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FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 1 2 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ FILOSOFIA HELENÍSTICA A palavra “helenística” deriva de helenismo, termo que corresponde ao período que vai de Alexandre Magno, o macedônico, até o da dominação Romana (fim do séc. IV d. C. ao fim do séc. I d.C.). Alexandre foi o grande responsável por estender a influência grega desde o Egito até a Índia. A filosofia helenística corresponde a um desenvolvimento natural do movimento intelectual que a precedeu e torna a se defrontar muitas vezes com temas pré-socráticos; porém, sobretudo ela é profundamente marcada pelo espírito socrático. A experiência com outros povos também lhe permitiu desempenhar certo papel no desenvolvimento da noção de cosmopolitismo, isto é, da ideia de homem como cidadão do mundo. Com a derrocada da polis – empreendida principalmente pelo Império Macedônico, com Alexandre à frente –, caíram progressivamente todos os seus valores cívicos, base de sua estrutura social. Enquanto o cidadão aristotélico não se concebia fora de sua organização política – afinal, o homem é um animal político –, o homem helenístico defende que pode bastar a si mesmo como governante soberano de si. Essas diferenças implicam que, para retomar a pergunta anterior, a tese helenística de base é a de que os caminhos que conduzem à felicidade residem no homem e não em suas circunstâncias externas. É difícil imaginar Aristóteles concordando com essa afirmação, sem fazer muitas ressalvas, tantas a ponto de desfigurar a premissa e torná-la irreconhecível. Dessa maneira, para ser feliz, em maior ou menor medida, o homem helenístico não precisa de sociedade politicamente organizada, riquezas, dotes físicos especiais, deuses, alma imortal etc. O que é necessário é sua razão adequadamente orientada, o logos que lhe indique o correto caminho, que, como já visto, consiste em cultivar a ataraxia. A verdadeira felicidade se encontra em reconhecer o que é externo e renunciar a buscá-lo e se habituar a não sofrer por não o controlar. A verdadeira felicidade está em se voltar para si e para o que depende de si. Como pode ser observado do que dissemos, verifica-se a predominância dos estudos sobre a Ética nos sistemas filosóficos da era helenística. Os estudos sobre a realidade em seu sentido mais abrangente e sobre a possibilidade de conhecê-la existem, mas em grande medida existem como etapas para fundamentar a pesquisa propriamente ética. De certo modo, há uma retomada das noções de kósmos e phýsis, típicas dos pré-socráticos, para, a partir delas, fundamentar as questões relativas ao éthos, típica de Sócrates e dos pensadores por ele influenciados. O ESTOICISMO As Escolas filosóficas, helenísticas ou não, frequentemente eram designadas pelo nome dos lugares em que se estabeleciam. O fundador da escola estoica, Zenão de Cítio (cerca de 334-262 a.C) ensinava sob arcadas recobertas, em locais que, em termos arquitetônicos, chamam-se pórticos (em grego, stoa). O nome estoicismo deriva desse vocábulo. Os ensinamentos do fundador ganharam repercussão e foram difundidos por meio de seus discípulos. O primeiro foi Cleantes de Assos (cerca de 331-230 a.C). O segundo foi Crisipo de Solos (cerca de 280-208 a.C). Juntos com o fundador, formam o que conhecemos como estoicismo antigo. De seus pensamentos – fora FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 3 um breve poema, Hino a Zeus, de Cleanto –, não se conservou muita coisa original. Do que professavam, conhecemos de maneira indireta o que deles disseram outros autores posteriores – entre eles, Cícero já no Império Romano, que é considerado um pensador eclético, isto é, que mescla diferentes influências em seu modo de filosofar. Em seguida, veio o que se chama de médio estoicismo, com Panécio (cerca de 180-110 a.C) e Posidônio (135-51 a.C). Essa fase foi marcada pelo que a tradição chama de ecletismo, isto é, a tendência de mesclar as diferentes doutrinas – platonismo e aristotelismo incluídos –, o que pareceu ser uma tendência no período helenístico. Por fim, o estoicismo novo já em Roma. As obras desse período, diferente dos anteriores são bem conhecidas, sendo estes os principais nomes: Sêneca (cerca de 4 a.C - 64 d.C), Epicteto (cerca de 50-130 d.C) e Marco Aurélio (121-180 d.C). Os livros que utilizaremos para mencionar serão principalmente dos estoicos novos, ainda que fazendo referência aos antigos. Ordem cósmica O estoicismo concebe os estudos filosóficos a partir de três disciplinas fundamentais: a Física, a Lógica e a Ética. É comum designar essa concepção de modo metafórico, utilizando uma árvore como comparação: • Frutos: Ética • Tronco: Lógica • Raízes: Física Há de haver uma relação íntima, portanto, entre a modo correto de conceber o mundo, o modo correto de pensar a seu respeito e o modo correto de agir conforme esses pressupostos. Numa expressão conhecida, o homem é um microcosmo que deve refletir o macrocosmo. Na essência da tradição grega, apropriada pelo estoicismo, a essência da realidade é ordem, harmonia e beleza – o que já vimos na aula sobre pré-socráticos com o nome de kósmos. Para os estoicos, a ordem cósmica pode ser entendida como um ser vivo, estruturado e animado. Esse ser é chamado pelos gregos e pelos estoicos especificamente de divino (theion). Nas palavras de Cícero: Que Epicuro caçoe tanto quanto quiser [...] não deixa de ser verdade que nada é mais perfeito que o mundo [...] O mundo é um ser animado, dotado de consciência, inteligência e razão (Sobre a Natureza dos deuses, I, 425) A estrutura de tudo o que existe é ordenada, harmônica, bela. Justamente por esses aspectos, é racional, isto é, funciona conforme o logos. Como já vimos em Heráclito, esse conceito se refere, concomitantemente, à ordem intrínseca da realidade e à capacidade racional do homem em aprendê-la. Naquela citação de Cícero, fica claro como uma ordem lógica – por assim dizer – governa o caos aparente das coisas. Há uma harmonia cósmica, ainda que haja catástrofes e acidentes, provisórios por natureza. Essa ordem é racional e, além disso, também é justa e boa, como menciona Marco Aurélio: Tudo o que acontece, acontece justamente; é o que descobrirás se observares as coisas com exatidão [...] como se alguém vos concedesse vossa parte segundo o que mereceis. (Meditações) Exercícios de sabedoria Os estoicos, de fato, derivam uma ética a partir da física – vale dizer, da maneira como concebem a phýsis, a totalidade das coisas que há. Em outras palavras, os estoicos entendem como devemos nos comportar com base no modo como se estrutura o kósmos. Nas palavras de Cícero: Aquele que viver de acordo com a natureza deve partir da visão de conjunto do mundo e da providência. 4 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ Não é possível emitir juízos verdadeiros sobre os bens e sobre os males sem conhecer todo o sistema da natureza e da vida dos deuses, nem saber se a natureza humana está ou não de acordo com a natureza universal. E não se pode ver, sem a física, que importância (e ela é imensa) têm as antigas máximas dos sábios: “Obedece às circunstâncias!”, “Segue Deus!”, “Conhece-te a ti mesmo!”, “Nada em excesso!” etc. Somente o conhecimento dessa ciência pode nos ensinar o que pode a natureza na prática da justiça, na conservação de nossas amizades e de nossos apegos... (Cícero, Dos fins dos bens e dos males, III, 73) Tal visão é oposta e pode chegar a ser ofensiva à visão atual de que é a vontade dos homens, em contraposição à força da natureza, que deve predominar quando precisamos estabelecer as reflexões éticas. É amplamente aceita a tese de que a natureza não é boa em si. Tendemos a pensar que fenômenos naturais não são bons, nem maus – simplesmente não escolhem acontecer e todo o dano que causam e todo o benefício que trazem são fatos, não valores. Diferentemente, o que está em jogo aqui é um aspecto moral na realidade. Dessa maneira, é bom aquilo que está conformea ordem cósmica, independentemente da vontade humana. O bom e o mau se constituem a despeito de agradar os homens. O dever-ser – o correto moralmente – não está dissociado do ser – da totalidade das coisas tais quais são. Contrariando Aristóteles, o conhecimento que vale a pena ser buscado passa a ser encarado não mais como algo completamente desinteressado, mas com vistas a alcançar um critério para guiar a vida humana. As escolas da época preocupavam-se menos com os conceitos e mais com exercícios práticos de sabedoria – diferentemente do que ocorre hoje. Tais práticas estão presentes, direta ou indiretamente, em pensadores e movimentos diversos: de Lucrécio a Nietzsche, com similaridades inclusive com o budismo tibetano. Diz Marco Aurélio: Assim como os cirurgiões têm sempre à mão as lancetas e bisturis para as súbitas urgências de sua arte, também tu deves ter os teus princípios sempre prontos para a compreensão das coisas, tanto as humanas quanto as divinas, nunca esquecendo, mesmo na mais trivial da ações, como as duas estão tão intimamente ligadas. Porque nada de humano pode ser feito com acerto sem referência ao divino, e reciprocamente. (Meditações, III, 13) É preciso, dada a analogia estabelecida por Marco Aurélio com o médico e o bisturi, ser humano, mas ser humano profissional. Isso implica ter as ferramentas à mão quando surgirem os problemas inevitáveis da vida. Eis algumas delas. 1. Abandonar o passado, e confiar o futuro à providência O apego ao passado e a preocupação com o futuro são os dois males que impedem o homem de alcançar a plenitude. Tanto os impedem de aproveitar o que acontece, quanto de agir para que aconteça algo que planejam. Nas palavras de Marco Aurélio: Tudo o que desejas alcançar por um longo desvio, podes tê-lo desde já, se não o recusares a ti mesmo. Basta abandonar todo o passado, confiar o futuro à providência e dirigir a ação presente para a piedade e a justiça; para a piedade, para a amar a parte que a natureza te atribui; pois ela a produziu para ti, e tu para ela; para a justiça, para dizer a verdade livremente e sem desvio e para agir segundo a lei e segundo o valor. (Meditações, XII) É necessário aprender a se libertar desses pesos. Ainda Marco Aurélio: Que a imagem de tua vida inteira não te perturbe jamais. Não sonhes com todas as coisas dolorosas que provavelmente te aconteceram, mas, a cada momento presente, pergunta: o que há de insuportável e de irreversível neste acontecimento? Lembra-te, então, de que não é nem o passado, nem o futuro, mas o presente que pesa sobre ti. (Meditações, XIII, 36) Nesse ensinamento está presente tanto o conselho de evitar a nostalgia, que pode paralisar, quanto a esperança, que pode angustiar. 2. Esperar um pouco menos, amar um pouco mais A esperança implica que algo falta, portanto incentiva que sintamos uma tensão insaciada. A sensação de falta de saciedade aponta para a infelicidade, dado FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 5 que felicidade é plenitude. O perigo da esperança, então, é a de adiar a felicidade de modo indefinido, seja em prol de um paraíso aqui ou além. É conhecida a fábula de La Fontaine (1621-1695) da Leiteira e o balde de leite. Uma moça, chamada Perrette, voltava do campo com um balde de leite cheio. Enquanto caminhava, imaginava o futuro e não só: ansiava por ele. Tudo o que produziria com o leite, as riquezas que a partir dele seriam produzidas. Ela poderia comprar ovos. Dos ovos, nasceriam pintinhos. Os pintinhos seriam vendidos para a compra de um vestido novo. Nesses pensamentos distraída, deixou o balde cair e perdeu todo o leite que derramou no chão. A lição estoica é a de que, por mais que o futuro seja ansiado, é o presente que importa. Sendo o presente que importa, também não adianta chorar pelo leite derramado. A vida boa é a vida sem esperanças, sem apegos e, assim, sem temores: a vida em reconciliação com a realidade tal qual ela é. Como diz Epicteto: É preciso conciliar nossa vontade com os acontecimentos de tal maneira que nenhum acontecimento ocorra contra nossa conveniência, e que também não haja nenhuma acontecimento que ocorra quando não o desejamos. A vantagem para aqueles que estão assim prevenidos é de não falhar em seus desejos, de não se deparar com o que detestam, de viver interiormente uma vida sem dificuldade, sem temor e sem perturbação [...] (Entretiens, II, Discurso II, XVI, 45-47) Embora tais considerações pareçam absurdas , tal doutrina pode ser interpretada também como uma tentativa de adequação da vontade humana aos desígnios do kósmos, da phýsis, do lógos. Pode ser que se trate de um reenquadramento do conceito de liberdade, que não significaria mais fazer aquilo que se quer, mas se identificar com aquilo que acontece. Tanto Espinosa quanto Nietzsche parecem ter pensado algo semelhante. Este, por exemplo, lança mão do conceito de amor fati, o amor ao real tal qual ele é. 3. Cultivar o não-apego Uma vez que a única dimensão da vida é o presente (passado é nostalgia; futuro é esperança) e que o presente não é garantia de nada possuir (dado que nada está assegurado), é sábio se habituar ao não-apego. Novamente Epicteto: O primeiro e principal exercício, o que conduz de imediato às portas do bem, consiste, quando uma coisa nos prende, em considerar que ela não é daquelas que não nos podem ser tiradas; que ela é como uma panela, ou uma taça de cristal, que quando se quebra não nos perturba porque lembramos o que ela é. O mesmo acontece aqui: se abraças um filho, um irmão ou um amigo, não te abandones sem reservas à imaginação... Lembra-te que amas um mortal, um ser que não é absolutamente tu mesmo. Ele te foi concedido para o momento, mas não para sempre, nem sem que te possa ser tomado... que mal existe em murmurar entre dentes, enquanto se abraça o filho: “Amanhã ele morrerá?” (Entretiens, III, 84 ss.) Tais conselhos podem parecer pregar a indiferença perante a vida e falta de compaixão. De fato, muitos o acusaram exatamente de defender essas duas ideias. Ainda assim, é possível interpretá-lo por outra via: a de que é preciso se preparar para a impermanência das coisas (conceito, inclusive, muito usado no budismo tibetano e que pode também ser encontrado na interpretação platônica de Heráclito no pantha rhei, tudo flui). Nada é estável, tudo muda, tudo passa. Não compreender essa verdade fundamental é submeter- se novamente às amarras da nostalgia e da esperança. É preciso amar o presente e nada desejar além dele, nem lamentar o que quer que tenha ficado no passado. 4. Preparar-se para a catástrofe O tempo passará. O corpo se tornará mais fraco. Teremos algumas decepções na vida. Seremos traídos. Cometerão injustiças conosco. Ficaremos doentes. Eventualmente, cairemos na ruína financeira. Morreremos. Os males da vida acontecerão. Por que não estar preparado quando os acontecimentos inevitáveis da vida vierem? Diz Epicteto: Que estejam diante dos teus olhos, a cada dia, a morte, o exílio e todas as coisas que se 6 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ afiguram terríveis, sobretudo a morte. Assim, jamais ponderarás coisas abjetas, nem aspirarás à coisa alguma excessivamente (Encheirídion, III, 21) Marco Aurélio também disse algo semelhante: “é preciso realizar cada ação da vida como se fosse a última” (Meditações, II, 5, 2). É preciso se despojar do apego ao passado, ao futuro e às posses do presente. Viver cada ação como se fosse a última implica ter a consciência de que o momento passará, não voltará e que, portanto, deve ser fruído enquanto dura. Há momentos de plenitude na vida, em que nos reconciliamos com o mundo. Você imagina o melhor exemplo que se lhe enquadra. Mergulhar no mar. Correr no campo. Trilhar pela floresta. Pular de paraquedas. Escutar a canção preferida. Quando há esses momentos de harmonia entre nós e o mundo, parece haver uma dilatação do presente, cuja serenidade nãoé rompida, nem pelo que passou, nem pelo que virá. Com a habilidade de permanecer no presente, seja ele qual for, quando o desastre acontecer, estaremos preparados. O ceticismo e o cinismo são também uma filosofia popular e missionária, de certo modo exagerado em suas tendências: o primeiro suspende o juízo sobre a realidade, duvidando de que seja possível algum conhecimento seguro e estável ou verdadeiro absolutamente; o segundo refere-se à total indiferença ao mundo e a si mesmo, promovendo um estado de tranquilidade interior e imperturbabilidade. Ambas dirigem-se a todas as classes da sociedade, instruindo com a própria vida, denunciando as convenções sociais e propondo um retorno à simplicidade da vida conforme a natureza. EPICURISMO Epicuro, o fundador do epicurismo, nasceu na ilha de Samos, em 340 a.C, mas era filho de pais atenienses. Segundo se conta, por volta de 35 anos de idade, fixa-se em Atenas, adquire um terreno cercado por jardins e estabelece sua Escola, então conhecida pela tradição como Jardim de Epicuro. Enquanto na casa habitavam os mestres (o fundador e seus discípulos), no amplo jardim, acampando em barracas e cultivando hortaliças, instalavam-se os novos discípulos vindos das mais distantes regiões. Mesmo após a morte de seu fundador, o epicurismo sobreviveu por cerca de 7 séculos no mundo greco- romano. Estabelece-se em Roma, em meados do século II a.C, tendo como principal continuador o filósofo romano Lucrécio, principalmente no poema "A natureza das coisas". Por volta do séc. III d.C, Diógenes Laércio, um comentador da vida dos filósofos, registrava ainda haver epicuristas em sua época. Pierre Gassendi, já no séc. XVII, também se considerava discípulo de tal Escola. Consta que Epicuro escreveu muito (centenas de rolos de papiro). Contudo, chegaram até nós poucos materiais: três cartas dirigidas a amigos ou discípulos e duas coleções de máximas ou sentenças. As primeiras são destinadas a discípulos ilustres: Carta a Pítocles, Carta a Heródoto e Carta a Meneceu 1. O materialismo de Epicuro Entre os epicuristas, a filosofia é concebida como uma atividade urgente. O ser humano é infeliz porque não compreende adequadamente – e só aceita o que dizem – sobre a morte, os deuses e o sofrimento. A filosofia seria o medicamento que se deve tomar o mais rápido possível. As primeiras linhas da Carta a Meneceu assim começam: Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de se dedicar à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. A mensagem é que a filosofia conduz à verdadeira natureza das coisas e, uma vez de posse dessa compreensão, o homem teria plenas condições de trilhar o caminho rumo à felicidade. O conhecimento da verdadeira natureza das coisas conduz à física. E uma exposição breve sobre as concepções epicuristas sobre essa questão encontra-se na Carta a Heródoto. Os epicuristas adotaram a física dos atomistas, herdeiros de Demócrito. Assim como os pré- socráticos, Epicuro estabe- lece como princípios da realidade as partículas indivisíveis, os átomos, e FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 7 o vazio – trata-se, por assim dizer, de uma concepção materialista de mundo. Como tudo é composto das mesmas substâncias essenciais, não há diferenças entre o ser humano e a natureza. Analogamente aos atomistas, os epicuristas sustentam que a alma é material. Diz Epicuro sobre o assunto: Aqueles que afirmam que a alma é incorpórea falam para não dizer nada, pois, se o fosse, seria incapaz de padecer ou de atuar sobre qualquer outra coisa. (Carta a Heródoto, 67) Sobre a mesma questão, Lucrécio completa: A alma está contida na totalidade do corpo; ela é seu guardião, pois assegura sua salvação; raízes comuns os unem mutuamente, e não pode separá-los sem destruí-los. (Da natureza das coisas, III.323) Dada a materialidade da alma, é preciso entender a phýsis para, a partir dela, entender como viver bem. No entanto, ainda que entenda que tudo seja formado de átomos e vazio, na sua descrição materialista da realidade pressupõe a vontade humana e a liberdade individual, incluindo em seu sistema a sociedade e a consciência moral. [...] Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível; o acaso, instável; enquanto nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor? Mais vale aceitar o mito dos deuses do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses por meio das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável (Carta a Meneceu) 2. A carta a Meneceu (sobre a felicidade) Esta crítica, de certo modo, explica por que a carta abre da maneira que expomos na seção anterior: Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer. Mas pior ainda é aquele que diz: bom seria não ter nascido, mas, uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas do Hades. Se ele diz isso com plena convicção, por que não se vai desta vida? Pois é livre para fazê- lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi um frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem (Carta a Meneceu) Para Epicuro, não há idade para dedicar-se à filosofia, porque filosofar para ele implica buscar a vida boa – prática que deve se estender por toda a vida –, e a vida boa é aquela dedicada ao prazer (hedoné). Porém, pouco se entende o que prazer significa para o filósofo. A melhor maneira de entender prazer para Epicuro é concebê-lo duplamente como saúde do corpo (aponia) e tranquilidade do espírito (ataraxia), indissociavelmente. Em outras palavras menos precisas: ausência de dor e ausência de ansiedade. Quando, então, dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é a ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. (Carta a Meneceu) Nesse sentido, prazer não é algo que deva ser buscado indiscriminadamente. Proceder assim, inclusive, conduz à dor – o corpo adoece depois de uma ressaca, o espírito se sente vazio depois de uma festa quando todos os supostos amigos se vão. A dor, por sua vez, nem sempre deve ser evitada, já que pode resultar em prazer – exercitar-se pode causar desconforto, mas conduz à saúde do corpo; falar sobre assuntos que causam sofrimento no momento pode fazer com que os compreendamos e alcancemos a tranquilidade do espírito. No epicurismo, o prazer é necessariamente comedido e é buscado na medida exata da satisfação – princípio da qualidade sobre a quantidade. O hedonismo epicurista não defende que se beba e se coma indiscriminadamente. Não defende que 8 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ se busque a glória a todo custo. Não defende que as riquezas materiais sejam perseguidas. Todas elas, consideradas em si mesmas, causam prazer, mas prazer efêmero que, por definição, fenece e acarreta a sensação de incompletude e de ansiedade. Dada a sua visão materialista de mundo, o filósofo concede que a vida humana implica sentir prazeres e que, em decorrência dessa premissa, “praticamos toda escolha e toda recusa [...] de acordo com a distinção entre prazer e dor”, porém “nem por isso escolhemos qualquer prazer”, ressaltaEpicuro. Há, em suma, uma hierarquia dos prazeres, que pode ser colocada na seguinte tabela: Os desejos naturais e necessários são aqueles que livram o corpo da dor. Os desejos naturais e não necessários são aqueles que surgem da vontade de refinar os prazeres do corpo. Os desejos não naturais e não necessários são os que nascem de uma opinião falsa sobre o mundo – inveja, raiva, exasperação etc. Os desejos não naturais e necessários, por definição, não existem, dado que não sendo natural, não há como ser necessário. Saber hierarquizar os prazeres significa não perder de vista qual a sua função na construção da vida boa. Para Epicuro: O conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade da vida feliz: em razão desse fim, praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo (Carta a Meneceu) Com base na concepção materialista de mundo, na aceitação da sensação de prazer como guia para a vida humana e no entendimento de que os prazeres devem ser hierarquizados, a tradição epicurista romana legou uma espécie de fórmula medicamentosa para lidar com os principais causadores do desprazer – isto é, da negação da saúde do corpo (aponia) e da tranquilidade do espírito (ataraxia): o tetraphármakon. Trata-se do modo como Diógenes Laércio, em sua obra "Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres", sumariza os ensinamentos de Epicuro. Trata-se de uma metáfora de uma receita conhecida de quatro drogas (tetraphármakon) da Roma Antiga, utilizadas para se referir aos remédios que curam a alma. São eles os seguintes: 1. Não tema os deuses; 2. Não se preocupe com a morte; 3. O bem é fácil de obter; 4. O mal é fácil de suportar. Conclusão Estoicismo e Epicurismo são duas escolas filosóficas helenistas que mais se assemelhando que se distanciam. Ambas adotam como prevalência de suas preocupações a ética, por mais que proponham que ela derive de uma física, isto é, de uma concepção de kósmos e de phýsis dos quais o homem faria parte e com que deveria buscar se harmonizar. Ambas almejam fazer com que o homem alcance a eudaimonia (felicidade). Entretanto, não mais como Aristóteles propunha, no contexto da pólis. Esse universo, primeiro, desfeito pelo Império Macedônico e, posteriormente, pelo Império Romano, faz com que as preocupações sejam muito mais locais e, em alguns casos, individuais e não mais coletivas. Introdução O Cinismo e o Ceticismo compartilham com todas as escolas do helenismo – o Epicurismo e o Estoicismo – a preocupação com a prática da vida, a preocupação com a ética. E desta forma que comumente se entende a postura filosófica tanto de Diógenes de Sínope quanto de Pirro de Élis, os dois principais filósofos que estudaremos: ambos querem atingir a imperturbabilidade do espírito (ataraxia) e, consequentemente, alcançar a felicidade (eudaimonia). CINISMO O termo cínico deriva da palavra grega kynós, que quer dizer cachorro. Literalmente, então, cínico é aquele que vive como um desses animais de rua. Ao contrário do significado de hoje, que quer dizer alguém debochado, fingido, a palavra na origem significa alguém desprendido em relação a convenções sociais, a ponto de ser a elas afrontoso, como os cães em diversos momentos. E a comparação com os cães não é à toa, porque o cinismo é antes de tudo uma ação, em detrimento de uma teoria. Nada há de registro próprio dos cínicos, a não ser casos FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 9 e histórias que deles nos restam. A inspiração maior é Sócrates, de modo que se pode dizer que o movimento é neto desse filósofo. A história é mais ou menos a seguinte: Antístenes, um dos seguidores de Sócrates, depois da morte de seu mestre, resolveu fundar sua própria escola. Ao contrário de Platão, que comprara a Academia, e de Aristóteles, que alugara o Liceu, conta- se que Antístenes não tinha dinheiro. Por isso, ocupou um ginásio abandonado, cujo nome era Cinosargo. “Cinos” vem de kynós, cão, como já vimos, e “argo” vem de argós, que pode significar tanto branco, quanto veloz. Então, o ginásio, não se sabe por quê, chamava-se “cão veloz” ou “cão branco”. Os seus adeptos eram chamados de “aqueles do Cinosargo”, ou simplesmente de “cachorros”. Nesse contexto, o nome do movimento deriva de uma condição fortuita, externa. Certa vez, Diógenes teria dito “já que nos tratam como cães, agiremos como tais” – então, passou a ressignificar o nome do lugar e assumi-lo como modo de vida. Quem fundou o movimento, tal qual o conhecemos, foi Diógenes, não Antístenes, seu mestre. Diógenes era um estrangeiro em Atenas. Nasceu em Sínope, colônia portuária grega no Mar Negro, hoje costa norte da Turquia. Consta que seu pai era um falsificador de moedas e que migrou para Atenas, devido a complicações por conta dessa prática paterna. A maior parte do que se sabe da vida de Diógenes não vem de escritos seus, até porque, como vimos, sua preferência era a ação e não a teoria. Além disso, diz-se que escreveu, mas nada nos restou de seus escritos, mas apenas histórias, relatos, anedotas etc. Então, inevitavelmente, é preciso escutar as histórias sobre sua vida que contam terceiros e, a partir delas, por indução, tentar encontrar uma teoria que a fundamente. Pode-se perguntar: a ausência de tratados e de doutrinas mais organizadas, como se verifica nos filósofos anteriores, desqualifica o cinismo enquanto filosofia propriamente dita? Há dois argumentos para considerar o cinismo como Filosofia, a despeito de carecer dessas importantes características. Primeiro: Os cínicos fazem jus ao propósito da Filosofia desde as suas origens, ou seja, a se constituir como um modo de vida não comum, um modo de vida que corresponda a uma vida verdadeiramente bem vivida e não aleatória. Fazer Filosofia nunca foi uma questão de pensar por pensar – mesmo em Platão e Aristóteles –, mas de pensar em vistas a viver a vida boa, a vida digna, a vida elevada. Os cínicos parecem ser fiéis a esse propósito. Segundo: As provocações cínicas não eram gratuitas, feitas apenas para perturbar as pessoas. A provocação, em Filosofia, exerce um efeito didático: o de despertar a consciência do interlocutor para trazê-lo à conversa. O metafórico latido e a metafórica mordida do cínico têm o propósito de despertar análises de consciência. A principal delas é esta: “Terei eu me deixado manipular por valores impostos ou acredito nos valores que adoto realmente?”. 2. Convenções sociais e anádeia Diógenes cultivava a sua própria liberdade acima de tudo. Nesse sentido, recusava todas as obrigações externas. Por isso, desprezava as pessoas que, por depender excessivamente de seus bens, findavam por ser escravas deles e das convenções que demandavam. Por isso, a identificação com os cães era tão viva. O cachorro era considerado um ser animado que não se preocupa com o que dizem dele. Fazem suas necessidades naturais onde e quando querem – bebem, comem, defecam, urinam, fazem sexo na frente de todos e sem se importar com ninguém. Também, não hesitam em externalizar seus incômodos: latem e mordem quando se sentem ameaçados. Aos cães falta a pudicícia, que é a qualidade do que é pudico, casto, recatado. Precisamente, a falta de pudor (anádeia) era um dos valores principais dos cínicos para se contrapor ao que consideravam como falsa moral de seu tempo. 3. Em busca da autárkeia Diógenes desprezava tudo o que considerava supérfluo. Vivia em um grande jarro (barris não havia na época), vestindo somente um tríbon, ao mesmo tempo vestimenta e manto para dormir. 4. Exercícios de apátheia Diógenes era conhecido também por pregar a apatia, que quer dizer a negação das reações afetivas, emocionais, perante as situações da vida. Esses eram os três pilares da prática filosófica de 10 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ Diógenes. Vale repetir: anádeia, autarquia e apatia. Em uma palavra, os historiadores da filosofiachamam isso de áskesis, que deu origem à palavra ascese, sobre a qual iremos falar ao abordar amplamente quando falarmos sobre Nietzsche e Schopenhauer. Em Diógenes, áskesis é uma prática ativa, um exercício cotidiano para por em prática tanto a força física, quanto a força moral. Consistia em negar os falsos valores, os bens materiais e elevar-se rumo a uma vida, por assim dizer, mais autêntica. No fim, o objetivo de Diógenes era despertar a consciência das pessoas, ainda que de maneira truculenta, latindo como um cão. Ele queria chamar atenção aos falsos valores, às necessidades impostas que a maioria tende a adotar sem refletir. CETICISMO A palavra “Ceticismo” deriva do termo sképsis, que quer dizer investigação, indagação. Essa raiz etimológica esconde toda a semântica atribuída a esse movimento. Não há uma concepção única de Ceticismo. Os céticos devem sua tradição a vários nomes e muitas vezes se diz que se trata de uma tradição reconstituída de várias influências e não de uma filosofia pura fundada por um grande pensador apenas. Costuma-se dividir essa corrente em quatro grandes blocos: 1) Protoceticismo, 2) Ceticismo inaugurado por Pirro de Élis, 3) Ceticismo acadêmico e 4) Ceticismo reconstituído ou ceticismo pirrônico. O Protoceticismo é a fase inicial. Trata-se não de filósofos céticos, mas de tendências, abordagens e propostas próximas a que os céticos posteriores vieram a adotar. Por exemplo, i) a desconfiança em relação aos dados sensoriais (tese encontrada em Heráclito, Parmênides e Demócrito, por exemplo), ii) a impossibilidade de se constituir conhecimento propriamente dito em face da mutabilidade da natureza (tese de Platão), iii) a relatividade da percepção humana que acarreta a relatividade do conhecimento (tese de Protágoras). Todas essas noções aparecerão posteriormente na fase do Ceticismo reconstituído. O Ceticismo é a fase inaugurada pelo nome que mais se assemelha ao grande pensador, tal qual tiveram as outras escolas – Diógenes, Zenão, Epicuro. O pensamento cético deve tributo originário a Pirro de Élis (360-270 a.C). Seu ensinamento, porém, dado que nada escreveu, foi transmitido por seu discípulo Tímon de Flios (325-235 a.C). Pirro, tal qual Sócrates, nada deixou escrito, porque teria considerado a Filosofia não uma doutrina sistemática sobre a realidade, mas principalmente uma prática a ser vivida – nesse sentido, muito similar ao próprio Diógenes. O Ceticismo acadêmico é a fase comandada pelos filósofos da Academia de Platão, após a morte de seu fundador. Os principais nomes são Arcesilau (316- 241 a.C), Carnéades (219-129 a.C) e Clitômaco (175- 110 a.C). Essa doutrina é conhecida, sobretudo, a partir do diálogo Academica (priora et posteriora), de Cícero (106-43 a.C), já no Império Romano. O Ceticismo reconstituído ou Ceticismo Pirrônico é iniciado por Enesidemo de Cnossos (I a.C). Esse pensador tentou restaurar o ceticismo de Pirro (daí o adjetivo pirrônico). O pensamento dessa fase foi basicamente transmitido por Sexto Empírico (II a.C), principal fonte até hoje dos princípios céticos. Eis uma citação famosa desse último pensador: O resultado natural de qualquer investigação é que aquele que investiga, ou bem encontra o objeto de sua busca, ou bem nega que seja encontrável e confessa ser ele inapreensível, ou, ainda, persiste na sua busca. O mesmo ocorre com os objetos investigados pela filosofia, e é provavelmente por isso que alguns afirmaram ter descoberto a verdade; outros, que a verdade não pode ser apreendida; enquanto outros continuam buscando. Aqueles que afirmam ter descoberto a verdade são os “dogmáticos”; assim são chamados especialmente Aristóteles, por exemplo, Epicuro, os estoicos e alguns outros. Clitômaco, Carnéades e outros acadêmicos consideram a verdade inapreensível, e os céticos continuam buscando. Portanto, parece razoável sustentar que há três tipos de filosofia: a dogmática, a acadêmica e a cética (Sexto Empírico, Hipotiposes pirrônicas I.1). Segundo a interpretação de Sexto Empírico, poderíamos criar a seguinte tabela classificatória quanto às possibilidades de fazer Filosofia: Sexto Empírico claramente empreendeu um esforço de separar um “verdadeiro ceticismo” do que faziam os acadêmicos. De certo modo, essa distinção é feita ainda hoje pelos historiadores. Divide-se o ceticismo em acadêmico e pirrônico. FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 11 A prática cética Assim como Diógenes, também há narrativas sobre a vida de Pirro que servem de lição de moral. Segundo a tradição, Pirro e seu mestre, Anaxarco de Abdera, teriam acompanhado o exército de Alexandre até a Índia. Nesse período, teriam entrado em contato com os gimnosofistas (os “sábios nus”). Esta seria uma possível origem das noções céticas de ausência de sensação (apathia) e inação (apraxia), meios de alcançar a ataraxia. Alguns causos também chegaram do comportamento de Pirro – e como todo causo, não há compromisso com a coerência em uma narrativa única, de modo que ora servem para ilustrar lições de moral, ora para ridicularizar o personagem principal. Um deles diz que Pirro precisava ser acompanhado por seus discípulos a todo momento. Isso seria necessário, porque sua atitude de duvidar das sensações seria extrema a tal ponto de, em decorrência da dúvida, expor-se aos mais diversos perigos. Poderia facilmente ser atropelado por duvidar que realmente uma carroça viria em sua direção. Igualmente, poderia cair num precipício por duvidar que estava diante de um abismo. Outro deles, porém, sustenta que Pirro teria vivido como cidadão exemplar. Seu respeito teria sido consolidado a tal ponto que teria ganhado o título de sacerdote de sua cidade. Nesse sentido, a vida cética não seria necessariamente algo afastado das urgências cotidianas, mas apenas uma postura de cautela para alcançar a ataraxia. Conclusão Assim como estoicos e epicuristas, cínicos e céticos, almejam fazer com que o homem alcance a eudaimonia (felicidade), por meio da ataraxia (imperturbabilidade do espírito). Diógenes enfatiza a importância da autárkeia (autossuficiência), e Pirro, da epoché (suspensão do juízo). REFERÊNCIA CORDERO, Néstor Luis. A invenção da Filosofia: uma introdução à Filosofia Antiga. Tradução: Eduardo Wolf. São Paulo: Odysseus Editora, 2011. EPICURO. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). Tradução e apresentação de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore. São Paulo: Editora UNESP, 2002. FERRY, Luc. Aprender a viver. Tradução de Vera Lucia dos reis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos pré- socráticos a Wittgenstein. 2ª ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: Zahar, 2017. REALE, Giovanni. Estoicismo, ceticismo e ecletismo (História da Filosofia Grega e Romana, v. 6). Tradução de Marcelo Perine. 2ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2015) Prof. Vitor Ferreira Lima – UFRJ.