Prévia do material em texto
Prof. Pedro Muller Redação Página 1 de 2 Tema 12 – Felicidade Leia os textos que se seguem e faça uma dissertação em prosa sobre o tema solicitado: Texto 1 “Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.” Trecho do conto Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector. Texto 2-A Ocaso do século Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX. Agora já não tem mais jeito, os anos estão contados, os passos vacilantes, a respiração curta. Coisas demais aconteceram, que não eram para acontecer, e o que era para ter sido não foi. Era para se chegar à primavera e à felicidade, entre outras coisas. Era para o medo deixar os vales e as montanhas. Era para a verdade atingir o objetivo mais depressa que a mentira. Era para já não mais ocorrerem algumas desgraças: a guerra por exemplo, e a fome e assim por diante. Era para ter sido levada sério a fraqueza dos indefesos, a confiança e similares. Quem quis se alegrar com o mundo depara com uma tarefa de execução impossível. A burrice não é cômica. A sabedoria não é alegre. A esperança já não é aquela bela jovem et cetera, infelizmente. Era para Deus finalmente crer no homem bom e forte mas bom e forte são ainda duas pessoas. Como viver - me perguntou alguém numa carta, a quem eu pretendia fazer a mesma pergunta. De novo e como sempre, como se vê acima, não há perguntas mais urgentes do que as perguntas ingênuas. Wislawa Szymborska Texto 2-B A curta vida dos nossos antepassados Poucos chegavam aos trinta A velhice era privilégio das pedras e das árvores. A infância durava tanto quanto a dos lobos. Tinham de apressar-se, acompanhar a vida antes de o sol se pôr, antes de a primeira neve cair. Progenitoras de treze anos, Meninos de quatro a andar aos ninhos pelos juncais, aos vinte, batedores das caçadas, ainda mal eram gente e logo deixavam de o ser. Os extremos do infinito rapidamente se tocavam. As bruxas mastigavam palavras mágicas ainda com todos os dentes da juventude. O filho amadurecia aos olhos do pai, mas era a caveira do avô que via o filho nascer. De resto, não contavam os anos. Contavam redes, tachos, tendas e machados. O tempo, tão generoso com as estrelas do céu, estendia-lhes uma mão cheia de nada para logo a retirar como que arrependido. Mais um passo, mais dois ao longo do rio refulgente, que nas trevas nasce e nas trevas se perde. Não havia um instante a perder, perguntas adiadas ou revelações tardias, se não tivessem já sido vividas. A sabedoria não podia esperar cabelos brancos, tinha que ver com clareza antes de se fazer luz, ouvir toda a voz antes de se propagar. O bem e o mal, pouco dele sabiam, porém tudo: quando o mal triunfa, o bem oculta-se; quando o bem se manifesta, o mal fica à espreita. Um e outro invencíveis, inseparáveis de uma vez para sempre. E por isso, na alegria – a angústia misturada, no desespero – sempre uma esperança calada. A vida, mesmo a mais longa, será sempre curta. Curta demais, para aqui algo acrescentar. Prof. Pedro Muller Redação Página 2 de 2 Wislawa Szymborska Texto 3 Desiludido com o mundo, Afrânio concluiu: " uns são filhos da puta, outros só não o são porque a mãe é estéril" Decidido ao suicídio, no alto da falésia hesitou: "no mar não me lanço que é demasiada sepultura. Como receberei flores entre tanto peixe faminto?" Ante a fogueira, Afrânio desfez as contas: "Na labareda, não. Como distinguiria, depois, entre a cinza da lenha ardida?" Quando na allta copa se pensou pendurar, uma vez mais ele se avaliou. E recordou o vizinho Salomão que, de enforcado, se converteu em fruto, seiva correndo na veia, polpa viva a seduzir a passarada. Afrânio regressou a casa, resfregou as solas sobre os tapetes, a esposa festejou o novo alento. Engano seu, mulher, respondeu Afrânio. Eu apenas escolhi outro suicídio. A minha morte é este viver. Mia Couto Texto 4 Bem no fundo no fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto a partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela — silêncio perpétuo extinto por lei todo o remorso, maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás não há nada, e nada mais mas problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos passear o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas Paulo Leminski Texto 5 Quando o crime acontece como a chuva que cai Como alguém que chega com uma carta importante ao guichê depois das horas regulamentares: o guichê já está fechado. Como alguém que quer advertir a cidade duma inundação: mas fala uma outra língua. Não o compreendem. Como um mendigo que pela quinta vez bate a uma porta onde já recebeu esmola quatro vezes: ele tem fome pela quinta vez. Como alguém cujo sangue lhe corre duma ferida e espera pelo médico: o sangue continua a correr. Assim vimos nós e relatamos que em nós se cometem crimes. Quando se relatou pela primeira vez que os nossos amigos era abatidos pouco a pouco, houve um grito de horror. Então foram abatidos cem. Mas quando foram abatidos mil e a matança não tinha fim, espalhou-se o silêncio. Quando o crime vem como a chuva cai, então já ninguém grita: alto! Quando os delitos se amontoam, tornam-se invisíveis. Quando as dores se tornam insuportáveis, já se não ouvem os gritos. Também os gritos caem como a chuva de Verão. Bertold Brecht É possível atingir a felicidade plena? Instruções: Lembre-se de que a situação de produção de seu texto requer o uso da modalidade escrita culta da língua portuguesa. Dê um título para sua redação, a qual deverá ter entre 20 e 30 linhas. NÃO será aceita redação em forma de verso.