Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 1
2 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ
FILOSOFIA HELENÍSTICA 
A palavra “helenística” deriva de helenismo, termo 
que corresponde ao período que vai de Alexandre 
Magno, o macedônico, até o da dominação Romana 
(fim do séc. IV d. C. ao fim do séc. I d.C.). Alexandre foi 
o grande responsável por estender a influência grega 
desde o Egito até a Índia.
A filosofia helenística corresponde a um 
desenvolvimento natural do movimento intelectual 
que a precedeu e torna a se defrontar muitas vezes 
com temas pré-socráticos; porém, sobretudo ela é 
profundamente marcada pelo espírito socrático. A 
experiência com outros povos também lhe permitiu 
desempenhar certo papel no desenvolvimento da 
noção de cosmopolitismo, isto é, da ideia de homem 
como cidadão do mundo.
Com a derrocada da polis – empreendida principalmente 
pelo Império Macedônico, com Alexandre à frente –, 
caíram progressivamente todos os seus valores cívicos, 
base de sua estrutura social. Enquanto o cidadão 
aristotélico não se concebia fora de sua organização 
política – afinal, o homem é um animal político –, 
o homem helenístico defende que pode bastar a si 
mesmo como governante soberano de si.
Essas diferenças implicam que, para retomar a 
pergunta anterior, a tese helenística de base é a de 
que os caminhos que conduzem à felicidade residem 
no homem e não em suas circunstâncias externas. 
É difícil imaginar Aristóteles concordando com essa 
afirmação, sem fazer muitas ressalvas, tantas a ponto 
de desfigurar a premissa e torná-la irreconhecível. 
Dessa maneira, para ser feliz, em maior ou menor 
medida, o homem helenístico não precisa de 
sociedade politicamente organizada, riquezas, dotes 
físicos especiais, deuses, alma imortal etc. O que é 
necessário é sua razão adequadamente orientada, o 
logos que lhe indique o correto caminho, que, como 
já visto, consiste em cultivar a ataraxia. A verdadeira 
felicidade se encontra em reconhecer o que é externo 
e renunciar a buscá-lo e se habituar a não sofrer 
por não o controlar. A verdadeira felicidade está em 
se voltar para si e para o que depende de si. Como 
pode ser observado do que dissemos, verifica-se a 
predominância dos estudos sobre a Ética nos sistemas 
filosóficos da era helenística. Os estudos sobre a 
realidade em seu sentido mais abrangente e sobre a 
possibilidade de conhecê-la existem, mas em grande 
medida existem como etapas para fundamentar a 
pesquisa propriamente ética. De certo modo, há uma 
retomada das noções de kósmos e phýsis, típicas dos 
pré-socráticos, para, a partir delas, fundamentar as 
questões relativas ao éthos, típica de Sócrates e dos 
pensadores por ele influenciados.
O ESTOICISMO
As Escolas filosóficas, helenísticas ou não, 
frequentemente eram designadas pelo nome dos 
lugares em que se estabeleciam. O fundador da escola 
estoica, Zenão de Cítio (cerca de 334-262 a.C) ensinava 
sob arcadas recobertas, em locais que, em termos 
arquitetônicos, chamam-se pórticos (em grego, 
stoa). O nome estoicismo deriva desse vocábulo. Os 
ensinamentos do fundador ganharam repercussão 
e foram difundidos por meio de seus discípulos. O 
primeiro foi Cleantes de Assos (cerca de 331-230 a.C). 
O segundo foi Crisipo de Solos (cerca de 280-208 a.C). 
Juntos com o fundador, formam o que conhecemos 
como estoicismo antigo. De seus pensamentos – fora 
FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 3
um breve poema, Hino a Zeus, de Cleanto –, não se 
conservou muita coisa original. Do que professavam, 
conhecemos de maneira indireta o que deles disseram 
outros autores posteriores – entre eles, Cícero já no 
Império Romano, que é considerado um pensador 
eclético, isto é, que mescla diferentes influências 
em seu modo de filosofar. Em seguida, veio o que se 
chama de médio estoicismo, com Panécio (cerca de 
180-110 a.C) e Posidônio (135-51 a.C). Essa fase foi 
marcada pelo que a tradição chama de ecletismo, isto 
é, a tendência de mesclar as diferentes doutrinas – 
platonismo e aristotelismo incluídos –, o que pareceu 
ser uma tendência no período helenístico.
Por fim, o estoicismo novo já em Roma. As obras desse 
período, diferente dos anteriores são bem conhecidas, 
sendo estes os principais nomes: Sêneca (cerca de 4 
a.C - 64 d.C), Epicteto (cerca de 50-130 d.C) e Marco 
Aurélio (121-180 d.C). Os livros que utilizaremos para 
mencionar serão principalmente dos estoicos novos, 
ainda que fazendo referência aos antigos.
Ordem cósmica
O estoicismo concebe os estudos filosóficos a partir 
de três disciplinas fundamentais: a Física, a Lógica e 
a Ética. É comum designar essa concepção de modo 
metafórico, utilizando uma árvore como comparação:
• Frutos: Ética
• Tronco: Lógica 
• Raízes: Física
Há de haver uma relação íntima, portanto, entre a 
modo correto de conceber o mundo, o modo correto 
de pensar a seu respeito e o modo correto de agir 
conforme esses pressupostos. Numa expressão 
conhecida, o homem é um microcosmo que deve 
refletir o macrocosmo. Na essência da tradição grega, 
apropriada pelo estoicismo, a essência da realidade é 
ordem, harmonia e beleza – o que já vimos na aula 
sobre pré-socráticos com o nome de kósmos.
Para os estoicos, a ordem cósmica pode ser entendida 
como um ser vivo, estruturado e animado. Esse ser é 
chamado pelos gregos e pelos estoicos especificamente 
de divino (theion).
Nas palavras de Cícero: 
Que Epicuro caçoe tanto quanto quiser [...] não 
deixa de ser verdade que nada é mais perfeito que 
o mundo [...] O mundo é um ser animado, dotado de 
consciência, inteligência e razão (Sobre a Natureza 
dos deuses, I, 425)
A estrutura de tudo o que existe é ordenada, 
harmônica, bela. Justamente por esses aspectos, 
é racional, isto é, funciona conforme o logos. Como 
já vimos em Heráclito, esse conceito se refere, 
concomitantemente, à ordem intrínseca da realidade 
e à capacidade racional do homem em aprendê-la. 
Naquela citação de Cícero, fica claro como uma ordem 
lógica – por assim dizer – governa o caos aparente das 
coisas. Há uma harmonia cósmica, ainda que haja 
catástrofes e acidentes, provisórios por natureza. 
Essa ordem é racional e, além disso, também é justa e 
boa, como menciona Marco Aurélio:
Tudo o que acontece, acontece justamente; é o que 
descobrirás se observares as coisas com exatidão [...] 
como se alguém vos concedesse vossa parte segundo 
o que mereceis. (Meditações)
Exercícios de sabedoria 
Os estoicos, de fato, derivam uma ética a partir da física 
– vale dizer, da maneira como concebem a phýsis, a 
totalidade das coisas que há. Em outras palavras, os 
estoicos entendem como devemos nos comportar com 
base no modo como se estrutura o kósmos. 
Nas palavras de Cícero: 
Aquele que viver de acordo com a natureza deve partir 
da visão de conjunto do mundo e da providência. 
4 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ
Não é possível emitir juízos verdadeiros sobre os 
bens e sobre os males sem conhecer todo o sistema 
da natureza e da vida dos deuses, nem saber se 
a natureza humana está ou não de acordo com a 
natureza universal. E não se pode ver, sem a física, que 
importância (e ela é imensa) têm as antigas máximas 
dos sábios: “Obedece às circunstâncias!”, “Segue 
Deus!”, “Conhece-te a ti mesmo!”, “Nada em excesso!” 
etc. Somente o conhecimento dessa ciência pode nos 
ensinar o que pode a natureza na prática da justiça, na 
conservação de nossas amizades e de nossos apegos... 
(Cícero, Dos fins dos bens e dos males, III, 73) 
Tal visão é oposta e pode chegar a ser ofensiva à visão 
atual de que é a vontade dos homens, em contraposição 
à força da natureza, que deve predominar quando 
precisamos estabelecer as reflexões éticas. É 
amplamente aceita a tese de que a natureza não é boa 
em si. Tendemos a pensar que fenômenos naturais não 
são bons, nem maus – simplesmente não escolhem 
acontecer e todo o dano que causam e todo o benefício 
que trazem são fatos, não valores. 
Diferentemente, o que está em jogo aqui é um aspecto 
moral na realidade. Dessa maneira, é bom aquilo que 
está conformea ordem cósmica, independentemente 
da vontade humana. O bom e o mau se constituem 
a despeito de agradar os homens. O dever-ser – o 
correto moralmente – não está dissociado do ser – da 
totalidade das coisas tais quais são. 
Contrariando Aristóteles, o conhecimento que vale 
a pena ser buscado passa a ser encarado não mais 
como algo completamente desinteressado, mas com 
vistas a alcançar um critério para guiar a vida humana. 
As escolas da época preocupavam-se menos com os 
conceitos e mais com exercícios práticos de sabedoria – 
diferentemente do que ocorre hoje. Tais práticas estão 
presentes, direta ou indiretamente, em pensadores e 
movimentos diversos: de Lucrécio a Nietzsche, com 
similaridades inclusive com o budismo tibetano. 
Diz Marco Aurélio: 
Assim como os cirurgiões têm sempre à mão as 
lancetas e bisturis para as súbitas urgências de sua 
arte, também tu deves ter os teus princípios sempre 
prontos para a compreensão das coisas, tanto as 
humanas quanto as divinas, nunca esquecendo, 
mesmo na mais trivial da ações, como as duas estão 
tão intimamente ligadas. Porque nada de humano 
pode ser feito com acerto sem referência ao divino, e 
reciprocamente. (Meditações, III, 13) 
É preciso, dada a analogia estabelecida por Marco 
Aurélio com o médico e o bisturi, ser humano, mas ser 
humano profissional. Isso implica ter as ferramentas 
à mão quando surgirem os problemas inevitáveis da 
vida. Eis algumas delas.
1. Abandonar o passado, e confiar o futuro 
à providência
O apego ao passado e a preocupação com o futuro são 
os dois males que impedem o homem de alcançar 
a plenitude. Tanto os impedem de aproveitar o que 
acontece, quanto de agir para que aconteça algo que 
planejam. 
Nas palavras de Marco Aurélio: 
Tudo o que desejas alcançar por um longo desvio, 
podes tê-lo desde já, se não o recusares a ti mesmo. 
Basta abandonar todo o passado, confiar o futuro à 
providência e dirigir a ação presente para a piedade 
e a justiça; para a piedade, para a amar a parte que a 
natureza te atribui; pois ela a produziu para ti, e tu para 
ela; para a justiça, para dizer a verdade livremente e 
sem desvio e para agir segundo a lei e segundo o valor. 
(Meditações, XII)
É necessário aprender a se libertar desses pesos. 
Ainda Marco Aurélio: 
Que a imagem de tua vida inteira não te perturbe 
jamais. Não sonhes com todas as coisas dolorosas que 
provavelmente te aconteceram, mas, a cada momento 
presente, pergunta: o que há de insuportável e de 
irreversível neste acontecimento? Lembra-te, então, 
de que não é nem o passado, nem o futuro, mas o 
presente que pesa sobre ti. (Meditações, XIII, 36) 
Nesse ensinamento está presente tanto o conselho 
de evitar a nostalgia, que pode paralisar, quanto a 
esperança, que pode angustiar.
2. Esperar um pouco menos, amar um 
pouco mais 
A esperança implica que algo falta, portanto incentiva 
que sintamos uma tensão insaciada. A sensação de 
falta de saciedade aponta para a infelicidade, dado 
FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 5
que felicidade é plenitude. O perigo da esperança, 
então, é a de adiar a felicidade de modo indefinido, 
seja em prol de um paraíso aqui ou além. 
É conhecida a fábula de La Fontaine (1621-1695) da 
Leiteira e o balde de leite. 
Uma moça, chamada 
Perrette, voltava do campo 
com um balde de leite cheio. 
Enquanto caminhava, 
imaginava o futuro e não 
só: ansiava por ele. Tudo o 
que produziria com o leite, 
as riquezas que a partir 
dele seriam produzidas. Ela 
poderia comprar ovos. Dos 
ovos, nasceriam pintinhos. 
Os pintinhos seriam 
vendidos para a compra de 
um vestido novo. Nesses pensamentos distraída, deixou 
o balde cair e perdeu todo o leite que derramou no chão. 
A lição estoica é a de que, por mais que o futuro seja 
ansiado, é o presente que importa. Sendo o presente 
que importa, também não adianta chorar pelo leite 
derramado. A vida boa é a vida sem esperanças, sem 
apegos e, assim, sem temores: a vida em reconciliação 
com a realidade tal qual ela é. 
Como diz Epicteto: É preciso conciliar nossa vontade 
com os acontecimentos de tal maneira que nenhum 
acontecimento ocorra contra nossa conveniência, e 
que também não haja nenhuma acontecimento que 
ocorra quando não o desejamos. A vantagem para 
aqueles que estão assim prevenidos é de não falhar em 
seus desejos, de não se deparar com o que detestam, 
de viver interiormente uma vida sem dificuldade, sem 
temor e sem perturbação [...] (Entretiens, II, Discurso 
II, XVI, 45-47)
Embora tais considerações pareçam absurdas , tal 
doutrina pode ser interpretada também como uma 
tentativa de adequação da vontade humana aos 
desígnios do kósmos, da phýsis, do lógos. Pode ser 
que se trate de um reenquadramento do conceito de 
liberdade, que não significaria mais fazer aquilo que se 
quer, mas se identificar com aquilo que acontece. Tanto 
Espinosa quanto Nietzsche parecem ter pensado algo 
semelhante. Este, por exemplo, lança mão do conceito 
de amor fati, o amor ao real tal qual ele é.
3. Cultivar o não-apego
Uma vez que a única dimensão da vida é o presente 
(passado é nostalgia; futuro é esperança) e que o 
presente não é garantia de nada possuir (dado que nada 
está assegurado), é sábio se habituar ao não-apego. 
Novamente Epicteto: 
O primeiro e principal exercício, o que conduz de 
imediato às portas do bem, consiste, quando uma 
coisa nos prende, em considerar que ela não é 
daquelas que não nos podem ser tiradas; que ela é 
como uma panela, ou uma taça de cristal, que quando 
se quebra não nos perturba porque lembramos o que 
ela é. O mesmo acontece aqui: se abraças um filho, um 
irmão ou um amigo, não te abandones sem reservas 
à imaginação... Lembra-te que amas um mortal, um 
ser que não é absolutamente tu mesmo. Ele te foi 
concedido para o momento, mas não para sempre, 
nem sem que te possa ser tomado... que mal existe em 
murmurar entre dentes, enquanto se abraça o filho: 
“Amanhã ele morrerá?” (Entretiens, III, 84 ss.) 
Tais conselhos podem parecer pregar a indiferença 
perante a vida e falta de compaixão. De fato, muitos o 
acusaram exatamente de defender essas duas ideias. 
Ainda assim, é possível interpretá-lo por outra via: a de 
que é preciso se preparar para a impermanência das 
coisas (conceito, inclusive, muito usado no budismo 
tibetano e que pode também ser encontrado na 
interpretação platônica de Heráclito no pantha rhei, 
tudo flui). Nada é estável, tudo muda, tudo passa. Não 
compreender essa verdade fundamental é submeter-
se novamente às amarras da nostalgia e da esperança. 
É preciso amar o presente e nada desejar além dele, 
nem lamentar o que quer que tenha ficado no passado.
4. Preparar-se para a catástrofe 
O tempo passará. O corpo se tornará mais fraco. 
Teremos algumas decepções na vida. Seremos traídos. 
Cometerão injustiças conosco. Ficaremos doentes. 
Eventualmente, cairemos na ruína financeira. 
Morreremos. Os males da vida acontecerão. Por 
que não estar preparado quando os acontecimentos 
inevitáveis da vida vierem? 
Diz Epicteto: Que estejam diante dos teus olhos, a 
cada dia, a morte, o exílio e todas as coisas que se 
6 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ
afiguram terríveis, sobretudo a morte. Assim, jamais 
ponderarás coisas abjetas, nem aspirarás à coisa 
alguma excessivamente (Encheirídion, III, 21) 
Marco Aurélio também disse algo semelhante:
“é preciso realizar cada ação da vida como se fosse a 
última” (Meditações, II, 5, 2). 
É preciso se despojar do apego ao passado, ao futuro 
e às posses do presente. Viver cada ação como se 
fosse a última implica ter a consciência de que o 
momento passará, não voltará e que, portanto, deve 
ser fruído enquanto dura. Há momentos de plenitude 
na vida, em que nos reconciliamos com o mundo. 
Você imagina o melhor exemplo que se lhe enquadra. 
Mergulhar no mar. Correr no campo. Trilhar pela 
floresta. Pular de paraquedas. Escutar a canção 
preferida. Quando há esses momentos de harmonia 
entre nós e o mundo, parece haver uma dilatação do 
presente, cuja serenidade nãoé rompida, nem pelo 
que passou, nem pelo que virá. Com a habilidade de 
permanecer no presente, seja ele qual for, quando o 
desastre acontecer, estaremos preparados. 
O ceticismo e o cinismo são também uma filosofia 
popular e missionária, de certo modo exagerado 
em suas tendências: o primeiro suspende o juízo 
sobre a realidade, duvidando de que seja possível 
algum conhecimento seguro e estável ou verdadeiro 
absolutamente; o segundo refere-se à total indiferença 
ao mundo e a si mesmo, promovendo um estado de 
tranquilidade interior e imperturbabilidade. Ambas 
dirigem-se a todas as classes da sociedade, instruindo 
com a própria vida, denunciando as convenções 
sociais e propondo um retorno à simplicidade da vida 
conforme a natureza.
EPICURISMO
Epicuro, o fundador do epicurismo, nasceu na ilha de 
Samos, em 340 a.C, mas era filho de pais atenienses. 
Segundo se conta, por volta de 35 anos de idade, 
fixa-se em Atenas, adquire um terreno cercado por 
jardins e estabelece sua Escola, então conhecida pela 
tradição como Jardim de Epicuro. Enquanto na casa 
habitavam os mestres (o fundador e seus discípulos), 
no amplo jardim, acampando em barracas e cultivando 
hortaliças, instalavam-se os novos discípulos vindos 
das mais distantes regiões. 
Mesmo após a morte de seu fundador, o epicurismo 
sobreviveu por cerca de 7 séculos no mundo greco-
romano. Estabelece-se em Roma, em meados do 
século II a.C, tendo como principal continuador 
o filósofo romano Lucrécio, principalmente no 
poema "A natureza das coisas". Por volta do séc. III 
d.C, Diógenes Laércio, um comentador da vida dos 
filósofos, registrava ainda haver epicuristas em sua 
época. Pierre Gassendi, já no séc. XVII, também se 
considerava discípulo de tal Escola. 
Consta que Epicuro escreveu muito (centenas de 
rolos de papiro). Contudo, chegaram até nós poucos 
materiais: três cartas dirigidas a amigos ou discípulos 
e duas coleções de máximas ou sentenças. As 
primeiras são destinadas a discípulos ilustres: Carta a 
Pítocles, Carta a Heródoto e Carta a Meneceu
1. O materialismo de Epicuro
Entre os epicuristas, a filosofia é concebida como 
uma atividade urgente. O ser humano é infeliz porque 
não compreende adequadamente – e só aceita o que 
dizem – sobre a morte, os deuses e o sofrimento. A 
filosofia seria o medicamento que se deve tomar o 
mais rápido possível. As primeiras linhas da Carta a 
Meneceu assim começam: 
Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto 
jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque 
ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado 
velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma 
que a hora de se dedicar à filosofia ainda não chegou, 
ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não 
chegou ou que já passou a hora de ser feliz.
A mensagem é que a filosofia conduz à verdadeira 
natureza das coisas e, uma vez de posse dessa 
compreensão, o homem teria plenas condições de 
trilhar o caminho rumo à felicidade.
O conhecimento da verdadeira natureza das coisas 
conduz à física. E uma exposição breve sobre as 
concepções epicuristas sobre 
essa questão encontra-se 
na Carta a Heródoto. Os 
epicuristas adotaram 
a física dos atomistas, 
herdeiros de Demócrito. 
Assim como os pré-
socráticos, Epicuro estabe-
lece como princípios da realidade 
as partículas indivisíveis, os átomos, e 
FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 7
o vazio – trata-se, por assim dizer, de uma concepção 
materialista de mundo. 
Como tudo é composto das mesmas substâncias 
essenciais, não há diferenças entre o ser humano e a 
natureza. Analogamente aos atomistas, os epicuristas 
sustentam que a alma é material. 
Diz Epicuro sobre o assunto: 
Aqueles que afirmam que a alma é incorpórea falam 
para não dizer nada, pois, se o fosse, seria incapaz de 
padecer ou de atuar sobre qualquer outra coisa. (Carta 
a Heródoto, 67) 
Sobre a mesma questão, Lucrécio completa:
 A alma está contida na totalidade do corpo; ela é seu 
guardião, pois assegura sua salvação; raízes comuns 
os unem mutuamente, e não pode separá-los sem 
destruí-los. (Da natureza das coisas, III.323) 
Dada a materialidade da alma, é preciso entender a 
phýsis para, a partir dela, entender como viver bem. 
No entanto, ainda que entenda que tudo seja formado 
de átomos e vazio, na sua descrição materialista da 
realidade pressupõe a vontade humana e a liberdade 
individual, incluindo em seu sistema a sociedade e a 
consciência moral. 
[...] Que nega o destino, apresentado por alguns como 
o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por 
necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que 
a necessidade é incoercível; o acaso, instável; enquanto 
nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham 
a censura e o louvor? Mais vale aceitar o mito dos deuses 
do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito 
pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos 
deuses por meio das homenagens que lhes prestamos, 
ao passo que o destino é uma necessidade inexorável 
(Carta a Meneceu) 
2. A carta a Meneceu (sobre a felicidade) 
Esta crítica, de certo modo, explica por que a carta 
abre da maneira que expomos na seção anterior:
Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer 
bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem 
de agradável para ambos, mas também porque se deve 
ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente 
viver e em honestamente morrer. Mas pior ainda é 
aquele que diz: bom seria não ter nascido, mas, uma 
vez nascido, transpor o mais depressa possível as 
portas do Hades. Se ele diz isso com plena convicção, 
por que não se vai desta vida? Pois é livre para fazê-
lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse 
por brincadeira, foi um frívolo em falar de coisas que 
brincadeira não admitem (Carta a Meneceu)
Para Epicuro, não há idade para dedicar-se à filosofia, 
porque filosofar para ele implica buscar a vida boa – 
prática que deve se estender por toda a vida –, e a vida 
boa é aquela dedicada ao prazer (hedoné). Porém, 
pouco se entende o que prazer significa para o filósofo. 
A melhor maneira de entender prazer para Epicuro 
é concebê-lo duplamente como saúde do corpo 
(aponia) e tranquilidade do espírito (ataraxia), 
indissociavelmente. Em outras palavras menos 
precisas: ausência de dor e ausência de ansiedade. 
Quando, então, dizemos que o fim último é o prazer, 
não nos referimos aos prazeres dos intemperantes 
ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como 
acreditam certas pessoas que ignoram o nosso 
pensamento, ou não concordam com ele, ou o 
interpretam erroneamente, mas ao prazer que é a 
ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da 
alma. (Carta a Meneceu) 
Nesse sentido, prazer não é algo que deva ser buscado 
indiscriminadamente. Proceder assim, inclusive, 
conduz à dor – o corpo adoece depois de uma ressaca, 
o espírito se sente vazio depois de uma festa quando 
todos os supostos amigos se vão. A dor, por sua vez, 
nem sempre deve ser evitada, já que pode resultar em 
prazer – exercitar-se pode causar desconforto, mas 
conduz à saúde do corpo; falar sobre assuntos que 
causam sofrimento no momento pode fazer com que 
os compreendamos e alcancemos a tranquilidade do 
espírito. No epicurismo, o prazer é necessariamente 
comedido e é buscado na medida exata da satisfação – 
princípio da qualidade sobre a quantidade. 
O hedonismo epicurista não defende que se beba 
e se coma indiscriminadamente. Não defende que 
8 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ
se busque a glória a todo custo. Não defende que as 
riquezas materiais sejam perseguidas. Todas elas, 
consideradas em si mesmas, causam prazer, mas prazer 
efêmero que, por definição, fenece e acarreta a sensação 
de incompletude e de ansiedade. Dada a sua visão 
materialista de mundo, o filósofo concede que a vida 
humana implica sentir prazeres e que, em decorrência 
dessa premissa, “praticamos toda escolha e toda recusa 
[...] de acordo com a distinção entre prazer e dor”, porém 
“nem por isso escolhemos qualquer prazer”, ressaltaEpicuro. Há, em suma, uma hierarquia dos prazeres, 
que pode ser colocada na seguinte tabela:
Os desejos naturais e necessários são aqueles que 
livram o corpo da dor. Os desejos naturais e não 
necessários são aqueles que surgem da vontade de 
refinar os prazeres do corpo. Os desejos não naturais 
e não necessários são os que nascem de uma opinião 
falsa sobre o mundo – inveja, raiva, exasperação etc. 
Os desejos não naturais e necessários, por definição, 
não existem, dado que não sendo natural, não há 
como ser necessário.
Saber hierarquizar os prazeres significa não perder 
de vista qual a sua função na construção da vida boa. 
Para Epicuro: 
O conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar 
toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e 
para a serenidade da vida feliz: em razão desse fim, 
praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos 
da dor e do medo (Carta a Meneceu)
Com base na concepção materialista de mundo, na 
aceitação da sensação de prazer como guia para a vida 
humana e no entendimento de que os prazeres devem 
ser hierarquizados, a tradição epicurista romana legou 
uma espécie de fórmula medicamentosa para lidar 
com os principais causadores do desprazer – isto é, da 
negação da saúde do corpo (aponia) e da tranquilidade 
do espírito (ataraxia): o tetraphármakon. 
Trata-se do modo como Diógenes Laércio, em sua 
obra "Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres", 
sumariza os ensinamentos de Epicuro. Trata-se de 
uma metáfora de uma receita conhecida de quatro 
drogas (tetraphármakon) da Roma Antiga, utilizadas 
para se referir aos remédios que curam a alma. São 
eles os seguintes:
1. Não tema os deuses;
2. Não se preocupe com a morte;
3. O bem é fácil de obter;
4. O mal é fácil de suportar.
Conclusão 
Estoicismo e Epicurismo são duas escolas filosóficas 
helenistas que mais se assemelhando que se 
distanciam. Ambas adotam como prevalência de suas 
preocupações a ética, por mais que proponham que 
ela derive de uma física, isto é, de uma concepção 
de kósmos e de phýsis dos quais o homem faria 
parte e com que deveria buscar se harmonizar. 
Ambas almejam fazer com que o homem alcance a 
eudaimonia (felicidade). Entretanto, não mais como 
Aristóteles propunha, no contexto da pólis. Esse 
universo, primeiro, desfeito pelo Império Macedônico 
e, posteriormente, pelo Império Romano, faz com que 
as preocupações sejam muito mais locais e, em alguns 
casos, individuais e não mais coletivas. 
Introdução
O Cinismo e o Ceticismo compartilham com todas as 
escolas do helenismo – o Epicurismo e o Estoicismo – 
a preocupação com a prática da vida, a preocupação 
com a ética. E desta forma que comumente se 
entende a postura filosófica tanto de Diógenes de 
Sínope quanto de Pirro de Élis, os dois principais 
filósofos que estudaremos: ambos querem atingir 
a imperturbabilidade do espírito (ataraxia) e, 
consequentemente, alcançar a felicidade (eudaimonia).
CINISMO
O termo cínico deriva da palavra grega kynós, que 
quer dizer cachorro. 
Literalmente, então, cínico é aquele que vive como 
um desses animais de rua. Ao contrário do significado 
de hoje, que quer dizer alguém debochado, fingido, a 
palavra na origem significa alguém desprendido em 
relação a convenções sociais, a ponto de ser a elas 
afrontoso, como os cães em diversos momentos.
E a comparação com os cães não 
é à toa, porque o cinismo é antes 
de tudo uma ação, em detrimento 
de uma teoria. Nada há de registro 
próprio dos cínicos, a não ser casos 
FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 9
e histórias que deles nos restam. A inspiração maior é 
Sócrates, de modo que se pode dizer que o movimento 
é neto desse filósofo. A história é mais ou menos a 
seguinte:
Antístenes, um dos seguidores de Sócrates, depois 
da morte de seu mestre, resolveu fundar sua própria 
escola. Ao contrário de Platão, que comprara a 
Academia, e de Aristóteles, que alugara o Liceu, conta-
se que Antístenes não tinha dinheiro. Por isso, ocupou 
um ginásio abandonado, cujo nome era Cinosargo. 
“Cinos” vem de kynós, cão, como já vimos, e “argo” 
vem de argós, que pode significar tanto branco, 
quanto veloz. Então, o ginásio, não se sabe por quê, 
chamava-se “cão veloz” ou “cão branco”. Os seus 
adeptos eram chamados de “aqueles do Cinosargo”, 
ou simplesmente de “cachorros”. Nesse contexto, o 
nome do movimento deriva de uma condição fortuita, 
externa. Certa vez, Diógenes teria dito “já que nos 
tratam como cães, agiremos como tais” – então, 
passou a ressignificar o nome do lugar e assumi-lo 
como modo de vida.
Quem fundou o movimento, tal qual o conhecemos, 
foi Diógenes, não Antístenes, seu mestre. Diógenes 
era um estrangeiro em Atenas. Nasceu em Sínope, 
colônia portuária grega no Mar Negro, hoje costa norte 
da Turquia. Consta que seu pai era um falsificador 
de moedas e que migrou para Atenas, devido a 
complicações por conta dessa prática paterna.
A maior parte do que se sabe da vida de Diógenes 
não vem de escritos seus, até porque, como vimos, 
sua preferência era a ação e não a teoria. Além disso, 
diz-se que escreveu, mas nada nos restou de seus 
escritos, mas apenas histórias, relatos, anedotas etc. 
Então, inevitavelmente, é preciso escutar as histórias 
sobre sua vida que contam terceiros e, a partir delas, 
por indução, tentar encontrar uma teoria que a 
fundamente.
Pode-se perguntar: a ausência de tratados e de 
doutrinas mais organizadas, como se verifica nos 
filósofos anteriores, desqualifica o cinismo enquanto 
filosofia propriamente dita? Há dois argumentos para 
considerar o cinismo como Filosofia, a despeito de 
carecer dessas importantes características. 
Primeiro: Os cínicos fazem jus ao propósito da 
Filosofia desde as suas origens, ou seja, a se constituir 
como um modo de vida não comum, um modo de vida 
que corresponda a uma vida verdadeiramente bem 
vivida e não aleatória. Fazer Filosofia nunca foi uma 
questão de pensar por pensar – mesmo em Platão e 
Aristóteles –, mas de pensar em vistas a viver a vida 
boa, a vida digna, a vida elevada. Os cínicos parecem 
ser fiéis a esse propósito. 
Segundo: As provocações cínicas não eram gratuitas, 
feitas apenas para perturbar as pessoas. A provocação, 
em Filosofia, exerce um efeito didático: o de despertar 
a consciência do interlocutor para trazê-lo à conversa. 
O metafórico latido e a metafórica mordida do cínico 
têm o propósito de despertar análises de consciência. 
A principal delas é esta: “Terei eu me deixado 
manipular por valores impostos ou acredito nos 
valores que adoto realmente?”.
2. Convenções sociais e anádeia 
Diógenes cultivava a sua própria liberdade acima de 
tudo. Nesse sentido, recusava todas as obrigações 
externas. Por isso, desprezava as pessoas que, por 
depender excessivamente de seus bens, findavam por 
ser escravas deles e das convenções que demandavam. 
Por isso, a identificação com os cães era tão viva. 
O cachorro era considerado um ser animado que 
não se preocupa com o que dizem dele. Fazem suas 
necessidades naturais onde e quando querem – bebem, 
comem, defecam, urinam, fazem sexo na frente de 
todos e sem se importar com ninguém. Também, não 
hesitam em externalizar seus incômodos: latem e 
mordem quando se sentem ameaçados.
Aos cães falta a pudicícia, que é a qualidade do que 
é pudico, casto, recatado. Precisamente, a falta de 
pudor (anádeia) era um dos valores principais dos 
cínicos para se contrapor ao que consideravam como 
falsa moral de seu tempo.
3. Em busca da autárkeia 
Diógenes desprezava tudo o que considerava 
supérfluo. Vivia em um grande jarro (barris não havia 
na época), vestindo somente um tríbon, ao mesmo 
tempo vestimenta e manto para dormir.
4. Exercícios de apátheia
Diógenes era conhecido também por pregar a apatia, 
que quer dizer a negação das reações afetivas, 
emocionais, perante as situações da vida.
Esses eram os três pilares da prática filosófica de 
10 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ
Diógenes. Vale repetir: anádeia, autarquia e apatia. 
Em uma palavra, os historiadores da filosofiachamam 
isso de áskesis, que deu origem à palavra ascese, 
sobre a qual iremos falar ao abordar amplamente 
quando falarmos sobre Nietzsche e Schopenhauer. 
Em Diógenes, áskesis é uma prática ativa, um 
exercício cotidiano para por em prática tanto a força 
física, quanto a força moral. Consistia em negar os 
falsos valores, os bens materiais e elevar-se rumo a 
uma vida, por assim dizer, mais autêntica. No fim, o 
objetivo de Diógenes era despertar a consciência das 
pessoas, ainda que de maneira truculenta, latindo 
como um cão. Ele queria chamar atenção aos falsos 
valores, às necessidades impostas que a maioria 
tende a adotar sem refletir.
CETICISMO 
A palavra “Ceticismo” deriva do termo 
sképsis, que quer dizer investigação, 
indagação. Essa raiz etimológica 
esconde toda a semântica atribuída 
a esse movimento. Não há uma 
concepção única de Ceticismo. Os 
céticos devem sua tradição a 
vários nomes e muitas vezes se 
diz que se trata de uma tradição 
reconstituída de várias influências e não de uma 
filosofia pura fundada por um grande pensador 
apenas. Costuma-se dividir essa corrente em quatro 
grandes blocos: 1) Protoceticismo, 2) Ceticismo 
inaugurado por Pirro de Élis, 3) Ceticismo acadêmico 
e 4) Ceticismo reconstituído ou ceticismo pirrônico. 
O Protoceticismo é a fase inicial. Trata-se não de 
filósofos céticos, mas de tendências, abordagens 
e propostas próximas a que os céticos posteriores 
vieram a adotar. Por exemplo, i) a desconfiança em 
relação aos dados sensoriais (tese encontrada em 
Heráclito, Parmênides e Demócrito, por exemplo), 
ii) a impossibilidade de se constituir conhecimento 
propriamente dito em face da mutabilidade da 
natureza (tese de Platão), iii) a relatividade da 
percepção humana que acarreta a relatividade do 
conhecimento (tese de Protágoras). Todas essas 
noções aparecerão posteriormente na fase do 
Ceticismo reconstituído. 
O Ceticismo é a fase inaugurada pelo nome que mais 
se assemelha ao grande pensador, tal qual tiveram 
as outras escolas – Diógenes, Zenão, Epicuro. O 
pensamento cético deve tributo originário a Pirro de 
Élis (360-270 a.C). Seu ensinamento, porém, dado que 
nada escreveu, foi transmitido por seu discípulo Tímon 
de Flios (325-235 a.C). Pirro, tal qual Sócrates, nada 
deixou escrito, porque teria considerado a Filosofia 
não uma doutrina sistemática sobre a realidade, 
mas principalmente uma prática a ser vivida – nesse 
sentido, muito similar ao próprio Diógenes. 
O Ceticismo acadêmico é a fase comandada pelos 
filósofos da Academia de Platão, após a morte de seu 
fundador. Os principais nomes são Arcesilau (316-
241 a.C), Carnéades (219-129 a.C) e Clitômaco (175-
110 a.C). Essa doutrina é conhecida, sobretudo, a 
partir do diálogo Academica (priora et posteriora), de 
Cícero (106-43 a.C), já no Império Romano. 
O Ceticismo reconstituído ou Ceticismo Pirrônico 
é iniciado por Enesidemo de Cnossos (I a.C). Esse 
pensador tentou restaurar o ceticismo de Pirro (daí 
o adjetivo pirrônico). O pensamento dessa fase foi 
basicamente transmitido por Sexto Empírico (II a.C), 
principal fonte até hoje dos princípios céticos. Eis 
uma citação famosa desse último pensador:
O resultado natural de qualquer investigação é que 
aquele que investiga, ou bem encontra o objeto de sua 
busca, ou bem nega que seja encontrável e confessa 
ser ele inapreensível, ou, ainda, persiste na sua 
busca. O mesmo ocorre com os objetos investigados 
pela filosofia, e é provavelmente por isso que alguns 
afirmaram ter descoberto a verdade; outros, que a 
verdade não pode ser apreendida; enquanto outros 
continuam buscando. Aqueles que afirmam ter 
descoberto a verdade são os “dogmáticos”; assim são 
chamados especialmente Aristóteles, por exemplo, 
Epicuro, os estoicos e alguns outros. Clitômaco, 
Carnéades e outros acadêmicos consideram a verdade 
inapreensível, e os céticos continuam buscando. 
Portanto, parece razoável sustentar que há três tipos 
de filosofia: a dogmática, a acadêmica e a cética (Sexto 
Empírico, Hipotiposes pirrônicas I.1). 
Segundo a interpretação de Sexto Empírico, 
poderíamos criar a seguinte tabela classificatória 
quanto às possibilidades de fazer Filosofia:
Sexto Empírico claramente empreendeu um esforço 
de separar um “verdadeiro ceticismo” do que faziam 
os acadêmicos. De certo modo, essa distinção é feita 
ainda hoje pelos historiadores. Divide-se o ceticismo 
em acadêmico e pirrônico.
FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 11
A prática cética 
Assim como Diógenes, também há narrativas sobre a 
vida de Pirro que servem de lição de moral. Segundo 
a tradição, Pirro e seu mestre, Anaxarco de Abdera, 
teriam acompanhado o exército de Alexandre até 
a Índia. Nesse período, teriam entrado em contato 
com os gimnosofistas (os “sábios nus”). Esta seria 
uma possível origem das noções céticas de ausência 
de sensação (apathia) e inação (apraxia), meios de 
alcançar a ataraxia. 
Alguns causos também chegaram do comportamento 
de Pirro – e como todo causo, não há compromisso 
com a coerência em uma narrativa única, de modo 
que ora servem para ilustrar lições de moral, ora para 
ridicularizar o personagem principal. 
Um deles diz que Pirro precisava ser acompanhado 
por seus discípulos a todo momento. Isso seria 
necessário, porque sua atitude de duvidar das 
sensações seria extrema a tal ponto de, em decorrência 
da dúvida, expor-se aos mais diversos perigos. Poderia 
facilmente ser atropelado por duvidar que realmente 
uma carroça viria em sua direção. Igualmente, poderia 
cair num precipício por duvidar que estava diante de 
um abismo. 
Outro deles, porém, sustenta que Pirro teria vivido 
como cidadão exemplar. Seu respeito teria sido 
consolidado a tal ponto que teria ganhado o título 
de sacerdote de sua cidade. Nesse sentido, a vida 
cética não seria necessariamente algo afastado das 
urgências cotidianas, mas apenas uma postura de 
cautela para alcançar a ataraxia.
Conclusão 
Assim como estoicos e epicuristas, cínicos e 
céticos, almejam fazer com que o homem alcance 
a eudaimonia (felicidade), por meio da ataraxia 
(imperturbabilidade do espírito). Diógenes enfatiza a 
importância da autárkeia (autossuficiência), e Pirro, 
da epoché (suspensão do juízo).
REFERÊNCIA
CORDERO, Néstor Luis. A invenção da Filosofia: uma introdução 
à Filosofia Antiga. Tradução: Eduardo Wolf. São Paulo: Odysseus 
Editora, 2011. 
EPICURO. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). Tradução e 
apresentação de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore. São Paulo: 
Editora UNESP, 2002. 
FERRY, Luc. Aprender a viver. Tradução de Vera Lucia dos reis. Rio 
de Janeiro: Objetiva, 2007. 
MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos pré-
socráticos a Wittgenstein. 2ª ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: Zahar, 2017. 
REALE, Giovanni. Estoicismo, ceticismo e ecletismo (História da 
Filosofia Grega e Romana, v. 6). Tradução de Marcelo Perine. 2ª ed. 
São Paulo: Edições Loyola, 2015) 
Prof. Vitor Ferreira Lima – UFRJ.

Mais conteúdos dessa disciplina