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Vem um Corregedor, carregado de feitos, com sua vara na
mão, e chegando à barca do Inferno diz:
CORREGEDOR: Hou da barca!
DIABO: Que quereis?
CORREGEDOR: Stá aqui o senhor juiz!
DIABO: Ó amador de perdiz.
 quantos feitos que trazeis!
CORREGEDOR: No meu ar conhecereis
 que sem gosto os trago cá.
DIABO: Como o direito vai lá?
CORREGEDOR: Nestes feitos o vereis.
DIABO: Ora pois, entrai, veremos
 que diz ‘i nesse papel...
CORREGEDOR: E aonde vai o batel?
DIABO: No Inferno vos poremos.
CORREGEDOR: Como? À terra dos demos
 Há de ir um corregedor?
DIABO: Santo descorregedor,
 embarcai, e remaremos!
 Ora, entrai, pois que viestes!
CORREGEDOR: Non est de regulae juriz, não!
DIABO: Ita, Ita! Dai cá a mão,
 remaremos um remo destes.
 Fazei conta que nascestes
 para nosso companheiro.
 (E voltando-se autoritariamente para
 o seu Companheiro)
 Que fazes tu, barzoneiro?
Fig. 7 Alexander Dmitrievich Litovchenko, Caronte transportando almas através do rio Styx, 1861, óleo sobre tela, The State Russian Museum, São Petersburgo, Rússia.
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 Faze-lhe essa prancha prestes!
CORREGEDOR: Oh! Renego da viagem
 e de quem me há de levar!
 Há aqui meirinho do mar?
DIABO: Não há cá tal costumagem.
CORREGEDOR: Não entendo esta barcagem,
 nem hoc nom potest esse.
DIABO: Se ora vos parecesse
 que não sei mais que linguagem!...
 Entrai, entrai, corregedor!
CORREGEDOR: Hou! Videtis qui petatis!
Super jure magestatis
 tem vosso mando vigor?
DIABO: Quando éreis ouvidor
 Non ne accepistis rapina?
 Pois ireis pela bolina
 como havemos de dispor.
VICENTE, Gil. Auto da barca do Inferno. In: ______;
SPINA, Segismundo (Org.). Gil Vicente: O velho da horta,
Auto da barca do inferno; Farsa de Inês Pereira.
Cotia: Ateliê Editorial, 2003. p. 153-5.
non est de regulae juris: não é norma do direito.
hoc nom potest esse: isso não pode ser.
videtis qui petatis! Super jure magestatis tem vosso mando vigor?:
vêde o que reclamais! Acaso o vosso poder está acima do direito de
majestade?
non ne accepistis rapina?: acaso não recebestes rapina?
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 2 Trovadorismo, Humanismo e Classicismo: as origens da Literatura em Língua Portuguesa236
Farsa de Inês Pereira
A Farsa de Inês Pereira (1523) é outra importante obra
de Gil Vicente e gira em torno de uma criada ambiciosa. Ao
aceitar o desafio de escrever uma peça sob o mote “Mais
vale um asno que me carregue, que cavalo que me derru-
be”, Gil Vicente cria uma de suas mais perfeitas obras, com
unidade de ação ímpar, em que muito se faz com poucos
recursos. A personagem principal da peça, Inês Pereira, por
exemplo, nunca sai de cena; não há mudança de cenário e
quase não existem rubricas (indicações cênicas).
INÊS: Renego deste lavrar
 E do primeiro que o usou;
 O diabo qu’eu o eu dou,
 Que tão mau é d’aturar.
 Oh Jesu! que enfadamento,
 E que raiva e que tormento,
 Que cegueira, e que canseira!
 Eu hei-de buscar maneira
 D’algum outro aviamento.
 [...]
 Vem a Mãe, e diz:
 [...]
MÃE: Olhade ali o mao pesar...
 Como queres tu casar
 Com fama de preguiçosa?
INÊS: Mas eu, mãe, sam aguçosa
 E vos daes-vos de vagar.
 [...]
ESCUDEIRO: Oh que boas vozes tem
 Esta viola aqui!
 Leixa-me casar a mi,
 Depois eu te farei bem.
MÃE: Agora vos digo eu
 Que Inês está no Paraíso!
INÊS: Que tendes de ver co isso?
 Todo o mal há de ser meu.
INÊS: Oh! como he seca a velhice!
 Leixae-me ouvir e folgar,
 Que não m’hei de contentar
 De casar com parvoice.
 Póde ser maior riqueza
 Que hum homem avisado?
 [...]
INÊS: Andar! Pero Marquez seja;
 Quero tomar por esposo
 Quem se tenha por ditoso
 De cada vez que me veja.
 Por usar de siso mero,
 Asno que me leve quero,
 E não cavalo folão.
 Antes lebre que leão,
 Antes lavrador que Nero
 [...]
VICENTE, Gil. Farsa de Inês Pereira. Porto: Porto Editora, [s. d.]. In: Camões –
Instituto da Cooperação e da Língua. (Clássicos da literatura portuguesa).
Disponível em: <http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/biblioteca-digital-
camoes/literatura 1/1056-1056/file.html>. Acesso em: 23 maio 2016.
O Classicismo e a Literatura dos
tempos de glória
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Fig. 8 Sandro Botticelli, O nascimento de Vênus, c. 1485, têmpera sobre tela,
Galleria degli Uffizi, Florença, Itália.
O Classicismo é o nome que se dá ao movimento literá-
rio que se desenvolveu durante o Renascimento – momento
histórico de grandes transformações e de consolidação
das ideias introduzidas no Humanismo. Trata-se, portanto,
de uma literatura escrita em um momento eufórico. Nessa
época, Portugal se consolidava como um país autônomo e
significativo no contexto europeu. Era um país jovem que
enriquecia rapidamente e que se fazia conhecer por todo
o mundo em razão das suas expedições ultramarinas.
A poesia classicista reflete a forma como o universo
europeu foi se ampliando com as descobertas geográficas
e astronômicas, as quais decorreram do avanço náutico e
do desenvolvimento científico em várias áreas do saber
humano.
Em 1440, Johannes Gutenberg desenvolveu a técnica
da prensa móvel (imprensa), dando uma alternativa mecâ-
nica para a reprodução de documentos, o que, até então,
era feito apenas manualmente pelos copistas. Em 12 de
outubro de 1492, o navegador genovês Cristóvão Colombo
chegou ao continente americano comprovando a tese de
que a Terra é redonda, e não achatada, como se supunha
na Idade Média.
Em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero publicou as
suas teses, as quais questionavam os dogmas da Igreja e
propunham uma reforma da doutrina católica, dando início
à Reforma Protestante. Tanto a Reforma Protestante quan-
to a Contrarreforma, a qual buscava recuperar os dogmas
católicos e frear a onda de protestantismo, representavam
intensas transformações nos valores e rituais religiosos dis-
seminados até então entre os povos europeus.
Algumas décadas depois, o cientista Galileu Galilei
demonstraria que a Terra não é o centro do universo, mas
apenas um dos planetas que giram em torno do Sol, desco-
berta que desestabilizou as convicções populares. Assim,
a literatura classicista desenvolveu-se em um período de
intensas transformações, e seus textos ilustravam um novo
capítulo da história ocidental.
olhade ali o mau pesar: que desgraça!; aguçosa: ativa.
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A medida nova
O marco inicial do Classicismo português foi a volta ao
país do poeta coimbrense Sá de Miranda, em 1527, depois
de passar anos na Itália – centro cultural e científico do
mundo na época.
Sá de Miranda (1481-1558) era um fidalgo rico, doutor
em humanidades e professor na Universidade de Coimbra,
além de um poeta já bastante respeitado quando deixou
Portugal para estudar na Itália. Lá, entrou em contato com
as novidades literárias da época, como o “doce estilo novo”
e a forma fixa do soneto (dois quartetos e dois tercetos,
com versos decassílabos), reformulando sua arte poética
de modo a influenciar todo um grupo de poetas palacianos.
Junto a eles, desenvolveu a escola literária a que chamamos
de Classicismo, introduzindo literariamente o seu país no
Renascimento. Nesse sentido, Sá de Miranda apresentou a
Portugal uma nova fórmula poética conhecida como medida
nova, contrastando com o estilo medieval de compor versos,
que ficou, assim, conhecido como medida velha.
A medida velha é a técnica tradicional de versejar em
língua portuguesa, herdada da versificação espanhola.
Remete-se à estrutura formal das cantigas medievais do
Trovadorismo e da poesia palaciana do Humanismo, bas-
tante esparsa e construída à semelhança do ritmo da fala
cotidiana. Nela, os versos seguem as seguintes fórmulas
poéticas: redondilhas menores, de cinco sílabas poéticas;
redondilhas maiores, de sete sílabas poéticas.
Já a medida nova é, portanto, uma técnica mais re-
buscada de versificação em língua portuguesa, comos
versos decassílabos heroicos, isto é, versos de dez síla-
bas poéticas, com a sexta e a décima sílabas acentuadas.
Constituem, por isso, versos menos naturais, mais distantes
da fala cotidiana, exigindo um maior trabalho poético de
composição, como podemos observar no poema a seguir,
de Sá de Miranda:
Na sepultura de huma dama
Epitaphio
De quam pouca terra satisfeita jaz,
A quem toda ella nam na merecia,
Aquella que triste, ou leda, ou como hia
Asi punha tudo em guerra, ou em paz.
Levounola a morte cruel que desfaz
As mayores cousas com mayor presteza,
Ah Morte, ah Mundo, ah tua riqueza,
De quam pouca terra satisfeita jaz.
1 – 2 – 3 – 4 – 5 – 6 – 7 – 8 – 9 – 10 (decassílabo heroico)
De quam / pou / ca / ter / ra / sa / tis / fei / ta / jaz,
A / quem / to / da el / la / nam / na / me / re / ci / a,
A / quel / la / que / tris / te, ou / le / da, ou / como / hi / a
A / si / pu / nha / tu / do em / guer / ra, ou / em / paz.
Le / vou / no / la a / mor / te / cruel / que / des / faz
As / ma / yo / res / cou / sas / com ma / yor / pres / te / za,
Ah / Mor / te, / ah / Mun / do, ah / tu / a / ri / que / za,
De quam / pou / ca / ter / ra / sa / tis / fei / ta / jaz.
SÁ DE MIRANDA, Francisco. As obras do doctor
Francisco de Saa De Miranda. Lisboa: Vicente Alvares,
Domingos Fernandez Livreiro, 1614. p. 158v.
Com esses versos mais “extensos” e mais serenos, os
poetas classicistas procuravam se diferenciar dos trovado-
res, compondo textos aparentemente mais requintados e
tratando os assuntos, até mesmo os amorosos, de forma
mais séria e reflexiva. Valendo-se da medida nova, os poe-
tas classicistas desempenharam vários gêneros literários,
como ode, epístola, elegia, epitalâmio, soneto, epigrama,
canção, écloga, sextina, epitáfio, epopeia, comédia, tra-
gédia etc.
Toda poesia tradicional é versificada, estrutura cujo
objetivo principal corresponde à obtenção de um metro,
ou seja, de um padrão. Assim, os poetas classicistas se
interessavam em procurar maneiras hábeis de trabalhar
a musicalidade da poesia, planejando, para isso, um novo
metro e novas estruturas rítmicas. Com esse objetivo,
preocupavam-se com a duração e o número de sílabas,
além do número de acentos, sempre buscando a perfei-
ção formal, atentando ao agrupamento dos versos em
estrofes maiores ou menores e adequando-as ao assunto
de que queriam tratar (mais corriqueiro ou mais elevado,
por exemplo). Além disso, dispensavam minuciosa aten-
ção ao esquema de rimas. No epitáfio de Sá de Miranda
lido anteriormente, por exemplo, o esquema de rimas é
o ABBA, bastante comum no Classicismo: o primeiro e o
quarto versos terminam com a sonoridade “az”, enquanto
o segundo e o terceiro formam um núcleo interno, termi-
nam em “ia”.
Forma, equilíbrio e alegoria
Inspirado no trabalho dos escritores italianos Dante,
Petrarca e Boccaccio e na literatura clássica greco-latina,
o Classicismo português tem as seguintes características:
y Convencionalidade: valoriza-se, sobretudo, a perfei-
ção formal (formalismo, equilíbrio das formas), e os
poetas classicistas se valem de fórmulas poéticas fi-
xas, como o soneto e a epopeia.
y Racionalismo: busca-se o equilíbrio entre fé e razão
e entre emoção e lógica. Há uma preocupação em
torno da liberdade das pessoas. Abandonam-se os
temores medievais e o anseio constante com relação
à morte e ao inferno.
y Retomada da mitologia pagã: assimilam-se as ideias
da Antiguidade Clássica. Os mitos greco-latinos são
retomados de forma alegórica e ajudam a ilustrar
questões da época, ainda baseadas nos valores
cristãos.
y Humanismo: valoriza-se o ser humano, que é con-
siderado o centro do universo (antropocentrismo),
e mesmo as questões religiosas e místicas são vis-
tas por uma perspectiva terrena. Busca-se um “ser
humano novo”: culto, educado e amante do saber
e da vida.
y Universalismo: conceitos como o bem, a beleza e a
verdade são vistos como critérios universais e eternos,
os quais valem para todos em cada povo e cultura.

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