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Centro Universitário do Distrito Federal – UDF Curso de Psicologia Relatório de Acompanhamento em Plantão Psicológico na Clínica Escola - UDF Aluno Marcos Mateus Mousinho de Sousa RIbeiro Brasília 2023 1. Identificações a. Estagiário: Marcos Mateus Mousinho de Sousa Ribeiro, 5º Semestre, RGM : 27480437 b. Supervisores Profa. Dra. Adriana Melchiades Prof. Me. Ítalo Teixeira c. Pessoa Atendida Maria de Lourdes Gomes da Silva. Idade: 60 Anos d. Solicitante Relatório de conclusão do Plantão Psicológico realizado na disciplina Estágio Supervisionado em Psicologia Institucional I entregue a Clínica Escola do Centro Universitário UDF 2. Finalidade Documento produzido com a finalidade de descrever, em síntese, a evolução do acompanhamento em Plantão Psicológico de Maria de Lourdes Gomes da Silva, durante três sessões, na disciplina Estágio Supervisionado em Psicologia Institucional I, como parte da composição da nota do estágio. 3. Descrição da Demanda A paciente Maria de Lourdes foi encaminhada à clínica escola por colegas de trabalho. Ela atua na área de serviços gerais no colégio Cresça, localizado ao lado da UDF. Inicialmente, Maria de Lourdes procurou apoio para lidar com os problemas de ansiedade e transtornos alimentares de seus dois filhos. No entanto, durante a primeira sessão, identificou-se, em conjunto com a paciente, a presença de diversas características relacionadas ao transtorno de ansiedade, indicando a necessidade de trabalhar também com esses sintomas. 4. Breve histórico e dados de Anamnese No que diz respeito ao histórico e aos dados de anamnese, Dona Maria de Lourdes nasceu no interior do Ceará e foi criada sem a presença do pai, um aspecto que ela considera significativo em sua formação pessoal. Desde 1988, trabalha no colégio Cresça, em Brasília, onde construiu sua vida e constituiu sua família. Ela é casada e tem três filhos, sendo a mais velha casada e estudante de psicologia, que recomendou a clínica escola da UDF para sua mãe. O filho do meio enfrentou problemas de ansiedade e teve experiências com drogas durante a adolescência, o que gera grande insegurança para Dona Maria de Lourdes até hoje. Por fim, sua filha mais nova enfrenta bulimia e compulsão alimentar, vivendo na mesma casa que ela, e o diagnóstico da filha tem sido uma fonte de angústia intensa para a paciente. A paciente tem passado por intensos períodos de choro e crises de ansiedade devido à dificuldade de lidar com os problemas de seus filhos. Ela sente certa culpa por ter chegado a essa situação, acreditando ter feito o melhor que pôde para criá-los ao longo da vida. Dona Maria de Lourdes tentou diversas abordagens para lidar com a filha, inclusive pagando pelo seu tratamento, mas não tem visto os resultados esperados. Além disso, o comportamento negligente do marido diante da situação também a incomoda, uma vez que toda a carga mental recai sobre ela. Um dos principais hobbies de Dona Maria de Lourdes é cozinhar e preparar almoços de domingo para seus filhos. No entanto, devido aos problemas da filha, ela tem receio das reações e temores sobre como esses eventos serão conduzidos. Os sentimentos predominantes relatados pela paciente são a culpa e o medo em relação ao bem-estar dos filhos. Além disso, ela demonstra uma certa negligência em relação a si mesma, tendo dedicado sua vida integralmente aos cuidados dos outros e ao serviço. 5. Procedimentos Na primeira sessão, buscou-se um momento de acolhimento, dando mais espaço para a paciente se expressar e contar sua história. Foi possível perceber bastante dor em seus relatos, principalmente pelo sentimento de impotência em relação aos acontecimetnos com os filhos. Ainda nessa primeira sessão, decidimos juntos iniciar um cuidado maior voltado para si mesma. Há um histórico de negligência na vida da paciente, onde praticamente todas as atividades que a mesma demonstrava gostar de fazer estavam ligadas a outras pessoas. Nesse momento, ao olhar para a paciente e não apenas aos problemas que estavam ao seu redor, houve um feedback bastante positivo, um agradecimento por estar sendo vista naquele momento como o centro das atenções. Ao fim da primeira sessão, conversamos um pouco sobre auto cuidado e a importância disso, até mesmo para que ela pudesse atender aos filhos em caso de necessidade dos mesmos. A partir disso, foram propostas alguns possíveis comportamentos de auto cuidado durante a semana, próximos ao que foi analisado por Almeida (2019)[footnoteRef:1], que permeiam hábitos como atividades de lazer, atividades físicas, atividades sociais etc. [1: Almeida, M. B. F. d. (2019). O comportamento de autocuidado e a prevenção em saúde mental [Doctoral dissertation, UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA]. Biblioteca Universitária da UFSC. https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/215603/PPSM0065-D.pdf?sequence=-1&isAllowed=y] Durante a segunda sessão, considerando as particularidades da paciente e com o objetivo de proporcionar um ambiente acolhedor e diminuir seu sofrimento naquele momento, optou-se por uma abordagem menos estruturada. Nessa segunda possível, foi possível aprofundar um pouco da sua relação com a filha e como isso a afetava. Durante a sessão, a paciente compartilhou informações sobre o processo de tratamento de sua filha. Ela mencionou que, no último ano, tinha uma viagem planejada com seu marido, que era muito esperada, mas decidiu abrir mão dessa oportunidade a pedido da psicóloga da filha, a fim de poder acompanhar o processo terapêutico de perto. Ao analisar a dinâmica da relação familiar, foi possível identificar alguns padrões de comportamento que envolviam cobranças, resultando em crises e acusações por parte da filha. Nesse contexto, ofereci à paciente um resumo sobre os transtornos alimentares e compartilhei algumas estratégias úteis para lidar com eles. Ao perceber que a paciente estava internalizando um sentimento de culpa pela condição da filha, ela expressou desconforto por estar colocando pressão excessiva sobre a melhora rápida da mesma. Nesse momento, busquei validar seus sentimentos, ressaltando que o mais importante naquele momento era oferecer espaço e apoio à filha, em vez de adicionar mais cobranças à situação. Antes de encerrar a segunda sessão, retomamos a importância do autocuidado. Estabelecemos um acordo para que ela procurasse fazer um check-up médico, agendasse consultas necessárias e se esforçasse para realizar pelo menos uma atividade durante aquela semana que lhe trouxesse bem-estar e fizesse sentido dentro do seu contexto e possibilidades. Para a terceira sessão, novamente foi dada liberdade para a paciente abordar os temas que mais faziam sentido para ela naquele momento. Nesse sentido, a mesma demonstrou felicidade, pois tinha conseguido ter uma boa conversa com a filha na semana anterior e demonstrou ter lembrado muito das dicas que conversamos sobre como lidar com pessoas com transtornos alimentares. A partir disso, apresentou preocupação com o outro filho, que sempre saia de casa sem avisar e sem dizer quando voltava, e pelo histórico do filho, essa situação gerava bastante desconforto e crises de ansiedade. Nesse momento, fomos tentando identificar e mapear os pensamentos automáticos[footnoteRef:2] presentes nessas situações e crises ligadas ao filho. Foi possível perceber, que apesar da existência de indícios de que o filho poderia estar repetindo alguma situação do passado, não existia nada concreto e que como ele negava qualquer situação ligada as drogas naquele momento, essa era a única informação concreta que ela possuia naquele momento. [2: Beck, J. S. (2014). Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática (2nd ed.). ArtMed. https://www.adventista.edu.br/source2019/psicologia/Judith-Beck.pdf] Durante a sessão, a paciente aproveitou a oportunidade para compartilhar outra preocupação. Ela mencionou que sua filha mais velha e seu filho estavam passando por um conflito, o qual impactava negativamente o relacionamento entre eles. Essasituação gerava uma carga significativa de culpa para ela, acreditando que seu desempenho como mãe estava diretamente relacionado ao conflito. Nesse momento, pude identificar junto à paciente algumas evidências que refletiam seu bom trabalho como mãe, validando seus sentimentos de preocupação, mas também ressaltando que a situação estava além de seu controle direto. Essa abordagem buscou proporcionar um senso de alívio para a paciente, que relatou uma melhora significativa ao longo do processo de atendimento de plantão, especialmente em relação às estratégias de como lidar com os filhos. Por fim, a paciente assumiu o compromisso de dedicar mais atenção ao autocuidado e de buscar assistência médica para uma avaliação geral de sua saúde, pois compreendia que, para cuidar adequadamente de seus filhos, era essencial, em primeiro lugar, cuidar de si mesma. 6. Análise A paciente apresentou um comportamento caracterizado pelo cuidado direcionado aos outros, demonstrando uma preocupação constante com o bem-estar de terceiros em detrimento de si mesma. Ao analisar seu histórico de vida, observa-se que essa postura de cuidado foi aprendida e repetida ao longo de sua trajetória. Além disso, a paciente compartilhou um evento marcante de sua vida, no qual seu irmão mais novo fugiu de casa e só foi reencontrado anos depois pela família. Essa experiência gerou um medo constante de que situações semelhantes ocorressem em sua família atual, levando-a a adotar uma postura de proteção e cuidado extremos. A história de vida da paciente revela influências significativas em seu comportamento, direcionando-a a uma constante vigilância e medo, onde ela própria nunca é o foco principal. Diante desse contexto, foi adotada uma abordagem centrada no acolhimento e na validação dos sentimentos da paciente diante de tais situações. O objetivo era proporcionar um espaço onde ela pudesse se tornar o foco principal, valorizando sua experiência e emoções. Ao mesmo tempo, enfatizou-se a importância do autocuidado como uma base essencial para que ela pudesse cuidar efetivamente dos outros. Essa abordagem visou promover uma mudança gradual em seu padrão comportamental, permitindo que a paciente se conscientizasse da necessidade de cuidar de si mesma para desempenhar seu papel de cuidadora de maneira mais equilibrada. A partir dessa conduta, foi possível perceber uma resposta bastante positiva da paciente, desde a primeira sessão. Existem diversas lacunas em sua vida, mas naquele momento, considerando ser um atendimento breve e de plantão psicológico, o mais importante era tornar aquele espaço algo para que ela pudesse se apoiar, desabafar e perceber que ela era importante e que a sua qualidade de vida era essencial para que ela pudesse continuar ajudando os filhos, pois era essa a sua demanda inicial, e em nenhum momento foi deixada de lado. Destaca-se, enfim, a importância da continuidade do acompanhamento psicológico da paciente, que deve, se possível, ser encaminhada para o estágio em psicoterapia, para um tratamento longo e aprofundado em diversos âmbitos de sua vida. 7. Conclusão Ao finalizar as 03 sessões de plantão com a paciente foi possível perceber a importância dos atendimentos de plantão, mesmo em casos em que não é rastreado risco de suícidio. Ao acolher e entender a demanda da paciente, percebe-se que o sofrimento gerado naquela situação faz parte de algo bem maior, que está envolvido em um sistema complexo e que afetam diversas pessoas. Sendo assim, ao podermos ajudar, institucionalmente, essas pessoas, é possível afetar bem mais do que apenas aquele caso, mas todo um sistema que está envolvido direta ou indiretamente. Essa compreensão ressalta a importância do trabalho terapêutico e reforça a necessidade de aprimoramento constante, visando oferecer abordagens eficazes e atender às diversas necessidades dos indivíduos. Além disso, destaco também diversos feedbacks durante a supervisão, mesmo que não tenha conseguido discutir especificamente esse caso durante as aulas , foi possível perceber e absorver diversas situações que auxiliaram na conduta escolhida durante os atendimentos. A paciente durante todo o processo se mostrou comprometida, não ocorrendo faltas e nem atrasos, estando disposta durante todo o processo a participar das atividades ali propostas e dar continuidade durante a semana e após o fim do atendimento de plantão. Como sugestão para a instituição, sugiro a continuidade dos estágios em atendimento de plantão na clínica escola. Enfatizando a importância desse tipo de atividade, não apenas por representar um grande aliado da formação acadêmica dos alunos da UDF, mas principalmente pelo impacto positivo na comunidade a qual o centro universitário está inserido. Ressalta-se que as informações à avaliação do caso clínico aqui descrita neste documento não poderão ser utilizadas com finalidade distinta da que aqui está exposta na indentificação do relatório, qual seja, a de apresentar, descritivamente, um processo de acompanhamento em Plantão Psicológico durante o processo de estágio, na Disciplina Estágio Supervisionado em Psicologia Institucional I, do curso de Psicologia do Centro Universitário do Distrito Federal. Destaca-se que se trata de um documento extrajudicial, que tem caráter sigiloso. Além disso, assim como em todo resultado de avaliação de conteúdos de natureza dinâmica, tal como os processos psicológicos, é importante enfatizar que o presente relatório tem uma validade de seis meses a partir da data de sua entrega. 29 de junho de 2023 Brasília - DF