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Romanceiro da Inconfidência Cecília Meireles, 1953 Cecília Meireles • Segunda Geração do Modernismo (1930-1945) • Poeta alusiva, musical, ligada às formas tradicionais da poesia ibérica (rimas e metros curtos) • Assunto: a passagem do tempo, a morte, a fluidez de todas as coisas = a condição temporal do homem. Romanceiro e Cecília Meireles Romance Gênero de poesia medieval = poema de caráter narrativo e popular. Conjunto da literatura de um povo Brasil Cecília vai a Ouro Preto a trabalho e se impressiona com a cidade, passa então 10 anos estudando a Inconfidência Mineira e o século XVIII, no Brasil. Ouro Preto, a Inconfidência e a Literatura Brasileira - “Vila Rica”, Cláudio Manuel da Costa séc. XVIII - “Gonzaga ou a revolução de Minas”, Castro Alves - Poemas diversos, Alphonsus de Guimarães 1924 = Caravana Modernista Oswald de Andrade; Mário de Andrade, Blaise Cendrars e Olívia Penteado - Diversos poemas, Oswald de Andrade - “Alguma poesia” e “Claro Enigma”, Carlos Drummond de Andrade Depois do século XIX, a Inconfidência Mineira foi interpretada como primeira manifestação de luta nacional contra a metrópole. Romantismo = sentimento nacionalista Criação de um imaginário literário: primeira revolta que tinha a ideia de Brasil livre Tiradentes = mártir pela liberdade • Joaquim José da Silva Xavier • No “Romanceiro”, é tido como predestinado desde criança, seu caráter é de um herói sonhador, que crê na justiça e na liberdade. História X Literatura • História documental: a Inconfidência Mineira e suas consequências. A vida dos escravos. • Poesia: supor como teriam os homens sentidos os fatos Inconfidência Mineira: reação aos altos impostos (“o quinto” e “derrama”) Libertar a Colônia + Instaurar a República (13 Colônias) • Romanceiro = escrito em ordem cronológica • Mistura gênero lírico (momentos de expressão do eu lírico), épico (narrativa dos fatos) e dramático (falas dos personagens) “Como escrevi o Romanceiro da Inconfidência” • Palestra proferida na Semana Santa, em Ouro Preto, 1955. • Primeira ideia era escrever uma peça de teatro “Quando, há cerca de quinze anos, cheguei pela primeira vez a Ouro Preto, o Gênio que a protege descerrou, como num teatro, o véu de recordações que, mais do que sua bruma, envolve estas montanhas e estas casas –, e todo o presente emudeceu, como plateia humilde, e os antigos atores tomaram suas posições no palco. [...] Na procissão dos vivos caminhava uma procissão de fantasmas[...]” “Deixei Ouro Preto – e seguiram comigo todos esses fantasmas.” O que dizem os fantasmas? “O passado traz consigo um index secreto que o remete para a redenção. Não passa por nós um sopro daquele ar que envolveu os que vieram antes de nós ? Não é a voz a que damos ouvidos um eco de outras já silenciadas ? As mulheres que cortejamos não têm irmãs que já não conheceram ? A ser assim, então existe um acordo secreto entre as gerações passadas e a nossa. Então, fomos esperados sobre esta Terra. Então, foi-nos dada, como a todas as gerações que nos antecederam, uma tênue força messiânica a que o passado tem direito. Não se pode rejeitar de ânimo leve esse direito.” “Articular historicamente o passado não significa reconhecê-lo “tal como ele foi”. Significa apoderarmo-nos de uma recordação (Erinnerung) quando ela surge como um clarão num momento de perigo. [...] Interessa fixar uma imagem do passado tal como ela surge, inesperadamente, ao sujeito histórico no momento do perigo. O perigo ameaça tanto o corpo da tradição como aqueles que a recebem. [...]. Cada época deve tentar sempre arrancar a tradição da esfera do conformismo que se prepara para dominá-la. Pois o Messias não vem apenas como redentor, mas como aquele que superará o Anticristo. Só terá o dom de atiçar no passado a centelha da esperança aquele historiador que tiver apreendido isto : nem os mortos estarão seguros se o inimigo vencer. E esse inimigo nunca deixou de vencer.” Querem contar as suas histórias, revelar as traições, as mentiras, as injustiças, as maldades, a ganância dos homens. Prestação de contas “Romanceiro da Inconfidência” • 85 romances • Falas (eu-lírico fala com os personagens) e cenários (descrição do ambiente) • Obra polifônica, além do eu lírico, outros personagens também falam (figuras importantes e populares) - A obra pode ser dividida em 5 partes: 1) Apresentação do lugar, descoberta do ouro, casos folclóricos, a ganância (romances 1- 19) 2) Planejamento da Inconfidência, traição, boatos e testemunhos mentirosos e prisão.(romances 20-47) 3) Morte de Tiradentes e Cláudio Manuel da Costa (romances 48-64) 4) Gonzaga e sua Marília, Alvarenga Peixoto(romances 65 a 80) 5) Rainha D. Maria, vinda da família real, culpa e loucura(romances 81 a 85) 1ª Parte • Fala Inicial • Apresentação do lugar = Vila Rica; • Descoberta do ouro e a ganância • Lenda de Chico Rei (escravo que era rei no Congo) • Donzela assassinada • Chica da Silva e João Fernandes • Tiradentes menino • Morte de D. José – fim da esperança Presença dos escravos, alusões à Santa Ifigênia “Não posso mover meus passos, por esse atroz labirinto de esquecimento e cegueira em que amores e ódios vão: - pois sinto bater os sinos, percebo o roçar das rezas, vejo o arrepio da morte, à voz da condenação; - avisto a negra masmorra e a sombra do carcereiro que transita sobre angústias, com chaves no coração; - descubro as altas madeiras do excessivo cadafalso e, por muros e janelas, o pasmo da multidão.” (Fala inicial) 1ª Parte “Nos sertões americanos, anda um povo desgrenhado: gritam pássaros em fuga sobre fugitivos riachos; desenrolam-se os novelos das cobras, sarapintados; espreitam, de olhos luzentes, os satíricos macacos. Súbito, brilha um chão de ouro: corre-se - é luz sobre um charco. [...] E, atrás deles, filhos, netos, seguindo os antepassados, vêm deixar a sua vida, caindo nos mesmos laços, perdidos na mesma sede, teimosos, desesperados, por minas de prata e de ouro curtindo destino ingrato, emaranhando seus nomes para a glória e o desbarato, quando, dos perigos de hoje, outros nascerem, mais altos. Que a sede de ouro é sem cura, e, por ela subjugados, os homens matam-se e morrem, ficam mortos, mas não fartos. (Ai, Ouro Preto, Ouro Preto, e assim foste revelado!)” 2ª Parte • Planejamento da Inconfidência 1789 • Tiradentes: guarda de rua, sabia medicina popular e removia dentes apodrecidos Popular e próximo do povo pobre de Vila Rica - Joaquim Silvério delata os amigos com a finalidade de ter suas dívidas perdoadas. Judas - Prisão de Tiradentes (romance 31) • Maio de 1789 (romance 37) todos presos • Fala dos populares: tropeiros, sapateiros, velhas “Atrás de portas fechadas, à luz de velas acesas, entre sigilo e espionagem, acontece a Inconfidência. E diz o Vigário ao Poeta: “Escreva-me aquela letra do versinho de Vergílio... E dá-lhe o papel e a pena. E diz o Poeta ao Vigário, com dramática prudência: “Tenha meus dedos cortados, antes que tal verso escrevam... LIBERDADE, AINDA QUE TARDE, ouve-se em redor da mesa. E a bandeira já está viva, e sobe, na noite imensa. E os seus tristes inventores já são réus - pois se atreveram a falar em Liberdade (que ninguém sabe o que seja).” 2ª Parte “Adeuses e adeuses... Talvez não regresse. (Mas que voz estranha para a frente o impele?) Cavalga nas nuvens. Por outros padece. Agarra-se ao vento... Nos ares se perde.. (E um negro demônio seus passos conhece: fareja-lhe o sonho e em sombra persegue o audaz, o valente, o animoso Alferes.)” “Que importa que o sigam e que esteja inerme, vigiado e vencido por vulto solerte? Que importa, se o prendem? A teia que tece talvez em cem anos não se desenrede Toledo? Gonzaga? Alceus e Glaucestes? - Nenhum companheiro seu lábio revele. Que a língua se cale. Que os olhos se fechem. (Lá vai para a frente o que se oferece para o sacrifício, na causa que serve. Lá vai para sempre o animoso Alferes!)” 3ª Parte • Mortede Tiradentes – pedra crisólita 1792 • Morte de Cláudio Manuel da Costa – assassinato ou suicídio • A Devassa Fala aos pusilânimes (covardes) Reflexão sobre o poder das palavras “Chega, porém, do profundo tempo, uma infinita voz de desgosto, e com o asco da decadência, entre o que seríeis e fostes, murmura imensa: “Os pusilânimes! “Os pusilânimes!” repete o breve passante do mundo, quando conhece a vossa história! Em céus eternos palpita o luto por tudo quanto desperdiçastes... “Os pusilânimes!” - suspira Deus. E vós, no fundo da morte, sabeis que sois - os pusilânimes. E fogo nenhum vos extingue, para sempre vos recordardes! Ó vós, que não sabeis do Inferno, olhai, vinde vê-lo, o seu nome é só - PUSILANIMIDADE.” 3ª Parte “Ai, palavras, ai, palavras, mirai-vos: que sois, agora? - Acusações, sentinelas; bacamarte, algema, escolta; - o olho ardente da perfídia, a velar, na noite morta; - a umidade dos presídios, - a solidão pavorosa; - duro ferro de perguntas, com sangue em cada resposta; - e a sentença que caminha, - e a esperança que não volta, - e o coração que vacila, - e o castigo que galopa... Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! Perdão, podíeis ter sido! - sois madeira que se corta, - sois vinte degraus de escada, - sois um pedaço de corda... - sois povo pelas janelas, cortejo, bandeiras, tropa... Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! Éreis um sopro na aragem... - sois um homem que se enforca!” 4ª Parte • Os maldizentes – acusam para lucrar • Tomás Antônio Gonzaga em Moçambique Juliana de Mascarenhas - Marília desconsolada, não crê que o amado a esqueceu - Alvarenga Peixoto degredado (Angola), deixa a esposa Bárbara Eliodora e duas filhas Morte de Maria Ifigênia “Não chores tanto, Marília, por esse amor acabado: que esperavas que fizesse o teu pastor desgraçado, tão distante, tão sozinho, em tão lamentoso estado?” A bela, porém, gemia “Só se estivesse alienado!” E a névoa da tarde vinha com seu véu tão delicado envolver a torre, o monte, o chafariz, o telhado..., Ah quanta névoa de tempo, longamente acumulado... Mas os versos Mas as juras Mas o vestido bordado! Bem que o coração dizia - coração desventurado - “Talvez se tenha esquecido... “ “Talvez se tenha casado...” Seu lábio, porém, gemia: “Só se estivesse alienado!” 5ª parte - Cenário – Rainha no Brasil - Morte de Marília, velha e solitária - A Rainha louca - culpa - Homenagem aos cavalos - Fala aos inconfidentes “(Sentada estava a Rainha, sentada em sua loucura. Que sombras iam passando naquela memória escura? Vagas espumas incertas sobre afogada amargura...) Andarão por estas casas tristes réus que já morreram... Longas lágrimas banharam as pedras desta Cadeia. Uma ferrugem de insônias desgastava as fortalezas. [...] (Sentada estava a Rainha, sentada, a olhar a cidade. Quando fora, tudo aquilo? Em que lugar? Em que idade? Vassalos, mas de que reino? Reino de que Majestade?)” 5ª parte “Grosso cascalho da humana vida... Negros orgulhos, ingênua audácia, e fingimentos e covardias (e covardias!) vão dando voltas no imenso tempo, - à água implacável do tempo imenso, rodando soltos, com sua rude miséria exposta... Parada noite, suspensa em bruma: não, não se avistam os fundos leitos... Mas, no horizonte do que é memória da eternidade, referve o embate de antigas horas, de antigos fatos, de homens antigos. E aqui ficamos todos contritos, a ouvir na névoa o desconforme, submerso curso dessa torrente do purgatório... Quais os que tombam, em crime exaustos, quais os que sobem, purificados?” Síntese • Apesar de se referir a um evento específico, as reflexões de Cecília no “Romanceiro da Inconfidência” dizem respeito à condição humana. Postura ética em relação ao passado • O estilo do Romanceiro não imita a poesia árcade, ele é mais nebuloso e com frequentes paradoxos e antíteses • Reflexões sobre a efemeridade do tempo fazer a justiça contando a história • O gênero medieval romance dá a possibilidade de Cecília expressar diversos pontos de vista, principalmente os mais populares História é construída por todos. Fuvest 2021 Fuvest 1996