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Fundamentos da prática e tecnica psicanalitica

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Fundamentos da prática e
técnica psicanalítica
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PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL, SEM AUTORIZAÇÃO.
Lei nº 9610/98 – Lei de Direitos Autorais
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O princípio da Psicanálise
O marco inicial da Psicanálise data de 1900 com a publicação do livro A interpretação dos
sonhos, de Sigmund Freud, sendo, até os dias atuais, um dos principais estudos sobre a
constituição do psiquismo humano e suas bases de investigação, afirmando que os sonhos
são fenômenos que proporcionam ao indivíduo a possibilidade de vislumbrar nuances do
inconsciente.
Sobre isso, Freud (1996, p. 183) afirma que “os sonhos em geral são interpretáveis e que,
uma vez completada a interpretação, eles podem ser substituídos por pensamentos
formados impecavelmente, inseríveis em um lugar conhecido dentro do contexto
psíquico”, ou seja, a análise desses sonhos não é, de fato, mera especulação.
É por meio dos sonhos então que é possível achar, em muitos casos, a raiz dos sintomas,
sendo que estes são vistos em todo o desenvolvimento dos estudos freudianos, como uma
espécie de hieróglifo, uma mensagem a ser traduzida, interpretada e elaborada no
momento da análise. Desta maneira, o ciframento da mensagem que é concretizada pelo
sintoma se pauta fundamentalmente nas leis de funcionamento do inconsciente.
Existem ainda basicamente dois processos que atuam nos sonhos, conhecidos como
condensação e o deslocamento desenvolvidos no inconsciente, sendo completamente
distintos dos processos desenvolvidos nos sistemas (pré) conscientes e por isso
denominados processo psíquico primário.
De acordo com Laplanche e Pontalis (1991, p. 88), o inconsciente é definido através de
uma energia livre que predomina principalmente no processo primário, favorecendo o
deslocamento de uma manifestação inconsciente para outra, iludindo o processo de
censura que poderia limitar tais pensamentos ou sonhos.
No caso Pequeno Hans, Freud afirma que não foi ele quem observou diretamente e
tampouco tratou, salvo um único contato, a criança, sendo o pai o principal responsável
pelo tratamento do filho por meio de suas orientações. Em um relato bastante completo
sobre a vida do garoto, que começa por volta dos três anos e de sua descoberta do corpo
e órgão sexual, é possível ver que por volta dos cinco anos desenvolveu fobia por cavalos.
Seu medo era extremo, tinha medo de ser mordido e por isso não queria nem mesmo sair
às ruas. Os estudos freudianos, entretanto, traçam logo uma relação entre a fobia e a
descoberta genital associada ao pênis e ao medo de castração, visto que o garotinho era
desencorajado e não tocar o próprio órgão.
Em suas observações feitas por meio dos relatos do pai de Hans, a figura do cavalo já
observada outrora era analisada em sua completude, inclusive pelo tamanho do falo. Isso
acontecia na verdade por uma transferência do medo que sentia do pai – e
consequentemente de seu falo grande – por gostar muito da mãe, ou seja, a fobia dos
cavalos representava um medo do pai pela possibilidade do que ele poderia fazer com a
mãe.
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Figura 1 - Freud e Hans
Fonte: EmCena.com
Tal fato pode ser explicado a partir da noção de complexo de Édipo, que conforme
explicam Bock; Furtado e Teixeira (2002), é quando os meninos passam a ver na mãe o
objeto do desejo e o pai se torna um rival direto, que impede o acesso a ele. Laplanche e
Pontalis (1991) observam ainda o complexo de Édipo está diretamente relacionado ao
complexo da castração, principalmente com as ações normativas e de interdição, ou seja,
no caso de Hans essas ações podem ser observadas na proibição de tocar o próprio órgão
genital.
Freud (1996) observa que esse complexo se desenvolve simultaneamente a fase fálica,
mas tende a ser resolvido à medida que a organização genital se torna definitiva quando
começa o período de latência.
Diante disso, existem mecanismos de defesa que são processos psíquicos que visam
afastar um evento gerador de angústia da percepção consciente, ou seja, são mecanismos
psicológicos que protegem os indivíduos das frustrações e os preparam para viver em
meio a limitações, chamadas de restrições de ordem moral e outras de ordem econômica
(BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2002).
Desta maneira, o ego exclui da consciência fatos e elementos desagradáveis, atuando
para a proteção do aparelho psíquico e dentre esses mecanismos, pode-se destacar o
recalque ou negação, a regressão, a projeção, entre outros.
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O mecanismo de recalque faz com que o indivíduo não se aperceba dos fatos ocorridos, ou
seja, essa parte da realidade é omitida e compromete o significado e apreensão da
realidade total. Já o mecanismo da projeção se configura como uma distorção entre o
mundo interno e externo, então o sujeito projeta algo que está dentro de si para o mundo
exterior, sobretudo algo que não gosta nos outros, não percebendo o fato de modo geral.
Diante dessa compreensão é possível utilizar a psicoterapia de orientação psicanalítica
para compreender e dar significado aos conflitos do inconsciente, de modo a entender os
sonhos, atos falhos e das livres associações para isso, ajudando o indivíduo a ter acesso a
esses conflitos e também a origem deles.
As cinco lições da psicanálise: fundamentos da
prática e técnica psicanalítica
A prática e técnica psicanalítica têm como base os fundamentos teóricos organizados por
Sigmund Freud no final do século XIX e início do século XX. Esses fundamentos visam
compreender o funcionamento da mente humana, bem como as causas e possíveis
tratamentos para distúrbios psicológicos.
Freud estabeleceu em seus estudos que a principal premissa da prática psicanalítica é a
noção do inconsciente, que é entendida como uma parte da mente que contém
pensamentos, memórias e desejos que estão fora da consciência do indivíduo. De acordo
com a psicanálise, o inconsciente influencia a nossa vida diária de maneiras que muitas
vezes não suportou. Por exemplo, podemos ter reações emocionais intensas a
determinadas situações ou pessoas sem entender o motivo, o que pode estar relacionado
a conteúdos inconscientes.
Outra premissa da técnica psicanalítica é a importância da relação terapêutica, ou seja,
esse laço entre o terapeuta e o paciente, que é vista como uma ferramenta essencial para
o processo terapêutico, pois é através dela que o paciente pode explorar e compreender
seus conflitos e emoções de forma mais profunda. O terapeuta deve ter empatia e
compreensão, além de manter um ambiente seguro e acolhedor para que o paciente se
sinta à vontade para se expressar.
Nesse contexto, Freud apresentou suas observações sobre as cinco lições da
psicanálise, sendo que a primeira versa fundamentalmente sobre o conceito de
histeria e os desdobramentos do tratamento denominado “cura de
conversação” ou “limpeza de chaminé”, nome conferido por uma paciente.
A segunda lição apresenta o processo de tratamento proposto por Freud, que buscava
manter os pacientes em estado mental normal por meio da livre associação, se
colocando em contraponto direto a Charcot e sua metodologia de tratamento terapêutico.
Essa técnica consiste em permitir que o paciente fale livremente sobre seus pensamentos
e sentimentos, sem censura ou julgamento. Isso pode ajudar a acessar conteúdo do
inconsciente que podem estar causando desconforto ou sofrimento.
Na terceira lição, Freud faz suas observações sobre os chistes, a associação livre, os
atos falhos e os sonhos, sendo que estes processos, que deveriam ficar inconscientes
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ou ainda reprimidos, acabam provocando os sintomas e dando vasão aos sonhos como
uma forma de manifestação que pode ser observada no processo analítico.
A quarta lição proposta por Freud apresenta a sexualidade como a principal causadora
das neuroses, assumindo aqui a concepção da sexualidade infantil, que a princípio conflita
com a questão da moralidade e da repressão até que possa se ajustar ao longo da
puberdade. De acordo com o autor, o estudo da sexualidade infantil é importante porque
as teorias ajudam na determinação do caráter da criança e do conteúdo da neurose
futura.A quinta e última lição discorre sobre o processo de transferência, em que o “paciente”
destina aos indivíduos uma série de sentimentos afetuosos que podem ser inadequados
ou não, que geralmente são fruto de alguma fantasia inconsciente, fornecendo
informações importantes sobre os conflitos internos do paciente.
A percepção dessas lições levou o psicanalista a compreender que os indivíduos buscam
fundamentalmente o prazer, que é um dos princípios que regem o funcionamento
psíquico, sobretudo o id. Freud (2011, p. 44) afirma que “o Id, guiado pelo princípio do
prazer, isto é, pela percepção do desprazer, defende-se delas por vários meios”, ou seja,
esse princípio opera para que o indivíduo volte ao estado inicial, nomeado de das Ding,
que já não é mais alcançável.
A relação entre Freud, Melanie Klein e a técnica
psicanalítica
Sigmund Freud foi o fundador da psicanálise, a teoria psicológica que se concentra na
análise do inconsciente e na resolução de conflitos emocionais através da exploração dos
processos mentais inconscientes.
Já Melanie Klein, uma psicanalista britânica reconhecida como uma discípula de Freud,
expandiu a teoria psicanalítica desse estudioso com sua própria abordagem. Ela se
concentrou no mundo interno da criança e na relação mãe-bebê. A técnica psicanalítica de
Klein envolve a interpretação da fantasia inconsciente da criança, que é expressa através
do jogo simbólico e da brincadeira, ela também desenvolveu a técnica de análise de
transferência, que envolve a exploração dos sentimentos transferenciais da criança em
relação ao terapeuta.
A relação entre os estudiosos foi controversa, com diferenças significativas em suas
teorias e técnicas psicanalíticas. Enquanto Freud enfatizava a importância da análise da
mente adulta, Klein se concentrou na análise da mente infantil. Além disso, ele também
acreditava que os conflitos emocionais eram resolvidos através da compreensão
intelectual, enquanto a psicanalista partia da proposição que a cura ocorria através da
elaboração emocional.
Entretanto, apesar dessas diferenças, a abordagem de Klein teve uma grande influência
na psicanálise contemporânea e ajudou a desenvolver técnicas terapêuticas eficazes para
o tratamento de crianças e adultos.
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Sendo assim, a prática e técnica psicanalítica são fundamentais para a teoria e prática da
psicanálise. Desde a sua criação por Sigmund Freud, ela tem evoluído com a contribuição
de muitos psicanalistas notáveis, como Melanie Klein, que expandiram e desenvolveram a
teoria psicanalítica original.
Esta técnica envolve a análise do inconsciente e a resolução de conflitos emocionais
através da exploração dos processos mentais inconscientes, se mostrando eficaz no
tratamento de uma ampla gama de problemas emocionais e psicológicos, continuando a
ser uma das principais abordagens terapêuticas utilizadas hoje em dia. Embora a
psicanálise seja uma abordagem complexa e desafiadora, é uma técnica valiosa e
importante para entender e tratar problemas psicológicos e emocionais.
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Referências
BARBOSA, Mariana de Toledo. Freud e a criação da técnica psicanalítica. Ayvu: Revista de
Psicologia, [S.L.], v. 1, n. 1, p. 110-125, 19 dez. 2014.
BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi.
PSICOLOGIAS: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Editora Saraiva, 2001.
492 p.
FINK, Bruce. Fundamentos da técnica psicanalítica: uma abordagem lacaniana para
praticantes. São Paulo: Blucher, 2017. 504 p. Tradução de Carolina Luchetta e Beatriz
Aratangy Berger.
FREUD, Sigmund. Cinco Lições de Psicanálise, Leonardo da Vinci e Outros
Trabalhos (1910). São Paulo: Imago, 1996. 284 p.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, J. B. Fantasia originária, fantasias das origens, origens
da fantasia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991. 100 p.
LAZZARINI, Eliana Rigotto; CARVALHO, Maura Cristina de. Os Casos-Limite e os Limites da
Técnica Psicanalítica: subversão e cura nos fundamentos da psicanálise. Psicologia:
Teoria e Pesquisa, [S.L.], v. 36, n. 1, p. 1-11, dez. 2020.

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