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(...) E por aquela doce tarde de maio eu saí para tomar no terraço um café cor de chapéu-coco, que sabia a fava. Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, àquela hora em toda a pressa e estridor da sua grossa sociabilida- de. A densa torrente dos ônibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, rolava vivamente, com toda uma es- cura humanidade formigando entre patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele movimento indescontinuado e rude depressa entonteceu este espírito, por cinco quietos anos afeito à quietação das serras imutáveis. Tentava en- tão, puerilmente, repousar nalguma forma imóvel, ônibus que parara, fiacre que estacara num brusco escorregar da pileca; mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipoia, ou um cacho de figuras escuras trepa- va sofregamente para o ônibus — e, rápido, recomeçava o rolar retumbante. Tendo em vista que contemplar signica “xar o olhar em (alguém, algo ou si mesmo), com encantamento, com admiração” (Dicionário Houaiss) ou “olhar, obser- var, atenta ou embevecidamente” (Dicionário Aurélio), qual é a experiência vivida pelo narrador, no excerto, e que sentido ela tem no contexto da época em que se passa a história narrada no romance? 4 Unicamp 2014 Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter cortesãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris, nesta tremenda carestia de Pa- ris, uma cocotte com os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavalos, os seus lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete [...], é necessário que se agre- miem umas poucas de fortunas, se forme um sindicato! Somos uns sete, no Clube. Eu pago um bocado.... Queirós, Eça de. A cidade e as serras. São Paulo: Ateliê Editorial, 2011. p. 94. Fausto: luxo; Cocotte: mulher de hábitos libertinos e vida luxuosa; meretriz. a) Que expressão do texto representa uma marca dire- ta de interação do narrador com outra personagem? b) Uma descrição pode ter um efeito argumentativo. Que trecho descritivo do texto reforça a imagem da vida luxuosa das cortesãs na Paris da época (fim do século XIX)? 5 UFBA 2013 Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: – todas as ou- tras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro. Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; – e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente sofrendo uma desnacionali- zação. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da fala materna, com as suas influências afetivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do caráter. Por isso o poliglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desaparece, diluído em estrangeirismo. [...] QUEIRÓS, Eça de. Correspondência de Fradique Mendes. In: Obras de Eça de Queiroz. Porto: Lello & Irmão Editores, 1966. p. 1048. O livro A correspondência de Fradique Mendes é dividido em duas partes. Leia o fragmento extraído da se- gunda parte – epístolas saídas supostamente do punho de Fradique – e teça um comentário sobre o ponto de vista dessa personagem a respeito da nacionalidade. Re- lacione também o fragmento à obra de que foi extraído. Instrução: Para a próxima questão, marque V (verda- deiro) ou F (falso). 6 UFPE 2014 Em Portugal, a crítica social é realizada, entre outros, por dois grandes ficcionistas: Eça de Queirós e José Saramago. Ambos, em diferentes momentos, abordam problemas semelhantes. Sobre os autores e as obras referidas a seguir, julgue as proposições. J 0-0 A ficção de Eça de Queirós revela a atitude de um pensador liberal que critica a falsa moral burguesa, tal como no romance O primo Basílio, quando Luísa sofre mais por ter que garantir o sigilo do adultério do que por trair o marido. J 1-1 Eça de Queirós foi muito questionado, em vida, pelo modo crítico com que, em suas obras, enxer- gou e revelou a sociedade portuguesa, sobretudo a lisboeta da segunda metade do século XIX. J 2-2 A crítica à família burguesa e o triângulo amoro- so, presentes no romance de Eça de Queirós, O primo Basílio, revelam a forte influência exer- cida por Flaubert, em Madame Bovary, sobre o ficcionista português. J 3-3 Em O ano da morte de Ricardo Reis, José Sara- mago tece críticas fortíssimas ao regime político português, quando recria a personagem nomea- da no título do romance. Na ficção de Saramago, Ricardo Reis, republicano de formação clássica, sofreu perseguição política injustificada assim que regressou do Brasil, após ter recebido tele- grama do heterônimo Alberto Caeiro. J 4-4 Com discursos que se assemelham pela ironia con- tundente, tanto Saramago, no século XX, quanto Eça de Queirós, no século XIX, retrataram a so- ciedade de seus respectivos tempos, revelando o comportamento nada edificante que ela exibia. O trecho do conto “Uns braços”, de Machado de As- sis, é base para responder às questões de 7 a 9. Havia cinco semanas que ali morava, e a vida era sempre a mesma, sair de manhã com o Borges, andar por audiências e cartórios, correndo, levando papéis ao selo, ao distribuidor, aos escrivães, aos oficiais de justiça. [...] Cinco semanas de solidão, de trabalho sem gosto, longe da mãe e das irmãs; cinco semanas de silêncio, porque ele só falava uma ou outra vez na rua; em casa, nada. “Deixe estar, – pensou ele um dia – fujo daqui e não volto mais.” F R E N T E 2 229 Não foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina. Nunca vira outros tão bonitos e tão frescos. A educação que tivera não lhe permitira encará-los logo abertamente, parece até que a princípio afastava os olhos, vexado. Encarou-os pouco a pouco, ao ver que eles não tinham outras mangas, e assim os foi descobrindo, mirando e amando. No fim de três se- manas eram eles, moralmente falando, as suas tendas de repouso. Aguentava toda a trabalheira de fora, toda a melancolia da solidão e do silêncio, toda a grosseria do patrão, pela única paga de ver, três vezes por dia, o famoso par de braços. Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Inácio es- tirava-se na rede (não tinha ali outra cama), D. Severina, na sala da frente, recapitulava o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma cousa. Rejeitou a ideia logo, uma criança! Mas há ideias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tor- nam e pousam. Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra ideia não foi rejeitada, antes afagada e beijada. E recordou então os modos dele, os esquecimentos, as distrações, e mais um incidente, e mais outro, tudo eram sintomas, e concluiu que sim. 7 Unifesp De início, morar na casa de Borges era so- litário e tedioso, o que levou Inácio a pensar em ir embora. Todavia, isso não aconteceu, sobretudo por- que o rapaz A passou a ser mais bem tratado pelo casal após três semanas. B teve uma educação que não lhe permitiria tal rebeldia. C se pegou atraído por D. Severina, com o passar do tempo. D gostava, na realidade, do trabalho que realizava com Borges. E sentia que D. Severina se mostrava mais atenciosa com ele. 8 Unifesp Analise as duas ocorrências: “[...] uma criança!” “Criança?” Essas duas passagens mostram que A tanto os sentimentos de D. Severina como a sua razão mostravam-lhe que Inácio era ainda muito jo- vem para se dar às questões do amor. B havia duas vozes na consciência de D. Severina: uma lhe proibia o desejo; outra o mostrava como possibilidade. C D. Severina via Inácio como uma criança apenas, o que a perturbava muito, por sentir-se atraída por ele. D D. Severina rejeitava qualquer possibilidade de uma relação com Inácio, já que não nutria nenhum sentimento pelo rapaz. E havia um embate entre a consciência e a educaçãode D. Severina, o qual a impedia de aceitar o amor do rapaz. 9 Unifesp Uma das características do Realismo é a in- trospecção psicológica. No conto, ela se manifesta, sobretudo, A no comportamento grosseiro de Borges, que im- põe medo a D. Severina e desperta ódio em Inácio. B nas vivências interiores de Inácio e de D. Severina, que revelam seus sentimentos e conflitos. C na forma solitária como Inácio se submete no traba- lho com Borges, sem que pudesse estar com sua mãe e irmãs. D nas reflexões de D. Severina, que vê Inácio como uma criança que merece carinho, e não o silêncio e a reclusão. E na forma como o contato é estabelecido entre as personagens, já que a falta de diálogo é uma cons- tante em suas vidas. 10 UFPR 2015 Contei esta história a um professor de melanco- lia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária! (“Um apólogo”) Adeus, meu caro senhor. Se achar que esses aponta- mentos valem alguma coisa, pague-me também com um túmulo de mármore, ao qual dará por epitáfio esta emenda que faço aqui ao divino Sermão da Montanha: “Bem-aven- turados os que possuem, porque eles serão consolados”. (“O enfermeiro”) Esses são os parágrafos nais de contos do livro Vá- rias histórias (1896), de Machado de Assis. Sobre essa obra, considere as armativas a seguir: 1. Todos os contos de Várias histórias terminam com algum ensinamento moral, conforme preco- nizava a estética realista. 2. Na obra machadiana, a competição acirrada que caracteriza a vida humana tende a se resolver após a morte, que serve de consolo e apaziguamento. 3. A agulha de “Um apólogo” identificou-se com a reflexão do professor de melancolia: os que abrem caminho nem sempre são premiados por seus esforços. 4. O protagonista de “O enfermeiro”, que cogitou não receber a herança do homem que ele matou, termina a história rico e sem arrependimentos. Assinale a alternativa correta. A Somente as afirmativas 1 e 2 são verdadeiras. B Somente as afirmativas 3 e 4 são verdadeiras. C Somente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras. D Somente as afirmativas 2, 3 e 4 são verdadeiras. E As afirmativas 1, 2, 3 e 4 são verdadeiras. 11 UEL 2014 Leia o trecho a seguir, que faz parte do conto “Teoria do medalhão”. És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. ASSIS, Machado de. “Teoria do medalhão”. In: Papéis Avulsos. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011. p. 100. LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 7 Realismo: a desconstrução romântica230 Nesse conto, o pai explica ao lho o que é ser um medalhão. Explique por que Simão Bacamarte, protagonista de “O alienista”, não pode ser considerado um “meda- lhão”, conforme conceituado em “Teoria do medalhão”. 12 Unesp 2016 Leia o excerto do conto “A cartomante”, de Machado de Assis, para responder à questão. Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. — Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa...” Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim decla- rou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade... — Errou! interrompeu Camilo, rindo. — Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe, já lhe disse. Não ria de mim, não ria... Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pare- ciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, re- preendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois... [...] Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram intei- ramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verda- deira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum preten- dente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: – a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo. Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Contos: uma antologia, 1998. Há, no penúltimo parágrafo, o emprego de uma gura de retórica que consiste no alargamento semântico de termos que designam dois entes abstratos pela atribuição a eles de traços próprios do ser humano. Quais são os dois entes abstratos que passam por tal processo? Justique sua resposta. Como se denomi- na tal gura de retórica? Leia o trecho do conto “A igreja do Diabo”, de Macha- do de Assis (1839-1908), para responder às questões de 13 a 15. Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e ex- traordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Con- fessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas. – Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noi- tes sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo... Era assim que falava, a princípio, para excitar o entu- siasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e, logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada. Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser subs- tituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu”... [...] Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas;virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento. As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs. Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa F R E N T E 2 231