Prévia do material em texto
Profª. Cristiane Literatura Página 1 de 8 O Arcadismo e a retomada da razão clássica Um conceito que não é justo, nem fundado sobre a natureza das coisas, não pode ser belo, porque o fundamento de todo conceito engenhoso é a verdade. Verney citado por Alfredo Bosi Em Portugal, o Arcadismo começa em 1756, com a fundação da Arcádia Lusitana, e termina em 1825, com a publicação do poema Camões, de Almeida Garret – marco inicial do Romantismo português. No Brasil, começa em 1768, com a publicação das Obras poéticas de Cláudio Manuel da Costa, e termina em 1836, com a publicação de Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães, marco inicial do Romantismo brasileiro. Arcadismo início fim Brasil 1768 publicação de Obras poéticas, de Cláudio Manuel da Costa 1836 publicação de Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães Portugal 1756 fundação da Arcádia Lusitana 1825 publicação de Camões, de Almeida Garret Jean Auguste Ingres, A aopoteose de Homero. 1827. Museu do Louvre. Texto I Poema de circunstância Onde estão os meus verdes? Os meus azuis? O arranha-céu comeu! E ainda falam nos mastodontes, nos brotossauros, ..................................................nos tiranossauros, Que mais sei eu... Os verdadeiros monstros, os papões, são eles,os .......................................................arranha-céus! Daqui Do fundo Das suas goelas, Só vemos o céu, estreitamente, através de suas Empinadas gargantas ressecas. Para que lhes serviu beberem tanta luz? De fronte À janela aonde trabalho... Há uma grande árvore... Mas já estão gestando um monstro de permeio! Sim, uma grande árvore muito verde... Ah, Todos os meus olhares são de adeus Como o último olhar de um condenado! Mário Quintana Fonte: http://jpoliveirabueno.multiply.com/journal/item/120/120 Texto II O que sobrou do céu Faltou luz mas era dia, o sol invadiu a sala Fez da TV um espelho refletindo o que a gente .............................................................esquecia Faltou luz mas era dia... di-ia Faltou luz mas era dia, dia, dia O som das crianças brincando nas ruas Como se fosse um quintal A cerveja gelada na esquina Como se espantasse o mal O chá pra curar esta azia Um bom chá pra curar esta azia Todas as ciências de baixa tecnologia Todas as cores escondidas nas nuvens da rotina Pra gente ver... por entre prédios e nós... Pra gente ver... o que sobrou do céu... O Rappa composição: Marcelo Yuka Fonte: http://www.cifraclub.com.br/o-rappa/o-que-sobrou-do-ceu/ Os dois textos tratam da mesma questão: a dificuldade de se ver o céu (e, por extensão, a natureza) por trás dos prédios, dos arranha-céus; a dor do ser humano que se sente engolido pelo cinza da grande cidade. Ainda atual, esse tema preenche o imaginário do homem ocidental pelo menos desde o século XVIII, momento de marcantes transformações na Europa. Procure transportar-se para um século recém-saído da angustiante cisão barroca entre a salvação da alma e os prazeres da carne; para um momento em que o homem, cansado de sofrer, busca na ciência e na razão as explicações para seus dramas existenciais. É um período de intenso progresso científico (Newton formula a lei da gravidade, a psicologia já aborda as leis das sensações, a biologia se ocupa de classificar os seres vivos etc.), da publicação da Enciclopédia (por D’Alembert, Diderot e Voltaire, em 1751), do desenvolvimento da burguesia e, consequentemente, das grandes cidades (lembre-se de que a Revolução Francesa ocorreria em 1789, ou seja, já havia uma burguesia bastante organizada) e, muito importante para entendermos os fenômenos literários, da retomada dos valores clássicos. O desenvolvimento econômico, financeiro e industrial gerou um progresso notável, e a agitada vida urbana começava a suscitar no homem a necessidade de se voltar para aquilo que parecia estar gradativamente perdendo: a vida simples, o contato com a natureza. Esse é o período que estudaremos nestas duas aulas, e começaremos por entender o nome da escola – Arcadismo. Jacques-Louis David, O amor de Helena e Páris. 1788. Department of Paintings, Denon Wing. Profª. Cristiane Literatura Página 2 de 8 Arcadismo, Neoclassicismo e Ilustração Alguns teóricos usam o termo Arcadismo como sinônimo de Neoclassicismo, nome que se dá à época que agora estudamos. Se pensarmos que, em História, esse período se chama Ilustração (ou Iluminismo), podemos nos confundir: afinal, qual é a diferença entre os termos e a que eles se referem? Neoclassicismo é termo relativamente novo em nossa crítica, nesse contexto, e nos veio dos portugueses, que por sua vez o tomaram aos espanhóis. Estes e os ingleses costumavam designar assim a imitação do Classicismo francês, verificada em toda a Europa no século XVIII. Na literatura comum (brasileira e portuguesa), seu emprego é útil, se levarmos em conta que o movimento da Arcádia Lusitana [...] teve por ideia- força o combate ao Cultismo. [...] Por Ilustração entende-se o conjunto das tendências ideológicas próprias do século XVIII, de fonte inglesa e francesa na maior parte: exaltação da natureza, divulgação apaixonada do saber, crença na melhoria da sociedade por seu intermédio, confiança na ação governamental para promover a civilização e o bem-estar coletivo. Sob o aspecto filosófico, fundem-se nela racionalismo e empirismo1; nas letras, pendor didático e ético, visando empenhá-la na propagação das Luzes2. [...] A designação Arcadismo é menos rica e significativa, devendo-se à influência dos italianos, que reagiram contra o maneirismo nas agremiações denominadas Arcádias3. [...] Na literatura comum, sua fórmula seria mais ou menos a seguinte: Arcadismo = Classicismo francês + herança greco-latina + tendências setecentistas. Estas variam de país para país, mas compreendem, em geral, o culto da sensibilidade, a fé na razão e na ciência, o interesse pelos problemas sociais, podendo-se talvez reduzi-las à seguinte expressão: o verdadeiro é o natural, o natural é o racional. A literatura seria, consequentemente, a expressão racional da natureza, para assim manifestar a verdade, buscando, à luz do espírito moderno, uma última encarnação da mimesis aristotélica. Antonio Candido. Formação da literatura brasileira, v. 1. 8 ed. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Itatiaia/Humanitas, 1997, p. 41-42. Assim, chamaremos de Arcadismo, escola que se iniciou na literatura, o período estético-literário que agora estudamos. Literatura árcade Imagem do Deus Pan 1 Doutrina ou atitude que admite, quanto á origem do conhecimento, que este provenha unicamente da experiência, seja negando a existência de princípios puramente racionais, seja negando que tais princípios existentes, embora possam, independentemente da experiência, levar ao conhecimento da verdade. (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Novo Aurélio sec. XXI. 3 ed, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999). 2Daí o termo Iluminismo, também muito utilizado em português. 3Arcádia é uma região da Grécia onde viviam pastores e poetas que, sob a influência do deus Pan, viviam em harmonia com a natureza. No século XVIII, Diferentemente do barroco, o homem árcade busca a racionalidade, a clareza, a simplicidade, a ordem lógica e a verossimilhança4. O conceito de mimesis, que já aparecera no Classicismo, aqui retorna com grande força: não é a busca da imitação da natureza apenas, mas também dos modelos clássicos greco-romanos, de seus grandes autores e obras consagradas – porque equilibradas e ditadas por normas que visavam a regularidade estética. Assim, é notória a presença da mitologia da AntiguidadeClássica nas obras desse período. Mais uma vez, a literatura busca a transcendência da condição individual para alcançar o universal e pretende, agora, ser um instrumento de comunicação entre os homens. Jacques-Louis David. Cupido e Psiquê. 1817. O herói literário por excelência é o homem natural, um herói “cuja bondade inata é posta à prova pelas vicissitudes da vida social, e sabe, não obstante, triunfar delas pela fidelidade com que segue a voz das disposições profundas”5. O interessante é que a busca do ideal do homem natural conduz necessariamente ao da espontaneidade – que abriria as portas para o sentimentalismo: aí está, portanto, o germe do Romantismo. Por enquanto, basta ver que a naturalidade marca os gêneros pastorais. A poesia passa a ser habitada por luz, pastores, água, montes, árvores, animais etc., e os poetas, transfigurados em pastores elegantes, discretos e comedidos, adotam pseudônimos pastoris. Mas não se trata da realidade inteira – os poemas não mencionam, por exemplo, o esforço que demanda o cuidado desses animais. O que se canta é apenas a ideia da tranquilidade, daí a natureza ser diurna, brilhante e idealizada. Seria esse um fingimento árcade? Olha, Marília, as flautas dos pastores Que bem que soam, como estão cadentes! Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes Os Zéfiros brincar por entre as flores? Vê como ali beijando-se os Amores Incitam nossos ósculos ardentes! Ei-las de planta em planta as inocentes, As vagas borboletas de mil cores. Naquele arbusto o rouxinol suspira, Ora nas folhas a abelhinha para, Ora nos ares sussurrando gira. Que alegre campo! Que manhã tão clara! o termo também passou a designar as academias literárias que surgiram na Europa. “A primeira Arcádia foi fundada em Roma, em 1690, por alguns poetas e críticos antimarinistas que já antes costumavam reunir-se nos salões da ex-rainha Cristina da Suécia. O programa comum era ‘exterminar o mau gosto, onde quer que se aninhasse’; o emblema, a flauta de Pã coroada de louros e de pinheiros. Os sócios tomavam nomes de pastores gregos ou romanos” (Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira. 3 ed. São Paulo: Cultrix, p. 61). 4 Verossímil: aquilo que aparenta ser verdadeiro. 5Antonio Candido, op. cit., p. 56. Profª. Cristiane Literatura Página 3 de 8 Mas ah! Tudo o que vês, se eu não te vira, Mais tristeza que a noite me causara. Manuel Maria Barbosa du Bocage, Poemas Escolhidos. Álvaro Cardoso Gomes (Org.). 10 ed. São Paulo: Cultrix, 1997. Tópicas da poesia árcade Há alguns temas recorrentes na poesia setecentista, retiradas de textos da Antiguidade Clássica, principalmente do poeta romano Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), e todos buscam a simplicidade: 1. Inutilia truncat (cortar as inutilidades): representa o repúdio às coisas inúteis que adornavam, na opinião dos árcades, a poesia barroca. 2. Fugere urbem (fuga da cidade, foco de mal-estar, corrupção, riqueza e ambição, para o campo): é o elogio de uma vida serena e da superação das coisas pequenas. 3. Locus amoenus (lugar ameno): ambiente bucólico que pode levar à verdadeira felicidade. 4. Aurea mediocritas (o meio termo é áureo): busca do equilíbrio através de comportamentos comedidos e discretos. 5. Carpe diem (colher o dia): aproveitar o momento presente, sem preocupações com o que há de vir; desfrutar o hoje sem pensar no amanhã. Esse é um tema que já aparecera no Barroco, mas sob outro viés: no século XVII, vinha acompanhado de culpa e arrependimento O Arcadismo em língua portuguesa Houve dois grandes momentos na literatura setecentista: no primeiro, a tradição clássica busca uma vida bucólica6 e equilibrada pelo retorno à natureza; no segundo, um engajamento político que mediaria o que anteciparia o ideário do Romantismo. Embora nos atenhamos à literatura brasileira para entender melhor esses momentos e como a história neles se refletiu, o maior nome da literatura árcade em Portugal foi Manuel Maria du Bocage, o Elmano Sadino. Texto I A uma mulher de nariz grande Nariz, nariz, nariz, Nariz, que nunca se acaba; Nariz, que se ele desaba, Fará o mundo infeliz; Nariz que Newton não quis Descrever-lhe a diagonal; Nariz de massa infernal, Que, se o cálculo não erra, Posto entre o Sol e a Terra, Faria eclipse total. Bocage, op. cit. Texto II Amar dentro do peito uma donzela; Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura; Falar-lhe, conseguindo alta ventura, Depois da meia-noite na janela: Fazê-la vir abaixo, e com cautela Sentir a abrir a porta, que murmura; Entrar pé ante pé, e com ternura Apertá-la nos braços casta e bela: Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos, E a boca, com prazer o mais jucundo, 6Relativo à vida e aos costumes do campo e dos pastores (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Novo Aurélio Século XXI. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999). Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos: Vê-la rendida enfim a Amor fecundo; Ditoso levantar-lhe os brancos folhos; É este o maior gosto que há no mundo. Fonte:www.casadacultura.org Aventureiro, rebelde e boêmio, mestre na poesia pornográfica, alcançou grande popularidade com sua obra obscena e satírica, que é agressiva e impulsiva, mas não supera em qualidade sua lírica. Ultrapassando, numa segunda fase de sua vida, as regras arcádicas, Bocage construiu uma obra pessoal soturna e calcada na autoanálise, podendo ser considerado pré-romântico. Veja exemplares, respectivamente, da primeira e da segunda fases bocagianas. Texto I Mote: “Nada se pode comparar contigo” O ledo passarinho que gorjeia D’alma exprimindo a cândida ternura; O rio transparente, que murmura, E por entre pedrinhas serpenteia; O Sol, que o céu diáfano passeia, A Lua, que lhe deve a formosura, O sorriso da Aurora, alegre e pura, A rosa, que entre os Zéfiros ondeia; A serena, amorosa Primavera, O doce autor das glórias consigo, A Deusa das paixões e de Citera7; Quanto digo, meu bem, quanto não digo, Tudo em tua presença degenera, Nada pode se comparar contigo. Bocage, op. cit. Texto II Sobre estas duras, cavernosas fragas, Que o marinho furor vai carcomendo, Me estão negras paixões n’alma fervendo Como fervem no pego as crespas vagas. Razão feroz, o coração me indagas, De meus erros a sombra esclarecendo, E vás nele (ai de mim!) palpando e vendo De agudas ânsias venenosas chagas. Cego a meus males, surdo a teu reclamo, Mil objetos de horror co’a ideia eu corro, Solto gemidos, lágrimas derramo. Razão, de que me serve o teu socorro? Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo; Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro. Bocage, op. cit. 7Ilha mitológica da deusa Vênus (deusa do amor). Profª. Cristiane Literatura Página 4 de 8 O Brasil dos inconfidentes Vista de Ouro Preto; foto: Eduardo Trópia No século XVIII, o eixo econômico e cultural se desloca da Bahia para o Rio de Janeiro, porto de escoamento do país e capital desde 1763, e para Minas Gerais, centro de extração de minério. Porque Portugal precisava contrabalançar seu déficit comercial, aumentava os impostos cada vez mais, gerando uma crescente insatisfação entre os brasileiros. A essa insatisfação somaram-se as ideias iluministas vindas da Europa e o estímulo da independência dos Estados Unidos em 1776. Nascia aqui um sentimento nativista suficientemente forte para criar um movimento que tinha como objetivo romper a subordinação brasileira à Coroa portuguesa. Em abril de 1792, como reação à dominação portuguesa, estourou a Conjuração Mineira (ou Inconfidência Mineira), tema que será estudado posteriormente em História do Brasil. Alguns dosinconfidentes foram poetas árcades brasileiros. Cláudio Manoel da Costa, por exemplo, chegou a ser preso por esse motivo e morreu enforcado na prisão. Até hoje se especula que esse enforcamento pode não ter sido suicídio... A literatura brasileira como sistema começa a se configurar a partir do surgimento da consciência nacional. Segundo Antonio Candido, quatro temas presidem essa configuração: o conhecimento da realidade local, a valorização das populações aborígenes, o desejo de contribuir para o progresso do país e a incorporação de padrões europeus. Isso também nos ajudará a entender o Romantismo, nas próximas aulas: Quando falamos em servilismo à tradição clássica, ou em imitação estrangeira, devemos considerar que a literatura colonial era um aspecto da literatura portuguesa, da qual não pode ser destacada: o cenário americano serviria para lhe dar sabor exótico, nunca para lhe dar autonomia, pois o cenário não basta se não corresponder à visão do mundo, ao sentimento especial que transforma a natureza física numa vivência – e a vivência neoclássica em relação à natureza física tendia a imprimir-lhe, qualquer que ela fosse, uma impessoalidade que se obtinha pelo desprezo do detalhe em prol da lei. [...] Talvez seja possível, mesmo, afirmar que a vituperada quinquilharia clássica tenha sido, no Brasil, excelente e proveitoso fator de integração cultural, estreitando com a cultura do Ocidente a nossa comunhão de coloniais mestiçados, atirados na aventura de plasmar no trópico uma sociedade no molde europeu. O poeta olhava pela janela, via o monstruoso jequitibá, suspirava ante “a grosseria das gentes” e punha resolutamente um freixo no poema: e fazia bem, porque a estética segundo a qual compunha exigia a imitação da Antiguidade, graças à qual, dentre as brenhas mineiras, comunicava espiritualmente com o Velho Mundo e dava categoria literária à produção bruxuleante da sua terra. Antonio Candido, op. cit., p. 68. Para entender os poetas que contribuíram para sistematizar a literatura brasileira, vamos nos aprofundar em dois contemporâneos companheiros: Cláudio Manoel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga. Cláudio Manoel da Costa (pseudônimo: Glauceste Satúrnio) No limiar de um novo estilo, a disciplina para alcançar padrões estéticos europeus não o impediu de demonstrar raízes autênticas: a natureza, que nos árcades europeus é marcada por prados e ribeiros, nos poemas de Cláudio Manuel da Costa aparece muitas vezes em montes e vales. Nota-se um certo dilaceramento interior causado pelos anos vividos na metrópole, quando ele se desculpa por ser “grosseiro” como a gente de sua terra. Assim, exprime uma ambivalência colonial bairrista, pelo contraste natureza versus cultura. Como esteta, parte do cultista barroco para alcançar o neoclássico. Candido o considera um “neoquinhentista filtrado através do Barroco”. Seus cem sonetos compõem um cancioneiro bucólico de raízes camonianas repleto de figuras femininas, pastoras das mais diversas. Sua obra é das mais altas da literatura brasileira e serve de modelo a Dirceu. Já rompe, Nise, a matutina Aurora O negro manto, com que a noite escura, Sufocando do Sol a face pura, Tinha escondido a chama brilhadora. Que alegre, que suave, que sonora Aquela fontezinha aqui murmura! E estes campos cheios de verdura Que avultado o prazer tanto melhora! Só a minha alma em fatal melancolia, Por te não poder ver, Nise adorada, Não sabe ainda que coisa é alegria; E a suavidade do prazer trocada Tanto mais aborrece a luz do dia, Quanto a sombra da noite mais lhe agrada. Claúdio Manuel da Costa, in Clássicos da poesia brasileira. São Paulo: Klick Editora, 1997. Profª. Cristiane Literatura Página 5 de 8 Tomás Antônio Gonzaga (pseudônimo: Dirceu) É difícil falar na obra de Gonzaga sem falar em Maria Doroteia Joaquina de Seixas, a jovem Marília cantada em seus versos, em que se nota desde sua presença física até o mero pretexto poético da pastora árcade. O amor maduro de um quarentão por uma menina de dezessete anos guiou, de certa forma, a celebração do lar e os sonhos da vida conjugal do pastor Dirceu. Marília é uma reunião de poemas, em duas partes. Na primeira, Dirceu mostra a docilidade da conquista amorosa, num primeiro momento e traz, num segundo, imagens mais fortes e vigorosas da paixão; por fim, evoca a saudades e o sofrimento experimentados no cárcere, com a expectativa do exílio, momento considerado pela crítica como pré-romântico: Doroteia se desindividualizou para ser absorvida na convenção arcádica: é a pastora Marília, objeto ideal de poesia, sem existência concreta. Por isso mesmo, ora é loura, ora morena; ora compassiva, ora cruel: em qualquer caso, sem nervo nem sangue. É um biscuit arrebicado que o poeta envolve na revoada de cupidos, rosas e abelhas. Antonio Candido, op. cit., p. 112. Marília é, na maioria das vezes, apenas a interlocutora do eu lírico. Assim, percebe-se o próprio poeta, suas dores e amores, como a figura central da obra. Acompanhe dois momentos de Marília (1792): o primeiro excerto mostra o veio bucólico do autor e o segundo, sua dor e o medo da morte, que o aproxima do Romantismo. Parte I: à sombra do alto cedro na campina Lira I Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, que viva de guardar alheio gado, de tosco trato, de expressões grosseiro, dos frios gelos e dos sóis queimado. Tenho próprio casal e nele assisto; dá-me vinho, legume, fruta, azeite; das brancas ovelhinhas tiro o leite ............e mais as finas lãs, de que me visto. ...........Graças, Marília bela, graças à minha estrela! Eu vi o meu semblante numa fonte: dos anos inda não está cortado; os pastores que habitam este monte respeitam o poder do meu cajado. Com tal destreza toco a sanfoninha, que inveja até me tem o próprio Alceste: ao som dela concerto a voz celeste, nem canto letra que não seja minha. ..................................Graças, Marília bela, .................................graças à minha estrela! Mas tendo tantos dotes da ventura, só apreço lhes dou, gentil pastora, depois que o teu afeto me segura que queres do que tenho ser senhora. E bom, minha Marília, é bom ser dono de um rebanho, que cubra monte e prado; porém, gentil pastora, o teu agrado vale mais que um rebanho e mais que um trono. ................................Graças, Marília bela, ................................graças à minha estrela! Parte II: Nesta cruel masmorra tenebrosa Lira IX Sucede, Marília bela, à medonha noite o dia; a estação chuvosa e fria à quente seca estação. ...............Muda-se a sorte dos tempos; ...............só a minha sorte não? Os troncos, nas Primaveras, brotam em flores viçosos; nos Invernos escabrosos largam as folhas no chão. ..............Muda-se a sorte dos troncos; ..............só a minha sorte não? Aos brutos, Marília, cortam armadas redes os passos; rompem depois os seus laços, fogem da dura prisão .............Muda-se a sorte dos brutoss; .............só a minha sorte não? Nenhum dos homens conserva alegre sempre o seu rosto; depois das penas vem gosto, depois do gosto aflição. ............Muda-se a sorte dos homens; ............só a minha sorte não? Aos altos deuses moveram soberbos gigantes guerra; no mais tempo o Céu e a Terra lhes tributa adoração. .............Muda-se a sorte dos deuses; .............só a minha sorte não? Há-de, Marília, mudar-se do Destino a inclemência; tenho por mim a inocência, tenho por mim a razão. ..............Muda-se a sorte dos tudo; ..............só a minha sorte não? O tempo, ó bela, que gasta os troncos, pedras e o cobre, o véu rompe, com que encobre à verdade a vil traição. ..............Muda-sea sorte de tudo; ..............só a minha sorte não? Qual eu sou, verá o mundo; mais me dará do que eu tinha, tornarei a ver-te minha: que feliz consolação! ..............Não há de tudo mudar-se; Profª. Cristiane Literatura Página 6 de 8 ..............só a minha sorte não! Tomás Antônio Gonzaga in Os melhores Poemas. Alexandre Eulálio (Sel.). 4 ed, São Paulo: Global, 1983, p. 157-159. Gonzaga tinha em Cláudio Manuel da Costa seu mestre. Além de tê-lo como inspiração de sua lírica, é ele o Doroteu, destinatário de suas célebres Cartas Chilenas. Poema satírico inacabado assinado por Critilo (pseudônimo), é uma crítica aos desmandos do governador das Minas Gerais, Luís da Cunha Pacheco e Menezes, dito nas cartas Fanfarrão Minésio. As cartas chilenas são, na verdade, mineiras, e durante muitos anos discutiu-se inclusive sua autoria, que hoje já se sabe ser de Gonzaga. Aqui, o tom panfletário prevalece sobre o poético: os versos se concentram no ataque e no ódio e, assim, dão a conhecer antes Critilo do que o tal Fanfarrão. É notável o fato de não haver a menor crítica ao regime governamental metropolitano, mas, pelo contrário, elogios, o que sugere um tom de desafeto pessoal perpassando a obra. Leia um excerto da décima carta, em que se contam as desordens maiores do governo de Fanfarrão. 10 Na passagem que fez ao Ponto Euxínio Encontro aqueles versos que descrevem As ondas decumanas; de repente Me sobe ao pensamento que estas eram Do nosso Fanfarrão imagem viva. 15 Os mares, Doroteu, jamais descansam; Agitam sem cessar as verdes águas, E, depois que levantam ondas nove, Com menos fortidão, despedem outra, Que corre mais ligeira e que se quebra 20 Nos musgosos rochedos com mais força. Assim o nosso chefe não descansa De fazer, Doroteu, no seu governo, Asneiras sobre asneiras e, entre as muitas, Que menos violentas nos parecem, 25 Pratica outras que excedem muito e muito As raias dos humanos desconcertos. Perdoa, minha Nise, que eu desista Do intento começado. Tu mil vezes Nos meus olhos já leste os meus afetos, 30 Não careces de os ler nos meus escritos. Perdoa, pois, que eu gaste as breves horas A contar as asneiras desumanas Do nosso Fanfarrão ao caro amigo. E tu, meu Doroteu, antes que leias 35 O que vou a contar-te, jurar deves Pelos olhos da tua amada esposa, Por seu louro cabelo, e pelo dia Em que viste, na sua alegre boca, O primeiro sorriso, que não hás-de 40 Duvidar do que leres, bem que sejam Desordens que pareçam impossíveis. Tomás Antônio Gonzaga in http://www.ufrgs.br/proin/versao_1/cartas/index98.html Exercícios 1. (UNIFESP) As próximas duas questões baseiam-se no texto a seguir, extraído de Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido. Nos Brasil, o homem de estudo, de ambição e de sala, que provavelmente era, encontrou condições inteiramente novas. Ficou talvez mais disponível, e o amor por Doreteia de Seixas o iniciou em ordem nova de sentimentos: o clássico florescimento da primavera no outono. Foi um acaso feliz para a nossa literatura essa conjunção de um poeta de meia idade com a menina de dezessete anos. O quarentão é o amoroso refinado, capaz de sentir poesia onde o adolescente só vê o embaraçoso cotidiano; e a proximidade da velhice intensifica, em relação à moça em flor, um encantamento que mais se apura pela fuga do tempo e a previsão da morte: Ah! enquanto os destinos impiedosos não voltam contra nós a face irada, façamos, sim, façamos, doce amada, os nossos breves dias mais ditosos. Em seu texto, Antonio Candido refere-se ao poeta _______, que tornou _______ como tema de sua lírica. Os espaços em branco devem ser preenchidos com: a) renascentista Luís Vaz de Camões – Inês de Castro b) árcade Tomás Antônio Gonzaga – Marília c) romântico Gonçalves Dias – a natureza d) romântico Álvares de Azevedo – a morte e) árcade Bocage – Marília 2. Nos versos apresentados por Antonio Candido, fica evidente que o eu lírico: a) reconhece a amada como única forma de não sofrer pela morte. b) se mostra frustrado e angustiado pela possibilidade de morrer. c) considera o presente desagradável, tanto quanto a morte iminente. d) se entrega ao amor da amada para burlar o tempo e atrasar a morte. e) convida a amada a aproveitar o presente, já que a morte é inevitável. (UFSCar) Leia o texto a seguir para responder às próximas cinco questões. Lira III Tu não verás, Marília, cem cativos tirarem o cascalho e a rica terra, ou dos cercos dos rios caudalosos, ou da minada serra. Não verás separar ao hábil negro do pesado esmeril a grossa areia, e já brilharem os granetes de oiro no fundo da bateia. Não verás derrubar os virgens matos, queimar as capoeiras inda novas, servir de adubo à terra a fértil cinza, lançar os grãos nas covas. Não verás enrolar negros pacotes das secas folhas do cheiroso fumo; nem espremer entre as dentadas rodas da doce cana o sumo. Profª. Cristiane Literatura Página 7 de 8 Verás em cima da espaçosa mesa altos volumes de enredados feitos; ver-me-ás folhear os grandes livros, e decidir os pleitos. Enquanto revolver os meus consultos, tu me farás gostosa companhia, lendo os fastos da sábia, mestra História, e os cantos da poesia. Lerás em alta voz, a imagem bela; eu, vendo que lhe dás o justo apreço, gostoso tornarei a ler de novo o cansado processo. Se encontrares louvada uma beleza, Marília, não lhe invejes a ventura, que tens quem leve à mais remota idade a tua formosura. 3. Esse poema de Gonzaga foi escrito em estilo: a) barroco. b) clássico. c) simbolista. d) romântico. e) arcádico. 4. Dentre os temas presentes na poesia de Gonzaga, destaca- se, nesse texto, a: a) idealização da natureza pastoril grega. b) antecipação da felicidade conjugal. c) influência do poema Camões, de Garret. d) presença do medievalismo europeu. e) dominação de Portugal sobre o Brasil colônia. 5. Dentre as atividades econômicas de Vila Rica, na época do poeta, o poema menciona: a) a mineração e o cultivo do milho. b) o cultivo do fumo e a produção de livros. c) a cana-de-açúcar e a mineração. d) a mineração e a criação de gado. e) a criação de gado e o cultivo do fumo. 6. Minada serra, no contexto do poema, significa montanhas: a) escavadas pela busca do ouro. b) cheias de fonte de água mineral. c) repletas de artefatos explosivos. d) habitadas por negros-minas da África. e) atingidas pela erosão pluvial. 7. Entre as características de estilo presentes no poema, destaca-se: a) o emprego de rimas paralelas. b) o uso excessivo de metáforas. c) a predominância de versos de sete sílabas. d) a omissão dos artigos definidos. e) a anteposição dos adjetivos. 8. (UFRGS) Com base nos fragmentos a seguir, extraídos da Lira II, da obra Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, assinale com V (verdadeira) ou F (falsa) as afirmações que se seguem. Pintam, Marília, os poetas a um menino vendado, com uma aljava de setas, arco empunhado na mão; ligeiras asas nos ombros, o tenro corpo despido, e de Amor ou de Cupido são os nomes que lhe dão. [...] Tu, Marília, agora vendo de Amor o lindo retrato, contigo estarás dizendo que é este o retrato teu. Sim, Marília, a copia é tua, que Cupido é deus suposto: se há Cupido, é só teu rosto, que ele foi quem me venceu. ( ) Na primeira estrofe, o poeta descreve uma figura representativa do amor na mitologia clássica. ( ) Na primeira estrofe, a amada Marília é alertada sobre a violência que se esconde por trás da superfície do amor. ( ) Na segunda estrofe, o poeta transfere o retrato de Cupido para o rosto vencedorde Marília. ( ) Na segunda estrofe, o poeta confessa à amada sua rendição em relação aos poderes do amor. A sequência correta do preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: a) V – V – F – F b) V – F – V – V c) F – F – V – V d) V – F – F – V e) F – V – F – F Os exercícios a seguir foram adaptados do vestibular VUNESP. Convite a Marília Já se afastou de nós o Inverno agreste Envolto nos seus úmidos vapores; A fértil Primavera, a mãe das flores, O prado ameno de boninas veste. Varrendo os ares, o sutil Nordeste Os torna azuis; as aves de mil cores Adejam entre Zéfiros e Amores, E toma o fresco Tejo a cor celeste. Vem, ó Marília, vem lograr comigo Destes alegres campos a beleza, Destas copadas árvores o abrigo. Deixa louvar da corte a vã grandeza: Quanto me agrada mais estar contigo, Notando as perfeições da Natureza! Bocage, Obras de Bocage. Porto: Lello & Irmão, 1968, p. 142. Bye Bye Brasil Mulher Nordestina: Meu Santo, minha família foi embora, meu santo. Filho, nora, neto..., Fiquei só com o meu velho que morreu na semana passada. Agora, quero ver o meu povo. Meu santo, me diga, onde é que eles foram, meu santo? Lord Cigano: E eu sei lá? Como é que eu vô saber? Quer dizer... eu sei... eu... Eu tô vendo. Eu estou vendo a sua família, eles estão a muitas léguas daqui. Mulher Nordestina: Vivos? Lord Cigano: É, vivos, se acostumando ao lugar novo. Mulher Nordestina: A gente se acostuma com tudo... Onde é que eles estão agora, meu santo? Lord Cigano: Ah, pera aí, deixa eu ver! Eu tô vendo: eles estão num vale muito verde onde chove muito, as árvores são muito compridas e os rios são grandes feito o mar. Tem tanta riqueza lá, que ninguém precisa trabalhar. Os velhos não morrem nunca Profª. Cristiane Literatura Página 8 de 8 e os jovens não perdem sua força. É uma terra tão verde... Altamira! Diálogo do filme Bye Bye Brasil (1979). Produzido por Lucy Barreto. Escrito e dirigido por Carlos Diegues. 9. Os escritores clássicos gregos e latinos produziram certas fórmulas de expressão que, retomadas ao longo dos tempos, chegaram até nossa modernidade. Uma dessas fórmulas é a chamada tópica do lugar ameno, ou seja, a evocação literária de um recanto ideal, delicado, geralmente bucólico, cujas paz e tranquilidade servem de palco ao idílio dos amantes e ao sossego da vida. Simboliza o porto almejado ou o retorno à felicidade perdida. Tomando por base este comentário, releia os textos em pauta e, a seguir, a) aponte, na sequência de Bye Bye Brasil, dois elementos da paisagem descrita por Lord Cigano que caracterizam Altamira como um lugar ameno; b) localize, no segundo terceto de Bocage, o verso em que se estabelece relação opositiva com a tópica do lugar ameno. 10. O estilo neoclássico, do qual Bocage foi um dos grandes expoentes em Língua Portuguesa, caracteriza-se, entre outros aspectos, pelo uso de hipérbatos, isto é, de inversões da ordem formal das palavras na oração ou da ordem das orações no período. Levando em conta esta informação, releia o soneto Convite a Marília e, a seguir, apresente dois versos em que ocorrem hipérbatos e os reescreva na ordem sintática normal. Leitura complementar A épica árcade brasileira A épica é um gênero ainda cultivado no último período da Era Clássica é a épica. Vamos brevemente dois grandes autores brasileiros desse período. 1. Basílio da Gama (1741-1795) Representando uma quebra com a épica tradicional, o poema O Uraguai (1769) canta a luta entre índios, jesuítas e expedicionários portugueses e espanhóis nos Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul. Seu O Uraguai (1769), poemeto épico, tenta conciliar a louvação de Pombal e o heroísmo do indígena; e o jeito foi fazer recair sobre o jesuíta a pecha de vilão, inimigo de um, enganador do outro. O Uraguai lê-se ainda hoje com agrado, pois Basílio era poeta de veia fácil, que aprendeu na Arcádia menos o artifício dos temas que o desempenho da linguagem e do metro. O verso branco e o balanço entre os decassílabos heroicos e sáficos aligeiram a estrutura do poema, que melhor se diria lírico- narrativo do que épico. Nada há no Uraguai que lembre as rígidas divisões do poema heroico. O princípio, ex-abrupto, traz ao leitor a matéria mesma do canto. [...] É o aqui-e-agora que urge sobre a sensibilidade de Basílio. O que ainda se sente e se sabe, a luta que mal terminara entre os lusos-castelhanos e os missionários dos Sete Povos. A quase contemporaneidade dos sucessos cantados retira ao poema a aura de mito que cerca a epopeia tradicional, mas dá-lhe a garra do moderno, imergindo o leitor do tempo nos motivos mais candentes: o jesuitismo, a ação de Pombal, os litígios de fronteiras, a altivez guerreira do índio... Basílio da Gama, sustentando abertamente o Marquês contra os religiosos, cai, em mais de um passo, no laudatório e no caricato. [...] No entanto, o que escapa ao programa ex-inaciano ocupado em não deixar rastro, constitui poesia de boa qualidade, ágil e expressiva, e no conjunto, a melhor que se fez na época entre nós. Alfredo Bosi, op. cit., p. 72. 2. Santa Rita Durão (1722-1784) Poema épico dividido em dez cantos, Caramuru (1781) canta a história de Diogo Álvares Correia, náufrago português que passou a vida entre os índios brasileiros. É um tributo ao Brasil, terra natal de Durão. Também no Caramuru, de Frei José de Santa Rita Durão, o índio é matéria-prima para exemplificar certos padrões ideológicos. Mas será uma corrente oposta à de Basílio, voltada para o passado jesuítico e colonial, e em aberta polêmica com o século das luzes. [...] Se, pela cópia de alusões à flora e à fauna brasílica e aos costumes indígenas, o Caramuru parece dotado de índole mais nativista do que O Uraguai, no cerne das intenções e da estrutura, a epopeia de Durão está muito mais distante do homem americano do que o poemeto de Basílio. O frade Agostinho via os Tupinambás [...] como almas capazes de ilustrar para os libertinos europeus a verdade dos dogmas católicos. O índio, como o outro, objeto de idealização e catequese, perde no Caramuru toda autenticidade étnica e regride ao marco zero de espanto (quando antropófago), ou a exemplo de edificação (quando religioso). [...] A poética que presidiu a feitura do poema era híbrida. De um lado, esquemas camonianos, “corrigidos” pela presença exclusiva do maravilhoso cristão. De outro, a tradição colonial- barroca que se reflete no gosto das enumerações profusas da flora tropical [...]. O uso do maravilhoso cristão e o desejo de superar em coerência Os Lusíadas explicam-se nesse passadista renitente por uma tendência nova na cultura do século XVIII: a crítica aos hibridismos da Renascença em matéria de mitologia. Alfredo Bosi, op. cit., p. 75-76. Gabarito 1 B 2 E 3 E 4 B 5 C 6 A 7 E 8 B 9 a) Quaisquer elementos do trecho: “eles estão num vale muito verde onde chove muito, as árvores são muito compridas e os rios são grandes feito o mar. Tem tanta riqueza lá, que ninguém precisa trabalhar. Os velhos não morrem nunca e os jovens não perdem sua força. É uma terra tão verde”. b) “Deixa louvar da corte a vã grandeza”. 10 Já se afastou de nós o Inverno agreste / Envolto nos seus úmidos vapores: O inverno agreste, envolto em seus úmidos vapores, já se afastou de nós. A fértil Primavera, a mãe das flores, / O prado ameno de boninas veste: A fértil Primavera, a mãe das flores, veste o prado ameno de boninas.