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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DA __ª VARA DA FAZENDA PÚBLICA ESTADUAL DA COMARCA DE MONTES CLAROS - MG JHONATHAN MATHEUS GONÇALVES SOARES, brasileiro, Solteiro, Estudante, portador do RG MG-18973952, inscrito no CPF sob o nº 12583974637, residente e domiciliado na Rua Julieta Getúlio Costa, n° 67, Antônio Pimenta, Montes Claros-MG, CEP: 39402329, com endereço eletrônico: jhonathanmatheus2@gmail.com, vem, respeitosamente à presença de V. Exa., por intermédio de seus advogados (Instrumento de Procuração anexo), ingressar com a presente AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE ATO ADMINISTRATIVO COM PEDIDO DE TUTELA ANTECIPADA em face do ESTADO DE MINAS GERAIS, inscrito no CNPJ sob o nº. 18.715.615/0001-60, representado pelo douto Procurador Geral do Estado, com endereço na Rua Espírito Santo 495/8º Andar, Centro, Belo Horizonte/MG, CEP.: 30.160-030, pelos fatos e fundamentos a seguir delineados 1 PRELIMINARMENTE - DO BENEFÍCIO DE JUSTIÇA GRATUITA O Autor se encontra desempregado sem condições de arcar com as custas judiciais sem prejuízo de sua subsistência, possuindo dívidas à pagar, inclusive negativadas no rol do SERASA, não é proprietário de veículo, não é declarante do imposto de renda e não possui movimentação bancária que o possibilite arcar com as custas processuais sem prejuízo da sua sobrevivência. Nesta razão, junta comprovantes de despesas e declaração de hipossuficiência, a fim de demonstrar a inviabilidade de pagamento das custas judiciais sem prejuízo de sua sobrevivência, conforme clara redação do Código de Processo Civil, vejamos: Art. 98. A pessoa natural ou jurídica, brasileira ou estrangeira, com insuficiência de recursos para pagar as custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios tem direito à gratuidade da justiça, na forma da lei. Assim, considerando a demonstração inequívoca da necessidade do Autor, tem-se por comprovada sua necessidade, fazendo jus ao benefício. Cabe destacar ainda que a lei não exige atestada miserabilidade do requerente, sendo satisfatória a "demonstração de insuficiência de recursos para pagar as custas, despesas processuais e honorários advocatícios", conforme destaca a doutrina: Não se exige miserabilidade, nem estado de necessidade, nem tampouco se fala em renda familiar ou faturamento máximos. É possível que uma pessoa natural, mesmo com boa renda mensal, seja merecedora do benefício, e que também o seja aquela sujeito que é proprietário de bens imóveis, mas não dispõe de liquidez. A gratuidade judiciária é um dos mecanismos de viabilização do acesso à justiça; não se pode exigir que, para ter acesso à justiça, o sujeito tenha que comprometer significativamente sua renda, ou tenha que se desfazer de seus bens, liquidando-os para angariar recursos e custear o processo. (DIDIER JR. Fredie. OLIVEIRA, Rafael Alexandria de. Benefício da Justiça Gratuita. 6ª ed. Editora JusPodivm, 2016. p. 60). Desse modo, pugna o Autor pelos benefícios da Justiça Gratuita, nos termos do art. 5º, LXXIV, da Constituição Federal, bem como do art. 98 do Código de Processo Civil, uma vez que é pobre no sentido legal e não possui condições de arcar com as custas e despesas da presente lide, sem que haja prejuízo de seu sustento, consoante declaração de hipossuficiência e documentos de comprovação do alegado anexados à presente, ou, subsidiariamente, a concessão do benefício de recolhimento de custas parcelado, ao final da demanda. 2 DA COMPETÊNCIA DESTE JUÍZO Cumpre ressaltar que, em RECENTE ENTENDIMENTO do Eg. TJMG, em sede de IRDR, fora firmada a seguinte tese: INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITITAS – FIXAÇÃO DE TESE – PROVA PERICIAL COMPLEXA – JUIZADOS ESPECIAIS DA FAZENDA PÚBLICA – INCOMPATIBILIDADE – CRITÉRIO NORTEADOR PARA DEFINIÇÃO DA COMPETÊNCIA. A necessidade de produção de prova pericial formal, imbuída de maior complexidade, influi na definição da competência dos Juizados Especiais da Fazenda Pública, porquanto incompatível com os princípios da simplicidade, oralidade, economia processual e celeridade, que regem esse microssistema, e com o propósito para o qual foram instituídos, a saber, julgamento de causas menos complexas. IRDR - CV Nº 1.0000.17.016595-5/001 - COMARCA DE BELO HORIZONTE – Valioso dizer que a presente lide carece indubitavelmente de prova pericial. Não se olvida que esta prova pericial é complexa e, portanto, incompatível com o rito da Justiça Especial. Dessa forma, pugna-se pelo tramite da presente perante este r. Juízo comum. 3 RELATO DOS FATOS O Autor candidatou-se ao concurso público para o cargo de Soldado do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Minas, regulamentado pelo edital de n°. 27 de 06 de setembro de 2022, o qual encontra-se anexo. Tal como estabelece o item 7.1 do edital de abertura, o certame ocorreu mediante as seguintes fases: Assim, teve sua inscrição deferida e iniciou seus estudos, dedicando meses da sua vida para buscar o cargo público sonhado. Por consequência e meritocracia, o Candidato foi aprovado em todas as etapas do certame em comento, obtendo a 502ª (quingentésima segunda) colocação no somatório das notas da 1ª Fase com a 2ª fase. Deste modo, o Autor foi convocado para a realização dos Exames Admissionais, os quais compreendiam os “Exames Preliminares”, “Exames Médicos Complementares”, “Avaliação Psicológica” e o “Exame Toxicológico”. Ocorre que, quando da realização da Terceira Fase, o Candidato foi injustamente qualificado como inapto, em relação ao “Exame Médico Complementar” em virtude de apresentar suposto quadro de “Hipertiroidismo subclínico E05.9 / Transtorno não especificado da tireoide E07.9” fundamentando a decisão no Anexo “E”, GRUPO III, itens 04 e 13 da Resolução Conjunta nº 4278/2013, alterada pela Resolução Conjunta nº 5.089/2021. Diante de tal arbitrariedade, o Autor, munido de boa-fé, objetivando a resolução extrajudicial da contenda, interpôs o devido recurso administrativo em desfavor da decisão que declarou sua inaptidão, todavia, desconsiderando toda a robusta fundamentação dele constante, o Réu optou por seu indeferimento. Sendo assim, outra alternativa não restou ao Autor senão o ingresso com a presente demanda, no intuito de declarar a nulidade do ato administrativo em comento, mediante a declaração da plena aptidão do Candidato para o exercício do cargo pretendido. Em suma, estes são os fatos que justificam o ajuizamento da presente demanda. 4 DOS FUNDAMENTOS JURÍDICOS 4.1 NULIDADE DO ATO ADMINISTRATIVO – AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO Conforme suscitado no tópico anterior, o Autor fora declarado inapto em razão de apresentar suposto quadro de “Hipertiroidismo subclínico E05.9 / Transtorno não especificado da tireoide E07.9”, tal como podemos verificar nos documentos anexos. Entretanto, tal como restará absolutamente demonstrado no decorrer da presente exordial, referido resultado não reflete a realidade vivenciada pelo Autor, motivo pelo qual carecia de fundamentação plausível para ensejar sua inaptidão. Deste modo, em manifesto ato de boa-fé, o Autor interpôs o devido recurso administrativo, objetivando a resolução extrajudicial da referida demanda, pugnando pela reconsideração da declaração de sua inaptidão, de modo a permitir-lhe ingressar no tão sonhado cargo público. Em ato de manifesta arbitrariedade, bem como mediante visível desconsideração das razões suscitadas pelo Autor em seu recurso, o órgão julgador optou por seu indeferimento, mantendo a declaração de inaptidão do Candidato para ambas as situações. Ocorre que, quando da divulgação do Resultado Final dos Exames Admissionais, a banca examinadora exarou decisão limitada à menção do termo “inapto” no campo “parecer” referente ao Autor, furtando-se, em absoluto, de enfrentar toda a robusta fundamentação elaborada pelo Candidato, devidamente ratificada por especialistas dasrespectivas áreas. Frisa-se que, uma decisão com tal capacidade cerceadora de direitos, tal como a ora em comento, jamais poderia ser tomada nos moldes verificados, uma vez que a motivação se trata de um pressuposto de validade para todo e qualquer ato administrativo. Excelência, certamente é conhecido por este juízo que as entidades de caráter militar exteriorizam seu autoritarismo para os ingressantes, o que acaba por culminar em uma chuva de arbitrariedades durante o processo seletivo. Faz-se inadmissível que o ato administrativo destinado a inabilitar um candidato seja exteriorizado da forma verificada na situação ora exposta. Inafastável é a necessidade de que este seja devidamente fundamentado, explicando de forma específica e pormenorizada os motivos que levaram à tal conclusão. Eventual declaração de inaptidão de um candidato em certame público, decisão capaz de obstar seu ingresso ao cargo para o qual tanto se preparou para a aprovação, deve relacionar, de forma absolutamente inequívoca, o quadro supostamente encontrado com eventual incapacidade para o exercício das funções pretendidas. Outrossim, admitir-se a completa ausência de fundamentação em sede de julgamento do recurso administrativo mostra-se medida espantosamente irregular, visto tratar-se da última medida disponível aos participantes para se insurgir contra decisões arbitrárias e desmunidas de lastro capaz de ratificá-las. Em suma, referida imprescindibilidade decorre das repercussões que tal decisão possui a capacidade de ensejar, a saber, limitar, afetar e negar direitos, bem como por se tratar de elemento essencial para a validade dos atos administrativos em geral. Há no presente caso uma nítida violação ao princípio da motivação, o que consequentemente fere a legalidade! Como pode uma instituição da envergadura do Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Minas Gerais, utilizar- se de um Laudo de Inaptidão tão genérico como o ora em comento!? Há aqui um desrespeito não só com o Candidato, mas, também, para com a própria Instituição! Ressalta-se que é dever legal do Administrador a motivação dos seus atos, inexistindo margem para supressão em virtude de discricionariedade. Tal comando advém da Constituição Estadual, verbis: Art. 13, § 2º - O agente público motivará o ato administrativo que praticar, explicitando-lhe o fundamento legal, o fático e a finalidade. Para além do diploma legal supramencionado, observamos o estabelecido pela Lei 9.784/99, o qual determina a obrigação da Administração Pública em cientificar os administrados das razões e motivos de suas decisões, como podemos observar: Art. 2º - A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. Nessa mesma linha, o Superior Tribunal de Justiça entende que é imprescindível a motivação para que se valide um ato administrativo, como podemos observar: ADMINISTRATIVO. MANDADO DE SEGURANÇA. CONCURSO PÚBLICO. ACUIDADE VISUAL. CANDIDATO CONSIDERADO INAPTO. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO. NULIDADE. EDITAL QUE PREVIA A CORREÇÃO COM O USO DE ÓCULOS OU LENTES. OFENSA À RAZOABILIDADE. 1. Discute-se a legalidade da eliminação do candidato por ter sido considerado inapto no exame de aptidão visual, no Concurso Público para Ingresso ao Curso de Formação de Oficiais da Polícia Militar do Estado de Santa Catarina. 2. Liminar deferida na Medida Cautelar 18.229/SC para assegurar a participação do ora recorrente nas demais fases do certame. 3. Não houve motivação, no momento adequado, do ato administrativo que reprovou o candidato no exame de saúde, já que os fundamentos dessa eliminação foram enunciados apenas nas informações prestadas pela autoridade coatora. 4. Refoge à razoabilidade a eliminação do candidato que não obteve acesso aos fundamentos de sua reprovação, impedindo-o de efetuar o controle da decisão administrativa, máxime quando o próprio edital autoriza a correção visual pelo simples uso de óculos ou lentes corretivas. 5. É incontroverso que o recorrente não é portador das anomalias constantes do Anexo II do edital que constituem condições incapacitantes à inclusão na Polícia Militar de Santa Catarina – a própria Junta Médica da Corporação Militar apôs carimbo que revela incapacidade temporária -, bem como há prova documental da realização de cirurgia de correção visual, que atenderia o requisito da higidez física prevista em lei. 6. Segurança deferida para determinar seja o recorrente submetido a nova avaliação de saúde, exclusivamente quanto à acuidade visual, com concessão de prazo para recurso caso haja reprovação, de modo a prestigiar a resolução do caso no âmbito administrativo. 7. Recurso em mandado de segurança provido. (STJ - RMS 35265 / SC RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA Relator: Ministro CASTRO MEIRA (1125) – Publicação: DJe 06/12/2012)” A omissão da Administração fere de morte princípios constitucionalmente consagrados e impõe a urgente intervenção do Judiciário. Especificamente em casos como o presente, esperava-se um maior zelo por parte da Administração Pública, uma vez que estamos diante de atos que podem configurar improbidade e que se destacam diante da relevante questão social (direito ao trabalho) e jurídica (dignidade da pessoa humana, acesso aos cargos públicos). Nestes termos, imperiosa é a declaração da nulidade do ato administrativo que ensejou a inaptidão do Autor, de modo a restaurar seu direito injustamente suprimido, bem como desincentivar a reiteração da postura ora verificada, o que puna, desde já. 4.2 DA NECESSIDADE DE SE COMPROVAR A IMPOSSIBILIDADE DO EXERCÍCIO DO CARGO - LESÃO À REGRA DA AMPLA ACESSIBILIDADE AOS CARGOS PÚBLICOS É inaceitável que um cidadão seja impedido de ter acesso ao cargo público mediante uma decisão genérica, sem fundamentação e sem motivação, configurando medida que fere os direitos fundamentais da pessoa humana e da Administração Pública. Agindo desta forma, o administrador deixa de zelar pelo bem comum, bem como se afasta de seu dever de buscar a máxima eficiência em sua atuação, passando a ser desidioso para com a sua função e com as verbas públicas. Não obstante a completa ausência de enfrentamento das razões suscitadas pelo Autor no recurso administrativo interposto, devidamente ratificado por profissional especialista na área, a banca examinadora furtou em relacionar o suposto quadro apresentado pelo Autor à eventual incapacidade para o exercício das funções por ele pretendidas. Relativo à matéria em comento, extrai-se do posicionamento do Tribunal de Justiça: Relator: Desembargador Edgard Penna Amorim Data de Julgamento: 07/05/2015 Data da publicação da súmula: 18/05/2015 EMENTA: EMBARGOS INFRINGENTES - AÇÃO ORDINÁRIA - ADMINISTRATIVO - PROCESSUAL CIVIL - CONCURSO PÚBLICO DA POLÍCIA MILITAR DE MINAS GERAIS - EXAME OFTALMOLÓGICO - INAPTIDÃO DA CANDIDATA PORTADOR DE MIOPIA - AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO - NULIDADE DO ATO ADMINISTRATIVO. 1. A motivação do ato administrativo é elemento indispensável a sua validade e destina-se a garantir o controle judicial da atuação administrativa (CR, art. 5º, inc. XXXV), dentre outras funções, como a de assegurar ao administrado o direito de conhecer as razões daquela atuação e eventualmente oferecer sua resistência, em exercício pleno da ampla defesa. 2. O ato administrativo que excluiu a candidata de concurso público ao reconhecer sua inaptidão nos exames preliminares de saúde, sem declinar o grau de miopia da autora ou em qual proporção sua enfermidade se afastava dos critérios estabelecidos na legislação atinente à matéria, deve ser considerado nulo por ausência de fundamentação. (grifo nosso) Depreende-se da conclusão obtida pelos profissionais que conduziram a realização do exame médico do Autor, emmomento posterior à declaração de sua inaptidão, que o quadro suscitado pela banca examinadora não corresponde à realidade efetivamente vivenciada pelo Autor. Os supramencionados exames não apresentaram qualquer das alterações inicialmente apontadas, o que leva a conclusão de que o quadro anteriormente nem sequer foi de fato diagnosticado, absolutamente incapaz de fundamentar o laudo de inaptidão exarado pela banca. Outrossim, de modo a tornar ainda mais espantosa a situação ora exposta, a banca examinadora pautou o laudo de inaptidão, de forma incisivamente genérica, em suposta incapacidade para o exercício das funções inerentes ao cargo de Bombeiro Militar, visto que não apresentou de forma crível nenhuma sequela ou limitação funcional do Autor para o exercício do cargo, não possuindo qualquer histórico relacionado às patologias a ele imputada pela banca examinadora se tratando de uma condição transitória. A Constituição Federal estabelece critérios rigorosos para regulamentar os procedimentos de ingresso de indivíduos no funcionalismo público, de modo que, aqueles que se enquadram nas exigências previamente estabelecidas para tal, devem invariavelmente serem admitidos, sob pena de violação à regra de amplo acesso aos cargos públicos Neste sentido, vejamos o que dispõe a Constituição Federal: Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: I – os cargos, empregos e funções públicas são acessíveis aos brasileiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei, assim como aos estrangeiros, na forma da lei; - grifo nosso A administração que exclui do certame candidato em perfeita sanidade física e que cumpre plenamente os requisitos previstos na lei e no edital de um certame, viola com veemência o princípio da acessibilidade aos cargos públicos, o que jamais deve ser admitido em sede de juízo de compatibilidade pelo poder judiciário. Nesse sentido, o posicionamento do Tribunal de Justiça de Minas Gerais: EMENTA: AGRAVO DE INSTRUMENTO - CONCURSO PÚBLICO - POLICIA MILITAR - ESCOLIOSE - ELIMINAÇÃO - COMPROMETIMENTO DA SANIDADE FÍSICA NÃO VERIFICADO - ILEGALIDADE DO ATO ADMINISTRATIVO - RECURSO PROVIDO. 1. Apesar da Resolução nº 4.278, de 2013, considerar como 'doenças e alterações dos ossos e dos órgãos de locomoção' desvios patológicos da coluna vertebral (Grupo XII - item 13), verifica-se que nos termos da lei de regência, tais circunstâncias apenas poderiam justificar a desclassificação do candidato ao cargo público se estas comprometessem a sua sanidade física ou mental. (grifo nosso) 2. Recurso provido. (TJMG - Agravo de Instrumento- Cv 1.0000.16.050776-0/001, Relator(a): Des.(a) Teresa Cristina da Cunha Peixoto, 8ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 23/02/0017, publicação da súmula em 13/03/2017) Certo é que o próprio CBMMG tem demonstrado que a análise da aptidão física dos seus integrantes deve obedecer à um somatório de critérios, necessariamente relacionados à capacidade ou não de exercer as funções específicas relativas ao cargo, relativizando a aplicação da Resolução de acordo com o caso concreto. Decisões como a ora combatida maculam a atuação administrativa, devendo ser alvo de censura por parte do judiciário, de modo a restaurar o direito turbado do Postulante, bem como desincentivar sua reiteração. 4.3 DA VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E DA PROPORCIONALIDADE Importante trazermos à baila que o objetivo fim de um concurso público é, mediante a aplicação de testes e provas, selecionar os candidatos capazes de realizar as funções inerentes ao cargo pretendido, de modo a satisfazer a demanda pelo serviço público para o qual a necessidade é constatada, em estrita observância às exigências legais destinadas à regulamentação do ingresso de indivíduos em cargos públicos. Dentre as garantias que regem o procedimento de ingresso em cargos públicos, imprescindível é a observância ao princípio da razoabilidade, o qual objetiva garantir que os atos administrativos se situem dentro de limites aceitáveis, preconizando resguardar que a conduta da administração se apresente dentro dos padrões normais de aceitabilidade. Caso a atuação extrapole tais padrões, algum vício estará, sem dúvidas, contaminando o comportamento praticado. Neste sentido, podemos constatar a absoluta ausência de razoabilidade por parte da administração pública que exclui candidato plenamente apto, por motivo de suposta incapacidade para o exercício do cargo, para o qual este exerce funções similares como mecânico, como se extrai de sua CTPS, de forma absolutamente satisfatória e cujo histórico mostra-se incapaz de sequer contribuir para tal entendimento. Profícuo suscitar que, ao momento da realização dos exames admissionais, o participante já logrou êxito em todas as etapas do certame, motivo pelo qual eventual exclusão somente pode ocorrer por razão relevante e inequivocamente comprovada. Mediante os exames que instruem a presente inicial, os quais foram devidamente apresentados em sede de recurso administrativo pelo Autor, podemos verificar de forma cristalina que o quadro “incapacitante” verificado pela banca examinadora não possui qualquer verificação nas próprias atividades realizadas em sede de Concurso pela Administração. Isso porque, o Candidato obteve uma nota de 23,10 (vinte e três inteiros e dez décimos) pontos em 30,00 (trinta) pontos na etapa de Teste de Capacitação Física, logo, no que a suposta patologia interfere no exercício de função? Do mesmo modo há que se pugnar pela razoabilidade em comento, isso porque, a suposta patologia alegada carece de exames complementares capazes de atestar sua presença e qualquer sequela limitante ao exercício da função. Demonstra-se, deste modo, a flagrante violação que o ato administrativo ora combatido constitui ao princípio da razoabilidade, motivo pelo qual não merece prosperar, por carecer de pressupostos de validade. Por outro lado, cumpre-nos discorrer acerca do princípio da proporcionalidade, o qual desponta como grande limitador do poder discricionário dos agentes que exercem um serviço público, sendo sua inobservância absolutamente inafastável por parte da administração pública. A discricionariedade, necessária à gestão da coisa pública, não é ilimitada, mas, pelo contrário, possui diversos parâmetros de controle, tais como a lei e os princípios constitucionais, dos quais convém destacar o da proporcionalidade, da razoabilidade, da impessoalidade, da segurança jurídica, dentre outros. Sobre o tema, assim leciona Hely Lopes Meirelles: Razoabilidade e proporcionalidade - Implícito na Constituição Federal e explícito, por exemplo, na Carta Paulista, art. 111, o princípio da razoabilidade ganha, dia a dia, força e relevância no estudo do Direito Administrativo e no exame da atividade administrativa. Sem dúvida, pode ser chamado de princípio da proibição de excesso, que, em última análise, objetiva aferir a compatibilidade entre os meios e os fins, de modo a evitar restrições desnecessárias ou abusivas por parte da Administração Pública, com lesão aos direitos fundamentais. Como se percebe, parece-nos que a razoabilidade envolve a proporcionalidade, e vice-versa. Registre-se, ainda, que a razoabilidade não pode ser lançada como instrumento de substituição da vontade da lei pela vontade do julgador ou do intérprete, mesmo porque "cada norma tem uma razão de ser". De fácil intuição, a definição da razoabilidade revela -se quase sempre incompleta ante a rotineira ligação que dela se faz com a discricionariedade. Não se nega que, em regra, sua aplicação está mais presente na discricionariedade administrativa, servindo-lhe de instrumento de limitação, ampliando o âmbito de seu controle, especialmentepelo Judiciário ou até mesmo pelos Tribunais de Contas. Todavia, nada obsta à aplicação do princípio no exame de validade de qualquer atividade administrativa. No aspecto da atuação discricionária convém ter presente ensino de Diogo de Figueiredo Moreira Neto demonstrando que a razoabilidade "atua como critério, finalisticamente vinculado, quando se trata de valoração dos motivos e da escolha do objeto" para a prática do ato discricionário. Deve haver, pois, uma relação de pertinência entre a finalidade e os padrões de oportunidade e de conveniência. A razoabilidade deve ser aferida segundo os "valores do homem médio", como fala Lúcia Valle Figueiredo, em congruência com as posturas normais ou já adotadas pela Administração Pública. Assim, não é conforme à ordem jurídica a conduta do administrador decorrente de seus critérios personalíssimos ou de seus standards pessoais que, não obstante aparentar legalidade, acabe, por falta daquela razoabilidade média, contrariando a finalidade, a moralidade ou a própria razão de ser da norma em que se apoiou. A Lei 9.784/99 também prevê os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Assim, determina nos processos administrativos a observância do critério de "adequação entre os meios e fins", cerne da razoabilidade, e veda "imposição de obrigações, restrições e sanções em medida superior àquelas estritamente necessárias ao atendimento do interesse público", traduzindo aí o núcleo da noção da proporcionalidade (cf. art. 2a, parágrafo único, VI). Nestes termos, o ato administrativo em comento incorre em inobservância ao princípio da proporcionalidade na medida em que denota a utilização de excesso de rigor por parte da banca examinadora, absolutamente desnecessário e incapaz atender a qualquer finalidade relevante. Noutra via, para além de não objetivar qualquer efeito consonante para com a eficiência da administração pública, a medida acaba por culminar em resultados absolutamente contrários ao pretendido. Mediante a exclusão de candidatos por motivos nitidamente decorrentes de procedimentos mau executados e desprovidos de qualquer precisão em suas conclusões, a administração acaba por deixar de se valer da prestação de serviços de candidatos que, em razão do ingresso na corporação se tratar de um sonho, poderiam se tornar profissionais altamente competentes e capazes de contribuir sobremaneira para a satisfação da alta demanda relativa ao indispensável serviço dos Bombeiros Militares. Deste modo, em razão de configurar notório excesso de rigor por parte do poder público, absolutamente desproporcional para a obtenção da finalidade pretendida pelo certame, bem como em virtude de constituir medida capaz de ensejar efeitos absolutamente contrários aos pretendidos pela administração, demonstra-se de forma indubitável a incisiva afronta que o ato administrativo ora combatido perfaz ao princípio da proporcionalidade. Nestes termos, diante de todo o exposto, pugna pela reconsideração do ato administrativo que declarou a inaptidão do Autor, com consequente declaração de sua plena aptidão para o exercício do cargo pretendido, por medida de direito. 4.4 DA OFENSA AO PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA ADMINISTRATIVA Cumpre-nos destacar, ainda, a inobservância que o ato administrativo ora em comento constitui ao princípio da eficiência administrativa, corolário cujo alinhamento é essencial para atuação administrativa em todos os âmbitos a que se estende. O princípio da eficiência administrativa traduz a ideia de que a administração pública deve buscar a obtenção dos melhores resultados em seus intentos, mediante a utilização dos menores recursos públicos cujas possibilidades permitirem. Um certame, procedimento indispensável para o ingresso de indivíduos no funcionalismo público, destina-se à satisfação das demandas emanadas pela sociedade em relação aos mais diversos serviços cuja responsabilidade de oferta é conferida ao poder público. Para tanto, é necessário se despender de considerável montante de recursos públicos, para a elaboração e condução de todas as etapas mediante as quais os concursos são empreendidos, motivo pelo qual deve-se obter o maior aproveitamento possível no que diz respeito ao contingente de pessoal obtido ao final do procedimento. Sendo assim, quando da realização dos exames admissionais, deve-se garantir que estes ocorram de forma devida, valendo-se de meios capazes de atingir resultados precisos, em respeito a todo o esforço de cunho material, mental e emocional dispensados pelos participantes, bem como de modo a evitar eventuais eliminações equivocadas. Quando o referido procedimento não ocorre mediante os supramencionados moldes, inevitavelmente, a administração acabará por excluir diversos candidatos plenamente aptos para o exercício dos cargos ofertados, o que acaba por culminar em menor eficiência do procedimento e, por conseguinte, desperdício de verbas públicas. Sendo assim, para além de mera decisão capaz de conferir prejuízos apenas aos candidatos em desfavor dos quais é tomada, a decisão ora combatida configura veemente violação ao princípio da eficiência, motivo pelo qual deve ser suprimida. Nestes termos, de modo a honrar os consideráveis investimentos de verbas públicas necessárias para a condução do certame, bem como de modo a censurar condutas análogas à ora verificada, pugna pela prestação jurisdicional ora requerida. 4.5 NULIDADE POR OFENSA À LEGALIDADE Mediante a fundamentação ora suscitada, resta absolutamente inconteste a ofensa, por parte da administração pública, à diversos princípios jurídicos e postulados constitucionais, tais como as nítidas violações aos princípios da razoabilidade, proporcionalidade e eficiência, o que, por óbvio, constitui, consequentemente, veemente violação ao princípio da legalidade. O princípio da legalidade, expresso na nossa Constituição Federal em seu art. 37, caput, preconiza que: “a administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência” Neste mesmo sentido, leciona o brilhante doutrinador Hely Lopes Meirelles: “na administração pública não há liberdade nem vontade pessoal. Enquanto na administração particular é lícito fazer tudo o que a lei não proíbe, na Administração Pública só é permitido fazer o que a lei autoriza. A lei para o particular significa “poder fazer assim”; para o administrador público significa “deve fazer assim”. MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro – 25. Ed. São Paulo: Malheiros, 2000. (Destaque Nosso) O Especialista aduz, ainda, que: “a legalidade, como princípio de administração, significa que o administrador público está, em toda sua atividade funcional, sujeito aos mandamentos da lei, e às exigências do bem comum, e deles não se pode afastar ou desviar, sob pena de praticar ato inválido e expor-se à responsabilidade disciplinar, civil e criminal, conforme o caso”. (Destaque Nosso) O princípio da legalidade é uma das maiores garantias dos cidadãos frente ao Poder Público. Esse princípio representa a total subordinação da administração pública à previsão legal, visto que seus agentes devem atuar sempre conforme a lei. Assim, o administrador público não pode agir a bel prazer, desconsiderando as disposições legais atinentes à sua atuação, tal como ocorreu no caso em comento. O Administrador Público deve observar rigorosamente o princípio da legalidade no tocante a investidura em cargos públicos, não restando margem para agir com discricionariedade. A atividade administrativa encontra na lei seus fundamentos e seus limites. Ao contrário do que ocorre com o cidadão particular, o administrador público não pode fazer tudo o que não está proibido, mas sim, apenas o que a lei autoriza. BrunoTulim e Silva, ao tratar a matéria, explica que: “Para que a administração possa atuar, não basta à inexistência de proibição legal, é necessário tanto a existência de determinação ou autorização da atuação administrativa na lei. Os particulares podem fazer tudo o que a lei não proíba, entretanto, a Administração Pública só pode fazer aquilo que a lei autorizar.” SILVA, Bruno Tulim. Noções de Direito Administrativo. NOVA, 2015. (Destaque Nosso) Deste modo, podemos verificar, claramente, que a administração pública incorreu em violação incisiva ao princípio da legalidade. A Súmula 473 do STF, afirma que a Administração Pública pode anular seus próprios atos quando eivados de vícios que os tornam ilegais, porque deles não se originam direitos ou, até mesmo, revogá-los, por conveniência e oportunidade, sempre respeitando os direitos adquiridos e ressalvadas, em todas as hipóteses, as apreciações judiciais, veja-se: SÚMULA Nº 473 – STF: A administração pode anular seus próprios atos, quando eivados de vícios que os tornam ilegais, porque deles não se originam direitos; ou revogá-los, por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos, e ressalvada, em todos os casos, a apreciação judicial. Esta Súmula prevê a possibilidade de o Poder Judiciário apreciar os atos da administração quando eivados de ilegalidade. Assim, o Poder Judiciário poderá intervir, se for o caso de não respeitar os ditames legais, no caso concreto. Desta forma, tal como exaustivamente exposto, faz-se absolutamente inconteste o fato de que, a conduta do Estado de Minas Gerais para com o Postulante configurou grave ilegalidade, a qual se manifestou mediante diversas inobservâncias às previsões legais estabelecidas pela regulamentação competente para o ingresso de indivíduos nos cargos públicos. Destarte, resta inequívoca a necessidade da intervenção judicial, de modo a suprimir a ilegalidade ora verificada, bem como desincentivar sua reiteração por parte do poder público, o que, desde já, requer. 4.6 DA VIOLAÇÃO À AMPLA DEFESA NO CASO EM COMENTO Imprescindível salientar, ainda, que, para além de todas as irregularidades devidamente demonstradas até o momento, a conduta da administração configurou notória violação ao direito do Autor à ampla defesa e ao contraditório, o que jamais deve ser admitido. Em sede de julgamento dos recursos administrativos, para o qual o Autor realizou exames médicos chancelados por profissionais especialistas, a banca examinadora, em ato de manifesta arbitrariedade, limitou-se a exarar o termo “inapto” à frente de seu nome. Na oportunidade, não foram enfrentados nenhum dos pontos suscitados pelo Autor, os quais, de forma cristalina, constituíam fundamentação robusta o suficiente para demonstrar o equívoco da banca examinadora quando da declaração de sua inaptidão. Deste modo, podemos claramente concluir que, não obstante sua previsão em edital, o instituto do recurso administrativo figurou no certame apenas com vistas a conferir aspecto de legalidade, sem, no entanto, possuir qualquer efetividade prática. Ora, Excelência, se os candidatos sequer dispõem de certeza de que seus argumentos foram devidamente considerados, qual a finalidade de se constar a previsão de possibilidade de interposição de recurso administrativo no edital de abertura do certame? Em tais moldes, melhor seria a previsão de impossibilidade de se recorrer dos atos administrativos relativos ao certame, uma vez que tal previsão ensejaria os mesmos efeitos ora percebidos. É inadmissível considerar-se válido o resultado exarado pela banca examinadora, uma vez que o recurso administrativo se trata da última via extrajudicial de que dispões os candidatos para se insurgir perante eventuais ilegalidades por parte dos responsáveis pela condução do certame. A postura do poder público na situação ora exposta denota profundo desrespeito para com os esforços dos candidatos para a obtenção da aprovação em todas as etapas do certame, motivo pelo qual não merece prosperar. Sendo assim, demonstrada de forma inequívoca a violação aos direitos do Candidato à ampla defesa e ao contraditório, imperiosa é a declaração da nulidade do ato administrativo ora em comento, o que, desde já, requer. 4.6 DA SITUAÇÃO PESSOAL DO AUTOR - COMPROVAÇÃO DE SANIDADE FÍSICA - AUSÊNCIA DE LIMITAÇÃO FUNCIONAL Para melhor convencimento do douto Julgador, adiante demonstraremos que o Autor não possui qualquer enfermidade capaz de acarretar limitação física ou funcional. Tal como mencionado alhures, o Autor fora eliminado em razão da verificação de suposto quadro de “hipertiroidismo subclínico E05.9 / Transtorno não especificado da tireoide E07.9”, em relação ao qual fora suscitada a incapacidade para o exercício das funções inerentes ao cargo, o que constitui um excesso de rigor, absolutamente incapaz de conferir qualquer benefício ao interesse público, somente claro prejuízo ao candidato. Em primeiro lugar já é imprescindível demonstrar a lesão à doutrina médica que a presente etapa nos trouxe, uma vez que, o avaliador médico responsável pela inaptidão do Autor em virtude de análise de seu exame de sangue, se deu por médico não especialista em ENDOCRINOLOGIA, se tratando de um profissional que é especialista em matéria diversa da exigida para identificar patologias nos hormônios e metabolismo humanos, vejamos: Desta forma, nota-se que o Médico não especialista ignora toda a liturgia médica, uma vez que, os meros achados no exame de sangue, dependem de uma análise correlata com o quadro clínico, ou seja, dependem de exames complementares capazes para diagnosticar até mesmo a presença da patologia alegada pela junta médica, aliás, os próprios laboratórios trazem essa marcação nos resultados dos exames de TSH, T3 Livre e T4 Livre, vejamos: Desta forma, nota-se que os próprios laboratórios responsáveis pela execução da coleta do exame de sangue que declarou o candidato inapto já mencionam que o resultado per si não enseja diagnóstico de qualquer quadro clínico. Desta forma, o Autor realizou nova repetição dos exames de sangue que estavam fora da margem para a junta médica, para demonstrar que se tratou tão somente de causa transitória, em tela os resultados: Em posse dos resultados, encaminhou para análise junto de um especialista capaz de interpretar tais exames de forma correta, o Médico especialista em endocrinologia Dr. Marcelo Geraldo Alves Júnior, CRMMG 49805, que atestou que não há queixas ou qualquer sinal clínico referente a tireoidopatia, se encontrando apto para atividades físicas em gerais, inclusive as destinadas ao cargo de Soldado do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, vejamos: Assim, conforme o especialista atesta, não há qualquer transtorno ou quadro clínico, divergindo do diagnosticado erroneamente pela junta médica em sede de exames admissionais ao cargo. Do mesmo modo, a Junta Médica não conseguiu trazer nenhum fator limitante ou sequela impeditiva para obstaculizar o Autor de exercer as funções de soldado da CBMMG, tratando-se de uma inaptidão ilegal, pautada tão somente em análise visual dos exames e mera conferência com as Resoluções norteadores da presente fase, desprezando toda a doutrina médica e comando do próprio laboratório de que a mera constatação não é capaz de ensejar qualquer quadro clínico. Em casos como o ora exposto, faz-se imprescindível se atentar à capacidade cerceadora de direitos que tal decisão possui e somente emitir tal declaração em hipótese de plena certeza de seu caráter crônico, bem como da ocorrência de repercussões negativas na prática real dos exercícios inerentes à função pretendida, restando claro que em momento algum a CBMMG demonstrou qual sequela ou limitação física o Autor possui e estaria, portanto, impedido de exercer a função. O acesso aos cargospúblicos trata-se de um direito cuja proteção é realizada por diversos princípios jurídicos e postulados constitucionais, não estando à mercê do subjetivo entendimento de examinadores que não conferem à etapa que lhe competem a importância que lhe é devida. O Candidato trata-se de indivíduo plenamente apto, sendo seu quadro incapaz de, em seu caso específico, ensejar eventual inabilitação para a realização das atividades inerentes à profissão de Bombeiro Militar. Resta absolutamente inconteste, portanto, que tal entendimento constitui nítida injustiça, decorrente da completa ausência de método adequado por parte da banca examinadora para realização de tal aferição, se perfazendo imperiosa a atuação do poder judiciário, mediante juízo de compatibilidade, para restaurar o direito turbado do Autor, restituindo a legalidade do certame. A Administração Pública, ao exercer suas funções, deve primar pela razoabilidade de seus atos a fim de legitimar as suas condutas, fazendo com que este princípio seja utilizado como vetor para justificar a emanação e o grau de intervenção administrativa imposto pela esfera administrativa ao destinatário. Desta forma, não se mostra razoável a eliminação do candidato que goza de saúde plena sequer possuindo qualquer das patologias alegadas pela CBMMG, demonstrando que o Autor se encontra em pleno gozo de sua saúde, se tratando de rigor excessivo da Administração Pública. Destaca-se o entendimento do Tribunal de Justiça de Minas Gerais em caso análogo: EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL - REEXAME NECESSÁRIO - AÇÃO ORDINÁRIA - CONCURSO PÚBLICO - BOMBEIRO MILITAR - REQUISITO DE SANIDADE FÍSICA - BAIXA ACUIDADE VISUAL E CICATRIZ CIRÚRGICA NO JOELHO ESQUERDO (ARTROSCOPIA) - OFENSA AO PRINCÍPIO DA IRRAZOABILIDADE. A administração pública é livre na estipulação dos critérios para a seleção dos candidatos a cargo público, porém, a razoabilidade e a proporcionalidade devem estar presentes quando da fixação de seus requisitos. [...] (TJMG - Ap Cível/Rem Necessária 1.0024.13.256449-3/002, Relator(a): Des.(a) Judimar Biber, 3ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 04/12/2018, publicação da súmula em 22/01/2019) (Destaque Nosso) Assim, resta cabalmente demonstrado que a parte Autora se enquadra perfeitamente nos requisitos para ingresso nos quadros da PMMG, sendo a anulação do ato administrativo que a contraindicou à medida que se impõe. 4.7 DA PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVAS Excelência, é fato que, no caso em comento, faz-se necessária a produção de prova pericial em caráter antecipado, pelos motivos convictos que passaremos a expor neste tópico. A produção antecipada de prova pericial é plenamente possível na ocasião do início do procedimento, nos termos do art. 139, VI, do CPC, que estabelece sobre a possibilidade de o magistrado alterar a ordem de produção dos meios de prova, adequando-os às necessidades do conflito. Pois bem. Cediço que, havendo concordância do Ilmo. Perito Judicial em direção à pretensão autoral, faz-se uma prova cabal do direito que aqui pleiteia e, desde já, possibilita ao Juízo maior cognição sobre a realidade dos fatos, inclusive para poder prolatar eventual medida liminar satisfativa, caso entenda não ser cabível neste momento, já que, diante do parecer favorável do perito, fica nítido que o processo tende a trilhar para a procedência. Doutro lado, caso o perito entenda pela incapacidade física do Autor e pela ausência de irregularidades no certame, tem-se que a pretensão autoral restará infundada. Nos termos do art. 381, III, do CPC, é possível a produção antecipada da prova nos casos em que o prévio conhecimento dos fatos possa justificar ou evitar o ajuizamento da ação, portanto, caso o Autor não obtenha êxito na eventual prova pericial, poderá, desde já, desistir do processo, em função do ínfimo lastro probatório. Nesse sentido, o que se busca com a produção antecipada de prova é somente obter um lastro probatório mínimo para prosseguir na demanda e resguardar o direito autoral, ou, ainda, a certeza de que esta seria inviável (caso a perícia seja desfavorável ao Autor). Dessa forma resta presente o respeito à diversos princípios, tais como o da duração razoável do processo, da eficiência, da boa-fé processual, dentre outros. Acerca do tema, extrai-se das palavras do eminente doutrinador, Fredie Didier Jr, em sua obra, que: “É possível utilizá-la, também, para preparar o lastro probatório de futuro pedido de tutela provisória. A possibilidade de uma “justificação prévia” em caso de tutela provisória de urgência sinaliza nesse sentido (art. 300. §2º, CPC).” Portanto, pugna pelo deferimento da produção antecipada de prova pericial médica, por se tratar de medida pertinente no caso em voga. 5 DO PEDIDO LIMINAR É cediço em direito que, para concessão do pedido liminar, ou seja, da concessão da antecipação dos efeitos da tutela que se pretende atingir com a lide, necessária se faz a presença de dois requisitos, estabelecidos pelo art. 300 do Código de Processo Civil, a saber, a probabilidade do direito e o perigo na demora. Pois bem. É nítido que no caso em comento restam figurados todos os pressupostos para concessão da medida liminar. É fato que há elementos que evidenciam a probabilidade de êxito do Autor, eis que presentes a verossimilhança fática com alto grau de plausibilidade em torno dos fatos, bem como o extremo risco de se perder o objeto, em hipótese de indeferimento da medida aqui pleiteada, ou seja, extremo periculum in mora. 5.1 PROBABILIDADE DO DIREITO Excelência, conforme exaustivamente demonstrado nesta exordial, é cediço o direito do Autor. É sabido que a probabilidade no direito, para fins de concessão liminar, deve ser realizada em juízo perfunctório, de modo que exista apenas a fumaça do bom direito e, diante deste caso, existe fumaça e fogo do Direito autoral. Trata-se de caso recorrente em que o judiciário tem se mostrado eficaz no sentido de combater a ilegalidade administrativa. No caso em comento, a eliminação do Autor foi maculada por inúmeras irregularidades, consoante expresso no corpo dessa exordial. Profícuo aclarar que o Poder Judiciário tem sido eficaz em combater as ilegalidades praticadas pela administração em certames análogos. De maneira a demonstrar os abusos cometidos pela Banca Examinadora, no tocante aos atos de eliminação de candidatos, colaciona-se decisão liminar do certame similar referente ao Curso de Formação de Soldados do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais – Ano 2020 de modo a declarar a invalidade do laudo médico, bem como o ato administrativo que eliminou o candidato do referido certame. Noutra via, o ato ora combatido incorreu em violação a diversos princípios jurídicos e postulados constitucionais, o que acabou por comprometer sua credibilidade e, por conseguinte, sua capacidade de gerar efeitos práticos, uma vez que, ausentes seus pressupostos de validade, a decisão faz-se nula de direitos. Deste modo, notória é a probabilidade do direito de que dispõe o Postulante, suficientemente robusta para ensejar o deferimento da medida liminar ora pleiteada. 5.2 PERIGO DA DEMORA Por estarmos diante de um concurso de fases, é indubitável que o perigo da demora resta evidente. Não havendo deferimento da medida liminar ora requerida, certo é que, ao fim, caso seja vitorioso, o Autor haverá sido exposto, por lapso temporal ainda mais majorado, a inúmeros prejuízos irreparáveis ou de difícil reparação, em virtude de situação manifestamente ilegal por ele vivenciada. Reitera-se que, a cada dia que passa, o Autor percebe seu direito constituído ser desconsiderado, de modo que, tudo aquilo que se refere à sua nomeação, jamais lhe será restituído, como podemos citar por exemplo, o salário referente ao período de tramitação do presente feito, a colocação e tempo no cago, bem como diversos outros fatores relativosà sua vida profissional. Há de se considerar, ainda, os prejuízos de ordem psicológica e emocional, os quais, inclusive, são relacionados à necessidade de ingresso com a presente demanda e, por quanto mais tempo perdurarem, serão objetivo de desgaste por parte do Candidato, não sendo justa a sua permanência, uma vez que só ocorreram em razão da postura absolutamente desarrazoada, desproporcional e ilegal por parte da administração pública. Colaciona-se tela contemporânea dos andamentos do concurso e demonstra-se que já houve na data de 06/11/2023 a publicação da convocação para matrícula dos últimos excedentes masculinos do Concurso, sendo que o Autor se encontra melhor posicionado que os candidatos convocados na ocasião, vejamos: Deste modo, é imprescindível o deferimento da medida liminar, com vistas a declaração da plena aptidão do Autor e consequente nomeação para o cargo pretendido, para que não perceba, por lapso temporal ainda mais majorado, os prejuízos decorrentes da violação de seu direito de ingresso no cargo, para o qual foi devidamente aprovado, classificado e cujas funções dispõe de plena aptidão para o exercício e inclusive se encontra classificado dentro do número de vagas previstas em edital. Ademais, visando preencher o quadro de Soldados do CBMMG, tendo em vista as inúmeras vacâncias e desistências para o cargo do Autor, em 08 de novembro de 2023, foi tornado público o Ato nº 15.702/23 prorrogando o período de validade do edital em mais 30 (trinta) dias a partir de 10 de novembro de 2023 para preencher as vagas ao curso de formação, vejamos: I - CONSIDERANDO que: a) o edital estabelece no item 19.41 que o concurso poderá ser prorrogado uma única vez e por igual período do contado a partir da data de homologação que ocorreu em 10/10/23; b) na condição de Soldado de 2ª Classe, os militares recém incluídos podem pedir desistência do curso de formação, ainda dentro do prazo de validade do concurso; c) há necessidade de preenchimento de todas as vagas ofertadas no concurso; d) nos termos do item 18.1 e 18.22 do edital, o CBMMG poderá convocar excedentes, dentro do período de validade do edital. II - RESOLVE: PRORROGAR o prazo de validade do concurso ao Curso de Formação de Soldados Bombeiros Militar para o ano de 2023 por mais 30 (trinta) dias, a partir do dia 10 de novembro de 2023. Desta forma, considerando que o Candidato se encontraria dentro dos convocados em excedente que estão sendo chamados em virtude da necessidade da CBMMG preencher todas as vagas ofertadas e prorrogaram o edital para que assim pudesse faze-lo, se faz mister a concessão da tutela de urgência ao Autor, para que participe do Curso de Formação e ao fim, caso seja aprovado, se forme e seja convocado para exercer seu cargo em virtude da necessidade da Administração Pública. Profícuo suscitar, ainda, que o Autor não tem conhecimento de quando haverá outro certame, de modo que, caso a liminar não lhe seja concedida, sofrerá prejuízos imensuráveis, tanto de cunho financeiro, quanto em sua carreira profissional, eis que terá que aguardar um novo concurso para só então, adquirir os conhecimentos necessários para exercer a função de Mecânico do Corpo de Bombeiros Militar. Sendo assim, a demora no provimento jurisdicional é um risco cediço ao Autor. 5.3 REVERSIBILIDADE DA MEDIDA Nos termos do art. 300, §3º, do Código de Processo Civil, a tutela de urgência não será concedida quando houver perigo de irreversibilidade dos efeitos da decisão, o que claramente não se vislumbra no caso presente, uma vez que, em eventual revogação da medida concedida, é certo que o Autor poderá ser eliminado a qualquer momento, sem que haja para o estado nenhum empecilho para fazê-lo. Deve-se invocar a proporcionalidade no caso concreto. É razoável um candidato - hipossuficiente e totalmente vulnerável diante do estado – sofrer o risco de perceber tamanho prejuízo, por lapso temporal ainda mais majorado, caso não tenha sido concedida a medida liminar no início do processo? Por outro lado, qual prejuízo terá o estado, caso a medida seja revogada e, futuramente, o Candidato seja eliminado? Posto isto, é nítido que o deferimento da tutela provisória se justifica, já que não é possível aguardar pelo término do processo, uma vez que, invariavelmente, a demora causará à parte autora dano irreversível. 6 PEDIDOS Por todo exposto e comprovado no presente exordial, é que se requer de V. Exa. liminarmente: a) A concessão da medida liminar, para que o Autor possa garantir sua matrícula no Curso de Formação de Soldados do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CFSd BM 2023) e, ao fim, se forme e seja promovido entrando em exercício das atividades, sem qualquer discriminação e concorrendo em regime de igualdade com os demais ou, caso não seja possível seu ingresso no curso em vigência, que seja garantida a sua reserva de vaga para o próximo curso de formação que vier a ocorrer; b) A intimação em caráter de urgência, inclusive via e-mail, telefone ou outro meio rápido e com urgência, da concessão da liminar; c) A designação de perícia judicial, em caráter de antecipação de provas, para que seja realizada a perícia em juízo, a ser realizada por ESPECIALISTAS; d) Seja o CBMMG intimado a fornecer (inclusive para perícia antecipada): • Cópia de toda bateria de exames e seus respectivos resultados realizados pelo Autor, bem como dos laudos contendo os motivos de sua contraindicação; • Laudos de Inaptidão do candidato, bem como o resultado dos Recursos Administrativos interpostos. Posteriormente, requer ainda: e) Seja concedida a Justiça Gratuita, por ser o Autor pobre no sentido legal, não possuindo condições de arcar com as custas processuais e demais encargos sem prejuízo do sustento próprio e da família (declaração de pobreza e comprovantes anexos); f) Seja o réu citado para, querendo, apresentar defesa no prazo hábil; g) Seja declarado nulo o ato administrativo que excluiu o Autor do certame, confirmando a tutela antecipada eventualmente concedida; h) Subsidiariamente, caso, à época do julgamento, o Autor não estiver matriculado no Curso de Formação, que lhe seja garantida a reserva de vaga no próximo a ser realizado, cujo certame para o provimento das vagas já se encontra em andamento; i) Seja assegurado ao Autor todos os direitos inerentes ao cargo bem como progressão na carreira, retroagindo seus efeitos à data da propositura desta ação, em condições de igualdade com os demais candidatos convocados conforme o cronograma regular; j) Que o réu seja condenado ao pagamento das custas, despesas processuais e honorários advocatícios, em valor a ser arbitrado por Vossa Excelência, nos termos da lei processual vigente. Protesta provar o alegado por todos os meios de prova em direito admitidos, especialmente pericial e testemunhal. Por inestimável, dá-se a causa o valor de R$ 1.000,00 (um mil reais). Nestes termos, pede deferimento. Belo Horizonte, 30 de novembro de 2023. GIOVANNI ARAÚJO OAB/MG 174.298