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LUANA SILVEIRA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
GOVERNANÇA NA PRÁTICA DE ENFERMAGEM NA 
ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE 
 
 
Dissertação de mestrado acadêmico 
submetida ao Programa de Pós-Graduação 
em Enfermagem da Universidade Federal de 
Santa Catarina para obtenção do título de 
Mestre em Enfermagem. 
Área de Concentração: Filosofia e 
Cuidado em Saúde e Enfermagem. 
Linha de Pesquisa: Políticas, Gestão e 
Avaliação do Cuidado em Saúde e 
Enfermagem. 
Orientador: Prof. Dr. José Luís Guedes dos 
Santos. 
 
 
 
 
 
 
 
FLORIANÓPOLIS 
2019 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dedico este trabalho à minha família, por me 
ensinar os caminhos para o alcance dos meus 
sonhos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AGRADECIMENTOS 
 
À Universidade Federal de Santa Catarina, pela oportunidade de 
acesso a um ensino de excelência e por me acolher. 
Ao meu orientador, José Luís Guedes dos Santos, por ter 
acreditado em mim, compartilhar seus conhecimentos, guiar minha 
pesquisa, compreender minhas limitações e dificuldades e mesmo assim 
me incentivar a seguir em frente. 
Às professoras Selma Regina de Andrade e Alacoque Lorenzini 
Erdmann, que me oportunizaram ser aluna especial do Programa de 
Pós-Graduação em Enfermagem desta Universidade, na disciplina de 
Gestão e Política em Serviços de Saúde e Enfermagem, quando 
despertei o interesse em continuar minha trajetória acadêmica e tomei a 
decisão de participar do processo de seleção para este mestrado. 
Aos colegas do Laboratório de Pesquisa, Tecnologia e Inovação 
em Políticas e Gestão do Cuidado e Educação de Enfermagem e Saúde 
(GEPADES), pelas trocas de experiência, parceria em artigos e 
momentos de dificuldades, em especial a Caroline Peiter Chechinel, 
Greici Capelari Fabrizio e Márcia Daniele Schmitt por terem sido, além 
de colegas, amigas. 
A Deus que me deu sabedoria e fortaleza para traçar diferentes 
caminhos nesta jornada. Obrigada por renovar a minha Fé. 
 Ao meu marido João Augusto Brancher Fuck, que esteve ao 
meu lado nos momentos mais difíceis, compreendeu minha ausência e 
me fez acreditar que era possível, quando nem eu acreditava. 
 À minha família, que compreendeu minha ausência nos finais 
de semana, feriados e dias de festas, em especial meus pais, Fatima 
Maria Silveira, Jairo Luiz Silveira e Giancarlo Silveira. 
 À Secretaria Municipal de Saúde de Canelinha/SC e à empresa 
Qualirede® que incentivaram minha formação durante o período de 
mestrado. 
A todos os participantes da pesquisa, que contribuíram para a 
efetivação deste trabalho e compartilharam comigo suas mais diversas 
vivências profissionais. Obrigada pela confiança! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
RESUMO 
 
No Brasil, a prática de enfermeiros que atuam na Atenção Primária à 
Saúde está pautada em atividades assistenciais e gerenciais 
desenvolvidas concomitantemente. Os enfermeiros neste contexto 
promovem a organização das atividades da Estratégia Saúde da Família, 
gerenciamento da unidade básica de saúde e a realização do cuidado. No 
exercício gerencial, de enfermeiros que atuam na Atenção Primária à 
Saúde têm-se desenvolvido estratégias próprias de governança. Esta 
pesquisa teve como objetivo compreender como vem ocorrendo a 
governança na prática de enfermagem na Atenção Primária à Saúde. 
Trata-se de um estudo qualitativo, com o referencial teórico-
metodológico da Teoria Fundamentada nos Dados em sua vertente 
construtivista. O cenário de investigação foi a Atenção Primária à Saúde 
na microrregião de Tijucas/SC. A amostragem teórica foi composta por 
22 participantes divididos em três grupos amostrais: O primeiro 
composto por 13 enfermeiros, o segundo composto por três agentes 
comunitários de saúde e três técnicos de enfermagem e o terceiro 
composto por três gestores municipais de saúde. A coleta de dados 
ocorreu entre abril e julho de 2018, por meio de entrevistas intensivas. A 
análise dos dados foi realizada concomitante à coleta, seguindo as etapas 
de codificação inicial e focalizada, com auxílio do software NVIVO®. 
Do processo de análise dos dados, surgiram seis categorias: 
“Desenvolvendo atividades assistenciais”, “Gerenciando a unidade 
básica de saúde”, “Conquistando autonomia profissional”, 
“Organizando a interação entre os profissionais de saúde por meio do 
diálogo e trabalho em equipe”, “Tomando decisões coletivamente com a 
equipe de saúde” e “Lidando com limitações do contexto político-
organizacional”. A partir da inter-relação das categorias construiu-se o 
fenômeno: “Promovendo a funcionalidade da unidade básica de saúde”. 
Assim, evidenciou-se que a governança na prática de enfermagem na 
Atenção Primária à Saúde ocorre com a articulação de habilidades e 
competências do enfermeiro para a funcionalidade do ambiente de 
trabalho, em meio a limitações no contexto político-organizacional. 
Com a governança, o enfermeiro articula a realização do trabalho da 
equipe de saúde à realidade do contexto na busca de melhores 
resultados. Considera-se que a governança na prática de enfermagem 
tem impacto na integração dos profissionais e seu envolvimento nos 
processos decisórios que refletem na corresponsabilização para com o 
cuidado. 
 
Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Enfermagem; Gestão em 
Saúde; Teoria Fundamentada. 
 
 
ABSTRACT 
 
In Brazil, the practice of nurses working in Primary Health Care is based 
on assistential and managerial activities developed concomitantly. 
Nurses in this context promote the organization of Family Health 
Strategy activities, the management of the basic health unit and the 
implementation of care. In the management exercise of nurses who work 
in Primary Health Care, their own governance strategies have been 
developed. This research had as objective to understand how has been 
occurring the governance in the practice of nursing in Primary Attention 
to Health. This was a qualitative study, with theoretical-methodological 
reference anchored in the Constructivist Grounded Theory in its 
constructivist side. The research scenario was Primary Health Care in 
the Tijucas / SC micro-region. The theoretical sample consisted of 22 
participants divided into three sample groups: The first group consisted 
of 13 nurses, the second was composed of three community health 
agents and three nursing technicians, and the third was composed of 
three municipal health managers. The data collection took place between 
April and July of 2018, through intensive interviews. The data analysis 
was carried out concomitantly with the collection, following the steps of 
initial and focused coding, with the aid of NVIVO® software. From the 
data analysis process, six categories emerged: "Developing care 
activities", "Managing the basic health unit", "Conquering professional 
autonomy", "Organizing the interaction between health professionals 
through dialogue and teamwork" , "Making decisions collectively with 
the health team" and "Dealing with limitations of the political-
organizational context". From the interrelationship of the categories the 
phenomenon was created: "Promoting the functionality of the basic 
health unit". Thus, it was evidenced that the governance in nursing 
practice in Primary Health Care occurs through the articulation of 
nurses' skills and competences to the work environment functionality, 
amid limitations in the political-organizational context. With 
governance, the nurse articulates the accomplishment of the work of the 
health team to the reality of the contextin search of better results. It is 
considered that governance in nursing practice has an impact on the 
integration of professionals and their involvement in the decision-
making processes that reflect in the responsibility for care. 
Palavras-chave: Primary Health Care; Nursing; Health Management; 
Grounded Theory. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE FIGURAS 
 
Figura 1 - Principais marcos da Atenção Primária à Saúde no 
Sistema Único de Saúde. Florianópolis, 
2019................................................................................ 33 
Figura 2 - Codificação Inicial Software NVIVO® 11. Florianópolis, 
2019................................................................................ 53 
Figura 3 - Codificação Focalizada Software NVIVO® 11. 
Florianópolis, 2019........................................................ 54 
Figura 4 - Exemplo de memorando. Florianópolis, 
2019................................................................................ 55 
Figura 5 - Exemplo de diagrama. Florianópolis, 
2019................................................................................ 56 
Figura 6 - Modelo teórico. Florianópolis, 
2019................................................................................ 84 
Figura 7 - Representação gráfica da tomada de decisão coletiva 
como estratégia para governança de enfermagem na 
atenção primária à saúde. Florianópolis, 
2019.............................................................................. 102 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE QUADROS 
 
Quadro 1 - Relação dos manuscritos elaborados a partir dos 
resultados da pesquisa. Florianópolis, 2019............. 59 
Quadro 2 - Categorias e subcategorias do fenômeno. 
Florianópolis, 2019................................................... 64 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE TABELAS 
 
Tabela 1 - Distribuição de enfermeiros da Estratégia Saúde da 
Família na Microrregião de Tijucas/SC, 2018. 
Florianópolis, 2019........................................................ 50 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS 
 
ACS Agentes Comunitários de Saúde 
APS Atenção Primária à Saúde 
CAAE Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 
CBO Classificação Brasileira de Ocupações 
CEPON Centro de Pesquisas Oncológicas 
CIAP Classificação Internacional de Atenção Primária 
CNES Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde 
COREN Conselho Regional de Enfermagem 
DAB Departamento da Atenção Básica 
DATASUS Departamento de Informática do SUS 
DECS Descritores em Ciências da Saúde 
DST-AIDS Doenças Sexualmente Transmissíveis – Síndrome 
da Imunodeficiência Adquirida 
ESF Estratégia Saúde da Família 
eSF Equipe de Saúde da Família 
E-SUS Sistema de Informação da Atenção Básica 
GEPADES Laboratório de Pesquisa Tecnologia e Inovação em 
Políticas e Gestão do Cuidado e da Educação em 
Enfermagem e Saúde 
GT Grounded Theory 
HGT Hemoglicoteste 
HIPERDIA Grupo de pessoas com Hipertensão e Diabetes 
Mellitus 
NASF Núcleo Ampliado de Saúde da Família 
PACS Programa dos Agentes Comunitários de Saúde 
PMAQ/ PMAQ-
AB 
Programa de Melhoria do Acesso e Qualidade 
PNAB Política Nacional de Atenção Básica 
SAI Sistema de Informação Ambulatorial 
SIAB/ SISAB Sistema de Informação da Atenção Básica 
SUS Sistema Único de Saúde 
TFD Teoria Fundamentada nos Dados 
UBS Unidade Básica de Saúde 
UDESC Universidade do Estado de Santa Catarina 
UFSC Universidade Federal de Santa Catarina 
USF Unidade de Saúde da Família 
 
 
 
 
 
 
APRESENTAÇÃO 
 
O objetivo de pesquisa desta Dissertação é compreender como 
vem ocorrendo a governança na prática de enfermagem na atenção 
primária à saúde. 
Este estudo vincula-se à linha de pesquisa Políticas, Gestão e 
Avaliação do Cuidado em Saúde e Enfermagem do Programa de Pós-
Graduação em Enfermagem (PEN) da Universidade Federal de Santa 
Catarina (UFSC) e Laboratório de Pesquisa, Tecnologia e Inovação em 
Políticas e Gestão do Cuidado e Educação de Enfermagem e Saúde 
(GEPADES). 
Esta Dissertação está estruturada da seguinte forma: 
Capítulo 1 – Consta da introdução, em que problematizo e 
justifico o objeto de pesquisa, bem como apresento a questão de 
pesquisa. 
Capítulo 2 – Apresenta o objetivo da pesquisa. 
Capítulo 3 – Traz a sustentação teórica da pesquisa, que está 
organizada em quatro eixos: o Sistema Único de Saúde e a Atenção 
Primária à Saúde; atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde; 
Governança e enfermagem; e Complexidade organizacional. 
Capítulo 4 – Corresponde ao método empregado, um estudo 
qualitativo com o referencial teórico-metodológico da Teoria 
Fundamentada nos Dados. 
Capítulo 5 – Apresenta os resultados e a discussão, por meio do 
Manuscrito 1, intitulado “Governança na prática de enfermagem na 
Atenção Primaria à Saúde”, que corresponde ao modelo teórico sobre a 
temática; e do manuscrito 2, intitulado Tomando Decisões 
Coletivamente: estratégia de enfermeiros para a governança na prática 
de enfermagem na Atenção Primária à Saúde. Esse artigo é um recorte 
dos achados do estudo. 
Capítulo 6 – Nele está uma síntese dos principais resultados, 
sugestões, contribuições e limitações desta pesquisa. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
1 INTRODUÇÃO ................................................................................ 25 
2 OBJETIVO ....................................................................................... 30 
3 SUSTENTAÇÃO TEÓRICA .......................................................... 31 
3.1 O SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE E A ATENÇÃO PRIMÁRIA À 
SAÚDE ................................................................................................. 31 
3.2 ATUAÇÃO DO ENFEMEIRO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À 
SAÚDE ................................................................................................. 35 
3.3 GOVERNANÇA E ENFERMAGEM ............................................. 39 
3.4 COMPLEXIDADE ORGANIZACIONAL..................................... 41 
4 MÉTODO .......................................................................................... 46 
4.1 DELINEAMENTO DO ESTUDO .................................................. 46 
4.2 CONTEXTO DO ESTUDO ............................................................ 48 
4.3 PARTICIPANTES .......................................................................... 50 
4.4 ANÁLISE COMPARATIVA CONSTANTE ................................. 52 
4.5 USO DE MEMORANDOS E DIAGRAMAS ................................ 55 
4.6 VALIDAÇÃO DO MODELO TEÓRICO ...................................... 56 
4.7 PRINCÍPIOS ÉTICOS .................................................................... 57 
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO ..................................................... 59 
5.1 MANUSCRITO 1 ........................................................................... 60 
5.2 MANUSCRITO 2 ........................................................................... 98 
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................ 116 
REFERÊNCIAS ................................................................................ 118 
APÊNDICE A – ROTEIRO DE ENTREVISTA INTENSIVA – 
PRIMEIRO GRUPO FOCAL .......................................................... 135 
APÊNDICE B – ROTEIRO DE ENTREVISTA INTENSIVA – 
SEGUNDO GRUPO FOCAL ...........................................................137 
APÊNDICE C – ROTEIRO DE ENTREVISTA INTENSIVA – 
TERCEIRO GRUPO FOCAL ......................................................... 138 
APÊNDICE D – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E 
ESCLARECIDO ............................................................................... 139 
ANEXO A – DECLARAÇÃO DE CIÊNCIA E CONCORDÂNCIA 
DA INSTITUIÇÃO ........................................................................... 142 
ANEXO B – PARECER CONSUBSTNCIADO DO CEP ............. 143 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
25 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
A Atenção Primária à Saúde (APS), no Brasil, desenvolve-se 
por meio do exercício de práticas de cuidado e gestão, sendo estas 
democráticas e participativas, sob a forma de trabalho em equipes que 
compõem a Estratégia Saúde da Família (ESF), ponto central do modelo 
atual de saúde (BRASIL, 2017). Por meio da ESF, a organização do 
trabalho na APS é fundamentada para garantia da universalidade, do 
acesso e da integralidade (GALAVOTE et al., 2016). Caracteriza-se por 
ações de saúde em âmbito individual e coletivo, abarcando a promoção, 
proteção, prevenção de agravos, diagnóstico, tratamento, reabilitação, 
redução de danos e manutenção da saúde. Assim, tem como objetivo 
desenvolver uma atenção integral com impacto na saúde e autonomia 
das pessoas, além de influenciar nos determinantes e condicionantes de 
saúde das coletividades (BRASIL, 2012). 
No Brasil, a Política Nacional da Atenção Básica (PNAB), que 
estabelece a revisão de diretrizes e normas para a organização da 
atenção básica para a ESF e o Programa de Agentes Comunitários de 
Saúde (PACS), considera os termos Atenção Básica e Atenção Primária 
à Saúde como equivalentes (BRASIL, 2012a). O Descritor em Ciência 
da Saúde (DECS) aponta o termo Atenção Básica como sinônimo de 
Atenção Primária à Saúde e define como: 
A assistência sanitária essencial baseada 
em métodos e tecnologias práticas, 
cientificamente fundados e socialmente aceitáveis, 
postos ao alcance de todos os indivíduos e 
famílias da comunidade mediante a sua plena 
participação e a um custo que a comunidade e o 
país possam suportar, em todas e cada etapa do 
seu desenvolvimento, com um espírito de 
autorresponsabilidade e autodeterminação (DECS, 
2019). 
 
No contexto da APS, o enfermeiro realiza ações de prevenção e 
tratamento de doenças e agravos, promoção da saúde para pessoas de 
todas as faixas etárias na forma de demandas espontâneas e 
programadas. Além disso, planeja, gerencia e avalia as ações 
desenvolvidas pelos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), técnicos de 
enfermagem e Agentes de Combate a Endemias (ACE), contribui com a 
educação permanente e gerencia insumos (BRASIL, 2017). 
Os dados do Conselho Federal de Enfermagem indicam que há, 
no Brasil, 511.458 enfermeiros (COFEN, 2019). Destes, 51.280 constam 
http://decs.bvs.br/cgi-bin/wxis1660.exe/decsserver/?IsisScript=../cgi-bin/decsserver/decsserver.xis&previous_page=homepage&task=exact_term&interface_language=p&search_language=p&search_exp=Assist%EAncia
http://decs.bvs.br/cgi-bin/wxis1660.exe/decsserver/?IsisScript=../cgi-bin/decsserver/decsserver.xis&previous_page=homepage&task=exact_term&interface_language=p&search_language=p&search_exp=M%E9todos
http://decs.bvs.br/cgi-bin/wxis1660.exe/decsserver/?IsisScript=../cgi-bin/decsserver/decsserver.xis&previous_page=homepage&task=exact_term&interface_language=p&search_language=p&search_exp=Crescimento%20e%20Desenvolvimento
 26 
no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES, 2019) 
como Enfermeiros da ESF. Na Região Sul do Brasil, estão cadastrados, 
com esta descrição, no mês de dezembro de 2018, 7.324 profissionais e 
no Estado de Santa Catarina, 1.888 enfermeiros vinculados às 1.777 
Equipes de Saúde da Família (CNES, 2019). Ao encontro disso, a taxa 
de crescimento de enfermeiros entre 2008 e 2013 na APS no Brasil foi 
de 42% (CARVALHO et al., 2018). Esses números retratam a 
magnitude da inserção profissional dos enfermeiros no cenário de 
cuidado na APS. 
A inserção do enfermeiro e sua prática, tanto gerencial quanto 
assistencial, apontam destaque deste profissional nas equipes de saúde e 
na organização do trabalho no contexto mencionado (MATUMOTO et 
al., 2011; BACKES et al., 2012; FERNANDES; SILVA, 2013; 
HALCOMB et al., 2016; GALAVOTE et al., 2016). 
Estudos apontam que a atuação do enfermeiro na APS está 
pautada em duas vertentes: produção do cuidado e gestão, sendo esta 
última predominante. Dessa forma, além de competências técnicas, 
espera-se desses profissionais a execução de ações de acordo com as 
políticas públicas de saúde e gestão do trabalho. Estas ações referem-se, 
respectivamente, à busca pela universalidade, ampliação do acesso, 
integralidade, coordenação do cuidado e à liderança no processo de 
trabalho da equipe multidisciplinar (MATUMOTO et al., 2011; 
FERNANDES; SILVA, 2013; GALAVOTE et al., 2016). A Lei que 
regulamenta o exercício profissional do enfermeiro, publicada em 1986, 
também aponta para essa questão, ao estabelecer que o planejamento, 
organização, execução e avaliação dos serviços da assistência são 
privativos do enfermeiro, ou seja, estreita a relação da atuação do 
enfermeiro à prática gerencial (BRASIL, 1986). 
Em revisão integrativa da literatura, realizada por Halcomb et 
al. (2016), com o objetivo de relatar as habilidades dos enfermeiros que 
trabalham na Atenção Primária, foi identificado que, em países como 
Nova Zelândia, Austrália, Reino Unido, Tailândia, África do Sul, Brasil 
e Canadá, as práticas de enfermeiros neste contexto assemelham-se 
pelas suas habilidades clínicas e gerenciais, como: técnica de cuidado, 
boa comunicação, capacidade de resolutividade, trabalho em equipe, 
supervisão de equipes, educação continuada, orientações aos usuários e 
atuação no ensino de enfermagem, participação em pesquisas de 
avaliação e qualidade do trabalho de enfermagem, demonstrando 
domínio no uso de informações referentes à gestão, tecnologia e 
sistemas para informar cuidados clínicos (HALCOMB et al., 2016). 
Para Backes et al. (2012), o enfermeiro é considerado um profissional 
27 
 
fundamental como integrante da ESF, assumindo um papel cada vez 
mais autônomo e proativo no que se refere à identificação das 
necessidades de cuidado da população, bem como na promoção e 
proteção da saúde dos indivíduos. 
Diante da dimensão do caráter gerencial do enfermeiro, a 
governança é considerada um campo a ser explorado nas pesquisas 
relacionadas à gestão em enfermagem na América Latina, especialmente 
no contexto da APS (SANTOS et al., 2013a). Esse termo tem sido 
introduzido nas discussões que envolvem gestão/gerência de 
enfermagem, principalmente a partir dos anos 2000 (OLIVEIRA et al., 
2014). 
Para tanto, faz-se necessária a compreensão da inter-relação dos 
termos “gestão”, “gerência” e “governança” em suas diferentes 
dimensões. Motta (2007) descreve gestão e gerência como sinônimos, 
que compreendem a ação, o pensar e a decisão, levando a compreendê-
las como a arte de fazer acontecer e obter resultados que podem ser 
definidos, previstos, analisados e avaliados. Logo, gestão e gerência são 
tratadas como científicas e racionais, das quais procedem análises e 
relações de causa e efeito. Ainda que compreendidas como algo passível 
de imprevisibilidades e de interações humanas, o que lhes confere uma 
dimensão do intuitivo, do emocional e do espontâneo (MOTTA, 2007). 
Para Mororó et al. (2017), a gestão, ou gerenciamento, do 
cuidado é aplicada à articulação entre as dimensões gerencial e 
assistencial no processo de trabalho do enfermeiro. Assim, quando o 
enfermeiro atua na dimensão gerencial, ele desenvolve ações voltadas 
para a organização do trabalho e de recursos humanos cujo propósito é 
de viabilizar as condições adequadas tanto para a oferta do cuidado ao 
paciente, como para a atuação daequipe de enfermagem. No entanto, 
concluem que a articulação e integração da prática gerencial com o 
cuidado são características essenciais da gestão desse cuidado. 
Destacam ainda a liderança, o trabalho em equipe, a comunicação, a 
articulação e a cooperação exercida pelo enfermeiro com os integrantes 
da equipe de enfermagem, demais profissionais de saúde e usuário como 
características essenciais da gestão do cuidado (MORORÓ et al., 2017). 
A governança envolve as interações entre estruturas, processos 
e normas que determinam como o poder é exercido, como as decisões 
são tomadas e como os envolvidos têm responsabilidades sobre suas 
decisões (PLUMPTRE; GRAHAM, 1999). Um de seus princípios é a 
participação e a inclusão dos profissionais nos processos de gestão e 
tomada de decisão, nos quais estes devem estar tão comprometidos 
quanto os gestores com os resultados assistenciais a serem alcançados 
 28 
(ANTHONY, 2004). Ao contrário de governabilidade, que sugere 
atividades sustentadas por uma autoridade formal, a governança refere-
se a atividades apoiadas em objetivos comuns, que podem ou não 
derivar de responsabilidades legais e formais e que não dependem, 
necessariamente, do poder de autoridade para que sejam aceitas e 
vençam resistências (ANDRADE, 2012). 
Genericamente, governança é entendida como o 
estabelecimento, a aplicação e o cumprimento de regras. Apesar de o 
termo estar sendo equiparado por algumas organizações internacionais 
aos conceitos de diretoria, gestão e governabilidade, observam-se 
discrepâncias semânticas importantes entre elas (DÍAZ-CASTRO et al., 
2017). Na área da saúde, a maioria das definições tratam a governança 
como sendo o conjunto de funções que se adaptam à realidade e 
políticas que norteiam o serviço de saúde, bem como os resultados que 
são desejados. (DÍAZ-CASTRO et al., 2017). Para Dodgson et al. 
(2002), apesar de o termo ser utilizado de maneiras diferentes, como 
governança corporativa, clínica e boa governança, seu aspecto central é 
a capacidade de uma sociedade de promover ações coletivas e fornecer 
soluções para objetivos comuns. 
Em revisão integrativa da literatura sobre governança em 
enfermagem, Santos et al. (2013a) encontraram somente um artigo sobre 
governança na APS dentre os 25 analisados. Os autores destacaram que 
os impactos advindos da adoção de modelos de governança nos serviços 
de saúde e enfermagem apontam para a necessidade de realização de 
estudos sobre a temática na América Latina, com o intuito de analisar e 
avaliar sua pertinência e aplicabilidade em diferentes contextos. 
Entre os impactos advindos da adoção de modelos de 
governança para os serviços de saúde destacam-se: melhoria da 
qualidade assistencial, criação e manutenção de uma rede de 
comunicação entre os gerentes e os profissionais, promoção da liderança 
do enfermeiro, maior autonomia dos enfermeiros nos processos 
decisórios, maior satisfação profissional com diminuição da rotatividade 
entre enfermeiros, maior reconhecimento e visibilidade profissional dos 
enfermeiros e diminuição dos custos assistenciais (SANTOS et al., 
2013a). 
O Sistema Único de Saúde (SUS) tem como principais desafios 
a garantia da qualidade da atenção e a gestão eficiente. Logo, a produção 
do cuidado pelo enfermeiro e a sua inserção nos espaços de gestão deste 
sistema de saúde e de participação social assinalam para a pertinência da 
discussão sobre a temática da governança no contexto. 
29 
 
Além da importância das habilidades gerenciais pelos 
enfermeiros na APS e da lacuna sobre a relação da governança e a 
prática de enfermeiros na APS na literatura, o interesse por essa temática 
também está relacionado à minha trajetória acadêmica e profissional na 
enfermagem. Durante a Graduação em Enfermagem com ênfase em 
Saúde Pública, na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), 
percebia o trabalho do enfermeiro em Saúde da Família imerso na 
gestão do serviço, atuando como coordenador das equipes, do cuidado e 
também assumindo cargos de gestão de Secretarias Municipais de 
Saúde. 
Em 2011, iniciei minha vivência como enfermeira da ESF, 
desempenhando competências técnicas, atuando na coordenação do 
cuidado, sendo responsável pelo desenvolvimento dos instrumentos de 
planejamento e gestão municipais junto ao Ministério da Saúde (Plano 
Municipal de Saúde, Programação e Relatórios de Gestão). Inquietava-
me o fato de a gestão municipal não cumprir com seu papel gerencial, 
acontecendo apenas em movimentos para provimento e manutenção de 
recursos. Percebia que os processos decisórios, de planejamento, de 
monitoramento e de avaliação não eram compartilhados com os 
enfermeiros e demais profissionais, o que remete a um modelo de gestão 
centralizado e verticalizado, sem comprometimento e motivação dos 
envolvidos. 
A partir dessa vivência profissional, busquei aperfeiçoar minha 
prática realizando uma especialização em Saúde da Família, na 
modalidade de residência e com objetivo de compreender como 
aconteciam os processos de gestão em enfermagem e saúde, e desafiei-
me a ingressar no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da 
Universidade Federal de Santa Catarina, como membro do Laboratório 
de Pesquisa, Tecnologia e Inovação em Políticas e Gestão do Cuidado e 
da Educação em Enfermagem e Saúde (GEPADES). A partir disso e da 
inserção nas discussões sobre governança, surgiu o interesse pelo tema 
em questão. 
Diante dessas considerações, delineou-se como questão de 
pesquisa: Como vem ocorrendo a governança na prática profissional de 
enfermagem no contexto da Atenção Primária à Saúde? 
 30 
2 OBJETIVO 
 
Este estudo teve como objetivos: 
 Compreender como vem ocorrendo a governança na prática 
profissional de enfermagem no contexto da Atenção Primária à 
Saúde; 
 Elaborar um modelo teórico sobre a governança na prática do 
profissional de enfermagem no contexto da Atenção Primária à 
Saúde. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
31 
 
3 SUSTENTAÇÃO TEÓRICA 
 
Esta seção apresenta alguns conceitos e eixos de pensamento 
que dão sustentação teórica à problemática investigada. Para tanto, 
organizou-se o texto em quatro tópicos: 1) O Sistema Único de Saúde e 
a Atenção Primária à Saúde; 2) Atuação do enfermeiro na Atenção 
Primária à Saúde; 3) Governança e Enfermagem; e 4) Complexidade 
Organizacional. 
 
3.1 O SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE E A ATENÇÃO PRIMÁRIA À 
SAÚDE 
 
A Constituição Federal de 1988 considera a saúde como direito 
social da população e estabelece competências comuns para seu alcance 
entre as três esferas do governo (municipal, estadual e federal) para 
legislar sobre a proteção e defesa da saúde (BRASIL, 2016). A 
Constituição instituiu o SUS para operacionalizar essas determinações, 
sendo a Lei 8.080/1990 o marco legal que determina as Políticas do SUS 
no Brasil. A Lei surgiu com a busca de reformulação do sistema de 
saúde a partir das considerações da 8ª Conferência Nacional de Saúde 
em 1986, frente à situação de deterioração das condições de saúde 
pública, como epidemias de febre amarela, varíola, cólera, a mortalidade 
crescente e constante pela tísica (doença associada às condições de 
pobreza da população pelos médicos da época). Além de contribuir para 
a criação do SUS, foi ponto de partida para a participação popular com o 
intuito de avaliar a situação de saúde da população e propor diretrizes 
posteriormente consolidadas na Lei 8.142/90 (BRASIL, 2012). 
A Lei 8.080/1990 “Dispõe sobre as condições para a promoção, 
proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos 
serviços correspondentes e dá outras providências”. Regula as ações e 
serviços de saúde, em todo o território nacional, sejam elas executadas 
isoladamente ou conjuntamente, de caráter temporário ou permanente, 
por pessoas naturais ou jurídicasde direito público ou privado. 
Considera a saúde como direito fundamental do ser humano, cabendo ao 
Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício. No 
entanto, não exclui o dever das pessoas e famílias, das empresas e 
sociedade para com a saúde (BRASIL, 1990). 
Como forma de orientar os serviços de saúde, a legislação em 
questão adota princípios doutrinários fundamentais e organizacionais 
para o SUS, sendo a universalidade, integralidade e equidade os 
estruturantes da institucionalidade do sistema. Entre os organizacionais 
 32 
destaca-se a descentralização de meios e responsabilidades, com 
prioridade municipal de execução, além da participação social na 
elaboração e controle da política nacional. Estabelece como fatores 
determinantes e condicionantes da saúde: alimentação, moradia, 
saneamento básico, meio ambiente, trabalho, renda, transporte, lazer, 
acesso aos bens e serviços essenciais. Dessa forma, os níveis de saúde 
da população expressam a organização social e econômica do país 
(BRASIL, 1990). 
Após 21 anos da sua promulgação, em 2011, o Decreto 7.508 
regulamenta a Lei 8.080/1990. Dispõe sobre a organização do SUS por 
meio das Regiões de Saúde, o planejamento da saúde, a assistência à 
saúde e a articulação interfederativa, e dá outras providências. Nesse 
sentido, as Regiões de Saúde devem ser compostas por municípios 
limítrofes, por ato conjunto dos respectivos estados em articulação com 
os municípios. Sendo referência para as transferências de recursos entre 
os entes federativos. Para ser instituída, a Região de Saúde deve conter, 
no mínimo, ações e serviços de: atenção primária; urgência e 
emergência; atenção psicossocial; atenção ambulatorial especializada e 
hospitalar; e vigilância em saúde. A porta de entrada para as ações e 
serviços de saúde nas Redes de Atenção à Saúde deve dispor dos 
serviços de atenção primária; de atenção de urgência e emergência; 
atenção psicossocial; e especiais de acesso aberto. Sendo o acesso a 
estes serviços universal, igualitário, completando-se na rede 
regionalizada e hierarquizada, de acordo com a complexidade do serviço 
(BRASIL, 2011). 
As Redes de Atenção à Saúde (RAS) são consideradas arranjos 
organizativos de ações e serviços de saúde, de diferentes densidades 
tecnológicas que, integradas por meio de sistemas de apoio técnico, 
logístico e de gestão, buscam garantir a integralidade do cuidado 
(BRASIL, 2011). A APS desenvolve-se com o mais alto grau de 
descentralização e capilaridade da rede, sendo considerada principal 
porta de entrada no sistema e centro de comunicação da RAS, 
coordenadora do cuidado e ordenadora das ações e serviços 
disponibilizados na rede (BRASIL, 2017). 
Em âmbito internacional, as conferências sobre cuidados 
primários em saúde vêm sendo realizadas desde o final dos anos de 
1970. Em 1978 a primeira conferência internacional de saúde é chamada 
de conferência de Alma-Ata, que adotou o seguinte conceito de saúde: 
 
Estado de completo bem-estar físico, mental e 
social e não simplesmente a ausência de doença 
33 
 
ou enfermidade, é um direito humano 
fundamental e que a consecução do mais alto 
nível possível de saúde é a mais importante meta 
social mundial, cuja realização requer a ação de 
muitos outros setores sociais e econômicos, além 
do setor saúde (Declaração de Alma-Ata, 1978, 
p.1). 
 
A Atenção Primária, nessa conferência, foi entendida como ponto-
chave para alcançar essa meta e, para que fosse idealizada, este serviço 
deveria ser levado o mais próximo do local onde as pessoas vivem e 
trabalham (Declaração de Alma-Ata, 1978). 
No Brasil, o SUS é tido como uma conquista da sociedade civil, 
descrita anteriormente pelos marcos legais, que modifica os paradigmas 
até então utilizados para pensar a saúde da população, e busca-se 
representar na Figura 1 os principais marcos da APS neste sistema. 
 
Figura 1 - Principais marcos da Atenção Primária à Saúde no Sistema Único de 
Saúde. Florianópolis, 2019 
 
Fonte: elaborado pela autora (2019). 
 
Considerando a necessidade de revisar e adequar as normas da 
APS, para a ESF e PACS relacionado ao contexto social e econômico 
em constante transformação no Brasil, a Portaria 2.488, de 21 de 
outubro de 2011, aprova a Política Nacional da Atenção Básica 
(BRASIL, 2012). Em setembro de 2017, a Portaria 2.436 revoga a 
portaria anterior e aprova a Política Nacional da Atenção Básica com 
vistas à revisão da regulamentação de implantação e operacionalização 
 34 
vigentes, no âmbito do SUS, estabelecendo-se as diretrizes para a 
organização do componente Atenção Básica, na Rede de Atenção à 
Saúde (BRASIL, 2017). 
As principais alterações revisadas na atual portaria estão 
relacionadas com a integração da Vigilância em Saúde à APS, inclusão 
do Agente de Combate à Endemias nas equipes de saúde da família, 
mesmo que este esteja submetido à vigilância em saúde, a 
recomendação de um gerente de atenção primária, dados de cobertura e 
financiamento da APS (BRASIL, 2017). 
Nessa portaria está descrito que a APS tem como princípios: 
universalidade, equidade e integralidade. E como diretrizes: 
regionalização e hierarquização, territorialização, população adscrita, 
cuidado centrado na pessoa, resolutividade, longitudinalidade do 
cuidado, coordenação do cuidado, ordenação da rede e a participação da 
comunidade (BRASIL, 2017). A APS organiza-se em Unidades Básicas 
de Saúde (UBS), compostas por equipes nas modalidades de equipes de 
saúde da família, equipe de atenção básica, equipe de saúde bucal e 
núcleo ampliado de saúde da família e atenção básica. As equipes 
multiprofissionais são compostas por médicos e enfermeiros, 
preferencialmente especialistas em saúde da família, cirurgiões-
dentistas, auxiliar ou técnico em saúde bucal, auxiliar de enfermagem ou 
técnico de enfermagem, agentes comunitários de saúde, agentes de 
combate a endemias, entre outros profissionais em função da realidade 
epidemiológica, institucional e das necessidades de saúde da população. 
Indica-se que cada equipe seja responsável por 2.000 mil a 3.500 
pessoas, e que cada ACS não ultrapasse o acompanhamento de 750 
pessoas (BRASIL, 2017). 
Para Galavote et al. (2016), a APS deve utilizar tecnologias de 
cuidado complexas e variadas para auxiliar no manejo das demandas e 
necessidades de saúde de maior frequência e relevância em seu 
território, observando critérios de risco, vulnerabilidade e resiliência e o 
imperativo ético de que toda demanda, necessidade de saúde ou 
sofrimento devem ser acolhidos. Ao encontro do modelo de saúde 
brasileiro, encontra-se o modelo de saúde português. Em 2005 iniciou-se 
a reforma dos cuidados de saúde primários portugueses considerada uma 
das mais bem-sucedidas reformas de serviços públicos em Portugal nas 
últimas décadas. Este sistema organiza-se em Unidades de Saúde 
Familiar (USFs) compostas por equipes multidisciplinares (médicos, 
enfermeiros e secretários clínicos) de constituição voluntária e auto-
organizadas, estas operam em centros de saúde geridos pelo Estado e 
que dão resposta com autonomia e de um modo flexível às necessidades 
35 
 
de saúde de um conjunto de pessoas, com especial foco nos cuidados 
médicos e de enfermagem personalizados (BISCAIA; HELENO, 2017). 
Ainda para os autores Biscaia e Heleno (2017), o processo de 
mudança dessa reforma envolveu a governança clínica para dar 
consistência e sustentabilidade, procurando obter ganhos em saúde 
através da melhoria da qualidade e da participação e responsabilização 
de todos. Dessa forma, a reforma portuguesa foi considerada moderna e 
inovadora. Moderna, pois se aliou à tecnologia e inovadora, 
principalmente para um sistema público, porque quebrou com o modelo 
vertical e hierarquizado tradicional e apostou em equipes 
autosselecionadas e auto-organizadas, com autonomia funcional e 
responsabilização,que podiam concentrar-se nas pessoas e comunidades 
que serviam e focar-se nas suas atividades nucleares. 
Sendo assim, percebe-se que a APS, como principal ponto de 
atenção, porta de entrada no sistema de saúde brasileiro e ordenadora do 
cuidado, tem sido campo de atuação para enfermeiros tanto com 
competências assistenciais, como gerenciais. Descrevem-se a seguir 
exemplos de estudos que envolveram enfermeiros no contexto estudado. 
 
3.2 ATUAÇÃO DO ENFERMEIRO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À 
SAÚDE 
 
No Brasil, o enfermeiro inserido na APS cada vez mais 
incorpora atividades administrativas às práticas de assistência direta ao 
usuário, apontando para a ampliação dos seus limites. Exemplo disto é 
que, além da coordenação da equipe de enfermagem e supervisão dos 
agentes comunitários de saúde, inúmeras atividades de manutenção e 
controle dos serviços estão sob a gestão desse profissional. No contexto 
do cuidado integral, espera-se que as atividades de gestão façam parte da 
prática do cuidado de forma que sejam práticas complementares e não 
excludentes. As atividades gerenciais apontam para uma diversificação 
das possibilidades do mercado de trabalho, exigências do capital, 
desenvolvimento de políticas e capacitação pelos enfermeiros para 
atuação com qualidade neste contexto (GALAVOTE et al., 2016). 
Para Lanzoni, Meirelles e Cummings (2016), em um estudo 
sobre a prática de liderança do enfermeiro na APS, este profissional é 
considerado diferenciado nos serviços de APS, pois possui um conjunto 
de habilidades único, incorporando ações de promoção da saúde e de 
prevenção de doenças, além de articular as atividades de vários outros 
trabalhadores de saúde. Descrevem como um desafio a organização de 
lideranças clínicas e gerenciais pelos enfermeiros. No entanto, os 
 36 
reconhecem como líderes, devido às suas características naturais e/ou 
formação profissional, destacando sua forte influência no complexo 
sistema de saúde brasileiro. Nesse mesmo estudo, os participantes, 
enfermeiros, apontaram as condições inadequadas de trabalho, o número 
insuficiente de trabalhadores e a presença de profissionais com 
orientações diferentes das preconizadas pelas políticas públicas como 
influências negativas no exercício da liderança. Embora existam 
fragilidades no trabalho em equipe na APS, as melhores práticas de 
saúde estão associadas a esse método, sendo os enfermeiros 
especialistas em promover este trabalho (LANZONI; MEIRELLES; 
CUMMINGS, 2016). 
Ashley, Halcomb e Brown (2016) apontam que o ambiente de 
saúde em que os enfermeiros atuam está em constante mutação para 
atender às necessidades sociais, como, por exemplo, o envelhecimento 
populacional e aumento das doenças crônicas. Isso fornece desafios 
contínuos para garantir que os trabalhadores estejam habilitados com os 
conhecimentos e aptidão adequada para atender essas mudanças. Em 
uma revisão integrativa da literatura, os autores identificaram um 
número limitado de estudos com o tema da transição de cuidados agudos 
para os cuidados de saúde primários pelos enfermeiros. Escrevem que 
estes precisam ser preparados para a mudança, para sentirem-se seguros 
e aptos e identificaram a limitação do enfoque de enfermagem em APS 
nos programas de graduação. Concluem que os impactos de incluir a 
teoria e prática de enfermagem em APS nesse aprendizado têm impacto 
positivo no cuidado e que os enfermeiros que prestam cuidados 
primários foram identificados como satisfeitos em sua revisão. 
Ao explorar e descrever as percepções dos enfermeiros de APS 
sobre suas necessidades motivacionais para adquirir liderança nos locais 
de trabalho, Jooste e Hamani (2017) consideram que os enfermeiros 
precisam ter reconhecimento, responsabilidade organizacional, 
planejamento estratégico e promoção, bem como apoio por membros da 
equipe e gerentes. Segundo as autoras, um padrão de motivação 
particular, que denominam de motivação de liderança, é necessário para 
que os indivíduos sejam gerentes eficazes. 
Com objetivo de identificar os fatores que influenciam a carga 
de trabalho, a produtividade e o tamanho da agenda dos profissionais de 
enfermagem em ambientes de cuidados de saúde primários de base 
comunitária no Canadá e internacionalmente, Martin-Misener et al. 
(2016) destacam que: o número médio de pacientes atendidos por 
profissionais de enfermagem varia entre os países, os profissionais 
atendem em média 9-15 paciente por dia, as características dos pacientes 
37 
 
e suas condições de saúde parecem influenciar o número de pacientes 
atendidos por dia e que existem poucos sistemas para rastrear e medir as 
atividades de enfermeiros em ambientes de cuidado de saúde primários 
de base comunitária. 
Diante do exposto, considera-se que os profissionais de 
enfermagem são fundamentais na composição da equipe de saúde na 
APS e na gestão desse serviço. Esta afirmativa baseia-se no perfil de 
liderança, gestão da equipe e do serviço, supervisão dos agentes 
comunitários de saúde, além de destacarem-se como atores na 
produção/promoção de cuidado e saúde no Brasil e no mundo. Conclui-
se que os estudos recentes, discutidos por pesquisadores dedicados à 
compreensão da enfermagem e sua relação com a governança, assinalam 
para a necessidade de identificar como os profissionais entendem seu 
papel, as estruturas de saúde, os processos contemporâneos que 
permeiam as transformações nos estilos ou modelos da profissão. 
A lei que regulamenta o exercício profissional do enfermeiro 
considera que a enfermagem é exercida privativamente pelo enfermeiro, 
pelo técnico de enfermagem, pelo auxiliar de enfermagem, e pela 
parteira, respeitados os respectivos graus de habilitação. Suas práticas 
estão presentes nas instituições que prestam serviços de saúde e 
representam, geralmente, o maior percentual dos profissionais de saúde 
dentro de um estabelecimento (BRASIL, 1986). Desde a segunda 
metade do século XIX, quando ocorre a institucionalização da 
enfermagem por meio do trabalho de Florence Nightingale, na guerra da 
Crimeia, surgem contextualizações do gerenciamento de enfermagem 
(FORMIGA; GERMANO, 2005). 
As Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação 
em Enfermagem (DCN/ENF), que direcionam a formulação do currículo 
de enfermeiros nas instituições de educação superior no Brasil, 
demonstram a relação do ensino de enfermagem com a administração e 
gerência dos serviços de saúde, considerando os mais diversos contextos 
de atuação. Exemplo disso é o estabelecimento da Administração de 
Enfermagem como conteúdo curricular. Espera-se que o egresso do 
curso de enfermagem esteja apto a fazer o gerenciamento e 
administração tanto da força de trabalho, como dos recursos físicos e 
materiais e de informação, da mesma forma que devem estar aptos a 
serem gestores, empregadores ou lideranças na equipe de saúde 
(BRASIL, 2001). 
Mororó et al. (2017) corrobora que investir no componente de 
gestão durante o processo de formação dos enfermeiros pode 
instrumentalizá-los para o desenvolvimento da liderança, trabalho em 
 38 
equipe, comunicação, relacionamento interpessoal, tomada de decisão, 
planejamento e organização, dentre outras competências necessárias ao 
seu perfil profissional. Os atributos essenciais à gestão do cuidado em 
enfermagem devem ser trabalhados e desenvolvidos durante o processo 
de formação do enfermeiro através da aproximação entre o 
conhecimento teórico e a prática (MORORÓ et al., 2017). 
Diferentes autores descrevem a ação gerencial do enfermeiro no 
contexto da APS (MATUMOTO et al., 2011; FERNANDES; SILVA, 
2013; GALAVOTE et al., 2016). Para Fernandes e Silva (2013), entre as 
ações de gerenciamento do enfermeiro na APS destacam-se a 
participação na elaboração, coordenação e articulação do planejamento 
da unidade de saúde. Os mesmos autores exemplificam essas práticas 
quandodescrevem que: 
 O enfermeiro é capaz de identificar os recursos (estrutura física, 
sistema de informação, localização de documentos da unidade) 
e os fatores (perfil demográfico e epidemiológico da população 
descrita) relacionados com o planejamento da ESF; 
 O enfermeiro promove a integração e o bom relacionamento 
das equipes de saúde sob sua responsabilidade, investe nas 
relações interpessoais, valorizando o desempenho dos 
profissionais, almejando com isso a qualidade do cuidado 
prestado (FERNANDES; SILVA, 2013). 
Santos et al. (2013b) escreve que, a partir da década de 1990, 
com as novas demandas exigidas pelo exercício de cuidar do ser 
humano, o advento do SUS e as transformações no mundo do trabalho, é 
preciso intensificar o debate acerca das mudanças necessárias na gestão, 
gerência e organização do trabalho em saúde. Para Sousa e Bernardino 
(2015) os recentes modelos gerenciais recomendam a participação de 
todos no processo decisório e a modificação dos organogramas 
tradicionais, criando unidades de produção, excluindo departamentos e 
seções organizados por profissões e substituindo por unidades conforme 
a lógica de trabalho, compostas por equipes multiprofissionais. 
Nesse sentido, Fernandes e Silva (2013) apontam que as ações 
gerenciais do enfermeiro na APS sofrem influências do modelo 
tradicional (diálogo vertical e exclusão da participação dos usuários na 
construção das atividades gerenciais). Os autores escrevem que essas 
ações tradicionais do gerenciamento são pautadas nos modelos 
tayloristas, fordistas e weberianos. As ações gerenciais do enfermeiro, 
como ferramenta essencial para a organização do ambiente de trabalho, 
planejamento das técnicas de cuidado e coordenação dos membros da 
39 
 
equipe de saúde da ESF, não são implementadas com eficiência e 
eficácia, uma vez que os modelos administrativos tradicionais são 
frequentes, conforme as discussões dos autores, sendo fator limitante 
para a integralidade das práticas do enfermeiro no âmbito da Atenção 
Básica (FERNANDES; SILVA, 2013). 
Santos et al. (2013b) destacam oito ações principais de gerência 
do cuidado do enfermeiro:1) Dimensionar a equipe de enfermagem; 2) 
Exercer liderança no ambiente de trabalho; 3) Planejar a assistência de 
enfermagem; 4) Educar/Capacitar a equipe de enfermagem; 5) Gerenciar 
os recursos materiais; 6) Coordenar o processo de realização do cuidado; 
7) Realizar o cuidado e/ou procedimentos mais complexos; e 8) Avaliar 
o resultado das ações de enfermagem. Diante das necessidades 
assentadas nas mudanças nos modelos gerenciais na atualidade e nas 
práticas gerenciais do enfermeiro, considera-se que a compreensão de 
governança na prática do enfermeiro no contexto estudado possa trazer 
contribuições para o sistema de saúde. 
 
3.3 GOVERNANÇA E ENFERMAGEM 
 
Para que os enfermeiros possam gerenciar o cuidado, devem ter 
autonomia e participar dos processos de decisão que envolvem os 
processos de governança no ambiente de trabalho. Esse tema representa 
uma possibilidade a ser explorada no campo das pesquisas de gestão e 
gerenciamento em enfermagem (SANTOS et al., 2013a). 
Em uma revisão integrativa da literatura, Santos (2013a) 
identifica três tipos de governança na enfermagem: compartilhada, 
clínica e pública. O primeiro modelo de gestão é projetado para 
promover o controle dos enfermeiros sobre a sua prática e o ambiente no 
qual ela é realizada. No segundo, os padrões elevados de atendimento 
são esperados pelas organizações nacionais de serviços de saúde. No 
terceiro, a administração do estado regula o serviço de saúde (SANTOS 
et al., 2013a; SANTOS; OLIVEIRA, 2016). 
Relatada pela primeira vez em 1980, a governança 
compartilhada é considerada um modelo que tem influência sobre a 
prática de enfermagem atual. E a complexidade do sistema de saúde 
evidencia a necessidade de que o enfermeiro esteja pronto para a tomada 
de decisões. Neste sentido, a governança compartilhada tem sido 
adotada por muitas organizações como um veículo para capacitar os 
enfermeiros. Este modelo de envolvimento dos trabalhadores aumenta o 
controle dos profissionais sobre sua prática e é um componente integral 
 40 
para os hospitais que atingiram a acreditação pela sua excelência 
assistencial (GERARD; OWENS; OLIVER, 2016). 
Com objetivo de avaliar os resultados de mudanças (abordagem 
generalista para uma abordagem baseada em equipes, semelhante à do 
Reino Unido) ocorridas na enfermagem em saúde pública, na Irlanda, 
em relação à qualidade, segurança, risco, governança clínica, supervisão 
por duas equipes de enfermeiros e supervisão clínica, gestão ativa do 
número de casos e efeito financeiro, Hanafin e O’reilly (2015) apontam 
como positivas as mudanças ocorridas. Alguns exemplos dessas 
mudanças são: poder compartilhar o atendimento aos clientes, maior 
transparência e distribuição mais equitativa da carga de trabalho, 
benefícios aos cuidados clínicos de enfermagem devido à partilha de 
informações e apoio a visitas conjuntas (HANAFIN; O’REILLY, 2015). 
O estudo citado anteriormente descreveu mudanças semelhantes 
ao modelo de governança clínica. Recentemente, Hess (2017) escreveu 
uma crítica sobre outro novo conceito de governança profissional, 
considerando esta terminologia já existente há mais de 30 anos e muito 
próxima do modelo de governo tradicional. Dessa forma, não valoriza a 
necessidade de explorar este novo conceito. Destaca que a governança 
compartilhada é entendida como um componente de um conceito maior 
de governança profissional. 
Porter-O’Grady (2017) corrobora com o editorial de Hees 
(2017) do ponto de vista conceitual de governança profissional e 
compartilhada. Além disso, compartilha ideias adicionais como a de que 
o termo “governança compartilhada” refere-se ao mesmo que o termo 
“governança profissional”, e passou a ser utilizado apenas por 
conveniência. Compartilha a ideia de que a governança profissional se 
distingue das funções gerenciais como um mecanismo para que as 
profissões não sejam controladas ou gerenciadas por organizações ou 
fora da profissão. Uma das características únicas das profissões é que 
elas são autogeridas e têm controle exclusivo sobre sua própria prática e 
trabalham como parceiros de organizações e outros para atender às 
necessidades daqueles a quem servem. Seu relacionamento é um acordo, 
não uma hierarquia. 
A liderança de enfermagem, quando envolve um bom 
relacionamento com a equipe, é considerada essencial na promoção e 
manutenção de um ambiente de governança compartilhada que capacita 
outros enfermeiros para assumir um papel ativo no processo de 
mudança. A parceria, a responsabilização, a propriedade e a equidade, 
que são a base da governança compartilhada, refletem-se no sucesso de 
implementação e sustentabilidade das diretrizes de dimensionamento da 
41 
 
equipe. Uma instituição que investe na governança compartilhada como 
um componente importante de sua estrutura organizacional promove a 
colaboração entre a liderança de enfermagem e todos os enfermeiros, o 
que resulta em maior satisfação do paciente, satisfação do pessoal e num 
ambiente de trabalho saudável (BIEBER; JOACHIM, 2016). A 
governança compartilhada fornece uma oportunidade para promover a 
liderança dos enfermeiros assistenciais por meio do envolvimento e do 
controle sobre as decisões de prática. Este modelo tem sido 
empiricamente associado a melhores resultados de cuidados aos 
pacientes (GERARD; OWENS; OLIVER, 2016). 
Para Hess (2017), o modelo burocrático de organizações 
domina a área da saúde e grupos profissionais lutam constantemente 
junto a seus gerentes e administradores profissionais com a finalidade de 
alcançar as fontes necessárias para prover assistência ao paciente. 
Enquanto mudanças não ocorrem, deve-se destacar o sucesso da 
enfermagem como um exemplo de um poderoso grupo profissionalque 
trabalha em equipe para melhorar a prática e os resultados dos pacientes 
dentro de ambientes burocráticos e continuar a aprimorar o sucesso em 
oferecer um serviço inclusivo modelo de governo compartilhado. 
Aponta que as pesquisas futuras irão apurar a governança compartilhada 
e os resultados dos pacientes. 
 
3.4 COMPLEXIDADE ORGANIZACIONAL 
 
Neste estudo, adota-se como perspectiva teórica a complexidade 
organizacional. A lógica da gestão é representada predominantemente 
pelo planejamento, controle, direção, ordem, normas, hierarquia, 
competitividade e sobrevivência. No entanto, em meio a instabilidades, 
pode-se questionar como a Teoria da Complexidade contribui para 
novos modelos organizacionais que demandam as gestões ou 
organizações atuais (BAUER, 2009). 
O advento do pensamento complexo, desde os anos 1970, tem 
influenciado as lentes de estudos sobre organizações contemporâneas. 
Nesse sentido, é importante destacar o trabalho de Morin (2006, p. 83), 
que “não renuncia a ideia sobre clareza, a ordem, o determinismo. Ele as 
considera insuficientes, ou seja, que não se pode programar a 
descoberta, o conhecimento, nem a ação”. Pondera, então, que a 
realidade é mutante, inconstante e que o novo vai surgir. 
Ao longo dos anos a função gerencial e a organização do 
trabalho produziam a ideia de que o dirigente poderia ser capaz de 
comandar e coordenar um trabalho coletivo. A visão ordenada do 
 42 
mundo organizacional implícita na própria ideia de “organização” 
induzia a pensar a realidade administrativa como racional, controlável e 
passível de ser uniformizada (MOTTA, 2007). No entanto, com a 
velocidade com que as mudanças acontecem, é inevitável que gestores 
estejam abertos para considerar a complexidade encontrada na 
“desordem” (SILVA, SERRALVO, 2015). 
Leone, Dussault e Lapão (2014) consideram as organizações de 
saúde as mais complexas, pela diversidade dos seus serviços, variedade 
de profissionais com competências distintas, vários processos ocorrendo 
simultaneamente e pela necessidade de uma abordagem holística. Ao 
encontro disso, o setor da saúde responde a uma pluralidade de 
necessidades e especificidades, sejam elas relativas às mudanças 
demográficas, às condições sociais, às mudanças epidemiológicas e às 
epidemias, quer sejam de caráter individual ou coletivo, o que demanda 
a união de esforços para fins mais resolutivos (ERDMANN; 
SCHLINDWEIN; SOUSA, 2006). Diante disso, a crescente 
complexidade dos desafios do setor da saúde implica um aumento das 
responsabilidades para aqueles que nele assumem funções de gestão. 
Nesse sentido, considera-se que a cultura organizacional pode ser um 
fator relevante no desempenho de organizações na saúde (LEONE; 
DUSSAULT; LAPÃO, 2014). 
Ao exemplo do sistema de saúde português, o funcionamento de 
uma administração pública com tendência centralista, com décadas de 
funcionamento, passou por um processo de reforma. Esse processo 
aumentou a complexidade, pois o sistema precisou adaptar-se às novas 
forças intrínsecas à mudança, ao mesmo tempo em que procura 
diferentes soluções para responder às mais recentes exigências da saúde. 
Com as mudanças, o sistema de saúde português pretende transitar de 
uma velha lógica de funcionamento hierárquico e vertical, para uma 
dinâmica alicerçada na contratualização e em redes de serviços 
partilhados. Essa dinâmica depende, em grande parte, do contexto da 
situação, da natureza e extensão do processo de mudança e da forma 
como este foi iniciado ou implementado (LEONE; DUSSAULT; 
LAPÃO, 2014). 
Ao encontro disso, nas décadas de 70 e 80, importantes 
mudanças sociais, econômicas, estruturais aconteceram no mundo e, 
simultaneamente, a ortodoxia da teoria das organizações, pautada no 
paradigma funcionalista, cartesiano, apontou para revoluções 
43 
 
paradigmáticas
1
, pouco questionadas até os anos 80 (SERVA; DIAS; 
ALPERSTEDT, 2010). Ao interrogar o enfoque tradicional, do até então 
progresso científico, Thomas Kuhn (1987) revela que a ciência está em 
constante estado de evolução. 
 Diante dessas mudanças, organizações “mecanicistas” presas a 
velhos paradigmas não são capazes de acompanhar as mudanças no 
ambiente (SILVA; SERRALVO, 2015). Portanto, a visão sistêmica, 
globalização, multiplicidade de variáveis e critérios, falta de 
informações e a diversificação de objetivos levam os gestores a rever 
práticas gerenciais, não sendo possível elaborar planos baseados em uma 
única ordem. Para Bauer (2009), é na constante desorganização e 
reorganização dos ambientes de trabalho que acontecem a evolução e o 
aprendizado. É preciso que os filósofos contemporâneos leiam-se uns 
aos outros e discutam entre si. O ruído dessa discussão, dessa desordem, 
é que leva a uma nova ordem, a um conhecimento novo (SERVA; 
DIAS; ALPERSTEDT, 2010). 
Nesse contexto de desordem, o advento da adoção dos 
princípios da complexidade parece ter fomentado profundas 
transformações no desenvolvimento científico dos últimos 40 anos, 
tanto nas ciências da vida, como a biologia e a fisiologia, como nas 
ciências mais tradicionais, como a física e a química, e também nas 
ciências humanas (SERVA; DIAS; ALPERSTEDT, 2010). 
Complexidade não , de forma alguma, completude; ao contrário, ela diz 
respeito impossibilidade de se chegar a qualquer conhecimento 
 completo . Assim, a complexidade não traz certezas sobre o que 
incerto, ela pode apenas propor-se a reconhecer a incerteza, e a dialogar 
com ela (BAUER, 2009 p.19). Ainda para o autor, a complexidade 
difere-se de um sistema linear onde é permitida somente uma solução, 
no sistema complexo são permitidas várias leituras de um mesmo 
fenômeno. 
Para Etkin (2003) a complexidade é um enfoque que considera 
a organização como um espaço no qual coexistem ordem e desordem, 
motivo e sem motivo, harmonia e dissonâncias. As relações entre essas 
 
1
 O conceito de paradigma, remete ideia de “caracterização e definição de 
uma visão de mundo e ao compartilhamento de uma linguagem conceitual 
comum, na busca de fundar um edifício conceitual comum” (BEZERRA; 
SILVA 2011). Ou ainda, uma premissa fundamental entre os pesquisadores que 
o compartilham (KUHN, 1987). A revolução paradigmática inicia-se quando o 
paradigma instaurado já não consegue dar explicações acerca dos fenômenos 
estudados (KUHN, 1987). 
 44 
forças operam em um sentido de complementaridade, mas também de 
divergência e indiferença. O complexo também se refere a ambientes 
incertos e variantes, em que a inovação tecnológica leva ao 
encurtamento dos ciclos de renovação de métodos e equipamentos de 
produção, como também de bens e serviços finais. 
As organizações são consideradas sistemas complexos, de base 
social, política e técnica, não mecanismos (programado) ou organismos 
(natural). São complexos porque no sistema operam múltiplas lógicas e 
forças diversas que não se conjugam para a estabilidade. O sistema tem 
um método e um acordo constitutivo que apresentam a capacidade de se 
redefinir e se adaptar através da reflexão e dos processos de 
aprendizagem. Suas mudanças nem sempre resultam da autoridade e 
decisão política, mas do diálogo, do debate e interação social cotidiana 
(ETKIN, 2003). 
A mesma incerteza que comprometia ou inviabilizava as antigas 
explicações simplificadoras torna-se agora parte indissociável da 
explicação complexa, reconhecendo-se que a desordem concorre para a 
produção da ordem (order from noise) (BAUER, 2009, p.174). Segundo 
Etkin (2003), apesar de a desordem estar ligada às incertezas, 
comportamentos, variáveis internas e externas nas organizações, a 
criatividade e inovação têm a ver com atitudes espontâneas, emergentes 
dos integrantes que se afastam do caminho estabelecido (ordem), que 
questionam as políticas e avançam para além do que é programado. A 
desordemé considerada a expressão de uma visão inovadora, de uma a 
sabedoria disponível nos indivíduos ou grupos que lutam contra os 
processos burocráticos e uniformes que também operam os sistemas. 
Para exemplificar a intenção da desordem (complexidade) dos 
sistemas, Bauer (2009, p.53) relaciona a ela que “são os choques 
aleatórios e a agitação deles decorrente que produzem tanto os átomos 
quanto as estrelas, e que produziram o primeiro ser vivo”. E, claro, a 
desordem concorre tamb m para a destruição da ordem, tanto 
externamente (destruição por acidente) quanto internamente (aumento 
da entropia, degeneração). A auto-organização , pois, simultaneamente 
desorganização e reorganização, ordem e desordem. Se tudo fosse 
desordem no universo, certamente haveria muita criação e inovação, 
mas nenhuma organização delas decorrente e, portanto, nenhuma 
evolução. E, se tudo fosse ordem, não haveria criação ou inovação e, 
tampouco, evolução (BAUER, 2009). 
As mudanças apontam para construir organizações que se 
caracterizem por serem democráticas, transparentes e participativas. Isso 
depende das formas de governo e dos espaços de que os grupos dispõem 
45 
 
para expressar e sustentar suas ideias sobre o estado e a marca das 
organizações. Depende também da possibilidade de criar ambientes de 
trabalho equitativos e motivadores (ETKIN, 2003). No que diz respeito 
à vida e saúde, a ótica da totalidade nos exige um pensamento 
complexo, capaz de conceber o que nos une, contextualizando o 
pensamento no sentido de que todo acontecimento, informação ou 
conhecimento seja considerado na relação da inseparabilidade com seu 
meio ambiente, seja cultural, social, econômico, político ou natural 
(ERDMANN; SCHLINDWEIN; SOUSA, 2006). Logo, faz-se 
necessário um pensamento que considere o tempo, espaço e contexto 
(social, ético, político, econômico e outros) que constituem o real, num 
movimento dialético, complexo e de múltiplas determinações 
(ERDMANN; SCHLINDWEIN; SOUSA, 2006). 
Portanto, considera-se possível compreender as relações 
humanas, estratégias organizacionais, movimentos internos e externos 
das organizações com a perspectiva teórica da complexidade 
organizacional. A complexidade das organizações, no setor da saúde, 
requerem uma visão multidimensional (do todo) e das partes que 
compõem o todo, da ordem e da desordem, das relações e interações, 
das estratégias e habilidades que fazem com que este setor inove para 
abarcar as necessidades de saúde em constantes transformações. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 46 
4 MÉTODO 
 
Esta seção apresenta o percurso metodológico trilhado 
buscando a compreensão da problemática da governança na prática de 
enfermagem na Atenção Primária à Saúde. 
 
4.1 DELINEAMENTO DO ESTUDO 
 
Realizou-se uma investigação de abordagem qualitativa, com 
referencial metodológico da Teoria Fundamentada nos Dados (TFD) ou 
Grounded Theory (GT). A pesquisa qualitativa procura entender e 
interpretar os significados e percepções que as pessoas constroem sobre 
fenômenos alocados em contextos naturais. Para apreender a variedade 
de significados que podem ser atribuídos a fatos ou experiências, a 
coleta de dados acontece por meio do contato direto com os 
participantes que vivenciam o problema em estudo (MINAYO, 2014). 
A TFD, como uma estratégia qualitativa de investigação, 
paulatinamente destaca-se na enfermagem pela possibilidade de 
construção de conhecimento com maior cientificidade a partir de suas 
características sistemáticas e complexas (DANTAS et al., 2009; 
GOMES et al., 2015; SILVA et al., 2018). 
Para contrapor o paradigma positivista predominante na década 
de 60, Barney G. Glaser e Anselm L. Strauss desenvolveram a TFD 
como uma alternativa à tradição hipotético-dedutiva da época durante 
estudos relacionados ao processo de morte em hospitais americanos. Em 
1967, publicaram o livro The discovery of Grounded Theory 
(CHARMAZ, 2009). 
Com o decorrer do tempo, Glaser e Strauss adotaram caminhos 
diferentes, discordando quanto ao significado e percurso metodológico 
da TFD, ainda que o método tenha se consolidado como exitoso. 
Enquanto Glaser manteve-se em uma posição inflexível quanto à TFD, 
Strauss incorporou novas formas de análise, como a codificação axial, 
bem como empregou recursos de informática para a coleta e análise dos 
dados (CHARMAZ, 2009). Strauss escreveu como se o propósito da 
teoria fundamentada fosse reconfigurado, porque os fenômenos sociais 
são tão complexos que gerar conceitos explicativos únicos que 
transcendem todo o contexto impossível (APRA IAN et al., 2016). 
Em conjunto com Juliet Corbin, por meio do livro Basics of 
Qualitative Research: Techniques and Procedures for Developing 
Grounded Theory, Strauss seguiu seus trabalhos e a sua linha de TFD. 
Ambos tratam a TFD como um método científico subsidiado por novos 
47 
 
instrumentos, concluindo que a construção da teoria ocorre a partir da 
relação colaborativa entre pesquisadores e participantes do estudo, o que 
futuramente dá margem à perspectiva construtivista do método 
(CHARMAZ, 2009). 
Kathy Charmaz, no ano 2000, introduziu a Teoria 
Fundamentada Construtivista. Charmaz não se opõe às origens da TFD 
de Glaser, Strauss e Corbin, pois considera que a TFD “alia duas 
tradições opostas e concorrentes” que intermediam o pensamento 
positivista e inflexível de Glaser e a flexibilidade relativista e 
subjetivista de Strauss e posteriormente Corbin (CHARMAZ, 2009). Ela 
valoriza as representações autênticas das palavras, ações e histórias em 
que a teoria fundamentada pode ser usada para "revelar vínculos entre 
experiências concretas de sofrimento e estrutura social, cultura e práticas 
ou políticas sociais” (APRA IAN et al., 2016). 
Diferentemente da vertente objetivista clássica de Glaser, no 
enquadramento da Grounded Theory de Charmaz, entre as suas próprias 
características, reconhece que as realidades e os fenômenos estudados 
são construções coletivas, que seus preceitos respondem fortemente à 
tradição interpretativa e afastam-se das bases objetivistas da abordagem 
de seus fundadores. Em outras palavras, Charmaz (2009) descreve que 
somos parte do mundo o qual estudamos e dos dados que coletamos, 
construímos as nossas teorias a partir de nossa interação e envolvimento 
com as pessoas, as perspectivas e práticas no processo da pesquisa. 
Nesse sentido, o proceder de suas investigações propõe um olhar atento 
ao movimento que parte do raciocínio indutivo ao abdutivo (LEITE, 
2015). 
Entre os m todos de pesquisa qualitativa, a TFD “viabiliza a 
construção de uma teoria assentada em dados que podem ser 
provenientes de diferentes fontes e é elaborada a partir de uma dada 
vivência social” (GO ES et al., 2015, p.473). O m todo permite, ainda, 
a compreensão do fenômeno a partir da realidade na qual ele se insere 
pela identificação, desenvolvimento e relação de conceitos, por meio de 
uma minuciosa análise comparativa, estritamente relacionada com a 
coleta de dados, processo que não parte de pressupostos, assim como 
não tem a finalidade de testar seus achados, porém que possa acrescentar 
novas perspectivas de atuação (GOMES et al., 2015). 
 A TFD possibilita a compreensão das experiências e interações 
de indivíduos que compõem um mesmo contexto social, buscando 
evidenciar estratégias diante de situações vivenciadas gerando 
conhecimentos, aumentando a compreensão e proporcionando um guia 
significativo para a ação (DANTAS et al., 2009; SANTOS et al., 2016). 
 48 
O método potencializa a expansão do conhecimento em enfermagem, 
administração, odontologia e de áreas como psicologia, sociologia e 
outras (DANTAS et al., 2009; GOMES et al., 2015; TORRES et al., 
2015; SILVA et al., 2018). 
 A TFD pode apresentar fases e características variadas, de 
acordo com a vertente utilizada. Entre ascaracterísticas centrais do 
método destacam-se: o processo de indução e dedução, análise 
comparativa constante, circularidade de dados, sensibilidade teórica, 
saturação teórica dos dados, uso de memorandos e diagramas 
(DANTAS et al., 2009; DIAS DO NASCIMENTO et al., 2016; SILVA 
et al., 2018). Além dessas, vale ressaltar que a TFD permeia e suporta 
todo processo da pesquisa (GOMES et al., 2015). 
Diante da crença de que é a vertente metodológica mais 
adequada para responder ao objetivo deste estudo, optou-se por utilizar a 
vertente construtivista da TFD, representada por Kathy Charmaz. 
Espera-se que a intimidade com o tema de pesquisa e a bibliografia com 
ele relacionada intensifiquem a compreensão do contexto a ser estudado, 
além disso, que permitam à pesquisadora estar aberta à sensibilidade dos 
dados que emergem. Para elucidar como desenvolveu-se esta pesquisa, 
descreve-se a seguir o contexto em que ela foi realizada e as principais 
características da TFD. 
 
4.2 CONTEXTO DO ESTUDO 
 
O contexto do estudo foi a Atenção Primária à Saúde na 
microrregião de Tijucas/SC, que tem a Estratégia Saúde da Família 
como modelo de organização exclusivo. Para compreender a 
conformação da Rede de Atenção à Saúde desta microrregião 
apresentam-se na sequência dados da APS no Brasil, Estado de Santa 
Catarina e contexto investigado. Além disso, características 
demográficas e a inserção/distribuição dos enfermeiros que atuam na 
APS nesta microrregião. 
 No Brasil, a cobertura populacional da APS é de 62,5%, sendo 
representada por 39.228 equipes de saúde da família (BRASIL, 2017). 
No Estado de Santa Catarina (SC), os serviços de APS estão sendo 
oferecidos por 1.846 equipes, distribuídos em 1.468 centros de saúde 
com gestão da esfera municipal e 18 centros de saúde com gestão 
municipal e estadual (DATASUS, 2019). O estado apresenta cobertura 
de Atenção Primária à Saúde de 84,26%, considerando a Estratégia 
Saúde Família em 83,57% dos municípios (DAB, 2019). Visando à 
49 
 
operacionalização do modelo de gestão regionalizado, foram criadas 
nove macrorregiões e 16 regiões de saúde, estabelecendo, dessa forma, 
um sistema de referência e contrarreferência, respeitando os diversos 
níveis de complexidade da assistência. Com a regulamentação da Lei nº. 
8.080/90 por meio do Decreto nº. 7.508/11, criou-se o Contrato 
Organizativo de Ação Pública (COAP), que deverá organizar e integrar 
as ações e serviços de saúde dos entes federativos em uma Região de 
Saúde, com a finalidade de garantir a integralidade da assistência aos 
usuários. Nesse sentido, o planejamento em saúde deve ser realizado de 
forma regionalizada, expressando o desenho das regiões de saúde 
instituídas e das redes de atenção em saúde existentes no território 
(SANTA CATARINA, 2012). 
As Regiões de Saúde são compostas por macrorregiões de 
saúde. Para análise espacial de informações de saúde por meio de 
malhas municipais, o Departamento de Informática do SUS 
(DATASUS) realizou recortes de municípios em microrregiões. No 
Estado de SC a microrregião de Tijucas é formada por sete municípios, 
cada qual com responsabilidade exclusiva de garantir a Atenção 
Primária à Saúde local. Os municípios que compõem esta microrregião 
são: Angelina, Canelinha, Leoberto Leal, Major Gercino, Nova Trento, 
São João Batista e Tijucas (DATASUS, 2019). 
A população residente nesta microrregião, conforme o último 
censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE, 2010), é 
de 95.238 pessoas, com cobertura de 100% dos serviços da APS, com 
modelo de organização orientado pela Estratégia Saúde da Família. 
Sobre esta população, 67.248 pessoas são alfabetizadas e a taxa de 
analfabetismo é de 5,4%. A renda média domiciliar per capita é de 
R$763,39, 50.064 pessoas têm 16 anos ou mais, são economicamente 
ativas, 1.009 delas desocupadas e 14,9% da população com renda menor 
que ½ salário mínimo. O abastecimento de água, instalações sanitárias e 
coleta de lixo estão disponíveis para 95,8% desta população (IBGE, 
2010). Diante disso, destaca-se que o estado de saúde de um indivíduo 
ou uma população é determinado por sua combinação genética, porém 
“grandemente modificado pelo ambiente social e físico, por 
comportamentos que são cultural ou socialmente determinados e pela 
natureza da atenção saúde oferecida” (STARFIELD, 2002, p.23). 
A microrregião conta com 47 estabelecimentos de saúde 
denominados centro de saúde, unidade básica de saúde, posto de saúde e 
unidade de saúde da família (DATASUS, 2019). Entre os profissionais 
que atuam nesses estabelecimentos, o padrão de referência é de no 
mínimo um trabalhador de cada categoria (médico, enfermeiro, cirurgião 
 50 
dentista, técnico ou auxiliar de enfermagem, técnico ou auxiliar de saúde 
bucal e agente comunitário de saúde), com exceção do agente 
comunitário de saúde, em que é considerado o mínimo de quatro 
profissionais em cada equipe (BOUSQUAT et al., 2017). 
Dados do Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA), 
informados no Plano Nacional de Saúde em 2016, demonstram destaque 
para o aumento (número de vezes) do número de atendimentos do 
enfermeiro na APS de 2014 em relação a 2002, sendo 4,65 milhões de 
vezes mais (BRASIL, 2016). Enfatiza-se que o trabalho do enfermeiro, 
na APS, além das atividades assistenciais, agrega as atividades 
administrativas; de 1.041 enfermeiros no Estado de Santa Catarina, 94% 
destes desempenham a função de coordenação ou gerência 
(GALAVOTE et al., 2016). Na microrregião em questão, conforme a 
Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), encontram-se 44 
Enfermeiros da Saúde da Família. A distribuição destes profissionais 
por municípios que compõem a microrregião está representada na 
Tabela 1. 
 
Tabela 1 - Distribuição de enfermeiros da Saúde da Família na Microrregião de 
Tijucas/SC, 2019. Florianópolis, 2019 
Município Quantidade de enfermeiros da Saúde da Família 
Angelina 2 
Major Gercino 2 
Leoberto Leal 3 
Canelinha 5 
Nova Trento 6 
São Joao Batista 10 
Tijucas 16 
Total 44 
Fonte: Ministério da Saúde - Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, 
2019. 
 
O detalhamento do rigor metodológico da Teoria Fundamentada 
nos Dados pelo paradigma construtivista, de acordo com o contexto 
exposto, está descrito nos tópicos em sequência. 
 
4.3 PARTICIPANTES 
 
 Considerando que na TFD a amostragem teórica é dirigida à 
construção da teoria e não visando à representação populacional, 
primeiramente foram entrevistados enfermeiros que atuavam na APS. A 
51 
 
partir da análise dos dados das entrevistas iniciais, foram incluídos 
profissionais da equipe de enfermagem, agentes comunitários de saúde e 
gestores. Ressalta-se que o foco da análise não está no indivíduo, mas 
em suas ações, experiências, eventos e questões, ou seja, nos dados a 
serem fornecidos para a construção da teoria (CHARMAZ, 2009). Os 
participantes foram provenientes de UBS de cinco municípios 
(Angelina, Canelinha, Major Gercino, São João Batista e Tijucas) que 
fazem parte da microrregião de Tijucas/SC e pertencem à 
Macrorregional de saúde da Grande Florianópolis/SC, conforme termo 
de autorização institucional (ANEXO A). 
Os entrevistados foram escolhidos de forma intencional e 
subsidiaram a amostragem teórica. Ou seja, orientaram os caminhos 
conceituais explorados até a conquista suficiente de dados que apoiaram 
a explicação de suas categorias, resultando, assim na “saturação 
teórica”, ou tamb m entendida como “suficiência teórica” (CHAR AZ, 
2009, p. 158). 
Para a amostragem teórica, foram construídos três grupos 
amostrais, totalizando 22 participantes, selecionados pelo seguinte 
critério de inclusão: compor uma Equipe de Saúde da Família (eFS) 
vinculada às Secretarias Municipais de Saúde da microrregião de 
Tijucas/SC e com experiência de no mínimo um ano na APS. Esse 
período foi definidoporque acredita-se que, para compreender suas 
devidas funções, os participantes precisavam ter vivido, no mínimo, este 
período de experiência em ESF na APS. Foram excluídos da pesquisa os 
profissionais que estavam afastados do serviço por motivo de férias ou 
licenças de qualquer natureza. O primeiro grupo amostral foi formado 
por13 enfermeiros (P1-P13) provenientes dos municípios: Canelinha, 
São João Batista, Nova Trento, Major Gercino e Tijucas. 
O segundo grupo amostral ficou constituído por três técnicos de 
enfermagem e três agentes comunitários de saúde (P14-P19) 
provenientes dos mesmos municípios do primeiro grupo amostral. A 
hipótese que deu origem a este grupo relaciona-se à atribuição do 
enfermeiro de planejar, gerenciar e avaliar as ações desenvolvidas por 
estes grupos de profissionais de acordo com a Política Nacional de 
Atenção Básica. Além disso, os dados das entrevistas iniciais indicaram 
que na prática de governança o enfermeiro organiza a interação dos 
profissionais na APS. 
O terceiro grupo amostral foi formado por três gestores, 
secretários municipais de saúde (P20-P22) dos municípios que estavam 
vinculados ao primeiro e segundo grupos amostrais. A hipótese que deu 
 52 
origem a este grupo refere-se à influência político-organizacional no 
ambiente de trabalho, identificado nos dados das entrevistas anteriores 
O fechamento amostral aconteceu por meio da saturação teórica 
e por este motivo não foram incluídos participantes dos municípios de 
Leoberto Leal e Angelina, bem como outras classes de profissionais. 
Para Leite (2015), o fechamento amostral por saturação teórica é 
operacionalmente definido como a suspensão de inclusão de novos 
participantes quando os dados obtidos passam a apresentar, na avaliação 
do pesquisador, uma redundância ou repetição, não sendo considerado 
relevante persistir na coleta de dados. Noutras palavras, as informações 
fornecidas pelos novos participantes da pesquisa pouco acrescentariam 
ao material já obtido, não mais contribuindo significativamente para o 
aperfeiçoamento da reflexão teórica fundamentada nos dados que estão 
sendo coletados. Sendo assim, os três grupos amostrais foram 
determinados até o alcance da saturação teórica dos dados. 
 
4.4 ANÁLISE COMPARATIVA CONSTANTE 
 
Para explorar os dados sobre a governança na APS, foram 
realizadas entrevistas individuais e intensivas pela pesquisadora. O 
roteiro das entrevistas previa a leitura do conceito de Governança que 
norteou as perguntas subsequentes (APÊNDICES A, B e C). A coleta de 
dados aconteceu entre os meses de abril e julho de 2018. A entrevista 
qualitativa intensiva adapta-se de forma positiva aos métodos da Teoria 
Fundamentada e promove o esclarecimento da interpretação de cada 
participante sobre a sua própria experiência. (CHARMAZ, 2009). 
Realizou-se contato telefônico com os participantes e foram 
preestabelecidos horários de acordo com a disponibilidade dos 
entrevistados, na perspectiva de evitar interrupções e solicitar detalhes e 
explicações sobre as informações a estes. As entrevistas foram 
audiogravadas, com tempo médio de duração de uma hora e oito 
minutos. As gravações foram armazenadas e transcritas na íntegra 
também pela pesquisadora, utilizando o Microsoft® Office Word e 
inseridas no software NVIVO® 11, para realização do processo de 
codificação e organização dos dados. 
Uma das características fundamentais da TFD é a análise 
comparativa constante, o que remete ao processo de análise e 
codificação produzido do conjunto de dados. A literatura indica que não 
é admissível coletar todos os dados e somente depois iniciar as etapas de 
codificação e análise, devendo, então, acontecer simultaneamente. Essa 
característica da TFD é fundamental para sua investigação (SANTOS et 
53 
 
al., 2016). “Em toda a literatura da teoria fundamentada, os 
pesquisadores são orientados a evitar forçar os seus dados em códigos e 
categorias preconcebidos, sendo que, entre esses estão, em primeiro 
lugar, as teorias existentes” (CHAR AZ, 2009, p.98). 
Para Charmaz (2009), codificar significa categorizar segmentos 
de dados com uma denominação concisa, que simultaneamente resume e 
representa cada parte dos dados. É o elo fundamental entre a coleta de 
dados e o desenvolvimento de uma teoria (CHARMAZ, 2009). Esse 
exercício, além de favorecer nossa compreensão do que está sendo 
estudado, nos orienta para a coleta de dados subsequentes (CHARMAZ, 
2009). 
Foram realizadas duas etapas de codificação dos dados, inicial e 
focalizada, conforme preconiza a corrente de Charmaz. Na primeira, o 
pesquisador estuda rigorosamente seus dados e conceitua suas ideias por 
meio de códigos que podem ser estabelecidos palavra por palavra, linha 
a linha ou incidente por incidente. Nesta etapa, a codificação das 
transcrições foi realizada incidente por incidente, a fim de gerar códigos 
provisórios, comparativos e fundamentados nos dados (FIGURA 2). 
 
Figura 2 - Codificação inicial software NVIVO® 11. Florianópolis, 2019 
 
Fonte: Pesquisa de campo/NVIVO® (2018). 
 54 
A segunda permite ao pesquisador separar, classificar, 
sintetizar, integrar e organizar grandes quantidades de dados, com base 
nos códigos mais significativos e/ou frequentes, visando conceituação 
do material empírico. “A codificação focalizada significa utilizar os 
códigos anteriores mais significativos e/ou frequentes para analisar 
minuciosamente grandes montantes de dados” (CHAR AZ, 2009). 
Nesta fase, os códigos mais significativos e/ou frequentes foram 
agrupados por similaridade e diferenças conceituais, formando 
categorias que sintetizam e explicam um segmento maior de dados até a 
obtenção de uma categoria central que explica o fenômeno investigado 
(FIGURA 3). 
 
Figura 3 - Codificação focalizada software NVIVO® 11. Florianópolis, 2019 
 
Fonte: Pesquisa de campo/NVIVO® (2018). 
 
Para realização do processo de análise, dois critérios foram 
considerados: o ajuste (identifica se a teoria se ajusta às experiências dos 
participantes) e a relevância (para avaliar se a teoria tem relevância 
como esquema analítico que interpreta as relações entre os processos) 
(FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008). 
A codificação na perspectiva construtivista recomenda a 
utilização de termos no gerúndio. Pondera que o gerúndio transforma o 
exercício de categorização em uma interpretação do desempenho social, 
55 
 
posicionando para identificar o significado implícito e ações de uma 
rede maior de suposições (APRAMIAN et al., 2016). 
Para dar suporte à codificação, organização e armazenagem dos 
dados, incentiva o uso de softwares, bem como a construção de 
diagramas e mapas conceituais que também colaboram com o 
gerenciamento e a manipulação dos dados coletados (LEITE, 2015). No 
entanto, enfatiza que o processo de reflexão não depende do software, é 
feito exclusivamente pelo pesquisador (DIAS DO NASCIMENTO et 
al., 2016). Neste processo de organização, codificação e categorização 
foi utilizado, conforme já mencionado, o software NVIVO®, o que 
permitiu maior dinamicidade para trabalhar com os dados textuais, no 
entanto, mantendo a sensibilidade teórica da pesquisadora. 
 
4.5 USO DE MEMORANDOS E DIAGRAMAS 
 
Foram utilizados memorandos e diagramas durante a coleta, 
análise e validação dos dados com objetivo de apoiar a integração e os 
relatos (FIGURAS 4 e 5). Estes foram redigidos ao longo processo de 
construção dos dados e foram fundamentais para direcionar a redação 
final da teoria emersa. O retorno à literatura que dê suporte a conexões 
estimula interpretações e desdobramentos conceituais acerca das 
perspectivas construídas pela Grounded Theory e pode também ocorrer 
com mais densidade neste momento (LEITE, 2015). 
 
Figura 4 - Exemplo de memorando. Florianópolis, 2019 
Memorando 13 
Enfermeira, coordenadora da Atenção Primária à Saúde, 
paralelamentevinculada a uma equipe de saúde da família. No dia da 
entrevista estava realizando atividades assistenciais em uma UBS que 
não tem equipe de saúde da família, na área rural. Se desloca com 
carro da saúde para fazer atendimento juntamente com o médico da 
equipe. Tem função gratificada. Destaca a autonomia como ponto 
forte da governança. Destaca como estratégias de governança: 
desenvolver comunicação entre as equipes e a rede de saúde 
municipal; articulação e conversa com as equipes; análise de dados 
do e-sus para desenvolver ações estratégicas; feedback dos usuários. 
Para o gerenciamento do cuidado utiliza como ferramentas o e-sus e 
protocolos municipais. 
Tem discurso político. Tem discurso político-partidário. 
Traz dado novo sobre a ampliação de acesso à APS com o programa 
 56 
Mais Médicos e a prescrição de medicamentos pelas enfermeiras. 
Fonte: elaborado pela autora (2019). 
 
Figura 5 - Exemplo de diagrama. Florianópolis, 2019 
 
Fonte: elaborado pela autora (2019). 
 
Segundo Santos et al. (2016), os diagramas e memorandos são 
uma estratégia para orientar o pesquisador ao longo de sua pesquisa. Os 
memorandos e diagramas contribuem para representar as categorias e 
suas conexões também no processo de pesquisa. 
Dias do Nascimento et al. (2016) referem que os memorando e 
diagramas possuem aspectos positivos como: ferramentas que ajudam 
na construção da teoria, permitem ao investigador enxergar nos dados 
brutos a abstração das ideias, apontam a codificação que permite a 
visualização das relações entre os conceitos emergentes dos dados. 
 
4.6 VALIDAÇÃO DO MODELO TEÓRICO 
 
57 
 
É na etapa de validação que, segundo Tarozzi (2011, p. 154), a 
construção das categorias alcança plenitude e “a teorização procede para 
a identificação das categorias centrais, os conceitos chave em torno dos 
quais se organizará a teoria”. Ainda nesta dinâmica, parte-se, 
finalmente, para a etapa de classificação teórica dessas categorias, com o 
objetivo de encontrar a categoria principal que tenha a potencialidade de 
“integrar a teoria e desenvolvê-la em torno de seus eixos conceituais, 
emersos empiricamente”. Ainda de acordo com Tarozzi (2011), a 
categoria central é densa, saturada, integra a teoria, é completa, 
relevante e funcional. Para encontrá-la, são úteis dispositivos como 
diagramas e narrações da história da pesquisa, que possam oferecer uma 
leitura integrada dos conceitos expressos pelas várias categorias até 
então muito fragmentadas (TAROZZI, 2011, p. 81). Neste ponto, com a 
identificação desta categoria central, é viável a produção da 
representação gráfica (com diagramas ou mapas situacionais) da GT que 
ilustre a sua integração (LEITE, 2015). 
A etapa de validação pode ser realizada por profissionais 
experts no método ou na temática em estudo e/ou pelo grupo ou parte do 
grupo de participantes da pesquisa e consiste em apresentar a teoria, ou 
modelo teórico, matriz teórica “construída” com as categorias e suas 
relações até atingir o fenômeno ou categoria central (SANTOS et al., 
2016; SILVA et al., 2018). 
Para validação das entrevistas, enviaram-se as suas transcrições 
aos participantes correspondentes por meio de correio eletrônico, no 
entanto, nem todos responderam. A validação do modelo teórico 
aconteceu em dezembro de 2018, contando com quatro pesquisadores 
com experiência no método, sendo dois deles também com experiência 
prática em APS. Nesse processo, os validadores contribuíram com a 
redação e disposição das categorias e subcategorias, bem como sua 
interconexão com o fenômeno, possibilitando a conclusão da etapa de 
representação gráfica do modelo teórico. 
 
4.7 PRINCÍPIOS ÉTICOS 
 
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em 
Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 
com o Parecer número 2.537.128 e Certificado de Apresentação para 
Apreciação Ética (CAAE): 80346917.4.0000.0121 na data de 11 de 
março de 2018 (ANEXO B). Durante a pesquisa, para atender aos 
aspectos éticos, foram seguidas as recomendações da Resolução nº 
466/12, do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2012b). Os 
 58 
participantes da pesquisa foram esclarecidos sobre os objetivos e o 
método do estudo, bem como assegurados seus direitos de acesso aos 
dados. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi 
explicado e assinado em duas vias por todos os participantes, garantindo 
a confidencialidade da identidade dos mesmos e das informações 
colhidas (APÊNDICE D). Para eles, garantiu-se liberdade de participar, 
como também deixar de participar da pesquisa a qualquer momento, 
caso fosse o seu desejo. 
A confidencialidade da identidade dos participantes da pesquisa 
foi preservada por meio da adoção da letra “P” de participante, seguida 
por códigos numéricos contínuos para identificação dos seus 
depoimentos no relatório final da pesquisa. As gravações das entrevistas 
foram eliminadas depois de transcritas, e as transcrições dos 
depoimentos ficarão com a pesquisadora por cinco anos e depois serão 
destruídas. Diante disso, o consentimento das gravações foi solicitado 
aos participantes por escrito, junto ao TCLE. 
Quanto aos riscos e benefícios do estudo, o estudo não 
apresentou riscos de natureza física, exceto a possibilidade de 
mobilização emocional, cansaço e aborrecimento relacionados à 
reflexão sobre a teoria e prática durante o exercício de sua atividade. 
Esta pesquisa não trouxe benefícios diretos ao participante, porém, 
contribuirá na construção de modelos de governança de enfermagem na 
APS. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
59 
 
5. RESULTADOS E DISCUSSÃO 
 
Neste capítulo, os resultados da pesquisa serão apresentados no 
formato de dois manuscritos científicos, conforme estabelece a instrução 
normativa 10/PEN/2011 do Programa de Pós-Graduação em 
Enfermagem da UFSC, que dispõe sobre os critérios para elaboração e 
formato de apresentação dos trabalhos de conclusão dos cursos de 
Mestrado e Doutorado. 
O Quadro 1 apresenta a relação dos manuscritos com o título e 
objetivo elencados para cada um deles. 
 
Quadro 1 - Relação dos manuscritos elaborados a partir dos resultados da 
pesquisa. Florianópolis, 2019 
Manuscrito Título Objetivo 
Manuscrito 1 Governança na prática de 
enfermagem na atenção 
primaria à saúde 
 Compreender a 
governança na 
prática de 
enfermagem na 
Atenção Primária à 
Saúde e elaborar um 
modelo teórico 
sobre a governança 
na prática do 
profissional de 
enfermagem no 
contexto da Atenção 
Primária à Saúde. 
Manuscrito 2 Tomando decisões 
coletivamente: estratégia 
de enfermeiros para a 
governança na prática de 
enfermagem na Atenção 
Primária à Saúde 
 
 Compreender a tomada 
de decisão de 
enfermeiros no 
contexto da 
governança na prática 
de enfermagem na 
Atenção Primária à 
Saúde. 
Fonte: elaborado pela autora (2019). 
 
 
 
 
 60 
5.1 MANUSCRITO 1 
 
GOVERNANÇA NA PRÁTICA DE ENFERMAGEM NA 
ATENÇÃO PRIMARIA À SAÚDE 
 
RESUMO 
Objetivo: compreender como vem ocorrendo a governança na prática 
profissional de enfermagem no contexto da Atenção Primária à Saúde. 
Método: trata-se de um estudo qualitativo, com referencial 
metodológico embasado na vertente construtivista da Teoria 
Fundamentada nos Dados, desenvolvido na Atenção Primária à Saúde 
da microrregião de Tijucas/Santa Catarina. A coleta e análise dos dados 
ocorreu de forma concomitante entre os meses de abril e julho de 2018. 
A amostra foi composta por 22 participantes distribuídos em três grupos 
amostrais. Resultados: o fenômeno “Promovendo a funcionalidade da 
Unidade Básica de Saúde” ancorado em 6 categorias: Desenvolvendo 
atividades assistenciais; gerenciando a unidade básica de saúde; 
Conquistando autonomia profissional; Organizando a interação entre os 
profissionais de saúde por meio do diálogo e trabalho em equipe; 
Tomandodecisões coletivamente com a equipe de saúde e Lidando com 
limitações no contexto político-organizacional. Conclusão: a 
governança de enfermagem no contexto pesquisado tem como 
centralidade promover a funcionalidade da unidade básica de saúde com 
a articulação de competências e habilidades próprias do enfermeiro. 
Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Enfermagem; Gestão em 
Saúde; Teoria Fundamentada. 
 
INTRODUÇÃO 
 
No Brasil, a organização do modelo atual de saúde pública tem 
a Atenção Primária à Saúde (APS) como porta de entrada principal para 
rede de atenção à saúde. As práticas de cuidado e gestão desenvolvidas 
no cerne desta rede são democráticas e participativas, sob forma de 
trabalho em equipes que compõe a Estratégia Saúde da Família (ESF) 
(ARANTES; SHIMIZU; MERCHÁN-HAMANN, 2016). Na 
organização do trabalho na APS, o exercício de gestão do cuidado 
envolve, paralelamente, a realização do cuidado e gerenciamento, 
apontando destaque do enfermeiro na composição das Equipes de Saúde 
da Família (eSF). O enfermeiro é o profissional que desenvolve ações 
por meio de saber específico, articulado com os demais membros da 
equipe e historicamente relevante no contexto político e social 
61 
 
(HALCOMB et al., 2016; GALAVOTE et al., 2016; FERREIRA; 
PÉRICO; DIAS, 2018). 
A atuação do enfermeiro na APS brasileira vem respondendo à 
proposta de um novo modelo assistencial, que não está centrado 
exclusivamente na clínica e na cura, mas sobretudo, na integração de 
práticas assistenciais específicas de diferentes categorias profissionais e 
compartilhadas que buscam o cuidado integral e de qualidade 
(FERREIRA; PÉRICO; DIAS, 2018; KAHL et al., 2018). Diante disso, 
a articulação de práticas assistenciais e gerenciais e a compreensão de 
que isso constitui a gestão do cuidado, envolvendo atividades que não 
devem ser dissociadas e sim pensadas e desenvolvidas em todas as suas 
dimensões (FERREIRA; PÉRICO; DIAS, 2018; SIEWERT et al., 
2017). 
Em resposta a esses desafios, a governança pode ser um modelo 
de gestão eficiente. O conceito do tema permeia diferentes áreas do 
conhecimento, apresentando um caráter multidisciplinar e multifacetado. 
No entanto, a centralidade da sua definição diz respeito às normas 
formais e informais, por meio das quais os atores de uma sociedade ou 
instituição estabelecem objetivos, tomam decisões e implementam suas 
ações (DÍAZ-CASTRO et al., 2017; COUTO, 2018). Na prática de 
enfermagem, a governança é considerada um modelo de gestão pautado 
no compartilhamento de tomada de decisão, com base nos princípios 
interacionais, participação ativa e corresponsabilização das decisões 
(SANTOS; OLIVEIRA, 2016). 
Uma revisão integrativa que incluiu estudos entre 2007 e 2011 
identificou que a governança de enfermagem é temática em discussão 
principalmente nos Estados Unidos e Inglaterra. Além disso, vem sendo 
investigada com predominância em ambientes hospitalares, 
concentrando 20 dos 25 estudos incluídos na revisão e apenas uma no 
contexto de APS. Considerando os impactos positivos de modelos de 
governança na prática de enfermeiros e nos serviços, a investigação 
sugere o investimento em pesquisas sobre governança na América 
Latina e na APS (SANTOS et al., 2013). 
Diante do exposto, acredita-se que os enfermeiros que atuam na 
APS têm desenvolvido mecanismos e estratégias próprias para o alcance 
da governança na sua prática. Com isso, este estudo buscou 
compreender a governança na prática de enfermagem na APS em 
municípios de uma microrregião de saúde do Sul do Brasil. 
 
MÉTODO 
 
 62 
Estudo qualitativo, com referencial teórico-metodológico 
embasado na vertente construtivista da Teoria Fundamentada nos Dados 
(TFD) (CHARMAZ, 2009). O contexto do estudo foi a Atenção 
Primária à Saúde, organizada exclusivamente pelo modelo de Estratégia 
Saúde da Família, da microrregião de Tijucas, estado de Santa Catarina, 
Brasil, composta por 7 municípios: Angelina, Canelinha, Leoberto Leal, 
Major Gercino, Nova Trento, São João Batista e Tijucas. Para cobrir 
100% da população residente de 95.238 pessoas com os serviços da 
APS, a microrregião conta com 47 estabelecimentos de saúde e atuação 
de 44 enfermeiros vinculados às eSF (DATASUS, 2019). 
Os participantes foram escolhidos de forma intencional. A 
partir da análise dos dados do primeiro grupo amostral definiu-se os 
subsequentes (CHARMAZ, 2009). Como critério de inclusão, 
estabeleceu-se que os participantes tivessem experiência mínima de um 
ano na APS das Secretarias Municipais de Saúde da microrregião de 
Tijucas/SC. Acredita-se que este período é necessário para compreender 
suas devidas funções na área de atuação. Excluíram-se da pesquisa 
profissionais que estavam afastados do serviço por motivo de férias ou 
licenças de outra natureza. As hipóteses que deram origem ao segundo e 
terceiro grupo amostral estão relacionadas, respectivamente, a 
competência do enfermeiro em planejar e avaliar as ações desenvolvidas 
pelos técnicos de enfermagem e agentes comunitários de saúde e, que o 
ambiente de trabalho na APS é fortemente influenciado pelo contexto 
político-organizacional. O fechamento amostral aconteceu por meio da 
saturação teórica, que foi atingida com 22 participantes (BUTLER; 
COPNELL; HALL, 2018). 
A amostragem teórica constituiu-se por três grupos amostrais. 
O primeiro grupo foi composto por treze enfermeiros que atuam na 
atenção primária à saúde da microrregião de Tijucas/SC, vinculados à 
eSF. O segundo grupo amostral foi definido com três técnicos de 
enfermagem e três agentes comunitários de saúde em que os enfermeiros 
do primeiro grupo amostral estavam lotados. No terceiro grupo amostral 
participaram três gestores, secretários municipais de saúde dos 
municípios onde os dois primeiros grupos amostrais estavam lotados. 
A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas intensivas, 
realizadas individualmente entre os meses de abril e julho de 2018, no 
local de trabalho dos participantes, em horário pré-estabelecido por eles. 
As entrevistas foram gravadas, com tempo médio de duração de uma 
hora e oito minutos, sendo transcritas na íntegra. A coleta e análise dos 
dados aconteceu simultaneamente, por meio da codificação inicial e 
focalizada. Na primeira etapa, realizou-se a codificação incidente por 
63 
 
incidente, a fim de gerar códigos provisórios, comparativos e 
fundamentados nos dados. Na segunda, foram agrupados códigos por 
similaridade e diferenças conceituais formando categorias que 
sintetizam e explicam um segmento maior de dados, conforme preconiza 
Charmaz (2009). 
O processo de análise evidenciou seis categorias formadas por 
21 subcategorias. A validação dos dados ocorreu durante as entrevistas e 
a construção do fenômeno. Primeiramente a transcrição das entrevistas 
foram validadas pelos participantes e, em um segundo momento, o 
modelo teórico foi apresentado para quatro pessoas experts no método, 
sendo que duas delas também apresentavam expertise sobre a APS. As 
sugestões destes profissionais contribuíram com a redação e disposição 
das categorias e subcategorias bem como sua interconexão com o 
fenômeno. 
Respeitando-se as considerações éticas da Resolução 466/2012 
do Conselho Nacional de Saúde do Brasil, obteve-se aprovação pelo 
Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos da Universidade 
Federal de Santa Catarina (UFSC), com o parecer número 2.537.128 e 
CAAE: 80346917.4.0000.0121. Para garantir a confidencialidade, 
adotou-se, como pseudônimo, a letra “P”, seguida de códigos num ricos 
contínuos para identificação dos participantes. 
 
RESULTADOS 
 
Os participantes da pesquisa tinham média de idade de 39 anos, 
19 eram do sexo feminino e três do sexo masculino. O tempo de atuação 
na área da saúde variou de um ano a 25 anos. Na APS, a média foi de 11 
anos e na gestão dos serviços de saúde foi de oito anos.No primeiro grupo amostral, dos 13 enfermeiros, 11 tinham 
especialização em diferentes áreas: cinco em gestão dos serviços de 
saúde, cinco em saúde coletiva e um na área de saúde mental. Dos 
profissionais no segundo grupo amostral, um havia concluído o ensino 
fundamental, quatro o ensino médio e um a especialização técnica em 
enfermagem. Estes apresentaram em média 14 anos de atuação na área 
da APS e dois anos de experiência na área de coordenação de equipes. 
Entre os gestores que compuseram o terceiro grupo amostral, um era 
especialista na área de saúde mental e dois tinham ensino médico 
completo, com média de 20 anos de atuação na área da saúde e quatro 
anos de experiência em gestão de saúde. 
 64 
 A análise dos dados evidenciou o fenômeno “Promovendo a 
funcionalidade da unidade básica de saúde”, sustentado em 6 categorias 
e 21 subcategorias apresentadas no Quadro 1. 
 
Quadro 2 - Categorias e subcategorias do fenômeno: “Promovendo a 
funcionalidade da unidade básica de saúde”. Florianópolis, 2018 
Categorias Subcategorias 
Desenvolvendo atividades 
assistenciais 
Fortalecendo vínculo com os usuários 
Fazendo consulta de enfermagem 
Atendendo no domicílio 
Realizando atividades de promoção 
da saúde para os usuários da 
comunidade 
Gerenciando a unidade 
básica de saúde 
Organizando o funcionamento da 
unidade como “um todo” 
Utilizando sistemas de informação 
para o planejamento em saúde 
Promovendo capacitação para a 
equipe de trabalho 
Conquistando autonomia 
profissional 
Ocupando uma posição central na 
organização do trabalho na unidade 
básica de saúde 
Adaptando a realização do trabalho 
aos recursos disponíveis na unidade 
de saúde 
Remanejando profissionais entre os 
setores para suprir a falta de pessoal 
Exercendo uma autonomia 
condicionada as decisões da gestão 
municipal 
Organizando a interação 
entre os profissionais de 
saúde por meio do diálogo e 
trabalho em equipe 
Fazendo “elo” entre os profissionais 
de saúde 
Valorizando o diálogo como 
estratégia para resolução dos 
problemas 
Compartilhando o cuidado com a 
equipe de saúde 
Tomando decisões 
coletivamente com a equipe 
de saúde 
Realizando reuniões periódicas 
Planejando junto com a equipe de 
saúde 
65 
 
Discutindo casos de usuários com a 
equipe de saúde 
Lidando com limitações do 
contexto político-
organizacional 
Identificando a importância de 
formação e atualização profissional 
Vendo a rotatividade de enfermeiros 
como problema 
Recebendo solicitação de 
atendimento de pessoas com 
influência político partidária 
Fonte: elaborado pela autora (2019). 
 
 A categoria “Desenvolvendo atividades assistenciais” 
representa diferentes estratégias do enfermeiro para realização do 
cuidado. Estes dados indicam que a prática de enfermagem inicia-se 
pelo contato do enfermeiro com o usuário onde ocorre o fortalecimento 
de vínculo com o usuário para a realização de consultas, atendimentos 
domiciliares e ações de promoção da saúde. 
 A subcategoria “Fortalecendo vínculo com os usuários” 
evidencia que o enfermeiro vem acolhendo, demonstrando empatia e 
estabelecendo uma relação de confiança por meio de sua aproximação 
afetiva, respeito às condições individuais do usuário, sigilo e ética 
profissional. No cenário onde a pesquisa foi realizada, há um maior 
número de UBS localizadas na área rural e periurbana, onde os 
atendimentos são predominantemente agendados e os usuários 
aguardam na sala de espera. Este momento é considerado oportuno pelo 
enfermeiro para estreitar vínculos com os usuários, por meio do 
acolhimento, empatia e relação de confiança. 
 
Eu acho muito importante o acolhimento nas 
unidades porque como a gente trabalha em 
unidades externas e do interior, bem distante da 
unidade central, as consultas são agendadas, e o 
acolhimento que você faz com a comunidade é no 
momento que ela está à espera do tratamento tanto 
odontológico como de saúde (P2). 
 
Então o teu caso é somente teu, o que eu discuto 
com você, é com você e ninguém mais. Porque se 
o paciente vier atrás de você para um 
atendimento, ele precisa de você uma parte ética, 
está confiando em você e se esta ética não 
funciona não tem porque estar aqui (P2). 
 66 
 
Na subcategoria “Fazendo consultas de enfermagem”, o 
enfermeiro realiza o cuidado para diversas condições de saúde e 
demonstra para a população outra face de um modelo assistencial de 
saúde médico centrado. Entretanto, ficou evidente nas entrevistas, que o 
grupo mais atendido pelos enfermeiros são as gestantes e mulheres, pelo 
respaldo dado por protocolos municipais, que permitem a prescrição de 
medicamentos e solicitações de exames. Tais protocolos e portarias 
municipais que tem como base os cadernos de atenção básica do 
Ministério da Saúde. 
 
O que eu tenho a nível de enfermagem é o 
protocolo de pré-natal de baixo risco, que foi 
desenvolvido pelas enfermeiras do município, 
passando pelo COREN [Conselho Regional de 
Enfermagem]. Ele é baseado no caderno da 
atenção básica. Temos os protocolos de 
ginecologia, de saúde da mulher [...] tem uma 
portaria que nós podemos prescrever as 
medicações e exames de acordo com os cadernos 
de atenção básica, que cada especialidade tem um 
caderno, tem vários (P13). 
 
Aqui no município, por exemplo, para a gestante 
começar o pré-natal com o médico que vai fazer o 
pré-natal dela, tem que fazer a consulta com o 
enfermeiro antes, tem protocolo. A gente faz 
todos os exames, prescrição das medicações de 
início no pré-natal. Tudo tem que passar pelo 
enfermeiro antes (P7). 
 
Além do enfermeiro prestar cuidado aos usuários na UBS, ele 
vem “Atendendo no domicílio” aqueles que tem dificuldade de 
locomoção, seja por idade ou condição de saúde. Na visita domiciliar, o 
enfermeiro realiza a verificação de pressão arterial, glicemia capilar, 
curativo, orienta sobre alimentação, uso adequado das medicações e 
avalia as necessidades individuais do usuário. Além disso, identifica 
quais profissionais podem contribuir com o cuidado do usuário, como o 
médico e os profissionais que compõe o Núcleo de Apoio à Saúde da 
Família (NASF). 
 
[...] a nossa atual [enfermeira], trabalha da forma 
que eu gostaria que o enfermeiro trabalhasse, que 
67 
 
é fazer saúde lá na comunidade, não ficar somente 
no posto de saúde (P15). 
 
Com o público que tem mais dificuldade de 
locomoção seja por idade ou problema de saúde a 
gente faz acompanhamento por meio de visitas 
domiciliares (P11). 
 
[...] a gente [enfermeiras] faz a visita, identifica o 
problema, se tem a necessidade do 
acompanhamento médico e depois também se há 
necessidade de acompanhamento da equipe do 
NASF, no caso o fisioterapeuta, o nutricionista, o 
psicólogo (P8). 
 
O enfermeiro orienta o paciente como um todo, 
não adianta ir lá [no domicílio] só fazer um 
curativo, ele também orienta da alimentação, 
medicamento (P14). 
 
A subcategoria “Realizando atividades de promoção da saúde 
para os usuários da comunidade” representa ações coletivas realizadas 
pelos enfermeiros, como trabalhos artesanais e jogos com os grupos de 
saúde mental, grupo de tabagismo, palestras e reuniões com as 
gestantes, pessoas com hipertensão e diabetes mellitus. As ações 
coletivas vêm sendo compartilhadas com os profissionais do NASF 
como, por exemplo, o grupo de atividade física, que é realizado 
juntamente com os educadores físicos, o grupo de gestantes que tem a 
participação de fonoaudiólogo e o grupo “emagreça saudável”, em 
conjunto com a nutricionista. 
 
As estratégias que a gente usa são o calendário do 
Ministério da Saúde que são as ações de cada mês, 
tem meses que acontece de ter até duas, saúde da 
mulher, do homem, hepatite, DST-AIDS [doença 
sexualmente transmissível – Síndrome da 
Imunodeficiência Adquirida], além de seguir o 
calendário do Ministério da Saúde a gentetenta 
fazer reuniões mensais com gestantes, que é muito 
importante e com grupo de saúde que são 
hipertensos e diabéticos (P3). 
 
Com o NASF a gente senta organiza, tem agora 
uma atividade que a gente faz, que é atividade 
 68 
física, daí eles procuram esse tempo de estarem 
presentes em nosso grupo, daí tem gestantes que 
vem, principalmente a fonoaudióloga, na segunda 
e na quarta eles tem grupo de atividade física para 
idosos aqui no centro, a gente participa e vai lá 
também aferir pressão, para ficar junto mesmo 
com os idosos (P10). 
 
A categoria “Gerenciando a Unidade Básica de Saúde” 
constatou que o enfermeiro organiza o local onde o cuidado de 
enfermagem e saúde é realizado para torná-lo efetivo. Para isso, ele 
organiza a unidade básica de saúde como um todo, capacita a equipe de 
trabalho e utiliza estratégias de planejamento para realização do serviço. 
O enfermeiro utiliza a escuta como estratégia para acolher as 
reivindicações dos usuários, sejam elas sugestões ou críticas. 
 
[...] que a gente ouve a população, as 
reivindicações deles, as sugestões, as críticas (P6). 
 
A subcategoria “Organizando o funcionamento da unidade 
como um todo” esclarece que o enfermeiro gerencia a manutenção da 
estrutura física, disponibilidade de insumos e medicamentos, e 
dimensiona o trabalho para efetivação do cuidado de saúde e 
enfermagem. Ele organiza as rotinas da UBS de acordo com as 
demandas da população. delega funções para a equipe de trabalho, 
define a quantidade de atendimentos realizados no dia, circula entre os 
setores para supervisionar os serviços e coordena a equipe de saúde da 
família. 
 
Eu acho que na organização da unidade como um 
todo, a funcionalidade de todo sistema depende do 
enfermeiro. Eu acho que a organização, tanto de 
consultas, como a funcionalidade de uma unidade 
é responsabilidade do enfermeiro. [...] (P1). 
 
A gente elenca quais são as prioridades, as 
necessidades, as urgências, até mesmo as 
emergências, o que é rotina dentro do que cada 
um pode fazer, até o seu limite de fazer, dentro da 
lei, claro o que tange à responsabilidade de cada 
um, isso dentro da minha equipe [...] tudo que eu 
deleguei e pedi na reunião sempre fizeram [a 
equipe] prontamente (P7). 
69 
 
 
Para a organização do trabalho na UBS, o enfermeiro utiliza 
também ferramentas como escalas e cronogramas. Estes instrumentos 
norteiam a agenda de reuniões, o uso de computadores para digitação da 
produção dos ACS e a utilização do carro para as visitas domiciliares. O 
enfermeiro demonstra flexibilidade para ajustar o seu planejamento de 
acordo com a necessidade do serviço. 
 
Temos escalas e cronogramas que nos norteiam, 
eles são abertos, se tiver alguma solicitação [de 
alteração] a gente vai imediatamente também. E a 
gente segue aquela escala de visitas, reuniões de 
equipe, reuniões com agente de saúde, outro dia 
reunião com as técnicas (P12). 
 
Elas [agentes comunitárias de saúde] têm escala 
para digitar [a produção]. Se elas não aparecerem 
no dia da escala para digitar eu mando mensagem 
e ligo. Geralmente elas me dão satisfação. Aí eu 
remarco para outro dia e ela tem que apresentar a 
folha daquela semana. Eu não deixo passar muitos 
dias de digitar (P7). 
 
A partir do momento que a unidade de saúde é 
organizada pelo enfermeiro, que é feito o 
cronograma, é muito mais fácil de você 
[enfermeiro] gerenciar, não que tudo vai sair 
conforme o cronograma, por que a vida é assim, a 
gente faz planos e nem sempre as coisas saem 
como a gente planejou (P3). 
 
A subcategoria “Utilizando os sistemas de informação para o 
planejamento em saúde” evidenciou que o enfermeiro utiliza como 
ferramentas de planejamento os relatórios do Sistema de Informação da 
Atenção Básica (E-SUS) e os registros de atas e reuniões. Estes, por sua 
vez, permitem a obtenção de dados como a cobertura populacional do 
ACS e o perfil de demandas atendidas em determinado local e período, 
fornecendo subsídios para a supervisão da atividade do ACS e a 
realização de ações coletivas. 
 
Na sigla do CIAP [Classificação Internacional de 
Atenção Primária] tem o motivo da consulta para 
preencher a demanda que o paciente trouxe, febre, 
 70 
vômito. Isso a gente precisa saber, porque no final 
do ano eu preciso saber [relatório] quem atendeu 
para planejar os grupos (P13). 
 
Tanto é que a gente faz reuniões semanais, 
trabalha com atas, registra no E-SUS [sistema de 
informação utilizado na APS]. Tudo 
registradinho. Sempre vendo o trabalho que foi 
feito durante a semana, na área, os pacientes mais 
críticos, os domiciliados, as visitas com médico, 
com ACS e o enfermeiro, sempre direcionando do 
mais grave para o menos grave (P2). 
 
Eu tenho uma relação de todas as famílias que 
cada uma [ACS] tem. Eu somo cada semana e no 
final do mês e vejo se ela [ACS] conseguiu atingir 
todas, se não conseguiu eu faço reunião e 
pergunto (P7). 
 
Como estratégia de gerenciamento da UBS, o enfermeiro 
tamb m vem “Promovendo capacitações para a equipe de trabalho”, 
aprimorando as habilidades dos profissionais de sua equipe de trabalho 
que consequentemente refletem no funcionamento da UBS. Isso envolve 
a capacitação da equipe para atender o usuário de acordo com seu perfil 
e treinamentos sobre a utilização do sistema de informação da atenção 
básica (E-SUS). 
 
Ele [enfermeiro] tem um objetivo que é comum, 
que é ajudar a população que está carente, que 
está doente, a ver a vida e a saúde de uma outra 
forma, como é que a gente[enfermeiro] faz isso? 
Incentivando a equipe, capacitando a equipe, 
trabalhando com a equipe, principalmente com 
nossos ACS que são nossos olhos e ouvidos, eles 
estão dentro da casa das pessoas nos trazendo 
informações para que a gente possa reformular a 
atenção necessária, promoção e prevenção da 
saúde de acordo com cada perfil da comunidade. 
A estratégia é conhecer o perfil da população, 
capacito a equipe para lidar com esse usuário 
(P3). 
 
Eu acho que nunca foi uma dificuldade interagir 
com a equipe, com o todo, por que cada um sabe 
71 
 
sua função e quando não sabe a gente tenta 
capacitar, conversar da maneira mais adequada 
possível, mas nunca foi dificultoso (P3). 
 
Além disso, o enfermeiro preocupa-se em orientar o auxiliar de 
limpeza sobre quais ambientes da UBS ele deve priorizar para evitar a 
contaminação cruzada. 
 
Eu estava conversando com a auxiliar de limpeza, 
explicando algumas situações para ela, ela não 
tem a nossa visão [de profissional da saúde] o 
nosso entendimento. Eu expliquei, a partir de 
agora, primeiro de tudo você limpa a sala de 
vacina, que é o primeiro lugar que precisa limpar 
(P1). 
 
A realização da assistência de enfermagem e o gerenciamento 
da UBS descrito nas categorias anteriores, refletem na conquista e 
reconhecimento do espaço estratégico do enfermeiro no cenário da APS. 
Por conseguinte, emergiu a categoria “Conquistando autonomia 
profissional”. A autonomia do enfermeiro no contexto é representada 
pelo desenvolvimento de ações para adequação às necessidades da 
realidade condicionada a decisão do gestor municipal de saúde. 
A subcategoria “Ocupando uma posição central na organização 
do trabalho na unidade de básica saúde” evidenciou que o enfermeiro 
o profissional de referência e assume o posicionamento de ser o “norte” 
para a equipe, ou seja, direciona a equipe nas suas atividades 
assistenciais e de gerenciamento da UBS. Diante disso, ele procura ser 
um exemplo, prezando pela assiduidade e cordialidade com os usuários. 
 
A equipe vê a gente como algu m que o “norte” 
para eles seguirem [...] Eu acredito que a gente é o 
espelho da nossa equipe. A gente tem que ser 
correto, não pode faltar, estar sempre sorrindo, 
tratar os pacientes sempre bem (P7). 
 
A gente é bem referência, tudo na unidade é 
chamado nosso nome, é perguntadopara a gente 
(P11). 
 
 72 
O enfermeiro é o profissional que o médico, o técnico de 
enfermagem e o ACS procuram para resolver os problemas dentro da 
UBS. 
 
Então isso influencia muito no trabalho, por que o 
enfermeiro é quem a gente pode recorrer quando 
precisa [...] o médico quando precisa de alguma 
coisa é no enfermeiro que ele vai, o agente, o 
técnico é no enfermeiro que ele vai [procura] [...] 
Quando a gente fica sem, fica perdido, não sabe 
para onde ir, porque é o enfermeiro que vai na 
casa, o enfermeiro que coordena a equipe, faz 
reuniões (P15). 
 
O trabalho do enfermeiro é reconhecido como importante na 
APS, pois ele conquistou um espaço profissional fundamental na visão 
de gestores e por seu auto reconhecimento. Ele demonstra habilidades 
para gerenciar a equipe e a unidade básica de saúde, elaborar 
instrumentos de gestão e tomar decisões levando em consideração a 
coletividade, no sentido da assistência e do trabalho. Essas ações 
conferem ao enfermeiro a conquista de um espaço estratégico de atuação 
profissional na composição da equipe de saúde na APS. 
 
O enfermeiro ele é muito importante na atenção 
básica. Trinta e um anos que trabalho na saúde e 
enquanto diretora do hospital, que eu também fui, 
secretária de saúde, eu vejo que ele faz um 
trabalho importante tanto na organização da 
equipe quanto da unidade [...] agora eu estou 
gerenciando a atenção básica, eu tenho 
enfermeiras que têm uma capacidade imensa 
(P20). 
 
Tinha o SISPACTO [instrumento de pactuação de 
prioridades, metas, objetivos e indicadores 
interfederal], o relatório anual de gestão, o plano 
municipal de saúde anual e o plano municipal de 
saúde dos quatro anos e sempre o enfermeiro teve 
participação, por isso o enfermeiro é fundamental. 
Eu digo para você que o enfermeiro é uma pessoa 
que tem total visão dentro de uma atenção básica 
(P21). 
 
73 
 
 Com a conquista da autonomia, a subcategoria “Adaptando a 
realização do trabalho aos recursos disponíveis na unidade de saúde” 
representa que o enfermeiro adequa as ações de acordo com a realidade. 
Entre as condições que necessitam de adaptações, destacam-se a 
ausência de consultório exclusivo para o enfermeiro e dificuldade de 
acesso à veículo para deslocamento das atividades externas a UBS. Para 
manutenção das atividades, o enfermeiro utiliza cartazes para 
identificação dos setores de serviço dentro da UBS e quais pacientes têm 
prioridade na realização de curativos de troca diária nos domicílios, 
visando o dimensionamento do uso do carro pelas técnicas de 
enfermagem. 
 
Hoje eu precisaria de uma estrutura melhor, 
porque assim a gente conseguiria fazer um 
trabalho melhor, sem dúvida. Mas, eu sempre 
parto do princípio que a gente tem que trabalhar 
com aquilo que tem e não deixar de não fazer por 
conta disso, se acomodar “eu não tenho uma sala 
para isso, aquilo, então eu não vou fazer”. A gente 
sempre dá um jeitinho! (P4). 
 
É simples assim, a nossa estrutura é muito 
pequena, mas eu já coloquei um cartaz na parede, 
já fui mexendo em algumas coisas e com isso as 
meninas viram e já fizeram mudanças, elas 
mesmo mudaram (P9). 
 
Constatou-se que os enfermeiros vêm “Remanejando 
profissionais entre os setores para suprir a falta de pessoal”. Para não 
paralisar o serviço, ele redimensiona profissionais entre os setores de 
uma mesma UBS e solicita profissionais de outras UBS. Na falta de 
ACS em número suficiente para atender a área de abrangência, o 
enfermeiro redesenha o território de cobertura dos ACS. Além disso, 
auxilia no setor da recepção e mantém os atendimentos ao usuário na 
ausência de outros profissionais. 
 
Eu [enfermeiro] acabo tendo que pedir ajuda para 
outros setores quando falta profissional. Não 
chego a fechar setor. Eu peço, vai lá faz a tua 
função. Por exemplo, a menina do 
eletrocardiograma e dermatoscopia, ela faz só 
isso, mas se faltou um funcionário aqui na frente 
eu digo: - Vai lá! Atende os pacientes, se 
 74 
conseguir o mais rápido possível e vem dar uma 
mão aqui na frente. Ou as vezes, tento falar com o 
secretário adjunto ver se ele consegue um 
profissional de outra unidade que tenha menos 
movimento do que aqui (P7). 
 
Hoje a gente se reveza para não ficar sem 
ninguém ao meio dia. E todas as outras unidades 
fecham ao meio dia (P9). 
 
Até porquê a gente trabalha com pouco 
funcionário, por isso que eu e ela [enfermeiras] a 
gente está atuando muito na assistência, até no 
atendimento na própria recepção. A gente tem 
nossos horários de atendimento que faz pré-natal, 
preventivo, grupos, mas a gente acaba atuando 
junto pela falta de funcionários (P8). 
 
Apesar do enfermeiro ter seu trabalho reconhecido no contexto 
organizacional, encontra barreiras para tomar algumas decisões no 
cotidiano do serviço na UBS, deparando-se com ambiguidades sobre sua 
autonomia profissional. Os gestores reconhecem que o enfermeiro 
precisa ter autonomia para tomar decisões sobre a organização do 
trabalho na UBS. Por isso formalizaram essa atribuição em portaria que 
garantiu também um acréscimo na remuneração salarial. Diante disso, o 
enfermeiro identifica que consegue ter autonomia na UBS, mas por 
vezes, deparam-se com situações em que não tem “carta branca” para 
tomar decisões, dependem da autorização do gestor municipal ou precisa 
rever sua decisão por que foi contraditória a do gestor. Tais achados 
estão representados na subcategoria “Exercendo uma autonomia 
condicionada s decisões da gestão municipal”. 
 
A gente [gestores] via uma desmotivação de todos 
os profissionais, principalmente dos enfermeiros, 
na tomada de decisão e a gente ficou preocupada 
por que eles ficavam de mãos atadas para tomar 
decisão no seu trabalho. Primeiramente a gente 
pensou como organizar isso [autonomia, tomada 
de decisão]. Hoje, cada enfermeiro, independente 
de quantas equipes tem em cada unidade, eles são 
responsáveis formalmente e recebem uma 
gratificação por isso, para ter autonomia (P22). 
 
75 
 
A gente [enfermeiro] poderia ter mais colaboração 
da gestão para questão de organização na unidade. 
Tem várias coisas que a gente poderia ter mudado 
aqui dentro e a gente não pode mudar por que não 
tem autorização da gestão. É coisa que eles 
esquecem, que é importante para nós, mas para 
eles [gestor municipal] não é tão importante e 
acaba passando e a gente fica nesse aguardo e não 
acontece. A equipe nos cobra, a gente fala que 
estamos esperando uma resposta do gestor. Eles 
perguntam o que isso vai interferir? mas a gente 
precisa dessa autorização (P11). 
 
Pode ser que eu não consiga ter autonomia de 
colocar o dentista, contratar um agente de saúde, 
uma faxineira. Eu não tenho governança sobre 
esses assuntos. Mas a governança de como minha 
unidade de saúde vai funcionar, eu consigo [...] 
(P6). 
 
Precisa mais “carta branca”, o enfermeiro decidiu, 
está decidido. Muitas vezes a gente vai lá toma 
uma atitude. A pessoa [profissional da equipe] 
procura o fulano de tal [político], que passa a mão 
na cabeça, diz não e acaba quebrando com a nossa 
autonomia (P3). 
 
O enfermeiro vem “Organizando a interação entre os 
profissionais de saúde por meio do diálogo e trabalho em equipe”. 
Essa categoria demonstra que ele promove o relacionamento entre os 
profissionais para a realização do trabalho em equipe, o diálogo e a 
comunicação com uso de tecnologias. 
 Na subcategoria “Fazendo o elo entre os profissionais da equipe 
de saúde” o enfermeiro desenvolve o trabalho em equipe. O profissional 
entende que está uma de suas atribuições, essenciais para “a equipe 
pegar junto e alavancar”. 
 
A gente já viveu várias gestões muito boas onde 
conseguiu interagir com a equipe para que ela 
pegasse junto para alavancar [...] Alguém tem que 
fazer esse “elo” e eu acho que já nos incumbido 
indiretamente (P6). 
 
 76A partir da relação interpessoal com a equipe o enfermeiro 
desempenha um “bom trabalho”, na visão dos enfermeiros e das equipes 
de saúde. Junto com o ACS ele participa do acompanhamento de 
pessoas com doenças crônicas, puericultura, auxilia no cadastro de 
famílias, realiza visita domiciliar para os acamados e coloca-se atento à 
população do bairro. 
 
Eu consigo fazer um trabalho muito bom com a 
minha equipe relacionado a minha relação 
interpessoal com a equipe e a nossa relação com 
os pacientes que daí foram os vínculos que a gente 
formou (P13). 
 
Nós nos identificamos bem. O enfermeiro 
participa junto conosco. Eu vejo que o enfermeiro 
atua bem, faz um bom trabalho e que nós como 
todo fizemos um bom trabalho, somos uma equipe 
e trabalhamos juntos. Ele participa das atividades 
dentro do trabalho do agente de saúde, 
acompanhando os diabéticos e hipertensos, as 
crianças até os cinco anos, e fazer o cadastro da 
família, olhar os acamados, fazer visita domiciliar 
nos acamados e dar uma atenção para o povo onde 
a gente atua, do bairro (P18). 
 
Ainda para a organização da interação entre os profissionais, 
evidenciou-se a subcategoria “Valorizando o diálogo como estratégia 
para resolução dos problemas” que demonstra que o enfermeiro 
conversa com gestores ou profissionais da equipe de trabalho, 
individualmente, em reuniões ou por meio de contato telefônico para 
solucionar problemas relacionados à unidade e assistência. 
 
Eu sou muito do dia a dia. As dificuldades que 
tem eu chamo e já converso, o que tem que estar 
mudando, o que está acontecendo de errado. 
Então, eu uso através da conversa no dia a dia. 
Não gosto de esperar para resolver em reunião, 
então, aconteceu eu já chamo para a gente já estar 
resolvendo (P8). 
 
Tem as reuniões semanais que são todas as 
quartas-feiras, a gente conversa, relata tudo o que 
tem que relatar e vê tudo o que está faltando, vê o 
77 
 
que está precisando mudar, conversa e entramos 
todos em um consenso para a gente sempre inovar 
e fazer as coisas melhores, por que é vivendo e 
aprendendo (P6). 
 
Graças a Deus agora entrou o secretário adjunto 
que ele é como se fosse nosso coordenador. Então 
muitas coisas eu tento resolver da minha maneira 
ou tento conversar com ele e ver o que ele me 
autoriza fazer [...] Falo com a assistente social, às 
vezes é um exame que [o usuário] não tem 
condições de pagar e vai demorar pelo posto (P7). 
 
Além disso, o enfermeiro utiliza aplicativos de mensagens 
instantâneas, como o WhatsApp
®
, e-mail e telefone para se comunicar e 
trocar informações com a equipe de saúde e gestores. Isso ocorre para 
busca ativa de usuários em exames e consultas, no compartilhamento de 
notas técnicas sobre a prática de enfermagem, como por exemplo, a da 
campanha de vacinação e para recados à equipe. 
 
É tanto agente de saúde, imagina se a gente vai 
dar conta de mandar mensagem para cada um. Eu 
montei um grupo no WhatsApp®, o grupo é tanto 
para besteira, quanto para passar recados da saúde 
mesmo (P7). 
 
Então se eu quero localizar o paciente, na nossa 
área não funciona telefone, a gente aciona pelo 
WhatsApp® um ACS desse da área e ele vai na 
casa do familiar e fala, olha tem exame tal dia 
(P10). 
 
Quando eles [gestão] mandavam e-mail, 
mandavam para o enfermeiro dar o recado para 
toda equipe (P7). 
 
O meu telefone está sempre disponível para 
resolver as coisas (P22). 
 
Evidenciou-se que o enfermeiro vem “Compartilhando o 
cuidado com a equipe de saúde” a partir da troca de conhecimento pelas 
diferentes áreas de formação ou atuação. Estas práticas potencializam as 
 78 
interações profissionais, provisão de recursos necessários para o cuidado 
e ação educadora do enfermeiro com o familiar cuidador. 
Exemplos disso são percebidos quando o enfermeiro identifica 
uma doença infectocontagiosa, e tem sua prática de cuidado 
compartilhada com profissionais da vigilância epidemiológica. Médicos 
e técnicos de enfermagem também fazem um acompanhamento 
juntamente com o enfermeiro buscando o cuidado e a recuperação do 
paciente. Isso ocorre quando decidem atender no mesmo dia uma 
gestante que está com dor, mas não estava na agenda ou na realização de 
uma troca de sonda uretral conjuntamente. Além disso, quando o 
usuário não tem instrução para fazer um agendamento de exame, que 
pode comprometer seu tratamento, o enfermeiro procura o gestor 
municipal com o intuito de agilizar este processo. 
 
O cuidado é gerenciado sempre em parceria, 
quando o estado está mais agravado, se é uma 
doença infectocontagiosa como a tuberculose, 
você vai trabalhar junto com a vigilância 
epidemiológica, se é um paciente com câncer, 
você vai tentar ver todos os cuidados que ele está 
tendo no CEPON [Centro de Pesquisas 
Oncológicas] e fazer os cuidados paliativos junto 
com a família (P3). 
 
A médica também faz um acompanhamento, 
então primeiro vai a médica com a enfermeira [no 
atendimento domiciliar] e depois a gente reveza, 
um dia vai uma, outro dia vai a outra [técnica de 
enfermagem], mas todos com o mesmo objetivo, 
que é a cura do paciente, o cuidado (P17). 
 
A categoria “Tomando decisões coletivamente com a equipe 
de saúde” revela que a tomada de decisões coletivas acontece por meio 
de reuniões periódicas, planejamento conjunto e discussão de casos de 
usuários. A subcategoria “Realizando reuniões periódicas” evidencia 
que uma das estratégias para participação de todos os profissionais 
envolvidos com o serviço, nas decisões sobre a dinâmica que permeia o 
cotidiano das UBS, é a realização de reunião periódica com a equipe de 
saúde. Conferir voz aos envolvidos é considerado pelo enfermeiro uma 
prática para inovar e melhorar considerando as experiências 
anteriormente vivenciadas por todos. 
79 
 
Nesse sentido, o enfermeiro vem “Planejando junto com a 
equipe de saúde” a dinâmica da organização do serviço na UBS. Esta 
subcategoria representa que o planejamento em conjunto com a equipe é 
uma ferramenta que promove o estabelecimento de metas racionalizadas 
a partir da interação de diferentes ideias e o fortalecimento dos vínculos 
neste contexto. Como exemplo de ações que foram planejadas junto com 
a equipe destacam-se: o fluxo de agendamento de consultas, marcação 
de exames, horários de reuniões e atividades vinculadas o Programa de 
Melhoria do Acesso e da Qualidade (PMAQ). 
 
Na minha equipe, tudo o que eu posso tomar de 
decisão conjunta para transformar em uma ideia 
melhor eu tento fazer. Pensando em processo de 
trabalho, dinâmica, eficácia e eficiência, tudo! [...] 
a gente tenta planejar o máximo, todo mundo 
junto, porque eu penso de um jeito, tu de outro, 
ela de outro, e a junção destas ideias vai dar um 
todo que talvez seja o melhor para aquela situação 
do que só a minha ideia (P5). 
 
A decisão nunca é tomada sozinha, a gente faz 
reuniões periódicas e tenta decidir o máximo das 
coisas em conjunto com todos os profissionais que 
atuam aqui dentro na unidade, a organização do 
serviço geral, para decidir reuniões, horários, 
agendamentos e marcações é tudo (P11). 
 
A gente [duas enfermeiras] reúne a equipe. Você 
não trabalha sozinha, tens a tua equipe, onde as 
decisões são tomadas e as ações colocadas em 
prática (P8). 
 
Quanto a tomada de decisão, tudo em conjunto. A 
nossa parte na época do PMAQ foi tudo muito 
unido, todo mundo se uniu, vamos buscar, fazer 
acontecer e a gente conseguiu, só que claro que 
pela parte do governo a gente não conseguiu nada 
(P15). 
 
A gente mesmo desenvolve os nossos [objetivos e 
planejamento] dentro das nossas possibilidades, o 
que nós conseguimos e damos conta de fazer (P6). 
 
 80 
Para mim conseguir fazer com que esta equipe 
trabalhe a gente tem reuniões e eu tento fazer com 
que a equipe defina as coisas junto comigo, não eu 
colocar para elas o que eu quero, oque eu penso 
(P4). 
 
A subcategoria “Discutindo casos de usuários com a equipe de 
saúde” demonstra que o enfermeiro discute com a equipe casos de 
usuários para tomar decisões que atendam a integralidade da assistência. 
Os profissionais planejam ações de cuidado em saúde e enfermagem e 
decidem o plano terapêutico em conjunto. Exemplos de discussão de 
caso envolvem: como fazer um curativo, que tipo de medicamento será 
utilizado e matriciamento pelo NASF. 
 
Assim com a discussão de caso entre a equipe, 
para que todos saibam o que está acontecendo e 
possam assistir o paciente como um todo (P1). 
 
A gente se reúne com a enfermeira, normalmente 
eu e a outra técnica, quando é a questão por 
exemplo de um curativo, quando é na casa de um 
paciente, como é que a gente vai trabalhar com 
aquele paciente, que tipo de medicação a gente vai 
utilizar (P17). 
 
Então esses pacientes, quando há necessidade é 
feito acompanhamento por toda a equipe e uma 
vez por mês a gente se reúne para estar discutindo 
o caso do paciente (P8). 
 
[...] cada profissional olha para a pessoa com o 
conhecimento que ela tem, eu vou olhar de um 
jeito, o enfermeiro vai olhar de outro (P14). 
 
Isso é muito importante, porque na reunião de 
equipe a gente passava os nossos dados 
epidemiológicos, o que tinha atendido no mês, 
discutia algum caso de paciente que precisava 
matriciar com o NASF (P13). 
 
Assim a gente consegue discutir mais específico 
os cuidados de cada paciente, levantar os 
problemas de cada paciente (P11). 
 
81 
 
A categoria “Lidando com limitações do contexto político-
organizacional” emergiu da vivência dos enfermeiros com aquilo que 
consideram limitações no ambiente de trabalho e que interferem na 
qualificação do serviço de saúde e enfermagem e a governança na sua 
prática. 
A subcategoria “Identificando a importância de formação e 
atualização profissional” demonstra que os enfermeiros percebem a 
necessidade de estarem atualizados, qualificados para responder às 
diferentes demandas pelas quais os usuários procuram o serviço na APS 
e, a necessidade dos gestores (secretários municipais de saúde) terem 
formação na área da saúde. O enfermeiro reconhece a falta de 
investimento em educação continuada, mas procura informação sobre as 
dúvidas que aparecem no cotidiano em sites oficiais do departamento de 
atenção básica. 
 
Uma coisa muito importante, capacitação, não 
adianta eu estar aqui [trabalhando na APS], chegar 
nua e crua e de repente nesse tempo todo, nunca 
fui chamada para uma capacitação do que é o 
enfermeiro do ESF o que precisa ser feito. Não é 
só capacitar o enfermeiro, eu vejo isso para o 
técnico, para os agentes principalmente (P2). 
 
Em relação a capacitação, eu volto te falar que é 
importante, até para nós que somos enfermeiros 
[...] A comunidade sempre aparece com dúvidas e 
o enfermeiro tem que estar sempre por dentro do 
que é mudado, o que é priorizado para estar 
sempre pronto para responder a comunidade (P2). 
 
Eu vejo que os profissionais são colocados nos 
seus locais de trabalho e nem sempre são 
orientados, é o que acontece com os agentes 
comunitários, são colocados, a gente faz uma 
orientação rápida. Não há uma capacitação, 
nenhuma orientação e fica por isso mesmo. A 
educação continuada é muito importante (P1). 
 
Além disso, o enfermeiro aponta que os gestores de saúde nas 
diferentes esferas de atuação devem ter formação técnica na área. Os 
profissionais esperam que tendo conhecimento técnico na área da saúde, 
a posição hierárquica ocupada pelo gestor, direcione de forma 
qualificada os seus serviços. 
 82 
Eu acho que poderia contribuir consequentemente 
é os nossos superiores, a nossa chefia ter maior 
conhecimento da área. Realmente ser da área da 
saúde. Porque às vezes a gente se depara com 
profissionais que têm boa vontade, mas que não 
tem conhecimento necessário e consequentemente 
as coisas não acontecem por essa falta (P1). 
 
Você tem que ter uma gestão que funcione e uma 
hierarquia que leve adiante isso, através do estado, 
do município, dos gestores que estão atuando 
dentro do município. O conhecimento do gestor 
tem que ser no mínimo técnico, direcionado à 
saúde, sem essa direção eu acredito que não tem 
como ir para frente [...] Existe uma hierarquia e eu 
acredito que esta hierarquia tem que ser cumprida 
em todos os sentidos, você tem um gestor de 
saúde, mas este gestor tem que saber exatamente a 
que ele veio, qual é o propósito, ele tem que 
entender da área para estar presente neste setor. 
Na verdade, ele é, se é um trabalho hierárquico ele 
tem que saber direcionar todos os setores (P2). 
 
Porque para parte burocrática a gente tem pouco 
estudo, segundo grau. A gente não tinha 
orientação para esta parte burocrática (P20). 
 
Outra limitação identificada no contexto pesquisado é a 
rotatividade de enfermeiros, seja pelo pouco tempo de permanência no 
emprego ou pela sua movimentação entre os postos de trabalho. Estas 
condições estão relacionadas com o vínculo empregatício, ou seja, a 
contratação temporária e a cultura organizacional adotada pelo gestor de 
que os enfermeiros experenciem o trabalho em diferentes UBS. Ambas 
as situações são consideradas como dificuldades na criação de vínculo 
com os usuários, e por isso, os profissionais enfatizam a necessidade de 
evitá-las. Sendo assim, surge a subcategoria “Vendo a rotatividade de 
enfermeiros como problema”. 
 
Outra coisa que eu vejo de problema é a 
rotatividade de enfermeiros. Nós estamos em 
junho, eu já estou com a terceira enfermeira este 
ano. Isso prejudica porque a população tem que 
criar vínculo, ter alguém de referência, então eles 
não têm [...]eles [gestão municipal de saúde] 
83 
 
deveriam fazer um concurso para efetivar estes 
enfermeiros e não ficar essa rotatividade, por que 
eles [usuários] têm que pegar confiança na pessoa, 
se abrir mais para falar alguma coisa (P14). 
 
É muito importante o vínculo do enfermeiro na 
atenção básica, o que tem que ser mantido. Os 
gestores gostam muito de fazer rotação dos 
funcionários, um dia você [enfermeiro] está aqui, 
outro dia lá e se perde este vínculo, muitas vezes a 
gente sabe de detalhes do paciente que são 
importantes, da vida, da história (P12). 
 
 O enfermeiro vivencia conflitos com os gestores relacionados 
às articulações políticas e o acesso dos usuários aos serviços de saúde a 
ele solicitados. Neste contexto, os gestores municipais têm uma 
proximidade com os partidos políticos, seja por que foram indicados por 
eles ao cargo ou porque de fato é uma figura política no município. 
Diante disso, evidenciou-se a subcategoria “Recebendo solicitação de 
atendimento de pessoas com influência política partidária” para o acesso 
a exames e consultas, consideradas por eles, situações difíceis de 
acordar com o gestor municipal e que podem gerar iniquidades. 
 
Só que o município que tem uma questão política 
muito forte, as vezes eu ainda tenho uma certa 
dificuldade de chegar em alguns acordos em 
relação a isso, por exemplo, o nosso secretário de 
saúde é vereador do município, tem muita coisa, 
muito favor político que pedem para ele, ele como 
favor político não consegue dizer “não” e vem 
pedir para nós. As vezes a gente tenta dizer não 
porque eu sou muito chata com isso, se é para ti é 
para mim também. Às vezes o marido do ciclano, 
o filho da beltrana está precisando, eu sei que o 
médico está aí, principalmente quando tem algum 
especialista atendendo aqui, pois as vezes vem o 
psiquiatra atender aqui, o psicólogo. Eu sou da 
ideia que se eu já mandei alguém embora por que 
não tinha encaixe, como que vai atender outra 
(P9). 
 
Como eu estou enfrentando barra, as minhas 
enfermeiras também, os enfermeiros que eu tenho 
também enfrentam o imediatismo, porque a 
 84 
população foi acostumada a vereador prometerfavor, deputado fazer favor na saúde (P20). 
 
A articulação das categorias originou o fenômeno: 
Promovendo a funcionalidade da unidade básica de saúde. A forma 
como o enfermeiro conduz a assistência e o gerenciamento da unidade 
refletem na conquista da autonomia profissional, mesmo que, por vezes, 
condicionadas a decisão do gestor municipal, o que permite a ele adaptar 
o serviço de acordo com os recursos humanos e materiais disponíveis na 
realidade. Para isso, além de suas competências técnicas, o enfermeiro 
organiza a interação entre os profissionais de saúde por meio do diálogo 
e do trabalho em equipe. A interação profissional leva à tomada de 
decisões coletivamente sobre o trabalho. Com a experiência de trabalho 
e consequentemente o desenvolvimento de senso crítico sobre o 
gerenciamento do cuidado na UBS, o enfermeiro lida com limitações no 
contexto político-organizacional, as quais não dependem dele para 
modificá-las. Esta articulação está representada no modelo teórico 
ilustrado na Figura 6. 
 
Figura 6 - Modelo teórico 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: elaborado pela autora (2019). 
 
 
 
85 
 
DISCUSSÃO 
 
Os resultados mostram que o enfermeiro vem “Promovendo a 
funcionalidade da Unidade Básica de Saúde”, articulando de forma 
contínua e interdependente competências e habilidades, por meio de 
estratégias, como: assistência, gerenciamento da UBS, autonomia, 
interação com a equipe de saúde, tomada de decisões coletivas e a 
identificação de limitações do contexto político-organizacional. Tais 
resultados corroboram com um estudo que aponta que a autonomia e a 
participação nos processos de decisão, que envolvem a governança no 
ambiente de trabalho, são necessárias para que os enfermeiros possam 
gerenciar o cuidado (SANTOS et al., 2013). Inversamente, a governança 
da prática profissional de enfermagem pode ser potencializada pela 
gestão do cuidado (COPELLI et al., 2017). 
Em relação s categorias “Realizando atividades assistenciais” e 
“Gerenciando a unidade básica de saúde”, os resultados deste estudo vão 
ao encontro das atividades previstas ao enfermeiro na APS, que 
envolvem a realização de atividades clínicas diretas e indiretas 
(MATUMOTO et al., 2011). Considera-se necessária a realização das 
atividades assistenciais do enfermeiro em conjunto com as atividades de 
gestão, para que avalie e realize as estratégias de governança de acordo 
com as necessidades locais. 
Dentre as atividades clínicas diretas assemelham-se: a 
realização do acolhimento, consulta de enfermagem (relacionada à 
coleta do exame de Papanicolau, pré-natal e puerpério, planejamento 
familiar, atendimento de puericultura, hipertensos e diabéticos, saúde 
mental), visita domiciliar/atendimento domiciliar e trabalho em grupo 
(MATUMOTO et al., 2011; CAÇADOR et al., 2015). E, entre as 
atividades clínicas indiretas do enfermeiro na realização do cuidado, 
assemelham-se as competências de supervisão, coordenação da equipe e 
gerenciamento dos serviços evidenciados na categoria “Gerenciando a 
unidade básica de saúde (MATUMOTO et al., 2011). 
No que concerne ao gerenciamento da UBS, o enfermeiro vem 
levando em consideração as reivindicações dos usuários, sejam elas 
sugestões ou críticas, valorizando a escuta como ferramenta. Destacam-
se, neste sentido, a aproximação das atividades de gerenciamento do 
enfermeiro no cenário estudado, com o que as políticas de saúde 
consideram relevante para qualificar o serviço de saúde na APS. A 
avaliação da satisfação do usuário na APS fortalece a participação da 
comunidade nos processos de planejamento e avaliação, e pode 
subsidiar a gestão no desenvolvimento de ações que promovam melhor 
 86 
oferta de cuidado e consequentemente sua maior satisfação (PROTASIO 
et al., 2017). 
O Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da 
Atenção Básica (PMAQ-AB), executado desde 2011 no Brasil, tem 
entre suas diretrizes estimular a orientação dos serviços em função das 
necessidades e da satisfação dos usuários (BRASIL, 2011). Por meio da 
análise de dados secundários de avaliação do PMAQ-AB 65.392 
usuários declararam sentir-se satisfeitos quando resolvem os seus 
problemas na UBS e são respeitados pelos profissionais de saúde em 
todas as regiões do Brasil (PROTASIO et al., 2017). Ademais, na região 
Sul, o fato de “ser escutado sem ter hora marcada”, que corrobora com 
nossos resultados, foi destaque na avaliação da satisfação dos usuários 
(PROTASIO et al., 2017). 
Os enfermeiros mostraram-se atuantes na gerência da provisão 
de recursos humanos e materiais, utilização de sistemas de informação 
para o planejamento em saúde e capacitação da equipe de trabalho. A 
PNAB, após a revisão de suas diretrizes, recomenda a inclusão do 
Gerente da Atenção Básica no organograma de trabalho na APS, com 
função técnico-gerencial objetivando contribuir com o aprimoramento e 
qualificação do trabalho nas UBS. A PNAB orienta que este profissional 
deve ter preferencialmente nível superior e não compor nenhuma equipe 
de atenção básica (BRASIL, 2017). 
Apesar da PNAB não fazer menção ao enfermeiro como gerente 
da APS, descreve como atribuições do enfermeiro que compõe a equipe 
de saúde da família, além das competências específicas da profissão, 
atividades gerenciais como: implementar e manter atualizados rotinas, 
protocolos e fluxos relacionados a sua área de competência na UBS e 
planejar, gerenciar e avaliar as ações desenvolvidas pelos 
técnicos/auxiliares de enfermagem, agentes comunitários de saúde e 
agentes de combate a endemias em conjunto com os outros membros da 
equipe (BRASIL, 2017). Ao encontro disso, dentre os profissionais da 
saúde, o enfermeiro é o que demonstram maior interesse, vocação e 
preparo para assumir funções de gestor da UBS (FERNANDES; 
CORDEIRO, 2018). 
Os relatórios do e-SUS, destacaram-se como ferramentas para o 
planejamento em saúde. Nesse sentido, o Sistema de Informação da 
Atenção Básica (SIAB), atual SISAB que tem o e-SUS como banco de 
dados, também é utilizado para o reconhecimento da realidade local de 
saúde e planejamento por mais da metade dos gestores, enfermeiros, 
entrevistados nas UBS no interior da Bahia (OLIVEIRA; LOPES, 
2017). Considera-se que o planejamento cria condições necessárias para 
87 
 
que o enfermeiro tenha governança de sua prática (COPELLI et al., 
2017). Em relação a atividades de educação continuada e capacitação 
para a equipe de trabalho, os enfermeiros gerentes das UBS também 
denotam realizá-la (OLIVEIRA; LOPES, 2017). 
Ressalta-se que a conquista da autonomia do enfermeiro 
acontece com a ocupação de uma posição central na UBS e o 
reconhecimento profissional. Com isso, ele realiza adequações às 
necessidades locais no ambiente de trabalho, entre elas o remanejamento 
de profissionais e adaptação do trabalho aos recursos disponíveis. 
Contudo, evidencia-se ambiguidades relacionadas à autonomia, pois 
apesar de exercê-la nas situações anteriormente mencionadas, está 
condicionada as decisões do gestor municipal de saúde. 
Discute-se que a ampliação da autonomia pelo enfermeiro 
confere valorização e reconhecimento social sobre seu trabalho, 
profissão e consolidação de mudanças no modelo de assistência à saúde 
(MELO et al., 2016; FERREIRA; PÉRICO; DIAS, 2018). E, para 
alcançar a governança sobre a prática profissional, ao ampliarem suas 
margens de autonomia, os enfermeiros têm maiores condições de 
gerenciar o cuidado (COPELLI et al., 2017). De forma similar, gerentes 
de UBS de municípios de pequeno porte no estado do Paraná, Brasil, 
também identificam ter autonomia para o remanejamento e alocação dos 
trabalhadores (BAZZO-ROMAGNOLLI; GIMENEZ-CARVALHO; 
ALMEIDA- NUNES, 2014). A falta de autonomia está relacionada à 
não ter respaldo para a tomada de decisões, o que dificulta o 
desenvolvimento das atividades e a execução de mudanças para amelhoria nas unidades de saúde (FERNANDES; CORDEIRO, 2018). 
No contexto pesquisado, o cuidado é objeto de trabalho 
compartilhado por diferentes categorias profissionais. Este é um dos 
motivos pelos quais as organizações de saúde são consideradas as mais 
complexas, pela diversidade dos seus serviços, variedade de 
profissionais com competências distintas, vários processos ocorrendo 
simultaneamente e pela necessidade de uma abordagem holística 
(LEONE, DUSSAULT E LAPÃO, 2014) Nesse processo, embora o 
enfermeiro tenha conquistado autonomia para adaptar o serviço à 
realidade, ele tem o desafio de ampliá-la levando em consideração a 
formação e prática de diferentes profissionais para integralidade do 
cuidado. A autonomia é fundamental para o desenvolvimento do 
trabalho, especialmente no campo da saúde, no qual o trabalho é 
coletivo e desenvolvido de forma compartilhada ou complementar por 
diferentes categorias profissionais e trabalhadores que têm formação e 
práticas distintas (MELO et al., 2016). 
 88 
A organização da interação entre os profissionais é uma 
estratégia de governança do enfermeiro no intuito de reunir saberes e 
técnicas almejando a integralidade do cuidado, qualificação da 
assistência, alcance de metas e objetivos. Nossos resultados mostraram 
que isso vem acontecendo por meio do diálogo e do trabalho em equipe. 
Tais ações sustentam-se com a ideia de que a complexidade dos 
problemas de saúde requer uma lógica de colaboração, articulação e 
interação entre os profissionais de saúde (BAZZO ROMAGNOLLI; 
GIMENEZ-CARVALHO; ALMEIDA- NUNES, 2014). A comunicação 
aparece como um importante instrumento entre os membros da equipe 
para se ter uma relação interpessoal interativa, efetiva e auxiliar na 
assistência. (BROCA; FERREIRA, 2015). Com isso, o ambiente de 
trabalho torna-se produtivo, saudável e satisfatório (CAÇADOR et al., 
2015; SMOLOWITZ et al., 2015). A enfermagem destaca-se como um 
exemplo de um poderoso grupo profissional que trabalha com em 
equipe para melhorar a prática e os resultados dos pacientes dentro de 
ambientes burocráticos e continuar aprimorar o sucesso em oferecer um 
serviço inclusivo modelo de governo compartilhado (HESS, 2017). 
Em relação à tomada de decisões coletivas, a reunião de equipe 
vem sendo o espaço estratégico para o planejamento conjunto e a 
discussão de casos de usuários. Refere-se a isso mecanismos de 
governança que favorecem a implementação de ações relacionadas a 
gestão do cuidado. Dessa forma, profissionais que podem se comunicar 
e usar a "abordagem de tomada de decisão em equipe" têm maior 
probabilidade de promover uma assistência efetiva (SMOLOWITZ et 
al., 2015). Nessa lógica, gerentes de UBS promovem a realização de 
reuniões com a equipe multiprofissional procurando estabelecer metas e 
indicadores de saúde, discutir informações com colaboradores e 
executar ações de planejamento e avaliação das atividades (OLIVEIRA; 
LOPES, 2017). A PNAB define como atribuição comum à equipe 
multiprofissional, a participação em reuniões de equipes a fim de 
acompanhar e discutir em conjunto o planejamento e avaliação 
sistemática das ações e discutir casos de usuários (BRASIL, 2017). 
As limitações vividas pelos enfermeiros no contexto político-
organizacional influenciam a governança na prática de enfermagem e, 
por conseguinte o serviço de saúde na APS. Nesse sentido, a cultura 
organizacional pode ser um fator relevante no desempenho de 
organizações na saúde (LEONE; DUSSAULT; LAPÃO, 2014). No 
entanto, as possibilidades de mudanças advém da gestão municipal de 
saúde, implicando um aumento das responsabilidades por àqueles que 
assumem o papel de gestor (LEONE; DUSSAULT; LAPÃO, 2014). 
89 
 
Sobre o contexto político-organizacional, um estudo de caso 
realizado em município brasileiro de grande porte também destacou 
desafios a serem enfrentados pelos gestores municipais. Entre estes, 
destacam-se a adoção efetiva de políticas de valorização dos 
profissionais que envolvem vínculos trabalhistas estáveis; políticas de 
qualificação profissional e a reorganização e a programação do 
atendimento das unidades de saúde da família, de acordo com as 
necessidades da comunidade, a fim de melhorar o acesso e potencializar 
a capacidade das equipes resolverem os problemas de saúde da 
população (SOUZA; MACHADO; NORONHA, 2015). 
Identificou-se que os enfermeiros vivenciam a falta de incentivo 
a educação continuada e almejando serem resolutivos buscam 
informações em sites oficiais do Ministério da Saúde. A garantia de 
educação permanente e continuada para os profissionais da APS é uma 
responsabilidade comum para todas as esferas do governo (BRASIL, 
2017). Entre as dificuldades que impedem a melhor resolutividade de 
enfermeiros na APS está a falta de capacitação desses profissionais para 
assimilar o conhecimento com a experiência vivenciada (LOPES; 
OLIVEIRA, 2017). 
A rotatividade de enfermeiros é considerada um problema para 
a criação de vínculo com os usuários. Isso interfere na qualidade do 
atendimento e na produtividade da equipe, acarretando dificuldades no 
gerenciamento de recursos humanos, uma constante preocupação das 
organizações de saúde (TIRONI et al., 2014). 
A falta de conhecimento técnico do gestor municipal de saúde e 
a solicitação de atendimentos de enfermagem por políticos são 
consideradas limitações para a funcionalidade da UBS. Em consonância 
ao encontrado nesta pesquisa, um estudo sobre gestão de UBS de 
pequeno porte evidenciou que algumas vezes os secretários de saúde são 
despreparados e muitos de seus interesses destoam da finalidade que os 
serviços de saúde deveriam atingir (BAZZO ROMAGNOLLI; 
GIMENEZ-CARVALHO; ALMEIDA- NUNES, 2014). Além disso, os 
gerentes de UBS têm dificuldades de lidar com atitudes populistas dos 
gestores (secretários e prefeitos) na área da saúde com intuito de 
conseguirem retorno político (BAZZO-ROMAGNOLLI; GIMENEZ-
CARVALHO; ALMEIDA- NUNES, 2014). 
Considera-se que a forma como o enfermeiro vem 
desenvolvendo suas habilidades, competências e estratégias para 
promover a funcionalidade da UBS relaciona-se com características de 
governança. A tomada de decisão compartilhadas e interação entre os 
atores nesse processo, aproximam-se de uma das classificações que se 
 90 
atribui ao termo de governança, a governança compartilhada descrito em 
outros estudos, porém estes relatados em ambientes hospitalares e em 
outros países que não o Brasil (SANTOS et al., 2013; LOTT, 2016; 
JOSEPH; BOGUE, 2016). A governança compartilhada é uma 
estratégia para adoção de modelos democráticos de gestão que 
possibilitam ao enfermeiro maior controle e autonomia sobre a prática 
profissional (SANTOS et al., 2013). 
Estruturas de governança compartilhada em enfermagem 
existentes em outros países têm impacto significativo em melhores 
resultados na assistência ao paciente, empoderamento dos enfermeiros 
na tomada de decisão e maior envolvimento da equipe, bem como sua 
satisfação e responsabilidade profissional na assistência (SANTOS et 
al., 2013; KUTNEY-LEE et al., 2016; LOTT, 2016). Ademais, 
impactam na diminuição da rotatividade, maior reconhecimento e 
visibilidade dos enfermeiros e diminuição dos custos assistenciais 
(SANTOS et al., 2013). 
Portanto, ao estudar a governança da prática de enfermagem na 
APS foi possível elaborar um modelo teórico explicativo que congrega 
as múltiplas atividades desenvolvidas pelos enfermeiros, bem como as 
interações que ele estabelece na sua prática profissional. Ressalta-se o 
empenho e a contribuição do enfermeiro para a promoção da 
“funcionalidade da Unidade Básica de Saúde”, visando resolutividade 
e integralidade do cuidado com práticas que se aproximam das 
características de governança. 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
A governança na prática de enfermagem na APS ocorre com a 
utilização de estratégias próprias doprofissional, que articula suas 
habilidades e competências representadas de forma intrínseca no modelo 
teórico sendo elas: assistência, gerenciamento da UBS, autonomia, 
tomada de decisão coletiva e identificação de limitações do contexto 
político-organizacional. 
 É possível evidenciar a colaboração dos profissionais de saúde 
na efetivação do cuidado por meio da interação profissional, que se 
refere ao trabalho em equipe e diálogo, e participação na tomada de 
decisões. Com práticas características de governança, o enfermeiro 
mostra-se competente para guiar e manter a funcionalidade da UBS 
adequando o serviço às limitações e contornando as fragilidades na 
busca de melhores resultados para gestão do cuidado. Neste sentido, a 
91 
 
funcionalidade é entendida como a adequação das práticas para 
obtenção do resultado, o “cuidado”. 
Considerando estruturas que tem como prerrogativa a 
governança apontam para melhorias organizacionais e um destaque para 
a gestão de enfermagem, sugere-se a necessidade de ampliar os estudos 
sobre a temática no modelo de saúde pautado na APS. 
 Por se tratar de um estudo com recorte de uma microrregião 
brasileira e não existir nenhum outro estudo sobre governança na prática 
de enfermagem na APS no Brasil, deve-se ter cautela ao generalizar os 
resultados desta pesquisa. 
 
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 98 
5.2 MANUSCRITO 2 
 
TOMANDO DECISÕES COLETIVAMENTE: ESTRATÉGIA DE 
ENFERMEIROS PARA A GOVERNANÇA NA PRÁTICA DE 
ENFERMAGEM NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE 
 
RESUMO 
Objetivo: compreender a tomada de decisão de enfermeiros no contexto 
da governança na prática de enfermagem na Atenção Primária à Saúde. 
Método: Pesquisa com abordagem qualitativa com referencial teórico 
metodológico da Teoria Fundamentada nos Dados construtivista. A 
amostragem foi composta por 22 participantes, entre enfermeiros, 
agentes comunitários de saúde, técnicos de enfermagem e gestores 
municipais de saúde inseridos no contexto da Atenção Primária à Saúde 
da microrregião de Tijucas/Santa Catarina. Os dados foram coletados 
por meio de entrevistas intensivas e codificados a partir de codificação 
inicial e focalizada. Resultados: Obteve-se a categoria “Tomando 
decisões coletivamente com a equipe de saúde” que subdivide-se em três 
subcategorias: realizando reuniões periódicas com a equipe de saúde, 
planejando junto com a equipe de saúde e discutindo casos de usuárioscom a equipe de saúde. Considerações finais: A tomada de decisões 
coletivas com a equipe de saúde é uma estratégia de governança na 
prática de enfermeiros na atenção primária à saúde e representa novas 
possibilidades de práticas de gestão para a categoria profissional. 
Descritores: Tomada de decisões. Enfermagem. Gestão em saúde. 
Atenção Primária à Saúde. 
 
INTRODUÇÃO 
 
A governança está relacionada aos processos, regras (formais 
ou informais) e interações que interferem o modo pelo qual os poderes 
são exercidos e como os envolvidos tem responsabilidade sobre suas 
decisões no contexto organizacional (A HERRERA et al., 2017). Sob 
essa perspectiva, a governança na prática profissional dos enfermeiros 
pode ser entendida como conjunto de estratégias de atuação proativa em 
busca de objetivos da profissão e da instituição para o alcance da 
excelência assistencial e efetividade nas práticas de gestão (COPELLI et 
al., 2015). 
99 
 
Os arranjos de governança incluem a participação de diferentes 
atores dos mais distintos cenários na articulação de seus interesses e 
responsabilidades para a tomada de decisões (A HERRERA et al., 2017; 
PYONE; SMITH; BROEK, 2017). Compreende-se por tomada de 
decisão a transformação de um pensamento vigente construído pela rede 
de atores envolvidos em um problema. Ela é subsidiada pelo 
conhecimento e julgamento existente, podendo ser facilitada com a 
disponibilidade de informações de saúde. Além disso, precisam ser 
pensadas levando em consideração várias dimensões do ser humano 
(PINHEIRO et al., 2016). A tomada de uma decisão implica no processo 
de escolher entre diferentes alternativas de ações, selecionando-se 
aquelas entendidas como mais eficientes para o alcance dos resultados 
esperados (MOSQUEDA-DÍAZ; MENDOZA-PARRA; JOFRÉ-
ARAVENA, 2014). 
Nesse sentido, no Brasil, as diretrizes curriculares nacionais do 
curso de graduação em enfermagem estabelecem que a prática do 
enfermeiro deve estar fundamentada na capacidade de tomar decisões 
visando o uso apropriado, eficácia e custo-efetividade, da força de 
trabalho, de medicamentos, de equipamentos, de procedimentos e de 
práticas. A tomada de decisão é uma competência de enfermagem e para 
este fim, os enfermeiros devem possuir habilidades para avaliar, 
sistematizar e decidir sobre condutas mais apropriada (BRASIL, 2001). 
Diante das transformações no âmbito da gestão organizacional e 
das políticas públicas no século XX, a governança vem ganhando 
notoriedade como um novo modelo de gestão que tem se mostrado 
responsivo às mudanças (PLUMPTRE; GRAHAM, 1999; SANTOS et 
al., 2013; MEADS; RUSSELL; LEES, 2016). Os modelos 
contemporâneos de gestão têm apontado para a necessidade de 
intensificar a comunicação, flexibilizar o processo decisório e o poder 
(HAYASHIDA et al., 2014). No entanto, no século XXI, ainda se 
observa a predominância de modelos tradicionais de gestão com 
tendência à hierarquização e centralidade de tomada de decisões por 
gestores nas organizações de saúde (PENEDO; GONÇALO; QUELUZ, 
2019). 
Na enfermagem, identificam-se três modelos de governança: 
clínica, pública e compartilhada, que têm em comum a busca da 
excelência assistencial. Está ultima propõe a reconfiguração das práticas 
de gestão de modo a possibilitar maior poder de decisão aos enfermeiros 
(SANTOS et al., 2013). A tomada de decisão compartilhada é um 
resultado importante de modelos bem-sucedidos de governança 
 100 
compartilhada que enfatizam a propriedade de tomada de decisões por 
parte da enfermagem (CLAVELLE et al., 2016; FIORE et al., 2018). 
No Brasil, na Atenção Primária à Saúde (APS), o enfermeiro é 
protagonista na organização do trabalho bem como na assistência 
prestada por meio da articulação de competências gerenciais e 
assistenciais (HALCOMB et al., 2016; GALAVOTE et al., 2016). Neste 
contexto, o cuidado de usuários em território definido é compartilhado 
pela Equipe de Saúde da Família (eSF). A eSF é composta, 
minimamente, por enfermeiro, técnico de enfermagem, médico e 
agentes comunitários de saúde, com possibilidade de integração de 
odontólogos e auxiliares de saúde bucal (BRASIL, 2017). As equipes 
multiprofissionais deparam-se com desafio diário de vivenciar processos 
de gestão no trabalho e participar da tomada decisões para melhoria da 
assistência à saúde do usuário (PENEDO; GONÇALO; QUELUZ, 
2019). 
Devido a responsabilidade dos profissionais da eSF sobre um 
mesmo território e de sua população faz-se necessário promover a sua 
integração na tomada de decisão sobre as ações de saúde ao usuário e o 
ambiente de trabalho. Nesse sentido, entre as habilidades gerenciais do 
enfermeiro na APS, destaca-se a promoção da integração e do bom 
relacionamento das equipes de saúde sob sua responsabilidade, 
almejando com isso, qualidade do serviço prestado (FERNANDES; 
SILVA, 2013). 
 Diante destas considerações, definiu-se a seguinte questão de 
pesquisa: como os enfermeiros que atuam na APS vem tomando 
decisões no contexto da governança de enfermagem? 
 Assim, o objetivo deste estudo é compreender a tomada de 
decisão de enfermeiros no contexto da governança na prática de 
enfermagem na APS. 
 
MÉTODO 
 
Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa 
com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina 
(UFSC), com o parecer número 2.537.128 e CAAE: 
80346917.4.0000.0121 na data de 11 de março de 2018. Para o 
desenvolvimento deste estudo, consideraram-se as recomendações da 
Resolução nº 466/12, do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2012). 
 Trata-se de uma pesquisa qualitativa que adotou como 
referencial metodológico a Teoria Fundamentada nos Dados (TFD), 
conforme a perspectiva construtivista (CHARMAZ, 2009). O cenário 
101 
 
da pesquisa foi a APS da microrregião de Tijucas/SC, composta por 6 
municípios, entre eles: Angelina, Canelinha, Leoberto Leal, Major 
Gercino, Nova Trento, São João Batista e Tijucas. Estes municípios 
têm cobertura populacional de 100% dos serviços de saúde da Atenção 
Primária, com 47 estabelecimentos de saúde e 44 enfermeiros da 
Estratégia de Saúde da Família (BRASIL, 2019). 
 Participaram da pesquisa 22 pessoas. Entre elas, 13 
enfermeiros que constituíram o primeiro grupo amostral. O segundo 
grupo amostral foi composto por três técnicos de enfermagem e três 
agentes comunitários de saúde lotados nas mesmas UBS que os 
enfermeiros do primeiro grupo amostral. O terceiro grupo amostral foi 
composto por três secretários municipais de saúde, de municípios onde 
os grupos anteriores foram amostrados. O número de participantes não 
foi predeterminado, visto que na TFD o fechamento amostral deve 
ocorrer por meio da saturação teórica (LEITE, 2015). 
Os participantes foram escolhidos de forma intencional. A 
partir da análise dos dados do primeiro grupo amostral definiu-se os 
subsequentes (CHARMAZ, 2009). Como critério de inclusão, definiu-
se que os participantes tivessem experiência mínima de um ano na APS 
das Secretarias Municipais de Saúde da microrregião de Tijucas/SC. 
Acredita-se que este período é necessário para compreender suas 
devidas funções na área de atuação. Excluíram-se da pesquisa 
profissionais que estavam afastados do serviço por motivo de férias ou 
licenças de outra natureza. Para preservar a confidencialidade dos 
participantes, utilizou-se a letra “P”, seguida de ordem num rica 
crescente. 
A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista 
intensiva, no local de trabalho dos participantes, com duração média de 
uma hora e oito minutos, nos meses de abril a julho de 2018. As 
entrevistas foram gravadas e transcritas na íntegra. A análise dos dados 
aconteceu de forma concomitante à coleta por meio da codificação 
inicial e focalizada. Primeiramente, codificou-se incidente por 
incidente, para gerar códigos provisórios, comparativos e 
fundamentados nos dados. Na etapa seguinte,esses códigos foram 
agrupados por similaridade e diferenças conceituais formando 
categorias, até a obtenção de um fenômeno ou categoria central 
(CHARMAZ, 2009). Utilizou-se o software NVIVO® para 
organização dos dados e o processo de codificação. 
 A partir deste processo obteve-se como fenômeno 
“Promovendo a funcionalidade da unidade básica de saúde”, ancorado 
em seis categorias e 21 subcategorias. Neste estudo, focalizam-se os 
 102 
resultados da categoria: “Tomando decisões coletivamente com a equipe 
de saúde”, tendo em vista a sua importância para o desenvolvimento do 
fenômeno. 
 
RESULTADOS 
 
A categoria “Tomando decisões coletivamente com a equipe de 
saúde” representa uma estrat gia de governança na prática de 
enfermagem encontrada na pesquisa e subdivide-se em três 
subcategorias: realizando reuniões periódicas com a equipe de saúde, 
planejando junto com a equipe de saúde e discutindo casos de usuários 
com a equipe de saúde. A relação entre a categoria e suas subcategorias 
está ilustrada na Figura 7. 
 
Figura 7 - Representação gráfica da tomada de decisão coletiva como estratégia 
para governança de enfermagem na atenção primária à saúde. Florianópolis, 
2019 
Fonte: elaborado pela autora (2019). 
 
Realizando reuniões periódicas com a equipe de saúde 
 
 A realização de reuniões periódicas do enfermeiro com a equipe 
de saúde é uma ferramenta para tomada de decisão coletiva. Nesses 
espaços, acontece o diálogo e a articulação entre os profissionais, 
favorecendo a prática gerencial do enfermeiro. 
 
Governança na prática de enfermagem na 
Atenção Primária à Saúde 
103 
 
Eu trabalho deste jeito na minha unidade, é a 
ferramenta que eu mais utilizo, realmente a 
reunião (P5). 
 
Quando eu vim para cá [UBS] a primeira coisa 
que eu fiz foi fazer uma reunião para todo mundo 
se conhecer (P7). 
 
E eu acho que a questão de reuniões, a gente 
precisa dessa comunicação, isso faz toda diferença 
dentro do processo de gerência [...] (P11). 
 
Os enfermeiros relatam ter “batalhado” para a conquista de 
horários para reunião, pois este momento não é entendido como 
produtivo por todos os profissionais. A partir da proatividade do 
enfermeiro na organização destes momentos, as reuniões acontecem 
mensalmente com a participação das equipes de uma mesma Unidade 
Básica de Saúde (UBS) e dos profissionais do Núcleo de Apoio à Saúde 
da Família (NASF) e, semanalmente com os profissionais de uma 
mesma equipe. Com o favorecimento da comunicação nestes espaços, 
diferentes categorias profissionais discutem sobre os problemas da 
equipe e buscam sempre tomar decisões para melhorar a qualidade do 
serviço. 
 
[...] tem as reuniões da unidade, que a gente 
batalhou por esses momentos [...] eu prezo muito 
por esses momentos de reunião e tento passar isso 
para toda equipe que nem todo mundo acha e 
consegue fazer este momento produtivo [...] faz 
um ano que a gente faz reuniões periódicas com 
toda equipe, que é uma vez por mês e fora isso a 
gente faz as reuniões de equipe, só do enfermeiro 
da equipe, os técnicos, o médico e os agentes 
comunitários ali da equipe do território (P11) 
 
Se a equipe tem reclamação elas [equipe] colocam 
o ponto de vista delas e a gente abre este debate. 
Durante o mês a gente tem uma reunião de toda 
unidade e daí vai participar todos os profissionais 
que são da rede e estão aqui com a gente (P10). 
 
Tem as reuniões semanais que são todas as 
quartas-feiras, a gente conversa [...] entramos 
 104 
todos em um consenso para a gente sempre inovar 
e fazer as coisas melhores [...] (P19). 
 
Planejando junto com a equipe de saúde 
 
Nas reuniões, ocorre o planejamento em conjunto com a equipe 
de saúde, ferramenta que promove o estabelecimento de metas 
racionalizadas a partir da interação de diferentes ideias. Com isso, 
ocorre a tomada de decisão para adaptação de mudanças na organização 
do trabalho e intervenções para o alcance de objetivos propostos por 
programas do Ministério da Saúde, dentro das condições e 
peculiaridades de cada equipe. 
Como exemplo de ações que foram planejadas com a equipe 
multiprofissional destacaram-se: o fluxo de agendamento de consultas e 
marcação de exames, horários de reuniões e atividades vinculadas o 
Programa de Melhoria do Acesso e da Qualidade (PMAQ). 
 
Na minha equipe, tudo o que eu posso tomar de 
decisão conjunta para transformar em uma ideia 
melhor eu tento fazer. Pensando em processo de 
trabalho, dinâmica, eficácia e eficiência, tudo! [...] 
a gente tenta planejar o máximo, todo mundo 
junto, porque eu penso de um jeito, tu de outro, 
ela de outro, e a junção destas ideias vai dar um 
todo que talvez seja o melhor para aquela situação 
do que só a minha ideia (P5). 
 
A decisão nunca é tomada sozinha, a gente faz 
reuniões periódicas e tenta decidir o máximo das 
coisas em conjunto com todos os profissionais que 
atuam aqui dentro na unidade, a organização do 
serviço geral, para decidir reuniões, horários, 
agendamentos e marcações é tudo (P11). 
 
Quanto a tomada de decisão, tudo em conjunto. A 
nossa parte na época do PMAQ foi tudo muito 
unido, todo mundo se uniu, vamos buscar, fazer 
acontecer e a gente conseguiu, só que claro que 
pela parte do governo a gente não conseguiu nada 
(P15). 
 
105 
 
A gente mesmo desenvolve os nossos [objetivos e 
planejamento] dentro das nossas possibilidades, o 
que nós conseguimos e damos conta de fazer (P6). 
 
Discutindo casos de usuários com a equipe de saúde 
 
Na busca da integralidade e singularidade do cuidado, o 
enfermeiro também toma decisões conjuntas com a equipe de saúde a 
partir da discussão de casos de usuários. Os profissionais de diferentes 
áreas planejam ações de cuidado em saúde e decidem o plano 
terapêutico dos usuários com maior complexidade. Exemplos de 
discussão de caso envolvem: técnicas de realização de curativo, 
definição de tratamento com uso de fármacos e matriciamento com o 
NASF. 
 
[...] com a discussão de caso entre a equipe, para 
que todos saibam o que está acontecendo e 
possam assistir o paciente como um todo (P1). 
 
[...] cada profissional olha para a pessoa com o 
conhecimento que ela tem, eu vou olhar de um 
jeito, o enfermeiro vai olhar de outro (P14). 
 
A gente se reúne com a enfermeira, normalmente 
eu e a outra técnica, quando é a questão por 
exemplo de um curativo, quando é na casa de um 
paciente, como é que a gente vai trabalhar com 
aquele paciente, que tipo de medicação a gente vai 
utilizar (P17). 
 
Isso é muito importante, porque na reunião de 
equipe a gente passava os nossos dados 
epidemiológicos, o que tinha atendido no mês, 
discutia algum caso de paciente que precisava 
matriciar com o NASF (P13). 
 
Assim a gente consegue discutir mais específico 
os cuidados de cada paciente, levantar os 
problemas de cada paciente [...] se tem gestante 
nova, paciente novo, se paciente foi a óbito, se 
aconteceu alguma coisa na área é repassado neste 
dia [reunião de equipe] (P10). 
 
 106 
DISCUSSÃO 
 
O enfermeiro, no contexto da governança na prática na APS, 
vem tomando decisões com a participação da equipe multiprofissional 
em espaços de reuniões periódicas. Neles acontecem o planejamento de 
ações em saúde e discussões de casos que representam estratégias de 
governança para a funcionalidade da UBS, implicando em melhorias 
assistenciais. 
De modo semelhante, pesquisa sobre governança de 
enfermagem em um cento obstétrico, aponta que um de seus 
pressupostos é a inserção dos profissionais envolvidos na assistência na 
tomada de decisão (COPELLI et al., 2015). Modelos gerenciais 
contemporâneos recomendam a participação de todos os profissionais de 
uma instituição no processo decisório e a modificação dos 
organogramas tradicionais, criando unidades de produção, excluindo 
departamentos e seções organizados por profissões esubstituindo por 
unidades conforme a lógica de trabalho, composta por equipes 
multiprofissionais (SOUSA; BERNARDINO, 2015). 
Contrapondo nossos resultados, em um município no estado 
paulista, o enfermeiro coordenador da eSF percebe que há exposição de 
diferentes opiniões, ocasionada pelo envolvimento dos demais membros 
da equipe nas decisões, apesar de aliviar sua sobrecarga de trabalho, 
favorece atritos no ambiente de trabalho (PENEDO; GONÇALO; 
QUELUZ, 2019). Por outro lado, essa mesma pesquisa, aponta que o 
modelo de gestão compartilhada, em que o líder compartilhar as 
decisões a serem tomadas com a sua equipe, torna o ambiente de 
trabalho melhor, o que é essencial para o trabalho em equipe (PENEDO; 
GONÇALO; QUELUZ, 2019). 
Diante disso, entende-se que a prática gerencial de enfermeiros 
na atenção primária à saúde diverge de acordo com a sua perspectiva de 
modelo de gestão. Essas diferenças podem implicar na qualidade da 
assistência prestada e na harmonia/interação das equipes de saúde no 
ambiente organizacional (LEONE; DUSSAULT; LAPÃO, 2014). 
A tomada de decisões compartilhada em modelos de 
governança compartilhada tem efeito positivo tanto o para os pacientes 
quanto para as organizações, de modo que influenciam os padrões de 
prática de enfermagem, desenvolvimento profissional, processos 
organizacionais internos, pesquisas e resultados e clínicos (JOSEPH; 
BOGUE, 2016). Um estudo realizado no sul da Califórnia (Estados 
Unidos), com objetivo de analisar se a tomada de decisão compartilhada 
apresentava melhores resultados quanto a satisfação profissional, 
107 
 
participação, controle sobre a prática profissional, habilidade para 
resolução de objetivos e conflitos e acesso a informação nesse modelo 
de gestão, demonstrou resultados significativos após 2 a 5 anos de 
implementação do modelo (DECHAIRO-MARINO et al., 2018). 
Os dados desta pesquisa demonstraram que a reunião é 
realizada pela proatividade do enfermeiro na organização desses 
espaços. Isso ocorre pois, nem todos os profissionais de saúde entendem 
como um espaço produtivo. Mesmo assim, o enfermeiro vem buscando 
articular os profissionais que compartilham o mesmo local de trabalho 
por meio do favorecimento do diálogo. Em relação a proatividade do 
enfermeiro, estudo que avaliou as suas repercussões no gerenciamento 
do cuidado, evidenciou que ser proativo favorece a troca de saberes na 
equipe, traduzindo-se em oportunidades potenciais de (inter)agir com os 
diversos profissionais, fortalecendo a elaboração e implementação de 
melhores práticas no cuidado (FERREIRA; DALLAGNOL; PORTO, 
2016). 
Nessa lógica, a integração de diferentes categorias profissionais 
e especialidades aumentam a quantidade e diversidade das informações, 
gerando maior número de alternativas na tomada de decisões 
(HAYASHIDA ET AL., 2014; SANTOS ET AL., 2016). Quando não 
há incentivo para reunião de equipe, ocorre a falta de planejamento 
coletivo do trabalho realizado e um ambiente propício para prestação da 
assistência individual, sem integração entre os diferentes profissionais 
(SANTOS et al., 2016). 
A participação de todos os profissionais nos debates durante as 
reuniões teve destaque nos resultados. A reunião de equipe pode 
constituir-se um espaço participativo-comunicativo ou apenas 
informativo. No primeiro, a interação busca o entendimento entre os 
sujeitos, como prática comunicativa, voltada para a produção coletiva do 
cuidado. No segundo, o espaço é utilizado instrumentalmente para 
garantir a funcionalidade do serviço, desconsiderando as especificidades 
do trabalho em saúde e os debates necessários sobre os resultados a 
serem produzidos no cuidado aos usuários (CARVALHO et al., 2014). 
Neste estudo, as reuniões entre profissionais de uma mesma 
equipe acontecem semanalmente e entre as equipes que atuam em uma 
mesma UBS ocorrem mensalmente. De modo semelhante, em uma 
capital do Brasil, as reuniões de equipe fazem parte do cotidiano das 
equipes de saúde da família tendo como resultado: o favorecimento do 
trabalho integrado, planejamento, divisão de tarefas, diálogo horizontal 
com troca de informações (FARIAS et al., 2017). 
 108 
A interação de diferentes ideias sobre a implementação de ações 
que respondam às adequações do ambiente de trabalho, objetivos e 
metas propostos por programas do Ministério da Saúde, vem ocorrendo 
nos momentos das reuniões de equipe. O planejamento é considerado 
uma ferramenta que integra o desenvolvimento das organizações e visa à 
condução da ação para o alcance de resultados e efetivação das metas 
estabelecidas (CARVALHO et al., 2014). Enfermeiros que atuam na 
APS apontaram que a reunião auxilia o planejamento e organização da 
sua prática de forma mais reflexiva, fugindo do “apaga incêndio”, 
situação em que as ações de enfermagem são realizadas conforme 
acontecem, sem tempo para reflexão (OLIVEIRA et al., 2017). 
A necessidade de discutir casos de usuários sob a 
responsabilidade de uma mesma equipe, leva ao entendimento que a 
articulação entre os profissionais e integração de conhecimentos, apesar 
de distintos, se complementam. Os resultados mostram que isso também 
vem acontecendo em espaços de reunião de equipe semanais, das quais, 
por vezes participam profissionais do NASF, onde são determinadas 
ações estratégicas de cuidado que consideram a multidisciplinaridade. 
Um estudo que analisou a influência do trabalho em equipe no 
atendimento realizado na APS corrobora esse dado ao apontar que a 
articulação entre os profissionais, frequentemente acontece para o 
esclarecimento de dúvidas ou pela necessidade de avaliação em 
conjunto de um caso (SANTOS et al., 2016). Sendo assim, o 
desenvolvimento de ideias que são discutidas por diferentes visões 
técnicas implica na qualidade da assistência prestada (ARANTES; 
CHIMIZU; MERCHÁN-HAMANN, 2016). 
Além disso, apesar do termo Projeto Terapêutico Singular 
(PTS) não ter sido mencionado dessa forma pelos participantes, 
entende-se que as discussões e tomada de decisões sobre a condução de 
melhores práticas de cuidado ao usuário, aproximam-se da definição 
proposta pelas políticas públicas de saúde no Brasil. Trata-se de um 
conjunto de propostas de condutas terapêuticas articuladas, para um 
sujeito individual ou coletivo, resultado da discussão de uma equipe 
interdisciplinar, que pode ser apoiada pela equipe do Núcleo de Apoio à 
Saúde da Família. É uma variação da discussão de “caso clínico” e 
geralmente é dedicado às situações mais complexas (BRASIL, 2014). O 
PTS é essencial para o compartilhamento de casos clínicos, o que 
envolve a presença de todos os profissionais e é realizada quando se 
torna necessário compreender de forma multidimensional a situação, 
caracterizando assim a colaboração interprofissional (FARIAS et al., 
2017). 
109 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
 Conclui-se que a proatividade do enfermeiro na realização da 
reunião de equipe tem destaque na forma como ocorre a tomada de 
decisão coletiva no contexto da governança de enfermagem. A reunião 
viabiliza o planejamento e discussão de casos, em que as decisões são 
tomadas de forma coletiva. Dentro desta lógica, considera-se relevante 
que todos os profissionais participem da implementação de ações tanto 
quanto do estabelecimento de suas normas. 
 Comparando os resultados com a literatura existente, considera-
se que as reuniões de equipe são práticas de trabalho existentes em 
outros cenários de atenção primária a saúde para a discussão de casos de 
usuários e planejamento. Os resultados diferem das pesquisas realizadas 
no contexto da APS, que fizeram parte da discussão deste estudo, no que 
tange a tomada de decisões coletivas sob a ótica da governança na 
prática de enfermagem na atenção primária à saúde no Brasil. Sendo 
assim, entende-se que enfermeiros vem tomando decisões coletivamente 
com a equipe de saúde comoestratégias de governança na busca de 
melhores resultados e, explorando novos modelos gerenciais sem a 
implantação formalizada destes. 
Quanto a prática gerencial de enfermeiros que atuam na atenção 
primária à saúde entende-se que não há definição do modelo de gestão 
utilizado. No entanto, as práticas aproximam-se de modelos de 
governança de enfermagem já identificados em outros estudos. Sobre a 
temática deste estudo, considera-se que a habilidade do enfermeiro em 
integrar a equipe por meio da reunião é relevante no contexto do 
trabalho da gestão. Ainda, pela relevância desta temática, que permite 
uma possibilidade de gestão horizontalizada, democrática e 
descentralizada com a governança, sugere-se o investimento em novas 
pesquisas e a inclusão do tema na formação dos enfermeiros. 
 As limitações desta pesquisa relacionam-se ao fato de não ter 
incluído os demais profissionais da equipe de saúde da família, como 
médico e odontólogos, e profissionais que compõe o NASF na 
amostragem. Dessa forma, sugere-se que novas pesquisas sejam 
desenvolvidas buscando ampliar a abordagem do fenômeno sob 
investigação, por meio da escolha de outros cenários de investigação e 
participantes. 
 
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 116 
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
 Este estudo possibilitou compreender como vem ocorrendo a 
governança na prática de enfermeiros na atenção primária à saúde e 
elaborar um modelo teórico sobre essa prática. Para atingir estes 
objetivos, realizou-se uma pesquisa com referencial metodológico 
ancorado na vertente construtivista da Teoria Fundamentadanos 
Dados. 
Originaram-se seis categorias e 21 subcategorias ao final do 
processo de análise dos dados. Elas evidenciam que o enfermeiro vem 
“Desenvolvendo atividades assistenciais”, “Gerenciando a unidade 
básica de saúde”, “Conquistando autonomia profissional”, 
“Organizando a interação entre os profissionais de saúde por meio do 
diálogo e trabalho em equipe”, “Tomando decisões coletivamente com a 
equipe de saúde” e “Lidando com limitações do contexto político-
organizacional”. 
Com a articulação dessas categorias, construiu-se o fenômeno: 
“Promovendo a funcionalidade da unidade básica de saúde”. Com isso, 
conclui-se que a governança na prática de enfermagem na atenção 
primária a saúde ocorre com a articulação de habilidades e competências 
do enfermeiro para a funcionalidade do ambiente de trabalho. A 
funcionalidade, neste contexto, é compreendida pela efetividade das 
ações e práticas adaptadas para a obtenção do cuidado. Entende-se que 
com a governança o enfermeiro promove a adequação do serviço de 
saúde frente à realidade vivenciada, buscando superar limitações no 
contexto político-organizacional. Considera-se que a governança de 
enfermagem tem impacto na integração dos profissionais e seu 
envolvimento nos processos decisórios que influenciam na 
corresponssabilização para com o cuidado. 
 Os resultados deste estudo não são passíveis de generalização, 
considerando as características da metodologia utilizada. Além disso, 
referem-se especificamente a um contexto de prática profissional cujos 
atores são enfermeiros, agentes comunitários de saúde, técnicos de 
enfermagem e gestores municipais de saúde de cinco municípios que 
compõe a microrregião de Tijucas/SC. Outra limitação diz respeito à 
discussão com a literatura. Como a produção cientifica sobre o assunto 
no contexto estudado é incipiente no Brasil e em outros países, as 
percepções acerca dos resultados são interpretativas pela relação com 
modelos de governança em outros cenários de estudo. Por outro lado, 
esse fato implica na recomendação de explorar a temática, visando à 
proposição de práticas de governança para gestão de enfermagem na 
117 
 
atenção primária à saúde e mensuração de seus resultados na busca de 
inovação de melhores práticas gerenciais. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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../../../Downloads/OLIVEIRA,%20Samuel%20Andrade%20de%20et%20al.%20Ferramentas%20gerenciais%20na%20prática%20de%20enfermeiros%20da%20atenção%20básica%20em%20saúde. Revista%20de%20Administração%20em%20Saúde,%20v.%2017,%20n.%2069,%20p.1-20,%204%20dez.%202017../../../Downloads/OLIVEIRA,%20Samuel%20Andrade%20de%20et%20al.%20Ferramentas%20gerenciais%20na%20prática%20de%20enfermeiros%20da%20atenção%20básica%20em%20saúde. Revista%20de%20Administração%20em%20Saúde,%20v.%2017,%20n.%2069,%20p.1-20,%204%20dez.%202017
../../../Downloads/OLIVEIRA,%20Samuel%20Andrade%20de%20et%20al.%20Ferramentas%20gerenciais%20na%20prática%20de%20enfermeiros%20da%20atenção%20básica%20em%20saúde. Revista%20de%20Administração%20em%20Saúde,%20v.%2017,%20n.%2069,%20p.1-20,%204%20dez.%202017
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135 
 
APÊNDICE A – ROTEIRO DE ENTREVISTA INTENSIVA – 
PRIMEIRO GRUPO AMOSTRAL 
 
ENTREVISTA nº______ 
Dados profissionais: 
 
1. Idade (anos):____ 
2. Sexo: ( )F ( ) M 
3. Tempo (anos) de atuação (somente para profissionais e gestores da 
saúde): 
( ) na enfermagem, qual 
categoria?_______________________________ 
( ) na Atenção Primária a Saúde, ( ) na equipe 
4. Escolaridade: ( ) Ensino fundamental, ( ) Ensino médio, ( ) 
Ensino superior, 
( ) Especialista, ( ) Mestre, ( ) Doutor 
Em caso de formação em nível de ensino superior e pós-
graduação, especificar a 
área:_________________________________________________
______ 
5. Turno de trabalho: (1) Manhã (2) Tarde 
6. Possui outro vínculo empregatício? (1) Sim (2) Não 
7. Carga horária semanal de trabalho incluindo o outro vínculo 
empregatício: ________ 
8. Experiência na gestão/coordenação: ( ) Sim ( ) Não, Se sim, 
quanto tempo (anos):_______ 
 
 Questões: 
 
Governança é o processo de ação coletiva que organiza a interação entre 
os atores, a dinâmica, os processos e as regras formais e informais por 
meio das quais um grupo toma e implementa suas decisões e determina 
suas condutas (SANTOS et al., 2013) 
 
A governança está relacionada ao exercício da autoridade política, 
econômica e administrativa para gerir os serviços de saúde 
(RONDINELLI, 2006). 
 
 136 
1. Quais relações e/ou aproximações você percebe entre o conceito 
de governança e a sua prática como enfermeiro na APS? 
 
2. O que seria para você “governança da prática de enfermagem 
na APS”? 
 
3. Quais as estratégias que você utiliza para exercer governança 
sobre a sua prática profissional? E sobre o cuidado de 
enfermagem? 
 
4. O que poderia contribuir para que você tivesse maior governança 
sobre a sua prática profissional/prática profissional de 
enfermagem? 
5. Conte-me sobre suas experiências em relação: 
• Ao gerenciamento da unidade básica de saúde 
• Ao gerenciamento do cuidado 
• Ao gerenciamento da equipe de enfermagem e dos agentes 
comunitários de saúde 
• À sua atuação na conexão/articulação entre os profissionais de 
saúde e enfermagem 
• A sua autonomia na APS 
• A tomada de decisão no seu trabalho como enfermeiro 
137 
 
APÊNDICE B - ROTEIRO DE ENTREVISTA INTENSIVA – 
SEGUNDO GRUPO AMOSTRAL 
 
ENTREVISTA nº______ 
Dados profissionais: 
 
1. Idade (anos):____ 
2. Sexo: ( )F ( ) M 
3. Tempo (anos) de atuação (somente para profissionais e gestores da 
saúde): 
4. Escolaridade: ( ) Ensino fundamental, ( ) Ensino médio, ( ) 
Ensino superior, 
( ) Especialista, ( ) Mestre, ( ) Doutor 
Em caso de formação em nível de ensino superior e pós-
graduação, especificar a 
área:_________________________________________________
______ 
5. Turno de trabalho: (1) Manhã (2) Tarde 
6. Possui outro vínculo empregatício? (1) Sim (2) Não 
7. Carga horária semanal de trabalho incluindo o outro vínculo 
empregatício: ________ 
 
Questões: 
1.Atuação no trabalho da equipe atenção primária à saúde 
Governança é o processo de ação coletiva que organiza a interação entre 
os atores, a dinâmica, os processos e as regras formais e informais por 
meio das quais um grupo toma e implementa suas decisões e determina 
suas condutas (SANTOS et al., 2013) 
 
A governança está relacionada ao exercício da autoridade política, 
econômica e administrativa para gerir os serviços de saúde 
(RONDINELLI, 2006). 
 
2.Como você percebe a atuação da governança do enfermeiro na APS 
3. Como você percebe a articulação do enfermeiro com a equipe de 
saúde da família 
4. Fale-me sobre a tomada de decisões pelo enfermeiro 
5. Fale-me sobre a autonomia do enfermeiro na APS 
6. O que você entende por gestão do cuidado 
 138 
APÊNDICE C - ROTEIRO DE ENTREVISTA INTENSIVA – 
TERCEIRO GRUPO AMOSTRAL 
 
ENTREVISTA nº______ 
Dados profissionais: 
 
9. Idade (anos):____ 
10. Sexo: ( )F ( ) M 
11. Tempo (anos) de atuação (somente para profissionais e gestores da 
saúde): 
12. Escolaridade: ( ) Ensino fundamental, ( ) Ensino médio, ( ) 
Ensino superior, 
( ) Especialista, ( ) Mestre, ( ) Doutor 
Em caso de formação em nível de ensino superior e pós-
graduação, especificar a 
área:_________________________________________________
______ 
13. Turno de trabalho: (1) Manhã (2) Tarde 
14. Possui outro vínculo empregatício? (1) Sim (2) Não 
15. Carga horária semanal de trabalho incluindo o outro vínculo 
empregatício: ________ 
 
Questões: 
1. Fale-me sobre a sua atuação da secretaria municipal de saúde/ 
atenção primária à saúde. 
Governança é o processo de ação coletiva que organiza a interação entre 
os atores, a dinâmica, os processos e as regras formais e informais por 
meio das quais um grupo toma e implementa suas decisões e determina 
suas condutas (SANTOS et al., 2013) 
 
A governança está relacionada ao exercício da autoridade política, 
econômica e administrativa para gerir os serviços de saúde 
(RONDINELLI, 2006). 
 
2. Como você percebe a atuação da governança do enfermeiro na APS 
3. Como você percebe a articulação do enfermeiro com a equipe de 
saúde da família 
4. Fale-me sobre a tomada de decisões pelo enfermeiro 
5. Fale-me sobre a autonomia do enfermeiro na APS 
 
139 
 
APÊNDICE D - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E 
ESCLARECIDO 
 
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA 
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE 
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM 
FLORIANÓPOLIS - SANTA CATARINA 
 
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE) 
 
Eu, Prof. Dr. José Luis Guedes dos Santos (pesquisadora 
responsável), juntamente com a pesquisadora Luana Silveira, mestranda 
em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC 
estamos desenvolvendo a pesquisa intitulada “Governança na prática de 
enfermagem na atenção primária Saúde”, que tem como objetivo: 
Compreender como vem ocorrendo a governança na prática profissional 
de enfermagem no contexto da Atenção Primária à Saúde. E, elaborar 
um modelo teórico sobre a governança na prática do profissional de 
enfermagem no contexto da Atenção Primária à Saúde. 
Este projeto foi enviado ao Comitê de Ética em Pesquisas com 
Seres Humano da Universidade Federal de Santa Catarina (CEPSH-
UFSC) para aprovação. Gostaríamos de convidá-lo (a) a participar do 
referido estudo por meio deste termo de consentimento. Sua participação 
na pesquisa ocorrerá por meio de respostas a uma entrevista previamente 
agendada, queserá áudio gravada, com duração de aproximadamente 40 
minutos. Posteriormente a entrevista será transcrita, sem que você seja 
identificado (a) em qualquer tempo do estudo). Justifica-se realizar esta 
pesquisa porque poderá contribuir com reflexões a respeito da 
governança na prática do enfermeiro no contexto da atenção primária à 
saúde, sendo este um tema ainda pouco explorado na enfermagem. De 
modo indireto, este estudo contribuirá para identificação das estratégias 
de governança utilizadas por enfermeiros na atenção primária e poderá 
subsidiar discussões futuras entre gestores, enfermeiros e usuários nas 
instituições sobre o tema. 
O estudo não apresenta riscos de natureza física, exceto a 
possibilidade de mobilização emocional, cansaço e aborrecimento 
relacionados à reflexão sobre a teoria e prática durante o exercício de 
sua atividade. Contudo, os pesquisadores, compreendendo este potencial 
risco, estão dispostos a ouvi-los (as), interromper a entrevista, 
 140 
retornando a coletar os dados sob a sua anuência, tão logo você esteja à 
vontade para continuá-la ou desistir. 
O material coletado durante as entrevistas e a observação 
poderá ser consultado sempre que você desejar, mediante solicitação. 
Porém, acrescentamos que, apesar dos esforços e das providências 
necessárias tomadas pelos pesquisadores, sempre existe a remota 
possibilidade de quebra de sigilo, ainda que involuntária e não 
intencional. 
Os resultados deste trabalho mostrarão apenas os resultados 
como um todo, sem revelar seu nome, instituição ou qualquer 
informação relacionada à sua privacidade, e poderão ser apresentados 
em eventos ou periódicos científicos. 
A legislação brasileira não permite que você tenha qualquer 
compensação financeira pela sua participação em pesquisa. Para este 
estudo você não terá nenhuma despesa advinda da sua participação, mas 
você será ressarcido caso alguma despesa extraordinária venha ocorrer, 
que serão cobertas pelo orçamento da pesquisa, mediante apresentação 
de comprovante. Caso você tenha algum prejuízo material ou imaterial 
em decorrência da pesquisa poderá solicitar indenização, de acordo com 
a legislação vigente e amplamente consubstanciada. 
Este documento está redigido em duas vias, assinadas e 
rubricadas em todas as suas páginas por você e pelo pesquisador 
responsável. Uma das vias ficará com você, guarde-a cuidadosamente, 
pois é um documento que traz importantes informações de contato e 
garante os seus direitos como participante da pesquisa. Você tem a 
liberdade de recusar participar do estudo, ou caso aceite, retirar o seu 
consentimento a qualquer momento, uma vez que sua participação é 
voluntária. A recusa ou desistência da participação do estudo não 
implicará em nenhuma sanção, prejuízo, dano ou desconforto. 
Todas as etapas desta pesquisa, os aspectos éticos e a 
confidencialidade das informações fornecidas, relativos às pesquisas 
com seres humanos, serão respeitados de acordo com as diretrizes e 
normas regulamentadoras da Resolução N° 466, de 12 de dezembro de 
2012, aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde. 
Estaremos disponíveis para quaisquer esclarecimentos no 
decorrer do estudo. Você poderá entrar em contato com o pesquisador 
Dr. José Luis Guedes dos Santos (48) 3721-2763, e mail 
joseenfermagem@gmail.com ou pessoalmente no endereço 
Departamento de Enfermagem, Centro de Ciências da Saúde, Bloco I, 4° 
andar, sala 401. Universidade Federal de Santa Catarina, Campus 
141 
 
universitário Reitor João David Ferreira Lima, Bairro Trindade, em 
Florianópolis (SC), CEP 88.040-900. 
Poderá entrar em contato com a pesquisadora Luana Silveira 
pelo telefone (48) 991495868, e-mail luanasilveira2@gmail.com, ou 
pessoalmente no endereço Departamento de Enfermagem, Centro de 
Ciências da Saúde, Bloco I, 4° andar, sala 401. Universidade Federal de 
Santa Catarina, Campus universitário Reitor João David Ferreira Lima, 
Bairro Trindade, em Florianópolis (SC), CEP 88.040-900. 
Você também poderá entrar em contato com o Comitê de Ética 
em Pesquisa com Seres Humanos da UFSC pelo telefone (48) 
37216094, e-mail CEP.propesq@contato.ufsc.br ou pelo endereço Pró- 
Reitoria de Pesquisa, Prédio Reitoria II, Rua Des. Vitor Lima, sala 401. 
Universidade Federal de Santa Catarina, Campus universitário Reitor 
João David Ferreira Lima, Bairro Trindade, em Florianópolis (SC), CEP 
88.040-400. 
 
 ________________________ _______________________ 
 José Luis Guedes dos Santos Luana Silveira 
 Pesquisador responsável Pesquisadora principal 
 
Nesses termos e considerando-me livre e esclarecido (a) sobre a 
natureza e objetivo do estudo proposto, consinto minha participação 
voluntária, resguardando a autora do projeto a propriedade intelectual 
das informações geradas e expressando a concordância com a 
divulgação pública dos resultados, garantido o anonimato. 
 
Nome do participante: 
________________________________________________________ 
RG: ______________________________ 
CPF: _____________________________ 
Assinatura do participante: 
_______________________________________ 
Assinatura do pesquisador: 
_______________________________________ 
Data: ____ / _____ /____ 
 
 
 
 
 
 142 
ANEXO A - DECLARAÇÃO DE CIÊNCIA E CONCORDÂNCIA 
DA INSTITUIÇÃO 
 
 
 
 
 
 
143 
 
ANEXO B – PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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