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Os verbos “haver” e “fazer” indicando tempo
decorrido
Há vinte anos / que não ouço o ruído dos canhões.
oração sem sujeito sujeito determinado elíptico (eu)
Na primeira oração (“Há vinte anos”), o verbo haver indi-
ca tempo decorrido (Faz vinte anos). Quando haver e fazer
possuem esse sentido, ficam sempre na terceira pessoa do
singular, tornando-se impessoais.
Correto: Faz vinte anos que não ouço o barulho dos canhões.
Errado: Fazem vinte anos que não ouço o barulho dos canhões.
Na segunda oração, o sujeito é determinado elíptico,
a ação é atribuída a alguém, “eu”.
O verbo “haver” com o sentido de existir,
acontecer, realizar
[...]
Há um oásis no Incerto
[...]
Alberto Caeiro. “Múmia”. In: Massaud Moisés. (Ed.). O guardador de
rebanhos e outros poemas. 7. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 63.
No texto citado, o verbo “haver” pode ser substituído
por “existir”:
Existe um oásis no Incerto.
A exemplo do caso anterior, o verbo haver é impessoal;
só pode ser usado no singular (sozinho ou em locução verbal):
Há poesias. Deve haver poesias.
oração sem sujeito oração sem sujeito
Outros exemplos:
Houve brigas no jogo.
Havia vinte torcedores armados.
Pode haver menores envolvidos.
O verbo existir é pessoal, estabelendo concordância com o sujeito.
Existem poesias. Devem existir poesias.
 sujeito determinado sujeito determinado
Atenção
Com outros sentidos, o verbo haver não é impessoal.
Assim, pode ocorrer o sujeito determinado ou indeterminado.
Houveram um alvará.
suj. indet. (obter)
Eles se houveram com dignidade.
suj. det. (comporta-se)
Nós havíamos tido uma discussão.
suj. det. (ter)
Em linguagem coloquial e em certos textos literários, é
comum o emprego do verbo “ter” com o sentido de existir.
Veja o exemplo a seguir:
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu.
[...]
Chico Buarque. “Roda viva”. Intérprete: Chico Buarque.
In: Chico Buarque de Hollanda – Volume 3. 1968.
Em “tem dias”, o verbo apresenta-se no singular, é im-
pessoal e assume, como o “haver”, o sentido de “existir”.
O uso de “ter” com o sentido de existir deve ser evitado
em linguagem culta.
Com verbos que denotam tempo e fenômenos da
natureza
Chove lá fora e aqui faz tanto frio [...]
Lobão. “Me Chama”. Intérprete: Lobão. In: Vivo. 1990. 13a faixa.
São quinze horas em Brasília.
Os verbos “chover” e “fazer” são impessoais, não
apresentam sujeito; como nos exemplos anteriores, só
há predicado. O verbo ser admite plural, pois concorda
com o predicativo, mas, nesse caso, não possui sujeito.
Informações complementares
Tipos de inversão
Hipérbato
É a inversão da ordem natural das palavras na oração,
ou a da ordem indireta das orações no período.
[...]
O coração no peito, que estremece
De quem os olha, se alvoroça, e teme.
[...]
Luís Vaz de Camões. Evanildo Bechara; Segismundo Spina (Ed).
Os Lusíadas – antologia. 2. ed. Ateliê Editorial. p. 178.
A oração “que estremece” parece referir-se a “peito”; no
entanto, isso não é verdade; temos uma ordem indireta; a
oração adjetiva “que estremece” está ligada a “coração”;
a ordem direta seria assim:
O coração, que estremece no peito de quem os olha,
se alvoroça e teme.
Anástrofe
Quando se pospõe uma preposição ao seu consequen-
te, temos a anástrofe.
Sonho através das cores. Sonho das cores através.
ordem direta ordem indireta: anástrofe
Sínquise
Se a inversão for radical, teremos a sínquise.
Lícias, pastor – enquanto o Sol recebe,
Mugindo, o manso armento e ao largo espraia,
Em sede abrasa, qual de amor por Febe,
– Sede também, sede maior, desmaia.
[...]
Alberto de Oliveira. “Taça de coral”.
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Interpretação do texto: Lícias, pastor, enquanto o
manso armento, mugindo, recebe o sol e ao largo espraia,
abrasa em sede, qual desmaia de amor por Febe, sede
também, sede maior.
A ordem indireta, em prosas dissertativas, também
pode ser utilizada, mas não de forma radical. A anteposição
do adjetivo ou mesmo do predicado é comum nos textos
dos bons autores e constitui-se em um fato estilístico.
Ordem das palavras
O fragmento a seguir é de Gonçalves Dias, do poema
“Canção do exílio”, no qual há uma pequena modificação:
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
[...]
Gonçalves Dias. “Canção do exílio”.
“Onde o sabiá canta” ou “onde canta o sabiá”? No
texto de Gonçalves Dias, a ordem é a segunda, pois ao
colocar o sujeito em ordem indireta, à direita do verbo,
o poeta obtém uma rima de final de verso: sabiá/lá. Tra-
ta-se de uma manobra sintática com fins estilísticos. Na
poesia, passar da ordem direta para a indireta, às vezes,
é necessário para que se entenda o texto de forma mais
clara. Veja este fragmento pertencente à obra de Gregório
de Matos:
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
[...]
Segismundo Spina. “A instabilidade das cousas do mundo”. In: A poesia de
Gregório de Matos. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1995. p. 161.
Em ordem direta, teríamos:
O Sol nasce, e não dura mais que um dia,
A noite escura se segue depois da Lua,
A formosura morre em sombras tristes,
A alegria em tristezas contínuas.
Os dois últimos versos ficam mais claros em ordem di-
reta; as transformações tornam-se mais evidentes, embora,
novamente, percamos a rima de final de verso. A identifi-
cação do sujeito é possível em função da concordância
(“formosura” e “morre” no singular, assim como “alegria”,
sujeito da última oração, que apresenta verbo elíptico) e do
fato de as expressões “em tristes sombras” e “em contínuas
tristezas” estarem comandadas por preposição.
Mas a ordem indireta não é uma característica apenas
da poesia. Na linguagem veicular, em muitos momentos,
observa-se o seu uso:
Faltam vinte segundos, o Brasil vai
fechar o set e se tornar o campeão da
Liga Mundial de Vôlei Feminino, atenção,
senhoras e senhores, final de partida...
No texto citado, a expressão “vinte segundos” é o su-
jeito de “faltar”, verbo intransitivo (sem complemento). Parte
significativa dos verbos intransitivos leva o sujeito à direita
do verbo (ordem indireta); é o caso de acontecer, restar,
sobrar, ocorrer, nascer, morrer etc. A não atenção à ordem
pode acarretar erro de concordância:
Linguagem coloquial
Sobrou dez reais!
Aconteceu tantas coisas, menina!
Resta vinte sacolas, Jacó!
Linguagem culta
Sobraram dez reais!
Aconteceram tantas coisas!
Restam vinte sacolas, Jacó!
Posposição do sujeito
Para melhor entendimento, é interessante relatar os
casos em que o sujeito costuma estar posposto. Veja cada
um deles:
a. em orações infinitivas (introduzidas por verbo no infi-
nitivo), com verbos intransitivos (que não precisam de
complemento) ou passivos (que sofrem ação).
Declarou não existir burocracia.
Disse ter sido o povo enganado.
b. quando algum elemento da oração, que não o sujeito,
ocorre na primeira posição.
y Interrogativas com pronome
Onde estão meus camaradas?
y Topicalizações (com o objeto, complemento do
verbo, ou predicativo)
Isso disse ele! Louca é você!
y Com pronomes relativos (que, onde, aonde, o qual)
Não sabia onde moravam os deuses de suas
fantasias.
c. com verbos reflexivos (carregam o pronome consigo)
de sentido passivo:
Desfaz-se a última lágrima revolucionária.
d. com verbos no particípio:
Detidos todos os ladrões, os policiais voltaram à dele-
gacia.
e. em orações intercaladas (no meio de outra):
O sonho, dizia um amigo, é construído ao longo da vida.
Coloquialismo de “eu” e “tu”
Os pronomes “eu” e “tu” funcionam como sujeito na
oração. Sua colocação no predicado é coloquial.
Você viu eu na televisão?
ling. coloquial
Você me viu na televisão?
ling. culta
Verbo “chover” aceitando sujeito
No sentido figurado, o verbo chover aceita sujeito.
Chovem canivetes.
sujeito
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Sujeito e predicado116
Texto para as questões de 1 a 10.
Chuva de vento
[...]
Chuva de vento
É quando o vento dá na chuva
Sol com chuva – céucinzento
Casamento de viúva
Zeca Secura
Da Fazenda do Anzol
Quando chove não vê sol
Vai comprar feijão no centro
Bebe dez litros
De cachaça em meia hora
Pra aguentá chuva por fora
Tem que se molhar por dentro
Vento danado
É aquele lá de Minas
Sopra em cima das meninas
Diverte a população
Até os velhos
Vão correndo pras janelas
Pra ver se alguma delas
Já usa combinação
Fez sol com chuva
Tem viúva lá da Penha
Não há viúva que tenha
Tanto pretendente junto
Mas um por um
Dos pretendentes é otário
Pois o vencedor do páreo
Ganha resto de defunto
Quem nunca viu
Chuva de vento à fantasia
Vá em Caxambu de dia
Domingo de carnaval
Chuva de vento
Só essa de Caxambu
Domingo chove chuchu
E venta água mineral
Um Zé Pau-d'água
Tem um amigo parasita
Não trabalha e sempre grita:
“Viva Deus e chova arroz!”
Gritando assim
Do seu povo ele se vinga
Viva Deus e chova pinga
Que arroz nasce depois.
[...]
Noel Rosa. Intérpretes: Noel Rosa; Henrique Foréis Domingues. In: Noel pela primeira vez – volume 7. Velas; Funarte, 2000. 33a faixa.
Revisando
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