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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO DANILO GARCIA DA SILVA TRAJETÓRIAS DE FORMAÇÃO EM AMBIENTES VIRTUAIS: ENTENDIMENTOS E PERCEPÇÕES DA MEDIAÇÃO, INTERAÇÃO E INTERATIVIDADE CUIABÁ – MT 2015 DANILO GARCIA DA SILVA TRAJETÓRIAS DE FORMAÇÃO EM AMBIENTES VIRTUAIS: ENTENDIMENTOS E PERCEPÇÕES DA MEDIAÇÃO, INTERAÇÃO E INTERATIVIDADE. Tese apresentada à banca examinadora do programa de pós-graduação em educação da Universidade Federal de Mato Grosso, na linha de pesquisa Organização Escolar, Formação e Práticas Pedagógicas, como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Educação. Orientadora: Profa. Dra. Kátia Morosov Alonso Coorientador: Prof. Dr. Cristiano Maciel CUIABÁ 2015 Dados Internacionais de Catalogação na Fonte S586t Silva, Danilo Garcia da. Trajetórias de formação em ambientes virtuais : entendimentos e percepções da mediação, interação e interatividade / Danilo Garcia da Silva. -- 2015. 296 f. ; 30 cm. Orientadora: Kátia Morosov Alonso. Coorientador: Cristiano Maciel. Tese (doutorado) - Universidade Federal de Mato Grosso, Instituto de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Cuiabá, 2015. Inclui bibliografia. 1. Formação on-line – Trajetória. 2. Ensino – Ambientes virtuais. 3. Educação – Mediação. 4. Interação. 5. Interatividade. I. Título. CDU 371.3.018.43:004.031.4 Ficha Catalográfica elaborada pelo Bibliotecário Jordan Antonio de Souza - CRB1/2099 Permitida a reprodução parcial ou total desde que citada a fonte (EM CONSTRUÇÃO) (Tem que estar no verso da folha de rosto) Ficha Catalográfica Aprovado em: DEDICATÓRIA Sem qualquer hesitação dedico este trabalho a Deus, à minha mãe, ao meu pai, aos meus irmãos e à minha filha e às pessoas especiais que me deram motivos para sempre prosseguir firme e forte. Essas pessoas trouxeram e trazem luz e alegria à minha vida e contribuíram sobremaneira para que eu fosse em busca dos meus objetivos. Aos meus pais e familiares, tenho a dizer que as ausências e as chatices serão compensadas e agradeço por estarem sempre presentes. Minha sincera gratidão e muito obrigado. AGRADECIMENTOS Cada vez mais pude aprender que a produção de um trabalho, neste caso esta tese, não é algo solitário, mas, solidário. Solidário ao entender que este trabalho resulta da colaboração dos muitos parceiros de caminhada. Este trabalho envolveu vários amigos e colaboradores ao longo dos respectivos quatro anos e, para além destes. Com carinho acadêmico e pessoal agradeço à minha orientadora, professora Dra. Kátia M. Alonso, e ao meu coorientador, professor Dr. Cristiano Maciel. Obrigado pelo apoio, acolhida, compartilhamento de saber e contribuições para a pesquisa, além dos estímulos à pesquisa e à vida acadêmica. O grupo pesquisa LêTECE consistiu de momentos de oportunidades de crescimento acadêmico e pessoal, durante os trabalhos, discussões e seminários. Em especial à minha banca examinadora, professoras doutoras: Roseli Zen Cerny, Joana Peixoto, Michelle Tatiane Jaber da Silva, Simone Albuquerque da Rocha, Rosane Aragón e Patrícia Cristiane de Souza por terem aceitado participar da banca e, com isso, contribuir não só com esta pesquisa, mas com meu crescimento acadêmico. A todos os professores, pelas lições compartilhadas, com destaque para os amigos e professores Genésio Marques e Izumi Nozaki pelas conversas que, entre outros, ensejaram-me novos aprendizados ou por plantar as “pulguinhas epistemológicas”. A todos os verdadeiros amigos e parceiros: Luíza Teixeira e Marisa Voltarelli (PPGE), Natacha Chabalin, Luci Oliveira, Renato Neder, Mery Andrades, Rosana Abutakka, Marie – Annik, Marta Covezzi, Suze Oliveira, Eliane Moura, Heloísa Cassiolato, Maria Cristina, Carlos Freitas, Jordan Souza, Kelly Regina e demais amigos, um muito obrigado todo especial pelo apoio e contribuição a mim dispensados. E, com carinho e sentimento especial à Juliana Cruz. Aos tantos amigos, aos quais gostaria de render nominalmente a mais profunda gratidão pela ajuda e contribuição para com as questões de cunho pessoal que me assomaram no decurso desta pesquisa. Porém, pela limitação de espaço, possa cada um de vocês ler seu nome nesta página pelo muito que representaram em minha vida. Aos docentes e amigos, sujeitos da pesquisa, que prescindiram de algum do seu precioso tempo para responder ao questionário e conceder-me entrevistas. A todos os meus familiares, pelo incentivo, pela alegria e atenção sem reservas recebidos ao longo desses anos. Em suma, a todas as pessoas que contribuíram para a concretização desta tese, estimulando-me intelectual e emocionalmente. “O gênio, esse poder que deslumbra os olhos humanos, não é outra coisa senão a perseverança bem disfarçada”. “Para ser o que sou hoje, fui vários homens e, se volto a encontrar-me com os homens que fui, não me envergonho deles. Foram etapas do que sou. Tudo o que sei custou as dores das experiências. Tenho respeito pelos que procuram, pelos que tateiam, pelos que erram. E, o que é mais importante, estou persuadido de que minha luz se extinguiria se eu fosse o único a possuí-la”. (Goethe). RESUMO Na área da educação, o potencial comunicacional e pedagógico que as Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação e os Ambientes Virtuais de Aprendizagem agregam é reconhecido a partir da exploração de suas potencialidades. Os mais variados recursos tecnológicos têm se configurado como o universo do possível quando se trata de buscar a promoção da educação em seus diversos níveis. Neste universo esta pesquisa se sustenta na ideia de que a mediação, interação e interatividade – aqui denominadas como elementos sócio-históricos da formação on-line - são elementos constitutivos das trajetórias de formação e determinam as relações e os papéis dos sujeitos da aprendizagem na formação on-line. Para isso, pautamo-nos na seguinte questão problema: quais os entendimentos e as percepções construídas pelos sujeitos aprendizagem nas trajetórias de formação on-line nos cursos da Universidade Aberta do Brasil da Universidade Federal de Mato Grosso, sobre os elementos antes mencionados? Assim, o objetivo desta investigação está firmado em compreender os entendimentos e percepções dos sujeitos da aprendizagem acerca da mediação, interação e interatividade, a partir das relações que estabelecem durante a trajetória de formação on-line, uma vez que elas determinam o papel destes sujeitos no processo de ensino e aprendizado nos cursos on-line. Dada a característica do objeto de estudo, a opção foi pela pesquisa qualitativa (DENZIN; LINCOLN, 2006) em educação, com abordagem multirreferencial (ARDOINO, 1998). Esta pesquisa tem como lócus os cursos de graduação que integram o sistema do programa da Universidade Aberta do Brasil da Universidade Federal de Mato Grosso, a saber: Administração Pública 2009, Ciências Naturais e Matemática 2009, Pedagogia 2009 e Pedagogia Acordo Brasil/Japão, todos de formação on-line. São sujeitos da pesquisa os coordenadores, professores, tutores e alunos, com ênfase nestes últimos. Os instrumentos de recolha dos achados são análise documental, observações, relatórios, questionários e entrevistas. Alcançamos um total de 204 questionários, 19 entrevistas com alunos, 5 entrevistas com coordenadores, 3 entrevistas com tutores, e, 17 entrevistas com professores. Os achados foram organizados em núcleos de significação, tendocomo foco os elementos sócio-históricos em estudo. Sendo assim, admite-se que a mediação, interação e interatividade são elementos caros à formação on-line, porém, não se efetivam apenas nos ambientes virtuais dos cursos. Mas, quando não efetivados nesses ambientes buscam-se estratégias para fomentar e promovê-los em outros contextos e/ou espaços. Portanto, a formação on-line ocorre, essencial e substancialmente, como mescla do virtual e presencial. Dessa forma, as trajetórias de formações e percursos de aprendizagens nos cursos observados consistem da coexistência de processos paralelos e retroalimentados que se dão em movimentos de compensação dos pontos em que as relações, bases dos elementos, são sobremaneira circunstanciais e não estruturais como requerem tais formações que se apoiam em uso intensivo de TDIC e AVA. Palavras-chave: Mediação. Interação. Interatividade. Trajetória de formação. Formação on- line. ABSTRACT In Education area, the communicational and pedagogical potential added by Digital Technologies of Communication and Information, and Virtual Learning Environments is recognized starting from the exploration of their potentials. The most varied technological resources have been established as the possible universe, when it is related to the promotion of Education in its diverse levels. In this universe, this research is sustained by the idea that mediation, interaction, and interactivity– here named as socio-historical elements in online training, are components of the formation paths and they determine the relations and roles of the learning subjects in online formation. In order to do so, we adopt the next issue: what are the understandings and perceptions made by the learning subjects in online formation paths in the courses of Universidade Aberta do Brasil of Universidade Federal de Mato Grosso about the elements mentioned before? Thus, the objective of this research is firmed in the comprehension of the understandings and perceptions of the learning subjects about mediation, interaction, and interactivity from the relations that they establish during the online training trajectory, once they determine the function of these subjects in the teaching and learning process in online courses. Given the characteristic of this object of study, the option was through the qualitative research (DENZIN; LINCOLN, 2006) in Education; with multirreferencial approach (ARDOINO, 1998). This study has as locus the undergraduate courses that take part in the program system of Universidade Aberta do Brasil of Universidade Federal de Mato Grosso, that is to say: Administração Pública 2009, Ciências Naturais e Matemática 2009, Pedagogia 2009 and Pedagogia Acordo Brasil/Japão, all in online formation. The subjects of the research are the coordinators, professors, tutors, and students. The tools for collecting the results are documental analysis, observations, reports, questionnaires, and interviews. We achieved 204 questionnaires, 19 interviews with students, 5 interviews with coordinators, 3 interviews with tutors, and 17 interviews with professors. The findings were organized in meaning cores, basing on the socio-historical elements in study. Thus, it is admitted that mediation, interaction, and interactivity are expensive elements for the online training, therefore, they are not performed, just in virtual courses. However, some strategies are sought when they are not performed in virtual environments in order to develop and promote them in other contexts and spaces. Hence, online training occurs, essential and substantially, as a mixture between the virtual and face attendance. In that way, the training paths and learning paths on the observed courses consist of the coexistence of parallel processes and feedback that occur in compensation movements of points in where relations, being the base of the elements, are greatly circumstantial and nonstructural, as those formations require that are supported by the intensive use of DTCI and VLE. Keywords: Mediation. Interaction. Interactivity. Formation path. Online training. RÉSUMÉ Dans le domaine de l'éducation, le potentiel communicatif et pédagogique que les technologies numériques de l'information et de la communication et les environnements virtuels d’apprentissage intègrent est reconnu à partir de l'exploitation de ses potentialités. Les diverses ressources technologiques se sont caractérisés comme l'univers du possible quand il vient à la recherche de la promotion de l'éducation à différents niveaux. Dans ce contexte, cette recherche est basée sur l'idée que la médiation, l'interaction et l'interactivité - ici appelées éléments socio-historiques de la formation en ligne - sont des éléments constitutifs des parcours d'apprentissage et déterminent les relations et les rôles des sujets de l'apprentissage en formation en ligne. Pour cela, nous nous appuyons sur la question problème suivante : quelles conceptions et perceptions construites par les sujets d'apprentissage dans les trajectoires d'apprentissage en ligne dans les cours de l'Université Ouverte du Brésil de l’Université Fédérale du Mato Grosso, sur les éléments mentionnés ci-dessus ? L'objectif de cette recherche est de comprendre les conceptions et perceptions des sujets de l'apprentissage sur la médiation, l'interaction et l'interactivité, à partir de leurs relations durant les trajectoires de formation en ligne, car elles déterminent le rôle de ces sujets dans le processus d'enseignement et d'apprentissage dans les cours en ligne. En raison des caractéristiques de l'objet d'étude, l'option a été pour la recherche qualitative (DENZIN; LINCOLN, 2006) dans l'éducation, à l'approche multi-référentielle (ARDOINO, 1998). Cette recherche a comme locus les cours qui intègrent le système du programme de l’Université Ouverte du Brésil de l’Université Fédérale du Mato Grosso, à savoir: l'Administration Publique 2009, Sciences Naturelles et Mathématiques 2009, Pédagogie 2009 et Pédagogie Accord Brésil / Japon, tous en ligne. Les sujets sont des coordonnateurs, des enseignants, des tuteurs et des étudiants, en mettant l'accent dans ces derniers. Les outils de collecte des données sont l'analyse documentaire, l'observation, des rapports, des questionnaires et des entretiens. Nous avons atteint un total de 204 questionnaires, 19 entretiens avec des étudiants, 5 entretiens avec les coordonnateurs, 3 entretiens avec les tuteurs, et 17 avec les enseignants. Les résultats ont été organisés en noyau de sens, en se concentrant sur les éléments socio-historiques de l'étude. Ainsi, il est accepté que la médiation, l'interaction et l’interactivité sont des éléments très importants à la formation en ligne, cependant, ne se produisent pas seulement dans les environnements virtuels des cours. Mais, quand ils ne se produisent pas dans les environnements virtuels, on cherche des stratégies pour les favoriser et les promouvoir dans d'autres contextes et / ou espaces. Par conséquent, la formation en linge survient, essentiel et substantiellement, par le mélange entre la formation virtuel et en présentiel. Ainsi, les trajectoires de formations et les parcours d'apprentissages dans les cours observés consistent de la co-existence de processus parallèles et réintroduits qui se produisent dans les mouvements de compensation des points où les relations, les bases des éléments, sont très circonstancielles et non structurelles comme exigent ces formations qui comptent sur une utilisation intensive de technologies numériques et environnements virtuels d’apprentissage. Mots-clés: Médiation. Interaction. Interactivité. Trajectoire d'étude. Formation en ligne. LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Versões dos ambientes Moodle instaladas para os cursos ................................... 112 Quadro 2 – Previsãode integralização dos cursos investigados ............................................ 119 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Relação de formação inicial e experiência com cursos on-line........................... 128 Gráfico 2 - Finalidade prioritária de uso dos recursos das TDIC pelos alunos ...................... 143 Gráfico 3 - Forma preferencial de como e onde os alunos estudam....................................... 144 Gráfico 4 - Forma preferencial de como os alunos estudam .................................................. 145 Gráfico 5 - Estimativa de horas semanais de trabalho com o Moodle ................................... 149 Gráfico 6 - Momento de interação dos alunos com os tutores ............................................... 165 Gráfico 7 - Momento de interação dos alunos com os professores ........................................ 171 Gráfico 8 - Momento de interação dos alunos com seus pares .............................................. 173 Gráfico 9 - Elementos mobilizadores que influenciaram os alunos a fazer o curso ............... 183 Gráfico 10 - Elementos mobilizadores que influenciaram os alunos a prosseguirem no curso ................................................................................................................................................ 185 Gráfico 11 - Percepções dos alunos sobre as relações dos sujeitos no processo de formação ................................................................................................................................................ 185 Gráfico 12 - Percepções dos alunos sobre o conjunto do curso, considerando as relações estabelecidas com ou por meio dos AVA e materiais didáticos ............................................. 189 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Número de Cursos e Matrículas nos Cursos de Graduação, por Regiões Geográficas – 2011 a 2013 ....................................................................................................... 28 Tabela 2 - Número de alunos inscritos em cada curso para fixação do critério de seleção de curso com 60% do currículo. .................................................................................................... 96 Tabela 3 – Dados referentes ao curso de Administração Pública 2009.................................. 114 Tabela 4 – Dados referentes ao curso de Ciências Naturais e Matemática 2009 ................... 115 Tabela 5 – Dados referentes ao curso de Pedagogia 2009 ..................................................... 116 Tabela 6 – Dados referentes ao curso de Pedagogia Japão .................................................... 117 Tabela 7 – Resumo dos cursos, turmas e seus respectivos registros de atividades ................ 117 Tabela 8 – Sujeitos entrevistados: coordenadores, professores e tutores ............................... 121 Tabela 9 – Distribuição dos instrumentos trabalhados com os alunos por curso ................... 123 Tabela 10 - Resumo dos achados da pesquisa com todos os sujeitos..................................... 125 Tabela 11 – Faixa etária dos alunos dos cursos ...................................................................... 126 Tabela 12 – Distância dos polos da sede em Cuiabá .............................................................. 132 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ADMPUB 2009 Administração Pública 2009 AVA Ambiente Virtual de Aprendizagem AVEA Ambiente Virtual de Ensino-Aprendizagem CNM 2009 Ciências Naturais e Matemática 2009 CA Comunidades de Aprendizagem CMC Comunicação Mediada por Computador CVA Comunidades Virtuais de Aprendizagem CV Cursos Virtuais EaD Educação a Distância EaD on-line Educação a Distância com formação on-line EAD Educação Aberta e a Distância EJA Educação de Jovens e Adultos IE Instituto de Educação IES Instituições de Ensino Superior IFES Instituições Federais de Ensino Superior INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira LMS Learning Management System MEC Ministério da Educação MOODLE Modular Object-Oriented Dynamic Learning Environment MT Mato Grosso MTE Mediação Tecnológica na Educação NEAD Núcleo de Educação Aberta e a Distância OA Orientadores Acadêmicos PDF Portable Document Format PED 2009 Pedagogia 2009 PEDJP Pedagogia acordo Brasil/Japão PE Professores Especialistas PPP Projeto Político Pedagógico PPC Projeto Pedagógico do Curso PPGE Programa de Pós-Graduação em Educação STI Secretaria de Tecnologia da Informação e Comunicação na Educação TDIC Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação UAB Universidade Aberta do Brasil UFMT Universidade Federal de Mato Grosso SUMÁRIO INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 18 1 COMO TUDO COMEÇOU: ABORDANDO O OBJETO DE ESTUDO E PROCEDIMENTOS .............................................................................................................. 23 2 REVISITANDO ALGUNS ESTUDOS E TEÓRICOS: CONSTITUINDO O PANORAMA DAS PESQUISAS E O RECORTE DO OBJETO ..................................... 33 2.1 AUTORES, PESQUISAS E ESTUDOS BASILARES: RECONHECENDO AS TEMÁTICAS E OS INTERLOCUTORES DA PESQUISA .................................................. 35 3 TRABALHANDO CONCEITOS .................................................................................... 43 3.1 MEDIAÇÃO: UNIVERSO INSTRUMENTAL E SIMBÓLICO ................................... 53 3.2 INTERAÇÃO: RELAÇÃO COM O OUTRO, COM O MEIO, PRESENCIAL OU MEDIADA ............................................................................................................................... 68 3.3 INTERATIVIDADE: POTENCIALIDADE TECNOLÓGICA, IDEAL COMUNICACIONAL. ............................................................................................................ 73 3.4 ELEMENTOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA FORMAÇÃO ON-LINE: CONVERGÊNCIAS E RELAÇÕES ....................................................................................... 79 4 O CAMINHO ESCOLHIDO: MULTIRREFERENCIALIDADE COMO PERCURSO METODOLÓGICO ........................................................................................ 89 4.1 FOCALIZANDO O OBJETO: O LÓCUS DA PESQUISA ........................................... 94 4.2 APRECIANDO O CAMINHO: TÉCNICAS DE COLETA DOS ACHADOS DA PESQUISA ............................................................................................................................. 105 4.3 DEFININDO A ROTA E OS CAMINHEIROS ............................................................ 110 4.3.1 Conhecendo o trajeto e os caminheiros: os cursos e os sujeitos ............................ 118 4.3.2 Os caminheiros em suas trilhas ................................................................................ 125 4.4 O CAMINHAR: COLEÇÕES E ACHADOS DA PESQUISA .................................... 134 4.4.1 Organizando os achados da pesquisa ...................................................................... 135 4.5 O QUE DIZEM OS CAMINHEIROS ........................................................................... 136 5 A CAMINHADA: EVIDÊNCIAS APREENDIDAS PELA PESQUISA ................... 139 5.1 PRIMEIRO NÚCLEO DE SIGNIFICAÇÃO: PRÁTICA, LUGAR E ENTENDIMENTO SOBRE A FORMAÇÃO ON-LINE ....................................................... 142 5.2 SEGUNDO NÚCLEO DE SIGNIFICAÇÃO: PERCEPÇÕES DOS ALUNOS SOBRE OS PROFESSORES E TUTORES E SUA RELAÇÃO NO DECORRER DO PROCESSO FORMATIVO ........................................................................................................................ 154 5.3 TERCEIRO NÚCLEO DE SIGNIFICAÇÃO: PERCEPÇÕES DOS ALUNOS SOBRE O CONJUNTO DO CURSO, AS CONDIÇÕES MATERIAIS E HUMANAS NA FORMAÇÃO ON-LINE .........................................................................................................179 5.4 QUARTO NÚCLEO DE SIGNIFICAÇÃO: ENTENDIMENTOS E PERCEPÇÕES CONSTRUÍDAS NAS TRAJETÓRIAS DE FORMAÇÕES DOS SUJEITOS SOBRE OS ELEMENTOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA FORMAÇÃO ON-LINE ................................... 190 5.4.1 Do instrumental ao simbólico: percepções e sentidos da mediação ...................... 193 5.4.2 Da relação com o outro e com o meio: percepções e sentidos da interação ......... 203 5.4.3 Da potencialidade tecnológica ao ideal comunicacional: percepções e sentidos da interatividade ........................................................................................................................ 215 6 TRAVESSIA: DO QUE VIVEMOS ÀS LIÇÕES APREENDIDAS ......................... 238 DO QUE VIMOS... ............................................................................................................... 238 LIÇÕES APREENDIDAS... ................................................................................................ 245 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 252 APÊNDICES ......................................................................................................................... 266 APÊNDICE A – QUADRO RESUMO DE AUTORES DA REVISÃO SISTEMÁTICA 267 APÊNDICE B – QUESTIONÁRIO COM ALUNOS ........................................................ 273 APÊNDICE C – ENTREVISTA COM ALUNOS ............................................................. 277 APÊNDICE D – ENTREVISTA COM COORDENADORES ........................................ 278 APÊNDICE E – ENTREVISTA COM PROFESSORES E TUTORES ......................... 279 APÊNDICE F – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ......... 280 APÊNDICE G – TERMO DE COMPROMISSO DIVULGAÇÃO E PUBLICAÇÃO DE RESULTADOS DE PESQUISA ......................................................................................... 282 ANEXOS ............................................................................................................................... 283 ANEXOS A – CURSO DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 2009. .................................. 284 ANEXOS B – CURSO DE CIÊNCIAS NATURAIS E MATEMÁTICA 2009. ............. 286 ANEXOS C – PEDAGOGIA 2009. ..................................................................................... 290 ANEXOS D – CURSO DE PEDAGOGIA ACORDO BRASIL/JAPÃO. ....................... 293 18 INTRODUÇÃO Com o advento e popularização da rede internet, e com a constante evolução das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC), temos presenciado mudanças profundas nas atividades humanas, sociais, políticas, econômicas e culturais. Por conta dessas mudanças nas mais diversas esferas do conhecimento humano, o processo de formação do homem contemporâneo tem sido afetado e alterado profunda e substancialmente. As transformações aludidas revolucionaram a forma de apropriação do conhecimento, motivando novas teorias e a reformulação de teorias estabelecidas ou cristalizadas. O que entendemos hoje por TDIC é consequência de avanços e desdobramentos das tecnologias e métodos surgidos após a Segunda Guerra Mundial, derivados da junção de recursos informáticos e de telecomunicação. Atualmente elas compõem o arcabouço denominado “eletrotecnologias” as quais se configuram em psicotecnologias (KERCKHOVE, 2009). Na área da educação, o potencial comunicacional e pedagógico que as TDIC e os Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA) agregam é reconhecido a partir da exploração de suas potencialidades. Esses ambientes são sistemas informatizados que permitem a concepção, implantação e operacionalização de uma infraestrutura completa para criação, condução e administração de atividades de aprendizagem por meio da internet (VAVASSORI; RAABE, 2003). Nos últimos anos, o uso dessas tecnologias tem introduzido transformações profundas nas instituições de ensino e acarretado o advento de novos modos de compreender, de estudar, de ensinar e de acompanhar pedagogicamente a construção de conhecimentos. Os mais variados recursos tecnológicos têm se configurado como o universo do possível quando se trata de buscar a promoção da educação em seus diversos níveis; uma vez que eles permitem a promoção de conteúdos, aumentam as possibilidades de experimentação e consolidação de situações de aprendizagens, viabilizam a interação e socialização entre indivíduos geograficamente distantes, facultam o acompanhamento e mediação da aprendizagem além de fomentar perspectivas outras de interação e interatividade. Em contexto nacional, historicamente, a Educação a Distância (EaD) foi a “modalidade” que se configurou como o maior campo de experimentação e de uso mais intensivo de TDIC e seus recursos. Não menos, tornou-se uma “modalidade” educacional de 19 maior amplitude de experimentações de metodologias e abordagens pedagógicas fundamentadas nessas tecnologias. Esta pesquisa se insere no contexto da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) que tem seus cursos na EaD apoiados no uso intensivo de tecnologias, pelas quais leia-se TDIC. Diante disso, cumpre esclarecer que optamos, então, pela denominação de Educação a Distância com formação on-line (EaD on-line), em detrimento de EaD, por considerá-la mais adequada para se referenciar a esses processos de formação que se fazem, prioritariamente, on-line com o uso mais intensivo de TDIC e AVA; e, também, por expressarem um evento presente no âmbito da cibercultura (SANTOS, 2005). No que se refere ao aspecto técnico, um dos principais expoentes tem sido os AVA. Embora eles possam ser utilizados em uma perspectiva reducionista de repositório de conteúdos (SILVA, 2011), vemos sua potencialidade ao permitirem a consolidação de “espaços” profícuos para a experimentação de novas dinâmicas educacionais e para a busca de alternativas à superação de desafios que emergem nos diversos contextos educacionais. Nesta perspectiva, inseridos em processos educacionais, permitem ampliar as formas de ensinar e aprender, oferecendo um campo fértil para a experimentação e o fazer docente. No que tange às formações fundamentadas no uso intensivo de TDIC, independente do que se convencionou chamar de “modalidade”, não se verificam diferenças entre elas, em se tratando de desafios educacionais recorrentes. Contudo, com a expansão da oferta de cursos on-line há que considerar, além das questões teóricas e pedagógicas, as tecnológicas. Apesar de os recursos tecnológicos poderem ser projetados para resolver determinados problemas – eis um dos argumentos utilizados por aqueles que advogavam que as TDIC resolveriam os problemas da educação –, há situações em que são agentes criadores de problemas (MARASCHIN, 2000). Tal assertiva incita o ato de repensar, como um todo, o complexo fenômeno educacional, de forma a analisá-lo criticamente. Por saber que, muitas vezes, acontece de a mediação, a interação e a interatividade ficarem a cargo das tecnologias, defende-se aqui que elas são atividades especificamente humanas, que recobram a presença do indivíduo. Nessa perspectiva, as tecnologias exercem papéis importantes quando reconhecidas como meios para o estabelecimento de relações e não como fins em si mesmas. Assim sendo, os AVA tornam possíveis as trajetórias de formações e percursos de aprendizagens permeadas pela mediação, interação e interatividade. Estas são, nesta investigação, as variáveis de interesse envolvidas nas propostas metodológicas e didático- 20 pedagógicas nos cursos investigados. A mediação, interação e interatividade foram aqui denominadas como elementos sócio-históricos da formação on-line. Neste cenário, com base na teoria sócio-histórica, esta pesquisa se sustenta na ideia de que a mediação, interação e interatividade são elementos constitutivos das trajetórias de formação e determinam as relaçõese os papéis dos sujeitos da aprendizagem na formação on-line. Embasados nesta premissa, estabelecemos o seguinte questionamento: quais os entendimentos e as percepções construídas pelos sujeitos da aprendizagem nas trajetórias de formação on-line nos cursos da UAB-UFMT, sobre os elementos antes mencionados? O lócus da pesquisa foram os cursos de graduação que integram o sistema do programa da Universidade Aberta do Brasil (UAB) da UFMT, a saber: Administração Pública 2009 (ADMPUB 2009), Ciências Naturais e Matemática 2009 (CNM 2009), Pedagogia 2009 (PED 2009) e Pedagogia Acordo Brasil/Japão (PEDJP), todos de formação on-line. Os sujeitos da pesquisa foram todos aqueles envolvidos no curso: os coordenadores, professores, tutores e alunos. Porém, houve ênfase nos alunos a fim de lhes dar “voz” e “vez” para que pudessem expressar-se aberta e livremente somente sobre o objeto de estudo em tela. Dada a característica do objeto de estudo, a opção foi pela pesquisa qualitativa (DENZIN; LINCOLN, 2006) em educação, com abordagem multirreferencial (ARDOINO, 1998). Os instrumentos de recolha dos achados foram questionários e entrevistas. Com os coordenadores de cursos, professores e tutores, realizamos entrevistas. A todos os alunos dos cursos selecionados, aplicamos os questionários para ampliar o escopo de abrangência do objeto. E, a posteriori, fizemos entrevistas com alguns deles. A seleção dos professores e tutores seguiu a dois critérios não excludentes, mas complementares. Estes critérios são discutidos mais adiante em tópico específico. A recolha dos achados da investigação resultou em 204 questionários válidos; 19 entrevistas com alunos; 5 entrevistas com coordenadores; 3 entrevistas com tutores; e, 17 entrevistas com professores. Com base na abordagem multirrefencial, procedemos à compreensão dos achados da pesquisa, após eles organizados em núcleos de significação, tendo como foco os elementos sócio-históricos em estudo. Tendo estes conhecimentos iniciais de onde se coloca esta pesquisa, mais adiante, em tópicos específicos, aprofundaremos mais sobre as questões metodológicas e seus desdobramentos. 21 De forma a representar didática e coerentemente as ideias tratadas nesta pesquisa, a presente tese está organizada nesta introdução e mais seis capítulos. Primeiramente, aqui, apresentamos o panorama em que se insere a investigação, a priori. Em linhas gerais, revelamos o contexto, a ideia geradora e a questão norteadora. Adicionalmente, esboçamos o lócus, sujeitos, os instrumentos e o viés metodológico adotado, com vistas à busca pela construção do conhecimento no decurso da investigação. No capítulo 1, “COMO TUDO COMEÇOU: ABORDANDO O OBJETO DE ESTUDO E PROCEDIMENTOS”, foi construído o pensamento que deu origem à tese e nele são abordados o objeto de estudo e apresentado o posicionamento, as motivações e os objetivos que serviram para delinear o contexto em que se pauta esta pesquisa. Posteriormente, no capítulo 2, “REVISITANDO ALGUNS ESTUDOS E TEÓRICOS”, e seu subitem estão focados na apresentação dos critérios, procedimentos e técnicas de pesquisa utilizados para compor o estofo teórico. Aqui são apresentados autores basilares cujos trabalhos possuem temáticas e objetos relacionados com a presente investigação. Esse aporte teórico não só forneceu insumos para pensar o objeto de estudo como também permitiu delineá-lo e fazer o recorte sendo que, ainda, subsidiou as reflexões sobre os achados. O capítulo 3, “TRABALHANDO CONCEITOS”, e seus subtópicos, foram abordados os conceitos de mediação, interação e interatividade, fundamentais à pesquisa, fazendo-se referência aos autores que trataram o tema. Tendo em vista a necessidade de trazer as bases e entendimentos sobre os conceitos em questão, optou-se por tratá-los em tópicos específicos. No mesmo patamar de importância foi incluído o subtópico 3.4, em que fazemos um apanhado destes elementos, com relevo naquilo em que, sob nossa ótica, é comum entre eles, isto é, suas convergências e relações. No capítulo 4, “O CAMINHO ESCOLHIDO: MULTIRREFERENCIALIDADE COMO PERCURSO METODOLÓGICO”, em linhas gerais, é discutido o referencial teórico- metodológico que se estende sobre o objeto de pesquisa e que tem suas bases na abordagem multirreferencial de Jacques Ardoino. Numa das seções que constituem o corpo do capítulo, é apresentado o lócus de pesquisa: cursos de graduação on-line que compõem o sistema do programa da Universidade Aberta do Brasil (UAB) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Nas duas seções subsequentes, faz-se a discussão sobre os procedimentos e técnicas utilizados para a recolha dos achados da pesquisa, seguida do delineamento que caracteriza os 22 sujeitos de pesquisa. Por fim, discorre-se sobre a coleção de achados da pesquisa e sua organização. O capítulo 5, “A CAMINHADA: EVIDÊNCIAS APREENDIDAS PELA PESQUISA”, está voltado para a organização dos achados da pesquisa que deram ensejo à compreensão e correlação com os objetivos e questões da investigação. O terceiro nível (5.4) e respectivos subtópicos tratam das evidenciações, especificamente, da mediação, interação e interatividade. O capítulo 6, “TRAVESSIA: DO QUE VIVEMOS ÀS LIÇÕES APREENDIDAS”, foi dedicado às lições apreendidas com a investigação. Ao final são apresentados os apêndices e anexos, que se referem aos documentos elaborados para a pesquisa (questionários e entrevistas), além daqueles de autoria de terceiros (projetos dos cursos, por exemplo), que subsidiaram a execução deste trabalho. Antes de prosseguirmos, relevamos nossa compreensão de que a tessitura de todo e qualquer entendimento acerca de uma realidade observada é um trabalho plural e coletivo, mesmo em se falando de uma realidade que se mostre, primeiramente, visível aos olhos do pesquisador. Expandir a visão limitada sobre essa realidade, conscientes de seus diversos prismas, só foi possível pelas “individualidades do coletivo” que tornaram perceptíveis e compartilharam realidades outras com este pesquisador. Diante disso, a opção foi pela escrita dos conhecimentos construídos nesta investigação em primeira pessoa do plural, “nós”, que não resultaram de construções individuais, tampouco de uma única vez, mas sim, construídas ao longo de todo o processo. 23 1 COMO TUDO COMEÇOU: ABORDANDO O OBJETO DE ESTUDO E PROCEDIMENTOS O interesse pelo tema desta pesquisa em doutorado se deu basicamente por três motivos recorrentes, e que fizeram com que o autor se mantivesse envolvido com o processo de ensino e aprendizagem com o uso de Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) e Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA). Em analogia à teoria sócio-histórica de Vygotsky, especificamente sobre as bases do desenvolvimento humano, esses três motivos dizem respeito diretamente aos estímulos e motivações intrínsecas (intrapessoal) e extrínsecas (interpessoais). E, tangencialmente, mas também tão importante quanto, os contextuais (ambiente-meio-conjuntura). Isso tudo veio originando-se dos impactos provocados pelas dificuldades, desafios e possibilidades advindos dessas experiências vivenciadas ao longo da formação acadêmica e da trajetória profissional do pesquisador, que nos possibilitou a tomada de consciência de que existiam (e existem) algumas situações que mereciam ser melhor compreendidas, principalmente aquelas que tanto poderiam impor dificuldades, quanto possibilidades aos processos de formação on-line. Então, na busca por delimitar um ponto, tudo começa a partir da consciência que os motivos recorrentes se configuraram pelos estímulos e motivações intrínsecos e extrínsecos. Para adentrarmos a estes motivos, inserimos aqui uma exceção para alternar o discurso para primeira pessoal do singular, o que será abandonado um pouco adiante. O primeiro desses motivos, que me faz pesquisador,ocorreu antes mesmo da finalização do curso de graduação, época em que debutei na educação mediada tecnologicamente, ora como técnico em informática, ora como tutor e professor. A graduação conduziu-me a uma nova etapa, a pós-graduação lato sensu. A especialização lato sensu tinha como tema a “docência no ensino superior: desafios da contemporaneidade”. Sob esse tema altamente instigante estreei no ensaio à pesquisa que me permitiu debutar na observação de docentes e de suas concepções sobre as TDIC – naquele momento tratadas por Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) – e assim estabelecer um paralelo entre seus trabalhos nos cursos presenciais e a distância mediados por tecnologias. O segundo motivo foi ter-me imiscuído, concomitantemente à graduação e especialização, no decurso de seis férteis, frutíferos e ininterruptos anos, no seio do Núcleo de 24 Educação Aberta e a Distância (NEAD) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), atuando ativamente em projetos mantidos pelo núcleo. Além disso, ter trabalhado com professores e tutores no programa da UAB, na mesma universidade, foi de uma riqueza ímpar. Anos seguintes, por conta dessas experiências na área, passei a trabalhar na Secretaria de Tecnologia da Informação e Comunicação na Educação (STI) dessa mesma instituição. O trinômio escola-trabalho-escola ensejava-me preocupações, desejos e inquietações nas vivências de professores e alunos quanto à formação on-line, além dos desafios hodiernos, que já se verificavam no processo de então. A experiência que veio sendo desenvolvida no universo, trânsito entre aluno-técnico- professor, está na base do terceiro motivo. No início da formação, na condição de aluno, me foi possível visualizar o potencial comunicacional e pedagógico amparado nas tecnologias que me dava “voz” no curso; como técnico usufruí da vantagem de conhecer e experimentar alguns ambientes virtuais e recursos tecnológicos, dos quais busquei extrair o máximo de suas potencialidades, de forma a subsidiar e, mesmo assegurar, um processo formativo significativo e coerente com as crenças e propostas de cada professor e curso. Na fase final dessa experiência, já atuando como professor, condição que oportunizou buscar formas que garantissem a qualidade nas relações dialógicas entre os sujeitos da formação, me imbuí dos objetivos, abordagens e teorias que subjazem ao fazer docente, por acreditar que não seria o mesmo, caso me debruçasse sobre o viés mutilador e compartimentalista, que isola os elementos da tríade aluno-técnico-professor e dissocia sujeito e pesquisador na inter-relação estabelecida em diversos momentos de participação em cursos on-line. Essas três dimensões me tornaram aptos a olhar analítica e sinteticamente o processo educacional em tela e ampliou minha visão para um viés multifocal sobre as práticas plurais no universo dessas formações. Por fim, elas me remeteram à pesquisa em mestrado. Em meu trabalho de mestrado (SILVA, 2011), discuti como se processa o acompanhamento da participação e interação dos alunos em ambientes virtuais e como o uso dos seus “relatórios de atividades” impacta a prática pedagógica. Naquele momento já me interessou os aspectos estritamente virtualizados, ou seja, as práticas pedagógicas, trajetórias e percursos de aprendizagens on-line realizados internamente pelos recursos disponíveis nos AVA. Esta pesquisa trouxe à tona as potencialidades comunicacionais e didático-pedagógicas cujo enfoque recaiu sobre os desafios e limites do fazer docente, muitas vezes calcados em visões limitadas sobre uma gama de possibilidades que os recursos internos dos ambientes 25 poderiam agregar à formação, principalmente para o acompanhamento das trajetórias de formação e percursos de aprendizagens na formação on-line. Essas visões limitadas eram denunciadas pelo desconhecimento ou falta de entendimento do savoir-faire manifesto pelos formadores na subutilização de recursos internos dos AVA: ênfase no produto (a participação na atividade, um bom texto escrito, entre outros) em detrimento do processo, o que tirava oportunidade às vivências e trajetórias nesses “espaços”. A substancialidade dos resultados da referida investigação descortinou meus olhos para outros aspectos da formação on-line que mereciam ser melhor compreendidos. Tendo como base a educação como prática social, observo que a formação, nesse contexto, depende das estratégias de uso didático-pedagógico dos recursos internos dos AVA. Estes são meios para o estabelecimento das relações sociais entre professores e alunos, as quais são as bases para a mediação, interação e interatividade, pressupostos necessários para processos formativos mobilizadores de situações propícias às produções e apropriações de conhecimentos que, em meu entendimento, emergem, de um contexto sócio-histórico-cultural compartilhado. Por essas e outras observações, fui movido a um aprofundamento na pesquisa pelo viés crítico com foco na ocorrência e significação da mediação, interação e interatividade em cursos on-line, embasados na teoria sócio-histórica de Vygotsky (1996). No percurso, minha própria formação e prática foram colocadas em cheque, pois me vi imerso em teias de indagações contra mim mesmo: Quais seriam as possibilidades educacionais, caso os ambientes virtuais de aprendizagem fossem meros repositórios de conteúdos? O que e como se configurariam as trajetórias de formação dos alunos nesses “espaços” de formação on-line? O que tem sido fundamental para efetivação de aprendizagem nos cursos on-line? Essas e outras indagações, e mais a recorrência de um rol de questões sobre a aprendizagem e sua efetivação em ambiente virtual, redundaram na problemática central desta tese, para a qual procurei significar as iniciativas e as relações dos sujeitos pedagógicos na formação on-line. Assim, como exemplo de caso, fui alternando a transposição da vivência para consolidar meu campo da pesquisa. O conjunto dessas vivências e experiências formativas nas três dimensões (aluno-técnico-professor) foi condição para me fazer pesquisador, instigando-me a uma nova curiosidade científica que deu origem a esta pesquisa. É possível notar que os estímulos e motivações intrínsecos e extrínsecos surgem em um contexto específico muito favorável e acolhedor para esta pesquisa. Em adição, o contexto 26 educacional atual foi igualmente favorável, tanto que a ele denominamos de estímulos e motivações contextuais (ambiente-meio-conjuntura). Referimo-nos ao contexto sociocultural em que se firma a educação com formação on-line, enquanto possibilidades de formação com qualidade que, paulatinamente, tomaram destaque dentro e fora de Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) redundaram em ações de políticas públicas. Sobre isso, instituímos como ponto de partida a própria trajetória da UFMT com a EaD (inicial e prioritariamente com aporte de materiais didáticos e semipresenciais aos recursos tecnológicos e multimidiáticos), passando pelos instrumentos legais de institucionalização da então modalidade EaD e, por fim, na criação da UAB. A instituição em que se insere esta pesquisa, a UFMT, por meio do NEAD, é a primeira universidade brasileira a oferecer cursos em EaD, ainda nos anos de 1990. Dentre eles, consta que o primeiro foi o de [...] licenciatura em educação básica”, assim chamada inicialmente, foi criado na UFMT em agosto de 1994 pela Resolução 88/94, a universidade foi credenciada para trabalhar com a modalidade de EAD em 2001, conforme Portaria/MEC nº 372 de 5/3/2001, ao passo que o curso fora reconhecido pela Portaria nº 3220, em 22/11/2002, assinado como “Pedagogia na Modalidade Licenciatura para os Anos Iniciais do ensino Fundamental”. Depois de quase dez anos, a UFMT teria um de seus projetos considerado um dos mais inovadores na formação de professoresem exercício, legitimado nacionalmente. (ALONSO, 2005, p. 1) A oferta de cursos na EaD pelas IFES encontrou respaldo legal no Brasil após a aprovação da Lei nº 9.394, em 23 de dezembro de 1996, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional; conforme o “Art.80 §1º A educação a distância, organizada com abertura e regime especiais, será oferecida por instituições especificamente credenciadas pela União”. A partir de então, outros decretos, normativas e diretrizes foram sancionados. Com especificidade à EaD, em 2005 surge o Decreto n° 5.622, de 19 de dezembro de 2005, que vem caracterizá-la [...] como modalidade educacional na qual a mediação didático- pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos. (BRASIL, 2005, grifo nosso) A partir deste decreto, começa a se delinear requisitos importantes para a EaD, como prever que a mediação didático-pedagógica seja realizada com o emprego de tecnologias. Isso 27 vai certificando e introduzindo algumas características fundamentais aos processos formativos nesta, então, modalidade. Já em 2005 temos a criação do sistema UAB, o qual foi oficializado pelo Decreto nº 5.800, de 8 de junho de 2006. Enquanto ação do governo, esse sistema se volta para o crescimento da oferta de cursos superiores de formação on-line pelas universidades públicas brasileiras (FERRUGINI ET AL. 2013). Entre suas ações prioritárias esteve a criação, expansão e ampliação de formação inicial e continuada de professores da educação básica. Para alcançar seus intentos, práticas educativas implementadas pelas TDIC, as instituições parceiras da UAB buscaram incorporar modernas tecnologias como os AVA e o sistema de web conferência, sendo este último resultado de uma parceria entre o Ministério da Educação (MEC) em parceria com a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP). Ao prever o uso de tecnologias, a UAB vai ao encontro do que vem ocorrendo no seio da sociedade contemporânea que se vê imersa no grande oceano informacional, seja quanto às informações em si (enquanto produto e produtora), seja pelos recursos, aparatos e formas de se criar, armazenar, atualizar, acessar e veicular essas informações. Apoiada em TDIC, a EaD pôde então ser vista como uma possibilidade para amenizar o fosso entre as demandas de formação inicial e o número de ofertas disponíveis. Com a expansão de cursos nesse formato pela UAB, ela pode ser entendida como uma resposta à crescente demanda social por formação em nível superior e continuada, causada pela insuficiência e mesmo impossibilidade de as IFES estarem presentes nos mais diversos lugares de nosso país. Há que considerar ainda as questões de dimensão territorial e a falta de políticas públicas ou ainda a insuficiência de investimentos na expansão e interiorização das instituições. Tais fatores corroboravam, historicamente, para que o número de acesso ao ensino superior se mantivesse aquém da demanda. A UAB passou a cumprir assim um papel importante no contexto nacional. Com ela surge o aumento dos cursos superiores a distância com formação on-line. Sobre esse aumento, conforme os censos disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (INEP, 2011, 2012, 2013), temos uma projeção considerável das respectivas ofertas; vejamos a Tabela 1: 28 Tabela 1 - Número de Cursos e Matrículas nos Cursos de Graduação, por Regiões Geográficas – 2011 a 2013 Região Ano 2013 Ano 2012 Ano 2011 Cursos Matrículas Cursos Matrículas Cursos Matrículas Norte 66 24.342 78 41.343 76 53.740 Nordeste 220 84.176 209 83.681 177 74.068 Sudeste 569 371.760 500 365.132 449 331.647 Sul 294 540.590 261 473.037 251 436.546 Centro-Oeste 109 132.704 100 150.657 91 96.926 Total 1.258 1.153.572 1.148 1.113.850 1.044 992.927 Fonte: Dados do Censo do Ensino Superior MEC/INEP/DEED (INEP, 2011 a 2013) Diante desta realidade, observa-se a tendência de crescimento nos cursos ofertados e suas respectivas matrículas no decurso destes 3 anos. Com a oportunidade de aplicação das TDIC e dos AVA na educação, todas as áreas que envolvem contatos com avanços tecnológicos se interessaram pela Portaria do MEC Nº 4.059/2004. Instituições públicas e/ou privadas, potencialmente estas últimas, têm se valido da Portaria que trata dos cursos na modalidade semipresencial. Em seu artigo 1º, parágrafo 2º, está prescrito que poderão ser ofertadas disciplinas (referidas no caput), integral ou parcialmente, desde que não ultrapassem 20% da carga horária total do curso. Essa mesma Portaria instituiu que as práticas de ensino e aprendizagem devem incorporar o uso integrado de tecnologias. Nestes casos, os recursos tecnológicos, ícones na atualidade e motores propulsores para a capilarização da oferta de cursos, prestam-se assim tanto à realização de cursos on-line como ao apoio dos cursos e atividades presenciais, com o uso dos AVA. Assim os espaços educacionais convencionais tornaram-se passíveis de configurações e reconfigurações. Ante ao exposto, muitas perguntas têm sido feitas sobre a qualidade e o tipo de formação que vem sendo ofertada. No caso da UAB, ela prevê que ao aluno deve ser garantido o acesso às modernas tecnologias, em especial aos AVA. Isso vai ao encontro do que observamos nos referenciais de qualidade para a EaD que trazem que: 29 Para atender às exigências de qualidade nos processos pedagógicos devem ser oferecidas e contempladas, prioritariamente, as condições de telecomunicação (telefone, fax, correio eletrônico, videoconferência, fórum de debate pela Internet, ambientes virtuais de aprendizagem, etc.), promovendo uma interação que permita uma maior integração entre professores, tutores e estudantes. (REFERENCIAIS DE QUALIDADE PARA EDUCAÇÃO SUPERIOR A DISTÂNCIA, 2007, p.11, grifo nosso) Essas tecnologias, cada vez mais rápidas e integradas, apoiam os cursos com formação on-line como grande potencial ao alterar a relação que se estabelece nesses processos, pois colocam em reflexão a questão da separação geográfica entre os professores e alunos. Colocando em foco os AVA, vemos que eles não só permitem a flexibilização, mas alteram também a relação espaço-tempo, permitindo estarmos em vários lugares sem sairmos do mesmo lugar (KERCKHOVE, 2009). Sendo assim, pelo que vimos expondo, é nesse movimento estimulante e provocador que esta pesquisa se insere. Do que vimos e vivenciamos, mantivemo-nos conscientes da existência de situações que mereciam ser melhor compreendidas. Isso moveu a pesquisa em direção a um plano investigado sobre aos elementos sócio-históricos da formação on-line: a mediação, interação e interatividade. A abordagem epistemológica que sustenta esta tese se afilia à teoria sócio-histórica de Vygotsky (1996). Assim, buscamos a compreensão do conceito de mediação e interação em Vygotsky (1996), sabido que, para a interação, apoiamo-nos, também, no entendimento e concepção de Primo (2000; 2007) e Belloni (1999, 2002) visto que temos como foco aquela que se realiza fundamentalmente por meio de recursos tecnológicos. O conceito de interatividade veio em aditivo da dimensão, projetando-lhe um olhar pelo viés sócio-histórico. Do ponto de vista conceitual, a interatividade é compreendida com base em autores como Silva (2001) e Valle e Bohadana (2012ab). Ferreira (2008, p.13) nos adverte que a morte prematura de Lev Vygotsky ocorre antes da invenção dos dispositivos digitais atuais, o que implica assim que conceitos como mediação e interação, como entendidos à época, sejam transpostos com adaptações para o estudo em ambientes digitais. Para isso, agregamos autores afetos à temática em pautaquando tratamos destes conceitos no tópico 3 e subtópicos, a partir da página 43. Convém enfatizar que os motivos recorrentes que nos incitaram à realização desta pesquisa já foram apresentados. Depreende-se que os aspectos intrapessoais, interpessoais e 30 contextuais justificam o presente trabalho investigativo e ganham força ao se inserirem em uma realidade sócio-histórica-cultural compartilhada. Dessa forma, esta investigação busca contribuir com as reflexões sobre as formações que se apoiem no uso intensivo de TDIC e AVA, e ampliar as discussões sobre a real capacidade de esses processos formativos darem condições para trajetórias de formações calcadas nos respectivos elementos sócio-históricos da formação on-line. No bojo das questões vivenciadas, que buscamos compreender, está o desejo de se promover uma formação on-line que ultrapasse o limite instrucional e explore outras dimensões que deem condições à efetividade de aprendizagens. Com esse ponto de vista, vislumbra-se o desvencilhar do processo formativo alienante e assume-se uma percepção ampliada dos sujeitos em relação à aprendizagem, com a qual atuam por serem produtores e produtos de conhecimento. Ao assumir uma postura ativa, prossumidora (KERCKHOVE, 2009), esses sujeitos da aprendizagem se inserem no âmago da questão e passam a entender que aprender não se trata de um processo meramente externo, contemplativo e estático. Conhecer requer estabelecer e manter relações dinâmicas e indagativas de fluxos contínuos com o objeto que se busca apreender. E, para entender essas relações é indispensável compreender o paradoxo que as origina: um coletivo, isto é, emergem de uma coletividade ao passo que redundam em (re)construção individual, isto é, transitam do coletivo ao individual e vice-versa. Sabido que, neste fluxo, o sujeito precisa relacionar-se com o objeto de conhecimento, consigo próprio e com o outro. Tais fatos nos remetem à busca e reflexão sobre o modo como os processos de ensino- aprendizagem têm se configurado nesses cursos de formação on-line. Pois, no limite, o objetivo maior de todos, da educação, é dar condições para que as aprendizagens aconteçam. E, entendido que a educação é uma prática social, que essas aprendizagens possam ser somadas a outros objetivos, não menos importantes, como o da formação de cidadãos críticos, reflexivos e ativos social, política e economicamente, capazes de compreenderem seus papéis e importância na sociedade. Durante o processo de construção da sociedade, são agentes e pacientes imersos em um movimento autopoiético, autoconstrutivo. Como na formação on-line os AVA são, fundamentalmente, os meios para todas a práticas formativas e o acompanhamento das trajetórias de formações e percursos de aprendizagens dos alunos, eles operam como meios para as práticas educativas que, diante de uma postura ativa e participativa de professores e alunos, permitem a realização de estratégias 31 compensadoras que ultrapassem os obstáculos inerentes à formação, como a separação do tempo e espaço entre os sujeitos da formação e a dificuldade de estabelecimento de diálogos, trocas e negociações entre esses sujeitos. Dessa forma, enquanto campo de possibilidades, a formação on-line depende, sobremaneira, dos recursos dos AVA como meios para o estabelecimento das relações sociais entre os professores, tutores e alunos as quais são as bases para a mediação, interação e interatividade. A esse respeito importa retomar um ponto fundamental que motivou esta pesquisa, já dito em parágrafos anteriores. O cerne de nossa inquietação decorre da constatação de que os recursos internos dos AVA objetivam dar condições e possibilitar as práticas pedagógicas e as trajetórias de formações dos alunos nos cursos. As tecnologias são, portanto, meios com os quais busca-se atingir objetivos específicos nas práticas educativas. Porém, quando ocorre a subutilização desses aparatos ou, ainda, são tomados como fins, há, por consequência, a limitação dos processos formativos no sentido em que se inviabiliza os elementos sócio- históricos antes mencionados. Nos cursos on-line, o processo de ensino-aprendizagem mantém ligação estreita e dependente dos recursos dos AVA, seja para a disponibilização dos materiais didáticos como para a constituição de “espaços” de interlocuções. Portanto, como meios para fins objetivados, são essenciais para o estabelecimento das relações sociais entre os professores e alunos, as quais são as bases para a mediação, interação e interatividade. Com base no exposto e no fato de que os PPC orientam processos formativos nesta vertente, interessa-nos os entendimentos dos sujeitos da formação sobre os elementos sócio- históricos supracitados; uma vez que esses entendimentos sustentam as relações que se estabelecem com o conhecimento − lidar com relações sociais é lidar com relações de aprendizagens. Então, da questão problema anteriormente mencionada, depreendemos os objetivos desta investigação. Assim, o objetivo desta tese é compreender os entendimentos e percepções dos sujeitos da aprendizagem acerca da mediação, interação e interatividade, a partir das relações que estabelecem durante a trajetória de formação on-line, uma vez que elas determinam o papel destes sujeitos no processo de ensino e aprendizado nos cursos on-line. Diante disso, um dos pontos muito importantes na investigação de nosso objeto é que com os pressupostos (ideia e premissa) indicados, sobre os quais esta pesquisa se 32 desenvolveu, os inquiridos, no caso os alunos, são sujeitos que estavam na “reta final” de sua formação. Isso quer dizer que a trajetória de formação já resultaria de uma construção feita ao longo do curso. Não se tratou de buscar as impressões iniciais sobre esses elementos, mas, acima de tudo, de captar sua essência oriunda de um fenômeno que, em tese, fora construído em bases enraizadas nos elementos sócio-históricos em tela. Assim, partimos do pressuposto que aos alunos foram oportunizadas formações por meio das quais construíram, reconstruíram e mesmo apropriaram-se de conceitos para além da literatura, mas que emergiram de processos dialógicos durante a formação instaurada. Então, eles poderiam desvelar entendimentos sobre algo muito além de meras impressões ou conhecimentos de senso comum, porém, experienciados (vivenciados) no curso. Neste cenário, do objeto geral se desdobra e deste desdobramento circunscrevem-se os seguintes objetivos específicos: a) evidenciar como se configuram os entendimentos e percepções dos sujeitos da aprendizagem sobre a mediação, interação e interatividade no ambiente virtual do curso por meio de seus recursos; b) identificar como se processam as relações entre os alunos e professores durante o processo formativo on-line; c) constituir os entendimentos e percepções dos sujeitos da aprendizagem sobre os elementos sócio-históricos que determinam o papel dos alunos e professores na formação on-line. Cumpre destacar que o uso da palavra professor refere-se tanto aos professores especialistas e tutores. Quando distingui-los se fez necessário, assim o procedemos. No panorama da pesquisa (questão problema, objetivo geral e objetivos específicos) e dando continuidade à mesma, apresentamos alguns estudos e teóricos bem como pesquisas que se aproximam da temática e do objeto de estudo. 33 2 REVISITANDO ALGUNS ESTUDOS E TEÓRICOS: CONSTITUINDO O PANORAMA DAS PESQUISAS E O RECORTE DO OBJETO Neste capítulo apresentamos o resultado de um levantamento bibliográfico que nos permitiu conhecer algumas pesquisas de autores que investigaram a mediação, interação e interatividade no âmbito da área da educação. Três importantes objetivos foram traçados com este levantamento: em primeiro plano, identificar e conhecer as pesquisas que pudessem focar os respectivos elementossócio-históricos em conjunto para, a partir daí, delimitar o recorte de nosso objeto de pesquisa e escopo; consequentemente, o outro objetivo visado foi identificar as pesquisas que se correlacionavam, em algum nível, com nosso objeto; e, por fim, traçar um panorama das pesquisas que se inserem no campo da educação e TDIC/AVA. Este estudo bibliográfico resultou em uma coleção de pesquisadores sobre o tema. Nele foram incluídos trabalhos criteriosamente selecionados, em razão de suas temáticas se aproximarem daquilo que é o nosso objeto, e eles constituíram, então, nosso estofo teórico e referencial. Deles, formamos os alicerces de reflexão e compreensão de nosso problema de pesquisa que se insere em cursos de formação on-line, exigindo-nos considerar as TDIC, os AVA e as práticas introduzidas nestes espaços. Por questões organizacionais, e mesmo práticas, definimos e sistematizamos as fontes de dados (bases), os procedimentos e as técnicas utilizadas. Em outro momento é que expomos as temáticas tratadas pelos autores, salientando os objetivos de seus trabalhos. Para todo esse processo: identificação, recolha e compilação dos estudos e dos teóricos que atendessem aos objetivos desta etapa, usamos técnicas de revisão sistemática para fins de revisão bibliográfica atual e ampliada. Aplicando a técnica de revisão sistemática, fomos em busca de teses que estivessem disponíveis para acesso integral on-line, desde que atendessem ao critério de inclusão: período de defesa compreendido entre 2009 e 2012. Nessa etapa, não ficaram de fora os artigos cujos temas fossem conexos ao desta pesquisa, que se inserissem nos respectivos 4 anos e que se encontrassem nas bases definidas. 34 Previamente, para o levantamento de teses e artigos, foram definidas algumas bases de dados, a saber: teses CAPES 1 , portal Domínio Público 2 , Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações 3 , Revista Brasileira de Educação (RBE) 4 da Associação Nacional de Pós- Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd) e o Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância (ESUD) 5 . Nestas 5 bases, a busca por trabalhos foi segmentada em duas etapas e ocorreu durante o primeiro semestre de 2013. Na primeira etapa, focamos as bases de teses CAPES, a BDTD e o portal Domínio Público. Na etapa seguinte focamos os artigos nas bases de dados da RBE da ANPEd e os anais do ESUD. O escopo de pesquisa ensejado foi delimitado por 5 descritores, isto é, as palavras-chave sendo: mediação, interação, interatividade e ambiente virtual de aprendizagem (AVA), concatenadas com a palavra educação. A busca previa o uso de palavras nos idiomas inglês e português. Os critérios de seleção seguiram a seguinte lógica: a) ser da área da educação, podendo ter especificidade; b) estar dentro do escopo de datas definidas; c) conter as palavras-chave presentes no título ou resumo; e, d) ter os textos completos disponíveis para acesso on-line. De posse desse material, fizemos o cruzamento dos mesmos, para eliminar redundâncias. Essa triagem inicial envolveu a leitura dos títulos e resumos, feita em observância aos citados critérios de seleção. O não atendimento a qualquer um destes critérios implicou no descarte do trabalho da lista de participação na pesquisa. Com essa técnica de revisão sistemática, estabelecemos os critérios básicos de inclusão de trabalhos, resumidos: 1 Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) do Ministério da Educação (MEC). Disponível em: <http://bancodeteses.capes.gov.br/>. 2 Portal Domínio Público. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaPeriodicoFor m.jsp>. 3 Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Disponível em: <http://bdtd.ibict.br/>. 4 Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, e a Revista Brasileira de Educação (RBE) de publicação trimestral da ANPEd. Disponível em: <http://www.anped.org.br/>. 5 Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância (ESUD). Disponível em: <http://www.aunirede.org.br>. 35 a) primeiro momento – realizar a pré-análise das teses selecionadas a partir da leitura do resumo e, em caso de falta de clareza ou dúvida, observar o sumário em busca de indicativos das palavras-chaves; e, b) segundo momento – ler a tese para a identificação e apropriação dos conceitos e objetos, vislumbrando aproximações com nosso objeto de estudo. Finalizada a seleção dos trabalhos, elaboramos uma tabela que informa o nome do autor, ano, título do trabalho e seu objetivo/objeto investigado. Essa tabela que lista todas as teses resultantes deste levantamento consta no Apêndice A, página 244. Antes de prosseguirmos, vale considerar algumas limitações e problemas encontrados nesta fase da investigação. Deparamo-nos com datas divergentes (erradas), retorno de dissertação como tese e duplicidade de registro em uma mesma base, por exemplos. Em caráter meramente supositivo, imaginamos que isso possa ter ocorrido, seja por instabilidade e/ou inconsistência da base, ou mesmo, cadastro errado. Ainda, ponderamos que a base de teses CAPES só apresentou retorno a partir de 2010 e não conseguimos acesso on-line aos anais de 2009 e 2011 do ESUD. No que concerne à RBE e anais ESUD, não houve trabalhos que atendessem aos critérios estabelecidos. Conhecidas as fontes de dados (bases), os procedimentos e as técnicas utilizadas nesta etapa, adentramos às temáticas tratadas e pesquisas que se relacionam com o objeto em estudo. 2.1 AUTORES, PESQUISAS E ESTUDOS BASILARES: RECONHECENDO AS TEMÁTICAS E OS INTERLOCUTORES DA PESQUISA Neste momento é apresentado o resultado do levantamento bibliográfico realizado. Evidenciamos o panorama das pesquisas que se inserem no campo da educação, TDIC/AVA e os trabalhos que se relacionam com nosso objeto de pesquisa. No campo da educação, das TDIC e dos AVA, muitas são as pesquisas e trabalhos que vêm sendo desenvolvidos e que visam, em linhas gerais, a ampliar a mediação dos processos educativos em AVA e a promover maior interação e interatividade nestes espaços. Outros trabalhos e esforços vêm sendo empregados na busca por novas e outras técnicas, métodos 36 e/ou metodologias que facilitem a identificação e, até mesmo, a promoção da aprendizagem em contextos de uso mais intensivo de TDIC. À exceção desses trabalhos, não constatamos quaisquer outros que se dedicassem a abarcar o conjunto dos elementos que tratamos nesta tese. Entretanto, identificamos pesquisas que versam sobre um ou outro elemento em uma perspectiva unitária que, ora buscam alavancá-los, ora buscam desenvolver sistemas informáticos para fazer o monitoramento, substituí-los ou mesmo automatizá-los. Assim, delegam-se as atividades tipicamente humanas aos sistemas informáticos. Por isso, face ao levantamento realizado, esta investigação se insere como ponto importante no momento em que buscou identificar os entendimentos e percepções sobre a mediação, interação e interatividade, e como elas se configuram durante a formação on-line, com ênfase na visão dos alunos. Diante disso, esta tese se propõe a contribuir para a reflexão e compreensão de tais elementos para os processos formativos on-line. Ela poderá ser compreendida também em formações outras que façam uso intensivo de TDIC, sob o viés da teoria sócio-histórica. Ainda, com relação à incipiência das pesquisas que trabalham em conjunto com a mediação, interação e interatividade internas ao AVA, faz-se necessário avançar em análises que permitam melhor entender as diferentes dimensões do processo educacional no sentido de superar o emprego mecânico e pouco eficiente desses ambientes e seus recursos. Além do mais, temos um cenário nacional de crescente oferta de cursos on-line.Reforçando o já dito em parágrafo anterior, a literatura da área traz estudos que têm se voltado para a investigação e a criação de sistemas informáticos que permitam a interação do aluno-professor-tecnologia; porém, muitas vezes de forma a suprimir o papel do professor pela tecnologia empregada. O movimento gira em torno da facilitação da aprendizagem como se esta fosse tão somente um processo complexo que precisasse ser reduzido e simplificado. Essa prática desconsidera que ela decorre de práticas sociais e envolve sujeitos humanos envoltos com toda a sua complexidade. É inegável, pela própria configuração da sociedade atual, expressivamente tecnologizada, que muitas dessas pesquisas levaram a avanços tais quais: criação de ambientes para autoria; a expansão da oferta de cursos on-line; a potencialização dos diálogos síncronos e assíncronos (bate-papo, fórum, comunicador instantâneo, troca de mensagens); a criação de condições de rápida atualização de material didático e a troca de informações, são alguns dos que podemos citar. Estes, agregados nos ambientes virtuais que, tendo como base a 37 internet, permitem a disjunção espaço tempo. Em sua teoria sobre as mídias, Thompson (2008, p. 36) observa que “o advento da telecomunicação trouxe uma disjunção entre o espaço e o tempo no sentido de que o distanciamento espacial não mais implica o distanciamento temporal”. Com base nesse autor, se antes a simultaneidade temporal pressupunha coincidência de localidade, isto é, o compartilhamento do “mesmo lugar em um mesmo tempo”, essa exigência é, assim, trazida pelo desenvolvimento, neste nosso caso, dos recursos de informação e comunicação presentes nos AVA. No entanto, as pesquisas têm privilegiado mais os aspectos técnicos e a eles condicionado as ações humanas. Buscam ou definem padrões e se esquecem um pouco do elemento humano, que é fundamental para o desenvolvimento de qualquer artefato tecnológico ou sistema informático, que, por sua vez, terá uma significação quando incorporado às práticas sociais. Dado o contexto apresentado, acreditamos que o desenvolvimento de pesquisas voltadas para o estudo do conjunto da mediação, interação e interatividade contribua para uma reflexão sobre os cursos on-line, as metodologias e a formação que vem sendo realizada. O desconhecimento e a falta de compreensão precisam ser sanados quanto ao que acontece nos AVA e sob que condições, de forma a contribuir para processos formativos permeados em dinâmicas e estratégias mediativas, interacionais e interativas. Se isso não for feito, corre-se o risco de se subverter a concepção dos AVA e de reduzi-los a repositórios de conteúdos e simples “espaços” para o cumprimento das atividades do curso, de forma que as ações pedagógicas e as trajetórias de formações ali presentes sejam meramente conteudistas e solitárias e desconsiderem a importância das vivências e experimentações pelos sujeitos. Pelo levantamento realizado, identificamos que o panorama das pesquisas que se inserem no campo da educação e TDIC/AVA tem versado sobre questões importantes que permitem olhar o fenômeno educativo on-line em sua complexidade. No universo desses trabalhos temos os que se preocupam da criação e inserção em AVA de recursos informáticos via mecanismos de inteligência artificial com a aplicação de agentes conversacionais animados em Ambiente Virtual foi objeto de estudo de Santos (2009). Neste mesmo segmento, porém focando a interação via o uso de agentes inteligentes em ambiente virtual, para detectar déficits comunicacionais em sujeito com autismo, foi tratado por Rabello (2010). 38 Já Azevedo (2011) abordou o desenvolvimento, uso e experimentação de recursos informáticos, denominado MineraFórum, para auxiliar o professor na análise qualitativa das contribuições textuais registradas por alunos em fóruns de discussão. Costa (2008) investigou as possibilidades de autoria coletiva por meio de recurso tecnológico (EquiText) na formação de professores de língua inglesa. Abegg (2009) investigou o potencial colaborativo mediador das TIC livres, por meio da ferramenta de atividade wiki do Moodle. Kampff (2009) trabalhou a mineração de dados educacionais para geração de alertas em AVA, como apoio à prática docente, identificando comportamentos e características de alunos com risco de evasão ou reprovação. Hornink (2010) dedicou-se à busca por cartografar os caminhos de uso dessas TIC e trabalho colaborativo no uso do ambiente virtual. Longhi (2011) se ocupou do mapeamento de aspectos afetivos por meio de mecanismos computacionais para reconhecimento e inferência de estados de ânimo de alunos em interação em AVA. Mallmann (2008) buscou cartografar a performance do docente no processo de elaboração de materiais didáticos, impressos e hipermidiáticos, e suas implicações na potencialidade da mediação pedagógica em EaD. Conceição (2011) discute a importância da dimensão interativa na relação pedagógica no b-learning. Máximo (2009) analisou a efetividade de feedbacks informatizados sobre a autorregulação da aprendizagem em cursos a distância. Starobinas (2008) analisou estratégias de domínio e apropriação do fórum eletrônico por professores, a partir de interações discursivas, e investigou a forma como essa interlocução contribui para a identificação de sentidos de usos dessa mesma tecnologia na educação escolar. Gozzi (2011) focou as características de mediação docente on-line nos fóruns de discussão desenvolvidos em disciplinas de cursos de pós-graduação em engenharia. Severo (2012) apresentou a especificação, desenvolvimento e aplicação de um sistema de mapeamento de indícios de mediação (E-mediation) por meio de um sistema de mineração de textos em AVEA para o apoio ao processo de mediação pedagógica de professores que desenvolvem atividades vinculadas à EaD, visando reduzir a sobrecarga de trabalho desses via identificação e acompanhamento da evolução das mediações realizadas no ambiente. 39 Vieira (2012) analisou as concepções teóricas e crenças de professores de língua inglesa sobre ensino mediado por tecnologias e verificou como estas interagem na reconstrução da prática docente a partir das orientações dos cursos vinculados ao Programa Proinfo Integrado. Oliveira (2011) analisou a lógica do consumo na sociedade contemporânea e sua influência na mediação do professor no processo de formação do pensamento infantil. Jucá (2011) avaliou as potencialidades de um AVA no desenvolvimento de um curso a distância de Construções Geométricas, com o professor exercendo sua função mediadora seguindo as orientações da Sequência Fedathi. Losso (2012) investigou as circunstâncias e condições necessárias para que se processem as mediações nas situações de ensino (processo de ensino) que potencializem para o(a) aluno(a) a aprendizagem do conteúdo que responda mais adequadamente à complexidade da EJA. Lopes (2012) analisou que estratégias de mediação, na sala de aula, puderam ser desenvolvidas pelo professor de Matemática, no estudo de Funções, a partir do uso de objetos de aprendizagem acessíveis com alunos do Ensino Médio, entre os quais se encontram incluídos alunos com deficiência visual. Por fim, Espírito Santo (2010) buscou analisar a mediação pedagógica na educação teológica na modalidade a distância, a partir de três ferramentas básicas de um ambiente virtual: os textos em PDF com os conteúdos (web aulas), as vídeo-aulas e as atividades de aprendizagem. Com exceção dos trabalhos datados de 2008, inseridos porque foram estudados em disciplinas durante o doutorado ou muito referenciados, os estudos e autores supracitados constituem um recorte dos trabalhos compreendidos de 2009 a 2012, compondo o panorama da educação e TDIC/AVA. São trabalhos de caráter mais ou menos abrangente quando, em primeiro, buscam cartografar os caminhosde uso dessas TIC (HORNINK, 2010) e, em segundo, mais peculiar, quando da particularidade do estudo como a questão da interação e autismo (RABELLO, 2010), por exemplos. Mesmo não tendo encontrado trabalhos que abordem o conjunto dos elementos em tela nesta investigação, buscamos identificar as pesquisas que pudessem, de alguma maneira, correlacionar-se mais de perto com nosso objeto de pesquisa. Assim, vimos trabalhos como Nicolodi (2012) que buscou compreender como são desenvolvidas as práticas e os processos 40 de mediação pedagógica em contextos formativos na modalidade EaD, que utilizam as tecnologias digitais. Outra pesquisa foi a de Almeida (2012), que analisou a mediação docente em dois cursos de formação superior a distância: Licenciatura em Pedagogia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), vinculado ao Sistema Universidade Aberta do Brasil e Licenciatura em Ciências da Educação na Universidade Aberta (UAb), sediada em Portugal. Com base na investigação de um curso, ao focar a mediação pedagógica na EaD, Rangel (2009) observou que o processo de arritmia entre a mediação, a aprendizagem e os letramentos, apontado pelo sintoma da falta de tempo, foi originado por concepções teóricas fragmentadas e não sistêmicas, e se constituiu um importante fator de exclusão em relação às práticas sociais de produção do conhecimento. Ao abordar a área da educomunicação, Consani (2008) fez um amplo levantamento do sentido e significado da Mediação Tecnológica na Educação (MTE), visando aclarar seu entendimento a partir da análise histórica, etimológica e linguístico pragmática sobre os usos correntes desta expressão. Com enfoque na interação, Costa (2012) averiguou as tipologias de interação entre os interlocutores aluno-aluno, aluno-tutor e aluno-discurso do processo de ensino por meio dos discursos postados nos fóruns realizados no AVA Moodle. No que tange a interatividade, Ferreira (2008) buscou definir a interatividade educativa lançando sobre ela uma visão pedagógica, quanto da oferta de conteúdos curriculares se deu em mídia digital e submeteu o modelo a uma ação pedagógica, intentando validá-lo. Tendo as pesquisas supracitadas, criamos um quadro resumo que apresenta: o nome do autor, ano, título e objeto/objetivos investigados. Este quadro pode ser visto no Apêndice A. Cumpre destacar que às pesquisas apresentadas, resultante do levantamento realizado, outros autores e trabalhos foram adicionados e que, juntos compõem nosso estofo teórico. Adicionalmente temos os trabalhos de Lopes e Schiel (2004), Mercado (2007), Machado e Teruya (2009) que, em linhas gerais, desenvolveram suas pesquisas tendo o acompanhamento diário dos alunos como percepção de aprendizagem. Em relação à modelagem e implementação de ferramenta para mapeamento de interações em AVA, destacamos o trabalho de Bassani (2006). Em adição, temos duas autoras que somam para as discussões neste trabalho são a PESCE (2007) com seu viés sobre o trabalho feito pelo tutor no qual traz a compreensão deste 41 profissional como um executor de script alheio, isso subsidia nosso olhar sobre os achados referentes aos tutores dos cursos. Oura autora é a Hoffmann (1994), que trata da avaliação mediadora a qual observa que este tipo de avaliação tem base em um modelo que se sustenta pelo diálogo, e da aproximação entre professor e aluno. Essa autora contribui para olharmos os achados da pesquisa no que tange às atividades realizadas nos respectivos cursos investigados. Acrescenta-se ainda, Rancière (2002) que põe em reflexão o papel do professor enquanto mestre explicador e mestre ignorante que fundamentou nosso investida sobre os achados no que tange aos professores e tutores dos cursos. Voltando nosso olhar para a mediação, fundamentamo-nos na teoria sócio-histórica de Vygotsky (1996, 1991, 2000, 2002). Porém, com o intuito de aprofundar e ou ampliar os conhecimentos e desdobramentos que se fundam ou referenciam o trabalho de Vygotsky, consultamos outros autores, como: Berger e Luckmann (2005), Rabello e Passos (2013), Martins e Moser (2012), Oliveira (2002), De La Taille, Oliveira e Dantas (1992), Guimarães e Mendonça (2013), Martins e Rabatini (2011), Peixoto e Araújo (2012), Peixoto e Carvalho (2011), Wang (2008) e Ross (2008). Para tratarmos da interação, na interface com os recursos tecnológicos e com o outro social, e buscando observá-las nos ambientes formativos on-line, respaldamo-nos em Primo (2000, 2007), Franco (2010), Belloni (1999), Anderson (2003) e Valle e Bohadana (2009). Sobre a interatividade, dado à sua complexidade conceitual e ao emprego elástico que configura certa imprecisão conceitual, apoiamo-nos em Silva (2001), Valle e Bohadana (2012a), Monteiro, Ribeiro e Struchiner (2007), Morais (2010), Schettino (2008), Lévy (1994), Freitas e Dutra (2009) e Belloni (1999, 2002). Além desses autores, buscamos ainda os significados dicionarizados em Aurélio (FERREIRA, 2005) e Houaiss (HOUAISS, 2009). Diante do exposto, cumpre ressaltar que esses trabalhos e autores permitiu-nos conhecer e aprofundar na compreensão da mediação, interação e interatividade no âmbito da educação. Ademais, ressaltamos que valemo-nos deles para: caracterizar o panorama das pesquisas que se inserem no campo da educação e TDIC/AVA; delimitar o recorte de nosso objeto de pesquisa e escopo; identificar possíveis pesquisas correlatas; e, definir e apresentar as perspectivas e vieses que vislumbramos para a consecução desta investigação. Por fim, adiciona-se que esses trabalhos constituem nosso referencial bibliográfico, os quais vieram somar-se aos elementos de reflexão sobre os conceitos tratados nesta tese, e 42 embasar as leituras e diálogos com os achados da pesquisa com o intuito de produção de conhecimento. Diante disso, damos continuidade à pesquisa com a apresentação dos conceitos centrais sobre os elementos desta tese. 43 3 TRABALHANDO CONCEITOS Neste capítulo trazemos uma explanação de alguns conceitos importantes à tese. Em seguida, em seus subtópicos, abordamos a mediação, interação e interatividade, termos que serviram de base para a constituição desta investigação. Vale ressaltar que tais conceitos foram reunidos, de forma condensada, captando as considerações necessárias para compreendê-los em contextos de formação on-line. A afiliação teórica desta tese está embasada na teoria histórico-cultural (ou sócio- histórica) de Vygotsky, a partir da qual fizemos o constructo teórico primordial à compreensão do objeto de investigação em tela. Na tentativa de clarificar o entendimento sobre os elementos referenciados, buscamos os aportes teóricos mais relevantes à investigação, já que abordá-los, em contexto educacional mediatizado por TDIC, pode evidenciar aspectos de como se caracterizam e como são operacionalizados e, com isso, fortalecer os desvelamentos dos entendimentos e percepções dos sujeitos durante as trajetórias de formação. Ao longo da história, o ser-humano tem criado formas de se relacionar com o mundo, individual ou coletivamente, configurando maneiras outras para o convívio social e a intervenção no e com o meio. E, para isso, muitos têm sido os instrumentos, as formas e as ações estabelecidas ao longo de sua vida, não se restringindo a fatores biológicos e nem a sociais. Nesse movimento evolutivo, o que tem chamado a atenção de muitos pesquisadores são as ações que eles podem desenvolver, seja na relação com o outro, consigo próprio, ou com o meio que o circunda e, também, como se desenvolvem. Estabelecendo um paralelo com a sociedade contemporânea, esse movimento evolutivo conduziu a um acelerado desenvolvimento tecnológico iniciado, mais especificamente, no pós-segunda guerra. A esse avanço que tem sido sinônimo de muitas conquistas e bem-estar social, sucede no que hoje compreendemos comoas TDIC, que passaram a oferecer uma infinidade de suporte e serviços que não se restringem puramente ao texto, ao contrário, excedem-no nas mais diversas formas e meios de expressão da informação e manifestação de 44 atos comunicativos. O campo da comunicação, particularmente o da humana, vem ganhando inúmeras possibilidades de expressões em uma pluralidade de outros formatos (verbais e não verbais), o que tem potencializado e consolidado processos mais interativos. Além disso, essas mesmas tecnologias não só têm possibilitado superar algumas limitações espaciais e temporais como têm transformado consideravelmente a dinâmica da sociedade. Ao amplificar as possibilidades comunicacionais, apregoando maior mediação, interação e interatividade, essas tecnologias têm possibilitado o estabelecimento de diferentes tipos de relações (das pessoas entre si, consigo próprias e das pessoas com as tecnologias), que se configuram de maneira cada vez mais complexa e naturalizada. Essa realidade nos permite entrever o que é factível na sociedade contemporânea, pois as nossas relações com o mundo e com o espaço que nos circunda mudaram quantitativa e qualitativamente. Com a educação e os espaços escolares não foi diferente. O grande gargalo para a educação tem sido a controversa tentativa da negação de que o ato comunicativo, até então polarizado entre professores-emissores e alunos-receptores, exige trocas e alternâncias, num processo dialógico por essência (MORAES, 2006). A todo momento o conhecimento tem sido questionado, negado, revisitado e colocado em xeque. Há demasiado preciosismo nos discursos de determinados professores e pesquisadores quando se fala em processos comunicativos dialógicos posto herança cristalizada daquilo que se denominou, durante muito tempo, como unidades distintas, polos emissores e receptores, ocupados por sujeitos distintos, competindo aos professores o “dom” da fala e aos alunos a “obscuridão e mudez” traduzida em ouvir. Se não está autorizado o feedback interativo, o ato de ouvir não permite interação, mas a aceitação imposta de olhares muitas vezes míopes, monoangulares e mutiladores, em razão da prevalência do olhar daquele que detém o ato da fala com sua carga sociocultural. A herança acima descrita está centrada em um modelo explicador, contrário à atividade educacional que se queira fundamentada puramente em ações comunicativas, em interlocuções entre os partícipes, em negociações entre professores e alunos (RANCIÈRE, 2002). O contexto educativo atual, com ênfase no on-line, ainda tem demandado e reforçado uma formação instrumental. Isso faz com que muitos dos obstáculos e desafios sejam recorrentes, impondo a necessidade de romper com o modelo vigente de escola e de se contrapor à hierarquização de saberes, eleição de fontes únicas de informação e entendimento reducionista de comunicação como via de sentido único (SIBILIA, 2012). 45 Entretanto, histórica e culturalmente o modelo de escola tem sido pautado em métodos explicativos nos quais o professor se concebe como mestre explicador (RANCIÈRE, 2002). Rancière (2002) põe em reflexão o papel do mestre [professor] dentro do processo de educação. Segundo ele a escola perpetua uma relação hierárquica que conserva a existência de um mestre explicador, viés pelo qual se anuncia, portanto, a desigualdade “intelectual” entre os sujeitos. Para superar este modelo, vislumbra-se outro em que a função do mestre é de um incentivador, emancipador. Neste outro modelo, o professor assume a postura do mestre ignorante, portanto, emancipador. É ele quem vai ‘libertar’ o aluno da dependência do mestre explicador [sábio] com suas explicações ‘externas’, repetidoras e reprodutivas do que se encontra nos livros (RANCIÈRE, 2002). Esta concepção do papel do professor não pode ser compatibilizada com aquela proposta pela teoria sócio-histórica, senão por aqueles formações contrárias que, ao invés de se buscar desenvolvimento da autonomia do aluno; se prestem às formações instrumentais. Importa entender que, diante dessa postura divergente entre o mestre explicador e o mestre ignorante, subjaz sua relação com o objeto de estudo (a ser estudado pelo aluno). Na visão de Rancière (2002) é dispensável para o aprendizado e supérfluo para a educação o método explicador (que polariza antagonicamente professor e aluno), pois não haveria necessidade de explicações exteriores ao que já está explicado em um livro (analogamente o material didático), por exemplo. Explicar, questionar, exemplificar e esclarecer qualquer dúvida pode, em um primeiro momento, parecer positivo; entretanto, a postura do mestre explicador traz consigo muitos problemas como a acomodação do raciocínio dos alunos. O aluno pode ser levado a se acostumar com a presença do professor explicador que sempre explica o explicado e guia-o às respostas (entendamos aqui as possíveis mesmas respostas encontradas, conhecidas ou esperadas pelo professor). Outro problema é o professor explicador passar a nem mais exercer a explicação, mas sim, fornecer informação (op. cit.). Além destes, é que a “terceirização” da explicação sobre o objeto de conhecimento pelo aluno tende a conduzir a grandes dificuldades quando o aluno estiver estudando sozinho. Rancière (2002) mostra que esse mesmo fato não ocorreria com o mestre (professor) ignorante já que ele, por ser um mestre emancipador, acredita nas igualdades das inteligências e, portanto, dispensa tais explicações, permitindo ao aluno o raciocínio por si próprio. Importante entender neste autor que o mestre ignorante não ignora o que o aluno deve aprender, mas que ignora a “desigualdade de inteligência”, isto é, não a hierarquiza. Esta 46 postura cria um ambiente no qual o professor pode aprender com o aluno e se observa a reciprocidade do conhecimento. Assim, ao observar que o mestre explicador é dispensável para o aprendizado, a educação, o autor defende a ideia de que este mestre se coloque como emancipador disposto a alimentar a curiosidade do aluno e o guia para, e onde buscá-la. Ainda, valorizar a inserção de ideias novas e à criação/construção de recíproca de conhecimento. A emancipação dos indivíduos deve [...] ser pensada em um esquema [...] no qual a vontade seja, não deixada de lado, para que se estabeleça a “pura” relação entre inteligências, mas, pelo contrário, se reconheça como tal, se declare como tal, isso é, se declare ignorante. O que é um mestre ignorante? É um mestre que não transmite seu saber e também não é o guia que leva o aluno ao bom caminho, que é puramente vontade, que diz à vontade que se encontra a sua frente para buscar seu caminho e, portanto, para exercer sozinha sua inteligência, na busca desse caminho. (VERMEREN; CORNU e BENVENUTO, 2003, p. 188) Com o despertar da consciência sobre a necessidade de romper com o modelo atual de escola como o esgotamento deste modelo pautado no método explicador, abre-se espaço para se pensar e refletir sobre a importância dos processos comunicativos dialógicos para o desenvolvimento humano, aqui aqueles que se apoiam nas TDIC e AVA. Hodiernamente estas tecnologias estão presentes em nossa vida. Nesse movimento, elas adentram os processos formativos. Assim, é fundamental compreender como elas têm se colocado de forma simbiótica em nosso cotidiano e ganhado cada vez mais força no âmbito da EaD on-line. A EaD on-line com o uso de modernas tecnologias, em sua essência, poderia ser vista não como alternativa que elimina a presença do professor e dos alunos em sala de aula, conduzindo mesmo para transformar o papel do professor em algo dispensável, substituível pelas características técnicas apregoadas sobre os recursos tecnológicos como os AVA. Mas, pelo contrário, talvez o potencial desta formação esteja justamente na possibilidade de rever e experimentar modelos emetodologias educacionais para um fazer docente que promova a superação do método explicador e do aluno dependente. Talvez estes sejam alguns dos grandes pontos positivos das tecnologias, uma vez que elas permitem descentralizar o ‘centro do saber’ e dão condições para saberes e fazeres instituídos em sistemas de colaboração e cooperação, viés pelo qual tem-se condições de se compatibilizar com a teoria sócio-histórica. Para esta finalidade, no que tange aos aparatos tecnológicos, as condições necessárias para suplantar o modelo explicador estão postas. Na esfera dos cursos investigados, todos eles 47 são realizados por meio do ambiente virtual Moodle. Segundo Almeida (2003, p. 338) “ambientes virtuais de aprendizagem são sistemas de gerenciamento e cursos on-line que facilitam a criação de um ambiente educacional colaborativo, baseado em interface web”. Neste segmento, Schlemmer (2005) traz que os AVA são “softwares desenvolvidos para o gerenciamento da aprendizagem via web. São sistemas que sintetizam a funcionalidade de software para Comunicação Mediada por Computador (CMC) e métodos de entrega de material de cursos on-line” (idem, p. 34). No universo dos AVA, o Moodle se insere no campo daqueles que são concebidos, desenvolvidos, classificados e distribuídos dentro da filosofia do software livre. Software livre é um conceito muito caro à área da computação e significa dizer que o código-fonte de um programa fica disponível para qualquer um, que poderá adequá-lo às suas necessidades, sem caracterizar violação de direitos nem tampouco ter algum custo com pagamento de licença. O Moodle é um sistema de gerenciamento de aprendizagem (LMS – Learning Management System) ou Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). A depender do autor, outras terminologias como Course Management System (CMS), Sistemas de Gerenciamento de Aprendizagem (SGA) ou Learning Management System (LMS), Virtual Learning Environment (VLE) e Ambientes Digitais de Aprendizagem (ADA) podem ser usadas como sinônimo de AVA. Porém, nesta investigação adotamos o termo AVA com base nas complementaridades dos conceitos de Almeida (2003) e Schlemmer (2005) citados. O Moodle é um ambiente que vem se solidificando como sistema de gestão de cursos virtuais e sendo consideravelmente adotado por instituições educacionais, caso este da UFMT. Nesses “espaços” educação e tecnologias são dimensões indissociáveis. Ao se focar a EaD on-line buscamos olhar para esta realidade complexa que não pode ser compreendida senão por seus entrelaçamentos e complementaridade. Enquanto uma dimensão da atividade social, também a educação tem cada vez mais integrado tecnologias que alteram profundamente as formas de ensinar e aprender. Não obstante, essas tecnologias, como meios para as ações pedagógicas e de aproximar professores e alunos, dando-lhes condições para o compartilhamento de saberes e construção de conhecimento. Em seguida, dá-se um salto qualitativo no que tange ao uso das tecnologias e ambientes virtuais, com a diversificação dos materiais pedagógicos e a experimentação de outras e novas metodologias. No âmbito da formação on-line fazemos referência à EaD on-line enquanto um fenômeno que pode ser entendido como oriundo da longa trajetória de evolução da Educação 48 a Distância (EaD), mais especificamente com de TDIC e AVA, e de uma pluralidade de serviços e recursos da internet. Sua origem pode ser entendida a partir da evolução da EaD, sua antecessora, que tornou-se fértil campo de experimentações de metodologias didático- pedagógicas. Na busca de tratar do conceito de educação on-line, sem discordar ou ignorar que esta tenha se originado da evolução da EaD, Edméa Santos (2005, p. 106, 143, 290), observa que ela não trata apenas dessas evoluções, mas é sim, “[...] um evento da cibercultura [...] e uma das principais características é a flexibilidade do tempo de estudo e interatividade entre os participantes e destes com os conteúdos de aprendizagem”. E complementa dizendo que ela é um “conjunto de ações de ensino e aprendizagem ou atos de currículo mediados por interfaces digitais que potencializam práticas comunicacionais interativas e hipertextuais” (SANTOS, 2010, p. 29). Ao ampliar o entendimento sobre a educação on-line como um fenômeno da cibercultura, Edméa Santos concebe-a observando que ela vem [...] promovendo novas possibilidades de socialização e aprendizagem (...) é a cultura contemporânea estruturada pelas tecnologias digitais. Não é uma utopia, é o presente; vivemos a cibercultura, seja como autores e atores incluídos no acesso e uso criativo das tecnologias de informação e comunicação. (SANTOS, 2010, p. 29) Já para Moran (2003, p. 40), a educação on-line é o “[...] conjunto de ações de ensino- aprendizagem desenvolvidas por meios telemáticos, como a internet, a vídeoconferência e a teleconferência”. Na atualidade, os meios telemáticos mais expressivos para as ações docentes são os AVA, porque congregam uma pluralidade diversificada de meios para expressão e veiculação da linguagem em seus diversos formatos. Se pegarmos os ambientes virtuais como elemento unificador dos conceitos de educação on-line e a distância que expressa o fenômeno da cibercultura, seria possível também inserir a EaD on-line na cibercultura. Como processos educativos, ambas são práticas sociais e culturais que se manifestam em meios digitais. Pelo exposto, registramos que nesta investigação optou-se pela denominação de EaD on-line como termo mais adequado para se referir ao contexto dos cursos investigados. Por consequência, os cursos realizados neste formato foram denominados de cursos on-line. Entendemos que, considerando a realidade social cada vez mais atravessada por TDIC, essa denominação abarca, assim, os processos formativos que se fazem mais “virtualizados”, no sentido da relativização e disjunção tempo-espaço, em que os encontros entre os professores e 49 alunos preponderantemente não ocorrem face a face, mas apoiados pelo uso cada vez mais intensivo destas tecnologias, e os compreendem como fenômenos inerentes à cibercultura (SANTOS, 2005). Nesta linha de raciocínio, a EaD com formação on-line, vem sendo promovida por ações governamentais que intensificaram as políticas educacionais na ampliação e expansão de vagas no ensino superior, constante das orientações da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, promulgada em 1996. A EaD configura-se assim como uma das estratégias de grande intensidade de promoção do ensino superior. O Decreto-lei n.º 5.622, de 19 de dezembro de 2005, no parágrafo 1º, caracteriza a EaD como [...] modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos. (BRASIL, 2005, grifo nosso) A própria legislação da EaD já chama a atenção para processos educativos com o aporte das tecnologias como possibilitadoras da mediação didático-pedagógica. Estendendo este entendimento à UAB, um programa do governo federal, a EaD, com o uso de TDIC, se transveste em educação on-line e se realiza através de estrutura logística e organizacional que conta com estrutura física para os polos de apoio, professores e tutorias, coordenações de conteúdos e mídias, entre outros. Dentre os objetivos do sistema UAB constantes no Decreto- lei nº 5.800, de 8 de junho de 2006, em seu Art. 1 parágrafo, destacamos aquele que visa ampliar o acesso à educação superior pública e reduzir as desigualdades de oferta de ensino superior entre as diferentes regiões do país (BRASIL, 2006), em regime de colaboração com os municípios, o que pode levar à promoção do desenvolvimento socioeducacional no país. Como a legislação em vigor trata de modalidadeeducacional como o emprego de recursos informáticos para a mediação didático-pedagógica, urge pensar sobre a promessa para que se vislumbre alcançar a melhora da mediação, interação e interatividade. Portanto, ao direcionarmos nossa reflexão sobre esses elementos, vimos que a educação on-line tem aderido a outros termos, até então restritos à área de informática. Alguns discursos mais entusiasmados têm adotado termos desta área sem buscar entender seu conceito e desmitificar seu emprego. Isso decorre de uma visão simplista de que tais termos pertencem ao campo da tecnologia educacional como é o caso do termo interatividade, tratado mais adiante. 50 No campo da tecnologia educacional, têm perseverado alguns discursos modistas afirmando que, com a aquisição de determinada tecnologia, dita nova, ao processo educativo estará assegurado maior interação e mais interatividade. Tais afirmações surgem como palavras de ordem nos meios educacionais e aparecem como a promessa de ideal comunicativo. Além disso, há os discursos mais tecnofílicos apregoando que a mediação da aprendizagem se torna alcançável tão somente por meio da própria tecnologia. Na teoria sócio-histórica, a concepção de sujeito é oriunda da ideia de que este constrói o seu conhecimento por meio de um processo relacional e da interação social, no decurso da história, em meio a uma cultura e sociedade. A teoria sócio-histórica enxerga, portanto, a importância da interação do sujeito com o meio e com outros sujeitos. Sujeito este dotado de uma postura ativa e interativa que age sobre a realidade. Garantir uma educação com qualidade, eis o desafio que a EaD on-line traz para o processo educativo. Para o alcance dessa meta, é fundamental garantir que a mediação vá além de meras respostas às dúvidas dos alunos e que extrapole a ideia pura de autoestudo, autodidatismo e trabalho solitário, este último muitas vezes dissimulado pela autonomia. Na verdade é preciso considerar as individualidades dos alunos e dar, de fato, a atenção necessária para o desenvolvimento dos estudos de forma autônoma e independente sem, no entanto, ser solitária. Simplesmente responder a dúvidas dos alunos não condiz com as trocas e interações que são os pontos principais de qualquer ato comunicativo-dialógico. O ato comunicativo dialógico só irá permitir a interatividade entre os sujeitos que fazem uso das tecnologias e que interagem por meio delas, se houver o entendimento de dois pontos importantes: polos emissores e receptores hierarquizados na comunicação não existem; e, perguntas e respostas devem estabelecer conexões (relações) permanentes entre os interagentes. Um discurso tem como característica a não linearidade, pois a todo momento se reconfigura e se reconecta, estabelecendo conexões entre cada um dos sujeitos diante das diversas ocorrências comunicativas. O diálogo requer então pelo menos dois sujeitos que participam e colaboram para a manutenção da comunicação e construção de entendimentos partilhados, muitas vezes não únicos, mas comuns. Dito de outra forma, os interagentes irão sistematizar ideias, conceitos e conhecimentos partilhados por meio das interfaces tecnológicas sem polarização e delimitação de emissores e receptores. 51 É com base neste entendimento e pela perspectiva da teoria sócio-histórica que agregamos o termo e o conceito de interatividade aos de mediação e interação para comporem o conjunto da tríade, a qual denominamos de elementos sócio-históricos da formação on-line. Falar em interatividade é reconhecer o potencial comunicacional possibilitado pelo avanço tecnológico em que a comunicação é percebida pelos seus desdobramentos pelos quais coexista a co-criação da mensagem (SILVA, 2001 e VALLE; BOHADANA, 2012ab). Adiante, cada um desses termos será tratado em tópico específico. Antes, porém, é importante salientar nossa trajetória conceitual sobre a mediação, interação e interatividade. Por questões organizacionais e didáticas da pesquisa, partiremos dos significados dicionarizados dos termos para, em seguida, nos debruçarmos sobre os conceitos e entendimentos abordados pelos autores que tratam dos respectivos termos. Em um terceiro momento, será feito um apanhado sobre os elementos, quando serão firmadas as bases e feita a delimitação de nossa perspectiva sobre eles. O que temos buscado com estes conceitos e abordagens é, portanto, estabelecer os pontos de contatos existentes entre a mediação, interação e interatividade. Assim, neste momento interessou-nos os pontos de contatos são as aproximações ou as instâncias comuns observadas, que nos permitiram compreender que eles não ocorrem de maneira separada, como pode transparecer no momento em que os significados dicionarizados e as perspectivas conceituais dos autores são apresentados. Ainda que cada qual possa ser tomado isoladamente, o que nos importa é ver que suas aproximações e instâncias comuns é que fazem com que se perceba o sistema complexo de processos autoconstrutivos e autodependentes que eles envolvem, e em que a ocorrência de um é a base e condição que leva a ocorrência do outro. Aqui fazemos uma pausa para a introdução e esclarecimentos sobre os tópicos tratados na sequência, sobre a mediação, interação e interatividade. Para tratar da mediação buscamos compreendê-la partindo da teoria sócio-histórica elaborada por Vygotsky. Sua origem remonta ao período da Rússia pós-revolucionária quando, naquele momento, as bases dos desenvolvimentos científicos estavam sustentadas pela filosofia marxista. Dentre as grandes preocupações de Vygotsky e das várias áreas do conhecimento humano que ele abordou ao longo de sua vida, diga-se de passagem, curta, este autor se preocupou com a psicologia do desenvolvimento humano, uma vez que, como outros pesquisadores da época, via-se insatisfeito com as teorias de até então. Sua proposta foi a de elaborar uma “nova psicologia” que, assim, unisse as duas correntes vigentes, a empirista e a 52 idealista. Nesta empreitada Vygotsky não esteve sozinho, contou com outros colaboradores como Luria e Leontiev. A teoria sócio-histórica ou histórico-cultural (entre outras denominações que pode receber, a depender do autor ou vertente epistemológica) tratou do desenvolvimento humano enquanto um processo de conhecimento sócio-histórico-cultural. Ao se focar nas características tipicamente humanas, Vygotsky define, portanto, as funções psicológicas superiores, a exemplo, a capacidade de planejamento, memória voluntária, imaginação, etc. Sendo assim, Vygotsky entende o processo de desenvolvimento humano como resultado do “contato” do sujeito com o meio e com os ‘outros’ sociais. Esses ‘outros’ seriam, portanto, responsáveis pela inserção destes indivíduos na sociedade que, assim, se daria pelo ‘outro’. Para tanto, o sujeito dependeria das relações sociais. Para Vygotsky as relações nunca se dão de maneira direta, mas sim mediadas. Portanto, um conceito caro em Vygotsky ao falar do desenvolvimento humano, em sua teoria, é o conceito de mediação. Ele vai identificar, assim, dois elementos mediadores, os instrumentos e os signos. Enquanto os instrumentos permitem a relação do sujeito com o mundo exterior, isto é, são relações exteriorizadas, os signos de maneira semelhante aos instrumentos, operariam internamente. Vygotsky atribui grande importância aos signos que encontra na linguagem (língua) sua ‘materialização’ por meio das palavras. Os signos medeiam o próprio pensamento do homem dos quais decorrem os conceitos. Mas como esses sentidos são construídos? Segundo Vygotsky as relações dos indivíduos são mediadas sócio-histórica e culturalmente pelo ‘outro’, isto é, é na interação com o ‘outro’ então, mais experiente, que se encarregará de fazer sua inserção social e, assim, de estabelecer significações. Para tanto, Vygotsky insere outro conceito,o de interação social. Dessa forma, estas relações do sujeito são, em essência, relações sociais. Importa-nos pensar que, nesta perspectiva da abordagem sócio-histórica onde há a interposição seja dos instrumentos e signos, os elementos mediadores, e, ainda, pensando nas relações que se sustentam em relações sociais, podemos entender as relações formativas como relações mediadas. Os sujeitos mais experientes poderiam ser entendidos, em contextos de formação on-line, pelos professores e tutores e, as tecnologias, bases para os processos, os instrumentos, excluímos aqui o viés tecnicista. Logo, põe-se em rota de incompatibilidade a perspectiva de Rancière (2002) pela qual não se considera a participação-intervenção deste sujeito mais experiente atuando como mediador com sua bagagem sócio-histórica-cultural. 53 Na sociedade atual, essas tecnologias são, portanto, artefatos e meios com os quais se estabelecem as relações sociais via interações sociais. A interação aqui tratada compactua com as ideias inseridas por Vygotsky, em complementação com as de outros autores, como trazemos mais adiante. Ademais, insistimos que o conceito de interatividade, pelo viés da teoria sócio-histórica vem em adendo, uma vez que é um tipo de interação que recobra a presença de atores humanos em relação na co-criação da mensagem. Porém, com aspecto particular tendo em vista que é um conceito que tem se mantido atrelado às TDIC e a área de comunicação. Diante desse preâmbulo, finalizamos por dizer que nosso objetivo é o de abordar os conceitos em uma perspectiva genérica no sentido de não limitar qualquer compreensão, mas de dar subsídios para refleti-los de acordo com os entendimentos e percepções que foram desvelados pelos achados. Dito isso, prossigamos com a compreensão da mediação. 3.1 MEDIAÇÃO: UNIVERSO INSTRUMENTAL E SIMBÓLICO Para falarmos em mediação, comecemos pelo seu significado dicionarizado. Segundo o Aurélio (FERREIRA, 2005), mediação é um verbete que está classificado como substantivo feminino, derivado do latim tardio mediatione. Para tanto, a palavra mediação traz algumas acepções, dentre as quais destacamos as seguintes: 1. Ato ou efeito de mediar; 2. intervenção, intercessão, intermédio; 3. relação que se estabelece entre duas coisas, ou pessoas, ou conceitos, etc., por meio de uma terceira coisa, ou pessoa, ou conceito, etc. O sentido dicionarizado do termo faz referência a algo que se interpõe entre duas partes, dois objetos ou mesmo pessoas e conceitos. Esse algo, além de coordenar pessoas, coisas, conhecimentos, correlaciona-os. Ele permite, ainda, às partes, sua ligação, união, junção, associação, isto é, permite a relação entre essas partes. Com base nas respectivas acepções supracitadas, partindo do ato ou efeito de mediar, passando pela intervenção (intermediação) e chegando à relação que se estabelece entre duas 54 coisas, pessoas ou conceitos por meio de uma terceira coisa, pessoa ou conceito, somos conduzidos a entender a mediação com base na teoria sócio-histórica, que tem como precursor Lev Semionovich Vygotsky. Entretanto, para sua compreensão, é necessário, antes de tudo, considerar o contexto em que suas obras foram produzidas, uma vez que elas refletem o ambiente intelectual e a atmosfera do período pós-revolucionário na Rússia de 1917, que tem como base filosófica o Marxismo (FICHTNER, 2009). Neste contexto, Vygotsky trabalhava numa sociedade onde a ciência era extremamente valorizada e da qual se esperavam soluções para os prementes problemas sociais e econômicos do povo russo. A psicologia e a pedagogia não poderiam ser elaboradas independentemente das demandas práticas postas por estas exigências, quer porque formuladas pelos próprios pesquisadores quer porque demandadas (e muito brevemente impostas) pelo governo. O amplo espectro da obra de Vygotsky mostra, claramente, a sua preocupação em produzir uma ciência, que tivesse relevância para as diferentes áreas da prática social. Essa necessidade de desenvolver um trabalho teórico aplicado a um contexto social levou Vygotsky, a uma abordagem sempre relacionada à uma prática social. (Idem, p. 2) Vygotsky é um autor que tratou de temas diversos que perpassam da neuropsicologia até a crítica literária; ocupou-se também de problemas de deficiências, linguagem, arte, psicologia de arte, com questões de semiótica do cinema, com pedagogia e psicologia, com questões teóricas e metodológicas relativas às ciências humanas (FICHTNER, 2009). Nesse ambiente de demandas práticas exigidas, a psicologia e a pedagogia (pedologia) não poderiam ser elaboradas independentes. Houve, portanto, um estreitamento dos vínculos entre essas ciências. A psicologia russa da época se situava em duas vertentes distintas, de um lado a empirista preocupada com a descrição das habilidades mecanicamente constituídas e, de outro, a idealista, que se propunha a descrever os fenômenos do psiquismo humano. Dentre os pesquisadores da época, Vygotsky era um dos que viam a insuficiência dessas correntes para explicar os processos psicológicos humanos, especialmente quando são considerados numa perspectiva social e histórica. Através da aplicação dos métodos e princípios do materialismo dialético para a compreensão do aspecto intelectual humano, Vygotsky acreditava que seria possível criar uma "nova psicologia" que sintetizasse e transformasse as abordagens empiristas e idealistas. Assim, de maneira mais abrangente, não somente descrever, mas também, explicitar as funções psicológicas superiores (REGO, 1995, p. 28-29). No entanto, dado à ousadia de seu intento, Vygotsky não se encontrava sozinho. 55 Essa grande "empreitada intelectual" contava com a participação de talentosos pesquisadores, dentre eles, Alexander Romanovich Luria (1902- 1977) e Alexei Nikolaievich Leontiev (1904-1979), principais colaboradores de Vygotsky e que o acompanharam até a sua morte, uma década mais tarde. (REGO, 1995, p. 29) Nessa atmosfera de renovação e transformação da sociedade russa da época, preocupado em buscar respostas concretas para os problemas colocados pela psicologia da época, Vygotsky desenvolve a teoria sócio-histórica (ROSA; ROSA, 2004). As bases desta teoria são, portanto, “caracterizar os aspectos tipicamente humanos do comportamento e elaborar hipóteses de como essas características se formaram ao longo da história humana e de como se desenvolvem durante a vida de um indivíduo” (VYGOTSKY, 1991, p. 17). Vygotsky vai considerar o ser humano como um sujeito da sua vida e ao mesmo tempo como um processo social, cultural e histórico (FICHTNER, p. 5, 2009). O projeto principal de seu trabalho consistia na tentativa de estudar os processos de transformação do desenvolvimento humano. Segundo Fichtner (2009, p. 4), a “abordagem histórico-cultural pode ser compreendida como uma tentativa complexa de determinar o que é o sujeito no seu contexto social”. Tendo isso como foco, Vygotsky diferencia funções psíquicas elementares e superiores. Deteve-se no estudo das funções psicológicas superiores (REGO, 1995, p. 24) que, diferentes dos processos psicológicos elementares (presentes na criança pequena e nos animais, tais como, reações automáticas, ações reflexas e associações simples, que são de origem biológica), caracterizam-se como funcionamento psicológico tipicamente humano (tais como a capacidade de planejamento, memória voluntária, imaginação entre outros, que são de origem sociocultural). Estes processos mentais são considerados sofisticados e “superiores”, porque referem-se a mecanismos intencionais, ações conscientemente controladas, processos voluntários que dão ao indivíduo a possibilidade de independência em relação às características do momento e espaço presente. (REGO, 1995, p. 39) Com o desenvolvimento de seus trabalhos, Vygotsky estabelecealguns postulados, dentre os quais Rego (1995, p. 41-42) destaca os seguintes: a) a relação indivíduo/sociedade em que as características tipicamente humanas não estão presentes nos indivíduos desde seu nascimento, nem são mero resultado das pressões do meio externo, mas consistem na interação do homem com seu meio social; b) a origem cultural das funções psicológicas especificamente humanas surge nas relações do indivíduo e seu contexto cultural e social; c) 56 base biológica do funcionamento psicológico: o cérebro, como um sistema aberto, de grande plasticidade, cuja estrutura e modos de funcionamento são moldados ao longo da história da espécie e do desenvolvimento individual, é visto como o órgão principal da atividade mental; e, d) a mediação que está presente em toda atividade humana, são os instrumentos técnicos e os sistemas de signos construídos historicamente, que fazem a mediação dos seres humanos entre si e deles com o mundo. Destes postulados, o conceito de mediação é a ideia central para entender a concepção preconizada por Vygotsky sobre o desenvolvimento humano enquanto um processo sócio- histórico. Em termos genéricos, ela, mediação, é o “processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação; a relação deixa, então, de ser direta e passa a ser mediada por esse elemento” (OLIVEIRA, 2002, p. 26, grifo nosso). Esses elementos são considerados, portanto, meios que se constituem nas "ferramentas auxiliares" da atividade humana. Vygotsky distingue dois tipos de elementos mediadores: os instrumentos e os signos, ambos fornecidos pela cultura. De um lado, os instrumentos se interpõem entre o homem e o mundo/meio, os quais ampliam as possibilidades de transformação da natureza, e, de outro, os signos têm a linguagem como expoente. Vejamos o que nos diz os autores no fragmento que segue: Uma ideia central para a compreensão das concepções de Vygotsky sobre o desenvolvimento humano como processo socio-histórico é a ideia de mediação. Enquanto sujeito de conhecimento o homem não tem acesso direto aos objetos, mas um acesso mediado, isto é, feito através de recortes do real operados pelos sistemas simbólicos de que dispõe. O conceito de mediação inclui aspectos complementares. Por um lado refere-se ao processo de representação mental: a própria ideia de que o homem é capaz de operar mentalmente sobre o mundo supõe, necessariamente, a existência de algum tipo de conteúdo mental de natureza simbólica, isto é, que representa o objeto, situações e eventos do mundo real no universo psicológico do indivíduo. Essa capacidade de lidar com representações que substituem o real é que possibilita que o ser humano faça relações mentais na ausência dos referentes concretos, imagine coisas jamais vivenciadas, faça planos para um tempo futuro, enfim, transcenda o espaço e o tempo presentes, libertando-se dos limites dados pelo mundo fisicamente perceptível e pelas ações motoras abertas. A operação com sistemas simbólicos – e o consequente desenvolvimento da abstração e da generalização – permite a realização de formas de pensamento que não seriam possíveis sem esse processo de representação e define o salto para os chamados processos psicológicos superiores, tipicamente humanos. O desenvolvimento da linguagem – sistema simbólico básico de todos os grupos humanos – representa, pois, um salto qualitativo na evolução da espécie e do indivíduo. (DE LA TAILLE; OLIVEIRA; DANTAS, 1992, p. 26, grifo nosso) 57 Acrescenta-se que: [...] o processo de mediação, por meio de instrumentos e signos, é fundamental para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, distinguindo o homem dos outros animais. A mediação é um processo essencial para tornar possíveis as atividades psicológicas voluntárias, intencionais, controladas pelo próprio indivíduo. (OLIVEIRA, 2002, p. 33) Pelos entendimentos apresentados nos respectivos excertos sobre os elementos mediadores, Vygotsky analisa a função mediadora deles. Dessa forma, o instrumento é provocador de mudanças externas, pois amplia a possibilidade de intervenção na natureza (na caça, por exemplo, o uso da flecha permite o alcance de um animal distante ou, para cortar uma árvore, a utilização de um objeto cortante é mais eficiente do que as mãos) (REGO, 1995, p 51); o signo, de maneira análoga ao instrumento, age como um “instrumento da atividade psicológica”, portanto, interna ao indivíduo. Continuando com a autora, a “invenção e o uso de signos auxiliares para solucionar um dado problema psicológico (lembrar, comparar coisas, relatar, escolher, etc.) é análoga à invenção e uso de instrumentos, só que agora no campo psicológico” (idem, p. 52). As distinções dos elementos mediadores e considerando a capacidade de ação dos sistemas simbólicos, via desenvolvimento da linguagem, fazem com que Vygotsky confira à linguagem um papel de destaque no processo de pensamentos (REGO, 1995, p. 39). Ele considera que a linguagem imprime três mudanças essenciais nos processos psíquicos do homem: a) lidar com objetos do mundo exterior, mesmo quando ausentes; b) a abstração e a generalização; e, c) a função da comunicação entre os homens. Esta última mudança, além de permitir a comunicação, garante a preservação, transmissão e assimilação de informações e experiências acumuladas pela humanidade ao longo da história, logo, possibilita o intercâmbio social entre os indivíduos. Neste sentido a linguagem, para Vygotsky (1991, p 39), atua como um meio de interação social. Assim, o conceito de mediação, é associado ao da interação social. Com referência ao processo de desenvolvimento da criança, Vygotsky (1996) traz que o mesmo é feito em sua sociabilidade, por intermédio do adulto, pois, ao nascer a criança está inserida em um meio social que é a família e é nela que inaugura suas primeiras relações com a linguagem na interação com os outros (BASSO, 2000). De início, enquanto ser potencialmente social, o indivíduo não nasce membro da sociedade. “Pois a predisposição 58 para sociabilizar-se é nata, e isso confere-lhe condição de tornar-se membro da sociedade” (BERGER; LUCKMANN, 2005, p. 173-183). São as primeiras relações estabelecidas pela criança que estabelecem sua sociabilidade e marcam o início de suas interações sociais com o entorno. Essas interações ocorrem, à priori, com os pais, que fazem parte de sua primeira realidade imediata. Primeiramente, ela desenvolve a capacidade de percepção e reconhecimento do cheiro e voz, entre outros, de seus pais. Estas são as formas primárias e instintivas, visíveis nas primeiras formas do contato (expressões corporais, emissão de sons..., cujos conteúdos são fundamentalmente naturais e reflexos) que marcam a história das primeiras formas de relação social (GUIMARÃES; MENDONÇA, 2013 e MARTINS; RABATINI, 2011). Nesse processo, todas as atividades operadas pela criança são nada mais que relações sociais que vão caracterizar a gênese do conhecimento, não como uma absorção direta da exterioridade, mas em um processo mediado pelo ‘outro’, marcado por condições culturais, sociais e históricas. Dentro da sociedade o indivíduo vai se encontrar com outros significativos que se encarregam de sua socialização, exercendo nada menos que a mediação com mundo para ele [indivíduo]. É na e pela mediação que os elementos sociais vão sendo “filtrados” pelos adultos em indivíduos mais experientes (VYGOTSKY, 1996). Na perspectiva vygotskiana, a internalização das práticas culturais é que constituem o desenvolvimento humano. Assim, Vygotsky dá ênfase à construção do conhecimento como uma interação mediada por relacionamentos sociais, isto é, o conhecimento não está sendo visto como uma ação do sujeito sobre o objeto real, mas sim, pela mediação feita por outros sujeitos que rodeiam o aprendiz. (FERREIRA, 2008, p. 30, grifo nosso)Diante disso, o desenvolvimento do sujeito humano se dá a partir da complexificação das formas naturais de comunicação e das constantes interações com o meio social em que ele vive, já que as formas mais sofisticadas emergem da vida social, mediadas pelo outro (outras pessoas do grupo cultural). Dito de outra forma, da complexificação das formas naturais de comunicação, que representa um nível superior de desenvolvimento, surgem as relações indiretas ou mediadas que aparecem nos homens e que têm nos signos a principal forma de comunicação. Portanto, a linguagem é, enquanto signo, o elemento da mediação que, no âmbito cultural, possibilita que a cultura se torne parte da natureza humana em um processo histórico que molda o funcionamento psicológico do homem. A esse respeito, é possível concluir que as atividades 59 cognitivas do indivíduo se constituem de acordo com sua história social e que este produto irá exercer influência no desenvolvimento histórico e social da sua comunidade. Esse referencial histórico-cultural do indivíduo apresenta uma nova maneira de entender a relação do sujeito com o objeto para a construção do conhecimento. A negociação e trocas com os outros sujeitos (interpessoal – relacional/social), consigo próprio (intrapessoal - individual) e com o meio (inter-relação com o exteriorizado) é que facilitam e permitem a construção e internalização de conhecimentos e da própria consciência. Nesses tipos de interações, o papel fundamental cabe aos signos, aos diferentes sistemas semióticos e, dentre as funções que eles podem adotar, citamos a comunicativa. Nessas relações os sujeitos estão envoltos em um processo de influência mútua (RABELLO; PASSOS, 2013). Neste sentido, Devido a essas características especificamente humanas torna-se impossível considerar o desenvolvimento do sujeito como um processo previsível, universal, linear ou gradual. O desenvolvimento está intimamente relacionado ao contexto socio-cultural em que a pessoa se insere e se processa de forma dinâmica (e dialética) através de rupturas e desequilíbrios provocadores de contínuas reorganizações por parte do indivíduo. (REGO, p. 58, grifo nosso) A partir desse excerto inferimos que seria equivocada qualquer percepção de que os sujeitos, dentro de um mesmo contexto, teriam o mesmo desenvolvimento, atingiriam patamares iguais. Não se pode esquecer que, embora um mesmo contexto seja partilhado por vários sujeitos, a experimentação (vivência) e o relacionamento (relação) acontecem de formas particulares, individuais. Essas situações só podem ser partilhadas por meio de negociações e trocas com o outro, por meio da linguagem durante o processo de comunicação. A complexidade do ser, suas trocas e negociações são individuais, podendo até se assemelharem, mas necessariamente não são as mesmas para todos os indivíduos sociais. A linguagem é fator condicional do desenvolvimento humano. Prova disso é que, para o desenvolvimento da criança, em particular nos primeiros anos, as interações mais importantes são aquelas realizadas com os adultos, portadores de todas as mensagens da cultura. Durante a formação da criança, a comunicação é um fator extremamente importante na primeira infância e depois passa a ter uma função individual, sendo utilizada (com seu conjunto de signos), a partir daí, como instrumento de organização e de controle do comportamento individual. Nas palavras de Fichtner (2009, p. 19) “a linguagem é um fator importante para o desenvolvimento mental da criança: função organizadora e planejadora do seu pensamento e 60 ela tem também uma função social e comunicativa”. Esse autor ainda observa que o “processo de desenvolvimento do ser humano, marcado por sua inserção em determinado grupo cultural, se dá de fora para dentro” (Idem, p. 15). Assim, “todas as funções do desenvolvimento da criança aparecem duas vezes, ou em dois planos. Primeiro aparece no plano social e depois no plano psicológico, primeiro entre pessoas (interpsicológico) e depois no interior da criança (intrapsicológico)” (VYGOTSKY 1991, p. 41). Percebe-se uma influência entre planos; no entanto, a apreensão de conhecimentos decorre da transformação de ações exteriores em ações interiores (trabalho intelectual) via negociação de conceitos, valores, desenvolvimento de habilidades, entre outros, que são transmitidos entre e compartilhadas pelos indivíduos (sujeitos). De acordo com Vygotsky (1991, p. 41), o desenvolvimento e a aprendizagem estão inter-relacionados, ocorrem através da interação do sujeito com o meio físico e social. Disso, depreende-se que a aprendizagem ocorre quando os processos acontecem de forma intrapsicológica e os mesmos passam a fazer parte da rede de conhecimentos já existentes do indivíduo, formando novos conhecimentos; a esse processo denomina-se internalização dos processos superiores (VYGOTSKY, 1991, p. 38). Ao internalizar um conhecimento o indivíduo está integrando-o, tornando-o seu. Diante disso, retomando pontos anteriormente tocados, ao relacionar o desenvolvimento com a formação do conhecimento (aprendizagem), segundo a teoria histórico-cultural, o indivíduo se constitui enquanto tal, não se restringindo aos fatores biológicos, mas, sobremaneira, pelas relações que estabelece, isto é, pelas suas interações sociais por meio das trocas e negociações estabelecidas com os outros indivíduos de seu grupo. Conforme Rego (1995, p. 109), “as funções psíquicas humanas estão intimamente vinculadas ao aprendizado, à apropriação (por intermédio da linguagem) do legado cultural de seu grupo”. Para esse processo de apropriação (internalização) é fundamental a mediação de indivíduos. Diante disso, podemos concluir que a aprendizagem exige a relação com os ‘outros’ pelas quais os sujeitos se colocam em interações e, assim, a aprendizagem parte do social para o individual. Segundo Pisacco (2006) Feuerstein (2000) considera a noção de que a relação do homem no mundo não é uma relação direta, mas, fundamentalmente uma relação mediada, Em referência a Feuerstein, a mediação é compreendida como um processo de intenções mediadas, de compartilhamento de significados e processos superiores do pensamento, capazes de favorecer a construção de estruturas cognitivas que organizam o indivíduo e 61 potencializam a sua capacidade de transformação (PISACCO, 2006). Ao considerar o desenvolvimento dos processos cognitivos (aprendizagem) por meio da mediação (da aprendizagem), torna-se imprescindível a dupla ‘mediador-mediado’. Logo, [...] o desenvolvimento cognitivo acontece através de uma interação do indivíduo e o meio ambiente. [...] A interação do organismo e o meio ambiente pode direta ou por meio de uma experiência mediada de aprendizagem que requer a presença e a atividade de um ser humano para filtrar, selecionar, interpretar e elaborar aquilo que foi experimentado. (FEUERSTEIN, 2000 apud PISACCO, 2006, p. 13) Com isso observa-se que a mediação oriunda de um sistema simbólico atua entre o sujeito e o objeto de conhecimento. É na linguagem que o sujeito realiza o intercâmbio social (propósito de comunicação entre indivíduos) e a de pensamento generalizante (simplifica e generaliza a experiência e instâncias do mundo real em categorias conceituais cujo significado é compartilhado pelos usuários desta linguagem). Isso permite dizer que a o aprendizado humano é de natureza social e tem por base um processo em que o sujeito desenvolve seu intelecto dentro da intelectualidade daqueles que o cercam. Neste sentido, uma de suas características essenciais é que ele ainda desperta internamente vários processos de desenvolvimento, os quais funcionam apenas quando o sujeito interage em seu ambiente de convívio social. Logo, se toda ação humana ocorre pela mediação (intrapessoal ou interpessoal – instrumentos ou signos), o próprioprocesso de aprendizagem também o faz. No processo em que o indivíduo pensa e reflete sobre determinado conceito para o apreender, ele estaria realizando a mediação por imagens ou palavras, ou seja, a mediação intrapessoal. Para tanto, a “[...] aprendizagem se faz com a mediação semiótica ou pela interação com o outro” (MARTINS; MOSER, 2012, p. 10) na qual a relação ocorre por meio da comunicação com seus pares, que estariam igualmente realizando uma ação ou atividade mediada, fundamentada na interação social. A linguagem, se caracteriza em meios de comunicação ou elos de interação. Sendo assim, o processo de mediação se funde na interação com o outro; essa ação se dá em uma interação sócio-histórica ou histórico-cultural (VYGOTSKY, 1996). Dentro da teoria sócio-histórica vimos que o indivíduo, logo após o nascimento, está em um processo constante de desenvolvimento, difundido no social. Todavia, no que se refere ao ensino escolar, essa teoria permite-nos observar a diferenciação destes conhecimentos. Assim, para explicar o papel da escola no contexto de desenvolvimento do indivíduo, Vygotsky faz 62 uma importante distinção entre os conhecimentos construídos, sendo os da experiência pessoal concreta e cotidiana diferentes daqueles elaborados em sala de aula. Aos primeiros denominou de conceitos cotidianos ou espontâneos, que correspondem àqueles construídos por meio da observação, manipulação e vivência. E, os segundos, denominou de conceitos científicos, decorrentes de eventos não diretamente acessíveis à observação ou ação imediata, que são sistematizados e adquiridos nas interações escolarizadas (REGO, 1995, p. 77). Do entrelaçamento da realidade dos processos cognitivos e educacionais, que se fundamentam em processos educativos mediatizados por TDIC e AVA com o conceito de mediação aqui posto, foi possível entender que essas tecnologias dão condições como campo simbólico para a mediação intra e interpessoal. De um lado permitem o contato com conhecimentos sócio-histórico-culturais, disponibilizados por meio dos materiais (conhecimentos sociais selecionados e sistematizados) com os quais o aluno poderia estabelecer uma relação de interação intrapessoal, reflexiva, o que poderia caracterizar uma mediação intrapessoal. Por outro lado, diante da possibilidade de interação do aluno com seus pares, por meio dos recursos de informação e comunicação, vê-se a dimensão da relação interpessoal. É nesta base que Vygotsky (1996) aborda a interação social. Transpondo a dimensão dos cursos on-line, os AVA são meios para a operacionalização da mediação, que pode ser tanto intrapessoal quanto interpessoal. De artefato o ambiente poderia passar a ser considerado como instrumento de intervenção de uma realidade, produto e produtor, uma vez que ele permite a criação de novas realidades (conhecimentos) a partir de determinada (ou de uma) realidade sócio-histórico-cultural. Em contexto on-line, os ambientes e seus recursos potencializam a aprendizagem, uma vez que dão condições para mediações. Eles agregam meios e recursos para o processo de ensino e aprendizagem de forma que a mediação é condição para a efetivação da aprendizagem, a qual dependerá da intencionalidade, uso e significado concebido à ação e atividade dos sujeitos da formação. Para problematizar esta questão buscamos estabelecer um diálogo de forma que pudéssemos, em princípio, situar as tecnologias no âmbito de “novos espaços escolares”. Cumpre realizar um percurso sócio-histórico-cultural da instituição escola. Segundo Sibília (2012), esta instituição é um projeto estabelecido acerca de duzentos anos. Com base nas ideias iluministas entre os objetivos da escola um era a criação de uma subjetividade disciplinada, através de um sistema coercitivo para domar as mentes e os corpos das crianças, 63 tornando-as dóceis e úteis para se tornarem trabalhadores ativos em uma sociedade industrial; e sujeitos bem enquadrados na sociedade e seguidores de suas leis. Neste movimento, em uma perspectiva sócio-histórico-cultural a autora observa que a crise na qual a escola atual se vê imersa decorreria assim da dificuldade de significado que a escola tem, já que o eixo da sociedade tornou-se outro seguindo o caminho de atendimento ao mercado. Obviamente isso decorre do natural processo de mudança que a sociedade vem tomando ao longo dos últimos anos. Com isso, a aparelhagem e as “tecnologias” que a escola dispõe hoje tornaram-se incompatíveis com as atuais subjetividades. Para Sibilia (2012), há uma incompatibilidade com os objetivos e modos de ser (corpos e subjetividade) daquela época (início do Século XX) com os da sociedade atual (início do Século XXI), o que tem levado a relações conflituosas, com a perpetuada desconfiguração da escola. Para essa autora, as tecnologias trazem novas subjetividades que, na atualidade, implantam um gradual “regime de vida inovador, sustentado nas tecnologias eletrônicas e digitais (...) e a interconexão em redes globais de comunicação” (Idem, p. 202). Diante disso, a autora busca definir algumas das características e das configurações subjetivas [e corporais] mais valorizadas atualmente, que seriam: Em vez de propagar a silenciosa introspecção e o recolhimento nas profundezas do psiquismo individual, por exemplo, com a ajuda de ferramentas como a leitura e a escritura – gestos que eram tão habituais em outros tempos nem tão longínquos assim —, nossa época convoca as personalidades para que se exibam nas telas cada vez mais onipresentes e interconectadas da atualidade. (...) desdenham certas capacidades ou aptidões outrora valorizadas mas que agora se consideram cada vez menos úteis. (Ibid, p. 202-203) Assim, [...] hoje se estimula a criatividade [...] procuram-se características antes combatidas, tais como a originalidade ligada a certa espontaneidade e a capacidade de mudar rapidamente, reciclando o que se é na veloz sintonia das tendências globais. Também são bem cotadas a livre iniciativa, a motivação, o empreendedorismo e a vocação proativa, como atitudes capazes de movimentar os mercados e gerar benefícios. Sem esquecer, por outro lado, que tudo isso ocorre numa cultura que enaltece a busca de celebridade e o sucesso imediato, combinando nesse projeto a realização pessoal e a satisfação instantânea, e exaltando valores como a autoestima, o gozo constante, a beleza e a juventude; em suma: bem-estar corporal, emocional, laboral e afetivo, decorrentes de um ideal de felicidade que perpassa todos os âmbitos. São essas as qualidades pessoais que melhor cotizam no mercado de valores da atualidade, assim como a capacidade individual de administrá-las com êxito e sem pausa, projetando-as na própria 64 imagem como se fosse uma marca bem posicionada nos competitivos (e instáveis) jogos das reputações contemporâneas. (Ibid, p. 202-203) Essa nova subjetividade põe em cheque aquela interiorizada, desloca-se para outras formas de se posicionar e se relacionar no mundo. As tecnologias com seus dispositivos móveis de acesso à rede vêm acarretando e impulsionando mudanças que atravessam, criam e condicionam estilos de vida e, então, a criação e reconfiguração de subjetividades. Diante dessas novas subjetividades e formas outras de se relacionar com o mundo e com os conhecimentos, as instituições educacionais têm se lançado à incorporação de tecnologia em seus processos formativos. Mas os processos têm se demonstrado inalterados, a lógica que persiste é a mesma que originou a escola. No entanto, mesmo sabendo que a inserção destes recursos é importante, sem as mudanças dos processos, mais conflitos vão sendo criados nos espaços escolares visto que essas tecnologias não são neutras, elas são consequências de produções sociais e culturais e com isso carregam e agregam novos e outros valores, alguns incompatíveiscom a própria instituição, e que subvertem o elemento básico da instituição escola: suas paredes. A lógica das tecnologias é a possibilidade da dispersão, como nos alerta Sibilia (2012). Em tempos de relações em rede desterritorializadas a instituição escolar ainda se vê e propõe delimitada pelos seus muros, porém as mentes e os corpos hiperativos de seus frequentadores, ou usando o termo cunhado pela autora, de seus clientes, se veem em condições de formatação, enquadramento e não reconhecem e atribuem o mesmo significado e valor à escola. As relações coercitivas estabelecidas ao longo dos séculos pela escola hierarquizando professores e alunos, em tempos atuais não pode mais ser tomada pelos muros da escola. Ao invés disso, é preciso pensar as subjetividades postas pelas tecnologias que possibilitam colocar os sujeitos professores e alunos em relação de parceria para a construção de conhecimento, não mais visto como estático, mas dinâmico e em rede. Pensando as TDIC e o AVA na formação on-line poderíamos imaginar um novo universo e horizontes para as instituições de ensino. Condições estas de aprendizagem desterritorializadas, relações globais, e formas outras de se relacionar com os conhecimentos até então institucionalizados. Porém, as instituições responsáveis por estas formações são as mesmas, arraigadas em um sistema secular de controle. E, não menos que isso, professores e alunos se veem, em grande parte, como os mesmos sujeitos cristalizados e dependentes um do 65 outro e herdeiros de uma tradição escolar que pereniza processos altamente orais, passivos e reprodutivos. É contrário a esse sentido que a perspectiva mediativa dos processos de aprendizagem possa somar forças para, progressivamente, possibilitar aos sujeitos da formação trajetórias de formações condizentes com essas novas subjetividades, e que busque romper com as paredes já infiltradas das escolas de forma a promover um desenvolvimento humano autêntico. Pelo exposto, vemos como possível relacionar as novas subjetividades entrelaçadas às tecnologias da “dispersão” com o que nos aponta Jacques Rancière, ao se referir à educação vislumbrando que a mesma possa direcionar-se para a emergência do mestre ignorante em detrimento do mestre explicador (RANCIÈRE, 2002). Assim, aprender é resultado de algo eminentemente oriundo da relação intrapessoal e interpessoal, considerando a significação atribuída às trocas e negociações estabelecidas durante o processo de estudo, que possibilitam a construção do conhecimento e sua plasticidade. O significado dos meios e recursos de informação e comunicação presentes nos AVA está na utilização deles, isto é, nas ações realizadas pelos sujeitos em formação. Esses ambientes potencializam o significado, mas não o são. Em outras palavras, os meios e recursos dependem da utilização que se faz deles. Eles seriam, no limite do uso, suportes que dão condições para as práticas pedagógicas. No âmbito das TDIC e dos ambientes virtuais com ênfase nos cursos on-line, temos o delineamento da mediação que neste universo se constitui como mediação tecnológica (PEIXOTO; ARAUJO, 2012). Assim, novos e outros horizontes formam-se, nos quais a mediação tem como instrumento mediatizador os meios e recursos de informação e comunicação dos AVA. A mediação pedagógica na EaD on-line se associa à mediação tecnológica, ou seja, ela passa da pedagógica para a tecnológica, tendo por campo de ação a tecnologia como instrumento e mecanismo da prática docente. Isto se revela nos discursos que abordam a integração das tecnologias à educação, baseando-se, preponderantemente, na visão da tecnologia como um meio para atingir finalidades pedagógicas, como meio para o fazer docente. Nesta perspectiva, a tecnologia é pensada como mediação e como instrumento de transformação do processo ensino-aprendizagem e das relações pedagógicas (PEIXOTO; ARAÚJO, 2012). 66 Por outro lado, a constituição do discurso pedagógico sobre os usos das tecnologias na educação é algo multifacetado e, por isso, está continuamente sob investigação. É preciso ter cuidado com os discursos que priorizam as TDIC e deixam em segundo plano a educação, para não se incorrer no erro de delegar o processo de mediação aos aparatos tecnológicos, restringindo-os à perspectiva instrucionista. À luz da perspectiva Vygotskyana, os processos formativos mediados por TDIC exigem que se compreenda que o professor é o par mais competente, o elo mediador entre os sujeitos em formação e materiais do curso. A ele compete atuar em um processo contínuo de interação com vista a conduzir o aluno ao desenvolvimento humano, à aprendizagem. Entendemos que é preciso pensar a educação e, a tecnologia como seu complemento, entendendo-os como imbricados, associados. Assim, pensar em processos educativos com tecnologias é imprescindível e não pensar nas tecnologias como um corpo estranho que permeia esses processos, ora justificados por políticas públicas e adoções pedagógicas enviesadas. Dessa maneira, não se pode aceitar os discursos acerca da educação que atribuem lugar central às tecnologias, pois essa centralidade tem se baseado em justificativas e fundamentos muito diferentes. Em sua maioria, os discursos consideram o papel instrucional de programas ditos de formação (em realidade, nada mais são do que uma sequência e métodos de ensino para atingir um objetivo) como argumentos para justificar os altos investimentos em tecnologias educacionais consideradas como salvadoras e redentoras da educação, o que dificulta a leitura singular sobre o tema (WANG, 2008 e ROSS, 2008). Faz-se necessário reavaliar tais discursos, sobretudo, porque [...] as tecnologias são construtos sociais, ou seja, não podem ser vistas apenas como o fruto lógico de um esquema de desenvolvimento do progresso técnico. Elas são resultantes de orientações estratégicas, de escolhas deliberadas, num determinado momento dado da história e em contextos particulares. (PEIXOTO; ARAÚJO, 2012, p. 264) Se adotarmos a dimensão Vygotskyana para o entendimento de mediação como instrumentos e signos, temos que as TDIC podem se caracterizar como instrumentos simbólicos ricos de intervenção da realidade, diga-se pedagógica, que fundamenta práticas pedagógicas que se constituem em campos significativos – intrapessoal (intersubjetivo) e interpessoal (social/cultural) –, potencializadores de aprendizagem. 67 Na condição de instrumentos, os ambientes descendem de uma produção histórica, cultural e social e são, ao mesmo tempo, produto e produtores desta nova realidade histórico- social como coextensão das relações vividas e partilhadas. Como reflexos da sociedade, esses ambientes redundam de produções individual e coletiva e produzem a individualidade em uma coletividade, a partir do momento em que entendemos que esses “espaços” são “lugares” para a mediação e interação sociais. Dessa forma, o AVA como instrumento que subsidia as práticas docentes constitui-se, enquanto elemento mediador, como aquele que se interpõe como intermediário das relações entre os sujeitos e destes com o meio. Neste sentido, a mediação poderia ser tratada como intervenção que conduz à interação. Esses processos formativos são, portanto, estabelecidos de maneira indireta, mediados pelo elemento AVA. Durante a formação on-line, os ambientes se configuram como elos que dão condições para a existência das relações entre os sujeitos e destes com a realidade objetivada. São “espaços” onde o sujeito aprendente se constitui como tal pelas relações intrapessoal e interpessoal que mantém, mediadas por sujeitos mais experientes. Na mediação a aprendizagem se dá não de forma isolada, mas, necessariamente, como seu prolongamento no conhecer do outro. Dessa forma, a mediação promove a aprendizagem (enquanto desenvolvimento humano) que se vê no prolongamentocom o outro social, na esfera da mediação tecnológica (PEIXOTO; ARAÚJO, 2012). Portanto, para este trabalho, assumimos a compreensão de Vygotsky (1996) de que os elementos mediadores, instrumentos e signos, permitem a relação entre professores e alunos (em suas combinações) e que ocorrem, predominantemente, por meio das interações sociais entre eles. A mediação, enquanto “unidade” que se interpõe entre esses sujeitos, tem no diálogo a manifestação das trocas e negociações de significados entre os sujeitos, considerando o professor o sujeito mais experiente capaz de apoiar as aprendizagens. A comunicação (a linguagem) é o elemento intermediário para as trocas e negociações em campo de tensões em processos de desenvolvimento de conceitos que partem do âmbito social para o individual. Por fim, insistimos que não objetivamos abordar aspectos referentes à aprendizagem em si. Para atender o objeto de investigação proposto, detemo-nos no conceito de mediação pelo viés da teoria sócio-histórica de Vygotsky e agregamos outros autores estudiosos do tema. 68 Tendo isso claro, damos continuidade ao estudo dos elementos sócio-históricos, passando à interação. 3.2 INTERAÇÃO: RELAÇÃO COM O OUTRO, COM O MEIO, PRESENCIAL OU MEDIADA Para falarmos em interação, iniciamos apresentando seus significados dicionarizados. No dicionário Aurélio (FERREIRA, 2005), a palavra interação está classificada como substantivo feminino, formado pela junção do prefixo ‘inter-’ com o substantivo ‘ação’ (inter- + ação). Com base em sua etimologia, extraímos os seguintes significados: 1. Ação que se exerce mutuamente entre duas ou mais coisas, ou duas ou mais pessoas; ação recíproca; 2. fís. ação mútua entre duas partículas ou dois corpos; 3. fís. força que duas partículas exercem uma sobre a outra, quando estão suficientemente próximas. Como se pode observar dos sentidos trazidos, em dois deles há referência à área da física. Quanto a isso, como se vê abaixo, a origem do termo interação vem sim desta área de conhecimento, [...] sua origem [é] na Física e se refere a qualquer processo em que o estado de uma partícula sofre alteração por efeito da ação de outra partícula ou de um campo. Foi somente no início do século XX que filósofos interacionistas adotaram o termo para designar a influência recíproca das ações e relações entre os membros de um grupo. (FRANCO, 2010, p. 2) Independentemente de a origem da palavra interação remeter à área da física, como veremos, ela também foi cunhada, posteriormente, na sociologia. E, assim, seus significados evocam concepções que correspondem à ação de duas ou mais pessoas, coisas, suficientemente “próximas”. Retomando a primeira acepção, evidencia-se o sentido de ‘ação mútua entre duas ou mais coisas’. Tem-se também a observação à reciprocidade. Diante do exposto, inferimos que ‘ação’ pode se constituir em ato, atuação, comportamentos e atitudes que se transformam e se reconfiguram, que se autoinfluenciam. De acordo com as “inter-ações”, cuja manifestação de uma pode resultar na perturbação da outra, 69 a interação gera relações “inter-dependentes” em um determinado espaço ou em determinado elemento, considerando, para isso, a reciprocidade. Inserindo uma lente sociológica sobre o termo, a interação é a ação recíproca que se estabelece entre duas ou mais pessoas, entre os “inter-agentes”. Isso demanda entender que há um elemento (no interior de dois ou no intervalo entre dois) que interliga estes agentes, que permite o estabelecimento das relações, das trocas e ou negociações. Se considerarmos que estes agentes são indivíduos humanos, logo, coexiste uma ação social. Esta ação se faz na interação social, na qual o elo de ligação se funda na capacidade de comunicação, e desse intercâmbio deriva a mensagem negociada. É sabido que, para isso, a negociação ocorre em atos comunicativos que podem ser dos mais diversos formatos. Assim, a comunicação, como elemento que interliga os “inter-agentes”, está presente na dinâmica social e se funde à sua evolução, representando e aglutinando simbolicamente o mundo. Na esteira do tempo, o indivíduo seria então potencialmente socializável. Com base neste pressuposto, falar em interação exige perceber os modelos comunicacionais 6 que se busca no processo comunicativo. Na atualidade, emissor e receptor não podem mais ser considerados sob a ótica linear, hierárquica, tecnicista, porque tal perspectiva reserva desigualdades no ato comunicacional. Para fugir às desigualdades que a visão tecnicista, linear e hierárquica reserva, vislumbra-se uma dimensão dialógica que entenda os interlocutores como sujeitos-produtores, significadores e consumidores de informação, isto é, prossumidores, conceito este que nos apresenta Kerckhove (2009) ao se referir às tecnologias eletrônicas e às possibilidades agregadas por elas: [...] à medida que a tecnologia dá poder às pessoas, os consumidores desenvolvem a necessidade de exercer mais controle sobre o seu ambiente imediato. À medida que nos movemos de uma cultura dirigida pelo produtor para uma cultura dirigida pelo consumidor, a indústria perceberá que conceber características que reflitam o poder do consumidor é algo que terá de fazer parte de seus produtos. A geração do “prossumidor” nasceu nos anos 80, a era do yuppies e das redes de computadores. Os computadores permitiram às pessoas falarem com suas telas, recuperar o controle da sua vida mental da televisão e tomar parte ativa na organização do seu ambiente, local e global. (KERCKHOVE, 2009, p. 110) 6 É importante destacar que esta pesquisa não tem por pretensão tratar de modelos comunicacionais. Portanto, as referências citadas têm tão somente o objetivo de situar o leitor quanto ao ponto no qual nos fundamentamos para a compreensão dos termos tratados. Lembramos ainda que muitos dos estudos sobre modelos comunicacionais aqui presentes têm por foco abordar meios comunicacionais (televisão, rádio, telefone, entre outros.), ou seja, o canal. 70 Segundo Kerckhove (2009), a perspectiva prossumidora é a ampliação do entendimento do modelo unidirecional. Sendo menos desigual e mais interacional, a perspectiva prossumidora não reserva parte do sistema à passividade ou, quando muito, reagir a estímulos. Se a comunicação é um processo dialógico, que prevê a negociação e trocas entre os partícipes da ação comunicativa, cada mensagem trocada carrega consigo informações que vão originar conhecimentos a partir da significação que o indivíduo atribuir a essas informações. Ao conhecimento não se atribui um estatuto de “estado” ou de “produto”, mas de “conteúdos” ou informações negociadas em constante atividade, em movimentos que formam e deformam entendimentos (autoconstituintes/reconstituintes) acerca de si próprios. Interação é um conceito que também aparece nos trabalhos de Vygotsky, que reconhece o termo como interação social o qual desempenha um papel construtivo no desenvolvimento humano. Essa interação social, que se dá pela mediação, vai depreender se o desenvolvimento é intra ou “extra-pessoal” na descoberta de um intermediário entre o ponto inicial e o ponto final na relação com o objeto. A interação social que se funda em um modelo no qual os interagentes realizam trocas, negociam e significam o ato comunicacional. Primo (2007) concebe que a interação corresponde à ação entre os participantes de um encontro. Esse autor vai reforçar a ideia de que o foco está também voltado para a relação estabelecida entre os sujeitos interagentes. Segundo ele, quanto à comunicação, na interação não há superioridade de um polo emissor, já que se busca valorizar a dinamicidade do processo onde todos os sujeitos interlocutores são atuantes na relação comunicacional. Assim, no intervalo entre os "inter-agentes",na relação intercomunicacional de troca e negociação estabelecida, é que se circunscreve a interação. Entretanto, considera-se que o ato comunicacional que envolve os sujeitos, a relação (espaço de interlocução) e o contexto se estabelecem com base na inter-relação e pela interação. Primo (2000), ao referenciar Berlo (1991), chama a atenção ao revelar que na interação existe uma relação de interdependência que varia em grau, qualidade, e de contexto para contexto. Por isso, entender a interação como um processo dialógico de negociação entre os sujeitos se torna mais pertinente, pois, ao desconsiderar esta negociação, a perspectiva interacional se manifesta limitante, já que pode ser tomada somente como ação e reação. No entanto, 71 [...] as pessoas não funcionam da mesma forma que servomecanismos, como termostatos e aquecedores. Por adotar-se o paradigma ação-reação passa-se à visualização do processo de uma forma linear e do ponto de vista da fonte (onde existe apenas a emissão e o feedback, onde esse último teria apenas a função de comprovar a “eficácia” da mensagem). (PRIMO, 2000, p. 2) Pelo excerto depreendemos que o ato comunicacional limitado à ação-reação admite que haja existência de um começo, meio e fim linear, sequencial e interdependente. Esse raciocínio desconsidera a dinâmica do processo comunicativo, onde há inversões dos sujeitos comunicacionais e a negociação entre eles. Até porque a informação é vazia de sentido em si mesma. E o sentido atribuído a ela por um grupo não é o mesmo, não é comum e não pode ser acessível senão por um processo de significação cultural, para evitar que o processo se torne mecânico − ação e reação. Atribuir sentido demanda o ir e vir em um movimento externointerno, advindo da negociação comunicativa que permitirá confrontar com o conhecimento já sistematizado pelo indivíduo, estabelecendo novas redes de sentido ao segmento informacional intercambiado que se busca conhecer. Então, pelo viés sociológico, a interação consiste em um processo de trocas estabelecidas entre dois ou mais indivíduos, devendo ser compreendida como uma atividade social, que caracteriza uma ação recíproca entre dois ou mais atores onde ocorre a intersubjetividade (BELLONI, 1999). Para a autora, interação é ‘inter-ação’, ‘ação-relação entre’. Ao se referir às Novas Tecnologias da Informação e Comunicação (NTIC), Belloni (1999) aponta que estas tecnologias agregam possibilidades [...] inéditas de interação mediatizada (professor/aluno; estudante/estudante) e de interatividade com materiais de boa qualidade e grande variedade. As técnicas de interação mediatizada criadas pelas redes telemáticas (e-mail, listas de grupos de discussão, websites etc.) apresentam grandes vantagens, pois permitem combinar a flexibilidade da interação humana (com relação à fixidez dos programas informáticos, por mais interativos que sejam) com a independência no tempo e no espaço, sem por isso perder velocidade. (Idem, p.59) A partir da perspectiva apresentada pela autora, temos visto que a interação tem assumido desde a forma de uma simples ação pessoal até a de uma coletividade organizada e motivada para a formação de grupos associados. Simplistamente, ela é uma maneira de interferir na realidade e de contribuir para as trocas sociais no ambiente em que se está inserido. 72 Tendo como enfoque o cenário da EaD e procurando definir os diferentes tipos de interação lá encontrados, Anderson (2003) esclarece que a interação pode se dar entre atores humanos e não humanos. Mas ela só vai ocorrer quando a informação recebida for significativa e passar a ter aplicação pessoal para quem a recebeu. Os tipos de interação indicados por Anderson (2003) são: aluno-professor; aluno-aluno; professor-professor; aluno- conteúdo; professor-conteúdo; conteúdo-conteúdo, as quais podem ser síncronas ou assíncronas. Abstraindo o contexto dos AVA e considerando a relação sujeitos-ambientes virtuais para o estudo dos elementos sócio-históricos da formação on-line abordados nesta tese, atentamos para a interação pelo viés interpessoal. Isto é, concordamos com Primo (2000) ao dizer que a relação no contexto informático, que se pretende plenamente interativa, deve ser trabalhada como uma aproximação análoga à da interpessoal. Isso quer dizer que é necessário estabelecer uma relação de comunicação que passe da perspectiva unidirecional para a multidirecional, na qual os sujeitos podem construir relações dinâmicas que possibilitem o diálogo e a interação entre si. O processo de ensino e aprendizagem “mediatizado” por AVA necessariamente exige a efetivação de processo de comunicação que proporcione e permita o diálogo entre os participantes e valorize as trocas entre eles. Cumpre ainda destacar que as tecnologias subsidiam práticas pedagógicas que possam ser trabalhadas para oferecer oportunidades realistas de o indivíduo interagir com outros indivíduos (professores e alunos), com o meio compartilhado (ambiente virtual) e com os materiais disponíveis (textos, guias didáticos, vídeos, páginas on-line etc.). Da reflexão embasada em Naziozênio Antonio Lacerda (2012), observamos que a participação em ambientes de aprendizagem cria a possibilidade de interação dos partícipes que utilizam tais meios como forma de encontro social ou como materiais do curso. Assim, pela interação, esses ambientes permitem colocar em prática o desenrolar, a evolução e a constante modificação e recriação de temas e assuntos que interessam aos interagentes. Logo, o processo dinâmico da interação insere um autoajustamento, caracterizado pela possibilidade de essas tecnologias propiciarem novas formas de organização, do que pode vir a existir na inter-relação entre o indivíduo e o meio, sem a coordenação de um centro ou mecanismo de controle central. No processo interativo, informações vão fluindo e sendo intercambiadas entre os indivíduos e o meio e, nesse movimento, criam-se condições de representações de 73 ideias, discussões e seleção de informações que sejam significativas para o indivíduo e compartilhadas por todos os que têm como suporte a linguagem (enquanto elemento tipicamente humano resultante do pensamento) e os recursos tecnológicos (enquanto meio). Ainda no contexto da EaD, Valle e Bohadana (2009, p. 563) afirmam que “[...] em uma palavra, o que se chama de interação – a livre comunicação entre humanos – é uma conquista eminentemente tecnológica, não é mais do que a consequência da interatividade alcançada pelo aperfeiçoamento tecnológico do suporte”. Consoante essa afirmação, a interação nos remete à compreensão de que o universo das TDIC e AVA pode oferecer ao indivíduo as seguintes vantagens: oportunidades de interação desterritorializada, síncrona e assíncrona, individual, em pares ou em grupos; condições para utilizar uma infinidade de meios para a geração de informação; compartilhamento em vários formatos; e possibilidade de aglutinar o público extensivo à condição de seres “inter-agentes”. Por fim, conforme os autores vistos, esta investigação parte da compreensão de que a interação corresponde a relações sociais e a seus desdobramentos. Ela se fundamenta em interações sociais como ato puramente humano; é efetivada em atos comunicativos dialógicos, entre dois ou mais sujeitos, e, ainda que tenha como base recursos tecnológicos, deve ser compreendida como atividade social; consiste em trocas e negociações que ocorrem na e pela linguagem. Logo, de acordo como Belloni (1999) a interação é ‘inter-ação’, ‘ação- relação entre’, caracterizada como uma ação recíproca entre dois ou mais atores em que ocorre a intersubjetividade. Então, é nesta base que se alicerça nossa pesquisa. Após termos tratado da interação, na sequência, passamos à compreensão de interatividade. 3.3 INTERATIVIDADE: POTENCIALIDADE TECNOLÓGICA,IDEAL COMUNICACIONAL. Para a continuidade do trabalho, lançamo-nos à apresentação do conceito sobre interatividade. Dada à generalização com que a palavra interatividade tem sido empregada, optamos por consultar mais de um dicionário, de forma que suas acepções pudessem 74 contribuir com a compreensão do termo em si e das perspectivas conceituais que têm sido discutidas por autores que tratam do tema. Segundo o dicionário Houaiss (HOUAISS, 2009), a palavra interatividade é formada pelo prefixo ‘inter-’ + atividade. Classifica-se como substantivo feminino e tem as seguintes acepções: 1. Qualidade de interativo. 2. Capacidade de um sistema de comunicação ou equipamento de possibilitar interação. 2.1. [informática] - ato ou faculdade de diálogo intercambiável entre o usuário de um sistema e a máquina, mediante um terminal equipado de tela de visualização. Já o dicionário Aurélio (FERREIRA, 2005) traz que a palavra interatividade deriva de ‘interativo + -(i)dade’, tendo os seguintes significados: 1. Relativo a, ou em que há interação. 2. Inform. De, ou relativo a sistemas ou procedimentos computacionais, programas, etc. em que o usuário pode (e, por vezes, necessita) continuamente intervir e controlar o curso das atividades do computador, fornecendo novas entradas (de dados ou comandos) à medida que observa os efeitos das anteriores. [Cf., nesta acepç., processamento em lote.] 3. P. ext. Comun. Diz-se do meio de comunicação que permite ao destinatário interagir, de forma dinâmica, com a fonte ou o emissor. Pelos sentidos listados a partir dos respectivos dicionários, observa-se heterogeneidade semântica. A convergência entre eles diz respeito ao reconhecimento da relação de trocas entre partes e, ao reconhecer a possibilidade de interação. Alguns autores observam que a questão da interatividade, hoje, parece estar ligada irremediavelmente aos recursos das TDIC. Neste contexto, o respectivo termo vem adjetivar os recursos e equipamentos informáticos (SILVA, 2001; VALLE; BOHADANA, 2012a). E, no âmbito dessas tecnologias, a palavra interatividade está relacionada originalmente à dimensão conversacional das tecnologias (MONTEIRO; RIBEIRO; STRUCHINER, 2007). De acordo com Valle e Bohadana (2012a), a origem do termo interatividade remonta ao século XX. É um termo polissêmico, um neologismo da área de informática. Assim, o adjetivo interativo torna-se a expressão técnica que qualifica. Essas autoras, ao citarem o Oxford Dictionary, definem o termo como sendo todo “programa cujos ‘input’ e ‘output’ são entrelaçados, como em uma conversa na qual o ‘input’ depende do ‘output’ anterior” (Idem, 974-975). 75 Segundo as autoras, outros dicionários como o francês Robert registram a variação substantivada interatividade para designar a característica própria de uma interface digital – textual, gráfica ou mesmo sonora – que permite trocas entre o usuário de um sistema informático e a máquina. Adicionalmente, as autoras assinalam que [...] o conceito de interatividade se origina da nova exigência de operacionalidade imposta ao desempenho de máquinas, a partir do momento em que se concebeu que, em algumas situações específicas, elas pudessem vir a substituir com vantagens de simplificação e rapidez o contato humano direto. Mas o termo, de forma muito rápida, extrapola o universo tecnológico, a exigência de implantação do “dispositivo conversacional”, invadindo outros domínios e contagiando todo tipo de “comunicação” indiretamente realizada. [...] aos poucos, sob a influência das teorias produzidas para analisar o impacto das tecnologias digitais, a interatividade transforma-se, pois, de exigência inicialmente imposta às máquinas em ideal de comunicação entre humanos, direta ou indiretamente, mediada pela máquina. E associa-se, a partir daí a interatividade à ruptura dos antigos paradigmas comunicacionais, pregando-se a transição do modo de comunicação “massivo” para o “interativo”. (VALLE; BOHADANA, 2012a, p. 976, grifo nosso) Até meados dos anos de 1980, a ausência do termo interatividade nos dicionários de informática permite afirmar que se trata de um conceito novo, recente. Seu surgimento coincide com o final da década de 1970 e início da de 1980, no bojo das denominadas novas tecnologias de informação (SILVA, 2001). Talvez por isso, a palavra interatividade tenha sido empregada indistintamente e, muitas vezes, como sinônimo de interação. Essa mistura conceitual e uso indiscriminado dos termos se apoiam no entendimento de que ambos compreendem a acepção de “ação entre dois ou mais atores, podendo essa relação ser estabelecida entre o usuário e a máquina ou apenas entre usuários” (FRANCO, 2010, p. 2). Para Valle e Bohadana (2012a), interatividade carece de uma precisão conceitual pelo fato de nenhum trabalho conseguir defini-la em sua totalidade. Logo, é importante diferenciar os termos e conceitos que a envolvem (BELLONI, 1999; MONTEIRO, RIBEIRO, STRUCHINER, 2007; VALLE, BOHADANA, 2012ab). Ao se voltar às teorias da comunicação, Morais (2010) argumenta que se deve [...] pensar na questão da interatividade, sistema em que as pessoas são capazes de agir, editar, transformar e, naturalmente, responder, imediatamente e de forma idiossincrática, a algum tipo de estímulo ou provocação geradora de algum tipo de emoção. Nesse sentido, é que acreditamos que as teorias da comunicação poderiam vir ao encontro desse novo contexto dos processos comunicacionais, tal como pensamos ou 76 aplicamos ao cinema, ao teatro, ao jornalismo. (MORAIS, 2010, p. 84, grifo nosso) Por sua vez, a lógica mercadológica tem motivado a cristalização de mais este conceito, visto que a interatividade goza de certa imprecisão conceitual. Por estar associada à área da informática e das tecnologias, a interatividade toma amplitude diversificada, dinâmica e em tempo real. Faz-se marcante porque se apresenta em todos os cenários: cultura, entretenimento ou mesmo ideológico. Ciente do emprego indistinto das palavras interatividade e interação, Belloni (1999), compactuando em favor da necessidade de se diferenciar seus conceitos, propõe as seguintes definições: interatividade – reforça a característica técnica que está relacionada à interação entre indivíduo e recurso tecnológico/informático (tecnologia); interação – refere-se à ação entre dois ou mais indivíduos na qual ocorre a intersubjetividade, isto é, o encontro de dois indivíduos. Para Schettino (2008, p. 56), considerando os meios de comunicação, a extrema atualidade da palavra interatividade vem dotar o receptor da competência de reagir ao meio, de modo continuado, conforme atesta o sentido deste vocábulo. Assim, entre as definições de interatividade há uma em que as trocas culturais têm a pretensão de se chegar à essência da comunicação. Diante da imprecisão conceitual do que seja interatividade, Morais (2009) esclarece que é um conceito ainda em construção. Vejamos as palavras do autor: [...] o conceito de interatividade está ainda em construção e, certamente, demandará a necessidade de alguns anos de experiências e amadurecimento para se chegar à sua completude, ou melhor, à sua essência. Mas, seu significado imediato, hoje, encontra-se na capacidade do telespectador, não só de assistir à televisão, mas também de participação, ao executar um papel verdadeiramente ativo no processo comunicacional, agora alterado. (MORAIS, 2009, p. 10) De fato, no campo das tecnologias digitais, vai se configurando um contexto no qual a interatividade vem projetada como ideal de comunicação entre humanos, direta ou indiretamente mediada pela máquina. Com a preconização desse ideal, vislumbra-se a ruptura de modelos comunicacionais, à qual Lévy (1994) caracteriza como a transição do modo de comunicação “massivo” para o “interativo”. Neste viés, Vallee Bohadana (2012a) concorrem para ampliar a reflexão sobre interatividade ao dizerem que ela vem como palavra de ordem de uma verdadeira revolução 77 social que é amparada pela informática, em benefício de conduzir a uma ampla reconfiguração das comunicações humanas. As contribuições de Primo (2007) reforçam que o termo interatividade vem sendo muito mal empregado no meio mercadológico, onde se adota uma visão muito restrita no que diz respeito ao tecnicismo. Para o autor, a indústria de informática e as campanhas de marketing abusam do termo. Silva (2001c, p. 4) apropriadamente destaca que a dificuldade em precisar a conceituação do termo e, pela elasticidade de uso, interatividade perde o significado e alimenta a indústria da interatividade, geralmente como “argumento de venda” ou “ideologia publicitária” em detrimento do prometido “mais comunicacional”. Portanto, pela a pluralidade de uso do termo interativo (TV, jogos, cinema, tênis...) é preciso que se depure o conceito. Esse autor destaca que Mesmo tão associada ao computador e à internet, é preciso insistir: interatividade é um conceito de comunicação e não de informática. Antes do computador conversacional é possível encontrar a expressão mais depurada do termo na arte “participacionista” da década de 1960, definida também como “obra aberta”. O que permite garantir que interatividade não é uma novidade da era digital. (SILVA, 2001c, p. 7) Outrossim, o autor acrescenta que o termo pode ser utilizado para significar a comunicação entre interlocutores humanos e não humanos (máquinas e serviços), desde que garanta as duas disposições básicas: 1. A dialógica que associa emissão e recepção como polos antagônicos e complementares na co-criação da comunicação; 2. A intervenção do usuário ou receptor no conteúdo da mensagem ou do programa abertos a manipulações e modificações. (SILVA, 2001c, p. 5) Ao considerar as respectivas disposições ao entendimento da interatividade, ainda que reconheça a existência, Silva (2001) observa que não é preciso criar gradações no interior do conceito de interatividade. Portanto, considerando as tecnologias e tendo o computador e a internet como recursos diretamente associados ao termo, estabelece-se 3 pilares para a interatividade: 1. Participação-intervenção: participar não é apenas responder “sim” ou “não” ou escolher uma opção dada, significa interferir na mensagem de modo sensóriocorporal e semântico; 2. Bidirecionalidade-hibridação: a comunicação é produção conjunta da emissão e da recepção, é co-criação, os dois polos codificam e decodificam; 3. Permutabilidade-potencialidade: a comunicação supõe múltiplas redes articulatórias de conexões e liberdade de trocas, associações e significações potenciais. (SILVA, 2001, p. 165) 78 Seguindo o viés da comunicação, mas, focando os ambientes de formação on-line, Freitas e Dutra (2009) também se posicionaram quanto à interatividade. Para eles, ela está relacionada à expressão comunicacional que permite aos sujeitos/autores de um curso on-line a participação e intervenção ativa, de forma que todos tenham possibilidade de atuar, contribuir e, se for o caso, modificar o processo de desenvolvimento do curso. Neste mesmo segmento de contexto on-line com enfoque à perspectiva comunicacional, vemos [...] que em virtude das inovadoras condições oferecidas pelas tecnologias, a EaD/on-line teria quase que obrigatoriamente substituído o antigo modelo de comunicação por um outro, em que a “interatividade” tornou-se pressuposto e princípio regulador. (VALLE; BOHADANA, 2012b, p. 256) Neste sentido, por oportuno, retomamos o ponto de vista de Lévy (1999), para quem a interatividade [...] compreende, então, uma realidade toda nova e específica da ação educativa baseada nas tecnologias da informação e comunicação, que, superando as antigas hierarquias, estabeleceria uma relação totalmente outra, porque capaz de se dar de todos para todos. (LÉVY, 1999, p. 79) Diante do que vimos expondo, é mister salientar que a abordagem conceitual tratada sobre os elementos sócio-históricos da formação on-line configura-se como alicerce para o desenvolvimento da pesquisa em pauta. Posto isso, a interatividade se apoia na dimensão técnica com ênfase na possibilidade de o indivíduo interagir com e pelo recurso tecnológico. Isso vai exigir uma ação tipicamente humana que reclama por algum nível de codificação e decodificação e, não menos, de mediação para permitir a manifestação e ocorrência da intersubjetividade. Para esta pesquisa, não nos importa os processos interativos que os recursos e sistemas informáticos podem autogerir mediante níveis de codificação de máquina específicos para a execução de tarefas programadas. Nosso lócus corresponde ao contexto educacional de uso intensivo dos recursos das TDIC e AVA, constituído por práticas sociais vinculadas a atos humanos. Por fim, para a investigação em pauta, parte-se da acepção de interatividade relacionada à expressão comunicacional que permite aos sujeitos da formação on-line a participação e intervenção ativa, de forma que todos eles tenham possibilidade de intervir em fluxos contínuos no decurso de sua formação. Portanto, a interatividade como condição de uso das 79 tecnologias em processos de formação on-line, possibilitando a livre comunicação entre os sujeitos da formação, direta ou indiretamente mediada pela máquina. Assim, com as bases nos recursos informáticos, o enfoque versa sobre a coautoria da comunicação sujeito-sujeito, sujeito-TDIC e sujeito-sujeito conectados por estas tecnologias. A interatividade caracteriza-se como formas mediadas (pelas diversas formas e recursos de comunicação e interação presentes e disponíveis nos AVA para os sujeitos da formação on-line) de promover interações sociais como subsídio para a constante construção e transformação do indivíduo sócio-histórico-cultural. Em síntese, a interatividade decorre de conquistas tecnológicas para oferecer novos significados para a vida em sociedade, na qual o indivíduo possa atuar coletivamente como elemento indispensável, com a sua individualidade. Gostaríamos de frisar que os conceitos ora apresentados não são um pretensioso postulado fechado e acabado acerca dos elementos sócio-históricos da formação on-line. Tão somente constituem a base para refletir e discutir sobre o objeto desta tese, além de demonstrar nossas concepções e entendimentos sobre os termos. São, portanto, passíveis de releituras e complementações como, talvez, grande parte do conhecimento social. 3.4 ELEMENTOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA FORMAÇÃO ON-LINE: CONVERGÊNCIAS E RELAÇÕES Nos tópicos anteriores buscamos evidenciar as acepções e conceitos em torno dos elementos sócio-históricos da formação on-line. Por questões de encaminhamento, a explanação sobre elementos inicia-se pelos respectivos significados dicionarizados e, consecutivamente, avança para a exteriorização dos conceitos dos autores que subsidiaram o estudo e, por fim, na indicação daqueles adotados nesta investigação. Neste momento, temos por objetivo demonstrar a ‘unidade’ que os aproxima. Para isso, fizemos uma retomada conceitual e de significado dos conceitos, sobre os quais edificamos a base que sustentou nossa investigação, e cujo foco são os contextos de cursos de formação on- line. 80 Para relacionar os elementos sócio-históricos a partir de seus pontos de contato, é preciso considerar que se trata de fenômenos complexos, interligados entre si por um elo que, ao mesmo tempo, os une e permite sua autoconstrução coletiva. Com esse breve introito, queremos explicitar que a mediação, interação e interatividade não ocorrem de maneira separada (como pode transparecer nos itens precedentes, em que apresentamos os significados dicionarizados e perspectivas conceituais dos autores), masautodependente (cada qual possui unidade semelhante, que dá base para a ocorrência do outro, em um movimento autoconstrutivo). Falar dos elementos sócio-históricos da formação on-line é reconhecer que, para que eles ocorram, é preciso a predisposição e o envolvimento dos sujeitos em relação com o outro e/ou consigo mesmos. Para esse entendimento, tomamos como base que os pontos de contatos correspondem à presença de uma ‘unidade’ que se coloca em função das entidades sujeito em influência recíproca com a finalidade de interconectá-las, inter-relacioná-las. É neste ponto que percebemos a convergência da mediação, interação e interatividade para o assentamento das relações socais. Para constituirmos a base sobre a qual se circunscreve a nossa investigação, ressaltamos primeiramente nossa compreensão sobre o que foi discutido nos tópicos em que abordamos cada um dos elementos em tela. Posteriormente, os referenciais teóricos vêm endossar as perspectivas conceituais apresentadas, porém, como pesquisadores, cabe-nos a responsabilidade de demonstrar aquelas com as quais nosso olhar corresponde, obviamente, consoante nosso objeto de estudo. O estofo teórico escolhido subvencionou nosso olhar sobre o que advogaram os sujeitos da pesquisa quando indagados acerca de seu entendimento sobre mediação, interação e interatividade e na evidenciação de como elas se configuram em suas trajetórias de formação. É no desvelar do entendimento dos sujeitos sobre esses elementos, que se fez o esclarecimento de suas formas de manifestação, suas ocorrências, caracterizações e, não menos, contribuições para sua trajetória de formação. É neste contexto que, mais adiante, lançamo-nos sobre os achados de pesquisa. Do que vimos até o momento, o desenvolvimento humano como ato de conhecer não se dá de forma direta, mas sim mediada, ou seja, ocorre pela mediação. Assim, o sujeito no ato de conhecer não estabelece uma relação direta com o objeto de conhecimento, que vai se dar 81 pelo uso e interposição de elementos de caráter instrumental (com o uso de instrumentos) e ou simbólico (por meio de signos/linguagem). Pela mediação o indivíduo atua no, com e sobre o mundo, os objetos, as coisas e os outros sociais. Assim, a mediação vincula-se ao sentido de interposição daquilo que está no intervalo entre o sujeito conhecedor e o objeto de conhecimento e interpõe-se no campo de ação do homem com o mundo. No campo da educação, a mediação se configura como pedagógica, como campo de ação para a prática docente. Assim, a mediação pedagógica cria um ambiente de estímulo à atuação do aluno, para que ele se veja sujeito em seu processo formativo. Dando ênfase à dimensão social, Vygotsky (1996) aponta para uma visão prospectiva do desenvolvimento humano pela qual pressupõe a participação do outro social. Nesta ótica, o autor insere a compreensão de interação social. Assim sendo, o processo de mediação busca contribuir para uma constante reorganização de experiências (vivências) por meio do estabelecimento de vínculos entre os indivíduos. Esses vínculos, tomando os signos como elementos mediadores estruturados na linguagem, ocorrem pela comunicação em sua função social, pois permite o intercâmbio intersubjetivo. Isso equivale a dizer que a linguagem dá condições para que a interação social ocorra; pois, enquanto mediadora, prevê o estabelecimento de relações sociais entre os sujeitos. A educação como prática social torna seus professores sujeitos a desempenhar papéis de agentes sociais e culturais, encarregados de compartilhar e tornar acessíveis os conhecimentos histórico-sociais acumulados. Peixoto e Araújo (2012) propõem, pela mediação pedagógica (da aprendizagem ou didático-pedagógica), que o professor tenha condições de intervir no processo de aprendizagem dos alunos, porque ele é o sujeito social mais experiente e, portanto, pode partilhar suas funções psicológicas com os alunos, com o propósito de equilibrar os signos e ajustar os significados que se põem na trajetória de formação dos alunos. Para falar da mediação, Martins e Rabatini (2011) explicam que a [...] mediação é interposição que provoca transformações, encerra intencionalidade socialmente construída e promove desenvolvimento, enfim, uma condição externa que potencializa o ato de trabalho, seja ele prático ou teórico. (Idem, p. 6) Pelo excerto, se optarmos pelo entendimento de que na mediação a ‘interposição’ possa ser assumida por um sujeito, poder-se-ia atribuir ao professor a qualidade de mediador que 82 opera fomentando aprendizagens. Nessas circunstâncias, o traço fundamental da aprendizagem é que ela se desenvolve por meio da atividade social, que, por sua vez, tem como atributo principal a mediação por meio de signos e de instrumentos. Tomando os AVA como artefatos tecnológicos, portanto, culturais, admite-se que são instrumentos mediadores das ações entre professores e alunos e que possibilitam as relações entre esses sujeitos por meio de suas práticas formativas. Assim, a mediação pedagógica se faz com o uso dos ambientes e, este recurso se referindo “às TIC permite pensar as situações de ensino como situações de atividade midiatizada ou instrumentada, nas quais o uso do computador constitui um dos meios da ação do trabalho do professor” (PEIXOTO, CARVALHO, 2011, p. 32). Ao retomarmos o viés da interação, orientando-se para a interação social, em que os AVA são “espaços” fecundos para sua ocorrência, há que perceber que o foco da interação se volta para o elo que une os sujeitos. Dessa forma, importa entender o modelo comunicacional e o processo comunicativo objetivado e estabelecido durante a formação. Parece-nos mais adequado pensar em um modelo que se sustente em processos comunicativos contínuos e instituídos na dialogicidade, que dê condições para os intercâmbios e negociações de informações. Nesse modelo inexistem limitações de campos de atuações para um ou outro sujeito-agente, e a linguagem se torna o campo da ação entre eles (“inter-agentes”). No modelo comunicativo dialógico estabelecido pela não linearidade inexiste começo, meio ou fim definidos, e a comunicação orientada faz com que os sujeitos se recriem e reelaborem em fluxos bilaterais contínuos. Os “inter-agentes” são, então, interlocutores (produtores e consumidores, emissores e receptores) que se revezam e se complementam, sem reservas ou desigualdades. Esse movimento dialógico seria mais justo, se instituído pela interação social e voltado para uma ação social mutuamente ordenada, na qual subjaz a reciprocidade e se interligam os participantes do encontro. Nas palavras de Belloni (1999), a interação se caracteriza pela ação recíproca em que ocorre a intersubjetividade. Interação é, portanto, ‘inter-ação’, ‘ação-relação entre’. Ao adotar o viés sociológico, a autora busca esclarecer a diferença entre interação e interatividade. 83 [...] o conceito sociológico de interação – ação recíproca entre dois ou mais atores onde ocorre intersubjetividade, isto é, encontro de dois sujeitos. (BELLONI, 1999, p. 58) Quanto à interatividade, assinala que é [...] potencialidade técnica oferecida por determinado meio ou a atividade humana, do usuário, de agir sobre a máquina, e de receber em troca uma “retroação” da máquina sobre ele. (BELLONI, 1999, p. 58) Para a autora, o conceito de interatividade carrega em si grande ambiguidade. Oscila entre um sentido mais preciso de virtualidade técnica e outro mais amplo de interação entre sujeitos que, por sua vez, se dá pelas tecnologias (BELLONI, 2002, p. 123). Por conta dessa ambiguidade, muitas vezes o conceito de interatividade se torna inexpressivo porque justamente engloba diversos valores semânticos específicos para diferentes áreas do conhecimento. O ponto de convergência das perspectivas apresentadas sobre interatividadefaz referência à sua recursividade, que coloca em evidência a lógica da comunicação. Diante disso, há o reconhecimento de relações de trocas entre partes e da abertura a um vasto campo de possibilidade de interação. Assim, interatividade especifica um tipo singular de interação, pois suas dinâmicas comunicativas envolvem recursos tecnológicos. Interatividade diz respeito ao processo pelo qual duas ou mais “coisas” produzem um “efeito” entre si ao trabalharem juntas, prevalecendo o diálogo, a comunicação e a troca de mensagens. E, por isso, a comunicação interativa se difere de comunicação difundida (SILVA, 2001). Neste ponto, é importante situar que a nossa referência à interatividade vai se fundar na interação que têm as práticas de comunicação mediadas por tecnologias, ou, nas palavras de Primo (2007), na interação mediada por computador e, na apropriação das tecnologias para o estabelecimento de laço e interação social no contexto da cibercultura. Disso tudo, a dimensão que pomos em evidência no aprendizado com os conceitos é a consideração da presença de uma unidade, isto é, do elo unificador entre os termos, ao qual denominamos relação. O ser humano é assim um ser relacional que se complementa e se constitui no e pelo outro por meio da relação. Por conseguinte, a perspectiva lançada é social, pois os sujeitos são como seres autopoiéticos (MATURANA; VARELLA, 2001), produtores de si mesmo. Com isso, estabelece-se que os elementos sócio-históricos da formação on-line são atividades especificamente humanas que trazem em seu cerne os intercâmbios simbólicos, que 84 só podem ser estabelecidos por meio da linguagem durante o ato de comunicação ou nas relações recíprocas instituídas pela comunicação. A linguagem como atividade tipicamente humana tem na comunicação um campo de ocorrência de trocas, onde concorrem as negociações realizadas pelos “inter-agentes”. É a linguagem, a “moeda” de troca no ato comunicativo. Essa afirmação permite dizer que a mediação, interação e interatividade são formas específicas de manifestação da capacidade de o indivíduo (sujeito) entrar em relação com o mundo humano e físico. Ao entrar em relação com o outro (alguém) ou com algo (objeto de conhecimento) esse indivíduo pode agir sobre e/ou com ele. Por essa óptica, fica definido um denominador comum, um ponto que permite identificar as semelhanças entre os três termos ou, ainda, o ponto de contato entre eles. Tal denominador comum, para a ocorrência dos intercâmbios de significados e para o desenvolvimento humano em sua plasticidade, é o estabelecimento e manutenção de relações que se fundem em atos comunicativos dialógicos, permitindo a “inter-ação” entre sujeito- sujeito, sujeito-objeto e sujeito-meio (mundo). Para isso é tão importante criar, estabelecer e manter vínculos e relações. Esses vínculos e relações podem ocorrer pela linguagem nas esferas subjetivas e objetivas e ser dos mais variados tipos: afetivos, sociais, econômicos, políticos, entre outros. No entanto, para o processo formativo on-line se vislumbra, em primeira instância, duas dimensões prioritárias, a dimensão racionalista e a afetiva. Os vínculos e relações são definidores de interesses, intencionalidades e objetivos que buscam ser alcançados por meio das trocas simbólicas, que têm na linguagem seu campo de ação, porque é sabido que o homem se faz homem na e pela linguagem. Retomando a assertiva de que os processos educacionais são práticas sociais autoconstrutivas, eles só se efetivariam por meio de relações; o ato de estabelecer relações é o primeiro nível para o desenvolvimento, mas ele reclama também sua manutenção. A manutenção vai derivar das ações de fomento oriundas das predisposições e motivações inerentes de cada sujeito envolvido no processo formativo, conectando e significando fragmentos significados pelas relações. Assim, aprender é uma atividade social dialógica de negociações e intercâmbios de sentidos entre professores e alunos. Insistimos que a relação que destacamos é de cunho social, mesmo que alicerçada em recursos tecnológicos. Ela precisa ser compreendida dentro de uma dinâmica entre os sujeitos, 85 na qual os significados emergem em decorrência de uma ação conjunta, resultante dos intercâmbios de significados aí presentes, que atuam em prol do desenvolvimento desses sujeitos. Essa relação é estabelecida em um movimento do intrapessoal para o interpessoal e com o meio. Assim, é possível entender que as relações que sustentam os elementos sócio-históricos da formação on-line não se dão nas TDIC, mas no significado atribuído às relações entre os sujeitos da formação, que têm como base suas interações sociais e suas relações inter e intrapessoal, imputadas por meio dessas tecnologias. Nos cursos on-line, o “espaço” de comunicação, enquanto unidade fundamental, só não pressupõe a presença física para que se dê a mediação, interação e interatividade (quando a presença física é requerida acontece no polo com o tutor). Seus ambientes são um espaço de comunicação aberto e flexível, convergindo níveis de relações em fluxos aluno-aluno, aluno- professor, professor-professor, aluno-conteúdo/ambiente e professor-conteúdo/ambiente. São relações entre sujeitos-sujeitos e sujeitos-tecnologias que interagem entre si para atender uma necessidade ou demanda do sujeito. Pensar a relação é pensar o contexto de significação. As tramas e teias se manifestam no cérebro desses sujeitos onde se estabelecem os significados. Quanto à relação (ação conjunta), pressupomos a ocorrência da interação e a existência de uma ação partilhada entre os sujeitos que se constituem em interagentes no processo. Eles dedicam-se a construir relações dinâmicas que valorizem as trocas e possibilitem o diálogo e a interação entre si. A relação pode estabelecer fortes ou fracas ligações, pode ser mais ou menos intensa, contínua, intermitente, sequencial, alternada, unidirecional e bidirecional. Necessariamente, a perspectiva dialógica posta considera que, na relação, a ação pode se manifestar por comportamentos e atitudes que se transformam e se reconfiguram. Na relação, as “inter- ações” podem resultar na perturbação uma da outra e serem relações “inter-dependentes” em um determinado espaço ou em determinado elemento. A mediação, interação e interatividade compõem um sistema de relações mútuas entre todos os sujeitos da formação (professores, alunos, tutores e coordenação) que exercem funções especiais no processo de ensino e aprendizagem. A relação torna-se o ponto elementar de intersecção entre os elementos para constituir elos coesos que sustentam as ações entre os sujeitos da formação e que possam, assim, convergir em aprendizagens. 86 Relevamos que apesar de se compreender a importância dos materiais didáticos para auxiliar na construção de conhecimentos, parte-se da compreensão que os mesmos atendem aos objetivos propostos pelos PPC dos cursos, isto é, ao conjunto da formação para o qual foram selecionados. Assim, em adição, pensar os elementos sócio-históricos da formação on-line é reconhecer a importância de que o conjunto do curso deve estar disposto e organizado para atender às exigências e propostas da formação. Nesta vertente, o olhar sobre os elementos teve como foco as relações dos alunos e professores durante a formação on-line. Esse pressuposto fundamentou nosso recorte, visto que o mesmo foi necessário para delimitar a investigação. Sendo assim, cumpre acrescentar que, além de esses elementos subsidiarem as trajetórias de formações dos alunos, também podem promover a aprendizagem a partir da mediação com os materiais fornecidos, que representam os conhecimentos sócio-histórico- culturais acumulados na interação social direta ou mediada e nos processos interativos com os professores, tutores e com os próprios recursos (meio). Osartefatos dos ambientes virtuais são os recursos de comunicação e informação que formam o arcabouço tecnológico, que, por sua vez, viabiliza as relações midiatizadas por estes recursos. O ambiente virtual é o “lugar” em que ocorreria a operação da então mediação tecnológica. Por outro lado, pensar que os elementos da aprendizagem possam acontecer em intervalos nos quais não coexistam ambiências de relações efetivas é entender que na mediação não há troca de significados. Como vimos, isso é equivocado, já que a mediação, em dado momento, recupera a interação como processo dialógico de negociação entre os sujeitos, e não como uma maneira limitante de ação e reação. Segundo Anderson (2003), a interação pode ocorrer entre atores humanos e não humanos, mas somente quando a informação recebida for significativa e passar a ter aplicação pessoal para quem a recebeu. Partindo da singularidade do que nos explicam Valle e Bohadana (2009, p. 563) – a interação (a livre comunicação entre humanos) é uma conquista eminentemente tecnológica –, a interatividade não é mais do que a consequência de si mesma, alcançada pelo aperfeiçoamento tecnológico do suporte. Talvez seja preciso admitir que as trajetórias de formação e a intensidade das relações requerem observação, no decurso de um processo, e não à luz dos conteúdos (produtos), sob risco de se valorizar mais o produto que seu produtor desconectado do espaço histórico, social e cultural. 87 Sobre isso, deve ser observada a dinâmica comunicacional que reconheça a importância das inversões dos sujeitos comunicacionais e das negociações entre eles. Até porque a informação é vazia de sentido em si mesma. E o sentido atribuído a ela por um grupo não é o mesmo, não é comum e não pode ser acessível senão por um processo de significação cultural. Caso contrário, o processo se torna mecânico − ação e reação. Em vista disso, a mediação, interação e interatividade não poderiam se limitar a fornecer respostas às dúvidas e ou questões dos alunos. O que se espera de um ato comunicativo é que ele possa refletir as conexões estabelecidas entres os sujeitos em formação, que são constituídas na relação entre eles, de acordo com os valores que atribuem às suas relações. Essas relações seriam então múltiplas, entrelaçadas e promotoras de “inter-ações” contínuas durante as trajetórias de formação. Em resumo, os elementos sócio-históricos da formação on-line têm como ponto de contato a relação, a qual é requisito para promover ambientes propícios ao processo formativo on-line. Cada elemento não acontece em separado, nem tampouco linearmente. Em um processo complementar, um dá base ou prepara o processo seguinte sem, entretanto, se converter em outro elemento. Portanto, o que os converge é nada mais que seu núcleo constituinte, isto é, a relação nas diferentes esferas e dimensões da formação. Talvez seja a relação a grande unidade de tensão para o fazer docente e campo fértil das trajetórias de formações e, oxalá aprendizagens, que se opõem rigidamente a qualquer proposta formativa reducionista. A relação é a base de um sistema de processos complexos que não se pode reduzir, sob risco de prejuízo, parafraseando Vygotsky, a processos elementares, isto é, processos em que se isola um ou outro elemento a ações pontuais (ora mediativas, interacionais ou interativas). Assim, as trajetórias de formações e percursos de aprendizagem subsidiados pela mediação, interação e interatividade, sustentados por relações profícuas à negociação de conceitos nas esferas intra e interpessoal, convergem em um ponto comum, potencializador de aprendizagens. Pelo exposto nos tópicos que compõem o corrente capítulo, apresentamos os pressupostos teóricos e alguns conceitos de mediação, interação e interatividade sobre os quais não tivemos qualquer pretensão de propor uma visão única e definitiva. Eles constituem as compreensões basilares que iluminaram o olhar sobre os achados desta pesquisa. Não 88 obstante, tão somente limitamo-nos a estabelecer as respectivas aproximações entre eles, e, para isso, entendemos que o ponto de contato entre eles, ou a ‘unidade’, é a relação. Assim: a) as relações que se formam entre os sujeitos em formação é que aproximam os respectivos elementos; b) as relações são vitais para suas ocorrências; e, c) as relações tornam os elementos interdependentes e sistêmicos. Implica frisar que, em processos formativos on-line que busquem promover o desenvolvimento de trajetórias de formações efetivas, “todas as funções superiores originam- se das relações reais entre os indivíduos humanos” (VYGOTSKY, 1991, p. 41). Por inferência, tomamos que as relações humanas produzem elementos de apoio para a construção de eventos que conduzem a situações de aprendizagens. Encerramos o capítulo explicitando o que aproxima os respectivos conceitos, e, ainda, nossa compreensão da dificuldade e mesmo impossibilidade de pensá-los separadamente em uma formação on-line. Assim, resume-se que mediação, interação e interatividade são processos imbricados e se formam por meio de relações sociais. No próximo capítulo abordamos o conhecimento, o caminho e o percurso metodológico desta pesquisa. 89 4 O CAMINHO ESCOLHIDO: MULTIRREFERENCIALIDADE COMO PERCURSO METODOLÓGICO Neste capítulo explicitamos o referencial teórico-metodológico, princípio orientador do caminho trilhado, o ponto de contato das linhas investigativas que se estendem sobre nosso objeto de pesquisa. Além disso, serão apresentadas as definições da pesquisa e sua implementação, com destaque para os recursos empregados na coleta, organização e apreciação dos achados. No que tange à investigação na área de educação, há uma pluralidade de possibilidades e opções metodológicas a serem utilizadas. A escolha da metodologia se deve à função e natureza do problema a se observar. As pesquisas em educação têm-se referenciado, nos últimos anos, às contribuições das abordagens qualitativas que possibilitem a aproximação à realidade investigada (VILELA, 2003). A causa está na complexidade dos objetos de estudo da área, para cuja análise a vertente positivista tem se demonstrado pouco eficaz. Isso acontece porque a linearidade da perspectiva positivista valoriza trazer à luz dados objetivos, mensuráveis, buscando regularidades e tendências observáveis. Em consequência, coloca-se em cheque se esta aproximação é, de fato, mais adequada para estudar algo abrangente, dinâmico e emaranhado, como os processos humanos e sociais, que são eminentemente complexos. Visando melhorar a compreensão dos fenômenos das realidades complexas, fundamentamo-nos na perspectiva qualitativa de pesquisa, em busca de compreender os significados atribuídos pelos sujeitos às suas ações. Em síntese, o referencial metodológico adotado se alicerça na abordagem qualitativa de pesquisa em educação. O viés que orientou a abordagem está na procura por compreender a realidade tal como ela se configura e é experienciada pelos sujeitos, considerando o que pensam e como agem (valores, representações, crenças, opiniões, atitudes, hábitos, perspectivas). Por considerarmos pertinente seguir uma metodologia de investigação qualitativa e interpretativa, julgamos que o mais adequado para perceber os processos dos fenômenos inerentes à problemática posta seria tentar responder às questões: quais os entendimentos e as percepções construídas pelos sujeitos aprendizagem nas trajetórias de formação on- line nos cursos da UAB-UFMT, sobre a mediação, interação e interatividade? 90 Para Denzin e Lincoln (2006), a pesquisa qualitativa pode ser compreendida como um conjunto de práticas materiais e interpretativas que modificam o mundo; também pode ser compreendida em representações documentais nas quais são empregadas técnicas como as notas de campo, gravações, lembretes, entrevistas,conversas e fotografias. Assim a pesquisa qualitativa, atribui, por meio interpretativo da realidade, visibilidade ao mundo e ao observador no mundo. Denzin e Lincoln (2006) afirmam que a escolha do método de pesquisa considera os critérios de adequação aos conceitos envolvidos, aos objetivos propostos para a pesquisa, à validade e à confiabilidade. E acrescentam que, ao mesmo tempo, o método deve assegurar que o problema seja observado à luz de uma forma válida, pois sua definição se faz fundamental. As pesquisas qualitativas se orientam na compreensão de processos e não na definição de produtos (STAKE, 2011). Preocupam-se mais em compreender e interpretar os fatos e os fenômenos e como estes se manifestam, em vez de buscar determinar-lhes as causas. Suas técnicas colocam o pesquisador em contato direto e aprofundado com os sujeitos e o contexto de pesquisa, permitindo assim compreender, com detalhe, o que eles pensam sobre determinado assunto ou fazem em determinadas circunstâncias (DENZIN; LINCOLN, 2006). No entendimento da complexidade da pesquisa em educação, adotamos uma postura epistemológica relacionada à abordagem multirreferencial. Esta abordagem é percebida como instrumento dialógico de articulação das várias perspectivas teóricas que possibilitam não só situar as vivências da pesquisa, como constituir a fundamentação teórica adequada aos entendimentos, compreensões e representações das realidades observadas que se interpenetram. A referência base da abordagem multirreferencial na educação se deve ao professor pesquisador, Jacques Ardoino, que lecionou nos anos 1960 na Universidade de Paris-VIII. Multirreferencialidade, na sua origem, é um assunto de pesquisadores e de práticos também. E uma resposta à constatação da complexidade das práticas sociais e, num segundo tempo, o esforço para dar conta, de um modo um pouco mais rigoroso, desta mesma complexidade, diversidade e pluralidade. (ARDOINO, 1998, p. 205, grifo nosso) Multirreferencialidade é uma pluralidade de olhares dirigidos a uma realidade e, em segundo lugar, uma pluralidade de linguagens para traduzir esta mesma realidade e os olhares dirigidos a ela. O que sublinha a necessidade da linguagem correspondente para dar conta das especificidades desses olhares. (ARDOINO, 1998, p. 205, grifo nosso) 91 Os pressupostos da multirreferencialidade possibilitam uma compreensão plural e heterogênea dos fenômenos estudados, propondo estabelecer um “novo olhar” sobre o “humano”. E, nas palavras de Martins (2004, p. 86), trata-se da “conjugação de várias correntes teóricas, o que se desdobra em nova perspectiva epistemológica na construção do conhecimento sobre os fenômenos sociais, principalmente os educativos”. A perspectiva multirreferencial coloca [...] em discussão as bases sobre as quais construímos nosso conhecimento, propondo sua ampliação e sua complexificação: para além daquilo que pode ser grupado e contado (no sentido de numerado), vai também nos interessar aquilo que é contado (pela voz que diz) pela memória e pela fluidez do cotidiano, o que escapa, o lapso, a história, a fotografia esquecida na gaveta, a incerteza, o improvável, o imponderável. (MARTINS, 2004, p. 93) Consoante o fragmento de texto, nossa pesquisa se caracteriza pela compreensão dos significados desvelados pelos alunos, professores, tutores e coordenadores, tomando a sua singularidade e complexidade, em face do fenômeno educativo, conjugadas em ambientes virtuais de formação on-line. Optamos pela abordagem multirreferencial e pelos conceitos que a ela se associam, por julgá-los imprescindíveis para a construção de uma linha teórico-metodológica que dê sustentação para as articulações epistemológicas que não visam ao engessamento e tampouco ao reducionismo ou compartimentalização do objeto investigativo em tela. Em acréscimo a tal argumento, destacamos que a multirreferencialidade dá condições de estabelecermos compreensões sobre os elementos sócio-históricos da formação on-line e os sujeitos em formação, de acordo com a dinamicidade inerente aos elementos em relação aos sujeitos e que recobraria, contudo, o próprio processo formativo on-line. Precisamos sair do conforto das metodologias prontas. É o fazer ciência, o criar, o construir ciência que definirá a “composição” (a bricolagem) metodológica. E na construção do campo de pesquisa que se define a elaboração (in loco) das metodologias (a composição inteligente das mesmas) e não o inverso. [...] A metodologia é um conjunto de procedimentos necessários no fazer e criar ciência, no entanto, ela só é definida (enquanto fazer ciência) a posteriori, jamais a priori, sob pena de conformismo. (BORBA, 1998, p. 17, grifo do autor) A multirrefencialidade propõe a realização de leituras plurais por meio de referências múltiplas, sem que estas se reduzam umas às outras. Para delinear nosso objeto não reduzimos 92 mediação à interação, nem à interatividade, nem qualquer uma delas às outras duas. Com isso, assumimos as relações e inter-relações mediante sua complexidade. Assumindo plenamente a hipótese da complexidade, até mesmo da hipercomplexidade, da realidade a respeito da qual nos questionamos, a abordagem multirreferencial propõe-se a uma leitura plural de seus objetos (práticos e teóricos), sob diferentes pontos de vista, que implicam tanto visões específicas quanto linguagens apropriadas às descrições exigidas, em função de sistemas de referências distintos, considerados, reconhecidos explicitamente como não-redutíveis uns aos outros, ou seja, heterogêneos. (ARDOINO, 1998, p. 24) A leitura plural, sob diferentes pontos de vista, faz da multirreferencialidade uma abordagem de flexibilidade que trata dos princípios teóricos que nos permitem situar dentro da complexidade multidimensional da pesquisa de campo, buscando o necessário para compreender o que estava acontecendo e como estava (BORBA, 2001; BURNHAM, 1993; BURNHAM; FAGUNDES 2001 e MARTINS, 2004). Lê-se nesses autores que a articulação possibilitada pela abordagem multirreferencial não pode ser reduzida a uma suposta superficialidade, pois requer a percepção da impossibilidade de cada perspectiva teórica conseguir, sozinha, abranger a totalidade das situações-problema vivenciadas na prática da pesquisa. Assim, cabe ao exercício dialógico, como base para qualificar as proposições e compreensões apreendidas do objeto de estudo, articular as ideias e conceitos fundantes que dão apoio à pesquisa. A multirreferencialidade pode também ser tomada como uma proposta de bricolagem ou uma contação da história de certa tessitura social vivenciada pelas pessoas que participaram da trama. Ao considerar Georges Lapassade e Claude Lévi Strauss, Martins (2004, p.90) sugere que a ideia de bricolagem origina-se na comparação da ação representada pelo termo francês bricoleur, que se refere ao trabalhador manual, artesão. Amparado nisso, pode-se dizer que o trabalho científico tem como característica o fato de o pesquisador negociar com a realidade, por meio da costura de pedaços de teorias heterogêneas, a fim de estabelecer um conhecimento plural no desvelamento dessa mesma realidade partilhada por vários sujeitos. Dessa forma, a percepção da complexidade dos processos educativos nos ambientes on- line envolvem processos sociais dinâmicos entre os sujeitos sócio-histórico-culturais, os materiais, os ambientes e as tecnologias que se interpenetram e influenciam-se mutuamente. 93 A abordagem multirreferencial dá-nos condição para olharmos o fenômeno educativo de maneira sistêmica. Estabelecemos como referências para a compreensão dos achados da pesquisa os elementos sócio-históricos da formação on-line postos: mediação, interação e interatividade, a partir dos entendimentos e percepções que dão sustentação para as relações que seestabelecem entre professores, alunos e tutores nas trajetórias de formações e percursos de aprendizagens na formação on-line. É com esta compreensão que, adiante, lançamos mãos dos achados da pesquisa e estabelecemos núcleos de significação que são organizações que acomodam os desvelamentos dos sujeitos da pesquisa e que sustentam nossas compreensões constituídas e constitutivas da própria realidade tomada como um fenômeno complexo. Conhecida a proposta teórico-metodológica desta investigação, estabelecemos alguns passos e referenciais de observação para desenvolver nossa caminhada. Os passos não são endereços fixos ou caminhos predefinidos, mas têm efeito de convite para a apreciação nesta significativa aventura que a pesquisa permite experienciar. Assim, vejamos os caminhos trilhados: a) Levantamento de referencial bibliográfico em banco de dados on-line sobre os elementos da tese. b) Revisão bibliográfica baseada no levantamento inicial, buscando aproximação com os autores em pesquisas correlatas. c) Definição dos cursos e lócus de pesquisa com base nos critérios estabelecidos; d) Observação direta dos ambientes Moodle dos cursos de ADMPUB 2009, CNM 2009, PED 2009 e PEDJP, para a definição dos critérios e lócus de pesquisa. e) Análise documental dos projetos dos cursos para compreender a organização e o funcionamento. f) Definição dos sujeitos com base nos cursos selecionados (alunos, professores, tutores e coordenação). g) Preparação e aplicação dos instrumentos de coleta de dados com os sujeitos da pesquisa. h) Sistematização e organização dos achados da pesquisa. i) Evidenciação e compreensão dos achados da pesquisa. j) Elaboração do relatório final da tese. Os passos listados não foram seguidos sequencialmente, ao contrário, muitas vezes foram combinados de forma que pudéssemos olhar de um a outro ponto do caminho, 94 adiantando ou retrocedendo as passadas e o caminho, em função daquilo por que optássemos apreciar. O tópico seguinte apresenta o lócus da pesquisa. 4.1 FOCALIZANDO O OBJETO: O LÓCUS DA PESQUISA O lócus da pesquisa se constituiu de cursos de graduação on-line que compõem o sistema do programa da Universidade Aberta do Brasil (UAB) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). A opção por esta instituição deve-se a dois motivos basilares: por ser a primeira Instituição Federal de Ensino Superior (IFES) a ofertar cursos a distância; e pelo tempo de inserção e atuação deste pesquisador nesses cursos. Importou secundariamente participar das discussões sobre temas nesta área no grupo de pesquisa LêTECE (Laboratório de Estudos sobre Tecnologias da Informação e Comunicação na Educação) do Programa de Pós- Graduação do Instituto de Educação (PPGE/IE) da UFMT. A definição dos critérios que delimitaram o cenário da pesquisa (curso – turmas – sujeitos) respaldou-se nos cursos de graduação da UAB desenvolvidos no ambiente Moodle. Para o delineamento dos critérios de pesquisa, adentramos os ambientes para observação e compreensão dos cursos em si, a fim de verificar-lhes a organização e os recursos neles disponibilizados. A observação dos ambientes dos cursos investigados ocorreu em maio (CNM 2009, PED 2009 e PEDJP) e junho (ADMPUB 2009) de 2013. Embora tenha centrado nestes dois meses, as observações não se resumiram a isso, pois, o processo de ir e vir, de ver e rever, foi uma constante durante a investigação. A partir da observação dos ambientes Moodle definimos os cursos, turmas, sujeitos e instrumentos para recolha de achados. Das observações estabeleceu-se o critério para a inclusão dos cursos que tivessem carga horária concluída igual ou maior que 60%. Os sujeitos foram todos: coordenadores, professores, tutores e alunos. Com os alunos iniciamos a aplicação de questionário, seguido de realização de entrevistas. Com os coordenadores, professores e tutores dos cursos realizamos entrevistas. Para se chegar aos 95 professores e tutores, partimos dos achados dos questionários e entrevistas com os alunos, e das entrevistas com os coordenadores. O critério de seleção daqueles sujeitos veio das respostas ao questionamento sobre quais seriam as disciplinas e professores que mais possibilitaram aprendizagens, feito aos alunos e coordenadores. Esses professores e tutores foram aqueles informados pelo menos duas vezes pelos alunos e coordenadores. Descartamos os cursos que não atendessem ao critério de 60%, no mínimo, da carga horária total já realizada ou, ainda, que estivessem em fase de conclusão. O motivo para o descarte dos cursos recém-iniciados deve-se ao fato de estarem em fase de criação, isto é, principiando. Quanto aos concluídos ou próximos de sua conclusão, são dois os motivos: seus alunos, porque são remanescentes, já em período adicional para integralização curricular; e os ambientes, porque muitas vezes são utilizados estritamente como meio para a entrega de atividades de uns poucos alunos, o que acarreta interlocuções muito amiudadas entre alunos e professores. Quaisquer das situações inviabilizariam alcançar o objetivo posto nesta investigação. Mas por que optamos pelo critério mínimo de 60% da carga horária total do curso? A escolha respaldou-se na assertiva de que, até atingir sua fase intermediária, os cursos sofrem uma redução significativa no número de alunos. Na raiz deste problema pode estar o não estabelecimento de um ritmo de estudo adequado, em razão do não acompanhamento das atividades, provocado pelo acúmulo de leituras e atividades, o que corrobora o trancamento, abandono, desistência ou evasão. Para além das nossas experiências e constatações sobre o índice de desistência dos alunos na modalidade on-line, temos também o que é identificado pelo trabalho de Palloff e Pratt (2004), ainda que em contexto norte-americano. Além disso, fizemos um levantamento dos cursos nos quais observamos considerável redução de alunos e turmas já nos dois primeiros anos do curso. Em relação à realidade brasileira quanto à evasão no ensino superior, Santos e Giraffa (2013) e Ribeiro (2005) apresentam o resultado de uma pesquisa fundamentada nos relatórios dos Censos do Ensino Superior. Em seu trabalho observam que os índices carecem, além do olhar quantitativo e meramente institucional, de um olhar qualitativo sobre eles, tornando-se também imprescindível compreender a visão dos alunos sobre tal fenômeno. O termo evasão aqui é utilizado genericamente com o objetivo de descrever situações para a não continuidade do aluno no curso, por motivos de trancamento, abandono e/ou desistência. Para aprofundar o 96 tema, sugerimos a leitura dos autores supracitadas, que constam nas referências bibliográficas desta tese (MARTINS ET AL. 2013; NETTO; GUIDOTTI; SANTOS 2012 e SOUZA; PETRÓ; GESSINGER, 2012). Mesmo que as questões sobre trancamento, abandono, desistência ou evasão dos alunos não constituam o foco desta pesquisa, apresentamos um resumo deste índice para reiterar as evidências sobre a realidade dos cursos com os quais trabalhamos, e aproveitamos a oportunidade para ratificar a definição do critério de seleção. Vejamos a Tabela 2: Tabela 2 - Número de alunos inscritos em cada curso para fixação do critério de seleção de curso com 60% do currículo. Curso Inscritos (1) Matriculados (2) Total de alunos matriculados e ativos (%) ADMPUB 2009 600 326 54,33% CNM 2009 200 82 41% PED 2009 150 95 63,33% PEDJP 300 224 74,66% Total geral 1250 727 58,16% Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor (1) Número de alunos inscritos em cada um dos cursos a partir de 2009. (2) Referem-se aos alunos matriculados em cada um dos cursos, censo ano calendário de 2013. O percentual escolhido (60%) para a definição do critério dos cursos já realizados no âmbito dos cursos de graduação da UAB da UFMT foi intencional, como ficou demonstrado naTabela 2. Ademais, caso exista pertinência em estabelecer alguma relação entre os elementos sócio-históricos da formação on-line, como reflexo ou influências para a permanência dos alunos nos cursos on-line, faremos isso posteriormente. No momento da pesquisa, a UAB da UFMT contava com o total de onze cursos de graduação on-line. Deste universo, quatro deles atenderam ao critério de seleção: ADMPUB 2009, PED 2009, PEDJP e CNM 2009. Observamos na Tabela 2 que os cursos ADMPUB 2009 e CNM 2009 tiveram a maior redução de alunos. No caso do primeiro, o decréscimo de alunos fez com que determinadas turmas se encerrassem e seus alunos fossem realocados ou redistribuídos entre as demais turmas que se encontravam em andamento; porém, foram mantidas as relações entre alunos e tutores previstas no projeto do curso. 97 Portanto, no que concerne ao acompanhamento das atividades no ambiente, não houve prejuízo para os alunos, pois foi mantida a relação máxima de 25 alunos para cada tutor (25x1). A exceção ficou com o curso de PEDJP, cuja relação estabelecida, desde seu início, foi de 15x1. Ainda que expressivamente baixa, conferindo excepcionalidade aos motivos de evasão dos alunos neste curso, destacamos a forte crise financeira que afetou o Japão no ano de 2010 e a catástrofe natural provocada pelo tsunami que varreu parte do território japonês em 11 de março de 2011. Observando-se a necessidade e a importância em se apresentar os elementos conceptivos e orientadores da ação didático-pedagógica dos cursos investigados, fomos em busca por identificar, nos PPC dos cursos, as orientações e norteamentos sobre os processos de ensino e aprendizagem. De maneira sucinta, releva-se o objetivo formativo, a compreensão sobre o formato do curso, a estrutura administrativo-pedagógica e o sistema de tutoria proposto. Os projetos dos cursos são referenciados como Projeto Pedagógico do Curso (PPC) para o curso de ADMPUB 2009 e CNM 2009. Para os cursos de PED 2009 e PEDJP, a referência é a Projeto Político Pedagógico (PPP). Ainda que para os cursos de ADMPUB 2009 e CNM 2009 a nomenclatura seja PPC, no corpo dos respectivos projetos surgem referências a PPP. Diante disso, como não é objetivo desta investigação delimitar e definir concepção ou uso dos respectivos termos, buscamos apresentar seu emprego tal como identificado nos documentos oficiais. Porém, adotamos a nomenclatura PPC para referenciar os projetos de todos os cursos que compõem a pesquisa. No PPC do curso de Bacharelado em ADMPUB 2009, o objetivo da formação é indicado como Formar profissionais com amplo conhecimento de Administração Pública, capazes de atuarem no âmbito federal, estadual e municipal, administrando com competência as organizações governamentais e não governamentais, de modo proativo, democrático e ético, tendo em vista a transformação e o desenvolvimento da sociedade e do país. (p. 19-20) Para isso, são propostas atividades que “visam a integração dos acadêmicos à metodologia de ensino”. Dentre essas atividades são indicadas as de capacitação no AVA Moodle que objetiva “habilitar o aluno a lidar com as tecnologias que dão suporte ao curso” (PPC ADMPUB 2009, p. 33). Essas capacitações destinam-se a tutores e alunos, caracterizando uma primeira disciplina focada em estudos para a introdução na ainda 98 modalidade EaD com o objetivo de, entre outros, tratar do estudo autônomo e do AVA Moodle. Este curso ocorre presencialmente e também com atividades on-line. De acordo com o PPC, os processos de ensino e aprendizagem estão organizados em um apoio institucional e uma mediação pedagógica que garantam as condições necessárias à efetivação do ato educativo. A concepção sobre o formato do curso − curso em EaD de formação on-line −, é informada com base de que a EaD não pode ser reduzida a questões metodológicas, ou a simples gestão acadêmico-administrativa, ou como possibilidade apenas de emprego de Novas Tecnologias da Comunicação (NTCs) na prática docente e no processo formativo dos estudantes. (PPC ADMPUB 2009, p. 16) Segue informando que não existe um “modelo” único para oferta de cursos neste formato, mas que ao longo dos anos cada instituição vem construindo sua própria experiência e sua identidade se funda nos aspectos locais e na trajetória da instituição promotora e de seus profissionais. A essa experiência se atribui aquela iniciada em 1992 pelo NEAD e possibilitou a implementação do Programa Interinstitucional de Formação Docente para o Estado de Mato Grosso. O PPC traz ainda que o curso atende a [...] configuração teórica, metodológica, organizacional, característico dessa modalidade, incluindo material didático específico, o que colabora para a ampliação da experiência de formação a distância por parte da UFMT e, por conseguinte, com a “institucionalização” da modalidade de Educação a Distância nas universidades públicas brasileiras. (PPC ADMPUB 2009, p. 14) No PPC temos que a estrutura administrativo-pedagógica se funda em uma organização de “apoio institucional e uma mediação pedagógica que garantam as condições necessárias à efetivação do ato educativo”. (p. 35). Como sujeitos do processo formativo, temos os professores (autores e pesquisadores) e os tutores (presenciais e a distância). Destaca-se que para os professores a denominação usual é a de Especialista e, quanto às funções específicas dos “tutores presenciais” e dos “tutores a distância”, as denominações dependem do sistema de tutoria adotado e da disponibilidade ou não de profissionais formados em Administração nos municípios polos. Considera-se importante reforçar o anteriormente dito, que a condução do curso se centrou no trabalho do tutor presencial nos respectivos polos do curso. Consta no PPC que o sistema de tutoria e a concepção adotada pela UFMT correspondem a uma “abordagem sistêmica e interacionista da modalidade a distância na qual 99 a tutoria é um dos elementos do processo educativo que possibilita a ressignificação da educação e o rompimento da noção de tempo-espaço da escola tradicional” (p. 42). A orientação acadêmica, então, traria a possibilidade de se garantir o tempo como o tempo de cada um, na perspectiva do respeito às diversidades e singularidades de grupos e/ou indivíduos. O processo dialógico que se estabelece entre estudante e tutor é único, porque se concretiza num tempo/espaço de cada um dos estudantes em particular, de maneira diferente do que acontece na relação educacional tradicional, em que o tempo e espaço são objetivados, dissociados da subjetividade do sujeito. Na educação a distância, a interlocução estudante- tutor é exclusiva. O tutor, paradoxalmente ao sentido atribuído ao termo “distância”, necessita estar permanentemente em contato com o estudante, mediante a manutenção do processo dialógico, em que o entorno, o percurso, as expectativas, as realizações, as dúvidas, as dificuldades são elementos dinamizadores desse processo. Neste sentido, a UFMT entende o tutor como o mediador do processo ensino-aprendizagem, no sentido de apoiar o estudante em sua interlocução com o material didático e com os colegas de curso, participando colaborativamente na atividade docente dos professores do curso. (p. 42-43) No desenvolvimento do curso, o tutor é responsável pelo acompanhamento e avaliação do percurso de cada estudante, motivando-o e contribuindo para seu desenvolvimento e das atividades acadêmicas e de aprendizagem. O acompanhamento acontece através da orientação acadêmica materializada na interação entre tutor e aluno por meio das diferentes ferramentas disponíveis no AVA. São citados os seguintes recursos, que poderão ser utilizados na interlocução: AVA Moodle, com recursos de fórum, chat, biblioteca virtual, agenda, repositório de tarefas, questionários, recursos de acompanhamento e controle decada estudante, entre outros; videoaulas; telefone; e-mail; e, webconferência. Quanto às atribuições dos professores denominados de especialistas, compete-lhes acompanhar o desenvolvimento do curso para monitorar e avaliar o sistema como um todo, ou alguns de seus subsistemas, para contribuir no processo de reconstrução da caminhada da Instituição na modalidade a distância. De modo geral, observa-se que as premissas que orientam as interlocuções entre os sujeitos estão calcadas no “interagir permanentemente com os colegas, os professores 100 responsáveis pelas disciplinas, os tutores a distância (orientadores por área de conhecimento) e tutores presenciais, todas as vezes que sentir necessidade” (p. 50). O PPC do curso de Licenciatura CNM 2009 evidencia considerável brevidade das informações disponibilizadas. Sobre o formato do curso constata-se resumidamente que neste tipo de formação, a referência é a formação em EaD on-line, “não conta, comumentemente, com a presença física do professor” (PPC CNM 2009, p. 104). A referência ao formato do curso também se remete ao NEAD e à sua experiência. Ademais, evidencia que a [...] modalidade exige uma interação contínua entre o formando e o formador através de tecnologias o aluno é acolhido e acompanhado por tutores, locais e a distância, e professores especialistas que periodicamente interagem com o aluno, presencialmente, visitando os polos mensalmente com o objetivo de sanar dúvidas dos tutores, orientando os para a utilização dos fascículos e o cumprimento das tarefas propostas, tanto teóricas quanto experimentais. (PPC CNM 2009, p. 7) O objetivo da formação se destina à “formação de professores de Ciências e Matemática do ensino fundamental, considerando não só os saberes específicos em Ciências e Matemática, mas, também, a formação pedagógica, (...) esse curso deverá capacitar o graduando para que atue como principal agente na formação dos alunos” (PPC CNM 2009, p. 11). A estrutura administrativo-pedagógica segue um funcionamento didático pedagógico que prioriza o [...] acompanhamento de cada um dos estudantes tanto pelos tutores como por professores especialistas. Pois, ao estreitar essas relações e promover maior proximidade entre discentes e docentes, num processo de respeito ao ritmo de estudos, disponibilidade de tempo e espaço de cada um, busca-se evitar que os estudantes sintam-se sozinhos na caminhada de ensino e a aprendizagem. (PPC CNM 2009, p. 102) O curso conta com professores pesquisadores-conteudistas e tutores presenciais e a distância. Sobre os professores pesquisadores-conteudistas, eles devem, além de produzir o material, capacitar e formar os tutores, prestando assistência a estes durante a vigência de sua disciplina. Embora o curso preveja o tutor presencial e a distância, na prática o curso se desenvolveu contando com o presencial. Sobre suas atribuições, é descrito no PPC que os tutores devem “buscar interação permanente com os colegas, os tutores, e com os especialistas 101 todas as vezes que sentir necessidade” (PPC CNM 2009, p. 103). Em complementaridade, ao tutor compete [...] mediar o processo ensino- aprendizagem, atuar como interlocutor do aluno com o material didático e com colegas do curso, assim como colaborar na atividade docente dos professores do curso. É também o responsável pelo acompanhamento e avaliação do percurso de cada estudante sob sua orientação e mantém acesso ao AVA. (PPC CNM 2009, p. 114) Entretanto, o PPC diz que tanto o professor especialista como os tutores são responsáveis pelo acompanhamento do acesso dos estudantes ao AVA. Mas esses professores especialistas periodicamente interagem com o aluno, “presencialmente, visitando os polos mensalmente com o objetivo de sanar dúvidas dos tutores, orientando-os para a utilização dos fascículos e o cumprimento das tarefas propostas, tanto teóricas quanto experimentais” (PPC CNM 2009, p. 7). Ainda em atenção à tutoria, o tutor presencial é tomado como “o mais próximo de um professor com quem o aluno irá conviver durante o curso” (PPC CNM 2009, p. 111). Do que se observa dos dois primeiros PPC apresentados, é a grande proximidade entre eles naquilo que se refere às experiências em que se fundamentam e, em linhas gerais, nos princípios norteadores que buscam estabelecer um processo de acompanhamento e mediação como eixo do processo formativo. Ambos os cursos aderiram unicamente à tutoria presencial e, disso, veremos, resultou em um trabalho mais direto com os alunos nos polos presenciais. Neste PPC dos cursos vemos certas similaridades enquanto construção textual. As informações estão organizadas em tópicos e subtópicos, mas estão consideravelmente diluídas, pulverizadas no texto; isso dificulta uma localização precisa da figura do fazer docente e, maneira análoga ao proposto pelo PPC do curso de ADMPUB 2009, põe de forma mais pulverizada no texto e mesmo com caráter omisso. Diferente disso tem-se para os PPC dos cursos de Pedagogia (2009 e Acordo Brasil/Japão) uma organização que permite mais facilmente a localização de informações no texto. Trazem ainda outros elementos que clarificam as orientações e propostas didático- pedagógicas, apresentando viés conceptivo sobre a formação ensejada. Sendo assim, os pontos abordados aplicam-se a ambos os cursos. Por isso, não se atêm às, obviamente, particularidades inerentes a cada um dos cursos. No PPC do curso de PED 2009 se propõe desenvolver nos estudantes formação teórica e metodológica de qualidade, na direção de suas preocupações fundamentais: 102 [...] contribuir para a compreensão do processo educativo na primeira etapa da Educação Básica, em suas múltiplas inter-relações pedagógicas, históricas, sociais, econômicas, políticas e culturais; contribuir para o conhecimento dos fundamentos teóricos das ciências que integram a proposta de atendimento à criança, e, concomitantemente, seu tratamento didático-metodológico exigido, no âmbito da educação preferencialmente da educação infantil; desenvolver autonomia pessoal e intelectual que lhe permita relacionar-se com o mundo do conhecimento e com os demais atores que integram o contexto educacional, conduzindo, assim, sua caminhada. (PPC PED 2009, p. 48) Com base nestes objetivos, ao buscar-se evidenciar a concepção sobre o formato do curso, encontra-se que a educação a distância é compreendida, no interior do projeto, como possibilidade na luta pela democracia social. Por isso ela não é reduzida a questões meramente tecnológicas como possiblidade de emprego e uso de tecnologias nas práticas formativas. Disso, a EAD se apresenta como possibilidade de ampliação da trama ampla de relações sociais, entendida como constituinte importante da teia de ações significativas, na busca de relações sociais mais equitativas e justas. Diante disso, conforme o PPC, busca-se [...] maior respeito aos ritmos pessoais, à medida que, suplantando um modelo de fluxo linear, possibilita uma dimensão cíclica com um ir-e-vir, um retomar, um rever, um refazer, abertos aos acontecimentos produzidos por sujeitos culturais, na circunstancialidade de seus tempos-espaços próprios e, portanto, diversos. A escolha dessa modalidade se coaduna com os eixos curriculares propostos no curso (historicidade, construção e diversidade) e, juntamente com todos os outros elementos do currículo já explicitados, contribui para um programa de formação e professores que se inclui num projeto político de busca da transformação educacional. (PPC PED 2009, p. 67-68) Deste excerto depreende-se um entrelaçamento e coerência dos objetivos e concepções de formação que orientam práticas didático-pedagógicas em contexto on-line. Neste segmento, verifica-se que o princípio metodológico definido é a opção pelo interacionismo na qual o conhecimento não é dado a priori,nem pelo meio social, mas por uma construção humana de significados que buscam fazer sentido do seu mundo (JONASSEN, 1996), A concepção intrínseca presente no PPC é de que o “processo de construção que se dá na relação do sujeito (que conhece) com o entorno físico e social (que é conhecido), devendo ser significativo para o sujeito” (PPC PED 2009, p. 39). 103 O PPC traz ainda a concepção sobre aprendizagem e conhecimento. Para esta primeira, ela vai, portanto, depender das condições do indivíduo – “bagagem hereditária, motivação, interesse − bem assim das condições do meio, do aprendente como do professor, dos estudantes como da instituição, ou da escola, que tem a função histórica de educar seus cidadãos” (PPC PED 2009, p, 39-40). Ainda, A aprendizagem pode "transpor a distância temporal ou espacial" fazendo recursos às tecnologias "unidirecionais" (um-a-um, um-em-muitos), como o livro, o telefone ou a tecnologia digital que é "multidirecional" (todos-todos), eliminando a distância ou construindo interações diferentes daquelas presenciais. Contudo, muito mais do que recorrendo à mediação tecnológica, é a relação humana, o encontro com o(s) outro(s) que possibilita ambiência de aprendizagem. Aprendizagem e educação são processos "presenciais", exigem o encontro, a troca, a co-operação, que podem ocorrer mesmo com os sujeitos estando “a distância”. (PPC PED 2009, p. 40-41) Já o conhecimento "é resultado de interações, de diálogos conosco e com os outros. No entanto, quem realiza a aprendizagem é o próprio sujeito, o estudante" (PPC PED. 2009, p. 40). Com base nestes entendimentos colocados, há no PPC quatro conceitos escolhidos − diversidade, historicidade, construção e interação − que se põem como princípios metodológicos que percebem tanto o currículo como o próprio conhecimento “como construções e produtos de relações sociais particulares e históricas e, ainda, que deve ser orientado numa perspectiva crítica em que ação-reflexão-ação se coloquem como atitude que possibilite ultrapassar o conhecimento de senso comum” (PPC PED 2009, p. 46). A diversidade trata de que é preciso que o estudante-profissional da Educação e da Educação Infantil tenha claro não só a diferença da natureza dos conhecimentos com os quais trabalha no currículo, mas, também, a diversidade na abordagem que a eles se dá, em razão do enfoque teórico-metodológico escolhido. É importante que o estudante compreenda como as diferentes abordagens determinam posicionamentos políticos na ação educativa, e que o conhecimento trabalhado nas instituições não é neutro. O conceito de diversidade se apresenta, ainda, como fundamental no curso, tendo em vista os desafios e os dilemas do multiculturalismo, em face das diversidades étnico-culturais do país. A historicidade é vista como característica das ciências. Mediante esse conceito, espera- se que o estudante perceba que o conhecimento se desenvolve e é construído em determinado contexto histórico-social e cultural. O desenvolvimento do conhecimento, por ser processual, 104 não possui a limitação de início e fim, consubstanciando-se num continuum, em que avanços e retrocessos se determinam e são determinados pelas condições histórico-culturais em que as ciências são construídas. A construção perpassa todas as áreas de conhecimento do curso, para que o acadêmico reforce sua compreensão de que, os conhecimentos são históricos, resultados do processo de construção que se estabelece no e do conjunto de relações homem-homem, homem-natureza e homem-cultura. Essas relações, por serem construídas num contexto histórico e cultural, jamais serão lineares e homogêneas. O estudante deve imbuir-se do firme propósito de transformar-se num profissional que não só reproduz conhecimento, mas que também, em sua prática discente e docente, principalmente por meio das relações com seus alunos, estará mediando e produzindo conhecimentos. O princípio da interação é um conceito que assume, nesta proposta, duas perspectivas: a primeira se preocupa com o percurso do acadêmico na qualidade de sujeito que reflete, constrói, reconstrói conhecimentos e ressignifica sua história pessoal, com base nos saberes oriundos da sua prática profissional no espaço da educação infantil; a segunda compreende a interação assentada nas contribuições teóricas de Piaget e Vygotsky, que a concebem como imprescindíveis ao desenvolvimento do sujeito e, em especial, da criança pequena. Além disto, esse princípio é o que norteará, como será visto adiante, toda a organização do sistema em EAD. No que diz respeito ao sistema de tutoria, todo ele se fundamenta no acompanhamento e na mediação do processo formativo. A perspectiva posta é que o professor e tutor é tomado como facilitador e mediador da aprendizagem. No projeto está previsto os professores autores, formadores/especialistas que, além da “formatação” do curso ficam à disposição dos alunos e dos orientadores acadêmicos, além, é claro, de fazerem a formação destes. Já os orientadores acadêmicos/tutores vão acompanhar mais diretamente os alunos em sua caminhada. Assim, o curso conta com tutores (denominados de orientadores acadêmicos). O orientador é concebido como um dos sujeitos da prática educativa, participante de todo processo de interação com os demais sujeitos (estudantes, professores, técnicos). Sua função principal está em possibilitar a mediação entre o estudante e o material didático do curso. Pretende-se assim que o orientador atue como facilitador e mediador da aprendizagem, apoiando e acompanhando o estudante em seu percurso de estudo. 105 O processo dialógico que se estabelece entre estudante e orientador é previsto como único, porque ocorre num tempo/espaço de cada um dos estudantes em particular, com interlocução exclusiva. O orientador, paradoxalmente ao sentido atribuído ao termo “distância”, é um sujeito que deve se manter em permanente contato com o aluno, mediante a manutenção do processo dialógico, em que o entorno, o percurso, expectativas, realizações, dúvidas, dificuldades sejam elementos dinamizadores desse processo. Para isso, para o curso de PED 2009 mantém-se uma relação média de 20 a 25 alunos por orientador e, para o curso de PEDJP a média é de 15 por orientador. Dado o exposto, objetivou-se assim verificar nos projetos dos cursos aqueles pontos que se põem como basilares ao trabalho de investigação em pauta. Centrou-se, para isso, em compreender o objetivo formativo, a compreensão sobre o formato do curso, a estrutura administrativo-pedagógica e o sistema de tutoria proposto. Assim, foi possível com isso apreender que compreensões subjazem ao fazer docente e iluminam o desenvolvimento do curso e relações entre os sujeitos por meio destas referências. Mesmo que os projetos sigam as recomendações da UAB, no que se refere aos tutores, na prática, as opções repercutem ao ponto de a figura do tutor a distância não ser utilizado nos cursos. No trabalho no e com o AVA, as relações entre os sujeitos se fixam, mesmo que não hierarquicamente, em níveis. Primeiramente as interlocuções são entre alunostutores e tutoresprofessores. Em níveis posteriores, entre alunosprofessores além dos encontros presenciais das disciplinas. 4.2 APRECIANDO O CAMINHO: TÉCNICAS DE COLETA DOS ACHADOS DA PESQUISA Como será visto, este item levará à discussão sobre os procedimentos e técnicas utilizadas para a recolha dos achados da pesquisa. Em alguns parágrafos anteriores foi dito que utilizamos a observação dos ambientes Moodle dos cursos e dos seus respectivos projetos. Além disso, fizemos uso de questionários e realizamos entrevistas. 106 Pelos questionários objetivamos atingir maior abrangência do objeto posto em investigação. O referido instrumento permitiu-nos amplificar o alcance da pesquisa, já que fora criado eletronicamente eveiculado por meio do recurso de mensagens dos ambientes Moodle e replicados para as caixas de correio eletrônico dos sujeitos da pesquisa. No Moodle, o recurso “mensagens” permite o envio automático de mensagens para os alunos, que poderão vê-las/recebê-las quando acessarem o ambiente ou recebê-las em sua caixa de correio eletrônico previamente cadastrado no Moodle. Os alunos eram convidados a contribuir com a realização da pesquisa por meio de mensagens contendo informações resumidas acerca da pesquisa (objetivo, objeto da pesquisa, orientação para responder ao questionário, endereço (link) de acesso), as quais eram enviadas pelo ambiente. Este instrumento fora elaborado utilizando os recursos do Google docs. Até 02 de outubro de 2013 contávamos apenas com 121 participantes. Para a pouca adesão à participação na pesquisa, imaginamos três possíveis causas: não acesso dos alunos aos ambientes do curso; falta de hábito de leitura das mensagens recebidas; não habilitação do recebimento de mensagens no Moodle que redundava no consequente não reencaminhamento da mensagem para o e-mail do aluno. Por isso, insistimos no envio de mensagens diretamente para os respectivos e-mails cadastrados nos ambientes. O conjunto dessas ações, que se estende até 31 de maio de 2014, fez-nos alcançar 204 respostas de 727 alunos dos quatro cursos pesquisados. Com o questionário buscamos a horizontalização da pesquisa, de forma que ela repercutisse na participação do maior número possível de sujeitos. Este instrumento foi muito importante do ponto de vista dos achados que obtivemos e do alcance atingido com a pesquisa. Isso permitiu-nos uma visão ampla sobre os elementos sócio-históricos da formação on-line e deu-nos indicativos e insumos para a elaboração das entrevistas. Os achados obtidos pelos questionários ainda nos trouxeram informações que permitiram o delineamento do perfil dos alunos, o conhecimento das experiências com cursos on-line e a obtenção de informações sobre os elementos em si. Essas informações ao mesmo tempo em que se mostravam amplas, eram densas e evocavam realidades plurais sobre nosso problema de pesquisa. Elas subsidiaram consistentemente os diálogos que se estabeleceram com as posteriores entrevistas. Demos continuidade à investigação, no âmbito da coleta dos achados da pesquisa, com a realização de entrevistas. Em princípio, as entrevistas seriam feitas exclusivamente com 107 registros orais, no entanto, alguns contratempos obrigaram-nos a flexibilizar os procedimentos, levando-nos a aceitar a entrega da entrevistas por escrito, caso específico com os sujeitos tutores. Essa medida visou a atender às necessidades dos sujeitos e angariar o maior número possível de participantes. Essa forma de entrevista aconteceu em menor número. A fase de entrevistas foi realizada majoritariamente via Skype 7 e Hangout 8 por dois motivos, a saber: indisponibilidade dos sujeitos para a conversa presencial com o pesquisador; e a grande distância que separa a sede da universidade de seus polos. Realizar as entrevistas mediadas tecnologicamente repercutiu positivamente no sentido de possibilitar maior alcance dos sujeitos, principalmente daqueles que residem em municípios muito distantes da sede/polo e da sede da universidade em Cuiabá (ver Tabela 12). Outra modalidade de entrevista disponibilizada, que fugiu à regra, deu-se por telefone. Conforme a modalidade escolhida, por escrito ou telefone, os participantes alegaram os seguintes motivos: para a primeira modalidade, as razões oscilaram entre “não se sentiram à vontade” e/ou “não dispunham de tempo”, fosse presencial ou por meio tecnológico; já para a segunda, está na distância entre a residência e o polo e na má qualidade do sinal da internet em sua cidade. A entrevista teve por objetivo permitir-nos aprofundar questões pontuais e essenciais à pesquisa, tratadas no questionário. Pela própria característica do instrumento de coleta, a entrevista tornou alcançável falas e depoimentos dos sujeitos, pronunciados livre e espontaneamente sobre os temas abordados. Longe de estabelecer qualquer comparação ou vantagem em realizar entrevistas presenciais ou mediadas, gostaríamos de evidenciar as experiências vivenciadas. 7 O Skype é o software que permite a realização de webconferências. Possibilita a comunicação via chamadas com vídeo e voz (áudio), além de chamadas telefônicas e mensagens de texto. Permite, ainda, enviar e compartilhar arquivos nos mais variados formatos. Ele pode ser utilizado em ambientes multiplataforma/multidispositivo como: celular, computador, tablets e TV, por exemplo. Para maiores informações visite o site http://www.skype.com/pt/. O nome Skype, as marcas comerciais e os logotipos associados são produtos da Microsoft Company. 8 O Hangout é um software (ou plataforma) que permite a realização de webconferências, e realização de vídeo chamadas, chamadas de voz (áudio), comunicação textual (envio de mensagens de texto), além de chamadas telefônicas e do compartilhamento de arquivos nos mais variados formatos e, ainda, o compartilhamento de telas. O hangout pode ser sincronizado automaticamente nos mais variados dispositivos (samartphones, tablets, computadores etc.). Para maiores informações visite o site https://support.google.com/hangouts/answer/2944865?hl=pt-BR. O nome hangout, as marcas comerciais e os logotipos associados são produtos da empresa Google Inc. 108 Não se pode negar as potencialidades agregadas pelas tecnologias, principalmente no que tange à disjunção do espaço e do tempo, o que democratizou a participação dos sujeitos na pesquisa. Com as tecnologias surgem outros benefícios indiretos como a comodidade em se dialogar de qualquer e em qualquer lugar, bastando para isso um equipamento (smartphone, tablet, notebook etc.) conectado à internet. As entrevistas mediadas, utilizando o Skype ou Hangout, permitiram dialogar com sujeitos distantes geograficamente e em horários flexíveis. Isso impactou a forma de fazer a pesquisa e permitiu sua democratização, tornando- a uma realidade mais próxima dos sujeitos. Neste caso, os sujeitos podem se perceber não como meros objetos de investigação, mas atores e produtores dela. Por ouro lado, o trabalho com diversos níveis e áreas de tecnologia impõe obstáculos outros relacionados a elas próprias e também à sua utilização, tais como problemas de uso e de infraestrutura. Na realização das entrevistas enfrentamos alguns problemas e situações-problema, desde os de natureza técnica (infraestrutura, conexão internet) aos de natureza operacional (operacionalização do equipamento, uso do software). Tais ocorrências repercutiram negativamente na investigação, levando ao cancelamento, ou inviabilidade ou repetição da entrevista. Repeti-las acarretava a perda da espontaneidade e, no pior cenário, a indisponibilidade do sujeito para fazê-la. Em algumas entrevistas remarcadas houve recorrência do problema técnico e/ou operacional, levando-as ao descarte. Seguindo o caminho da facilidade e comodidade agregadas pelas tecnologias, tivemos de lidar com uma contradição que nos perseguiu durante algumas entrevistas: de um lado tínhamos a aceleração, a pressa, a superotimização do tempo (no sentido depreciativo de falta). Na maioria das entrevistas o sujeito não dispunha de reserva de tempo para participação nesta atividade porque estava comprometido com outra, assim imperava a questão de “espremer” o tempo para fazer a entrevista. Essa realidade se fez presente algumas vezes, principalmente nas primeiras entrevistas, acabando por contaminar, de certa maneira, o entrevistador. Isso gerou, portanto, expectativas frustradas por transparecer que aquele momento da entrevista não estava sendo vivido em sua plenitude. Havia limitações para o aprofundamentodos temas, dando a impressão de que o participante estava ansioso pelo fim. Tais circunstâncias provocaram a necessidade de repensar e refletir sobre o momento da entrevista para que se pudesse usufruir da melhor forma e ao máximo este momento. Os erros 109 das primeiras entrevistas realizadas e a reflexão sobre elas contribuíram para que melhorássemos as interlocuções e os diálogos, muito superficiais de início. No contexto das entrevistas virtuais, capturamos algumas impressões sobre a qualidade daquilo que se tem buscado viver (e mesmo vivido) em situações de uso mais intensivo desses aparatos tecnológicos. Observamos a prevalência da técnica em detrimento do ritmo do indivíduo, do ser social. Pareceu-nos um processo altamente contraditório no sentido de internalizar a ideologia mercantilista de “tempo é dinheiro” 9 , que aqui parafraseamos em “tempo é viver quantitativamente, é participar e estar no máximo ‘de lugares’ possíveis”. No entanto, percebemos também um movimento contrário, ao permitir experimentar, viver em intensidade e profundidade e mesmo abarcar mais sujeitos democratizando seu acesso e participação em acontecimentos que, na maioria das vezes, são vistos como meros objetos investigativos. A questão de tempo também foi verificada nas entrevistas presenciais, mas em proporções distintas das mediadas pela tecnologia. As primeiras possibilitaram vivenciar diferentes momentos de interlocução porque havia quase sempre local e tempo dedicado para sua realização. E foi justamente a possibilidade de estabelecer analogias entre as entrevistas presenciais e mediadas que nos permitiu melhorar as virtuais. É importante mencionar que a espera pela resposta de professores e alunos ao convite de participação na pesquisa foi longa, obrigando-nos a estender o prazo até o primeiro semestre de 2014. Assim, o período fixado foi de 9 de setembro de 2013 a 28 de abril de 2014 (31 de maio de 2014, o questionário). Com a explanação do percurso da pesquisa consumada, daremos sequência aos achados da pesquisa sobre os quais debruçamo-nos para interpretar seus significados intrínsecos desvelados pelas falas dos sujeitos. Essas evocações deram ensejo à compreensão e produção de conhecimentos nesta tese. 9 Segundo o site da Universia (http://noticias.universia.com.br/destaque/noticia/2013/12/26/1071857/7-dicas- financas-voce-pode-aprender-com-benjamin-franklin.html) esta expressão é atribuída Benjamin Franklin que foi um cientista, jornalista, inventor, abolicionista e diplomata americano que viveu durante o século XVIII nos Estados Unidos e seu trabalho é reconhecido até hoje, principalmente, pela descoberta da energia elétrica. 110 4.3 DEFININDO A ROTA E OS CAMINHEIROS Investigamos os cursos de graduação on-line da UAB na UFMT que utilizam o ambiente virtual de aprendizagem Moodle. A presença do Moodle tem sido significativa na realização de cursos on-line, além do que é uma realidade compartilhada por outras instituições. Diante disso, nos perguntamos se haveria alguma normativa que indicasse qual ambiente deveria ser utilizado pelas instituições parceiras da UAB. Da observação da questão, concluiu-se que inexiste uma normatização ou regimento, no sentido restrito dos termos, que prescreva o AVA a ser utilizado nos cursos on-line da UAB. As universidades têm autonomia para escolher qual ambiente utilizar. Porém, ainda que não se trate de uma restrição quanto ao ambiente a utilizar, nota-se que existe certa tendência à adoção do ambiente Moodle pelas instituições que aderiram à UAB. Cientes do que consta no site oficial da UAB, que foi criada em 2005 pelo Ministério da Educação, transcrevemos o fragmento que sugere o Moodle como aquele que pode ser adotado pelas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) parceiras. Vejamos a seguir: A indução para que as IFES utilizem a plataforma Moodle, faz parte das políticas traçadas pelo MEC, apenas fica claro que o Sistema UAB incentiva a utilização dessa plataforma no desenvolvimento de seus Sistemas. As IFES podem utilizar qualquer plataforma de EaD que prefira, desde que esta atenda as definições de comunicação e interoperabilidade que serão definidas pelo MEC. (UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL, 2006) De acordo com o excerto, o Moodle atende as definições previstas e definidas pelo MEC no que concerne a formações mediadas tecnologicamente. Só não nos foi possível observar se tais definições surgem a partir do Moodle ou, se sua recomendação de uso decorre, de fato, da verificação de sua melhor adequação aos critérios definidos. Ainda que não tenha efeito direto em nossa investigação, tais incertezas surgem e nos afetam, uma vez que recursos públicos, em um passado não tão distante, foram investidos em ambientes criados pelo próprio MEC por meio de suas secretarias. A título de exemplo, é possível citar o caso do ambiente e-Proinfo, criado em uma época em que já dispúnhamos de outros ambientes como o próprio Moodle. Disso, inferimos que o e-Proinfo poderia não atender às definições de comunicação e interoperabilidade e assim as definições poderiam ter partido do Moodle. 111 Retomando as informações disponíveis no site da UAB, observa-se que elas não restringem ou limitam o uso de um ambiente específico. Contudo, uma leitura mais atenta permite verificar a ocorrência de um caráter maior que de incentivo ao uso do Moodle. O que não se pode desconsiderar é que tal fomento ao Moodle tem possivelmente levado grande parte das IFES a adotarem-no para desenvolver seus cursos on-line. A esse respeito, Simões e Moraes (2010, p. 1) constataram que o ambiente Moodle “[...] é a ferramenta mais utilizada pelo sistema de Universidade Aberta do Brasil (UAB)”. Se optássemos por imaginar o que levou outras instituições não parceiras da UAB à adoção do Moodle, vamos constatar outros motivos diferentes dos apresentados no site da UAB. Estes outros motivadores podem ter se centrado nos aspectos técnicos e interoperacionais do ambiente, já que ao Moodle é atribuído grande potencialidade aos recursos disponíveis tanto para a gestão de cursos, como também pela disponibilidade de canais de interação e comunicação para a gestão da aprendizagem (SIMÕES; MORAES, 2010). Independentemente das ideias que estão sendo implantadas, importa o olhar o ambiente não como uma potencialidade técnica em si, mas como uma possibilidade de converter a potência técnica em artefatos que sejam significativos para a gestão das práticas formativas on-line. Isso implica a conversão de artefatos em instrumentos ricos para as práticas docentes e para os processos de ensino e aprendizagem. Em outras palavras, para que as definições de comunicação e interoperabilidade não sejam ou fiquem restritas somente às tecnologias, porém, que perpassem o entendimento de que os sujeitos imersos em processos de mediação, interação e interatividade são as entidades mais importantes na formação, que deve ser entendida, portanto, como prática social. Ainda que os cursos usem o mesmo tipo de ambiente, no Moodle, cada coordenador e equipe pedagógica tem a possibilidade de configurá-lo e otimizá-lo de acordo com suas necessidades ou interesses. Logo, cada curso será dotado de característica própria quanto aos aspectos visuais (design) e organizacionais. Outro diferencial é a forma como cada curso é conduzido e acompanhado em seu PPC – documento que estabelece as concepções e diretrizes que orientam os trabalhos didáticos realizados no ambiente. Outro ponto observado são as diferentes versões do Moodle instaladas para atendimento a cada curso. Na prática, a diferença entre versões não traz problema porque as funcionalidades e recursos são os mesmos. O que difere é a forma de integrar ou disponibilizar um ou outro recurso (ou módulo), a depender da intenção das atividades112 didático-pedagógicas. Por se tratar de um ambiente modularizado, respeitando seus pré- requisitos, os módulos podem ser adicionados. No Quadro 1 foram listadas as versões instaladas para cada um dos cursos, lócus de investigação: Quadro 1 – Versões dos ambientes Moodle instaladas para os cursos Curso Versão Moodle instalada ADMPUB 2009 Moodle 1.9.10+ (Build: 20110125) CNM 2009 Moodle 1.8.9+ (Build: 20090916) PED JP Passa da versão do Moodle 1.9.5+ (Build: 20090708) [após 2 anos de curso] para Moodle 1.9.10+ (Build: 20110125) PED 2009 Moodle 1.9.11+ (Build: 20110223) Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor A observação dos ambientes cujas versões foram listadas no Quadro 1 ocuparam parte do tempo de nossa investigação para que tomássemos conhecimento dos cursos e da organização deles. O material gerado serviu de base para estabelecermos critérios para a seleção dos cursos, turmas e sujeitos da pesquisa. A fonte dos achados dos cursos foram os registros disponibilizados pelo recurso denominado de “relatório de atividades”, recurso presente no Moodle para acompanhamento da participação dos sujeitos da formação. Com base nesta mesma técnica empregada foi possível chegar às turmas e aos sujeitos. Para esses dois últimos, valemo-nos das seguintes fontes de informação: as entrevistas realizadas com os coordenadores de cada curso, os questionários aplicados aos alunos e a observação dos ambientes. O relatório de atividades do ambiente Moodle é um recurso que registra todos os acessos realizados no curso. Armazenam informações que podem ser acessadas tanto por alunos como professores. Em linhas gerais, é possível acompanhar o processo de estudo dos alunos, saber o que acessaram, a que horas acessaram e quando acessaram determinado recurso ou atividade. Porém, se a perspectiva adotada para o processo formativo não for a de acompanhamento do processo de aprendizagem, dada a gama de informações que o ambiente registra, acessá-las pode não ser uma tarefa muito fácil. O volume de informação a ser manipulado é considerável, o que torna o trabalho lento e árduo (SILVA, 2011). 113 Partimos, então, do critério de pesquisa definido na seção 4.1, que corresponde aos 60% de carga horária cursada para cada um dos cursos. Consequentemente, centramos foco na observação dos ambientes Moodle para identificar as turmas que tivessem o maior número indicativo de registro de atividades. Para essa observação nos ambientes, lançamos mão do “relatório de atividades” que são acessíveis pelo menu de opções denominado “administração”. Do exposto, os passos podem ser assim resumidos: identificar os cursos (60%), observar sua organização e os recursos de comunicação e interação disponibilizados; identificar as turmas com maior indicativo de participação no Moodle; e identificar os sujeitos da pesquisa. Para ter acesso ao indicativo de participação, utilizamos o recurso do Moodle “relatório das atividades”, acessíveis pelo menu Administração ► Relatórios ► Estatísticas |►| Relatório das atividades. Para focar as turmas e obter estes registros, optou-se pelas disciplinas que estivessem com suas atividades já encerradas uniformemente em todos os polos. As premissas adotadas para esse procedimento se respaldaram na ideia de que quanto maior fosse o número indicativo, maior seriam as situações de ocorrências em que os professores, tutores e alunos se mantiveram expostos e altamente imbricados aos elementos sócio-históricos da formação on- line durante as trajetórias de formação e percursos de aprendizagem. Diante disso, imaginamos dois contextos distintos: 1 auto indicativo resulta do fato de que os professores e tutores são indivíduos ativos que fomentam e dão condições para a ocorrência dos elementos sócio- históricos nas trajetórias de formações dos alunos, além de motivá-los a participarem ativamente no curso; 2 auto indicativo resulta do fato de que os alunos buscam maiores esclarecimentos ou aprofundamentos dos conteúdos ou de questões relativas ao curso, com base na consolidação de trajetórias de formações calcadas nos elementos sócio- históricos da formação on-line. Porém, não foi descartada uma terceira condição, a de que tanto os professores, tutores e alunos tivessem participação e postura semelhantes e ativas na busca da promoção e manutenção de trajetórias de formações sustentadas nos elementos sócio-históricos da formação on-line. 114 Para cada um dos cursos, destacamos as três turmas com os três maiores indicativos de participação (registro de atividades) e, destas, selecionamos aquela que corresponde ao maior número. Os sujeitos da pesquisa seriam os professores e tutores que trabalharam nestas turmas. Como pode-se observar, esse critério teve por objetivo subsidiar a seleção dos professores e tutores sujeitos da pesquisa, porém esse não foi o único critério, haja vista que foi juntado com as informações prestadas pelos coordenadores nas entrevistas e pelos alunos nos questionários e entrevistas. O curso de ADMPUB 2009 atende a 8 polos: Cuiabá (4 turmas); Barra do Bugres (2 turmas); Diamantino (3 turmas); Nova Xavantina (01 turma); São Félix do Araguaia (02 turmas); Lucas do Rio Verde (01 turma); Sorriso (01 turma); e, Pedra Preta (02 turmas). O curso contava com 326 alunos regularmente matriculados e participantes. No AVA do curso de ADMPUB 2009, identificamos que o curso está organizado em polos, turmas e disciplinas. Internamente as disciplinas se sistematizam em módulos, cada qual correspondendo a um conjunto de disciplinas. Para o referido curso, os “relatórios de atividades” do Moodle indicaram três turmas. Destas, releva-se a turma 22, do polo de Sorriso. Na Tabela 3 estão demonstrados os dados das três turmas, correspondentes aos dias 5 a 8 de junho de 2013. Tabela 3 – Dados referentes ao curso de Administração Pública 2009 Polo Turma Registro de Atividades São Félix do Araguaia 18 56705 Lucas do Rio Verde 20 62098 Sorriso 22 67394 Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor O curso de CNM 2009 atende a 5 polos: Alto Araguaia; Diamantino; Guarantã do Norte; Nova Xavantina; e, Pedra Preta. Cada um dos polos é composto por 2 turmas. O curso contava com 82 alunos regularmente matriculados e participantes. No curso de CNM 2009, os “relatórios de atividades” do Moodle indicaram três turmas. Entre elas destaca-se a turma 1, do polo de Nova Xavantina, cujo curso está organizado em módulos compostos por um conjunto de disciplinas. Diferentemente dos outros cursos, o CNM 2009 chamou a atenção pelo descompasso na realização das disciplinas em cada um de seus polos. Observou-se que a data de início de 115 algumas disciplinas não era a mesma em todas as turmas dos polos, o que acarretava uma assincronia, pelo fato de que havia turmas com mais disciplinas em andamento que outras. Isso não constituiu um impedimento para a pesquisa, uma vez que consideramos somente aquelas disciplinas que tinham sido vigentes e realizadas em comum, em todos os polos e turmas do curso. A Tabela 4 foi elaborada considerando as três turmas evidenciadas, segundo critério seletivo. Informamos que os dados da pesquisa compreendem o período de 20 a 29 de maio de 2013. Tabela 4 – Dados referentes ao curso de Ciências Naturais e Matemática 2009 Polo Turma Registro de Atividades Guarantã do Norte 1 113223 Nova Xavantina 1 161965 Pedra Preta 2 99396 Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor O curso de PED 2009 atendia a 3 polos: Lucas do Rio Verde; Pedra Preta; e Sorriso. Cada um dos polos eram composto por 2 turmas. O curso contava com 95 alunos regularmente matriculados e participantes. Em continuidade, a observação do ambiente do curso de PED 2009 vai redundar igualmente na identificação de três turmas com os maiores indicativos observados nos “relatórios de atividades”do Moodle. Entre elas, destaca-se a turma 4, do polo de Pedra Preta, conforme o critério. De maneira análoga ao curso de CNM 2009, os achados da pesquisa do curso de PED 2009 compreendem os dias 20 a 29 de maio de 2013, o que corresponde a todas as disciplinas finalizadas neste mês. No Moodle, o curso de PED 2009 está organizado em quatro núcleos. Cada um composto por um conjunto de disciplinas denominadas de áreas de conhecimento. Com os achados da pesquisa, criamos a Tabela 5, que agrega as três turmas que atenderam ao respectivo critério de inclusão. 116 Tabela 5 – Dados referentes ao curso de Pedagogia 2009 Polo Turma Registro de Atividades Lucas do Rio Verde 1 134768 Pedra Preta 4 151474 Sorriso 6 123615 Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor Em solo japonês, o curso de PEDJP atendia a 15 turmas e contava com 224 alunos regularmente matriculados e participantes. A observação dos AVA termina com o curso de Pedagogia acordo PEDJP. O “relatório de atividades” do Moodle evidenciou a turma 6, que atendeu ao critério de pesquisa. Em prol de melhorias técnicas e pedagógicas no ambiente, a coordenação de curso optou pela atualização da versão Moodle instalada. Para os pesquisadores, essa medida importou na observação de dois ambientes: antes e depois da mudança de versão. Para não provocar impactos que pudessem repercutir negativamente nas trajetórias de formações dos alunos, manteve-se a mesma organização do curso na mudança de versão. Além das novas estratégias pedagógicas que se almejavam, o novo ambiente trouxe novo design e melhorias técnicas para subsidiar as interlocuções e acompanhamento dos alunos. Na transição, os dois ambientes ficaram livres para acesso dos alunos quando e onde quisessem, sendo que o antigo era para a realização de consultas. O processo ocorreu sem prejuízo para qualquer dos envolvidos. As informações mantiveram-se inalteradas e disponíveis em ambos os ambientes, à exceção das novas funcionalidades, acessíveis somente no ambiente recém- criado. Para chegarmos aos dados classificatórios das turmas, fizemos a composição dos achados dos dois ambientes do curso. Neste caso, esses achados correspondiam aos dias 20 a 29 de maio de 2013, contemplando todas as disciplinas realizadas até aquele momento. Ademais, no Moodle, o curso de PEDJP não se divide em polos, mas somente em turmas. Também é sistematizado por núcleos, compostos por um conjunto de disciplinas denominadas de áreas de conhecimento. Com base nos achados da pesquisa, sistematizamos na Tabela 6 as três turmas que atenderam ao critério de pesquisa. 117 Tabela 6 – Dados referentes ao curso de Pedagogia Japão Polo Turma Registro de Atividades Único 1 189639 6 197729 15 189138 Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor Ainda que o curso de PEDJP esteja organizado por turmas no Moodle, elas não compreendem a lógica de polos. No ambiente virtual, as turmas são heterogêneas, contendo alunos de um ou mais polos, isto é, uma turma no ambiente não se restringe a um único polo físico. Pois, cada polo ficou responsabilizado por instalar o Centro de Apoio no “município sede”, com infraestrutura e organização de serviços que permitam o desenvolvimento de atividades de cunho administrativo e acadêmico, requeridas por um curso universitário a distância (UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO, p. 59). Assim, para o atendimento e acompanhamento presenciais dos alunos nos centros de apoio em território japonês, eles foram distribuídos e agrupados em seis polos: Ota-shi (Gunma), Hamamatsu-shi (Shizuoka), Nagoya-shi (Aichi), Kani-shi (Gifu), Hikone-shi (Shiga) e Chino-shi (Nagano) (UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO, 2009, p. 9). A seguir, a Tabela 7 sintetiza o resultado geral das observações do “relatório de atividades” do Moodle, demonstrando todas as turmas que compõem nosso lócus. Tabela 7 – Resumo dos cursos, turmas e seus respectivos registros de atividades Curso Polo Turma Número de registro ADMPUB 2009 Sorriso 22 67394 CNM 2009 Nova Xavantina 1 161965 PED 2009 Pedra Preta 4 151474 PEDJP - 9 197729 Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor Diante do conhecimento do lócus e critérios de definição de cursos e turmas, damos prosseguimento à discussão sobre sujeitos da pesquisa. 118 4.3.1 Conhecendo o trajeto e os caminheiros: os cursos e os sujeitos Seguindo as orientações definidas pela UAB, vimos que o conjunto dos cursos investigados utiliza o ambiente Moodle. Vimos ainda que, nos Moodle, os cursos ADMPUB 2009, PED 2009 e CNM 2009 estão organizados em polos e turmas, e que o curso de PEDJP se organiza virtualmente em turmas. Com exceção do curso de CNM 2009, que conta com vinte alunos por turma, os cursos de ADMPUB 2009 e PED 2009 têm em média 23 alunos. O acompanhamento das turmas dos cursos é feito pelo coordenador pedagógico, professores e tutores ou orientadores acadêmicos. Fazemos uma pausa para explicar que, no contexto da pesquisa, o termo orientador acadêmico é empregado nos Projetos Político-Pedagógicos dos cursos de PED 2009 e PEDJP. A principal diferença entre o tutor e o orientador acadêmico é que a este último cabe não somente acompanhar e apoiar os alunos na realização cotidiana das atividades previstas no Moodle e as relacionadas às práticas educativas e aos seminários temáticos, como também atuar com os professores especialistas nos processos de avaliação da aprendizagem. Esclarecida a diferença, e pelo fato de esta pesquisa se inserir no âmbito da UAB, optou-se pelo tutor. Retomando, todos os cursos contam com uma coordenação geral e secretaria, tendo interlocutores também nos polos. Ainda, são assinaladas duas categorias de tutores no sistema UAB: o tutor presencial e o tutor a distância, no contexto da instituição investigada, estiveram presentes, por questões de opção metodológica, o tutor presencial. Vimos que, de maneira particular, o curso de PEDJP se organiza somente em turmas. Outro diferencial é que as turmas têm no máximo quinze alunos cada uma. Cada turma é acompanhada por uma equipe pedagógica (coordenador de tutoria, professores e tutores). Pelo fato de todos os cursos que compõem o lócus terem iniciado em 2009, o prazo destinado à integralização curricular é próximo para todos eles. Há divergências por situações atípicas, como o citado caso do tsunami ocorrido no Japão, que forçou a readequação do calendário acadêmico. O prazo final de integralização para cada um deles está exibido no Quadro 2 a seguir. 119 Quadro 2 – Previsão de integralização dos cursos investigados Curso Integralização Administração Pública 2009 2º semestre de 2013 Ciências Naturais e Matemática 2009 2º semestre de 2013 Pedagogia acordo Brasil / Japão 1º semestre de 2014 Pedagogia 2009 2º semestre de 2013 Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor Em linhas gerais, a observação e sistematização dos achados de pesquisa dos ambientes Moodle ocorreram durante o primeiro semestre de 2013. Os cursos eleitos atenderam ao critério de ter, no mínimo, 60% do curso realizado e de não estar em tempo de complementar a integralização curricular. A recolha dos achados de pesquisa no Moodle ocorreu sistematicamente de 20 a 29 de maio de 2013 para todos os cursos, salvo ADMPUB 2009, devido a fatores de ordem administrativa. No último caso, tivemos que aguardar a autorização de acesso de uso dos dados da pesquisa pelo seu colegiado de cursos, o que exigiu a fixação de novo prazo de coleta (de 5 a 8 de junho de 2013). É importante mencionar que a observação dos ambientes demandou um trabalho de ir e vir constante e recorrente, não só durante a recolha dos achados de pesquisa, mas durante toda a pesquisa. Basicamente os esforços ficaram concentrados no primeiro semestre de 2013. Como já dito anteriormente, com o olharvoltado para os dados do Moodle relativos a cada uma das turmas selecionadas, foi-nos possível chegar àquelas que tivessem o maior número de registros acessíveis por meio do “relatório de atividades” que fornece uma gama considerável de informações sobre os cursos. Um resumo das turmas selecionadas pode ser visto na Tabela 7. Para a seleção dos sujeitos da pesquisa, respaldamo-nos em alguns critérios, de acordo com os respectivos indicativos que tínhamos analisado dos achados dos ambientes Moodle. Com a finalidade de obtermos uma visão pluridimensional, investigamos então os coordenadores, professores, tutores e alunos. No segmento coordenadores, foram entrevistados cinco sujeitos coordenadores: dois do curso de PEDJP (coordenação de curso e coordenação de tutoria), sendo os três restantes pertencentes a cada um dos demais cursos. Para o segmento alunos, tivemos dois momentos distintos. Em um deles aplicamos o questionário a todos os alunos de todos os cursos que compõem nosso lócus de investigação. 120 Pretendíamos com isso duas coisas: abarcar todos os sujeitos de forma a ampliar nossa perspectiva sobre o objeto de pesquisa, uma vez que ampliávamos a sua abrangência; e evitar não termos um número significativo de participantes dentro do universo dos cursos. Apesar da demora de resposta em relação aos convites de pesquisa, obtivemos êxito. Foram 204 questionários com respostas válidas de um universo de 727 alunos dos quatro cursos. Em outro momento, partimos para a realização das entrevistas com os alunos. O critério de inclusão destes alunos se respaldou na definição das turmas para cada curso. Isto é, entrevistamos os alunos que faziam parte das turmas selecionadas. Para isso, baseamo-nos no seguinte raciocínio: turma com maior indicador de participação deve possuir mais alunos participativos e professores mais atuantes no curso on-line. Assim, partíamos da premissa de que, quanto maior o indicativo do “relatório de atividades” do Moodle sobre determinada turma, maior seria a ocorrência de processos de ensino e aprendizagem efetivos. Desta premissa de que as turmas com maior indicativo de participação no AVA poderiam, consequentemente, indicar os professores e tutores que mantiveram uma relação factual alicerçada nos elementos sócio-históricos da formação on-line, estabelecemos o primeiro dos 3 critérios de inclusão dos sujeitos no segmento professores e tutores. Em segundo momento, analisamos os achados obtidos pelos questionários que foram enviados a todos os alunos dos cursos e, também, pelos recolhidos através das entrevistas feitas com os coordenadores dos cursos. Isso foi possível pelo fato de que tanto os questionários quanto as entrevistas continham uma questão que serviria para identificar os professores e tutores mais significativos durante a formação instaurada. E, finalmente, o terceiro critério de inclusão consistiu em verificar os professores e tutores que tinham aparecido pelo menos duas vezes nos questionários e entrevistas realizadas. Para isso, cruzamos os achados obtidos congregando o apresentado pelos coordenadores e alunos. Operacionalizar estes 3 critérios para o segmento supracitado foi importante pelo fato de, além de não nos deixar restritos às turmas que compunham o lócus investigativo, permitiu entrever vieses dos alunos quanto à formação on-line e também dos coordenadores; as indicações transitaram tanto pelo âmbito pedagógico quanto administrativo. Iniciando pelo segmento coordenadores, professores e tutores, o corpus da pesquisa ficou composto de: 5 coordenadores, 12 professores e 3 tutores, conforme distribuição resumida na Tabela 8. 121 Tabela 8 – Sujeitos entrevistados: coordenadores, professores e tutores Relação de sujeitos entrevistados – coordenadores, professores e tutores ADMPUB 2009 CNM 2009 PEDJP PED 2009 Professores 04 05 04 04 Tutores 02 0 0 01 Coordenadores 01 01 02 01 Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor Na Tabela 8 constam dois coordenadores para o curso de PEDJP e, ainda, que o somatório de professores excede o número informado de 12. Isso decorre do fato de que 2 dos 12 professores atuavam em 3 cursos, a saber: CNM 2009, PED 2009 e PEDJP. E, outro deles atuou em 2 cursos, sendo: PED 2009 e ADMPUB 2009. Ainda em atenção a esta mesma tabela, esgotadas as tentativas de cooptação de sujeitos tutores, pode-se observar que não fora alcançada nenhuma amostra para os cursos de CNM 2009 e PEDJP. Isso se deu por dois motivos, sendo por não ter havido tutores indicados pelos coordenadores e alunos; e, quando indicados, a ausência de respostas às solicitações de participação da investigação ou pela resposta negativa. Por fim, os 12 professores têm como representatividade a equivalência de uma amostragem de 17. Entretanto, não obtivemos caso em que os tutores trabalhassem em mais de um curso. Destaca-se que um dos pontos positivos em termos de sujeitos que atuaram em mais de um curso é o fato de que foi possível o compartilhamento das pluriexperiências vividas por eles em cada um dos cursos. As entrevistas com os coordenadores dos cursos ocorreram no mês de setembro de 2013 (entre o dia 10 e o 24). Conforme alcançávamos os professores que atendiam aos critérios, estes foram auscultados entre outubro de 2013 a maio de 2014 (de 17 de outubro a 21 de maio). No segmento aluno, e enfocando os questionários enviados a todos os participantes de todos os 4 cursos, que somaram 727 alunos regularmente matriculados à época, tivemos o retorno de 204 questionários com respostas validadas. Este número de 204 correspondeu a 30,67% do universo total. Os questionários foram elaborados em meio digital através do formulário do Google, na plataforma Google Docs. Google Docs é um pacote de aplicativos da Google Inc. que disponibiliza, atualmente, processador de texto, editor de apresentações, editor de planilhas e 122 editor de formulários (sendo este último o recurso que utilizamos nesta pesquisa). Para maiores informações visite o site https://www.google.com/intl/pt-BR/docs/about/. Apesar de as respostas ao questionário terem chegado incialmente em grande número, eram insuficientes para compor uma amostra significativa, dado o universo de alunos matriculados e a desproporção de participação na pesquisa por curso. Essa explosão inicial foi seguida de baixa adesão de colaboração com a pesquisa, exigindo o prolongamento do prazo de aceitação de respostas do questionário, cujo início e fim ocorreram nas datas 09 de setembro de 2013 e 28 de abril de 2014. A dilação desse prazo também foi seguida de recorrentes envios de mensagens de convite e de sensibilização dos sujeitos à participação na pesquisa. Essas mensagens eram enviadas tanto pelas “mensagens” do Moodle, como também para o e-mail dos alunos. Obtermos participação satisfatória no questionário era condição para a continuidade da pesquisa, tanto para sua verticalização quanto para a definição de outro critério de seleção de sujeitos. Essas apreciações iniciais serviram como subsídio para as entrevistas e para a composição dos critérios de seleção dos professores e tutores. Pelas razões apresentadas, era imprescindível aguardar o aumento da adesão à participação na pesquisa. Enquanto isso, lançamo-nos à realização das entrevistas possíveis com os alunos, que aconteceram de outubro de 2013 a maio de 2014 (de 15 de outubro a 16 de maio). Esse trabalho se tornou bastante extenso e oneroso, quando chegou a vez dos alunos. Todos os contatos se iniciavam por meio do envio de mensagens internas (via ambiente dos cursos) e, posteriormente, externas (e-mails); por fim, fez-se o contato telefônico. Em todas as etapas contamos com o apoio das coordenações dos cursos, que se aproveitavam dos encontros presenciais nos respectivos polos para propagar as mensagens e reforçar os convites departicipação na pesquisa. Se em alguns momentos os questionários davam-nos uma visão geral, panorâmica e rasa, em outros, a visão era demasiado densa. Com as entrevistas buscamos aprofundar nos achados da pesquisa, inicialmente tendo como base as evidenciações dos questionários que, paulatinamente, iam sendo respondidos. Assim, fomos adentrando nos meandros das compreensões sobre os elementos sócio-históricos da formação on-line. Por meio das falas dos sujeitos aflorava o que pensam, o que fazem, como fazem e como entendem tais elementos nos processos formativos on-line em que estavam imersos. 123 A entrevista com os alunos redundou na adesão de dezenove sujeitos e, com isso, garantimos uma amostragem mínima de cinco alunos por curso, exceto para PEDJP. Esta distribuição está presente na Tabela 9. Tabela 9 – Distribuição dos instrumentos trabalhados com os alunos por curso Distribuição por curso dos alunos entrevistados Percentual das respostas Entrevistas realizadas Questionários respondidos Total de alunos (matriculados) Percentual sobre os matriculados ADMPUB 2009 7 92 326 30,36 CNM 2009 5 41 82 56,09 PED 2009 6 51 95 60,00 PEDJP 1 20 224 9,37 Total Geral 19 204 727 30,67 Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor O processo de “garimpagem” de sujeitos fez ampliarmos nosso critério inicial de serem eles pertencente às turmas selecionadas para a amostragem mínima para cada um dos cursos, o que não foi alcançado em somente um deles. Reestabelecemos que pudesse então, ser qualquer aluno de qualquer turma. Isso trouxe o bônus de termos recebido algumas manifestações de interesses em colaborar, mas que, por fim, não se efetivaram. A amostragem de cinco alunos por curso atendia o objetivo determinado – achados que contemplassem uma percepção multiangular dos sujeitos sobre o processo formativo on-line em que estavam imersos. Posto isso, imaginávamos obter condições de desvelamentos ricos, prenhes de entendimentos frutíferos, que nos permitiriam abordar nosso objeto em suas multidimensões e em seus diversos ângulos. Isso vai perfeitamente ao encontro da abordagem multirreferencial que, com lentes multifocais, permite compreender a complexidade e as inter-relações dos elementos que compõem a realidade, significada por seus sujeitos. Vemos importante destacar que, mesmo que tenhamos auscultados coordenadores, professores, tutores e alunos, temos em maior número os sujeitos alunos. Essa decisão é consciente e intencional, ao colocar em primeiro plano os desvelamentos dos alunos que, assim, recebem vez e voz para se manifestarem sobre sua trajetória de formação em que estão imbricados. Os demais sujeitos são indivíduos enriquecedores à investigação ao permitirem perspectivas e leituras suplementares, além de nos posicionar em ângulos privilegiados com 124 referenciais distintos não só para se observar, como para se apreender o fenômeno educativo em outras dimensões. As possibilidades que surgem ao buscarmos comungar os vieses desses sujeitos nos colocam em alinhamento com a abordagem multirreferencial, a qual não tem vinculação com viés que busque a validade e credibilidade de uma realidade concebida como fixa, imutável ou única. Pelo contrário, a multirreferencialidade cria condições para se compreender fenômeno observado em seu movimento e dinamicidade e, a partir daí, buscar estabelecer entendimento e compreensões sobre esse fenômeno. E, para isso, o pesquisador pode também lançar mão de técnicas e estratégias na criação ou na utilização de métodos e instrumentos diversificados para a coleta e organização dos achados da pesquisa. Cumpre também ressaltar que utilizamos, para referenciar os achados da pesquisa e garantir o anonimato dos sujeitos pesquisados, a adoção da primeira letra que identifica o perfil do sujeito, conforme o que consta nos ambientes dos cursos, a saber: (A) alunos; (P) professores; (C) coordenadores; (T) tutores. O número que segue a letra refere-se, sequencial e especificamente, à sistematização e organização dos achados via instrumentos aplicados. Com essa marcação não objetivamos identificar polo e ou curso, por exemplo. Isso é proposital e consciente, já que nosso objetivo foi trazer o contexto da formação on-line sem, particularmente, identificar disparidade ou peculiaridade de um ou outro polo e/ou curso. Ao contrário, buscamos com isso referenciar os achados da forma mais generalizável possível, no âmbito dos cursos on-line, ao invés de especificar casos; a menos que nos deparássemos com alguma necessidade emergente, o faríamos. Portanto, dito de outra forma, insistimos em esclarecer que particularidades de um curso, polo ou turma não foram consideradas; senão pelo conjunto complexo e sistêmico das dimensões e referências deflagradas pelos sujeitos da pesquisa pelas quais constituíram a perspectiva plural e multirreferencial sobre os elementos sócio-históricos da formação on-line em estudo. Uma vez conhecidos nossos critérios, sujeitos e distribuição dos achados e outros, lançamo-nos à compreensão dos achados, apoiadas na abordagem qualitativa multirreferencial, que nos deu condições de ampliar e complementar nosso campo de visão. Em observação aos ambientes Moodle e seus projetos, aplicamos questionários e realizamos entrevistas com o intuito de promover formas de interação do pesquisador com os sujeitos da formação, os sujeitos da pesquisa. 125 Na sequência, apresentamos a definição dos perfis de nossos sujeitos de pesquisa e nosso lócus de investigação. 4.3.2 Os caminheiros em suas trilhas Neste tópico apresentamos a leitura dos achados de pesquisa que nos permitiram melhor delinear e caracterizar os sujeitos de pesquisa, que, por sua vez, se constituem também como sujeitos coautores dela. Dessa maneira entendemos que o planejamento e a condução da investigação devem contemplar sua contextualização para que possamos considerar as singularidades e pluralidades dos partícipes da pesquisa que estão, neste caso, envolvidos na formação on-line. Para isso recuperamos, em síntese, nossos achados da pesquisa que resultaram em 204 questionários aplicados à totalidade dos alunos em todos os cursos e 36 entrevistas realizadas com todos os sujeitos da pesquisa, coordenadores, professores, tutores e alunos, distribuídos pelos quatro cursos. A Tabela 10 contém o resumo destes achados, vejamos: Tabela 10 - Resumo dos achados da pesquisa com todos os sujeitos Resumo e distribuição dos achados da pesquisa Entrevistas realizadas com coordenadores 5 (1) Questionários respondidos por alunos 204 Entrevistas realizadas com alunos 19 Entrevistas realizadas com tutores 3 Entrevistas realizadas com professores 12 17 (2) Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor (1) 1 coordenador de cada curso exceto para o curso de PEDJP, que foram 2, sendo um da coordenação geral e outro da coordenação de orientadores. (2) 12 sujeitos foram entrevistados, mas, pelo fato de 3 deles terem trabalhado em mais de um curso, a amostragem representa 17. O ponto de partida para o delineamento dos perfis de nossos sujeitos foi a leitura dos achados dos questionários, os quais foram aprofundados durante as entrevistas. 126 As perguntas abrangeram o curso, polo e turma, sexo; faixa etária; formação anterior e experiência com cursos on-line. É necessário notar que, mais adiante nesta pesquisa, estas informações subsidiaram o aprofundamento de nossos olhares sobre os significados desvelados pelas falas destes sujeitos, e por meio delas foi-nos possível compreender a forma, se buscam, e o como se relacionam no curso. Considerando a questão de gênero dos sujeitos alunos, um dado sobressaiu da análise de questionários: a grande representatividade feminina em meio aos cursos on-line da UAB da UFMT. Não só pelo fato de seremcursos que historicamente foram marcados pelas presenças das mulheres, como é o caso de Pedagogia – que juntos somam somente 35% das respostas. Mas, mesmo se somarmos as respostas dos cursos de ADMPUB 2009 e CNM 2009 – que juntos somam 65% -, o perfil destes alunos continua sendo representado pelo gênero feminino. Assim, destes 65% somente 28% representam o perfil masculino, contra os outros 72% atribuídos ao gênero feminino. À exceção dos 31% dos alunos que se situam na última faixa etária (acima de 41 anos), vimos um acentuado equilíbrio. No intervalo de 21 a 40 anos, a primeira faixa corresponde a 13% e, a segunda, a 21%. A Tabela 11 mostra os intervalos entre essas colocações e resume os achados por faixa etária: Tabela 11 – Faixa etária dos alunos dos cursos Faixa etária Total em % 21 a 25 anos 13 26 a 30 anos 17 31 a 35 anos 18 36 a 40 anos 21 acima de 41 anos 31 Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor Importando-nos distinguir as participações dos sujeitos com cursos em formato on-line, questionamos os alunos acerca de suas experiências com estes cursos e, em se tratando da primeira graduação, da expectativa de conclusão. Do total dos sujeitos da pesquisa, para 70%, a formação em curso correspondia à primeira graduação. E, ainda, do total, para aproximados 57% tratava-se da primeira experiência com cursos on-line. 127 O fato de uma parcela considerável de alunos afirmar ser a primeira graduação e primeira experiência de formação on-line configura uma realidade interessante, que leva-nos à reflexão de que os cursos on-line têm contribuído sobremaneira para a democratização da educação superior de formação inicial. Mesmo que o acesso à educação seja garantido pela Constituição Federal de 1988, que assim prescreve em seu art. 208, inciso V: [...] o dever do Estado com a educação será efetivado mediante garantia de (...) acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um. (BRASIL, 1988) Nesta óptica, é preciso entender a formação on-line como uma alternativa de democratização da educação superior no tocante à acessibilidade (e formação continuada), uma vez que historicamente o país tem demonstrado baixos índices de acesso (HERMIDA; BONFIM, 2006). Ainda que passível de muitas críticas (decorrentes de ações pontuais, e sem instituir verdadeiras políticas educacionais), o governo tem criado programas como a já referida UAB e o Programa Universidade para Todos (PROUni). Esses programas governamentais têm se preocupado, no limite, em atender necessidades emergenciais ou demandas educacionais urgentes, tais como a formação e capacitação de docentes para a educação básica e formação continuada, principalmente no interior dos estados, como em nosso caso. Aqui seguimos a referência no âmbito do Programa Nacional Escola de Gestores da Educação Básica Pública, promovido pelo governo federal em articulação com as secretarias estaduais e municipais de educação, sendo, portanto, um curso de Especialização em Gestão Escolar, na modalidade a distância, do MEC/SEB. Para saber mais, consultar AGUIAR (2010). Com base em uma leitura de que a formação on-line é uma outra alternativa e não substitutiva do que se tem denominado como modalidade educacional, podemos vislumbrar possibilidades ímpares de democratização da educação no país, principalmente em estados com extensa dimensão territorial como o nosso Mato Grosso. Há consenso geral de que a democratização desta formação, obrigatoriamente, seja alicerçada em bases que promovam a melhoria e qualidade da educação. A despeito dos desafios, os cursos on-line surgem como uma possibilidade para ampliar a acessibilidade à educação superior (não se restringindo a ela). A apuração do elevado percentual de alunos matriculados em primeira graduação nos cursos de pedagogia (90%) 128 comprova essa tendência. Em relação aos demais cursos, idêntica circunstância foi verificada: CNM 2009 com 68%, seguido de ADMPUB 2009 com 54%. Em se tratando de primeira experiência com cursos on-line, os resultados referem-se a 39% dos alunos de CNM 2009, seguido de perto pelos alunos de ADMPUB 2009 (38%). Os alunos de PEDJP correspondem a 34% e os de PED 2009 a 24%. Para aqueles que já acumulavam experiências com cursos on-line, vimos que a maioria referia-se a experiências com cursos pré-vestibulares, de aperfeiçoamento e de curta duração nas mais variadas esferas: língua espanhola, terapias holísticas e técnicos variados. Resumimos nossos achados referentes aos cursos e experiências on-line. Gráfico 1 – Relação de formação inicial e experiência com cursos on-line Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor Os polos situados em cada município sede são estruturados com bibliotecas, laboratórios de informática e conexão com internet, por exemplo, visando a dar suporte no atendimento aos alunos dos cursos. Nestes espaços ocorrem as aulas presenciais e os alunos são acompanhados pelos tutores do curso. Aos alunos foi perguntado se possuíam, em suas casas, computadores conectados à internet, ou se dependiam exclusivamente das estruturas nos polos. Evidenciamos que quase todos os alunos possuem computador e conexão com internet, à exceção de 4%, sem conexão à internet. Um único aluno informou não ter computador nem conexão internet. Esses achados nos convidam a refletir sobre a disponibilidade e acesso aos recursos das TDIC. Olhando o contexto da pesquisa e sua abrangência em âmbito estadual, 129 especificamente em Mato Grosso – estado de grande dimensão territorial, com diversos municípios espalhados no interior, relativamente afastados dos grandes centros e da capital – emerge uma realidade inversa do que até pouco tempo ocorria (má qualidade do sinal de internet). Essa contradição vem à tona nos achados da pesquisa, pois quase todos os investigados possuem conexão com a internet em suas residências: 95% dos sujeitos se conectam à internet por banda larga (80%) ou tecnologia 3G (15%), sendo esta última, de maneira simplista, termo recorrente para se referir à telefonia celular e internet móvel. Assim, 3G é uma sigla que corresponde à terceira geração de telefonia móvel de acesso a dados, aprimorando a transmissão de dados e voz e outros, possibilitando maior taxa de comunicação. Esses achados corroboram com nossa inferência de que é factível a expansão e capilarização de acesso à internet. Esse fenômeno poderia, por exemplo, ser analisado não só pelo viés capitalista, mas também pelo da democratização do acesso (ainda que os custos e a qualidade dos serviços sejam elevados e merecedores de atenção) à rede mundial de computadores que conectam pessoas. Até pouco tempo tínhamos que o lócus mais significativo de acesso à internet eram as lan-houses. Com esses achados, evidencia-se que essa realidade sofreu impacto pela ampliação do acesso residencial. É como se o espaço significativo de presença marcante e expansiva de TDIC passasse a ser marcado paulatinamente pelo acesso residencial. A difusão das TDIC na sociedade, as quais modificam substancialmente as relações que se estabelecem como seu uso, atingiu tamanha envergadura a ponto de ressoar nos ambientes escolares. E isso tem influenciado a forma de se fazer educação e a forma pela qual se aprende. Portanto, considerando o contexto dos cursos on-line, não é de se espantar a notabilidade das TDIC, ao alcance dos indivíduos em suas residências e nos polos de apoio, tornando-se requisito básico e condicional para a participação nesses cursos. Apesar disso, o que nos salta aos olhos é o que vimos pontuando, de que estas tecnologias acabam por se tornarem mais acessíveis (não meramente decorrentes de um barateamento). Os achados da pesquisa demonstraram que estes alunos são, assim, portadores de recursos das TDIC (computadores,tablets, smartphones, entre outros) e de acesso à rede internet. Considerando a expansão da demanda por serviço de internet em regiões brasileiras fora do eixo Sul-Sudeste, a exemplo da Centro-Oeste, aqui representada por Mato Grosso, 130 vemos mudanças significativas no cenário da prestação de serviços, que até pouco tempo era precária com infraestrutura de comunicação limitada e deficitária a custos elevados. Assim, por inferência, vamos considerar que maiores condições surgem para possibilitar não somente a participação destes alunos nos cursos, mas que, de forma democrática, ela vem em benefício de inseri-los ativamente em uma, esperamos, progressiva inclusão social via tecnológica. Entre diversas possibilidades, pusemo-nos a averiguar o local privilegiado pelos alunos para acesso ao curso. O cenário preponderante foi o residencial, com 84%, seguido do local de trabalho, com 10%. O polo que deveria ser o lócus de referência para estes alunos, juntamente com outras alternativas (casa de familiares e/ou amigos) representou apenas 6%. Dois pontos importantes emergiram, inferencialmente, desses achados: a menor parcela (6%) corresponde aos estudantes sem computador e/ou conexão com a internet em suas casas; os estudantes que declararam morar distante do polo, admitem que lá vão apenas para realizar os estudos e obter orientações diretamente com os tutores do seu curso (A esse respeito ver tópico 5 e seus subtópicos). Em relação aos alunos que acessam a internet de seu lugar de trabalho (10%) com a finalidade de estudar, uma leitura possível é que se trata do perfil de alunos-trabalhadores, que se dividem e se desdobram para cumprir suas responsabilidades laborais e estudantis. Nos casos que envolvem a flexibilidade de tempo para dedicação aos estudos (delimitada pelo calendário acadêmico e planilha de financiamento), é automático pensar que os cursos on-line facultam a esse tipo de público a oportunidade de realização dos estudos. Muitos desses alunos-trabalhadores, caso não dispusessem dessa oportunidade de formação, seriam compelidos a deixar suas cidades para estudarem em outra cidade ou, no pior dos casos, a abandonar os estudos. Segundo Palloff e Pratt (2004), a maioria desses alunos têm família(s) para manter. Levando em consideração nosso próprio processo histórico, cultural e econômico, julgamos apropriado o termo alunos-trabalhadores para designar a grande parcela de nossos estudantes. Não muito diferente é o que demonstram nossos achados. O público investigado corresponde a 75% de alunos que não dispõem de tempo exclusivo para os estudos. Na tentativa de entender se a opção de curso dos alunos-trabalhadores teria alguma relação com a atividade laboral por eles desempenhada, identificamos os seguintes resultados: 45% trabalham na mesma área do curso, 30% exercem atividades em áreas que não a de seu curso, e 25% informaram não trabalhar. 131 Retomando o entendimento inferencial sobre as condições favoráveis para realização de cursos on-line, os alunos foram indagados sobre os fatores definidores da escolha do curso no formato on-line. Sobre os fatores determinantes para a escolha do formato on-line, duas respostas apuradas foram recorrentes (68%): indisponibilidade de tempo para um curso presencial (25%) e flexibilidade de horário proporcionada pelos cursos on-line (43%). Outra determinante foi o fato de não terem conseguido fazer um curso presencial (16%). Nos diálogos com os sujeitos da pesquisa transparece o orgulho por fazer um curso on- line pela UFMT, dado à credibilidade que os cursos desta instituição têm conquistado no Estado. E é interessante atentarmos para esta valorização, apesar de se poder notar as tentativas de alguns discursos detratores em desabonar a qualidade dos cursos on-line, os dados apurados mostram o contrário. Acreditamos que os discursos depreciativos possam surgir quando de experiências extraídas de instituições que não prezem pela qualidade de seus cursos ou mesmo sejam originados por qualquer tipo de pré-julgamento sobre este formato. Nas instituições que não prezam pela qualidade de seus cursos, muitas vezes se ouve que os alunos não precisam ter efetivas participações e que o ambiente do curso é usado meramente como repositório de conteúdos. Verificar que nos desvelamentos expressos nas falas destes sujeitos não há preconceito contra a formação on-line, mesmo porque não reconhecem que a mesma seja uma maneira fácil de conseguirem um diploma. Diante do que advogam os sujeitos de pesquisa sobre os cursos da UFMT, imaginamos que o sentimento de orgulho e pertencimento à instituição deva-se ao fato de ela ser pioneira na oferta de cursos a distância (EaD). Historicamente este pioneirismo e qualidade são atribuídos aos esforços empreendidos pela equipe do NEAD (Núcleo de Educação Aberta e a Distância) da UFMT para promover uma educação acessível (no sentido de ir ao encontro dos alunos) e com qualidade. Há quem queira olhar os cursos on-line como mera consequência e reflexo do sistema capitalista que impera em nossa sociedade, contudo, preferimos optar por um olhar positivo, não meramente mercantilista, como vimos apresentando. A democratização do acesso é uma prerrogativa essencial para o estabelecimento de cursos on-line, cuja vantagem é a flexibilização de tempo e espaço. Entendemos flexibilização, não como discurso ingênuo, vazio e ilusório de que os cursos não obedecem a sistemas rígidos de planilhas orçamentárias 132 de financiamentos e nem a prazos de integralização; ao contrário, neste trabalho, referimo-nos à flexibilização que faz um convite sob a responsabilidade e autonomia de negociação entre os sujeitos em formação. Adicionalmente, é preciso ressaltar que esta mesma flexibilidade de tempo, além de exercer poder atrativo, dá condições de acesso àqueles alunos que almejam conquistar um diploma e, por consequência, ingressar em um emprego melhor pela via da educação. É também importante colocar nesse bojo aqueles alunos que residem a distância razoável do próprio polo, e a enormes distâncias da sede da universidade. Essas distâncias encontram-se mais adiante, na Tabela 12. A potencial flexibilidade oferecida pelos cursos on-line, a priori mais rígida nos cursos presenciais, é valorizada pelo aluno-trabalhador, que dispondo de pouco tempo, a vê como solução para suas necessidades. Ao falarem sobre a relação de tempo e espaço em seus cursos, revelam os sujeitos desta pesquisa outro aspecto positivo, como o atendimento individualizado e personalizado às necessidades que se impõem em suas trajetórias de formação. Tudo isso vem atenuar e reduzir o fosso que começa com o distanciamento em que se encontram dos estabelecimentos de ensino superior e perpassam o uso dos artefatos tecnológicos, estruturado em estratégias e modus operandi que, ao diminuir as distâncias físicas por vias comunicacionais, dão base para a consolidação de processos formativos com qualidade. No que tange às distâncias geográficas que separam os municípios polos, que atendem aos cursos da UAB da UFMT, em Cuiabá, elas estão numa faixa de 166 a 995 km. A exceção é o curso de PEDJP, separado por distância continental. A seguir apresentamos a Tabela 12, com as distâncias entre o polo e a sede em Cuiabá, agrupadas por curso. Tabela 12 – Distância dos polos da sede em Cuiabá Pedagogia 2009 Lucas do Rio Verde 334 km Pedra Preta 246 km Sorriso 420 km Ciências Naturais e Matemática 2009 Alta Araguaia 421 km Diamantino 186 km 133 Guarantã do Norte 750 km Nova Xavantina 573 km Pedra Preta 246 km Administração Pública 2009 Cuiabá local da sede Barra do Bugres 166 km Diamantino 184 km Nova Xavantina 573 km São Félix do Araguaia 995 km Lucas do Rio Verde 334 km Sorriso 420 km Pedra Preta 246 km Pedagogia acordo Brasil/Japão Japão(distância continental) 18563 aprox. Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor Quanto aos professores e coordenadores que foram nossos sujeitos de pesquisa, vamos notar certa homogeneidade nos perfis. Estão compreendidos na faixa etária de 30 a 66 anos. A presença feminina também é marcante entre esses sujeitos. De um total de vinte, somente oito são do gênero masculino. Ao perguntarmos sobre a experiência adquirida com a formação on-line, constatamos que se trata da primeira experiência de trabalho em cursos no formato on-line. Considerando os gêneros, três professoras e três professores já haviam tido experiência anterior, contra nove professoras e cinco professores que não acumulavam qualquer tipo de experiência nesses cursos. Quanto aos inexperientes com o trabalho mais intensivo com a TDIC e atuantes em mais de um curso, informaram ter usufruído experiências concorrentes, advindas de suas próprias disciplinas, que não aconteciam concomitantemente. Ainda que breve, eles julgaram que a experiência foi muito importante para a continuidade de seus trabalhos atuais e futuros. Os professores e coordenadores que atuaram nos cursos têm as titulações máximas para seus respectivos cargos: um pós-doutor, oito doutores, nove mestres, um especialista e um graduado. Considerando a formação inicial ou continuada, a maioria é proveniente da área de licenciatura. 134 A condução das disciplinas, a realização das orientações e o acompanhamento dos alunos ocorreram prioritariamente, quando não exclusivamente, nos encontros realizados em cada um dos polos. Esse foi o momento propício para a realização da interface com os alunos. Como não há carga horária estabelecida e regulamentada em seus planos individuais de atividades, dentro das 40 horas semanais para os professores investigados que trabalham nos cursos on-line, para o acesso do ambiente dos cursos, acompanhamento das atividades no Moodle e práticas pedagógicas, esses professores o faziam de suas residências ou, em menor proporção, das dependências da universidade. 4.4 O CAMINHAR: COLEÇÕES E ACHADOS DA PESQUISA Em decorrência de o foco desta pesquisa direcionar-se ao contexto dos cursos on-line realizados nos AVA Moodle, para constituirmos nossa coleção de achados procedemos à observação destes ambientes e à interação com os sujeitos da formação. Os achados dos AVA permitiram-nos definir os critérios iniciais, os quais foram sendo reelaborados a fim de consolidar uma coleção de sujeitos de pesquisa com os quais pudéssemos abordar nosso objeto de estudo em variadas dimensões. Com base na leitura dos achados iniciais, formulamos nossos critérios e delimitamos nossos sujeitos da pesquisa. Todas essas ações se respaldaram em instrumentos e técnicas que subsidiaram nossa interação e ausculta dos respectivos sujeitos. Resumidamente, partimos de critérios iniciais de seleção dos cursos e seguimos na investigação nos Moodle. Em seguida, aplicamos os questionários com a totalidade dos alunos regularmente matriculados nos cursos selecionados. Por fim, realizamos entrevistas com os coordenadores, professores e com os alunos. 135 4.4.1 Organizando os achados da pesquisa Os achados foram organizados em coleções que correspondem a núcleos de significação. Estes núcleos de significação estruturam os eixos de entendimentos e sustentação da pesquisa. Eles foram constituídos, portanto, das evidenciações dos achados a partir dos instrumentos de pesquisa e técnicas empregadas em suas recolhas. Não só neste momento, mas durante todo o processo investigativo, nosso olhar esteve iluminado pela perspectiva multirreferencial tanto para a composição, quanto para a compreensão dos achados apreendidos pela investigação. Nestes núcleos centramos nos desvelamentos dos sujeitos da pesquisa em um processo constante de ir e vir, recorrendo a incontáveis processos de reescutas dos diálogos estabelecidos. Munidos de nossa coleção de achados, colocamo-nos a projetar olhares interpretativos que evocassem os significados emergentes e intrínsecos evidenciados pelas interações com os sujeitos. Nossa coleção de achados se fundamentou em quatro grandes núcleos de significação: a) conhecer como, onde estudam e o que pensam os alunos sobre os cursos on-line. Neste núcleo o objetivo foi consolidar o pano de fundo das estruturas basilares que permitem compreender o universo e a realidade de trabalho e dedicação dos sujeitos da formação no decurso de sua formação; b) apreender as percepções dos alunos sobre os professores e tutores e sua relação no decorrer do processo formativo. Neste ponto buscamos compreender o trabalho de cada um dos sujeitos (professores e tutores), em relação ao processo de acompanhamento e interação com os alunos no curso; c) compreender os elementos que influenciaram os alunos a iniciar e prosseguir no curso. Neste último núcleo, abordamos fatores mobilizadores para se desenvolver o curso – o que os levou ao curso e os fizeram aí permanecer –, considerando aspectos inerentes aos elementos sócio-históricos e às condições materiais e humanas para a formação on-line em estudo; e, 136 d) desvelar o universo perceptivo dos alunos sobre os elementos sócio-históricos da formação on-line. Com este núcleo de significação, desvelamos as compreensões sobre tais elementos em si, identificando suas formas e ocorrências durante as trajetórias formativas. Mais adiante, quando das discussões dos achados, trazemos estes tópicos em discussão. 4.5 O QUE DIZEM OS CAMINHEIROS Considerando que esta pesquisa se caracteriza pela abordagem qualitativa, do tipo multirreferencial, em linhas gerais trabalhamos com a evidenciação e compreensão dos enunciados dos sujeitos da pesquisa − professores, tutores e alunos. Dado à característica do objeto de pesquisa, a abordagem metodológica multirreferencial nos deu condições para estabelecer relações interpretativas com os desvelamentos dos sujeitos da pesquisa e para constituirmos os referenciais significativos sobre os elementos sócio-históricos da formação on-line. Como trazemos mais adiante, com estes referenciais definimos os núcleos de significações pelos quais tratamos mais especificamente dos entendimentos (ou concepções) sobre a mediação, interação e interatividade, e de como elas se configuram nas trajetórias de formação on-line. Ainda, abarcamos os pontos tangenciais, mas igualmente importantes, para a compreensão do fenômeno educativo on-line em sua complexidade, conforme os objetivos desta investigação. A complexidade do tema caracteriza um trabalho duro de compreensão das falas dos sujeitos. Essa complexidade evoca realidades plurais, nas quais os cursos, em seus respectivos ambientes, demonstram fragilidades e não se constituem em “espaços” profícuos para a ocorrência e manutenção dos elementos sócio-históricos da formação on-line. Optamos por antecipar algumas impressões que subsidiaram nossas compreensões posteriores, a fim de facilitar e mesmo amenizar inquietações decorrentes das contradições entre a ocorrência dos elementos sócio-históricos da formação on-line, que se infiram como ideais e os processos formativos efetivos propalados nos meios educacionais investigados. No entanto, a complexidade desvela uma realidade controversa que polariza o observado nestes ambientes com aquilo que advogam os sujeitos da pesquisa. Ainda que tais 137 contradições se apresentem como incompreensíveis, mesmo para um observador muito atento, o que se encontra é suficiência de ações. Com isso, as relações que se estabeleceram nestes ambientes entre os sujeitos da pesquisa não se formularam em graus de intensidades que possam ser facilmente submetidas a apreciações valorativas. As ações, cerne destas relações, se constituem na e pela contradição, sobressaindo como suficientes para processos formativoscalcados em tais elementos. Aquilo que se observa nos Moodle pode transparecer insuficiência dos elementos sócio-históricos da formação on-line nas trajetórias de formação dos alunos. Os sujeitos da aprendizagem buscam dinâmicas e espaços outros para que tais elementos se efetivem em suas trajetórias de formação. No entanto, urge reclamar de que certas atitudes e mesmo ações que se fundem em aspectos comunicativos tenham se consolidado em relações de intensidades e frequências desejáveis. Essas relações podem não ter sido estabelecidas entre todos os sujeitos da formação de maneira uniforme ou que, ainda, pudessem ser percebidas como ideais aos olhos menos atentos. No entanto, o que emerge é que essas relações em suas intensidades e frequências redundam naquilo que é considerado como suficiência para a formação on-line e que, em última instância, apoiam aprendizagens efetivas. Demonstra-se ainda que os elementos sócio-históricos da formação on-line transitam do Moodle para outros espaços e vice-versa. Circunstâncias que se somam à valorização dos processos formativos on-line e dos elementos sócio-históricos da formação on-line foram associados pelos alunos à importância dada às ofertas formativas que interiorizam a educação, que para eles são oportunidades, muitas vezes únicas, às quais se agarraram fortemente na tentativa de alcançar formação acadêmica em seus municípios, e sem sair de lá. Isto é, há grande valorização das oportunidades de formação que estes sujeitos se deparam e, por isso, buscam meios de promover relações condizentes que os oportunizem aprendizagens com aquilo que eles têm à sua disposição. Nos moldes e formatos dos cursos da UAB, o professor é interiorizado e transvestido de tutor, passando a ser, nos polos, a pessoa de contato entre a universidade e os sujeitos. Em razão dessa acumulação de papéis, o tutor adquire valor e atributo docente para o aluno que o procura. Mesmo com a presença pontual dos professores em determinados momentos, a referência dos alunos é o tutor presencial. É com ele que o aluno vai lidar diretamente, a fim 138 de estabelecer relações que promovam e oportunizem a ocorrência dos elementos sócio- históricos da formação on-line, que apoiarão, por fim, as aprendizagens efetivas nos cursos on-line. 139 5 A CAMINHADA: EVIDÊNCIAS APREENDIDAS PELA PESQUISA Neste capítulo explicitaremos o delineamento e a organização dos achados da pesquisa que foram constituídos em coleções denominadas de núcleos de significados. Trazemos também as compreensões sobre os achados, de forma a contemplar os objetivos da investigação e questões de pesquisa. As compreensões respaldaram-se nos enunciados dos sujeitos da pesquisa (coordenadores, professores, tutores e alunos), nos quais se buscou os elementos sócio-históricos da formação on-line, considerando as práticas pedagógicas e as trajetórias de formações dos alunos durante os cursos da UAB da UFMT, que utilizam os ambientes Moodle. Os achados foram coletados de maneira horizontal e vertical. Os questionários aplicados aos alunos totalizaram 204 respostas válidas e favoreceram a horizontalização da participação. Em relação à distribuição por curso, ADMPUB 2009 foi o que apresentou maior número de participantes, com 45%, seguido de CNM 2009 (20%), PED 2009 (25%) e PEDJP (10%). A verticalização foi assegurada pela realização de entrevistas com os sujeitos da formação, totalizando 39 (com representação de 45) entre coordenadores, professores, tutores e alunos. As questões abordadas foram sistematizadas em quatro grandes núcleos de significação, a saber: a) As formas e “lugares” de estudo dos alunos e o que pensam sobre cursos on-line (possui computador com acesso à internet em casa; de onde acessa para os estudos; prioridade de uso do computador; local de estudo; como opta por estudar; trabalha na área do curso; por que optou pelo curso; quantas horas de estudo no ambiente do curso). Este núcleo foi denominado “prática, lugar e entendimento sobre a formação on-line”. b) Os entendimentos dos alunos sobre o trabalho dos professores e tutores e sua relação no decorrer do processo formativo (como entende o trabalho do tutor; quando o tutor interage com os professores e como; quando e como interagem com os colegas). Este núcleo foi denominado “percepções dos alunos sobre os professores e tutores e sua relação no decorrer do processo formativo”. c) Os elementos que influenciaram os alunos a fazer e prosseguir no curso (motivação para fazer o curso e para nele permanecer; percepção sobre interação no curso; 140 percepção sobre o ambiente e materiais do curso; disciplina e professor que mais possibilitou aprendizagens e o porquê). Este núcleo foi denominado “percepções dos alunos sobre o conjunto do curso, as condições materiais e humanas na formação on- line”. d) As percepções dos alunos sobre os elementos sócio-históricos em tela (entendimento sobre mediação, interação e interatividade e como cada uma ocorreu no curso). Este núcleo foi denominado “desvelar o universo perceptivo dos alunos sobre os elementos sócio-históricos da formação on-line”. Tratados nos itens subsequentes, esses núcleos de significação, que se constituem das compreensões dos achados da pesquisa, são sinalizadores dos pontos de reflexão que os achados nos possibilitaram. Eles são, assim, essenciais para estabelecermos as relações de compreensão dos elementos com aquilo que aflorou por meio dos enunciados de nossos sujeitos da pesquisa. Diante disso, mergulhamos nos meandros das significações desveladas por nossos sujeitos, com o objetivo de conhecer que relações têm, de fato, se foram efetivadas nas práticas dos sujeitos da formação e se elas resultaram em ações que deram condições para a formação integral dos sujeitos em ambientes on-line. Historicamente, os pesquisadores do campo têm dado muita ênfase às tecnologias em si, distinguindo-se duas vertentes entre eles. Uns adotam o posicionamento mais defensivo quanto à adoção desses recursos nos processos educativos, enquanto outros mantêm um discurso mais empolgado de que a adoção das tecnologias fecundaria e asseguraria efetivos processos de aprendizagem. Atualmente, os processos formativos on-line são fundados basicamente nos mais variados recursos tecnológicos. Cada vez mais, esses ambientes evoluem tecnicamente em prol da promoção da mediação, interação e interatividade, pilares para o ensinar e aprender em um viés sócio-histórico. No entanto, é importante observar quais práticas têm sido introjetadas nesses ambientes. Avançando, valemo-nos dos achados da pesquisa os quais vieram dar condições de aprofundar na reflexão sobre a potencial existência de discrepância entre as concepções e abordagens que amparam o desenvolvimento técnico dos ambientes daquelas que, na prática, se instauram nos cursos (pela via de organização do curso, pelas concepções e objetivos 141 propostos para ele e, pelo fazer docente), ou, ainda, se essas práticas estão alinhadas em favor da potencialização de processos formativos efetivos. No ambiente, com base nas ações que ali se efetivam, em menor ou maior escala, as evocações de nossos sujeitos trazem à tona as essências de suas relações. Olhá-las em sua complexidade permite ir além da compreensão forçosa e deturpada de que a efetivação e manutenção das relações correspondem à ideia de produtos que detêm um núcleo altamente embasado nos elementos sócio-históricos da formação on-line. Desta constatação, emerge o ponto crucial do processo formativo on-line. O significado do ambiente e das ações que nele se estabelecem não está no olhar ingênuo ou atento do observador, que investiga e que poderia revelar suficiência ou insuficiência de ações no curso; mas essencialmente no sentido atribuído pelos sujeitos da formação às suas relações. O contráriodisso ou, se visto de maneira simplista (de isolamento), significaria dizer, tão somente, que os respectivos elementos sócio-históricos podem ser suficientes (tem muito) ou insuficientes (tem pouco) e sobre isso tecer conclusões ou estabelecer metas. Ao invés de buscar compreender e significá- los pelas relações que os autoproduzem, autossustentam. Portanto, não procuramos olhar o ambiente e as relações dos sujeitos de maneira a atribuir, classificar ou mesmo categorizar as ações em mediação, interação e ou interatividade. Transcendemos esta dimensão quando indagamos os sujeitos (considerando todo o meio e suas interconexões), com o intento de saber se, além das inferências que se possam fazer no âmbito dos cursos on-line, as relações e ações que se estabelecem são suficientes para a realização de uma formação on-line significativa que traga em sua essência mediação, interação e interatividade. Com essa estratégia foi possível compreender, nas trajetórias de formação dos alunos e nas práticas docentes nos espaços on-line, se os elementos sócio- históricos em estudo ocorrem de forma consciente, objetivada, isto é, com intencionalidade entre os partícipes da formação oriunda de práticas sociais efetivas, potencializando aprendizagens. Em acréscimo, não objetivamos analisar os desvelamentos dos sujeitos da pesquisa com a finalidade de conferir em que medida eles poderiam confirmar ou refutar determinada concepção sobre os elementos em tela. Mas, pelo contrário, propomo-nos a interpretá-los para constituir um campo de compreensões nas quais poderiam se sustentar as respectivas formações, considerando, para isso, multirreferências advindas das diferentes óticas dos investigados. Tendo isso claro, passemos aos desvelamentos dos achados da pesquisa. 142 5.1 PRIMEIRO NÚCLEO DE SIGNIFICAÇÃO: PRÁTICA, LUGAR E ENTENDIMENTO SOBRE A FORMAÇÃO ON-LINE Neste primeiro núcleo de significação estão organizados os achados que dão conta de caracterizar como acontecem as práticas pedagógicas nas trajetórias de formação dos alunos; quais os lugares prioritariamente escolhidos para participar do curso; e, quais os entendimentos sobre a formação on-line. Aqui, os achados foram reunidos, partindo, em um primeiro momento, daqueles obtidos por meio dos questionários quando das indagações de cunho objetivo. Mesmo tendo em primeiro plano as questões pontuais, no entanto, vamos nos apoiar no conjunto dos instrumentos, correlacionando e ampliando-os pelas interações com os sujeitos da pesquisa. Então, da observação das convergências e/ou divergências do fenômeno em investigação, centramos nos pontos focais das respostas dos sujeitos para constituir um alicerce da compreensão sobre a dimensão da formação on-line, suas práticas e lugares. Vimos anteriormente, no ponto em que tratamos da metodologia, o perfil destes sujeitos, suas condições pessoais e institucionais de acesso aos recursos infotecnológicos (o uso do computador conectado à internet e outros dispositivos também conectados em rede como: tablets, smartphones, entre outros) para o uso diário que lhes dão condições de acesso, produção, disponibilização etc. as informações, produtos, serviços e, sobretudo, ao ambiente do curso. Revelamos aqui, especificamente, a prioridade do uso destes recursos empregados no percurso de formação no ambiente virtual. No caso dos alunos, a utilização diária das estruturas infotecnológicas disponibilizadas divide-os em dois grandes grupos: o primeiro deles informou que o uso é destinado para fins da formação (para o estudo), o que corresponde a 63%; e o segundo, faz uso prioritário para o trabalho, somando 30%. Na parcela restante (7%) estão inseridos aqueles que informaram que fazem uso com finalidade de lazer ou para outros usos os quais não foram indicados. Observemos o Gráfico 2 a seguir: 143 Gráfico 2 - Finalidade prioritária de uso dos recursos das TDIC pelos alunos Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor Considerando os indicativos, importa destacar a presença marcante e expansiva que as tecnologias têm atingido. A exemplo daquilo que nasce no seio da sociedade, elas modificam os modos de trabalho, tomam uma envergadura outra, e atravessam a sociedade como um todo, e, não menos, vão ressoar em outro campo de prática social, que é a educação. É sabido que o uso das TDIC nos cursos on-line é requisito básico que cria condições para a participação ativa nestes “espaços”. Porém, o que chama a atenção nestes achados é a concessão de prioridades para seu emprego. Em se tratando de uma formação on-line, que carece de equipamentos conectados em rede, ainda se apresenta 30% destes sujeitos utilizando-a exclusivamente para o trabalho. Não seria de espantar se esse percentual estivesse atrelado aos professores, tutores e coordenadores, pois essas tecnologias são condições para o fazer pedagógico, para seu trabalho. No entanto, os dados revelam que essa é a realidade dos alunos dos cursos. Isso quer dizer que entre estudo e trabalho a prioridade de uso é para o último. O ponto comum na aplicação dessas tecnologias pelos sujeitos se dá pela convergência das relações sociais: tanto na esfera de produção político-econômica (enquanto condição de subsistência) quanto na esfera de desenvolvimento intelectual, cultural e cognitivo. Professores, tutores e coordenadores se equivalem quanto ao uso do ambiente para trabalho e estudo. Isso é completamente compreensível porque, prioritariamente, tais recursos são artefatos com os quais efetivam suas práticas pedagógicas. Com base na perspectiva vygotskyana, podemos compreender os artefatos como instrumentos que derivam sentido 2% 30% 63% 5% Lazer Trabalho Estudo Outros, não especificados Prioridade de uso dos recursos das TDIC 144 quando de sua incorporação nas atividades/práticas humanas, as quais se dão pelo processo de significação que lhes são atribuídos. Os artefatos, investidos nas atividades de conhecer, exercem o papel de mediadores da relação entre o sujeito e o objeto de conhecimento, ou seja, são instrumentos mediadores. A assimilação dos artefatos produz mudanças nas práticas sociais que, em um movimento cíclico, potencializam e modificam o uso e as funções dos artefatos instrumentais e simbólicos, possibilitando o desencadeamento de novas operações de (re)construção de significados (VYGOTSKY, 1996). Na EaD on-line, concebendo os aparatos tecnológicos como meios de transformação social empregados nas práticas formativas, os alunos têm optado por “espaços” plurais para a realização de seus estudos. Face a isso, indagamos sobre qual seria o “lugar” prioritário onde estudam. Entre eles é majoritário o uso da internet como lócus para a realização de pesquisas mais genéricas, que podem ou não estar especificamente atreladas aos conteúdos das disciplinas do curso. A internet lidera a lista de preferência com 39% dos sujeitos, seguida do estudo em casa com material impresso (34%) – referencial para a trajetória de formação nos cursos, ambiente Moodle do curso (16%), biblioteca (2%), com os colegas pela internet (2%), no laboratório do polo (2%) e outros (5%). Esses percentuais estão presentes no Gráfico 3, que segue: Gráfico 3 - Forma preferencial de como e onde os alunos estudam Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor 39% 2% 0% 2% 2% 34% 16% 5% Na internet Na biblioteca Com os colegas presencialmente Com os colegas pela internet No laboratório do polo Em casa com material impresso No Moodle do curso Outros, não especificados Prioritariamente como e onde os alunos estudam 145 Pensar em como seriam seus estudos, levando em consideração o que foi exposto pelos pesquisados, emergiram significados que adotam a internet como espaço privilegiado para busca livre por informações que podem ou não versar sobreo tema em estudo ou em discussão no ambiente do curso. Algumas das declarações comentavam que as buscas na internet podem ser mais direcionadas, se tomarem como referência as bibliografias indicadas nos materiais dos cursos. Esses indicativos nos permitiram compreender a forma que preferencialmente adotavam para desenvolver as atividades pedagógicas do curso. As respostas ficaram bastante próximas, correspondendo 29% a buscas na internet e em sites de busca. Admitiram o uso preferencial pelo ambiente Moodle para interagir com os colegas e resolver as atividades ali postadas 26%. Outra compreensão emergida foi a de que leem as atividades e escrevem o que sabem sobre o assunto (20%). Os demais achados expressaram que a forma que estudam, para 17% dos respondentes, é especificamente com a bibliografia do curso, contra 8% que não revelou a forma como estudam. Dos que informaram preferir estudar com a bibliografia do curso, vemos coerência entre essa e a preferência pelo material didático como meio de estudo. Vejamos o Gráfico 4 que segue: Gráfico 4 - Forma preferencial de como os alunos estudam Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor Imprimimos uma pausa na leitura destes achados no ponto que diz respeito à participação que se daria por “lê a atividade e escreve o que sabe sobre o assunto”. Esse 20% 26% 29% 17% 8% Lê a atividade e escreve o que sabe sobre o assunto Interagindo com os colegas no Moodle Pesquisa na internet e em site de busca Especificamente com a bibliografia do curso Outros, não especificados Prioritariamente como os alunos estudam 146 entendimento pode levar à compreensão de que as relações que se estabelecem no ambiente poderiam ser muito rasas. A possível superficialidade na resolução das atividades chamou a atenção, já que conota-se que a mesma esteve calcada no senso comum. Além disso, as atividades não foram indicadas como momentos profícuos para a reflexão fundamentada em leituras e discussões engajadas nas trajetórias de formação. Sem generalizar, o entendimento de que ler o enunciado e escrever o que se entende pode conotar uma participação pouco significativa, pelo fato de não haver oportunidade de diálogo nem para um processo de desenvolvimento pessoal. Assim, tomando esta consideração, indagamo-nos se tais processos não se tem dado condição de o aluno (re)elaborar novas significações que extrapolassem o senso comum? Ou, diante do exposto acima, não desconsiderando a realidade dos cursos presenciais, mas com foco à formação on-line, uma pergunta se faz necessária: que tipo de formação tem sido proporcionada nestes cursos? Esperamos que, na continuidade destes escritos, os entendimentos fornecidos por nossos sujeitos da pesquisa nos deem condições para refletir sobre esta problemática. De antemão entendemos que, se as apropriações não têm sido significativas e mesmo assimiladas, talvez a formação que se tem operado possa estar vislumbrando a mera repetição de conhecimentos não apropriados ou, ainda, não dando condições de ir além do senso comum. Retomando a preferência por desenvolver as atividades pedagógicas do curso no ambiente Moodle (resolvendo as atividades ali postadas e interagindo com os colegas), dois pontos são levantados: um em que a atividade funciona como um gatilho de acionamento da interação, que resulta no contato com o outro; e outro que, parece, atribui à atividade o status de produto em detrimento de ela ser concebida como um dos articuladores de reflexão sobre os conhecimentos que são abordados durante o processo formativo. Destes pontos, aqui pegando a atividade enquanto ênfase no produto, vamos observar que tal entendimento reduz o processo de formação ao produto e, ainda, mostra que a atividade não exerce seu papel de mediadora. Seja pelo fato de não ser conduzida por esse viés ou, pela incompreensão desta possibilidade. O que se entrega, o que se faz na e para o cumprimento da atividade, tem compensado e mesmo substituído as relações e ações entre os pares. Diante disso, em analogia e apoiando-se nas ideias de Hoffmann (1994), a atividade deixa de ser um momento propício para o acompanhamento individual de alunos e de suas trajetórias de formação, bem como de um momento fecundo para toda uma intervenção pedagógica adequada de apoio aos 147 alunos. Hoffmann (1994), ao tratar da avaliação mediadora, observa que esta avaliação tem base em um modelo que se sustenta pelo diálogo, e da aproximação do professor com o seu aluno. Neste segmento, analogamente à avaliação mediadora, percebemos igualmente que a atividade pode exercer sua função mediadora e ser favorável à reflexão e interação tanto com os conteúdos estudados, como com os colegas e professores. Contudo, os achados iniciais não deram condições para se perceber se o caráter mediador das aprendizagens ocorreu nas atividades, retirando a ênfase no produto em si. Assim, tivemos falas como “na maioria das vezes o tutor ficava preso aos gabaritos das disciplinas e inibia e pouco cobrava a criatividade e a opinião própria do aluno” (A136). Por outro lado, não vislumbramos uma homogeneização dos entendimentos, do que não se tornou possível perceber se a ênfase no produto tenha derivado de uma construção coletiva, ou de fenômenos isolados ora pelos professores e ora pelos alunos. Essa perspectiva iria ao encontro do que apregoa Hoffmann (1994) sobre a avaliação mediadora, ao passo que as atividades cumpririam, assim, a função reguladora permeada pelos elementos sócio-históricos da formação on-line. A co-criação da aprendizagem pela atividade se originaria das interlocuções advindas dos comentários, provocações, considerações e negociações de sentidos ocorridos durante o acompanhamento da trajetória de formação dos alunos pelos professores. Em síntese, o universo que se desvela no percurso de um estudo on-line dos alunos põe- se repleto de dinâmicas e alternativas que variam, se dividem e se complementam. Para isso são consideradas as seguintes práticas pedagógicas: O uso da internet e sites de busca; o acesso ao ambiente do curso e interação com os colegas; a leitura e escrita das impressões e do que sabem sobre o assunto e o apoio nos materiais do curso e de seus referenciais bibliográficos. A depender dos diversos momentos e das propostas didático-pedagógicas postas no curso ou disciplina, vão se formando arranjos e organizações que trazem como meta o uso do ambiente do curso calcado em ações mais significativas e ou reprodutivistas. As trajetórias de formações são percebidas como processos dinâmicos, vivos, que se moldam e rearranjam a cada desafio que é solicitado aos sujeitos da formação. Mas também se percebe a existência de um descompasso entre as ações que ocorrem no ambiente e as externas a ele. Relações que o próprio processo formativo exige e que nesses rearranjos vão buscando espaços outros para sua efetivação. Disso, deduz-se que há uma mescla de ações durante o estudar, de forma que venham contribuir ou suprir as necessidades e dúvidas que a 148 formação apresenta e que necessariamente deveriam ocorrer prioritariamente no e pelo AVA, mas que na prática têm se manifestado para além dele. Os percursos das aprendizagens que são proporcionadas nos cursos têm se sedimentado pela participação no ambiente, lugar para realizar as atividades e interações com os colegas do curso. As buscas pela internet são compartilhadas com seus pares, o que põe em evidência a percepção dos sujeitos sobre o caráter interativo que subsidia seu estudar. No entanto, não se percebe esta mesma manifestação e emergência nas relações puramente estabelecidas no, com e pelo ambiente. O “espaço” virtual também dá condições de acesso e interação com o material que diverge enquanto relações que, em uma óptica mais social, requerem a dialogicidade com o outro. De um lado nãose pode dizer que não há diálogo entre o aluno e o material, mas, de outro, podemos afirmar que o fluxo do diálogo não é contínuo e, para que o fosse, a presença do mediador (professor, tutor) seria imprescindível. O universo rico dos achados com o qual nos deparamos deu margem a que novas perguntas se formassem, tais como as seguintes: seriam estas relações no ambiente correspondentes às atividades pontuais, marcadas e estanques temporalmente? Ou seriam contínuas e transversais? Nas falas dos sujeitos aflorou a relevância e a rotina de estudo que a formação exige. O trabalho no e com o ambiente requer um empenho contínuo, dinâmico e efetivo. Disso emergem necessidades que percebem o processo formativo, como aquele que vai além de demandas pontuais como as chamadas à realização de atividades e lembretes de prazos de envio dos arquivos e de postagens. Quanto à dedicação semanal para o estudo e a realização das atividades no ambiente do curso, temos que estudar no ambiente é algo dinâmico, frequente, e que pressupõe dedicação semelhante à destinada a cursos presenciais; ela é temporalmente significativa para o estudo, para a manutenção das relações e constituição de ambientes de aprendizagens fecundos. Apurou-se que 58% do tempo de imersão nos processos de ensino e aprendizagem no e com o Moodle é gasto com estudos que consomem de três a cinco horas semanais, contando o tempo de acesso ao Moodle. O segundo maior investimento de tempo com estudo corresponde à faixa de seis a dez horas por semana (24%). Para 8% dos entrevistados, a estimativa de uso do ambiente revelou onze a quinze horas semanais. Foi relatado por 7% que o uso ultrapassa 16 horas semanais. Na contramão dessas informações, estão 3% dos que 149 relataram raramente acessar o ambiente para o estudo. O Gráfico 5, que segue, sintetiza estes achados, vejamos: Gráfico 5 - Estimativa de horas semanais de trabalho com o Moodle Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor Baseados na observação da estimativa de tempo dedicado no trabalho com o Moodle e, atribuindo sentidos a estes achados, temos que a frequência mínima de acesso ao ambiente é semanal, e que nessas condições o acesso é praticamente diário. Considerando a faixa horária mínima de dedicação ao estudo no ambiente, a duração da atividade pode variar de uma a três horas ao longo da semana. Na extremidade oposta, apuramos a faixa horária de três a dez horas semanais. Isso equivale à dedicação de uma a duas horas diárias, representadas aqui por 82% dos sujeitos. Uma das considerações feitas sobre o tempo dedicado ao curso se refere justamente ao formato do curso. Assim, o curso “exige do aluno muita dedicação e autodisciplina” (A19). Sobre a dedicação na EaD, Sousa e Silva (2011) observa que: Vale destacar que essa modalidade de ensino não exige apenas uma maior dedicação do aluno exige também dedicação e integração dos diferentes profissionais envolvidos no processo educativo, professor formador, professor mediador, apoio da equipe técnico-pedagógica e mais tempo para planejamento e acompanhamento do processo educativo. (SOUSA; SILVA, 2011, p. 199) Sendo assim, “a dedicação do aluno é decisiva para o processo de aprendizagem” (TAMBOSI et al., 2014, p. 3) e, para tanto, o formato do curso exige ainda “uma maior 3% 58% 24% 8% 7% Raramente acessa De 3 a 5 horas semanais 6 a 10 horas semanais 11 a 15 horas semanais Mais de 16 horas semanais Estimativa de horas de trabalho no Moodle 150 dedicação nas leituras e na escrita” (TAMBOSI et al., 2014, p. 2). Palloff e Pratt (2004, p. 30- 34) ao se referir ao aluno virtual pondera que a dedicação é uma das características necessárias para se obter sucesso neste formato de curso. Assim, nas palavras dos autores, “dedicar uma quantidade significativa de seu tempo semanal aos estudos e não ver o curso como uma maneira mais fácil de adquirir um diploma” (PALLOFF; PRATT, 2004, p. 30-34). No que se refere à autodisciplina na EaD, ela [...] permite ao aluno compatibilizar seu curso com suas possibilidades de tempo, realizá-lo no ritmo desejado e em qualquer local disponível, desenvolver independência, comportamento proativo e autodisciplina na busca de seu desenvolvimento. Mas para tanto, é preciso que o aluno monitore a si próprio, para saber pedir ajuda quando necessitar. A EAD exige, portanto, autonomia responsável. (VERGARA, 2007, p. 3) Pelo exposto, vemos que os sujeitos investigados manifestam as características requeridas, que são tomadas como positivas para a formação. Dedicação e autodisciplina tomadas em conjunto demonstram que os inquiridos as reconhecem necessárias, vejamos: Para que houvesse aprendizagem foi preciso esforço e dedicação e acima de tudo compromisso consigo mesmo e com autodisciplina acima de tudo, exatamente por não haver a presença do Professor todos os dias te cobrando. (A23) Como as elucidações também sinalizaram para um trabalho presencial no polo como complementativo daquele do ambiente, algumas inferências foram sendo cogitadas e contrapõem o informado sobre a dedicação ao estudo no e pelo ambiente virtual; e, com isso, este tempo dedicado estaria distribuído entre as atividades de leituras dos materiais do curso (mesmo existindo o material impresso ou para ser impresso) e das informações que eram veiculadas no Moodle. Além disso, cogitamos outra possibilidade, a de que o uso do ambiente aumenta quando ele subsidia as interlocuções que ocorreriam nos encontros presenciais com o tutor. Ao considerarmos a maior dedicação de horas para o estudo no e pelo Moodle, ocorre fazer certa analogia com as salas de aulas presenciais, convencionais, onde os encontros geralmente têm, em média, duração de três a quatro horas diárias, tendo os alunos e professores reunidos em um espaço físico em comum. Essa analogia também permite algumas inferências quanto ao Moodle. Uma delas decorre da vinculação dos alunos com o ensino presencial, mais tradicional de ensino, o que os conduziria mais vezes e mais frequentemente para o ambiente e também para o polo. Além 151 disso, as poucas dinâmicas no ambiente do curso conduzem ao entendimento de que o perfil do aluno pode estar atrelado à postura passiva, em consequência do material e das ações inerentes ao AVA. Com relação à afeição que os sujeitos têm pelo formato do curso, trazendo como consequência a expressiva capacidade em se aplicar e dedicar aos cursos on-line, os insumos fornecidos nos permitiriam pensar que a capacidade de estabelecimento de uma agenda e rotina de estudo são requisitos fundamentais para o êxito nestes cursos. Não é errôneo pensar que os sujeitos criam condições e tempo para o estudo e que, por isso, carecem de flexibilização de horário para a elaboração de sua agenda de estudo, como no caso dos alunos trabalhadores. Em se tratando de aluno virtual, Palloff e Pratt (2004) trazem que o estabelecimento e manutenção de uma agenda de estudo são fundamentais à formação. O engajamento e comprometimento de se reconhecer como elemento essencial, também fazem parte do perfil ideal para a formação on-line já que o aluno é o responsável direto por sua aprendizagem. Essa consciência e postura permite dizer que, nas palavras de Palloff e Pratt (2004), tratamos do aluno ideal para a EaD. Nas falas dos sujeitos que declararam raramente acessar o ambiente, percebe-se um paradoxo. O curso com proposta de formação on-line teria no uso do ambiente a condição de participação formalizada neste “espaço”, instituído e privilegiado para as práticas pedagógicas e a efetivação das trajetórias de formação. Em analogia, raramente acessar o Moodle, seria equivalente ao aluno ir/estar na escola e/ou não entrar na sala de aula ou não ter professor na sala. Diante deste achado, surge a questão de como o aluno consegue não atuarno ambiente e de como estudaria? Apesar do aparente paradoxo que evidencia a baixa interação no ambiente de curso on- line, verificou-se situação capaz de justificá-lo. Alunos usaram o ambiente como interface para executar tarefas acadêmicas (acesso aos materiais e conteúdos, postagens e envios de atividades exigidas nas disciplinas do curso), mas sem criar vínculo de estudo no ambiente. Isso demonstrou processo individualizado de interatividade com os materiais do curso e a preferência pelo trabalho com os tutores nos polos presenciais, o que está longe de caracterizar falta de estudo/aprendizagem; mas, consequência da organização do curso e modelo de tutoria adotado. 152 Adicionalmente, essa situação permitiu-nos pensar que estes sujeitos não projetavam nem alimentavam relações e ações interativas e colaborativas com seus colegas e professores no ambiente on-line do curso, não fomentando a lógica de comunidade de aprendizagem. Esse tipo de postura e comportamento reforça a máxima conteudista e reduz os ambientes virtuais a meros repositórios de conteúdos, priorizando o produto em detrimento de uma formação calcada no entendimento de processo (SILVA, 2011). Para rematar, a compreensão que permaneceu conosco é a de que os sujeitos que raramente acessaram o ambiente não vivenciaram “virtualmente” um processo de formação on-line, tampouco adotaram um perfil de aluno, requerido constantemente em cursos nesta formatação, como identificado por Palloff e Pratt (2004). Os achados apontaram para o fato de que eles ficaram restritos à realização das leituras dos materiais e à relação com os tutores com os quais tiravam as dúvidas presencialmente. Isso, podendo conduzir à conservação e reprodução do modelo do mestre explicador. Mesmo assim, os achados não admitem generalizar, uma vez que não há qualquer indicativo de não ocorrência dos elementos sócio-históricos da formação on-line em sua formação, embora esses elementos não tenham sido potencializados no ambiente Moodle; a mediação, interação e interatividade foram consolidadas na relação com os tutores em encontros presenciais nos polos e também durante as aulas presenciais ministradas pelos professores. O que de fato pode causar estranheza é que tenha havido um esvaziamento do ambiente ante uma proposta de formação on-line; e, consequente privação de vivências dos elementos sócio-históricos pelos demais sujeitos do curso. Entretanto, essa estranheza pode ser amenizada ao olharmos para este fenômeno tendo por alicerce o entendimento de que, enquanto sujeitos sócio-histórico-culturais, tenham herdado uma formação dependente, que carece de presencialidade, atrelada à figura do mestre explicador (RANCIÈRE, 2002) e que o professor no polo supriria sua necessidade. Ou, ainda, por inferência, que estas tecnologias não tenham infiltrado e adentrado os muros da escola que esses alunos têm construída em seu imaginário (SIBILIA, 2012). Tanto é que, se com os recursos tecnológicos não se pode confinar, pelo menos, espaço e tempo (fato que potencializa a flexibilidade da formação on- line), esses alunos têm a seu dispor a universidade em rede, não sendo mais necessárias quatro paredes; mas observa-se que o movimento aqui se põe justamente ao contrário. Nas palavras e desvelamentos desses alunos, vemos permissão para inferir que, para eles, não se trata de uma incapacidade de uso destas tecnologias em suas trajetórias de formação, mas na momentânea 153 falta de compreensão de que elas possam ser percebidas e utilizadas para assegurar "espaços de encontro e diálogo” e de efetivação dos elementos antes mencionados. Essa ausência do ambiente nos chamou a atenção em razão do afastamento das práticas e relações estabelecidas naqueles “espaços” formais para a formação. Isso pode agregar dificuldades à trajetória de formação, haja vista a falta de contato, ou contatos amiúde, os quais são requisitos fundamentais para a manutenção das relações que respaldam os elementos em estudo, potencializadores de aprendizagens. Mediante o exposto, os achados indicaram um esvaziamento do ambiente e sinalizaram, no uso do ambiente Moodle, o caráter de repositório e de “espaço” para onde foram encaminhadas as cobranças sobre datas e limites máximos para o envio das atividades. Em uma perspectiva sócio-histórica, não se pode vincular a dimensão formativa alicerçada na mediação, interação e interatividade, reduzindo-as tão somente a momentos pontuais. A nosso ver, isso desconsidera a dimensão formativa de acompanhamento da trajetória de formação dos alunos, o que não ocorreria no ambiente do curso. Tratando especificamente dos elementos investigados, alguns desvelamentos foram sendo configurados. Portanto, ao se referir à mediação, um dos sujeitos informa que “a mediação no polo, principalmente nas aulas presenciais, são boas, fora disso os professores e tutores raramente te mandam mensagens” (A85). De maneira similar, com referência a interação, outro sujeito desvela que “com os colegas a interação tem ocorrido mais fora do ambiente Moodle, no polo, presencialmente, ou em redes sociais”. (A137) A essas falas outras tantas se somaram para apontar o encontro presencial no polo como momento importante para a formação e, por consequência, o esvaziamento dos ambientes dos cursos. Com relação a interação, tivemos a observação de que se teve “pouca ou quase nenhuma, pois somente nos encontros presenciais podemos trocar informações, interagir” (A15). Para outro sujeito, “acredito que a interação deixou a desejar, não por questões do polo, e sim por conta dos alunos que não compareciam aos encontros sugeridos pela coordenação”. (A32) Com foco na interatividade, relevando que os elementos sócio-históricos da formação on-line se realizavam na presencialidade, surgem os indicativos de que os prejuízos na ocorrência seriam o não comparecimento dos alunos no polo. Assim, ao responder se a interatividade ocorria, um sujeito elucida que “sim, às vezes não dá para todos estarem ao mesmo tempo no polo, mas a maioria se encontra lá”. (A129) 154 No decorrer desta trajetória investigativa, pudemos perceber a emergência da “presença on-line” e, parafraseando Valente (2003), do “estar junto virtualmente” como requisitos fundamentais à formação, desvelada pelos próprios sujeitos. Estas seriam praticamente palavras de ordem para formações na dimensão sócio-histórica na formatação on-line, principalmente para os que fazem sua primeira graduação, que representam a maioria nos cursos. Quando da não ocorrência nos ambientes dos cursos ou face à sua insuficiência, as estratégias se apoiam nos estudos feitos nos polos com os tutores presenciais. 5.2 SEGUNDO NÚCLEO DE SIGNIFICAÇÃO: PERCEPÇÕES DOS ALUNOS SOBRE OS PROFESSORES E TUTORES E SUA RELAÇÃO NO DECORRER DO PROCESSO FORMATIVO No segundo núcleo de significação, focamos na apreensão das percepções sobre os professores e tutores, e sobre as relações estabelecidas e mantidas no decorrer do processo formativo. Vimos presenciando que a realidade docente tem sido marcada por constantes ações e políticas que agregam um cosmo de sobretrabalho, desvalorização/subvalorização e mesmo precarização do trabalho docente (ALONSO; SILVA, 2013). Para se referir a um trabalho tipicamente docente, novas e outras terminologias vêm sendo empregadas, as quais muitas vezes fazem certa confusão, distanciamento e alienação da compreensão do que seja o métier docente. Ao focarem a maneira pela qual o papel docente tem sido reconhecido e tratado pelas políticas públicas, referindo ao universo da UAB, Lapa e Pretto (2010, p. 79) argumentam que este sistema legitima a precarização do trabalho docente, uma vez que “configura-se a implantação de uma política pública nacional, que define o papel dos tutores como não docentes”. Segundo estes autores, nas IFES um novo tipo dedocente surge: [...] o professor-bolsista, que irá acumular suas atividades presenciais ao trabalho na educação a distância e a complementação salarial que receberá por meio da bolsa será associada às atividades de extensão que realiza e não às atividades de ensino. (LAPA; PRETTO, 2010 apud OLIVEIRA, 2014, p. 99) 155 Os professores-bolsistas têm, portanto, enfrentado situações de acúmulo do trabalho na formação presencial com aquelas atividades em “espaço” on-line, que demandam tanto ou mais tempo de dedicação que as de um curso presencial, como condição para que se busque assegurar um atendimento qualitativo, e consequentemente a qualidade formativa. Sem a pretensão de fazer apologia a qualquer das terminologias usadas no contexto de cursos on- line, tomamos a designação de tutor usada nos cursos da UAB investigados. O termo tutor é usado para se referir ao indivíduo que atua de maneira similar ao professor. A este profissional cabe ter formação superior, preferencialmente em licenciatura, mas não se limita a ela. Critérios de seleção e definição de atribuições são estabelecidos em edital. Esse perfil tem sido muito próximo, para não se afirmar que é, do professor. E veremos que eles são vistos desta forma. Em pesquisas recentes, como é o caso de Oliveira (2014), tem-se assinalado a importância que a tutoria vem assumindo no contexto dos cursos superiores de formação on-line. Ainda, “as possibilidades, os desafios e as precarizações que cercam o trabalho do tutor bem como as condições e contextos ainda pouco compreendidos e problematizados em que desenvolve sua prática” (OLIVEIRA, 2014, p. 78). Neste bojo, ações e políticas públicas, como a que instituiu a UAB, têm fomentado o uso do termo tutor e/ou professor formador. Tal termo se aplica àquele que vai lidar diretamente com o aluno, serve para fazer referência ao profissional que exerce atividades condizentes com as do docente (orientação, acompanhamento e avaliação dos alunos). Na atualidade, o carro-chefe das políticas de expansão e inclusão do ensino superior são os cursos a distância, como o programa da UAB, o grande expoente de expansão e interiorização da educação superior. Por outro lado, é também na esfera da UAB que algumas peculiaridades do trabalho docente com formação on-line têm sido impulsionadas, como a percepção de bolsas ao invés de salários e dos direitos trabalhistas que também vêm sofrendo as mais variadas afrontas, embates e perdas. O universo em que está inserido hodiernamente o profissional da docência tem feito com que ele esteja em grande parte do tempo sobrecarregado de trabalho. Salvo algumas exceções, a maioria dos professores que atua nos cursos on-line também atua no ensino presencial. A sobrecarga de trabalho vem sendo inserida por meio de ajustes, rearranjos e da mercantilização do trabalho docente. Para reverter a situação, é preciso entender que dentre as causas, mecanismos têm conduzido a lógica do sobretrabalho. Alonso e Silva (2013) ao explorarem a dimensão do trabalho docente quando no contexto do uso mais intensivo de 156 tecnologias na EaD on-line observam alguns indícios de que há mudanças nas práticas pedagógicas. Nas palavras dos autores, Alguns indícios são possíveis de serem já observados: há mudanças nas práticas pedagógicas quando são instaurados processos mais intensos de uso das TICs e quando são conformadas propostas em que a mediação, a interação e a interatividade ocorrem; são apontadas algumas pistas da sobrecarga de trabalho gerada pela incorporação destas tecnologias; e, mais amiúde, há a necessidade de que o sobretrabalho, incluindo o do tutor, seja de fato entendido como resultado de novas experimentações. (ALONSO; SILVA, 2013, p. 564) Contudo, o fazer do tutor tem se configurado como prática tipicamente docente que, até então, estaria atrelada ao professor. Com respeito ao possível mal-uso do termo tutor, cunhado nas políticas públicas para designar os profissionais que exercem atividades específicas do professor, e que não podem ser assim chamados, preocupa-nos a alienação e precarização do trabalho agregadas ao indivíduo que exerce as atribuições e atividades típicas do professor. Pois, Se as práticas pedagógicas são agora influenciadas no sentido de dinamizá- las, inclusive no ensino presencial, e se há o entusiasmo pela experimentação, surge, ao mesmo tempo, o incômodo do sobretrabalho, da intensificação dele e de se conviver com relações pouco esclarecidas, como no caso dos OAs (tutor), que trabalham como docentes, mas com negação dessa condição, inclusive por parte dos organismos financiadores dos programas e projetos de EaD. (ALONSO; SILVA, 2013, p. 576) Como dito alguns parágrafos atrás, para alguns professores se supõe horas de docência presencial e on-line. Salvo exceções, isso acarreta o não cômputo das horas dedicadas para as atividades dos cursos on-line no plano individual de atividades docentes. Em grande parte, os planos individuais se limitam a conter a relação das disciplinas e horas como uma forma de registro, mas que não repercutem como atribuições válidas para o preenchimento da carga horária semanal (40 horas legais). Tais atividades fazem jus ao pagamento de bolsa institucional por um trabalho sem vínculo empregatício, sem incidência de imposto de renda e sem visibilidade (porque é um trabalho extraclasse), a que se somam as amarras da burocracia. O nó é que quando as políticas entram nas instituições, alguém precisa assumir. Na UFMT, a Resolução do Conselho Superior de Ensino Pesquisa e Extensão (CONSEPE) no. 158, de 29 de novembro de 2010, é que dispõe sobre normas para distribuição de encargos didáticos, segundo o regime de trabalho dos docentes e que dá margens para interpretações, com ênfase no Artigo 2º, o qual define as atividades de ensino 157 considerando a presença ou não de remuneração (extraordinária) aos docentes, em exceção à percepção de bolsa. O pagamento de bolsa sobre a atividade docente desperta impressões antagônicas: prêmio e castigo. Uns se sentem motivados pela oportunidade de ganho extra, enquanto outros se veem forçados a assumir mais uma frente de trabalho contra sua vontade, em decorrência do reduzido quadro funcional de efetivos. Em ambos os casos, os professores ficam reféns do sobretrabalho que se instaura. Para cumprirem a agenda de trabalho, sujeitam-se a horários alternativos (noite, madrugada e/ou finais de semana). Há também os casos daqueles que não estão vinculados à instituição. Para esses, a bolsa será a única fonte de renda. E, ainda, aqueles docentes vinculados a outra instituição que, nesse caso representa ganho extra, já que percebem remuneração de outra fonte pagadora. Prosseguindo com os achados da pesquisa na compreensão dos entendimentos sobre o fazer docente, buscamos apreender o olhar que é lançado, pelos sujeitos da formação, mais especificamente sobre o perfil profissional do tutor. Com base na concepção de que as práticas educativas se constituem em sua essência de práticas sociais, torna-se mutilador qualquer fazer docente que se desvincule da realidade social compartilhada ou que desconsidere as atuais conjunturas em que estamos imersos. Assim, independentemente da formação que o tutor tenha (os não licenciados podem ter prejuízos em determinados aspectos da sua prática pedagógica), é-lhe exigido que seja capaz de articular os conhecimentos científicos elegidos culturalmente pelo curso à realidade de seus alunos, para que estes possam se desenvolver. Neste sentido, cinco vieses foram estabelecidos como indicadores das compreensões sobre o tutor. Quatros vieses de significado singular e, um deles cumulativo, ao reunir todas as percepções que seguem apresentadas. Com relação às competências didático-pedagógicas e técnicas cunhadas pelos tutores, obteve-se os seguintes resultados:67% admitem que os tutores são aqueles que mediam o processo de ensino e aprendizagem e, portanto, são os mediadores; 4% dos sujeitos informaram que o tutor é o professor do curso; e para 5% dos inquiridos, o tutor se resume ao cumpridor de ações definidas pelo professor. Outras respostas que não foram especificadas, somaram 1%. Por outro lado, na contramão dessas compreensões, o desabono ou desconhecimento das competências didático-pedagógicas, ou pior, o acúmulo de mais uma função, ficou evidente 158 quando 2% dos investigados consideram o tutor como um indivíduo de competência prioritariamente técnica, a quem atribuem a função de responsável pelo ambiente Moodle. Já no viés cumulativo, que reúne 21% das opiniões dos investigados, o tutor é responsável pelas competências didático-pedagógicas e técnicas. Acumulam atribuições e atividades que convergem à docência e à técnica. Em resumo, o viés do acúmulo de função tem que o tutor é o professor do curso que vai mediar o processo de ensino e aprendizagem, cumpridor das ações de formação definidas pelo professor e responde ainda pelo ambiente do curso. Tais percepções sobre o trabalho do tutor nos causaram certo estranhamento inicial, que depois se dissipou. Com base no que está definido e, sobremaneira, no que ocorre institucionalmente, o tutor tem, habitualmente, compartilhado de funções tipicamente docentes. Mas, ainda que eles realizem as mesmas atividades e que o tutor muitas vezes supra a ausência do professor (que a justifica de várias formas: por sua dinamicidade e característica ou ainda pela cumplicidade e comodismo por parte de alguns professores) na formação on- line, mesmo assim ele ainda não recebe esse estatuto. Mesmo não herdando esse estatuto, é posto em evidência a função do tutor, em detrimento da dos professores especialistas. O tutor sobressai como o indivíduo de referência e responsável por dar condições para que os elementos sócio-históricos da formação on-line ocorram. Não se pode desconsiderar os papéis que os tutores vêm desempenhando, como articular e criar elos entre instituição-curso-professor-aluno, entre outros, e que vão dar condições para a ocorrência da mediação, interação e interatividade. Se o termo tutor for usado indistintamente, parece-nos ainda mais preocupante o processo de desvalorização da docência a que, para além do sobretrabalho, muitos destes profissionais estariam submetidos. Longe de apresentarmos explicações para as reflexões aqui sinalizadas, neste ponto consideramos oportuno fazer referência ao trabalho de Oliveira e Lima (2012; 2013; 2014), que, em linhas gerais, versa sobre como e em que condições se constitui a profissionalização docente. Segundo as autoras, o tutor tem desempenhado atividades docentes, como a mediação pedagógica da aprendizagem e avaliação, “[...] entretanto, o envolvimento do tutor com a docência tem sido cercado de condições de trabalho adversas e de fragmentações, cerceando sua autonomia participação na elaboração e no desenvolvimento das disciplinas” (OLIVEIRA; LIMA, 2014, p. 1). 159 Com referência à mediação, evidencia-se uma característica que vem ao encontro das boas práticas e do verdadeiro papel do professor, que é o de desenvolver as competências dos alunos, conforme constatado na fala de um dos sujeitos: “[...] na maioria das vezes o tutor ficava preso aos gabaritos das disciplinas e inibia e pouco cobrava a criatividade e a opinião própria do aluno”. (A135) Além disso, é preciso notar outros aspectos que arranjam a relação dos tutores com os alunos. São eles que ajustam e atuam diretamente com os alunos, são eles que majoritariamente operam o ambiente do curso, e são eles os elos diretos entre professores<-> alunos<->instituição. De certa forma, os tutores buscam suprir qualquer carência de atenção do aluno durante sua trajetória de formação. São eles que intermedeiam as respostas dos professores às dúvidas dos alunos. E, assim, o tutor tem sido o profissional que assume as atividades pedagógicas nos ambientes dos cursos e que assumem a mediação junto aos alunos (OLIVEIRA, 2014, p. 116). Cabe-lhes também esmiuçar todo o material de apoio das disciplinas dos cursos que acompanham e interagem com o aluno, por duas razões: geralmente residem na mesma cidade dos alunos ou no município polo; e porque, antes mesmo, já está previsto em edital do processo seletivo que os tutores (nos cursos investigados tutor presencial) devem ter disponibilidade de, pelo menos, 20 horas semanais para atuar na função, exercendo suas atividades: uma parte a distância (até 08 horas) e, outra parte presencial (no mínimo 12 horas), a serem cumpridas no polo de apoio aos alunos em cada município sede. O caráter pontual e amostral das intervenções dos professores, nas aulas presenciais ou no ambiente do curso, tem gerado a impressão de ausência do professor e, por essa razão, dado espaço para declarações de que o tutor é o professor do curso. Isso é compreensível, pelo já dito: os tutores lidam presencial e virtualmente com os alunos, estabelecem laços e mantêm relações que os tornam referência do curso. É ele tutor quem interage e “estuda” com o aluno. A “ausência” do professor e o “estar junto” do tutor, independentemente de como acontece (nos atendimentos presenciais ou no ambiente do curso), faz com que os alunos entendam o tutor como professor, sem fazer qualquer distinção. Para eles, o tutor presencial é o professor do curso, com quem vai manter contato diário não só durante uma disciplina específica, mas ao longo do curso; daí sua relevância basilar ao bom desenvolvimento das trajetórias de formação. 160 Por outro lado, compreender o tutor como responsável pelo ambiente Moodle do curso faz emergir uma confusão sobre a prática do tutor: é estritamente pedagógica ou é também técnica? Pelos achados, transpareceu-nos a figura do tutor como profissional multifacetado e polivante. Tanto é que essa confusão persiste nas falas dos participantes da pesquisa. Todavia, lançando um olhar externo ao que acontece nos cursos, poderíamos resolver e mesmo desfazer essa confusão declarada pelos sujeitos da pesquisa. Para isso, partimos do entendimento e do conhecimento de que, na instituição, cada curso conta com uma equipe de técnicos que, além de configurarem e manterem os ambientes dos cursos, atendem os alunos e professores quanto a questões operacionais, funcionais. Quando requerida, a equipe técnica também discute, por ter uma característica multidisciplinar, melhores formas e estratégias para ações pedagógicas no curso, otimizando o uso das potencialidades dos recursos dos ambientes. Porém, oposto a isso, o que se extrai das falas dos sujeitos é que os tutores intervêm na solução de problema de cunho técnico, não deixando a equipe responsável fazê-lo; por exemplo, o esclarecimento de dúvidas quanto a navegar no ambiente. Acreditamos que isso ocorra pela experiência adquirida em outros cursos, o que lhes permite responder às requisições sobre as dúvidas dos alunos em relação aos meandros do ambiente. Em tais circunstâncias, é possível que o tutor detenha o conhecimento técnico e dele faça uso, se necessário, para agilizar o atendimento ao aluno. Diante disso, seria possível situar o tutor como sujeito transformador, que transita do lado das competências e habilidades quanto ao domínio dos conteúdos mediando a aprendizagem ao outro, detentor de conhecimento técnico-instrumental que o cinde, portanto, nestes dois polos. Em convergência com tal entendimento, como sujeitos multifacetados, o tutor presencial é concebido como ator social central nos cursos que assistem, não só pedagógicos, tampouco estritamente técnicos. Entretanto, tal entendimento não é uniformemente compartilhado pelos alunos dos cursos. Assim, alguns situam os tutores como sujeitos que não conceituam, não planejame não organizam o currículo do curso, mas, como profissionais vão implantar e executar uma proposta formativa à qual são alheios. Neste ponto, o tutor é concebido como cumpridor de ações definidas pelos professores, está associado ao modelo e às atribuições conferidas pela instituição, e a uma postura de intermediário executor. Não tem poder para interferir na disciplina ou curso. Essa é uma restrição que está associada ao perfil do tutor (que seria mais retraído) e à postura 161 centralizadora seguida pela coordenação. Lembrando que é importante distinguir que este ‘não poder de interferir na disciplina’ não se refere, especificamente, às atividades no Moodle mas, sim, se estende ao processo como um todo em sua organização curricular. Alonso (2009) releva que o fundamental e mais importante para o processo formativo é o diálogo. Neste sentido, a autora se põe em oposição ao viés fragmentador das ações pedagógicas que recusa a importância da participação e atuação de professores e tutores em conjunto, em todo o processo de formação on-line. Dessa compreensão vai delineando a questão − a quem compete o papel de docente. Assim, ao trazer que a questão fundamental no processo formativo é o diálogo, pois ele é o principal meio para que a aprendizagem ocorra, Alonso (2009), observando as funções professores e tutores, levanta o seguinte questionamento: a quem cabem as decisões pedagógicas no processo de ensino- aprendizagem? E, justamente na resposta a esta pergunta é que emerge a compreensão que institucionalmente se confere a tutores e professores. Para a autora, [...] quanto mais diluímos as ações de caráter pedagógico, substituindo-as por tarefas, pelo alcance de determinados escores, pelos produtos a serem postados nos denominados ambientes virtuais de aprendizagem – AVA -, fazemos desaparecer do contexto de formação o diálogo. (ALONSO, 2009, p.93) Alonso (2009) traz elementos contributivos para discussão e repensar o que se tem feito na formação on-line, e de como o tutor tem sido considerado, muitas vezes sendo colocado em polos distintos e com funções contrárias, que reforçam a perspectiva de precarização do trabalho docente, respaldado por políticas públicas e programas como a UAB. Além disso, ainda se tem a manutenção de práticas hierarquizadas de ensino que têm como pressuposto a fragmentação das ações pedagógicas (não só), mesmo sabendo que a formação on-line é um processo coletivo. A esse trabalho coletivo, mais socializado entre professores e tutores, delineia-se uma previsão de docência coletiva (SCHILLER; LAPA; CERNY, 2011; CERNY; BERGMANN; LAPA, 2013), pois [...] indicam que o papel do tutor é de: atuar como mediador entre os professores, alunos e a instituição, auxiliar o processo ensino e aprendizagem, esclarecer dúvidas de conteúdo, reforçar a aprendizagem, coletar informações sobre os estudantes, prestar auxílio para manter e ampliar a motivação dos alunos. (CERNY; BERGMANN; LAPA, 2013, p. 5) Na docência coletiva o objetivo é a realização de um trabalho articulado entre professores e tutores (presencial e a distância) para acompanhar o aluno durante todo o curso. 162 (idem). Entretanto, as autoras advertem que o professor coletivo “parece, ainda, ser apenas um conceito. A prática nos mostra muitos limites para que o professor assuma essa docência compartilhada e diferente” (idem). Ao nos voltarmos especificamente ao trabalho feito pelo tutor, com a visão focada na execução técnica e procedimentos definidos pelo professor, concordamos com o que nos aponta Pesce (2007) de que é preciso chamar este profissional [formadores] [...] a pensar os programas de formação desde a sua concepção, não mais procederiam a intervenções [interações] pedagógicas artificiais, porque desenvolvidas a partir de um script de autoria alheia e teriam autonomia sobre a temporalidade inerente à relação pedagógica constituinte dos processos de formação. (PESCE, 2007, p. 204) Diante disso, automaticamente nos vemos “sequestrados” pelas lembranças imagéticas e remetidos a um campo de atuação tecnicista, como a de Charles Chaplin em Tempos Modernos. Em analogia a este filme, ao se ver na situação de “operário”, o tutor estaria alheio ao fazer docente, funcionando como executor, não participando de quaisquer definições, mas recebendo instrumentalização durante as formações realizadas nas disciplinas do curso e operando de acordo com os moldes de intervenções definidos. Como prática social, o tutor seria um alienado, já que seu campo de atuação se resume a ações externas a si, como fragmentos de um processo. Porém, esses desvelamentos se põem em contradição ao longo do que identificamos pelos achados da pesquisa. De forma que a perspectiva de executor de script, alheio, do tutor, se torna um tanto quanto deturpada quando observado o contexto investigativo em que elas emergem. Ouros desvelamentos apresentam justamente o contrário e posicionam o tutor como sujeito de importância capital para o curso. Para Palloff e Pratt (2002), o tutor é aquele que exerce a função pedagógica, de modo a propiciar aos cursistas um ambiente social estimulador da aprendizagem, utilizando recursos didáticos disponíveis, por meio da mediação. Com o entendimento de que o tutor é o mediador do processo, ganhou força o discurso que diz que ele é um profissional multifacetado, polivalente, agente e reagente, um verdadeiro faz tudo. Como a própria posição exige, e a amplitude de suas ações confirma, age em todas as disciplinas do curso e em toda sua dimensão. Isso corrobora as afirmações de que o tutor é o professor do curso e realiza e abarca tanto a mediação do processo formativo, quanto as competências didático-pedagógicas e técnicas. 163 Contudo, ao voltarmo-nos para o que dizem sobre os tutores os PPC dos cursos, observa-se que, em coerência com um dos princípios dinamizadores do currículo, apresenta-se uma concepção indissociável que “comporta inter-relações em que a construção integradora do conhecimento põe-se como princípio fundamental no desenvolvimento do curso” (PPC PED 2009, p. 22). Ainda assim, para alimentar tal princípio, com enfoque nos tutores, mas estendendo- se aos professores especialistas e à equipe pedagógica, estes [...] profissionais deixam de ser mero transmissor de conhecimento (que chegam "prontos" no material didático) para tornar-se "mediador" entre o sujeito que aprende e o conteúdo a ser aprendido, um “orientador de aprendizagem que oferece todo apoio para que o aprendente possa prosseguir, com as próprias pernas, na caminhada da aprendizagem”. (PPC PED 2009, p. 22-23) Seguindo esta mesma linha de entendimento, tem-se, ainda, no PPC entendimento claro do papel dos tutores com funções e atribuições. Esses sujeitos não são compreendidos como uma mera engrenagem de um sistema. Pelo contrário, entende-se a complexidade que envolve a formação e, diante disso, são concebidos como um sujeito da prática educativa que participa de todo o processo de interação com os demais sujeitos (alunos, professores, técnicos). De maneira nítida, o tutor interage com os alunos, portanto, sua [...] função principal está em possibilitar a mediação entre o estudante e o material didático do curso. Pretende-se assim, que o orientador atue como facilitador e mediador da aprendizagem, apoiando e acompanhando o aluno em seu percurso de estudo. (PPC PED 2009, p. 62, grifo nosso) Diante disso, evidencia-se a responsabilidade deste profissional, mediador do processo formativo, como elo direto com o aluno e mantenedor de diálogo com estes sujeitos, bem como, com os demais integrantes da equipe pedagógica. Soma-se a isso que o tutor, ao fazer parte de todas as etapas e meandros da formação, desde sua participação na construção do currículo, vai exercer ações didático-pedagógicas de acompanhamentodos alunos, em uma dinâmica “presencial”, em contraposição ao termo “distância” que a formação on-line pode impetrar, de um “estar junto on-line”. Além disso, incrementa-se ao tutor que durante o acompanhamento das trajetórias de formações e percursos de aprendizagens dos alunos ele opera estimulando, motivando e, especialmente, contribuindo para sua capacidade de organização das atividades acadêmicas, emancipação e desenvolvimento da autonomia. Pode- se notar que esta concepção e perfil de tutoria vai ao encontro da ideia de professor 164 (docência) coletivo (SCHILLER; LAPA; CERNY, 2011; CERNY; BERGMANN; LAPA, 2013) e, ao se aproximar, afasta-se enormemente, pondo- se em rota de choque ao que nos alerta Pesce (2007) do tutor como um executor de script alheio. Mas é evidente que o tutor precisa estar em constante processo de formação tanto quanto aos aspectos políticos- pedagógicos da formação em que atua (aqui a on-line), como também às propostas teórico- metodológicas do curso ao qual vai ajudar (deve ajudar) a construir. Tampouco não deve ater- se somente a estas formações, mas, sobretudo, avançar em busca de formação própria, continuada e de autoformação. Ao focalizar que o tutor é tido como professor e mediador do curso, interessou-nos descobrir o momento e como ocorriam a interação entre os sujeitos da formação, isto é, entre os alunos e tutores, alunos e professores e alunos e alunos. Como um dos objetivos desta investigação é desvelar os entendimentos e percepções dos alunos sobre os elementos sócio-históricos em investigação, foram se apresentando algumas elucidações sobre os respectivos elementos. Portanto, ao investirmos na compreensão de como eles se configuravam no curso durante a formação, os entendimentos foram sendo evidenciados. No que se referiu à interação no curso, 1%, dos inquiridos narraram que interagiram com o tutor em momentos próximos à avaliação. Para 2% a interação ocorreria todas as vezes que acessavam o ambiente do curso. E, outros 1% informaram momentos outros os quais não foram especificados. Com foco nos recursos que subsidiam a formação on-line, identificamos que a mediação e interação foram tomadas como complementares, imbricadas. Disso, depreende-se que o ponto mais expressivo que marca as relações interativas é motivado pela necessidade da mediação; em termos proporcionais, verificou-se que, para 57% dos sujeitos da pesquisa, interagir é necessário quando surge alguma dúvida sobre o conteúdo ou atividade a realizar. Para estes sujeitos, a dúvida age como elemento acionador da interação. Entretanto, para 27% dos sujeitos, não haveria uma pontualidade cronológica para isso. Segundo estes últimos, a necessidade de manter a relação faz com que busquem a interação todas as vezes possíveis, independentemente de terem ou não dúvidas ou atividades para resolver. Na tentativa de entender se isso era restrito ao ambiente Moodle, observamos que 12% dos sujeitos interagiam exclusivamente com tutores e só nos encontros presenciais. Os 165 achados referentes ao momento em que os alunos buscam interagir com os tutores estão sistematizados no Gráfico 6, a seguir: Gráfico 6 - Momento de interação dos alunos com os tutores Fonte: Achados da pesquisa recolhidos pelo autor Considerando as informações do referido gráfico, urge melhor compreender a que encontro presencial esses desvelamentos se referiam. Assim, partimos de duas premissas que poderiam ou não ser excludentes. A primeira delas de que os encontros presenciais referidos eram aqueles que marcavam o início de determinada disciplina, ou, em segunda, se eram encontros agendados pelos tutores para acompanhamento dos alunos nos polos. Sendo assim, há de se observar que o próprio modelo de tutoria adotado indica uma tendência para o trabalho pedagógico mais presencial, uma vez que a tutoria instituída é a da figura do tutor presencial. Este tutor tem, como função, ambos os acompanhamentos, isto é, tanto no atendimento presencial no polo como no, e pelo Moodle do curso. Talvez aqui possamos inserir a seguinte pergunta: mas por que a opção pela tutoria presencial? A tentativa de responder a esta pergunta pode surgir daquilo que consta nos próprios projetos do curso, que trazem ser esta uma questão de opção metodológica (modelo de tutoria) que subsidiou a definição dos sujeitos e as estratégias de formação. A isso soma-se a autonomia da instituição e, não menos, da coordenação do curso. Então, sem qualquer pretensão de responder tal questionamento, nem tendo por objetivo de pesquisa tratar das opções de modelos de tutoria adotados nos cursos, apenas levantamos 12% 57% 27% 1% 2% 1% Somente nos encontros presenciais Quando se tem dúvida sobre o conteúdo ou atividade Todas as vezes possíveis, independente de ter, ou não, dúvidas ou atividades Em momentos próximos às avaliações Todas as vezes que acessa o ambiente Moodle Outros, não especificados Momento de interação com os tutores 166 alguns elementos que nos dão condições de observar estas evidenciações, e que podem subsidiar o entendimento da escolha pelo tutor presencial. Assim, relevamos o panorama histórico e seus desdobramentos, que não são suficientes nem se fecham em si, mas são indícios significativos para refletir sobre o tema. Para isso, voltamo-nos a olhar um pouco mais para a realidade do estado de MT, as vivências da UFMT com a EaD através do NEAD que, historicamente, já vivenciou (e tem vivenciado) mais de 20 anos de trabalho com este tipo de formação. Neste percurso histórico inserem-se alguns pontos. O primeiro deles é que ao longo dos anos em que o NEAD atuou promovendo a formação a distância em MT, os responsáveis conviveram, neste ir e vir aos municípios polos, com muitas dificuldades e desafios, tanto no âmbito de se manter presente nestes lugares, quanto no de romper as barreiras geográficas e as limitações técnicas em prol do provimento de formação com qualidade. Uma das grandes e recorrentes dificuldades correspondia ao enfrentamento das deficitárias e quase inexistentes rodovias e estradas precárias que interligavam a sede dos polos. Estas rodovias e estradas ficavam em grande parte do ano praticamente intransitáveis, principalmente nos períodos de chuva, já que, em sua maioria, não eram pavimentadas; e também aquelas outras, que interligam estes polos aos seus municípios onde residiam os alunos. Outro ponto é que, para além da malha rodoviária deficitária, os polos não contavam com tecnologias suficientemente mínimas à disposição dos professores e alunos nos polos. A isso acrescenta-se que estas tecnologias haviam há pouco tempo penetrado na UFMT, e ainda se destinavam, sobretudo, à pesquisa. E, por se encontrarem pouco evoluídas e disseminadas, logo não eram de tão fácil acesso. Diante disso, para se operar a formação, adentrar os municípios, a alternativa encontrada foi a de capacitar e promover a formação continuada de tutores, que atuavam nos polos presenciais para buscar operar e garantir uma formação com qualidade. Em adição, é preciso notar que os municípios não dispunham de uma infraestrutura de comunicação que pudesse atender e garantir qualidade na comunicação, além, claro, dos custos envolvidos para isso. No decurso destas vivências, tais desafios e dificuldades levaram o NEAD a estabelecer parcerias com as prefeituras dos polos e, entre os anos de 2005 a 2009, criaram uma rede de comunicação que, além de interligar os laboratórios dos 5 polos do NEAD (Diamantino, Juara, Juína, Terra Nova do Norte e Colíder), instituiu-se também um sistema em rede de videoconferência. Naquele momento esse projeto contou ainda com apoio da Financiadora de estudos e projetos (Finep). Essa infraestrutura tecnológica contou com computadores de alto desempenho, 167 equipamentos de videoconferência (CODEC) deponta e links de comunicação internet dedicados, conectando todos os polos. Atualmente, esta realidade retratada tem mudado para melhor. Obviamente, como já dissemos, os pontos elencados são apenas alguns que permitem situar, historicamente, a realidade dos polos e municípios do estado de MT. Entendemos que a tais pontos podem ser somados reflexões que considerem dimensões metodológicas, público alvo, entre outros. Dado o caráter restritivo da interação na presencialidade, nos deparamos com a realidade de que as interações nos ambientes são pré-mantenedoras, complementares àquelas efetivadas em ambos os momentos presenciais. Assim, seja o encontro presencial de início de uma disciplina ou os que seguem a agenda do tutor, consolidou-se o caráter agregativo, não excludente. As interações que ocorrem no ambiente são transpostas para o mundo real, se enraízam e multiplicam. No ambiente, as interações são mais pontuais muito próximas aos momentos definidos para as avaliações. Assim, tais desvelamentos nos levam a inferir que duas dimensões da interação ocorrem na formação on-line no que se refere ao tutor. Uma é calcada na interação social, de cunho mediativo, fomentada pelas dúvidas e demandas da trajetória de formação que, em sua maioria se manifestaram na presencialidade, na interface física entre os sujeitos. Aqui a ênfase é o processo, é o “ir junto”, acompanhar a trajetória de formação. A outra dimensão da interação é a formal, isto é, de formalização da prática educativa que ocorre no ambiente e que se faz com ênfase no produto, isto é, na realização de atividades ou, mais especificamente, em momentos que antecedem a avaliação que, digamos, é presencial. Para melhor explorar a compreensão dos alunos sobre a interação, buscamos desvelar quando havia a interação com os professores do curso. Quanto a isso, deparamo-nos com compreensões de que tutor e professor seriam os mesmos indivíduos; de que nunca interagiram com o professor e outros, como apresentamos. Em um primeiro momento, os desvelamentos dos sujeitos tomaram um viés de desvio da figura do professor, reforçando o papel do tutor e também do encontro presencial com ele no polo. Sobre isso, No meu caso, não foi o professor, foi o tutor. A tutora (x) foi quem mais possibilitou [aprendizagens], pois ela dirimia todas as dúvidas, estava sempre bem-disposta para elucidar dúvidas. As disciplinas que mais aprendi foram aquelas que foram estudadas ao longo do módulo, aquelas em que compareci no polo para dirimir as dúvidas e resolver as atividades. (A3) 168 Reforçando a ênfase no encontro presencial, mas como foco no momento de sua ocorrência, outro sujeito informa que ela acontecia “nos encontros presenciais com professores e colegas”. (A19) Diferentemente do que identifica Silveira (2011), por meio dos resultados de sua investigação que apontaram para a associação do tutor a distância com a figura do professor, remetendo à ideia do professor presencial, nossos achados deslocam o olhar da figura do tutor a distância para o presencial (modelo de tutoria adotado), o qual é reconhecido como aquele que realiza o processo de acompanhamento das trajetórias de formação dos alunos no AVA, e que se lança na promoção dos elementos sócio-históricos da formação on-line. E, em adição, pela própria disponibilidade de atendimento e de encontro ao vivo entre aluno e tutor no polo. Sendo assim, seria possível entender que a acolhida a este profissional coloca-o no patamar de docente, separado somente por questão terminológica, se deve, talvez, ao fato da herança histórica e cultural que atrela a presença do professor como condição para se aprender e da disponibilidade deste para atendimento presencial no polo. E, em adição, que as divisões de tarefas e funções distintivas dos professores e tutores estão cada vez mais borradas, tanto que, para os alunos, não se tornaram visíveis ou mesmo seriam artificializadas. Para 39% dos pesquisados, a interação com o professor ocorreria somente nos encontros presenciais. Essa lógica, como matriz de entendimento de que a interação social é elemento fundamental para o desenvolvimento do curso, faz o indivíduo se sentir inserido socialmente, dando a ele condições de pertencimento. Pois, ele se vê parte integrante do curso e se identifica como grupo social ao qual se relaciona. Em adição, 22% dos sujeitos da pesquisa informaram que a interação ocorre todas às vezes possíveis, independentemente de ter ou não atividades para resolver. Por estes sujeitos não foi apresentada uma verticalização das relações entre alunos, professores e tutores, de forma que para um ou outro fosse atribuído maior ou menor importância. Com eles transpareceu o entendimento da complexidade do processo educativo que envolve todos os sujeitos com suas especificidades de abrangência das intervenções pedagógicas e que são, assim, igualmente importantes e necessários em suas trajetórias de formação. Sobre isso temos o seguinte excerto: "no meu ponto de vista todos se dedicaram da melhor maneira possível, tirando dúvidas esclarecendo pontos mais relevantes, enfim foram bons profissionais e nos ajudaram bastante no processo de ensino-aprendizado." (A203) 169 No contexto da mediação da aprendizagem, os entendimentos têm sinalizado que a interação é condição para que ela ocorra. Tanto é que pela necessidade da mediação do processo formativo, interagir é requisito para se suprir alguma carência ou dificuldade de entendimento do conteúdo do curso. Portanto, “através de interações com alunos, tutores e professores, a fim de alcançar o mesmo propósito de aprender, através de trocas de experiências. Não há mediação sem interação.” (A49) Assim, para 25% interagir com o professor ocorreu, especificamente, quando se apresentava alguma dúvida sobre o conteúdo ou atividade de formação. Um dos sujeitos considera que a medição “é um contato a mais no ensino/aprendizagem. Acrescenta, no sentido que, tendo como fonte de tira-dúvidas, acrescenta nos comentários e materiais enviados para pesquisa.” (A15) De modo um pouco menos expressivo, com 9% a interação com o professor foi indicada como ocorrida somente no ambiente Moodle do curso. Outros 4% afirmaram nunca terem interagido com os professores do curso e, ainda, tivemos aqueles que disseram interagir somente quando se aproxima o período de avaliação. Para os primeiros, que indicaram o AVA como o lócus para a interação com os professores, um dos sujeitos trouxe que “através dos diálogos nos fóruns, foi possível ter um esclarecimento maior de dúvidas que nos afligiam no momento” (A166). Para os que informaram que toda a relação de mediação, interação e interatividade aconteceu com o tutor, não houve uma completa negação de que a mesma não tenha acontecido com os professores. Com isso, pareceu-nos haver sim uma maior ocorrência com os tutores, em detrimento daquelas feitas com os professores. Vejamos o seguinte extrato “[...] ocorreu [interação] apenas por parte da tutoria, não houve muita interação dos professores ou da equipe de coordenação e professores de curso, exceto em algumas disciplinas” (A159). Outro desvelamento ratifica o antes mencionado, sendo: “Todas as disciplinas possibilitaram aprendizado, pois o material utilizado é muito bom e contém informações importantes para o processo de aprendizado. Quase não tive contato com os professores.” (A28) Ainda, para falar da interação com o professor, porém dando um tom denunciador do processo de ensino e aprendizagem realizado em seu curso, um dos sujeitos retoma a mediação como exemplo, esboçando seu entendimento de que ela funciona “como uma ponte entre o professor e o aluno, o que não tem ocorrido no meu curso, já que o meu tutor nem mora na cidade” (A52). Nesta fala é interessante observar também o caráter funcional da 170 mediação e a denúncia da