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282 ciÊncias da naTureZa e suas Tecnologias Biologia II Anual – Volume 1 05. (UEFS/2016) Evidências astronômicas e geofísicas indicam que a Terra se formou há, aproximadamente, 4,6 bilhões de anos. A princípio não era adequada para a vida, devido ao calor e a exposição à radiação. Os astrônomos estimam que a Terra tenham se tornado habitável há cerca de 3,8 bilhões de anos. A vida parece ter surgido mais ou menos na mesma época, mas não sabemos como era essa vida primitiva. MAYR, Ernest. O que é evolução. São Paulo: Rocco, 2001, p. 5. Considerando-se essas informações e a peculiaridade da Terra como local onde a vida teve origem, indica que A) a atmosfera primitiva, rica em elementos, como o hidrogênio, oxigênio e carbono, viabilizou a origem de moléculas orgânicas simples. B) havia energia luminosa, prontamente assimilada pelos primeiros seres vivos, para a síntese de seu próprio alimento. C) sua atmosfera, altamente oxidante, potencializou várias combustões, gerando energia para os primeiros seres vivos. D) a formação da camada de ozônio, logo depois de sua origem, facilitou o surgimento da vida. E) a síntese de moléculas orgânicas possibilitou, de imediato, a origem da vida. 06. (Unicamp/2016) Na Antiguidade, alguns cientistas e pensadores famosos tinham um conceito curioso sobre a origem da vida e, em alguns casos, existiam até receitas para reproduzir esse processo. Os experimentos de Pasteur foram importantes para a mudança dos conceitos e hipóteses alternativas para o surgimento da vida. Evidências sobre a origem da vida sugerem que A) a composição química da atmosfera influenciou o surgimento da vida. B) os coacervados deram origem às moléculas orgânicas. C) a teoria da abiogênese foi provada pelos experimentos de Pasteur. D) o vitalismo é uma das bases da biogênese. 07. (FGV/2016) No século XIX, Louis Pasteur realizou experimentos utilizando frascos com e sem pescoços alongados (pescoços de cisne), com o objetivo de compreender a origem da contaminação por micro-organismos em meios de cultura, conforme ilustrado a seguir. Fervura Balão estéril após fervura Balão estéril após fervura Balão contaminado após alguns dias Balão contaminado após alguns dias da ruptura do pescoço (www.moleculartb.org. Adaptado) Balão ainda estéril após alguns dias de fervura Re pr od uç ão /F G V 2 01 6 www.moleculartb.org. Adaptado. Tais experimentos embasaram Pasteur a comprovar a teoria A) da abiogênese, observando que os micro-organismos são gerados constantemente em meios nutritivos adequados, desde que em contato direto com o ar. B) da geração espontânea, observando que os micro- -organismos se proliferam em meios nutritivos adequados, independentemente do contato direto com ar. C) da evolução biológica, observando que o ambiente adequado proporciona o surgimento de diversidade biológica, desde que em contato direto com o ar. D) celular, observando que todos os organismos são formados por algum tipo de organização celular, independentemente do contato direto com o ar. E) da biogênese, observando que todo organismo vivo provém de outro pré-existente, independentemente do contato direto com o ar. 08. (Unicamp/2014 – Modifi cada) Com a ausência de oxigênio e uma atmosfera com característica redutora, os primeiros seres vivos desenvolveram um metabolismo exclusivamente anaeróbio. A transição para o processo aeróbio aconteceu entre 2,7 bilhões e 1,6 bilhão de anos atrás com o surgimento das primeiras algas azuis, as cianobactérias, capazes de utilizar a água como doador de elétrons e liberar oxigênio na atmosfera terrestre. A) Cite um organismo que poderia ter existido há 3 bilhões de anos e uma possível fonte de energia para a manutenção do metabolismo desse organismo. B) Explique as diferenças entre os tipos de metabolismo energético das espécies atualmente existentes. 09. (Unicamp-simulado/2011) Considerando-se a composição da atmosfera primitiva, pode-se afi rmar que A) o CO 2 presente na atmosfera primitiva pode ter se originado da degradação aeróbica da glicose. B) a matéria precursora da vida só poderia ter se formado se houvesse enzimas para catalisar as reações entre os gases presentes na atmosfera primitiva. C) as substâncias orgânicas formadas a partir dos gases presentes na atmosfera primitiva deram origem a proteínas e ácidos nucleicos. D) os aminoácidos formados na Terra primitiva surgiram do aumento da interação de moléculas de ácido nucleico com proteínas. 10. (Unicamp/2005) “Ouvintes de rádio em pânico tomam drama de guerra como verdade”. Com esta manchete, o jornal New York Times de 1º. de novembro de 1938 relatou o que aconteceu nos Estados Unidos na noite anterior, quando foi narrada pela rádio CBS uma história fi ctícia sobre invasão por marcianos de uma pequena cidade do Estado de Nova Jersey. Marte sempre fascinou os cientistas porque, mesmo que lá não existam homenzinhos verdes, esse planeta parece apresentar, entre os do sistema solar, as condições mais propícias à vida. Recentemente foram enviadas sondas espaciais para procurar indícios de vida em Marte. A) Comparando com a origem da vida na Terra, indique que condições seriam fundamentais para o surgimento de vida em Marte. B) Supondo que uma sonda espacial tenha trazido de Marte dois organismos, um deles classifi cado como pertencente ao Reino Monera e o outro ao Reino Protista, explique como os cientistas puderam diferenciar esses dois organismos. 283 ciÊncias da naTureZa e suas TecnologiasBiologia II Anual – Volume 1 Dentre os vanguardistas adeptos da evolução dos seres vivos na modernidade encontra-se o cientista francês Georges- Louis de Buffon (1707-1788). Ele acreditava que as espécies não eram imutáveis, mas podiam sofrer alterações por um processo de degeneração. Ele sugeriu que, além das numerosas criaturas produzidas por criação especial no começo do mundo, haveria um número menor de espécies concebidas pela Natureza e produzidas pelo tempo. Com efeito, resumia Buffon, “... aperfeiçoamento e degeneração são a mesma coisa, pois ambos implicam alteração da constituição original”. Esse padrão de pensamento é nitidamente, para aqueles familiarizados com a fi losofi a clássica, infl uenciado pelo conceito platônico de que as formas manifestadas no mundo são simples cópias imperfeitas de uma ideal. De forma curiosa, o avô de Charles Darwin, Erasmus Darwin (1731-1802) duvidou da fi xidez das espécies. Médico, naturalista e escritor, muitas vezes discutia sobre temas como Botânica e Zoologia. Erasmus sugeriu, escreveu em suas anotações, que as espécies tinham ligações históricas entre si; que a competição desempenhava um papel no desenvolvimento de espécies diferentes; que os animais eram capazes de se modifi car em resposta a condições ambientais e que sua prole podia herdar essas mudanças. Ele declarava que “um urso polar, por exemplo, é um urso comum que se modifi cou por viver no Ártico, transmitindo essas modifi cações à prole”. Seu pensamento importa, principalmente, por causa da sua possível infl uência sobre o neto, apesar de ter morrido antes do nascimento de Charles Darwin. Evidências geológicas e paleontológicas Os geólogos foram os primeiros a colaborar com a teoria da evolução na idade moderna, mais que os próprios biólogos. Um dos mais infl uentes, James Hutton (1726-1797), propôs que a Terra havia sido moldada por processos vagarosos e graduais como o vento, as condições climáticas e a água corrente, os mesmos processos que podemos ver em ação no mundo de hoje. Essa teoria fi cou conhecida como “uniformismo” foi importante por duas razões. Em primeiro lugar, porque indicava imensos períodos de transformação gradual desse planeta, essa era uma ideia nova. Pela contagem de gerações sucessivas desde Adão (segundo o registro bíblico), teólogos cristãos tinham calculado em seis mil anos a idade máxima do mundo. Ninguém, até então,tinha pensado em termos de duração mais longa. Todavia, as evidências geológicas apontavam para outra direção. Seis mil anos não representam um tempo sufi ciente para que explicar as grandes alterações no planeta, inclusive a formação de novas espécies. Em segundo lugar, a teoria do uniformismo afi rmava que a mudança é o curso normal dos acontecimentos, em oposição ao conceito de um planeta estático, apenas abalado por eventos raros e pontuais. O interesse pelos fósseis ressurgiu na última parte do século XVIII. Em séculos anteriores os fósseis eram colecionados como curiosidades e geralmente considerados acidentes da natureza, pedras que, de algum modo, pareciam carapaças ou evidências de grandes catástrofes naturais. Alguns supunham que eram evidências do dilúvio de Noé. O explorador inglês William Smith (1769-1839) foi o primeiro a produzir um estudo sistemático dos fósseis. Sempre que seu trabalho o levava ao fundo de uma mina, ou às margens de canais, ou a viagens pelo interior, ele anotava cuidadosamente a ordem das diferentes camadas de rocha, os estratos, e coletava fósseis de cada camada. Tal qual o mundo de James Hutton, aquele visto e descrito por William Smith era, sem dúvida, muito antigo. Começava aí a revolução na Geologia. A ciência da Terra tornava-se um estudo de tempo e de mudança, ao invés de simples catalogação de tipos de rochas. Os fósseis revelavam que a história da Terra era inseparável da história dos organismos vivos. Aula 02: Teorias Evolutivas Considerações Iniciais Os seres vivos estão em constantes modificações. Inúmeros tipos de animais e plantas fl oresceram e desapareceram, deixando atrás de si o registro fóssil esparso de sua existência. Muitos também deixaram descendentes vivos que trazem alguma semelhança com eles. As alterações nos seres vivos são percebidas e mensuradas de diversas maneiras. Em uma curta escala de tempo evolutivo, percebemos mudanças nas frequências de diferentes características genéticas dentro das populações. As mudanças evolutivas nas frequências relativas das mariposas de coloração clara e de coloração escura foram observadas em um período equivalente à vida de um homem, nas áreas rurais poluídas da Inglaterra industrial. A formação de novas espécies e as mudanças dramáticas na aparência dos organismos, como pode ser observado durante a diversifi cação evolutiva das aves do Havaí, requer escalas de tempo mais longas, de cem mil a um milhão de anos. Grandes mudanças evolutivas e extinções em massa periódicas ocorrem em escalas de tempo ainda maiores, cobrindo dezenas de milhões de anos. Nosso planeta traz um registro particular de mudanças históricas irreversíveis, que chamamos de evolução dos organismos. Como cada característica da vida, da maneira que conhecemos hoje, é um produto do processo evolutivo. Os biólogos consideram a evolução dos organismos a base fundamental de todo o conhecimento biológico. Primeiras ideias sobre a evolução Os babilônios, antes mesmo do Velho Testamento, há quatro mil anos, difundiram a sua crença num Deus poderoso, criador dos seres e das coisas. No Egito, o faraó Amenófi s IV (Akenaton) tentou, mais de 1400 anos antes de Cristo, instaurar o monoteísmo na nação, sendo execrado após sua morte pela classe dominante naquele tempo, os sacerdotes politeístas de Amon. Na verdade, as diferentes concepções sobre a origem da vida suscitaram, às vezes, discussões e acabaram por criar uma grande variedade de ideias sobre criação, desde o princípio da civilização. Normalmente, essas fábulas envolviam disputas entre divindades ou manifestações da vontade divina. O livro de Gênesis eternizou essa ideia central, reunindo o conjunto de tradições que eram transmitidas oralmente no seio das comunidades proto-israelitas. No entanto, segundo se diz, desde a Antiguidade alguns fi lósofos gregos levantavam dúvidas quanto à verdade da criação baseada numa obra divina. Por exemplo, o fi lósofo grego Anaximandro, que viveu por volta de 500 a.C., acreditava que os humanos evoluíram a partir de seres aquáticos parecidos com peixes. Esses seres teriam abandonado a água para se adaptar à vida terrestre por encontrarem melhores condições neste ambiente. Em 400 a.C., outro grego, Empédocles, propunha que homens e animais não surgiram como indivíduos completos, mas como partes de um corpo que se juntaram ao acaso, formando criaturas estranhas e fantásticas. Algumas delas, incapazes de se reproduzir, foram extintas, enquanto outras prosperaram. Por se tratar de assunto muito delicado, as opiniões daqueles fi lósofos não tiveram largo alcance e fi caram restritas ao âmbito da Filosofi a. C-1 H-3 C-4 H-16Aula 02 284 ciÊncias da naTureZa e suas Tecnologias Biologia II Anual – Volume 1 Catastrofi smo A Geologia ainda imperava sobre a Biologia. Na Europa, no fi m do século XVIII, a ciência tinha um grande nome, Georges Cuvier (1769-1832), fundador da Paleontologia, ou seja, o estudo científi co do registro fóssil. Especialista em Anatomia e Zoologia, Cuvier aplicou seu conhecimento da constituição dos animais modernos ao estudo dos animais fósseis, tendo sido capaz de arquitetar brilhantes conclusões sobre a forma de um animal completo, a partir de alguns fragmentos de ossos. Consideramos hoje a Paleontologia e a Evolução tão intimamente ligadas uma à outra que causa estranheza que tenha sido Cuvier o mais ferrenho oponente das teorias evolucionistas. Ele reconhecia o fato de que muitas espécies viventes num passado, já não existiam mais. Para ser mais preciso, segundo estimativas recentes, mais de 99% das espécies surgidas ao longo da história da vida estão hoje extintas. No entanto, Cuvier explicava a extinção de espécies por uma sucessão de catástrofes. Depois de cada uma, tendo o dilúvio sido a mais recente, as espécies remanescentes povoavam o mundo. D om ín io P úb lic o Georges Cuvier – Catastrofi smo. Essa corrente de pensamento ficou conhecida como catastrofi smo, havendo basicamente duas escolas: os deluvianistas propunham que todos os grandes eventos destruidores de espécies tinham sido dilúvios e os vulcanistas acreditavam que o mundo fosse inundado periodicamente por lava vulcânica. De qualquer modo, para ambas as teorias, o registro fóssil nada era além de vestígios das espécies existentes num passado, tinham sido eliminadas pelas catástrofes da natureza. Tempo e natureza, acreditavam os catastrofi stas, eram fatores de destruição. O catastrofi smo de Cuvier e o uniformismo de Hutton eram, pois, ideias incompatíveis. Fixismo versus Evolucionismo Dois pensamentos dominaram a Europa a partir do século XVIII, a saber, o fi xismo e o evolucionismo. O fi xismo propunha que todas as espécies, após terem sido criadas por um ser divino (criacionismo), permaneceriam assim imutáveis (fi xas), por toda sua existência, sem que jamais ocorressem mudanças signifi cativas na sua descendência. Já o evolucionismo visa explicar as alterações sofridas pelas diversas espécies de seres vivos ao longo do tempo, em sua relação com o meio ambiente onde elas habitam. Entre os fi xistas, destacaram-se o próprio Cuvier e Lineu, que não admitiam o fenômeno da Evolução. Cuvier, conforme sabemos, era contrário às ideias evolucionistas, para ele, as espécies atuais já existiam desde a origem do mundo. Por sua vez, Lineu dizia que “as espécies são tantas quantas saíram das mãos do Criador”. Entretanto, no fi nal de sua vida, já era adepto da Evolução. Entre os evolucionistas ou transformistas encontraram seus pontos fortes em Geoffroy Saint-Hilaire (1772-1844), Jean-Baptiste de Monet (1744-1829, mais conhecido por seu título de Cavaleiro de Lamarck), e Charles Darwin (1809-1882). Saint-Hilaire travou extraordinária polêmica com Cuvier na Academia de Ciências de Paris, em 1830, procurando provar a realidade da Evolução. Porém, a oratória hábil de Cuvier e seus conhecimentos de Zoologia jogaram por terra a argumentaçãode Saint-Hilaire. Só mais tarde é que veio a tomar corpo e defi nir-se, na opinião geral, a aceitação das doutrinas evolucionistas de Lamarck e Darwin, que fi caram consumadamente conhecidas como Lamarquismo e Darwinismo. Lamarquismo A primeira teoria científi ca sobre evolução, organizada de maneira sistemática e coerente, foi produzida pelo francês Jean- Baptiste Antoine de Monet (1744-1829), que, por seu título de Cavaleiro de Lamarck, fi cou conhecido como Jean-Baptiste Lamarck. De forma ousada, propôs, no início do século XIX, que todas as espécies, inclusive a humana, descendiam de outras espécies. As ideias de Lamarck foram escritas em seu livro Philosophie Zoologique, publicado em 1809, teve como maior mérito o de despertar a atenção dos naturalistas da época para o fenômeno da evolução. D om ín io P úb lic o Jean-Baptiste Lamarck – o primeiro a elaborar uma teoria evolucionista. W el lc om e Li br ar y Lo nd on /W ik im ed ia F ou nd at io n Obra de Lamarck – Filosofi a zoológica - publicado em 1809. 285 ciÊncias da naTureZa e suas TecnologiasBiologia II Anual – Volume 1 Diferentemente da maioria dos zoólogos de sua época, Lamarck interessou-se de modo especial pelos protozoários e por outros invertebrados. O estudo dessas formas mais simples de vida o levou a pensar que os seres vivos estão, ao longo do tempo, em complexidade constantemente crescente. Assim, de cada forma anterior e mais simples, derivava uma posterior e mais complexa. Lamarck cria, na existência de um princípio criativo universal, uma aspiração inconsciente para ascender na “escala natural” (termo atribuído a Aristóteles), impulso esse que movia cada criatura na direção da maior complexidade. Para Lamarck, a evolução das espécies era vista como algo que sempre conduzia a um aumento de complexidade ou a um aperfeiçoamento das espécies. A teoria de Lamarck ou Lamarquismo pode ser fundamentada em dois princípios básicos: lei do uso e desuso e a lei de transmissão das características adquiridas. De acordo com a lei do uso e desuso, os órgãos estariam sujeitos a hipertrofi as e atrofi as em decorrência do seu uso excessivo ou do seu desuso. Seu exemplo mais conhecido era o das girafas atuais. De acordo com Lamarck, elas descenderiam de ancestrais de pescoço curto, os quais, por necessidade de alcançar a parte alta das plantas, esticavam-se, fazendo seus pescoços crescerem. Essa forma de pensar baseia-se no fi nalismo, ideia segundo a qual as modifi cações que ocorrem nos seres vivos surgem como resposta às suas necessidades e são orientadas para torná-los mais bem adaptados ao ambiente. Para o fi nalismo, muitos fenômenos naturais são explicados pela sua aparente tendência a atingir uma meta específi ca, ou seja, a natureza teria um anseio ou vontade própria de buscar a perfeição, fosse pela ação divina ou não. O fi nalismo tem relação com outra corrente de pensamento denominada de teleologia, que considera o mundo como um sistema de relações entre meios e fi ns. Já de acordo com a lei de transmissão de características adquiridas, as alterações estruturais dos órgãos, adquiridas durante a vida por infl uência do meio, seriam transmissíveis por hereditariedade. No exemplo anterior, o aumento no comprimento do pescoço da girafa era transmitido à prole, que nascia com pescoço mais longo. O processo continuava na descendência, até que o acúmulo de modifi cações produzisse, ao longo de muitas gerações, aquela que é uma característica marcante das girafas atuais, seu longo pescoço. Segundo Lamarck, a musculatura esquelética respondia de maneira bem marcante ao uso e ao desuso. Em razão do uso acentuado, como nas pessoas que carregavam objetos pesados, ela aumentava de tamanho (hipertrofi ava), enquanto no desuso, como nas pessoas que tinham alguma defi ciência nos membros locomotores, ela diminuía de tamanho (atrofiava). Contudo, Lamarck cometeu um erro ao generalizar esse fenômeno, pois, na verdade, isso somente se aplica para tecidos musculares estriados ao tecido nervoso, pois neurônios podem ter seus prolongamentos alongados por estímulo. Não procede em relação aos outros tecidos e órgãos, como dizia ele. Se assim fosse, os indivíduos que, por necessidade, forçam demais a visão (escritores, estudantes, costureiras, escultores) teriam, ao fi nal da vida, olhos hipertrofi ados e a visão progressivamente melhorada. Igualmente, os órgãos sexuais, pelo seu uso constante, deveriam desenvolver-se cada vez mais. Nitidamente, Lamarck cometeu um segundo equívoco quando admitiu que os “caracteres adquiridos” se transmitiam por hereditariedade aos descendentes. A constituição corporal dos pais, adquirida por malhação ou dietas especiais, não se transfere aos fi lhos, sendo fácil confi rmar isso ao analisarmos a estrutura física de recém-nascidos. Para provar a falsidade da afi rmação lamarquista, August Weissmann (1834-1914) acompanhou uma série de gerações de camundongos, cortando-lhes sistematicamente a cauda. Não observou, após tantas reproduções, nenhuma diminuição no comprimento ou no diâmetro da cauda dos novos animais que nasciam. O erro de Lamarck era perfeitamente compreensível, já que, naquela época não havia conhecimento sobre o processo de produção dos gametas, os quais não são afetados por alterações nas células somáticas. Colaboração de Lamarck para a evolução Mesmo, na Atualidade, sendo alvo de críticas, as ideias de Lamarck têm a sua grande contribuição para as ciências biológicas, pois elas combateram o fi xismo vigente na época, além de terem sido parte de uma primeira hipótese que explicou organizadamente o processo evolutivo. O maior mérito de Lamarck, portanto, foi seu pioneirismo ao perceber que o meio era capaz de causar alterações nos seres vivos e de serem transmitidas aos descendentes, ou seja, para Lamarck, o meio modifi ca os seres vivos. Intimamente ligado às suas ideias de modifi cações das espécies pelo meio, foi Lamarck o primeiro a falar sobre adaptação, mostrando que os seres vivos estão adaptados ao ambiente onde vivem. Darwinismo O naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) nasceu, curiosamente, no mesmo ano que Lamarck publicou seu livro Filosofi a zoológica. Sua teoria, o Darwinismo, foi apresentada no livro A Origem das Espécies, publicado em 1859, em Londres, sendo caracterizada por trazer as primeiras explicações mais coerentes para responder por que as espécies se transformaram no tempo. Entretanto, Darwin não conseguiu explicar como essas transformações se manifestaram e se fi zeram passar de pais a fi lhos, através de gerações. Era de esperar que fosse assim, visto que, por essa época, o monge Gregor Mendel ainda não tinha concluído seus estudos com ervilhas, elucidando os mecanismos da genética. D om ín io P úb lic o Charles Darwin – propôs a “teoria da seleção natural”. D om ín io P úb lic o Obra de Darwin – Origem das espécies – publicado em 1859. 286 ciÊncias da naTureZa e suas Tecnologias Biologia II Anual – Volume 1 Quem mais infl uenciou Darwin não foi seu avô, Erasmus Darwin, mas um geólogo doze anos mais velho, chamado de Charles Lyell (1797-1875). Os dois volumes de sua obra “Princípios de Geologia” foram lidos por Darwin. Lyell opunha-se ao catastrofi smo e produziu novas evidências em favor da doutrina contrária, a saber, o uniformismo de Hutton. Para o geólogo, o lento efeito, constante e acumulativo das forças naturais produzira, ao longo de extraordinários períodos de tempo, modifi cações contínuas no cenário da Terra. Extremamente lento, pois não podia ser percebido durante uma vida humana inteira, esse processo deveria estar em andamento a um tempo excepcionalmente longo. Contudo, Lyell não era biólogo, de modo que não analisou as implicações de sua teoria sobre os seres vivos do planeta. Por outro lado, para Darwin, a teoria de Lyell tinha relação direta com as criaturas do planeta, conduzindo-os a um processode evolução particular. A viagem de Darwin Entre dezembro de 1831 e outubro de 1836, Darwin realizou uma viagem ao redor do mundo a bordo do navio H. M. S. Beagle. Durante essa longa viagem a bordo do navio “Beagle” (na qual passou duas vezes pela costa do Brasil), Darwin fi cou impressionado com a constante mudança das variedades de organismos que encontrava. As aves e outros animais da costa ocidental, por exemplo, eram muito diferentes dos da costa oriental e mesmo ao longo da subida da costa ocidental, uma espécie dava lugar a outra. De máximo interesse para Darwin foram os animais e plantas que habitavam um pequeno grupo de áridas ilhas, as Galápagos (do espanhol galápago = jabuti), situadas a cerca de 800 km da costa do Equador. AMÉRICA DO NORTE AMÉRICA DO NORTE AMÉRICA DO SUL AMÉRICA DO SUL EUROPAEUROPA ÁFRICAÁFRICA OCEANIAOCEANIA OCEANO PACÍFICO OCEANO PACÍFICO OCEANO ATLÂNTICO OCEANO ATLÂNTICO OCEANO ÍNDICO OCEANO ÍNDICO InglaterraInglaterra Rota do Beagle Rota do Beagle Ilhas GalápagosIlhas Galápagos Santa CruzSanta Cruz San Cristobal San Cristobal 30 km30 km NN BaltraBaltra FernandinaFernandina IsabelaIsabela FloreanaFloreana Arquipélago de GalápagosArquipélago de Galápagos MarchenaMarchena SantiagoSantiago 2,470 km2,470 km NN Roteiro percorrido pelo navio Beagle que durou 5 anos. O nome do arquipélago é dado pelos seus habitantes mais impressionantes, jabutis que chegam a pesar mais de cem quilos. Cada ilha tem seu tipo particular de jabuti e os pescadores que frequentavam as ilhas e caçavam os quelônios eram capazes de dizer, pelo aspecto do animal, de qual ilha provinha um tipo qualquer. Havia também um grupo de pássaros tentilhões (família Fringillidae), treze espécies ao todo, que diferiam entre si pelo tamanho do corpo e, principalmente, pela espécie de alimento que buscavam. A semelhança entre espécies de tentilhões e a que vive no continente sul-americano levou Darwin a supor que indivíduos da população de tentilhões do continente teriam migrado, há muito tempo, para essas ilhas, chegando nestas, teriam diversifi cado seus bicos ao se adaptarem a diferentes tipos de alimentos (insetos, cactos e sementes). Comedores de cactos Comedores de insetos Ancestral comedor de sementes no solo Comedores de sementes Árvore fi logenética que relaciona 13 espécies de pássaros de Galápagos e uma da Ilha Cocos, próxima à Galápagos. As diferentes espécies assemelham-se quanto ao aspecto geral do corpo, mas diferem marcadamente quanto à forma do bico, que refl ete a adaptação de cada espécie a um determinado tipo de alimento (inseto, cactos ou sementes). (Elementos fora de proporção de tamanho entre si; cores-fantasia) (Baseado em Grant, P.R, 1991) AMABIS, José Mariano; MARTHO, Gilberto Rodrigues. Biologia das Populações. V. 3. São Paulo: Moderna, 2009; p. 216. As ideias de Darwin Na essência da teoria de Darwin está a seleção natural. Ela fornece uma explicação natural para as origens da adaptação, incluindo todos os atributos anatômicos, comportamentais e fi siológicos que aumentam a capacidade de um organismo de utilizar recursos ambientais para sobreviver e reproduzir-se. A teoria da seleção natural de Darwin foi desenvolvida a partir de cinco fatos e três inferências derivadas destas observações: • Fato 1 – As populações naturais possuem uma grande capacidade de proliferação. Todas as populações produzem grande número de gametas e um número potencialmente grande de descendentes a cada geração. O tamanho da população aumentaria exponencialmente em uma taxa enorme se todos os indivíduos produzidos a cada geração sobrevivessem e se reproduzissem. • Fato 2 – O tamanho das populações naturais, apesar da grande capacidade de crescimento, normalmente permanece em relativa constância ao longo do tempo. Nenhuma população natural mostra o crescimento exponencial contínuo que sua biologia reprodutiva poderia teoricamente manter. • Fato 3 – Recursos naturais são limitados. O crescimento exponencial de uma população natural necessitaria de recursos naturais ilimitados para fornecer alimento e hábitat para a população em crescimento, mas os recursos naturais são fi nitos. Inferência 1 – Os indivíduos de uma população estão em constante luta pela manutenção de suas próprias vidas. Os sobreviventes representam apenas uma parte, muitas vezes muito pequena, dos indivíduos produzidos a cada geração. Darwin escreveu em A Origem das Espécies que “é a doutrina de Malthus com força multiplicada, aplicada a todo reino animal e vegetal”. A luta por alimento, abrigo e espaço torna-se cada vez mais severa à medida que se desenvolve um excesso de população. Podemos observar que houve uma infl uência sobre Darwin da obra sobre populações do economista inglês e religioso Thomas Malthus (1766-1834). O reverendo Malthus concluiu que, se o crescimento populacional não fosse contido, a população cresceria segundo uma progressão geométrica, e a produção de alimentos cresceria segundo uma progressão aritmética. Se a teoria se confi rmasse e houvesse esse desequilíbrio entre o aumento da população e a falta de alimentos, o resultado seria a fome na população mundial, levando a uma desorganização da vida social. 287 ciÊncias da naTureZa e suas TecnologiasBiologia II Anual – Volume 1 • Fato 4 – Todos os organismos apresentam variação, ou seja, há “variabilidade nos indivíduos de uma espécie” (ou de uma população). Eles diferem quanto ao tamanho, cor, fi siologia, comportamento, capacidade de explorar com sucesso os recursos naturais e de deixar descendentes. • Fato 5 – Muitas dessas variações dentro de uma população são herdáveis dos pais para os fi lhos. Darwin notou que os descendentes tendem a assemelhar-se a seus progenitores, apesar de não entender o mecanismo pelo qual isto se dava. O mecanismo hereditário descoberto por Gregor Mendel seria aplicado à teoria de Darwin apenas no século XX. Inferência 2 – Há uma capacidade de sobrevivência e reprodução diferenciais entre os diversos organismos variantes de uma população. Algumas características conferem a seus portadores vantagens para explorar o ambiente de forma a tornar a sobrevivência e a reprodução mais efi cientes. Os indivíduos que sobrevivem e se reproduzem, a cada geração, são preferencialmente os que apresentam determinadas características relacionadas à adaptação às condições ambientais, processo denominado de “Seleção Natural”. Darwin demonstrou que a evolução pela seleção natural não é um processo fi nalista, ou seja, não visa uma fi nalidade como no pensamento Lamarckista. Inferência 3 – Com o passar de muitas gerações, a sobrevivência e a reprodução diferenciais geram novas adaptações, levando a novas raças e até mesmo novas espécies. A reprodução diferencial de organismos variáveis gradualmente transforma as espécies e resulta na adaptação dos organismos de uma população a uma determinada condição ambiental. Darwin sabia que as pessoas muitas vezes utilizam a variação herdável para produzir novas variantes úteis de animais domésticos (cães, gado, entre outros) e plantas, a partir de cruzamentos seletivos, processo denominado de “Seleção artifi cial”. Dessa forma, a “Seleção natural” agindo ao longo de milhões de anos deveria ser ainda mais efi ciente na produção de novos tipos do que a “Seleção artifi cial” imposta pela ação humana recente no planeta. A seleção natural pode ser vista como um processo de duas etapas, com um componente ao acaso e outro não. A produção de variação entre os organismos é o componente ao acaso, ou seja, o princípio do casualismo, segundo o qual as variações ocorrem nos indivíduos de forma fortuita, não constituindo uma resposta orientada no sentido de torná-lo mais bem adaptado. O processo que promove variabilidade nos indivíduos de uma espécie não gera preferencialmente características favoráveis ao organismo, sendo que na realidade, em geral, ocorre o contrário.O componente que não se dá ao acaso é a sobrevivência das diferentes características selecionadas pelo meio, ou seja, a seleção natural. A reprodução diferencial é determinada pela efi ciência de diferentes caracteres em permitir que seus portadores explorem os recursos ambientais para sua sobrevivência e reprodução. Assim, ao longo de gerações sucessivas, a seleção natural favorece a permanência e o aprimoramento de características relacionadas à adaptação da espécie ao seu ambiente. Darwin relutou em publicar de imediato suas conclusões, pois buscava mais evidências e temia que a obra fosse mal recebida pelo público. Em 1844, chegou a escrever um ensaio sobre seleção natural, mas não o publicou. Contudo, em 1858, um acontecimento o faria mudar de ideia, pois ele recebeu uma carta de Alfred Russell Wallace (1823-1913), naturalista inglês que havia realizado pesquisas semelhantes às de Darwin, chegando a conclusões muito próximas às dele. Agora, seria uma simples questão de tempo até que o tema fosse defi nitivamente levado ao público. Darwin, então, apressou-se em concluir sua obra, “Origem das Espécies”, a qual foi publicada no ano seguinte, 1859. Comparação entre as ideias evolucionistas através do melanismo industrial Podemos considerar que, entre as teorias de Lamarck e Darwin, a diferença fundamental está no papel que o meio exerce no processo de evolução. Lamarck supunha que o meio obrigava os seres a se modifi carem para se adaptarem a ele, ou seja, o meio modifi ca as espécies. Para Darwin, o meio age apenas selecionando as mudanças já existentes nos seres, ou seja, o meio seleciona as espécies com características mais vantajosas, com maior capacidade adaptativa a ele. A seleção natural é exercida, portanto, sobre uma variedade de seres, dando oportunidade de sobrevivência aos portadores de características vantajosas. Um exemplo ilustra bem as diferenças entre as duas teorias, encontra-se no caso da alteração numérica de mariposas de cores claras e escuras da espécie Biston betularia na região de Manchester na Inglaterra, durante a Revolução Industrial na segunda metade do século XIX. A partir de 1850, houve nessa região, um escurecimento dos troncos das árvores por consequência aumento da poluição do ar provocado pela elevação do número de fábricas. A liberação de poluentes pelas chaminés das fábricas matava os líquens dos troncos das árvores e os tornavam enegrecidos pela fuligem. Isto levou a uma elevação do percentual de mariposas melânicas (escuras), bastante raras em áreas não poluídas, fenômeno que fi cou conhecido como melanismo industrial. Para a teoria de Lamarck, supõe-se que a mudança do meio, representada pelo escurecimento dos troncos das árvores, obrigou as mariposas claras a modifi carem sua cor, o que as levou a tornarem-se escuras. A “necessidade” de mudar imposta pelo meio determinou, portanto, uma transformação gradativa na coloração das mariposas. Estas foram se tornando cada vez mais escuras, e essa nova característica, passou a ser transmitida hereditariamente. Desse modo, as mariposas mudaram a sua cor. Já, a teoria darwinista, vê a mudança de cor sob outro ângulo. Segundo ela, a mudança do meio, escurecendo as cascas das árvores, passou a favorecer as mariposas escuras. Estas por se encontrarem bem adaptadas às novas condições, pois podiam se camufl ar nos troncos escuros e sobreviver à caça de pássaros predadores, deixando muitos descendentes. As mariposas claras por serem mais visíveis aos pássaros, morriam mais, deixando poucos descendentes. As formas melânicas das mariposas, que eram raras nesse local, foram naturalmente selecionadas a partir da mudança ambiental, aumentando em número nessa região. Assim, a seleção natural, que implica em reprodução diferencial, favoreceu a espécie de mariposas escuras. Revolução Industrial Controle da poluição Seleção natural nas mariposas de Manchester na Inglaterra na segunda metade do século XIX.