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Escaneie com seu Smartphone DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA Escaneie com seu Smartphone DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA Responsável Técnico:Maria Lígia Said Sena (CRB11/1098) Biblioteca CEUNI-FAMETRO FAMETRO Av. Djalma Batista, Nossa Sra. das Gracas. Manaus, AM Ficha catalogada na Biblioteca CEUNI-Fametro Todos os direitos reservados© FAMETRO IME Instituto Metropolitano de Ensino Ltda Wellington Lins de Albuquerque | Presidente - IME Cinara da Silva Cardoso | Reitora Wellington Lins de Albuquerque Júnior | Vice-Reitor Iyad Amado Hajoj | Diretor de EaD e Expansão Leonardo Florêncio da Silva | Diretor Editorial e Gestor de EaD Ana Maria Oliveira de Araújo | Coordenação Pedagógica EaD Luciana Braga | Projeto Gráfico e Direção de Arte Anderson Souza | Diagramação Ana Augusta de Oliveira Simas | Supervisora de Produção e Revisão Thamires Moura | Revisora Imagens | depositphotos.com Imagens | pixabay.com Imagens | pexels.com "Nos termos da Lei n.º 9.610/98, o autor desta obra é titular de todo o complexo de direitos autorais sobre a presente criação. 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Praticar o ensino, pesquisa e extensão é a sua principal bandeira. A Fametro, ao longo das últimas duas décadas, vem se consolidando como a melhor instituição de ensino do Norte, um espaço democrático e docentes com variadas visões de mundo. Somos uma instituição de ensino plural que avança a cada ano embusca sempre de desenvolver a economia da Amazônia. Nossa estrutura é moderna, estamos em diversos municípios levando uma educação inclusiva e de qualidade. Conheça o Centro Universitário Fametro e viva a experiência em estudar numa instituição com o corpo docente com mestres e doutores e de qualidade de ensino comprovada pelo MEC. Maria do Carmo Seffair Reitora Su m ár io UNIDADE II - CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA E SOCIAL Direitos Humanos: Contextos Históricos Marcantes 14 A Cidadania na Perspectiva Histórica 20 Direitos Humanos – Visão Conceitual 24 Cidadania – Visão Conceitual 29 Convivência Democrática 36 UNIDADE II - VALORES E IGUALDADE DE DIREITOS Valores Fundamentais para Viver em Sociedade 46 Princípio da Dignidade Humana 52 Igualdade de Direitos 58 Indivíduo, Diversidade, Tolerância e Respeito às Diferenças 63 Multiculturalismo 69 UNIDADE III - DIREITOS BÁSICO PARA CONVÍVIO EM SOCIEDADE Direito à Educação 80 Direito à Saúde 84 Direito ao Meio Ambiente Sadio 88 Direito à Liberdade Real 92 Direito à Vida 96 UNIDADE IV - DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS E A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA Declaração Universal dos Direitos Humanos 103 Declaração Universal dos Direitos Humanos: do Art. 1 ao Art. 15 106 Declaração Universal dos Direitos Humanos: do Art. 16 ao Art. 30 109 Direitos Humanos e Cidadania na Constituição Federal Brasileira: parte 1 113 Direitos Humanos e Cidadania na Constituição Federal Brasileira: parte 2 117 Os Estatutos do Homem Thiago de Mello 123 Referências 126 U ni da de 1 Videoaula 2 Videoaula 4 Videoaula 1 Videoaula 3 Videoaula 5 12 13 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA E SOCIAL Tratar de Direitos Humanos e da Cidada‐ nia é uma tarefa desafiadora, dada a comple‐ xidade de ambos os temas. Nesse sentido, esse estudo será realizado por meio de recortes selecionados para promover pensa‐ mentos, identificar algumas definições e alcançar determinadas reflexões. No entanto, não pretende-se esgotar os dois assuntos,vis‐ to que a busca por compreender a pluralidade dos temas também faz parte do processo de aprendizagem. Nessadireção, tambémépossível afirmar que os assuntos em questão estão presentes nas inúmeras áreas do conhecimento. Alguns autores perpassampela Filosofia e Sociologia, outros tratamdemodomais técnicopelo ramo do Direito, e existem ainda aqueles que os Anotações: 14 abordam pela ótica da educação. No entanto, aqui, verifica-se aspectos advindos de todos esses, uma vez que o amplo leque de percepções é imprescin‐ dível para conhecer mais acerca dos conteúdos. Diante disso, é importante destacar que os conceitos, as definições e os contextos que trare‐ mosaqui,muitas vezes, estãoespelhadosemautores que abordamos Direitos Humanos e a Cidadania em suasobras. Desta forma, nãopretendemosorganizar um material com perspectivas inéditas, pelo contrário, o objetivo é oferecer um escopo de estudiosos que possam auxiliar a prática de estudo sobre o tema. No mais, dividimos esta primeira unidade em 5 subseções, quais sejam: 1.1 Direitos Humanos: contextos históricos marcantes; 1.2 A cidadania na perspectiva histórica; 1.3 Direitos Humanos – visão conceitual; 1.4 Cidadania – visão conceitual e 1.5 Convivência democrática em sociedade. Direitos humanos: contextos históricos marcantes Inicialmente, partiremos da compreensão histórica que envolve a construção dos Direitos Humanos.Para tanto, oprincipal autorquenosguiará neste percurso é Marinho (2012), destacando-se a obra “Educar em Direitos Humanos e formar para Cidadania no Ensino Fundamental”. Trata-se de um livro que segue principalmente a ótica educacional, masque, emumprimeiromomento, focanocontexto histórico para a compreensão do tema, dito isso, passamos às primeiras reflexões. Os Direitos Humanos – semquerer defini-los – podem ser entendidos como garantias que se modificam, isto é, são efêmeros, não permanecem Anotações: 15 estáveis, vistoqueasociedademudaconstantemen‐ te e precisam se adaptar a isso. Deste modo, ao longo da História humana, o tema foi ganhando nuances diferenciadas até se tornar o que conhece‐ moshoje. Assim, para compreender essemovimento dinâmico, observamos que: [...] para determinar a origem da afirmação dos DireitosHumanosdevemos retornar basicamente a três documentos fundamentais – seja pela relevância e também pela capacidade de influenciar osmovimentos históricos posteriores (MARINHO, 2012, p. 26). Marinho (2012) cita a relevância de três docu‐ mentos que influenciaram a dinâmica que originou o pensamento do que se entende por Direitos Humanos. Para tanto, o autor resgata, primeiramen‐ te, a seguinte ótica documental e histórica: A declaração inglesa de direitos, de 1689, conhecida como “Bill of Rights” (MONDAINI, 2006), foi o primeiro documento a reconhecer de forma explícita os direitos naturais. Elaborada pelo parlamento e assinada por Guilherme de Orange, como condição para que este assumisse o trono inglês, foi o documento quemelhor sintetizou os objetivosdachamadaRevoluçãoGloriosade 1688. Esse marcou a supremacia do parlamento sobre a coroa e libertação da burguesia inglesa, frente ao Estado absolutista que com seu permanente intervencionismo era um entrave importante para um processo mais amplo de acúmulo de capital (MARINHO, 2012, p. 26). Anotações: 16 Nota-se, nessa primeira retomada histórica do autor, o destaque dado ao termo “direitos naturais” do ser humano. Trata-sedeumaexpressãoqueainda será adensada em outra seção desta primeira unidade, mas que, de modo geral, vai reconhecer o homem como alguém que já nasce livre. Ainda no tocante à citação de Marinho (2012), é importante verificar a fala direcionadaà palavra “libertação”, usada para configurar a vitória da burguesia sobre o Estado absolutista. Destamanei‐ ra, destaca-se tambémocontexto comumno século XVII, sobretudo na Europa, no qual as monarquias e regimes totalitários foram dando lugar às ideias mais liberais. Caminhandomais nos espaços históricos aqui levantados, vemos que: O segundo documento fundante da Declaração Universal dos Direitos Humanos é a declaração do estado da Virgínia (1776), como o primeiro documento a expressar o caráter universal dos direitos do Homem. Apesar de se distinguir da francesa, cujos protagonistas eramefetivamente vindos de camadas menos favorecidas da população, a Revolução Americana também trouxe em seu bojo o desejo de libertação das estruturas de poder e sociais estabelecidas pela monarquia, no caso a inglesa (MARINHO, 2012, p. 28). O contexto em que o autor nos situa refere-se à Independência dos EstadosUnidos e à Declaração atribuída a esse fato. Marinho (2012) aborda que a referida Declaração foi o primeiro documento a trazer o caráter universal dos direitos do homem, Anotações: 17 abrangendo a percepção e globalizando seu sentido. Além disso, é visível, mais uma vez, o chamado “desejo de libertação das estruturas de poder e sociais estabelecidas pela monarquia”. Marinho (2012), ainda relacionado àDeclaração do estado da Virgínia, expressa que: [...] o fato marcante dessa revolução, do ponto de vista dos direitos, está justamente em que procura favorecer e expressar os interessesmais específicos do homem, esse tambémmuitomais concreto do que aquele que observamos na Declaração francesa. Por exemplo, além da emancipação, a Declaração americana introduz o direito à Felicidade (MARINHO, 2012, p. 29). É curioso encontrar a subjetividade da “felici‐ dade” em um documento tão importante do ponto de vista histórico. Em consonância a isso, percebe- se que o documento ganha ainda mais importância por esse motivo, afinal, trata-se de um aspecto fundamental na vida do homem: ter direito à Felicidade. Nesse caso, vale destacar que o termo, com o passar dos anos, foi adquirindo outras conotações e configurações mais específicas para a natureza institucional. Dando prosseguimento aos documentos e contextos, de acordo comMarinho (2012, p. 29): Outro documento que melhor expressou a radicalidade das mudanças ensejadas [...] foi a Declaração dosDireitos doHomemedoCidadão. Publicada em 1789, ela representa a inauguração simbólica da moderna acepção dos direitos humanos. Os princípios que deramorigema essa Declaração [...] são por si mesmos revolucioná‐ rios. Anotações: 18 Com base nisso, acrescenta-se: Em 1789, durante a Revolução Francesa, a AssembleiaNacional promulgouaDeclaraçãodos Direitos doHomemedoCidadão, a qual proclama a liberdade e a igualdade de todos os homens e reivindica como direitos naturais imprescritíveis a liberdade, a propriedade, a segurança, a resistência à opressão, em vista dos quais se constitui a associaçãopolítica legítima (MARINHO, 2012, p. 30). Nesses excertos, extraídos dos estudos aprofundados pelo autor, percebemos um teormais específico, no qual se destacam um principal fator: a liberdade e o direito de buscar melhores em diversas direções. Mais tarde, em nossos estudos, também será possível problematizar os limites dessa referida liberdade. Nomais, é válido dizer que essa primeira caminhada remete a direitos mais voltados aocampopolítico, embora se tenhambases daquilo que viriam a se tornar os direitos civis. Dandoumsaltonessa trajetória dedocumentos que influenciaram as noções de Direitos Humanos, Marinho (2012, p. 31) nos explica que: [....] ao analisar a segunda geração dos Direitos Humanos, trata-se da dimensão dos direitos de caráter social mais geral, como o direito à educação, saúde, habitação, lazer e, novamente, segurança. São direitosmarcados pelas lutas dos trabalhadores já no século XIX e acentuadas no século XX (MARINHO, 2012, p. 31). Anotações: 19 Dentro dessa ótica de pensamento do autor, é preciso observar que os reflexos dessas tratativas relacionadas aos direitos mais sociais são conse‐ quências da Segunda Revolução Industrial. A partir dela, surgiram inúmeros fatores que influenciaram o mundo do trabalho e o modo de vida das popula‐ ções, até mesmo daquelas que ainda não haviam passado pelo processo de industrialização. Logo, foi preciso novas garantias para o bem-estar coletivo. Alcançando outro espaço histórico, damos mais um salto em direção à segunda metade do século XX, período contextualizado por Marinho (2012) da seguinte maneira: Após a experiência de horrores e de barbárie que nos propiciaram os domínios imperiais de países europeus sobre a África, na segunda metade do século XIX, e, principalmente, as duas Guerras Mundiais, na primeirametade do século XX, outra declaração veio firmar o caráter insubstituível e incondicional dos direitos humanos. É a Declara‐ çãoUniversal dosDireitosHumanos, assinada em 1948 pelo conjunto de países que subscreveu a criaçãodaOrganizaçãodasNaçõesUnidas (ONU). Essa nos possibilitou confirmar o século passado como aquele em que triunfou o discurso em defesa dos direitos humanos (MARINHO, 2012, p. 31). Como vemos, o autor remonta os traços marcantes de injustiças históricas, as quais ele destaca comoexperiências de horrores e barbáries, para culminar na justificativa de construção daquela que vem a ser a principal sistemática que organiza este material: a Declaração Universal dos Direitos Anotações: 20 Humanos (DUDH). Essa é configurada como um documento coletivo que simboliza um tratado universal acerca das garantias que precisamnortear as nações.Tal documento será detalhado e comen‐ tado com maiores descrições na Unidade 4 deste produto bibliográfico. No mais, podemos encerrar esta seção com o seguinte pensamento: Emcerto sentido, osDireitosHumanos sãodesde sempre a experiência de liberdade, a expressão da luta para libertar os indivíduos da repressão externa e permitir sua autorrealização. Não por outro motivo, a luta pelos direitos humanos esteve, desde o século XVIII, diretamente relacionada às revoluções, embora não somente a estas (MARINHO, 2012, p. 30-31). Agora, passamos a uma breve seção para entender os contextos que também perpassam a concepção de cidadania, outro objeto de estudo deste material. A cidadania na perspectiva histórica Esta seção se encaminha para algumas observações contextuais acerca da cidadania no decurso histórico. Para tanto, utilizaremos as composições teóricas e explicativas deDallari (2004) e Morais (2013). Cabe ressaltar que, para expressar os aspectos relativos ao tema da cidadania, não pretendemos especificar uma área de conhecimen‐ to, trazendo, portanto, um plano abrangente. Inicialmente, partimos da visão de Dallari (2004), autor que remonta uma perspectiva históri‐ ca mediante o pensamento de um dos maiores pensadores da Antiguidade: Anotações: 21 NaGréciaantiga, comose lêno filósofoAristóteles (384 a.C – 322 a.C), já havia o reconhecimento do direito departicipar ativamenteda vidadacidade, tomando decisões políticas, embora esse direito ficasse restrito a um número pequeno de pessoas (DALLARI, 2004, p. 23). O autor traça uma diretriz para nos fazer entender uma concepção embrionária a respeito do “cidadão” da Grécia Antiga. Nesse caso, aquele que vivia na cidade exerce sua “cidadania” (relativizando o sentido do termopara aquela época), contudo, não havia uma universalização do exercício dos direitos, isto é, não se tinha uma uniformidade na prática dos direitos. Por sua vez, Morais (2013), retrata que: Na Roma antiga, os termos gentilis, patricius e civis remetiam igualmente à noção de cidadania, denominando uma mesma figura social. Assim, destaca-se que a história de Roma atribuía uma noção bastante extensa aos critérios de cidadania, sendo relevante destacar-se que, posteriormente, tais direitos seriam conferidos aos habitantes do império de um modo em geral (MORAIS, 2013, p. 3). Dallari (2004) nos propõe um salto histórico para entendero movimento que, de fato, fez surgir a visão de cidadania. Foi a partir da concepção romana que se adotou oconceito de cidadania, na Françado séculoXVIII [...]. E foi também a partir da França que se introduziu nas legislaçõesmodernas a diferenci‐ ação entre cidadania e cidadania ativa (DALLARI, 2004, p. 23). Anotações: 22 Com base nisso, notamos que a França teve umpapel decisivo noprocessodeconstruçãodoque se compreende como cidadania. Isso coincide com o que vimos na unidade 1.1, quando trabalhamos os Direitos Humanos no contexto histórico. Por essa razão, observamos ainda que ambos os conceitos são interligados pela teoria que representam, mas também no contexto histórico pelos quais passa‐ ram. Na visão de Morais (2013, p. 3): [...] desvinculado de explicações naturalistas, o conceito de cidadania volta-se para o mundo da política, dacomunidade, ganhando relevância seja na polis grega seja como surgimento dafigura do burguês na idade medieval, ou mesmo com a transição para amodernidade,momento emque adquire caráter de fundamento filosófico, sobretudo com o contratualismo de John Locke e de Jean-Jacques Rousseau, nos séculos XVII e XVIII, afirmando a noção de contrato social realizado entre os cidadãos e o próprio Estado. DESTAQUE PARA O SEU ESTUDO A ideia de cidadania ativa está no compromisso cívico enadeliberação coletiva acerca de todosos temasque afetam a comunidade política. A cidadania passiva consiste no acesso aos direitos (políticos, sociais, civis), e a cidadania ativa traz a dimensão das responsabilidades que os sujeitos têm coma comuni‐ dade política à qual pertencem (SOARES, 2002, p. 101). Anotações: 23 Em outro salto contextual, Dallari (2004) demonstra comoosentido da cidadania foi receben‐ do outras conexões e interpretações, remontando a um sentido plural. Desta forma, o autor ainda contextualiza os fatores do entendimento acerca do tema no espaço brasileiro: A cidadania, que no século XVIII teve sentido político, ligando-se ao princípio da igualdade de todos, passou a expressar uma situação jurídica, indicando um conjunto de direitos e de deveres jurídicos. Na terminologia atual, cidadão é o indivíduo vinculado à ordem jurídica de um Estado. [...] Assim, por exemplo, o Brasil considera seus cidadãos, como regra geral, as pessoas nascidas em território brasileiro ou que tenham mãe ou pai brasileiro. Essa vinculação significa que o indivíduo terá todos os brasileiros que a lei assegura aos cidadãos daquele Estado, tendo tambémodireito de receber a proteção de seu Estado se estiver em território estrangeiro (DALLARI, 2004, p. 23, grifo meu). O sentido de cidadão explicitado pelo autor remete à ideiamais direcionada à vinculação do ser humanoaumadeterminadanação. Seno início desta subseção vimos o sentido político, aqui já se aproxima um sentido mais técnico. Nesse sentido, é possível enxergar a ampliação ou especificação inerente ao termo, por isso, é necessário expandir as situações contextuais que giram em torno da compreensão da cidadania. Anotações: 24 Direitos humanos – visão conceitual Esta subseção tem a finalidade de tratar o sentido conceitual e as concepções teóricas que se inserem no campo de estudo de importantes autores, no que tange ao termo Direitos Humanos. Para isso, nos baseamos, sobretudo, em: Dallari (2004) e Gomes (2016). É importante destacar que existem outros teóricos cuja visão pode ser mais específica, em comparação com as que serão tratadas aqui. Contudo, expressamos uma visão coerente com o ponto de vista da convivência em sociedade. Assim, começamospela visãodeDallari (2004), segundo o qual: A expressão direitos humanos é uma forma abreviada demencionar os direitos fundamentais da pessoa humana. Esses direitos são conside‐ rados fundamentais porque sem eles a pessoa humana não consegue existir ou não é capaz de sedesenvolver edeparticipar plenamenteda vida (DALLARI, 2004, p. 12). O autor é enfático na relevância dada aos direitos da pessoa humana, como uma espécie de garantia da própria existência. De modo ainda mais detalhado,Dallari (2004) comenta que: Para entendermos com facilidade o que signifi‐ cam direitos humanos, basta dizer que tais direitos correspondemanecessidadesessenciais da pessoa humana. Trata-se daquelas necessida‐ des que são iguais para todos os seres humanos e que devem ser atendidas para que a pessoa possa viver com a dignidade que deve ser assegurada a todas as pessoas (DALLARI, 2004, p. 13). Anotações: 25 Percebe-se, nessa passagem do autor, outro aspecto extremamente importante: a questão da igualdade de direitos, elemento que será descrito commaioresdetalhesnaúltimapartedestaUnidade. Vale salientar que o aspecto preponderante da democracia espelhada nessa acepção visa uma universalização entre os homens e mulheres que convivem em sociedade. Tal visão é ampliada e refletida da seguinte forma: Os direitos humanos têm-se apresentado como princípio orientador na direção de uma humani‐ dade menos desumana. Não são poucos os personagens que passaram pela história e que ainda nos inspiram a prosseguir nessa luta e, consequentemente, a sonhar um outro mundo possível: Martin Luther King, Mahatma Gandhi, NelsonMandela, Desmond Tutu, Madre Teresa de Calcutá, em âmbito internacional; e, no Brasil, Dom Hélder Câmara, Margarida Genevois, Dom Paulo Evaristo Arns, Paulo Freire, Therezinha Zerbini eDalmodeAbreuDallari. Alémdeles, cada cidadão que se engaja anonimamente nos movimentos sociais, órgãos colegiados etc., diariamente, faz toda a diferença (SÃO PAULO, 2015, p. 20). Nessa direção, a importância direcionada aos líderes mundiais é também uma interessante questão a ser considerada, porque ao longo da história humana, destacaram-se figuras que lutaram contra as desigualdades de condições e sempre buscaram justiça e dignidade para todos, sem distinções. Alémdisso, destacam-se as instituições que, pormeiodepessoas “comuns”, fazemmuitopela garantia dos direitos. Anotações: 26 Com base nessas visões, Gomes (2016, p. 25) levanta que: As posturas universalistas defendem que os Direitos Humanos são capazes de abranger todo e qualquer ser humano, em qualquer lugar do planeta, pertencente a qualquer sociedade e a qualquer tradição cultural. Um dos principais defensores dessa postura é ofilósofo e sociólogo alemãoJürgenHabermas. ParaHabermas (2004, 2008), apesar das diferenças culturais ao redor do planeta, continua existindo algo de comum entre essas várias culturas. Apegando-se a concepções ligadas ao Iluminismo, ele dirá que esse algo é a capacidadehumanadeusoda razão, por meio da qual é possível, no interior de qualquer cultura, chegar-se à compreensão da necessidade universal de respeito aos Direitos Humanos (GOMES, 2016, p. 25). A visão destacada pelo autor leva em conta o alcance que pode ser dado à ideia de direitos humanos atingindo, especialmente, a universaliza‐ ção desses direitos. Em outras palavras, qualquer ser humano, em qualquer parte do planeta, deve ter como garantia tudo aquilo que o permite viver com dignidade. Assim, os direitos humanos passam a fazer parte da noção de coletividade enquanto seres damesmaespécie, independentementedequestões geográficas ou especificidades culturais. Anotações: 27 A abordagem legalista preocupa-se menos com a fundamentação filosófica dosDireitosHumanos e mais com sua efetivação. Assim, essa aborda‐ gem assume como Direitos Humanos aquele conjunto de direitos que estão inscritos em normas jurídicas, geralmente tratados e acordos denatureza internacional cujo conteúdo refere-se a aspectos fundamentais da dignidade universal do ser humano (GOMES, 2016, p. 28). Gomes (2016, p. 26-27), a partir dessa definição básica, algumas características dos Direitos Humanos são, então, elencadas. Anotações: 28 Quadro 01 – Características dos direitos humanos Característica Descrição Historicidade Os Direitos Humanos surgem, consolidam-se e alteram-se historicamente, como resultadode lutas sociais ao longodo tempo. Inexauribilidade O sentido e o conteúdodos Direitos Humanos são inexauríveis, o que significa que os Direitos Humanos já reconhecidos em tratados e acordos jurídicospodemterseu sentidoexpandidoenovosDireitosHumanospodem sempre vir a surgir. Universalidade Os Direitos Humanos referem-se a e devem alcançar todos os seres humanos, independentemente de qualquer característica externa, como nacionalidade, crença religiosa, classe, gênero, idade, raça, orientação afetivo-sexual ouqualqueroutra. Imprescritibilidade OsDireitosHumanosnãoseperdemcomopassardo tempo.Mesmoquenão sejam exercidos por alguémpor um longo período de tempo, essa pessoa semprepoderá,a qualquermomento,reivindicá-los. Inalienabilidade Os DireitosHumanosnãopodemser transferidos deumapessoaa outrapor nenhummotivo,seja doação, venda,renúnciaou qualqueroutromeio Irrenunciabilidade Exatamente porque não podem ser alienados, transferidos, é impossível também renunciaraos DireitosHumanos.Mesmoquealgumapessoanãoos queira,ela continuasendoprotegidaporessesDireitos Inviolabilidade Os Direitos Humanos previstos em tratados e acordos jurídicos internacionais não podemser violados pelas Constituições dos países, isto é, pelodireito internodecada país. Interrelacionaridade A proteção dos Direitos Humanos deve ocorrer tanto em nível local quanto emnível regional, nacional e internacional, devendohaver uma interrelação entre essesdistintosníveisdeorganizaçãopolítica. Efetividade É dever do poder público providenciar mecanismos de efetivação dos DireitosHumanos. Indivisibilidade Os variados Direitos Humanos não podem ser compreendidos de modo isolado,mas apenas como parte de umtodo indivisível.Logo,nãohá, dentre osvariadosDireitosHumanos,algunsmais importantesdoqueoutros:todos são igualmente relevantes. Interdependência Exatamenteporque fazemparte deumtodo indivisível,osDireitosHumanos devem ser entendidos como interdependentes, de modo que a realização adequada de qualquer um dos Direitos Humanos não é possível sem a realização adequada,ao mesmotempo, de todosos outros. Concorrenciabilidade Embora indivisíveis e interdependentes,é possível queemcasos concretos dois ou mais Direitos Humanos concorramentre si como o mais adequado, ou os mais adequados, para oferecer uma solução ao caso. Em situações como essa, deve-se buscar uma interpretação capaz de manter a integridadedosistemade DireitosHumanoscomoum todo. Vedação do retrocesso Embora surjam, alterem-se e consolidem-se historicamente, aqueles DireitosHumanosque jáforamreconhecidoscomotaisnãopodemdeixarde sê- lo. Ou seja, não é possível que haja retrocessos, diminuindo o rol de garantiasque compõemos DireitosHumanos. Anotações: 29 Nota-se, portanto, uma série de questões interdependentes que moldam, influenciam e caracterizam a construção e dinâmica do que conhecemos como direitos humanos. Assim, compreende-se que a efetivação daquilo que se considera como direito é uma constante luta. Cidadania – Visão conceitual A cidadania, de acordo com Dallari (2004, p. 22): [...] expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem não tem cidadania estámarginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões, ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social. Com base nisso, é pertinente observar que a cidadania caminha num sentido coletivo e partici‐ pativo, apesar da complexidade do contexto emque vivemos demonstrar outros tipos passivos de cidadania, como veremos emoutromomento. Além disso, Dallari (2004) nos aponta as consequências da exclusão daqueles que não gozamdos direitos de cidadão, por isso, a relevância dada a essa dimensão da vida social. Como exemplificação, o autor ilustra que: [...] a cidadania pode designar o conjunto das pessoas que gozamdaqueles direitos. Assim, por exemplo, pode-se dizer que todo brasileiro, no exercício de sua cidadania, temodireito de influir nas decisões do governo (DALLARI, 2004, p. 22). Anotações: 30 Noutra busca por definição – ou pelo menos discussão e reflexão acerca do termo –, buscamos em Gomes (2016) um pensamento que apresenta correlação comoqueDallari (2004) nos apresentou. A cidadania está direcionada ao constructo de modos de agir que conectamos indivíduos e grupos sociais – as cidadãs e os cidadãos como um todo – ao sentido geral de sua vida em sociedade (GOMES, 2016), ou ainda que “a cidadania expressa a inserção e a participação do sujeito na vida social em que ele existe” (GOMES, 2016, p. 46). Esse sentido de pertencimento e até de “existência” social é fator que aparece nas duas definições até aqui vistas, contudo, a “existência” do cidadão não significa exatamente que esse a exerça, isto é, seja participativo ou protagonista nas questões sociais. De formamais específica: podemos entender que cidadania é um conjunto de direitos e deveres que denotam e fundamen‐ tam as condições do comportamento de cada indivíduo em relação à sociedade, ou seja, a cidadania designa normas de conduta para o convívio social, determinando nossas obrigações e direitos perante os outros integrantes da nossa sociedade (PIERITZ, 2013, p. 135). Nessa direção, o autor ainda elenca algumas categorias advindasdoconceito decidadania.Nesse caso, Pieritz (2013, p. 135) tenta descrever as características da seguinte forma: Anotações: 31 Nesse sentido, nos apoiamos nas reflexões gerais que os autores Costa e Ianni (2018) nos fornecem, salientando nova articulação com os pensamentos dos autores que já mostramos até aqui. Com isso, temos que: CIDADANIA CIVIL Referem-se aos direitos advindos da liberdade de cada indivíduo, como, por exemplo: o livre-arbítrio para expressar nossos pensamentos; o direito de proprie‐ dade (venda e compra de um imóvel, um bem ou serviço); entre outros. CIDADANIA POLÍTICA Podemos considerar que a cidadania política se legitima quando os homens exercem seu poder político de eleger e ser eleito para o exercício do poder político, independentemente da instituição pública ou privada na qual venha exercer suas atribuições. CIDADANIA SOCIAL Compreendida como o conjunto de direitos concer‐ nentes ao conforto de cada cidadão, no que tange à sua vida econômica e social, ou seja, do seu bem-estar social. Anotações: 32 Cidadania é o status daqueles que são membros de uma comunidade e são por ela reconhecidos. É, também, o conjunto de direitos e deveres que um indivíduo temdiante da sociedade da qual faz parte. Historicamente e genericamente, a cidadania temuma referência espacial, constitu‐ ída da relação dos indivíduos com um dado território (organização sociopolítica do espaço) (COSTA; IANNI, 2018, p.47). Se em outras definições verificamos a noção de pertencimento a um determinado grupo social, aqui observamos o reconhecimento do sujeito pelo grupo. Logo, essa relaçãomútua de reconhecimento e pertencimento é uma convenção social que faz homensemulheres viverememcondições equilibra‐ das na sociedade. Por isso, quando há uma ruptura deste acordo, é preciso que existam as formas de intervir. Nessa linha de construção social, Costa e Ianni (2018, p.47) afirmam que: [...] cidadania é uma noção construída social‐ mente e ganha sentido nas experiências sociais e individuais. Por isso, será aqui compreendida com uma identidade social política. Ora, se identidade pessoal/individual é o conjunto das características e dos traços próprios de um indivíduo, a identidade social são as característi‐ cas que o identificam perante as demais comunidades. E, emcertamedida, a consciência de pertencer a algo maior, a um coletivo, a uma sociedade. 33 O fragmento exposto reitera as reflexões e descrições que vínhamos trazendo até então. Agora, imergimos no constructo dos elementos que os mesmos autores sistematizam em seus estudos. Para tanto, no quadro 02 é sintetizada e organizada a configuração da cidadania como identidade política e social estruturada a partir de: a. vínculos de pertencimentos, b. participação política/coletiva e c. consciência de ser portador de direitos e deveresSalienta-se que as ideias expressas a seguir são um recorte da obra de Costa e Ianni (2018, p. 49- 60). Anotações: 34 Quadro 02 – Configuração dos elementos da cidadania Fonte: adaptado de Costa e Ianni (2018). Elemento constituidor da cidadania Descrição/característica Vínculo de pertencimento “É o conceito de Estado-Nação que se configura como central na definição de uma identidade nacional,depertencimentocoletivoede inclusãoem determinadacomunidadepolítica. Assim, no sentido mais estreito e de acordo com o senso comum, cidadania poderia ser reduzida à nacionalidade, isto é, a uma afiliação formal de indivíduos aos Estados-Nacionais. Essa concepção estaria relacionada ao sentimento de lealdade perante um grupo, uma comunidade, a sociedade civil, o Estado, o que faz com que a cidadania esteja associada a uma identificação subjetiva e a um sentimentodepertençaa uma dada sociedade”. Participação política e coletiva “Cidadania não é apenas um critério passivo de pertença a uma comunidade nacional de direitos e deveres conferidos pelo Estado. É também uma prática social que os indivíduos assumempara além doEstado,pormeiode instituiçõesdasociedadecivil e de ações civis. Sob essa perspectiva, o exercício da cidadania permite a práxis da negociação com o Estado e a participação política da comunidade, estando o exercício da cidadania vinculado fundamentalmente a umEstadodemocrático”. Consciênciade ser portadordedireitose deveres “A ideia moderna de direito, portanto, é inerente ao conceito de indivíduo, um ente que tem valor em si mesmo, dotado de direitos naturais. A matriz individualistatemcomo baseo fundamentodequeo indivíduo antecede o Estado e a sociedade e, dessa forma, contrapõe-se àconcepçãoorgânica, segundo a qual a sociedade é um todo. A máxima dessa concepção pode ser identificada na frase: todos nascemlivrese iguais. Issoquerdizerqueo indivíduo É concebido como um ser de direitos e que esses direitos antecedem a organização social e política, bem como têm prevalência sobre os deveres. No prenúncio da modernidade, como pode ser percebido, houve uma mudança qualitativa nos Anotações: 35 Na esteira da sistematização, Costa e Ianni (2018) demonstram que esses elementos descriti‐ vos, que estão elencados no quadro 02, são indis‐ pensáveis para a categorização dos tipos de cidadão na sociedade. Assim, esses teóricos elencam três grupos: o de cidadão pleno, o de cidadão politica‐ mente passivo e o de cidadão tutelado. CIDADADÃO PLENO É constituído pelas três dimensões, ou seja, o pertencimento, a participação política/coletiva e o detentor de direitos e deveres. A principal característi‐ ca desse grupo é a de serem cidadãos politicamente ativos, com consciência de seus deveres, e que lutam pela garantia e ampliação dos direitos (COSTA; IANNI, 2018, p. 71). CIDADÃO POLITICAMENTE PASSIVO Composto pelas dimensões de pertencimento e detentor de direitos e deveres. Esse grupo é caracte‐ rizado pelos que não participam da vida política, seja por apatia ou descrença em relação à política e às instituições políticas atuais, ou por se encontrarem impossibilitados (COSTA; IANNI, 2018, p. 71). Anotações: 36 Esses três grupos, apesar das distinções, representam de forma global a constituição de nossa sociedade. Com isso, é preciso que haja uma harmonia ou equilíbrio entre eles, demodo que isso seja assegurado pelo que conhecemos como democracia. Logo, a seção seguinte busca elaborar um caminho discursivo sobre a convivência demo‐ crática. Convivência democrática Esta última seção da primeira Unidade se encaminha para uma espécie de relação entre as concepções que vimos acerca dos Direitos Huma‐ nos, bemcomoasperspectivas acerca da cidadania. CIDADÃO TUTELADO é constituído apenas pelo primeiro elemento, o de pertencimento. Os cidadãos desse grupo são caracte‐ rizados por não conseguirem exercer seus direitos políticosepor não teremgarantidos seusdireitos como cidadãos. Emsuamaioria, são indivíduos considerados inimputáveis, isto é, não responsáveis por seus atos, e encontram-se tutelados pelo Estado ou por outro indivíduo responsável por eles. São os indivíduos em situação de grande vulnerabilidade social, como os doentes mentais. Estes, na maioria das vezes, são considerados cidadãos apenas pelo pertencimento a um Estado-Nação, pois nem sempre possuem condições de garantir sozinhos os seus direitos, deveres e o livre exercício político (COSTA; IANNI, 2018, p. 72). Anotações: 37 Para isso, pretendemos observar o quanto a demo‐ cracia semostra basilar numconvívio emsociedade. Coma finalidadedenortear este trajeto, vamos nos apoiar, principalmente em Dallari (2004), autor com o qual já dialogamos em diversos outros momentos deste material. Assim, para iniciarmos as reflexões, temos que: A sociedade humana é um conjunto de pessoas, ligadas entre si pela necessidade de se ajudarem umas às outras no planomaterial, bemcomopela necessidade de comunicação intelectual, afetiva e espiritual, a fim de que possam garantir a continuidade da vida e satisfazer seus interesses e desejos ( p. 26). Percebe-se com a definição do autor, no que tange à sociedade humana, a ampla visão de conjunto estabelecida para as conexões entre as pessoas. Nesse âmbito, existe uma troca de valores e uma aceitação entre os sujeitos em torno daquilo que pode garantir a relação coletiva. Quando se aborda sobre direitos, é preciso apontar também a relevância dos deveres e do quanto todos os demais sujeitos pertencentes amesma sociedade também possuem seus direitos, por isso, falamos em aceitação. Numsentidomais ontológico dessa relação de convivência, Dallari (2004) nos mostra a vida em sociedade como algo inevitável para o ser humano. Anotações: 38 Sem a vida em sociedade, as pessoas não conseguiriam sobreviver, pois o ser humano, desde que nasce e durante muito tempo necessita de outros para conseguir alimentação, abrigo e outros bens e serviços indispensáveis. E no mundo moderno, com a grande maioria das pessoas morando nas cidades e com o aumento das populações, persistiram e ganharam maior volume as antigas necessidades e a elas se acrescentaram outras, em consequência de hábitos e modos de vida que tornaram necessá‐ rios muitos outros bens (DALLARI, 2004, p. 26-27). Dallari (2004) nospropõe, então, ummovimento reflexivo para indicar as nuances que as sociedades sofreram e que hoje acarretam no que temos como mundo moderno. Esse processo demonstra como as conexões entre as pessoas são necessárias para a suaprópria existência, de talmaneira queohomem é visto como um ser social. De formacomplementar, Dallari (2004, p. 26-27) ressalta que: As regras de comportamento social, mesmo quando refletema vontade da grandemaioria dos membros de um grupo social, são vistas sempre como limitações, que restringem a liberdade individual. Entretanto, é preciso ter em conta, antes de tudo, que o ser humano é associativo por natureza. Isso já foi afirmado hámais de dois mil anos pelo filósofo grego Aristóteles, quando escreveu que “o homem é um animal político”, querendo dizer, em linguagem de hoje, que o ser humano é um animal que não vive fora da sociedade. Anotações: 39 A democracia, neste caso, surge como uma forma de garantir que todos convivam de forma a aceitar a coletividade, sem que o individualismo se sobressaia ou que os regimes se tornem autocráti‐ cos. O senso de coletividade é uma forma de estabelecer conexões importantes no campo dos direitos e do exercício da cidadania. Sendo assim, as problemáticas sociais emdireção ao convívio são inúmeras, logo, consideramos o seguinte pensa‐ mento: Como todos os seres humanos são livres e cada um temsua individualidade, a convivência é fonte permanente de divergências e de conflitos. Para que seja possível a convivência harmônica, necessária e benéfica, é indispensável que existam regras de organização e de comporta‐ mento social. Essas regras não devem ser impostas por uma pessoa ou por umgrupo social sem a participação dos demais membros da sociedade,pois isso afrontaria o direito à igualdade. Assim, por mecanismos democráti‐ cos, respeitando a liberdade e a igualdade de todos, são fixadas as regras. E aquelas conside‐ radas mais importantes são de obediência obrigatória. É assim, e para isso, que nasce o direito, e é desse modo que se estabelece uma organização justa para a sociedade humana (DALLARI, 2004, p. 28). O que o autor direciona, portanto, é uma maneira defixar caminhos para os descaminhos que possam vir a surgir por conta das divergências que incidem na sociedade. Afinal, não há um grupo que consiga conviver comabsoluto equilíbrio e harmonia Anotações: 40 de ideias, concepções e desejos. Para isso, a democracia se destaca como uma forma de estabe‐ lecer diálogo, mesmo entre aqueles que não apre‐ sentamomesmoponto de vista. Contudo, o que não pode ocorrer é uma inversão daquilo que é direito e aquilo que fere os limites da convivência com o próximo, pondo em risco, muitas vezes, a vida de outras pessoas. [...] as regras de comportamento social, que também podem ser denominadas regras de convivência, são necessárias e benéficas para a humanidade,mesmoque signifique restrições ao comportamento das pessoas. Mas é preciso que essas regras sejam justas, não sendousadas para garantir privilégios nem para impor tratamento indigno a uma parte da humanidade. Sociedade organizada com justiça é aquela em que se procura fazer com que todas as pessoas, sem discriminações de qualquer espécie, possam satisfazer suas necessidades essenciais [...] (DALLARI, 2004, p. 28). Deste modo, o senso do que é justo deve ser asseguradopela imparcialidadedaqueles que regem os poderes de determinada nação, devendo o povo participar da escolha desses representantes, assegurando a democracia política. A complexidade desse equilíbrio, no entanto, é umdesafio constante. Para o encerramento das reflexões aqui elencadas, salienta-se que: 41 [...] a cidadania democrática supõe a igualdade de condições socioeconômicas básicas para garantir a dignidade humana. No Brasil, temos a “mutilação da cidadania”, pois historicamente grande parcela da população vive totalmente à margem das conquistas definidas no plano das leis e das normas, sem sequer conhecê-las (BENEVIDES, 2007 apud MARINHO, 2012, p. 69). Diante deste olhar crítico, passaremos à próxima Unidade, com o intuito de compreender os direitos pelos quais os cidadãos devem lutar e respeitar. U ni da de 2 Videoaula 2 Videoaula 4 Videoaula 1 Videoaula 3 Videoaula 5 44 45 VALORES E IGUALDADE DE DIREITOS Esta unidade tem como objetivo organizar uma discussão geral acerca de valores e princípios relacionados aos Direitos Humanos e, por consequência, ao princípio da cidadania. Para tanto, as subseções serão divididas em 5 partes principais, intituladas da seguintemaneira: a. Valores fundamentais para viver em sociedade; b. Princípio da dignidade humana; c. Igualdade de direitos; d. Indivíduo, diversidade, tolerância e respeito às diferenças; e. Multiculturalismo. Anotações: 46 Pode-sedizer, combasenos títulos dadosaqui, que a Unidade 2 traça uma percepção abrangente de aspectos relevantes para os sujeitos possam conviver em sociedade. Os autores com os quais versaremos no decorrer das reflexões são: Menezes (2022), Gomes (2016), Pieritz (2012), Leite (2020), Dallari (2004), Melo (2015) entre outros. Desta forma, cooperamos para que o leque de opções bibliográficas seja o maior possível, a fim de possibilitar o acesso aos diferentes olhares e promover a ampliação dos seus conhecimentos. De forma geral, o que propomos neste cenário de estudo é dialogar com variadas fontes e referên‐ cias, pois com isso direcionamos um caminho profícuo para sua formação. No mais, cumpre-se tambéma ementa fundamental do curso e ressalta- se que as todas as unidades estão interligadas por um continuum que se completa na unidade 4, com os documentos característicos da concretude dos Direitos Humanos. Assim, para este conjunto de estudos, almejamos um debate relevante sobre importantes questões do âmbito humano. Valores fundamentais para viver em sociedade Nesta subseção, trabalharemos com alguns termos específicos que representam valores necessários para o convívio saudável na sociedade. Para tanto, serão necessárias reflexões sobre a importância de compreender o desenvolvimento de cada um deles, pensando num ser humano integral. De certo modo, é por meio dos valores a serem Anotações: 47 elencadosqueohomemse tornahumano, no sentido amplo da expressão. Assim, fazemparte desse construto de valores as seguintes dimensões: a. O respeito; b. A honestidade; c. A humildade; d. A empatia; e. O senso de justiça; f. A solidariedade; g. A ética. Por meio do desenvolvimento dessas dimen‐ sões, o ser humano aprende a conviver socialmente. Nesse caso, cabe destacar a importância que as instituições sociais, como a escola, apresentam no processo de compreensão e aplicação desses valores. Obviamente, tal processo não se restringe às instituições oficiais de ensino, mas não se pode negar a relevância delas. Diante disso, passamos a compreender o que éo respeito, tendo como lente teórica o pensamento de Menezes (2022): O respeito é a capacidadede ter emconsideração os sentimentos das outras pessoas. É um dos valoresmais importantes na condução da vida de uma pessoa, pois pode influenciar as decisões, os relacionamentos e omodo de viver. Esse valor pode ser manifestado de diferentes formas. Um exemplo é o respeito às diferenças. Em uma sociedade existem variadas formas de viver e de pensar, assimcomoexistemdiversas percepções sobre a vida. Para uma boa convivência coletiva seja positiva é fundamental cultivar e exercitar o respeito por pessoas e por decisões diferentes ( 2022 [online]). Anotações: 48 Como se pode ver, o respeito é uma dimensão que contribui diretamente para a boa convivência, tendo em mente que a ausência dessa dimensão pode fazer sobressair um lado extremamente negativo do ser humano. Em outras palavras, é por meio do respeito que se inicia uma conduta demo‐ crática. Contudo, não se pode confundir o que o termo representa, uma vez que existem situações em que determinadas pessoas falam ou cometem atrocidades e, em troca, pedem respeito aos seus discursos e atos. Outro valor que trazemos para esta discussão é voltado para um campo individual e ao mesmo tempo coletivo. Trata-se da honestidade, que segundo Menezes (2022): [...] é um valor fundamental para o ser humano e pode influenciar todos os aspectos da vida de uma pessoa. Ter honestidade significa agir com ética e verdade nas relações humanas e no cumprimento de obrigações, agindo conformeos princípios éticos. Entretanto, o sentimento de honestidade não é associado somente com as relações externas, nos relacionamentos entre pessoas. A honestidade também está ligada à própria consciência do indivíduo, que age com integridade em relação aos seus próprios sentimentos e princípios (MENEZES, 2022, [online]). Percebemos, nas acepções do autor, que a honestidade representa uma forma de consciência do que é certo ou errado dentro das arbitrariedades sociais. Nesse caso, ser honesto é compreender que existem normas e regras que não podem ser Anotações: 49 descumpridas, sendo, portanto, uma decisão do próprio indivíduo num espaço coletivo. Além disso, na prática, tornar-se uma pessoa honesta não significa apenas seguir as leis oficiais,mas também as deliberações estabelecidas no cotidiano, nas ações diárias. Desta forma, as micro ações realiza‐ das no decorrer do dia vão formando o cidadão honesto. Essa percepção está diretamente relacionada ao campo da ética: A ética pode ser definida como a reunião de princípios que determinam as atitudes de uma pessoa. Assim, agir com ética significa viver de acordo com valores morais fundamentais. De acordo com a Filosofia, ética é um conjunto de princípios determinantes para o comportamento humano e para a vida em sociedade (MENEZES, 2022, [online]). No que tange ao espaço discursivo do senso individual,há também o valor da humildade, defini‐ do como: [...] uma virtude muito valiosa na vida de um indivíduo, pois significa a sua capacidade de reconhecer suas falhas ou suas dificuldades. O conceito de humildade se relaciona coma ideia de agir com modéstia, de ter simplicidade em suas atitudes e saber reconhecer suas próprias limitações. Esta característica baseia-se na capacidade de reconhecer-se comoum indivíduo incompleto, reconhecendo as próprias dificulda‐ des e possibilitando a realização de novas experiências e aprendizados (MENEZES, 2022, p.20). Anotações: 50 Combase noque vemos, a humildade demons‐ tra um exercício de autoavaliação das próprias ações e domodo como agimos e nos comportamos em grupo. Essa perspectiva, que não funciona de modoobjetivo, é retratada porMenezes (2022) como uma virtude, logo, é necessário o contínuo exercício de estímulo daquilo que a caracteriza. Ter consciên‐ cia de nossa incompletude é fundamental para desenvolver outros valores, como o respeito, por exemplo. Nessa direção, entramos na definição de empatia, termo muito difundido no senso comum dos últimos anos. Esse valor, por sua vez, é tido como: [...] a capacidade que uma pessoa possui de perceber os sentimentos de outras pessoas, colocando-se "no lugar dela". É um valor impor‐ tante para manter as boas relações humanas porque a partir dela é possível entender os pensamentos e as atitudes dos outros. Desenvol‐ ver a empatia implica conseguir afastar-se de suas próprias ideias e convicções e olhar para um assunto com a percepção de outra pessoa (MENEZES, 2022, p.10). Para tanto, exige-se, nodesenvolvimentodesse valor, um caminho desafiador no sentido da solida‐ riedade. Anotações: 51 A solidariedade é a capacidade de ter simpatia e atenção com outra pessoa, o que demonstra a valorização e a importância dada às outras pessoas. Esse sentimento se caracteriza pelo interesse verdadeiro de se unir ao sofrimento ou à necessidade de alguém, ajudando-o no que for possível. Para que a solidariedade possa ser colocada em prática, são precisos sentimentos de desapego, de empatia e de compaixão (MENEZES, 2022, [online]). Isso demonstra a conexão que essas dimen‐ sões apresentam umas com as outras. Assim, falar de empatia e de qualquer outro valor aqui, é imergir no desenvolvimento do próprio ser humano enquan‐ to ser social. Por isso mesmo, é fundamental que toda e qualquer ação desenvolvida por homens e mulheresseja reconhecidapelo viésdocompromisso com os direitos humanos. Por fim, o senso de justiça é delimitado por Menezes (2022) como: ter a habilidade de avaliar a existência de justiça ou injustiça nas situações. Ser justo é ter como princípio de vida agir com integridadee igualdade, tomando decisões corretas, tanto para simesmo como para os outros. O senso de justiça também pode se manifestar pela capacidade de indigna‐ ção.Diantedeumasituaçãode injustiça, a pessoa se sente obrigada a intervir, opondo-se àquela situação, ainda que não seja um acontecimento emrelaçãoa si próprio (MENEZES, 2022, [online]). Anotações: 52 Em referência ao que estudamos no primeiro capítulo, observamos que o senso de justiça é um dos valores que permeiam a busca pelos Direitos Humanos, historicamente falando.Desta forma, esse senso é uma forma de nos mover em direção à concretude do que é certo dentro do convívio social. Agora, passaremos à próxima seção, cujo tema está diretamente associado a todos os valores que vimos até aqui. Princípio da dignidade humana Para esta seção, serão dispostas observações, definições e reflexões sobre algumas concepções que dão base aos Direitos Humanos, destacando-se as suas relevâncias para os documentos oficiais (nacionais e internacionais), que tratam dessas questões.Nesse sentido, nos apoiaremosemGomes (2016), Pieritz (2012), Frias e Lopes (2015) e Leite (2020). Esses autores trazem recortes pertinentes aocampodosDireitosHumanos, emarticulaçãocom os preceitos já vistos até aqui. Assim, consideramos que já falamos em convivência democrática, e que já refletimos sobre como o respeito às diferenças é necessário para a harmonia coletiva, partimosdaseguinteobservação: “a ideia de igualdade, como nós a conhecemos, é algomuito recente na história humana e seu sentido relaciona- semuito de perto à ideia de Dignidade da Pessoa Humana” (GOMES, 2016, p. 15). O autor nos dirige para o senso de consciência da igualdade e nos fala também de como essas noções, que parecem ser naturais hoje em dia, são na verdade recentes. Anotações: 53 Para ser mais específico com relação ao princípio que dá título a esta subseção, observamos que: [...] aos poucos foi sendo consolidado, historica‐ mente, o referido entendimento segundo o qual todas e todos são iguais por natureza. Para fundamentar esse conceito, a ideia de Dignidade da Pessoa Humana cumprirá papel de extrema relevância. O núcleo dessa ideia possui conteúdo simples e direto: todo ser humano, para além de qualquer característica externa – como cor, raça, classe, crença religiosa, nacionalidade, orienta‐ ção sexual –, é dotado de um valor universal que lhe é atribuído pelo mero fato de se tratar de um ser humano (GOMES, 2016, p. 17). Diante disso, salienta-se um ponto principal que rege o princípio aqui estudado: o de que todos terão seus direitos iguais independentemente de sua “cor, raça, classe, crença religiosa, nacionalida‐ de, orientação sexual”. Em outras palavras, todos nós somos seres humanos e, por isso mesmo, não deve haver distinções que foram por injustiças sociais no decorrer da história humana. Nessa direção, Gomes (2016, p.17) denota um paralelo histórico: Se antes da Modernidade cada grupo distinto de pessoas possuía um status mais ou menos valorizado pela sociedade de acordo com seu contexto social de nascimento, agora toda e qualquer pessoa, independentemente de qualquer contexto, possui o mesmo valor. Anotações: 54 Com efeito, compreende-se que a sociedade humana não é linear, do ponto de vista histórico. Suas nuances demonstram que as mudanças e transformações possuem um caráter positivo em determinados aspectos, uma vez que, quando comparamosos direitos dos homens e dasmulheres de séculos anteriores, percebemos os avanços obtidos até então. Contudo, ainda hámuito o que ser feito,mas essa história de conquistas dos direitos é também parte desse movimento histórico que já destacamos. Na direção do que se compreende por igualda‐ de, é também fundamental avaliarmos os grupos sociais que, ao longo da história humana, tiveram seus direitos negados. Por isso, Pieritz (2012, p.69): traz um apanhado geral desta reflexão: todos os homens fazemparte de uma sociedade, de um grupo social, de uma estrutura social, portanto, podemos dizer que os homens em sociedade convivememgrupo. Cada grupo social possui diferentes características culturais e morais, por exemplo: os povos indígenas, os orientais, os africanos, os alemães, os franceses, os italianos, os americanos, os brasileiros, entre muitos outros. Cada sociedade possui suas normas de conduta comportamental e seus princípios morais, ou seja, cada grupo social ou cada sistema social constitui o que é certo e errado, o que é o bem e o mal para o seu povo. Portanto, nem sempre o que é certo para nós pode ser certo para outro grupo social, e vice- versa. Anotações: 55 Nestaabordagemdaautora, podemosobservar o destaque dado para determinados grupos sociais, como os povos indígenas. Trata-se de umgrupo que sofre as consequências de uma exploração datada emdiversas obras e que, hoje, necessita de políticas que garantam sua própria sobrevivência. A autora destaca ainda a inevitabilidade das diferenças entre os grupos sociais e de como os seres humanos devem estabelecer suas normas de convívio social, com foco no respeito aos diferentes costumes e condutas. Demodo enfático, a autora expõe que: [...] o ser humano nunca conseguirá ser homem sem interagir diretamente com os outros homens, e que neste convívio ele deverá procurar o equilíbrio emseus comportamentos peranteos outros, procurando constantemente se adaptar ao meio em que está inserido. Ou seja, o ser humano necessita respeitar as diferenças para assim melhorar sua condição de vida e angariar sua dignidade humana (PIERITZ, 2012, p. 70). Aqui, destaca-se um aspecto já explorado nas subseções anteriores, nas quais ilustramos a relevância da busca pelo equilíbrio das relações sociais para o convívio coletivo. A autora utiliza a expressão “procurando constantemente se adaptar aomeio emque está inserida", demonstrando que a harmonia deve ser uma espécie de meta contínua das sociedades. Frias e Lopes (2015, p. 653), numadireçãomais legislativa e documental, ressaltam a importância dos organismos institucionais para a garantia dos direitos. Assim, os autores dizem que: Anotações: 56 Ao longo do século XX a dignidade da pessoa humana se tornou um princípio presente em diversos documentos constitucionais e tratados internacionais, começando pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e se espalhando pelo Pacto Internacional sobre os DireitosEconômicos, Sociais eCulturais (PIDESC) (1976) e pelas constituições de Itália (1947, art. 3º), Alemanha (1949, art. 1º), Portugal (1976, art. 1º), Espanha (1978, art. 10), Grécia (1975, art. 7º), Peru (1979, art. 1º), Chile (1980), Paraguai (1992, art. 1º), Bélgica (após a revisão de 1994, art. 23) e Venezuela (1999, art. 3º), dentre diversos outros pactos, tratados, declarações e constituições. Apesar deste destaque, os autores ressaltam, contudo, que: [...] a ideia de dignidade não surgiu no século XX e nem sempre esteve associada aos direitos humanos ou fundamentais. No período romano ela se referia à qualidade de quempossuía certas ocupações e posições públicas. Foi apenas durante amodernidadequeela passoua se referir a um valor possuído por todas as pessoas (FRIAS E LOPES, 2015, p. 653). Num diálogo importante para a construção desse pensamento, Leite (2020) destaca algumas questões históricas que também acarretaram a busca pela garantia da dignidade humana. Anotações: 57 O reconhecimento e a proteção da dignidade da pessoa humana nos textos constitucionais aumentaramapósSegundaGuerraMundial, como forma de reação às práticas ocorridas durante o nazismo e o fascismo e contra o aviltamento desta dignidade praticado pelas ditaduras ao redor do mundo. A dignidade humana tornou-se umsuper princípio quepassoudoplanoéticopara o campo normativo, sendo o centro de todo o direito. Foi um marco histórico e essencial da nova fase do neoconstitucionalismo (pós-positi‐ vismo) (LEITE, 2020, p.20). Diante disso, podemos chegar a uma tentativa dedefinição, combasena afirmaçãodeLeite (2020). Todavia, não queremos aqui estabelecer um único campo de construção do conhecimento acerca dos direitos humanos. Trata-se de uma forma de didatizar nossos estudos. Logo, o princípio da dignidade humana: Éo fundamento axiológico do constitucionalismo contemporâneo e do neoconstitucionalismo, a dignidade é considerada o valor constitucional supremo e serve como razão para decisão de casos concretos e, principalmente como diretriz para a elaboração, interpretação e aplicação das normas que compõem a ordem jurídica e o sistema de direitos fundamentais (LEITE, 2020, p. 20). Anotações: 58 Por fim, resume-se que: [...] os direitos fundamentais são prerrogativas próprias dos cidadãos em função de sua especial condição de pessoa humana, e as garantias fundamentais são os instrumentos e mecanis‐ mos necessários para a proteção, a salvaguarda ou o exercício desses direitos. Porém, os direitos fundamentais não podem ser considerados absolutos, posto que todos os direitos são passíveis de relativização e podem entrar em conflito entre si (LEITE, 2020, p. 22). A partir dessa visão abrangente, é necessário ampliar a noção de igualdade que foi discutida no início desta subseção, a fim de entender o movi‐ mentoconstantedasconcepçõesquedirigemotema dos Direitos Humanos e da cidadania. Igualdade de direitos Nesta subseção, trataremos de umadimensão essencial para o entendimento do conteúdo de “Direitos Humanos e Cidadania”. Para tanto, serão utilizadas inicialmente quatro definições dicionari‐ zadas para construir um caminho de entendimento. Os termos que serão explorados neste caso são os seguintes: IGUALDADE ISONOMIA IGUAL EQUIDADE Anotações: 59 Assim, de formadicionarizada, temos, segundo Bechara (2011): As definições dicionarizadas nos dão um panorama direcionador para os nossos objetivos de compreensão. Observamos, principalmente, a existência de um senso democrático que assume o valor de equilíbrio e respeito mútuo. Além disso, percebe-se que os quatro termos caminham no sentido regulador da harmonia, uma vez que a efetividade deles permite que as pessoas percebam no outro a necessidade do bem-estar coletivo. IGUAL: “Sem diferença; que não muda; que ou quem tem a mesma condição; do mesmo modo; nas mesmas condições; sem vantagens [...]”. IGUALDADE: “Qualidade do que não apresenta diferenças; relação entre dois valores iguais”. EQUIDADE: “Reconhecimento do princípio de que todas as pessoas têm direitos iguais; imparcialidade e senso de justiça no julgamento e na maneira de agir; retidão”. ISONOMIA: “Princípio que assegura a igualdade de todo cidadão perante a lei; condição dos que são regidos pelas mesmas leis”. Anotações: 60 Destaca-se, nos conceitos dicionarizados, algumas expressões fundamentais: a) “princípio de que todas as pessoas têmdireitos iguais”; “imparci‐ alidade e senso de justiça”; “assegura a igualdade de todo cidadão perante a lei”. Nessa esteira de reflexões, Dallari (2004), afirma que: “os humanos nascem iguais em dignidade e direitos. Em quase todas as Constituições do mundo está escrito que todos são iguais perante a lei” (DALLARI, 2004, p. 46). Combase nisso, é possível perceber umconsen‐ so, mas, com efeito, é importante destacar os termos equidade e isonomia como aqueles mais próximos do campo em que podemos situar os direitos humanos. Assim, como formade compreen‐ der a base de fundamentos, permaneceremos também na compreensão dos vocábulos “igual” e “igualdade”. Problematizando as questões relacionadas a esse campo, buscamos a seguinte citação: [...] o que se vê na realidade é que as pessoas são tratadas como desiguais. As próprias leis garantem a desigualdade, e nos costumes de quase todos os povos encontram-se muitas práticas baseadas na desigualdade, podendo-se ver claramente que em grande número de situações as pessoas não são tratadas como iguais (DALLARI, 2004, p. 46). Destemodo, abrimosum lequeparadiscussões mais incisivas, o que, no terrenodosestudos sociais, é muito explorado. Para isso, optamos por fornecer alguns textos quepodemampliar o seu conhecimen‐ to acerca das problemáticas existentes na socieda‐ de em que vivemos. Anotações: 61 Os textos, por sua vez, são trabalhos de graduação e dissertações de mestrado que traba‐ lharam os pressupostos dos direitos humanos, refletindo sobre as injustiças sociais que incidem sobre nossa sociedade. Assim, indicamos 2 deles, sendo: De modo progressivo à crítica que se vinha construindo com Dallari (2004, p.48), observamos outra fala do autor: O estado democrático social de direito em face do princípio da igualdade e as ações afirmativas Autor: Araújo, José Carlos Evangelista de. Disponível em: https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/ PUC_SP-1_881fe84ea9fc0bb0e6c07d9b34edb035 A liberdade e a igualdade do homem, no estado natural e social, segundo Jean-Jacques Rousseau Autor: EdesminWilfrido Palacios Paredes Disponível em: https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/ USP_98dca35841128ebc761676a00def1eec Anotações: 62 Quando se diz que todos os seres humanos nascem iguais, o que se está afirmando é que nenhum nasce valendo mais que o outro. Como seres humanos, todos são iguais, não importando onde nasçam, quemsejamseus pais, a raça a que pertençamou a cor de sua pele. Se todos nascem iguais [...], como se explica que uns já nasçam muito ricos, tendo toda assistência, proteção econforto, enquanto outros nascem miseráveis, mal podendo sobreviver, sem cuidados médicos e sem a certeza de que terão os próprios alimentos indispensáveis à vida? Neste caso, percebemos que o assunto envolvendoaequidade, igualdadee isonomiaémuito propício ao debate geral. Existem, inúmeros cami‐ nhos que podemos levantar, como o que foi exposto pelo autor: a injustiça social que garante leis promotoras da igualdade. As reflexões de Dallari (2004, p.50) caminham ainda para o encerramento desta seção, da seguinte forma: Nãobasta afirmarque todasaspessoas são iguais por natureza. Para que essa afirmação tenha resultados práticos, é preciso que a sociedade seja organizada de tal modo que ninguém seja tratado como superior ou inferior desde o instante do nascimento. É preciso assegurar a todos, de maneira igual, a oportunidade de viver com a família, de ir à escola, de ter boa alimenta‐ ção, de receber cuidados de saúde, de escolher um trabalho digno, de ter acesso aos bens e serviços, de participar da vida pública e de gozar do respeito dos semelhantes. Anotações: 63 Logo, o autor faz um apanhado discursivo e crítico que direciona um forte aspecto deste material: osdireitoshumanoseacidadanianãoestão desvinculados das injustiças sociais, nem dos contextos históricos que permeiam a vida humana. Indivíduo, diversidade, tolerância e respeito às diferenças Enquanto a subseção anterior se concentrou em discussões voltadas à igualdade, equidade e sinônimos disso. Aqui, nesta seção, vamos direcio‐ nar nosso enfoque para o que há de diferente nos sujeitos e como isto é importante no debate acerca da própria igualdade. Nessa direção, vamos nos apoiar em autores comoRodrigues e Abramowicz (2013), Dallari (2004), Carvalho e Faustino (2015), Martins e Slavez (2015), entre outros. Com isso, nos atemos à noção do primeiro assunto a ser debatido. Na verdade, retomamos o sentido de igualdade para depois avançarmos, por isso, adiantamos e destacamos que: Não é difícil reconhecer que todas as pessoas humanas têm necessidades e por esse motivo, como todas as pessoas são iguais – uma não vale mais do que a outra, uma não vale menos do que a outra -, reconhecemos também que todos devem ter a possibilidade de satisfazer suas necessidades básicas de ser humano (DALLARI, 2004, p. 13). Anotações: 64 Partindo disso, movimentamos nossa lente para o tema central desta subseção, a diversidade. Essa, por sua vez, junto a outros temas: [...] a diversidade e outros temas a ela relaciona‐ dos têmsido tratados de forma central no debate internacional e nacional, nas discussões sobre o desenvolvimento e na formulação de políticas públicas, especialmente na área da educação. Tal expressão passou a ser cada vez mais frequente nos títulos de programas e ações do governo brasileiro, bem como de suas secretarias e publicações (RODRIGUES; ABRAMOWICZ, 2013, p. 17). Comosevê, asquestões relativas àdiversidade se movem para um grau de relevância expressivo, sobretudo quando se fala no destaque que elas recebem no âmbito oficial. Contudo, os autores observam importantes fatores que podemser vistos como ponto de partida para reflexões: Se, por um lado, a utilização desse conceito pode revelar o surgimento de uma inflexão do pensamento social, por outro, a imprecisão ou seu uso indiscriminado pode restringir-se ao simples elogio às diferenças, pluralidades e diversidades, tornando-se uma armadilha conceitual e uma estratégia política de esvazia‐ mento e/ou apaziguamento das diferenças e das desigualdades (RODRIGUES; ABRAMOWICZ, 2013, p. 17). Anotações: 65 Conforme apresentado, o termo diversidade parece ganhar outro significado no senso comum – no uso corriqueiro e por vezes errôneo ou limitado. O fato de a diversidade ter ganho espaço nas discussõeséumaspectopositivo, contudo, épreciso que o sentido real dessa dimensão seja explorado de forma correta. De acordo com Dallari (2004, p. 13): Um ponto que deve ficar claro, desde logo: a afirmação da igualdade de todos os seres humanos não quer dizer igualdade física nem intelectual ou psicológica. Cada pessoa humana tem sua individualidade, sua personalidade, seu própriomodo de ver e de sentir as coisas. Assim, também, os grupos sociais têm sua cultura própria, que é resultado de condições naturais e sociais. [...] Em tal sentido, as pessoas são diferentes, mas continuam todas iguais como seres humanos, tendo as mesmas necessidades e faculdades essenciais. Disso decorre a existência de direitos fundamentais, que são iguais para todos. Aqui, é importante salientar o significado de indivíduo, individualidade de individualismo. Para isso, recorremos a Bechara (2011), segundo o qual: Anotações: 66 O indivíduo, no sentido literal da palavra, é o próprio homem e este, por conseguinte, apresenta características que o tornam único, isto é, o distin‐ gue dos demais. O individualismo, por sua vez, não é um aspecto positivo para a convivência em sociedade, tendo em vista o caráter específico de se preocupar apenas com o próprio bem-estar, em detrimento do coletivo. De modo mais específico à diversidade compreendemos uma contextualização associativa à realidademoderna: O que se experimenta hoje é a intensificação de se fazer visível a diversidade, por exemplo, nos diversosgostosecostumesenosdiversosmodos de pensar e propagar valores. Essa visibilidade do diverso se apresenta no cotidiano e desafia a convivência no que tange à tolerância (CARVA‐ LHO; FAUSTINO, 2015, s.p). INDIVÍDUO: “Que não se divide, indivisível; ser pertencente à espécie humana; homem; o ser humano como integrante de uma sociedade; homem [...]”. INDIVIDUALIDADE: “Aquilo que constitui o indivíduo; peculiaridade que distingue uma pessoa ou coisa [...]”. INDIVIDUALISMO: “Ato ou procedimento egoísta, egocentrismo [...]”. Anotações: 67 A fim de destacar o termo tolerância, separa‐ mos seu conceito e discussão no espaço a seguir: O termo, não se podenegar, ganhou aindamais relevância nos últimos anos e, entre as expressões mais relacionadas ao respeito aos diversos tipos de diferenças que existem numa sociedade, esse parece ser o que mais se passou a utilizar. Com isso, recorremos ao seguinte ponto: A tolerância é um dos temas que ocupa a mesa dos debates urgentes no contexto do convívio social. Temos presenciado uma sociedade mais conectada e commais acesso a informações, se comparada a outros tempos; porém, os níveis de informações falsas têm contribuído para aumentar os níveis de intolerância em relação ao outro. Fontes (2015) afirma que, para enfrentar a intolerância no contexto mundial, que chega ao seu ápice com as guerras, é necessário diálogo intercultural e compromisso da ONU, para, assim, eliminar todas as formas de autodestrui‐ ção da humanidade (FAVENI, 2022, p. 57). NOTA Tolerância é um termo originário do latim tolerare que significa suportar, aceitar. No sentido moral, político e religioso, pressupõeaatitudedeaceitar osdiferentes modos de pensar, de agir e de semanifestar do outro. Emsíntese, é o reconhecimento eo respeito pelo outro como um sujeito de direitos. Portanto, a ideia da tolerância assume valor ético e político, e, com base nela, todas as pessoas deveriam ser reconhecidas de forma igual e tratadas sem discriminação e violência (CARVALHO; FAUSTINO, 2015). Anotações: 68 Sede um lado vínhamos falando em tolerância, é preciso tambémcompreendermos o seu significa‐ do. Assim, destacamos, mais uma vez, a definição literal, por considerarmos que algumas expressões precisam ser interpretadas sem subjetivações. Se pensarmos de modo mais aprofundado, vamos enxergar os inúmeros tipos de intolerância que existem no campo social. Contudo, nosso foco nesta subseção não é esse. Desta forma, para caminharmos ao fim dos assuntos debatidos aqui de forma breve: Adiversidade fazpartedahumanidade, istoé fato. Os seres humanos são semelhantes, enquanto gênero humano, porém as diferenças existem, pois asculturas sãodiferentes, bemcomogênero, raça, idades, experiências, dentre outras questões,bem como a diversidade biológica (MARTINS; SLAVEZ, 2015, p. 5). Assim, Gomes (2007, p. 22) afirma que “o nosso grande desafio está em desenvolver uma postura ética de não hierarquizar as diferenças e entender que nenhumgrupo humano e social émelhor ou pior do que outro. Na realidade, somos diferentes”. Em contrapartida, Scalon (2011, p. 50), afirma que: INTOLERÂNCIA: “Qualidade de intolerante; ausência de tolerância, de condescendência; atitude intransigente, repressora em relação a ideias, crenças e opiniões alheias”. Anotações: 69 [...] a desigualdade não é um fato natural, mas sim uma construção social. Ela depende de circunstâncias e é, em grande parte, o resultado das escolhas políticas feitas ao longo da história de cada sociedade. Mas também sabemos que todas as sociedades experimentam desigualda‐ des e que estas se apresentam de diversas formas: como prestígio, poder, renda, entre outras — e suas origens são tão variadas quanto suas manifestações. O desafio não é apenas descrever os fatores e componentes das desigualdades sociais,mas tambémexplicar sua permanência, e em alguns casos seu aprofunda‐ mento, apesar dos valores igualitáriosmodernos. Multiculturalismo Nesta última subseção será discutido uma temática que se encaixa nos espaços do respeito, da tolerância e na garantia da igualdade de direitos. Trata-se do multiculturalismo, conceito estudado pelas áreas sociais e que há tempos vem ganhando destaquenosníveis deensino, naspolíticas públicas, na mídia e em uma série de outras esferas do convívio coletivo humano. Antes de aprofundarmos os olhares de Lapla‐ tine (1989), Gomes (2008), Zaboni (2015), Santos (1997) e Melo (2015), veremos, as definições diciona‐ rizadas do termo cultura, a partir de Bechara (2011). Anotações: 70 Combasenosentido literal do termo, épossível avançarmospara oqueos autores aqui selecionados nos dizem acerca dos temas que permeiam o multiculturalismo.Assim, parte-seda ideia de social: O social é a totalidade das relações (relações de produção, de exploração, de dominação [...]) que os gruposmantêm entre si dentro de ummesmo conjunto (etnia, região, nação [...]) e para com outros conjuntos, também hierarquizados. A cultura, por sua vez, não é nada mais que o próprio social, mas considerado dessa vez sob o ângulo dos caracteres distintivos que apresen‐ tam os comportamentos individuais dos membrosdessegrupo, bemcomosuasproduções originais (artesanais, artísticas, religiosas [...]) (LAPLANTINE, 1989, p. 120). CULTURA: “[...] Conjunto de experiências, realizações e conhecimentos que caracterizam determinado povo, nação ou região. Conjunto de conhecimen‐ tos de determinado indivíduo [...]. Os padrões e normas que regulam a ação humana individual e coletiva, da forma como se desenvolvememuma sociedade ou grupo específico, e que apresen‐ tam em quase todos os aspectos da vida: maneiras de sobrevivência, regras de comporta‐ mento, crenças, valores, instituições, criações materiais etc”. Anotações: 71 Dialogando com a perspectiva de Laplatine (1989), trazemos a fala de Gomes (2008, p. 36), segundo o qual: [...] cultura é o modo próprio de ser do homem em coletividade, que se realiza em parte consciente, emparte inconsciente, constituindo um sistema mais ou menos coerente de pensar, agir, fazer, relacionar-se, posicionar-se perante o absoluto, e, enfim, reproduzir-se. Dentro dessa abordagem, Laplatine (1989) ilustra umpanorama em relação à cultura, tendo em vista o destaque que ele fornece para o convívio e para as relações humanas. Desta maneira, verifica‐ mos que: [...] o que distingue a sociedade humana da sociedade animal, e até da sociedade celular, não é de forma alguma a transmissão das informa‐ ções, a divisão do trabalho, a especialização hierárquica das tarefas (tudo isso existe não apenas entre os animais, mas dentro de uma única célula!), e sim essa forma de comunicação propriamente cultural que se dá através da troca não mais de signos e sim de símbolos, e por elaboração das atividades rituais aferentes a estes. Pois, pelo que se sabe, se os animais são capazes de muitas coisas, nunca se viu algum soprar as velas de seu bolo de aniversário (LAPLANTINE, 1989, p. 121). Anotações: 72 Com base nisso, o que percebemos é que a cultura, pensada como esse conjunto de inúmeras características, é uma convenção dos homens e mulheres que, no decorrer do tempo, foram se organizando e construindo seus valores nos seus espaços. Nesse sentido, as normas, os padrões, as regras e outras formas de organização foram surgindo para garantir o bom funcionamento das sociedades. Por essa razão: Várias formas de diferença e desigualdade convivemna sociedadecontemporânea. Ao longo de suas trajetórias de vida, os indivíduos se identificame se diferenciamdos outros dasmais diversas maneiras. [...]. Os marcadores sociais da diferença são sistemas de classificação que organizam a experiência ao identificar certos indivíduos com determinadas categorias sociais (ZAMBONI, 2015, p. 13). Avançando nesse rumo, especialmente no respeito à diversidade – assunto que já abordamos na subseção anterior –, passamos a palavra para Boaventura deSouza Santos (1997, p. 19), que propõe uma definição para o termo: multiculturalismo. O multiculturalismo, tal como eu entendo, é pré- condição de uma relação equilibrada e mutua‐ mente potenciadora entre a competência global e a legitimidade local, que constituem os dois atributos de uma política contra-hegemônica de direitos humanos no nosso tempo. Anotações: 73 Santos (1997) destaca a relevância domulticul‐ turalismo para os direitos humanos e, de forma complementar, trazemos Silva (2003), autora afirma que: O termo multiculturalismo teve sua origem nas lutas iniciais contra o racismo empreendidas pelos negros norte-americanos. Inicialmente, surge a partir do reconhecimento da diversidade de culturas existentes naquele país, mas, no entanto, preconizava que as diversas culturas existentes no interior desse território deveriam ser [...] assimiladas pela cultura dominante (SILVA, 2003, p. 20). NavisãodicionarizadadeBechara (2011), vemos que o termo ganha as seguintes conotações: Diante dessa definição, destacamos os termos preconceito e discriminação que, apesar de não ser o nosso foco, trata-se de um conjunto relevante de problemáticas tangentes ao assunto geral dos direitos humanos. Observamos ainda a transdisci‐ plinaridade do termomulticulturalismo: MULTICULTURALISMO “Prática de acomodar culturas distintas, numa única sociedade, sem preconceito ou discriminação. Anotações: 74 [...] o multiculturalismo sinaliza uma abrangência transdisciplinar nas áreas de educação, história, antropologia, sociologia, filosofia, economia, política, artes, literatura, comunicação, etc. Talvez não pudesse ser diferente. O mesmo é tributário de outro termo complexo: cultura (MELO, 2015, p. 1497). Nessa direção, finalizamos a ideia acerca do tema da seguinte forma: O multiculturalismo é o reconhecimento das diferenças e da individualidade de cada um. [...] O multiculturalismo democrático defende o diálogo dentro da multiculturalidade das sociedades plurais. Ele visa o desenvolvimento humanoea justiça social. Adiversidade (UNESCO, 2002) é compositora de tais sociedades em uma dimensão complexa. Imbuídos dessas certifica‐ ções é situado o eixo vertebrador do multicultu‐ ralismo: a diferença. Esta, por sua vez, alocada em um âmbito de tolerância. O reconhecimento da diferença implica, portanto, em uma revisão do tratamento dispensado às identidades nas democracias tradicionais (MELO, 2015, p. 1497). Assim, ressalta-se nesta unidade de estudo a importância dos valores e das atitudes que contri‐ buampara o equilíbrio social e para a superação das injustiças. Afinal, poderíamos analisar os direitos humanos e o exercício da cidadania apenas pelo viés jurídico e legislativo, mas esse não pode ser desas‐ sociado das questões sociais e culturais. Anotações: 75 U ni da de 3 Videoaula 2 Videoaula 4 Videoaula 1 Videoaula 3 Videoaula5 78 79 DIREITOS BÁSICO PARA CONVÍVIO EM SOCIEDADE Esta unidade temcomo foco a discus‐ são sobre direitos específicos dos cidadãos. Todos eles, de alguma forma, estão interli‐ gados,mas, para efeito didático, vamos nos ater a um de cada vez. A Unidade 3 está organizada em 5 subseções, as quais receberam os seguintes títulos: a. Direito à educação; b. Direito à saúde; c. Direito aomeio ambiente sadio; d. Direito à liberdade real; e. Direito à vida. Os teóricos que, de forma geral, sustentam nossas discussões são: Dallari (2004) eMarinho (2012), através de umolhar Anotações: 80 histórico-social com problemáticas inerentes à sociedade brasileira. Direito à Educação É comum as pessoas acreditarem que “a educação é a base de tudo”; “sem educação, não chegamos a lugar algum”. No entanto, a partir disso surge o seguinte questionamento: por que a educa‐ ção é importante para a sociedade? Antes de chegarmos a uma resposta, veremos o que o dicionário de Bechara (2011) nos diz a respeito do conceito de Educação. Além desse conceito, voltamos também para a definição de Dallari (2004), autor que aborda o termo de forma mais abrangente e associada a várias outras questões: A educação é um processo de aprendizagem e aperfeiçoamento, pormeio do qual as pessoas se preparam para a vida. Através da educação obtém-se o desenvolvimento individual da pessoa, que aprende a utilizar do modo mais conveniente sua inteligência e sua memória. Desse modo, cada ser humano pode receber conhecimentos obtidos por outros seres humanos e trabalhar para a obtenção de novos conhecimentos (DALLARI, 2004, p. 66). EDUCAÇÃO “Formação e desenvolvimento do ser humano, intelectual, moral e fisicamente, visando à integralidade social, usando os métodos apropriados e gerenciais em estabelecimento adequado; ensino, instrução. Civilidade, lapidação, polidez”. Anotações: 81 Em referência a uma educação integral, podemos dizer que o autor considera a relevância da educação, mediante o desenvolvimento geral do ser humano. Homens e mulheres teriam, na educa‐ ção, um norte para o aprimoramento das mais variadas questões cabíveis à atuação emsociedade. Por isso, o autor complementa que: A educação torna as pessoas mais preparadas para a vidamas tambémpara a convivência. Com efeito, a pessoa mais educada tem maior facilidade para compreender as demais, para aceitar as diferenças que existem de indivíduo para indivíduoepara dar apoio aodesenvolvimen‐ to interior e social das outras pessoas. Por isso, a educação de cada um interessa a todos (DALLARI, 2004, p. 66). Aqui, Dallari (2004) destaca a importância que odesenvolvimentoeducacional podealcançar, tendo em vista que a convivência social é uma das princi‐ pais. Em outras palavras, educar-se é, de fato, uma das bases para quaisquer outras dimensões da vida. Contudo, vale deixar claro que a educação não se resume ao ensino e a aprendizagem de disciplinas escolares. Ela deve ser omnilateral, no sentido de totalidade e desenvolvimento multidimensional. Tendo consciência dessa abrangência, é possível traçarmos osmotivos pelos quais a educa‐ ção é tão importante para a sociedade. Entretanto, não se pode esquecer do alcance que ela possui em outros conjuntos de coletividade, que não seja a escola. Por isso, o autor orienta que: Anotações: 82 [...] a educaçãodeumapessoa começana família ou no meio social em que a criança nasceu e passa a viver. Essa é a chamada educação informal, que é dada fora da escola, tanto à criança quanto ao adolescente e ao adulto. Ao lado dessa, existe, ou pelo menos deve existir, a educação formal, que é dada na escola. Não se pode dizer que uma seja mais importante que a outra, pois na realidade ambas podem ter influência decisiva na vida de qualquer pessoa (DALLARI, 2004, p. 66). Com base nisso, podemos dizer que a educa‐ ção, em espaços formais e informais de ensino e convívio, é uma das maneiras de determinar os aspectos mais necessários ao desenvolvimento do cidadão. Assim, odireito à educaçãoéessencial para os seres humanos. Por todas essas razões, tornou-se praticamente indispensável a boa educação escolar, a fim de que a pessoa possa desenvolver sua personalida‐ de e esteja bem preparada para a vida social. É por isso que se define o direito à educação, tanto na família quanto na escola, como um direito fundamental da pessoa humana (DALLARI, 2004, p. 69). Dentro dessa ótica, é preciso ainda compreen‐ der o que é uma educação de qualidade, visto que apenas ter o acesso à escola não é o suficiente para determinar o direito à educação. Anotações: 83 Quando se fala em boa educação e bom preparo, é preciso ter cuidado para que isso não seja interpretado como se o processo educacional fosse o que o notável educador Paulo Freire denominou educação domesticadora. Educar beméestimular o uso da inteligência e da crítica, é reconhecer em cada criança uma pessoa humana, essencialmente livre e capaz de raciocinar, necessitada de receber informações sobre as conquistas anteriores da inteligência humana e sobre a melhor forma de utilização de tais informações para a busca de novos conheci‐ mentos (DALLARI, 2004, p. 70). Verifica-se, então, que a educação de qualida‐ de é um fundamento basilar para todos,mas precisa ser alcançada através de determinadas característi‐ cas para garantir a efetividade desse direito, visto que educar-se é uma ação constante e abrangente. A educação deve ser prioridade de todos os governos, pois através dela as pessoas se aperfeiçoameobtêmelementos para seremmais úteis à coletividade. Dando-se bastante apoio à educação, muitos problemas desaparecerão, porque as pessoas estarãomais preparadas para a convivência, e haverá maior participação no estudo e na decisão dos assuntos de interesse comum. É necessário e justo que os recursos da sociedade sejamutilizados para atender a todos, de modo igual, o direito à educação (DALLARI, 2004, p. 71). Anotações: 84 Dallari (2004) observa que a educaçãopode ser o pressuposto para a diminuição dos inúmeros problemas sociais que acometem a sociedade. Ter direito a uma boa educação deveria ser encarado como uma prioridade. Sabemos, todavia, que em uma sociedade existem outras tantas prioridades, por isso, são direitos humanos fundamentais para a existência humana. Por consequência deste senso, passaremos a analisar também a importância do direito à saúde. Direito à saúde Iniciamos esta seção a partir de vários recor‐ tes direcionados ao que se entende por saúde e de como ela se configura como um direito para os cidadãos. Para tanto, começamos com a seguinte perspectiva: O direito à saúde é umdos direitos fundamentais da pessoa humana e como tal é assegurado na Constituição Brasileira. É importante assinalar que o direito à saúde é muito mais amplo do que a assistência médica, significando “o estado de completo bem-estar físico, psíquico e social”, devendo ser assegurado com essa extensão (DALLARI, 2004, p. 73). De início, já verificamos que a saúde não se limita à noção de “não estar doente”, mas a um sentido mais amplo do que este do senso comum. Para isso, apresentaremos através da fala de Dallari (2004) a reiteração dessa afirmativa aqui posta: Anotações: 85 Quando se fala em saúde, a primeira ideia das pessoas é que se tem saúde ou querer que o governo garanta a saúde porquemuitas doenças acontecem por motivos que não dependem da vontade das pessoas das ações dos governos e por isso não podemser evitadas. Para que os que pensam desse modo parece estranho falar em direito à saúde. Será possível que uma pessoa possa ter o direito de não [...] ter bronquite, de não contrair tuberculose ou sarampo? (DALLARI, 2004, p. 73). Esses exemplos do autor nos mostram que a saúde, como umdireito, não é algo subjetivo. Isto é, cadaumdenósdeve receber asdevidas assistências para o nosso bem-estar, o que não significa que vamos ser impedidos de ficar doentes. Trata-se, portanto, de um direito de garantia do acesso aos procedimentos e formas de prevenção ou tratamen‐ to. Com isso:[...] para que se diga que uma pessoa tem saúde não basta que ela não sofra de alguma doença. Uma das organizações mais importantes do mundo, especializada emassuntos de saúde, que é a Organização Mundial de Saúde, diz que não é suficiente a ausência de doenças. Para que se diga que umapessoa temsaúde é preciso que ela goze de completo bem-estar físico, mental e social. Isso quer dizer que além de estar fisicamente bem, sem apresentar sinal de doença, a pessoa deve estar com a cabeça tranquila, podendo pensar normalmente e relacionar-se com outras pessoas sem qualquer problema (DALLARI, 2004, p. 73). Anotações: 86 Tal abordagem citada pelo autor, revela que a complexidade do direito à saúde é grande, uma vez que ela envolve inúmeros fatores que podem contribuir com o bem-estar ou não de uma pessoa. Isso vai desde fornecer estrutura adequada em hospitais e até assegurar medidas de combate e prevenção a doenças. O direito à saúde inclui a possibilidade de boa alimentação. O corpo humano necessita de alimentos para se manter ativo e a fim de que a pessoa tenha energia suficiente para desenvolver suas atividades. Antesmesmode nascer, quando ainda está no ventre damãe, a criança necessita de alimentos, que só receberá se a mãe for bem alimentada (DALLARI, 2004, p. 73). Combase nisso, nos apegamos a outra fala de Dallari, segundo a qual: “[...] o ideal é que as pessoas não cheguemaficar doentes ou tenhamummínimo de doenças, o que é perfeitamente possível se todos tiveremcondições de vida saudáveis, tendo assegu‐ rado seu direito à saúde [...]” (DALLARI, 2004, p. 75). Pensando assim, vemos que o direito à saúde torna-se uma pauta de interferência dos governan‐ tes, no sentido de organizar recursos e formas de atendimento à população, procurando manter sempre a igualdade entre as pessoas, ou seja, sem distinguir as formas de acesso ao que já citamos anteriormente. Anotações: 87 [...] é necessário que o governo trabalhe permanentemente procurando evitar doenças, garantindo boas condições de vida para todos, mas também dando educação ao povo sobre os cuidados de saúde, realizando vacinação, cuidando da qualidade da água fornecida à população, construindo redes de esgotos e eliminando todos os focos de doenças. Essas providências são necessárias para que seja assegurada a toda a população o direito à saúde (DALLARI, 2004, p. 75). Dallari (2004) complementa ainda que: Comoficamuito claro, o direito à saúde é umdos direitos fundamentais dos seres humanos, porque semesse direito ninguémconsegue viver combem-estar e realizar tudo o que é necessário para que uma pessoa seja feliz. Além disso, a pessoa sem saúde não pode ajudar as outras pessoas a conquistarem o seu bem-estar. Por todos esses motivos, uma sociedade só poderá ser considerada justa se todas as pessoas, sem nenhuma exceção, tiverem efetivamente assegurado seu direito à saúde desde o primeiro instante de vida. E no direito à saúde deve estar compreendido tudooque for necessário para que a pessoa goze de completo bem-estar físico, mental e social (DALLARI, 2004, p. 78). Dentro dessamesma linha, podemos articular outro tipo de direito que, de certo modo, envolve a saúde dos sujeitos de forma individual,mas também extrapola isso para um senso coletivo muito maior. Anotações: 88 Direito aomeio ambiente sadio Aparentemente, esse assunto pode causar estranhamento para alguns, afinal de contas, como teríamos direito a algo tão abrangente? De que forma poderíamos nos imaginar reivindicando o direito a ter um meio ambiente adequado ao nosso convívio? Antes de iniciarmos as respostas a estes questionamentos, passaremos a compreender o conceito de meio ambiente, partindo da visão dicionarizada, comofizemos emoutras subseções: Combase nessas linhas definidoras, percebe‐ mos inicialmente uma aproximação tão explícita entre elas, que é possível afirmar a existência de um grau de redundância. De modo que, ao utilizar o termo “ambiente”, já poderíamos supor o próprio “meio ambiente”. Entretanto, não entraremos no mérito dessaquestão, destacandoaexpressão “meio MEIO: “Ambiente onde se vive ou trabalha [...]”. MEIO AMBIENTE: : “[...] Conjunto de fatores físicos e biológicos que rodeiam os seres vivos”. AMBIENTE: : “Que envolve a vida dos seres; o meio em que transcorre a vida; meio ambiente; soma das condições circundantes, físicas, morais ou emotivas [...]”. Anotações: 89 ambiente” por estar relacionada aos documentos e autores que a debatem. Assim, de acordo coma lei n.º 6.938/1981,meio ambienteé “o conjuntodecondições, leis, influências e interaçõesdeordem física, química ebiológica que permite, abriga e rege a vida, em todas as suas formas” (BRASIL, 1981). A partir disso, buscamos em Dallari (2004) as percepções do meio ambiente equilibrado como um direito: ODireito aomeio ambiente sadio já está expresso emmuitas Constituições domundo contemporâ‐ neo. Já existe o reconhecimento de que o meio ambiente é fundamental para a qualidade de vida dos seres humanos. Por isso, não se admite que a busca desenfreada de riquezas, o egoísmo e a inconsciência de alguns levem a práticas que degradem o meio ambiente e destruam a vida (DALLARI, 2004, p. 79). O autor reconhece a garantia de um ambiente sadio para os seres humanos, o que está previsto constitucionalmente nas legislações de muitos países. Além disso, o autor problematiza a questão da degradação, o que nos leva a lembrar da poluição, retratada como: [...] a degradação da qualidade ambiental resultante de atividade que, direta ou indireta‐ mente: a) prejudique a saúde, a segurança e o bem-estar da população; b) crie condições adversas às atividades sociais e econômicas; c) afete desfavoravelmente a biota; d) afete condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente; e) lance matérias ou energia em desacordo comos padrões ambientais estabele‐ cidos (BRASIL, 1981). Anotações: 90 O fato de situarmos as problemáticas de uma condição de meio ambiente sadio tem a ver com fatores de coletividade, uma vez que as condições ambientais atingem a todos, inclusive às futuras gerações da espécie humana. É inegável que questões relacionadas à partici‐ pação e à cidadania encontram-se no cerne da questão ambiental, evidenciando que a natureza tornou-se, agora, antes de tudo, um tema visceralmente e necessariamente político. Pode- se afirmar que a relação é centrada em dois aspectos: em primeiro momento, a proteção do meio ambiente como forma de se conseguir o cumprimento dos direitos humanos, vez que o entorno ambiental, se lesado, contribui indireta‐ mente para a infração de direitos reconhecidos internacionalmente, como o direito à vida, à saúde, ao bem-estar, ao desenvolvimento sustentável (MARINHO, 2012, p. 103). VOCABULÁRIO: Apalavrabiota, queaparecenadefinição, é termo técnico e significa o conjunto de seres animais e vegetais existentes em determinada região. Anotações: 91 Dessamaneira, o autor nos leva aenxergar que: [...] a interligação existente entre esses direitos, formando o que se pode chamar de direitos humanos ambientais, é evidente e já foi declarada em normas positivadas de muitos países, ratificando ser direito da pessoa humana e das coletividades o de viver em ambiente sadio e equilibrado (MARINHO, 2012, p. 103). Não obstante, é fundamental que a preocupa‐ ção com a preservação do meio ambiente seja uma tarefa constante, tendo em vista o alerta científico para as consequências negativas que já se tornaram realidade. As preocupações com a pureza ambiental como algo fundamental e permanente para a humani‐ dade tornaram-se explícitas na década de 60. Foi demonstrada, então, a conjugação de vários fatores que provocam o desequilíbrio dos elementos da natureza e criam o risco de exaustão de recursos naturais. [...] inclui-se a ocorrência de altos níveis de poluição, a interfe‐ rência humana nas populações e a consequente intensificação do uso de combustíveis poluido‐ res, além de diversasmodalidades de destruição dos recursos naturais (DALLARI, 2004, p. 80). Anotações:92 Apesar de ser um direito, o meio ambiente adequado para todos é também um dever, um compromisso cujo status é tão elevado que os organismos internacionais chegam a se reunir para traçar estratégias de preservação daquilo que é essencial para nós enquanto espécie. Portanto: O meio ambiente sadio é necessidade essencial da pessoa humana, em qualquer tempo e em qualquer lugar. Por essemotivo, é reconhecido e proclamado como direito humano fundamental, devendo estar sempre entre as prioridades dos governos e não podendo ser prejudicado para satisfação de interesses econômicos, políticos ou de qualquer outra natureza. A pessoa humana éprioridadeecomela seusdireitos fundamentais (DALLARI, 2004, p. 82). Diante dessas acepções gerais, passaremos a outro direito fundamental, sendo ele um assunto bastante discutido por envolver determinadas polêmicas e divergências entre os países. Direito à liberdade real Àpriori, o dicionário Bechara (2011) nos orienta numsentido amplo do termoLiberdade, devendo ser visto da seguinte forma: LIBERDADE “Autonomia de ação; independência; qualifica‐ ção de quem é livre”. Anotações: 93 Essa concepção literal não revela ainda a forma como o termo vai ser tratado como um direito de toda e qualquer pessoa. Logo, recorremos, neste momento, à contextualização de Dallari (2004), quando este afirma que: ADeclaraçãoUniversal dosDireitosHumanos diz, no artigo 1º, que todos os seres humanos nascem livres e iguais emdignidade e direitos. Não basta, porém, essa declaração solene e sua reprodução nas Constituições e nas leis, semilhões de seres humanos nascem e sobrevivem sem a possibili‐ dade de agirem como pessoas livres (DALLARI, 2004, p. 42). Tal perspectiva demonstra que a liberdade é algo natural do ser humano, visto que todos já nascem livres. Contudo, pelas questões levantadas no texto de Dallari (2004), a liberdade é apropriada dedeterminados grupos oupessoas específicas, por conta de fatores sociais, políticos e econômicos, o quenãodeveria ocorrer. Ainda segundooautor, “sem liberdade, a pessoa humana não está completa” (DALLARI, 2004, p. 42). Por essa razão: O direito de ser livre deve existir, portanto, no planodaconsciência.Ninguémé livre senãopode fazer sua própria escolha emmatéria de religião, de política ou sobre aquilo que vai ou não acreditar, ou se é forçado a esconder seus sentimentosouagostar doqueosoutros gostam, contra sua vontade. Assim sendo, a liberdade de pensamento, deopiniãoedesentimento fazparte do direito à liberdade, que deve ser assegurado a todos os seres humanos (DALLARI, 2004, p. 43). Anotações: 94 É importante, todavia, esclarecer que a liberdade não pode ser um direito distorcido para justificar pensamento, posicionamentos e ações que ferem os outros princípios dos direitos funda‐ mentaisdoserhumano.Fora isso, todos têmodireito de usufruir de suas escolhas e gozar dos direitos que lhe são cabíveis. Por isso, destacamos que: Para que uma pessoa tenha o direito de ser livre, é necessário que possa escolher o seu modo de vida e planejar o seu futuro. É indispensável, também, que possa escolher uma profissão de acordo com seu gosto e sua capacidade, que possa constituir uma família e viver com ela, que possa, enfim, tomar suas próprias decisões sobre todos os assuntos de seu interesse (DALLARI, 2004, p. 43). De formamais taxativa, o autor nos alerta ainda para aquilo que não pode ocorrer dentro desse campo de pensamento. Na realidade, o que é prejudicial é tirar das pessoasodireito de serem livres, pois a liberdade, sendo uma exigência da própria natureza humana, não acarreta prejuízos ou maldades. O que muitas vezes tem trazido prejuízo é a falsa liberdade, é o abuso que certas pessoas cometem com a desculpa de que podem fazer tudo (DALLARI, 2004, p. 43). Desta forma, ele retoma o pensamento sobre o qual falamos anteriormente, denominando-o de “falsa liberdade”. Assim: Anotações: 95 Quando alguém vai exercer o direito de liberdade não pode esquecer que todas as pessoas humanas têm o mesmo direito. [...] Por esse motivo, é errado dizer que cada umdeve procurar para si omáximo de liberdade, sem se preocupar com a liberdade dos outros. Mas é igualmente errado dizer que a liberdade de cada um termina onde começa a do outro, pois todos exercem juntos os seus direitos de liberdade, e a liberdade de cada um está entrelaçada com a dos demais seres humanos (DALLARI, 2004, p. 43-44). Dessa maneira, a liberdade precisa ser um direito equilibrado dentro das condições morais estabelecidas dentro de uma sociedade. É como se ela estivesse apoiada em um campo da ética, mas também necessitasse da moral que está por detrás dela. É preciso, finalmente, que o direito à liberdade não seja um faz-de-conta, que, ao afirmar que as pessoas têm o direito de agir com liberdade, sejam assegurados os meios para que essas pessoas possam ser livres. [...] A liberdade tem sido e poderá ser ofuscada muitas vezes, mas nunca morreu e não poderá morrer, porque é inerente à condição humana (DALLARI, 2004, p. 45). Com esse pensamento, passaremos a outro direito essencial para os estudos que estamos traçando até aqui. Esse talvez seja o que mais engloba os demais, por isso, caminharemos para compor a última subseção desta unidade. Anotações: 96 Direito à vida O assunto abordado nesta subseção poderia facilmente ser posto no início deste material. Contudo, optamos por organizar os fundamentos e direitos anteriorespara encontrarmos reflexãoneste último tópico. Nesse âmbito, nos apoiamos em Dallari (2004) para dizer que: A vida é o primeiro bem da pessoa humana, pois, sem a garantia da vida, a própria pessoa desaparece e nenhum direito poderá existir. Garantir o direito à vida não é apenas impedir que umas pessoas matem outras, mas exige o respeito à integralidade da pessoa e a possibili‐ dade de sobrevivência digna e dedesenvolvimen‐ to individual (DALLARI, 2004, p. 32). Com essa noção, observamos que os demais direitos visto aqui, comoo direito à saúde e o direito à liberdade, podem estar associados ao direito à vida, já que não se trata apenas de “estar vivo”, no sentido fisiológico e biológico. No entanto, se começarmos por este sentido veremos que: Não são os homens que criam a vida. Nomáximo os seres humanos são capazes de perceber que em determinadas condições, quando se juntam certos elementos, a vida começa a existir. Os cientistas podem até juntar num vidrinho, numa proveta, os elementos que gerama vida,mas não conseguem criar esses elementos. Na verdade, nenhum homem conseguiu inventar ou criar a vida, dominar o começo da vida. E, como não é capaz de criar a vida de umser humano, nenhuma pessoa deve ter o direito de matar o outro ser humano, de fazer acabar a vida de outra pessoa (DALLARI, 2004, p. 32-33). Anotações: 97 Além disso, quando tratamos desse campo do direito à vida, precisamos lembrar também que não se trata de uma dimensão simples de ser debatida ou garantida, mas é fundamental que seja buscada constantemente. É preciso lembrar que a vida é um bem de todas as pessoas, de todas as idades e de todas as partes do mundo. Nenhuma vida humana é diferente da outra, nenhuma vale mais nem menos do que outra. E nenhum bem humano é superior à vida. [...] Quando uma pessoa mata outra por ódio, por vingança ou para obter algum proveito, está cometendo um ato imoral, está ofendendo o bem maior, a vida, a que nenhum outro se iguala (DALLARI, 2004, p. 33). O tema se torna polêmico quando o direito à vida passa a ser visto sob o ponto de vista dos atos criminosos cometidos pelas pessoas. Assim, Dallari (2004) aborda o seguinte: Uma questão muito importante, que precisa ser lembrada porque está diretamente relacionada com o direito à vida, é a existência de pena de morte em muitos países. Antes de tudo, a pena demorte é contraditória, pois, ao aplicá-la contra alguém que não respeitou os direitos, o Estado também está desrespeitando um direito fundamental, que é o direito à vida. A pena de morte é imoral, pois para sua aplicação o PoderPúblico deve contratar alguém para matar, ou seja, paga uma pessoa, usando dinheiro público, para cometer um assassinato legal (DALLARI, 2004, p. 34). Anotações: 98 Esta questão é apresentada aqui sob o viés garantidor dos direitos humanos e merece real atenção. Contudo, exige-se um aprofundamento muito maior, o que demandaria outro espaço construtivode texto. Desta forma, gera-sea seguinte reflexão para que registrada aqui: o direito de retirar a vida de outra pessoa é uma forma correta de reparar o que foi cometido? Adiante, passamos a um contexto que, atual‐ mente, émuito importantedeserquestionado, afinal, o mundo observa os conflitos entre dois países europeus. Com base nisso, buscamos na fala do autor aqui estudado a fala: A guerra é outra forma extremamente imoral de atentado contra a vida humana. [...] A guerra é imoral porque sacrifica vidas humanas com o objetivo de satisfazer interesses mesquinhos. Além disso tudo, a guerra é imoral porque consome, no comércio da morte, quantias elevadíssimas que deveriam ser utilizadas para a promoção da vida (DALLARI, 2004, p. 34). Vemos, a partir disso, como a vida dos seres humanos não está totalmente assegurada, seja no nível micro ou macro, tendo em vista os inúmeros contextos que isso envolve. Anotações: 99 O respeito à vida de uma pessoa não significa apenas não matar essa pessoa com violência, mas tambémdar a ela a garantia de que todas as suas necessidades fundamentais serão atendi‐ das. Toda pessoa temnecessidadesmateriais, as necessidades do corpo, que, se não forem plenamente atendidas, levarão àmorte ou a uma vida incompleta, que não se realiza totalmente e que já é um começo de morte. Todos os seres humanos têm o direito de exigir que respeitem sua vida. E só existe respeito quando a vida, além de ser mantida, pode ser vivida com dignidade (DALLARI, 2004, p. 36). Encerrando esta unidade, destacamos a relevância das abordagens reflexivas que cada uma das subseções nos trouxe. Assim, há a presença de conceitos edefiniçõesquepodemgerar importantes ferramentas de diálogo acerca do assunto. A última unidade, por sua vez, caminha num sentido mais restrito aos documentos, mas vamos procurar articulações com tudo aquilo que foi mostrado no decorrer de todas as outras unidades. U ni da de 4 Videoaula 2 Videoaula 4 Videoaula 1 Videoaula 3 Videoaula 5 102 103 DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS E A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA Esta Unidade tem como objetivo apresentar dois documentos importantes para a compreensão dos direitos humanos, no sentido geral, e como ele está presente na legislação brasileira. Trata-se, portanto, da “Declaração Universal dos Direitos Humanos” e da “Constituição Federal Brasileira”. Declaração Universal dos Direitos Humanos Nesta subseção, vamos analisar o preâmbulo da Declaração Universal dos DireitosHumanos. Para tanto, apresentare‐ mosalguns recortesdessedocumento, com o intuito de descrevê-los e contextualizá- los. Anotações: 104 Primeiramente, vale dizer que ela foi “adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro de 1948” (DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS, 1948). Nesse período, a Declaração considerou que: “o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz nomundo” (DECLA‐ RAÇÃOUNIVERSALDOSDIREITOSHUMANOS, 1948). Nesse caso, vemos um dos princípios já estudado em unidades anteriores: o princípio da dignidade humana, que tambémse relaciona a outro trecho da Declaração: Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da humanidade e que o advento de um mundo em que mulheres e homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do ser humano comum (DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS, 1948). Vemos, portanto, uma justificativa ampla e problematizadora, sobretudo no que tange ao reconhecimento dos aspectos negativos históricos pelosquais a humanidade já havia passado. Emoutro momentodaDeclaração,observamosocompromisso assumido: 105 Anotações:[...] Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos fundamentais do ser humano, na dignidade e no valor dapessoahumanaena igualdadededireitos do homemedamulher e que decidirampromover o progresso social e melhores condições de vida emuma liberdademais ampla [...] (DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS, 1948). Verificamos ainda outro complemento desse compromisso firmado, demonstrando que não se trata de um documento apenas com princípios recomendados, mas de um consenso legal e de extrema importância para as relaçõesmacro emicro das sociedades ao redor do mundo: “Considerando que os Países-Membros se comprometeram a promover, em cooperação comasNações Unidas, o respeito universal aos direitos e liberdades funda‐ mentais do ser humano e a observância desses direitos e liberdades” (DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS, 1948). Ao concluir o texto dopreâmbulo, o documento é enfático no direcionamento de como os Direitos Humanos precisamser trabalhados nas sociedades: [...] o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade tendo sempre em mente esta Declaração, esforce-se, por meio do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povosdosprópriosPaíses-Membrosquanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição (DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS, 1948). 106 Compreende-se a educação como um dos pilares para a efetividade do que está posto na Declaração. Assim, passamos aos artigos que estão presentes no documento e que demonstram articulação com o trabalhamos no decorrer das outras Unidades de estudo deste material. Declaração Universal dos Direitos Humanos: do art. 1 ao art. 15 Nesta subseção, vamoselencar os 15 primeiros artigos da Declaração, com o intuito de traçar uma argumentação posterior. Sendo assim, elaborou-se um quadro geral com os respectivos textos, em conformidade total comaDeclaração aqui estudada. Sigamos ao quadro 3: 107 Quadro 03 - Declaração Universal dos Direitos Humanos: do Art. 1 ao Art. 15 Fonte: Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Artigo Texto na íntegra Artigo 1 Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razãoe consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. Artigo 2 1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. 2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou internacional do paísou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania. Artigo 3 Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. Artigo 4 Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas. Artigo 5 Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante. Artigo 6 Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei. Artigo 7 Todos são iguais perante a lei e têmdireito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.Artigo 8 Todo ser humano tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei. Artigo 9 Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado. Artigo 10 Todo ser humano temdireito, emplena igualdade, a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir seus direitos e deveres ou fundamento de qualquer acusação criminal contra ele. Artigo 11 1.Todo ser humano acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo coma lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa. 2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Também não será imposta pena mais forte de que aquela que, no momento da prática, era aplicável aoato delituoso. Artigo 12 Ninguém será sujeito à interferência na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataque à sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques. Artigo 13 1. Todo ser humano temdireito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado. 2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio e a esse regressar. Artigo 14 1. Todo ser humano, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países. 2. Esse direito nãopode ser invocado emcaso deperseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações Unidas. Artigo 15 1. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade. 2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade. Anotações: 108 Como podemos perceber, os artigos aqui demonstrados caminham num sentido orientador acerca do acordo firmado pelos países que assina‐ ram a Carta. É possível destacar alguns princípios fundamentais para homens e mulheres, tais como: a. Liberdade e equidade: esses estão enfatizados logo no início dos textos presentes nos artigosdadeclaração. Trata- se de assegurar e firmar a clareza daquilo que se pretende com a declaração. Desta‐ ca-se, neste caso, os artigos: 1, 2, 7, 10 e 13, o que não significa que não podemos enxergá-los a partir dos demais, tendo em vista a liberdade e a equidade serem dimensões amplas demais para se limita‐ rem em apenas algumas diretrizes. b. Direito à vida e à segurança: nos artigos é possível destacar as orientações taxativas que se deve ter com relação ao bem-estar individual e coletivo, mas também de evitar algumasaçõesque feremdiretamen‐ te o princípio da vida, como é o caso da tortura, por exemplo. Cabe destacar que esse direito deve ser assegurado em qualquer esfera e instituição, sobretudo quando falamos em organizações com o poder de cuidar da segurança das pessoas civis. 109 Anotações:c. Exercício da cidadania: aqui, observamos a cidadania sobre uma perspectiva de pertencimento a um grupo (embora saibamos que não se limita a isso). Nesse contexto, o Art. 15 cumpre esse papel de deixar claro que todos os homens e mulheres têmdireito a uma nacionalidade. Além disso, é também direito o fato de alguém decidir mudar sua nacionalidade, com respeito, é claro, aos trâmites legais para tal situação. Diante disso, passamos à subunidade 4.3 com a intenção de continuar os demais artigos que compõem a configuração da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Declaração Universal dos Direitos Humanos: do art. 16 ao art. 30 Seguimos aqui comaexposição dos artigos da Declaração na íntegra, a fim de demonstrar o texto com todas as suas descrições e orientações. Assim, passamos ao quadro 04: 110 Quadro 04 - Declaração Universal dos Direitos Humanos: do Art. 16 ao Art. 30 Artigo Texto na íntegra Artigo 16 1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têmo direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação aocasamento, sua duração e sua dissolução. 2. Ocasamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes. 3. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e temdireito à proteção da sociedade e do Estado. Artigo 17 1. Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros. 2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade. Artigo 18 Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em particular. Artigo 19 Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; est e direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras. Artigo 20 1. Todo ser humano tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica. 2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação. Artigo 21 1. Todo ser humano tem o direito de tomar parte no governo de seu país diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos. 2. Todo ser humano tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país. 3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; essa vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto. Artigo 22 Todo ser humano, como membro da sociedade, tem direito à segurança social, à realização pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade. Artigo 23 1. Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalhoe à proteção contra o desemprego. 2. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho. 3. Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social. 4. Todo ser humano tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para proteção de seus interesses. Artigo 24 Todo ser humano tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas. 2. Amaternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarãoda mesma proteção social. Artigo 25 1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde, bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis e direito à segurança em caso de desemprego, doença invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência emcircunstâncias fora de seu controle. 111 Fonte: Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Verificamos que nos artigos expostos no quadro as deliberações presentes referem-se a outras dimensões já discutidas neste material, ressaltando a relevância de pressupostos basilares para a convivência em equilíbrio e harmonia social. Para tanto, elencamos alguns deles como intuito de enfatizar o propósito do Documento. Artigo 26 1. Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior,esta baseada no mérito. 2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana edo fortalecimento do respeito pelos direitos do ser humano e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz. 3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos. Artigo 27 1. Todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios. 2. Todo ser humano tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica literária ou artística da qual seja autor. Artigo 28 Todo ser humano tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados. Artigo 29 1. Todo ser humano tem deveres para coma comunidade, na qual o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível. 2. Noexercício de seus direitos e liberdades, todo ser humano estará sujeito apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem- estar de uma sociedade democrática. 3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos objetivos e princípios das Nações Unidas. Artigo 30 Nenhuma disposição da presente Declaraçãopode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer atodestinado à destruição de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos. Anotações: 112 a. liberdade de pensamento, de opinião e expressão: trata-se de uma categorização do princípio da liberdade, a qual ultrapassa o direito de ir e vir. Nesse caso, porém, não podemos confundir com o direito de ofender o próximo ou de manifestar ideias que vão contra outros direitos. Nos últimos anos, esse campo de direitos vem sendo bastante discutido. b. Direito ao trabalho e ao bem-estar básico individual e de sua família: trata-se de um direito que pode ser alcançado com o esforço individual,mas tambémprecisa de uma contrapartida do Estado através de políticas econômicas e sociais para que, então, as arestas da desigualdade sejam aparadas. c. Direito à instrução/educação e cultura: tal configuração precisa ser assegurada no campo formal e informal do ensino, além de interferência do Estado. Essa dimensão deve ser garantida ainda nos primeiros anos de vida dos seres humanos, pois quanto maior o grau de contato com a educação,maiores as chances de o sujeito desenvolver os valores necessários à vida em sociedade, como já vimos na Unidade 2: a. O respeito; b. A honestidade; c. A humildade; d. A empatia; e. O senso de justiça; f. A solidariedade; g. A ética. 113 Diante disso, caminharemos para as discus‐ sões relativas a outro documento de suma impor‐ tância,mas dessa vez voltado à realidade brasileira. Direitos Humanos e Cidadania na Constituição Federal Brasileira: parte 1 Esta subseção é direcionada a analisar alguns pontos específicos daCF brasileira, como intuito de identificar osmodos comoos direitos fundamentais da pessoa humana se fazem presentes. Além disso, verifica-se ainda a maneira como a cidadania pode ser exercida nesse documento. Para isso, elabora‐ mosumquadrogeral comos referidos recortes, para posteriormente argumentarmos sobre as questões demaior relevância dentro desse cenário de estudo. 114 Quadro 05 – Recortes da CF em referência à garantia de direitos humanos Fonte: Constituição Federal Brasileira (1988). Identificação Recortesdo texto TÍTULO I Dos PrincípiosFundamentais Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se emEstado Democrático deDireito e temcomo fundamentos: I – a soberania; II – a cidadania; III – a dignidadeda pessoahumana; IV – os valores sociaisdo trabalhoe da livre iniciativa; V – o pluralismopolítico. Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente,nos termosdestaConstituição. TÍTULO II Dos Direitos eGarantias Fundamentais CAPÍTULO I Dos DireitoseDeveres IndividuaiseColetivos Art. 5º Todossão iguais perante a lei, semdistinção de qualquernatureza,garantindo-se aosbrasileirose aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade,à igualdade,à segurançae à propriedade,nos termosseguintes: I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações,nos termosdestaConstituição; II – ninguémserá obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senãoemvirtudede lei; III – ninguém será submetido a tortura nem a tratamentodesumanooudegradante; IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedadoo anonimato; [...] VI – é inviolável a liberdadedeconsciênciaedecrença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais deculto e a suas liturgias; [...] IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentementedecensuraou licença; [...] 115 Anotações:Nas passagens destacadas no quadro xx, é possível identificar, pelomenos 6 pontos principais: a. O fundamento da cidadania; b. A dignidade da pessoa humana; c. O direito à vida; d. O direito à liberdade; e. O direito à igualdade; f. O direito à segurança. Esses, por sua vez, foram discutidos no decorrer das unidades anteriores, nas quais foi possível inferir a necessidade de preceitos que tornam possível a convivência coletiva. Nesse viés, compreendemos que o Brasil é umpaís com inúme‐ ros problemas sociais e divergências políticas. Contudo, a democracia assegura as manifestações e lutas por direitos, além dos limites relacionados aos deveres. Portanto, ao vermos esses preceitos na Constituição Federal, devemos ter em mente a sua inviolabilidade para a segurança de todo e qualquer cidadão. Destacamos ainda que uma nação que se dedica a manter essas deliberações é uma nação que respeita o acordo firmado na Declaração dos Direitos Humanos. Logo, o Brasil, mesmo com seus inúmeros problemas, ainda carrega o direciona‐ mento adequado para manter a democracia e o desenvolvimento de seu povo. Anotações: 116 Indicamos uma leitura complementar que auxilia nesta dinâmica de estudo: Diante dessas observações e considerações, passamos à última subseção deste material, a qual debate outros aspectos presentes na Constituição Federal brasileira. Disponível em: https://dspace.mackenzie.br/handle/ 10899/23977 Título: Os tratados internacionais sobre direitos humanos incorporados ao direito brasileiro e a Constituição Federal/88 Autor Brasileiro, Eduardo Tambelini Resumo: A dissertação abordou a influência dos direitos humanos frente aos tratados internacionais incorpo‐ rados ao direito brasileiro. Para tanto, destacou a evolução dos direitos humanos, sua importância e reflexos no cenário nacional e internacional. No direito brasileiro, os direitos humanos são imperativos a uma sociedade justa e solidária, sendo defendidos a rigor na Constituição Federal de 1988. 117 Anotações:Direitos Humanos e Cidadania na Constituição Federal Brasileira: parte 2 Abrimos essa última subseção com a fala de Brasileiro (2009, p. 6): Os direitos humanos se mostram valoroso instrumento modelador dos Estados soberanos, impondo limites e parâmetros a serem seguidos, como forma de enaltecer o ser humano como cerne do ordenamento jurídico internacional. Face à importância e relevância dos tratados internacionais, estuda-se o que vem a ser esse fenômeno convencional e a sua integração no direito interno. Com base nos aspectosda citação, entende‐ mos que os Estados precisam estar alinhados aos tratados internacionais para que sejam aceitos os limites e parâmetros a serem seguidos, como ponto principal do ordenamento. Feita essa explanação inicial e entendida a natureza da relevância dos documentosoficiais, passamosaoquadroqueexpõe os demais recortes da Constituição Federal sobre os quais versaremos posteriormente. 118 Quadro 06 – Recortes da CF em referência à garantia de direitos humanos CAPÍTULO II Dos DireitosSociais Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde,a alimentação, o trabalho,a moradia, o transporte,o lazer, a segurança,a previdênciasocial,a proteçãoà maternidadeeà infância, a assistênciaaos desamparados,na formadesta Constituição.(Redação dada pelaEC n. 90/2015) Parágrafoúnico. Todobrasileiroem situação de vulnerabilidade social terádireitoa uma rendabásica familiar, garantida pelopoderpúblico emprograma permanentede transferênciade renda,cujas normase requisitosde acessoserão determinadosemlei, observadaa legislação fiscal e orçamentária. (Incluído pelaEC n. 114/2021) Art. 7º São direitosdos trabalhadoresurbanose rurais, alémdeoutrosque visemà melhoriade suacondição social: I – relaçãode empregoprotegidacontradespedida arbitrária ou sem justa causa, nos termosde leicomplementar,quepreverá indenização compensatória,dentre outros direitos; CAPÍTULO III Da Nacionalidade Art. 12. São brasileiros: I – natos: a) osnascidosna RepúblicaFederativado Brasil, ainda quede pais estrangeiros,desde queestesnãoestejama serviçode seupaís; b) os nascidosno estrangeiro,depaibrasileirooumãe brasileira,desdequequalquer delesestejaa serviçoda RepúblicaFederativadoBrasil; c) osnascidos noestrangeirodepai brasileirooudemãe brasileira,desdeque sejam registradosemrepartiçãobrasileiracompetenteou venhama residir na RepúblicaFederativa do Brasil e optem, emqualquer tempo,depoisde atingida amaioridade, pela nacionalidadebrasileira; (Redação dada pelaEC n. 54/2007) 119 CAPÍTULO IV Dos DireitosPolíticos Art. 14. A soberaniapopular seráexercidapelo sufrágio universal e pelo votodiretoe secreto,com valor igual para todos,e, nos termosda lei,mediante: I – plebiscito; II – referendo; III – iniciativa popular. § 1º O alistamentoeleitoral e o votosão: I – obrigatóriosparaos maioresde dezoitoanos; II – facultativospara: a) osanalfabetos; b) os maioresde setentaanos; c) osmaiores dedezesseisemenoresdedezoitoanos. TÍTULO VIII Da OrdemSocial CAPÍTULO II Da SeguridadeSocial SEÇÃO II Da Saúde Art. 196. A saúdeédireito de todose deverdoEstado, garantidomediantepolíticas sociais e econômicasque visemà reduçãodo risco dedoença e deoutrosagravose ao acessouniversal e igualitário às ações e serviçospara sua promoção, proteçãoe recuperação. Art. 197. São de relevânciapública as açõese serviçosde saúde,cabendoao Poder Públicodispor,nos termosda lei,sobre sua regulamentação,fiscalização e controle,devendosua execuçãoser feita diretamenteouatravésde terceirose, também, por pessoafísica ou jurídica dedireitoprivado. CAPÍTULO III Da Educação, da Cultura e doDesporto SEÇÃO I Da Educação Art. 205. Aeducação, direitode todose deverdoEstadoe da família, serápromovida e incentivadacom a colaboração da sociedade,visandoao pleno desenvolvimentodapessoa,seupreparoparao exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Art. 206. O ensinoseráministradocombase nos seguintesprincípios: I – igualdadedecondiçõespara o acessoe permanência na escola; II – liberdadedeaprender,ensinar,pesquisare divulgaro pensamento,a arte e o saber; 120 CAPÍTULO III Da Educação, da Cultura e doDesporto SEÇÃO I Da Educação Art. 205. Aeducação, direitode todose deverdoEstadoe da família, serápromovida e incentivadacom a colaboração da sociedade,visandoao pleno desenvolvimentodapessoa,seupreparoparao exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Art. 206. O ensinoseráministradocombase nos seguintesprincípios: I – igualdadedecondiçõespara o acessoe permanência na escola; II – liberdadedeaprender,ensinar,pesquisare divulgaro pensamento,a arte e o saber; III – pluralismode ideias ede concepçõespedagógicas,e coexistênciade instituições públicase privadasde ensino; IV – gratuidadedoensinopúblicoemestabelecimentos oficiais; V – valorização dosprofissionaisdaeducação escolar, garantidos,na forma da lei, planosdecarreira, com ingressoexclusivamentepor concursopúblicode provase títulos, aos das redespúblicas; (Redaçãodada pela ECn. 53/2006) VI – gestãodemocrática do ensinopúblico,na forma da lei; VII – garantia depadrão de qualidade; VIII – piso salarial profissional nacional para os profissionaisdaeducação escolar pública, nos termosda lei federal. (Incluídopela ECn. 53/2006) IX – garantia do direitoà educação eà aprendizagemao longoda vida. (Incluídopela EC n. 108/2020) 121 Fonte: Constituição Federal (1988). CAPÍTULO VI Do Meio Ambiente Art. 225. Todos têmdireitoao meio ambiente ecologicamenteequilibrado,bemdeusocomumdo povo e essencial à sadia qualidadede vida, impondo-se ao PoderPúblicoe à coletividadeo deverdedefendê -loe preservá-loparaas presentese futurasgerações. § 1º Para asseguraraefetividadedessedireito, incumbe ao PoderPúblico: I – preservare restaurarosprocessosecológicos essenciais e provero manejoecológicodas espéciese ecossistemas; II – preservaradiversidadeea integridadedopatrimônio genéticodoPaís e fiscalizar as entidadesdedicadasà pesquisaemanipulação de material genético; III – definir,em todasas unidadesda Federação, espaços territoriais e seuscomponentesaseremespecialmente protegidos,sendoaalteração ea supressãopermitidas somente atravésde lei, vedadaqualquerutilização que comprometa a integridadedosatributosque justifiquem sua proteção; IV – exigir,na forma da lei, para instalação deobra ou atividadepotencialmente causadorade significativa degradaçãodo meio ambiente,estudopréviode impacto ambiental, a que sedará publicidade; V – controlara produção, a comercialização e oemprego de técnicas,métodose substânciasquecomportemrisco para a vida, a qualidadede vida e o meioambiente; VI – promovera educação ambiental em todosos níveisde ensinoe a conscientizaçãopública para a preservaçãodo meio ambiente; VII – protegera faunae a flora, vedadas,na forma da lei, as práticas quecoloquemem risco sua funçãoecológica, provoquemaextinção deespéciesou submetamos animais à crueldade. Anotações: 122 As principais dimensões abordadas neste material são relativas a 5 fatores: a. Direitos sociais; b. Nacionalidade; c. Direitos políticos; d. Direito à saúde; e. Direito à educação; f. Direitos e deveres relativos ao meio ambiente. Esses, por sua vez, já foram discutidos neste material por teóricos como Dallari (2004), Marinho (2015), entre outros. Assim, o que se pode acrescen‐ tar é que a Constituição Federal deve representar um documento coerente com o tratado firmado, garantindo aos seus cidadãos os direitos fundamen‐ tais, como: saúde, educação, moradia, trabalho, meio ambiente sadio, escolhas de líderes dentro da democracia e segurança dentro da sua nação. Para finalizar esta última unidade, apresenta‐ remos um recorte da obra Os Estatutos do Homem (2001), de Thiago de Mello. Trata-se de um texto em que se pode refletir de maneira poética sobre o assunto que trouxemos aqui, conduzindo a uma reflexão necessária aos estudos acadêmicos que aqui foram demonstrados. 123 Anotações:OS ESTATUTOS DO HOMEM THIAGO DEMELLO Artigo I Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e demãos dadas,marchare‐ mos todos pela vida verdadeira. Artigo II Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se emmanhãs de domingo. Artigo III Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os giras‐ sóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança. Artigo IV Fica decretadoque o homem não precisará nuncamais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, comoo vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu. Parágrafo único: Ohomemconfiará nohomemcomoummenino confia em outro menino. Anotações: 124 Artigo V Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa. Artigo VI Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. Artigo VII Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo. Artigo VIII Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber queé a águaquedá àplanta omilagre da flor. Artigo IX Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homemosinal de seusuor.Masque, sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura. Artigo X Fica permitida a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco. 125 Anotações:Artigo XI Fica decretado, por definição, que o homem é umanimal que amae que por isso é belo,muitomais belo que a estrela da manhã. Artigo XII Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor. Artigo XIII Fica decretado que o dinheiro não poderá nuncamais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú domedo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defen‐ der o direito de cantar e a festa do dia que chegou. Artigo Final Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem. (Thiago de Mello) Santiago do Chile, abril de 1964. Anotações: 126 Referências BAVARESCO, Paulo Ricardo; TACCA, Daiane Paula. Multiculturalismo e diversidade cultural: uma reflexão. Unoesc & Ciência – ACHS, Joaçaba, v. 7, n. 1, p. 61-68, jan./jun. 2016. Bobbio, Norberto. A era dos direitos. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. BRASILEIRO, Eduardo Tambelini. Os tratados internacionais sobre direitos humanos incorpora‐ dos ao direito brasileiro e à constituição federal. 2009. Dissertação (mestrado em Direito Político e Econômico) –UniversidadePresbiterianaMackenzie, São Paulo, 2009. CARLOTO, Cássia Maria; COSTA, Imairo S. Dalla. Cidadania emulheres emumaperspectiva feminista. UEL revistas, SãoPaulo, 2008.Disponível em:https:/ /www.uel.br/revistas/ssrevista/c-v9n2_cassia.htm. Acesso em: 25maio 2022. Carvalho, E. J. G. de, & Faustino, R. C. (2015). Tole‐ rância e diversidade: dos princípios liberais clássi‐ cos à política educacional dos anos de 1990. 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