
pessoas têm direitos iguais; imparcialidade e
senso de justiça no julgamento e na maneira
de agir; retidão”.
ISONOMIA:
“Princípio que assegura a igualdade de todo
cidadão perante a lei; condição dos que são
regidos pelas mesmas leis”.
Anotações:
60
Destaca-se, nos conceitos dicionarizados,
algumas expressões fundamentais: a) “princípio de
que todas as pessoas têmdireitos iguais”; “imparci‐
alidade e senso de justiça”; “assegura a igualdade de
todo cidadão perante a lei”. Nessa esteira de
reflexões, Dallari (2004), afirma que: “os humanos
nascem iguais em dignidade e direitos. Em quase
todas as Constituições do mundo está escrito que
todos são iguais perante a lei” (DALLARI, 2004, p.
46). Combase nisso, é possível perceber umconsen‐
so, mas, com efeito, é importante destacar os
termos equidade e isonomia como aqueles mais
próximos do campo em que podemos situar os
direitos humanos. Assim, como formade compreen‐
der a base de fundamentos, permaneceremos
também na compreensão dos vocábulos “igual” e
“igualdade”.
Problematizando as questões relacionadas a
esse campo, buscamos a seguinte citação:
[...] o que se vê na realidade é que as pessoas são
tratadas como desiguais. As próprias leis
garantem a desigualdade, e nos costumes de
quase todos os povos encontram-se muitas
práticas baseadas na desigualdade, podendo-se
ver claramente que em grande número de
situações as pessoas não são tratadas como
iguais (DALLARI, 2004, p. 46).
Destemodo, abrimosum lequeparadiscussões
mais incisivas, o que, no terrenodosestudos sociais,
é muito explorado. Para isso, optamos por fornecer
alguns textos quepodemampliar o seu conhecimen‐
to acerca das problemáticas existentes na socieda‐
de em que vivemos.
Anotações:
61
Os textos, por sua vez, são trabalhos de
graduação e dissertações de mestrado que traba‐
lharam os pressupostos dos direitos humanos,
refletindo sobre as injustiças sociais que incidem
sobre nossa sociedade. Assim, indicamos 2 deles,
sendo:
De modo progressivo à crítica que se vinha
construindo com Dallari (2004, p.48), observamos
outra fala do autor:
O estado democrático social de direito em face do
princípio da igualdade e as ações afirmativas
Autor: Araújo, José Carlos Evangelista de.
Disponível em: https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/
PUC_SP-1_881fe84ea9fc0bb0e6c07d9b34edb035
A liberdade e a igualdade do homem, no estado natural
e social, segundo Jean-Jacques Rousseau
Autor: EdesminWilfrido Palacios Paredes
Disponível em: https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/
USP_98dca35841128ebc761676a00def1eec
Anotações:
62
Quando se diz que todos os seres humanos
nascem iguais, o que se está afirmando é que
nenhum nasce valendo mais que o outro. Como
seres humanos, todos são iguais, não importando
onde nasçam, quemsejamseus pais, a raça a que
pertençamou a cor de sua pele. Se todos nascem
iguais [...], como se explica que uns já nasçam
muito ricos, tendo toda assistência, proteção econforto, enquanto outros nascem miseráveis,
mal podendo sobreviver, sem cuidados médicos
e sem a certeza de que terão os próprios
alimentos indispensáveis à vida?
Neste caso, percebemos que o assunto
envolvendoaequidade, igualdadee isonomiaémuito
propício ao debate geral. Existem, inúmeros cami‐
nhos que podemos levantar, como o que foi exposto
pelo autor: a injustiça social que garante leis
promotoras da igualdade. As reflexões de Dallari
(2004, p.50) caminham ainda para o encerramento
desta seção, da seguinte forma:
Nãobasta afirmarque todasaspessoas são iguais
por natureza. Para que essa afirmação tenha
resultados práticos, é preciso que a sociedade
seja organizada de tal modo que ninguém seja
tratado como superior ou inferior desde o
instante do nascimento. É preciso assegurar a
todos, de maneira igual, a oportunidade de viver
com a família, de ir à escola, de ter boa alimenta‐
ção, de receber cuidados de saúde, de escolher
um trabalho digno, de ter acesso aos bens e
serviços, de participar da vida pública e de gozar
do respeito dos semelhantes.
Anotações:
63
Logo, o autor faz um apanhado discursivo e
crítico que direciona um forte aspecto deste
material: osdireitoshumanoseacidadanianãoestão
desvinculados das injustiças sociais, nem dos
contextos históricos que permeiam a vida humana.
Indivíduo, diversidade, tolerância e
respeito às diferenças
Enquanto a subseção anterior se concentrou
em discussões voltadas à igualdade, equidade e
sinônimos disso. Aqui, nesta seção, vamos direcio‐
nar nosso enfoque para o que há de diferente nos
sujeitos e como isto é importante no debate acerca
da própria igualdade.
Nessa direção, vamos nos apoiar em autores
comoRodrigues e Abramowicz (2013), Dallari (2004),
Carvalho e Faustino (2015), Martins e Slavez (2015),
entre outros. Com isso, nos atemos à noção do
primeiro assunto a ser debatido. Na verdade,
retomamos o sentido de igualdade para depois
avançarmos, por isso, adiantamos e destacamos
que:
Não é difícil reconhecer que todas as pessoas
humanas têm necessidades e por esse motivo,
como todas as pessoas são iguais – uma não vale
mais do que a outra, uma não vale menos do que
a outra -, reconhecemos também que todos
devem ter a possibilidade de satisfazer suas
necessidades básicas de ser humano (DALLARI,
2004, p. 13).
Anotações:
64
Partindo disso, movimentamos nossa lente
para o tema central desta subseção, a diversidade.
Essa, por sua vez, junto a outros temas:
[...] a diversidade e outros temas a ela relaciona‐
dos têmsido tratados de forma central no debate
internacional e nacional, nas discussões sobre o
desenvolvimento e na formulação de políticas
públicas, especialmente na área da educação. Tal
expressão passou a ser cada vez mais frequente
nos títulos de programas e ações do governo
brasileiro, bem como de suas secretarias e
publicações (RODRIGUES; ABRAMOWICZ, 2013,
p. 17).
Comosevê, asquestões relativas àdiversidade
se movem para um grau de relevância expressivo,
sobretudo quando se fala no destaque que elas
recebem no âmbito oficial. Contudo, os autores
observam importantes fatores que podemser vistos
como ponto de partida para reflexões:
Se, por um lado, a utilização desse conceito pode
revelar o surgimento de uma inflexão do
pensamento social, por outro, a imprecisão ou
seu uso indiscriminado pode restringir-se ao
simples elogio às diferenças, pluralidades e
diversidades, tornando-se uma armadilha
conceitual e uma estratégia política de esvazia‐
mento e/ou apaziguamento das diferenças e das
desigualdades (RODRIGUES; ABRAMOWICZ, 2013,
p. 17).
Anotações:
65
Conforme apresentado, o termo diversidade
parece ganhar outro significado no senso comum –
no uso corriqueiro e por vezes errôneo ou limitado.
O fato de a diversidade ter ganho espaço nas
discussõeséumaspectopositivo, contudo, épreciso
que o sentido real dessa dimensão seja explorado
de forma correta.
De acordo com Dallari (2004, p. 13):
Um ponto que deve ficar claro, desde logo: a
afirmação da igualdade de todos os seres
humanos não quer dizer igualdade física nem
intelectual ou psicológica. Cada pessoa humana
tem sua individualidade, sua personalidade, seu
própriomodo de ver e de sentir as coisas. Assim,
também, os grupos sociais têm sua cultura
própria, que é resultado de condições naturais e
sociais. [...] Em tal sentido, as pessoas são
diferentes, mas continuam todas iguais como
seres humanos, tendo as mesmas necessidades
e faculdades essenciais. Disso decorre a
existência de direitos fundamentais, que são
iguais para todos.
Aqui, é importante salientar o significado de
indivíduo, individualidade de individualismo. Para
isso, recorremos a Bechara (2011), segundo o qual:
Anotações:
66
O indivíduo, no sentido literal da palavra, é o
próprio homem e este, por conseguinte, apresenta
características que o tornam único, isto é, o distin‐
gue dos demais. O individualismo, por sua vez, não
é um aspecto positivo para a convivência em
sociedade, tendo em vista o caráter específico de
se preocupar apenas com o próprio bem-estar, em
detrimento do coletivo.
De modo mais específico à diversidade
compreendemos uma contextualização associativa
à realidademoderna:
O que se experimenta hoje é a intensificação de
se fazer visível a diversidade, por exemplo, nos
diversosgostosecostumesenosdiversosmodos
de pensar e propagar valores. Essa visibilidade
do diverso se apresenta no cotidiano e desafia a
convivência no que tange à tolerância (CARVA‐
LHO; FAUSTINO, 2015, s.p).
INDIVÍDUO:
“Que não se divide, indivisível; ser pertencente
à espécie humana; homem; o ser humano
como integrante de uma sociedade; homem
[...]”.
INDIVIDUALIDADE:
“Aquilo que constitui o indivíduo; peculiaridade
que distingue uma pessoa ou coisa [...]”.
INDIVIDUALISMO:
“Ato ou procedimento egoísta, egocentrismo
[...]”.
Anotações:
67
A fim de destacar o termo tolerância, separa‐
mos seu conceito e discussão no espaço a seguir:
O termo, não se podenegar, ganhou aindamais
relevância nos últimos anos e, entre as expressões
mais relacionadas ao respeito aos diversos tipos de
diferenças que existem numa sociedade, esse
parece ser o que mais se passou a utilizar.
Com isso, recorremos ao seguinte ponto:
A tolerância é um dos temas que ocupa a mesa
dos debates urgentes no contexto do convívio
social. Temos presenciado uma sociedade mais
conectada e commais acesso a informações, se
comparada a outros tempos; porém, os níveis de
informações falsas têm contribuído para
aumentar os níveis de intolerância em relação ao
outro. Fontes (2015) afirma que, para enfrentar a
intolerância no contexto mundial, que chega ao
seu ápice com as guerras, é necessário diálogo
intercultural e compromisso da ONU, para,
assim, eliminar todas as formas de autodestrui‐
ção da humanidade (FAVENI, 2022, p. 57).
NOTA
Tolerância é um termo originário do latim tolerare que
significa suportar, aceitar. No sentido moral, político
e religioso, pressupõeaatitudedeaceitar osdiferentes
modos de pensar, de agir e de semanifestar do outro.
Emsíntese, é o reconhecimento eo respeito pelo outro
como um sujeito de direitos. Portanto, a ideia da
tolerância assume valor ético e político, e, com base
nela, todas as pessoas deveriam ser reconhecidas de
forma igual e tratadas sem discriminação e violência
(CARVALHO; FAUSTINO, 2015).
Anotações:
68
Sede um lado vínhamos falando em tolerância,
é preciso tambémcompreendermos o seu significa‐
do. Assim, destacamos, mais uma vez, a definição
literal, por considerarmos que algumas expressões
precisam ser interpretadas sem subjetivações.
Se pensarmos de modo mais aprofundado,
vamos enxergar os inúmeros tipos de intolerância
que existem no campo social. Contudo, nosso foco
nesta subseção não é esse. Desta forma, para
caminharmos ao fim dos assuntos debatidos aqui
de forma breve:
Adiversidade fazpartedahumanidade, istoé fato.
Os seres humanos são semelhantes, enquanto
gênero humano, porém as diferenças existem,
pois asculturas sãodiferentes, bemcomogênero,
raça, idades, experiências, dentre outras
questões,bem como a diversidade biológica
(MARTINS; SLAVEZ, 2015, p. 5).
Assim, Gomes (2007, p. 22) afirma que “o nosso
grande desafio está em desenvolver uma postura
ética de não hierarquizar as diferenças e entender
que nenhumgrupo humano e social émelhor ou pior
do que outro. Na realidade, somos diferentes”. Em
contrapartida, Scalon (2011, p. 50), afirma que:
INTOLERÂNCIA:
“Qualidade de intolerante; ausência de
tolerância, de condescendência; atitude
intransigente, repressora em relação a ideias,
crenças e opiniões alheias”.
Anotações:
69
[...] a desigualdade não é um fato natural, mas
sim uma construção social. Ela depende de
circunstâncias e é, em grande parte, o resultado
das escolhas políticas feitas ao longo da história
de cada sociedade. Mas também sabemos que
todas as sociedades experimentam desigualda‐
des e que estas se apresentam de diversas
formas: como prestígio, poder, renda, entre
outras — e suas origens são tão variadas quanto
suas manifestações. O desafio não é apenas
descrever os fatores e componentes das
desigualdades sociais,mas tambémexplicar sua
permanência, e em alguns casos seu aprofunda‐
mento, apesar dos valores igualitáriosmodernos.
Multiculturalismo
Nesta última subseção será discutido uma
temática que se encaixa nos espaços do respeito,
da tolerância e na garantia da igualdade de direitos.
Trata-se do multiculturalismo, conceito estudado
pelas áreas sociais e que há tempos vem ganhando
destaquenosníveis deensino, naspolíticas públicas,
na mídia e em uma série de outras esferas do
convívio coletivo humano.
Antes de aprofundarmos os olhares de Lapla‐
tine (1989), Gomes (2008), Zaboni (2015), Santos
(1997) e Melo (2015), veremos, as definições diciona‐
rizadas do termo cultura, a partir de Bechara (2011).
Anotações:
70
Combasenosentido literal do termo, épossível
avançarmospara oqueos autores aqui selecionados
nos dizem acerca dos temas que permeiam o
multiculturalismo.Assim, parte-seda ideia de social:
O social é a totalidade das relações (relações de
produção, de exploração, de dominação [...]) que
os gruposmantêm entre si dentro de ummesmo
conjunto (etnia, região, nação [...]) e para com
outros conjuntos, também hierarquizados. A
cultura, por sua vez, não é nada mais que o
próprio social, mas considerado dessa vez sob o
ângulo dos caracteres distintivos que apresen‐
tam os comportamentos individuais dos
membrosdessegrupo, bemcomosuasproduções
originais (artesanais, artísticas, religiosas [...])
(LAPLANTINE, 1989, p. 120).
CULTURA:
“[...] Conjunto de experiências, realizações e
conhecimentos que caracterizam determinado
povo, nação ou região. Conjunto de conhecimen‐
tos de determinado indivíduo [...]. Os padrões e
normas que regulam a ação humana individual e
coletiva, da forma como se desenvolvememuma
sociedade ou grupo específico, e que apresen‐
tam em quase todos os aspectos da vida:
maneiras de sobrevivência, regras de comporta‐
mento, crenças, valores, instituições, criações
materiais etc”.
Anotações:
71
Dialogando com a perspectiva de Laplatine
(1989), trazemos a fala de Gomes (2008, p. 36),
segundo o qual:
[...] cultura é o modo próprio de ser do homem
em coletividade, que se realiza em parte
consciente, emparte inconsciente, constituindo
um sistema mais ou menos coerente de pensar,
agir, fazer, relacionar-se, posicionar-se perante
o absoluto, e, enfim, reproduzir-se.
Dentro dessa abordagem, Laplatine (1989)
ilustra umpanorama em relação à cultura, tendo em
vista o destaque que ele fornece para o convívio e
para as relações humanas. Desta maneira, verifica‐
mos que:
[...] o que distingue a sociedade humana da
sociedade animal, e até da sociedade celular, não
é de forma alguma a transmissão das informa‐
ções, a divisão do trabalho, a especialização
hierárquica das tarefas (tudo isso existe não
apenas entre os animais, mas dentro de uma
única célula!), e sim essa forma de comunicação
propriamente cultural que se dá através da troca
não mais de signos e sim de símbolos, e por
elaboração das atividades rituais aferentes a
estes. Pois, pelo que se sabe, se os animais são
capazes de muitas coisas, nunca se viu algum
soprar as velas de seu bolo de aniversário
(LAPLANTINE, 1989, p. 121).
Anotações:
72
Com base nisso, o que percebemos é que a
cultura, pensada como esse conjunto de inúmeras
características, é uma convenção dos homens e
mulheres que, no decorrer do tempo, foram se
organizando e construindo seus valores nos seus
espaços. Nesse sentido, as normas, os padrões, as
regras e outras formas de organização foram
surgindo para garantir o bom funcionamento das
sociedades. Por essa razão:
Várias formas de diferença e desigualdade
convivemna sociedadecontemporânea. Ao longo
de suas trajetórias de vida, os indivíduos se
identificame se diferenciamdos outros dasmais
diversas maneiras. [...]. Os marcadores sociais
da diferença são sistemas de classificação que
organizam a experiência ao identificar certos
indivíduos com determinadas categorias sociais
(ZAMBONI, 2015, p. 13).
Avançando nesse rumo, especialmente no
respeito à diversidade – assunto que já abordamos
na subseção anterior –, passamos a palavra para
Boaventura deSouza Santos (1997, p. 19), que propõe
uma definição para o termo: multiculturalismo.
O multiculturalismo, tal como eu entendo, é pré-
condição de uma relação equilibrada e mutua‐
mente potenciadora entre a competência global
e a legitimidade local, que constituem os dois
atributos de uma política contra-hegemônica de
direitos humanos no nosso tempo.
Anotações:
73
Santos (1997) destaca a relevância domulticul‐
turalismo para os direitos humanos e, de forma
complementar, trazemos Silva (2003), autora afirma
que:
O termo multiculturalismo teve sua origem nas
lutas iniciais contra o racismo empreendidas
pelos negros norte-americanos. Inicialmente,
surge a partir do reconhecimento da diversidade
de culturas existentes naquele país, mas, no
entanto, preconizava que as diversas culturas
existentes no interior desse território deveriam
ser [...] assimiladas pela cultura dominante
(SILVA, 2003, p. 20).
NavisãodicionarizadadeBechara (2011), vemos
que o termo ganha as seguintes conotações:
Diante dessa definição, destacamos os termos
preconceito e discriminação que, apesar de não ser
o nosso foco, trata-se de um conjunto relevante de
problemáticas tangentes ao assunto geral dos
direitos humanos. Observamos ainda a transdisci‐
plinaridade do termomulticulturalismo:
MULTICULTURALISMO
“Prática de acomodar culturas distintas, numa
única sociedade, sem preconceito ou
discriminação.
Anotações:
74
[...] o multiculturalismo sinaliza uma
abrangência transdisciplinar nas áreas
de educação, história, antropologia,
sociologia, filosofia, economia, política,
artes, literatura, comunicação, etc.
Talvez não pudesse ser diferente. O
mesmo é tributário de outro termo
complexo: cultura (MELO, 2015, p. 1497).
Nessa direção, finalizamos a ideia acerca do
tema da seguinte forma:
O multiculturalismo é o reconhecimento das
diferenças e da individualidade de cada um. [...]
O multiculturalismo democrático defende o
diálogo dentro da multiculturalidade das
sociedades plurais. Ele visa o desenvolvimento
humanoea justiça social. Adiversidade (UNESCO,
2002) é compositora de tais sociedades em uma
dimensão complexa. Imbuídos dessas certifica‐
ções é situado o eixo vertebrador do multicultu‐
ralismo: a diferença. Esta, por sua vez, alocada
em um âmbito de tolerância. O reconhecimento
da diferença implica, portanto, em uma revisão
do tratamento dispensado às identidades nas
democracias tradicionais (MELO, 2015, p. 1497).
Assim, ressalta-se nesta unidade de estudo a
importância dos valores e das atitudes que contri‐
buampara o equilíbrio social e para a superação das
injustiças. Afinal, poderíamos analisar os direitos
humanos e o exercício da cidadania apenas pelo viés
jurídico e legislativo, mas esse não pode ser desas‐
sociado das questões sociais e culturais.
Anotações:
75
U
ni
da
de
3
Videoaula 2
Videoaula 4
Videoaula 1
Videoaula 3
Videoaula5
78
79
DIREITOS BÁSICO
PARA CONVÍVIO EM
SOCIEDADE
Esta unidade temcomo foco a discus‐
são sobre direitos específicos dos cidadãos.
Todos eles, de alguma forma, estão interli‐
gados,mas, para efeito didático, vamos nos
ater a um de cada vez. A Unidade 3 está
organizada em 5 subseções, as quais
receberam os seguintes títulos:
a. Direito à educação;
b. Direito à saúde;
c. Direito aomeio ambiente sadio;
d. Direito à liberdade real;
e. Direito à vida.
Os teóricos que, de forma geral,
sustentam nossas discussões são: Dallari
(2004) eMarinho (2012), através de umolhar
Anotações:
80
histórico-social com problemáticas inerentes à
sociedade brasileira.
Direito à Educação
É comum as pessoas acreditarem que “a
educação é a base de tudo”; “sem educação, não
chegamos a lugar algum”. No entanto, a partir disso
surge o seguinte questionamento: por que a educa‐
ção é importante para a sociedade? Antes de
chegarmos a uma resposta, veremos o que o
dicionário de Bechara (2011) nos diz a respeito do
conceito de Educação.
Além desse conceito, voltamos também para
a definição de Dallari (2004), autor que aborda o
termo de forma mais abrangente e associada a
várias outras questões:
A educação é um processo de aprendizagem e
aperfeiçoamento, pormeio do qual as pessoas se
preparam para a vida. Através da educação
obtém-se o desenvolvimento individual da
pessoa, que aprende a utilizar do modo mais
conveniente sua inteligência e sua memória.
Desse modo, cada ser humano pode receber
conhecimentos obtidos por outros seres
humanos e trabalhar para a obtenção de novos
conhecimentos (DALLARI, 2004, p. 66).
EDUCAÇÃO
“Formação e desenvolvimento do ser humano,
intelectual, moral e fisicamente, visando à
integralidade social, usando os métodos
apropriados e gerenciais em estabelecimento
adequado; ensino, instrução. Civilidade,
lapidação, polidez”.
Anotações:
81
Em referência a uma educação integral,
podemos dizer que o autor considera a relevância
da educação, mediante o desenvolvimento geral do
ser humano. Homens e mulheres teriam, na educa‐
ção, um norte para o aprimoramento das mais
variadas questões cabíveis à atuação emsociedade.
Por isso, o autor complementa que:
A educação torna as pessoas mais preparadas
para a vidamas tambémpara a convivência. Com
efeito, a pessoa mais educada tem maior
facilidade para compreender as demais, para
aceitar as diferenças que existem de indivíduo
para indivíduoepara dar apoio aodesenvolvimen‐
to interior e social das outras pessoas. Por isso,
a educação de cada um interessa a todos
(DALLARI, 2004, p. 66).
Aqui, Dallari (2004) destaca a importância que
odesenvolvimentoeducacional podealcançar, tendo
em vista que a convivência social é uma das princi‐
pais. Em outras palavras, educar-se é, de fato, uma
das bases para quaisquer outras dimensões da vida.
Contudo, vale deixar claro que a educação não se
resume ao ensino e a aprendizagem de disciplinas
escolares. Ela deve ser omnilateral, no sentido de
totalidade e desenvolvimento multidimensional.
Tendo consciência dessa abrangência, é
possível traçarmos osmotivos pelos quais a educa‐
ção é tão importante para a sociedade. Entretanto,
não se pode esquecer do alcance que ela possui em
outros conjuntos de coletividade, que não seja a
escola. Por isso, o autor orienta que:
Anotações:
82
[...] a educaçãodeumapessoa começana família
ou no meio social em que a criança nasceu e
passa a viver. Essa é a chamada educação
informal, que é dada fora da escola, tanto à
criança quanto ao adolescente e ao adulto. Ao
lado dessa, existe, ou pelo menos deve existir, a
educação formal, que é dada na escola. Não se
pode dizer que uma seja mais importante que a
outra, pois na realidade ambas podem ter
influência decisiva na vida de qualquer pessoa
(DALLARI, 2004, p. 66).
Com base nisso, podemos dizer que a educa‐
ção, em espaços formais e informais de ensino e
convívio, é uma das maneiras de determinar os
aspectos mais necessários ao desenvolvimento do
cidadão. Assim, odireito à educaçãoéessencial para
os seres humanos.
Por todas essas razões, tornou-se praticamente
indispensável a boa educação escolar, a fim de
que a pessoa possa desenvolver sua personalida‐
de e esteja bem preparada para a vida social. É
por isso que se define o direito à educação, tanto
na família quanto na escola, como um direito
fundamental da pessoa humana (DALLARI, 2004,
p. 69).
Dentro dessa ótica, é preciso ainda compreen‐
der o que é uma educação de qualidade, visto que
apenas ter o acesso à escola não é o suficiente para
determinar o direito à educação.
Anotações:
83
Quando se fala em boa educação e bom preparo,
é preciso ter cuidado para que isso não seja
interpretado como se o processo educacional
fosse o que o notável educador Paulo Freire
denominou educação domesticadora. Educar
beméestimular o uso da inteligência e da crítica,
é reconhecer em cada criança uma pessoa
humana, essencialmente livre e capaz de
raciocinar, necessitada de receber informações
sobre as conquistas anteriores da inteligência
humana e sobre a melhor forma de utilização de
tais informações para a busca de novos conheci‐
mentos (DALLARI, 2004, p. 70).
Verifica-se, então, que a educação de qualida‐
de é um fundamento basilar para todos,mas precisa
ser alcançada através de determinadas característi‐
cas para garantir a efetividade desse direito, visto
que educar-se é uma ação constante e abrangente.
A educação deve ser prioridade de todos os
governos, pois através dela as pessoas se
aperfeiçoameobtêmelementos para seremmais
úteis à coletividade. Dando-se bastante apoio à
educação, muitos problemas desaparecerão,
porque as pessoas estarãomais preparadas para
a convivência, e haverá maior participação no
estudo e na decisão dos assuntos de interesse
comum. É necessário e justo que os recursos da
sociedade sejamutilizados para atender a todos,
de modo igual, o direito à educação (DALLARI,
2004, p. 71).
Anotações:
84
Dallari (2004) observa que a educaçãopode ser
o pressuposto para a diminuição dos inúmeros
problemas sociais que acometem a sociedade. Ter
direito a uma boa educação deveria ser encarado
como uma prioridade. Sabemos, todavia, que em
uma sociedade existem outras tantas prioridades,
por isso, são direitos humanos fundamentais para a
existência humana. Por consequência deste senso,
passaremos a analisar também a importância do
direito à saúde.
Direito à saúde
Iniciamos esta seção a partir de vários recor‐
tes direcionados ao que se entende por saúde e de
como ela se configura como um direito para os
cidadãos. Para tanto, começamos com a seguinte
perspectiva:
O direito à saúde é umdos direitos fundamentais
da pessoa humana e como tal é assegurado na
Constituição Brasileira. É importante assinalar
que o direito à saúde é muito mais amplo do que
a assistência médica, significando “o estado de
completo bem-estar físico, psíquico e social”,
devendo ser assegurado com essa extensão
(DALLARI, 2004, p. 73).
De início, já verificamos que a saúde não se
limita à noção de “não estar doente”, mas a um
sentido mais amplo do que este do senso comum.
Para isso, apresentaremos através da fala de Dallari
(2004) a reiteração dessa afirmativa aqui posta:
Anotações:
85
Quando se fala em saúde, a primeira ideia das
pessoas é que se tem saúde ou querer que o
governo garanta a saúde porquemuitas doenças
acontecem por motivos que não dependem da
vontade das pessoas das ações dos governos e
por isso não podemser evitadas. Para que os que
pensam desse modo parece estranho falar em
direito à saúde. Será possível que uma pessoa
possa ter o direito de não [...] ter bronquite, de
não contrair tuberculose ou sarampo? (DALLARI,
2004, p. 73).
Esses exemplos do autor nos mostram que a
saúde, como umdireito, não é algo subjetivo. Isto é,
cadaumdenósdeve receber asdevidas assistências
para o nosso bem-estar, o que não significa que
vamos ser impedidos de ficar doentes. Trata-se,
portanto, de um direito de garantia do acesso aos
procedimentos e formas de prevenção ou tratamen‐
to. Com isso:[...] para que se diga que uma pessoa tem saúde
não basta que ela não sofra de alguma doença.
Uma das organizações mais importantes do
mundo, especializada emassuntos de saúde, que
é a Organização Mundial de Saúde, diz que não é
suficiente a ausência de doenças. Para que se
diga que umapessoa temsaúde é preciso que ela
goze de completo bem-estar físico, mental e
social. Isso quer dizer que além de estar
fisicamente bem, sem apresentar sinal de
doença, a pessoa deve estar com a cabeça
tranquila, podendo pensar normalmente e
relacionar-se com outras pessoas sem qualquer
problema (DALLARI, 2004, p. 73).
Anotações:
86
Tal abordagem citada pelo autor, revela que a
complexidade do direito à saúde é grande, uma vez
que ela envolve inúmeros fatores que podem
contribuir com o bem-estar ou não de uma pessoa.
Isso vai desde fornecer estrutura adequada em
hospitais e até assegurar medidas de combate e
prevenção a doenças.
O direito à saúde inclui a possibilidade de boa
alimentação. O corpo humano necessita de
alimentos para se manter ativo e a fim de que a
pessoa tenha energia suficiente para desenvolver
suas atividades. Antesmesmode nascer, quando
ainda está no ventre damãe, a criança necessita
de alimentos, que só receberá se a mãe for bem
alimentada (DALLARI, 2004, p. 73).
Combase nisso, nos apegamos a outra fala de
Dallari, segundo a qual: “[...] o ideal é que as pessoas
não cheguemaficar doentes ou tenhamummínimo
de doenças, o que é perfeitamente possível se todos
tiveremcondições de vida saudáveis, tendo assegu‐
rado seu direito à saúde [...]” (DALLARI, 2004, p. 75).
Pensando assim, vemos que o direito à saúde
torna-se uma pauta de interferência dos governan‐
tes, no sentido de organizar recursos e formas de
atendimento à população, procurando manter
sempre a igualdade entre as pessoas, ou seja, sem
distinguir as formas de acesso ao que já citamos
anteriormente.
Anotações:
87
[...] é necessário que o governo trabalhe
permanentemente procurando evitar doenças,
garantindo boas condições de vida para todos,
mas também dando educação ao povo sobre os
cuidados de saúde, realizando vacinação,
cuidando da qualidade da água fornecida à
população, construindo redes de esgotos e
eliminando todos os focos de doenças. Essas
providências são necessárias para que seja
assegurada a toda a população o direito à saúde
(DALLARI, 2004, p. 75).
Dallari (2004) complementa ainda que:
Comoficamuito claro, o direito à saúde é umdos
direitos fundamentais dos seres humanos,
porque semesse direito ninguémconsegue viver
combem-estar e realizar tudo o que é necessário
para que uma pessoa seja feliz. Além disso, a
pessoa sem saúde não pode ajudar as outras
pessoas a conquistarem o seu bem-estar. Por
todos esses motivos, uma sociedade só poderá
ser considerada justa se todas as pessoas, sem
nenhuma exceção, tiverem efetivamente
assegurado seu direito à saúde desde o primeiro
instante de vida. E no direito à saúde deve estar
compreendido tudooque for necessário para que
a pessoa goze de completo bem-estar físico,
mental e social (DALLARI, 2004, p. 78).
Dentro dessamesma linha, podemos articular
outro tipo de direito que, de certo modo, envolve a
saúde dos sujeitos de forma individual,mas também
extrapola isso para um senso coletivo muito maior.
Anotações:
88
Direito aomeio ambiente sadio
Aparentemente, esse assunto pode causar
estranhamento para alguns, afinal de contas, como
teríamos direito a algo tão abrangente? De que
forma poderíamos nos imaginar reivindicando o
direito a ter um meio ambiente adequado ao nosso
convívio? Antes de iniciarmos as respostas a estes
questionamentos, passaremos a compreender o
conceito de meio ambiente, partindo da visão
dicionarizada, comofizemos emoutras subseções:
Combase nessas linhas definidoras, percebe‐
mos inicialmente uma aproximação tão explícita
entre elas, que é possível afirmar a existência de um
grau de redundância. De modo que, ao utilizar o
termo “ambiente”, já poderíamos supor o próprio
“meio ambiente”. Entretanto, não entraremos no
mérito dessaquestão, destacandoaexpressão “meio
MEIO:
“Ambiente onde se vive ou trabalha [...]”.
MEIO AMBIENTE:
: “[...] Conjunto de fatores físicos e biológicos
que rodeiam os seres vivos”.
AMBIENTE:
: “Que envolve a vida dos seres; o meio em que
transcorre a vida; meio ambiente; soma das
condições circundantes, físicas, morais ou
emotivas [...]”.
Anotações:
89
ambiente” por estar relacionada aos documentos e
autores que a debatem.
Assim, de acordo coma lei n.º 6.938/1981,meio
ambienteé “o conjuntodecondições, leis, influências
e interaçõesdeordem física, química ebiológica que
permite, abriga e rege a vida, em todas as suas
formas” (BRASIL, 1981). A partir disso, buscamos em
Dallari (2004) as percepções do meio ambiente
equilibrado como um direito:
ODireito aomeio ambiente sadio já está expresso
emmuitas Constituições domundo contemporâ‐
neo. Já existe o reconhecimento de que o meio
ambiente é fundamental para a qualidade de vida
dos seres humanos. Por isso, não se admite que
a busca desenfreada de riquezas, o egoísmo e a
inconsciência de alguns levem a práticas que
degradem o meio ambiente e destruam a vida
(DALLARI, 2004, p. 79).
O autor reconhece a garantia de um ambiente
sadio para os seres humanos, o que está previsto
constitucionalmente nas legislações de muitos
países. Além disso, o autor problematiza a questão
da degradação, o que nos leva a lembrar da poluição,
retratada como:
[...] a degradação da qualidade ambiental
resultante de atividade que, direta ou indireta‐
mente: a) prejudique a saúde, a segurança e o
bem-estar da população; b) crie condições
adversas às atividades sociais e econômicas; c)
afete desfavoravelmente a biota; d) afete
condições estéticas ou sanitárias do meio
ambiente; e) lance matérias ou energia em
desacordo comos padrões ambientais estabele‐
cidos (BRASIL, 1981).
Anotações:
90
O fato de situarmos as problemáticas de uma
condição de meio ambiente sadio tem a ver com
fatores de coletividade, uma vez que as condições
ambientais atingem a todos, inclusive às futuras
gerações da espécie humana.
É inegável que questões relacionadas à partici‐
pação e à cidadania encontram-se no cerne da
questão ambiental, evidenciando que a natureza
tornou-se, agora, antes de tudo, um tema
visceralmente e necessariamente político. Pode-
se afirmar que a relação é centrada em dois
aspectos: em primeiro momento, a proteção do
meio ambiente como forma de se conseguir o
cumprimento dos direitos humanos, vez que o
entorno ambiental, se lesado, contribui indireta‐
mente para a infração de direitos reconhecidos
internacionalmente, como o direito à vida, à
saúde, ao bem-estar, ao desenvolvimento
sustentável (MARINHO, 2012, p. 103).
VOCABULÁRIO:
Apalavrabiota, queaparecenadefinição, é termo
técnico e significa o conjunto de seres animais e
vegetais existentes em determinada região.
Anotações:
91
Dessamaneira, o autor nos leva aenxergar que:
[...] a interligação existente entre esses direitos,
formando o que se pode chamar de direitos
humanos ambientais, é evidente e já foi declarada
em normas positivadas de muitos países,
ratificando ser direito da pessoa humana e das
coletividades o de viver em ambiente sadio e
equilibrado (MARINHO, 2012, p. 103).
Não obstante, é fundamental que a preocupa‐
ção com a preservação do meio ambiente seja uma
tarefa constante, tendo em vista o alerta científico
para as consequências negativas que já se tornaram
realidade.
As preocupações com a pureza ambiental como
algo fundamental e permanente para a humani‐
dade tornaram-se explícitas na década de 60. Foi
demonstrada, então, a conjugação de vários
fatores que provocam o desequilíbrio dos
elementos da natureza e criam o risco de
exaustão de recursos naturais. [...] inclui-se a
ocorrência de altos níveis de poluição, a interfe‐
rência humana nas populações e a consequente
intensificação do uso de combustíveis poluido‐
res, além de diversasmodalidades de destruição
dos recursos naturais (DALLARI, 2004, p. 80).
Anotações:92
Apesar de ser um direito, o meio ambiente
adequado para todos é também um dever, um
compromisso cujo status é tão elevado que os
organismos internacionais chegam a se reunir para
traçar estratégias de preservação daquilo que é
essencial para nós enquanto espécie. Portanto:
O meio ambiente sadio é necessidade essencial
da pessoa humana, em qualquer tempo e em
qualquer lugar. Por essemotivo, é reconhecido e
proclamado como direito humano fundamental,
devendo estar sempre entre as prioridades dos
governos e não podendo ser prejudicado para
satisfação de interesses econômicos, políticos
ou de qualquer outra natureza. A pessoa humana
éprioridadeecomela seusdireitos fundamentais
(DALLARI, 2004, p. 82).
Diante dessas acepções gerais, passaremos a
outro direito fundamental, sendo ele um assunto
bastante discutido por envolver determinadas
polêmicas e divergências entre os países.
Direito à liberdade real
Àpriori, o dicionário Bechara (2011) nos orienta
numsentido amplo do termoLiberdade, devendo ser
visto da seguinte forma:
LIBERDADE
“Autonomia de ação; independência; qualifica‐
ção de quem é livre”.
Anotações:
93
Essa concepção literal não revela ainda a forma
como o termo vai ser tratado como um direito de
toda e qualquer pessoa. Logo, recorremos, neste
momento, à contextualização de Dallari (2004),
quando este afirma que:
ADeclaraçãoUniversal dosDireitosHumanos diz,
no artigo 1º, que todos os seres humanos nascem
livres e iguais emdignidade e direitos. Não basta,
porém, essa declaração solene e sua reprodução
nas Constituições e nas leis, semilhões de seres
humanos nascem e sobrevivem sem a possibili‐
dade de agirem como pessoas livres (DALLARI,
2004, p. 42).
Tal perspectiva demonstra que a liberdade é
algo natural do ser humano, visto que todos já
nascem livres. Contudo, pelas questões levantadas
no texto de Dallari (2004), a liberdade é apropriada
dedeterminados grupos oupessoas específicas, por
conta de fatores sociais, políticos e econômicos, o
quenãodeveria ocorrer. Ainda segundooautor, “sem
liberdade, a pessoa humana não está completa”
(DALLARI, 2004, p. 42). Por essa razão:
O direito de ser livre deve existir, portanto, no
planodaconsciência.Ninguémé livre senãopode
fazer sua própria escolha emmatéria de religião,
de política ou sobre aquilo que vai ou não
acreditar, ou se é forçado a esconder seus
sentimentosouagostar doqueosoutros gostam,
contra sua vontade. Assim sendo, a liberdade de
pensamento, deopiniãoedesentimento fazparte
do direito à liberdade, que deve ser assegurado a
todos os seres humanos (DALLARI, 2004, p. 43).
Anotações:
94
É importante, todavia, esclarecer que a
liberdade não pode ser um direito distorcido para
justificar pensamento, posicionamentos e ações
que ferem os outros princípios dos direitos funda‐
mentaisdoserhumano.Fora isso, todos têmodireito
de usufruir de suas escolhas e gozar dos direitos que
lhe são cabíveis. Por isso, destacamos que:
Para que uma pessoa tenha o direito de ser livre,
é necessário que possa escolher o seu modo de
vida e planejar o seu futuro. É indispensável,
também, que possa escolher uma profissão de
acordo com seu gosto e sua capacidade, que
possa constituir uma família e viver com ela, que
possa, enfim, tomar suas próprias decisões sobre
todos os assuntos de seu interesse (DALLARI,
2004, p. 43).
De formamais taxativa, o autor nos alerta ainda
para aquilo que não pode ocorrer dentro desse
campo de pensamento.
Na realidade, o que é prejudicial é tirar das
pessoasodireito de serem livres, pois a liberdade,
sendo uma exigência da própria natureza
humana, não acarreta prejuízos ou maldades. O
que muitas vezes tem trazido prejuízo é a falsa
liberdade, é o abuso que certas pessoas
cometem com a desculpa de que podem fazer
tudo (DALLARI, 2004, p. 43).
Desta forma, ele retoma o pensamento sobre
o qual falamos anteriormente, denominando-o de
“falsa liberdade”. Assim:
Anotações:
95
Quando alguém vai exercer o direito de liberdade
não pode esquecer que todas as pessoas
humanas têm o mesmo direito. [...] Por esse
motivo, é errado dizer que cada umdeve procurar
para si omáximo de liberdade, sem se preocupar
com a liberdade dos outros. Mas é igualmente
errado dizer que a liberdade de cada um termina
onde começa a do outro, pois todos exercem
juntos os seus direitos de liberdade, e a liberdade
de cada um está entrelaçada com a dos demais
seres humanos (DALLARI, 2004, p. 43-44).
Dessa maneira, a liberdade precisa ser um
direito equilibrado dentro das condições morais
estabelecidas dentro de uma sociedade. É como se
ela estivesse apoiada em um campo da ética, mas
também necessitasse da moral que está por detrás
dela.
É preciso, finalmente, que o direito à liberdade
não seja um faz-de-conta, que, ao afirmar que as
pessoas têm o direito de agir com liberdade,
sejam assegurados os meios para que essas
pessoas possam ser livres. [...] A liberdade tem
sido e poderá ser ofuscada muitas vezes, mas
nunca morreu e não poderá morrer, porque é
inerente à condição humana (DALLARI, 2004, p.
45).
Com esse pensamento, passaremos a outro
direito essencial para os estudos que estamos
traçando até aqui. Esse talvez seja o que mais
engloba os demais, por isso, caminharemos para
compor a última subseção desta unidade.
Anotações:
96
Direito à vida
O assunto abordado nesta subseção poderia
facilmente ser posto no início deste material.
Contudo, optamos por organizar os fundamentos e
direitos anteriorespara encontrarmos reflexãoneste
último tópico. Nesse âmbito, nos apoiamos em
Dallari (2004) para dizer que:
A vida é o primeiro bem da pessoa humana, pois,
sem a garantia da vida, a própria pessoa
desaparece e nenhum direito poderá existir.
Garantir o direito à vida não é apenas impedir que
umas pessoas matem outras, mas exige o
respeito à integralidade da pessoa e a possibili‐
dade de sobrevivência digna e dedesenvolvimen‐
to individual (DALLARI, 2004, p. 32).
Com essa noção, observamos que os demais
direitos visto aqui, comoo direito à saúde e o direito
à liberdade, podem estar associados ao direito à
vida, já que não se trata apenas de “estar vivo”, no
sentido fisiológico e biológico. No entanto, se
começarmos por este sentido veremos que:
Não são os homens que criam a vida. Nomáximo
os seres humanos são capazes de perceber que
em determinadas condições, quando se juntam
certos elementos, a vida começa a existir. Os
cientistas podem até juntar num vidrinho, numa
proveta, os elementos que gerama vida,mas não
conseguem criar esses elementos. Na verdade,
nenhum homem conseguiu inventar ou criar a
vida, dominar o começo da vida. E, como não é
capaz de criar a vida de umser humano, nenhuma
pessoa deve ter o direito de matar o outro ser
humano, de fazer acabar a vida de outra pessoa
(DALLARI, 2004, p. 32-33).
Anotações:
97
Além disso, quando tratamos desse campo do
direito à vida, precisamos lembrar também que não
se trata de uma dimensão simples de ser debatida
ou garantida, mas é fundamental que seja buscada
constantemente.
É preciso lembrar que a vida é um bem de todas
as pessoas, de todas as idades e de todas as
partes do mundo. Nenhuma vida humana é
diferente da outra, nenhuma vale mais nem
menos do que outra. E nenhum bem humano é
superior à vida. [...] Quando uma pessoa mata
outra por ódio, por vingança ou para obter algum
proveito, está cometendo um ato imoral, está
ofendendo o bem maior, a vida, a que nenhum
outro se iguala (DALLARI, 2004, p. 33).
O tema se torna polêmico quando o direito à
vida passa a ser visto sob o ponto de vista dos atos
criminosos cometidos pelas pessoas. Assim, Dallari
(2004) aborda o seguinte:
Uma questão muito importante, que precisa ser
lembrada porque está diretamente relacionada
com o direito à vida, é a existência de pena de
morte em muitos países. Antes de tudo, a pena
demorte é contraditória, pois, ao aplicá-la contra
alguém que não respeitou os direitos, o Estado
também está desrespeitando um direito
fundamental, que é o direito à vida. A pena de
morte é imoral, pois para sua aplicação o PoderPúblico deve contratar alguém para matar, ou
seja, paga uma pessoa, usando dinheiro público,
para cometer um assassinato legal (DALLARI,
2004, p. 34).
Anotações:
98
Esta questão é apresentada aqui sob o viés
garantidor dos direitos humanos e merece real
atenção. Contudo, exige-se um aprofundamento
muito maior, o que demandaria outro espaço
construtivode texto. Desta forma, gera-sea seguinte
reflexão para que registrada aqui: o direito de retirar
a vida de outra pessoa é uma forma correta de
reparar o que foi cometido?
Adiante, passamos a um contexto que, atual‐
mente, émuito importantedeserquestionado, afinal,
o mundo observa os conflitos entre dois países
europeus. Com base nisso, buscamos na fala do
autor aqui estudado a fala:
A guerra é outra forma extremamente imoral de
atentado contra a vida humana. [...] A guerra é
imoral porque sacrifica vidas humanas com o
objetivo de satisfazer interesses mesquinhos.
Além disso tudo, a guerra é imoral porque
consome, no comércio da morte, quantias
elevadíssimas que deveriam ser utilizadas para a
promoção da vida (DALLARI, 2004, p. 34).
Vemos, a partir disso, como a vida dos seres
humanos não está totalmente assegurada, seja no
nível micro ou macro, tendo em vista os inúmeros
contextos que isso envolve.
Anotações:
99
O respeito à vida de uma pessoa não significa
apenas não matar essa pessoa com violência,
mas tambémdar a ela a garantia de que todas as
suas necessidades fundamentais serão atendi‐
das. Toda pessoa temnecessidadesmateriais, as
necessidades do corpo, que, se não forem
plenamente atendidas, levarão àmorte ou a uma
vida incompleta, que não se realiza totalmente e
que já é um começo de morte. Todos os seres
humanos têm o direito de exigir que respeitem
sua vida. E só existe respeito quando a vida, além
de ser mantida, pode ser vivida com dignidade
(DALLARI, 2004, p. 36).
Encerrando esta unidade, destacamos a
relevância das abordagens reflexivas que cada uma
das subseções nos trouxe. Assim, há a presença de
conceitos edefiniçõesquepodemgerar importantes
ferramentas de diálogo acerca do assunto. A última
unidade, por sua vez, caminha num sentido mais
restrito aos documentos, mas vamos procurar
articulações com tudo aquilo que foi mostrado no
decorrer de todas as outras unidades.
U
ni
da
de
4
Videoaula 2
Videoaula 4
Videoaula 1
Videoaula 3
Videoaula 5
102
103
DECLARAÇÃO
UNIVERSAL DOS
DIREITOS HUMANOS
E A CONSTITUIÇÃO
BRASILEIRA
Esta Unidade tem como objetivo
apresentar dois documentos importantes
para a compreensão dos direitos humanos,
no sentido geral, e como ele está presente
na legislação brasileira. Trata-se, portanto,
da “Declaração Universal dos Direitos
Humanos” e da “Constituição Federal
Brasileira”.
Declaração Universal dos Direitos
Humanos
Nesta subseção, vamos analisar o
preâmbulo da Declaração Universal dos
DireitosHumanos. Para tanto, apresentare‐
mosalguns recortesdessedocumento, com
o intuito de descrevê-los e contextualizá-
los.
Anotações:
104
Primeiramente, vale dizer que ela foi “adotada
e proclamada pela Assembleia Geral das Nações
Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro de
1948” (DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS
HUMANOS, 1948). Nesse período, a Declaração
considerou que: “o reconhecimento da dignidade
inerente a todos os membros da família humana e
de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento
da liberdade, da justiça e da paz nomundo” (DECLA‐
RAÇÃOUNIVERSALDOSDIREITOSHUMANOS, 1948).
Nesse caso, vemos um dos princípios já estudado
em unidades anteriores: o princípio da dignidade
humana, que tambémse relaciona a outro trecho da
Declaração:
Considerando que o desprezo e o desrespeito
pelos direitos humanos resultaram em atos
bárbaros que ultrajaram a consciência da
humanidade e que o advento de um mundo em
que mulheres e homens gozem de liberdade de
palavra, de crença e da liberdade de viverem a
salvo do temor e da necessidade foi proclamado
como a mais alta aspiração do ser humano
comum (DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS
DIREITOS HUMANOS, 1948).
Vemos, portanto, uma justificativa ampla e
problematizadora, sobretudo no que tange ao
reconhecimento dos aspectos negativos históricos
pelosquais a humanidade já havia passado. Emoutro
momentodaDeclaração,observamosocompromisso
assumido:
105
Anotações:[...] Considerando que os povos das Nações
Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos
fundamentais do ser humano, na dignidade e no
valor dapessoahumanaena igualdadededireitos
do homemedamulher e que decidirampromover
o progresso social e melhores condições de vida
emuma liberdademais ampla [...] (DECLARAÇÃO
UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS, 1948).
Verificamos ainda outro complemento desse
compromisso firmado, demonstrando que não se
trata de um documento apenas com princípios
recomendados, mas de um consenso legal e de
extrema importância para as relaçõesmacro emicro
das sociedades ao redor do mundo: “Considerando
que os Países-Membros se comprometeram a
promover, em cooperação comasNações Unidas, o
respeito universal aos direitos e liberdades funda‐
mentais do ser humano e a observância desses
direitos e liberdades” (DECLARAÇÃO UNIVERSAL
DOS DIREITOS HUMANOS, 1948).
Ao concluir o texto dopreâmbulo, o documento
é enfático no direcionamento de como os Direitos
Humanos precisamser trabalhados nas sociedades:
[...] o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão
da sociedade tendo sempre em mente esta
Declaração, esforce-se, por meio do ensino e da
educação, por promover o respeito a esses
direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas
progressivas de caráter nacional e internacional,
por assegurar o seu reconhecimento e a sua
observância universais e efetivos, tanto entre os
povosdosprópriosPaíses-Membrosquanto entre
os povos dos territórios sob sua jurisdição
(DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS
HUMANOS, 1948).
106
Compreende-se a educação como um dos
pilares para a efetividade do que está posto na
Declaração. Assim, passamos aos artigos que estão
presentes no documento e que demonstram
articulação com o trabalhamos no decorrer das
outras Unidades de estudo deste material.
Declaração Universal dos Direitos
Humanos: do art. 1 ao art. 15
Nesta subseção, vamoselencar os 15 primeiros
artigos da Declaração, com o intuito de traçar uma
argumentação posterior. Sendo assim, elaborou-se
um quadro geral com os respectivos textos, em
conformidade total comaDeclaração aqui estudada.
Sigamos ao quadro 3:
107
Quadro 03 - Declaração Universal dos Direitos
Humanos: do Art. 1 ao Art. 15
Fonte: Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).
Artigo Texto na íntegra
Artigo 1 Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de
razãoe consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.
Artigo 2
1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos
nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua,
religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza,
nascimento, ou qualquer outra condição.
2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou
internacional do paísou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território
independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de
soberania.
Artigo 3 Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4 Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos
serão proibidos em todas as suas formas.
Artigo 5 Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou
degradante.
Artigo 6 Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa
perante a lei.
Artigo 7 Todos são iguais perante a lei e têmdireito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei.
Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente
Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.Artigo 8 Todo ser humano tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes remédio
efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela
constituição ou pela lei.
Artigo 9 Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.
Artigo 10 Todo ser humano temdireito, emplena igualdade, a uma justa e pública audiência por parte
de um tribunal independente e imparcial, para decidir seus direitos e deveres
ou fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.
Artigo 11 1.Todo ser humano acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente
até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo coma lei, em julgamento público
no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não
constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Também não será imposta
pena mais forte de que aquela que, no momento da prática, era aplicável aoato delituoso.
Artigo 12 Ninguém será sujeito à interferência na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na
sua correspondência, nem a ataque à sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito
à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.
Artigo 13 1. Todo ser humano temdireito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras
de cada Estado.
2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio e a esse
regressar.
Artigo 14 1. Todo ser humano, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em
outros países.
2. Esse direito nãopode ser invocado emcaso deperseguição legitimamente motivada por
crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações
Unidas.
Artigo 15 1. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de
nacionalidade.
Anotações:
108
Como podemos perceber, os artigos aqui
demonstrados caminham num sentido orientador
acerca do acordo firmado pelos países que assina‐
ram a Carta. É possível destacar alguns princípios
fundamentais para homens e mulheres, tais como:
a. Liberdade e equidade: esses estão
enfatizados logo no início dos textos
presentes nos artigosdadeclaração. Trata-
se de assegurar e firmar a clareza daquilo
que se pretende com a declaração. Desta‐
ca-se, neste caso, os artigos: 1, 2, 7, 10 e 13,
o que não significa que não podemos
enxergá-los a partir dos demais, tendo em
vista a liberdade e a equidade serem
dimensões amplas demais para se limita‐
rem em apenas algumas diretrizes.
b. Direito à vida e à segurança: nos artigos é
possível destacar as orientações taxativas
que se deve ter com relação ao bem-estar
individual e coletivo, mas também de
evitar algumasaçõesque feremdiretamen‐
te o princípio da vida, como é o caso da
tortura, por exemplo. Cabe destacar que
esse direito deve ser assegurado em
qualquer esfera e instituição, sobretudo
quando falamos em organizações com o
poder de cuidar da segurança das pessoas
civis.
109
Anotações:c. Exercício da cidadania: aqui, observamos
a cidadania sobre uma perspectiva de
pertencimento a um grupo (embora
saibamos que não se limita a isso). Nesse
contexto, o Art. 15 cumpre esse papel de
deixar claro que todos os homens e
mulheres têmdireito a uma nacionalidade.
Além disso, é também direito o fato de
alguém decidir mudar sua nacionalidade,
com respeito, é claro, aos trâmites legais
para tal situação.
Diante disso, passamos à subunidade 4.3 com
a intenção de continuar os demais artigos que
compõem a configuração da Declaração Universal
dos Direitos Humanos.
Declaração Universal dos Direitos
Humanos: do art. 16 ao art. 30
Seguimos aqui comaexposição dos artigos da
Declaração na íntegra, a fim de demonstrar o texto
com todas as suas descrições e orientações. Assim,
passamos ao quadro 04:
110
Quadro 04 - Declaração Universal dos Direitos
Humanos: do Art. 16 ao Art. 30
Artigo Texto na íntegra
Artigo 16 1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça,
nacionalidade ou religião, têmo direito de contrair matrimônio e fundar uma
família. Gozam de iguais direitos em relação aocasamento, sua duração e sua
dissolução.
2. Ocasamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos
nubentes.
3. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e temdireito à
proteção da sociedade e do Estado.
Artigo 17 1. Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.
Artigo 18 Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião;
este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de
manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em
público ou em particular.
Artigo 19 Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; est e direito
inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e
transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de
fronteiras.
Artigo 20 1. Todo ser humano tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica.
2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
Artigo 21 1. Todo ser humano tem o direito de tomar parte no governo de seu país
diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.
2. Todo ser humano tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.
3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; essa vontade será
expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto
secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto.
Artigo 22 Todo ser humano, como membro da sociedade, tem direito à segurança social, à
realização pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com
a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e
culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua
personalidade.
Artigo 23 1. Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a
condições justas e favoráveis de trabalhoe à proteção contra o desemprego.
2. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por
igual trabalho.
3. Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e
satisfatória que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência
compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário,
outros meios de proteção social.
4. Todo ser humano tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para
proteção de seus interesses.
Artigo 24 Todo ser humano tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das
horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas.
2. Amaternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais.
Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarãoda mesma
proteção social.
Artigo 25 1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à
sua família saúde, bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação,
cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis e direito à segurança em
caso de desemprego, doença invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda
dos meios de subsistência emcircunstâncias fora de seu controle.
111
Fonte: Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).
Verificamos que nos artigos expostos no
quadro as deliberações presentes referem-se a
outras dimensões já discutidas neste material,
ressaltando a relevância de pressupostos basilares
para a convivência em equilíbrio e harmonia social.
Para tanto, elencamos alguns deles como intuito de
enfatizar o propósito do Documento.
Artigo 26 1. Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos
nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A
instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução
superior,esta baseada no mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da
personalidade humana edo fortalecimento do respeito pelos direitos do ser
humano e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a
compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou
religiosos e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção
da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será
ministrada a seus filhos.
Artigo 27 1. Todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da
comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de seus
benefícios.
2. Todo ser humano tem direito à proteção dos interesses morais e materiais
decorrentes de qualquer produção científica literária ou artística da qual seja
autor.
Artigo 28 Todo ser humano tem direito a uma ordem social e internacional em que os
direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser
plenamente realizados.
Artigo 29 1. Todo ser humano tem deveres para coma comunidade, na qual o livre e pleno
desenvolvimento de sua personalidade é possível.
2. Noexercício de seus direitos e liberdades, todo ser humano estará sujeito
apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de
assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de
outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-
estar de uma sociedade democrática.
3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos
contrariamente aos objetivos e princípios das Nações Unidas.
Artigo 30 Nenhuma disposição da presente Declaraçãopode ser interpretada como o
reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer
qualquer atividade ou praticar qualquer atodestinado à destruição de quaisquer
dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.
Anotações:
112
a. liberdade de pensamento, de opinião e
expressão: trata-se de uma categorização
do princípio da liberdade, a qual ultrapassa
o direito de ir e vir. Nesse caso, porém, não
podemos confundir com o direito de
ofender o próximo ou de manifestar ideias
que vão contra outros direitos. Nos últimos
anos, esse campo de direitos vem sendo
bastante discutido.
b. Direito ao trabalho e ao bem-estar básico
individual e de sua família: trata-se de um
direito que pode ser alcançado com o
esforço individual,mas tambémprecisa de
uma contrapartida do Estado através de
políticas econômicas e sociais para que,
então, as arestas da desigualdade sejam
aparadas.
c. Direito à instrução/educação e cultura: tal
configuração precisa ser assegurada no
campo formal e informal do ensino, além
de interferência do Estado. Essa dimensão
deve ser garantida ainda nos primeiros
anos de vida dos seres humanos, pois
quanto maior o grau de contato com a
educação,maiores as chances de o sujeito
desenvolver os valores necessários à vida
em sociedade, como já vimos na Unidade
2:
a. O respeito;
b. A honestidade;
c. A humildade;
d. A empatia;
e. O senso de justiça;
f. A solidariedade;
g. A ética.
113
Diante disso, caminharemos para as discus‐
sões relativas a outro documento de suma impor‐
tância,mas dessa vez voltado à realidade brasileira.
Direitos Humanos e Cidadania na
Constituição Federal Brasileira: parte 1
Esta subseção é direcionada a analisar alguns
pontos específicos daCF brasileira, como intuito de
identificar osmodos comoos direitos fundamentais
da pessoa humana se fazem presentes. Além disso,
verifica-se ainda a maneira como a cidadania pode
ser exercida nesse documento. Para isso, elabora‐
mosumquadrogeral comos referidos recortes, para
posteriormente argumentarmos sobre as questões
demaior relevância dentro desse cenário de estudo.
114
Quadro 05 – Recortes da CF em referência à
garantia de direitos humanos
Fonte: Constituição Federal Brasileira (1988).
Identificação Recortesdo texto
TÍTULO I
Dos PrincípiosFundamentais
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela
união indissolúvel dos Estados e Municípios e do
Distrito Federal, constitui-se emEstado Democrático
deDireito e temcomo fundamentos:
I – a soberania;
II – a cidadania;
III – a dignidadeda pessoahumana;
IV – os valores sociaisdo trabalhoe da livre iniciativa;
V – o pluralismopolítico.
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o
exerce por meio de representantes eleitos ou
diretamente,nos termosdestaConstituição.
TÍTULO II
Dos Direitos eGarantias
Fundamentais
CAPÍTULO I
Dos DireitoseDeveres
IndividuaiseColetivos
Art. 5º Todossão iguais perante a lei, semdistinção de
qualquernatureza,garantindo-se aosbrasileirose aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do
direito à vida, à liberdade,à igualdade,à segurançae à
propriedade,nos termosseguintes:
I – homens e mulheres são iguais em direitos e
obrigações,nos termosdestaConstituição;
II – ninguémserá obrigado a fazer ou deixar de fazer
alguma coisa senãoemvirtudede lei;
III – ninguém será submetido a tortura nem a
tratamentodesumanooudegradante;
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo
vedadoo anonimato;
[...]
VI – é inviolável a liberdadedeconsciênciaedecrença,
sendo assegurado o livre exercício dos cultos
religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos
locais deculto e a suas liturgias;
[...]
IX – é livre a expressão da atividade intelectual,
artística, científica e de comunicação,
independentementedecensuraou licença;
[...]
115
Anotações:Nas passagens destacadas no quadro xx, é
possível identificar, pelomenos 6 pontos principais:
a. O fundamento da cidadania;
b. A dignidade da pessoa humana;
c. O direito à vida;
d. O direito à liberdade;
e. O direito à igualdade;
f. O direito à segurança.
Esses, por sua vez, foram discutidos no
decorrer das unidades anteriores, nas quais foi
possível inferir a necessidade de preceitos que
tornam possível a convivência coletiva. Nesse viés,
compreendemos que o Brasil é umpaís com inúme‐
ros problemas sociais e divergências políticas.
Contudo, a democracia assegura as manifestações
e lutas por direitos, além dos limites relacionados
aos deveres. Portanto, ao vermos esses preceitos
na Constituição Federal, devemos ter em mente a
sua inviolabilidade para a segurança de todo e
qualquer cidadão.
Destacamos ainda que uma nação que se
dedica a manter essas deliberações é uma nação
que respeita o acordo firmado na Declaração dos
Direitos Humanos. Logo, o Brasil, mesmo com seus
inúmeros problemas, ainda carrega o direciona‐
mento adequado para manter a democracia e o
desenvolvimento de seu povo.
Anotações:
116
Indicamos uma leitura complementar que
auxilia nesta dinâmica de estudo:
Diante dessas observações e considerações,
passamos à última subseção deste material, a qual
debate outros aspectos presentes na Constituição
Federal brasileira.
Disponível em: https://dspace.mackenzie.br/handle/
10899/23977
Título: Os tratados internacionais sobre direitos
humanos incorporados ao direito brasileiro e a
Constituição Federal/88
Autor Brasileiro, Eduardo Tambelini
Resumo:
A dissertação abordou a influência dos direitos
humanos frente aos tratados internacionais incorpo‐
rados ao direito brasileiro. Para tanto, destacou a
evolução dos direitos humanos, sua importância e
reflexos no cenário nacional e internacional. No direito
brasileiro, os direitos humanos são imperativos a uma
sociedade justa e solidária, sendo defendidos a rigor
na Constituição Federal de 1988.
117
Anotações:Direitos Humanos e Cidadania na
Constituição Federal Brasileira: parte 2
Abrimos essa última subseção com a fala de
Brasileiro (2009, p. 6):
Os direitos humanos se mostram valoroso
instrumento modelador dos Estados soberanos,
impondo limites e parâmetros a serem seguidos,
como forma de enaltecer o ser humano como
cerne do ordenamento jurídico internacional.
Face à importância e relevância dos tratados
internacionais, estuda-se o que vem a ser esse
fenômeno convencional e a sua integração no
direito interno.
Com base nos aspectosda citação, entende‐
mos que os Estados precisam estar alinhados aos
tratados internacionais para que sejam aceitos os
limites e parâmetros a serem seguidos, como ponto
principal do ordenamento. Feita essa explanação
inicial e entendida a natureza da relevância dos
documentosoficiais, passamosaoquadroqueexpõe
os demais recortes da Constituição Federal sobre
os quais versaremos posteriormente.
118
Quadro 06 – Recortes da CF em referência à
garantia de direitos humanos
CAPÍTULO II
Dos DireitosSociais
Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde,a
alimentação, o trabalho,a moradia,
o transporte,o lazer, a segurança,a previdênciasocial,a
proteçãoà maternidadeeà
infância, a assistênciaaos desamparados,na formadesta
Constituição.(Redação dada
pelaEC n. 90/2015)
Parágrafoúnico. Todobrasileiroem situação de
vulnerabilidade social terádireitoa
uma rendabásica familiar, garantida pelopoderpúblico
emprograma permanentede
transferênciade renda,cujas normase requisitosde
acessoserão determinadosemlei,
observadaa legislação fiscal e orçamentária. (Incluído
pelaEC n. 114/2021)
Art. 7º São direitosdos trabalhadoresurbanose rurais,
alémdeoutrosque visemà
melhoriade suacondição social:
I – relaçãode empregoprotegidacontradespedida
arbitrária ou sem justa causa,
nos termosde leicomplementar,quepreverá indenização
compensatória,dentre outros
direitos;
CAPÍTULO III
Da Nacionalidade
Art. 12. São brasileiros:
I – natos:
a) osnascidosna RepúblicaFederativado Brasil, ainda
quede pais estrangeiros,desde
queestesnãoestejama serviçode seupaís;
b) os nascidosno estrangeiro,depaibrasileirooumãe
brasileira,desdequequalquer
delesestejaa serviçoda RepúblicaFederativadoBrasil;
c) osnascidos noestrangeirodepai brasileirooudemãe
brasileira,desdeque sejam
registradosemrepartiçãobrasileiracompetenteou
venhama residir na RepúblicaFederativa
do Brasil e optem, emqualquer tempo,depoisde atingida
amaioridade, pela nacionalidadebrasileira; (Redação
dada pelaEC n. 54/2007)
119
CAPÍTULO IV
Dos DireitosPolíticos
Art. 14. A soberaniapopular seráexercidapelo sufrágio
universal e pelo votodiretoe secreto,com valor igual para
todos,e, nos termosda lei,mediante:
I – plebiscito;
II – referendo;
III – iniciativa popular.
§ 1º O alistamentoeleitoral e o votosão:
I – obrigatóriosparaos maioresde dezoitoanos;
II – facultativospara:
a) osanalfabetos;
b) os maioresde setentaanos;
c) osmaiores dedezesseisemenoresdedezoitoanos.
TÍTULO VIII
Da OrdemSocial
CAPÍTULO II
Da SeguridadeSocial
SEÇÃO II
Da Saúde
Art. 196. A saúdeédireito de todose deverdoEstado,
garantidomediantepolíticas sociais
e econômicasque visemà reduçãodo risco dedoença e
deoutrosagravose ao acessouniversal e igualitário às
ações e serviçospara sua promoção, proteçãoe
recuperação.
Art. 197. São de relevânciapública as açõese serviçosde
saúde,cabendoao Poder
Públicodispor,nos termosda lei,sobre sua
regulamentação,fiscalização e controle,devendosua
execuçãoser feita diretamenteouatravésde terceirose,
também, por pessoafísica ou jurídica dedireitoprivado.
CAPÍTULO III
Da Educação, da Cultura
e doDesporto
SEÇÃO I
Da Educação
Art. 205. Aeducação, direitode todose deverdoEstadoe
da família, serápromovida e incentivadacom a
colaboração da sociedade,visandoao pleno
desenvolvimentodapessoa,seupreparoparao exercício
da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Art. 206. O ensinoseráministradocombase nos
seguintesprincípios:
I – igualdadedecondiçõespara o acessoe permanência
na escola;
II – liberdadedeaprender,ensinar,pesquisare divulgaro
pensamento,a arte e o saber;
120
CAPÍTULO III
Da Educação, da Cultura
e doDesporto
SEÇÃO I
Da Educação
Art. 205. Aeducação, direitode todose deverdoEstadoe
da família, serápromovida e incentivadacom a
colaboração da sociedade,visandoao pleno
desenvolvimentodapessoa,seupreparoparao exercício
da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Art. 206. O ensinoseráministradocombase nos
seguintesprincípios:
I – igualdadedecondiçõespara o acessoe permanência
na escola;
II – liberdadedeaprender,ensinar,pesquisare divulgaro
pensamento,a arte e o saber;
III – pluralismode ideias ede concepçõespedagógicas,e
coexistênciade instituições
públicase privadasde ensino;
IV – gratuidadedoensinopúblicoemestabelecimentos
oficiais;
V – valorização dosprofissionaisdaeducação escolar,
garantidos,na forma da lei,
planosdecarreira, com ingressoexclusivamentepor
concursopúblicode provase títulos,
aos das redespúblicas; (Redaçãodada pela ECn.
53/2006)
VI – gestãodemocrática do ensinopúblico,na forma da
lei;
VII – garantia depadrão de qualidade;
VIII – piso salarial profissional nacional para os
profissionaisdaeducação escolar
pública, nos termosda lei federal. (Incluídopela ECn.
53/2006)
IX – garantia do direitoà educação eà aprendizagemao
longoda vida. (Incluídopela
EC n. 108/2020)
121
Fonte: Constituição Federal (1988).
CAPÍTULO VI
Do Meio Ambiente
Art. 225. Todos têmdireitoao meio ambiente
ecologicamenteequilibrado,bemdeusocomumdo povo
e essencial à sadia qualidadede vida, impondo-se ao
PoderPúblicoe à coletividadeo deverdedefendê -loe
preservá-loparaas presentese futurasgerações.
§ 1º Para asseguraraefetividadedessedireito, incumbe
ao PoderPúblico:
I – preservare restaurarosprocessosecológicos
essenciais e provero manejoecológicodas espéciese
ecossistemas;
II – preservaradiversidadeea integridadedopatrimônio
genéticodoPaís e fiscalizar as entidadesdedicadasà
pesquisaemanipulação de material genético;
III – definir,em todasas unidadesda Federação, espaços
territoriais e seuscomponentesaseremespecialmente
protegidos,sendoaalteração ea supressãopermitidas
somente atravésde lei, vedadaqualquerutilização que
comprometa a integridadedosatributosque justifiquem
sua proteção;
IV – exigir,na forma da lei, para instalação deobra ou
atividadepotencialmente causadorade significativa
degradaçãodo meio ambiente,estudopréviode impacto
ambiental, a que sedará publicidade;
V – controlara produção, a comercialização e oemprego
de técnicas,métodose substânciasquecomportemrisco
para a vida, a qualidadede vida e o meioambiente;
VI – promovera educação ambiental em todosos níveisde
ensinoe a conscientizaçãopública para a preservaçãodo
meio ambiente;
VII – protegera faunae a flora, vedadas,na forma da lei,
as práticas quecoloquemem risco sua funçãoecológica,
provoquemaextinção deespéciesou submetamos
animais à crueldade.
Anotações:
122
As principais dimensões abordadas neste
material são relativas a 5 fatores:
a. Direitos sociais;
b. Nacionalidade;
c. Direitos políticos;
d. Direito à saúde;
e. Direito à educação;
f. Direitos e deveres relativos ao meio
ambiente.
Esses, por sua vez, já foram discutidos neste
material por teóricos como Dallari (2004), Marinho
(2015), entre outros. Assim, o que se pode acrescen‐
tar é que a Constituição Federal deve representar
um documento coerente com o tratado firmado,
garantindo aos seus cidadãos os direitos fundamen‐
tais, como: saúde, educação, moradia, trabalho,
meio ambiente sadio, escolhas de líderes dentro da
democracia e segurança dentro da sua nação.
Para finalizar esta última unidade, apresenta‐
remos um recorte da obra Os Estatutos do Homem
(2001), de Thiago de Mello. Trata-se de um texto em
que se pode refletir de maneira poética sobre o
assunto que trouxemos aqui, conduzindo a uma
reflexão necessária aos estudos acadêmicos que
aqui foram demonstrados.
123
Anotações:OS ESTATUTOS DO HOMEM
THIAGO DEMELLO
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
Agora vale a vida, e demãos dadas,marchare‐
mos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm
direito a converter-se emmanhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas, que os giras‐
sóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que
as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas
para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretadoque o homem não precisará
nuncamais duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem como a
palmeira confia no vento, comoo vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
Ohomemconfiará nohomemcomoummenino
confia em outro menino.
Anotações:
124
Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do
jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar a couraça do
silêncio nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa com seu olhar
limpo porque a verdade passará a ser servida antes
da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a
prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o
cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá
o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o
reinado permanente da justiça e da claridade, e a
alegria será uma bandeira generosa para sempre
desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e
será sempre não poder dar-se amor a quem se ama
e saber queé a águaquedá àplanta omilagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no
homemosinal de seusuor.Masque, sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitida a qualquer pessoa, qualquer
hora da vida, uso do traje branco.
125
Anotações:Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é
umanimal que amae que por isso é belo,muitomais
belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem
proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com
os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma
imensa begônia na lapela.
Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá
nuncamais comprar o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú domedo, o dinheiro se
transformará em uma espada fraternal para defen‐
der o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual
será suprimida dos dicionários e do pântano
enganoso das bocas.
A partir deste instante a liberdade será algo
vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua
morada será sempre o coração do homem.
(Thiago de Mello)
Santiago do Chile, abril de 1964.
Anotações:
126
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