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F R E N T E 2 235 Vem um Corregedor, carregado de feitos, com sua vara na mão, e chegando à barca do Inferno diz: CORREGEDOR: Hou da barca! DIABO: Que quereis? CORREGEDOR: Stá aqui o senhor juiz! DIABO: Ó amador de perdiz. quantos feitos que trazeis! CORREGEDOR: No meu ar conhecereis que sem gosto os trago cá. DIABO: Como o direito vai lá? CORREGEDOR: Nestes feitos o vereis. DIABO: Ora pois, entrai, veremos que diz ‘i nesse papel... CORREGEDOR: E aonde vai o batel? DIABO: No Inferno vos poremos. CORREGEDOR: Como? À terra dos demos Há de ir um corregedor? DIABO: Santo descorregedor, embarcai, e remaremos! Ora, entrai, pois que viestes! CORREGEDOR: Non est de regulae juriz, não! DIABO: Ita, Ita! Dai cá a mão, remaremos um remo destes. Fazei conta que nascestes para nosso companheiro. (E voltando-se autoritariamente para o seu Companheiro) Que fazes tu, barzoneiro? Fig. 7 Alexander Dmitrievich Litovchenko, Caronte transportando almas através do rio Styx, 1861, óleo sobre tela, The State Russian Museum, São Petersburgo, Rússia. A le x a n d e r D m it ri e v ic h L it o v c h e n k o ( D o m ín io p ú b lic o ) Faze-lhe essa prancha prestes! CORREGEDOR: Oh! Renego da viagem e de quem me há de levar! Há aqui meirinho do mar? DIABO: Não há cá tal costumagem. CORREGEDOR: Não entendo esta barcagem, nem hoc nom potest esse. DIABO: Se ora vos parecesse que não sei mais que linguagem!... Entrai, entrai, corregedor! CORREGEDOR: Hou! Videtis qui petatis! Super jure magestatis tem vosso mando vigor? DIABO: Quando éreis ouvidor Non ne accepistis rapina? Pois ireis pela bolina como havemos de dispor. VICENTE, Gil. Auto da barca do Inferno. In: ______; SPINA, Segismundo (Org.). Gil Vicente: O velho da horta, Auto da barca do inferno; Farsa de Inês Pereira. Cotia: Ateliê Editorial, 2003. p. 153-5. non est de regulae juris: não é norma do direito. hoc nom potest esse: isso não pode ser. videtis qui petatis! Super jure magestatis tem vosso mando vigor?: vêde o que reclamais! Acaso o vosso poder está acima do direito de majestade? non ne accepistis rapina?: acaso não recebestes rapina? LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 2 Trovadorismo, Humanismo e Classicismo: as origens da Literatura em Língua Portuguesa236 Farsa de Inês Pereira A Farsa de Inês Pereira (1523) é outra importante obra de Gil Vicente e gira em torno de uma criada ambiciosa. Ao aceitar o desafio de escrever uma peça sob o mote “Mais vale um asno que me carregue, que cavalo que me derru- be”, Gil Vicente cria uma de suas mais perfeitas obras, com unidade de ação ímpar, em que muito se faz com poucos recursos. A personagem principal da peça, Inês Pereira, por exemplo, nunca sai de cena; não há mudança de cenário e quase não existem rubricas (indicações cênicas). INÊS: Renego deste lavrar E do primeiro que o usou; O diabo qu’eu o eu dou, Que tão mau é d’aturar. Oh Jesu! que enfadamento, E que raiva e que tormento, Que cegueira, e que canseira! Eu hei-de buscar maneira D’algum outro aviamento. [...] Vem a Mãe, e diz: [...] MÃE: Olhade ali o mao pesar... Como queres tu casar Com fama de preguiçosa? INÊS: Mas eu, mãe, sam aguçosa E vos daes-vos de vagar. [...] ESCUDEIRO: Oh que boas vozes tem Esta viola aqui! Leixa-me casar a mi, Depois eu te farei bem. MÃE: Agora vos digo eu Que Inês está no Paraíso! INÊS: Que tendes de ver co isso? Todo o mal há de ser meu. INÊS: Oh! como he seca a velhice! Leixae-me ouvir e folgar, Que não m’hei de contentar De casar com parvoice. Póde ser maior riqueza Que hum homem avisado? [...] INÊS: Andar! Pero Marquez seja; Quero tomar por esposo Quem se tenha por ditoso De cada vez que me veja. Por usar de siso mero, Asno que me leve quero, E não cavalo folão. Antes lebre que leão, Antes lavrador que Nero [...] VICENTE, Gil. Farsa de Inês Pereira. Porto: Porto Editora, [s. d.]. In: Camões – Instituto da Cooperação e da Língua. (Clássicos da literatura portuguesa). Disponível em: <http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/biblioteca-digital- camoes/literatura 1/1056-1056/file.html>. Acesso em: 23 maio 2016. O Classicismo e a Literatura dos tempos de glória S a n d ro B o tt ic e lli /W ik im e d ia C o m m o n s ( D o m ín io P ú b lic o ) Fig. 8 Sandro Botticelli, O nascimento de Vênus, c. 1485, têmpera sobre tela, Galleria degli Uffizi, Florença, Itália. O Classicismo é o nome que se dá ao movimento literá- rio que se desenvolveu durante o Renascimento – momento histórico de grandes transformações e de consolidação das ideias introduzidas no Humanismo. Trata-se, portanto, de uma literatura escrita em um momento eufórico. Nessa época, Portugal se consolidava como um país autônomo e significativo no contexto europeu. Era um país jovem que enriquecia rapidamente e que se fazia conhecer por todo o mundo em razão das suas expedições ultramarinas. A poesia classicista reflete a forma como o universo europeu foi se ampliando com as descobertas geográficas e astronômicas, as quais decorreram do avanço náutico e do desenvolvimento científico em várias áreas do saber humano. Em 1440, Johannes Gutenberg desenvolveu a técnica da prensa móvel (imprensa), dando uma alternativa mecâ- nica para a reprodução de documentos, o que, até então, era feito apenas manualmente pelos copistas. Em 12 de outubro de 1492, o navegador genovês Cristóvão Colombo chegou ao continente americano comprovando a tese de que a Terra é redonda, e não achatada, como se supunha na Idade Média. Em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero publicou as suas teses, as quais questionavam os dogmas da Igreja e propunham uma reforma da doutrina católica, dando início à Reforma Protestante. Tanto a Reforma Protestante quan- to a Contrarreforma, a qual buscava recuperar os dogmas católicos e frear a onda de protestantismo, representavam intensas transformações nos valores e rituais religiosos dis- seminados até então entre os povos europeus. Algumas décadas depois, o cientista Galileu Galilei demonstraria que a Terra não é o centro do universo, mas apenas um dos planetas que giram em torno do Sol, desco- berta que desestabilizou as convicções populares. Assim, a literatura classicista desenvolveu-se em um período de intensas transformações, e seus textos ilustravam um novo capítulo da história ocidental. olhade ali o mau pesar: que desgraça!; aguçosa: ativa. F R E N T E 2 237 A medida nova O marco inicial do Classicismo português foi a volta ao país do poeta coimbrense Sá de Miranda, em 1527, depois de passar anos na Itália – centro cultural e científico do mundo na época. Sá de Miranda (1481-1558) era um fidalgo rico, doutor em humanidades e professor na Universidade de Coimbra, além de um poeta já bastante respeitado quando deixou Portugal para estudar na Itália. Lá, entrou em contato com as novidades literárias da época, como o “doce estilo novo” e a forma fixa do soneto (dois quartetos e dois tercetos, com versos decassílabos), reformulando sua arte poética de modo a influenciar todo um grupo de poetas palacianos. Junto a eles, desenvolveu a escola literária a que chamamos de Classicismo, introduzindo literariamente o seu país no Renascimento. Nesse sentido, Sá de Miranda apresentou a Portugal uma nova fórmula poética conhecida como medida nova, contrastando com o estilo medieval de compor versos, que ficou, assim, conhecido como medida velha. A medida velha é a técnica tradicional de versejar em língua portuguesa, herdada da versificação espanhola. Remete-se à estrutura formal das cantigas medievais do Trovadorismo e da poesia palaciana do Humanismo, bas- tante esparsa e construída à semelhança do ritmo da fala cotidiana. Nela, os versos seguem as seguintes fórmulas poéticas: redondilhas menores, de cinco sílabas poéticas; redondilhas maiores, de sete sílabas poéticas. Já a medida nova é, portanto, uma técnica mais re- buscada de versificação em língua portuguesa, comos versos decassílabos heroicos, isto é, versos de dez síla- bas poéticas, com a sexta e a décima sílabas acentuadas. Constituem, por isso, versos menos naturais, mais distantes da fala cotidiana, exigindo um maior trabalho poético de composição, como podemos observar no poema a seguir, de Sá de Miranda: Na sepultura de huma dama Epitaphio De quam pouca terra satisfeita jaz, A quem toda ella nam na merecia, Aquella que triste, ou leda, ou como hia Asi punha tudo em guerra, ou em paz. Levounola a morte cruel que desfaz As mayores cousas com mayor presteza, Ah Morte, ah Mundo, ah tua riqueza, De quam pouca terra satisfeita jaz. 1 – 2 – 3 – 4 – 5 – 6 – 7 – 8 – 9 – 10 (decassílabo heroico) De quam / pou / ca / ter / ra / sa / tis / fei / ta / jaz, A / quem / to / da el / la / nam / na / me / re / ci / a, A / quel / la / que / tris / te, ou / le / da, ou / como / hi / a A / si / pu / nha / tu / do em / guer / ra, ou / em / paz. Le / vou / no / la a / mor / te / cruel / que / des / faz As / ma / yo / res / cou / sas / com ma / yor / pres / te / za, Ah / Mor / te, / ah / Mun / do, ah / tu / a / ri / que / za, De quam / pou / ca / ter / ra / sa / tis / fei / ta / jaz. SÁ DE MIRANDA, Francisco. As obras do doctor Francisco de Saa De Miranda. Lisboa: Vicente Alvares, Domingos Fernandez Livreiro, 1614. p. 158v. Com esses versos mais “extensos” e mais serenos, os poetas classicistas procuravam se diferenciar dos trovado- res, compondo textos aparentemente mais requintados e tratando os assuntos, até mesmo os amorosos, de forma mais séria e reflexiva. Valendo-se da medida nova, os poe- tas classicistas desempenharam vários gêneros literários, como ode, epístola, elegia, epitalâmio, soneto, epigrama, canção, écloga, sextina, epitáfio, epopeia, comédia, tra- gédia etc. Toda poesia tradicional é versificada, estrutura cujo objetivo principal corresponde à obtenção de um metro, ou seja, de um padrão. Assim, os poetas classicistas se interessavam em procurar maneiras hábeis de trabalhar a musicalidade da poesia, planejando, para isso, um novo metro e novas estruturas rítmicas. Com esse objetivo, preocupavam-se com a duração e o número de sílabas, além do número de acentos, sempre buscando a perfei- ção formal, atentando ao agrupamento dos versos em estrofes maiores ou menores e adequando-as ao assunto de que queriam tratar (mais corriqueiro ou mais elevado, por exemplo). Além disso, dispensavam minuciosa aten- ção ao esquema de rimas. No epitáfio de Sá de Miranda lido anteriormente, por exemplo, o esquema de rimas é o ABBA, bastante comum no Classicismo: o primeiro e o quarto versos terminam com a sonoridade “az”, enquanto o segundo e o terceiro formam um núcleo interno, termi- nam em “ia”. Forma, equilíbrio e alegoria Inspirado no trabalho dos escritores italianos Dante, Petrarca e Boccaccio e na literatura clássica greco-latina, o Classicismo português tem as seguintes características: y Convencionalidade: valoriza-se, sobretudo, a perfei- ção formal (formalismo, equilíbrio das formas), e os poetas classicistas se valem de fórmulas poéticas fi- xas, como o soneto e a epopeia. y Racionalismo: busca-se o equilíbrio entre fé e razão e entre emoção e lógica. Há uma preocupação em torno da liberdade das pessoas. Abandonam-se os temores medievais e o anseio constante com relação à morte e ao inferno. y Retomada da mitologia pagã: assimilam-se as ideias da Antiguidade Clássica. Os mitos greco-latinos são retomados de forma alegórica e ajudam a ilustrar questões da época, ainda baseadas nos valores cristãos. y Humanismo: valoriza-se o ser humano, que é con- siderado o centro do universo (antropocentrismo), e mesmo as questões religiosas e místicas são vis- tas por uma perspectiva terrena. Busca-se um “ser humano novo”: culto, educado e amante do saber e da vida. y Universalismo: conceitos como o bem, a beleza e a verdade são vistos como critérios universais e eternos, os quais valem para todos em cada povo e cultura.