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Esse pequeno livro tem o potencial de exercer um grande impacto. Absorva seu conteúdo e sinta seus efeitos pelos próximos anos. Constantine R. Campbell, professor associado de Novo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School A pregação e o ensino fiéis não focam apenas em um texto particular, mas ampliam o foco e consideram o enredo de toda a Bíblia. Nick Roark e Robert Cline mostram como a teologia bíblica é essencial para a igreja, para a pregação e para a vida. Eles examinam o quadro geral das Escrituras e nos mostram alguns desvios cometidos com frequência. Esse é um recurso muito útil para pastores, professores e leigos. Thomas R. Schreiner, professor da cátedra James Buchanan Harrison de Interpretação do Novo Testamento, professor de Teologia Bíblica no Southern Baptist Theological Seminary e autor de Teologia de Paulo (Vida Nova) Eu amo teologia bíblica, mas nem sempre amo os livros de teologia bíblica. Não poucas vezes, eles são escritos de maneira tão técnica que acabam perdendo a maioria dos crentes como leitores. Esse livro é uma exceção. Os autores não apenas definem, defendem e descrevem a teologia bíblica, mas também o fazem de modo acessível a todos os crentes. Esse breve livro é simples, embora trate de ideias complexas, é breve, mas rico em informações, e é teórico, ainda que cheio de exemplos práticos de como fazer teologia bíblica. É tanto um chamado para fazer teologia bíblica quanto um manual para fazê-la bem. Concluí a leitura com um desejo mais profundo de ver Jesus na Palavra e ajudar os membros de minha igreja a fazer o mesmo. Chuck Lawless, deão do programa de doutorado e vice-presidente de formação espiritual no Southeastern Baptist Theological Seminary, e autor de Spiritual warfare: biblical truth for victory e Putting on the armor Não há hoje um único expositor bíblico eficaz que não se valha de teologia bíblica para dar sentido ao seu texto e entregar uma mensagem cristocêntrica. Roark e Cline explicam de modo bem claro e direto como a teologia bíblica ajuda a igreja e os pastores a entender e proclamar a grande história das Escrituras. Augustus Nicodemus Lopes, pastor auxiliar na Primeira Igreja Presbiteriana do Recife e autor de A conquista da Terra Prometida, A compaixão de Deus, Livres em Cristo, A supremacia e a suficiência de Cristo e O culto segundo Deus (Vida Nova) Uau! Esse pequeno livro reúne uma biblioteca de sabedoria para compreender o enredo bíblico de Deus e ensinar a Palavra com fidelidade! Os autores nos fizeram um grande favor ao destilar conceitos bíblicos pesados, tornando-os simples, acessíveis e comunicáveis. Esse é o tipo de livro que você quer dar a um professor de escola bíblica dominical, um pastor aspirante ou um candidato a missionário. Com frequência, professores bem-intencionados da Bíblia tomam o caminho fácil dos textos fora de contexto para fazer uma “aula prática”, mas perdem de vista o tema maior, o glorioso sentido principal da passagem. Sendo uma ferramenta maravilhosa para me manter no caminho como um missionário e para ensinar novos convertidos a estudar e ensinar a Palavra, esse pequeno livro deveria ser traduzido para muitas línguas! David L. Frazier, diretor executivo da Equipping Servants International e autor de Mission smart Esse breve livro explica conceitos teológicos importantes de modo claro, fiel e simples. Ele é perfeito para os membros de igreja que veem um livro acadêmico como um desafio, mas que querem entender a boa teologia e compreender os conceitos bíblicos necessários para ensinar bem o evangelho. Esse é um excelente recurso, e eu mal posso esperar para recomendá-lo a minha equipe de ministério de mulheres. Abi Byrd, ex-missionária nos Bálcãs, instrutora bíblica no Simeon Trust e diaconisa do ministério de mulheres na igreja Loudoun Valley Baptist Church, em Purcellville, na Virginia Um crente é avaliado por sua fidelidade, e é imperativo que saibamos como ser fiéis à Palavra de Deus, nossa única autoridade atemporal. Por meio de explicações e exemplos, o livro de Nick e Robert instrui os crentes, de uma maneira simples e útil, sobre como entender corretamente passagens bíblicas, mantendo sempre em vista a perspectiva maior, em que Cristo é o objetivo e o fim de toda a Escritura. Recomendo enfaticamente esse livro como um companheiro inestimável para qualquer cristão desejoso de ouvir as palavras “Muito bem, servo bom e fiel”. Ndagi Job Goshi, plantador de igreja internacional bivocacionado A teologia bíblica é um assunto frequentemente ignorado, apesar de ser indispensável ao entendimento de toda a Bíblia. Os autores desse excelente livro constatam a importância desse assunto para a compreensão do enredo da história redentiva. Se você está procurando um recurso que explique e aplique bem a teologia bíblica, esse livro é para você. Ele é bíblico, bem escrito, fácil de entender, prático, breve (embora não superficial), cheio de informações e extremamente útil para a pregação e o ministério pastoral. Estou maravilhado com tanta instrução sólida colocada em um livro tão pequeno. Miguel Núñez, pastor titular da Iglesia Bautista International de Santo Domingo, presidente e fundador dos ministérios Wisdom and Integrity Ministries Como presbítero de uma igreja localizada em um dos maiores centros cosmopolitas do mundo, anseio por capacitar cristãos que retornarão a lugares desafiadores onde, com frequência, enfrentarão a perseguição e o falso ensino. A teologia bíblica é uma ferramenta fundamental para ajudar os cristãos a proteger e a proclamar o evangelho. Sou imensamente grato por esse livro e estou animado para vê-lo sendo usado para fortalecer a igreja global. Ele alcança o perfeito equilíbrio entre abrangência e profundidade, transita com facilidade em contextos culturais e idiomáticos diversos e ajudará todos os cristãos a enxergar, celebrar e comunicar melhor o evangelho. Andrew Gizinski, presbítero da igreja RAK Evangelical Church, em Ras Al Khaimah, Emirados Árabes Unidos Roark e Cline conseguiram algo raro em um campo tão extenso. De modo sucinto, tornaram mais claro o núcleo da teologia bíblica sem simplificar demais o processo. Todo cristão se beneficiará dos vários exemplos de como uma teologia bíblica bem embasada transforma nossa maneira de ler, aplicar e ensinar a Bíblia. Esse é um mapa confiável no caminho para Emaús, onde a descoberta de Cristo em toda a Escritura satisfaz o coração. Chip Bugnar, autor de Grace beyond the veil Nesse livro cheio de ilustrações poderosas e esclarecedoras, Roark e Cline argumentam convicentemente que enxergar toda a Bíblia como uma história sobre Jesus capacita os crentes a servir a Cristo alinhados com o propósito de Deus. Leia esse livro e veja por você mesmo! A expressão teologia bíblica pode passar a impressão de que esse é um livro didático para seminaristas ou para um treinamento pastoral. Aqui, porém, está uma leitura obrigatória para todo cristão, pois todos nós devemos ser despenseiros da igreja de Cristo. Conrad Mbewe, pastor da igreja Kabwata Baptist Church e chanceler da The African Christian University, em Lusaka, Zâmbia A tentativa de reunir em um todo coerente os diversos períodos históricos e gêneros literários dos 66 livros da Escritura pode ser uma tarefa assustadora. Nesse livro extraordinariamente acessível e prático, Roark e Cline nos ajudam a ver que essa tarefa difícil pode não ser tão difícil assim; pois, como Jesus diz, toda a Escritura aponta para ele. Os autores devem ser elogiados por escrever um livro para ajudar tanto o professor quanto o estudante da Bíblia a entender o sentido da Palavra de Deus e nos guardar de aplicá-la de modo errado à nossa vida e às nossas igrejas. Shawn D. Wright, professor de História da Igreja no Southern Baptist Theological Seminary e pastor de desenvolvimento de líderes na igreja Clifton Baptist Church, em Louisville Com frequência, como pastor, perguntam-me sobre um livro que apresente o enredo e a unidade da Bíblia centrados no Senhor Jesus Cristo crucificado e ressurreto.A partir de agora, esse livro é a minha resposta. Essa obra, porém, faz mais do que descrever a teologia bíblica; ela mostra ao leitor como essa disciplina negligenciada com frequência pode nos proteger de vários erros, tanto na interpretação da Escritura quanto na prática da igreja. Lee Tankersley, pastor da igreja Cornerstone Community Church, em Jackson, no Tennessee Eu procurava um livro sobre teologia bíblica que pudesse dar com confiança a qualquer pessoa da minha igreja. Finalmente o encontrei. Esse livro é resposta de oração. Jason Meyer, pastor de pregação e visão na igreja Bethlehem Baptist Church, em Minneapolis Série 9Marcas: Construindo Igrejas Saudáveis MARK DEVER E JONATHAN LEEMAN, organizadores Pregação expositiva (David Helm) O evangelho (Ray Ortlund) Evangelização (J. Mack Stiles) Membresia na igreja (Jonathan Leeman) Disciplina na igreja (Jonathan Leeman) Discipulado (Mark Dever) Presbíteros (Jeramie Rinne) Sã doutrina (Bobby Jamieson) Conversão (Michael Lawrence) Missões (Andy Johnson) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 Roark, Nick Teologia bíblica : como a igreja ensina o evangelho com fidelidade / Nick Roark e Robert Cline ; tradução de Abner Arrais. -- São Paulo : Vida Nova, 2018. 176 p. (Série 9Marcas) ISBN 978-85-275-0867-4 Título original: Biblical theology: how the church faithfully teaches the gospel 1. Bíblia - Teologia 2. Igreja I. Título II. Cline, Robert III. Arrais, Abner 18-1304 CDD 230.041 Índices para catálogo sistemático: 1. Bíblia – Teologia ©2018, de Nick Roark e Robert Cline Título do original: Biblical theology: how the church faithfully teaches the gospel, edição publicada por CROSSWAY (Wheaton, Illinois, EUA). Todos os direitos em língua portuguesa reservados por SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA Rua Antônio Carlos Tacconi, 63, São Paulo, SP, 04810-020 vidanova.com.br | vidanova@vidanova.com.br 1.a edição: 2018 Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em citações breves, com indicação da fonte. Impresso no Brasil / Printed in Brazil Todas as citações bíblicas foram traduzidas diretamente da English Standard http://vidanova.com.br Version. DIREÇÃO EXECUTIVA Kenneth Lee Davis GERÊNCIA EDITORIAL Fabiano Silveira Medeiros EDIÇÃO DE TEXTO Fernando Mauro S. Pires Guilherme Lorenzetti PREPARAÇÃO DE TEXTO Victória Cardoso REVISÃO DE PROVAS Gustavo N. Bonifácio GERÊNCIA DE PRODUÇÃO Sérgio Siqueira Moura DIAGRAMAÇÃO Sandra Reis Oliveira CAPA Darren Welch Vania Carvalho (adaptação) Imagem: Wayne Brezinka, para brezinkadesign.com Para os santos da igreja Franconia Baptist Church. Que, pela graça de Deus, possamos adorar e proclamar Cristo por meio de toda a Escritura. SUMÁRIO Prefácio da Série 9Marcas 1A necessidade de teologia bíblica 2O que é teologia bíblica? 3Qual é a grande história da Bíblia? (primeira parte) 4Qual é a grande história da Bíblia? (segunda parte) 5A teologia bíblica molda o ensino da igreja 6A teologia bíblica molda a missão da igreja Conclusão Apêndice: Outros exemplos bíblico-teológicos Recursos recomendados Índice de passagens bíblicas PREFÁCIO DA SÉRIE 9MARCAS Você acredita ser sua responsabilidade ajudar a construir uma igreja saudável? Se você é cristão, cremos que é o que deve fazer. Jesus ordena que você faça discípulos (Mt 28.18-20). Judas manda que você se edifique na fé (Jd 20,21). Pedro o conclama ao uso de seus dons para servir às pessoas (1Pe 4.10). Paulo o chama a dizer a verdade em amor, a fim de que sua igreja amadureça (Ef 4.13,15). Percebe aonde estamos chegando? Seja você membro ou líder da igreja, a Série 9Marcas: Construindo Igrejas Saudáveis tem como alvo ajudá-lo a cumprir esses mandamentos bíblicos e, assim, desempenhar sua parte na construção de uma igreja saudável. Em outras palavras: esperamos que esses livros o ajudem a crescer em amor por sua igreja, assim como Jesus a ama. O Ministério 9Marcas planeja produzir um livro pequeno e de fácil leitura sobre cada uma das características que Mark Dever chamou “as nove marcas da igreja saudável” (pregação expositiva, teologia bíblica, o evangelho, conversão, evangelização, membresia na igreja, disciplina na igreja, discipulado e liderança bíblica na igreja [presbíteros]), além de um volume extra sobre a sã doutrina, outro sobre oração e outro sobre missões. As igrejas locais existem para demonstrar a glória de Deus às nações. Fazemos isso ao fixar os olhos no evangelho de Jesus Cristo, confiando nele para sermos salvos e amando uns aos outros com a santidade, a unidade e o amor de Deus. Oramos para que este livro o ajude. Cheios de esperança, MARK DEVER E JONATHAN LEEMAN, organizadores da série. 1 A NECESSIDADE DE TEOLOGIA BÍBLICA CAPTANDO A IDEIA CENTRAL Quando eu (Nick) estava na escola primária, um dos meus colegas de sala fez uma apresentação sobre uma história escrita por C. S. Lewis que retratava quatro crianças, um rei leão, uma feiticeira branca e uma secreta terra encantada, a qual era acessada por um guarda-roupa. Fiquei fascinado. Então eu mesmo comprei um exemplar da obra As crônicas de Nárnia¹ e o li com alegria. Anos mais tarde, porém, depois de minha conversão a Cristo, percebi que havia deixado de perceber as intenções evidentes do autor, a saber, o intuito de dirigir o olhar de seus leitores para Jesus. É possível ler uma história, achá-la interessante e ainda assim deixar escapar completamente sua mensagem principal. Você pode distrair-se demais com o cenário ou personagens menos importantes. Pode ler apenas poucos parágrafos de cada vez ou pular aleatoriamente de um lugar para outro. Pode até mesmo tentar remendar, umas nas outras, as tramas ou as visões de mundo a partir de várias seções sem nenhuma conexão entre si. Se você fizer qualquer uma dessas coisas, é bem provável que entenderá mal a história, tanto seu herói quanto seus temas principais. A Bíblia é uma história divinamente inspirada. Ela conta essa história por meio de uma coleção de narrativas, canções, poesias, provérbios de sabedoria, Evangelhos, epístolas e literatura apocalíptica. Juntas, essas formas diversas contam uma verdadeira história sobre a obra salvífica de Deus desde o início dos tempos. A Bíblia contém 66 livros escritos por vários autores. Esses autores foram inspirados pelo Espírito Santo, que usou as personalidades e os contextos de vida de cada um deles para criar o cânon da Escritura para nós, com sua mensagem principal única e seu enredo. Os cristãos reconhecem a autoridade divina da Bíblia. Eles até mesmo a leem e a estudam diariamente por anos. Ainda assim, muitos continuam deixando passar a mensagem principal. Em João 5.39,40, Jesus se dirige assim a algumas pessoas: “Vocês buscam as Escrituras porque consideram que nela há vida eterna, e é ela que dá testemunho a meu respeito; ainda assim, vocês se recusam a vir a mim para que possam ter vida”. É possível honrar as Escrituras e mesmo assim lê-las e usá-las equivocadamente, deixando de ver o grande quadro que Deus concebeu. Contudo, felizmente, o autor da Bíblia nos deixou pistas claras sobre a mensagem principal da história dele. Esta é uma das principais pistas dadas pelo próprio Jesus Cristo: Então lhes disse: “Essas são as minhas palavras que lhes falei enquanto ainda estava com vocês, que tudo escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos deveria se cumprir”. Então abriu a mente deles para entenderem as Escrituras e lhes disse: “Assim está escrito, que o Cristo deveria sofrer e no terceiro dia ressuscitar dos mortos, e que em seu nome o arrependimento para o perdão dos pecados deveria ser proclamado para todas as nações, começando de Jerusalém. Vocês são testemunhas dessas coisas. E vejam, estou enviando sobre vocês a promessa do meu Pai. Mas fiquem na cidade até que vocês sejam revestidos com o poder do alto” (Lc 24.44-49). Jesus explica duas coisas nesse texto. Primeiro, faz a chocante declaração de quetodo o Antigo Testamento, do Pentateuco aos Profetas e Salmos, foi escrito, na realidade, sobre ele. Em outras palavras, Jesus se identifica como o Messias prometido. Segundo, ele diz que os seus seguidores serão testemunhas dessas coisas para todas as nações, isto é, para todos os povos, em todos os lugares. Dito de modo simples, você não entenderá a história da Bíblia a não ser que perceba que ela é toda sobre Jesus! De Gênesis a Apocalipse, Jesus é o herói e o sentido da história. Mais que isso, você não entenderá quem é Jesus a não ser que entenda a história maior, que é inteiramente sobre ele! Jesus é a chave interpretativa da Bíblia, o que significa que um leitor atencioso vai encontrá-lo no começo, no meio e no fim dessa história. Na Bíblia, Deus nos revelou os propósitos, os planos e as promessas do Rei. Uma vez que essas coisas se desenvolveram na história, precisamos prestar atenção a toda essa narrativa bíblica, lendo-a como Jesus diz que a devemos ler. A história de Deus é uma grande história — de fato, é a maior de todas — e ela é centrada em seu plano de redenção na Pessoa e na obra de Jesus Cristo. Para ler a Bíblia fielmente, porém, precisamos das ferramentas adequadas. A disciplina da teologia bíblica é uma dessas ferramentas. 1. A teologia bíblica ajuda a tornar mais claro o principal propósito da Bíblia. Algumas pessoas abordam a Palavra de Deus como se ela fosse uma coleção de histórias independentes, ou uma coleção de recomendações e conselhos, ou até mesmo um livro universal de receitas com algumas dicas para “a boa vida” espalhadas pelos seus 66 livros. Essas abordagens, porém, fracassam em trazer à luz o propósito central da Escritura. Na Bíblia, o Deus triúno explica quem ele é, como ele é, como está trabalhando ao longo da história por meio do seu Espírito e do seu Filho, Jesus Cristo, o Rei, e como nós devemos glorificá-lo neste mundo. A teologia bíblica nos ajuda a compreender esse propósito principal ao olhar para cada passagem da Escritura à luz de toda a Bíblia, a fim de que entendamos como cada parte da Escritura está relacionada com Jesus. 2. A teologia bíblica ajuda a proteger e a guiar a igreja. Ler corretamente a Escritura significa saber onde cada livro se encaixa em seu enredo geral. Saber esse enredo, por sua vez, ajuda-nos a ler e a entender apropriadamente cada acontecimento, personagem ou ensinamento que nos é dado como parte da Palavra de Deus progressivamente revelada. Entender toda a história da Escritura esclarece quem é Jesus Cristo e o que é seu evangelho. Deus prometeu resgatar um povo de cada tribo, língua e nação para a sua própria glória por meio de seu Filho e pelo seu Espírito. Essas pessoas redimidas são membros do corpo de Cristo, a igreja. O que a igreja de Jesus Cristo deveria ser e fazer? Jesus falou aos seus seguidores — os quais se arrependeram de seus pecados e confiaram somente nele — a respeito de as Escrituras testificarem que “… o arrependimento para o perdão dos pecados deveria ser proclamado, em seu nome, a todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc 24.47). Assim, a proclamação de Jesus Cristo dever estar no centro da missão da igreja de discipular as nações. Desse modo, a teologia bíblica protege a igreja do erro fatal de proclamar um falso evangelho e conduz a igreja a guardar a proclamação do verdadeiro evangelho como o ponto central de sua missão ao mundo, para o louvor da glória de Deus. 3. A teologia bíblica nos ajuda em nosso alcance evangelístico. Compartilhar as boas-novas com os que não estão familiarizados com o cristianismo exige explicar muito mais do que As quatro leis espirituais² ou a “Estrada de Romanos”.³ As pessoas precisam primeiro entender que a cosmovisão cristã acompanha uma completa transformação de mente. Em nosso evangelismo, devemos começar com Deus e a Criação para ver o que deu errado. A partir daí, temos condição de acompanhar o que Deus tem feito ao longo da história, e isso nos ajudará a descobrir por que ele enviou Jesus e por que esse fato importa hoje. A não ser que entendamos corretamente esses acontecimentos passados em seus devidos contextos, não estaremos preparados para descobrir o que Deus está fazendo agora mesmo e o que ele fará no futuro. 4. A teologia bíblica ajuda a ler, entender e ensinar a Bíblia como Jesus mandou. O próprio Jesus é quem diz, em Lucas 24, que ele é a chave interpretativa da Escritura. Assim, se falharmos em ler e entender a Bíblia de um modo que ela nos leve a Jesus, então teremos perdido sua mensagem principal e, em consequência disso, ensinaremos os outros a cometerem o mesmo erro. QUANDO AS IGREJAS PERDEM A MENSAGEM PRINCIPAL A conclusão é esta: perder o sentido principal da história da Bíblia produz falsos evangelhos e falsas igrejas. Vamos considerar a seguir alguns exemplos desse tipo de erro que a teologia bíblica nos ajuda a evitar. A igreja do evangelho da prosperidade Deixe-me apresentar a você o Jonathan. Ele ora com frequência e lê a Bíblia diariamente, mas nunca leu um livro dela por completo. Abra a Bíblia dele e você encontrará versículos circulados no Antigo Testamento e páginas com trechos sublinhados no Novo Testamento. A esposa dele, Rebeca, memorizou uma quantidade bem impressionante de versículos bíblicos e está ensinando esses versículos, um por um, aos filhos. Jonathan, Rebeca e sua jovem família são parte de uma igreja local em uma cidade da África (embora, nessa questão, pudesse ser na Ásia, na Europa ou na América). Quando pedi para ouvir alguns dos versículos que Rebeca memorizou, ela recitou Marcos 11.24: “Portanto, eu lhes digo: Seja o que for que vocês pedirem em oração, creiam que o receberam, e isso será de vocês”. Então ela disse: “Isso é o que Abraão fez, então é isso que eu faço”. Um pouco incomodado, eu (Robert) decidi procurar um dos pastores dela. Quando lhe perguntei qual era, em sua opinião, a mensagem principal da Bíblia, ele respondeu: “Ah, isso é fácil! Deus enviou Jesus para dar vida abundante pela fé a todos os que creem. Se tão somente tivermos fé, Deus nos dará essa vida agora com todas as riquezas e bênçãos que Jesus tem direito. Podemos gerar nossas próprias bênçãos quando oramos com fé como fez Abraão”. A igreja do evangelho civil Ao visitar alguns crentes em outra cidade, dessa vez nos Estados Unidos, eu (Robert) lhes pedi que me dissessem qual é a mensagem da Bíblia. As respostas que deram foram mais ou menos assim: Bem, a América é uma nação cristã, uma nação escolhida por Deus como Israel, uma cidade no monte. Deus abençoou essa nação, mas como diz 2Crônicas 7.14: “Se meu povo, que é chamado pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face, e se apartar de seus caminhos ímpios, então eu os ouvirei do céu e perdoarei seus pecados e curarei sua terra”. Eles continuaram: Deus e o país, esses são os pilares que formam a essência da minha igreja. Esta é supostamente uma nação cristã, mas agora nos dizem que não podemos ter os Dez Mandamentos nas paredes de nossas escolas públicas! Se os americanos fossem apenas pessoas boas e morais como Abraão, Moisés ou Davi, então nós teríamos toda a prosperidade e desfrutaríamos da segurança e do conforto provenientes das bênçãos de Deus. A igreja do sopão João recentemente se mudou para a cidade e é parte de uma rede de igrejas voltadas a servir ao pobre. Seu trabalho principal é administrar um banco alimentar. A igreja de João deseja obedecer ao mandamento da Bíblia de buscar a justiça, amar a misericórdia e andar com Deus humildemente (Mq 6.8). João admite que a ênfase do ensino de sua igreja recai inegavelmente mais sobre a mobilização para o que nós devemos fazer por Deus do que sobre a mensagem do que Deus fez por nós em Cristo. João diz: “Deveríamos nos preocupar completamente com aliviar o sofrimento, onde quer que estejamos. Alimentar ‘o menor desses’ é o que nos faz conhecidos como uma igreja. O que poderia estar errado com isso?”. A igreja da imoralidade declarada Fundamentalmente, a teologia bíblica ajuda os seguidoresfiéis de Cristo a reconhecer e refutar interpretações equivocadas que conflitem com o enredo geral da Escritura. Cíntia é uma jovem estudante nascida em um lar cristão. A Bíblia sempre lhe foi ensinada, e ela conhece muito bem o quadro geral da história bíblica. Ela até mesmo teve o mérito de completar um ano de estudos de grego do Novo Testamento. Sua visão de mundo é solidamente cristã, mas ultimamente Cíntia tem ficado confusa ao conhecer cristãos professos que são abertamente gays e que também são muito gentis, generosos e amorosos. Ela se pergunta: “Como a Bíblia poderia se opor a essas pessoas?”. Ela lê artigos de especialistas bíblicos que questionam a tradução de textos- chave tradicionalmente usados para explicar por que a prática homossexual é pecaminosa. A essa altura, ela não pode fazer nada a não ser perguntar: “Uma vez que não há versículos na Bíblia que proíbam explicitamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo, qual é o problema se duas mulheres se amam realmente?”. CONCLUSÃO Esses são apenas alguns problemas com os quais a teologia bíblica ajudará os cristãos e as igrejas locais a lidarem. Há outros além desses. À medida que esse livro avançar, veremos como a teologia bíblica nos ajuda a ir direto ao ponto ao colocar o Rei Jesus no início, no centro e no fim da única e verdadeira história da Bíblia. No entanto, estamos nos adiantando. Vamos começar pela pergunta: “O que é teologia bíblica?”. 1 São Paulo: Martins Fontes, 2009. 2 Forma sucinta de apresentação do evangelho elaborada pelo evangelista Bill Bright (1921-2003), fundador do movimento Campus Crusade for Christ [Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo, atual CRV Brasil]. Em linhas gerais, as quatro leis afirmam que (1) Deus nos ama e tem um plano maravilhoso para nossa vida, (2) todos somos pecadores e estamos afastados de Deus, (3) Jesus Cristo é a única solução oferecida por Deus ao homem pecador e (4) precisamos aceitar Jesus Cristo como Senhor e Salvador. (N. do E.) 3 Seleção de passagens extraídas do livro de Romanos que delineiam o plano de salvação por meio da fé em Jesus Cristo. Entre os versículos comumente utilizados estão: 3.23; 3.10; 5.12; 6.23; 1.20; 5.8; 10.9,10; 10.13; 5.1; 8.1; 8.38,39. A ordem dos versículos ilustra o desenrolar do plano redentor de Deus. (N. do E.) 2 O QUE É TEOLOGIA BÍBLICA? SEGUINDO O MAPA DA ESCRITURA ATÉ JESUS Posso dizer com segurança que me localizar geograficamente é um pouco desafiador para mim (Nick). Meus amigos e minha família podem testemunhar que o senso de direção não figura na lista das minhas maiores qualidades. Por causa dessa deficiência direcional, é um alívio saber que tudo o que preciso fazer para chegar ao destino desejado é seguir corretamente um mapa. Já vimos, no capítulo anterior, como perder de vista a mensagem principal da história da Bíblia produz falsos evangelhos e falsas igrejas. Agora precisamos de um enquadramento adequado para entender toda a Bíblia. A teologia bíblica provê esse enquadramento porque ela guia nossa leitura e, portanto, protege-nos da má interpretação. A teologia bíblica é uma abordagem para ler toda a história da Bíblia enquanto mantemos nosso foco na mensagem principal da Escritura, Jesus Cristo. Em outras palavras, teologia bíblica é o mapa bíblico que nos leva a Jesus. Como, porém, sabemos que Jesus é o tema principal de toda a Bíblia? Sabemos porque ela nos diz isso. O MAIOR ESTUDO BÍBLICO DE TODOS OS TEMPOS Imagine como seria estar com os discípulos quando eles encontraram o Jesus ressurreto na estrada para Emaús. Essa cena incrível está registrada em Lucas 24. O que se desenrolou ali foi praticamente o maior estudo da Bíblia já feito. Dois discípulos estavam caminhando pela estrada em direção a um povoado que ficava a cerca de onze quilômetros de Jerusalém. Lucas nos diz que, “enquanto eles estavam conversando e discutindo, o próprio Jesus aproximou-se e prosseguiu com eles. Mas seus olhos estavam impedidos de reconhecê-lo” (24.15,16). Os discípulos, então, compartilharam com Jesus as incríveis coisas que tinham acabado de acontecer em Jerusalém. Coisas que … dizem respeito a Jesus de Nazaré, um homem que foi um profeta poderoso em obras e em palavras diante de Deus e de todo o povo, e como nossos principais sacerdotes e governadores o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Mas nós tínhamos esperança de que ele fosse aquele que redimiria Israel. Sim, e agora é o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram. Além disso, algumas mulheres do nosso meio nos assustaram. Elas foram ao sepulcro logo de manhã e, quando não encontraram o corpo dele, voltaram dizendo que haviam tido uma visão de anjos, os quais disseram que ele estava vivo. Alguns dos que estavam conosco foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres haviam dito, mas não o viram (Lc 24.19-24). Jesus respondeu: “… Ó tolos e lentos de coração para entender tudo o que os profetas falaram! Não era necessário que o Cristo sofresse essas coisas e entrasse na sua glória?”. E, começando com Moisés e todos os profetas, ele lhes explicou em todas as Escrituras as coisas que constavam a respeito dele (Lc 24.25-27). Mais tarde, Jesus disse aos seus discípulos: “… Essas são as minhas palavras que lhes falei enquanto ainda estava com vocês, que tudo escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos deveria se cumprir”. Então abriu a mente deles para entenderem as Escrituras e lhes disse: “Assim está escrito, que o Cristo deveria sofrer e no terceiro dia ressuscitar dos mortos, e que em seu nome o arrependimento para o perdão dos pecados deveria ser proclamado para todas as nações, começando de Jerusalém” (Lc 24.44-47). Em outras palavras, quando Jesus examinava o Antigo Testamento — o Livro de Moisés, os Profetas e os Salmos, ou Escritos —, ele pretendia que seus seguidores entendessem que todos esses livros foram escritos acerca dele. É assim que Lucas nos diz isso: “Ele lhes explicou em todas as Escrituras as coisas que constavam a respeito dele”. Jesus é claro como o cristal. É tolice ler o Antigo Testamento e não entender que Jesus é sua mensagem principal. Toda a história da Bíblia fala a respeito dele. O Antigo Testamento promete e aponta para o Messias e sua missão, enquanto o Novo Testamento descortina o cumprimento das gloriosas promessas em Cristo. A história da Escritura, então, é inteiramente sobre o Rei de Deus e seu gracioso governo e reino; é inteiramente sobre o perdão dos pecados que o Rei conquistou para o seu povo, o qual é chamado de cada tribo, língua, povo e nação. Toda a história das Escrituras, entendida corretamente, enfatiza Jesus Cristo do começo ao fim. O QUE É TEOLOGIA BÍBLICA? Precisamos explicar brevemente o que queremos dizer com a expressão “teologia bíblica”. Se acreditamos que a Bíblia é a Palavra de Deus inspirada e inerrante, não devemos aspirar que toda a nossa teologia seja “bíblica”? Sim, é claro. Contudo, quando usamos a expressão “teologia bíblica” neste livro, estamos nos referindo a algo mais específico. Por um lado, a teologia sistemática começa com um tópico chave (Deus, homem, pecado, Cristo, salvação etc.) e, então, examina as Escrituras para ver o que elas ensinam sobre esse tópico. Por outro lado, a teologia bíblica tenta ler toda a história da Bíblia e pergunta como cada parte se relaciona com o todo. Teologia bíblica é um modo de ler a Bíblia como uma única história de um único autor divino, que culmina em quem Jesus Cristo é e o que ele fez; então, cada parte da Escritura é entendida em relação a ele. A teologia bíblica nos ajuda a entender a Bíblia como um grande livro constituído de vários livros menores que contam uma única grande história. O herói e o ponto central dessa história, de capa a capa, é Jesus Cristo. A teologia bíblica é para a igreja, ela começa com a Bíblia e termina com o Rei Jesus e sua igreja. A teologia bíblica é para a igreja Embora a disciplina da teologia bíblica possa alcançar níveis altamente técnicos e avançados, atémesmo os primeiros cristãos valorizavam a teologia bíblica e entendiam sua utilidade para a igreja. Em Atos 17, lemos que Paulo e Silas compartilharam o evangelho em Tessalônica e, então, passaram algum tempo proclamando a Palavra de Deus na sinagoga judaica em Bereia. Paulo “… argumentou com eles com base nas Escrituras, explicando e demonstrando que era necessário que o Cristo sofresse e ressuscitasse dos mortos, e dizendo: ‘Esse Jesus, que eu proclamo a vocês, é o Cristo’” (At 17.2,3). O que aconteceu? Muitos desses judeus creram, junto de “… não poucas mulheres gregas de alta posição, bem como homens” (At 17.12). Os bereianos ouviram a fundamentação de Paulo, suas explicações e as provas que apresentava com base no Antigo Testamento. Eles o ouviram proclamar que era necessário que o Rei prometido de Deus, Jesus Cristo, “… sofresse e ressuscitasse dos mortos…” (At 17.3). O apóstolo Paulo ajudou seus ouvintes a entender como o enredo da Escritura centralizava-se e culminava em Jesus. Ele forneceu um mapa da Escritura que os guiava até Cristo. E, pela graça de Deus, muitos bereianos creram. Observe, porém, que os bereianos não simplesmente aceitaram a palavra de Paulo. Lucas, o autor do livro de Atos, diz: “Ora, esses judeus eram mais nobres do que os de Tessalônica; eles receberam a palavra com todo o interesse, examinando as Escrituras diariamente para ver se as coisas eram de fato assim” (At 17.11). Os bereianos recebiam a palavra com interesse e todos os dias examinavam as Escrituras para confirmar o que tinham aprendido. Os primeiros cristãos não entendiam o trabalho da teologia bíblica como algo exclusivo dos apóstolos. Eles não pensavam que ela estava reservada para os acadêmicos profissionais nos seminários conceituados. Em vez disso, entendiam que era responsabilidade deles se debruçarem sobre as Escrituras e desenvolverem um enquadramento fiel para entender como a história da Bíblia está centrada e culmina em Jesus. Eles entendiam que a teologia bíblica é para a igreja. Se você está em Cristo, então a teologia bíblica é para você. A teologia bíblica começa com a Bíblia A teologia bíblica começa com uma leitura cuidadosa da Bíblia, em oração. Vamos à Bíblia com humildade, buscando entender sua grande história como ela mesma a apresenta. A Bíblia é incrivelmente variada. É um livro formado por muitos livros menores de vários autores, que escreveram em diferentes épocas, valendo-se de diversos gêneros. Então, quando lemos a Bíblia, descobrimos todo tipo de diversidade: narrativa, poesia, lei, literatura sapiencial, profecia, epístolas e Evangelhos. Tentar amarrar toda essa diversidade de livros, escritos em diferentes épocas e lugares para públicos variados, pode parecer uma tarefa intimidadora. E de fato é mesmo! Ainda assim, não deveríamos sentir como se essa tarefa fosse impossível. A teologia bíblica é de fato possível porque toda a Bíblia é um único livro inspirado por Deus: “Toda Escritura é inpirada por Deus…” (2Tm 3.16). A unidade da história da Bíblia está fundamentada em seu autor supremo: o próprio Deus. Veja o que o apóstolo Pedro diz sobre a Bíblia: “… nenhuma profecia da Escritura vem da interpretação própria de alguém. Pois nenhuma profecia jamais foi produzida pela vontade de homem, mas os homens falaram da parte de Deus conforme eram conduzidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.20,21). Se o próprio Senhor inspirou esses livros, então deveríamos lê-los com cuidado e oração, buscando entender seu grande propósito e plano. Imagine que cada livro da Bíblia brilhe como uma estrela. Todavia, apenas quando você consegue ter uma boa visão do todo começa a ver que essas estrelas formam uma gloriosa e imensa constelação. A teologia bíblica analisa e integra cada estrela e, então, busca o todo para ter uma visão de tirar o fôlego da panorâmica constelação da glória divina. E o que está no centro dessa gloriosa constelação? Deus, o Pai, enviando seu Filho por meio do Espírito para conquistar um povo para a sua própria glória. A teologia bíblica termina com o Rei Jesus e sua igreja A igreja inteira tem o privilégio de praticar a teologia bíblica. Devemos ler com cuidado e oração todas as partes da Bíblia para que façam sentido como um todo. À medida que lemos e relemos toda a história da Bíblia, fica claro que o foco da Escritura está em Jesus. Escute as palavras de Paulo: “E ele é antes de todas as coisas, e nele todas as coisas se mantêm juntas” (Cl 1.17). O próprio Cristo, o Rei prometido, é aquele que mantém tudo unido, incluindo a grande história da própria Escritura. O Antigo Testamento aponta e prepara o caminho, por assim dizer, para a vinda do Rei. O Novo Testamento proclama a chegada do Rei e sua missão para todas as nações. A teologia bíblica, portanto, termina com o Rei Jesus e o cumprimento de suas promessas de resgatar e redimir para ele mesmo um povo para o seu louvor. CONCLUSÃO A teologia bíblica nos ajuda a entender como o glorioso mapa da Escritura aponta e converge para o Rei ressurreto e reinante, Jesus Cristo, bem como para o povo comprado com sangue. Tal como aconteceu com os discípulos na estrada de Emaús, queremos que nossos olhos e mentes sejam abertos (Lc 24.31,45) para reconhecer Jesus em todas as Escrituras, a fim de que possamos amá-lo com todo o nosso coração a partir delas (Lc 24.32). Se estamos lendo o mapa da Escritura corretamente, isso deveria sempre nos levar a Jesus e a quem nós somos como seu povo. Agora nos dedicaremos a estudar juntos o mapa da Bíblia e ver como tudo o que está escrito nela é sobre o Rei e seus propósitos de ser glorificado ao redimir um povo para ele mesmo. 3 QUAL É A GRANDE HISTÓRIA DA BÍBLIA? (primeira parte) A história da Escritura é a história de Deus. É a história de Deus, o Rei. A Bíblia começa e se encerra com um Deus glorioso, que é criador e governador soberano de todas as coisas (Gn 1; Ap 20—22), o qual existe por toda a eternidade como Pai, Filho e Espírito Santo. Deus, e apenas Deus, governa e reina sobre sua criação. Este mundo, o nosso mundo, é um mundo que ele criou bom. É o seu mundo, e ele governa sobre tudo. A história da Escritura é a história do Rei. Ela é por inteiro sobre ele e sobre sua glória. E essa história se inicia com o começo de tudo. O REI CRIA E ESTABELECE UMA ALIANÇA A história de Deus começa com uma declaração da Criação: “No começo Deus criou os céus e a terra” (Gn 1.1). Deus criou tudo o que existe, e, como o Criador de todas as coisas, ele reina sobre tudo. O Senhor estabeleceu seu trono nos céus, e seu reino domina sobre tudo (Sl 103.19). Ao simplesmente proferir suas palavras poderosas, o Rei moldou e preencheu sua criação com terras, mares, plantas e criaturas, preparando um bom lugar para que o ápice de sua criação habitasse com ele. Gênesis registra isso deste modo: Então Deus criou o homem à sua própria imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (Gn 1.27). Diferentemente das outras criaturas, os seres humanos são criados por Deus para um relacionamento singular com ele. Como a coroa da criação do Rei, Adão e Eva foram criados à sua imagem, e eles desfrutavam do privilégio de habitar na abundante presença de seu Rei. Deus pretendia que, por meio deles, sua imagem fosse disseminada por toda a terra: “… Sejam frutíferos, multipliquem-se, encham a terra e a dominem, e dominem sobre os peixes do mar, sobre os pássaros nos céus e sobre cada coisa viva que se move sobre a terra” (Gn 1.28). Adão, em especial, deveria servir como um superintendente de Deus ao exercer domínio, começando no jardim e estendendo seu governo por toda a terra. A descrição de seu trabalho está em Gênesis 2.15: “O SENHOR Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar”. Assim como um sacerdote posteriormente guardaria o tabernáculo de Deus, Adão adorava e servia a Deus ao proteger o jardim (Nm 3.8). Ele deveria impedir que qualquer coisa impura entrasse no santo lugar de Deus. Juntos, Adão e Eva foram criados para desfrutar da boacriação de Deus de acordo com a palavra dele. Desde o primeiro momento, vemos o relacionamento de aliança entre Deus e seu povo. Ainda que a palavra aliança não apareça em Gênesis 1 e 2, vários indícios indicam que Deus criou a humanidade para se relacionar com ele por meio de alianças (veja Rm 5.12-21). Isso parece bom, mas o que exatamente é uma aliança? Essa não é uma palavra que usamos muito hoje em dia. Dito de maneira simples, uma aliança é “um compromisso solene, garantindo promessas ou obrigações assumidas por uma ou ambas as partes pactuantes, selado com um juramento”.¹ As instruções de Deus para Adão foram muito claras: “E o Senhor Deus ordenou ao homem: ‘Certamente você pode comer de toda árvore do jardim, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal você não deve comer, pois, no dia em que comer dela, certamente morrerá” (Gn 2.16-17). Deus deu a Adão uma lista de deveres e compromissos e prometeu benção para a obediência e maldição para a desobediência. Dica para o ensino e a pregação Quando se prega ou ensina Gênesis 1, é fácil perder o foco do que é mais importante. Considere fazer essas conexões: •O Deus eterno, que criou todas as coisas (Gn 1.1), um dia fará novas todas as coisas (Is 65.17; Ap 21.5). •Pregar e ensinar sobre Adão está essencialmente conectado com o Último Adão, Jesus Cristo (Rm 5). •O Filho de Deus é aquele por meio de quem Deus criou todas as coisas (Cl 1.15-20; Hb 1.1-3). O Senhor se vincula a seu povo pelo seu compromisso verbal, seu voto, sua aliança. Adiante na história da Bíblia, descobrimos que as alianças são concebidas para posteriormente estabelecerem e expandirem o governo e o reino de Deus. Todavia, quando a história da Bíblia começa, tudo é maravilhoso no mundo do Rei. O REI AMALDIÇOA A história da Escritura começou como uma história feliz. No entanto, a bênção de Gênesis 1 e 2 foi aniquilada em Gênesis 3. Em vez de guardar e proteger o lugar e o povo de Deus, Adão falhou. Ao invés de obedecerem à voz de seu bom Criador e Rei, Adão e Eva obedecem com insensatez às palavras enganosas de uma criatura. Pela primeira vez em nossa história, encontramos o vilão, a Serpente, que mais tarde será conhecida como Satanás, o Diabo, o Maligno e o Enganador. A Serpente enganou Eva ao perguntar: “… Deus realmente disse ‘Vocês não devem comer de nenhuma árvore no jardim’?” (3.1). Até esse ponto da história, apenas Deus, em sua múltipla sabedoria, determinou o que era bom em sua criação (Gn 1.4,10,12,21,25,31; 2.17,18). A Serpente, porém, enganou Eva ao negar a palavra de Deus e ao duvidar da bondade dele. A Serpente tentou Eva a se rebelar contra o seu bom e sábio Rei: Então, quando a mulher viu que a árvore era boa para dela comer e que era agradável aos olhos, e que a árvore era desejável para tornar alguém sábio, ela tomou do seu fruto e o comeu, e também o deu a seu marido que estava com ela, e ele o comeu (Gn 3.6). Em vez de confiar sabiamente na boa palavra de seu bom Rei, Adão e Eva se rebelaram contra ele e ouviram a voz da Serpente. Dica para o ensino e a pregação Conecte a maldição cósmica de Gênesis 3 à semente de Eva que esmaga a Serpente. Essa semente nos redime da maldição ao se tornar uma maldição em nosso favor (Gl 3.13), e, por causa disso, “… a própria criação deseja ser livre do cativeiro da corrupção e obter a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.21). Como diz o hino clássico, Jesus fará com que suas bênçãos fluam “onde a maldição se encontra”.¹ É fácil pregar um sermão em Gênesis 3 e fazê-lo todo sobre resistir à tentação: “Adão foi tentado e falhou. Como podemos encarar a tentação e não falhar como Adão?”. Isso é uma pregação moralista que equivale a dizer: “Adão era mau. Não seja como Adão”. A verdade, de acordo com Romanos 5, é que nós, de fato, caímos em Adão. Ele foi nosso representante na aliança e falhou, e nós, portanto, somos culpados nele. Precisamos de um Adão fiel, alguém que é tentado e prova ser um Filho fiel. O Filho fiel, é claro, é Jesus (Lc 4.1-13). ¹Isaac Watts, Joy to the world! The Lord is come (1719). As consequências do pecado de Adão e Eva foram completamente catastróficas. A tentativa de transferir a culpa logo surgiu: “… A mulher que tu me deste para estar comigo, ela me deu o fruto da árvore e eu o comi” (Gn 3.12). A maldição previu que haveria contendas entre homem e mulher. Além disso, os frutos amargos de sua rebelião cósmica seriam a morte, o julgamento e o exílio. Em vez de abençoar, Deus os amaldiçoou por causa de sua rebelião (Gn 3.14-19). Ainda assim, mesmo nesse dia sombrio, restava um vislumbre de esperança futura. O Senhor prometeu que uma semente de Eva um dia esmagaria a Serpente. O Senhor disse: Eu porei inimizade entre você e a mulher, e entre sua descendência e a descendência dela; ele esmagará sua cabeça, e você ferirá o calcanhar dele (Gn 3.15). Essa guerra entre a Serpente e a semente de Eva continuaria a se acirrar até o fim da história bíblica. Nesse meio tempo, por causa de sua rebelião, Adão e Eva foram banidos do jardim e exilados para longe da presença do Rei. A vida sob a maldição não era como a vida no bom mundo que Deus havia planejado. O REI JULGA A vida a leste do Éden, infelizmente, ia de mal a pior. Com a entrada do pecado no mundo, as coisas seguiam terrivelmente erradas no bom mundo do Rei. Apenas alguns capítulos depois da Criação, nós lemos: “O SENHOR viu que a maldade do homem era grande na terra e que cada intenção dos pensamentos de seu coração era continuamente má” (Gn 6.5). As inclinações do coração humano não buscavam mais honrar a Deus; em vez disso, homens e mulheres desejavam seguir o mal “continuamente”. Porém, um homem chamado Noé encontrou graça aos olhos de Deus (Gn 6.8). O Senhor determinou que julgaria o mundo por meio de um dilúvio e que mostraria misericórdia para com Noé e sua família (Gn 6—8). Por meio de um homem, um povo foi salvo. Depois disso, Deus fez uma aliança com Noé, prometendo nunca mais destruir o mundo dessa forma. O Senhor disse: “Eu estabeleci minha aliança com você, que nunca mais toda carne será eliminada por meio das águas do dilúvio, e nunca mais haverá um dilúvio para destruir a terra” (Gn 9.11). Contudo, mesmo depois do Dilúvio, a rebelião global contra o Rei continuou e o problema do coração humano permaneceu. Em vez de honrar, refletir e engrandecer o nome do Rei, as pessoas buscaram engrandecer seu próprio nome (Gn 11.4). Deus então as espalhou, pois tinha outros planos. Ele faria o seu próprio nome conhecido por todo o mundo, e faria isso por meio de seu escolhido: Abraão. Dica para o ensino e a pregação Mesmo ao julgar, Deus demonstra misericórdia. O resgate de Noé e sua família do Dilúvio ensina claramente que Deus salva aqueles que confiam nele, mesmo que sejam poucos (1Pe 3.20; 2Pe 2.5). Deus preserva um remanescente de seu povo mesmo quando parece que todos se afastaram dele (Rm 11.2-6). O REI ABENÇOA O plano de Deus de espalhar sua glória por todo o mundo parecia ter sido frustrado pela Serpente e pelo pecado. Ainda assim, o Rei não apenas julgava. Ele também abençoava. O Senhor chamou e abençoou um homem de Ur dos caldeus, cujo nome era Abrão (depois conhecido como Abraão). Deus prometeu engrandecer o nome desse homem e abençoar o mundo por meio dele e de sua descendência. Deus planejou criar um povo por meio de Abraão, um povo especial e uma nação santa. Além disso, planejou abençoar o mundo por meio da semente de Abraão. Farei de você uma grande nação e o abençoarei e engrandecerei seu nome, para que você seja uma bênção. Abençoarei os que o abençoarem, e aqueles que o desonrarem eu os amaldiçoarei, e em você todas as famílias da terra serão abençoadas (Gn 12.2,3). Até mesmo reis, disse o Senhor, procederiam da família de Abraão (Gn 17.6,16). O Senhor prometeu abençoar Abraão e sua família com domínio e uma dinastia. Ele também selou essas promessas solenemente com Abraão por meio de outra aliança (Gn 15). Havia, porém, um problema gritante em tudo isso: Abraão era velho e suaesposa, Sarai (depois chamada de Sara), era estéril. De uma perspectiva humana, qualquer possibilidade de Abraão ter um filho parecia, na melhor das hipóteses, duvidosa. Abraão, contudo, creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça (Gn 15.6). Deus manteve sua promessa e uma criança nasceu como um milagre para Abraão e Sara, ambos em idade avançada. A partir desse ponto no Antigo Testamento, o restante da história foca na família de Abraão: Isaque (Gn 22.17,18), Jacó (Gn 35.11) e os doze filhos de Jacó (Gn 49). Ainda que Gênesis se encerre com a família de Abraão fora da Terra Prometida, o futuro era radiante. Jacó, o neto de Abraão, também conhecido como Israel, profetizou que nos últimos dias um “rei leão” viria da linhagem de seu filho, Judá. Ele falou sobre esse rei: O cetro não se apartará de Judá, nem o bastão de autoridade do meio de seus pés, até que os tributos cheguem a ele; e a ele os povos obedecerão (Gn 49.10). Esse futuro Rei seria aquele que esmagaria a Serpente, restauraria a bênção de Deus ao mundo e reinaria sobre um povo para a Glória de Deus? Dica para o ensino e a pregação Quando você pregar ou ensinar em Gênesis 12, tenha certeza de que está enfatizando o plano salvífico de Deus para todo o mundo, para todos os povos, por meio da fé em Jesus Cristo. A disposição de Deus de abençoar “todas as nações” não começou na Grande Comissão em Mateus 28. O plano de Deus desde o princípio foi abençoar o mundo e, por meio de Adão e Eva, enchê-lo com seres à sua imagem que se multiplicariam e manifestariam a glória de Deus. Em Abraão e por meio dele, Deus engrandeceria um nome para sua própria causa, e Abraão se tornaria o pai de todos os que creem (Gl 3.7-9). Deus prometeu a Jacó, descendente de Abraão, que “… uma nação e uma multidão de nações virão de ti, e reis procederão de seu próprio corpo” (Gn 35.11). Deus cumpriria completamente suas promessas a Abraão na semente do próprio Abraão, Jesus Cristo (Gl 3.16). O REI RESGATA Deus prometeu abençoar Abraão e sua família. Ele prometeu fazer deles muito mais numerosos que as estrelas dos céus. Essa promessa começou a ser cumprida conforme Israel se multiplicava no Egito: “… o povo de Israel era frutífero e crescia grandemente; eles se multiplicavam e cresciam extremamente fortes, de modo que a terra se encheu deles” (Êx 1.7). Entretanto, assim como no Éden, o plano de Deus era outro. O povo de Israel foi escravizado por faraó e sofria sob o governo de um rei cruel (Êx 1 e 2). Eles clamaram a seu verdadeiro Rei para resgatá-los da servidão, e Deus “… se lembrou…” das promessas da aliança (Êx 2.23,24). Dica para o ensino e a pregação O Êxodo de Israel da servidão no Egito aponta para um êxodo ainda maior do povo de Deus por meio da cruz de Cristo (Cl 1.12-14). O cordeiro da Páscoa aponta para o Cordeiro de Deus, perfeito e imaculado, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). Tim Keller diz: Imagine que você estivesse no Egito pouco depois da primeira Páscoa. Se você perguntasse aos israelitas nesses dias: “Quem são vocês e o que está acontecendo aqui?”, eles responderiam: “Eu era um escravo, sob uma sentença de morte, mas me refugiei no sangue do cordeiro e escapei da escravidão, e agora Deus vive no nosso meio e estamos o seguindo até a Terra Prometida”. É exatamente isso que os cristãos dizem hoje.¹ ¹Timothy Keller, King’s cross: the story of the world in the life of Jesus (New York: Dutton, 2011), p. 172 [edição em português: A cruz do rei: a história do mundo na vida de Jesus, tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes (São Paulo: Vida Nova: 2012)]. Assim, o Senhor se revelou a Moisés (Êx 3) e o designou para libertar os israelitas. E, por meio dele, Deus resgatou seu povo do Egito pela sua mão poderosa e pelo sangue de um cordeiro imaculado (Êx 12). A libertação culminante de Israel no mar Vermelho fez com que todo o povo celebrasse seu resgate (Êx 14). Em resposta a essa poderosa obra de salvação, Moisés liderou o povo de Israel em uma canção de louvor ao seu poderoso Rei: Quem é como tu, ó SENHOR, entre os deuses? Quem é como tu, majestoso em santidade, maravilhoso em feitos gloriosos, realizando maravilhas? […] O SENHOR reinará para sempre e sempre (Êx 15.11,18). O resgate do povo de Deus de sua servidão no Egito demonstra a todo o mundo que não há ninguém como o Senhor. Ele é Rei e reinará para sempre. O REI ORDENA Depois de resgatar o seu povo do Egito, o Senhor os trouxe ao monte Sinai, assim como havia prometido. Quando se revelou a Moisés, o Senhor disse: “… eu estarei com você, e este será o sinal de que eu o enviei: quando você tirar o povo do Egito, vocês prestarão culto a Deus nesta montanha” (Êx 3.12). Antes de levá-los à boa terra que o Senhor havia prometido a Abraão, Deus revelou no Sinai suas boas palavras ao seu povo. Israel, que Deus chamou de seu primogênito (Êx 4.22), deveria ser um tipo de representante sacerdotal para o mundo, assim como Adão. Veja o que o Senhor disse a eles: “… se vocês verdadeiramente obedecerem a minha voz e guardarem minha aliança, serão minha propriedade preciosa entre todos os povos, pois toda a terra é minha; e vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa…” (Êx 19.5-6). Deus pretendia que a santidade de Israel refletisse a santidade de seu Rei: “… Vocês serão santos, pois eu, o SENHOR seu Deus, sou santo” (Lv 19.2). Ao confiar nas boas palavras de Deus e obedecer a elas, Israel seria um povo único, que manifestaria a sabedoria de seu Rei a todos os povos da terra. Ao guardar e praticar os mandamentos do Rei, o povo de Israel manifestaria a sabedoria de Deus a um mundo atento (Dt 4.4-6). No entanto, assim como Adão, Israel provou ser um filho infiel que desobedecia às boas palavras de Deus. Mesmo enquanto Moisés estava recebendo a revelação de Deus no topo do monte Sinai, o povo estava muito ocupado fazendo ídolos para si no pé da montanha (Êx 32). O Rei fez uma aliança com o povo e este a violou. Moisés desejava que a presença de Deus acompanhasse Israel até a Terra Prometida, então ele intercedeu em favor do povo (Êx 34). Deus prometeu que sua presença não se apartaria de Israel, mas ele ainda julgaria aquela geração ímpia. Eles estavam destinados a vaguear pelo deserto por quarenta anos antes de pôr os pés na Terra da Promessa. Durante esse período de peregrinação, o Rei habitou no meio do povo, no Tabernáculo, e, pacientemente, providenciou o necessário a cada passo do caminho. Uma vez mais, porém, em contraste com Abraão, Israel se recusou a caminhar pela fé (Nm 14.11; Dt 1.32; 9.23; Sl 95), de modo que, conforme Moisés se aproximava do fim de sua vida, ele não tinha mais esperança de que Israel obedeceria ao Senhor depois que ele se fosse (Dt 31.29). Nesse ponto da história, está claro que o problema do coração que atormentava a humanidade desde a rebelião de Adão ainda permanecia (Dt 31.20,21). Também está claro que, se nada jamais fosse mudar, deveria haver expiação pela incredulidade do povo de Deus e que seu coração deveria ser transformado. Mas como? A esperança por essa mudança reside no futuro. Os sacrifícios expiatórios repetitivos, ordenados pelo Senhor no Sinai, apontavam para um futuro sacrifício, necessário e definitivo. E mesmo Moisés contemplava um dia em que o Rei circuncidaria o coração de seu povo (Dt 30.6), quando o Espírito de Deus seria derramado sobre todos (Nm 11.29). Dica para o ensino e a pregação O sistema sacrificial descrito na lei mosaica apresenta uma trajetória na história bíblica que aponta inteiramente para Jesus, o sacrifício sem pecado que fez propiciação pelos pecados de seu povo (Rm 3.25; Hb 2.17; 1Jo 2.2; 4.10). Quando ensinar nas passagens que explicam o Tabernáculo em detalhes (Êx 25), tente fazer conexões cristocêntricas com outras passagens da Escritura que lidam com a habitação de Deus entre seu povo. Esse tema percorre toda a história bíblica, começando com o Éden. Você pode traçar esse tema do Tabernáculo até o Templo de Jerusalém e, então, até o próprio Deus, que “tabernaculou”entre seu povo em Jesus Cristo, a Palavra eterna que se fez carne (Jo 1.14). Em Cristo, a igreja se tornou o novo templo de Deus (1Co 3.16,17; 2Co 6.16; 1Pe 2.4,5). Um dia, Deus habitará com seu povo na Nova Jerusalém (Ap 21 e 22). O Santo dos Santos, a sala em forma de cubo no templo, dará lugar a uma cidade que tem a forma de um cubo (Ap 21.16). Toda a cidade será como um Santo dos Santos e será aberta a todas as pessoas do povo de Deus, “… pois seu templo é o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro” (Ap 21.22). O REI GUIA Depois de quarenta anos de peregrinação no deserto, o povo é finalmente conduzido por Deus à terra que ele lhe prometeu, por meio de seu servo Josué (Gn 13.15; Êx 3.8). O Senhor disse a Josué: “… levante-se, percorra o Jordão, você e todo esse povo, até a terra que eu estou dando a eles, o povo de Israel. Cada lugar que a sola de seus pés pisar eu já lhes dei, assim como eu prometi a Moisés” (Js 1.2,3). Deus demonstrou ao seu povo que ele é um rei totalmente confiável: Assim o SENHOR deu a Israel toda a terra que ele jurou dar a seus pais. E eles tomaram posse dela e se estabeleceram ali. […] Nenhuma palavra de todas as boas promessas que o SENHOR fez a casa de Israel falhou; todas se cumpriram (Js 21.43-45; cf. 23.14). Contudo, conforme a história se desenrola no livro de Josué, torna-se mais claro que, ainda que Israel estivesse na Terra Prometida, o coração do povo permanecia no mundo. Durante a conquista de Canaã, a ameaça de juízo e exílio sobrevém a Israel. Os israelitas sabiam que, se transgredissem a aliança de Deus, seriam punidos. Depois da morte de Josué, em vez de considerar seu aviso e obedecer às palavras de Deus, Israel fez o que parecia certo aos seus próprios olhos, e a maldade transbordou. O escritor de Juízes resumiu a situação desse modo: E o povo de Israel fez o que era mal aos olhos do SENHOR e cultuou os baalins. Eles abandonaram o SENHOR, o Deus de seus pais, que os trouxe da terra do Egito. Seguiram outros deuses, entre os deuses dos povos que estavam ao redor deles, e se curvaram perante eles. E os israelitas provocaram a ira do SENHOR (Jz 2.11-12). Ainda que soubesse que o Senhor era o seu Rei, Israel o rejeitou e desejou um rei como o das nações vizinhas (Jz 17.6; 18.1; 19.1; 21.25). Como era de esperar, a escolha dos israelitas, isto é, Saul, não foi a escolha de Deus. O Senhor desejava um rei segundo o seu próprio coração (1Sm 13.14; At 13.22), então escolheu alguém da linhagem de Judá (lembre-se da profecia de Jacó em Gn 49.9-12). Seu nome era Davi, o filho de Jessé. Dica para o ensino e a pregação Em vez de pregar ou ensinar sobre “ser forte e corajoso como Josué foi”, foque no Deus fiel de Josué. O nome Josué significa “YAHWEH salva!”. Foi somente por causa da maravilhosa graça de Deus e de seu poder que Israel entrou na Terra Prometida (Js 1—5), tomou a terra (Js 6—12), dividiu a terra (Js 13—21) e cultuou na terra (Js 22—24). Todas essas ações demonstram a fidelidade de Deus às promessas de sua aliança. O herói desse livro é Deus, não Josué. O REI GOVERNA Então o Senhor fez uma aliança com Davi, que desejava construir uma casa para Deus, uma tarefa que caberia, por fim, a Salomão, filho de Davi. De modo maravilhoso, Deus prometeu construir uma casa para Davi, uma dinastia: … o SENHOR lhe declara que ele fará uma casa para você. Quando seus dias se completarem e você descansar com seus pais, levantarei sua descendência depois de você, que virá do seu corpo, e estabelecerei seu reino. Ele construirá uma casa para o meu nome, e estabelecerei o trono de seu reino para sempre (2Sm 7.11- 13). Deus planejou que o reinado de Davi em Israel manifestasse ao mundo atento a sabedoria e o governo maravilhoso de Deus. A esperança de um reino justo de um Rei eterno em um trono eterno está vinculada a Davi e à linhagem de sua família. O doce som dessas promessas divinas que foram dadas a Davi, suscitando plena esperança, ecoa por todo o restante do Antigo Testamento. Deus fez prosperar abundantemente Davi e o povo de Israel (1Cr 29). Tal rei, tal reino. Salomão, o filho de Davi, tornou-se rei de Israel depois de seu pai e construiu uma impressionante casa para o Senhor, o Templo de Jerusalém. Mais uma vez, Deus manifestou sua gloriosa presença entre seu povo. Isso levou Salomão a dizer: “Mas Deus habitará verdadeiramente na terra? Eis que o céu e o mais alto céu não podem conter-te; muito menos essa casa que eu construí!” (1Rs 8.27). O templo concluído era glorioso (Sl 48.1-3,9-11), e a fama e a riqueza de Salomão eram grandes (1Rs 10). “… O rei Salomão excedeu todos os reis da terra em riquezas e em sabedoria. E toda a terra buscava a presença de Salomão para ouvir sua sabedoria, que Deus havia colocado em sua mente” (1Rs 10.23,24). As promessas de Deus a Davi, e mesmo as promessas feitas a Moisés, pareciam estar se cumprindo: “Bendito seja o SENHOR que deu descanso ao seu povo Israel, de acordo com tudo o que ele prometeu. Não falhou nenhuma palavra de toda a sua boa promessa, que ele falou por meio de seu servo Moisés” (1Rs 8.56). Ainda assim, a catástrofe se avizinhava, pois o sábio rei Salomão falhou tolamente em acatar as advertências de Deus. A literatura bíblica de sabedoria (Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos cânticos) representa a sabedoria de Davi e Salomão, entre outros, em seu auge. Esses livros oferecem um panorama de como é a vida vivida com sabedoria, em temor ao Senhor, neste mundo caído, imprevisível, por vezes injusto e ainda condenado. Eles se voltam para a Criação e para o que Deus planejou, assim como apontam para Cristo e para o que Deus promete. Em vez de governar e guiar o povo de Deus de acordo com a boa Palavra de Deus, Salomão juntou para si muito ouro (2Cr 9.13-21), cavalos e carruagens poderosos (2Cr 9.25-28) e várias esposas (1Rs 11.3). Essa foi a receita para o desastre, tal como Deus havia advertido (Dt 17.14-20). Para piorar, Salomão não apenas falhou em remover os altares onde os ídolos eram adorados, mas o próprio rei, em idade avançada, não seguiu completamente ao Senhor (1Rs 11.5- 10). O brilhante começo do reinado de Salomão agora se dirigia ao desastre, pois tal rei, tal reino. Como Deus responderia? O Senhor disse a Salomão: “… Uma vez que essa tem sido a sua prática e você não tem guardado minha aliança e meus estatutos que eu ordenei a você, eu certamente tomarei o reino de você…” (1Rs 11.11-13). Salomão reinou como rei sobre Israel por quarenta anos. Depois de sua morte, porém, o reino foi dividido em dois, assim como Deus havia prometido (1Rs 12.16-20). Israel se dividiu entre o Reino do Norte (Israel) e o Reino do Sul (Judá). Cada futuro rei em Israel e em Judá (com exceção de Ezequias e Josias) falhou em destruir os altares idólatras. Os reis pecaram, assim como o povo pecou. Eles “… temeram outros deuses e seguiram os costumes das nações que o SENHOR havia expulsado da presença de Israel, os costumes que os reis de Israel haviam praticado” (2Rs 17.7,8). Tal rei, tal reino. Dica para o ensino e a pregação Não foque um sermão ou uma aula simplesmente na coragem de Davi ou em “como lidar com os gigantes de sua vida”. Em vez disso, trate da escolha de Davi, um homem segundo o coração de Deus, para reinar como rei sobre o povo de Deus como um modo de Deus restaurar seu governo na terra (1Sm 16.1-13). Deus promete a Davi que um rei eterno de sua família reinaria em um trono eterno (2Sm 7). Torne explícita para seus ouvintes essa conexão com Jesus. Ajude-os a ver que esse futuro filho de Davi também seria seu Senhor (Sl 110; Is 9.6,7; Ez 34.22,23; Mt 22.45). O rei Davi é até mesmo descrito no Novo Testamento como um profeta. Sobre o que Davi profetizou? Sobre Jesus, é claro: “Sendo, portanto, um profeta, e sabendo que Deus lhe havia jurado com um voto que colocaria um de seus descendentes em seu trono, ele previu isso e falou sobre a ressurreição de Cristo” (At 2.30-31; veja Sl 16). O REI EXPULSA Assim como aconteceu com Adão, a desleal rebelião do povo de Deus os levouao Exílio no Oriente, quando Israel e Judá foram expulsos da boa terra de Deus (Gn 3.24; 2Rs 17.18,23). O Reino do Norte foi exilado para a Assíria, em 722 a.C., e o Reino do Sul, para a Babilônia, em 586 a.C. Assim como no Éden, Deus advertiu seu povo a respeito das consequências dessa rebelião. Em sua misericórdia e paciência, ele levantou profeta após profeta para anunciar uma mensagem de arrependimento ao povo desobediente (1Rs 14.15). Elias, Eliseu e muitos outros confrontaram e desafiaram o infiel povo de Deus. Contudo, o povo foi obstinado e se recusou a acatar os repetidos avisos de Deus: O SENHOR avisou Israel e Judá, por meio de cada profeta e vidente, dizendo: “Apartem-se de seus maus caminhos e guardem meus mandamentos e meus estatutos, de acordo com toda a Lei que eu ordenei aos seus pais e que dei a vocês por meio dos meus servos, os profetas”. Mas eles não quiseram ouvir e foram obstinados como seus pais, que não creram no SENHOR o Deus deles. Eles desprezaram seus estatutos e sua aliança, que ele fez com os seus pais, e os avisos que ele lhes deu. Foram atrás de falsos ídolos e se tornaram falsos… (2Rs 17.13-15). Em vez de adorar o verdadeiro Deus, eles adoraram o que era falso, por isso se tornaram falsos. Em vez de se prostrarem a Deus somente, fizeram ídolos para si, e até mesmo sacrificaram seus próprios filhos e filhas aos seus deuses falsos (2Rs 17.17). Deus, o Rei, portanto, expulsou o seu povo assim como ele havia advertido (Lv 26.33; Dt 28.63-67). O impacto do juízo do Exílio foi imenso: sem rei, sem terra, sem templo, apenas lágrimas: Junto aos rios da Babilônia, ali nos sentamos e choramos, quando nos lembrávamos de Sião. Lá nos salgueiros penduramos nossas liras. Pois lá os nossos captores pediam-nos canções, e nossos atormentadores exigiam alegria, dizendo: “Cantem para nós uma das canções de Sião!” Como cantaremos a canção do SENHOR em uma terra estrangeira? (Sl 137.1-4) O exílio do povo de Deus para a Assíria e para a Babilônia demonstrou mais uma vez a santidade de Deus e as consequências mortais de se rebelar contra ele. Parecia que as esperanças e os sonhos do antigo povo de Deus prosperando sob seu governo real tinham se extinguido. Nós transgredimos e nos rebelamos, e tu não nos perdoaste. Tu te envolveste em ira e nos perseguiste, matando-nos sem piedade; tu te envolveste com uma nuvem para que nenhuma oração pudesse atravessá-la. Fizeste de nós escória e lixo entre os povos. Todos os nossos inimigos abrem suas bocas contra nós; pânico e armadilha vieram sobre nós, devastação e destruição (Lm 3.42-47). O Rei os expulsou. Suas misericórdias, porém, são novas a cada manhã, pois grande é sua fidelidade (Lm 3.23). Dica para o ensino e a pregação Na Escritura, os grandes atos de salvação e juízo geralmente são imagens dos grandes atos de salvação e juízo de Deus que estão por vir. Do exílio de Adão e Eva do Éden ao juízo do Dilúvio nos dias de Noé, vemos claramente que “o salário do pecado é a morte…” (Rm 6.23). Não perca de vista essa grave realidade quando pregar ou ensinar nos livros proféticos do Antigo Testamento sobre o juízo de Deus na forma do Exílio. A destruição de Jerusalém e a deportação para a Babilônia são descritas pelos profetas como o horror de morar em completas trevas (Lm 3.1,2), que antecipam os horrores de ser expulso para as trevas eternas do inferno, o lugar de trevas exteriores definitivas, o lugar de choro e ranger de dentes (Mt 8.12; 22.13; 25.30). Certifique-se também de realçar a condição de exílio do povo de Deus. Uma vez que Adão e Eva foram exilados do Paraíso, o povo de Deus tem sido sempre um povo de “… peregrinos…” (1Pe 2.11), “… estrangeiros e exilados…” (Hb 11.13), pois “… nossa cidadania está no céu…” (Fp 3.20). “Pois aqui não temos cidade permanente, mas buscamos a que está por vir” (Hb 13.14). O REI PROMETE Ainda assim, mesmo em meio aos horrores do Exílio, os servos de Deus, os profetas, acenderam a esperança e a mantiveram revigorada no coração do povo de Deus. A atormentadora realidade do Exílio foi mesclada com a promessa do incrível retorno para a terra dos pais: Portanto, eu os lançarei fora desta terra para uma terra que nem vocês nem seus pais conheceram, e lá vocês cultuarão dia e noite outros deuses, pois não mostrarei nenhum favor a vocês. Assim, eis que estão chegando os dias, diz o SENHOR, em que não se dirá mais: “Assim como vive o SENHOR que trouxe o povo de Israel do Egito”, mas “Assim como vive o SENHOR que trouxe o povo de Israel da terra do norte e de todas as terras para onde os havia levado”. Pois eu os trarei de volta para sua própria terra, que dei para os seus pais (Jr 16.13-15). Insistentemente, os profetas lembravam Israel das promessas de Deus aos seus antepassados, Abraão e Davi. Eles apontavam para uma nova obra que o Senhor faria nos últimos dias. Essas promessas do passado e as esperanças dos últimos dias ofereciam a perspectiva de um futuro glorioso. Os profetas olhavam pela fé para uma futura obra de Deus (Hc 1.5; 3.2), e essa esperança produzia alegria no Senhor. Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto nas videiras, o produto da oliveira falhe e os campos não produzam comida, as ovelhas sejam levadas do aprisco e não haja gado nos currais, ainda assim eu me alegrarei no SENHOR; eu me alegrarei no Deus da minha salvação (Hc 3.17,18). Essa esperança profética olhava para além das devastações do Exílio e focava na chegada de um futuro rei como Davi (Ez 34.23). O próprio Deus prometeu vir e pastorear seu povo, e prometeu que Davi seria seu pastor. Deus também prometeu fazer algo surpreendente: estabelecer uma nova aliança. Ele disse a Jeremias, um de seus profetas: Pois esta é a aliança que eu farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o SENHOR: colocarei a minha lei no íntimo deles e a escreverei em seu coração. E eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo. E ninguém mais ensinará seu vizinho e cada irmão dizendo “Conheçam o SENHOR”, pois todos eles me conhecerão, do menor ao maior, diz o SENHOR. Pois eu perdoarei a iniquidade deles e não me lembrarei mais de seus pecados (Jr 31.33,34). Em outro lugar, o Senhor diz que essa nova aliança envolverá uma reunião de seu povo por meio de um tipo de novo êxodo (Ez 36.26-28; cf. Dt 30.3,4) e um derramamento de seu Espírito de uma maneira nova, de tal forma que todo o povo de Deus receberá novos corações para confiar em seu Rei e lhe obedecer (Jl 2.28,29). Os profetas até mesmo sustentam a esperança de que o Rei da criação suscitará uma nova criação, um novo céu e uma nova terra em que as nações adorarão o Senhor (Is 65.17; 66.22,23). Todas essas incríveis esperanças, no entanto, foram mescladas com a chegada de uma figura misteriosa, o Servo do Senhor. Ele seria da genealogia de Davi e ungido pelo Espírito de Deus (Is 11.1-3). Esse servo seria de Israel e traria o povo de Deus de volta para o Senhor (Is 49.5). A obra desse servo, porém, criaria um povo de todo o mundo. O Senhor disse a respeito desse servo: Não basta que você seja meu servo para restaurar as tribos de Jacó e trazer de volta os remanescentes de Israel; eu farei de você uma luz para as nações, para que minha salvação alcance os confins da terra (Is 49.6; cf. At 13.47). O plano do Rei de abençoar o mundo e cumprir a promessa feita a Abraão estava conectado com essa figura davídica futura. Os profetas aguardavam sua vinda e ansiavam pela chegada de seu reino eterno (Is 9.6,7). Quando esse rei finalmente viesse, ele traria salvação para seu povo. … todos os confins da terra verão a salvação de nosso Deus (Is 52.10). Entretanto, como esse futuro Rei misterioso e exaltado, da linhagem de Davi, resgataria seu povo de seus pecados? Surpreendentemente, os profetas dizem que o rei seria esmagado e morto, não pelas próprias transgressões dele, mas pelas de seu povo. Escute estas palavras de Isaías: … ele foi ferido por causa de nossas transgressões; foi esmagado por causa de nossas iniquidades;sobre ele estava o castigo que nos trouxe paz, e com suas feridas somos curados (Is 53.5). Portanto, não surpreende que, séculos depois, o apóstolo Pedro escrevesse sobre os profetas como pessoas por meio das quais o Espírito de Cristo estava indicando “… os sofrimentos de Cristo e as glórias subsequentes…” (1Pe 1.10- 12). Essas gloriosas promessas, escritas pelos profetas, alimentavam grande expectativa. Ainda assim, a esperança pareceu fracassar quando o povo de Israel finalmente voltou de seu Exílio (veja Esdras e Neemias). Na verdade, por centenas de anos, essas preciosas esperanças proféticas pareceram adormecer, esperando pelo dia em que todas as promessas de Deus finalmente se cumpririam. Dica para o ensino e a pregação Quando pregar ou ensinar a partir dos profetas do Antigo Testamento, certifique- se de proclamar fielmente a mensagem do livro inspirada pelo Espírito Santo, em vez de focar no próprio profeta.¹ O livro de Isaías não é sobre o profeta Isaías. O livro de Daniel não é sobre Daniel. O livro de Jeremias não é principalmente sobre o profeta Jeremias. Então, à medida que você percorrer os livros proféticos, pergunte: Qual é a mensagem deste livro como um todo? Depois de compreender o sentido do livro, você pode começar a buscar conexões, ao longo do cânon, até chegar a Cristo (Mt 5.17; Lc 24.25,27,44). Os livros proféticos do Antigo Testamento não estão na Bíblia para que coloquemos nossa atenção nas lições de moral que podem ser extraídas das vidas de vários indivíduos. Em vez de fixar a atenção neles, ajude seus ouvintes a focar no que os próprios profetas focaram, a saber, a grande salvação de Deus por meio do Messias por vir! A respeito dessa salvação, os profetas que profetizaram sobre a graça que seria de vocês examinaram e investigaram cuidadosamente, indagando que pessoa ou época o Espírito de Cristo neles estava indicando ao predizer os sofrimentos de Cristo e as glórias subsequentes. A eles foi revelado que estavam servindo não a si mesmos, mas a vocês, nas coisas que agora lhes foram anunciadas por meio desses que pregaram as boas-novas pelo Espírito Santo enviado do céu, coisas que os anjos anseiam observar (1Pe 1.10-12). ¹Veja John Sailhamer, “Preaching from the prophets”, in: Scott M. Gibson, org., Preaching the Old Testament (Grand Rapids: Baker, 2006), p. 115-36. 1 Paul R. Williamson, Sealed with an oath: covenant in God’s unfolding purpose, New Studies in Biblical Theology (Downers Grove: InterVarsity, 2007), p. 43. 4 QUAL É A GRANDE HISTÓRIA DA BÍBLIA? (segunda parte) CHEGA O REI E, finalmente, o tão aguardado Rei chega. O próprio Rei dos reis veio resgatar um povo para o seu louvor e redimir rebeldes que estavam perdidos. Depois de anos de trevas, a Luz do mundo, a verdadeira Luz, finalmente veio ao mundo (Jo 1.9). Depois de um longo período de silêncio, a Palavra eterna, que estava com Deus e que era Deus, se tornou carne e habitou entre nós para fazer Deus, o Pai, conhecido (Jo 1.14,18). Assim como Deus havia prometido, o Rei era verdadeiramente o filho de Davi e de Abraão (Mt 1.1). No entanto, ao mesmo tempo, o Rei seria Deus em carne, Deus conosco, assim como os profetas disseram anteriormente: Tudo isso aconteceu para cumprir-se o que o Senhor falou pelo profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, a quem chamarão de Emanuel” (que significa “Deus conosco”) (Mt 1.22,23). O infinito filho de Deus se tornou uma criança. O eterno filho de Deus se tornou um homem. E esse homem, esse rei, seria chamado Jesus, “… pois ele salvará seu povo de seus pecados” (Mt 1.21). Em Jesus, a eterna Palavra feita carne, o próprio Senhor veio estar presente entre seu povo para cumprir a missão que seu Pai lhe deu. Jesus é o filho amado de Deus, aquele em quem o pai se agrada (Lc 3.22). Diferentemente de Adão e de Israel, Jesus sempre vive para agradar e honrar a seu Pai. Assim, depois de passar pelas águas do batismo, dotado com o Espírito de Deus, o Filho de Deus foi levado ao deserto para batalhar com Satanás, o arqui-inimigo de Deus e de seu povo (Lc 4.1,2). O Diabo, a antiga Serpente, buscou parar Jesus no início de seu ministério. Contudo, onde Adão, Abraão, Moisés, Davi, Salomão e Israel falharam, Jesus venceu ao confiar na boa Palavra de Deus. Jesus demonstrou a todos que ele é o verdadeiro e fiel Filho de Deus (Lc 4.1-13). Depois de sua vitória no deserto, Jesus começou a proclamar o evangelho de Deus, anunciando: “… Cumpriu-se o tempo e o reino de Deus está próximo; arrependam-se e creiam no evangelho” (Mc 1.15). Ele reúne seus seguidores e os ensina sobre seu reino (Mt 13). O governo e o reino de Deus se manifestam poderosamente por meio do ministério terreno de Jesus. Como profeta semelhante a Moisés, Jesus realizou todo tipo de sinais e maravilhas no meio de Israel, mostrando todo o grande poder de Deus (Dt 18.15; 34.10-12). Jesus curou os doentes, alimentou milhares com o pão do céu e até mesmo ressuscitou os mortos. Ainda assim, Jesus não era o tipo de rei que o mundo esperava. O reino que Jesus anunciava não seria estabelecido pelos meios terrenos. Ele disse: “… Meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, meus servos estariam lutando…” (Jo 18.36). Dica para o ensino e a pregação Os Evangelhos são a respeito de Jesus. Ainda assim é fácil perder isso de vista e focar nossos sermões ou lições em algo que não é realmente de importância primeira. Se, por exemplo, você estivesse ensinando no Evangelho de Mateus e chegasse a 8.23—9.8, como você lidaria com essa passagem? Há três descrições de Jesus realizando uma variedade de milagres, e é muito fácil perder a mensagem principal, pois os três acontecimentos registrados nessa seção da Escritura são de tirar o fôlego: Jesus acalmou uma tempestade (8.23-27), curou um homem possuído por um demônio (8.28-34) e curou e perdoou um pecador paralítico (9.1-8). Qual é a mensagem principal? Jesus é aquele que tem autoridade! Ele tem autoridade sobre a criação, sobre demônios, sobre o pecado e sobre as doenças. Quando pregar ou ensinar a partir dos Evangelhos, certifique-se de que você está evidenciando muito mais Jesus do que qualquer outra coisa. Mais que isso, Jesus não era nem mesmo o tipo de rei que seu próprio povo esperava. “Ele veio para os seus e o seu próprio povo não o recebeu” (Jo 1.11). Mesmo os discípulos de Jesus ficaram confusos em um primeiro momento sobre a natureza de sua missão e o que ele pretendia realizar. Jesus insistentemente declarou a seus seguidores que, ao invés de ser abraçado e celebrado, ele seria rejeitado. Em vez de ser honrado e venerado, ele seria o primeiro a ser traído e levado à morte como um criminoso em uma cruz romana. Esse tão aguardado Rei seria crucificado. O REI SOFRE E SALVA O caminho diante do Rei Jesus o levava diretamente para a cruz. Assim como o Senhor havia prometido por intermédio de seus profetas, o servo do Senhor traria salvação por meio de seu sofrimento no lugar dos rebeldes. E, assim como o Senhor prometera em Gênesis 3.15, a semente de Eva um dia esmagaria a cabeça da Serpente, mas seu calcanhar seria ferido. Na cruz, Jesus sofreu a terrível maldição do pecado e foi sacrificado como um substituto em favor dos pecadores. Na cruz, ele clamou em alta voz: “… Meu Deus, meu Deus, por que tu me abandonaste?” (Mt 27.46). Na cruz, Jesus derramou seu sangue como um sacrifício pelos pecadores e estabeleceu a nova aliança prometida (Lc 22.20). Na cruz, o sangue do Rei “… é derramado em favor de muitos para o perdão dos pecados” (Mt 26.28). Jesus deu sua vida como um resgate por muitos (Mc 10.45). E … embora ele estivesse na forma de Deus, [Jesus] não considerou ser igual a Deus uma coisa a se prender, mas esvaziou-se a si mesmo, ao tomar a forma de um servo, tendo nascido à semelhança dos homens. E, encontrando-se em forma humana, ele se humilhou ao se tornar obediente até a morte, mesmo a morte em uma cruz (Fp 2.6-8). Jesus se tornou a perfeição substitutiva e a punição substitutiva da qual seu povo precisavadesesperadamente. Tudo o que o sistema sacrificial previa foi cumprido no “… Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Paulo também escreveu sobre isso à igreja de Corinto: “… todas as promessas de Deus encontram o seu sim nele…” (2Co 1.20). Os autores dos Evangelhos demonstram que Jesus é o verdadeiro e imaculado Cordeiro Pascal, sacrificado para cobrir os pecados de seu povo e resgatá-lo do juízo ao decretar um êxodo novo e superior (Lc 9.31; Jo 19.36). Nada pode impedir Jesus de redimir o seu povo. Nem mesmo a morte. Seu amor se provou ser mais forte do que a morte e mais profundo do que o inferno. Depois de três dias, Jesus ressuscitou dos mortos. As primeiras visitantes de seu túmulo já vazio foram recebidas por anjos que deram as notícias espantosas: “… Não temam, pois sei que vocês procuram o Jesus que foi crucificado. Ele não está aqui, pois ressuscitou, como ele mesmo disse. Venham, vejam o lugar onde ele jazia. Agora vão depressa e digam aos seus discípulos que ele ressuscitou dos mortos…” (Mt 28.5-7). Ao ressurgir dos mortos, o Rei Jesus começou a obra da nova criação, a qual foi primeiro prometida no Antigo Testamento. Por meio da ressurreição de Cristo, essa realidade do fim dos tempos passou a invadir a era presente. Nem mesmo a maldição do pecado e o poder da morte poderiam manter o Rei dos reis na sepultura. Jesus ressuscitou e demonstrou que era exatamente quem ele disse ser durante seu ministério terreno. Agora, dois mil anos depois, o Senhor Jesus convoca todos os rebeldes a abandonarem seus pecados e crerem nele. A resposta que Jesus requer de todos é que creiam nele ou serão condenados (Jo 3.16-18). O Rei ressurreto promete salvar todos os que, judeus ou gentios, creem nele. Dica para o ensino e a pregação Cerca de um terço dos Evangelhos concentram-se na última semana da vida de Jesus, aquela que antecedeu sua crucificação e ressurreição. Os outros dois terços dos Evangelhos nos preparam para entender aquele que vai a Jerusalém, é entregue aos principais sacerdotes e aos escribas, é condenado à morte e entregue aos gentios para ser ridicularizado, cuspido, açoitado e crucificado (Mc 10.33,34). Esse Jesus, aquele que tem autoridade, dirige-se à cruz com humildade e morre para redimir um povo rebelde que rejeitou sua autoridade (Mt 20.25-28). Esse mesmo Jesus, que ressuscitou no terceiro dia e que tem “… toda autoridade no céu e na terra…”, é digno de toda a nossa adoração (Mt 28.17,18). Na verdade, ele requer e merece a adoração de todo o mundo (Mt 28.18-20). Certamente, todos os nossos sermões a partir dos Evangelhos devem ter o foco nele! Quando proclamamos o Cristo com base nos Evangelhos, devemos seguir o sábio conselho de Sinclair Ferguson e “gastar nossas energias admirando, examinando, expondo e exaltando Jesus Cristo”.¹ ¹“An interview with Sinclair Ferguson”, por C. J. Mahaney, citada em Mahaney, Living the cross centered life: keeping the gospel the main thing (Sisters: Multnomah, 2002), p. 51. O REI ENVIA Ao ressuscitar dos mortos, Jesus manifestou ao céu e à terra que ele é o Rei todo-poderoso. Nem mesmo a morte poderia pará-lo. O Cristo ressurreto disse aos seus discípulos: … Toda a autoridade no céu e na terra me foi dada. Vão, portanto, e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observarem tudo o que ordenei a vocês. E eu estou com vocês para sempre, até o fim dos tempos (Mt 28.18-20). Jesus convoca seus discípulos para irem e fazerem mais discípulos. Seguir o Rei significa ajudar outros a também o seguirem. Assim, Jesus comissiona seus seguidores para irem por todo o mundo e fazerem discípulos de todas as nações. Este Filho de Davi pretende exercer seu governo sobre todas as nações, e o Filho de Abraão pretende abençoar todas as nações por meio de seu evangelho. A importante comissão de Cristo seria totalmente impossível de ser realizada sem ajuda. Sendo assim, o Rei Jesus lembrou os seguidores de sua extraordinária autoridade e da promessa consoladora de sua presença até o fim da era. Para que estivesse com os discípulos para sempre, Jesus os deixou para trás. Ele levou seus discípulos “… até as proximidades de Betânia e, erguendo suas mãos, os abençoou. Enquanto os abençoava, se afastava deles e era levado ao céu” (Lc 24.50,51). Jesus já tinha deixado claro que ele precisaria ir e retornar ao céu para que enviasse aquele que ajudaria a capacitar os discípulos tanto a seguirem a ele quanto a serem testemunhas dele a todo o mundo. Também já tinha deixado claro que ele deixaria para trás igrejas que teriam a autoridade de ligar e desligar na terra o que é ligado e desligado no céu (Mt 16.19; 18.18). Jesus planejava deixar embaixadas ou postos avançados de seu governo soberano. Um pouco antes de subir ao céu, Jesus disse aos seus discípulos: “… vocês receberão poder quando o Espírito Santo vier sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra” (At 1.8). De acordo com Jesus, a vinda do Espírito Santo convenceria o mundo (Jo 16.7-11). Assim, Jesus ascendeu ao céu, e ele e Deus Pai derramaram sobre a igreja, no Pentecostes, o Espírito Santo prometido (At 2.1-41). E como ele havia prometido, vemos o Espírito de Deus dando coragem aos crentes para proclamarem o evangelho e convencendo pecadores de sua necessidade gritante de se arrependerem e crerem. Eis um bom exemplo disso: Pedro, o outrora medroso que havia covardemente negado o Senhor Jesus três vezes na noite em que este foi traído, depois de ser cheio com o Espírito, proclamou que Jesus morreu de acordo com o plano de Deus, ressuscitou em poder e agora foi exaltado ao céu. Pedro continuou sua pregação: “Que toda a casa de Israel, portanto, saiba que Deus o fez Senhor e Cristo, esse Jesus que vocês crucificaram” (At 2.36; veja 2.22-24,33-36). A mensagem de Pedro no Pentecostes era clara: Jesus morreu e ressuscitou, e somente ele é o Rei soberano e ressurreto. Apenas Jesus foi exaltado à destra da majestade do Pai. Assim, três mil rebeldes se arrependeram de seus pecados e creram no Rei Jesus (At 2.41). Eles receberam a palavra da verdade e foram batizados, da forma que Jesus havia ordenado. O que começou naquele dia em Jerusalém, em certo momento, propagou-se não apenas entre os judeus, mas também entre os gentios. O plano de Deus para abençoar todas as nações por meio da semente de Abraão estava se cumprindo. Igrejas locais eram constituídas, e essas igrejas plantavam mais igrejas. Para ser mais preciso, essas igrejas enfrentaram muitos obstáculos. Ainda assim, mesmo diante da perseguição e confrontadas com problemas internos e externos, nada podia impedir o avanço do evangelho. Em uma poderosa manifestação de poder e graça, o Jesus ressurreto chamou Saulo, um homem que “… respirava ameaças e assassinatos contra os discípulos do Senhor…”, para ser seu instrumento eleito que levaria seu nome aos gentios, a reis e aos filhos de Israel (At 9.1,15). O Senhor escolheu um perseguidor de sua igreja e o transformou pela graça em um apóstolo que testemunharia do Rei Jesus por todo o mundo romano. Assim, por meio do testemunho e da obra dos apóstolos, liderados por Pedro e Paulo (antes chamado de Saulo), e por meio de milhares de cristãos anônimos, o evangelho avançou em poder. “Assim a igreja tinha paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria, e era edificada. E, caminhando no temor do Senhor e no conforto do Espírito Santo, ela se multiplicava” (At 9.31). Lucas registra essa marcha desimpedida ao prover uma série de declarações sumárias por todo o livro de Atos. Cada uma dessas declarações manifesta que Jesus é Rei e que seu reino se estabelecerá completa e definitivamente (At 6.7; 12.24; 16.5; 19.20). Antes de sua ascensão, Jesus falou aos seus discípulos sobre o reino de Deus (At 1.3). No final do livro de Atos, encontramos Paulo fazendo a mesma coisa em Roma: “… De manhã até o anoitecer, ele lhes deu explicações testemunhando o reino de Deuse tentando convencê-los a respeito de Jesus a partir da Lei de Moisés e dos Profetas” (At 28.23; veja também 28.31). As gloriosas boas-novas acerca do que o Rei Jesus tinha feito e estava fazendo se espalharam — de Jerusalém para a Judeia e Samaria, e, finalmente, para os confins da terra. Assim como o Rei havia prometido (At 1.8). Dica para o ensino e a pregação Quando pregar ou ensinar a partir do livro de Atos, certifique-se de acompanhar as ênfases de Lucas no cumprimento das promessas salvadoras de Deus por meio de seu plano revelado em Cristo. Há vários temas bíblico-teológicos dos quais Lucas se vale: a chegada dos “últimos dias”, a esperança da ressurreição dos mortos, a restauração do reino, a inclusão dos gentios, o derramamento do Espírito Santo prometido e a pregação do evangelho, começando em Jerusalém e avançando a todas as nações. O livro de Atos não é apenas sobre os “atos dos apóstolos”; é sobre os atos do Senhor Jesus ressurreto.¹ ¹Veja Alan. J. Thompson, The acts of the risen Lord Jesus: Luke’s account of God’s unfolding plan (Downers Grove: InterVarsity, 2011). O REI REINA No Antigo Testamento, vemos os profetas convocando o povo de Deus a confiar no Senhor e a viver fielmente, em amor e obediência, sob o governo e o reinado dele. Do mesmo modo, as cartas do Novo Testamento explicam e aplicam o que significa viver como povo de Deus sob o reino do Rei Jesus ressurreto e exaltado. Desse modo, todas as Escrituras podem tornar os crentes sábios para a salvação por meio da fé em Cristo Jesus. Paulo escreve: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e proveitosa para o ensino, a repreensão, a correção e a instrução na justiça, a fim de que o homem de Deus seja completo, equipado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17). Por todas as cartas do Novo Testamento, os autores bíblicos seguem um padrão constante. Eles destacam e revelam quem é o Rei Jesus e o que ele fez com graça em favor dos pecadores indignos. E, então, convocam seus leitores a seguirem Jesus em confiança e obediência, tudo para sua glória. Quando escreve à igreja de Colossos, Paulo começa sua carta descrevendo a magnificência do Senhor Jesus, aquele que é soberano sobre toda a criação e sobre a nova criação: Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito da criação. Pois por ele todas as coisas foram criadas, no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou domínios, governos ou autoridades; todas as coisas foram criadas por meio dele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e nele todas as coisas se mantêm juntas (Cl 1.15-17). Como o Senhor de toda a criação, ele é preeminente. Esse Senhor também é, de modo maravilhoso, aquele que fez paz “… pelo sangue de sua cruz” (Cl 1.20). Esse é o Senhor Jesus. Esse é aquele em quem todos os crentes colocaram sua eterna esperança e confiança. Esse é o que morreu e ressuscitou, cumprindo a promessa da nova aliança e proporcionando um vislumbre da nova criação. E é isso que a igreja representa: um povo comprado pelo sangue de Cristo, enchido e congregado pelo Espírito, unido pela fé no evangelho, governado pela Palavra de Cristo, manifestando a múltipla sabedoria de Deus aos governos e autoridades nas regiões celestiais (Ef 3.10). A igreja é uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa e um povo de propriedade exclusiva de Deus (1Pe 2.9). Qual é, então, a resposta apropriada do povo de Deus, a igreja, a esse Rei glorioso? “Portanto, assim como vocês receberam Cristo Jesus, o Senhor, também caminhem nele, enraizados e edificados nele, como vocês foram instruídos, abundando em ações de graça” (Cl 2.6,7). Paulo passa o restante da Carta aos Colossenses revelando com sabedoria o que significa para seguidores de Cristo viver para a glória dele no meio de uma geração corrompida e perversa, em um mundo em inimizade com Deus. Ainda que Jesus esteja ressurreto e já esteja reinando, seus seguidores vivem em uma tensão entre o já e o ainda não. O Rei Jesus já está edificando sua igreja agora, mas seu reino ainda não foi estabelecido em glória de modo definitivo. Jesus sofreu e, então, entrou na glória; os que o seguem devem fazer o mesmo. Pedro escreve a um grupo de crentes espalhados pelo Império Romano e enfatiza tanto as bênçãos presentes quanto a herança futura garantida pela misericórdia de Deus em Cristo: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! De acordo com sua grande misericórdia, ele nos fez nascer de novo para uma esperança viva pela ressurreição de Jesus Cristo dos mortos…” (1Pe 1.3-9). Os seguidores do Rei Jesus têm uma esperança viva. Os crentes já experimentam essa esperança; ainda assim, há mais por vir. Os crentes sofrem agora, mas serão glorificados em Cristo quando ele voltar. Essa gloriosa esperança, mesmo em meio às difíceis provações e perseguições, inspira vidas de entrega e obediência ao nosso Senhor e Rei. Observe como Pedro fala sobre a vida cristã: Portanto, preparem suas mentes para a ação, e sejam sóbrios, coloquem sua esperança completamente na graça que lhes será dada na revelação de Jesus Cristo. Como filhos obedientes, não se conformem às paixões de sua antiga ignorância, mas, uma vez que aquele que os chamou é santo, sejam também vocês santos em toda a sua conduta, como está escrito: “Sejam santos, porque eu sou santo” (1Pe 1.13-16). Mais uma vez, a verdade de quem é o Rei Jesus e o que ele fez instrui e inspira obediência a ele, tudo para sua glória. A missão que Jesus deu às suas igrejas é difícil e dispendiosa. Segui-lo em fé e obediência certamente acarretará grande perseguição e sofrimento pela causa do evangelho. Entretanto, assim como os que creem aguardam ansiosamente na esperança da volta de Jesus, assim também eles olham para trás e se lembram de que aquele que agora é ressurreto e exaltado nas alturas também foi o servo que sofreu e morreu. Jesus disse aos seus seguidores: “Bem-aventurados são vocês quando outros os insultarem e os perseguirem e proferirem todo tipo de maldade contra vocês por minha causa. Alegrem-se e exultem, pois a recompensa de vocês é grande no céu, pois assim também perseguiram os profetas que vieram antes de vocês” (Mt 5.11,12). Paulo mais tarde escreveria: “De fato, todos os que desejam viver uma vida piedosa em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12). Os que creem sofrem em um mundo caído, assim como todas as pessoas. Contudo, diferentemente dos que ainda estão em seus pecados, os seguidores do Rei Jesus têm a promessa de sofrimentos adicionais por terem de enfrentar a inimizade de um mundo que odeia o Senhor e que se opõe ao seu povo. Sendo assim, o que os seguidores do Rei devem fazer? Mais uma vez, a igreja deve fixar seus olhos em seu Rei e Salvador, Cristo Jesus. Dica para o ensino e a pregação Ao pregar ou ensinar a partir das cartas do Novo Testamento, certifique-se de conectar as ordenanças apostólicas às verdades apostólicas do evangelho. Cerca de um terço de todo o Novo Testamento é constituído de epístolas, ou cartas. Quando explicá-las, enfatize como as coisas que devemos fazer estão enraizadas ou fundamentadas nas coisas que são verdadeiras. Os mandamentos e as exortações do evangelho (imperativos do tipo “Vocês devem fazer isso!”) precisam emergir da exposição da graça de Deus nos evangelhos (indicativos do tipo “Deus já realizou isso”). Pedro, por exemplo, ordena aos seus leitores: “… sejam santos em toda a vossa conduta” (1Pe 1.15b). Esse é o imperativo. Observe, porém, como Pedro fundamenta esse imperativo à santidade no glorioso indicativo do chamado salvador de Deus e de sua santidade: “Como filhos obedientes, não se conformem às paixões de sua antiga ignorância, mas, uma vez que aquele que os chamou é santo, sejam também vocês santos em toda a sua conduta, como está escrito: “Sejam santos, porque eu sou santo” (1Pe 1.14-16). Devemos ser santos precisamente porque aquele que nos trouxe à salvação é santo. O próprio Deus é santo. Nossa busca da santidade está assentada na fundação segura da santidade de Deus. Se somos seus filhos,devemos aspirar ser como ele em toda a nossa conduta. Esse padrão indicativo-imperativo é uma estrutura comum em todas as epístolas do Novo Testamento. Tanto Romanos quanto Efésios seguem, em geral, esse padrão. Em Efésios 1—3, Paulo expõe as riquezas da graça de Deus para nós em Jesus. Esse é o indicativo: o que está em questão. Então, em Efésios 4—6, o apóstolo extrai as implicações e aplicações dessas verdades e exorta seus leitores à santidade. Esse é o imperativo: o que devemos seguir. Do mesmo modo, a carta de Paulo aos romanos é, no geral, entendida como um indicativo (caps. 1— 11) seguido por um imperativo (caps. 12—16). Essa estrutura de indicativo e imperativo não é nova. É um padrão bíblico- teológico encontrado no Antigo Testamento. Por exemplo: “Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.2,3). Para isso vocês foram chamados, porque Cristo também sofreu por vocês, deixando-lhes um exemplo, para que sigam os seus passos. Ele não cometeu pecado, nem engano foi encontrado em sua boca. Quando foi insultado, não revidou; quando sofreu, não ameaçou, mas continuou se entregando àquele que julga com justiça. Ele mesmo carregou nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro, para que pudéssemos morrer para o pecado e viver para a justiça. Por suas feridas, vocês foram curados… (1Pe 2.21-25; veja Is 52.12—53.12). Os seguidores desse Rei o contemplam pela fé até que ele retorne e, finalmente, eles o vejam face a face. O REI RETORNA A história da Escritura começa com Deus governando e reinando como Rei sobre todas as coisas e com um povo santo que deveria viver para o seu louvor. Assim, é coerente que a Bíblia se encerre com a promessa de Jesus, aquele que ressuscitou e reina, de que voltará, reunirá, julgará e fará novas todas as coisas, entre elas, um novo povo com quem Deus outra vez se agradará em habitar. O final da história da Bíblia, registrada por João no livro de Apocalipse, provê um vislumbre de como a história acabará. E saber o fim da história molda o que significa seguir Jesus aqui e agora, desde hoje até o último dia. O retorno do Rei é a esperança abençoada de todos os que confiaram em Jesus. Enquanto esperam por esse retorno triunfante, seus seguidores buscam viver de maneira moderada, justa e piedosa, capacitados pela graça de Deus como povo “… que é zeloso por boas obras” (Tt 2.14; veja 2.11-14). Contudo, aqueles que se recusam a obedecer à convocação mundial de Cristo para o arrependimento enfrentarão um terrível julgamento “… quando o Senhor Jesus se revelar do céu com seus poderosos anjos em fogo ardente, infligindo vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus” (2Ts 1.7,8). Quando o Rei retornar, a rebelião universal contra seu reino bom, justo e santo será esmagada. Jesus declara que, para “… os covardes, os incrédulos, os abomináveis, assim como os assassinos, os sexualmente imorais, os feiticeiros, os idólatras e todos os mentirosos, a porção deles será no lago que queima com fogo e enxofre, que é a segunda morte” (Ap 21.8; veja 21.6-8). O Diabo, o antigo inimigo de Deus, será lançado no lago de fogo para ser “… atormentado dia e noite para todo o sempre” (Ap 20.10). Mesmo no julgamento, o Rei será glorificado. Todavia, o fim da história também manifesta gloriosa salvação, pois o futuro reino de Deus inclui crentes em Jesus de cada tribo, língua e nação. Pecadores redimidos de todas as nações louvarão, abençoarão e honrarão ao Leão da tribo de Judá, Semente de Abraão, Filho de Davi, Cristo Jesus, o Senhor. Mas por quê? Por que Jesus é digno dessa adoração? João nos diz: E eles cantavam uma nova canção, dizendo: “Digno és tu de tomar o rolo e abrir seus selos, pois foste morto e pelo seu sangue resgataste um povo para Deus de toda tribo, língua, povo e nação, e fizeste deles um reino de sacerdotes para nosso Deus, e eles reinarão sobre a terra” (Ap 5.9,10). Jesus é digno porque foi morto. Saber que ele comprou um povo de todas as nações por causa de seu nome convida os crentes à obediência fiel ao mandamento de proclamar essas boas-novas a todas as nações. O final da história não apenas prevê um povo redimido dentre todas as nações, mas também contempla a chegada de um mundo completamente renovado. O Rei promete fazer novas todas as coisas, incluindo novos céus e uma nova terra: “De acordo com sua promessa, estamos esperando por novos céus e uma nova terra, em que a justiça habita” (2Pe 3.13). Neste mundo, os que creem andam pela fé, buscando cheios de expectativa e esperança a cidade que está por vir, cujo projetista e construtor é Deus. João descreve esse glorioso futuro no livro de Apocalipse: “Então vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra já passaram…” (Ap 21.1). Nessa Nova Jerusalém, nessa cidade santa, Deus, o Rei, mais uma vez habitará com seu povo. A presença do pecado, da morte, das lágrimas e da dor serão substituídas pela presença de Deus. João nos diz: “Ele enxugará cada lágrima de seus olhos, e não existirá mais morte, nem haverá lamento, nem choro, nem dor, pois as coisas antigas já passaram” (Ap 21.4). O bom mundo de Deus, que agora está manchado pelo pecado e pela morte, será tornado novo. As coisas antigas terão passado. Não haverá mais morte, dor ou lágrimas, nem pecado, corrupção ou vergonha. Além disso, e o melhor de tudo, todos os que pertencem ao povo de Deus finalmente estarão juntos na gloriosa presença de Deus, na presença de seu Rei, para sempre. Com ternura, ele enxugará cada lágrima. E o Criador mais uma vez habitará com suas criaturas. A maldição será substituída pela permanente bênção de Deus, desfrutada com plenitude e liberdade para sempre. Cristo, o Rei, será adorado e honrado por todos os que ele graciosamente buscou e salvou. O verdadeiro cerne da mensagem bíblica é o bom e justo reino de Deus sobre todo seu povo e sobre toda a sua criação.¹ A história da Escritura, portanto, é a história de Deus, o Rei, e de seus propósitos amorosos e graciosos de salvar um povo para si mesmo, a fim de que esse povo se deleite em sua gloriosa presença para sempre. Entender essa história nos traz ao centro de toda a realidade. Venha logo, Rei Jesus! Dica para o ensino e a pregação Quando ensinar e pregar sobre o céu, certifique-se de que você tenha dissipado a noção de que a vida após a morte é para o cristão algum tipo de eterna existência espiritual desencarnada “nas nuvens”. Esse tipo de ênfase perde de vista a esperança da ressurreição do corpo e da renovação de todas as coisas. O Antigo e o Novo Testamentos apresentam a eterna casa para o povo de Deus em um novo céu e em uma nova terra: “De acordo com sua promessa, estamos esperando por novos céus e uma nova terra, em que a justiça habita” (2Pe 3.13; veja também Is 65.17; 66.22). 1 Veja Graeme Goldsworthy, “Kingdom of God”, in: T. Desmond Alexander; Brian S. Rosner, orgs., New dictionary of biblical theology (Downers Grove: InterVarsity, 2000), p. 618 [edição em português: Novo Dicionário de teologia bíblica (São Paulo: Vida, s.d.)]. 5 A TEOLOGIA BÍBLICA MOLDA O ENSINO DA IGREJA Se a história da Escritura é toda sobre Cristo, o Rei, essa realidade deve impactar diretamente os ministérios da pregação e do ensino na igreja local. Neste capítulo, queremos destacar brevemente as principais maneiras pelas quais a teologia bíblica pode ajudar os que manuseiam a Palavra de Deus em benefício do povo de Deus. Então, ofereceremos algumas ferramentas práticas e os próximos passos para ajudar a teologia bíblica a funcionar em nossos ministérios de ensino. TEOLOGIA BÍBLICA COMO PROTEÇÃO E GUIA A teologia bíblica é uma proteção e um guia útil para mestres e pregadores da Palavra de Deus. Ela é um recurso contra dois inimigos permanentes dos que ensinam a Bíblia com regularidade: o texto fora de contexto e o moralismo. Do mesmo modo, a teologia bíblica guia pregadores e professores para uma exposiçãobíblica evangelística e cristocêntrica, que ressalta o glorioso Herói de toda a história: Jesus Cristo. PREGAR CRISTO E NÃO TEXTOS FORA DE CONTEXTO Primeiro, a teologia bíblica protege o pregador da abordagem com textos descontextualizados e o leva a proclamar Cristo em toda a Escritura. Quando usamos a Bíblia para provar nossa própria visão sem considerarmos o contexto da passagem, estamos usando a Bíblia apenas como um texto para confirmar o que queremos. A leitura para confirmação coloca o significado em uma passagem, em vez de ler o significado além dela. Esse tipo de leitura é fácil, porque poupa você de fazer o trabalho sério, cuidadoso e dependente de oração para entender o significado pretendido pelo autor. Esse é um problema sério, pois quem ensina a Palavra de Deus ao povo de Deus deveria proclamá-la como “um mensageiro de Deus”, a fim de que Deus receba a glória por meio de Cristo Jesus (1Pe 4.11). Em vez de aplicar-se para estudar o texto e acatar com humildade o contexto divinamente inspirado, a abordagem que usa o texto sem contexto já vai ao texto com um significado pré-concebido. Os pregadores, pela graça de Deus, deveriam lutar para manusear corretamente a Palavra de Deus. “Faça o seu melhor para se apresentar a Deus como aprovado, um obreiro que não tem do que se envergonhar, manejando corretamente a palavra da verdade” (2Tm 2.15). A busca do texto fora de contexto adultera a Palavra de Deus. É uma prática que distorce e engana. Paulo escreveu à igreja de Corinto: “… renunciamos aos meios desonrosos e ocultos. Recusamo-nos a agir com astúcia ou a distorcer a Palavra de Deus, mas, pela declaração aberta da verdade, recomendamo-nos à consciência de todos diante dos olhos de Deus” (2Co 4.2). Em vez de revelar o que uma passagem diz em seu contexto, na “… declaração aberta da verdade…”, a busca pelo texto sem contexto faz com que a passagem diga qualquer coisa que o pastor ou professor desejar. Paulo exortou Timóteo a “prega[r] a palavra…” (2Tm 4.2). Essa “palavra” é definida em 2Timóteo 3.16,17: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e proveitosa para o ensino, a repreensão, a correção e a instrução na justiça, a fim de que o homem de Deus seja completo, equipado para toda boa obra”. Toda a Escritura é proveitosa ou útil. É útil “… para o ensino, a repreensão, a correção e a instrução…”. A tarefa ordenada por Paulo é “pregar”, “proclamar” ou “anunciar” essa Palavra útil. Em vez de pregar a útil e inspirada Palavra de Deus, a abordagem do texto descontextualizado utiliza a Palavra de Deus para sustentar os desejos do próprio pregador. É uma prática que bagunça o significado de uma passagem bíblica e a faz “dizer” algo que ela não pretendia dizer. Em vez de usar a Bíblia dessa maneira, professores e pregadores devem expor o povo de Deus à Palavra ao revelar com fidelidade o significado dos textos. Nossas congregações e todos aqueles que recebem nosso ensino aprenderão a estudar a Bíblia, em larga medida, pela observação de como nós a ensinamos. Um ministério de ensino que se apoia na prática de colher versículos aleatórios, fora de seu contexto, para servir aos caprichos e desejos do pregador não é um fundamento seguro para uma igreja saudável. Como, porém, a teologia bíblica pode nos proteger da utilização de textos- prova? A teologia bíblica guia o pregador para que ele proclame Cristo a partir de toda a Escritura. Conhecer a grande história da Escritura ajuda os professores bíblicos a proclamar Cristo em cada parte da Bíblia. Com frequência, a abordagem que usa o texto sem levar em conta o contexto é resultado da falha em ver como toda a Bíblia, especialmente o Antigo Testamento, está conectada com Jesus. Às vezes, ensinar a partir do Antigo Testamento pode se assemelhar a ser observado enquanto se destrincha um frango. É relativamente fácil começar bem, mas não vai demorar até que você tenha de tomar algumas decisões difíceis (sobre as quais todos têm uma opinião), e é muito fácil terminar a tarefa com um amontoado de sobras que ninguém sabe como aproveitar.¹ Infelizmente, muitos pregadores e professores recorrem ao Antigo Testamento como texto-prova, fora do contexto, em vez de pregar Cristo a partir dele. Se você não conhece toda a história da Bíblia, é provável que evite as partes com as quais esteja menos familiarizado. No entanto, ter uma boa compreensão do enredo da Escritura, que culmina em Jesus Cristo, o tornará apto a pregar e ensinar até mesmo a partir das passagens mais inexploradas. Por exemplo, como a teologia bíblica guiaria o pregador que está ensinando o livro de Levítico? Digamos que você tenha chegado aos capítulos 13—15, que tratam das leis para purificação dos leprosos e de outras impurezas. Quando nos aproximamos desses capítulos com mais atenção, descobrimos que eles compõem uma seção maior, chamada com frequência de código da pureza (Lv 11—15), isto é, leis que lidam com a distinção entre o puro e o impuro. Em linhas gerais, o livro de Levítico pretende responder à questão: “Como um povo impuro pode habitar na presença de um Deus santo?”. As ênfases na lepra e nos fluidos corporais nesses capítulos destacam como as impurezas levam à profanação. Uma pessoa doente, por exemplo, deveria gritar “… Impuro! Impuro!” (Lv 13.45). A impureza do leproso levava à profanação, e isso exigia isolamento e exílio. “Ele permanecerá impuro por todo o tempo que tiver a doença. Ele é impuro. Viverá sozinho. Sua morada deve ser fora do acampamento” (Lv 13.46). Os israelitas que estivessem ritualmente impuros tinham de deixar a presença de Deus e sair do acampamento. Ser mandado para fora do acampamento de Israel era estar temporariamente separado de Deus, cuja presença gloriosa habitava no Tabernáculo. Os que entrassem em contato físico com um leproso ou com alguém com alguma secreção patológica também se tornariam impuros e deveriam ser purificados. O Senhor disse a Moisés que essas leis de pureza deveriam ser respeitadas a fim de manter o acampamento como um ambiente santo. “Assim, mantereis o povo de Israel separado de suas impurezas, para que eles não morram em sua impureza ao profanar meu Tabernáculo que está no meio deles” (Lv 15.31). Como, então, a teologia bíblica nos ajuda a entender e pregar esses três capítulos de Levítico com fidelidade? Como veremos depois, o fundamento da teologia bíblica é o estudo atento e em oração do texto bíblico, deixando a Escritura interpretar a Escritura. Isso exige que os pregadores estudem a passagem detalhadamente em seu contexto original e, então, que ampliem o foco para perceber como ela se encaixa na grande história da Escritura, que culmina em Jesus. Depois de expor com fidelidade o significado desses capítulos em seu contexto histórico, devemos nos perguntar: “O que o enredo da Escritura nos diz sobre Levítico 13—15?”. Há várias conexões notáveis registradas nos Evangelhos entre essas leis de pureza e o ministério de Jesus. Por exemplo, é significativo que, ao entrar em contato físico com um leproso e uma mulher que sofria de um fluxo de sangue, Jesus não se tornou impuro. Em vez disso, ele os santificou. Lucas registra os dois encontros: Enquanto ele estava em uma das cidades, veio um homem cheio de lepra. E, quando ele viu Jesus, caiu com o rosto em terra e lhe suplicou: “Senhor, se quiseres, podes me tornar puro”. E Jesus estendeu sua mão e o tocou, dizendo: “Eu quero; fique puro”. Então, imediatamente, a lepra o deixou (Lc 5.12,13). E havia uma mulher que tinha um fluxo de sangue por doze anos, e ainda que ela tivesse gastado todos os seus bens com os médicos, não podia ser curada por ninguém. Ela veio por trás de Jesus e tocou a borda do manto dele, e imediatamente seu fluxo de sangue cessou (Lc 8.43,44). As duas passagens ressaltam que Jesus tocou ou foi tocado por pessoas que sofriam de males físicos que as baniam do convívio por causa de sua impureza ritual. Ainda assim, tocar um leproso não contaminou Jesus. Tocar uma mulher com um fluxo de sangue não contaminou Jesus. Como o Santo de Israel,Jesus pode até mesmo tornar puro o impuro. Mas os Evangelhos não acabam aqui. Cada um dos Evangelhos se encerra com a morte e a ressurreição de Cristo. Jesus acabaria indo para a cruz, onde levaria sobre si a maldição do pecado. Enquanto estava na cruz, o próprio Jesus sofreu fora do acampamento, carregando o opróbio de seu povo ao ser separado da presença do Pai e sofrendo na cruz a maldição do Deus todo-poderoso. Na cruz, Jesus garantiu a purificação definitiva do seu povo. Como nos diz o autor de Hebreus, “… Jesus também sofreu fora dos portões a fim de santificar o povo por meio de seu próprio sangue” (Hb 13.12). A teologia bíblica, então, ajuda o pregador ao guiá-lo nesse tipo de exposição evangelística e cristocêntrica de passagens como Levítico 13—15. Em vez de procurar textos de confirmação, devemos nos esforçar para proclamar Cristo, com fidelidade, a partir de toda a Escritura. Pregar Jesus e não moralismo Segundo, a teologia bíblica tanto protege o pregador contra o moralismo quanto o direciona a mostrar como Jesus é o Herói da história toda. A pregação impregnada de moralismo apenas ressalta as qualidades positivas ou negativas do caráter de determinada figura bíblica com o propósito de proporcionar uma mudança de comportamento. O moralismo motiva os ouvintes a melhorar o comportamento, mas o faz minimizando o evangelho. Isso é um problema, pois, como temos visto, a Escritura não é prioritariamente um programa de mudança de comportamento. As boas-novas do evangelho não são um autoaperfeiçoamento moral. Pastores e professores são chamados a proclamar Cristo (Cl 1.28). Toda a Escritura é capaz de nos tornar sábios para a salvação por meio da fé em Cristo Jesus (2Tm 3.15). Assim, não importa qual passagem esteja ensinando, você não terá terminado até que tenha deixado claro como essa passagem aponta para Jesus e o exalta. A teologia bíblica também nos ajuda a ensinar com fidelidade um texto como 1Samuel 17, a história de Davi e Golias. Essa passagem não deve servir meramente de lição sobre como encarar os “gigantes” das nossas vidas. O foco principal da passagem não é simplesmente ressaltar a coragem de Davi. Para ser justo, Davi certamente mostrou grande coragem em sua disposição para enfrentar o poderoso Golias. Contudo, se nós ensinarmos nossas congregações, com base nessa passagem, que “Davi foi realmente corajoso; portanto, precisamos trabalhar duro para sermos corajosos como ele”, então, teremos falhado completamente e desonrado Cristo, que merece toda glória e louvor. A teologia bíblica nos protege do moralismo ao nos afastar desse tipo de pregação. Davi pode ser o herói dessa história, mas Jesus é o Herói de toda a história bíblica. Com frequência, a Escritura oferece indivíduos como exemplo. Hebreus 11 ressalta heróis da fé, incluindo Davi (Hb 11.32-34). É verdade, portanto, que Davi serve de exemplo positivo para os crentes. Porém, quando estudamos 1Samuel 17 com atenção e em oração, começamos a perceber que ali está alguém que é maior que Davi! Quando ampliamos o foco e posicionamos essa passagem no enredo da Escritura, começamos a descobrir inúmeras conexões impressionantes com um Rei ainda maior. Considere que Davi era um rei ungido pelo Espírito (1Sm 16.13), da tribo de Judá (1Sm 16.1; cf. Gn 49.10) e da cidade de Belém (1Sm 16.4), que por meio de sua fé fervorosa e relacionamento com Deus (17.26,36,45,46) agiu bravamente (17.48-51) como o campeão representante de seu povo, a fim de derrotar um inimigo poderoso (17.4-7) e imputar os gloriosos benefícios da vitória dele (17.8,9,52-54) a um povo acovardado, infiel e sem nenhum merecimento (17.24). Ao ensinar essa passagem através das lentes da teologia bíblica, somos capazes de ver como seus contornos canônicos apontam para um Davi ainda maior, aquele que é filho de Davi e Senhor de Davi (Lc 20.41-44), o campeão que representou definitivamente o povo de Deus. Esse tipo de pregação examina atentamente a passagem em si, mas também considera o contexto canônico que nos leva a Cristo. Veja como a teologia bíblica também nos protege contra o moralismo na história de Sansão, em Juízes 13—16. A mensagem principal extraída da vida de Sansão não é como evitar relacionamentos com não crentes. Sansão, de modo tolo, foi atrás de relacionamentos pecaminosos com mulheres (14.3; 16.4,5), incluindo uma prostituta (16.1). Ao fazê-lo, ele imitou a prostituição espiritual de Israel, que buscava esposas e deuses estrangeiros (Êx 34.15,16; Dt 7.3,4; Jz 3.6; Jr 3.1,2). Contudo, se reduzirmos o significado desse texto a “Sansão se envolveu com as mulheres erradas; portanto, não seja como ele”, então caímos no moralismo. A vida e a morte de Sansão constituem uma espécie de microcosmo da gravidade do pecado de Israel como nação. Os líderes depravados da nação representam a depravação da nação. O livro de Juízes, e particularmente o ministério de Sansão, ressalta a desesperadora necessidade de um Rei bom, justo e santo (Jz 17.6; 18.1; 19.1; 21.25). Uma vez que observamos esse contexto específico do livro de Juízes, podemos ampliar o foco e conectar a narrativa a respeito de Sansão com a história maior da Escritura. Descobrimos, então, que muitas alusões textuais fornecem comparações e contrastes evangélicos entre Sansão e Jesus. Basta considerar que, na história de Sansão, um anjo anunciou a uma mulher estéril que ela conceberia e daria à luz aquele que seria salvador de seu povo (2.16,18; 13.1-5). Esse salvador cresceu em força e o Senhor o abençoou (Jz 13.24). O Espírito do Senhor estava sobre ele e capacitava seu poderoso ministério (13.25; 14.6,19; 15.14). Ainda assim, esse libertador designado por Deus acabou sendo traído, em troca de prata, por alguém próximo o suficiente para beijá-lo (16.5). Ele foi preso e levado à morte (16.21), cercado por seus inimigos escarnecedores (16.23-25). Com os braços estendidos (16.29), Sansão orou ao Senhor por força para se vingar de seus inimigos (16.28) por meio de sua própria morte (16.30). Essa oração final, contudo, foi por vingança, não por misericórdia (cf. Lc 23.34). A teologia bíblica nos ajuda a ver como Jesus, e não Sansão, deve ser proclamado como o salvador, juiz e herói definitivo da Escritura. Contudo, o moralismo pode ser um problema também quando ensinamos a partir do Novo Testamento. Até mesmo em nosso ensino a partir dos Evangelhos, a teologia bíblica nos protege desse mal e nos leva a manter nossos olhos fixos em Jesus. O Novo Testamento começa com os quatro Evangelhos, narrativas históricas de um tipo particular, que não são exatamente biografias de Jesus. Eles são intencionalmente moldados para ressaltar a vida, o ensino, a morte e a ressurreição de Jesus. Sinclair Ferguson nos lembra de um princípio básico — mas não poucas vezes negligenciado — que devemos manter fixo em nossas mentes quando lemos Mateus, Marcos, Lucas e João: “não perca Jesus de vista; mantenha seus olhos fixos nele”.² Esse princípio nos protege de ler uma passagem e perguntar primeiro: “O que essa passagem diz a meu respeito?”. Ou podemos ser tentados a perguntar imediatamente: “Com quem eu me pareço nessa história?”. Em vez disso, deveríamos perguntar primeiro e principalmente: “O que essa passagem me diz sobre o Senhor Jesus?”. Como exemplo, veja no Evangelho de Lucas o relato da tentação de Jesus pelo Diabo no deserto, logo no início de seu ministério (Lc 4.1-13): E Jesus, cheio do Espírito, retornou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto por quarenta dias, tendo sido tentado pelo Diabo. E ele não comeu nada durante esses dias. E quando os dias acabaram, ele estava faminto. O Diabo lhe disse: “Se você é o Filho de Deus, ordene que essa pedra se transforme em pão”. E Jesus lhe respondeu: “Está escrito: ‘O homem não viverá somente de pão’”. E o Diabo levou-o e mostrou-lhe em um relance todos os reinos do mundo, e disse: “A você darei toda essa autoridade e a glória deles, pois isso me foi dado, e eu o darei a quem eu quiser. Se você, portanto, me adorar, tudo será seu”. E Jesuslhe respondeu: “Está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus, e somente a ele preste culto’”. E ele levou Jesus a Jerusalém e o colocou no pináculo do templo, e lhe disse: “Se você é o Filho de Deus, jogue-se daqui, pois está escrito: ‘Ele ordenará aos seus anjos a seu respeito, para que o guardem’, e ‘Em suas mãos eles o sustentarão, para que você não tropece em nenhuma pedra’”. E Jesus respondeu-lhe: “Dito está: ‘Não ponha o Senhor, seu Deus, à prova’”. E quando o Diabo terminou todas as tentações, afastou-se dele até um tempo oportuno. A verdade principal ensinada nessa passagem não é “Como lutar contra a tentação como Jesus”. Certamente, conhecer a Escritura para que você possa lutar contra a tentação é uma implicação secundária desse texto. Devemos guardar a Palavra de Deus em nosso coração para não pecarmos contra Deus quando somos tentados. Todavia, se reduzimos o significado da passagem a “Jesus foi tentado; é assim que ele lutou contra a tentação; portanto, vamos apenas ser como Jesus”, perdemos o sentido principal. Há mais coisas acontecendo nessa passagem, e a teologia bíblica nos oferece as lentes para percebê-las. No contexto, Lucas já havia apresentado Jesus como o filho amado de Deus. No batismo dele, “… uma voz veio do céu: ‘Tu és meu Filho amado; em ti me agrado’” (Lc 3.22). Lucas, então, registra a genealogia de Jesus, que culmina com “… Adão, o filho de Deus” (Lc 3.38). E quando lemos o relato da tentação, observamos que as passagens das Escrituras que Jesus citou em sua batalha contra o Diabo estão todas conectadas com as provações de Israel no deserto (Dt 8.3; 6.13,16). Israel foi chamado de “primogênito” de Deus em Êxodo 4.22; eles foram provados no deserto e falharam miseravelmente. Ao ampliar o foco, começamos a perceber várias conexões entre a provação de Jesus e a provação de Israel no deserto, registrada em Deuteronômio 8.2,3: Lembrem-se de todo o caminho pelo qual o SENHOR, seu Deus, os guiou durante quarenta anos no deserto, para humilhá-los e prová-los, a fim de saber o que está no coração de vocês, se guardariam os mandamentos dele ou não. E ele os humilhou e os deixou passar fome, e os alimentou com maná, que vocês não conheciam, nem seus pais, para que soubessem que o homem não vive de pão somente, mas o homem vive de cada palavra que vem da boca do SENHOR. Como a teologia bíblica nos protege do moralismo e nos ajuda a ressaltar Jesus como o Herói da Escritura a partir dessa passagem? Quando mantemos nossos olhos em Jesus, não buscamos ler sobre nós mesmos nas passagens. Lucas está ressaltando como Jesus é diferente de Adão e de Israel. Adão, o filho infiel de Deus, foi tentado pela Serpente a desconfiar de Deus e a satisfazer seus próprios desejos (Gn 3.6) no Paraíso, no jardim do Éden (Gn 3.1). Adão foi infiel e falhou. Jesus, porém, foi fiel e não cedeu ao Diabo (Lc 4.3,4). Israel, o filho infiel de Deus (Êx 4.22), atravessou as águas (Êx 14.21-31) e foi imediatamente conduzido pelo Senhor ao deserto, onde passou por provações por quarenta anos (Dt 8.2). Israel foi infiel e falhou. Por sua vez, Jesus, o Filho fiel de Deus, atravessou as águas (Lc 3.21) e foi imediatamente levado pelo Espírito Santo ao deserto, onde foi provado por quarenta dias (Lc 4.1,2). Contudo, onde Adão e Israel falharam, Jesus permaneceu fiel. Sendo assim, podemos dizer que Lucas 4.1-13 diz respeito, principalmente, a como devemos lutar contra a tentação? Ou essa passagem diz respeito, principalmente, a Jesus, aquele que é o Filho fiel e obediente de Deus (Fp 2.8; Hb 4.14,15; 1Pe 2.22,23)? A teologia bíblica nos ajuda a perceber que todos nós temos sido infiéis e desobedientes, assim como Adão e Israel. Todos temos cedido à tentação e ao pecado contra Deus. Jesus, porém, é o Filho de Deus perfeitamente fiel e obediente, que é digno de toda adoração e louvor. Portanto, nesse texto, a teologia bíblica nos ajuda a manter nossos olhos em Jesus, o Herói da história. Em vez de apenas extrair aplicações de como podemos lutar contra a tentação, descobrimos ainda mais razões para glorificá-lo como o Filho obediente e fiel, que desde o início de seu ministério suportou a tentação e não pecou. Nós, assim como Adão e Israel, desobedecemos e falhamos. Naquilo, em que, fomos tentados e cedemos ao pecado, Jesus, o Filho de Deus obediente e amado, não cedeu. De modo evidente, a teologia bíblica molda o ministério de ensino da igreja local. Ainda assim, deveríamos perguntar: Como fazer isso? Como alguém põe a teologia bíblica para funcionar? No restante deste capítulo, vamos oferecer uma visão geral de várias ferramentas que os professores de Bíblia podem usar para conectar cada passagem com fidelidade ao enredo principal da Escritura. (Para ver como aplicar a teologia bíblica a seis textos de exemplo, veja o apêndice “Outros exemplos bíblico- teológicos”.) FERRAMENTAS E PASSOS PARA PREGAR CRISTO As ferramentas descritas a seguir dividem-se em duas categorias: ferramentas de estudo e ferramentas de enredo. Em outras palavras, algumas das ferramentas lidam principalmente com a observação, focando nossa interpretação em entender cuidadosamente um texto em seu contexto e a intenção original do autor. Essas ferramentas exegéticas nos ajudam a extrair o significado de um texto. De certo modo, elas ressaltam o autor humano e a passagem específica. Fazer bom uso das ferramentas de estudo começa com a observação cuidadosa e em oração do texto bíblico. É isso que queremos dizer com fechar o foco. Outras ferramentas estão relacionadas ao enredo. Elas nos ajudam a ver onde o texto se encaixa no enredo de toda a Bíblia e como contribui para a culminação desse enredo na pessoa e obra de Jesus Cristo. De certo modo, a ênfase dessas ferramentas está no autor divino e em toda a Bíblia. É isso que queremos dizer com ampliar o foco. Ao “fazer” teologia bíblica, há pelo menos cinco “lentes interpretativas” pelas quais podemos examinar com humildade e interpretar corretamente as passagens. Essas lentes, como as sinalizações em uma estrada, ajudam-nos a ficar no caminho certo. Para ajudar, todas essas cinco lentes interpretativas começam com a letra C: 1. Contexto histórico-literário 2. Contexto da aliança 3. Cânon 4. Caráter de Deus 5. Cristo Contexto histórico-literário O primeiro passo para fazer teologia bíblica é ler contextualmente. O contexto é a primeira lente interpretativa através da qual devemos examinar e entender qualquer texto bíblico. O entendimento de qualquer texto bíblico se inicia com a leitura cuidadosa do texto em seu contexto ao usar o método histórico-gramatical de interpretação. Esse método inclui dois contextos que são essenciais para entender os textos bíblicos: o histórico e o literário. 1. Contexto histórico. O que a passagem significa para o público original? O significado primeiro e histórico de uma passagem fornece o único critério objetivo que nos impede de derivar todo tipo de mensagens subjetivas e arbitrárias do texto. Sempre que esse significado é abandonado, o controle sobre a interpretação desaparece, e a Escritura passa a significar qualquer coisa que o intérprete enxergar nela. Você pode determinar com fidelidade o contexto histórico de uma passagem ao fazer perguntas diversas: •Quem foi o autor? •Quem foi o público original do autor? •Quando esse texto foi escrito? Há qualquer marcador histórico no próprio texto bíblico que indica isso? •Com quais necessidades de sua audiência o autor tenta lidar? •Qual foi o significado pretendido pelo autor para o público original? Considere, por exemplo, o valor do contexto histórico quando estudar o livro de Lamentações. Esses poemas de lamento foram escritos após a destruição babilônica de Jerusalém e do templo, em 586 a.C. (cf. Jr 52). Conhecer o contexto histórico é fundamental para interpretar e aplicar corretamente esse livro. 2. Contexto literário. Uma vez que o devido contexto histórico foi estabelecido, você está pronto para estudar o contexto literário da passagem. Primeiro identifiqueque tipo de texto você está interpretando. No Antigo Testamento, você precisa constatar se a passagem que você está estudando é uma narrativa, poesia, profecia, lei, literatura sapiencial ou literatura apocalíptica. O Novo Testamento, por sua vez, pode ser dividido em três gêneros. Os Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) são relatos históricos da vida de Jesus. Cada um deles apresenta Jesus como o cumprimento das promessas de Deus no Antigo Testamento de enviar um salvador para seu povo. Depois dos Evangelhos, encontramos a narrativa histórica da fundação e expansão da igreja no livro de Atos. Tanto Atos quanto os quatro Evangelhos são um tipo de história. Na sequência desses livros, encontramos as Epístolas (ou Cartas). Elas foram escritas para ensinar aos cristãos o que significa seguir Cristo. O último gênero do Novo Testamento, a literatura apocalíptica, é representado por um único livro: Apocalipse. João, o autor do livro, apresenta-nos uma visão do fim dos tempos com o intuito de preparar e encorajar os crentes a viverem o presente para Cristo. Parte do que significa fazer o melhor para manejar corretamente a palavra da verdade é reconhecer o gênero do livro e deixar que isso molde a sua maneira de ler, interpretar e aplicar. Uma vez que você identificou o gênero, precisará examinar como a passagem está organizada. Para começar, estude as palavras e a gramática da passagem em si. Procure por qualquer marcador claro de estrutura, por palavras ou frases que se repetem, e tome nota do tom da passagem com atenção. Estudar uma passagem no contexto exige que tenhamos uma percepção clara do que ela significa em seu contexto literário próximo e distante. O que está logo antes do texto? O que vem logo depois? O contexto próximo diz respeito ao que significa o versículo, a frase, o parágrafo e o capítulo, e a como eles se relacionam uns com os outros. O contexto distante diz respeito ao que a passagem significa à luz de todo o livro. O contexto é o rei. Diz-se que um texto sem um contexto é um pretexto para o uso de um texto descontextualizado. Portanto, comece sempre olhando o texto através das lentes do contexto inspirado pelo Espírito Santo, tanto histórico quanto literário. Contexto da aliança Após analisar a passagem em seu contexto histórico-literário, agora você precisa fazer sua leitura de acordo com a aliança. As alianças de Deus são chamadas de as vigas de aço que sustentam a história cristocêntrica da Escritura. Portanto, é importante observar qualquer estrutura textual que marque os desenvolvimentos da aliança no plano de Deus. Depois de ter uma noção dos contextos histórico e literário, você precisa estudar o texto pelas lentes da aliança. O plano de Deus de salvação é revelado progressivamente por toda a Escritura, culminando em Jesus Cristo. O modo pelo qual Deus revela esse plano se desenvolve como uma semente crescendo até se tornar uma árvore. Reconhecer, portanto, em que ponto do desenvolvimento da aliança a passagem que você está estudando se encaixa é fundamental para a interpretação adequada. Como vimos no capítulo 3, por toda a Bíblia, começando no livro de Gênesis, Deus estabeleceu relações com pessoas específicas e em tempos específicos por meio de alianças. Entre as alianças bíblicas, estão: •a adâmica (Gn 1 e 2; Os 6.7); •a noaica (Gn 9.8-17); •a abraâmica (Gn 12.1-3; 15.1-21; 17.1-14); •a mosaica (Êx 19—25); •a davídica (2Sm 7); •e a nova aliança (Jr 31.27-34; Ez 36.24-28; Mt 26.27-30). Portanto, quando você interpretar uma passagem da Escritura, é preciso identificar quais alianças governavam o povo de Deus naquele ponto específico da história bíblica. Olhe para a passagem pelas lentes da aliança. Como você, por exemplo, interpretaria e aplicaria as seguintes passagens do Antigo Testamento? •as instruções a Noé sobre construir a arca; •as promessas da terra a Abraão; •as leis alimentares em Levítico; •as promessas da proteção divina a Davi. Cada um desses textos está claramente relacionado a uma aliança bíblica. Saber em que ponto do enredo da aliança determinada passagem da Escritura se encaixa é fundamental para entendê-la e interpretá-la corretamente. Identificar corretamente a aliança bíblica que está associada a qualquer texto do Antigo Testamento também o ajudará a localizar a passagem na trama histórico- redentora da Bíblia: Criação ⇨ Queda ⇨ Redenção ⇨ Nova criação Todos os eventos na Escritura podem ser situados nessa trama histórico- redentora. O enredo da aliança ajuda você a percorrer esses eventos e localizar não apenas onde o texto se encaixa, mas também onde você está no plano redentor de Deus. Entender o contexto da aliança também é particularmente útil na aplicação do Antigo Testamento. Como você entenderia e aplicaria, por exemplo, Levítico 19.19: “… Vocês não devem […] vestir roupas feitas de dois tipos de tecido”? Não podemos aplicar diretamente esse texto às nossas vidas, pela simples razão de que não vivemos sob a aliança mosaica no que diz respeito ao vestuário. Essa lei foi dada sob a aliança com Moisés e aplicada a Israel com o propósito de estabelecer a nação como um povo santo e separado. De modo mais amplo, esse mandamento é parte de um grupo de mandamentos em Levítico 19 que chamam Israel a se conformar à santidade de Deus ao imitar as separações em sua criação e ao se manter separado das práticas pagãs das nações vizinhas. Como crentes, contudo, sabemos que Cristo veio e cumpriu perfeitamente a lei mosaica, bem como inaugurou a nova aliança por meio de sua morte sacrificial e ressurreição. Ainda assim, a igreja, como Israel, é chamada a ser um povo santo assim como Deus é santo (1Pe 1.14-16). Sob a nova aliança, o que nos distingue como povo escolhido de Deus, um povo que também é a habitação do Espírito Santo, é que estamos nos tornando puros e irrepreensíveis no meio de uma geração corrompida e perversa. Quando você interpretar qualquer texto bíblico, portanto, busque a resposta à seguinte pergunta: Onde esta passagem se encaixa no enredo bíblico da aliança? Cânon A próxima lente interpretativa que devemos manter em mente ao fazer teologia bíblica é a do cânon. Isso significa que você sempre deverá recordar o princípio de que a Escritura é a melhor intérprete de si mesma. Você precisar ler a passagem e procurar por conexões textuais com outras partes da Escritura. O melhor meio de fazer essas conexões é usar uma Bíblia com um sistema de referências cruzadas. Na maioria das Bíblias, as referências cruzadas darão pistas de citações, alusões e conexões importantes de outras partes da Escritura. Se você já leu o Antigo Testamento (Gênesis a Malaquias), então deve ter notado que o Antigo Testamento está cheio de referências a ele mesmo, não é? O que queremos dizer é que os autores de livros mais (cronologicamente) avançados do Antigo Testamento, com frequência, aludem, ecoam ou remetem os leitores a alguma passagem anterior no cânon. Os salmos, por exemplo, referem-se com frequência a acontecimentos registrados no Pentateuco (veja Sl 8 e 95). A última parte do livro de Daniel (caps. 9—12) é uma visão de Daniel que ajuda a interpretar uma profecia dada primeiro a Jeremias (Jr 25.1-12; Dn 9.2). Portanto, quando você estiver lendo qualquer texto bíblico, pergunte a si mesmo: “Que conexões o autor faz com o resto da Bíblia?”. Dê uma olhada nas referências cruzadas em sua Bíblia e use-as para compreender o que a passagem significa no contexto do cânon inteiro. Mais que isso, quando você estiver interpretando um texto do Antigo Testamento que é citado no Novo Testamento, siga a orientação do Novo Testamento com segurança. Pergunte a si mesmo: “Como o entendimento do autor do Novo Testamento a respeito dessa passagem impacta minha própria interpretação?”. Ler canonicamente exige uma leitura cuidadosa de nossa parte. Enquanto a fazemos, há cinco coisas que devemos procurar: 1. Temas. Identifique de que modo sua passagem se encaixa nos principais temas bíblicos que vão de Gênesis a Apocalipse. Temas comorealeza, Criação, sacrifício, Filho, fé, graça e glória ajudarão você a situar o seu texto em seu contexto canônico apropriado, pois esses temas se estendem por todo o cânon. 2. Profecia. Olhe pra trás e olhe pra frente! Tenha em mente que algumas profecias terão vários níveis de cumprimento. Traçar as profecias do Antigo Testamento até o seu cumprimento em Cristo é um ótimo modo de fazer conexões canônicas. 3. Tipologia. A tipologia analisa os padrões na Escritura. Esses padrões podem aparecer em um acontecimento, uma pessoa ou uma instituição do Antigo Testamento que aponta para o futuro e encontra sua realização no Novo Testamento. Os padrões históricos da Escritura ensinam verdades sobre o Rei e seu reino. Adão, por exemplo, foi um tipo de Cristo: “No entanto, a morte reinou de Adão a Moisés, mesmo sobre aqueles cujo pecado não foi como a transgressão de Adão, o qual era um tipo daquele que estava por vir” (Rm 5.14). Quando Paulo descreve para a igreja de Corinto a peregrinação de Israel no deserto, ele diz: “Essas coisas lhes aconteceram como um exemplo, mas foram escritas como instrução para nós, sobre quem o fim das eras chegou” (1Co 10.11). O cordeiro da Páscoa foi um tipo que apontava para um Cordeiro imaculado ainda maior, o qual seria morto para resgatar o povo de Deus por meio de um êxodo ainda maior (Êx 12.1-13; Jo 1.36; 19.36; 1Co 5.7,8; 1Pe 1.19; Ap 5.6). Tipologia não é a mesma coisa que alegoria, a qual faz conexões arbitrárias e apenas semânticas entre um símbolo e a coisa simbolizada. O cordão escarlate, por exemplo, que foi estirado na muralha de Jericó por Raabe, a prostituta, não é uma referência ao sangue de Cristo. Uma semelhança superficial entre duas coisas na Escritura não faz disso um tipo. Talvez o modo mais seguro de constatar um tipo seja permitir que os autores bíblicos deem sua opinião ao enraizar explicitamente o tipo no próprio texto bíblico. 4. Promessa e cumprimento. Deus sempre é fiel às suas promessas. Muitas das promessas de Deus no Antigo Testamento se cumprem no Novo. Para perceber o cumprimento de uma promessa no Novo Testamento, você deve olhar pra trás e ver a promessa original. Ela foi parcialmente cumprida e aguarda um cumprimento definitivo? Ou a promessa já foi completamente cumprida? Esteja atento aos aspectos que ressaltam o já e o ainda não de algumas promessas cumpridas por Cristo, o Rei. 5. Continuidade e descontinuidade. O que permanece e o que mudou? O autor ressalta diferenças ou similaridades na passagem? Por exemplo, se você está ensinando Gênesis 17, capítulo em que Deus ordena a circuncisão a Abraão, o contexto canônico leva você a considerar a descontinuidade encontrada no Novo Testamento em uma passagem como Gálatas 6.15: “Pois nem a circuncisão vale para algo, nem a incircuncisão, mas uma nova criação”. O que mudou entre Gênesis 17 e Gálatas 6? O que permanece? Considerar essas questões ajudará você a começar a perceber as conexões canônicas de modo mais claro e o direcionará para a vinda de Cristo como o centro da história bíblica. Caráter de Deus Uma coisa que não muda quando lemos a Bíblia é o caráter de Deus. Portanto, precisamos ler teologicamente. Devemos perguntar: •O que essa passagem revela sobre Deus? •Que atributos de Deus essa passagem ressalta? •Que temas teológicos se encontram nessa passagem? •O que esses temas teológicos me ensinam sobre Cristo, o Rei? O Deus do Antigo Testamento é o Deus do Novo Testamento. O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb 13.8). Devemos, portanto, ter atenção especial ao ler os textos bíblicos que falam de quem Deus é e de como ele é. Pergunte: “O que esse texto me ensina sobre o caráter de Deus?”. Essa lente é incrivelmente útil ao estudar os Salmos. Muito do salmo 90, por exemplo, é apenas uma meditação de Moisés a respeito do caráter imutável de Deus. Deus é permanente e eterno (90.2,3); como poderoso Criador, ele é soberano sobre a vida e a morte (90.2,3,5,6); ele é um Deus de ira santa (90.7,8,11); e ele é um Deus de misericórdia, compaixão e amor inabalável (90.13,14), que é gloriosamente poderoso e belo (90.16,17). Portanto, observe o caráter de Deus e maravilhe-se com ele. Cristo Tudo o que consideramos até aqui culmina com essa lente interpretativa final. Deixamos o melhor, por assim dizer, para o final. Devemos ler cristologicamente. Não importa qual passagem esteja ensinando, você deve sempre se perguntar sobre como ela se relaciona com a pessoa e a obra de Cristo. Cada vez que abrimos a Bíblia, devemos trabalhar para entender onde esse texto se encaixa na grande história. Vimos que Jesus é o Herói; devemos, portanto, fazer perguntas como: •O que essa passagem revela sobre Jesus Cristo, sua vida e sua obra? •Esse texto aponta para a primeira vinda de Cristo? •Ele prediz a volta de Cristo? •Como o evangelho afeta meu entendimento do texto? •Como o texto antevê o evangelho ou reflete a respeito dele? Como vimos no capítulo 2 (veja especialmente a página 27ss., “O maior estudo bíblico de todos os tempos”), esse modo cristocêntrico (ou centrado em Cristo) de ler a Escritura, particularmente o Antigo Testamento, foi ensinado pelo próprio Jesus. CONCLUSÃO A Bíblia é a coisa mais valiosa deste mundo. Nela, você encontrará sabedoria celestial e a mensagem do Deus vivo. Que Deus nos faça fiéis em aplicar nossos corações para estudar a Palavra de Deus, colocá-la em prática e ensiná-la aos outros (Ed 7.10). Se formos intérpretes fiéis da Palavra de Deus, ajudaremos nosso povo a conhecer e amar Jesus a partir de todas as Escrituras. É assim que a teologia bíblica nos ajuda. É assim que a teologia bíblica transforma o ministério de ensino da igreja local. Isso, porém, não é tudo. 1 Essa analogia foi adaptada de Andrew Errington, como citado em Brian S. Rosner, Paul and the Law: keeping the commandments of God, New Studies in Biblical Theology (Downers Grove: IVP Academic, 2013), p. 25. 2 Sinclair Ferguson, From the mouth of God (Carlisle: Banner of Truth, 2014), p. 111. 6 A TEOLOGIA BÍBLICA MOLDA A MISSÃO DA IGREJA A Bíblia é um grande e glorioso livro inspirado por Deus. O propósito deste pequeno livro é ajudar você a entender melhor a mensagem principal da Escritura. Isso é essencial porque perder de vista a mensagem principal da Bíblia produz falsos evangelhos e falsas igrejas. Além disso, distorce a missão da igreja. Talvez você se lembre de que começamos com vários estudos de caso, e agora estamos em posição de avaliar cada um deles de acordo com o enredo da Escritura delineado nos capítulos 3 e 4. A IGREJA DO EVANGELHO DA PROSPERIDADE Igrejas que abraçam um evangelho da prosperidade desonram Cristo e diminuem a esperança cristã. De muitos modos, Cristo é desonrado por esse equívoco mortal. Em vez de engrandecer quem Jesus é e o que ele fez, os proponentes dessa visão herética fazem de Jesus, bem como a confiança nele, o meio para um fim mundano. A história da Escritura torna claro que o maior problema com que os pecadores lidam nesta vida não é desemprego, desânimo ou câncer; é a eterna ira de um Deus bom e santo. “Quem crê no Filho tem vida eterna; quem não obedece ao Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele” (Jo 3.36). Deus, o Pai, não enviou o seu filho amado ao mundo para nos tornar ricos nesta vida, mas para nos reconciliar com ele mesmo para sempre. “… Cristo Jesus veio ao mundo para salvar pecadores…” (1Tm 1.15). Em vez de anunciar a plena satisfação em Jesus, aquele em quem são encontrados todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento bem como todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais (Ef 1.3; Cl 2.3), os pregadores do evangelho da prosperidade fazem promessas vazias de saúde, riqueza e felicidade. Eles dizem que os discípulos de Jesus experimentarão essas bênçãos em abundância neste mundo. O Servo Sofredor, contudo, fez uma promessa muito diferente aos seus seguidores: “… Neste mundo vocês terão aflições…”(Jo 16.33). A teologia bíblica nos ajuda a entender que Jesus Cristo deve ser fielmente proclamado como o fim, o propósito e a mensagem central da Escritura, uma vez que “… todas as promessas de Deus encontram o seu sim nele…” (2Co 1.20). Jesus é o Herói, que nenhum de nós é. Como a semente de Abraão, Jesus Cristo é aquele em quem Deus cumpre as promessas feitas a Abraão. Paulo nos diz: “As promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz ‘e aos seus descendentes’, referindo-se a muitos, mas referindo-se a um, ‘ao seu descendente’, que é Cristo” (Gl 3.16). Jesus Cristo, a semente de Abraão, veio para criar um povo de todas as nações para seu próprio louvor por meio de sua vida, morte e ressurreição. Além disso, ele dá o seu Espírito Santo a todos os que confiam nele como o penhor e o selo de uma herança futura prometida (Ef 1.13,14). Portanto, não é a incrível força de nossa fé, mas a incrível graça de nosso Salvador que nos assegura essas bênçãos. Distorcer isso desonra Jesus. A esperança cristã também é enfraquecida pelo evangelho da prosperidade e pelas igrejas locais que o ensinam. A teologia bíblica nos ajuda a entender que os crentes em Jesus vivem nesta era como aqueles “… sobre quem o fim das eras chegou” (1Co 10.11). Os cristãos vivem entre os tempos, na tensão entre o já e o ainda não. Cristo já veio, mas ele ainda não veio novamente para estabelecer por completo o seu reino eterno. Jesus já derrotou a morte há dois mil anos pela sua morte expiatória e pela ressurreição e ascensão triunfantes, mas ainda estamos esperando o dia quando não haverá mais morte (Ap 21.4). Portanto, uma espera sóbria deve caracterizar a postura dos servos de Cristo que anseiam pelo retorno do Mestre (1Pe 1.14). Essa esperança bíblica nos ajuda a enxergar para além da mentira dos pregadores do evangelho da prosperidade e das igrejas que estão prometendo a melhor vida agora. A melhor vida dos crentes não é agora. Nossa melhor vida chegará quando nossa esperança abençoada aparecer. Essa esperança não é encontrada na segurança financeira ou em um atestado de saúde de um médico. Ela não é encontrada em um carro novo ou em uma promoção no trabalho. Nossa esperança abençoada não é nada menos do que “… o aparecimento da glória de nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo, que se entregou por nós para nos redimir de toda transgressão e para purificar para si um povo para sua posse exclusiva e que é zeloso por boas obras” (Tt 2.13,14). Sofremos neste mundo caído, esperando pela glória que será revelada. Lembramo-nos disso no capítulo 4, quando dissemos: “Os crentes sofrem agora, mas serão glorificados em Cristo quando ele voltar. Essa gloriosa esperança, mesmo em meio às difíceis provações e perseguições, inspira vidas de entrega e obediência ao nosso Senhor e Rei” (veja a página 73ss., “O rei reina”). Quando examinada pela teologia bíblica, a esperança do evangelho da prosperidade se mostra infrutífera. A esperança dos cristãos está em Cristo, e essa esperança encontra seu cumprimento quando os crentes finalmente estiverem com Cristo, cuja presença é plena de alegria e prazeres eternos.¹ A IGREJA DO EVANGELHO CIVIL Com frequência, os cristãos citam “… preciosas e grandiosas promessas…” (2Pe 1.4) da Bíblia apenas para aplicá-las da maneira errada. Uma dessas interpretações grosseiras da Escritura ocorre nas igrejas que existem para proclamar o evangelho civil, uma mensagem preocupada principalmente com “Deus e o país”. Essa má interpretação das promessas da Bíblia se origina na falha em entender como as alianças da Bíblia culminam em Cristo e em sua igreja. E essa distorção do significado da Escritura resulta em uma distorção da missão da igreja. Como a teologia bíblica nos protege do evangelho civil? Veja, por exemplo, a muito citada promessa de 2Crônicas 7.14. Sabemos de cristãos que aplicam essa promessa diretamente aos Estados Unidos da América, dando pouca atenção ao contexto próximo e ao contexto distante da passagem bíblica. Salomão, o filho de Davi e rei de Israel, acabara de concluir o projeto de edificação do templo: “… Tudo o que Salomão havia planejado fazer na casa do SENHOR e em sua própria casa ele cumpriu com êxito” (2Cr 7.11). O Senhor apareceu a Salomão durante a noite e conversou com ele (2Cr 7.12). Então, lemos o que se sucedeu: Quando eu fechar os céus para que não haja chuvas, ou ordenar que os gafanhotos devorem a terra, ou enviar a peste entre meu povo, se meu povo que é chamado pelo meu nome se humilhar, orar e buscar minha face, e se converter de seus caminhos de impiedade, então eu os ouvirei do céu e perdoarei o seu pecado e curarei a terra (2Cr 7.13,14). Um indício de que essa promessa condicional é dada por Deus apenas para o seu antigo povo, Israel, é encontrado no versículo 13. O rei Salomão havia mencionado o mesmo juízo temporal divino pelo pecado de Israel (a seca, a destruição das plantações e as doenças mortais) em sua oração de dedicação do Templo de Jerusalém (2Cr 6.26,28). O leitor atento do Antigo Testamento também reconhecerá esse conjunto de maldições na lista de advertências de Deus dadas a Israel antes mesmo de os israelitas entrarem na Terra Prometida (Dt 28.20-24). Deus fez muitas promessas e advertências ao seu antigo povo, condicionadas à obediência. Se Israel confiasse no Senhor e fielmente obedecesse à sua voz, então as bênçãos de Deus alcançariam a nação. Mas, se o povo agisse com incredulidade e falhasse em obedecer à sua boa palavra, o resultado seria juízo e Exílio (Dt 28.63,64). Apesar dos claros alertas de Deus a Moisés, Davi e Salomão, Israel pecou gravemente e, em certo momento, o reino se dividiu, o templo foi destruído e o povo de Deus foi exilado, assim como Deus havia prometido. Anteriormente, observamos o papel de Israel na manifestação do plano de salvação de Deus. Dissemos no capítulo 3: Israel, que Deus chamou de seu primogênito (Êx 4.22), deveria ser um tipo de representante sacerdotal ao mundo, assim como Adão. Veja o que o Senhor disse a eles: “… se vocês verdadeiramente obedecerem a minha voz e guardarem minha aliança, serão minha propriedade preciosa entre todos os povos, pois toda a terra é minha; e vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa…” (Êx 19.5-6). Deus pretendia que a santidade de Israel refletisse a santidade de seu Rei: “… Vocês serão santos, pois eu, o SENHOR seu Deus, sou santo” (Lv 19.2). Ao confiar nas boas palavras de Deus e obedecer a elas, Israel seria um povo único, que manifestaria a sabedoria de seu Rei a todos os povos da terra. Ao guardar e praticar os mandamentos do Rei, o povo de Israel manifestaria a sabedoria de Deus a um mundo atento (Dt 4.4-6) (veja a p. 46 ss., “O rei ordena”). À medida que a história bíblica se desenvolveu, percebemos que, onde Israel falhou, Jesus, a verdadeira semente de Abraão, provou ser o fiel Filho de Deus. Ele redimiu um povo para si mesmo. E este povo, a sua igreja, inclui tanto judeus quanto gentios, unidos pela fé no evangelho de Cristo. A igreja de Deus manifesta para o céu sua multiforme sabedoria (Ef 3.10) e declara para o mundo seu incomparável valor. O apóstolo Pedro descreve a igreja como … uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo para sua propriedade exclusiva, a fim de que vocês possam proclamar as excelências daquele que os chamou das trevas para sua maravilhosa luz. Antes, vocês não eram povo, mas agora são o povo de Deus; antes, vocês não tinham recebido misericórdia, mas agora receberam misericórdia (1Pe 2.9,10). A teologia bíblica, portanto, ajuda-nos a entender que nem os Estados Unidos nem qualquer outra nação de hoje é a nação santa de Deus. Esse título cabe exclusivamente à igreja. Os Estados Unidos não são uma cidade sobre um monte; a igreja é essa cidade. Isso protege a igreja contra a ideia enganosa de que sua missão é promover a cura dos Estados Unidos ou de qualquer nação da qual os cristãos sejam parte. Em vez disso, os seguidores de Cristo buscam ser uma bênção para todas as nações aoproclamar as boas-novas (At 8.4) e ao viver como servos de Deus (1Pe 1.13-17), não importando onde eles estejam estabelecidos pela soberania de Deus (At 17.26). A IGREJA DO SOPÃO Manter em vista toda a história da Escritura pode ajudar as igrejas a ressaltarem o que Deus enfatiza no que diz respeito à missão da igreja. No capítulo 1, vimos o exemplo da “Igreja do Sopão” (p. 24s.). Por que seria errado alimentar o faminto, cuidar dos sem-teto ou ministrar aos pobres? Os que creem em Cristo não deveriam buscar amenizar o sofrimento dos que estão ao seu redor e buscar fazer o bem ao seu próximo quando e onde eles puderem? É claro que sim! E as igrejas locais podem priorizar esses tipos de ministérios de misericórdia e mobilizar os membros para atenderem a essas necessidades. O ministério de misericórdia é uma bela oportunidade de satisfazer as necessidades imediatas ao mesmo tempo que aponta aos pecadores o remédio para a necessidade mais imediata de todas: a necessidade de serem feitos justos diante de nosso santo Criador por meio da fé em Jesus Cristo. Vimos isto no capítulo 4: Contudo, aqueles que se recusam a obedecer à convocação mundial de Cristo para o arrependimento enfrentarão um terrível julgamento “… quando o Senhor Jesus se revelar do céu com seus poderosos anjos em fogo ardente, infligindo vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus” (2Ts 1.7,8). Quando o Rei retornar, a rebelião universal contra seu reino bom, justo e santo será esmagada. Jesus declara que, para “… os covardes, os incrédulos, os abomináveis, assim como os assassinos, os sexualmente imorais, os feiticeiros, os idólatras e todos os mentirosos, a porção deles será no lago que queima com fogo e enxofre, que é a segunda morte” (Ap 21.8; veja 21.6-8) (veja p. 79, “O rei retorna”). A teologia bíblica, portanto, pressiona-nos a avaliar os ministérios de misericórdia das igrejas de hoje à luz do último dia. Quando alimentamos o faminto e vestimos o que está nu, certamente queremos ouvir do Rei naquele dia: “… Verdadeiramente eu digo a vocês que do mesmo modo que fizerem a um dos menores dos meus irmãos, vocês fizeram a mim” (Mt 25.40). Contudo, também queremos nos assegurar de que nossas igrejas não apenas distribuem sopão. Somos chamados a dar gratuitamente algo que pode sustentar e satisfazer por toda a eternidade. … O homem não viverá somente de pão, mas de cada palavra que vem da boca de Deus. (Mt 4.4) Por mais maravilhosos que sejam os ministérios de misericórdia, esses esforços que honram a Cristo não podem substituir e não deveriam diminuir a primazia da proclamação do evangelho na missão da igreja. Apenas o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo o que crê (Rm 1.16). E apenas o evangelho pode afastar a horrível ameaça do sofrimento eterno. A teologia bíblica ajuda a igreja a manter sempre em vista essa séria realidade. A IGREJA DA IMORALIDADE DECLARADA A Escritura exorta os crentes a lutarem insistentemente pela santidade, sem a qual não veremos o Senhor (Hb 12.14). Contudo, infelizmente, hoje muitas igrejas ao redor do mundo estão insistentemente afirmando e aprovando ações que a Palavra de Deus condena como pecaminosas (Rm 1.32; 1Co 6.9,10). Em vez de conformar-se a este mundo, o povo de Deus é chamado a ser transformado pela renovação de sua mente (Rm 12.2). A igreja de Jesus Cristo é advertida: “Não amem o mundo ou as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1Jo 2.15). Ainda assim, existem muitas igrejas afirmadoras da imoralidade que parecem estar preocupadas principalmente em receber a carinhosa aprovação do mundo. A teologia bíblica nos ajuda a lembrar que a missão da igreja sempre estará em desacordo com o mundo. A igreja de Jesus Cristo consiste em arrependimento, em crentes batizados em Jesus Cristo que foram perdoados de todos os seus pecados e lavados no sangue do Cordeiro (Rm 6.1-4). Ao declarar lealdade ao Rei Jesus por meio da fé no evangelho, os crentes enfrentam a oposição do mundo, da carne e do Diabo. Isso significa que a missão da igreja não será fácil. Fomos lembrados dessa realidade anteriormente, no capítulo 4: A missão que Jesus deu às suas igrejas é difícil e dispendiosa. Segui-lo em fé e obediência certamente acarretará grande perseguição e sofrimento pela causa do evangelho. Entretanto, assim como os que creem aguardam ansiosamente na esperança da volta de Jesus, assim também eles olham para trás e se lembram de que aquele que agora é ressurreto e exaltado nas alturas também foi o servo que sofreu e morreu. Jesus disse aos seus seguidores: “Bem-aventurados são vocês quando outros os insultarem e os perseguirem e proferirem todo tipo de maldade contra vocês por minha causa. Alegrem-se e exultem, pois a recompensa de vocês é grande no céu, pois assim também perseguiram os profetas que vieram antes de vocês” (Mt 5.11-12). Paulo mais tarde escreveria: “De fato, todos os que desejam viver uma vida piedosa em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12). Os que creem sofrem em um mundo caído, assim como todas as pessoas. Contudo, diferentemente dos que ainda estão em seus pecados, os seguidores do Rei Jesus têm a promessa de sofrimentos adicionais por terem de enfrentar a inimizade de um mundo que odeia o Senhor e que se opõe ao seu povo. (veja p. 73ss., “O rei reina”). Portanto, a finalidade da missão da igreja não é assegurar o efêmero aplauso deste mundo, mas, em vez disso, ser a razão de grande alegria no céu (Lc 15.7,10). Quando o céu se alegra? Jesus disse: “Digo a vocês, há alegria na presença dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lc 15.10). Arrependimento significa se afastar do pecado, em virtude da misericórdia de Deus em Jesus. Assim, em amor e humildade, a igreja de Cristo se posiciona contra o mundo pelo bem do mundo, convocando-o a abandonar seus pecados e a crer somente em Jesus Cristo, pois ele é o caminho, a verdade e a vida, e ninguém vai ao Pai a não ser por meio dele (Jo 14.6). A primeira exigência de Jesus ao mundo foi um supremo chamado ao arrependimento: “… O tempo se cumpriu e o reino de Deus está próximo; arrependam-se e creiam no evangelho” (Mc 1.15). Cristo veio a este mundo para salvar pecadores e para chamá-los ao arrependimento. “Eu não vim chamar os justos…”, disse Jesus, “… mas pecadores ao arrependimento” (Lc 5.32). Não é surpresa, portanto, que ao receber o Espírito de Cristo no Pentecostes, a reação de Pedro e do restante da nascente igreja em Jerusalém foi chamar os pecadores ao arrependimento e à fé (At 2.37-41; veja também 3.19; 8.22; 26.20). Deus agora “… ordena a todas as pessoas, em todos os lugares, que se arrependam” (At 17.30). Como embaixadores de Cristo, rogamos ao mundo em nome de Cristo: “… reconciliem-se com Deus” (2Co 5.20). As igrejas locais são postos avançados e embaixadas do evangelho. Nossa missão deve priorizar a proclamação do evangelho e chamar pecadores ao arrependimento, lembrando com humildade que nós mesmos somos salvos somente pela graça. “E assim eram alguns de vocês. Mas vocês foram lavados, santificados, justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus” (1Co 6.11). A CONEXÃO ENTRE A TEOLOGIA BÍBLICA E A MISSÃO Como você pode perceber, o modo pelo qual você vê o enredo da Escritura afeta drasticamente seu modo de ver a missão da igreja. Essa é uma observação importante, pois tem impacto na forma de sua igreja pregar a Palavra (veja o capítulo 5), na verba da igreja, na descrição de trabalho do seu pastor e em como os membros da igreja são exortados a viver toda semana. Pensemos novamente sobre o enredo que vimos nos capítulos 3 e 4. Com base nesse enredo, qual você diria que é a missão da igreja? Podemos responder isso de dois modos, considerando dois momentos diferentes da vida da igreja: quando a igreja se reúne e quando a igreja se espalha. Qual é, portanto, a missão da igreja? Jesus disse: … Toda a autoridade no céu e na terra me foi dada. Vão, portanto,e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observarem tudo o que ordenei a vocês. E eu estou com vocês para sempre, até o fim dos tempos. (Mt 28.18-20). Assim, na Grande Comissão, Jesus chama seus discípulos a fazerem discípulos e a serem discípulos.² Em primeiro lugar e acima de tudo, nossa missão é fazer discípulos. Quando a igreja está reunida, precisamos priorizar o ministério de fazer discípulos. Quando a igreja se reúne, a assembleia do povo de Deus está centrada na Palavra de Deus. Lemos a Palavra, pregamos a Palavra, oramos a Palavra, cantamos a Palavra, e “vemos” a Palavra nas ordenanças do batismo e da ceia do Senhor.³ Quando nos reunimos, queremos destacar a proclamação de Cristo a partir de toda a Escritura, pois “a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). O pastor busca equipar os santos para a obra do ministério, para edificar o corpo de Cristo, até que todos nós alcancemos a unidade na fé e no conhecimento do Filho de Deus, a maturidade perfeita, a medida de estatura da plenitude de Cristo, para que não sejamos mais crianças, jogados de um lado para outro por ondas e levados por todo vento de doutrina, pela astúcia humana, pela sua esperteza em esquemas enganosos (Ef 4.12-14). Quando a igreja se reúne, precisamos levar a membresia da igreja a sério. Isso implicará em obedecer cuidadosamente às ordenanças de Cristo relacionadas ao batismo e à ceia do Senhor. A prática fiel das ordenanças bíblicas está intimamente relacionada à responsabilidade da congregação de receber membros, assim como à prática da disciplina da igreja (Mt 18.15-17; 1Co 5.1- 13). A igreja reunida, distinta, santa e separada do mundo, manifesta um amor sobrenatural de uns pelos outros, alimentado pelo evangelho; amor que, pela graça de Deus, conquista o mundo. “Nisto todas as pessoas saberão que vocês são meus discípulos, se amarem uns aos outros” (Jo 13.35). Nossa missão é fazer discípulos de nosso Rei ressurreto, por meio de seu evangelho e no poder de seu Espírito, para a glória de Deus, o Pai. Segundo, nossa missão é ser discípulos. É isso que somos chamados a fazer toda semana, tanto individualmente quanto com outros membros da igreja. Quando a igreja se espalha, buscamos ser discípulos de Jesus que propagam a mensagem salvadora de sua graça, onde quer que formos, pois “… todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13). Oramos ao Senhor para que resgate nossa família perdida, amigos, vizinhos e colegas de trabalho (Rm 10.1). Compartilhamos ousada e humildemente a palavra da verdade, o evangelho de nossa salvação, pois, novamente, “… a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (Rm 10.17), e porque somente o evangelho é “… o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê…” (Rm 1.16). Quando a igreja se espalha, cumprimos nossas diversas vocações como forma de honrar ao nosso Rei. Isso significa buscar amar o Senhor e amar nosso próximo em cada esfera de nossa vida. Ser um discípulo do Rei significa que, onde você esteja, estará vivendo para a glória dele e trabalhando para ele. “O que quer que vocês fizerem, trabalhem de coração, como para o Senhor e não para os homens, sabendo que do Senhor receberão a herança como recompensa. Vocês estão servindo o Senhor Cristo” (Cl 3.23,24). Esses esforços não são feitos em isolamento, mas como parte da comunhão e da comunidade da igreja local. Buscar ser discípulo de Cristo significa reconhecer a importância da família, mas sem torná-la um ídolo. Significa abordar as questões da justiça e da política de um modo fiel e criterioso, a fim de não vincular a consciência de irmãos e irmãs em Cristo a questões partidárias e estratégicas. Em todas as situações, ser discípulo significa buscar glorificar a Deus ao fazer o bem, com o objetivo de honrar a Cristo em tudo. Pedro escreve: Mantenham honrável sua conduta entre os gentios, para que, quando eles falarem contra vocês como malfeitores, possam ver suas boas ações e glorifiquem a Deus no dia da visitação. Sujeitem-se por causa do Senhor a toda instituição humana, seja ao imperador como supremo, seja aos governadores como enviados por ele para punir os que praticam o mal e elogiar os que fazem o bem. Pois esta é a vontade de Deus, que, ao fazer o bem, vocês possam silenciar a ignorância dos tolos. Vivam como pessoas livres, não usando a liberdade de vocês como um pretexto para o mal, mas vivendo como servos de Deus. Honrem a todos. Amem os irmãos. Temam a Deus. Honrem o imperador (1Pe 2.12-17). Assim, a igreja de Cristo, unida e espalhada, busca fazer discípulos e ser discípulos até que ele venha e a terra seja cheia do conhecimento de sua glória. 1 Para um tratamento mais completo dos erros fatais do evangelho da prosperidade, veja David W. Jones; Russell S. Woodbridge, Health, wealth, and hapiness: how the prosperity gospel overshadows the gospel of Christ (Grand Rapids: Kregel, 2011, 2017). 2 Para um tratamento mais completo desse paradigma, veja Jonathan Leeman, “The soteriological mission”, in: Jason S. Sexton, org., Four views on the church’s mission (Grand Rapids: Zondervan, 2017). 3 Veja Mark Dever; Paul Alexander, The deliberate church: building your ministry on the gospel (Wheaton: Crossway, 2005), p. 81-6 [edição em português: Deliberadamente igreja, tradução de Francisco Wellington Ferreira (São José dos Campos: Fiel, 2008)]. CONCLUSÃO Podemos deixar de notar o que é gloriosamente belo mesmo quando está bem diante de nossos olhos. Em 12 de janeiro de 2007, um homem surgiu da estação de metrô na praça L’Enfant, em Washington, DC, e se colocou próximo a uma lixeira. O jovem vestia uma camiseta, uma calça jeans e um boné de beisebol. Ele pegou um violino de uma pequena maleta e então a colocou aberta em frente dele, encarando o tráfego de pedestres. O homem, então, começou a tocar. Era 7h51 da manhã de uma sexta-feira, bem no horário de pico. Pelos 43 minutos seguintes, o homem executou seis peças clássicas, enquanto cerca de 1.100 pessoas passavam por ele. Será que alguma dessas pessoas parou para apreciar a música? O violinista de pé diante da parede do metrô não fazia uma performance de rua comum. Seu nome é Joshua Bell, um dos melhores músicos clássicos no mundo. Já era um prodígio musical aos 4 anos de idade, e agora é aclamado como virtuose. Bell embala salas de concerto ao redor do mundo. A música que tocava naquela manhã estava longe de ser comum. Por 43 minutos, Bell tocou obras-primas que perduram por séculos, algumas das músicas mais sofisticadas já escritas. E tocou essas lindas músicas em um dos violinos mais valiosos já feito. O violino de Bell é um Stradivarius, feito à mão em 1713, valendo cerca de 3,5 milhões de dólares. Naquela sexta-feira de 2007, se essas mais de mil pessoas tivessem olhos para ver e ouvidos para ouvir, apreciariam, de camarote, a performance de um dos músicos mais famosos do mundo. Um privilégio surpreendente. E, mesmo assim, apenas algumas daquelas pessoas pararam naquela manhã para ouvir e apreciar a gloriosa música de Bell.¹ Todos podemos nos identificar com isso. As agitações da vida, que nos apressam para concluir a próxima tarefa e nos deixam constantemente ocupados até não aguentarmos mais, têm um efeito indesejado de nos cegar para o que é realmente importante, belo e precioso, mesmo se acontecer bem diante de nossos olhos. A vida neste mundo caído pode facilmente blindar nossos corações e nos impedir de sentir admiração e profundo respeito, mesmo quando temos o privilégio de contemplar algo que é verdadeiramente maravilhoso, impressionante e gloriosamente belo. Eu (Nick) algumas vezes experimento isso ao ler a Bíblia. Talvez você também experimente. Ainda que eu saiba que a Palavra de Deus é mais agradável que o mel e mais preciosa que o ouro (Sl 19.10), na prática, luto com frequência para crer que isso se aplica para mim. Perco de vista a glória que está bem diante de mim. Falho em parar e, pacientemente, ouvirem oração a sinfonia das Escrituras. Ainda assim, temos a humilde esperança (essa também foi a nossa oração a Deus) de que, enquanto lia este livro, você tenha provado e visto algo do maravilhoso, espantoso e profundo privilégio de ser capaz de conhecer e amar Jesus Cristo tal como ele se revelou em todas as Sagradas Escrituras. Esperamos, e oramos por isto, que você entenda de modo mais completo por que a teologia bíblica é tão maravilhosa. Jesus Cristo é a fonte da qual todas as bênçãos fluem, e a teologia bíblica é o mapa que ajuda a nos guiar na Escritura para essa fonte ininterrupta. Aos poucos, o Espírito Santo nos ajuda a ver como o glorioso mapa da Escritura nos guia ao nosso Rei ressurreto e reinante, e ao seu plano de redimir para a sua própria glória e louvor um povo comprado com sangue. Assim como os discípulos na estrada de Emaús, oramos e esperamos que nossas mentes e nossos olhos sejam completamente abertos (Lc 24.31,45) para reconhecer Jesus em toda a Escritura, a fim de que todos nós possamos amá-lo plenamente, com todo o nosso coração, a partir de toda a Escritura (Lc 24.32). Nosso Rei não merece nada menos que isso. O apóstolo Pedro escreveu em sua primeira carta: A respeito dessa salvação, os profetas que profetizaram sobre a graça que seria de vocês examinaram e investigaram cuidadosamente, indagando que pessoa ou época o Espírito de Cristo neles estava indicando ao predizer os sofrimentos de Cristo e as glórias subsequentes. A eles foi revelado que estavam servindo não a si mesmos, mas a vocês, nas coisas que agora lhes foram anunciadas por meio dos que pregaram as boas-novas pelo Espírito Santo enviado do céu, coisas que os anjos anseiam observar (1Pe 1.10-12). A gloriosa salvação que temos em Cristo foi profetizada e prevista pelos profetas de Deus no Antigo Testamento, e é agora objeto do intenso desejo dos anjos de Deus. Pense sobre a posição privilegiada que temos em Cristo! E então, pelo Espírito de Deus, continue a se humilhar e a buscar em oração a bela Palavra dele a fim de descobrir ainda mais das riquezas de sua gloriosa graça em Jesus. 1 Gene Weingarten, “Pearls before breakfast”, Washington Post Magazine, April, 8, 2007. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/lifestyle/magazine/pearls-before-breakfast- can-one-of-the-nations-great-musicians-cut-through-the-fog-of-a-dc-rush-hour- lets-find-out/2014/09/23/8a6d46da-4331-11e4-b47c-f5889e061e5f_story.html? noredirect=on&utm_term=.f7fd8cc90580; acesso em: 14 de maio de 2018. APÊNDICE OUTROS EXEMPLOS BÍBLICO-TEOLÓGICOS Quando eu (Nick) estou aprendendo algo novo, sempre digo: “Por favor, mostre- me como se faz; não adianta apenas me falar”. Você encontrará adiante uma coleção de exemplos de teologia bíblica, extraídos de diversos gêneros bíblicos. Depois de situar brevemente cada passagem em seu contexto, mostrarei como a teologia bíblica ajuda a esclarecer a passagem de modo cristocêntrico. Primeiro examinaremos três textos do Antigo Testamento e depois três do Novo Testamento, para perceber como eles podem ser lidos e entendidos através das lentes da teologia bíblica. “VOCÊS SERÃO ABENÇOADOS NA CIDADE…” (DT 28.1-6) Vimos que um texto sem contexto é um pretexto para buscar confirmação. Em outras palavras, se interpretamos um texto da Escritura sem o seu contexto, podemos fazê-lo dizer algo que ele não queria dizer realmente. Por exemplo, observe estes versículos do final de Deuteronômio: E se vocês obedecerem fielmente à voz do SENHOR seu Deus, tendo o cuidado de praticar todos os seus mandamentos que eu lhes ordeno hoje, o SENHOR seu Deus os exaltará acima das nações da terra. E todas essas bênçãos virão sobre vocês e os alcançarão, se obedecerem à voz do SENHOR seu Deus. Vocês serão abençoados na cidade, e serão abençoados no campo. Bendito será o fruto de seu ventre, o fruto de seu solo, o fruto de seu gado e as crias de suas vacas e ovelhas. Benditos serão o seu cesto e a sua vasilha de amassar pão. Benditos serão vocês quando entrarem e quando saírem (Dt 28.1-6). Os mestres do evangelho da prosperidade deturpam o sentido dessa passagem ao dizerem algo do tipo: “Deus promete bênçãos a você! O Senhor promete exaltá- lo. Ele promete que bênçãos o alcançarão. Promete que você será abençoado em sua cidade e em seu trabalho. Promete que seus filhos serão abençoados e sua colheita, seu gado e seu rebanho também serão abençoados. Tudo o que você precisa fazer é obedecer fielmente ao Senhor e aos seus mandamentos, e, então, você será abençoado de todas as maneiras: social, fisica e financeiramente! Você pode ter essa vida abençoada agora. Basta obedecer ao Senhor”. Vale observar que essa passagem claramente faz uma ligação indissociável entre a obediência e a bênção. Sem obediência, sem bênção. Contudo, à medida que a história de Israel se desenrola, torna-se óbvio que eles não obedeceram ao Senhor. Basta ler o restante do livro de Deuteronômio. Qualquer pregador que enxergue um evangelho da prosperidade nessa passagem perdeu de vista tanto o contexto da passagem quanto o enredo da Bíblia. Como a teologia bíblica nos ajuda a interpretar essa passagem com fidelidade? Vamos começar considerando o contexto da aliança dessa passagem. Em Deuteronômio 28, Moisés incumbe Israel de obedecer à palavra de Deus por causa da aliança que Deus fez no monte Sinai. Moisés expõe diante deles tanto as gloriosas bênçãos da obediência (28.1-14) quanto as horríveis maldições da desobediência (28.15-68). Observe como Moisés passa muito mais tempo expondo as maldições do que as bênçãos. Isso nos diz que o próprio Moisés não estava confiante de que Israel obedeceria ao Senhor depois de sua morte, e muito menos depois de Josué levá- los à Terra Prometida. Na verdade, quando Moisés viu o futuro próximo de Israel, ele viu desobediência, idolatria e exílio, e não fidelidade, bênçãos e prosperidade. Israel já não obedecia ao Senhor enquanto Moisés ainda estava vivo. Por que isso mudaria depois de sua morte? Até mesmo o Senhor disse a Moisés que Israel logo quebraria, por meio de desobediência e idolatria, a aliança feita com eles no Sinai: “E o SENHOR disse a Moisés: ‘Eis que você está prestes a descansar com seus pais. Esse povo, então, vai se levantar e se prostituir com os deuses estrangeiros entre eles na terra em que estão entrando, e eles esquecerão de mim e quebrarão a minha aliança que fiz com eles (Dt 31.16; veja também Dt 31.24-29). O contexto dessa passagem nos ensina claramente que os israelitas não obedeceriam nem conseguiriam ser obedientes à aliança de Deus. Tampouco nós podemos. Como eles, merecemos as maldições de Deus, não as suas bênçãos. A lei de Deus exige perfeita obediência, mas as intenções do coração dos israelitas, bem como as de nosso próprio coração, são pecaminosas e inclinadas para o mal (Gn 6.5; 8.21; Dt 31.21). Nossa única esperança de bênção é por meio de alguém que obedeça perfeitamente onde todos nós caímos, por meio de alguém que suporte as maldições que nós merecemos por causa da nossa desobediência, por meio de alguém que nos dê novos corações que obedeçam e atendam aos mandamentos de Deus. Moisés entendeu que o povo de Deus precisava desesperadamente de uma nova aliança. E é precisamente disso que Deuteronômio 29 e 30 tratam! Moisés viu o futuro distante em esperança: “E o SENHOR seu Deus circuncidará o coração de vocês e o coração de sua descendência, para que amem o SENHOR seu Deus com todo o coração e com toda a alma, para que possam viver” (Dt 30.6; veja Jr 31.33; 32.39,40; Ez 11.19; 36.26,27; Cl 2.11). No futuro, Deus estabeleceria uma nova aliança com o seu povo. Mas espere: há ainda mais boas notícias! Alguém viria, um profeta como Moisés (Dt 18.15,18; Lc 7.16), que obedeceria a Deus perfeitamente com todo o seu coração, alma, mente e força; que cumpriria a lei (Mt 5.17); que asseguraria as bênçãos da nova aliança para o seu povo (Lc 22.20). Seu nome é Jesus. Contudo, a fim de trazer essas bênçãos a seu povo, ele teve de carregar suas maldições. Paulo cita Deuteronômio27.26 em sua Carta aos Gálatas: “Pois todos os que confiam nas obras da lei estão sob maldição; pois está escrito: ‘Maldito seja todo o que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da Lei e as pratica’” (Gl 3.10). Portanto, diz Paulo, Jesus Cristo, o justo, foi condenado em nosso lugar na cruz: “Cristo nos redimiu da maldição da lei ao se tornar maldição por nós, pois está escrito: ‘Maldito é todo aquele que for pendurado em um madeiro’, para que em Cristo Jesus a bênção de Abraão chegasse aos gentios, para que recebêssemos pela fé o Espírito prometido” (Gl 3.13,14). O evangelho da prosperidade e outras mensagens falsas fazem com que toda a Bíblia seja sobre nós, quando, na verdade, ela é inteiramente sobre Jesus. “… DEUS ESTÁ ASSENTADO EM SEU SANTO TRONO” (SL 47.8) Nos capítulos 3 e 4, vimos o proeminente tema do reino de Deus por toda a Escritura. Veja, por exemplo, o seguinte versículo de Salmos: Deus reina sobre as nações; Deus está assentado em seu santo trono (Sl 47.8). O salmo 47 é uma convocação ao mundo, a “… todos os povos…”, para alegremente louvar ao Senhor (Sl 47.1). Por quê? Pois o SENHOR, o Altíssimo, deve ser temido, o grande rei sobre toda a terra (Sl 47.2). Toda a terra deve louvar ao Senhor porque somente ele é o grande rei sobre toda a terra. Encontramos a mesma construção em Salmos 47.6,7. O versículo 6 é uma convocação a cantar louvores a Deus, e o versículo 7 apresenta a razão para isso: “Pois Deus é o Rei de toda a terra…”. Isso nos leva ao versículo 8: Deus reina sobre as nações; Deus está assentado em seu santo trono. Esse versículo ensina que Deus governa todas as nações. Apesar de sua rebeldia, Deus reina sobre elas. O Santo de Israel está assentado sobre seu santo trono. Deus reina. O seu governo universal é um dos principais temas de Salmos. Na verdade, seções inteiras repetem o refrão maravilhoso: “o SENHOR reina!” (veja Sl 93.1; 97.1; 99.1). O SENHOR é o grande Deus, e o grande Rei sobre todos os deuses (Sl 95.3). Se ampliarmos um pouco o foco, percebemos como o tema do reino de Deus ressalta o problema do pecado. De Gênesis 3 em diante, a Escritura conta a triste história de nações se rebelando contra Deus; elas não louvam o Senhor como Rei. Essa rebelião mundial foi claramente manifestada no arrogante plano de construir a Torre de Babel (Gn 11.1-9): “Então eles disseram: ‘Venham, vamos construir uma cidade e uma torre que alcance os céus, e vamos fazer um nome para nós, a fim de que não sejamos espalhados pela face de toda a terra” (Gn 11.4). Deus frustrou os esforços pecaminosos em Babel e, em vez disso, escolheu Abrão, prometendo fazer um nome para si mesmo por meio dele (Gn 12.1-3). Em consequência disso, todas as nações da terra seriam abençoadas por meio da família de Abrão (Gn 17.4-6; 22.17,18). De modo interessante, o salmo 47 faz alusão à promessa dada a Abrão (Abraão) em seu último versículo: Os príncipes dos povos se reúnem como o povo do Deus de Abraão. Pois os escudos da terra pertencem a Deus; ele é soberanamente exaltado (Sl 47.9)! Esse salmo aponta para um dia em que as nações reconhecerão o Deus de Israel como o grande rei de todas as nações. Mais que isso, as próprias nações, aqui representadas por “… príncipes dos povos…”, vão se reunir como “… o povo do Deus de Abraão…”. O livro de Salmos começa com reis se enfurecendo contra Deus e contra o seu ungido (Sl 2.1,3). Contudo, Salmos 47.8,9 fala a respeito de um dia em que os líderes das nações adorarão e honrarão ao Senhor, aquele que está assentado em seu trono. E é precisamente isso que encontramos na conclusão da Escritura, na visão do trono de Deus em Apocalipse 4 e 5. João vê o trono de Deus no céu, o trono do Santo, o Senhor Deus todo-poderoso, “… que era, é e há de vir” (Ap 4.8). Em Apocalipse 5, então, João escuta uma nova canção sobre o Leão e o Cordeiro, que se assenta sobre o trono. Ele é digno de louvor. Por quê? … pois foste morto e pelo teu sangue resgataste um povo para Deus de toda tribo, língua, povo e nação (Ap 5.9). A adoração das nações foi comprada pelo sangue do Cordeiro, que reina e se assenta no trono. Qual é, portanto, a resposta do povo a tão magnífico ato do Altíssimo? E eu ouvi todas as criaturas no céu e na terra, e debaixo da terra, e no oceano, e tudo o que nele há, dizendo: “A ele, que está assentado no trono, e ao Cordeiro sejam a bênção, a honra, a glória e o poder para sempre e sempre!” (Ap 5.13). Um dia, todas as nações “… aclamarão a Deus com cânticos de alegria” (Sl 47.1), por causa do Cordeiro que foi morto em favor delas. O Cordeiro de Deus, que reina e se assenta no trono de Deus, receberá a recompensa de seu sofrimento: eterno louvor de todos os povos, adoração jubilosa de todas as nações. “MEU FILHO, SE VOCÊ ACEITAR MINHAS PALAVRAS…” (PV 2.1-6) Algumas partes do Antigo Testamento parecem mais fáceis de conectar a Cristo do que outras. Podemos achar mais fácil, por exemplo, fazer isso com uma profecia sobre a vinda do Messias do que com um capítulo de Provérbios. De que modo, então, os livros de Sabedoria conectam-se a Cristo? Vamos examinar brevemente Provérbios 2.1-6: Meu filho, se você aceitar minhas palavras e entesourar meus mandamentos, fazendo o seu ouvido atento à sabedoria e inclinando o seu coração ao entendimento; sim, se você clamar por discernimento e levantar sua voz por entendimento, se você buscar isso como se busca prata, e procurar por isso como um tesouro escondido, então entenderá o temor ao SENHOR e encontrará o conhecimento de Deus. Pois o SENHOR dá sabedoria; da boca dele vem o conhecimento e o entendimento. A ideia principal desses versículos parece ser que, se você buscar sabedoria diligentemente, Deus lhe dará. De acordo com essa passagem, “sabedoria” é paralela a “… conhecimento e entendimento” (2.6), “… temor do SENHOR…” e “conhecimento de Deus” (2.5). Em outras palavras, Provérbios 2.1-6 está elaborando o que foi dito em Provérbios 1.7: “O temor do SENHOR é o começo do conhecimento…”. A sabedoria — o temor do Senhor — é encontrada quando se busca intensamente e se dá ouvidos às “palavras”, “mandamentos” e “discernimentos” do pai. Vamos ampliar o foco e considerar em que ponto do enredo da Bíblia esse provérbio se situa. Em Provérbios 1.1, descobrimos que o rei Salomão escreveu ao menos a seção de abertura do livro. Salomão, filho de Davi, foi ungido rei sobre Israel. Deus havia prometido a Davi que um filho dele intermediaria o governo de Deus sobre a nação, e, por meio desta, Deus exerceria seu governo sobre as nações do mundo. As nações deveriam buscar Israel, guiado por um rei sábio que meditava na Palavra de Deus dia e noite (Dt 17.18-20), e contemplar um povo sábio e com discernimento (Dt 4.6). Portanto, em Provérbios vemos Deus usando seu filho especialmente designado, o rei Salomão, para guiar outros filhos no caminho da sabedoria. Veja Provérbios 1.8: Escute, meu filho, a instrução de seu pai, e não esqueça o ensinamento de sua mãe. Essa sabedoria paterna é encontrada em Provérbios 2.1-6, que começa com “Meu filho…”. Como, porém, essa passagem aponta para Cristo? Primeiro, nossa passagem aponta para Cristo em virtude de sua autoria. Salomão, um filho de Davi, aponta para o verdadeiro filho de Davi que ainda estava por vir. Segundo, considere o tema bíblico da sabedoria e como essa qualidade caracterizaria a vinda do Rei da linhagem de Davi. Salomão, é claro, era bem conhecido por sua sabedoria. “E Deus deu a Salomão sabedoria e entendimento extraordinários, e conhecimento vasto como a areia do mar, de modo que a sabedoria de Salomão ultrapassava a sabedoria de todos os povos do oriente e toda a sabedoria do Egito” (1Rs 4.29,30). O Messias prometido também seria um Filho sábio, cuja sabedoria ultrapassaria até mesmo a de Salomão. Esse Filho é descrito como aquele em quem o Espírito de sabedoria e entendimento repousaria: Brotará um ramo do tronco de Jessé, e um galho de suas raízes frutificará. E o Espírito do SENHOR repousará nele,o Espírito de sabedoria e entendimento, o Espírito de conselho e poder, o Espírito de conhecimento e o temor do SENHOR (Is 11.1,2; veja também Is 50.4,5). Quando, então, vamos para o Novo Testamento, encontramos descrições de Jesus como um jovem cheio de sabedoria: “E a criança crescia e se tornava forte, cheia de sabedoria…” (Lc 2.40). Jesus ansiava por estar na casa do seu Pai (Lc 2.49). Posteriormente, ele tornaria explícita a comparação entre ele mesmo e Salomão ao dizer: “A rainha do sul se levantará no juízo com essa geração e a condenará, pois ela veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão, e aqui está alguém maior do que Salomão” (Mt 12.42; veja também Lc 11.31). Depois que Jesus ensinou na sinagoga, as pessoas reagiram dizendo: “… Onde esse homem obteve essa sabedoria e como realiza essas obras poderosas?” (Mt 13.54). O apóstolo Paulo nos diz que Cristo é tanto o poder de Deus quanto a sabedoria de Deus (1Co 1.24), aquele em que estão ocultos “… todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2.3). Todo o livro de Provérbios, portanto, deve ser lido com o entendimento que apenas a teologia bíblica pode trazer: Jesus cumpre tanto a descendência de Salomão quanto a sabedoria de Salomão. Isso se evidencia por meio da passagem que lemos porque vimos no Novo Testamento o menino Jesus buscando essa sabedoria do Pai celestial: “Depois de três dias o encontraram no templo, sentado entre os mestres, ouvindo-os e lhes fazendo perguntas. E todos que o ouviam ficavam maravilhados com seu entendimento e suas respostas” (Lc 2.46,47). Até mesmo os mestres da lei ficaram maravilhados com o entendimento desse garoto de doze anos chamado Jesus. Se estamos em Cristo, então sabemos que fomos adotados como filhos. Se estamos em Cristo, então sabemos que o livro de Provérbios não nos dá apenas orientações práticas para a vida. Ele nos ajuda a saber o que significa posicionar nossa vida no temor do Senhor e, então, percorrer seus caminhos como filhos de Deus, para que possamos crescer em sabedoria, estatura e graça, assim como Cristo cresceu. A sabedoria de Deus é preciosa. Devemos buscá-la como o tesouro que ela realmente é (Pv 2.1-5). E, se encontrarmos sabedoria, devemos dar a Deus toda a glória, porque somente ele dá sabedoria (Pv 2.6). Agora vamos nos debruçar sobre duas conhecidas histórias dos Evangelhos e sobre uma passagem da Carta de Paulo aos Colossenses. “… ELE VEIO ATÉ ELES ANDANDO SOBRE O MAR…” (Mc 6.45-52) Em Marcos 6, Jesus realiza diversos milagres que ajudam a revelar sua identidade como Filho do Deus vivo. Ele alimenta cinco mil pessoas (6.30-44) e cura os doentes (6.53-56). Entre esses episódios de milagres está o de Jesus caminhando sobre as águas (6.45-52). Nessa seção, há uma declaração um pouco enigmática: “E ele viu que eles [os discípulos] estavam remando com dificuldade, porque o vento estava contra eles. E pela quarta hora da noite ele veio até eles andando sobre o mar. Ele pretendia passar por eles” (6.48). Jesus anda sobre o mar em direção aos seus discípulos que estavam passando por dificuldades, e eles falham em reconhecê-lo. Eles pensaram que fosse um fantasma! Mas por que Marcos dirige nossa atenção ao fato de que Jesus, aquele que “… veio até eles andando sobre o mar…”, também “… pretendia passar por eles”? A teologia bíblica esclarece a resposta a essa questão. Marcos faz alusão aos textos do Antigo Testamento que deixam mais explícita a identidade de Jesus para os seus leitores. A maioria das Bíblias de estudo incluem referências cruzadas que ajudam os leitores a notar as alusões ao Antigo Testamento; portanto, habitue-se a sempre checar essas referências. Vamos examinar brevemente essas conexões canônicas. O mesmo verbo (“passar”) é usado com frequência no Antigo Testamento a fim de descrever uma teofania, isto é, uma manifestação da presença de Deus ao seu povo. No Monte Sinai, o Senhor respondeu ao pedido de Moisés para ver a glória divina “passando por” ele (Êx 33.17-23; 34.6). Deus diz que vai “passar por” Moisés para revelar sua glória a fim de revelá-la indiretamente, porque “… o homem não me verá e continuará vivo” (Êx 33.20). O Senhor também “passou” pelo profeta Elias: “… E eis que o SENHOR passou, e um grande e forte vento partiu os montes e despedaçou os penhascos diante do SENHOR…” (1Rs 19.11). Há ainda outra conexão canônica com Marcos 6.48 encontrada no livro de Jó: … como pode um homem estar certo diante de Deus? Se alguém quisesse contender com ele, não poderia lhe responder uma vez entre mil. Ele é sábio no coração e poderoso em força — quem tentou resistir-lhe e teve êxito? — ele, que remove montanhas, e elas não sabem disso, quando ele as inverte em sua ira, que sacode a terra do lugar, e seus pilares estremecem; que dá ordens ao sol, e o sol não se levanta; que oculta as estrelas; que sozinho estendeu os céus e andou sobre as ondas do mar; que fez a Ursa e Órion, as Plêiades e as constelações do sul; que fez grandes coisas insondáveis, e maravilhas imensuráveis. Eis que ele passa por mim, e eu não o vejo; segue em frente, mas eu não o percebo (Jó 9.2-11). Veja que o Deus Criador é aquele que fez grandes coisas insondáveis, e maravilhas imensuráveis (Jó 9.10). Apenas ele dá ordens ao sol e às estrelas. Além disso, curiosamente, ele também é aquele que caminha sobre as ondas do mar. Essa gloriosa descrição de Deus conecta-se a uma humilde confissão no versículo 11: Eis que ele passa por mim, e eu não o vejo; segue em frente, mas eu não o percebo. Em outras palavras, o Deus infinitamente glorioso está além da compreensão humana. A glória de Deus é misteriosamente incompreensível. O que essas conexões canônicas significam na nossa compreensão de Marcos 6.48? Ainda que Jesus caminhando sobre o mar seja uma manifestação de sua glória e poder divinos, ele permanece além da plena compreensão de seus discípulos (veja Mc 6.51,52). Contudo, as palavras confortantes de Jesus aos seus discípulos — “Sou eu [lit., “EU SOU”]. Não tenham medo” (Mc 6.50) — ecoam o divino nome do Deus de Abraão, Isaque e Jacó, revelado a Moisés na sarça ardente de Êxodo 3.14. Marcos, portanto, está identificando Jesus como o Filho de Deus, o SENHOR encarnado. Os milagres em Marcos 6 apontam para sua identidade como aquele que é totalmente glorioso, que faz “… maravilhas imensuráveis”, que anda “… sobre as ondas do mar”. E, à medida que prosseguimos na leitura de Marcos, descobrimos que este mesmo Jesus é aquele que se revela definitivamente em toda a sua glória em uma cruz romana ensanguentada (Mc 15.39). “EU SOU O BOM PASTOR…” (Jo 10) Em João 10, vemos Jesus debatendo com os fariseus (Jo 9.40). Ele acabou de realizar um incrível sinal no capítulo 9, a cura de um cego de nascença, e agora prossegue ao explicar sua identidade aos fariseus, que se recusam a aceitar suas palavras. Ao longo do capítulo, Jesus usa várias imagens do Antigo Testamento para pintar seu autorretrato messiânico. Diferente dos “ladrões” e “saqueadores” que vieram antes, Jesus se refere a si mesmo como o “bom pastor”: Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas. Aquele que é empregado, e não um pastor, e a quem as ovelhas não pertencem, vê o lobo vindo e abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e as dispersa. Ele foge porque é um empregado e não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom pastor. Conheço os meus e os meus me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. Tenho outras ovelhas que não são desse aprisco. Eu devo trazê-las também, e elas escutarão a minha voz. Haverá, então, um só rebanho, um só pastor (Jo 10.11-16). Enfim, em João 10.19-30, Jesus novamente se dirige aos judeus e retoma as imagens da ovelha e do pastor, declarando: Minhas ovelhas escutam a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou vida eterna, e elas nunca perecerão, e ninguém as arrancará de minha mão. Meu Pai, que as deu para mim, é maior que tudo, e ninguém écapaz de arrancá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um (Jo 10.27-30). Contudo, é a declaração final (“Eu e o Pai somos um”) que provoca a chocante reação de seus ouvintes: “Os judeus pegaram pedras novamente para apedrejá- lo” (Jo 10.31). Assim, parecem ser duas as mensagens principais de Jesus nessa seção: “Eu sou o bom pastor…” (Jo 10.11) e “… Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30). Tanto o impacto de suas reinvindicações quanto a reação de seus oponentes são esclarecidos quando vistos pelas lentes da teologia bíblica. Que conexões, portanto, podem ser feitas a partir de João 10? Ao usar as referências cruzadas, rapidamente descobrimos as várias alusões de Jesus à profecia de Ezequiel 34. Nessa passagem, o Senhor denuncia os falsos pastores e líderes espirituais de Israel. Ele diz a Ezequiel: “… profetiza contra os pastores…” (34.2). O próprio Senhor está “… contra os pastores…” (Ez 34.10), assim como Jesus está contra os fariseus. Mais duas verdades surgem em Ezequiel 34. Primeiro, o próprio Senhor será o Bom Pastor de seu povo: “Eu mesmo serei o pastor do meu povo, e eu as farei descansar, diz o SENHOR Deus” (34.15). O próprio Senhor pastoreará seu povo e alimentará suas ovelhas (34.14). Segundo, o vindouro rei davídico também será o bom pastor de seu povo: “E colocarei sobre eles um pastor, meu servo Davi, e ele os alimentará: ele os alimentará e será o pastor deles. E eu, o SENHOR, serei o Deus deles, e meu servo Davi será príncipe entre eles. Eu sou o SENHOR; eu falei” (34.23,24). O Messias vindouro pastoreará seu povo e alimentará suas ovelhas. A profecia de Ezequiel 34, então, levanta uma questão provocadora: O futuro bom pastor do povo de Deus será o próprio Senhor ou um futuro rei davídico? Jesus responde a esse mistério em João 10. Jesus é o Messias prometido, o rei davídico, que é o Bom Pastor de seu povo. Mas Jesus também é “um com o Pai”. Ele é o próprio Deus. Em outras palavras, o Senhor e o rei davídico em Ezequiel 34 são a mesma pessoa. Jesus é a eterna Palavra feita carne (Jo 1.14), que estava no princípio com Deus e que era Deus (Jo 1.1). Em Ezequiel 34, o Senhor também faz uma promessa: “Eu resgatarei minhas ovelhas…” (34.22). Como esse resgate acontecerá? Mais uma vez, Jesus responde a isso em João 10: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas…” (10.11). Em Jesus, a Palavra feita carne e o Messias prometido, a esperança de Ezequiel 34 é cumprida. Em Jesus, o povo de Deus encontrou seu Bom Pastor; e, sendo o bom pastor, Jesus busca e alimenta o seu povo. E o mais espantoso de tudo: Jesus resgata seu povo ao dar sua vida por ele em uma cruz. Jesus, portanto, é o Bom Pastor que cuidará do seu povo para sempre (Ap 7.17). “ELE NOS RESGATOU DO DOMÍNIO DAS TREVAS…” (CL 1.12-14) O Êxodo do povo de Deus do Egito é o maior ato de libertação divina no Antigo Testamento, o exemplo máximo do poder salvador do Senhor. Os autores do Antigo Testamento fazem alusões frequentes ao Êxodo como um meio de lembrar o povo de Deus que nada é impossível para Deus. O Êxodo também se torna uma imagem do que Deus fará por seu povo no futuro. Você pode ler esse tema do “novo êxodo” nos livros proféticos, especialmente em Isaías (Is 11.11,15,16; 14.1,2; 62.11,12). Eles retratam que está por vir uma operação de resgate ainda maior. Esse é um fio brilhante na tapeçaria da Escritura, de Gênesis a Apocalipse. Isso nos leva a Colossenses 1.12-14. Como veremos, o apóstolo Paulo se vale do tema do Êxodo para encorajar os seus leitores a darem graças a Deus, o Pai, pelo que ele realizou por meio de Jesus Cristo, seu Filho amado. Esses versículos são o trecho conclusivo de uma oração de abertura de Paulo. Embora Paulo não tenha iniciado a igreja de Colossos (cf. Cl 2.1-5), ele se deleitava na obra do evangelho que Deus estava operando no meio daquela igreja. Ele, então, começa sua carta, como sempre faz, agradecendo a Deus (1.3- 8) e intercedendo pela congregação (1.9-14). Imediatamente depois de sua oração, Paulo faz uma transição para uma gloriosa explanação sobre a preeminência do Filho de Deus, aquele que é Senhor tanto da criação (1.15-17) quanto da nova criação (1.18-20). Sua oração em favor dos colossenses transborda ecos do Êxodo: Assim, desde o dia em que o escutamos, não cessamos de orar por vocês, pedindo que sejam cheios do conhecimento da vontade dele em toda sabedoria e entendimento espiritual, de modo que possam andar de maneira digna do Senhor, agradando totalmente a ele: frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus; sendo fortalecidos com todo poder, de acordo com o glorioso poder dele, para toda perseverança e paciência com alegria; dando graças ao Pai, que capacitou vocês a compartilharem da herança dos santos na luz. Ele nos libertou do domínio das trevas e nos transportou para o reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, o perdão dos pecados (Cl 1.9-14). Vamos examinar as várias conexões textuais com o Êxodo nessa passagem. No versículo 12, Paulo diz que Deus “… capacitou vocês a compartilharem da herança dos santos [no reino da] luz”. Deus “capacitou” ou “equipou” um povo para uma herança. Observe o “vocês”; isso é importante, porque Paulo muda para “nós” no versículo seguinte. No versículo 12, ele parece estar falando à sua primeira audiência de gentios em Colossos que Deus fez de “vocês” — até mesmo vocês — herdeiros dele! Em Cristo, Deus fez de gentios, herdeiros, santos no reino da luz. Essa linguagem de “herdeiros” e “herança” é usada no Antigo Testamento para se referir a judeus sob a antiga aliança (Nm 26.52-56). Aqui, porém, Paulo vale- se da mesma linguagem para se referir aos crentes gentios sob a nova aliança. O que Deus fez para cumprir isso para seu povo? Paulo responde: “Ele nos libertou do domínio das trevas e nos transportou para o reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, o perdão dos pecados” (Cl 1.13,14). Em outras palavras, a dádiva de Deus de uma herança para o povo de sua nova aliança foi garantida por um êxodo novo e maior. Ele resgatou e transportou seu povo de um domínio de trevas para seu glorioso reino, o reino do seu Filho amado. A linguagem do versículo 13 lembra o que Deus disse a Moisés em Êxodo 6.6-8: Diga, portanto, ao povo de Israel: “Eu sou o SENHOR, e eu os tirarei da servidão dos egípcios, e os livrarei da escravidão deles, e os redimirei com braço estendido e com grandes atos de juízo. Eu os tomarei para serem meu povo e serei o seu Deus, e vocês saberão que sou o SENHOR, seu Deus, que os tirou da servidão dos egípcios. Eu os trarei para a terra que jurei dar a Abraão, Isaque e Jacó. Darei a vocês essa terra como posse. Eu sou o SENHOR. Israel era servo de um senhor cruel no Egito. Eles foram escravizados. Deus, porém, resgatou Israel da servidão por meio de sua mão poderosa (Êx 14.30). E agora, diz Paulo, Deus fez em Cristo algo que é ainda maior. Ele agora libertou seu povo de uma servidão ainda maior e de trevas ainda maiores (At 26.18). Como ele fez isso? Por meio da cruz de Cristo: “Ele despojou os governos e as autoridades, e os expôs à vergonha pública ao, nele, triunfar sobre eles” (Cl 2.15). Em Cristo, o povo de Deus teve “redenção” (1.14). Cristo garantiu a libertação de seu povo da servidão ao se tornar o resgate redentor para ele na cruz (Mc 10.45). Como a teologia bíblica nos ajuda a estudar Colossenses 1.12-14? Paulo quer que os colossenses (e nós!) deem graças a Deus por essa grande salvação. Com esse fim, ele se vale da linguagem de Êxodo para descrever um novo êxodo que Deus realizou por meio da morte de Cristo na cruz. Paulo quer que seus leitores conectem essas duas grandes obras salvadoras de Deus: o Êxodo e a cruz. Contudo, o apóstolo também quer se certificar de que vemos a cruz de Cristo como maior até mesmo que o Êxodo. Isso deve encher nossas bocas com ações de graça e nossos corações com louvor. Jesus, como Filho de Deus, entendia a si mesmo como seguindo as pegadas de Israel, o primeiro “filho” de Deus no Antigo Testamento. Assim como Israel,Jesus saiu do Egito (Mt 2.13-15). Como Israel, Jesus passou pelas águas. Como Israel, Jesus foi testado no deserto. No Evangelho de Lucas, a obra salvadora de Cristo é descrita com a linguagem do Êxodo. De que modo? Em Lucas 9.22, Jesus diz aos seus discípulos que ele está indo para Jerusalém para sofrer e morrer, e ressuscitar no terceiro dia, a fim de salvar seu povo. Apenas alguns versículos depois, Lucas se refere ao que Jesus estava pra realizar como sua “partida”, o seu êxodo (Lc 9.31). Esse êxodo que Jesus estava para realizar aconteceria em Jerusalém durante a Páscoa. Jesus se ofereceu na cruz como o Cordeiro de Deus sem mancha, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29), e ele cumpriu todos os tipos e sombras do Êxodo e da Páscoa. Seu sangue foi derramado para cobrir os pecados de seu povo, absorvendo a ira que eles mereciam, e ainda assim nenhum de seus ossos foi quebrado (Êx 12.46; Jo 19.36). Cristo, como o nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado, trazendo um êxodo novo e maior para o seu povo (1Co 5.7). Cristão, você é grato por essa grande salvação, por esse êxodo novo e maior que Deus operou por meio de seu Filho em seu favor? A principal aplicação que deveríamos inferir dessa passagem é lembrar e agradecer. Por que Paulo usa a linguagem do Êxodo no contexto de uma oração de ação de graças? Em parte, é por causa da reação de Israel ao que Deus fez por eles. Em vez de dar graças, eles resmungaram contra Deus; esqueceram sua obra salvadora. As alusões de Paulo ao êxodo são dadas no contexto de chamar os colossenses a dar graças pelo novo êxodo que eles experimentaram em Cristo. Israel foi redimido, ainda que tenha resmungado. Em Cristo, somos redimidos. Daremos graças por causa disso, ou iremos murmurar e reclamar? RECURSOS RECOMENDADOS Aqui você encontrará livros, artigos e recursos em áudio para auxiliar seu crescimento no estudo da teologia bíblica. Esses recursos estão listados do mais simples ao mais avançado. HELM, David; SCHOONMAKER, Gail. The big picture story Bible (Wheaton: Crossway, 2004). ROBERTS, Vaughan. God’s big picture: tracing the storyline of the Bible (Downers Grove: InterVarsity, 2002). BRUNO, Chris. The whole story of the Bible in 16 verses (Wheaton: Crossway, 2015). HELM, David R. Expositional preaching: how we speak God’s Word today (Wheaton: Crossway, 2014). ______. Pregação expositiva: proclamando a Palavra de Deus hoje. Tradução de Rogério Portella (São Paulo: Vida Nova, 2016). Tradução de: Expositional preaching: how we speak God’s Word today. CHARLES Simeon Trust workshops: http://simeontrust.org/. GOLDSWORTHY, Graeme. According to plan: the unfolding revelation of God in the Bible (Nottingham: Inter-Varsity, 1991) ______. Introdução à teologia bíblica: o desenvolvimento do evangelho em toda a Escritura (São Paulo: Vida Nova, 2018). Tradução de: According to plan: the unfolding revelation of God in the Bible. ______. The gospel and kingdom: a Christian interpretation of the Old Testament (Carlisle: Paternoster, 1994). ______. Trilogia: o evangelho no reino, o evangelho no Apocalipse e o evangelho e a Sabedoria (São Paulo: Shedd, 2016). SAILHAMER, John H. NIV compact Bible commentary (Grand Rapids: Zondervan, 2009). LEEMAN, Jonathan. “The soteriological mission”. In: SEXTON, Jason S., org. Four views on the church’s mission (Grand Rapids: Zondervan, 2017). CARSON, D. A. The God who is there: finding your place in God’s story (Grand Rapids: Baker, 2010) ______. O Deus presente: encontrando seu lugar no plano de Deus. Tradução de Francisco Wellington Ferreira (São José dos Campos: Fiel, 2012). 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ÍNDICE DE PASSAGENS BÍBLICAS Gênesis 1 35 1 e 2 37-8, 102 1.1 35-7 1.4 38 1.10 38 1.12 38 1.21 38 1.25 38 1.27 36 1.28 36 1.31 38 2.15 36 2.15-17 37 2.17,18 38 3 38-9, 136 3.1 38, 96 3.6 39, 96 3.12 40 3.14-19 40 3.15 40, 66 3.24 54 6—8 41 6.5 41, 134 6.8 41 8.21 134 9.8-17 102 9.11 41 11.1-9 136 11.4 41, 136 12 44 12.1-3 102-36 12.2,3 42 13.15 49 15 43 15.1-21 102 15.6 43 17 107 17.1-14 102 17.4-6 136 17.6 42 17.16 42 22.17,18 43, 136 35.11 43-4 49 43 49.9-12 50 49.10 43, 91 Êxodo 1 e 2 44 1.7 44 2.23,24 44 3 45 3.8 49 3.12 46 3.14 145 4.22 46, 95-6, 116 6.6-8 151 12 45 12.1-13 106 12.46 152 14 45 14.21-31 96 14.30 151 15.11 46 15.18 46 19—25 102 19.4-6 46, 116 20.2,3 78 25 48 32 47 33.17-23 143 33.20 143 34 47 34.6 143 34.15,16 91 Levítico 11—15 86 13—15 86-8, 89 13.45 87 13.46 87 15.31 87 19 104 19.2 46, 116 19.19 103 26.33 55 Números 3.8 36 11.29 48 14.11 47 26.52-56 150 Deuteronômio 1.32 47 4.4-6 47, 116 4.6 140 6.13 95 6.16 95 7.3,4 91 8.2 96 8.2,3 95 8.3 95 9.23 47 17.14-20 52 17.18-20 140 18.15 64, 134 18.18 134 27.26 134 28 133 28.1-6 131-2 28.1-14 133 28.15-68 133 28.20-24 115 28.63,64 116 28.63-67 55 29 e 30 134 30.3,4 59 30.6 48, 134 31.16 133 31.20,21 47 31.21 134 31.24-29 133 31.29 47 34.10-12 64 Josué 1—5 50 1.2,3 49 6—12 50 13—21 50 21.43-45 49 22—24 50 23.14 49 Juízes 2.11-13 50 2.16 92 2.18 92 3.6 91 13—16 91 13.1-5 92 13.24 92 13.25 92 14.3 91 14.6 92 14.19 92 15.14 92 16.1 91 16.4,5 91 16.5 92 16.21 92 16.23-25 92 16.28 92 16.29 92 16.30 92 17.6 50,92 18.1 50, 92 19.1 50, 92 21.25 50, 92 1Samuel 13.14 50 16.1 91 16.1-13 53 16.4 91 16.13 91 17 90 17.4-7 91 17.8,9 91 17.24 91 17.26 91 17.36 91 17.45,46 91 17.48-51 91 17.52-54 91 2Samuel 7 53, 102 7.11-13 51 1Reis 4.29,30 140 8.27 51 8.56 52 10 51 10.23,24 51 11.3 52 11.5-10 52 11.11-13 53 12.16-20 53 14.15 54 19.11 143 2Reis 17.7,8 53 17.13-15 54 17.17 55 17.18 54 17.23 54 1Crônicas 29 51 2Crônicas 6.26 115 6.28 115 7.11 115 7.12 115 7.13 115 7.13,14 115 7.14 24, 114 9.13-21 52 9.25-28 52 Esdras 7.10 110 Neemias Jó 9.2-11 144 9.10 144 9.11 144 Salmos 2.1-3 137 8 105 16 53 19.10 128 47 135-7 47.1 135-8 47.2 135 47.6 135 47.6,7 135 47.7 135 47.8 136 47.8,9 137 47.9 137 48.1-3 51 48.9-11 51 90 108 90.2 108 90.2,3 108 90.4 108 90.5,6 108 90.7,8 108 90.11 108 90.13,14 108 90.16,17 108 93.1 136 95 47, 105 95.3 136 97.1 136 99.1 136 103.19 35 110 53 137.1-4 55 Provérbios 1.1 139 1.7 139 1.8 140 2.1-5 142 2.1-6 138-9 2.5 139 2.6 139-42 Isaías 9.6,7 53-9 11.1,2 141 11.1-3 59 11.11 148 11.15,16 148 14.1,2 148 49.5 59 49.6 59 50.4,5 141 52.10 59 52.12—53.12 78 53.5 60 62.11,12 148 65.17 37, 59, 82 66.22 82 66.22,23 59 Jeremias 3.1,2 91 16.13-15 57 25.1-12 105 31.27-34 102 31.33 134 31.33,34 58 32.39,40 134 52 100 Lamentações 3.1,2 56 3.23 56 3.42-47 56 Ezequiel 11.19 134 34 147-8 34.2 147 34.10 147 34.14 147 34.15 147 34.22 148 34.22,23 53 34.23 58 34.23,24 147 36.24-28 102 36.26,27 134 36.26-2859 Daniel 9—12 105 9.2 105 Oseias 6.7 102 Joel 2.28,29 59 Miqueias 6.8 24 Habacuque 1.5 58 3.2 58 3.17,18 58 Mateus 1.1 63 1.21 64 1.22,23 63 2.13-15 152 4.4 119 5.11,12 76, 121 5.17 61, 134 8.12 56 8.23-27 65 8.23—9.8 65 8.28-34 65 9.1-8 65 12.42 141 13 64 13.54 141 16.19 70 18.15-17 124 18.18 70 20.25-28 68 22.13 56 22.45 53 25.30 56 25.40 119 26.27-30 102 26.28 66 27.46 66 28 44 28.5-7 67 28.17,18 68 28.18-20 15, 68-9, 123 Marcos 1.15 64, 122 6 142-5 6.30-44 142 6.45-52 142 6.48 143-5 6.50 145 6.51,52 145 6.53-56 142 10.33,34 68 10.45 66, 151 11.24 23 15.39 145 Lucas 2.40 141 2.46,47 142 2.49 141 3.21 96 3.22 64, 95 3.38 95 4.1,2 64, 96 4.1-13 40, 64, 93, 96 4.3,4 96 5.12,13 88 5.32 122 7.16 134 8.43,44 88 9.22 152 9.31 67, 152 11.31 141 15.7 121 15.10 121 20.41-44 91 22.20 66, 134 23.34 92 24 22-8 24.15,16 28 24.19-24 28 24.25 61 24.25-27 29 24.27 61 24.31 34 24.32 34, 129 24.44 61 24.44-47 29 24.44-49 19 24.45 34 24.47 21 24.50,51 69 João 1.1 148 1.9 63 1.10,11 65 1.14 48, 63, 148 1.18 63 1.29 45, 67, 152 1.36 106 3.16-18 68 3.36 111 5.39,40 18 9 145 9.40 145 10 145-7, 148 10.11 147-8 10.11-16 146 10.19-30 146 10.27-30 146 10.30 147 10.31 146 13.35 125 14.6 122 16.7-11 70 16.33 112 18.36 65 19.36 67, 106-52 Atos dos Apóstolos 1.3 72 1.8 70-2 2.1-41 70 2.22-24 70 2.29-31 53 2.33-36 70 2.37-41 122 2.41 71 3.19 122 6.7 72 8.4 117 8.22 122 9.1 71 9.15 71 9.31 71 12.24 72 13.22 50 13.47 59 16.5 72 17 31 17.2,3 31 17.3 31 17.11 32 17.12 31 17.26 117 17.30 122 19.20 72 26.18 151 26.20 122 28.23 72 28.31 72 Romanos 1—11 77 1.16 119-25 1.32 120 3.25 48 5 38 5.12-21 37 5.14 106 6.1-4 120 6.23 56 8.21 39 10.1 125 10.13 125 10.17 124-5 11.2-6 42 12—16 77 12.2 120 1Coríntios 1.24 141 3.16,17 48 5.1-13 124 5.7 152 5.7,8 106 6.9,10 120 6.11 122 10.11 106-13 2Coríntios 1.20 67, 112 4.2 84 5.20 122 6.16 48 Gálatas 3.7-9 44 3.10 134 3.13 39 3.13,14 135 3.16 44, 112 6 107 6.15 107 Efésios 1—3 77 1.3 112 1.13,14 113 3.10 74, 117 4—6 77 4.12-14 124 4.13 15 4.15 15 Filipenses 2.6-8 66 2.8 96 3.20 57 Colossenses 1.3-8 149 1.9-14 149-50 1.12 150 1.12-14 45, 148-9 1.13 151 1.13,14 150 1.14 151 1.15-17 73, 149 1.15-20 38 1.17 34 1.18-20 149 1.20 74 1.28 90 2.1-5 149 2.3 112-41 2.6,7 74 2.11 134 2.15 151 3.23,24 125 2Tessalonicenses 1.7,8 79, 118 1Timóteo 1.15 112 2Timóteo 2.15 84 3.12 76, 121 3.15 90 3.16 33 3.16,17 73, 85 4.2 85 Tito 2.11-14 79 2.13,14 113 Hebreus 1.1-3 38 2.17 48 4.14,15 96 11 90 11.13 57 11.32-34 90 12.14 120 13.8 108 13.12 89 13.14 57 1Pedro 1.3-9 75 1.10-12 60-1, 129 1.13-16 75 1.13-17 117 1.14 113 1.14-16 77, 104 1.15b 77 1.19 106 2.4,5 48 2.9 74 2.9,10 117 2.11 57 2.12-17 126 2.21-25 78 2.22,23 96 3.20 42 4.10 15 4.11 84 2Pedro 1.4 114 1.20,21 33 2.5 42 3.13 80-2 1João 2.2 48 2.15 120 4.10 48 Judas 20-21 15 Apocalipse 4 e 5 137 4.8 137 5 137 5.6 106 5.9 137 5.9,10 80 5.13 138 7.17 148 20—22 35 20.10 79 21 e 22 48 21.1 81 21.4 81, 113 21.5 37 21.6-8 79, 119 21.16 48 21.22 48 9Marcas existe para munir os líderes da igreja com uma visão bíblica e recursos práticos, a fim de demonstrarem a glória de Deus às nações por meio de igrejas saudáveis. Com esse fim, queremos ver as igrejas sendo caracterizadas por estas nove marcas de saúde: 1Pregação expositiva 2Teologia bíblica 3Entendimento bíblico do evangelho 4Entendimento bíblico da conversão 5Entendimento bíblico da evangelização 6Entendimento bíblico da membresia na igreja 7Disciplina na igreja 8Discipulado bíblico 9Liderança bíblica na igreja Encontre mais informações no site http://pt.9marks.org. Cover Page Capa Citação Créditos Folha de rosto Dedicatória Sumário Prefácio da Série 9Marcas 1 A necessidade de teologia bíblica 2 O que é teologia bíblica? 3 Qual é a grande história da Bíblia? (primeira parte) 4 Qual é a grande história da Bíblia? (segunda parte) 5 A teologia bíblica molda o ensino da igreja 6 A teologia bíblica molda a missão da igreja Conclusão Apêndice: Outros exemplos bíblico-teológicos Recursos recomendados Índice de passagens bíblicas