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FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 1 2 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ DA CONSCIÊNCIA MÍTICA À CONSCIÊNCIA FILOSÓFICA A consciência mítica era caracterizada pelas explicações tradicionais encontradas nas histórias mitológicas. A mitologia grega, por se tratar de uma crença politeísta, é composta por uma série de entidades, entre deuses, titãs e outros seres que se relacionavam, faziam surgir e davam sentido ao universo. Essas explicações possuíam um caráter fantasioso, fabuloso, e suas histórias eram compostas por muitas imagens, construindo uma cultura popular transmitida a partir de uma tradição oral. Essas histórias eram contadas pelos poetas-rapsodos. Durante muito tempo, essas histórias constituíram a explicação sobre a cultura grega e sobre a origem de todas as coisas. Não havia uma distinção entre religião e outras atividades. Todos os aspectos da vida humana estavam diretamente relacionados com os deuses e outras divindades que regiam o universo. Aos poucos, essa mentalidade foi se transformando. Alguns fatores fizeram com que algumas pessoas na Grécia antiga passassem a relativizar este conhecimento e pensar em novas possibilidades de explicação. Dessa relativização, nasce a necessidade de encontrar explicações cada vez melhores para todas as coisas. A crença vai dando lugar à argumentação, à capacidade de convencer e dar explicações baseadas na razão, o lógos. O lógos é identificado como a fala objetiva, clara e ordenada. Assim, o pensamento grego foi abandonando à crença (consciência mítica) para assumir o que “faz sentido” o que possui uma lógica, o que é capaz de ser explicado pelo ser humano (consciência filosófica). INTRODUÇÃO A FILOSOFIA A palavra filosofia vem do grego philosophia e significa: philo- amizade, amor, afeição e sophia - sabedoria. Portanto, a filosofia significa o respeito, amor e apreço pelo saber. O termo filosofia foi cunhado pelo matemático e filósofo Pitágoras a partir da junção das palavras philo e sophia. A filosofia surge na Grécia no período compreendido entre o final do século VII a.C e o início do século VI a.C. A filosofia foi a maneira pela qual os gregos antigos encontraram para explicar o mundo, os fenômenos, e os acontecimentos de maneira racional. Ao perguntarmos o que é Filosofia, CHAUÍ (1995) nos responde que poderia ser a decisão de não aceitar as coisas como óbvias, as ideias, os fatos, as situações, os valores e os comportamentos; em síntese, Filosofia pode ser definida como a não aceitação dos elementos da existência humana sem antes havê-los investigados e compreendidos. A atitude filosófica tem duas características, uma negativa e outra positiva. A negativa é dizer não ao senso comum, ao que é pré-concebido no cotidiano e tido como verdades aceitas porque todo mundo diz e pensa. A positiva é a interrogação sobre os elementos do cotidiano e da existência: O que é? Por que é? Como é? Juntas, essas duas características da atitude filosófica constituem o que os filósofos chamam de atitude crítica ou pensamento crítico. Atitude crítica pode ser compreendida como tomar distância do nosso mundo costumeiro olhando-o como se nunca tivéssemos visto antes. Michelangelo - A Criação de Adão (estreita ligação entre os homens e os deuses) FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 3 Condições históricas para o surgimento da filosofia Muitas vezes conhecido como “milagre grego”, o surgimento da filosofia não dependeu de um milagre. Foram uma série de fatores que conduziram à relativização do pensamento, à descrença (desmitificação) e à busca de melhores explicações sobre a realidade. Dentre esses fatores encontram-se: 1. O comércio, as navegações e a diversidade cultural Por conta de sua construção e localização geográfica, a sociedade grega tornou-se um importante centro de comércio e uma potência marítima. Isso fez com que os gregos tivessem contatos com outras culturas. O contato com essa diversidade fez com que eles, a partir da descrença e relativização das culturas alheias, acabasse por relativizar a sua própria. 2. O surgimento da escrita alfabética O alfabeto (alfa “alfa” e beta “beta”, duas primeiras letras gregas) foi uma importante tecnologia da época. A escrita através de ideogramas e símbolos está ancorada em ideias que fazem parte da cultura e do inconsciente coletivo. Já a escrita alfabética, exige um grau de abstração maior por estar relacionada com os fonemas. É perceber que as palavras são construídas por sons que podem ser codificados e reproduzidos. Assim, eles abandonam a aura mítica presente nos ideogramas. 3. O surgimento da moeda A moeda exige de seus usuários algum grau de abstração. O comércio realizado a partir de trocas diretas entre produtos (exemplo: galinhas por trigo) exigem muito pouco grau de imaginação. As trocas mediadas pela moeda fazem com que o usuário tenha que perceber que uma quantidade de produtos é equivalente a uma quantidade específica de moeda. 4. A invenção do calendário Outro importante fator para a desmitificação da realidade é a do calendário. Seu uso, faz-se perceber, a regularidade de alguns eventos da natureza, como as estações do ano. A organização gerada pela percepção dessa regularidade retira dos deuses a responsabilidade de controlar o clima, que passa a estar relacionada à capacidade dos matemáticos e astrônomos em fazer previsões baseadas em cálculos. 5. O surgimento da vida pública (a política) Com o desenvolvimento da pólis, há uma intensificação a vida pública. Mais habitantes dividem um mesmo espaço (público) e, com isso, suas atenções se voltam para a organização desse espaço (atividade própria da pólis, política). As interações entre as pessoas fazem com que a relação com os deuses e divindades seja relegada a um segundo plano. 6. O surgimento da razão A população grega passou a necessitar de explicações melhores que estivessem em conformidade com seu grau de abstração e desmitificação. Com isso, o cidadão grego que, segundo a tradição, não deveria trabalhar (o trabalho era entendido como uma atividade menor, responsabilidade de escravos e estrangeiros), dedicou-se ao ócio contemplativo. Contemplou a natureza e buscou estabelecer relações de causalidade (causa e efeito, “o que causa o que?”) e ordenação. A natureza, antes entendida como caos, agora, encontrava-se ordenada pela razão humana. Os pré socráticos Os filósofos pré-socráticos foram os primeiros filósofos gregos, assim, abriram o caminho para os posteriores e formularam possíveis princípios racionais para o Universo. 4 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ Os estudos acadêmicos convencionam que o período pré-socrático foi o primeiro período da Filosofia ocidental. Os primeiros filósofos surgiram na Grécia, há mais ou menos 2600 anos. Uma série de fatores levou os gregos a criarem um modo de pensar autônomo e racional. Entre tais fatores, estão: • a necessidade de contrapor as ideias mitológicas acerca da origem do Universo; • a pluralidade de povos que compunha a região da Grécia Antiga; • o florescimento do comércio e da navegação; • o contato com povos egípcios e babilônicos. O primeiro período da Filosofia grega é denominado como Pré-Socrático (pois seus representantes fizeram uma Filosofia diferente da que foi feita por Sócrates, quase 200 anos depois de Tales de Mileto) ou Cosmológico (pois eles fizeram um tipo de cosmologia, que é uma maneira racional de entender a origem do Universo — cosmos, em grego — em oposição à visão mitológica). Principais ideias Como os objetivos dos pré-socráticos eram os mesmos, as suas principais ideias eram parecidas. Todos eles estavam buscando a formulação de um raciocínio para o surgimento do Universo por meio da cosmologia. Há uma dificuldade de estabelecimento preciso e aprofundado acerca das ideias dos pré- socráticos, pois muitos deles deixaram poucos escritos, e muitos escritos sumiram, foram destruídos ou se encontram, hoje, em confusos fragmentos.É certo apenas que todos os pré-socráticos deixaram suas contribuições para a cosmologia e que cada um deles descreveu um ou vários elementos como a causa de tudo o que existe. A natureza, objeto de estudo daqueles pensadores, era chamada pelos gregos de physis, e o princípio de tudo era chamado de arché. Os pré-socráticos que convencionaram não haver um único elemento gerador de tudo, mas vários, foram chamados de pluralistas. Para facilitar os estudos, os historiadores da Filosofia agruparam os pré-socráticos em escolas, de acordo com as ideias de cada pensador. ESTAS SÃO AS PRINCIPAIS ESCOLAS: ESCOLA JÔNICA: o pensamento fundado por Tales, que afirmava que a água seria o princípio de tudo, foi continuado por Anaximandro, que afirmava que a origem dava-se por um elemento infinito e indefinível, o que ele chamou de ápeiron. Outro expoente do pensamento jônico deu-se com o discípulo de Anaximandro, Anaxímenes, que postulou que o princípio de tudo ocorreu por meio de um elemento infinito, mas bem definido, o ar. Heráclito de Éfeso, outro jônico, afirmou ser o fogo a origem de tudo, o que daria à natureza um caráter transformador. ESCOLA PITAGÓRICA: Pitágoras de Samos, um grande matemático antigo, observou a presença das relações matemáticas em toda a natureza. Com base nos tamanhos, pesos, proporções, distâncias e valores variados, a natureza seria constituída pela própria Matemática. Segundo o filósofo, a origem de tudo seria, precisamente, o início de qualquer figura geométrica — o ponto e a ideia de unidade. ESCOLA ELEATA: os principais eleatas são Parmênides e Zenão, que formularam o princípio não com base em um elemento preciso, mas na imobilidade de todas as coisas que evidencia a essência de tudo. Segundo Parmênides, não havia criação e nem mudanças, mas uma essência eterna e imutável de tudo. A mudança que percebemos no mundo seria fruto do engano de nossos sentidos. FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 5 ESCOLA PLURALISTA: os principais pluralistas são Empédocles, Anaxágoras, Demócrito e Leucipo. Todos eles afirmavam não haver um único elemento causador de tudo, mas uma composição plural que originou o Universo. Para Empédocles, essa origem dava-se com base nos quatro elementos da natureza — terra, fogo, água e ar. Para Anaxágoras, a origem estava no que ele chamou de sementes, que seriam compostos que se aglutinariam ou seriam separados pela afinidade, por meio das forças naturais que ele chamou de amor e ódio. Leucipo e Demócrito, considerados os “pais” da Química, formularam os átomos como origem de tudo. A palavra átomo vem do grego antigo e significa indivisível. Os átomos seriam, segundo os pensadores, as menores partículas que se aglutinam, com partículas semelhantes a si mesmas, para formar os objetos do mundo. Importância dos pré-socráticos Hoje, a ciência e a tecnologia estão muito desenvolvidas, e as ideias pré-socráticas parecem obsoletas e inúteis para entender a constituição natural de tudo. Porém, a importância dos pré-socráticos reside no fato de que o conhecimento racional e a atitude filosófica, que daria origem a uma atitude científica, iniciaram-se com a Cosmologia dos gregos. A nossa ciência somente pode considerar as afirmações dos antigos filósofos obsoletas, porque eles a formularam e possibilitaram o desenvolvimento de toda a inteligência racional que temos hoje. Também devemos pensar numa importância histórica, pois, para entender o desenrolar da Filosofia e da tradição racional ocidental, é preciso olhar para a origem de tudo, de modo a perceber como chegamos aonde chegamos. Bibliografia dos pré-socráticos Não se tem muitos escritos dos filósofos pré-socráticos hoje. O que se tem são fragmentos escassos e, muitas vezes, desconexos. Os historiadores da Filosofia reuniram os pré-socráticos em escolas para facilitar o entendimento de seus escritos. Essa escassez deve- se, principalmente, à ação do tempo e da humanidade que — por meio de enchentes, furações, tempestades, incêndios acidentais e incêndios provocados — destruiu muitos documentos históricos da Grécia Antiga. Estima-se que muitos escritos tenham sido perdidos, por exemplo, no incêndio na Biblioteca de Alexandria. Outro fator que dificulta o entendimento e a reunião da bibliografia dos pré-socráticos é o fato de que eles não escreviam tendo em vista a publicação como fazemos hoje. A grande maioria dos escritos do período não possui título, sendo esses diletantes sobre assuntos relacionados à Cosmologia, à Matemática, à Música, à Astronomia ou sobre qualquer outra ciência que já fosse cultivada naquele período. 6 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ REFERÊNCIAS Marilena Chaui. Introdução à história da filosofia, vol. 1 PORFíRIO, Francisco. “Pré-socráticos”; Brasil Escola