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L
Apresentação
Certa vez, André Rebouças custou tanto a conseguir um tea-
tro que os aceitasse que, ao achá-lo, tivera de varrer ele mesmo o
recinto, de par com José do Patrocínio, enquanto o público espe-
rava do lado de fora. Dois abolicigoista§Aegros fazendo serviço
de escravos. Em 10 d(;;"gosto de 1886 não precisou tanto; era
improvãvelque capangas ~ a~ _ertut]w;sefil_O ~ petáculo,
pois h~ ia umª P.rima-dQJla,
Ao chegar ao Brasil em maio, a soprano russa Nadina Buli-
cioff nem suspeitava de seu papel naquela noite, no Teatro Lírico
do Rio de Janeiro. Viera como membro de uma companhia ita-
liana - arrastaram-na o ofício e a paixão pelo jovem Arturo Tos-
canini. No périplo pelo país, encarnou Tosca e Giaconda e conhe-
ceu a mobilização abolicionista, que arrebanhava artistas. A
cantante, cuja pátria mantivera a servidão até pouco antes, enter-
neceu-se tanto que, quando admiradores a quiseram homenagear
com diamantes, rogou que usassem o montante para alforriar
escravos.
A Confederação Abolicionista, de Rebouças, agarrou a opor-
13
tunidade. Não era a primeira vez D d .
1868 b 1 · es e O início d em - • os a o icionist_a_s recorriam · ª campanh • d - as artes prom . a,
mas e p_er~u--ª-s_ão_ da..opinião púb'' . . ov1am ceri111 . u..,ca, criavam . o.
cavam aliados fora do país, articula d assoc iações e bus.
· 1 • - n ° uma rede d que me uta França, Espanha Estado U 'd e sustentação
• s ni oselngl
veram também a russa, promovida a . . b aterra. Envol.
d - soc1a eneméri t d
eraçao. Assim foi que O espetáculo no T , . ª a Confe.
e _ . eatro Lmco . ,estaçao antiescravista. v1rou lllani -
0 sonho de Rebouças era encenar 0 d e I escravo que e ara a ar os Gomes em 1884 ma . ncornen-
. . , s o maestro não apronto
a tempo. Foi preciso pinçar no repertório 1. . u a obra
. . - , m co outra ópera expnm1sse a acepçao pohtica do ato B 1 . . ff que . u 1c10 encarna . A .
Escolha estratégica, pois a obra do popular V d. , ' na ida.
. er I atraia multidõ
e trazia tema alusivo: a moça-título era filh d . es
fi . . a o re1 da Etiópia con mada ao cativeiro no antigo Egito. '
Ao pisar no tablado, casa cheia, Bulicioff viu ca· , . ,,.,..~==:.:.__:..- irem a seus
pesas flores que o moVJmento abolicionista usava com • b
1 fi . . o sim O o.
Ao 1m do pnme1ro ato, a plateia calou-a com palma . . __ - - · s,as mani -
festações cresceram no segundo e galgaram O clímax na ária de
arremate do terceiro. Nessa parte da história, Aida foge do cati -
veiro, liberdade representada com o acender das novíssimas luzes
elétricas.
Foi a deixa para Jo~é go Patroc:ínio, acompanhado pela Ban-
da dos Menin_sis_ Desvalidos, su~r ao palco. Trazia consigo seis
escravizadas, como martelavam os abolicionistas, vítimas de uma
instituição imoral, injusta, arcaica. As moças trajavam branco, ao
passo que Bulicioff vestia roupas de uma escrava dos faraós, assim
igualadas. A banda tocou o Hino Nacional. A russa, então, arre-
bentou suas algemas cenográficas e, diante do público, que de pé
agitava lenços, entregou-lhes cartas de liberdade. Abraçou e beijou
cada uma das mulheres que, ante os olhos dos espectadores, se
met;~orfos~;:;;~de escravas em livres. Sete Aidas. Choraram
14
. d J' ·o Houve palmas e vivas, lançaram-se
elas e o púbhco, em e m .
~ m-se pombos.
flores, so tar - é d prima-dona e beijou-lhes
Pat~ io ajoelhou-se aos P s -~ . . . " "Viva a
- A plateia frenética gritava Viva a Buhc10ffl '.
as maos. - . b 1· - dos escravos!". Em segmda, ova-d I" "Viva a a o içao .
1~ 0~ . nto pelo fim da escravidão. Pn-m os líderes do mov1me
cionara , . or uestrador de tantos espetáculos com o o
meiro Patro~mw, Joio Clapp presidente da Confederação Abo-
daquele dia, ep01s_ N b o • líder parlamentar da campanha,
1 . ·sta e Joaquim a uc •
ic10m • . 1 Saudou-se, por fim, um senhor que
bos acolhidos no pa co. . d d
am t Era Manuel de Sousa Dantas, aha o o
aplaudia do camaro e. , d b d • ,· >" . .Pactid Liberal que havia pouco ,ora erru a o movuru~to no o • . . 1 d
• • da ~efia de governo pelos escravista~ Patrocm10 e C a~p '. e um
, .. ~- J1fâé>.Nabuco e Dantas, de outro, exprimiam as estrateg'.as _car -
<l• \_,....,, deais do movimento até então: P,!2~nda n Q....e.spaço..públic.o e
:-,.,.,, . . . - l 't º Rebomç~< alinhaYa a.costura ..,..__ iniciativas nas msll~_Qes po I icas;,. ~ ,.,, . .
cl: ,,-..v- ent;; as metades ali on_d~ encpp~ va naquele dia, assim como
., em toda a campanha: nos bastidores.
e,,,-., -'""'_,, Estratégias predominantes até aquele momento porque, em
J. N -,. ; ,- 886, , s abolicionistas aventavam outros rumos. ao esta~ no
:-,- ',.,•\' 0 por preferirem ópera à__política. Tinham perdido a batalha
~ ~~~ ~--~---- - · lh eleitoral e O novo governo do Partido Conservador declarava- es
guerra, tachando-~ arruaceiros, desrespeitadores de leis ecos-
tumes que havia quatro séculos sustentavam a escravidão no Im-
pério do Brasil. A arte era, pois, uma das formas viáveis de políti-
c~ utra possibilidade fermentava: afrontar a ordem escravista,
instigando os escravos a seguir o exemplo de Aida e fugir. Aboli -
cionistas em São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco embrenha-
vam-se nessa vereda. O movimento adentrava a des~bediência
civil. Mesmo Rebouças e Nabuco, aristocratas pacíficos, dispu-
nharn'.'.se às últimas consequências. Patrocínio declarou no jornal:
"Os abolicionistas sinceros estão todos preparados para morrer".
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No Teatro Lírico, o que parecia festa era batalha. Abolicionistas
versus escravistas.
O público, ao aclamar a russa, tomava partido na luta. Era 0
movimento contra a escravidão que aclamava. Os abolicionistas
vin~ m construindo esse apoio h_avia duas décadas, primeiro em
1
espetác~ )2filec jdos aa de Bulicio.ff,_çoalhados de flores, depois
disputando votos nas eleições e, Rºr fim, ameaçando recorrer às
Acumulavam força para tanto. Ao longo da campanha ti-
nham passado da meia dúziade pioneiros, como Rebouças, a uma
leg~~do..em..todao.,as.vinte. províncias do Império. Em
18 86, eram milhares. Todos disposto~ çomo_13ulicioff, a quebra r
!.\gtm-ª1.:.'
"Os abolicionistas cresceram entre os ultrajes, todos os sa-
bem·: registrou um dos jornais simpáticos à causa no dia da Abo-
lição, travaram luta tida por inglória e·em favor de terceiros, os
escravos. Contudo, a relevância do movimenta..abolicionista para
o fim da escravidão não foi ainda plenamente reconhecida. Muito
já se escreveu sobre abolição, já se discutiram causas econômicas,
seu processamento pelas instituições políticas, resistências judi-
ciais e cotidianas, revoltas e fugas de escravos. Trabalho feito e
bem-feito.' Mas o movimento abolicionista ficou na sombra. Em
p~l'.Ópri.o..II10Y.imentOJ1fil> chamou a si a honra. Pa-
radoxalmente, u!!' ~e seus líderes, Joaquim Nabuco~ iu o
feito à magnanimidade da Coroa. A reação a essa versão vi rou
avalanche no centenário da Lei Áurea, em 1988. Estudiosos e ati-
vistas do movimento n~ gr_o c~ testaram a relevância da casa im-
eerial e~ssaltaram a resistência dos escravos. Trocou -se mesmo
de ícone e ~ data comemorativa da liberdade africana no Brasil -
~_g_~ _ _IlliÜO pj lt:a.2.Q.çle_no.E!!?.bro, da liderança da dinastia ao
protagonismo dos cagvos, de Isabel ~ Zumbi.
16
1
nto de relevância da herdeira do trono imR"rial o des_os;ame _ _ • - .
l~d de revolta escrava solapou um ~ eno que,nao 01
p~scravos, -;;em graça de pr incesa - o movimento
nem o - d "dão Este livro conta sua história. Recons-
ela aboliçao a escrav1 . . . -P = ~ grande estruturada e duradoura rede de at1V1s-
trói a craietona º" i ' • • . - e manifestações públicas ant1escraV1stas que, a
tas, assoc1açoes , i enta social na-
exemplo de outros pa1ses, conformou ~ -QY ro
. ai o primeiro no Brasil de seu genero.
e1on - . tnfi.gu~ ui.romo.Yértice incompreensível sem
OJI10>1Ulle1'.l - ., --- .
os outros dois que fecham o triângulo, Estado:e ~o~tramoV1me.n.-,
td> A mobilização coletiva nacional antiescrav1dao e recontadado
ângulo da sociologia política, em sua relação com_as respostas q~e
suscitou das instituições políticas e em sua tensao com a reaçao
escravista politicamente organizada.
o movimento abolicionista demorou a se configurar no Bra-
sil. Sempre houve gente de inclinação antiescravista, mas pensa-
mento é dife(rnte de a~ão. Para existir, um movimento social
precisa organizar associações e eventos públicos, materializar-se
como mobilização coletiva, o que só ocorre em conjunturas polí-
ticas que facilitam o uso do espaço público para exprimir reivin -
dicações. Tal situação se C.Q!l figun>u n.o .8.@si.lu.u...fu:!J...gos anos
1860, graças a três mud~ as. Uma foi de cena internacional. Um
ciclo de aboli~ões se iniciou no século xvm e, nos anos 1860,
atingltLO_ut~ndes escravismos do continente, Estados
Unidos e Cuba. Ao se mirarem nesse espelho, os brasileiros se
viram prestes a restar como último escravismo do Ocidente. A
experiência estrangeira funcionou com o um repertório político
que orientou ações acerca <la..!:s.crav.idàp.n o.Brasil~c.Qm.mo.del.os
a seguir e exemplos a evitar. Outra transformação Rroduziu-se
com a aceleração da~ rbanizaçào, que propic iou um in~ e
esp_!l_ÇP público no qual se discu~ ram assu ntos de in teresse cole-
tivo, como a_modernizaç_ão do país~ e se disseminou um novo
1 i
padrão de sensibilidade, que redefiniu a escravidão de n t , , . a ural em
abominavel. A terce1ra mudança foi de conjuntura pol 't· - . . - , i ica . Em
1868, o Partido Liberal usou o espaço publico para co t n estar a
supremacia adversária no sistema__P.olítico. O governo d p .
-- 0 art1do
Conservador respondeu com modernização: ampliou O a cesso ao
ensino superior, reduziu os custos da imprensa e propôs . . uma Le,
do Ventre Livre. Tais iniciativas produziram uma crise política
intraelite e o ingresso de novos atores no debate polític E
. ,. ~-mudança de oportumdades pohttcas propiciou as condiço· e ---- s para
o primeiro ciclo de mobilização abolicionista (capítulo 1 ).
Sua contraparte foi a organização política dos esc ravistas.
Uma facção do Partido Conservador, a dos Emperrados, resistiu
à aprovação da Lei do Ventre.Livre, em 1871, entoando, por meio
de vozes como a de José de Alencar, uma defesa do statu quo: 0
fim da escravidão, ante as circunstâncias nacionais, acarretaria
bancarrota econ_ômica e anarquia política. As associações aboli -
cionistas que se formavam redarguiram que a abolição seria ato
de compaixão, direito, progresso. As duas retóricas, a da reação e
a da mudança, duelaram em púlpitos, jornais, panfletos (capítulos
2 e 3).
~ass~r do discurs~ à prática, os abolicionistas se inspira-
ram no repertono estrangeiro, mas com ad~ptaçôes ao contexto
nacional. Enquanto anglo-americanos tinham difundido o aboli-
cionismo n~s capei;s, n~ ~ ião ; ntre Igreja e Estado escra-
vista obr~o~~b_uscar outro_espaço para_o_s eventos de persua-
são âa opinião públ~a.:. Apossaram-se dos teatros e, assim, poemas
e óperas, como Aida, deram o tom da propaganda. Essa teatraliza-
ção da política acelerou a deslegitimação do ca~ o e atraiu
adeptos para o abolicionismo (capítulo 4). Tempo de flores.
As conjunturas políticas são a chave para entender essa e
todas as demais táticas abolicionistas. Longe de ancoradas em
princípios abstratos, as escolhas abolicio-;;-;-st~ m estratégicas,
18
l"nhamentos dominantes nas instituições polí-
,,e~s~p~o~s~ta~a=-o=-s-=-ª..:.1 __ _ governos do Partido Liberal (1878-84) , que to-
. s ourante os . . . d
·festações no espaço público, o abohc10msmo es-
Jera8!!1 mam - - . -d ·dades Multiplicaram-se as assoc1aço~s,
1
hou nas gran es c1 · _ , . -- .
an~ _fi
O
perfil social dos ativistas (cap1tulos 5 e 6), nac10-
divers1 cou-se - d 1884 ha O sTstemap olítico respon eu, em ,
alízÕÜ-se a cam_pan . . d d n pró-emancipação progressiva - coman a o
com um governo . . . _ ele que assistia a Buhcwff do camarote. O movt
P
or Dantas, aqu . 1 • · a imprensa e com candidaturas ao Leg1s ativo.
mento O apoiou n _ . - d- votos -(capítulo 7). Então, agigantou-se o contra-
Um tempo e .
. ento escravista, que derrubou Dantas e seu proieto. O n~-
movtm · · ·d d
d p rtido Conservador, passou a reprimir at1vt a es
vo governo, o a _ . . .
abolicionistas. Por isso, a Confederaçao Abohc1omsta
- Buli'cioff em 1886· a nova coniuntura compehu o mo-recorreu a • · .
· entoa migrar para a desobediência civil, acirrando o conflito.
vtm d ,
Foi
O
tempo Jãs balas (cap ítulo Ji). O desfecho do rama e o as-
sunto do último capítulo.
No conjunto, o livro argumenta que ::! ~ ovimento elegeu
(
etóricas, estratégias e arenas conforme a conjuntura política e em
\ atrito com inlfiª tivas de governos e escravistas, operando suces-
Y sivame~ om flores (no espaço público), votos (!ia esfera políti -
V\ co-institucional) e balas (na clandestinidade), num jogo de ação
f e reaçã~ duas décadas (1868-88).
Tudo isso é narrado por meio da trajetória de ativistas nacio-
nais seminais na moldagem de estilos de ativismo e articuladores
de vínculos entre facções e arenas: André Rebouças, Abílio Bor-
ges, Luís Gama, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco - três de-
les negros. Heróis incompreensíveis sem os vilões. As.histó.rias...da
abolição têm insistido nas disputas intra-abolicionistas - por
lid_eransa, métodos, programa. Contudo, o foco no faccionalismo,
típico de movimentos g_randes, empana a clivagem crucia[âque-
la que ~ para abolicionistas e escravistas. Porque, s~ h ~uve es-
19
cravismo político no B .1 .
. . •::-~-- ras1 ' aqui represen
nac1ona~ Paulino Soares de S lado Por seus l'd
T ousa e o barão d C I eres
razer à cena indivíduo . e otegipe
s que viveram ·
enorme teia de ativismo, à tenaz mobil iza - o con flito dá rosto à
mulheres, brancos e negros, contra çao _social de homens e
mo d . a escrav1dao no B .
e impacto decisivo. A aboliçã - ras1l. Ativis-
1 . o nao se faria . senvo v1mento da econom· . - por s1, pelo de. l ' . ia ou por dec1sao soJ·t · .
po illco, como não se fez po;-;;anet d d . i an a do sistema
d ª a a princesa É 1 o movimento abolicionista para o fl d . a re evància . ---:~---==:.:.::.::: im a escravid -v1sa ressai~. ao que aqui se
O abolicionismo brasileiro aconteceu qu d .
P ó . e • - --- - an o se mventava r _pno ,enomeno movimento social Tod · . 0
, . · avia, a variedade de e
trategias, a estruturação em rede e as alian . . s-
---- - ças mternac1onais de
notam sua modernidade. Soa contemporâneo ta b ' .
h m em porque
restam eranças suas. O impacto de um movimento transce d
sua o • · d n e correnc1a, per ura nas práticas políticas de um país. En ten-
der o ~bolicionismo, seus antagonistas e o andamento do proces-
so pohtlco da abolição importa porque o fim da escravidão dividiu
águas em nossa história, e também porque a natureza de seu re-
mate ainda reverbera nas formas contemporâneas da desigualda-
de no Brasil.
O livro se ampara em seis anos de pesquisa de documentação
primária em vários acervos (ver Fontes). Sou grata aos comentá·
rios de Ângela de Castro Gomes, Antonio Sérgio Guimarães, José
Murilo de Carvalho, Luiz Werneck Vianna e, especialmente, de
Brasília Sallum Jr., quando da apresentação de versão preliminar
como tese de livre-docência na Unive rsidade de São Paulo, em
dezembro de 2012.
Muito obrigada aos participantes dos seminários nos quais
se discutiram trechos de capítulos: The American Counterpoint:
20
h t Slavery and Abolition in Brazil, Gilder Lehr-
New Approac es o . ·ty (2010) · II Seminário de Teoria Social Yale Univers1 ,
man Center, (2010)· Anpuh São Paulo (2011); Pensamento ·t · UPRJ ' ' Bras1 eira, f as em Diálogo GT de Pensamento So-. ai Brasileiro: Perspec iv '
Soei / FRJ ( 20l0)· Seminários do Departamen-·aJ Brasil da Anpocs u , .
ci no . l't ' USP (2010)· Center for Latin Amencan de Ciência Po 1 1ca, '
to . y 1 (20l0)· The Bildner Center for Western
St dies Semmars, ª e ' • k ( 010)·
u 5 d ' Seminar City Univers1tyofNew Yor 2 , Hemisphere tu ies , d .
à Quintas Casa de Oswaldo Cruz, Rio e Janeiro Encontro s ' .
(2011); Lugares, margens e relações: raça, cor e mestiçagem na
'ê . fro americana usP/Princeton (2011); Classe, cultu-expen nc1a a - ' ) L ·
- oletiva Departamento de Sociologia, USP (2011 ; atm raeaçaoc , . .
· Association Meeting San Francisco (2012), Congresso Amencan ' . . ,
Internacional dos Americanistas, Viena (2012), Soc10log1a, Poh-
tica e História, Programa de Pós-Graduação em Soc10log1a, USP
(2010, 2011, 2012); Social Science History Association Meeting,
Chicago (2013); Comparative Sociology Seminar, Universidad
Carlos 111 (2014); Seminários Cebrap, São Paulo (2014). As revis-
tas Tempo Social e Sociologias publicaram partes dos capítulos 1
e 3, em 2012, e a Novos Estudos Cebrap, um resumo do argumen-
to em 2015.
Apoios da Fundação Guggenheim (Guggenheim Fellowship,
2008-9}, da Fapesp (Novas Fronteiras, 2008-9, Auxílio à Pesquisa,
2012-5) e do CNPq (Produtividade em Pesquisa, 2009-15) viabili-
zaram a pesquisa, iniciada em pós-doutorado na Universidade
Yale (2008-9) e desenvolvida no Departamento de Sociologia da
usp e no Cebrap.
Agradeço a assistência de Ana Carolina Andrada e Viviane
Brito de Souza no manejo do banco de dados da pesquisa.
Muito obrigada à equipe da Companhia das Letras, em par-
ticular a Lília Schwarcz e Flávio Moura, pela gentileza com que
me ajudaram a dar forma final a este texto.
21
Sob risco de omissão, listo ao final os muitos outro
. d . . d 5 que, de
vana as maneiras, me aJU aram neste trabalho, escri to na com.
panhia de Alice, Tomás e Fernando, impossível sem eles , sempre
para eles.
Todos os brasileiros somos, de um modo ou de outro, her-
deiros do tipo de desfecho que teve a escravidão entre nós. A de-
cisão política, no pós-abolição, de atrair europeus, em vez de in -
corporar plenamente os ex-escravos à sociedade nacional, trouxe
ao país levas de imigrantes, como meus avós Maria do Carmo
Soler e Felix Alonso Garcia. Se o desfecho fosse outro, seríamos
todos outros. Eles não teriam vindo ao Brasil e eu não teria escri-
to este livro.
22
1 . Abolicionismo de elite
O ENGENHEIRO DOS DIQUES MÚLTIPLO S
André Rebouças nasceu em meio a uma revolução. Naquele
1838, seu pai depositou esperanças na consolidação do Segundo
Reinado, nem ainda parido e já sob risco, qual seu primogênito:
Para animar a minha boa mãe, que chorava ao ver fugirem de
mim, doente de bexigas, os passageiros do barco, que saíam de
Cachoeira [Bahia], ameaçada pelos revolucionários da Sabinada,
[uma senhora desconhecida] tomou-me nos braços e beijava-me
repetindo o incrível feito de santa Isabel, rainha da Hungria.
Medraram ambos, o. menino e o Segundo Reinado. Destinos
entrelaçados até o desenlace, em meio à nova revolução, quando
seria a vez de André se compadecer de outra Isabel, rainha sem
trono.
Como o Segundo Reinado, André ganhou viço. Cresceu ina-
partável do.iunão-Antônio~que a mãe~filha de c;;-merciante, criou
23
com mais cinco, sob o olho diligente do dr. Antônio Pereira Re-
bo~ Doutor mesmo sem diplomã=- embora com dois irmãos
formados na Europa, um violista, outro médico. Rebouças pai se
fez na vida. Ganhou o direit~ e advogar por serviços políticos
prt:,sta§ os na Indee_endên~ a e na Sabinada e por seu talento para
estar no lugar ~ o na hora cert~ as ~ n_d~ imperiais de ascen-
são social - talento, educação:tpatronagem -, virou deputado,
provincial e geral, e jurisconsulto, advogando para o Conselho de
Estado. Abriu escritório na Corte, quando André fazia sete anos.
Coroou o novo status adquirindo um lote de escravos domésticos.
Dr. Rebouças transmitiu a André seu senso de oportunidade.
Em 1859, matriculou-o, com o irmão, na Escola Central, carreira
B do Império. O direito era a trilha A, da elite política. Experien -
te nas dificuldades da política imperial, encaminhou a prole para
a engenharia, via para os negócios. No meio da faculdade, os mo-
ços fizeram a clássica viagem de formação pela Europa. André
morou em Paris. Passou por Brest, Marselha, Arles, pencas de
obras e aulas de engenharia civil. Em Londres, estudou muito, sem
faltar às festas da legação brasileira.
Voltou querendo para si um papel misto de engenheiro em-
preendedor e político reformista. Mas sem diploma de compro-
vação dos estudos, motivo de dor de cabeça futura . De imediato,
afluíram empregos: inspetor de fortalezas , de Santos a Santa Ca-
tarina, em 1863. André revelou-se usina de projetos e talento de
lobista. Com o pai, fez a via-sacra por chefes do Partido Liberal,
então no governo, e assilll viabilizou experiência de diques múl-
tipl os. Q.imp.~si~ condecorou.
Estabelecey-se P.Or talentos ~ plementares. Em tudo empre-
gava a trigonometria, traçava planos e metas, homem sistemático,
meticulo~ ~i! • .tdãfóes'-ª!!_odeava autoridades e, por modos
macios, avançava pleitos, promoções, salários. ~ssim trafegou em
o~ s por Maranhão, Minas Gerais! Para,Ceará. Conheceu poten-
24
d
sidentes de província, engenhos de farinha. Deparou com ta os,pre __ '7"" .
ebrados batizados, Jacarés. Dormiu tanto nas melhores
barcos qu '
nto ao relento. Er1genheiro Rebouças, o industrioso. Por casas qua . . .
d S
ava nropynha melhorias. O acanhamento do mtenor m-
on ~ ~ - "- . - sua índole modernizadora - e os saraus locais desalenta-flamava _
UVl.do de ooerista. Conviveu com elites dos rincões e com vamseuo -
- - s•eus-assessores nas obras civis. Observá-los ao trabalho escravos, - -
acabou por comovê-lo, como regj_strou em seu diário, em l.863:
• Assim não tivessem os nossos antepassados manchado a Terra de
Santa Cruz com o abominável tráfico de africanos!".
Duas notícias quebraram sua toada: o início da Jí.Uerra do
Brasi~ o P~a~ e a dos credores com os.J{ebou~ , ~os
ob.:i;ram a dispor de prataria e br~Somaram-se adversi -
dades com suas obras e empresas, tidas por utópicas. F~o
em romaria ao.,J_JDR$!rador e a líderes do Partido Conservador,
como o futuro visconde do Rio Branco, e, assim, em 1865, virou
prime~ -tenente d~ rpo de engenheiros do Exército no Para-
gJ!ai. Na gy.çrra como na paz, ,elanificador: projetos para batalhas,
a região, o país, com os quais entuQiu generais e o P.!Íncie!_con-
sorte, de cuja sombra nã~ ía.:..
A morte da mãe virou essa página. Adoeceu novamente de
bexigas. De volta ao Rio de Janeiro, quis ser professor da Escola
Central. O périplo: Rio Branco, então diretor da faculdade, Zaca-
rias de Góis e Vasconcelos, que era o chefe de governo, o impera-
dor, Iobby democrático por Membros do Partido Liberal e Con-
servador, cortesãos. Mas os cargos tinham muitos candidatos, e o
Império, muitas corriolas. Na espera, leu Stuart Mill e inventou
aparelho para reter torpedos. Por fim, ei-lo inspetor da compa-
nhia de gás e, depois, gerente das obras da Alfândega, com salário
que "excedeu a toda a minha expectativa". A roda girava: André
passou a receber pedidos de favores. Aos 29 anos, tinha bolso
cheio.1!.ânsito franco por partidos e salões, até no dos príncipes,
25
onde teve a honra de dançar_com senhoras da e t d •
. . . or e o impera-
dor, mclus1ve a princesa. Eventos que usava para - ---- se entrosar nas
rodas masculinas da política e dos negócios.
Em meio a experiências com escafandros em 1867 6 . . , , rece eu 0
pedido de um engenheiro, seu subordinado numa das e . . mpresas que
gena, para que alfomasse o operário Chico decano da b h , . . , s o ras j.
draultcas. F01 quando sua atenção recaiu sobre o assunto L'b . 1 ertou
o escravo e passou a trabalhar em projeto de lei de impostos sobre
\
a escrava~ura. A aboliçã~, julgou, era indispensável para O progres-
~o do país..N0a-ano segumte, em 10 de abril, decidiu pôr no papel
1de1as sobre a emancipação dos escravos. Mas se viu acusado do
contrário. É que, ocupando posições cobiçadas, suscitava inimiza-
des. Em 1868, ao apresentar o projeto de uma Escola de Arar, na
Escola""Centrãl, onde ~btivera cadei~ recebeu emcheio, 0 impera -
dor presente, a {lecha de "eillavagist;i". Então, alforriou "nossa cria
Guilhermina" ,.Raf_a.honrar sua resposta:
Sou abolicionista de coração e aproveito esta solene ocasião para
declará-lo. Não me acusa a consciência t; r deixado uma só ocasião
de [ . . . ) fazer propaganda para abolição dos escravos, e espero em
Deus não morrer sem ter dado ao meu país as mais exuberantes
provas da minha dedicação à Santa Causa da Emancipação.'
O engenheiro e~ esário pôs ali seus diques múltiplos a ser-
viço do abolicrnnismo. N.QS..Yinte anos seguintesr as.pr.ovas exu-
bera~ s daria todas.
PRUDÊNCIA EM PERSPECTIVA COMPARADA
Naquele 1868, a abolição assombrava o sistema político. A
conversa começara antes, com a nação, e quando R eb~ ças apren -
26
dia as primeiras letras, na segunda metade dos anos 1840, o mi-
. da Justiça Eusébio de Q ueirós, e seus companheiros de n1stro •
0 e do Partido Conservador sofreram aperto da Inglaterra govern
para estancar o tráfico negreiro.
O Brasil fora escravista em ampla companhia até o século
XVIII, mas na primeira metade do XIX a cena se alterou. Um gran-
de ciclo de abolições começou por São Domingos (Haiti), onde a
revolução liderada pelo negro Toussaint-Louverture, em 1791 ,
aboliu a escravidão dos negros, depois de cortar cabeças de bran-
cos de três exércitos imperiais. Em 1807, o Império Britânico e os
Estados U nidos acabaram com o tráfico em seus domínios. Em
J,, l815, um congresso em Viena, com a participação de Grã-Breta-
nha, França, Rússia, Áustria, Suécia e Portugal, declarou ilegal o
comércio internacional de escravos. A m aioria das colônias espa-
nholas da América fez~ o ~nício do século x1x, um dois em um:
independência"e abolição. Ao longo dos anos 1820, o cativeiro
acabou no P~ u. Chile, Çgsta ~ca, Honduras, Panamá, Gua~a-
</ \ la, Bolívia, México. Na década seguinte, fo i a vez da Guiana Ingle-
sa e das ilhas Maurício. É controverso se a razão desse dominó foi
+" '"' -- . . d .
1 económica, com a expansão de formas cap1tahstas de pro uçao, ---.... i.-que consumiam trabalho livre e requisitavam novos mercados
,.,consumidores, ou se se deveu à difusão de nova moralidade hu-
~.,_,. maoista. a reclarn.au:x.tensão de cidadania.' Indisputável é que a
sequên.ci.a..de_ab(liiÇQeS criou novo ambiente politico internacio -
nal, no. qual a escravidão quadrava mal.
Desde a Indei:,endência, o Brasil recebia demandas do Impé-
rio Britânico, maior potência mundial, para andar nesse passo.
Tratados de p roibição do comércio negreirn~emJ.826 e.1831., fo -
ram o preço inglês para reconhecer a nova nação. A reiteração
mostra a pouca vontade nacional de aplicá-los. No sistema políti -
co soçobraram as poucas iniciativas para abrir caminho de eman-
cip!!Çào pro~ essiva, como a de José Bonifácio de Andrada junto à
27
~ sembleia Çon!ilituinte..em._1823._0 mesmo se deu na Regência.
O trá~ te extinto,.Y_oltou a todo vapor em 1835, e daí
até ~ u_ttaram.60Cl.mil escrav.os no país. Na virada para os anos
1850, já no Se~@ Reinado, a Inglaterra deu o ultimato: policiou
embarc~ Õ$!s,.ap.Iceen.de11-e.s.cravos contrabandeados e ameaçou a
soberania nacional com navios nas imediações da costa brasileira
e rugido de canhoneil:as. Sem remédio, o governo do Partido Con-
servador golpeoy sua base social, de proprietários e traficantes de
escravos, com lei que levou o nome de Eusébio de Queirós e que
encerrou, de novo, o c~I,CÍO ultramarino de africanos, em l 850.
Dessa vez, a Marinha britânica ficou pelas costas brasileiras, con-
ferind_o a..\'.alia.da.pâlay,r.a.do.país.ao sul do'Equador.
q_governo compensou-eomo~pôde: ·entre a aprovação e a
vigência d6ri1 f~angpeou os_QS>rtos p~ra importação massiva de
a~ ep~ de 1851~ ntraram amda 9309 africanos. Mas,
em 1856, o desembuqueaelaBdestino de cerca de duzentos em
Pernamb.uca.custou ao chefe de..goxe.t.Q.Q.JlQvo aviso da Inglaterra.
Então o tráfico acabou de vez Corte violento do negócio mais
lucrativo de todos, que nutria as famílias de proa e soprava na
popa das contas estatais. F..9i uma sangria de bolsos, desorganiza-
ção de negóçios. bradas de hurriilhação pátria.
A ninguém ocorre_u que assim acabasse a escravidão. Era a
pedra angular da econoroia.Ae..p;u1idos e da sociedad;arist~ i-
ca desde as origens da nação. Ao longo de cerca de três séculos, 0
Brasil foi o país que mais importou africanos: 5 848 265, cerca de
, mil deles no Segundo Reinado.' Os escra~ s~lharam,
mercadoria acessível à maior parte da população. Proprietários de
terras, profissionais liberais, o imperador, ;grosso dos brasileiros,
até ex-escravos tjnham cativos. Empregavam-se em negócios e ofí-
cios, nQ.JID!Jl.do.~!!Q.I!Úblico, no comé!SÍ2 ~ tado, nas
ruas e nas casas . .Emb,ora su~tentáculo da expansão agrícola, a es-
cravidãq__não era só negócio de fazendeiro. Disseminada, esparra-
Pela vida social. Base do modo de vida, bom neuócio em si
mou-se = ---
. de todos os rentáveis. Pilar da hierarquia social e do estilo e esteio -
~ d do estamento dominante, estava na corrente sanguínea na-
d~ - -.-.- -:-- . . -
-· Alicerçava o sistema pohllco, p01s eleitos e eleitorado eram
CI a•oritariamente de proprietários de escravos. A escravidão estru-
m J urn modo de vida, defi niu identidades, possibilidades e des-
t~ d s me;i;ros da sociedade im_perial. Daí sua legitimidade unos o
~ oci'almente natural. A na!;ãO toda..era escravista, o gue re-tác1ta, s -- , .
d conversão do tema em problema na agenda pubhca.
taroua - . --
- Quando o tráfico estanco~ escra~ v1rou liem precioso e
~ se se concentro~ estratos d~da e em áreas áe sua 120s
agricultura de exe ortação.' Se isso gerou grande contingente de
famílias com pouca ou nenhuma escravaria, sem interesse direto
em manter a instituição, aumentou, em contraparte, o status dos
Uidores. Quanto mais caro o bem, mais prestígio se afere por poss _ - - _____ _
p~ -
Depois de 1850, a política do escravismo consistiu em garan-
t. 0 & steciment o da economia agrícola com tráfico de cativos 1r
entre as_províncias e fazer o assunto... irar em ponto morto nas
in; ituições I!olfticas. Por isso, em 1852 uando u01 deputado co-
~~dos..Ilep.utados,.uma..Lei.do Ventre Livre, isto é,
a libertação dos filhos de escrava que fossem nascendo, para ir gra-
du~ ente acabando com a escravatura no Brasil, por conta tanto
da ~ ilharia do cruzeiro inglês como em nome da "sã política",
ouvi~ a instituição se acabaria por meios naturais, pelo declínio
vegeta~ de uma população que vivia pouco e mal. O projeto nem
seque;Toi discutido, definido por um dos presentes como um sen-
timentalismo protestante: "Temos um novo Quaker! (Risadas )". '
Fazer graça da orientação religiosa do abolicionismo anglo-
\
~ americano não tornava menos séria a supervisão do governo
l!!_glês na efetivação dos _!,i:_a!,_ados an!_itráfico. Em 1860, William
Christie, ministro britânico no Brasil, denunciou a escra~ç~o
29
7
, de africa~os gue conside{QU livres, porque importados depois do
tratado bilateral de 1831. jleclamou da vista grossa do governo
b!:MileiLQ..P~sie.r.êni;ia do_N_orte para o Sul do país d
34 688 escravos.p_Q[ ~ arítima, o que configuraria com , . e erc10
atlântico 11roibido pelos,_acor-dos.mutuamente firmados . A esca-
ramuça azedou com dois incidentes envolvendo três ingl , , , eses pre-
sos por autondades bras1le1ras, na virada de 1862 para 1863
Christie demandou ind.em?J1ção pecuniária a seus concidadãos,~
goygpo~cusou- 0. inglês,centão ordenou bloqueio naval do Rio
de Janeiro por,,,seis dia~ ca11tura de cinco navios brasileiros em
águas nacionais. A defes,11 do tráfico interno foi fraseada como
1resistência ao ataque à so~ ania nacional por políticos e elo
imperador. Negociações difíceis.liberaram o porto e, ao fim, r~m-
pera~ ç~s.1fü;ilomáticas P2~ dois anos.' O saldo da Ques-
tão Christie foi popularidade para o governo e a Coroa, afinal a
sociedade era çscrayjsta,,ma&também escancarou que até O tráfi:
coem águas nacionais seriadifícil de manter,
O escravismo brasileiro não teve mais sossego. Nova onda
abolicionista internacional devastou seus congêneres n~ bia
(1851), no Havaí (1852), na Argentina (1853), na Jamaica e na Ve-
~ezuela (1854). no Peru e na Moldávia (1855), e a servidão acabou
na ~n~ia 0 _860) e na Rússia {1861). Em 1863, o processo chegou às
colomas bavaras e chegaria de vez às portuguesas em 1869, No fim
dos _anos 1860, o Brasil estava escravista em companhia apenas de
naçoes com, as uais fugia de se ombrear:Zanzibar)e Madagascar,
Gana, ~ e o mpér~ Oiõinano. que respectivamente carre-
garam o andor escravista até 1876, 1878, 1879 e 1882,
e:,\,\~,'-' .~ A_ elite brasileira conhecia, por livros, viagens, visitas de es-
'> · J, l t~angetros e Jornais, os processos abolicionistas pregressos e coe-
( ,~ ~ n~os. Es,sa variedade de experiências funcionou como um reper-
\
" ,~e tono po/rtico,' que orientaria discursos e decisões tanto de
abolicionistas como de es · t . . ' ---' cravts as, tanto o at1v1smo social quanto
o s''
' ' "'
a política de Estado. E deu norte para os brasileiros lidarem com
a questão quando ficou impossível escamoteá-la.
Desse repertório extraíram modelos a seguir e exemplos a
~O desmonte do escravismo nos i~ inglês, iÇancês,
português e holandês pouco servia de parâmetro, pois neles a es-
cravidão fora colonial e de ultramar. Bomba em casa, qual a nos-
sa, quem ainda a tinha eram estadunidenses e cubanos, que, como
os'brasileiros, receberam massivo aporte de africanos e juntos
formavam as maiores economias escravistas do continente, Isso
mais a relativa proximidade geográfica fizeram deles nossos espe-
lhos principais. O que corria num reverberava nos outros. Em
~ escravidão deu combustível p.ar,a=a guerra civil nos Es-
tados Unidos, cujo governo, em 1862, selou com a Inglaterra acor-- -do para suprimir o tráfico negreiro !, no 2 rimeiro di a de 1863,
lânçou a Emqncioation Pwclamatian. li]m:tarulo os escravo~ o
p~anos e porto-riquenhos fundaram a Socie-
dade Ab~~a Espanh2 la e o _governo de M~ iu debate
sobre legislação antiçscrayista.!_
t Essa conjuntura internacional decantou, em parte da elite li
M \ I im~ial, a convicção da inevitabilidade de medida emancjpacio-
(' nista para o Brasil não sobrar sozinho na praia escrav~ Um
o~ mirou o desfecho indesejável a Guerra Civil America-;;.
L.,~ \.~ Temia-se reavivar o conflito entre regiões, traumáti co na Regên -
""-. . !,.,Cia, com o desequilíbrio na distribuição geográfica da escravaria:
o,,'.,,,\"·, ra economia do café, consolidada no V ale do Paraíba carioca e na
à, e ,, _. Zona da Mata mineira e se expandindo no Oeste Paulista, com-
"" , • prava escravos de negócios menos prósperos do Norte, Outro
,!:,,,,",., olho enxergou o andamento mais tranquilo da Espanha que co-
.. ,. t..._ gi~ ria...de filhos de escraxas à rnedida....que nascessem e de
es~ avos com mais de sessenta anos, A Libertad de Vientres fun-
0 cionara em várias partes da América - Chile, Argentina, Vene-
lJ - .. • • - • " ( ,\,.,, " • \ \ (,.- • <- .,
_ (,hl"' ú e, ,..._ b..,, -- _, '- ""\ ' • \ \.., ~- \ \ J 1
=> zucla, Peru, Colômbia, Equador, Uruguai, Paraguai - e nas co
Iônias portuguesas.
Esse passado serviu para~ futuro brfil!kir.o cm li vro,,
ai:!j~os ç propostas de lei no Brasil, ~~ proliferara ':!!. a partir dus
anos 1860. Aurélio Cândido Tavares Bastos, membro cio PaniJu
Liberal e seguidor atento da cena intern~cional - corrcspondia-,c
c;;; a British and Foreign An~ Society'-, via a cscravi-
d!i.Q como causa da miséria moral e material do país. Seu alviirc
era extirpá-la aos poucos: aplicar a lei de 1831 (qyç libert aria ns
africanos chegados desde então) concentrauSCGlllQS-1)0 campo,
t ,u,,\• \ axar sua posse nas cidades, proibi -Ia a..estr_augri[Q_u prover
~- "''°'"\ 1 ~ancipação grCld nal par meio de um pecúlio..para.a con1pra de
\ , • ,/ \ ~ ias. Iihertações an uais à custa do Estado e data -limite para
cabarsgm a instituição em pr.OV-Í·MK1-S-€0m-poucos ca ti vos. A
\• " - .
, , J-- abolição era parte de agenda modernizadora rematada com pc-
\ ' quéiíãpropriedade, imigração e exPlll).S.iiç da.rede viária. Já o Con-
servado~ ostinho Marques Perdigão Malheiros, igualmente
relacionado com a Anti -Slavery in~,-ªPºntou em seu li vro A
e;;;.avidão no Brasil: ensaio histórico, juríclico, social, saído en1re
1864 e 1867, o caráÉ_Ljurid.icamente ~ uído do cativeiro _
em vez de emanação~ natureza~ já_discursara na Or-
dem dos Advogados por uma Lei do Ventre Livre, à maneira do
que se discutia na Espanha. O senador e visconde de Jeq uitin ho -
nha foi mais lon~ Para Estados Unidos, Rússia e Brasil , o pro-
blema era mais sério que nos impérios francês, holandês e portu -
guês - escravistas em colónias de ultramar -, pois a escravidão
vivia nas entranhas da nação. Para evitar uma guerra civi l como
a estadunidense, propunha solução à russa: abolição em quinze
ânos, sem indenizacão aos proprietários de escravos. Propostas
c;J;;;-o as desses três pingavam intraelite, extraparlamento. Todos
~a de resposta l P.ergunta de Tavares Bastos: "Como se poderá
chegar à abolição sem revolus:!9?". '°
32
A resposta era difícil. Apesar do declínio com o fim do tráfi -
co O volume de escravos seguiu alto. O censo de 1872 contaria
1 ; 10 806 deles - ou 15,2% da população brasileira. Proporção
maior em Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro, que,
. t s abrigavam 61 % dos cativos. Dentre os flu mi nenses, a pro-1un o , - -
porção era de 1 ,67 livre para cada escravo." . . .
- Se a demografia jogava a favor do escrav1smo, a geopohllca
oferecia contrapeso. Além de antiabolicionismo doméstico, os
in leses passaram à campanha internacional. Em 1864, quando se
angunciava O desfecho da guerra estadunidense, a British and
Foreign Anti-Slavery Society enviou uma petição pelo fim da es-
cravidão no Brasil a d. Pedro 11 . Naquele janeiro, o imperador
escreveu ao chefe de governo, Zacarias de Góis e Vasconcelos, que
os acontecimentos dos Estados Unidos "exigem que pensemos no
futuro da escravidão no Brasil, para que não nos suceda o mesmo
que a respeito do tráfico dos africanos"_ Isto é, para não sofrer
novo aperto externo. Membro da Liga Progressista, dissidência
reformadora do Partido Conservador, Zacarias tinha na biografia
a pertença à associação antiescravista Sete de Setembro - Socie-
dade Ypiranga e, como advogado, pleiteara, em...! 863, alforrias em
~ ~ chefe de governo, atentou para a questão ser-
vil, mas faltou-lhe o tempo para providências, pois teve gover~
relâmpago. de janeiro a agosto. Ele saiu do mini stério e ela, da
pauta das instituições políticas.
Era o rumo contrário ao do resto do mundo. , Em 1865;\o_
norte abolicionista venceu nos Estados Unido.s...rn.m o assassina-
i)
1
o,,\ to do,:fresidente Linco'-1lE5>r rescaldo. Ato contínuo, em julh .;-Je
, \J. 866.,a Espanha deu cabo no ~ ara suas colónia-;; acelerou - ~ - :--:---"-:=~ ===::.:..!:.:::.:.==- -
, , , as discussões de Lei do Ventre Livre e dos Sexagenários." O Bra-
-.,..i, ~ . . L -- ---
C.", ,,.,,., \ si! ~sulava, e:!!_~ vistãt-
\-._
33
O ESTILO BORGES DE ATIVISMO
Quemleu.O~eu. de Raul Pompeia, tem imagem sombria
de- Abílio César Borges, modelo para o temível Aristarco, diretor
do internato que nomeia o livro, versão romanesca do Colégio
Abílio, onde Pompeia estudou. Outros alunos apreciaram mais 0
mestre, um se lembrava dele como homem sensível, comunicati-
vo e entusiasmado, que ria e chorava em constante comunhão
com seus alunos. 14
O professor tinha barba à inglesa e levava sempre cartola.
Esses modos aristocráticos se temperavam com orientação mo-
dernizadora. Era dos poucos oa elite irope,ial disposto a discutir
a abolição na sociedade, enquanto ela emracava no sistema poli -
!~ Outros pareçjdos caro ele confor.mar-amr enu:e 1850 e 1860,
três poíos antiescravistas, cada um com duas associações."
No Rio de Janeiro. além da~ete de Setembro - Sociedade
Ypiran; ) surgida em 1857,aparecera no aniversário da Indepen-
dência, em 1850, a Sociedade contra o Tráfico de Africanos e Pro-
motora da Colonização e da Civilização dos lndiÕs (SCT), povoada
de 215 sócios, modernizadores da eli~ al como Borges, que
enviaram ao governo projeto defendendo o ventre livre com in -
denização aos proprietários, incentivo à imigração e à pequena
,, propriedade. 16 A SCT estabeleceu relação com a British and For-
t''º,;,- ' ,. eign Anti-Slavery Society e começou a promover m eeti11gs, mo-
" ,. delados nas reuniões públicas inglesas. 17 O abolicionismo brasi-
-:-- ~ eiro esteve desde aí vinculado à rede estra~ i':.'.:....
~- Outro polo abolicionista apareceu em Pe~ mbuco, ~ de se
' ' formariam duas associa ões mais ao fim da década. O terceiro foi
na ahia, com a~ cie~de Libertador_-ª.2 de Julho, organizada em
1850 por alunos da Faculdade de Medicina, mas tendo entre seus
memhr.os.o.s_enador Jeguitinhonh a. A Libertadora fez, em Salva-
dor, em 186~_!'imeira passeata abolicionista no Brasil. A rama-
34
. -_,.,.ro ,.soc~~o COJll o .2.de Ju!bo da ta de
~ da.I.n<lepeodêo&ia Outra associação baiana teve
e~ nos leva de volta ao professor de Raul Pom-. consequenc1a
mais M 'd 'co de formação, transmutou -se em . Abílio Borges. e i b d
peia, d 1 h ·o de condecorações e títulos, mem ro e
d dor-mo e o, e e1 .
e uca t ' . como o Instituto Histórico, expenmen -·t •ções de pres 1g10, . d
insll u1 . . d r de associações civis de apoio a e u -d filantropia e ena o
ta o em d • a massa lançou O Gymnasio, jornal pa -- Homem e mao n ' . .
caçao. princípios pedagógicos, e m o ntou um coleg10
ra propagar seus B , 1 .
Sal d ViaJ·ado circulou po r Inglaterra, e gica, ara órfãos em va or. ' .
P ItT Suíça Argentina e Estados Umdos, e Alemanha, França, a ia, ' -
' todo novo de ensino por persuasao, sem trouxe dessas partes me .
. introduziu em seu Ginásio Baiano. Era uma escola castigos, que
à 1 'mílias de nome da província confiavam seus moderna, qua ,a
filhos. No discurso de abertura do ano letivo de l 86~, bradou que
0 estudante não devia ser escravo de seu mestre, pois toda escra-
vidão seria contrária à natureza. 18 O paralelo orientou sua cam-
panha an__!jp~lmatória na.imprensa, que desembocou em crítica
ao açoite nos escravos. Borges não mantmha cativos nem em casa
nem em seu colégio e demandava aos alunos que não os lroLLxes-
sem consigo.
Cosmopolita, conectou-se à rede abolicionista transnacional.
G'.uma de suas viagens à Europa, em 1860, tornou-se membro da
1/ufi>' British and Foreign Anti-Slavery Society de Londres e estreitou ~,,.v laços com a Sociedade Francesa pela Abolição da Escravidão, que
il-'' ' "'~ combatera o escravismo em colónias de seu país. Um membro , ...
1,,,"' .,,.dessa última associação contaria a ideia que lhe insuflou aquele
• · :' / "abolicionista decidido do Brasil", de preparar juntos uma petição "'" \
' ,."1.-,i\\ ao imperador brasileiro. 19 ~ ges pertencia à aristocracia imperial , j
com acesso à familia imperial , mas apostou no vexame externo ,..., ---:---,;-;-- .
,,.. ::,,_ como meio de levar a questão à pauta. De suas alianças na Europa
1
-\, " ~ ' nasceu uma p':!_ic;~o emancipaçjpnisJa.ass~or ~ líticos fran -
35
ceses eminentes, admirados nos meios brasileiros, que, interme-
diada pelo Ministério de Assuntos E.slr.augeiros da França -h · - · .~ ~ou
ao imperador em julho de 1866.
O do_cumento embaraço~. Pedro. Arranhava a reputação
do lmpéno aparecer como terra escravista. LisonJ·eado · 1 _ __ -- , e 1gua -
mente preocupado, com a atenç.âl, deJuminares europeus, res-
pondeu reconhecendo a movimentação da opinião pública no
Brasil pela abolição, mas ponderou que a ques~o era difícil e sua
, u,, < .. solução dependeria de ('for~a e oportunidade". Assim foi que 0
, • pequeno ciclo de associativiSQ!9-.fil1.9ilciQ.nisJa dos anos 1860 ai-
, ;· •: .cançou~ por efeito Q_UI~angue: a estrat~gia de Borges, de
, ''' -aliança ~ iQQ!!IBas estrangeiros, atingiu o sistema políti co
\ f brasileiro e empurrou a questão de volta à agenda institucional."
Em 1866, também.a-guerra contra o.f~!l!!ªi.9brigou a rein -
serção da escravidão na agenda. O consórcio bélico com Argen-
'-' tina e Uruguai convidou à comparação entre os países da Améri-
ca do Sul, que o Brasil liderava com pés de barro, uma vez que era
escravista entre nações de povo livre. Críticas vinham "do Semn-
~}
0nário paraguaio como da Revue des Deux Mondes, dos congressos
, ,.,.;., pan-americanos, como das caricaturas porteiias"." Além da má ---
., ,.) reputação, a frente de batalha consumia cadetç_s aos magotes e
, ... '' "'xo~g,QllJ) Conselho de Estado a discutir a eng9rda.Aa tropa pela
"\ '_" conversão de escravos libertos em soldados.
"'"--.e· Um dos conselheiros, o Conservador visconde de São Vicen-
-~"', ,, , te, achou a ocasião propícia para a conversa, visto que a Espanha
' ',-' estudava medidas emancipacionistas para suas colónias e, no es-
\ · cravismo, "resta só o Brasil! Resta o Brasil só!". ~lLJ_com-
P:01ava a kgislação-antiescra'i.ista das Amé_rjca~ e ,ia Europa e
redigiu cinco projetos de abQ\ição gradual, cujo fulcro era o do
" .,\ • ' \ programa de 1852 da SCT: o ventre livre. O jornal do partido opos-
• , '-' to, o Opinião Liberal, defendeu, no mesmo momento, a substitui -
,,,,,. ção do trabalho servil pelo livre.
36
vl,1.,"...,. ~glllllQ...ili!Çonselho de Est;,.do, an_cjào_s_do temlliU!a ,
\', .,..,h crise do fim do tráfi co, fez coro CQ!ll o_utro ConservadorL o viscon-
'(v.\• "' ' ' \ 1~1t;;boraí, que, embora reconhecesse a pressão estrangeira ,
, "' ~', .;;;:;t"ra a escravidão, temia mais a expectativa da liberdade futura
1 • <
, . ., ~•} q;;;" 0 ventre livre produziria nos próprios escravos, um incentivo,
.., u"'\ \. . julgava, p~ insurreiç~es.
v ".., ..,.v A conta-gotas, a questão se infiltrou num sistema político
\,.. ~"' que andava longe de ser simples. O Poder Moderador indicava
\',.,' .. ,.,,. chefe partidário para montar gabinete, que chamava eleiÇQes para
, ,~_.,., compor a C~ ontudo'.. a ~ acidade de agenda do impera-
' <> , , - do~dois contrafortes: Senado ~Conselho de Estado, vitalí-
•\•'" ~. cios, por isso mais independentes qu;~utâoos, e ocup~ s
' --zç• por políticos tarimbad!;!;', conl_[orça para frear projetos ou decidir
r-' "' 1 s~- Isso se viu em 1867) quando, pesando a abolição feita
• •"'~ nos Estados Unidos, a caminho nas colónias espanholas, e a ima-
gem externa do Império na hora em que d. Pedro planejava ir à
Europa, Zacarias, de novo à frente do governo, devolveu o pro-
blema ao Conselho de Estado. Mandou aos conselheir~
je~e São Vicente e três perguntas: se era o caso de abolir e, se
sim, quando e como. Discutiu-se nas sessões de 2 e 9 de abril
quando o Liberal Nabuco de Araújo exortou: "Está abolida a es:
cravidão em todo o mundo cristão. Só resg_no Brasil;;:;-a Espa-
nha". E a Espanha avançava, preparando lei de libertação de nas-
cituros e idosos. 22 --~
O Conselho não se comoveu com a confluência entre O Con-
servador São Vicente e a base do governo Liberal de Zacarias. Mas
a coalizão teve seus efeitos. Formou-se uma comissão de estudos
s~bre o assunto e a ~ala do trono de 1867 frisou ~ o tema deve-
na ser tratado no ano parlamentar, porém com cau tela: "respei -
tad_a a ~ropnedade atual,.e sem ~ lo prqfundq,em nos; a primei-
ra mdustria a agric lt "I Z,~~;;;. --..! u ura -, ~ ap~ u a con1i ss~lo para
\
formular parecer, djscutidQ e~ il e maio. Seu epicentro era
o ventre livre 23
Homens como Abilio Borges teriam feito girar essa roda, mas
modernizadores como ele investiam em associações civis e arri ino
estrangeiro porque_ achaYam ouvidos moucos na Câmara e
11 0
Senado, onde a abolição era o melindre dos melindres. Assom-
brava a ordem política, dada a guerra com o Paraguai, ;-,;rneaçava
a econômica. A in~~çâo de capital do tráfico negreiro dera
as bases econômicas P.fil:iL\!_ma_ga douJ ada do café no Yale do
::. \ l araíba, turbina@_ obras de infraestrutura, estradas,rnelhoramen-
--- tos urbanos e empresas e negócios, como as do sócio de Rebouças
•.( barão de Mauá. Se o país carecia de braços, a abolição soav~
orno um contrassenso.
O imperador se yju.ante.Jl@iQ.ri;ul_g políticos contra e poucos
em favor de avançar a abolição. NQ..f0.!)1eço de seu reinado, lidara
com líderes Conservadores fortes, responsáveis pela montagem
das instituições do Segundo Reinado. No entanto, à medida que
i,. ,, desapareceram homens como Eusébio, o im!)erador passou a jogar
\
com os partidos, beneficiand-9 ora um, ora outro, para não se apri -
\ , l ionau or nenh_um. Quanto à escravidão, oscilou entre conduzir
' e frear reformas que abalasse'!! o delicado equilíbrio sobre o qual
,_ se assentavam seu poder e a própria monarquia. Assim foi que
apOiQ!;!2 emanci~ ionismo Liberal de Zacarias, em 1867, mas, em
face das injunções da Guerra do Paraguai, não titubeou em trocá -
-lo pelo escravismo do S:_onservador visconde de Itaboraí em 1868.
Jtaboraí tr_ouxe do café do Vale do Paraíba urna profecia: a
aJ29lição traria assassinatos, insw:r.eições e mesmo a guerra civil.
Seu ministério reuniu a fina flor dos Conservadores mais avessos
a qualquer mudança no statu quo, apelida-9os g_e Emperrados.
Entre eles estavamJJaulino Soares de Sousa, seu sobrin ho e her-
deiro político; o ardiloso barão de Cotegipe, que conheceremos
melhor adiante, e o virulento José de Alencar, que todos conhe-
38
cem. A nomeação pelo imperador desse governo ultraconser~ador
~a Câmara Liberal gerou crise polít!,;_a e tirou a abohçao de
novo da agenda instituc~ nal em 1868."
~ ise teve efeito inesperado. A briga intraelites ~ por-
tunidades para a expressão de vário~ gên; ros de crítica às institui -
ções imperiais. Isso porque, em I 869, os Liberais protestaram
contra sua derrubada do governo no espaço público. A facção de
Tavares Bastos, autointitulada Liberal Radical, armou jornais, clu-
be, conferências públicas e manifesto, que demandavam o fi m
gradual da escravidão e modernizações política e econômica_ Os
mais moderados, caso de Zacarias, agrupados no Centro Liberal,
ediram o ventre livre em manifesto. Essa movimentação, ao at.5:s-
~ar a existência de facção reformadora no sistema e olítico, legi-
ti~ o debate público sobre a escravidão e indico u possíveis
aliados para as sociedades í1bolicionistas-0ent-r-o tio esquadi:o.ins-
tituci~ ssim, contr; inl uiti~ ~. o associativismo aboli-
cio~ resceu durante o gabinete escravista de Itaboraí e no
enrafço da movimerna_ção do.sJ,,.ib.erais,.quando..ru;sociações a~
receram no Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão,
~ as Gerais, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do
Sul e São Paulo.25 ---Er~ bolicionismo de elite. Os membros das associações
l<\ J\"'' · h . · d 1- · 1 · d b a: .,......4 proVlfl ..!!11~ª ma1or..!._a, a e 1te soem : v1scon es, arões, ocupan-
"'" ~- tes de bons Rostos públicos e com acesso aos partidos. Mode-;;i-
o),\• z~dores - vê-se pela inclusão de senhoras em várias associa-
i çoes ~ a cesta de reformas incluía abolição gradual, imigração
dd --'"' ' l,. e pequena prop~...;- Homens c~ m um pé na política de dentro,
.1... , .. \.. outr~ na de fora das instituições. Nada de radicalismo, mas mes-
'-"' \, _.., mo assim perturbadores para um ~íhco q ue houve por
bem discutir o fim do tráfico em sessões secretas em 1850
.,, ._ As novas as; ociações ~ ~ eçaram a fazer p;:;;~ anda ~ública
11,.,,,'.\ em prol~ o ventre livre. Arrecadavam doações pai'ããl tornar es-
1 , \ 39
cravas jovens em cerimónias que vinculavam abolição e Indepen-
dência. Ritual elaborado apareceu com a Sociedade Libertadora 7
de Setembro, fundada em Salvador, em 1869. No comando de 512
sócios, quinze deles mulheres, estava nosso conhecido Abílio Bor-
ges. A Libertadora pôs na rua o jornal quinzenal O Abolicionista,
que noticiava a história internacional do abolicionismo, com foco
nos andamentos de Porto Rico e Cuba.
Borges conhecia o repertório a~~~sta britânico, mobili -
zador, que combinava lobby, associativismo, panfletos, manifestos,
, jornais e manifestações públicas, Mas não podia simplesmente
,~," ,,~'' (eproduzi-lo. O abolicionismo inglês,.assim..ç_om.Q.Q-êtadunidense,
-F- contou com estrutura organizacional religi!?sa de quakers, como os
, .,que visitaram a SCT nos anos 1850. As capelas protestantes deram
\-,•', base para a propaganda. No Brasil, o quadro era outro. A Igreja
';.J. católica era parte do Estado. e o catolicismo, religião de Estado. A
,/ i,.=-:<•' sobr;Posição de estrutura religiosa e burocracia pública gerava
1 •'fpadres-funcionários, sem independência para criticar as institui-
• -~,.-,\ ões estatais como a escraridão ante.s..ifilm.bjd.Qu!e legitimá-las.
,',.Tal configuração compeliu os abolicionistas daqui à busca de arena
e modelo litúq~jco lajcos para sua propaganda.
'-' B~~ .l>J,U l.Q..espaça.p.úb~cOJ!XtrapaÀ&mentar que os
Liberais Radicais olitizavam, sãlões de agremiações; escolas, Câ-
maras municipais Promovia festas cívicas solenes em seu Ginásio
Baiano, em 2 de julho e em 7 de setembro. À frente de uma mesa
com toalha verde e bordados dourados, "calcando aos pés a igno-
rância e o vício", exortava ao patriotismo. Professores discursa-
vam e alunos da elite baiana cantavam e declamavam. Borges le-
vou o rito e seus praticantes para o abolicionismo. No dia de seu
nome, em 1869, a Libertadora 7 de Setembro organizou bazar e
leilão de objetos doados, com fundos revertidos para alforriar mu-
lheres e crianças. Fez também uma cerimónia cívica para a entre-
ga de cartas de liberdade. Sem contar, como os abolicionistas
40
"--\-1,ú ricanos, com o espaço da igreja, !!sou o do teatro . Na
'\C/ <:S~~úanglo-ame b d 1869 houve música e poema:
l sessão de 1 • de novem ro e '
Não desesperes, ca tivo!
Levanta tranquilo a fronte:
Vai-se aclarando o horizonte
da tua sorte infeliz!
Tu choras/ ... mas nessa lágrima
Que no teu rosto flutua ,
Se há desonra não é tua ...
É toda do meu pais!"
A grandiloquência romântica, Borges intuiu, tinha poqer
mobilizador. Alocou professores e estudantes do Ginás10 Baiano
nesse serviço. D~ntce eles brilhou António de Castro Alves, que
o Abolicionista, onde Borges o pusera a escrever, alcunhou de
"Poeta dos Escravos". O moço levou consigo a ideia, quando ma-
triculado em direito em São Paulo, como se viu em sarau dos Li -
berais, em 1868. Declamou então versos engajados. "Tragédia no
lar" propagandeava o ventre liVTe, como a Libertadora, ao dar voz
à mãe escrava:
- Escrava, dá-me teu filho! [ ... ]
Assim dizia o fazendeiro, rindo, [ ... ]
- Perdão, senhor! perdão! meu filho dorme ...
Inda há pouco o embalei, pobre inocente,
Que nem sequer pressente
Que ides ...
- Sim, que o vou vender! [ ... 1
Senhor, por piedade, não [ .. . ]
Por piedade. matai•me! Oh! f. impossível
Que me roubem da vida o único bem! ( . .. ]
41
- Cala-te miserável! Meus senhores, ,
O escravo podeis ver ... E a mãe em pranto aos pes dos mercadores
Atirou-se a gemer.
- Senhores! basta a desgraça
De não ter pátria nem lar, 1 • • • 1
Deixai à mãe o filhinho,
Deixai à desgraça o amor. [ --• 1
A criança do berço ei-los arrancam
Que os bracinhos estende e chora em vão!
Mudou-se a cena. Já vistes
Bramir na mata o jaguar [ ---1
Assim a escrava da criança ao grito
Destemida saltou,
E a turba dos senhores aterrada
Ante ela recuou.
- Nem mais um passo, cobardes!
Nem mais um passo! ladrões!
Se os outros roubam as bolsas,
Vós roubais os corações! ...
Os apelos da escrava, que resiste ao perder o filho, eram ape-
los do poeta à audiência:
Leitor, se não tens desprezo
De vir descer às senzalas, [ ... ].
E sangra às vezes piedade,
" E sangra às vezes remorso? [ . . . ]
).. \ •·'' . ..,J o J j,•"'
e O abolicionismo acho~ palco no espaço público e laico
" '\ Essa localização da propaganda a infundiu de artes,
que abocanhariam o quinhão que no abolicionismo anglo-ame-
ricano coubera à religião. A~~s cívicas de Abíl ioBorges
u
. . de d ramatização da esga_vidão e apelo aos senti-·am ntua1s · . - N
sen - 1 ndo a abolição como nova I ndependenc1a. e-
entos, cone ama 87 1 i 1
•>\.1 • m 't los de alforria foram concedidos de 1869 a 1 •
L ,, las !91 11 u . d . .
n..--'l ' . , stilo de ativismo ancorado na dia e assoc1at1 -v--h _, -Definiu-se a1 um e . . .
)., : . - 1 · ônias cívicas, o estilo Borges de aUXlSIPº · ,,......, vtsmo cenm - 1 d
, ' ~ t, til multiplicaria por relações professor-a uno, e apa-c~ • -J-'' o es o se . -- . . ~,,.u~ . h 10 trabalho, amizade, compadrio, consangum1dade.
/ Lt<' dnn amen ' - . .
, - , - a·s profícuo mas não o único dos paone1ros que, r-->""' Borges 101 o m 1 • . . .
,..,. - , · ram como articuladores mterll!.'ac1ona1s. Ho-
1 .._....\ longevos, ,unc1ona ::..:::.;;=--- _ . _
.,. J' 1 s transmitiram suas técnicas aos Jovens, cond1çao mens-pon e ' , .
mpanha perdurar e se expandir no espaço pubhco. N~ para a ca _ .
d B ges O ativismo de ehte precisava desabrochar em e or • .
b ·1· -0 soc1·a1 O Abolicionista defendia suplantar o carater mo 1 1zaça • . . =-:-
\)
fi!a~ pico da compra de alforrias em favor de mobahzar a o p1 -
\ niã~ "[ .. . ] trabalhar para que_em todo o Império circule
e se aprofunde o movimento abohcaomsta. Para que por toda par-
te radique-se nos espíritos a convicção, e nos corações o en tusias-
mo; para que a nação inteira proclame em altos brados a necessi-
dade urgente de extinguir-se a escravidão".28
O ESTILO REBOUÇAS DE ATIVISMO
Nos diários de André Rebouças pululam óperas e obra_s: de
dia, canteiro e trena; de noite, trinados e falsetes..-<iJ,artir de 1868,
novo assunto foi assoreando os d~!!)ais: a escravidão., Durante o
terceiro gabinete Zacarias, quando a questão entrava em pauta
nas instituições política_s, Rebouças com eçou a opera_r como abo-
licionista.
Na lida com empreendimentos, aproximara-se da SCT e de
Tava~es Bastos, seu parceiro na Companhia das Docas. Essa ~
convtvênc~ ntammou ~om agenda tríplice: pegue~ proprie-
43
V,,de, ;m;g,,ç" e "E''"° dos «,ospon~ . • Reboo~s ,n,b'"
' 0 bastão dos modernizadores mais velhos. Mas, a~ por
abolicionista, i.!J!gou gue, além do estilo Borges, de associação,
,, y \. arregimenta~ (loio internacional e cerimô_nias cívicas, era
., \• preciso ir pelouneandros.,das instituições. T~sferiu para a po-
lítica seu modus operandi de eme_resário, o lobby.
A experiência com obras viárias lhe ensinara que delibera-
ções cruciais dependem do núcleo do governo, que se pode pres-
sionar, jamais ignorar. Seriam duas tarefas interligadas: persuadir
a sociedade e fazer andar o Estado. P~ an~ar sua extensa
rede de relações interpessoais..,tãiu:mcial..na sociedade de corte
para assoprar ao ouvido de autoridades e construir pontes entr:
,, •· • o associativismo abolicionista e o governo. O lógico, pensou 0
):, ~ôm,stra~ o centro€ mperador, ao chefe de gabinete, ao
·• 'i. , marido do.J!2!1,g,,
\ Este último assumiu o governo do arrasado Paraguai, perto
do fim da guerra. em 1869, e lá aboliu a escravidão. A Anti-Slavery
inglesa aproveitou para enviar nova petição a d. Pedro e, no ano
seguinte, outra ao próprio conde D'Eu. Rebouças, que circulava
pela casa imperial, viu o efeito da conjuntura externa sobre O im-
perador: em maiÇ},.de 1869 assistilk.O.dizer.._que o país estava de
e~ão entre as naçfu:s.ciriliz.a.~ e._er.a.p.(.ecjso fazer "alguma ·•
coisa" pela emancipação.'º
\ C~ eus 2!.9-~ltij>los, Rebouças se plantou como ar-
entre elite soci'![,\sociedade de co,!!e,_e sistema político.
Tinha capacidades e laços para tanto, pois, lembraria adiante,
"fui, em 1870 e 1871, o primeiro empresário do Rio de Janeiro".
Pa!.'a cimentar;,_a p.Jl.n!.e..entr.e,.fillt~scravistas da sociedade e as ins-
" tituiçW, ideou, em abril de 1870, uma Associação Central Pro-
\' • tetora dos Emancipados. Em sessão pr~arató ria, discutiu -se que
a s~ edade ~ edjç:i;:ia ;-;;;ancipar o; escravos por meio de
seguros de vida. Rebouças levou um projeto de lei nesses termos
44
O
o a ntiabolicionista Itabor~. Na faina de en -
h fe de govern ,
á . encetara amizade com esse visconde, como
heiro empres n o .
gen · t ·cas Poucos ho mens podiam ser mais ante das materna i . -
ele, am . m sinceramente. Jtaboraí o cham~a de
opostos, mas se apreciava -- -- ---
.. _:;;-;;u ingl~ ' , · _ 1 não batia pela abolição. Jtabora1 era vis-
Esse coraçao mo e . .
- etendia viver os mais que lhe restavam de de setenta anos e pr . •
c~ e.--- l 't ' Seu " inglês" se obcecara pela abohçao , m enxa~cas po i icas. . .
S;,;.;-- . m todos os seus projetos, e replicou ao VIScon -como acontecia co
- · "despeitos nem cansaços quando se trata de ser -de que nao teria .
.- B ·1 e a· Liberdade". Foi ao príncipe.consoae. de.onde..s.y,µ virao ras1 , \\~2;:;::::.:::::::2:::,::i.~,~:::::,~::;~ 1 prometeu a Rebouças que consultaria o ministéri.o a.J:espei to.
~ tentava erodir a resistência do chefe de governo da mes-
ma maneira como arranjava seus empregos, por peregrinação.
Falou a deputados, circulou pelos bastido res do ParlameJUo, im-
11.ingindo o ·eto a~em~~se._füs seu estilo de a ~
]obby\ articulação. isava criar consenso mínimo entre membros
da sociedade de corte das jnstjtujções políticas e da elite soçjal e. , /
aiim acroac..o-apeie-<jue-a aooliç-àQ.não,p.=w.i.,
Seu método foi eficiente em produzir agenda, mas não ven -
ceu a légua entre acesso e influência. Itaboraí deixou as palhas
onde estavam. Q.i;,Qnde D'F11 ccilicado poc lodo lad o por ter fei -
to a abolição no Paraguai, tampouco era o entusiasta gue Rebou-
ças supunha. Disse gue eram bons os projetos de lei e d e associa -
ção e se safou. Como oposições só endureciam seu pr~ p~,
R~bouças reagiu com ~~o. Sin to nizou vida privada e
publ~ca'. em Junho de 1870, quando libertou Roque, Júlia e Emília,
os tres ultiooQSs....escravos d.e sua casa )z
45
V
DE VISCONDE A VISCONDE
Mais que o ass~m.sct;r d R b ·
, . ~ o e e ouças, o visconde de
ltabora, sofria az.ucrinaçõ_i::;jnternacionais. Em 1869 A • -
b . . . , - , , a ssoc,açao
A ohc10111sta Internacional de Pans enviou moção e
O
Anti-Sla-
very Reporter publicou carta do senador Nabuco de A--=-r · · -
auJo em
defesa de~ ida emanci~ cionist!:, Os abolicionistas estaduni -
dense_s contataram o senador, talvez animados pela prevista erra -
d1caçao da servidão no Alasca, adquirido pelos Estados Unidos
junto à Rússia, a realizar-se em 1870.33
Também em.1&:zo..acabou.o.litígio.bra.sileiro com o Paraguai,
usual subterfúgi2,P.ara adiar a mexida na escravidão. Mas
O
Con-
selho de Estad2 e_o~ arlamenlg,_segµ~ alados. Nada aconte-
cera e, a depender de ltaboraí e de seu braço direito Paulino Soa-
res de Sousa, nada aconteceria. ~ imperador escreveu ao chefe de
gab~ e que seria um erro evitar, na fala do trono, o assunto a
y ~- ~ espeito do qual "todos parecem ocupar-se menos o governo"
, \ ~ Não que s;; declarasse abolicionista, pois esclareceu, em reun ià~
, do ministério, que "havia de opor até a última [possibilidade] pa-
a não fosse alé_rn._m liber4ªde do ventre". O Barão de
,),Cotegipe, que narra a cena e era parte do gabinete, respondeu ao
soberano que os_Conservadores tinham aceitado _o ministério com
a condição de não bufü· ~ se assunto e, de fato , a fala do trono de
1870 saiu sem menção a ele
Na Câmara, porém, u~ issidência Conservadora acossou
o gabinete, para que ~e posicionasse sobre a liberdade do ventre e
crias$ a COJl1li~O Es~ial de Emancipação para discu ti-la -
aquela 4!,!~ 0vemo Zacarias fracassara em levar adiante. Rebou-
ças estava nas galerias: "Assisti, com a maior emoção". VLt.i_ a in -
terpel~ o gue um deputad'? fez_ ao visconde de ltaboraí, n ua
r~ osta, g~ elebrou, fora conforme ao que tinham combma-
dQ/ ' isto é, não OQstar a Comissão, criada com cinco membros.
46
1 - -
. nfabular com eles. o episódio exibiu fratura as foi Jogo co .
~ =--- d . uma ala modernizadora aE9iava os_pro-rtido Conserva or. = ,
no Pa _ . te contra osEmperrados de Itabora1. .
j~ Conservado res deu relevo ao pos1C10na-E e racha entre os . 1 d
_ s_s_ -.1 Lºberal em endosso à Com issão Espec,a e deuma a a, -- . , .
me~ -:: d da apresentação do projeto as Camaras, em cipaçao quan o
Eman : . •t líderes de seu partido p ropuseram um Zacanas e mais o1 o
agosto. m,·ssão isto é para comprar cartas de úblico para manu • ' _
fu
nd
P Um deles externou o temor dessa facçao d de para escravas.
Jiber a . . d overno em face do avanço dos abo licionis-
0 imobilismo o g . .
com . 1 doméstico: "O maior pen go desta causa e a internac10na e - -
mos d [ ] 0 pouco serve hoje, o muito amanha nao basta ropagan a ... · • .
.. ];( . .. ]não quereis ter os inconvenientes _eco_nomICos po r que
[ Antilhas inglesas e francesas , arnsca,-vos a ter os hor-passaram as . . .
- D · os" 36 Duelavam a ratio poht,ca e a ra t ,o eco-rores de Sao ommg .
nômica.
~ ias propostas circularam então nas instituições e em pan-
fletos; insistia~ seguir o exempl_? espanhol , q_ue, em JUlh~ e
1870, aprovou a Lei Moret ou de vientres libres para _v,gora_r em
Cuba e Porto Rico. A medida libertou os nascidos dah po r d ,an t:
e os es';;avos sexagenários, com indenização aos proprietários. '
Esse ato estrangeiro encurralou o sistema político brasileiro. Mas
a facção Emperrada dos Conservadores resistia a tudo, com pro-
testos de Paulino Soares de Sousa e José de Alencar à ideia do
ventre livre. Itab.QtilÍ...gjante da d iYisãQ de seu~ar tií!.Q..preferiu
jogar a toalha a cedet:J)eixou Q governo.
Ant.!WlJ>istema político cindido, d. Pedro II no me~ Vi-
cente, afinal autor do p rojeto do ventre livre discutido no Conse-
lho de.Estado em 1866, para a chefia de governo. Isso em fins de
1870. Rebouças, leitor de Benjamin Franklin , presiden te da Asso-
ciação Abolicionista da Pensilvânia, sabia que "Tem po é dinhei -
ro", por isso abalou-se ao novo chefe de gabinete, com projetos
47
V,b,;,m do brnço. ""• po•ém <m oada lemb -
' rava o visconde
tecessor, sendo antes homem suscetível e irresol t 38 an -
, . u o. Nenhu
pohttco relevante topou compo r seu ministé - S m
, . no. em aval part i
dano, sem aml'!!:2,9utro que o Poder Moderad ~ . -or, suas m1 ciativas
apenas a1;rofundaram o racha no Partido Conse d ' rva or entre Em-
perrados e Reformadores. ~e..fu:ou num 1· b
- - , · ~ -- Im o político
e durou quase que so até as férias p~ lam~ntares.
NO TEATRO
Sempre alinb.ada_mas...de,_itQ.lli:-º--.enfeig,, Rebol}Sas trajava
casaca no dia 2 de dezembro de !820.JUlla sexta-feira. Aficionado
da ópera, estava, como toda a nata social do Império, em expec-
tativa. Carlos Gomes, novo prodígio nacional apadrinhado pelo
imperador e celebrado em Milão, estreava a ópera-balé O guarani.
O Teatro Lírico Provisório regurgitava aristocratas em pompa,
que vinham ver o espetáculo de gala em celebração ao aniversário
de d. Pedro 11.39 Oj__mp_t!radar..c.eJebrava seus 45 anos, os trinta de
seu reinado_e o fim_qa g)!erra co_ntra__g Paraguai. O Império se
rejubilava.
À chegada da dinastia, a orquestra calou o burburinho com
o H...!!2QJ'!acional. Subiu o pano, Damas da Corte, estadistas endo-
mingados e líderes partidários conheceram a adaptação musical
do ro!I!ll!lfe dQ,ex-ministro ;i; Justiça e membro do Partido Con-
servadori José de Alencar. A orquestra sacudiu o teatro, com uma
banda italiana e os aimorés do corpo de baile. Em cena, o mito de
origem da nacionalidade, o enlace da moça de ascendência euro-
pe1ª com um indígena tão nobre quanto u~ aristocrata. No palco,
aventur.ejros esP.anhóis e portugueses, fidalgos e caciques, Cecília
e Peri, ning!,!ém da cor de Rebouç_ils.'°
O tempo da ópera era o passado remoto, o início da coloni-
<,G
, artir em senhores e escravos, antes de se
zação, antes de o pa1_s ~: ':nãe de todas as outras, a engrenagem do
generalizar a msutu'.~~ fundamental e táci ta. Os negros, ausen-
Jrnpério - a escrav1 ao, ·m montaram o cenário, d1ng1-
d stavam no caman • r
tP<do ~ - upas lus traram os sapatos, a, -
rarn cabrio e~ n d bocas d a p la teia com seus quitutes e seu
J..t- ongomaram as ro , - - -
_.... taram cada uma as
rn~ -7" da dizia deles.
' -' •º n uuar_ant na "d t do n ão tinham mais como ~ - d d - parti os,con u ,
Os líderes os o1s d tava o fim da escravidão em
__ , , ,1. J .e, Morei, q ~ ª . .
evitá-los. Qç~ ar o m o to-contínuo q u e, a p rópna
B ·1 estava entre ,re . h
Cuba, o raJ I . . , fi dos temnos o u restar lanternm a
oduz1na ate o 1f!L_.__ c-:;.2-- d -
sorte, se rep r . T do Para a minúscula a la mo erm-
- t do mundo c1v1 1za - _ .
escravocra a . . 1 ar o o.asso emanc!J>ao ~ a, I' - penal urgia ace er ---
zadora a e~ 1 d. S sa Dantas, ex-ministro do gabi ~ te
. ensava Manue e ou d
Assm~ p - - . d te da Libertadora Bahian-ª,JiUCeden o. em
Zacanasenovo pres•_!,!?__.. - - rte-11 Mas havia o
?ÔÃbílio Bqrg~u!le mudara para a Co · _
18 __:. d ma sociedade inteira escravista. Para defende-la,
contraponto eu , u1· S
b . ho e herdeiro político de 1tabora1, Pa m o oares
ali estava o so nn d d
S Conservador tão fino quanto obstinado n a guar a o de ousa,
escravismo. , .
No Teatro Lírico, Rebou as terá ouvido a n o ticia de ue,
além de Liberais e Conservadores, o Império ganhava novo par-
tido. Muitos Liberais Radicais desistiam da monarq uia e o fariam
saber no dia seeyinte a essa fest.;!,_Som seu Manifesto Rep ublicano.
Para fazer face às medidas em ancipacionistas em C uba, apla -
V:--. - car os Liberais revoltosos e co n ter o republican ismo, d. Ped ro
Lt..--. \ ~ ch~ m terce~ nd_!, o do Rio Branco, ~ ra com ~ ar
,1. 0 governo em seu calvário, a tramitação da reforma d o e lemento
(\. " servil, - - -
1 J .--u---roquaz e jeitoso, Rebouças terá falado com todos eles. Tra-
<>-- -
e.,._,, ,;\ ...feg~~ entre camarotes, corredores, antecâmaras do p o d e r , nâo
t , v,'\desistira do príncipe consQi:~ci;,.vw eptos para sua associa-
49
1 u ção emandp""""" Fez politk, e u,ufru;u do espetáculo. Tam,
que, à saída, estava de braços com Carlos Gomes, transformado
desde esse dia em amigo fraterno.
Ovacionou-se o maestro. Dos camarotes, senhoras lançaram
flores, senhores puseram-se de pé, bravos, bravíssimos. Carlos
Gomes tornou ao palco oito vezes; ao fim, arrebatado, foi carre-
gado pelos jardins. Rebouças, a aplaudir como louco,43 ficou no
miolo do frenesi, tanto no teatro como na rua, os cenários do
movimento de que seria a chave-mestra. Quantas vezes, de par
com José do Patrocínio, organizaria concertos seguidos de pas-
seatas? Mas, em vez de um drama guarani, encenariam a tragédia
africana.
Naquele 1870, maestro, imperador, partidos, cortesãos cele-
bravam a monarquia, sua ~brade civilização, sua nação inventada,
mas logo encenariam um enredo mais incerto. {!_~ido no aplauso
ao !fuarani, o Império estava e_m.y,_ésp_era__de_dilaª ramento. Em
n_gme d¾,çompaixão, do direito ,e d2. progresso, os que estavam
com Re_!>ouçâs exigiriam o fip da escravidãÕ. ~ 2. e sua legião
\ resistiriam -ª--ª"bolição, ~, ... ~fü:iam, poria abaixo a ordem imperial,
\\ ~ua econJ mia,\~ u1 sistema político, sua socie~ade aristocrática e
todo o esplendor daquele .~ia_ de ~la.
José de Alencar concordava. Libertar o ventre das escravas,
à maneira do que a Espanha fazia em Cuba, seria como pecar o
libretista contra seu O guarani: ao alterar a trama desvirtuara a
obra. O romance tinha final reconfortante, o mal naufragado em
dilúvio, salvos Ceei e Peri, pais da nação brasileira. Na ópera, a
impossibilidade de encenar a tempestade tornou o desfecho drás-
tico, com estouro de barris de pólvora e desmoronamento docas-
telo dos aristocratas.44 A explosão se anunciava também fora do
palco. Ao acabar aquele dezembro, chegaria o ano sem par de
1871, qu"ãndo a escravidão, bomba-relógi.oJlo Império: sairi<!.d.a
coxia p"ãra roubã"ro c entro da cena.
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