Prévia do material em texto
CURSO DE COMPLEMENTAÇÃO PEDAGÓGICA DISCIPLINA HISTÓRIA DA FILOSOFIA ANTIGA E MEDIEVAL 1 SUMÁRIO INTRODUÇÃO .............................................................................. 03 1.AS ORIGENS DA ONTOLOGIA ................................................ 10 1.1 Os pré-socráticos ..................................................................... 11 1.2Tales de Mileto ........................................................................... 18 1.3. Anaximandro de Mileto. .......................................................... 21 1.4 Heráclito de Éfeso ................................................................... 24 1.5 Parmênides de Eleia ................................................................ 28 2.UMA VISÃO GERAL SOBRE ONTOLOGIAS ........................... 34 3. ORIGENS DA FILOSOFIA E FILOSOFIA MEDIEVAL ............. 40 2 3 INTRODUÇÃO Fonte: Gehops1 O acontecimento de Sartre sobre assegurar e não divulgar uma obra que versasse da moral gerou não somente controvérsias sobre sua filosofia, como mesmo distintas probabilidades de interpretação da moral em sua obra. Igualmente, é quase genérico entre os críticos e pesquisadores cominar a moral a certos rudimentos. Seja em um nível mais contíguo de apreensão, ou seja, mais explícito nas obras basilares, bem como os conceitos de livre-arbítrio, valor (este apreendido em regra somente no seu aspecto subjetivo) responsabilidade, desordem, má-fé, ato, literatura; seja em um nível mais indireto, coevo ou em obras porvindouras ou que não são bem 1 Retirado em: https://geohosp.com 4 explícitos em outras, como a dificuldade da autenticidade, do convertimento, do agravo, da criação, da agressão, a relação com a estética, o problema da História e da veracidade. Ante tantos caminhos, ou descaminhos, de qual trilha se utilizar? Qual o fio condutor mais adequado, se não para atrelar um conceito ao outro, ao menos para se conseguir compreendê-los de uma forma não tão díspar? Embora este trabalho tome um desses conceitos para ser seu elemento norteador, a saber, o conceito de valor, ele sugere outro elemento de compreensão, e não só sobre o 2 valor, como também se acredita que por meio dele, ao menos em tese, poderem-se aproximar de maneira mais uniforme os outros elementos. E ainda que não se faça aqui um estudo detalhado em cada um deles, tema não só complexo como demasiado extenso, tentar-se-á demonstrar como esse outro elemento já coloca em questão a tentativa de fundamentação de uma moral sob a égide de qualquer um desses conceitos, isto é, a moral em Sartre se autobloqueia (SOUZA, 2011). 5 Logo, esse outro artifício que aqui se proporcionará é a finitude: “A verdade é que o para-si é interiorização da sua própria finitude. Seu ser é finito. (É por isso que nós faremos uma moral da finitude)” (CPM, p. 163). Entretanto, bem como na hipótese da moral, no quesito da finitude ainda se poderia indagar o que melhor a diferencia. Se a filosofia de Sartre requer como uma filosofia da finitude, logo qualquer parecer moral que se postule necessita respeitar essa linha. Ora, se com a ambição de uma filosofia da finitude, ou seja, de uma ontologia fenomenológica necessita-se fundamentalmente se acompanhar com uma moral da finitude, desse modo, ao se ponderar a filosofia de Sartre caudatária a Metafísica, ou seja, ao menos a princípio conhecedor do princípio de razão satisfatória, então toda a dificuldade moral sofre decorrências de tal posicionamento. Ao considerar o valor como ideal em-si-para-si Sartre não apenas postula um ideal de infinitude, pelo qual em contraposição considerará a finitude, já que o valor 6 é uma das estruturas imediatas da consciência e define o próprio sentido do para-si, como também o considera como um elemento chave de sua moral. O objetivo deste trabalho é compreender esse aspecto da infinitude na finitude em Sartre, sobretudo tal como configurado no conceito de valor, e com isso apontar, ainda que em linhas gerais, por meio dessa relação, a problemática moral, isto é, suas possibilidades e limites. A partir dessa análise do dualismo clássico entre finito e infinito presente na filosofia de Sartre, será possível compreender os prejuízos que uma filosofia da finitude traz para com a proposta de uma moral ao compreender a finitude por contraposição ao ideal de infinitude. A princípio, um dos prejuízos é pensar a finitude negativamente, ou seja, a existência em seu estado inicial como alienada, donde decorre a necessidade e dificuldade em superar tal estado (SOUZA, 2011). “A filosofia de Sartre é uma filosofia da finitude” de acordo com Souza (2011). 7 Logo, os escritos nos trazem o seguinte: Existe em O Ser e o Nada uma anfibologia caracterizada por um movimento antagonista a outro começado por Sartre já em seus principais escritos: se por um lado existe fundamentalmente um elogio à fenomenologia husserliana, existe por outro, julgamentos a ela. Esta ambiguidade torna-se mais veemente quando se vê, com relação às críticas, não só o pretexto de marcar algumas insuficiências internas, mas de assinalar nelas uma transformação radical. Esta se deve a uma relação estrita e necessária com a ontologia sob a alegação de um problemático presente nos pressupostos fundamentais da fenomenologia husserliana. Tal transformação se insere, sobretudo, quando se examina o modo da 8 relação das duas dimensões transfenomenais do fenômeno, destacadas na Introdução de O Ser e o Nada, como questionamento à tentativa da postulação no fenômeno, da presença de uma transcendência que se preserve no fenômeno mesmo (SOUZA, 2011). No que tange sobre o elogio, uma vez trata-se do tema a ser discutido, aborda-se duas grandes probabilidades, estritamente relacionadas, sucedidas da noção de consciência intencional, consistindo na primeira a superação do idealismo, assim como do realismo, e a segunda o retorno das coisas mesmas. Uma ideia basilar da fenomenologia de Husserl: “a intencionalidade Sartre afirma que pela consciência intencional seria possível deixar de lado a ilusão comum ao realismo e ao idealismo, da qual a filosofia francesa também teria sido vítima, de que “conhecer é comer”:” (SOUZA, 2011). Em suma, a consciência é um movimento espontâneo a um objeto que não é ela, este objeto possui um ser que lhe é próprio, este ser não é passível de ser apreendido pela consciência, no entanto há um sentido desse ser: ele é em-si, isto é, ele é absoluta contingência. Aqui já é possível ver o início do terreno onde se fundará a recusa a qualquer forma de mecanicismo ou condicionamento na realidade. Não há relações de seres previamente dada. Em princípio, o mundo não é nem organismo, nem máquina. Não pode ser o melhor dos mundos possíveis nem o pior, porque o possível não faz parte de seu ser (SOUZA, 2011). 9 Então, ele meramente é o que é, e essa fórmula não expede a um princípio axiomático, entretanto denota nele uma circunstância de pura contingência. Igualmente, o ser não só é descoberto, porém revelado de forma ambígua: do mesmo modo em que ele é o baseamento do fenômeno, uma vez que o que não tem de ser desmorona no nada, esse ser desponta uma contingência originária. Essa contingência originária certamente remete ao fenômeno, e, como será visto a frente, mesmo o nada necessita do ser para ser. Assim, o sentido próprio do ser ainda permanece obscuro. E esse ser como fundamento do fenômeno remete a princípio a um enigma, uma vez que ele se mostra como contingente. Em contrapartida, o transcendente como em-si coloca em questão a consciência para si mesma, uma vez que ela, como revelação-revelada (révélation révélée) do transcendente, é outraque não ele. É o que Sartre expressa definindo, já em termos ontológicos, a consciência como “ser para o qual, em seu próprio ser, é questão de seu ser, enquanto este ser implica um ser outro que não ela mesma” (EN, p. 29). Se a consciência é definida pela fenomenologia por sua intencionalidade, a ontologia irá vêla como aquilo que não é o ser, uma vez que o ser não mantém relações com outro ser que não si mesmo. 18 Portanto, Sartre faz uma transformação na fenomenologia ao radicalizá-la como ontologia. Todavia tal radicalização acarreta no condicionamento da fenomenalidade a duas regiões transfenomenais (SOUZA, 2011). Desse modo, com a correlação de ambas esferas, o fenômeno “mundo”, é refletido por sua relação. Afinidade essa que já se manifesta comprometida pela ocorrência de um de seus polos para constituir a pura contingência. Assim, uma dos afazeres de O Ser e o Nada é puser o que 10 significa a relação em meio a em-si e para-si e porque ela é acentuada por duas regiões de seres que competem ambas ao ser em geral, porquanto como podem duas regiões arquitetadas como absolutas sustentar uma relação interdependente? Logo, temos um exemplo clássico de como se trabalha a Ontologia e filosofia, ambas ligadas a metafisica. 11 1. AS ORIGENS DA ONTOLOGIA Fonte: NBC News2 1.1 Os pré-socráticos Note que a filosofia grega é habitualmente decomposta em dois grandes períodos: o pré-socrático e o socrático. 2 Retirado em: http://www.nbcnews.com 12 Sócrates debatendo com os Sofistas Fonte: Blog Enem3 Logo, esses nomes apregoam a importância de Sócrates para a biografia da filosofia e, no nosso contexto para o rumo que adotou a ontologia. Sócrates, discutindo com os sofistas na Atenas democrática, abeirou-se a filosofia dos homens, entretanto só fez isso porque o âmbito filosófico já tinha sido apresentado pelos filósofos anteriores a ele. Na medida em que seus antecessores foram afastando-se dos deuses e começando a pensar sobre os fundamentos do mundo ou do cosmos. Antes de Atenas, a filosofia se desenvolveu na Magna Grécia, isto é, em pequenas cidades comerciais que se estendiam às margens dos mares Mediterrâneo e Egeu. A escola jônica situava-se no que hoje é a costa da Turquia (Mileto, Colofon, Éfeso), mas havia também a escola italiana (Samos, Eléia). Esse modo de pensar não se esgotou com Sócrates e os sofistas, mas persistiu posteriormente nas escolas de Clazômena e Agrigento. É importante ter em conta que as cidades em que se situavam tais “escolas” 3 Retirado em: http://blogdoenem.com 13 eram geralmente governadas por reis, déspotas e tiranos. A falta de um ambiente livre que possibilitasse a discussão e o fator religioso, isto é, a pluralidade de deuses da religião homérica definiu os temas que originaram a filosofia (HEBECHE, 2012). Fonte: Blog Enem4 Porquanto, para os primeiros filósofos a ontologia apresenta fortes fatores cosmológicos ou cosmogônicos. A dúvida pelo ente confundiu- se diversas vezes com a pergunta pelo que compõe o cosmos ou a natureza. A questão pelo ente era encaminhada pela procura do princípio que ampara tudo o que tem. Se a filosofia, enquanto conjectura (teoria), 4 Retirado em: http://blogdoenem.com 14 parte da “admiração”, é por que esse costume não é um mero espetáculo distanciada, todavia um novo tipo de assombro pela viabilidade de elucidar racionalmente o mundo. Há muitas perspectivas de entender o pensamento dos pré-socráticos e, dentre elas as que têm mais marcado a filosofia contemporânea estão as de Nietzsche e Heidegger que procuram destacar ou o caráter trágico, ou o caráter misterioso e oculto desses primeiros filósofos. No entanto, para nós o aspecto principal desses pensadores era o otimismo de que pela primeira vez podia-se explicar as coisas independentemente da mitologia e dos deuses. Se havia algo espantoso no mundo era o novo fato de que ele podia ser explicado. Esse espanto filosófico surgiu no momento que se abriu uma frincha racional no mundo fechado da lenda, do mito e da religião. Obviamente, esta separação não foi total e imediata e, em muitos desses primeiros filósofos, os temas míticos e religiosos continuaram presentes e, ainda que esmaecidos, persistiram até à irrupção da filosofia ateniense com as figuras de Sócrates, Platão e Aristóteles (HEBECHE, 2012). Contudo a filosofia aparece com o espanto e o entusiasmo pela explicação do mundo. Antes de aventurarmos na doutrina de determinados deles, percorramos no esquema a seguir quais foram os basilares filósofos pré-socráticos, o local e a época que viveram. Escola Jônica 1. Tales de Mileto 2. Anaximandro 3. Anaxímenes 15 4. Xenófanes de Colofon 5. Heráclito de Éfeso Escolas Italianas 1. Pitágoras de Samos e seus seguidores 2. Escola Eleática 2.1. Parmênides 2.2. Zenão 2.3. Melisso A etapa tardia desse modelo de pensamento cresceu para fora da época de Sócrates, conservando-se à margem da sua influência. Sendo uma das suas basilares expressões foi a escola atomista. Escola Atomista 1. Empédocles de Agrigento 2. Leucipo 3. Demócrito de Abdera 4. Anaxágoras de Clazômena O que eles têm em comum e que os inscreveria numa história da ontologia? Como veremos, cada um tentou responder, a seu modo, a pergunta: o que há? Ou, nos termos gregos: o que é o ser? Um dos problemas de se saber o que os pré-socráticos realmente pensavam está em que só restam fragmentos das suas obras. Esses fragmentos encontram-se espalhados nas obras de outros filósofos, historiadores, cronistas e comentaristas antigos. Por isso, da obra desses 16 primeiros filósofos restam apenas trechos que foram guardados na tradição muitas vezes por citações de terceiros ou de “ouvir dizer”. Sem isso, porém, o começo da filosofia ter-se-ia perdido na noite do esquecimento. A “doxografia” é a arte de preservar e interpretar esses fragmentos (HEBECHE, 2012). Logo, o seu caráter por vezes abstruso e incompreensível não anteparou que, nos últimos séculos, tais frações acendessem em importância e entusiasmassem filósofos das mais diversas posturas. Entre os comentaristas dos primitivos filósofos já se pode discorrer sobre um “conflito de interpretações” que se estende até os dias de hoje. Karl Popper, movido por eles, sugere que a filosofia e a ciência regressem a ocupar-se da cosmologia, como bancavam Anaximandro, Anaxíme nes e Heráclito. 17 Fonte: ebiografia5 Nietzsche os toma como exemplo da filosofia da vida plena antes da chegada da era insípida e morna da razão; Heidegger supõe que, mais do que filósofos, eles seriam os genuínos pensadores do ser e que toda a história do pensamento é, de algum modo, um encobrimento desse pensar originário (HEBECHE, 2012). Seja como for, para a maior parte dos comentaristas a filosofia inicia com eles. Sendo que alguns deles, não existe nada escrito, porquanto sobreviveram somente comentários de segunda mão, como é o fato do mais remoto, Tales de Mileto (625a.C./558a.C.). 5 Retirado em: http://ebiografia.com 18 Fonte: Filosoficando6 1.2 Tales de Mileto Note que há poucas fontes onde podem ser descobertas os vestígios do que ajuizara Tales de Mileto são Simplício e sobretudo Aristóteles, que por ventura, foi o primeiro historiador da filosofia, ou ainda, foi o primeiro a comentar os pré-socráticos de acordo com o seu próprio modo de pensar. 6 Retirado em: http://filosoficando.whordexpress.com 19 E, para Aristóteles, a filosofia é a pergunta pelas primeirascausas ou os primeiros princípios. Assim, como vimos, a pergunta ontológica: “o que há?” ou “o que é o ente?” pode ser respondida com um “tudo”. Acontece que esse “tudo” foi pensado das mais diferentes maneiras. Os primeiros pré-socráticos o entendiam “como princípio de todas as coisas unicamente os que são da natureza da matéria”. Segundo Aristóteles, “pelo que se conta” (ARISTÓTELES, 1967, 410b-411b), Tales buscava uma explicação naturalizada do cosmos. Entendia que alma era a essência do cosmos. “Alma” quer dizer animação, vitalidade, movimento. Dessa “animação” geral participavam até mesmo os deuses originário (HEBECHE, 2012). Logo, o imã que atrai frações de ferro é um modelo desse princípio animador; as frações de ferro são gamadas por uma força delicada, entretanto palpável. Pode-se sentir e observar a sua atuação. E essa força é a mesma que conduze tudo. De tal modo, está afirmação de que tudo está repleto de deuses jaze adjunta a de que a animação do cosmos estimula até mesmo as prestezas divinas. O imã e os deuses são conduzidos pelo mesmo princípio que agita o cosmos. Tales foi o primeiro a suspeitar daquilo que bem mais tarde os físicos chamariam de “magnetismo” e “gravitação”, pois os movimentos do sol, da lua, do mar, bem como as atividades dos deuses e dos homens, são constituídos da mesma força animadora. Quando Tales afirma que todas as coisas estão cheias de deuses é por que inclusive estes estão submetidos a um mesmo princípio. Não foi por mero acaso que Tales foi chamado de ateu. Mas a sua especulação ainda foi além. Aristóteles “ouviu dizerem” outras coisas sobre a sua filosofia da natureza. Segundo Aristóteles, Tales tinha outras respostas baseadas em 20 princípios materiais ainda mais famosas: “Tales, o fundador de tal filosofia, diz ser a água” (ARISTÓTELES, 1979, p. 16) originário (HEBECHE, 2012). Em outras expressões, para Tales tudo o que há é água. E assim a resposta às questões: “o que é o ente?” ou “o que há?”, apresenta uma única resposta: “água”, isto é, “tudo é água”. Nem deuses, nem heróis, nem homens, mas sim é a água o princípio que conduz o cosmos. É descrito que Tales era um homem navegado, que convivera com muita gente sagaz, que observara muitas paisagens. E, basta observar o mapa da Magna Grécia, para compreender a uma presença constante: o mar. O mar sempre esteve vinculado à vida povo grego. E isso possivelmente contribui para o pensamento de Tales: a água está em toda a parte. Mas não só no mar, está também no ar, nos rios, nos alimentos, nos animais e nos homens. Mesmo o mais duro mineral ou rocha vulcânica originou-se da água. Tudo o que existe no cosmos é feito, com maior ou menor proporção, de água. Aparentemente, essa é uma idéia banal, mas a sua importância ontológica está em que, pela primeira vez, um homem pensou o uno, isto é, que a diversidade, o múltiplo dos entes assenta sobre um princípio unificador. O grande número de imagens e narrativas encantadas do mundo homérico deram lugar ao pensamento filosófico que afirma a unidade. Sem a água é impossível, não só a vida, mas o próprio cosmos. A terra, segundo Tales, flutua sobre ela. Tudo nasce da água, mantém-se na água e dissolve-se nela. Isto é, tudo o que há é sustentado por uma só coisa (HEBECHE, 2012). 21 A água é, desse modo, o mais palpável e o mais genérico. As coisas que aparecem apresentam sempre algo a ver com a água, o que quer pronunciar que a água está em tudo. 1.3. Anaximandro de Mileto. Fonte: Amino APP7 Este também quase nada conhecemos da sua vida, entretanto sabemos que foi educando, seguidor e sucessor de Tales de Mileto. Anaximandro refletia que nosso mundo é tão-somente um entre múltiplos outros mundos que iriam se desenvolver, evolucionar e se desintegrar em um processo interminável. 7 Retirado em: http://animoapp.com 22 Nosso cosmos, um entre os ilimitados que houveram e os ilimitados que ainda viriam, começou-se com os contrários basilares que são o frio e o calor. Um conceito muito parecido de como determinados físicos modernos arquitetam a teoria do Big-Bang. Anaximandro estudou e escreveu sobre geografia, astronomia, matemática e política, mas um dos seus principais escritos intitulado Sobre a Natureza não chegou até nós. Existem somente relatos dele. Esta obra é o primeiro escrito filosófico do ocidente. Anaximandro é considerado o fundador da astronomia na Grécia pois mediu a distância entre as estrelas e o tamanho das mesmas. Ao que parece ele iniciou o uso do relógio solar na Grécia e desenhou um mapa do mundo conhecido na época. Para ele a água não era o princípio de todas as coisas como defendia Tales, assim como nenhum dos quatro elementos fundamentais: terra, fogo, ar e água. Mas tudo começava com o que ele chama de a-peiron, que é o infinito na qualidade e na quantidade. O a-peiron não surgiu de nada, mas existe e não tem fim. E justamente por ser infinito em extensão e profundidade pode gerar todas as coisas. Muitos identificam esse infinito com o divino pois é imortal e não pode ser destruído. Aqui a imortalidade não é somente algo que não tem fim, mas também algo que não tem começo (MARCONATTO, 2020). Neste contexto Anaximandro destrói os alicerces das crenças nos deuses gregos. Estes não apresentavam fim, todavia tinham começo, eles surgem em um determinado tempo. Anaximandro, porém, não acreditava em nenhum Deus. Para ele os encadeamentos de se criar desenvolver e aniquilar eram fenômenos naturais que incidiam quando a matéria desamparava 23 e se separava do a-peiron. O a-peiron era o fato inicial e final de todas as coisas e por decorrência continha em si toda a caráter divino. Mas ele vai além, ele se questiona também de como e porque as coisas se formam do a-peiron. Para ele as coisas se constituem através de uma eterna luta entre contrários, onde algo não pode existir enquanto existe também o seu contrário. O mediador desta eterna luta é o tempo, que permite que ora exista um e ora exista o seu contrário. Esses contrários podem ser observados na natureza calor, frio; úmido, seco; claro, escuro, etc. E é o tempo que vai colocar limites para a existência destes contrários. Anaximandro acreditava que a terra tinha a forma cilíndrica e era circundada por diversas rodas cósmicas que eram imensas e de fogo. A terra ficava suspensa sem que nada a sustentasse o que a conservava desta forma era a igual distância entre todas as partes. Existe um equilíbrio entre as diversas forças que atuam sobre a terra. Para ele o sol é que fez que do líquido do lodo marinho nascessem os primeiros seres vivos. Esses seres marinhos aos poucos foram se desenvolvendo em seres mais complexos. O homem teria se formado inicialmente dentro de alguns peixes. Ali ele se desenvolveu e foi expulso quando cresceu de tamanho o suficiente para manter-se a si mesmo (MARCONATTO, 2020). Atualmente muitos cientistas se espantam com estas antecipações, apesar de simplistas, de muitos conhecimentos após comprovados pela ciência. Assim, para ele a terra se ampara por meio do equilíbrio das diferentes forças que operam sobre ela, o que é análogo com a força da gravidade e com a força centrípeta que é o que sustenta a Terra contornando em torno do Sol. 24 - Anaximandro acreditava que os opostos se excluíam. O que é muito parecido com a teoria moderna de que logo após o Big-Bang foram criadas matéria e antimatéria que se anulam quando se encontram. - Ele acreditava que o sol agia sobre a água e gerava os seres e estes seres depois se deslocaram para a terra e foram se tornando mais elaborados conforme se desenvolviam. Esse pensamento é muito parecido com a teoria da evolução das espécies (MARCONATTO, 2020). 1.4 Heráclito de Éfeso Fonte: Amino APP88 Retirado em: http://animoapp.com 25 Heráclito embarcou no cenário da análise filosófica, quando a filosofia grega, lá em seus primórdios, tentava elucidar a arché das coisas, a conformidade do Kosmos e a constituição da Physis. Os romanos explanaram a palavra grega ϕυσις por natura (natureza), já no idioma português, o termo Physis é além disso traduzido por Física. Física, Natureza, Ciência da Natureza, sendo que todas essas palavras tentam proferir o mesmo evento, entretanto nenhuma traduz, com literalidade, o que os primeiros filósofos gregos, aqueles que são denominados de “pensadores originários”, entendiam por Physis. Para eles, a Physis tinha uma aura “divina”, pois era a fonte originária, a arché de todas as coisas que constituíam o Universo. Na convergência divergente de sua unidade e na divergência convergente da diversidade de suas partes, a totalidade dos seres formava a harmonia cósmica, “a harmonia mais bela”, a “καλλισθη αρµονια” como disse Heráclito de Éfeso em um dos seus mais belos fragmentos.2 Esta unidade polivalente transparece, claramente, na etimologia latina da palavra Universus, que se poderia desdobrar assim: Universus = omnia versus Unum, vale dizer, todas as coisas (omnia) estão voltadas para (versus) o Uno (Unum). Pois bem, de todas essas coisas, os primeiros filósofos gregos tentavam descobrir a origem (αρχη) e o processo de seu vir-a- ser (ϕυναι). Portanto, o “pensamento originário”, que deu origem ao filosofar na Grécia Antiga, foi inteiramente consagrado ao estudo do ϕυναι (vir-a- ser) da ϕυσις (Natureza). (ROCHA, 2004). Heidegger, todavia, ressaltava que esses pensadores originários “ajuizaram a ϕυσις em uma essência e amplitude, que todos os físicos porvindouros nunca mais conseguiram alcançar (Cf. Heidegger, 1957, p. 26 138-9). Nem os futuros, nem tantos que os advieram no estudo da Natureza. Por “Natureza”, a filosofia clássica apreendia o princípio da oscilação de todas as coisas, abertura esta pelo qual essas coisas eram o que significavam. Desse modo, o porque, em Aristóteles, natureza é sinônimo de modo, de substância e de essência (Cf. Aristóteles, Physica. II.1, 192b). No livro da Metafísica, ele define a Natureza como “a substância das coisas que têm o princípio do movimento em si próprias” (Cf. Aristóteles, Metaphysica. V. 4, 1015 a 13). Heidegger, no entanto, opina que esse modo de conceber a Natureza não traduz o que os filósofos originários entendiam por Physis. Esta palavra era para eles fundamental e, literalmente, significava: “surgir no sentido de provir do que se acha escondido e velado”. É o que pode ser observado, por exemplo, no desabrochar da rosa e no surgir da semente escondida no silêncio da terra. A visão do nascer do sol também exemplifica a essência do “surgimento” e o que define a Physis como “um mostrar-se a partir de si e de dentro de si”. Dito de outro modo: “a Physis é o ser mesmo em virtude do qual o ente se torna e permanece observável” (Heidegger, 1987, p. 45) (reescrito por, ROCHA, 2020). Isto é, os pensadores oriundos consagraram-se ao estudo do insurgir ou desvelar-se dos entes, que advém como aparecimentos do Ser, a partir da sua veladura mais profunda. Porquanto, para eles, há uma inter-relação muito expressiva entre o esconder-se e o aparecer-se, os quais se modernizam no emergir dos fatos ou no método de seu desvelamento. Assim, e a integração ambivalente desse velar-se e 27 desvelar-se que desponta o cerne da Physis (Cf. Heidegger, 1973b, Heráclito, frag. 16, p. 135). 28 1.5 Parmênides de Eleia Fonte: Amino APP9 Dissemos que a dúvida filosófica mais importante, simples e radical é de cerne ontológico e que, por conta disso que a filosofia “fala grego”, ou seja, possui a marca da sua origem grega. Percorremos, no que tange Heráclito, o ser do ente é o devir ou o vir-a-ser e que este é realizado pelo combate entre o ser e o não-ser. Mas essa elocução não foi designadamente empregada por Heráclito. A dirigimos para explanar o logos heraclitiano por que ela foi legada de uma poderosa tradição cunhada por Parmênides de Eleia (530-460 a. C.). 9 Retirado em: http://animoapp.com 29 Esse modo de pensar, falar e escrever foi de tal modo marcante que se tornou uma espécie de linguagem oficial da filosofia até os dias atuais. Lembremos que o título de obras famosas da ontologia contemporânea como “Ser e Tempo”, de Heidegger (1927) ou “O Ser e o Nada”, de Sartre (1943), mostram o poder dessa linguagem concebida pelo eleata. Portanto, se a filosofia fala grego, pode-se acrescentar sem receio que ela fala o grego de Parmênides. Esse filósofo, aliás, viveu na mesma época de Heráclito, mas, embora sendo de uma cidade distante, teve acesso ao que se pensava em Éfeso, pois reagiu ao pensamento heraclitiano de maneira contundente, afirmando o contrário. Se, para Heráclito, o ser é devir, para Parmênides, o ser é. Essas posições opostas geraram polêmicas que atravessaram a história da ontologia. O ser do ente é móvel ou imóvel? Para Parmênides, a verdade do ser é a sua perfeição, e está nada tem a ver com a corrupção e finitude das coisas. Tudo o que é passageiro é imperfeito e falso, por isso a verdade não pode ser passageira. Se o pensamento de Heráclito era “obscuro”, o de Parmênides tem a clareza das proposições lógicas. A obscuridade heraclitiana pode ser entendida assim: ao invés de seguir a via da verdade do ser, ele seguiu a via da opinião, a do não-ser (HEBECHE, 2012). Não tendo compreendido a radical altercação entre o ser e o não- ser, Heráclito se permite como se apresentasse “duas cabeças”. Ou seja, embaraça ser e não-ser, verdadeiro e falso. Ainda que Parmênides apele ao mito, o que articula é bastante claro. De maneira feliz foram conservados trechos amplos do seu poema filosófico sobre a natureza que despontam, mais uma vez, que as discussões ontológicas podiam ser versadas com recurso aos mitos, entretanto para ir muito afora deles; expediente, aliás, que ainda será usado por Platão. 30 O que restou da introdução desse poema mostra que Parmênides não foi apenas um grande filósofo, mas também um excelente poeta. A função da poesia, porém, é auxiliar à filosofia. A poesia é o cenário onde se desenvolve a ontologia parmenidiana. A poesia prepara o caminho para uma mensagem que a supera. Em seu poema, Parmênides proclama um acontecimento surpreendente. Relata a viagem de um jovem poeta-filósofo que, numa carruagem puxada por éguas e dirigida por jovens ninfas, o afastam da via multifalante para apresentar-se à deusa que protege o homem sábio. Nessa viagem celestial, o jovem vai, como que afastando os véus que encobrem as coisas e afastando-se das “moradas da noite” para o lugar iluminado pelas “filhas do sol”. Nesse lugar onde encontra-se a deusa da sabedoria é guarnecido por duas portas que levam aos caminhos distintos do dia e da noite. As portas são fortes e maciças; feitas de vergas e soleiras de pedra, com grandes batentes. São pesadas, mas tão ajustadas na soleira, nas cavilhas e chavetas que rangem ao girar nas dobradiças. Essa imagem quer dizer que na entrada desses caminhos encontra-se a “justiça de muitas penas”. É ela que tem as chaves que abrem as portas cujos caminhos levam à noite escura ou à clareza do dia. As jovens ninfas com palavras brandas convencem a justiça a abrir seus segredos (HEBECHE, 2012). A portadora desses mistérios é a deusa, entretanto não é possível alcançar ela sem as chaves da justiça. Desse modo remove-se a tranca aferrolhada e as aberturas, revolvendo nos batentes, despontam a deusa que benevolamente granjeia o jovem poeta-filósofo empunhando carinhosamente a sua mão direita e cortejando-o porque, tendo sido conduzido por cavalos e ninfas por meio de um mundo etéreo, pode agoraescutar as suas palavras espontaneamente, sem eufemismos e tergiversações. 31 Mas isso somente foi possível porque ele pôde correr por um caminho que está por fora do alcance da maior parte dos homens, porquanto é feito das inexoráveis leis e justiça divinas. A deusa assim o instrui alertando-o para que apresente clara a distinção entre esses dois caminhos. Um caminho repleto de aparências e um outro em que não existe lugar para elas. A justiça e a injustiça. A luz e as trevas. Diz ela: “é preciso que de tudo te instruas, do âmago inabalável da verdade bem redonda, e de opiniões de mortais, em que não há fé verdadeira”. A “verdade bem redonda” (ἌληΘείης εὐκυκλέος) é a imagem da máxima perfeição e acabamento. A verdade do ser é um círculo perfeito ou uma esfera totalmente lisa e maciça, sem fissuras e lugares vazios. Parmênides afirma: “para mim é comum donde eu comece; pois aí de novo chegarei de volta”. O movimento é uma ilusão, pois tudo que se quer dizer do ser é o mesmo, a identidade absoluta, a tautologia do tipo: A = A (ou Ser = Ser). Nessa perfeição sem fissuras e atemporal, o pensamento é idêntico ao ser. Segundo a famosa sentença parmenidiana: “pois o pensar e o ser são o mesmo” (τὸ γὰρ αυτὸ νοεῖν ἐστίν τεκαί εἷναι) A tradição realça as duas vias, a da verdade e a da opinião. Mas, a rigor, só há uma via, pois a outra é mera opinião e ilusão que, aliás, não pode ser pensada. E assim, Parmênides introduziu o monismo do ser, isto é, o ser é uma plenitude que se basta totalmente a si mesma enquanto que o não ser é a carência e a errância. A via da opinião, portanto, é tudo aquilo que impede o reconhecimento dessa verdade radical. Aqueles que permanecem nesse caminho estarão surdos ao que diz a deusa (HEBECHE, 2012). Logo, o que ela pronuncia é taxativo: 32 Fonte: UFSC (2012). Assim, em um outro trecho do poema, essa mesma disposição permanece sendo defendida: Fonte: UFSC (2012) Assim, como se vê, Parmênides, em grande caráter, acomete o devir heraclitiano que fundar-se na apreciação absurda que ser e não ser são o mesmo. Ora, tal disposição é obra de cabeças embaraçadas e 33 incapazes de distinguir que a verdade é uma só e que, afiançar que o não ser apresenta o mesmo código ontológico que o do ser é perder-se na errância e na decomposição das coisas. Como poderia o verdadeiro tornar-se outro que não fosse o falso? Como poderia a justiça tornar-se outra coisa que não fosse a injustiça? Esse caminho dos “cabeças duplas” é incrível, não pode ser seguido pelo sábio, ela é coisa daqueles que parecem sábios, mas cuja indecisão demonstra falta de conhecimento e coragem para afirmar que é impossível impedir “o que é de aderir ao que é”. Essa aparente sabedoria dos heraclitianos colabora para tornar os outros cegos, surdos, semelhantes as massas manipuláveis por demagogos ou mentirosos. Para Parmênides, o ataque de Heráclito aos que acreditam nos sentidos (visão, audição etc.), é enganoso por que ao promover o não-ser a ser não só se mantém na via da opinião, como reduzem a verdade a essa via. A suprema unidade do ser é dissolvida na multiplicidade do não ser. O âmbito sóbrio do ser se assemelha ao cenário multicolorido das opiniões cambiantes. A voz unívoca do pensamento é substituída pela multiplicidade de vozes vazias de sentido. Essa opinião dos mortais, porém, não pode resistir ao destino que determina o ser como o que é que, portanto, não pode não ser. E assim, o mundo de fogo do devir dá lugar ao mundo congelado do ser (HEBECHE, 2012). Assim, o que é a ontologia é mais convincente? A que separa o princípio materialista, quão grandemente a de Tales ou a que abrange o ser a partir da indeterminação, assim como a de Anaximandro? Aquela que afiança o devir tal como Heráclito? Ou a que ampara a imobilidade do ser como em Parmênides? Poderia existir uma forma de combiná-las? Em todas tem um conflito concentrado ou hiante entre o pensamento conceitual e as impressões. 34 Afinal, a via dos sentidos ou da opinião é passageira, mas os conceitos são estáveis. Sendo assim não fosse, a linguagem nada poderia expressar e as palavras como “ser”, “ente”, “logos”, “água”, etc. seriam vazias de sentido. O papel da linguagem, portanto, é incontornável. A linguagem é compreensão. É possível, porém, compreender o ser do ente, e mais: é possível dizê-lo de modo que possa ser entendido? Como dizer aquilo que é condição de todo o dizer? (HEBECHE, 2012). 35 2. UMA VISÃO GERAL SOBRE ONTOLOGIAS Fonte: Boa consulta10 Historicamente a palavra ontologia tem ascendência grega “ontos”, ser, e “logos”, palavra. Mas originalmente é a palavra aristotélica “categoria”, que pode ser empregada para classificar determinada coisa. Aristóteles exibe categorias que enquadram de apoio para classificar qualquer entidade e adentra ainda o termo “differentia” para características que assinalam diferentes espécies do mesmo gênero. A conhecida metodologia de herança é o método de mesclar differentias deliberando categorias por gênero. Em seu sentido filosófico, versa-se de um termo relativamente novel, embutido com o desígnio de distinguir o estudo do ser como tal. 10 Retirado em: http://boaconsulta.com 36 O Dicionário Oxford de Filosofia define ontologia como “[...] o termo derivado da palavra grega que significa ‘ser’, mas usado desde o século XVII para denominar o ramo da metafísica que diz respeito àquilo que existe” (Blackburn & Marcondes, 1997). O termo ontologia tem um sentido especial em organização da informação, diferente daquele tradicional adotado na filosofia. São diversas as definições apresentadas na literatura e existem contradições. De forma simples, para elaborar ontologias, definem-se categorias para as coisas que existem em um mesmo domínio. Ontologia é um “catálogo de tipos de coisas” em que se supõe existir um domínio, na perspectiva de uma pessoa que usa uma determinada linguagem (Sowa, 1999). Trata-se de “uma teoria que diz respeito a tipos de entidades e, especificamente, a tipos de entidades abstratas que são aceitas em um sistema com uma linguagem” (Merriam-Webster; Gove, 2002* apud Corazzon, 2002, p. 1). (ALMEIDA E BAX, 2003). Assim, uma das acepções mais versadas para ontologias é proporcionada por Gruber (1996),** apud Corazzon, 2002, p. 1: “Uma ontologia é uma especificação explícita de uma conceitualização. [...] Em tal ontologia, definições associam nomes de entidades no universo do discurso (por exemplo, classes, relações, funções etc. com textos que descrevem o que os nomes significam e os axiomas formais que restringem a interpretação e o uso desses termos) [...].” (ALMEIDA E BAX, 2003). O termo conceitualização satisfaze a uma coleção de elementos, conceitos e outros institutos que se assume haverem em um domínio e os relacionamentos em meio a eles. Uma conceitualização é um espectro abstrato e simples do mundo que se ambiciona representar. 37 A acepção alvitrada por Gruber é debatida em Guarino & Giaretta (1995), apud Corazzon, 2002, p. 1: “[...] um ponto inicial nesse esforço de tornar claro o termo será uma análise da interpretação adotada por Gruber. O principal problema com tal interpretação é que ela é baseada na noção conceitualização, a qual não corresponde à nossa intuição. Uma conceitualização é um grupo de relações extencionais descrevendo um ‘estado das coisas’ particular, enquanto a noção que temos em mente é uma relação intencional, nomeando algo como uma rede conceitual a qual se superpõe a vários possíveis ‘estados das coisas’.” (ALMEIDA E BAX, 2003). Assim, uma acepção intencional versa de uma classificação de características do conceito. A título de exemplo, lâmpada incandescente é na verdade uma lâmpada elétrica que emite luz a partir da calefaçãode um filamento pela corrente elétrica. Logo, a lâmpada incandescente é acentuada como o auxílio do gênero mais próximo (lâmpada elétrica) e de suas propriedades. Uma definição intencional é uma enumeração de aspectos de todas as espécies que são do mesmo nível de abstração. Por exemplo, os planetas do sistema solar são Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão (ISO- Standard 704). Guarino (1998) revê a definição de conceitualização fazendo uso do aspecto intencional, para obter uma interpretação mais satisfatória: “[...] ontologia se refere a um artefato constituído por um vocabulário usado para descrever uma certa realidade, mais um conjunto de fatos explícitos e aceitos que dizem respeito ao sentido pretendido para as palavras do vocabulário. Este conjunto de fatos tem a forma da teoria da lógica de primeira ordem, onde as palavras do vocabulário aparecem como 38 predicados unários ou binários.” O vocabulário formado por predicados lógicos forma a rede conceitual que confere o caráter intencional às ontologias (ALMEIDA E BAX, 2003). A ontologia delibera as regras que acondicionam a combinação entre as circunvizinhanças e as relações. As afinidades entre os termos são empregadas por conhecedores, e os usufrutuários formulam consultas empregando os conceitos explicitados. Uma ontologia define assim uma “linguagem” (conjunto de termos) que será utilizada para formular consultas. Borst (1997, p. 12) apresenta uma definição simples e completa, que será adotada neste trabalho: “Uma ontologia é uma especificação formal e explícita de uma conceitualização compartilhada”. Nessa definição, “formal” significa legível para computadores; “especificação explícita” diz respeito a conceitos, propriedades, relações, funções, restrições, axiomas, explicitamente definidos; “compartilhado” quer dizer conhecimento consensual; e “conceitualização” diz respeito a um modelo abstrato de algum fenômeno do mundo real. Discussões podem ser encontradas em Guarino & Giaretta (1995), que apresentam diferentes sentidos para o termo em relação a níveis de abstração. Outras definições para o termo são encontradas em Albertazzi (1996), Neches et alii (1991), Wache et alii (2001), Uschold & Gruninger (1996) e Chandrasekaran, Johnson & Benjamins (1999). Para uma discussão detalhada, considerações e críticas, ver Guarino (1996) e Guarino (1998). Ozkural (2001) refere-se a ontologias como uma teoria de classificação (ALMEIDA E BAX, 2003). 39 Mesmo sem uma concordância sobre sua significação, as ontologias proporcionam características corriqueiras. Sendo assim, as ontologias não proporcionam sempre a mesma armação, entretanto têm características e componentes basilares corriqueiros presentes em grande parte delas. Mesmo comparecendo propriedades assinaladas, é possível identificar tipos bem acentuados. Os componentes básicos de uma ontologia são classes (organizadas em uma taxonomia), relações (representam o tipo de interação entre os conceitos de um domínio), axiomas (usados para modelar sentenças sempre verdadeiras) e instâncias (utilizadas para representar elementos específicos, ou seja, os próprios dados) (Gruber, 1996; Noy & Guinness, 2001). Algumas das propostas definem tipos de ontologias relacionando-as à sua função (Mizoguchi, Vanwelkenuysen & Ikeda, 1995), ao grau de formalismo de seu vocabulário (Uschold & Gruninger, 1996), à sua aplicação (Jasper & Uschold, 1999) e à estrutura e conteúdo da conceitualização (Van-Heijist, Schreiber & Wielinga, 1997), (Haav & Lubi, 2001). A tabela 1, a seguir, sintetiza cada abordagem. Mesmo sem um consenso, observa-se que os tipos apresentados guardam semelhanças entre suas funções. Conhecidos os principais tipos e características, pode-se buscar ontologias existentes adequadas à utilização desejada (ALMEIDA E BAX, 2003). 40 3. ORIGENS DA FILOSOFIA E FILOSOFIA MEDIEVAL A filosofia se originou no século VII a.C. em colônias gregas lo- calizadas na cidade de Mileto quando alguns homens perceberam que tudo podia ser conhecido através da razão humana e que o conhecimento não se limitava apenas para deuses. Pitágoras foi quem criou o termo filosofia que significa “amizade pela sabedoria”. O termo foi criado quando Pitágoras viu que os deuses possuíam todo o conhecimento e sabedoria que existia, passando assim a perceber que o homem poderia desejar e buscar tal sabedoria plena por meio da filosofia. Esta é caracterizada por: • Inclinação à racionalidade; • Explicações variáveis segundo os acontecimentos, banindo assim justificativas pré-moldadas; • Questionamentos e argumentos relacionados a um determinado caso, de modo que seja apresentadas soluções e/ou respostas concretas; • Difusão de pensamentos; • Diferenciação do que é semelhante por meio do pensamento e da razão. O primeiro filósofo que se tem conhecimento foi Tales de Mileto, fundador da Escola Jônica e um dos sete sábios da Grécia Antiga. Decifrou o eclipse solar, designou à água a função de ser a iniciadora de todas as coisas, buscava entender as condições climáticas através das características do céu. É dividida em quatro grandes períodos, a saber: 41 • Período pré-socrático: Também conhecido como período cosmológico, ocorreu entre os séculos VII e V a.C. • Período socrático: Também conhecido como período natropológico, ocorreu entre os séculos V e IV a.C. • Período sistemático: Ocorreu entre os séculos IV e III a.C. • Período helenístico: Também conhecido como período greco-romano, ocorreu entre os séculos III a.C. e VI d.C. (MUNDO DA EDUCAÇÃO, s/d, s/p). De acordo com Ferreira (s/d, s/p) no período pré-socrático, o interesse filosófico é voltado para o mundo da natureza. Esse período do pensamento grego toma a denominação substancial de período natu- ralista, porque a nascente especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior, julgando se encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas; e toma, outrossim, a denominação cronológica de período pré-socrático, porque precede Sócrates e os so- fistas, que marcam uma mudança e um desenvolvimento e, por conseguinte, o começo de um novo período na história do pensamento grego. Esse primeiro período tem início no alvor do VII século a.C., e termina dois séculos depois, mais ou menos, nos fins do século V. Surge e floresce fora da Grécia propriamente dita, nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor, do Egeu (Jônia) e da Itália meridional, da Sicília, favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico. Os filósofos deste período preocuparam-se quase exclusivamente com os problemas cosmológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. Pelo modo de encará-la e resolver, classificam-se os filósofos que nele flores- 42 ceram em quatro escolas: Escola Jônica; Escola Itálica; Escola Eleática; Escola Atomística. (FER-REIRA, s/d, s/p) De acordo com Carneiro (s/d, s/p) por volta do século V a.C. começa o que podemos considerar como um novo período na história da filosofia, ao qual podemos chamar de período Socrático ou antropológico. Esse também é chamado de período clássico da filosofia. Podemos marcar o início desse período com a atuação dos Sofistas que estavam preocupados mais com a linguagem e a erudição do que com a explicação do mundo. Para os sofistas o importante era o bem falar e a arte de convencer o interlocutor. As contendas políticas e os conflitos de opiniões favoreceram a ação desses professores ambulantes que consideravam não haver uma verdade única. Alguns comentadores da história da filosofia viram com maus olhos a atuação dos sofistas,principalmente devido a escritos de Platão que os considerava não filósofos, mas manipuladores do raciocínio sem amor pela verdade. Essa visão, entretanto, começa a ser revista, pois se percebe que os sofistas não eram os aproveitadores mencionados em alguns manuais, mas pessoas que se utilizaram, de forma pragmática, da filosofia. O fato é que o centro das atenções tanto dos sofistas como de Sócrates, Platão e Aristóteles (e dos posteriores) volta-se para o homem e suas relações. Protágoras, um sofista dirá que "o homem é a medida de todas as coisas; daquelas que são enquanto são; daquelas que não são, enquanto não são". E Górgias, outro sofista, preocupado com o discurso, fará a seguinte afirmação: "o bom orador é capaz de convencer qualquer pessoa sobre qualquer coisa". A postura dos sofistas, demonstrando pouca preocupação com a verdade e muito mais com o argumento, levou Platão a colocar na boca 43 de Sócrates a afirmação de que "Ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um pouco mais sábio que ele exatamente por não supor que saiba o que não sei". Vê-se, portanto que a preocupação dos sofistas é a argumentação e a de Sócrates/Platão é a verdade daquilo que se sabe ou do que se pode saber. O período antropológico que também é chamado o período Clássico da Filosofia recebe essa denominação por que nessa época floresceu não só a filosofia como também as artes e o começo da organização de todo o saber. Principalmente pela atuação de Aristóteles e seus discípulos do Liceu (nome de sua escola, em homenagem ao deus Apolo Lício) floresceu o processo de aquisição e sistematização de vários saberes. A filosofia chegou ao seu apogeu comesses três pensadores que foram uma das maiores marcas da história do saber. Ainda hoje a cultura e o saber ocidental são tributários à mentalidade e à filosofia grega, do período clássico: quando falamos em corpo-alma estamos nos referindo a conceitos originários de Platão. Quando pretendemos maior clareza de nosso interlocutor, e para isso lhe fazemos uma série de questionamentos, estamos nos reportando a Sócrates. Quando falamos em lógica, organização e sistematização de conhecimentos, estamos aplicando uma metodologia aristotélica. Outra consequência da ação desses três pilares da filosofia grega foi o fato de, após suas mortes, a filosofia ter entrado em um período de declínio. Não por ter perdido qualidade ou preocupação com o saber, mas pelo fato de, por um longo período, não terem aparecido grandes nomes, propondo novos sistemas. (CARNEIRO, s/d, s/p). Para Madjarofe (s/d, s/p) o período seguinte da história do pensamento grego é o chamado período sistemático. Com efeito, nesse 44 período realiza-se a sua grande e lógica sistematização, culminando em Aristóteles, através de Sócrates e Platão, que fixam o conceito de ciência e de inteligível, e através também da precedente crise cética da so- fística. O interesse dos filósofos gira, de preferência, não em torno da natureza, mas em torno do homem e do espírito; da metafísica passa-se à gnosiologia e à moral. Daí ser dado a esse segundo período do pensamento grego também o nome de antropológico, pela importância e o lugar central destinado ao homem e ao espírito no sistema do mundo, até então limitado à natureza exterior. Esse período esplêndido do pensamento grego-depois do qual começa a decadência-teve duração bastante curta. Abraça, substancialmente, o século IV a. C., e compreende um número relativamente pequeno de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates, daí derivando as chamadas escolhas socráticas menores, sendo principais a cínica e a cirenaica, precursoras, respectivamente, do estoicismo e do epicurismo do período seguinte; Platão e Aristóteles, deles procedendo a Academia e o Liceu, que sobreviverão também no período seguinte e além ainda, especialmente a Academia por motivos éticos e religiosos, e em seus desenvolvimentos neoplatônicos em especial - apesar de o aristotelismo ter superado logicamente o platônismo.(MADJAROFE, s/d, s/p). É certo, não obstante, que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros, bem como as de Demócrito) continuaram a existir, porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. Por isso, foi possível para Trasilo, sob o reinado de Tibério, fazer uma edição das obras de Demó- crito, organizada em tetralogias, exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. Os 45 epicuristas, que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto, detestavam qualquer tipo de estudo, e provavelmente nem se preocuparam em Multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. Como Protágoras, era natural de Abdera na Trácia, uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento, considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. Quanto à data do seu nascimento, temos apenas conjeturas para nos orientar. Em uma das principais obras, afirmou que elas foram escritas 730 anos a pós a queda de Tróia; não sabemos; porém, quando, segundo a suposição dele, isto ocorrera. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. Disse também algures que, quando Anaxágoras era velho, ele era jovem, e a partir daí concluiu-se que nasceu em 460a.C. Parece, entretanto, cedo demais, visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras, e a expressão "jo- vem" sugere menos que esta idade. Demais, cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. Se Demócrito morreu, como se diz, com a idade de noventa ou cem anos, de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos, é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates, e obscurece o fato de que, como Sócrates, ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. (MADJA-ROFE, s/d, s/p). A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio, que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. Menos ainda está no seu sistema cosmológico, que 46 deriva, mormente de Anaxágoras. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens, e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. A possibilidade de ciência havia sido negada, bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras, e era isto que exigia uma solução. Ademais, o problema do comportamento tornara-se premente. A originalidade de Demócrito, portanto, está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. (MADJA-ROFE,s/d,s/p). Para Santana (s/d, s/p) o período conhecido como helenístico foi um marco entre o domínio da cultura grega e o advento da civilização romana. Os próprios inspiradores da Grécia se disseminaram, nesta época, perto da uma região exterior Conquistada por Alexandre Magno, rei da Macedônia. Com suas investidas bélicas ele incorporou ao universo grego o Egito, a Pérsia e parte do território oriental, incluindo a Índia. Neste momento desponta algo novo no cenário mundial, uma cultura de dimensão internacional, na qual se destacam a cultura e o idioma grego. Esta era tem a duração de pelo menos trezentos anos, encontrando seu fim em 30 a.C., com a invasão do Egito pelos romanos. O período helenístico é caracterizado principalmente por uma ascensão da ciência e do conhecimento. A cultura essencialmente grega se torna dominante nas três grandes esferasatingidas pelo Helenismo, a Macedônia, a Síria e o Egito. Mais tarde, com a expansão de Roma, cada um desses reinos será absorvido pela nova potência romana, dando espaço ao que historicamente se demarca como o final da Antiguidade. Antes disso, porém, os próprios romanos foram dominados pelos gregos, submetidos ao Helenismo, daí a cultura grega ser depois perpetuada pelo Império Romano. 47 Agora não havia mais limites entre os diferentes territórios, as diversas culturas e religiões. Antigamente cada povo cultuava seus próprios deuses, mas coma difusão da cultura grega tudo se transforma em um grande caldeirão sincrético, no qual se misturam as mais variadas visões religiosas, filosóficas e científicas. Alexandria era o grande centro da cultura helenística, especialmente no campo das artes e da literatura. (SANTANA, s/d, s/p). Entre os alexandrinos floresceram as mais significativas edifica- ções culturais deste período–o Museu, que englobava o Jardim Botâni- co, o Zoológico e o Observatório Astronômico; e a famosa biblioteca de Alexandria, que abrigava pelo menos 200.000livros, salas nas quais os copistas trabalhavam ativamente e oficinas direcionadas para a confecção de papiros. Outro núcleo cultural importante foi o de Antio- quia, capital da Síria, localizado próximo à foz do rio Orontes, em ple- no Mediterrâneo. A era helenística conheceu o incrível progresso da história, com destaque para Polibius; a ascensão da matemática e da física, campos nos quais surgem Euclides e Arquimedes; o desenvolvimento da astronomia, da medicina, da geografia e da gramática. A literatura conhece o apogeu com o poeta Teocritus, que prepondera especialmente na poesia idílica e bucólica. Na filosofia despontaram quatro correntes filosóficas voltadas pa- ra a descoberta da fórmula da felicidade: os cínicos, que cultivavam a ideia de que ser feliz dependia de se liberar das coisas transitórias, até mesmo das inquietações com a saúde; os estoicos e os epicuristas, que acreditavam em um individualismo moral; e o neoplatonismo, movi- mento mais significativo desta época, inspirado pelos pré-socráticos Demócrito e Heráclito. 48 Nas artes sobressaíram alguns clássicos da Era Antiga, como a Vênus de Milo, Vitória de Samotrácia e o grupo do Laoconte. Religiosamente pode-se dizer que o Helenismo era a contraposição pagã à nova religião que dominaria o cenário histórico a partir da preponderância de Roma, o Cristianismo. (SANTA-NA, s/d, s/p). As outras escolas da Filosofia são: A Filosofia patrística (do século I ao século VII) inicia-se com as Epístolas de São Paulo e o Evangelho de São João e termina no século VIII, quando teve início a Filosofia medieval. A patrística resultou do esforço feito pelos dois apóstolos intelectuais (Paulo e João) e pelos primeiros Padres da Igreja para conciliar a nova religião– o Cristianismo como pensamento filosófico dos gregos e romanos, pois somente com tal conciliação seria possível convencer os pagãos da nova verdade e convertê-los a ela. A Filosofia patrística liga-se, portanto, à tarefa religiosa da evangelização e à defesa da religião cristã contra os ataques teóricos e morais que recebia dos antigos. Divide-se em patrística grega (ligada à Igreja de Bizâncio) e patrís- tica atina (ligada à Igreja de Roma) e seus nomes mais importantes fo- ram: Justino, Tertuliano, Atená-go-ras, Orígenes, Clemente, Eusébio, Santo Ambrósio, São Gregório Nazianzo, São João Crisóstomo, Isidoro de Sevilha, Santo Agostinho, Beda e Boécio. A patrística foi obrigada a introduzir ideias desconhecidas para os filósofos greco-romanos: a ideia de criação do mundo, de pecado original, de Deus como trindade una, de encarnação e morte de Deus, de juízo final ou de fim dos tempos e ressurreição dos mortos, etc. Precisou também explicar como o mal pode existir no mundo, já que tudo foi criado por Deus, que é pura perfeição e bondade. Introduziu, sobretudo com Santo Agostinho e Boécio, a ideia de “homem interior”, 49 isto é, da consciência moral e do livre-arbítrio, pelo qual o homem se torna responsável pela Existência do mal no mundo. Para impor as ideias cristãs, os Padres da Igreja as transformaram em verdades reveladas por Deus (através da Bíblia e dos santos) que, por serem decretos divinos, seriam dogmas, isto é, irrefutáveis e inquestionáveis. Com isso, surge uma distinção, desconhecida pelos antigos, entre verdades reveladas ou da fé e verdades da razão ou humanas, isto é, entre verdades sobrenaturais e verdades naturais, as primeiras introduzindo a noção de conhecimento recebido por uma graça divina, superior ao simples conhecimento racional. Dessa forma, o grande tema de toda a Filosofia patrística é o da possibilidade de conciliar razão e fé, e, a esse respeito, havia três posições principais: • Os que julgavam fé e razão irreconciliáveis e a fé superior à razão (diziam eles: • “Creio porque absurdo”). • Os que julgavam fé e razão conciliáveis, mas subordinavam a razão à fé (diziam eles: “Creio para compreender”). • Os que julgavam razão e fé irreconciliáveis, mas afirmavam que cada uma delas tem seu campo próprio de conhecimento e não devem misturar-se (a razão se refere a tudo o que concerne à vida temporal dos homens no mundo; a fé, a tudo o que se refere à salvação da alma e à vida eterna futura). (CHAUÍ, 2000, p.53-54). A Filosofia medieval (do século VIII ao século XIV) abrange pensadores europeus, árabes e judeus. É o período em que a Igreja Romana dominava a Europa, ungia e coroava reis, organizava Cruzadas à Terra Santa e criava, à volta das catedrais, as primeiras universidades ou escolas. E, a partir do século XII, por ter sido ensinada nas escolas, 50 a Filosofia medieval também é conhecida como nome de Escolástica. A Filosofia medieval teve como influências principais Platão e Aristóteles. Os teólogos medievais mais importantes foram: Abelardo, Duns Escoto, Escoto Erígena, Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno, Guilherme de Ockham, Roger Bacon, São Boa ventura. Do lado árabe: Avicena, Averróis, Alfarabie Algazáli. Do lado judaico: Maimônides, Nahmanides, Yeudah Bem Levi. (CHAUÍ,2000, p.54-55) A Filosofia da Renascença (do século XIV ao século XVI) é marcada pela descoberta de obras de Platão desconhecidas na Idade Média, de novas obras de Aristóteles, bem como pela recuperação das obras dos grandes autores e artistas gregos e romanos. Os nomes mais importantes desse período são: Dante, Marcílio Ficino, Giordano Bruno, Campannella, Maquiavel, Montaigne, Erasmo, Tomás Morus, Jean Bodin, Kepler e Nicolau de Cusa. (CHAUÍ,2000, p.55). A Filosofia moderna (do século XVII a meados do século XVIII) é o período, conhecido como o Grande Racionalismo Clássico. Predomina, nesse período, a ideia de conquista científica e técnica de toda a realidade, a partir da explicação mecânica e matemática do Universo e da invenção das máquinas, graças às experiências físicas e químicas. Existe também a convicção de que a razão humana é capaz de conhecer a origem, as causas e os efeitos das paixões e das emoções e, pela von- tade orientada pelo intelecto, é capaz de governá-las e dominá-las, de sorte que a vida ética pode ser plenamente racional. A mesma convicção orienta o racionalismo político, isto é, a ideia de que a razão é capaz de definir para cada sociedade qual o melhor regime político e como mantê- lo racionalmente. Nunca mais, na história da Filosofia, haverá igual confiança nas capacidades e nos poderes da razão humana como houve no Grande 51 Racionalismo Clássico. Os principais pensadores desse período foram: Francis Bacon, Descartes, Galileu, Pascal, Hobbes, Espinosa, Leibniz, Malebranche, Locke, Berkeley, Newton, Gassendi. (CHAUÍ,200, p.56- 57). A Filosofia da Ilustração ou Iluminismo (meados do século XV III aocomeço do século XIX). Esse período também crê nos poderes da razão, chamada de As Luzes (por isso, o nome Iluminismo). O Iluminismo afirma que: • Pela razão, o homem pode conquistar a liberdade e a felicidade social e política (a Filosofia da Ilustração foi decisiva para as ideias da Revolução Francesa de1789); • A razão é capaz de evolução e progresso, e o homem é um ser perfectível. A perfectibilidade consiste em liberar-se dos preconceitos religiosos, sociais e morais, em libertar-se da superstição e do medo, graças as conhecimento, às ciências, às artes e à moral; • O aperfeiçoamento da razão se realiza pelo progresso das civilizações, que vão das Mais atrasadas (também chamadas de “primitivas” ou “selvagens”) às mais Adiantadas e perfeitas (as da Europa Ocidental); • Há diferença entre Natureza e civilização, isto é, a Natureza é o reino das relações necessárias de causa e efeito ou das leis naturais universais e imutáveis, enquanto a civilização é o reino da liberdade e da finalidade proposta pela vontade livre dos próprios homens, em seu aperfeiçoamento moral, técnico e político. Nesse período há grande interesse pelas ciências que se relacionam com a ideia de evolução e, por isso, a biologia terá um lugar central no pensamento ilustrado, pertencendo ao campo da filosofia da vida. Há igualmente grande interesse e preocupação com as artes, na 52 medida em que elas são as expressões por excelência do grau de progresso de uma civilização. Data também desse período o interesse pela compreensão das bases econômicas da vida social e política, surgindo uma reflexão sobre a origem e a forma das riquezas das nações, com uma controvérsia sobre a importância maior ou menor da agricultura e do comércio, controvérsia que se exprime em duas correntes do pensamento econômico: a corrente fisiocrata (a agricultura é a fonte principal das riquezas) e a mercantilista (o comércio é a fonte principal da riqueza das nações). Os principais pensadores do período foram: Hume, Voltaire, D’Alembert, Diderot, Rousseau, Kant, Fichte e Schelling (embora este último costume ser colocado como filósofo do Romantismo). (CHAUÍ, 20- 00, p.57-58). A Filosofia contemporânea abrange o pensamento filosófico que vai de meados do século XIX e chega aos nossos dias. Esse período, por ser o mais próximo de nós, parece ser o mais complexo e o mais difícil de definir, pois as diferenças entre as várias filosofias ou posições filosóficas nos parecem muito grandes porque as estamos vendo surgir diante de nós. (CHAUÍ,2000, p.58). 53 MATERIAIS COMPLEMENTARES Links “gratuitos” a serem consultados para um acrescentamento no estudo do aluno acerca de assuntos que não puderam ser abordados na apostila em questão: Ontologia I Introdução a Ontologia Ontologia termo e ideia Filosofia da ciência ou ontologia? https://hebeche.paginas.ufsc.br/files/2016/03/OntologiaI.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/228782/mod_resource/content/1/OntologiaMafalda.pdf https://www.brapci.inf.br/_repositorio/2010/09/pdf_e9fd3bd011_0012011.pdf https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/22962/1/2015_MariaEugêniaZabottoPulino.pdf 54 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAYLOR, Charles, et al. Multicultura-lismo. Lisboa: Instituto Piaget,1998. CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000. Disponível em COMMELIN, P. Mitologia grega e romana. São Paulo: Martins Fontes,1997. ELIADE, Mirceia. Mito e realidade. São Paulo:Perspectiva,1978, ELIADE, Mirceia. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes,2001. HEBECHE, Luiz Alberto. Ontologia I / Luiz Hebeche. 2ed. — Florianópolis: Filosofia/EAD/UFSC, 2012. LÉVI-STRAUSS, Claude. Mito e signifi-cado. Lisboa: Edições 70, 2000. Mauricio B. Almeida / Marcello P. Bax. Uma visão geral sobre ontologias: pesquisa sobre definições, tipos, aplicações, métodos de avaliação e de construção. Ci. Inf., Brasília, v. 32, n. 3, p. 7-20, set./dez. 2003 MARCONATTO, Arildo Luiz. "Anaximandro (610 - 547 a.C.)" em Só Filosofia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2020. Consultado em 25/09/2020 às 06:15. Disponível na Internet em http://www.filosofia.com.br/historia_show.php?id=8 ROCHA, Zeferino. Heráclito de Éfeso, filósofo do Lógos. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., VII, 4, 7-31 dez/2004. SOUZA, Marcelo Prates De. Moral E Metafísica Em Sartre. Universidade Federal Do Paraná, Dissertação De Mestrado, Curitiba, 2011.