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insultos pessoais, intimidações, mentiras e fraudes pelo presidente ajudou, inevitavelmente, a normalizar práticas desse tipo. Os tuítes de Trump podem gerar indignação na mídia, entre os democratas e alguns republicanos, mas a efetividade da resposta a eles é limitada pela quantidade abrupta de violações. Como observou Moynihan, diante de violações disseminadas, nós somos sobrepujados – e depois dessensibilizados. Ficamos cada vez mais acostumados àquilo que antes achávamos escandaloso. Além disso, os desvios comportamentais de Trump têm sido tolerados pelo Partido Republicano, o que tem ajudado a torná-los aceitáveis para grande parte do eleitorado republicano. Com certeza, muitos republicanos condenaram os comportamentos mais ofensivos de Trump. Porém, essas declarações pontuais não são muito punitivas. Todos os senadores republicanos, exceto um, votaram com o presidente pelo menos 85% das vezes durante os seus primeiros sete meses de mandato.109 Mesmo os senadores Ben Sasse, de Nebraska, e Jeff Flake, do Arizona, que condenavam com veemência as violações do presidente, votaram com ele 94% das vezes.110 Não existe nenhuma estratégia de “contenção” para um fluxo incessante de tuítes ofensivos. Sem querer pagar o peço político de romper com o seu próprio presidente, os republicanos se veem com poucas alternativas, exceto redefinir constantemente o que é e o que não é tolerável. Isto vai ter consequências terríveis para a democracia norte- americana. O ataque de Trump a normas básicas expandiu as fronteiras do comportamento político aceitável. Nós podemos já estar assistindo a algumas das consequências. Em maio de 2017, Greg Gianforte, o candidato republicano numa eleição especial para o Congresso, agrediu e jogou no chão um repórter do Guardian que estava lhe fazendo perguntas sobre reforma da assistência de saúde.111 Gianforte foi processado por agressão – mas ganhou a disputa eleitoral. De maneira mais genérica, uma pesquisa de opinião da YouGov realizada para a Economist em meados de 2017 revelou um nível surpreendente de intolerância contra a mídia, sobretudo entre republicanos. Quando perguntados se concordavam em permitir que tribunais fechassem órgãos de mídia por publicarem informação “tendenciosa ou imprecisa”, 45% dos republicanos pesquisados responderam ser favoráveis, ao passo que somente 20% foram contrários. Mais de 50% dos republicanos apoiam a ideia de impor multas por matérias tendenciosas ou imprecisas.112 Em outras palavras, uma maioria dos eleitores republicanos disse que apoia o tipo de repressão à mídia que vimos nos últimos anos no Equador, na Turquia e na Venezuela. DOIS VÍDEOS DE recrutamento da Associação Nacional de Rifles (NRA) foram divulgados no verão de 2017. No primeiro, a porta-voz da NRA, Dana Loesch, fala sobre os democratas e o uso da força: Eles usam as escolas deles para ensinar as crianças que seu presidente é um outro Hitler. Eles usam suas estrelas de cinema e cantores, seus shows de comediantes e de premiação para repetir sua narrativa sem parar. E depois eles usam o seu ex-presidente para endossar a “resistência”. Tudo para fazê-los marchar em passeatas, para fazê-los protestar, para fazê-los gritar racismo, sexismo, xenofobia e homofobia. Para quebrar vitrines, incendiar carros, fechar estradas interestaduais e aeroportos, intimidar e aterrorizar os que obedecem à lei, até que a única opção restante seja a polícia fazer seu trabalho e pôr fim à loucura. E quando isso acontece, eles usam como desculpa para a sua indignação. A única maneira de acabar com isso, a única maneira de salvarmos nosso país e nossa liberdade é lutarmos contra a violência da mentira com os punhos cerrados da verdade.113 No segundo vídeo, Loesch faz uma advertência não muito sutil de violência contra o New York Times: Para nós chega dessa sua afirmação … pretensiosa de que vocês são jornalismo de algum modo verdadeiro ou baseado em fatos. Considerem isso um alerta … Em resumo, nós vamos atrás de vocês.114 A NRA não é uma organização pequena, periférica. Ela reivindica ter 5 milhões de membros e é intimamente vinculada ao Partido Republicano – Donald Trump e Sarah Palin são filiados de vida inteira. Contudo, ela hoje usa palavras que, no passado, em termos políticos, nós teríamos considerado perigosamente desviantes. As normas são as grades flexíveis de proteção da democracia; quando elas param de funcionar, a zona de comportamentos políticos aceitáveis se expande, dando origem a discursos e ações que podem pôr a democracia em perigo. Comportamentos que outrora foram considerados impensáveis na política norte-americana estão se tornando pensáveis. Mesmo que Donald Trump não ponha abaixo as grades de proteção da nossa democracia constitucional, ele aumentou a probabilidade de que um futuro presidente o faça.