Prévia do material em texto
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 9 As vertentes poéticas do final do século XIX268 Parnasianismo – o poeta e o ourives O Parnasianismo apareceu simultaneamente ao Rea- lismo e ao Naturalismo nas últimas décadas do século XIX. Sua produção é apenas poética e traz importantes marcas da escola com especificidades típicas, como o distancia- mento dos temas sociais, a impassibilidade, a descrição e a “arte pela arte”, além da busca do prazer que a beleza proporcionava como finalidade. Mas de onde vem a denominação para essa escola literária que se expressou unicamente por meio da poesia? O marco inicial desse movimento se deu na França, em 1866, quando os poetas Charles Baudelaire, Lecomte de Lisle e Théophile Gautier publicaram e editaram a revista Le Parnasse Contemporain (O Parnaso contemporâneo). Nela, já se pôde observar um claro traço de crítica ao Ro- mantismo, sentimentalmente exagerado, e ao Realismo e ao Naturalismo, preocupados com a denúncia social. Etimologicamente, o nome “Parnasianismo” é uma referência ao Monte Parnaso: situado na Grécia, o lugar mitológico seria a morada de deuses e musas, onde os poetas se isolavam para buscar a inspiração e o aprimora- mento da técnica necessários para a composição artística. Assim, nessa escola literária, buscavam-se a beleza, a per- feição, o equilíbrio entre as palavras e o rigor formal. O poeta parnasiano é comparado ao ourives, pois ambos se preocupam em lapidar sua matéria-prima – o ouro ou o poema – a fim de torná-la uma obra de arte. Parnasianismo no Brasil É na convergência de ideais antirromânticos, como a ob- jetividade no trato dos temas e o culto da forma, que se situa a poética do Parnasianismo. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. p. 219. Antes do surgimento do Parnasianismo no Brasil, houve um embate em nosso país. O Brasil atravessava uma série de crises políticas e sociais, e o único centro urbano do país era o Rio de Janeiro, onde se concentravam a vida política e cultural. Os grandes veículos de difusão das novas teorias, inclusive literárias, eram os inúmeros periódicos surgidos com o desenvolvimento da imprensa nacional. E foi nas pági- nas do jornal Diário do Rio de Janeiro, no final da década de 1870, que se travou a “Batalha do Parnaso”, polêmica entre escritores contrários e adeptos ao Romantismo. O embate perpetuou-se com o uso de versos agressivos e questio- náveis quanto à qualidade. Os opositores, embasados por autores realistas lusitanos, combatiam o sentimentalismo excessivo, a falta de simetria entre os versos e o abandono do estilo clássico, acusando os românticos de produzirem versos frouxos e de acabamento duvidoso. Traziam, tam- bém, algumas sugestões quanto às mudanças que deveriam ocorrer, propondo uma poesia participante, que buscasse trazer uma postura científica diante do mundo, bastante vaga no pensamento da época. Essa nova poesia promoveria reflexões sobre as questões lógicas e ligadas à justiça, enal- tecendo o progresso científico e os avanços capitalistas. Com certo cunho realista, proporia erradicar a descrição subjetivista do amor romântico idealizado, visando a uma descrição mais objetiva dos desejos humanos. No entanto, dessa “batalha” ficaram somente as inspi- rações antirromânticas que levaram a uma nova forma de pensar a poesia, consolidando, anos mais tarde, o Parnasia- nismo no Brasil. O marco inicial desse movimento em terras brasileiras é o livro de poesias Fanfarras, de Teófilo Dias, publicado em 1882. Porém, foi com a chamada “Tríade parna- siana” – formada pelos poetas Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira – que se eternizou a “arte pela arte”. É importante lembrar que, na Literatura brasileira, a chamada “era realista” incluiu três movimentos simultâneos: na prosa, o Realismo e o Naturalismo, e, na poesia, o Parnasianismo. O que os aproxima são a objetividade e a racionalidade no tratamento dos temas, distanciando-se do subjetivismo e da idealização romântica. Atenção Características do Parnasianismo A arte pela arte A poesia parnasiana buscava propiciar a mais perfeita fruição estética, defendendo que o poema não deveria ter outra finalidade que não fosse o compromisso com a beleza e com a perfeição formal. Para os poetas parnasianos, não se deveria dar relevância aos motivos que levavam alguém a escrever nem justificar os versos pela necessidade de promover um questionamento social ou filosófico. A poesia deveria ser autossuficiente, existir por ela mesma. Assim, nessa poesia, era constante o afastamento do cotidiano – repleto de imperfeições e problemas. Poesia descritiva e impessoal A poesia parnasiana é marcada pela visualidade de seus temas, buscando inspiração nas artes plásticas. Nesse senti- do, opta-se pelas descrições dos fenômenos da natureza, tal como o amanhecer e o crepúsculo. Nessas obras, também há constantes referências a figuras mitológicas greco-ro- manas e à beleza da mulher. Além disso, cenas históricas e objetos podiam ser alvo das descrições racionalizadas e objetivas do poeta. Assim, o subjetivismo (a visão pessoal do eu lírico) era deixado de lado, dando-se importância àquilo que todos podiam apreciar da mesma maneira. Perfeição formal No movimento parnasiano, o poeta escolhia palavras e tinha o ofício de “lapidar” o verso em busca da perfeição – daí a analogia com o trabalho do ourives –, acentuando o uso da métrica perfeita, das estrofes carregadas de expressões pouco utilizadas, capazes de deixar o poe- ma apreciável àqueles que optavam pelo rebuscamento formal. Nesse contexto, os poetas parnasianos buscavam utilizar rimas ricas e preferiam os versos de doze sílabas, conhecidos como versos alexandrinos, além de considerar o soneto a mais perfeita composição poética. Fruição: desfrute prazeroso. F R E N T E 2 269 Tríade parnasiana: poetas e poemas Olavo Bilac (1865-1918) Neste literato de veia fácil, potencia-se a tendência par- nasiana de cifrar no brilho da frase isolada e na chave de ouro de um soneto a mensagem toda da poesia. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. p. 227. Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de fevereiro de 1865. Cursou Medicina e Direito, mas nunca concluiu nenhum dos cursos. Além de poeta, foi jornalista, escrevendo para diversos jornais e revistas da época, como o Diário de Notícias e o Gazeta de Notícias. Já em suas primeiras obras, Bilac trouxe para a poesia uma forte e inegável vertente parnasiana, sempre preocupado com a estéti- ca e a forma dos poemas. A dedicação de Olavo Bilac ao ofício poético rendeu-lhe a alcunha de “príncipe dos poetas”. Seu primeiro livro, Poesias, publicado em 1888, dividia-se, inicialmente, em três partes: “Panóplias” (poe- mas com referência a elementos da tradição greco-romana), “Via Láctea” (conjunto de 35 sonetos) e “Sarças de fogo” (poemas eróticos sobre a beleza física da mulher). Em 1902, publicou dois outros livros: Viagens e Alma Inquieta, os quais combinam o influxo parnasiano a claras tendências românticas, mas com versos comedidos por rígida disciplina formal. Em 1918, o poeta faleceu, e, um ano depois, foi publicado seu livro Tarde, obra marcada por temas históricos, mas também por certa subjetividade que rompia com os paradigmas parnasianos do autor, ainda que mesclada à sua tendência mais reflexiva, própria do Parnasianismo. Dessa maneira, pode-se verificar em sua obra, como na de todo grande poeta, certas características que remetem a diferentes estéticas literárias. Algumas características recorrentes na poética de Bilac Perfeição – metalinguagem Antiguidade greco-romana Nacionalismo ufanista Lirismo amoroso Reflexão sobre a existência humana A um poeta Longe do estéril turbilhão da rua, Beneditino, escreve! No aconchego Do claustro, na paciência e no sossego, Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! Mas que na forma se disfarce o emprego Do esforço; e a trama viva se construa De tal modo, que a imagem fique nua,Rica mas sóbria, como um templo grego. Não se mostre na fábrica o suplício Do mestre. E, natural, o efeito agrade, Sem lembrar os andaimes do edifício. Porque a beleza, gêmea da Verdade, Arte pura, inimiga do artifício, É a força e a graça na simplicidade. BILAC, Olavo. “A um poeta”. Poemas de Olavo Bilac: seleção de poemas [livro eletrônico]. São Paulo: Melhoramentos, 2014. (Clássicos Melhoramentos) “A um poeta” é um soneto composto de versos decas- sílabos. Trata-se de um texto metalinguístico, ou seja, é um poema sobre o ato da escrita, o fazer poético. Olavo Bilac aborda como tema o próprio trabalho do poeta parnasiano, o qual busca incansavelmente a perfeição formal no am- biente solitário de um claustro com o objetivo de trazer para a poesia a perfeição e a sobriedade de um templo grego, a beleza – gêmea da verdade – e a arte pura – pretensões coerentes com a estética parnasiana. É possível notar que se repete a conjunção “e”, presente no quarto verso da primeira estrofe (“Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!”); essa reiteração, chamada de polissíndeto, intensifica o tra- balho do poeta na criação de um verso perfeito e na sua busca da “arte pela arte”. Raimundo Correia (1859-1911) Com Sinfonias já temos o sonetista admirável de “As pom- bas”, “Mal do Século”, “Anoitecer”, “A cavalgada”, “Vinho de Hebe”, “Americana”. Falando do sortilégio verbal do poeta, Manuel Bandeira nos ensinou a ver nele o autor de “alguns dos versos mais misteriosamente belos da nossa língua”, versos que, repetidos em tantas antologias escolares, nem por isso perde- riam o encanto de suas combinações semânticas e musicais. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. p. 224. Raimundo da Mota de Azevedo Correia nasceu em São Luís, no Maranhão, em 13 de maio de 1859. Cursou a facul- dade de Direito, tornando-se juiz no Rio de Janeiro e em algumas comarcas de Minas Gerais. Com uma vida finan- ceiramente estável, começou a escrever sob a influência do Parnasianismo. Contudo, trouxe resquícios do Romantismo em suas primeiras obras. A busca parnasiana do afastamento temático das mazelas sociais foi a principal característica criticada nos poemas do Modernismo. A partir da Semana de 1922, a “fase heroica” da poesia moderna se posiciona justamente contra essa negação dos problemas cotidianos a qual os parnasianos tanto exaltavam. Saiba mais LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 9 As vertentes poéticas do final do século XIX270 Em 1879, publicou seu livro inaugural, intitulado Primeiros sonhos, que reúne poemas próprios de um adolescente, de textos com idealizações femininas e com certo romantismo velado. Porém, é com o livro Sinfonias que o poeta marca sua estreia no movimento parnasiano, trazendo os poemas que o tornaram mais conhecido: “As pombas” e “Mal secreto”. Características da poesia de Raimundo Correia Universalização da temática com o desenvolvimento de temas filosóficos Afastamento da impassibilidade Tendência para a abordagem do noturno, do negativismo (obsessão pela Lua – antecipando a veia simbolista) Mal secreto Se a cólera que espuma, a dor que mora N’alma, e destrói cada ilusão que nasce, Tudo o que punge, tudo o que devora O coração, no rosto se estampasse; Se se pudesse, o espírito que chora, Ver através da máscara da face, Quanta gente, talvez, que inveja agora Nos causa, então piedade nos causasse! Quanta gente que ri, talvez, consigo Guarda um atroz, recôndito inimigo, Como invisível chaga cancerosa! Quanta gente que ri, talvez existe, Cuja ventura única consiste Em parecer aos outros venturosa! CORREIA, Raimundo. “Mal secreto”. In: SILVA, Antonio Manoel dos Santos; SANT’ANNA, Romildo; SANTILLI, Maria Aparecida (Orgs.) et al. Literaturas de língua portuguesa: marcos e marcas. São Paulo: Arte & Ciência, 2007. p. 141. “Mal secreto” compreende um soneto em versos de- cassílabos cujo tema central é a desilusão com o mundo das aparências e com o verdadeiro “mal secreto” que nos assola – a adoção das máscaras sociais. Com acentuado pessimismo, Raimundo Correia discorre poeticamente so- bre a inveja que se sente de pessoas que, na verdade, despertariam um sentimento de piedade. Dessa forma, o poeta se afasta da impessoalidade pregada pelo Parna- sianismo, abordando uma temática ligada às agruras mais prosaicas da condição humana. Alberto de Oliveira (1859-1937) O que, entretanto, sela a constância do Parnasianismo em Alberto de Oliveira é a fidelidade a certas leis métricas [...]. Aliás, não só na métrica procurou ser duro o mestre flumi- nense; também a sua sintaxe mais de uma vez se contrai em inversões neoclássicas [...]. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. p. 222-3. Antônio Mariano Alberto de Oliveira nasceu em 28 de abril de 1859, em Saquarema, província do Rio de Janeiro. Formou-se em Farmácia e cursou Medicina até o terceiro ano, tendo conhecido, durante o curso, Olavo Bilac, de quem se tornou amigo. Assim, os dois colegas, somados a Raimundo Correia, formaram a “tríade parnasiana”. Entre os três, Alberto de Oliveira foi o mais fiel às normas parnasia- nas, o mais ortodoxo. Manteve-se, na maior parte de suas obras, leal aos exaustivos rigores formais do movimento, cultivando a objetividade, a impassibilidade, a busca da arte pela arte e a linguagem descritiva em seus poemas. Tem como obras: Canções românticas, cujos poemas, ainda que de certa maneira voltados ao Romantismo, são marcados pelo valor dado à técnica e pela contenção pró- pria ao estilo parnasiano; Meridionais; Sonetos e poemas – que publicou a pedido de seus leitores; Versos e rimas; e Por amor de uma lágrima. A crítica aponta como temas centrais da poética de Alberto de Oliveira Observação e concepção estética da natureza, dos objetos e da mulher Melancolia diante da perda do ser amado Sublimação amorosa Uso das expressões míticas e históricas da arte grega e oriental Vaso chinês Estranho mimo, aquele vaso! Vi-o, Casualmente, uma vez, de um perfumado Contador sobre o mármor luzidio, Entre um leque e o começo de um bordado. Fino artista chinês, enamorado Nele pusera o coração doentio Em rubras flores de um sutil lavrado, Na tinta ardente, de um calor sombrio. Mas, talvez por contraste à desventura – Quem o sabe?... de um velho mandarim Também lá estava a singular figura; Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a Sentia um não sei quê com aquele chim De olhos cortados à feição de amêndoa. OLIVEIRA, Alberto de. “Vaso chinês”. In: MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. 25. ed. São Paulo: Cultrix, 2000. p. 241. No soneto decassílabo “Vaso chinês”, Alberto de Oli- veira mostra sua preocupação com o rigor formal que o Parnasianismo defendia. No poema, há predominância do aspecto descritivo – um vaso detalhado e cultuado –, o que reflete certo requinte próprio ao gosto da burguesia da época do poeta. Com relação à linguagem, há hipérba- tos (inversões sintáticas), que garantem o rebuscamento da forma. É fundamental atentarmos para o fato de que “Vaso chinês” se distancia explicitamente de temas ligados ao cotidiano social: a sua intenção era mesmo valorizar a estética e a forma, ainda que o conteúdo pudesse parecer, principalmente aos olhos do leitor de hoje, alienante. Contador: tipo de armário antigo, com pequenas gavetas. Lavrado: trabalhado. Mandarim: funcionário público da alta hierarquia da antiga china. Chim: chinês.