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Depressão – A tenebrosa noite da alma, de Edward T. Welch © 2011 Editora Cultura Cristã. Título original Depression – A Stubborn Darkness: Ligth for the Path Copyrigth © 2004 by Edward T. Welch. Traduzido e publicado com permissão da New Growth Press, 728 W. Davis Street–Burlington NC 27215, USA. Todos os direitos são reservados. 1ª edição – 2011 Conselho Editorial Cláudio Marra (Presidente) Christian Brially Tavares de Medeiros Filipe Fontes Heber Carlos de Campos Jr Hermisten Maia Pereira da Costa Joel Theodoro da Fonseca Jr Misael Batista do Nascimento Tarcízio José de Freitas Carvalho Victor Alexandre Nascimento Ximenes W4391p Welch, Edward T. Depressão / Edward T. Welch; traduzido por Elizabeth Gomes. _São Paulo: Cultura Cristã, 2011 Recurso eletrônico (ePbub) Tradução Depression ISBN 978-65-5989-096-5 1. Aconselhamento 2. Depressão 3. Vida Cristã CDD 253.5 A posição doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil é expressa em seus “símbolos de fé”, que apresentam o modo Reformado e Presbiteriano de compreender a Escritura. São esses símbolos a Confissão de Fé de Westminster e seus catecismos, o Maior e o Breve. Como Editora oficial de uma denominação confessional, cuidamos para que as obras publicadas espelhem sempre essa posição. Existe a possibilidade, porém, de autores, às vezes, mencionarem ou mesmo defenderem aspectos que refletem a sua própria opinião, sem que o fato de sua publicação por esta Editora represente endosso integral, pela denominação e pela Editora, de todos os pontos de vista apresentados. A posição da denominação sobre pontos específicos porventura em debate poderá ser encontrada nos mencionados símbolos de fé. EDITORA CULTURA CRISTà Rua Miguel Teles Júnior, 394 – CEP: 01540-040 – São Paulo – SP Fones 0800-0141963 / (11) 3207-7099 www.editoraculturacrista.com.br - cep@cep.org.br Superintendente: Clodoaldo Waldemar Furlan Editor: Cláudio Antônio Batista Marra Sumário Agradecimentos Introdução Capítulo 1 O caminho adiante Capítulo 2 Como a depressão é sentida Capítulo 3 Definições e causas Parte I - Depressão é sofrimento Capítulo 4 Sofrimento Capítulo 5 Deus Capítulo 6 Clame ao Senhor Capítulo 7 Guerra Capítulo 8 Lembrar Capítulo 9 Propósito Capítulo 10 Perseverança Parte II - Escutar a depressão Capítulo 11 A depressão tem suas razões: nossa cultura, nosso corpo e Satanás Capítulo 12 A depressão tem suas razões: outras pessoas Capítulo 13 O coração da depressão Capítulo 14 O coração desvendado Capítulo 15 Temor Capítulo 16 Ira Capítulo 17 Esperanças esmagadas Capítulo 18 Fracasso e vergonha Capítulo 19 Culpa e legalismo Capítulo 20 Morte Parte III - Ajuda e conselhos de outros Capítulo 21 Tratamentos médicos Capítulo 22 Para familiares e amigos Capítulo 23 O que tem ajudado Capítulo 24 O que esperar Parte IV - Esperança e alegria - pensando os pensamentos de Deus Capítulo 25 Humildade e esperança Capítulo 26 Gratidão e alegria Uma palavra final Agradecimentos Se este livro puder captar a experiência da depressão, será porque homens e mulheres, especialmente os que procuraram aconselhamento no Christian Counseling and Educational Foundation (CCEF), dispuseram-se a contar suas histórias, mesmo quando fui lento para compreendê-las. Meus alunos no Seminário Teológico Westminster e CCEF preencheram o que faltava. Pude escrever, graças à generosa política sabática providenciada pelo CCEF. Assim, sou devedor à diretoria, corpo docente, equipe administrativa e aos contribuintes dessa instituição. O corpo docente e a equipe administrativa assumiram tarefas que eu deixei de realizar e cobriram minha ausência de modo que eu ainda tivesse um emprego ao qual retornar. Sue Lutz, novamente, forneceu aguçada direção editorial, como tem feito em quase todo livro que já completei. Certamente ela não poderá se aposentar antes de mim. Minha esposa e filhas já estão acostumadas com o tempo que ocupo com um manuscrito. Elas me inspiram mais do que poderiam imaginar. Introdução Capítulo 1 O caminho adiante Em meio à jornada da vida Descobri-me em uma escura floresta, Pois havia perdido o rumo certo. Dante Allighieri Como será possível dar um passo, quanto mais pensar em uma jornada, quando nos encontramos sob forte depressão? Quando toda nossa força vital se concentra em continuar vivo, e só conseguimos chegar até a hora seguinte, como acrescentar mais alguma coisa – tal como esperança – ao dia seguinte? São essas perguntas sobre “como” que, diante da depressão, parecem quase impossíveis de serem respondidas. Sugestões práticas e muitas páginas de tarefas de casa poderiam encher vários livros, mas provavelmente não fariam com que nos sentíssemos mais vivos. Aquilo de que eu e você precisamos é mais profundo do que sugestões práticas. Você não precisa de uma lista de “como fazer” as coisas. Na verdade, você mesmo seria capaz de produzir uma lista plausível de coisas para fazer. Provavelmente já fez algumas delas e sabe de muitas outras que poderia fazer. A depressão, e a miríade de sentimentos e pensamentos embutidos nessa palavra, invocam a pergunta “por quê?”. Primeiro, por que isso está acontecendo comigo? Depois, por que amar? Por que trabalhar? Por que adorar? Por que crer? Por que viver? Por que me esforçar? O coração deprimido responde melhor com os termos “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” do que com “101 passos para combater a depressão”. Uma lista de coisas a fazer não atende às questões de propósito, esperança, nem responde a perguntas fundamentais sobre a existência e a fé que inevitavelmente surgem com a depressão. Não é de se surpreender que, ao mesmo tempo em que o Prozac vem sendo propalado como a cura para a doença, os filósofos também encontrem um nicho na área de ajuda às pessoas deprimidas. No caminho que temos em frente, portanto, procure descobrir uma parceria entre os “por quês” e os “comos”. Quando surgirem as perguntas do tipo “por quê?”, essas serão religiosas, como todas as perguntas desse tipo. Elas dizem respeito a Deus. Naturalmente, a depressão faz isso mesmo: leva-nos de volta às questões básicas da vida. Se as ignorarmos a fim de focalizar as perguntas do tipo “como”, talvez até encontremos um atalho para um alívio mental temporário, mas o coração continuará faminto de respostas. A ideia básica O plano será colocar a depressão sob a categoria de “sofrimento”. Nada é mais óbvio. Desse modo, tal decisão não terá o potencial de despertar rumores de esperança. • Se você jamais a experimentou, a depressão será dolorosa e difícil de entender. Tal como a maioria das formas de sofrimento, ela nos parece bem particular e solitária. Porém, o sofrimento deveria nos lembrar de que não estamos sós. • Muitas abordagens da depressão dependem de que um diagnóstico acurado seja feito logo de início. Entretanto, a depressão raramente poderá ser reduzida a uma única causa. Se começar a descrevê-la como sofrimento, você poderá ser mais paciente na busca de suas causas e contribuições. Poderá encontrar esperança, consolo e descanso em meio ao sofrimento, antes mesmo de tentar desenrolar sua lógica, se houver alguma. • A família e os amigos poderão escutar melhor. Não estarão tão apressados para dar a resposta. Em vez disso, poderão pospor um compromisso com determinada teoria, tomando tempo para conhecer melhor a pessoa deprimida a fim de trabalhar com ela. • Quando você considerar que a depressão é uma forma de sofrimento, estará mais disposto a olhar para a condição humana. Em outras palavras, observará lutas e males que são comuns a todos. Não permita que um diagnóstico técnico ou científico o impeça de ver esses problemas como ordinários. Quando estiver em dúvida, espere até encontrar, logo abaixo da superfície, uma situação frequente a todo ser humano, em forma de medo, ira, culpa, vergonha, inveja, carência, desespero quanto a uma perda, fraqueza física e outros problemas presentes em cada pessoa. Nem sempre a depressão será causada por tais coisas, mas sempre seráocasião para considerá-las. • Procuremos a direção nas Escrituras. Se buscarmos a palavra “depressão”, não encontraremos muitas referências, mas se ampliarmos a busca para “sofrimento”, com suas infindas variações, ela ficará repleta de sentido. Cada página terá o potencial de falar diretamente a você. Existem emoções “corretas”? É comum a homens e mulheres espiritualmente maduros que se sentem deprimidos pensarem que estejam fazendo algo de errado. Afinal, a Escritura está repleta de palavras de alegria e corações jubilosos. Quando não se sentem felizes, muitas pessoas julgam ter perdido alguma coisa ou que Deus as castiga, até que aprendam alguma lição escondida. Contudo, nesta terra, Deus não dá a receita para uma vida feliz. Veja alguns dos salmos. Foram escritos por pessoas de grande fé, que discorreram sobre uma ampla gama de emoções. Um deles, até mesmo, termina com a frase: “os meus conhecidos são trevas” (Sl 88.18 – outra tradução, a ARC, diz: “os meus íntimos amigos agora são trevas”). Quando as emoções parecem sempre pálidas ou insípidas, quando não conseguimos mais sentir, como antes, os altos e baixos da vida, a pergunta que mais importa é: para onde – ou para quem – nos voltaremos, em tempos de depressão? Um modo de proceder Se você estiver deprimido, os capítulos que seguem são intencionalmente breves e, às vezes, provocantes. Se você quiser ajudar alguém que está deprimido, esses capítulos têm a intenção de oferecer direção e poderão ser usados como leituras a ser compartilhadas com a pessoa deprimida. Espero que este livro encoraje parcerias entre as pessoas deprimidas e aqueles que as amam. O sofrimento não é uma jornada que deveríamos enfrentar sozinhos. Haverá muitos trechos em que seremos tentados a desistir e demasiadas horas em que não poderemos ver com clareza. Caso você mesmo esteja deprimido, leia o livro com algum amigo sábio; se for o caso de ajudar alguém, sugira à pessoa que leia com você o livro todo ou um determinado capítulo selecionado. A jornada de um peregrino Nos capítulos seguintes, você encontrará inúmeras imagens, tais como trevas e luz, torpor e vitalidade, luta e rendição. A figura da jornada de um peregrino aparece em destaque. Quer sintamos quer não, estamos trilhando um caminho em que constantemente nos deparamos com escolhas. A cada dia, estamos nos vendo em encruzilhadas nas quais temos de tomar decisões de consequências significativas. A ideia de iniciar uma jornada não é nada agradável quando você se encontra deprimido, mas, pelo menos, estará em boa companhia, e terá alguma consolação. A começar com Abraão, Deus tem chamado pessoas para sair de um lugar conhecido, tomar novo rumo, deixar para trás o passado, enfrentar perigos desconhecidos, chegar ao ponto do desespero, clamar por ajuda e aguardar algo (ou alguém) melhor. Orígenes ofereceu estas palavras de encorajamento: “Há muito minha alma está em peregrinação” (Sl 119.54). Entenda, portanto, o que sejam as peregrinações da alma, especialmente quando ela lamenta com gemidos e sofrimentos que a peregrinação seja tão longa. Entendemos essas jornadas somente obtusa e obscuramente enquanto perdura a peregrinação. Mas quando a alma retorna para seu descanso, ou seja, para o lar do paraíso, ela será realmente ensinada e entenderá mais verdadeiramente o significado do que foi essa peregrinação.¹ Ele estava certo. Deste lado do céu, andamos pela fé e não temos todas as respostas que queremos. Mas há razão para crer que encontraremos o cumprimento de certas esperanças, mesmo neste lado do paraíso. 1 Orígenes, Homilia XXVII sobre Números, seção 4, CWS 250. Citado por - Thomas Oden, Classical Pastoral Care, vol. 4 Crisis Ministries (Grand Rapids: Baker, 1994), p. 67. Capítulo 2 Como a depressão é sentida Muitas vezes, surge a figura do “inferno”. O inferno me visitou de surpresa. “Se existe inferno sobre a terra, ele habita em um coração melancólico”, observou Robert Burton, nos anos de 1600. O poeta Robert Lowell escreveu: “Eu mesmo sou um inferno”. Uma mãe descreveu a experiência de seu filho com as frases: “A descida de Danny ao inferno”; “Um quarto no inferno”; “Um inferno solitário e privado”. João da Cruz o descreveu como “a tenebrosa noite da alma”. “Tormentas infernais”, disse J.B. Phillips. “As negras profundidades do inferno”, disse William Styron, autor de Escolha de Sofia e outros romances populares, às vezes, sombrios.¹ Como Dante entendia, há uma conexão íntima entre o inferno e a falta de esperança que há na depressão. Na versão do inferno de Dante, logo na entrada está a inscrição: “Abandonai toda esperança, vós que aqui entrais”. A linguagem depressiva é poética. A prosa não consegue exprimir essa experiência, por isso, a comunicação é feita por intermédio de poesia, ou silêncio. Pessoas deprimidas são eloquentes, mesmo quando sentem o centro emotivo vazio e destituído de pessoalidade. – Quando o médico chegou ao meu quarto, disse que iria me fazer uma pergunta. Se eu não me sentisse pronto para responder, não precisava. Então, ele perguntou: – Quem é você? Fiquei em pânico. – O que o Sr. quer dizer? – Quando olha para dentro de si mesmo, quem é que você vê? Foi horrível. Eu não via nada. Só via um buraco negro. – Não sou ninguém – eu disse. As imagens são sombrias e evocativas. Sozinho, em desespero, só vazio e buracos negros. “Parecia que eu andava por um campo de flores mortas e tinha encontrado uma linda rosa, mas quando me abaixei para sentir o cheiro, caí num buraco invisível”. “Ouvi meu grito de silêncio ecoar e penetrar minha alma vazia”. “Não existe nada que eu odeie mais do que o nada”.² “Meu coração está vazio. Todas as fontes que correriam com anseio estão secas em mim”.³ “É totalmente natural pensar, incessantemente, no esquecimento”. “Sinto-me como se tivesse morrido há algumas semanas e meu corpo ainda não tivesse sido descoberto.”⁴ A depressão ... envolve ausência completa: ausência de afeto, ausência de sentimento, ausência de resposta, ausência de interesse. A dor sentida no decurso de uma grande depressão clínica é uma tentativa da parte da natureza... de preencher o espaço vazio. Contudo, com todos os intentos e propósitos, pessoas profundamente deprimidas são apenas mortos andando acordados.⁵ A dor mental parece insuportável. O tempo para. Uma menina de doze anos de idade disse: “Eu não posso continuar”. “Poderia chorar durante horas como uma criança, mas ainda assim não saber por que estava chorando”, relatou Spurgeon sobre um de seus muitos episódios depressivos. “Uma verdadeira tempestade uivante no cérebro”.⁷ “Tristeza maligna”.⁸ “Envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia”. “A tristeza era como o pó que infiltrava tudo”. “Sou agora um homem desesperado, rejeitado, trancado nessa jaula de ferro de onde não existe escape”.¹ “A tranca de ferro... misteriosamente prende a porta da esperança e mantém nosso espírito em lúgubre prisão”.¹¹ Melancolia profunda é uma agonia, dia após dia, noite após noite, em nível quase arterial. É uma dor impiedosa que não oferece janela de esperança, nenhuma alternativa à existência repugnante e inflexível. Não há alívio para as gélidas propensões ocultas do pensamento e sentimentos que dominam as noites intoleravelmente inquietas do desespero.¹² Não é só a dor. Parece uma dor sem sentido. “Tudo que quero na vida é sentir que essa dor tenha um propósito”.¹³ Se a dor conduzisse ao nascimento do filho, seria tolerável, mas se esta for apenas um vazio de trevas, será uma ameaça de destruição. Abraão Lincoln achava que a dor o levaria à morte; o seu corpo não poderia tolerar essa dor: Sou agora o mais miserável dos homens. Se aquilo que sinto fosse distribuído igualmente a toda a família humana, não haveria um só rosto alegre sobre a terra. Não sei dizer se em algum tempo estarei melhor; pressinto tenebrosamente que não. Permanecer como estou é impossível. Parece-me que terei de morrer, ou então melhorar.¹⁴ O que tortura muita gente é o fato de eles não morrerem.“A exaustão combinada à insônia é uma rara tortura”. “A dor penetra tudo”. A ideia de que possam permanecer nesse estado horroroso é impossível de ser pensada. “Ninguém sabe o quanto eu desejaria morrer”. Mas a morte tem seus próprios horrores. Ela parece, a princípio, um ponto de desvanecimento em que a existência cessa totalmente. Contudo, o que dizer sobre a incerteza da vida após a morte? Existirá o aniquilamento? O juízo divino esmagará e destruirá? Você não tem companhia no medo do pior. “Não havia como controlar minha mente – os pensamentos me assolavam, as ideias vinham brutalmente ásperas, os ideais totalmente triturados, os sentimentos incompreensíveis”. A mente fica emperrada. Como alguém conseguirá pensar em alguma coisa quando isso está ali? “Estou numa camisa de força”. “Estou completamente preso e amarrado – e tenho uma mordaça na boca”. Sem os recursos mentais normais, o mundo é assustador. Pânico. Sem controle, as alucinações e ilusões apoderam-se da imaginação com tamanha força que não conseguimos distinguir a realidade. A autoconfiança parece coisa impossível. O único modo de sobrevivência é uma dependência infantil. Estar sozinho é aterrador. O abandono é um medo constante. “Tenho medo de tudo e de todos”. Tentei dormir, mas não consegui. Em parte, porque eu tinha medo de acordar com sentimento de pânico refletido na boca do estômago. A ansiedade estava sempre presente e, sem razão, só piorava. Queria estar fora de casa, mas tinha medo de ficar sozinho. Não importando o que fizesse, não conseguia me concentrar, exceto em perguntas tais como “Estou ficando louco? O que fiz para merecer isso? Que espécie de castigo é esse”? Poderíamos pensar que, se as circunstâncias fossem melhores, também estaríamos bem melhor. Mas a depressão tem uma lógica própria. Uma vez instalada, ela não distingue entre um abraço amável, a morte de um amigo chegado e a notícia de que a grama do quintal do vizinho está crescida. Decisões? Impossível. A mente está travada. Como escolher? Nada dá certo; o mecanismo de seu cérebro quase não funciona. E não é fato que a maioria das decisões é questão de preferência emocional? Como descodificar quando não existem preferências emocionais? Certezas? A única certeza é a de que a miséria persistirá. Se existiu convicção de qualquer coisa boa – e você sequer se lembra disso – ela foi substituída pelas constantes dúvidas. Você duvida que alguém o ame. Duvida das intenções e da fidelidade do cônjuge. Se você for crente em Jesus Cristo, talvez duvide, até mesmo, da presença de Cristo e dos fundamentos de sua fé. “Deus tenha misericórdia do homem/que duvida daquilo que tem certeza.”¹⁵ A única coisa que você tem certeza é de sua culpa, vergonha e desvalor. Não é apenas o caso de ter cometido erros na vida, ou pecado, ou buscado futilidades. Você é um erro, você é pecado, você é insignificante. “Neste aspecto, a depressão pode ser uma forma de autopunição, por mais subconsciente ou involuntária que seja sua administração”.¹ Deus virou as costas. Por que se importar em continuar num estado desses? Melhor é fazer o mesmo que Deus e também virar as costas para si mesmo. Quando forçado a fazer uma distinção, alguém poderia dizer que existem horas piores que outras, mas quem será capaz de medir os diferentes graus do inferno? Digamos apenas que existe um ritmo nisso. Dormindo às 23 horas, acordando às duas. Angústia, temores e uma torrente de dor o assomam enquanto você tenta viver até chegar a manhã. A angústia se instala na tristeza normal, profunda e paralítica até o meio da tarde, e é seguida de constantes respingos de medo, dor, culpa, pânico, morte e fadiga até o entardecer. Às vezes, chega ao ápice do mal- estar generalizado. É verdade: o corpo não suporta por muito tempo uma dor constantemente repetida. Assim, você obtém intervalos ocasionais no meio das piores crises. Para muitas pessoas, poderá ser mais calmo. Em vez de abismo sem fundo e uivos no cérebro, a vida se apresenta chata, cinzenta e fria. Nada é interessante. Somos zumbis que mal conseguem andar. Tudo é monótono, sem vida, só cansaço. Por que trabalhar? Por que levantar da cama? Por que fazer qualquer coisa? Por que se suicidar? Nada tem importância. Temos medo de que, se um dos filhos morresse, ainda assim não sentiríamos nada. A dor irrompe por meio desse estado entorpecido e sem vida. Especialmente, quando nos lembramos de que já estivemos vivos. Era outra pessoa? Outra vida? Não, devo ter sido eu mesmo. Lembro-me de que eu realmente desejava ter um relacionamento sexual com meu esposo. Um livro na prateleira, antes, mantinha- me acordado a noite inteira – não conseguia largá-lo. Aquela música me fazia querer levantar e dançar. Mas, hoje, eu tento esquecer essas horas, porque o contraste entre o então e o agora é insuportável. Prefiro o torpor. Você se sente doente o tempo todo. Em gerações passadas ou lugares de menor preocupação com o psicológico, as pessoas descreviam a depressão apenas em termos físicos. Por exemplo, na China, chamavam-na de shenjing shuairo, um problema alegadamente físico caracterizado por tontura, fadiga, dores de cabeça. Seu corpo não se sente bem. Você está sempre cansado. Médicos são mais procurados do que pastores ou conselheiros. No início do século 20, um empresário relatou os seguintes sintomas a seu médico. Não é só meu corpo que está cansado; é meu cérebro. Sinto-me constantemente como se um pino de ferro estivesse apertando contra meu crânio. Minha cabeça parece vazia. Minha mente não quer funcionar. Minhas ideias são confusas e não consigo me concentrar. Minha memória está gasta. Quando leio, não me lembro, no fim da página, o que eu lia no começo... Quanto à vontade, minha energia acabou. Não sei mais o que quero nem o que devo fazer. Duvido. Hesito. Não ouso tomar decisões. Além do mais, não tenho apetite e durmo mal. Não tenho nenhum desejo sexual.¹⁷ Como é que tudo isso pode estar na cabeça? Ele pensa. Ficamos esperando um médico dizer que ele errou. “A boa notícia é que não é algo só da cabeça. Peço desculpas pelo diagnóstico errado. As más notícias são que o câncer o matará dentro de uma semana e meia”. Você tem a certeza de que todo mundo estará melhor sem você. Não é de admirar que os pensamentos de suicídio estejam sempre rondando perto? Resposta Talvez essas descrições não pareçam esperançosas, mas demonstram que muitos outros passaram pelas mesmas experiências. Isso em si pode nos encorajar. Não estamos sós. Além disso, várias dessas reflexões foram extraídas de pessoas que contam uma história maior de esperança e mudança. Contam o que era em vez do que é. A maioria delas ainda teve força e clareza mental para escrever uma literatura comovente que serve de ajuda para outros. Que palavras você escolheria? Como você descreveria aquilo que é indescritível? 1 As citações deste parágrafo vêm das seguintes fontes: Andrew Solomon, “Anatomy of Melancholy”, The New Yorker, 12 janeiro, 1998, p. 61. Robert Burton citado em John Green e James Jefferson, Depression and its Treatment (Nova York: Warner, 1992), p. 4. Robert Lowell, “Skunk Hour”. Sandra McCoy, “Danny’s Descent into Hell”, Reimpresso por Reader’s Digest. Martha Manning: Undercurrents: A Therapist’s Reckoning with Depression (Nova York: Harper, 1995), p. 10. Lillian V. Grissen, A Path through the Sea (Grand Rapids: Eerdmans, 1993), p. 9. J. B. Phillips, The Price of Darkness Visible (Nova York: Vintage, 1990), p. 84. Citações sem crédito ao longo do capítulo resultaram conversa pessoais. 2 BRICKNELL, Edie.“Nothing”. 3 LEWIS, C.S. “The Naked Seed”. Poems by C. S. Lewis (Grand Rapids: Eerdmans, 1964), p. 117. 4 SOLOMON, Andrew. “Anatomy of Melancholy”, The New Yorker, 12 janeiro, 1998, p.53. 5 WURTZEL, Elizabeth. Prozac Nation (Nova York: Riverhead), p. 22. 6 AMUNDSEN, Daniel. “The Anguish and Agonies of Charles Spurgeon”, Christian History, 10 (1991), p. 64. 7 Styron, p. 38. 8 “Spirit of the Age”, The Economist, 19 dezembro, 1998, p. 113. 9 Salmo 32.3. 10 BUNYAN,John. Pilgrim’s Progress (Chicago: Moody, 1964), p. 33. 11 SPURGEON, Charles. Lectures to my students (Grand Rapids: Zondervan, 1972), p. 24. 12 JAMISON, An Unquiet Mind (Nova York: Random House, 1995), p. 114. 13 WURTZEL, p. 50. 14 Citada em John H. Greist e James W. Jefferson, Depression and its Treatment (Nova York: Warner, 1992), p. 8. 15 SPRINGSTEEN, Bruce. “Brilliant Disguise”. 16 HULME, W. e HULME, L. Wrestling with Depression: a Spiritual Guide to Reclaiming Life (Minneapolis: Augsburg, 1995), p. 22. 17 Citado por SHORTER, Edward. From the Mind to the Body: the Cultural Origins of Psychosomatic Symptoms (Nova York: Free Press, 1994), p. 135. Capítulo 3 Definições e causas Ainda que seja encorajador saber que não estamos sós e que outros tiveram a mesma experiência que nós, será melhor conhecer a causa e a cura. É provável que você tenha alguma suspeita quanto à causa de sua depressão. Eis uma sugestão: não se comprometa rapidamente com uma única explicação da sua depressão. É certo que seja algo que exige resposta e existem interpretações mais que suficientes entre as quais poderíamos escolher, entretanto existem muitas causas para a depressão, e a experiência depressiva de cada indivíduo poderá indicar mais de uma. Se você se ativer depressa demais a uma única interpretação, poderá ficar cego quanto a outras perspectivas importantes. Tipos de depressão Pense na depressão como uma linha contínua e crescente em termos de severidade. Em um dos extremos ela perturba, no outro, debilita. A depressão menos severa é chamada de Desordem Distímica; a mais severa, de Depressão Maior. Popularmente, a menos severa é uma depressão situacional e a mais severa é depressão clínica (Figura 2.1). Menos severa Mais severa Depressão situacional Depressão clínica Desordem distímica Distúrbio depressivo maior Descontentamento Desesperança Figura 2.1. Níveis de depressão A linguagem técnica para depressão da Associação de Psiquiatria Americana (APA) encontra-se em seu manual diagnóstico, o Manual de Diagnostico e Estatístico de Transtornos Mentais, agora, em sua quarta edição. O DSM-IV propõe que o bloco construtivo para o “distúrbio depressivo” ou “distúrbio bipolar” seja o que o manual se refere como “episódio depressivo maior”. Reza o seguinte: Cinco (ou mais) dos seguintes sintomas presentes durante um mesmo período de duas semanas e representando mudança no funcionamento anterior, sendo pelo menos um desses sintomas ou (1) disposição deprimida ou (2) perda de interesse ou perda de prazer. (1) humor deprimido a maior parte do dia, quase todo dia, conforme indicação por relato subjetivo (ou seja, sentimento de tristeza ou vazio) ou observação feita por outros (ou seja, ele parece choroso); (2) interesse ou prazer marcadamente diminuído de todas, ou quase todas as atividades, quase o dia inteiro, todo dia; (3) perda significativa de peso sem fazer dieta, ou ganho de peso (ou seja, uma mudança de mais de 5% do peso do corpo em um mês), ou aumento ou diminuição de apetite quase todos os dias; (4) insônia ou hipersonia quase todos os dias; (5) agitação ou retardo psicomotor quase todo dia (observável pelas outras pessoas); (6) fadiga ou perda de energia quase todos os dias; (7) sentimentos de desvalor ou culpa excessiva ou não apropriada... quase todos os dias; (8) capacidade de pensamento ou concentração diminuídos, ou indecisão, quase todos os dias; (9) pensamentos recorrentes sobre a morte... ideação suicida recorrente sem nenhum plano específico, ou uma tentativa de suicídio ou plano específico para suicídio... Os sintomas não são devidos aos efeitos fisiológicos diretos de alguma substância (ou seja, o abuso de uma droga ou medicação) ou condição médica generalizada (por exemplo, hipotiroidismo).¹ Um distúrbio distímico é uma variante da depressão de duração mais longa – pelo menos dois anos – mas menos intensa. Em vez da longa lista de sintomas de um Episódio Depressivo Maior, os requisitos para a distimia omitem alguns dos critérios mais severos. Presença, quando deprimido, de dois (ou mais) dos seguintes: (1) falta de apetite ou comer demais; (2) insônia ou hipersonia; (3) falta de energia ou fadiga; (4) baixa autoestima; (5) falta de concentração ou dificuldade em tomar decisões; (6) sentimento de falta de esperança² Acrescentando à lista sentimentos de ansiedade, culpa, ira e falta de amor, podemos ver como a depressão abre um leque tão amplo que poderá incluir muita coisa. Na última década, um rótulo cada vez mais popular para a depressão é Distúrbio Bipolar. Quando os deprimidos são rotulados de bipolares, significa que provavelmente experimentaram um período fora do comum, de humor elevado. Tipos e causas Entre as linhas acima descritas, existe toda espécie de teoria quanto às causas da depressão. Indo em direção ao menos severo, muitos presumem que as causas sejam de relacionamentos, circunstâncias difíceis, ou pensamentos negativos. Em direção ao mais severo, a teoria popular é que se origine de um desequilíbrio químico. Não compre ainda as generalizações. Tente permanecer descrente por mais um pouco, pois aqui, é cedo demais para fazer juízos. Ninguém poderá diagnosticar um desequilíbrio químico convicto de estar totalmente certo porque não há como saber isso com segurança. Ainda que existisse um teste para isso (o que não há), esse não pode dizer se o desequilíbrio causou a depressão ou resultou dela. O problema de uma opção imediata por uma explicação médica é que, uma vez feita a decisão, todas as demais perspectivas parecerão superficiais ou irrelevantes. Por exemplo, por que preocupar-se com questões surgidas devido ao sofrimento pessoal, quando um comprimido pode dar alívio? Se as pessoas deprimidas assumirem que seu problema seja fundamentalmente médico, pedir que elas examinem seus relacionamentos ou suas crenças básicas a respeito de Deus parecerá tão inútil quanto prescrever exercícios físicos para a calvície. O exercício sempre ajuda, mas não faz crescer o cabelo. Uma razão pela qual no capítulo anterior insistimos para que você descreva seus sentimentos é que, ao fazê-lo, você começará a notar seus temores, fracassos, perdas, frustrações e relacionamentos quebrados, ligados a esses sentimentos. Quando enxergar essa colcha de retalhos de contribuições, você poderá ver que a limitação a uma explicação física minimizará o problema e fará com que você perca a sinalização indicativa de outras respostas. Acrescentamos ainda que devemos suspeitar também das causas espirituais. Você sabe que toda espécie de dificuldade poderá desafiar e fortalecer a fé, mas você não sabe muito mais que isso. Algumas pessoas deprimidas reagem fortemente contra a possibilidade de uma causa espiritual. Outras correm para essa ideia, acreditando que uma vez descoberto o pecado central, tudo mais mudará. Sentem que deve ser uma deficiência espiritual pois faltam-lhes alegria, afeto profundo, vitalidade espiritual. Pensam: talvez eu esteja entre os “mornos” do livro do Apocalipse (Ap 3.16), grupo esse que certamente querem abandonar tão logo seja possível. A depressão, porém, é o momento de rever tanto as nossas expectativas quanto as de Deus para a vida emotiva. Contrário ao que podemos pensar, Deus diz que uma fé forte pode coexistir com altos, baixos e todos os entremeios emocionais. É um mito crer que a fé esteja sempre sorrindo. A verdade é que a fé, muitas vezes, parece um processo bem ordinário, de arrastar um pé ante o outro porque estamos conscientes de Deus. Nenhum pecado é necessariamente ligado à tristeza de coração, pois Jesus Cristo nosso Senhor disse certa vez: “Minha alma está triste até a morte”. Não havia nele pecado algum, e, consequentemente, na sua profunda depressão não havia pecado.³ Aqui, neste ponto, você sabe o seguinte: a vida é sem graça. A miséria marca tudo mais. Sua primeira reação é: Como poderei me livrar disso o mais depressa possível? Existe algum valor em diminuir rapidamente a dor, se for possível. Masa depressão deverá ser abordada com cuidado. Ela, talvez, esteja apontando questões importantes do coração que clamam, pedindo atenção. Ignorá-las, simplesmente fará com que voltem mais tarde. Há momento quando a depressão diz alguma coisa e nós precisamos escutar. Resposta Em outro capítulo, examinaremos questões sobre medicamentos e outros tratamentos. No ponto em que nos encontramos, não discutiremos se você está ou não tomando medicação, mas se a medicação não é o único plano de ataque ao problema. Mesmo que os remédios aliviem um pouco o peso da depressão, poderá funcionar apenas como uma aspirina. Ou seja, tira alguns dos sintomas, mas a raiz dos problemas permanece. O que, além de desequilíbrio químico, poderá estar contribuindo para sua experiência depressiva? 1 American Psychiatric Association, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Diseases, Fourth Edition (Washington, D.C.: American Psychiatric Association, 1994), p. 327. 2 Diagnostic and Statistical Manual of Mental Diseases, Fourth Edition, p. 349. 3 SPURGEON, C.H. Sword & Travel, 2000: 1, p. 11. Parte I Depressão é sofrimento Capítulo 4 Sofrimento Com todo o debate sobre as causas da depressão, é fácil perder de vista aquilo que é óbvio: a depressão é dolorosa. É uma forma de sofrimento. De início, esta declaração não parece acrescentar nada. Apenas diz o que você já sabe. Entretanto, se você conhece as Escrituras, deve perceber um raio de luz. Sem o entendimento da Escritura, o sofrimento é aleatório e sem sentido. Quando chegar o sofrimento – você pensa –, fuja depressa! A Bíblia, porém, trata do sofrimento. Ela tem consolado a milhões de pessoas e gerado centenas de livros maravilhosos que destacam o terno cuidado de Deus e a profundidade do entendimento da Escritura. O único problema que enfrentamos é: quais as palavras mais relevantes da rica comunicação de Deus aos sofredores? Se examinarmos as Escrituras, procurando a palavra “depressão” em uma concordância bíblica, só encontraremos uma curta lista de versículos. (Dependendo da tradução, poderá ser que nem encontremos uma lista.) Se, contudo, expandirmos a investigação para incluir homens e mulheres cujas lutas sejam paralelas à depressão dos dias de hoje, encontraremos mais material. Elias, Saul, Jeremias e Jonas são exemplos que vêm imediatamente à mente. Se a pesquisa abranger a categoria mais ampla, de dor, sofrimento, provas, tribulações, desespero, fardos, pavor, desesperança e uma multidão de palavras e temas relatados, descobriremos que em quase toda página da Escritura há algum direcionamento, entendimento e encorajamento. Por exemplo, você já aplicou à depressão o ensino seguinte? Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes. (Tg 1.2-4) Não são as palavras de Deus mais fáceis de serem ouvidas e, ligá-las à sua situação em particular, exigiria algumas explicações. Mas a ausência do vocábulo “depressão” não nos impede de encontrar encorajamento e propósito nessa passagem. Tiago aumenta intencionalmente o escopo do sofrimento – várias provações. Ao fazer isso, ele convida os que passam pela experiência de depressão a aprender que, qualquer que seja a causa, a depressão revela nossa fé e serve como catalisador do crescimento, não havendo espaço para o desespero. Esse trecho é apenas uma comunicação de Deus que escolhemos aleatoriamente. Você já pode ver que existe propósito no sofrimento. Isso, em si, pode ter impacto profundo sobre a depressão. “Tudo que quero na vida é que essa dor pareça ter propósito”.¹ As causas do sofrimento Quando a depressão é incluída no problema maior do sofrimento humano, descobrimos que sabemos mais a respeito da depressão do que pensamos. A Escritura é como óculos para daltônicos horrivelmente míopes. Com eles, vemos detalhes que não sabíamos existir, e os vemos em cores de alta definição. Contemple pela visão da Escritura, por exemplo, para a questão da causa da depressão (sofrimentos e provações). Suas respostas afastam-se do simplismo e apontam pelo menos cinco causas possíveis: Outras pessoas poderão ser uma das causas de provação depressiva. Olhe os salmos e descobrirá que metade deles é de clamor ao Senhor em função de opressão da parte de outros. As pessoas traem e abusam. Prometem e não cumprem; ferem, espalham e destroem porque se importam com seus próprios desejos e não com os interesses do próximo. Em alguns casos de depressão, somos capazes de encontrar uma pessoa que cambaleia devido aos pecados de outros. Nós também somos causa de sofrimento. Nossa raiva causa o divórcio e a solidão subsequente. Nosso roubo causa aprisionamento. Não se surpreenda, se descobrir dentro de si mesmo temores, iras e desejos egoístas espreitando por trás de alguma depressão. A ira, em especial, é uma causa notória. Nossos corpos são outra causa óbvia de depressão. Desde a entrada do pecado no mundo, nosso corpo enfraquece e aos poucos se desgasta. Doença, deterioração devido ao avanço da idade, lutas pós-parto e possíveis desequilíbrios químicos são apenas algumas das causas físicas ligadas à depressão. Isso significa que aqueles a quem amamos também sofrerão declínio e morte física, que, claramente, é outra causa de sofrimento pessoal e depressão. Charles Spurgeon, o famoso pregador inglês, lutou contra a depressão durante toda sua vida. Aparentemente, o que deu início a essa condição foi uma tragédia específica. Ele pregava a uma imensa congregação – mais de doze mil pessoas abarrotavam a igreja e mais de dez mil permaneciam do lado de fora. Logo após o início do culto, alguém gritou: “Fogo”! No caos resultante, a multidão frenética causou a morte de sete pessoas. Spurgeon ficou inconsolável. Essas três causas – os outros, nós mesmos e o corpo físico que se desgasta e morre – são aparentes a olho nu. Mas duas outras causas são mais difíceis de serem vistas sem a lente e a luz da Escritura. Satanás é a quarta causa do sofrimento humano. O livro de Jó é um dos poucos lugares da Escritura em que sua faina é claramente exibida. Satanás mente e pode nos afligir fisicamente, mas, em geral, procura nos persuadir de que a fidelidade ao Deus verdadeiro não é de nosso interesse. Fora dos círculos religiosos, não é estimado falar sobre Satanás, mas isso, em si mesmo, não é razão para descartá-lo. Satanás não busca reconhecimento para o seu nome; prefere não chamar atenção a si mesmo. Em lugar disso, ele procura desviar nossa atenção de Deus. Finalmente, o próprio Deus poderá ser causa de nosso sofrimento. “Às vezes Deus põe seus filhos para dormir no escuro” – era o jeito de um velho pregador descrever a possibilidade. Dizemos que Deus “permite” o sofrimento, e, às vezes, as Escrituras utilizam tal linguagem, porém os autores bíblicos estavam convencidos de que Deus era o Deus criador único, verdadeiro e soberano. Não podiam imaginar um mundo em que Deus não estivesse entronizado. Nada acontece sem sua supervisão soberana, inclusive nosso sofrimento. O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz subir. O Senhor empobrece e enriquece; abaixa e também exalta (1 Sm 2.6-7). Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor , faço todas estas coisas (Is 45.7). Deus está sobre todas as coisas. Nada acontece sem seu conhecimento ou fora de sua vontade. Quando o sofrimento e a depressão batem à porta, foi o agir de Deus. Crer em outra alternativa seria optar por um universo aleatório, fora do controle, sem mão para dirigir, sem algo que traga todas as coisas a um fim predeterminado e que inspire admiração. É claro que isso levanta outras questões quanto à bondade de Deus, e essas estão em nossa agenda. Para o momento, quero apenas que você se oriente para ver a depressão por meio da lente do sofrimento, lembrando que o sofrimento poderá vir de inúmerase diferentes causas. Não chegue depressa demais às conclusões. Causas múltiplas Depois de ter dado uma lista de cinco possíveis causas para o sofrimento, o próximo passo, logicamente, será discernir a origem de um instante específico de sofrimento. Mesmo isso não é tão simples assim. Embora existam vezes em que um motivo específico seja óbvio, a Escritura não reduz as dificuldades a uma única causa específica. Para cada luta na vida, ela nos conduz a esperar múltiplas fontes. Um exemplo popular está nos sofrimentos de José (Gn 37-50). Aquilo que começou com inveja, transformou-se em sequestro e sua venda como escravo, perpetrados pelos próprios irmãos. Foi esse o primeiro dominó de uma longa sequência de eventos que incluiu a traição da parte de uma mulher mentirosa e uma prisão egípcia. Quando, pela providência divina, José encontrou seus irmãos, anos mais tarde, sua explicação para o sofrimento foi: “Vocês [irmãos] planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos” (Gn 50.20 – NVI). Em outras palavras, José identificou duas causas para seu sofrimento: seus irmãos e Deus. Fazendo isso, ele abriu uma janela que fornece vislumbres do caráter de Deus. No entendimento dele, Deus podia ser a causa do sofrimento, de forma que até mesmo a dificuldade evidenciasse a sua bondade. É certo que isso é um mistério, mas José é apresentado na Escritura como um homem sábio. É modelo cuja perspectiva convida à reflexão, o que faremos em outros capítulos. Outro sofredor bem conhecido foi o apóstolo Paulo. Seus problemas, muitas vezes, foram causados por outras pessoas, mas ele também reconheceu que Deus era autor de seus sofrimentos, o que lhe permitiu andar após os sofrimentos de Cristo. Entre as maiores dificuldades, havia uma que Paulo chamou de “espinho na carne” (2 Co 12.7). Embora não saibamos precisamente a natureza do mal, Paulo identificou pelo menos três causas: seu próprio orgulho, a mensagem de Satanás, e Deus – três causas de um único sofrimento. Aplicando isso à depressão, o ensino sugere que a busca de uma única causa específica poderá ocasionar também exagerada redução. Por exemplo, ela poderá ter causas físicas, mas isso não fechará a lista para outras possibilidades. Poderá ser, simultaneamente, consequência de batalha espiritual, do pecado de outros e do próprio pecado – e sempre estará sob a supervisão do soberano Deus. Causas desconhecidas Ainda que a Escritura revele a existência de origens múltiplas para o sofrimento, e que as mesmas operem simultaneamente, a qualquer tempo, ela é menos clara quanto ao diagnóstico preciso das causas específicas das dificuldades. É claro que existem vezes em que essas causas são óbvias. Por exemplo, se o seu amigo foi à falência depois de muitos anos de dívidas acumuladas em jogatina, ele terá sido a causa do próprio sofrimento. Se uma mulher abandonou o marido simplesmente porque preferiu ser livre, ela terá sido a causa do próprio sofrimento (bem como de seu marido). Nesses casos, nem sempre conseguiremos discernir todos os fatores implicados, tais como: a pessoa que apresentou o amigo aos jogos de azar, o agenciador de apostas que continuou a estender crédito, a colega de trabalho que estimulou a mulher a deixar o marido – ou a mãe dela que, divorciando-se do marido sem causa legítima e abandonando a família, deu-lhe exemplo de uma opção que, talvez, jamais teria considerado. A razão de a Escritura não oferecer diretrizes claras quanto ao diagnóstico é que não é essencial saber as causas específicas. Uma vez mais, temos Jó como modelo. Embora nós saibamos que Satanás foi o causador do seu sofrimento, Jó não tinha consciência dos motivos. Mesmo depois de ter a sorte restaurada, Jó jamais soube realmente por que havia sofrido tanto. Ainda que tenha pedido uma entrevista com Deus a fim de pleitear inocência, a única coisa que o Senhor revelou foi que ele mesmo – e não Jó – era Deus. No entanto, isso satisfez plenamente a todas as perguntas que Jó tinha quanto aos porquês. Dá para ver o quadro que surge? Será possível descobrir algumas das razões do sofrimento, mas não todas. Há um mistério em todo sofrimento, tal como o mistério que persiste no final de toda a investigação humana. Em vez de ensinar como identificar as causas do sofrimento, a Escritura nos dirige ao Deus que sabe todas as coisas e que é plenamente confiável. Em outras palavras, a Escritura não nos dá conhecimento para que tenhamos domínio intelectual de certos acontecimentos; dá-nos conhecimento para que nos acheguemos a Deus com toda confiança. “Deus, eu não sei o que o Senhor está fazendo, mas o Senhor sabe, e isso basta”. A resposta para o problema do sofrimento está em, de algum modo, voltarmos para Deus e confiarmos nele quanto aos mistérios do sofrimento. O que isso tem a ver com a depressão? Talvez você consiga discernir algumas causas mais óbvias do sofrimento, e o conhecimento poderá aliviar a dor. Contudo, todo padecimento tem o propósito de nos treinar para fixarmos os olhos no Deus verdadeiro. Assim, a depressão, não obstante suas causas, é uma oportunidade para responder às questões mais profundas e importantes: em quem confiarei? A quem adorarei? Resposta Isso tudo é muita coisa para ser assimilada de uma só vez. Você começa a perceber como a simples inclusão da depressão na categoria mais ampla do sofrimento tem imensas implicações, entretanto, sua resposta poderá ser menos que entusiasmada. Por outro lado, você sabe que existe esperança para quem sofre. Dezenas de milhares de pessoas têm amadurecido em meio às dificuldades e dado testemunho de que Deus é fiel. Isso ainda levanta as antigas questões: Como Deus pode permitir evento tão doloroso e debilitante em sua vida? Como dizer que um Deus como esse se importa conosco? Como poderá ser um Deus bom? Há duas maneiras de fazer essas perguntas. Uma, de punho cerrado; a outra, de coração aberto. A primeira maneira fecha os ouvidos; a segunda espera ouvir a resposta. Se você estiver escutando, serão perguntas boas a serem feitas, pois existem respostas. Qual é a diferença, quando consideramos a nossa própria luta com a depressão como uma forma de sofrimento? 1 WURTZEL, Prozac Nation, p. 50. Capítulo 5 Deus Existem paradoxos na maioria das depressões. Você odeia o isolamento da depressão, mas evita as outras pessoas. Quer ajuda, mas nem sempre escuta. Acredita que existe um Deus, mas sente-se ateu. Dado que o paradoxo em relação a Deus é o de maior importância, nós o examinaremos primeiro. Ele é encontrado em todo tipo de sofrimento. Você já ouviu dizer que não existem ateus nas trincheiras? Durante tempos de luta ou crise intensa, muitas pessoas que jamais entretiveram um pensamento religioso, de repente, com toda humildade, se pegam orando, recitando o Pai Nosso e lembrando: “O Senhor é meu pastor...” – como se isso tudo estivesse codificado no DNA humano. Todavia, se os problemas desaparecem depressa, com a mesma rapidez desaparecem os pensamentos sobre Deus; o guerreiro prossegue em seu caminho sem uma única palavra de gratidão, quanto mais de fidelidade em longo prazo. Que fazer, porém, se a batalha continuar e as circunstâncias não mudarem? Os pleitos humanos tornar-se-ão perguntas que, se não iradas, serão, pelo menos, ousadas: “Por que Deus está fazendo isso comigo?” “Deus, o que eu fiz para merecer isso?” O sofrimento nos aflige com questionamentos sobre Deus, de uma maneira que o conforto jamais faria. Quando continuamente atacados pelas circunstâncias adversas, poderá ser que notemos o paradoxo de sermos “crentes ateus”. Se forçados a decidir, diríamos que Deus existe, mas nos sentimos cada vez mais isolados e sós. Quanto mais extremo o sofrimento, mais intenso o senso de solidão. Se Deus existe, certamente não parece que ele está aí – você pensa. O refrão, mesmo entre aqueles cuja fé parecia bastante óbvia, é: “Durante minha depressão mais profunda, eu não tinha f锹. Um psiquiatra francês, depois de muitos anos cuidando depacientes deprimidos, observou: “Todas as pessoas deprimidas são ateias, rabugentas e radicais”. Qualquer que seja o lado do paradoxo enfatizado em sua própria vida – de crente ou de incrédulo – a depressão levanta questionamentos sobre Deus. Incertezas são inevitáveis ao longo de qualquer tipo de sofrimento prolongado. Muita discussão existe quanto ao modo como as pessoas deprimidas entretêm pensamentos distorcidos e inexatos, mas aqui – em suas batalhas espirituais, questionamentos e ateísmo prático – elas estão com alguma coisa certa. Na raiz, o tema da vida é Deus. Quer cerremos o punho contra ele, quer o sintamos tão distante que sua existência seja irrelevante, quer tremamos diante dele, sentindo- nos réus de seu juízo; a realidade é esta: as questões básicas da vida e as fundamentais do coração humano estão relacionadas com Deus. A vida abrange o conhecimento ou a rejeição de Deus. Trata-se de alianças espirituais. Em quem você confiará no meio do sofrimento? A quem adorará? Consideremos Jó, mais uma vez. O intenso sofrimento e as imensas perdas na vida levaram-no, quase imediatamente, a um questionamento espiritual básico: agora que o sofrimento tinha residência permanente em sua casa, poderia ele ainda confiar em Deus e adorá-lo? Não houve ambiguidade em sua resposta. Quando perdeu todos os filhos, “lançou-se em terra, e ”, fez a impactante declaração: “o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!” (Jo 1.21) Nesse exato momento, é provável que não lhe pareça bem cair ao chão, prostrado, para adorar. Torpor, dor e adoração não lhe parecem andar juntos. Contudo, ao menos reflita sobre quem Deus é. A depressão ao mesmo tempo requer e evita essa consideração. Requer, porque todo sofrimento leva a perguntas quanto ao caráter de Deus. Evita porque, naturalmente, ninguém busca a Deus. O sofrimento faz com que Deus pareça mais distante e desinteressado. Ao refletir sobre Deus, espere encontrar falácias de pensamento, a seu próprio respeito e a respeito de Deus. Em outras palavras, embora você goste de pensar que tudo que precisa saber a respeito de Deus – ou tudo que você quer saber sobre – você não conhece! Se resistir tal oferta graciosa, provavelmente estará zangado com Deus; e então terá ainda mais razões para considerar quem ele é. Deus convida pessoas iradas para que venham a ele, e se surpreendam. Surpresa # 1: Jesus compartilhou os nossos sofrimentos Às vezes fazemos uma estranha divisão entre Jesus, o Filho, e Deus, Pai. O Pai parece sempre um tanto irritável e exigente com nossas falhas; Jesus sempre perdoa e é bondoso. Contudo, considere que o Deus trino é um único Deus, que escolheu revelar-se plenamente em Jesus. Jesus é o sumário do próprio Deus. “Ele [Jesus], que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser” (Hb 1.3). Jesus é a mais sofisticada expressão da pessoa de Deus, a nós revelada. Nele podemos sempre escolher aquilo que surpreende. Eis uma característica inesperada: Jesus partilhou de nossos sofrimentos. Se inventássemos um sistema religioso, provavelmente não imaginaríamos um deus que se tornasse como as pessoas que criou. Mas Deus fez ainda mais do que isso. Ele se tornou como uma de suas criaturas e voluntariamente sofreu morte horrorosa para que elas fossem poupadas. Mesmo os homens e mulheres que estudavam as Escrituras, antes do advento de Cristo, não puderam imaginar que Deus se aproximaria tanto. Nunca imaginaram que o Messias, o próprio Deus, sofreria em seu lugar da maneira como ocorreu. Se você imagina que Deus está distante e indiferente, eis uma revelação surpreendente. Desde a fundação do mundo, Deus conhecia os nossos sofrimentos particulares, e declarou que ele mesmo tomaria a forma humana e participaria deles (o que quer dizer que nós também poderemos participar dos dele). Leia com cuidado o Novo Testamento. Você encontrará Jesus decidido a absorver o sofrimento ao seu redor. Esse não é um Deus distante ou indiferente. Em um hospital africano, uma senhora idosa e pobre aproximou-se de um pastor que acabara de testemunhar mais uma morte. Tomando o braço do pastor, ela disse: Sabe, por meio da perda de muitos familiares e amigos e sofrimentos intensos, o Senhor me ensinou uma coisa: Jesus Cristo não veio para tirar nossa dor e sofrimento, mas para partilhar dela conosco.² Fazendo a crônica de um dia, o Evangelho de Marcos, no capítulo catorze, revela a extensão em que Jesus participou de nossos sofrimentos: “Os principais sacerdotes e mestres da lei procuravam ocasião para prendê-lo, à traição, e o matariam” (v.1). Judas concordou com a traição, em troca de dinheiro. Jesus predisse que um de seus seguidores o negaria. Jesus predisse que seus outros seguidores o abandonariam. Os líderes o prenderam. Cuspiram nele. Deram-lhe bofetadas e murros que poderiam tê-lo matado. Isso tudo, antes de ser humilhado e crucificado. Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar (Is 53.10). Então, começou ele a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que, depois de três dias, ressuscitasse (Mc 8.31). Conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles (Hb 2.10). Jesus foi chamado “homem de dores” (Is 53.3). Foi afligido, oprimido, desprezado e rejeitado a ponto de as pessoas virarem-lhe as costas para evitar o seu rosto. Tudo isso é sabido a respeito de Jesus, mas agora que seu sofrimento lhe é familiar, você deveria se chocar com o fato de que alguém, voluntariamente, assumisse tamanha dor sobre si mesmo. Um sofredor deveria reconhecer outro sofredor. Como pessoa que sofre, você reconhecerá as dores de Jesus; certamente ele conhece as suas. Um profundo suspiro denota isso. Quando Jesus curou o surdo, ele deu um profundo suspiro, olhando para o céu (Mc 7.34). Jesus Cristo deixou-se comover com o sofrimento que via ao seu redor e, como Senhor ressuscitado, continua a se comover com o nosso sofrimento, hoje. Martinho Lutero disse que a cruz, somente, é nossa teologia. Na cruz, vemos Deus tomando sobre si mesmo todo o nosso sofrimento e juízo. Olhe de perto e você verá um cordeiro inocente imolado. Como resultado dessa constatação, os teólogos têm sido rápidos em observar que, por mais trágicas que sejam as coisas que acontecem às criaturas de Deus que se acham decaídas por causa do pecado, ainda assim, são menos monstruosas e criminosas do que o ocorrido ao Filho de Deus.³ Como responder a isso? • Você observou que, às vezes, diante de alguém cujo sofrimento parece maior que o nosso, nossa dor se torna mais leve, menos intensa? É como se o sofrimento, por alguns instantes, fosse afastado de nós. As dores de Jesus podem, na verdade, alçar-nos a ele, permitindo-nos ver do lado de fora de nós mesmos. • A cruz adverte que a vida não será fácil. Se Jesus foi um servo, nós também seremos. Se Jesus sofreu, nós também seremos provados, pois nenhum servo é maior que seu mestre. No entanto, as coisas nem sempre são o que aparentam. O sofrimento faz parte do caminho que conduz à glória e beleza. “Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes” (Sl 126.6). Existe propósito no sofrimento. Ele nos transforma para que sejamos, cada vez mais, como o próprio Jesus. “Quando Cristo chama uma pessoa, ele manda que venha e morra”.⁴ Mas essa morte não é o fim da história. • Quando alguém já padeceu como você, certamente entende sua dor antes que você a expresse. Poderá, até mesmo, emprestar palavras que descrevam o seu sofrimento. Jesus sofreu: portanto, ele conhece nossa dor. Surpresa # 2: Deus é bom e generoso É difícil argumentar contra a bondade de Jesus, quando somos lembrados de que ele partilhou dos nossos sofrimentos e tem compaixão por aquele que padece. No entanto, é fácil protestar, quando ouvimos que Deus é bom e generoso. Nesse momento de sua vida, parece que a bondade e a generosidade,especialmente da parte de um Deus todo-poderoso, só podem ser demonstradas com a remoção de nossa depressão. Se Deus a arrancar, você se convencerá. Caso contrário, continuará duvidando. Lembre-se, porém, do que já sabe. Primeiro, que Jesus sofreu – ele, que é o Filho unigênito do Pai, profundamente amado. Quando nós sofremos aquilo que nos parece dor sem fim, fica mesmo difícil acreditar que Deus nos ama. Contudo, a aflição de Jesus prova essa verdade indubitável, ainda que nem sempre compreendamos aquilo que ocorre nos bastidores. De alguma forma, o sofrimento temporário e o amor poderão andar juntos. Em segundo lugar, “Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Rm 8.32). A cruz é a única evidência que poderá nos persuadir totalmente da bondade e da generosidade de Deus. Não há argumento contra alguém disposto a fazer tamanho sacrifício. Se alguém entrega seu único amado filho por amor de outrem, não haverá como duvidar desse amor. Quando a memória do sacrifício de tamanho custo parecer distante, e formos tentados a duvidar, devido às frustrações da vida, precisaremos somente de um rápido lembrete. Nosso Deus diz: “Se por você sacrifiquei meu próprio Filho, acha mesmo que eu seria pão-duro a ponto de sonegar-lhe meu amor?” Quando não conseguem o que querem, os filhos têm dificuldade em acreditar no amor dos pais. Afinal, o que poderia ser melhor do que lhes satisfazer todos os desejos? Os pais, todavia, conhecem um amor mais sofisticado. Sabem que realizar todos os desejos dos filhos nem sempre será o melhor para eles. Só poderemos lembrar-lhes de que os amamos. “Meu filho, você sabe que o amo e quero só o que é melhor para você. O que estou fazendo no momento pode parecer ruim, mas pense nisto: eu jamais seria cruel com você. Eu o amo. Agora, terá de confiar em mim, pois sei que você não sente isso”. Deus é bom e generoso. Jamais será sovina. Ele ordena que seu povo não entretenha a cobiça exatamente porque a cobiça é a negação da generosidade divina. Ele não está tentando negar as coisas até que você se aprume diante de ameaça e castigo. Os demônios é que querem que você acredite nisso. Em vez disso, Deus diz: “Abre bem a boca, e ta encherei” (Sl 81.10). Ele nos convida ao mais pródigo banquete, requerendo apenas que estejamos com fome e não tragamos nada (Is 55.1-3). Essa não é uma tentativa religiosa para produzir sentimentos agradáveis. Na verdade, é mais difícil surpreender-nos com a bondade e generosidade de Deus quando nos sentimos tão miseráveis. Foi dito, a respeito do puritano William Cowper: “É possível ser filho de Deus sem ter consciência da bênção, e possuir título da coroa e ainda sentir-se murado nas profundezas de um calabouço”.⁵ O alvo é simplesmente lembrá-lo da verdade. A sua tarefa é simplesmente crer (Jo 6.29). Resposta Quais têm sido suas reações a essas ideias? Preste atenção aos sentimentos. Indiferença? Ambivalência? Vislumbre de esperança? Hostilidade? Parece uma conversa sobre estrelas e galáxias, quando tudo que você quer é consertar o carro? Desde os anos 1960, a depressão tem sido diagnosticada como um problema “clínico” e muitos não pensam em Deus com um diagnósico assim. Mas a depressão é um problema humano – é sofrimento – e as dores normalmente dizem algo para Deus e sobre Deus. Se essas declarações forem ignoradas, a sua jornada será cheia de desvios e becos sem saída. O que sua reação está lhe dizendo? O que revela a seu próprio respeito? Você só é amigo de Deus em tempo ensolarado, que confia nele quando tudo vai bem, mas suspeita quando as coisas se complicam? Se esse for o caso, bem vindo à raça humana. Olhe para pessoas como São Basílio. A seu respeito, Gregório de Nissa comentou que sua fé era “ambidestra” – de um lado ele dava boas-vindas ao prazer, do outro, às aflições. Temos de batalhar, neste ponto, com a tendência à passividade comum à depressão. Não espere até que a fé seja inculcada em seu coração. Busque ao Senhor. Se há alguma garantia maior na Escritura, é a de que ele se revelará cada vez mais àqueles que o buscam. Leia as grandes orações da Escritura (Ef 1.17- 23; 3.14-19), apropriando-se delas. Se não conseguir tomar posse, pelo menos, permita que elas o induzam à honestidade enquanto derrama diante de Deus as suas próprias orações. 1 HULME, W. e HULME, L. Wrestling with Depression: a Spiritual Guide to Reclaiming Life (Minneapolis: Augsburg, 1995), p. 45. 2 SEMPANGI, K. A Distant Grief (Ventura, CA: Regal, 1979), p. 179. 3 FORSYTH, P.T. The Justification of God (Londres: Independent Press, 1917), p. 149. 4 BONNHOEFFER, D. The Cost of Discipleship (Nova York: Macmillan, 1967), p. 99. 5 “William Cowper and His Afflictions”, The Banner of Truth, Issue 96, Sept 1971, p. 28. Capítulo 6 Clame ao Senhor Você já esteve em uma igreja em que a ordem e o conteúdo do culto são prescritos do começo ao fim? Cultos assim são chamados de litúrgicos. Consistem em orações e leituras preparadas com antecedência. Quando deprimido, você terá de aprender a ser um adorador litúrgico. Se esperar até que tenha vontade de adorar a Deus, esperará muito tempo. Mesmo que queira se comunicar com Deus, descobrirá que suas palavras falham e que não tem nada a dizer. Quando você se arrastar para o culto, será bom que já esteja com a programação delineada de antemão. A depressão se curva para dentro Na depressão, tudo se inclina para dentro. Uma linda flor prende por um instante sua atenção, mas, em segundos, o foco se torna para o seu próprio sofrimento. Você observa pessoas amadas comemorando uma bênção recente, mas, antes que consiga sincronizar seus sentimentos com os delas, já está de volta ao vazio pessoal. Como um bumerangue que sempre retorna, não importando quão longe tente projetá-lo, você não consegue fugir de si mesmo. A dor é assim. Se uma parte de seu corpo é ferida, você não consegue fugir. Talvez tenha breves distrações, mas o latejo volta, insistentemente, na consciência, e de novo a domina. No ápice da aflição, parece não existir saída. Você caiu na armadilha e está preso. São poucas as alternativas. Poderia tentar lutar, mas isso só o distrairia por alguns instantes. Tudo o que você quer é passar o dia e sobreviver. Duas escolhas Ainda que sejam poucas, há outras alternativas. Mais acertadamente, existem escolhas. Você está em uma encruzilhada e necessita optar por um ou outro caminho. Não há como não fazer a escolha, porque “não escolher” já é uma alternativa, e também uma escolha. A decisão é entre clamar ou não ao Senhor. Essas foram as opções que tiveram todos os que sofreram no decorrer da história. Ouça o que disse o profeta Oseias, escrevendo em nome do Senhor: “Não clamam a mim de coração, mas dão uivos nas suas camas” (Os 7.14).¹ Você poderá escolher entre ficar sentado em silêncio ou clamar ao Senhor. Poderá chorar em sua cama ou chorar diante do Senhor. Há duas escolhas. Dá para ver por que as orações litúrgicas podem ser muito úteis. Tentando falar com Deus, você se descobre sem palavras. Não tem como descrever o que está passando: não tem palavras para bendizer a Deus; nem sabe o que pedir. Isso poderia fadá-lo ao silêncio, não fosse o fato de agradar a Deus comunicar-se com seu povo. Ele se deleita em nos ensinar como clamar a ele. Deus dá nome ao silêncio Poderá parecer que Deus esteja longe, mas nossos sentimentos certamente estarão nos enganando. A Escritura está repleta de promessas da presença de Deus com seu povo. Quer evidências? Deus fala conosco e deseja que falemos com ele. Somente quem estiver bem próximo poderá falar e se fazer ouvir. Ele nos fala especialmente por meio da Escritura, e nos convoca para falar com ele. Quando parece que nossa língua está amarrada, ele nos dá, até mesmo, as palavras. Contudo, ele não nos fornece um mero roteiro. Quando repetimos um roteiro, estamos fingindo. Usamos a máscara de outro. Somos atores. Mas Deus nos fornece poesia que, de alguma forma,concede voz ao silêncio de nosso coração. Se tivéssemos habilidade e palavras, escreveríamos muitas dessas mesmas palavras que ele nos dá. Encontramos muitos desses poemas nos salmos. Fazem parte da liturgia de Deus, de antemão preparada. Até quando, Senhor ? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando ocultarás de mim o rosto? (Sl 13.1) Mas eu sou verme e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo. (Sl 22.6) Estremece-me no peito o coração, terrores de morte me salteiam; temor e tremor me sobrevêm, e o horror se apodera de mim. Então, disse eu: quem me dera asas como de pomba! Voaria e acharia pouso. Eis que fugiria para longe e ficaria no deserto. (Sl 55.4-7) Estou atolado em profundo lamaçal, que não dá pé; estou nas profundezas das águas, e a corrente me submerge. Estou cansado de clamar, secou-se-me a garganta; os meus olhos desfalecem de tanto esperar por meu Deus. (Sl 69.2-3) Pois a minha alma está farta de males, e a minha vida já se abeira da morte... Puseste-me na mais profunda cova, nos lugares tenebrosos, nos abismos... Mas eu, Senhor , clamo a ti por socorro, e antemanhã já se antecipa diante de ti a minha oração. Por que rejeitas, Senhor , a minha alma e ocultas de mim o rosto? (Sl 88.3,6, 13-14) Comece uma busca. Inicie com palavras e frases que reflitam o que você está experimentando. Se isso parecer coisa demais para ser pedida, peça que alguém leia para você alguns salmos selecionados. Não se esqueça de que, embora esses salmos expressem emoções bastante cruas, são palavras que o próprio Deus lhe concede. Ele é o ministro que fez a ordem do culto. É o Pai que o ensina a falar. Os salmos de Jesus Quando ouvimos as palavras do Salmo 22: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” podemos pensar em nossa própria experiência. Na depressão, parece que fomos desamparados. Mas lembre-se de que essas foram palavras de Jesus, na cruz. Indicam o fato de que, quando lemos tais orações litúrgicas, não estamos sós. Muitas delas foram compostas por Davi, cantadas pelos israelitas, recitadas na igreja, apontando, todas elas, para Jesus; você mesmo aprende a cantar com o salmista. Jesus é o Cantor Divino, e, hoje, os cânticos do Filho de Deus foram presenteados para os filhos de Deus. Os salmos endireitam a trajetória de nossa vida. Usando as suas próprias palavras, Deus carinhosamente torna nosso coração para a sua direção. Em vez de olhar como se todas as coisas se inclinassem para trás e para dentro de nós mesmos, enxergaremos para fora de nós, fixando os olhos em Jesus (Hb 12.2). Mantenha em mente este padrão. É o caminho da esperança. O fato de que todos os pensamentos se voltam para nós mesmos é opressivo. O eu não suporta tanto peso. Fomos feitos para funcionar com a visão voltada para fora, para Deus e para as pessoas. Repetindo os salmos, lembrando-se de que Jesus os citou antes de nós, aos poucos, você descobrirá mudanças no foco de sua visão. Talvez, por exemplo, comece a observar mudanças no modo como cumprimenta alguém antes que ele o cumprimente; ou comece a escrever algumas de suas próprias orações. Passo a passo, estará saindo de dentro de sua prisão de isolamento. Tente salmos inteiros Apropriando-se das palavras de Jesus, tente trabalhar com porções maiores de salmos específicos. Isso lhe permitirá recitar palavras sobre sua própria experiência e sobre Deus. O salmo 22, por exemplo, começa com uma expressão sincera do coração: Por que me desamparaste? Essa é uma declaração de fé, pois é uma confissão dirigida a Deus. Implica conhecimento suficiente sobre o caráter de Deus para que o sentimento de abandono não faça sentido. E quando você entender e cantar esse salmo com seu sentido maior, certamente será dirigido a uma nova situação: Pois não desprezou, nem abominou a dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu, quando lhe gritou por socorro. (v.24) Os sofredores hão de comer e fartar-se; louvarão o Senhor os que o buscam. Viva para sempre o vosso coração. Lembrar-se-ão do Senhor e a ele se converterão os confins da terra; perante ele se prostrarão todas as famílias das nações. Pois do Senhor é o reino, é ele quem governa as nações. (vv. 26-28) Você descobrirá que a esperança é uma habilidade que exige prática. Não há um versículo, um comprimido ou um objeto que faça essa habilidade surgir como num passe de mágica. A meditação recitada dos salmos da qual nos apropriamos faz parte dessa prática. Clame com frequência Há ocasiões em que, participando de um culto litúrgico, seu coração se mostra animado e cheio de vida. Você recita as Escrituras e profere orações, cheio de paixão. Outras vezes, tudo lhe parece mera repetição de gestos. Não obstante, você ora e lê a Escritura apenas porque as palavras são verdadeiras, mesmo que não as esteja sentindo. Por mais fraco que você esteja, Deus escuta e se agrada do seu clamor, quando você clama por ele, em vez de ficar na cama lamuriando. “As orações oferecidas em estado de sequidão são as que mais agradam a Deus”.² Sentimos a fé de várias e diferentes maneiras. Ela pode ser esperançosa, e pode ser deprimida e sem vida. Os sentimentos não definem a fé. Pois ela significa simplesmente voltar-se para o Senhor. Quando fala os salmos, você “exercita a” fé. Lembre-se de que a fé é obra do Espírito de Deus em nosso coração. Sendo assim, se você consegue falar os salmos, Deus está perto. Tendo isso em mente, persevere. Não apenas profira orações para sair da depressão. Diga-as porque são verdadeiras e evidenciam a operação de Cristo dentro de você. Repita os salmos com frequência. Sobre os teus muros, ó Jerusalém, pus guardas, que todo o dia e toda a noite jamais se calarão; vós, os que fareis lembrado o Senhor , não descanseis, nem deis a ele descanso até que restabeleça Jerusalém e a ponha por objeto de louvor na terra. (Is 62.6-7) Em determinadas horas do dia declare, faça a sua liturgia. Obtenha a ajuda de irmãos que orem com você e por você. Resposta Talvez você se sinta espiritualmente desajustado porque não consegue apreender um salmo inteiro. Tão logo você se conecta a um salmo, ele sobe a alturas espirituais que o deixam para trás. Não se aflija; por ora, bastará que consiga meditar em algumas partes. A fé não é a presença de um sentimento caloroso de religiosidade. É o conhecimento de que andamos diante do Deus que nos escuta. Leia o Salmo 88. Observe como ele termina – “As trevas são minha única companheira” (NVI). Não costumamos pensar nisso como uma expressão de fé, mas é isso mesmo. Quando clamarmos a Deus – até mesmo, quando a dor questionar: por que se importar? – nos depararemos com uma confiança que é heroica. Permita-me lembrar onde estamos. Ainda não entramos nos detalhes específicos da depressão. Estamos apenas tocando em alguns aspectos da comunicação de Deus com você. Por favor, não pense que vamos exaurir as profundezas da Escritura. Em vez disso, se deixe encorajar, pois as palavras de consolo e direção de Deus são quase sem limites. Dezenas de maravilhosos livros só começaram a desenrolar as surpresas das Escrituras. Se nada estiver ressoando em sua alma, considere as razões pelas quais isso ocorre. Às vezes, queremos que Deus esteja distante. Mesmo que nossa indiferença possa vir de outra fonte, não é verdadeiro que nos tornamos indiferentes quando não queremos mais nos preocupar com alguém? Talvez, você tenha frustrações não formuladas quanto ao seu relacionamento com Deus. Quais seriam? Diga-as a ele. Confiai nele, ó povo, em todo tempo; derramai perante ele o vosso coração; Deus é o nosso refúgio. (Sl 62.8) 1 Agradeço a Andree Seu, que destacou para mim esta passagem. 2 LEWIS, C.S. Screwtape Letters (Nova York: Macmillan, 1977), p. 39. Capítulo 7 Guerra Se soubesse que um inimigo o persegue de perto, você certamente o colocaria sob vigilância, especialmente se tal inimigo fosse especialista em táticas de guerrilha. Até mesmo quando estamos deprimidos, uma ameaça à nossa vida bastará para garantir que aumentemos os esforços,a não ser, é claro, que ignoremos a sanha do inimigo. Em tempos de dificuldade e sofrimento, é quase certo que haverá batalha espiritual. Lemos sobre a tentativa de Satanás para levar vantagem ao que julgou ser uma oportunidade singular de ataque, quando Jesus foi levado ao deserto para sofrer isolamento espiritual e físico (Mt 4). Quanto mais Satanás perseguirá a meros mortais, quando passarem pela experiência emocionalmente árida da depressão. A Bíblia o descreve como um leão à espreita no campo, pacientemente aguardando a oportunidade para devorar os incautos (1Pe 5.8). Pense na natureza da depressão. Toda a vida está voltada para dentro. Já temos um sentimento de que, na prática, Deus não se faz sempre presente. Acrescente a isso a implacável condenação e difundida autocrítica que nos persuadem de que Deus não nos ama. Não podemos ser alvo espiritual mais óbvio e fácil, se fosse pintado um alvo em nosso peito. As estratégias de Satanás Satanás se apresenta travestido de anjo de luz (2Co 11.14), o que significa que ele não é facilmente notado. Mas o apóstolo Paulo nos assegura que Deus revelou o suficiente para nos conscientizar de suas táticas e estratagemas (2Co 2.11). A fim de identificá-las, deveremos pensar mais no que é comum e ordinário do que naquilo que é bizarro. A possessão demoníaca descarada, com suas manifestações assustadoras, é uma das táticas de Satanás; mas outra manobra mais comum do inimigo é levar-nos a pensar que suas estratégias estejam sempre acompanhadas de sinais que chamam atenção a ele mesmo. A verdade é que, no dia a dia, ele prefere não se fazer notório. Trabalha mais sutilmente, das seguintes formas: Mentiras. Existe algo mais comum e ordinário do que a mentira? Ela certamente não prende mais nossa atenção, pois vem de modo muito natural. Crianças pequenas mentem sem que sejam ensinadas. Políticos mentem, e nós esperamos isso deles. As variações são infindas: mentiras brancas, mentiras brutas, justificativas, exageros, minimizações, mudança de assunto. Por trás desses enganos existe mais que uma tentativa para se esquivar da responsabilidade pessoal pelo mal feito. Por trás das mentiras está o pai das mentiras, o próprio Satanás. “Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44). Você também é vulnerável. Poderá ser leal para com crenças erradas, e altamente resistente às mudanças. Por exemplo, dado que você se sente como um fardo para sua família, e sente que eles estariam melhor sem você, para acreditar que essa seja a verdade. Todos os protestos e as afirmações de amor que fazem não o convencerão a mudar de ideia. Se você sente que Deus o abandonou, acabará acreditando que isso realmente aconteceu. Nada o persuadirá do contrário. Em outras palavras, os sentimentos podem mentir. Dá para perceber a progressão? Somos espiritualmente vulneráveis → nossas emoções são tão fortes que distorcem nossas interpretações → Satanás ataca → juramos fidelidade à nossa interpretação mais pessimista, não obstante o que digam as pessoas. Aqui não há encantamentos, cabeças em torvelinho, vozes estranhas ou aparentes rituais satânicos. Tudo parece muito natural. Mas é uma batalha espiritual de longa duração para derrubar alguém. Mentiras a nosso próprio respeito. As mentiras de Satanás são calculadas e estrategicamente arquitetadas. São dirigidas à jugular espiritual – às questões mais importantes da vida. Você acredita que algumas coisas que fez, sejam demasiadamente ruins que não possam ser perdoadas? Se for assim, você estará crendo na mentira de Satanás de que o sangue de Jesus só vale para pecados pequenos ou não intencionais. A verdade é que, mediante a cruz, o julgamento do pecado já foi assumido por Cristo em relação a todos os que creem, incluindo você, se tiver afirmado sua fé nele. Você acredita também que é impossível para o Espírito Santo amá-lo e, até mesmo, ter prazer em você? Se for assim, você estará acreditando na mentira de Satanás de que Deus o ama devido ao que você faz. A verdade é que Deus nos ama, não porque sejamos amáveis, mas porque ele é amor. Nós simplesmente não temos poder para mudar o caráter de Deus. Ele nos amou primeiro. Nada que você faça o impedirá de amá-lo. Precisa de provas? O sacrifício de Jesus comprova isso. Ele morreu por nós quando ainda éramos seus inimigos. Ele não pede que primeiro endireitemos nossa vida. Simplesmente pede que respondamos confiando nele e não em nosso modo inútil de conduzir a vida. Você acredita que não tem razão para viver? Se estiver crendo nisso, estará crendo na mentira de Satanás, de que você pertence apenas a você mesmo. A verdade é que você é propriedade de Deus e que ele tem propósito em relação à sua vida. Além disso, a cruz de Cristo revela que os propósitos de Deus são sempre bons. Você acredita que tais questões não tenham importância? Se for este o caso, estará crendo na mentira de Satanás, de que nosso relacionamento com Deus não tem nada a ver com a nossa luta contra a depressão. A verdade é que sua relação com Deus é absolutamente essencial, especialmente agora. Sua vida depende disso. Você foi “pego” por essas perguntas? É isso aí – essa é a batalha. Tem tudo a ver com a depressão. Não pense que tais mentiras sejam automaticamente “baixadas” (downloaded) em nossa mente, para que, como robôs, as repitamos. As mentiras não se impõem ao coração. Ao contrário, as mentiras de Satanás brotam depois que as sementes foram plantadas. Satanás é o conselheiro que endossa as mentiras que já suspeitávamos ser verdadeiras. Ele é a falsa testemunha, rápida em confirmar nossas falsas interpretações. Por isso é que a batalha espiritual parece tão natural. Não somos tomados contra nossa vontade. Em vez de lutar contra nós nas áreas em que temos forte fé e certeza (onde as mentiras nos parecem tolas e óbvias), Satanás procura a fé enfraquecida, na esperança de que cedamos mansamente. Começa onde abrigamos dúvidas. Sempre oportunista, Satanás percebe nossa vulnerabilidade e diz simplesmente: “É, o que você acredita é verdade”. Mentiras sobre Deus. Se olharmos de perto para as mentiras em que cremos, perceberemos que somos pegos no fogo cruzado. Sim, somos as vítimas que ele pretende derrubar com mentiras que causam autocondenação; mas não somos o alvo principal dessas mentiras. A saraivada é destinada especificamente contra o caráter de Deus. Seu alvo é levantar dúvidas sobre Deus. Especificamente, elas questionam o amor e poder de Deus. Observe, por exemplo, as primeiras mentiras de Satanás: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim? (Gn 3.1) É certo que não morrereis. (Gn 3.4) Essas palavras atacam diretamente a bondade e a verdade de Deus, ambas expressões do seu amor. Satanás está dizendo: “Você pode realmente confiar nas palavras de Deus? Será que ele é realmente bom? Talvez esteja sonegando algum bem... Poderá ser que ele seja sovina”. Com questionamentos e acusações dessa espécie, Satanás tem toda a munição que precisa. A maior parte da batalha espiritual consiste em variações menores desses ataques antigos. Se você suspeita ser vulnerável às mentiras de Satanás – e, se estiver deprimido, o que é provável –, terá de reproduzi-las com outras palavras e perceber que elas visam mais a Deus do que a nós mesmos. Por exemplo, podemos reinterpretar: “Eu sou sem valor”, em termos de: “Deus não me deu o sucesso que eu queria, portanto, não acredito que ele seja bom”. “Perdi o que era mais importante na vida”, por: “Deus não basta para mim”. “Não consigo continuar”, passa a ser: “Não acredito que Deus escute nem que tenha suficiente poder para trabalhar nas fraquezas humanas”. Dá para perceber? Nosso sofrimento poderá caminhar por muitos lugares diferentes, contudo, não obstante sua origem próxima, no final, Satanás está sempre no jogo. Para ele, o tempo do sofrimento é a ocasião ideal para levantar questionamentos sobre Deus, pois nós mesmos estamos fazendo isso. O sofrimento levanta perguntas espirituais quenão podem ser ignoradas. O apóstolo Paulo ressalta isso, nos lembrando que, durante o sofrimento, uma batalha demoníaca “se levanta contra o conhecimento de Deus” (2Co 10.5). Mentiras que focalizam as realidades temporais e não as espirituais. Esse engano bem comum ocorre, até mesmo, antes que o sofrimento comece. Em tempos melhores, Satanás estimula-nos a ver a bondade de Deus ao nosso redor. – Vocês têm um casamento sólido. Deus é bom! – Sua saúde está ótima. Deus é tão bom! – Suas contas estão todas pagas e ainda há dinheiro no banco. Como Deus é bom! – Fite os olhos nessas bênçãos materiais e afira a bondade de Deus diante do que você vê, porque a vida nem sempre será um acúmulo de coisas boas. Quando vierem as dificuldades, você não verá nenhuma evidência da bondade de Deus! Foi o que Satanás tentou com Jó, se bem que sem sucesso. Esse justo possuía tudo de bom na vida, e Satanás presumiu que uma vez que perdesse tudo voltar- se-ia contra Deus. Mas Jó confiou em Deus em todo tempo, fazendo Satanás fugir, derrotado. Nosso contra-ataque Se quisermos seguir os passos de Jó, teremos uma vantagem espiritual sobre Satanás. Na verdade, teremos mais vantagem do que Jó. Ele não sabia aquilo que nós sabemos sobre Satanás. Jó não foi precedido por Jesus, que ficou firme contra as ciladas de Satanás, no deserto. O que acontece em nossa vida, quando simplesmente dizemos a Jesus: Sim, confio no Senhor, é que também confiamos em seu poder de nos manter firmes contra os ataques de Satanás. Os detalhes de como opera a fé na batalha espiritual são conhecidos, se bem que facilmente esquecidos. Lembre-se de que temos um inimigo. Temos de seguir a liderança de pessoas sábias que começam cada dia, dizendo “Hoje tenho de estar alerta porque tenho um inimigo”. Peça a outras pessoas que te lembrem disso, e esteja pronto para fazer o mesmo pelos outros. Reconheça que estamos caminhando aonde rebeldes conhecidos rondam a área e se empenham em destruir-nos. Assuma que a guerra é rompante. Sequer procure pelos sinais de batalha. Simplesmente presuma estar no meio dela. Se quiser evidências, não as procure na intensidade da depressão. Não estamos certos, ainda, se Satanás tem influência nesse momento específico, mas já sabemos que ele se utiliza da natureza crônica de nossa dor como área onde empregar estratégias conhecidas tais como estas: Você está sem esperança? Acredita que Deus esteja afastado e distante? Você questiona o amor de Deus? Você questiona o perdão de Deus? Você não vê razão para conhecer melhor a Cristo? Lembre-se que Satanás sempre ataca o caráter de Deus. Você está ouvindo conselhos sábios e a Escritura? Se não, isto é sinal certo de que está perdendo algumas brigas espirituais. Escutar é um marco de humildade contra o qual Satanás não consegue obter vitória. Não pense que o seu caso seja único. Essa mentira comum questiona o cuidado de Deus: todo sofredor é tentado a acreditar que o seu sofrimento é único. Tal mentira torna irrelevante todo conselho porque ninguém entende o que enfrentamos, portanto, nenhum conselho se aplica. Como resultado, a solidão que já experimentamos torna-se fato estabelecido, e damos maior permissão ao desespero. Ninguém é imune a essa mentira e todos podem dar exemplos pessoais de como ela é atraente. Por exemplo, William Cowper, compositor de hinos no século 18, tal como o conhecido “Há uma fonte carmesim”, ainda que imbuído das Escrituras, comentou sobre sua depressão: “Não existe encorajamento na Escritura que inclua o meu caso, nem consolo tão efetivo que me alcance”.¹ Em sua depressão, assuma que a mentira está presente. Considere-a um anexo permanente. Enquanto estiver lutando contra a depressão, terá de estar especialmente alerta quanto a isso. Seu alvo não é o de vencer a luta, mas se engajar nela com o conhecimento crescente de Jesus Cristo. Conheça a Cristo. Satanás dedica todos seus esforços contra um ponto: a verdade sobre Jesus. Se você estiver crescendo no conhecimento acurado de Jesus Cristo, já estará ganhando a batalha. Se não, estará perdendo terreno a cada dia. O conhecimento de Cristo é mais plenamente revelado na cruz – com a morte e a ressurreição de Jesus, fatos de suma importância (1Co15.3-5). A cruz é a evidência de que o amor de Cristo é bem mais que apenas boas intenções ou compaixão desprovida de ação. Demonstra que o amor de Cristo é um amor santo que ultrapassa nosso entendimento. Se estivermos zangados porque Deus permitiu que a dor encontrasse lugar em nossa vida, devemos nos lembrar que seu amor é muito mais desenvolto que o nosso. Nossa ira demonstra que somos apenas filhos pequeninos que acham que sabem o que é melhor. Não é surpresa que o conhecimento de Cristo seja o centro do plano de Deus para tudo, não apenas para a guerra espiritual. Deus exaltou a Cristo acima de todas as coisas. Quando conhecemos e honramos a Jesus, Deus se agrada de nos abençoar com mais: mais conhecimento, mais fé, mais amor, mais esperança. Somos assim melhor equipados para a luta. Outra razão por que é importante conhecermos a Jesus é porque um dos grandes propósitos da existência humana é que nos assemelhemos mais e mais a ele. Este é o plano de Deus para nós, um dos maiores dons que poderíamos receber. Evidencia que ele nos fez participantes de sua família. Se Jesus aprendeu a obediência mediante o sofrimento, nós também aprenderemos. Um caminho sem sofrimentos faz com que indaguemos se realmente pertencemos a Deus. Pensar como Deus é um desafio. Em outras palavras, o nosso pensamento atual deve ser virado de cabeça para baixo. Antes, pensávamos que teríamos de evitar o sofrimento a todo custo; agora, entendemos que o caminho pelo qual nos tornamos semelhantes a Jesus passa pelo sofrimento, e é muito melhor do que o de conforto breve e superficial sem Jesus. Quando entendemos esse grande propósito, descobrimos que o sofrimento não é oposto ao amor; resulta dele (Hb 12.8). Temos a impressão errada de que o amor divino não possa existir junto ao sofrimento humano. Essa ideia é uma das estratégias mais eficazes de Satanás, e tem de ser atacada pelo evangelho da graça. Humilhe-se diante do Senhor. Quando deprimidos, sentimos que não será possível descer mais baixo. No entanto, a humildade será uma reação ao amor de Cristo que sempre se mostrará adequada e fortalecedora. Humildade é diferente de se sentir rebaixado. É curvar-se diante de Deus e aceitar a sua vontade soberana. A humildade diz: Deus não me deve nada. Ele não é meu servo – eu sou servo dele. Deus é Deus e tem o direito de fazer o que quiser. Foi esse o presente que Deus deu a Jó, na sua batalha espiritual. Embora quisesse questioná-lo, ocorreu o contrário; Jó foi questionado por Deus e, depois de ouvir sua resposta, humilhou-se em sua presença: “Sou indigno; que te responderia eu? Ponho a mão na minha boca” (Jó 40.4). Quando temos um crescente conhecimento de Deus, nossa reação natural é a humildade. Em face de tão poderosa resposta espiritual ao conhecimento de Cristo, Satanás fica sem ação. Resposta Considere sua reação à batalha espiritual. Se você tiver consciência de que ela está sendo travada mesmo quando não estiver emocionalmente movido por tal conhecimento, estará no caminho certo. O Espírito estará trabalhando em sua vida. Tome, então, alguns pequenos passos para participar dessa batalha. Considere a leitura de Jó 38 a 42. Talvez as perguntas pareçam duras, mas perceba que esse era o modo como os pais judeus ensinavam a seus filhos. O contexto é o amor. A argumentação lhe parece irrelevante? Considere, então, duas perguntas. Primeiro, o seu compromisso é com Jesus Cristo? Se não for, abra o coração para conhecê-lo. Como você poderia recusar uma oportunidade para considerar alguém que promete vida e esperança? Ainda que você não tenha toda certeza quanto às suas alianças, faça-o assim mesmo. Abra-se para conhecê-lo melhor. No decorrer da história, Jesus tem sido especialista em revelar-se àqueles que sofrem. Se você já declarou publicamente sua fé emJesus, mas, hoje, encontra- se tomado de dúvidas, pode distinguir entre depressão e fé? Não esqueça que a depressão lança sombras sobre tudo, até mesmo sobre a fé. Sendo assim, sua fé não parecerá jubilosa. Mas isso não significa que não pode ou não quer crer. Você não consegue, por sua vontade, sair da depressão, mas pode, sim, confiar no que Deus disse. É essa sua tarefa. Disse Jesus: “A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado” (Jo 6.29). Diga “amém” quando alguém está lhe dizendo a verdade. Comece o dia com: Sim, Senhor, eu creio! – por mais fraca que seja a sua fé. A outra pergunta a considerar é: Você quer mudar? Por mais estranho que seja, a depressão pode acabar parecendo amiga. Você não escolheria sua amizade, se tivesse opção, mas agora que ela está aí, é confortável e previsível. Podemos até mesmo derivar uma identidade pessoal da depressão, o que é especialmente tentador, porque, sem a depressão, não sentimos possuir identidade. Se não estiver envolvido na batalha espiritual que até agora estivemos tratando, é bem possível que você esteja se enganando. Talvez, esteja apenas fazendo os gestos certos. Daí, pode sempre dizer que tentou, quando na verdade não o fez. E, ainda mais, poderá alegar uma consciência limpa, enquanto permanece preso no buraco da desesperança. Essa é uma batalha. Se quiser proceder a uma mudança, terá de se dispor a enfrentar a tarefa à frente. 1 “William Cowper and His Affliction”, The Banner of Truth, p. 28. Capítulo 8 Lembrar Mostre a uma criancinha o seu brinquedo favorito e, depois, coloque-o atrás das costas. Da perspectiva infantil, parecerá que você tem poderes mágicos. Você acaba de fazer desaparecer um objeto sólido! Agora, coloque o objeto de volta à frente da criança. Abracadabra, shazã, é mágica! Reapareceu do nada. É claro que você não tem nenhum mérito nesse truque. Está simplesmente tirando vantagem de um cérebro que ainda está em amadurecimento. Crianças muito pequeninas acham que o objeto desapareceu; crianças maiorzinhas olharão atrás das suas costas procurando o brinquedo escondido. Para elas, ainda será um jogo, mas não é mais mágico. É um fenômeno chamado permanência do objeto – a capacidade de saber que um objeto escondido ainda existe, ainda que não consigamos vê-lo. É uma habilidade que adquirimos à medida que crescemos. A realidade espiritual é assim. Você ouve uma ilustração muito boa, participa de um culto centrado em Cristo, seu coração se comove, mas dentro de instantes é como se nunca tivesse ouvido nenhuma palavra nem participado de nada. Você sai do mesmo modo que entrou – é um caso de Alzheimer espiritual. Não ouve nenhum eco. É como se ainda não tivéssemos alcançado o estado de permanência de objeto, pelo menos no que diz respeito ao conhecimento de Deus. Com isso em mente, a Escritura implora para que nos lembremos. Antes da vinda de Jesus, ela oferecia muitos artifícios mnemônicos, tais como as festas anuais que celebravam a libertação, e as Escrituras que podiam ser lidas diariamente. Depois da morte e ressurreição de Jesus, Deus está disposto a estimular nossa memória, a cada dia. A Bíblia, hoje, é bem mais acessível; celebramos a Ceia do Senhor, recebemos o Espírito Santo, testemunha ocular, apontando-nos continuamente para Cristo. Parece que Deus se agrada de repetir o que fala. Para alguns, a repetição torna-se um diz que disse e fez aquilo que ora é ligado ora desligado, indo e voltando à medida da necessidade. Os sábios, porém, consideram a memória essencial à alma humana. Faz parte da antiga e esquecida arte da meditação. É essencial ao processo de transformação e um instrumento para a batalha espiritual. Temos aqui um salmo que nos guia nas lembranças: Das profundezas clamo a ti, Senhor . Escuta, Senhor, a minha voz; estejam alertas os teus ouvidos às minhas súplicas. Se observares, Senhor , iniquidades, quem, Senhor , subsistirá? Contigo, porém, está o perdão, para que te temam. Aguardo o Senhor , a minha alma o aguarda; eu espero na sua palavra. A minha alma anseia pelo Senhor mais do que os guardas pelo romper da manhã. mais do que os guardas pelo romper da manhã, espere Israel no Senhor , pois no Senhor há misericórdia; nele, copiosa redenção. É ele quem redime a Israel de todas as suas iniquidades. (Sl 130) Das profundezas O salmo 130 começa com os sofrimentos que levaram o salmista ao vórtice da própria morte. É o que ele diz quando grita: “das profundezas”. Não sabemos como isso ocorre ou o que exatamente acontece, mas sabemos que ele se sente prestes a cair na cova. Em outras palavras, o salmista entende o que é sofrer. Enquanto cambaleia à beira do abismo, o salmista tem por escolha: lamentar sua pavorosa condição ou clamar ao Senhor. É claro, como nossa voz e direção, ele nos lidera no clamor. Perdão dos pecados Como seremos salvos? Deus subjugará seus inimigos? Trará cura? O salmista carece de algo poderoso, urgentemente. Sente que sua vida está em jogo e, se não for liberto, terá apenas alguns minutos – não dias – antes da morte. A libertação vem, mas, como é costume de Deus, não vem de modo previsível. Sinceramente, à primeira vista, parece uma fraca tentativa de salvamento. O salmista recebe uma corda um tanto fraca que o erga do abismo: seu Deus é o Deus que perdoa os pecados. Isso nos força à reflexão. Não temos evidência de que o pecado do salmista fosse o motivo do seu sofrimento. Como poderá obter esperança de ter sido perdoado? Como isso o salvará? Parece um chavão espiritual para uma situação de vida ou morte. Se você ouvisse um amigo dizer isso, poderia, até mesmo, agradecer, mas certamente não voltaria a buscar a sua ajuda. Na hierarquia de necessidades, a sobrevivência física parece mais básica que o encorajamento espiritual. Mas o salmista é claro quanto a essa questão. Sem se desculpar, ele apresenta o perdão dos pecados como a resposta mais profunda de todas. De sua perspectiva, o perdão dos pecados alcançou o filão mestre. Para que apreciemos a direção do salmo quanto a isso, temos de crer que o pecado é problema em nossa vida. De fato, para que realmente sejamos dirigidos pelo salmo, temos de reconhecer que o pecado é o nosso problema mais grave, mais profundo do que a depressão. Robert Fleming, pastor escocês que viveu nos idos de 1630-1694, quando perseguido, disse: “No pior dos tempos, ainda há mais razão para reclamar de um coração mau do que de um mundo mau”. Em uma cultura em que o pecado não faz parte do discurso público normal, a adoção dessa perspectiva dará um pouco de trabalho. Temos aqui algumas perguntas, para começar. Você acredita que encontrar pecado em sua vida seja algo positivo? Você sente que a autoestima não poderia estar mais baixa, e as pessoas começam a falar de pecado. Por que não cravar o prego final no caixão? Mas, contrário à opinião popular, é uma boa coisa. Mais especificamente, quando enxergamos o pecado em nós mesmos, isso é algo bom. Por duas razões. Primeira, o pecado poderá parecer natural, mas fomos criados originalmente para vivermos sem pecado. A humanidade verdadeira – humanidade bendita – é humanidade sem pecado. Claro que, deste lado do céu, a perfeição é impossível, mas, quando lutamos contra o pecado, nos certificamos de que fomos feitos para viver assim. Segunda, quando enxergamos nosso pecado é evidência de que Deus está perto. O Espírito Santo é quem revela o pecado (Jo 16.8). De nós mesmos, não temos tamanha perspicácia. Se você percebe seu pecado, tenha esperança – o Espírito Santo está atuando em sua vida. É uma evidência clara do amor de Deus. Você crê que o pecado é cometido contra Deus? Indo um passo adiante, embora seja fácil reconhecer que pecamos – quem não peca? – é sempre mais difícil reconhecer que o nosso pecado é contra Deus. Não pensamos que a maior parte dos erros sejam atos pessoais. Quando quebramos uma lei, não entendemos ter infringido uma disposição da câmara municipal, do congresso ou de qualquer que tenha estabelecido a lei,sem, contudo, ofender o autor dela. Mas na Bíblia, a violação da lei é muito mais pessoal. É mais um adultério do que um excesso de velocidade. O adúltero pensa que pode obter o que deseja, mas, quando exposto, reconhece que o malfeito é altamente pessoal. Sim, fez o que queria, mas entende que o fez contra seu cônjuge. De maneira semelhante, nem sempre reconhecemos que o pecado é rebeldia consciente contra Deus. Não vemos, de imediato, que todo mandamento bíblico emana do caráter de Deus e que toda violação o desonra. Para nós, o processo é mais encoberto. Somente quando o Espírito Santo faz brilhar sua luz em nosso coração é que reconhecemos que o pecado é pessoal. Você crê que o pecado é encontrado na imaginação, motivação, pensamentos e ações? Embora possamos passar um dia sem que outras pessoas vejam nosso pecado, não passaremos nem uma hora sem pecar por meio de pensamentos e imaginações. É aí, nos termos do coração humano, que encontramos egoísmo, orgulho, desejo de ser amado em vez de amar, ira e falta de perdão, inveja, reclamações, murmuração, e ingratidão contra Deus que perdoa o ímpio. Poderemos esconder dos outros todos esses pecados, mas Deus os vê com clareza. Você pode, neste momento, identificar com precisão vários pecados? Agora vem a prova de fogo: quais são os pecados que você vê em sua própria vida? Não faça uma lista dos insucessos de sua vida; faça uma lista dos modos como você realmente peca contra Deus. Comece com o óbvio: você não ama de todo coração; você se preocupa com o próprio sucesso mais do que com Deus e seu reino; você está cheio de orgulho e julga as outras pessoas. Só assim será mais específico. Se falhar quanto a essa questão, o salmo não terá nenhum significado para você. O salmista sabe que o pecado é um problema mais profundo e sério do que o seu próprio sofrimento. (Lembre-se que o fato de ter sido escolhido como autor humano dos salmos bíblicos revela que ele seria uma pessoa decente e razoavelmente moral. Se ele conhecia seu pecado, nós também deveríamos reconhecer o nosso.) Ele sabia também que nenhum outro deus perdoaria tais infrações sem penitências intermináveis. Mas o seu Deus, o Deus triúno das Escrituras, não guarda uma lista dos erros daqueles que se voltam para ele. Sendo assim, o salmista se colocou diante de Deus, maravilhado. Não podia compreender tal amor, mas era grato por ele. O modo exato como Deus pode perdoar a rebeldia é algo que não fica muito claro, nesse salmo. Mas, hoje, nós sabemos como ele realizou isso. O salmista anteviu a cruz de Cristo, onde o próprio Deus carregou a justa pena da rebeldia de suas criaturas. Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. (Rm 5.7-8) Tal conhecimento dominou o salmista, deixando-o sem palavras. Esperança O amor produz esperança. Se, em nossa miséria, formos totalmente convencidos do amor de Deus, teremos confiança no seu livramento. Portanto, esperamos nele. Esperemos quanto tempo for necessário, porque estamos certos de que ele nos ama e nos ouve. Ele virá, sim. Libertará, sim. De fato, já está a caminho. O amor de Deus inspira o anseio de estar com ele e a confiança de que sua palavra é verdadeira – portanto, sabemos que ele vem. Essas duas coisas – anseio e confiança – combinam para formar a esperança. Quando o amor faz parte da vida, o tempo se move em ritmo diferente. Veja este exemplo: “por amor a Raquel, serviu Jacó sete anos; e estes lhe pareceram como poucos dias, pelo muito que a amava” (Gn 29.20). Contraste isso com o sentimento sem fim e sempre presente do sofrimento da depressão: não há expectação de alívio, o sono não chega, a manhã não é uma promessa. A realidade é que somos os vigilantes da última vigília da noite. São 4h30 da madrugada. Já vimos, muitas vezes, o nascer do sol; ansiamos por sua chegada; estamos certos de que chegará. Que raio de sol esperamos? No salmo 130, a manhã de sol é uma pessoa. Nessa pessoa há muitos benefícios: cura, libertação e amor, mas não se engane – trata-se mesmo de uma pessoa. Esperamos por ela mais do que pelos seus dons. Não somos crianças ansiosas para chegar à casa da vovó, só porque esperamos seus presentes. Somos como a esposa apaixonada, cujo esposo está prestes a chegar de uma longa viagem. Só ver o amado bastará, trazendo ou não os presentes. Aqui, tenha cuidado para não se desanimar com o entusiasmo do salmista. Ele é realmente inspirador, e será difícil encontrar outro igual. Se ele ainda não nos contagia, não desesperemos. Mudar das profundezas para as alturas de uma esperança confiante é algo que requer algum esforço. Considere este salmo como a versão condensada de um longo processo de aprendizado. Deus determina muitas coisas boas que vêm mediante a perseverança. Olhe ao seu redor e veja como teve de se esforçar com alguma coisa antes de aprendê-la. Esportes, hobbies, vocações, até mesmo, relacionamentos – tudo segue o mesmo esquema. Não espere que a esperança surja repentinamente. Seria como insistir em tocar Mozart antes da segunda aula de piano. A esperança é um dom de Deus, e é também uma habilidade que ele nos capacita a adquirir. O ponto é que podemos ter a mesma esperança do salmista. Encorajar a outros Quando recebemos algo maravilhoso, geralmente falamos sobre isso a outras pessoas. Notícia boa não pode ficar escondida. Nesse salmo, aquilo que começou como o clamor de um homem isolado, tornou-se um grito para a comunidade: Se eu pude encontrar esperança e amor no Senhor, vocês também podem. Se encontrei alegria no perdão, vocês também encontrarão. Ou, parafraseando o salmo: “Se eu, salmista do Antigo Testamento, que não vi a vinda de Jesus, posso falar com tamanha esperança, quanto mais vocês, que testemunharam a cruz – evidência irrefutável do perdão dos pecados?” Concordo que ainda isso possa parecer um sonho impossível, mas lembre-se de que é o próprio Deus quem dá esse salmo. Deus está reescrevendo sua história. Talvez você se sentiu bem repetindo o clamor dos primeiros dois versículos, mas o Espírito de Deus quer que você conheça a totalidade da história. Esse é apenas um dos muitos salmos que você poderá tomar para si. Poderá ser sua propriedade e seu futuro. Pense nisso. Você que entende que não tem propósito. Reflita no significado de ser embaixador da esperança para pessoas desesperadas. Aqueles que já lutaram com a depressão são especialmente críveis porque tiveram experiência do sofrimento; sua esperança foi testada e autenticada. Quando você falar da esperança para outra pessoa, certamente seu testemunho será atraente e persuasivo. Resposta Às vezes, temos de nos forçar para comer. Não temos fome. Simplesmente não queremos comer. Mas sabemos que precisamos nos alimentar. É o momento de nos forçarmos a comer. Nossa saúde espiritual depende disso. Não estamos acostumados a fazer aquilo que não sentimos vontade. Se já tentamos outras vezes, certamente, repetir nos parecerá mecânico e estranho. Não nos parecerá muito humano, pois estamos acostumados a ser mobilizados por nossas paixões. Esteja certo que isso é muito humano. Quando os animais usam os instintos – sua versão de sentimentos – são escravos deles. Nós, porém, podemos sobrepujar nossos instintos. Podemos agir em sabedoria e fé. Se este salmo lhe cabe, fique com ele. Destaque-o, releia, deixe que outras pessoas o recitem para você, fale a respeito dele. É preciso praticar para torná-lo sua propriedade. Qual é o seu plano para relembrar? Capítulo 9 Propósito Muitas vezes, vivemos em fragmentos de significado. É surpreendente como conseguimos sobreviver com tão pouco: um aumento de três por cento, perder três quilos, sexo casual, uma relação pela internet. Só com muita dificuldade conseguimos enxergar significado e propósito a partir de fumaça, isto é, até sucumbir à depressão. Daí, percebemos não haver mais uma história maior, e cai o pano no palco.Há momentos em que nosso trabalho – a atividade por meio da qual descobrimos nosso valor no mundo –, momentos, eu digo, quando, de repente, nossa profissão, nosso labor diário, parece um cenário de teatro, e este rui. Todo nosso trabalho de valor colapsa. Horrorizados, olhamos para o reverso das coisas materiais, a profundidade espiritual em que sempre acreditamos haver significado, mas não vemos nada. É nada, nu.¹ A depressão parece esse estado de ausência de pensamento, mas é também um lugar de percepção, porque vemos que o palco era, na verdade, apenas um palco. O que parecia significante e verdadeiro há alguns anos, acabou sendo apenas uma fachada. Os prazeres eram fugidios. Nada durou. O casamento ficou rançoso. Esse insight, essa percepção, é coisa dolorosa e parece custar a vida. Mas, se estivermos dispostos, o passo seguinte iniciará uma jornada significativa no caminho da sabedoria. Muitos sábios já fizeram essa peregrinação. Palavra do Pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém: Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. (Ec 1.1-2) Isso, no entanto, é apenas o início. A depressão diz: “Você não encontra significado naquilo que está fazendo”. E essa afirmativa está certa. O que ela não diz é: “Continue a procurar, que você achará. Você é uma criatura com propósito real”. Para isto, precisará ouvir outros que já trilharam este caminho antes de você. Eles insistem para que você continue e apontam o caminho. Tema a Deus e guarde seus mandamentos Quando observamos a vida, escutando pessoas sábias, rapidamente descobrimos que não somos o centro dela. Isso, certamente, ferirá nosso orgulho, mas será um alívio bem vindo. Simplesmente não podemos investir nossas esperanças, nossos sonhos e nosso amor no “eu”, porque ele não foi feito para carregar carga tão pesada. Na verdade, não há nada concebido na criação para sustentar tais esperanças. A criação deve ser usufruída, mas não podemos colocar nela nossa confiança. A única alternativa é confiar no próprio Deus. O Pregador (ou professor, mestre) do livro de Eclesiastes tenta economizar tempo em nossa busca de significado e propósito. Ele diz que tentou fazer a vida girar em torno dele mesmo, e não deu certo. Tentou cultura, riso, grandes projetos, prazer sexual desenfreado, dinheiro, música e filhos. Todas essas coisas, quando tornadas em finalidade de vida, conduziram apenas ao desespero. Ele não encontrava propósito no mundo criado. Depois de invejar, por breve tempo, uma vida comum de trabalho honesto, bons amigos, comida, bebida em moderação, e fazer o bem, ele chegou à sua resposta – seu objetivo. “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem” (Ec 12.13). Não se assuste com a palavra “temer” na expressão “teme a Deus”. Ela é, na Escritura, uma palavra muito mais expansiva do que entendemos por estar com medo de alguém. Inclui profunda reverência e admiração, honra e adoração. Sim, há o modo certo de nos aproximarmos de Deus em temor, mas isso não implica uma possível condenação. Se pusermos nossa confiança em Cristo, não existe nenhuma condenação. Tememos a Deus porque ele é Deus. Não é manso e domesticado como algumas vezes gostaríamos que ele fosse. O temor de Deus deve ser nosso modo de responder ao fato de que ele é superior a nós – diferente de nós – em todas as coisas. Sua beleza é bem maior. Maior a sua sabedoria. Seu amor é muito maior. E, sim, sua ira também é maior. Em palavras simples: ele é Deus e nós não somos. Numa época em que está na moda “suavizar” o caráter divino, “temor” é um antídoto maravilhoso. Há ocasiões em que, conhecendo a Deus e sabendo o que ele fez e faz, nossos joelhos deveriam estar tremendo. Martinho Lutero, por exemplo, estava convicto de que deveríamos estar aterrorizados ante os sofrimentos de Cristo, porque tais sofrimentos revelam a gravidade de nosso pecado, merecedor de severo julgamento. Claro, ele não parou ali. Estava persuadido também de que deveríamos tremer em face do conhecimento do amor de Deus, que é maior do que qualquer coisa conhecida ou concedida.² Temer a Deus e guardar os seus mandamentos trazem certa simplicidade à vida. Ele é Criador, nós somos criaturas. Somos sua propriedade. Quando ele dirige, nós o seguimos. Chegamos diante dele, dizendo: Como é que o Senhor quer que eu viva hoje? O salmista chegou a ponto de dizer que sua aflição foi valiosa porque o ensinou mais sobre guardar os mandamentos de Deus, objetos do seu prazer (Sl 119.71). Existem, claro, muitos mandamentos nas Escrituras. Ninguém poderá guardar tudo na cabeça. Mas podemos nos lembrar mais fácil e resumidamente da lei de Deus: amá-lo sobre todas as coisas e amar-nos uns aos outros. O que isso tem a ver com propósito e significado? Todo mandamento da Escritura é uma declaração com propósito. Somos servos do Rei exaltado. Quando ele nos fala sobre o que fazer, isso se torna nosso propósito. Nosso propósito torna-se viver segundo os seus propósitos. Tristemente, sua lei não nos causa muito entusiasmo. É simples demais, e achamos que servir alguém acima de nós mesmos não é lá grande coisa. Achamos que viver segundo os nossos próprios propósitos seria bem mais realizador. Porém, você sabe a verdade. Eclesiastes faz sentido. Já tentamos outros propósitos e ficamos em falta. Você já foi advertido de que estamos em terreno onde uma batalha espiritual está sendo travada, e temos de andar com muito cuidado. Somos facilmente enganados quanto às coisas mais importantes. Pare e pense. Uma pessoa muito sábia, o escritor de Eclesiastes, resumiu nosso propósito. Sabemos que esse propósito é o caminho da vida. Ele sabe o que o coração realmente quer. Insta que você escute sua conclusão e a apreenda no coração. Esteja disposto a experimentá-la. Como você poderá guardar os mandamentos de Deus hoje? Procure alguém para amar. Um conselheiro mais velho, bastante sábio, que experimentou ele mesmo a depressão, desafia as pessoas deprimidas da seguinte forma: “Lute as batalhas espirituais que acompanham a depressão, a fim de poder amar aos outros”. Parece simples, mas é um resumo de muitos anos de experiência. Amar a Deus e ao próximo, e outras declarações de propósito Se você conhece as Escrituras, encontrará o resumo de Eclesiastes de muitas e diferentes formas. Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus. (Mq 6.8) Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. (Mt 22.37-39) A única coisa que tem valor é a fé que atua pelo amor. (Gl 5.6 – NIV) A linguagem é variada: temer o Senhor, confiar nele, amá-lo, andar humildemente com ele, crer nele. Expressamos esse compromisso ao Senhor, obedecendo aos seus mandamentos, cujo resumo é o amor. Este é o verdadeiro fundamento para a vida humana. Sem isso, a vida não tem sentido. Pare mais uma vez e considere suas respostas. Isso lhe parece superficial? Cediço? Sonho impossível? Fácil demais? Importante, mas você não consegue se entusiasmar com isso? Reflita. Converse sobre o assunto com alguém. Não se desanime por haver tentado sem sucesso. Haver tentado e não ter dado certo. Se achar que tudo isso é obsoleto ou irrelevante, estará revelando seu propósito: livrar-se da depressão. É claro que isso seria de algum valor, mas não faça com que nisso esteja todo o seu propósito de vida. Se ainda estiver em dúvida, assuma que o seu propósito não está sincronizado com o de Deus. É provável que tenha “tentado” alcançar esse objetivo bem menos do que pensa. Embora possa entendê-lo, intelectualmente, aspirar por ele é coisa bem diferente. Vivê-lo será ainda mais. A verdade é que ninguém aspira, de todo coração, amar a Deus e ao próximo acima de tudo; ninguém vive isso com total coerência.Portanto, comece pela confissão. Diga ao Pai Celeste que você é como o filho pródigo que fica a procurar propósitos egoístas em vez dos orientados por Deus. Há também outra realidade. Podemos crescer diariamente, com o Espírito de Deus a nos fortalecer, fazendo com que isso seja mais e mais o propósito de nossa vida. Ao fazê-lo, estaremos sendo transformados. Glorificar a Deus O vocabulário da Bíblia é tão rico assim como a variedade do que ela tem a dizer sobre nosso propósito. Um dos vocábulos, especialmente excelente, é a palavra glorificar. Fomos criados para glorificar a Deus. No livro de Efésios, Paulo lembra-nos três vezes, na introdução, de que vivemos “para o louvor da sua glória” (Ef 1.6, 12, 14). Quando pensamos em glória, pensamos em algo grande, lindo e muito óbvio. Que glorioso por do sol esta tarde! Ela cantou uma ária simplesmente gloriosa. Glorificar a Deus significa que o façamos de modo visível e belíssimo. Queremos que ele seja famoso. Queremos que toda a atenção seja dada ao Deus glorioso que nos amou, e o fazemos confiando nele e amando as outras pessoas. Em 1646, mais de cem pastores se reuniram, a pedido do rei da Inglaterra, para desenvolver um resumo do ensino bíblico para a orientação da igreja. No catecismo para crianças que eles desenvolveram (uma série de perguntas e respostas), a primeira pergunta trata de nosso propósito: “Qual é o fim principal do homem? O fim principal do homem é glorificar a Deus e alegrar-se nele para sempre”.³ Estavam certos. É esse o nosso propósito: não para nós; mas para Deus e seus propósitos. O que poderia ser maior e mais grandioso do que isso? Não passa de um fragmento de significado. Cristo crucificado A fim de testar a qualidade da declaração de propósito que escolhemos, examinemos o lugar de Jesus Cristo nela. Nossa resposta, de temor, amor, louvor e adoração, é oriunda do conhecimento de Cristo. Glorificamos a Deus por aquilo que Jesus fez. Quando olhamos por meio das páginas da Escritura, visando encontrar declarações de propósito, não podemos evitar a consideração do resumo que o apóstolo Paulo fez, pois ele começa, dizendo: “Antes de tudo”. Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E apareceu a Cefas e, depois, aos doze. Depois, foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora; porém alguns já dormem. (1Co 15.3-6) Se quisermos ver uma declaração ainda mais básica, Paulo a resume nisto: “Jesus Cristo e este crucificado” (1Co 2.2). Ao personalizá-lo, escreve: “Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.21). A Escritura é uma história que tem seu clímax em Cristo. Se quisermos que a nossa história tenha um propósito duradouro, devemos focá-la na mesma conclusão. De que adianta? Por que se importar? A resposta é que Jesus Cristo foi crucificado e ressuscitou dos mortos. Não poderíamos encontrar resposta mais completa. Nela, descobrimos que fomos chamados, perdoados, adotados em uma nova família, recebemos dons, uma missão e um futuro. Recebemos o amor; amor tão extremado que tomará toda uma eternidade para começarmos a entendê-lo. Digamos desta forma: Cristo tomou sobre si a nossa história miserável e deu-nos a sua história de ressurreição e esperança. Recebemos os sucessos de Cristo, o relato de Cristo, e o amor que Jesus desfruta do Pai. Quando pomos nossa fé em Jesus, tudo muda. O que algumas pessoas acham ser apenas um ingresso para o céu é muito, muito mais. Existem benefícios futuros bem como presentes no sangue de Jesus. Pela fé, entramos na família real com todos os seus direitos e privilégios. No começo, poderemos, até mesmo, sentir-nos como estranhos que não pertencem ao reino, mas quando o Pai continua a nos assegurar de que a cruz de Cristo foi a entrega de nossos documentos de adoção, eventualmente começamos a olhar pelos corredores do palácio e ver que os quadros nas paredes são de nossos parentes. Ao invés de pedir uma audiência com o Rei, diremos que Deus é nosso – meu – Deus (Sl 63.1) e nosso Pai (Mt 6.9). Portar a semelhança da família Temer a Deus e guardar seus mandamentos, amar a Deus e ao próximo, glorificar a Deus e “para mim o viver é Cristo” são declarações de propósito. Todas são maneiras diferentes de nos lembrar sobre quem nós somos, de verdade. Os seres humanos foram criados para ser descendência real de Deus, feitos para portar o distinto caráter do Pai. Nosso propósito é o de ter semelhança com nossa família. A lei de Deus descreve o caráter do Rei para que possamos imitá-lo. Temos, contudo, anseios de filho pródigo dentro de cada um de nós. Queremos encontrar nosso próprio caminho. Ainda que nos percamos sem esperança, existe em nós algo que prefere vagar sem rumo a imitar e obedecer com a confiança de uma criança. A cruz é o modo como Deus busca a filhos teimosos. É um convite para o retorno à família. “Sereis santos, porque eu sou santo” (Lv 11.44; 19.2; 20.8; 20.26); “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados” (Ef 5.1); “andai como filhos da luz” (Ef 5.8); “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2.5) – todas são exortações próprias da família. Estude Jesus, nosso irmão mais velho e nosso Deus, e imite-o pela fé. Este é o nosso propósito. “Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade... produz fruto pacífico aos que são por ela exercitados, fruto de justiça” (Hb 12.10-11). Um versículo das Escrituras, prontamente pregado sobre todo sofrimento, é o de Romanos 8.28: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. Como, de alguma maneira, nosso sofrimento poderá ser bom? A resposta está no versículo seguinte: estamos sendo transformados conforme à imagem de seu Filho. Isso é o que Deus pretendeu que fôssemos. É o nosso propósito, e quando estivermos mais alinhados a ele, a experiência depressiva mudará. Em seu livro, Forty-Five Years in China (Quarenta e cinco anos na China – 1916), Timothy Richard escreveu sobre o líder de uma seita chinesa que promovia acusações contra os cristãos. Como evidência, ele mostrou um texto sobre cirurgia utilizado por alguns dos médicos missionários. “Ignorante do objetivo humanitário da cirurgia, ele considerava as operações como prova da crueldade dos cristãos”. O sofrimento é a cirurgia de Deus que conduz à saúde, quando atendida pela fé. Resposta Você quer uma evidência do Espírito Santo em sua vida? Quando disser: Por que me importaria? Responda: Por causa de Jesus. Muitas vezes, nossa vida cruza com agrado com as leis de Deus, porque suas leis fazem sentido. A vida tende a melhorar, quando falamos a verdade, perdoamos, amamos e não matamos. Mas, às vezes, nossos desejos e os desejos de Deus parecem não sincronizar. Queremos ir numa direção e Deus nos chama para outra. Sentimo-nos paralisados quando Deus nos chama à ação. Nessas horas, a fé e a obra do Espírito Santo serão mais visíveis. C. S. Lewis observou, em um diálogo imaginário entre dois demônios: [Screwtape adverte Wormwood] – Nossa causa jamais estará em perigo maior do que quando um humano não somente apenas deseja, mas ainda tem a intenção de fazer a vontade de nosso Inimigo [Deus]; quando, olhando em volta para um universo do qual parece que sumiu todo vestígio dele, pergunta por que foi desamparado, e, ainda assim, obedece.⁴ Como será essa obediência ou imitação? Uma vez que Jesus fez-se homem, dando assim maior dignidade às atividades comuns da vida humana, devemos esperar que a fé norteada por propósitos tenha uma aparência bastante comum, humana. Para algumas pessoas, isso significa “dar o passo seguinte”. Um passo depois do outro. Será algo como servir a Deus e ao próximo, cumprimentando-o com a pergunta: como é que vai? – e orando por ele. Será como dizer: Senhor, estou disposto. O que o Senhorquer que eu faça hoje? Qual é o seu propósito? 1 CAMUS, A. The Myth of Sisyphus (Nova York: Vintage, 1955), p. 10. 2 NICHOLS, S. Martin Luther: A Guided Tour of his Life and Thought (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, 2002). 3 Breve Catecismo 11. 4 LEWIS, C. S. The Screwtape Letters (Nova York: Macmillan, 1977), p. 39. Capítulo 10 Perseverança A depressão diz: “Renda-se”. A mensagem é implacável e muitos cedem sob sua pressão, porque, mesmo sabendo que existe propósito em nosso sofrimento, a batalha parece longa demais. “Nem posso dizer o quanto estou cansado de experiências que constroem o caráter”, diz um autor que já passou pela depressão, muitas vezes.¹ Se os ataques de depressão tocassem apenas em uma parte da vida, poderíamos enfrentá-la. Mas ela acessa todos os setores e, até mesmo, o menor passo nos oprime. A capitulação nos parece inevitável. Poderemos adiar a rendição, mas não evitá-la. Na Escritura, o termo “entrega”, em relação a Deus, nos liga diretamente à “perseverança, ser paciente na tribulação”. Certamente isso não soa muito libertador. Continue firme. Vá em frente. Você consegue! Parecem chavões triviais, quando ditos por amigos e familiares, como se não tivessem mais nada a dizer e, então, oferecem esse “estímulo” só para falar alguma coisa. O chamado à perseverança talvez não soe atraente, mesmo quando vem do próprio Deus. Ressoa, sim, com maior autoridade, como um general que manda que as tropas continuem em face de um inimigo muito mais forte. Mas ainda assim soa vazio. Entretanto, lembre-se de que não podemos evitar a Deus. Todas as trilhas conduzem a ele. Se estiver tentado a “pular” suas palavras sobre perseverança, considere que ele é a vida. Suas palavras vivificam. Aquilo que ele diz é surpreendentemente belo e elegante, de inestimável valor. Noutras palavras, existe mais na perseverança do que podemos imaginar. Deus persevera Como é o caso de tantos mandamentos das Escrituras, “perseverar” é muito mais do que algo que Deus manda fazer: Ele mesmo o faz. A persistência é um dos muitos aspectos de seu caráter. A razão de ter tanto valor é que Deus se nos revela principalmente por meio da perseverança. A Escritura aponta consistentemente à pertinácia e paciência de Deus para com seu povo. Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento. (2Pe 3.9, itálicos acrescidos) Pois tenho suportado afrontas por amor de ti, e o rosto se me encobre de vexame. (Sl 69.7) Ora, o Senhor conduza o vosso coração ao amor de Deus e à constância de Cristo. (2Ts 3.5) Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus. (Hb 12.2) A perseverança só é relevante na adversidade, e nós somos, de fato, pessoas muito difíceis para Deus tratar. Nosso Deus Criador criou-nos para si mesmo, contudo, com demasiada frequência, respondemos com indiferença ou, então, como um adolescente em busca de independência. Em termos ainda mais pessoais, nós somos seus amados, porém, mesmo em face de seu amor inexplicável e superabundante, vamos atrás de outros amantes que acabam nos abandonando. Nesse contexto, Deus revela sua perseverança para conosco. Como te deixaria? Como te entregaria? Meu coração está comovido dentro de mim, as minhas compaixões, à uma, se acendem. Não executarei o furor da minha ira, porque eu sou Deus e não homem – o Santo no meio de ti. Não voltarei em ira. Quando o Senhor bramir como leão, os filhos, tremendo, voltarão. (Os 11.8-11, paráfrase do autor) O apóstolo Paulo destacou esses temas da paciência e da perseverança. Sendo perseguidor dos seguidores de Jesus, a ponto de, condená-los à morte, ele era a última pessoa no mundo de quem se podia esperar que fosse utilizado por Deus como um dos mais influentes missionários. Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna. (1Tm 1.16) Todo ensinamento sobre perseverança, paciência e persistência perene tem sua origem no caráter de Deus. Assim como o amamos porque ele nos amou primeiro, antes que o conhecêssemos, também perseveramos porque ele é longânimo e permanece conosco através da história. Perseverança no cotidiano Se você for agricultor, ou cuidar de seu jardim, saberá algo a respeito da perseverança. Quando plantadas as sementes, o chão não produz rapidamente o milho. Poderá levar alguns anos antes que comamos os frutos de parreiras ou outras árvores frutíferas. Quando decidimos estudar violino, no começo, produzimos apenas guinchos e arranhaduras no instrumento, até conseguirmos reproduzir estudos de Beethoven. Se você já adquiriu habilidade em qualquer coisa, essa terá vindo mediante a perseverança. As crianças são notórias quanto à impaciência; não conseguem esperar e perseverar. – Quando vamos chegar à casa da vovó? – Logo – é a resposta típica e insatisfatória. – Mamãe, quando é que você vai brincar comigo? – Ainda não. Tenho de terminar este relatório primeiro. – Quinze segundos mais tarde, a criança repete a mesma pergunta, dessa vez com um tom de voz que consegue tirar a mãe do sério. Essa infantilidade está em todos nós. Ansiamos pelo dia em que aprenderemos a permanecer diante do Senhor. Só o homem, ou a mulher, mais maduro e sábio conseguirá enfrentar as confusões da vida sem reclamar ou murmurar, com contentamento e não apenas resignação. Deus escolheu inculcar seu caráter perseverante e paciente na vida terrena de cada dia. Aguardamos pacientemente a vinda do Senhor. A própria criação aguarda com paciência o tempo de sua libertação da escravidão (Rm 8.22). Sede, pois, irmãos, pacientes, até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as últimas chuvas. (Tg 5.7 – itálicos acrescidos) Deus poderia ter revelado, imediatamente e de antemão, o tempo do fim, depois que Jesus subiu ao céu, mas, por diversas razões, escolheu esperar pacientemente. Perseverança no sofrimento Embora as oportunidades para crescer em perseverança nos sejam dadas a cada dia, o sofrimento é que torna a perseverança uma habilidade imprescindível. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança.(Rm 5.3) Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta. (Hb 12.1) sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. (Tg1.3) Eis que temos por felizes os que perseveraram firmes. Tendes ouvido da paciência de Jó e vistes que fim o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de terna misericórdia e compassivo. (Tg 5.11) Por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade. (2Pe1.5-6) Se Jesus aprendeu a obediência e a constância por meio daquilo que sofreu, por que esperar que a nossa vida seja diferente? Por meio de nossas lutas e dores, é- nos oferecida a persistência, parte do caráter de Deus. As dificuldades têm o intuito de nos proporcionar transformação espiritual “a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hb 12.10). Sendo assim, quando Deus insta para que sejamos constantes, não está apenas titubeando em busca de palavras de encorajamento. Está nos ensinando a ser como ele é. Dada essa conexão com o caráter de Deus, a perseverança não é nada comum – é gloriosa. Pense nisso por um momento. Vamos supor que você tenha acabado de ouvir umtestemunho de alguém que tenha estado deprimido até que Deus o libertasse completamente. Naturalmente, ele estará extasiado. Poderia ser, contudo, que ele estivesse confiando na cura em vez de no Deus que o ama, perdoa, persevera e cura? Considere, agora, outra mulher que teve uma depressão profunda. Seu testemunho foi de que ela cria na bondade de Deus, quer a depressão desaparecesse quer não. Ela aprendeu a perseverar na tribulação e a encontrar contentamento em Deus, no meio das provações. Esse é um testemunho realmente glorioso. A perseverança não é ostentosa. Não chama a atenção para si mesma. Parece que apenas coloca um pé diante do outro, passo a passo. Debaixo da superfície, onde poucos enxergam a glória, está algo muito profundo (Ap 2.2,19). Estamos nos tornando mais parecidos com Deus. Deus vê, e se agrada disso. A perseverança é mais do que simplesmente passar pela vida até morrer de causas naturais. É persistir na fé e na obediência e permanecer no propósito dado por Deus, ainda que a vida seja muito difícil. Ela pergunta: Como representarei a Deus hoje? Como confiarei nele e o seguirei com obediência? Em seguida, pede ajuda a outros, clama ao Senhor e busca oportunidade para amar. Poderá parecer fraca, mas nossa confiança é no Deus que é forte. A essência da perseverança é confiar ou obedecer por causa de Jesus. Perseverança na batalha Aquilo que achávamos ser um caminho de vida agora parece mais um campo de batalha. A estratégia de Satanás é cansá-lo até a exaustão. Um dia você se lembra da cruz, e Satanás se contentará em esperar até amanhã. Se não conseguir vencer a briga (porque Deus é quem luta por você), ele tentará esperar além do que você consegue. Em guerras prolongadas, o que precisamos é de perseverança. Paulo disse a Timóteo: “Participa dos meus sofrimentos como bom soldado de Cristo Jesus” (2Tm 2.3). Martinho Lutero chamava a depressão de anfechtungen, que quer dizer “ser alvo de lutas”. Que nome perfeito! Em vez de ser traduzido como “algo para o qual ceder”, é um chamado às armas. Martyn Lloyd-Jones, pastor e médico britânico, que considerou profundamente a depressão, tratou do assunto em uma palestra de chamada à batalha. Ouça-o, porém, como um médico da alma que deseja o melhor para seus ouvintes: Você tem de tomar-se pela mão... brigar consigo mesmo, censurar-se, condenar- se, exortar-se e dizer: Espera em Deus – em vez de murmurar desse modo depressivo e triste.² O conselho sábio diz que temos de argumentar com a depressão – lutar contra ela – em vez de simplesmente escutá-la. Frequentemente, ouvimos a depressão dizer: “Deus não se importa” – se é que, na verdade, ouvimos o nome de Deus. O que temos de dizer à depressão é: “Ponha sua esperança em Deus”. Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu. (Sl 42.5) “Esperança”. Eis aí, de novo. Ela é companheira constante da perseverança. Em meio a batalhas prolongadas, os comandantes proferem palavras encorajadoras e cheias de esperança, tais como: “Vocês são a melhor unidade lutadora do mundo. A batalha à nossa frente será difícil, mas vocês irão ganhar. Não se esqueçam do motivo pelo qual estamos aqui. Temos um propósito – um dever. Estamos lutando pela democracia e pela liberdade. Estamos lutando por nosso país”. Ao fornecer-lhes esperança, o alvo é estimular as tropas à perseverança. A Palavra de Deus nos dá encorajamento a cada dia. De fato, toda Escritura é o seu meio de nos sustentar na batalha. “Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15.4, itálico do autor). A esperança é que Deus ouve, encontra grande valor na perseverança e recompensa àqueles que o buscam (Hb 11.6), abençoa os que perseveram (Tg 1.12) e é fiel a todas as suas promessas. A esperança virá quando fixarmos os olhos no invisível, em Jesus (Hb 11.27). Parece impossível? Se você não consegue ser despertado à esperança, está em boa companhia. Houve um tempo na vida de Jó em que ele disse: “Por que esperar se já não tenho forças? Por que prolongar a vida, se o meu fim é certo?” (Jó 6.11). Mas, mesmo em seu desespero, Jó continuou a buscar a Deus. Assim também nós, continuaremos buscando ao Senhor. Se isso lhe parece demais, caminhe sobre a esperança de outro, enquanto precisar. Considere Abraão, Moisés, José e tantos outros que sabiam que Deus tinha algo melhor em seus planos (Hb 11). Deixe que sua família ou seus amigos leiam a Escritura para você. Deixe que falem sobre a esperança e a confiança em Cristo. Há muitas maneiras de proceder à batalha. Clame ao Deus que persevera e que fornece paciência (Rm 15.5). Ele responderá. Resposta Este é um mapa que monta algumas das peças da perseverança (ver a figura 10.1, abaixo). Começa com você, dizendo: “o poder pertence a Deus... e a graça” (Sl 62.11-12); ou escutando, enquanto Deus lhe fala: “Eu o amo e sou o Deus poderoso”. Então, você caminha com a esperança e o propósito que conduzem à perseverança. Porém, não para por aí. A perseverança e a paciência encontram a graça de Deus, que nos dá um conhecimento mais profundo de seu amor e sua força soberana. Isso, por sua vez, leva a um maior senso de propósito e confiança em Deus, que nos leva ao patamar de perseverança. Figura 10.1 Um mapa de perseverança Se você se sente incapaz de perseverar, talvez esteja omitindo algum dos passos necessários para chegar lá. Lembre-se de quem Deus é, e seja capaz de articular seu propósito e sua esperança. Se a perseverança ainda parece fugidia, talvez você queira considerar como a recebeu. Por exemplo, você está, de alguma forma, aberto para o que escrevemos até aqui? Isso será uma evidência de perseverança, e é mais lindo do que pensa. Deus se agrada muito da perseverança. Se você precisar de mais evidências, peça a um amigo que lhe diga se consegue vê-las em você. Ainda não consegue lutar? Lembre-se que Deus nos dá a companhia de outras pessoas para que não lutemos sozinhos. Quando se sentir totalmente exausto, peça socorro. A igreja funciona como uma competição em que as equipes se apoiam nos combates individuais. Simplesmente, chegue às cordas e toque a mão do companheiro. A perseverança do próximo levará a luta – e você – adiante. 1 Kay Jamison, citada por A. Solomon, “Anatomy of Melancholy”, The New Yorker, 12 janeiro 1998, p. 61. 2 LLOYD-JONES, Martyn. Spiritual Depression (Grand Rapids: Eerdmans, 1990), p. 21. Parte II Escutar a Depressão Capítulo 11 A depressão tem suas razões: nossa cultura, nosso corpo e Satanás Escutemos com maior cuidado o que a depressão diz. Como todos os sentimentos, ela é uma espécie de linguagem. A culpa diz: – estou errado. A ira diz: – você está errado. O temor diz: – estou em perigo. A depressão também tem uma mensagem, mas geralmente, ela não é assim tão simples. Conquanto algumas emoções sejam claras e nada ambíguas, a linguagem da depressão é mais encapsulada. Poderá haver necessidade de alguma decodificação, antes que se torne compreensível, porém o esforço é compensador. Reconstruir a história da depressão As emoções têm uma história. Para colocar um processo complexo da maneira mais simples possível, essa história consiste de duas partes: (1) acontecimentos fora de nós, incluindo problemas físicos e (2) crenças, alianças espirituais e interpretações, no interior. A interação desses pares, com o tempo, é o que causa a depressão (Figura 11.1). Figura 11.1. Desenvolvimento da depressão Manter tal interação em mente desafia-nos a investigar mais. A depressão não aparece simplesmente do nada. Ela tem seus motivos. Ainda que entendamos que não seja essencial conhecê-los inteiramente, nós os procuramos. Por exemplo, se o seu carro estiver parado no meio de um lugar deserto que não tenha um telefone por perto, certamente, Deus lhe concede a graça de viver pela fé em meio a essa dificuldade. Contudo, issonão significa que você levantaria o capô do carro para dar uma olhada. Mesmo que não saiba nada a respeito de carros, você remexe nos fios e tenta dar partida no motor. Juntamente com a depressão, Deus nos concede graça para viver em meio às dificuldades e concede graça para que as investiguemos com maior cuidado. Comece pelos acontecimentos externos. Mesmo que a conexão entre os acontecimentos e os sentimentos de depressão tiverem esmaecido com o passar dos anos, a depressão geralmente apontará para alguém ou para alguma coisa – um divórcio, um acidente mais sério, um passado de abuso, entre outras coisas. Talvez, um único fato não tenha toda a responsabilidade, mas poderá ser significativo por ter sido o primeiro ou o mais intenso. Provavelmente, tenha provocado uma percepção à vida que acabou culminando em depressão. A cultura e o “mundo” Não entendemos muito como a nossa cultura possa ser um “acontecimento externo”, mas ela nos afeta mais do que imaginamos. A cultura supervisiona as diretrizes não escritas de costumes, trabalho e relacionamentos. Realmente, não a notamos até que vivamos longe de nossa terra e encontremos tantos costumes que parecem estranhos. Tradições culturais cobrem tudo, desde o nosso vestuário até a comemoração de festas e feriados. A Escritura chama de mundo aquilo que é insuflado pela cultura popular. O mundo foi criado por Deus como habitação para os seres humanos. Sendo criado por Deus, ele é bom, como nossa habitação; porém é portador das marcas do nosso pecado. Pense no mundo como nossa “carne corporativa”,¹ isto é, como se nossas tendências pecaminosas estivessem cantando em uníssono. Essa mistura entre cultura local e mundo provavelmente contribui para a rápida difusão da depressão. Uma cultura do indivíduo. Em 1984, Edward Scheiffelin estudou uma tribo primitiva da Nova Guiné. Entre suas descobertas estava a ausência de desespero, de depressão ou suicídio. Estudos entre os Amish obtiveram resultados semelhantes. O que é parecido nas duas culturas é o fato de os indivíduos fazerem parte de uma comunidade maior. Embora a cultura ocidental seja uma pseudocomunidade na qual ocasionalmente nos ajuntamos em grupos de pensamentos semelhantes, aquelas culturas apresentam grupos familiares mais extensos, com pessoas e interesses diferentes, que aprendem a viver e trabalhar juntos. Pense nisto: como as estatísticas sobre depressão mudariam, se as pessoas se sentissem parte de uma comunidade? Parte de uma mesma família? Na cultura ocidental moderna não há nada maior do que nós mesmos. A satisfação não vem de servir ao próximo em nosso círculo estendido de relacionamentos. Ao contrário, pensamos que vem do consumo e gratificação de nossos desejos pessoais – e não leva muito tempo para descobrirmos que, quando nosso foco está voltado para o interior, somos poços sem fundo, de desejos que jamais serão satisfeitos. Uma cultura de decisões. Martin Seligman, renomado pesquisador da depressão, concorda que nossos estilos de relacionamentos fragmentados poderão contribuir para a depressão, e acrescenta ainda outro fator: “O indivíduo moderno não é o peão de outrora, com o futuro bocejando fixamente à sua frente. Ele – e agora ela, dobrando efetivamente o mercado – é um campo de batalha de decisões e preferências”.² Em gerações anteriores, estava implícito um sistema de castas que mantinha o mesmo tipo de trabalho, de pais para filhos, e a maioria das decisões da vida era feita antes do nascimento. Se seu pai era ferreiro, você também. Um menino da sua vila que vinha da família certa, e seus pais frequentavam a igreja certa: quando tivessem a idade apropriada, vocês se casariam. Era um sistema que tinha problemas, mas a pressão de decisões não fazia parte dele. Hoje, o estudo, a carreira, o casamento e, até mesmo, a preferência sexual, são coisas de pegar ou largar. A vida é um redemoinho de decisões. Se as decisões não nos pegam de pronto, as pressões por certo o farão. Pais reservam lugar em escolas seletas de educação fundamental logo que os filhos acabam de nascer, esperando fornecer-lhes toda vantagem possível em um mundo altamente competitivo. Tentam oferecer toda experiência extracurricular humanamente possível para que os filhos descubram suas aptidões e, talvez, recebam bolsa para a universidade. As crianças sentem a pressão quanto à vocação antes de entrar no nono ano. Os adolescentes no colegial tomam decisões quanto aos cursos, que seus pais não tinham de fazer na faculdade. Até os pré-adolescentes são expostos a situações sexuais, e a pressões e decisões a elas associadas.³ Os jovens enfrentam, semanalmente, escolhas que podem afetar todo o decurso da vida – e se fizerem a escolha errada? Embora a vida diante de um Deus soberano nos assegure que ele está no controle, realizando os seus bons propósitos, mesmo mediante nossas escolhas mal feitas, é sempre fácil perder de vista tal realidade. Quando isso acontece, podemos sentir como se uma má decisão nos fadasse para sempre a um caminho de segunda categoria. Uma resposta compreensível às pressões dessa cultura será nos retirar, ficar paralisado diante das decisões, com medo de errar, fatigados, sentindo que poderemos dormir durante dias, e ainda estar cansados. Em outras palavras, a depressão é uma resposta adequada às pressões culturais. Será importante que amigos e conselheiros estejam alertas a essa possível influência cultural, para que a Escritura possa, então, falar de maneira mais significante. Por exemplo, a maiorias das listas sobre depressão não inclui a pergunta: “Você basicamente entende sobre como tomar decisões diante da vontade de Deus?” Contudo, se essa questão for parte do problema, os amigos poderão fornecer instrução sobre como tomar decisões sábias.⁴ Poderão nos lembrar também que, em vista de seu controle soberano, Deus cumprirá seus propósitos em nossa vida, mesmo quando tomarmos decisões que, mais tarde, lastimemos. Uma cultura em que a felicidade é o bem maior. Pergunte a quem vive na cultura ocidental qual é o seu maior desejo, e ele responderá: “felicidade”. Olhe nos álbuns do colegial e verá o que é valorizado como a maior ambição de vida: “Quero ser feliz”. Até mesmo, a Ética de Aristóteles sugere que o maior bem seja a felicidade. Tendo tal alvo, não é surpresa se houver uma relação ambígua com as dificuldades. Quem teve a experiência da guerra aprendeu a aceitar as agruras e sofrimentos da vida. Entre muitos sábios anciãos da sociedade norte-americana, não existe uma fuga desesperada do sofrimento, e sim, o reconhecimento de que o mesmo faz parte da vida e que pode produzir benefícios. Entretanto, entre os da geração pós Segunda Guerra mundial, o alvo passou a ser um punhado de felicidade, e o sofrimento, algo a ser evitado a todo custo. A ideia é: caso haja dificuldades em um relacionamento, termine-o; se houver emoções desagradáveis, tome medicação. É uma geração que não percebe o valor na maioria das dificuldades, e não tem habilidade para crescer por meio das tribulações. É claro que sendo possível aliviar a dor, geralmente isso será bom. Mas vivemos em uma cultura que idolatra a felicidade, e se fizermos dela o nosso ídolo, ela sempre será fugaz. Uma cultura de entretenimento e tédio. Outra característica da cultura moderna que está ligada à depressão é nossa busca pelo novo e empolgante, que, para muitos, é uma fuga desenfreada do tédio. O tema é “divirta-me”. Se não nos divertirmos, teremos esse silêncio horroroso a ser preenchido. Como Pascal observou com astúcia: “Muitas vezes tenho dito que a única causa da infelicidade do homem é que ele não sabe ficar quieto em seu quarto”.⁵ O tédio é um mal-estar que paira sobre as gerações mais jovens. Talvez porque elas tenham compactado sexo, drogas e dinheiro em um período mais curto de tempo, e, depois, descobriram que era impossível que essas coisas fossem satisfeitas. Nada mais havendo que os entretenha, eles têm pavor das décadas que se seguirão. Sem propósito específico, sua meta é apenas tolerar e sobrevivera uma existência sem alvo, tediosa, provavelmente menos afluente que a de seus pais. Existe um antídoto para o tédio. Chama-se alegria. Ela vem quando nossa esperança se fixa em algo eternamente maravilhoso e belo. Santo Agostinho corretamente identificou Deus como o objeto final da alegria. “A verdadeira felicidade é alegrar-se na verdade, porque a alegria na verdade é regozijar-nos em ti, ó Deus, que és a verdade... Os que pensam que existe alguma outra espécie de alegria buscam-na em outras coisas, mas essas não significam verdadeira alegria”. De acordo com Agostinho, a verdadeira felicidade é deleitar-se na suprema beleza, bondade e verdade que são atributos de Deus, dos quais muitos traços se encontram no bem e nas coisas belas que existem no mundo. C. S. Lewis pensou consideravelmente na experiência da felicidade. Ele a encontrava em pequenas coisas boas como maçãs, ar puro, as estações do ano, música. Falava sobre “ler” a mão de Deus em nossos pequenos prazeres. Tal como Agostinho, Lewis queria deixar claro que a felicidade não residia nessas coisas, por mais que fossem boas. Os livros ou a música em que pensamos residir beleza nos trairão se neles confiarmos; não foi neles, apenas veio por meio deles; o que veio foi um anseio... pois não são a coisa em si; são apenas o perfume de uma flor que ainda não encontramos, o eco de uma melodia que ainda não escutamos, notícias de um país que ainda não pudemos visitar.⁷ Esse é o anseio de felicidade. É um desejo de glória, céu e, especialmente, pelo próprio Deus. Agostinho e Lewis ecoam a exortação de Paulo à igreja de Filipos, de meditar em tudo que é verdadeiro, nobre, puro e belo (Fp 4.8). Essa exortação reside em uma carta dedicada, de forma única, a ensinar à igreja como ter alegria em meio aos sofrimentos. A alegria será uma reação natural, quando contemplarmos Deus. O que tem isso a ver com o tédio? Pessoas felizes são mobilizadas. Alegram-se com pequenas obediências. Agradam-se de servir a Deus de qualquer maneira por ordinária que seja, que agrada a Deus. Elas também sabem que o que impulsiona com poder o reino de Deus é um exército de pessoas, dando pequenos passos de obediência. O corpo físico Quando Adão pecou, a criação, que fora agraciada e pronunciada como “muito boa”, ficou sob o juízo de Deus. De repente, o trabalho tornou-se difícil, os relacionamentos cheios de tensão, o corpo passível de doenças, de desgaste, e a morte lançando sua sombra sobre todas as coisas. Até mesmo o clima – sol e chuva, calor e frio – não mais cooperaria. Em vez de uma neblina previsível a regar o jardim fértil, secas, tufões, tornados, inundações e terremotos nos lembrariam que a terra também geme. Nada, em toda a criação, está perfeitamente bem. Saúde debilitada. O declínio de nosso corpo é, possivelmente, uma das causas da depressão. Parece estranho localizar essa causa entre outras circunstâncias externas de nossa vida, porque nós temos um corpo. Mas somos muito mais do que isso, e o corpo tem muito em comum com outras causas externas. Doenças neurológicas ou endócrinas, os efeitos colaterais dos medicamentos, deficiências vitamínicas, transtornos pós-parto e desequilíbrios químicos formam uma curta lista de possíveis contribuintes à depressão. Desagrado no trabalho. Está também incluído sob a maldição o fato de que o trabalho, agora, parece muito mais difícil e fútil. Gastamos anos trabalhando em nossa casa para, depois, vendê-la, e vê-la derrubada pelo próximo proprietário que construirá algo mais contemporâneo. Registramos dados o dia inteiro – mas nem tente pensar sobre sua irrelevância nos esquemas dos acontecimentos no mundo. Com a maldição, o trabalho mudou de prazer para enfado. Sim, há horas em que o intento original de Deus irrompe e descobrimos satisfação em nosso labor (ainda que este não mude o curso da história), mas a miséria jamais estará longe. A falta de significado percebida no trabalho, muitas vezes, faz parte da depressão. Geralmente, porém, é sinal e não sua causa. Morte. O pior da maldição é a morte. Todos já perdemos entes queridos, perderemos outros, e eles nos perderão. Não existe boa morte. Se perdemos alguém por um infarto fulminante, sentiremos por não termos despedido dele e resolvido pendências. Se foi devido a doença crônica, a morte tornou-se previsível, agonizaremos com ele enquanto a doença o transformará em uma pessoa diferente. Na verdade, a morte é uma inimiga implacável. Dizem que a depressão dá boas-vindas à morte, porém o desejo é o alívio da dor mental não da morte em si. A morte é inimiga de todos, e existe boa razão para pensar que ela seja causa de depressão muito mais do que seu resultado. Não é verdade que a morte – especialmente quando não fortemente interpretada pela ressurreição de Jesus Cristo – deva nos deixar deprimidos? A morte deixa tudo sem sentido. Por que trabalhar? Por que amar? Por que buscar prazer? Não é nada. A morte engole tudo. Sua maré apaga toda pegada que pretendíamos deixar. Não que estejamos sempre pensando nela. A sociedade moderna tem nos distanciado da morte, e fazemos todo o possível para evitá-la. Os médicos usam uma fileira de eufemismos, tais como “passagem” e “descansou em paz”. Os humoristas se especializam nas fraquezas humanas, mas não tocam na morte a não ser que rapidamente evoquem imagens de anjos e prazer. Talvez nem pensemos conscientemente na morte, mas, tenha certeza: se não for tratada de frente, essa inimiga deixará sua marca sobre toda a miséria terrena. Loções e cremes antirrugas, adoração à juventude e marginalização dos idosos, “ansiedade generalizada”, ataques de pânico, personalidade tipo A, tédio, obsessão com saúde, elevado status dos médicos, falta de propósito, desesperança e a maior parte dos temores – você encontrará em todos esses, logo abaixo da superfície, a morte e o seu medo. Satanás Outra causa externa de depressão é Satanás. Já estamos conscientes de como seus ataques mais ferrenhos questionam o poder e amor de Deus. Mas ele faz a maior parte de seu trabalho por meio de parcerias estratégicas. Parceiro da maldição, aparentemente ele consegue afetar a natureza (Jó 1) e trazer doenças. Ajuntando-se com nosso próprio coração, ele aplaude a opressão, o assassínio e a desumanidade em suas múltiplas formas. Não fica muito claro quando ele entra nessa parceria. A maldição da criação e nossa própria tendência para o pecado nos afetam sem a assistência satânica e, assim, não há como saber qual seja a porcentagem exata de quem contribuiu com o quê. É por isso que, quando a depressão persiste, não podemos afirmar, imediatamente: “Foi Satanás que fez isso”. Resposta Não é muito encorajador recordar os diversos contribuintes de nossa depressão, mas, se possível, poderemos fazer uma pequena lista dos elementos mais óbvios. Ela o ajudará a lembrar que, em geral, a depressão vem de algum lugar. E mais, se algum desses parceiros da depressão se encaixar em sua situação, esteja seguro e aja! Por exemplo, diga não a uma cultura de individualismo e siga em frente, amando ao próximo. Rejeite as estratégias de Satanás – reafirme que a depressão pode mentir a seu respeito, dos outros, e, até mesmo, sobre o próprio Deus. Não se esqueça de que temos um inimigo espiritual. A ordem do dia é vigilância. Uma suspeita saudável quanto a qualquer coisa que tome o partido do desespero poderá nos ajudar a enfrentar a batalha em vez de sermos derrotados na mesma. 1 LOVELACE, Richard, Renewal (Downers Grove, Il: InterVarsity, 1985), p. 86. 2 BUIE, James. “Me Decades Generate Depression”, APA Monitor, fevereiro 1991, p. 18. 3 David Elkind descreve essas mudanças sociológicas em um livro antigo, mas ainda bastante relevante: The Hurried Child: Growing Up Too Fast Too Soon (Reading, MA: Addison Wesley Longman, Inc. 1989). 4 Por exemplo, PETTY, James. Step by Step (Phillipsburg, NJ: P&R, 1999). 5 PASCAL, Blaise. Pensees 136, trad. A.J.Krailsheimer (Londres: Penguin, 1966). 6 AUGUSTINE, Confessions (Nova York: Penguin, 1984), p. 22. 7 LEWIS,C. S. “The Weight of Glory and Other Addresses” (Nova York: Macmillan, 1980), p. 7. Capítulo 12 A depressão tem suas razões: outras pessoas As outras pessoas são contribuintes óbvios à depressão. Todos fomos feridos pelos outros. Ainda que procedamos dos melhores lares, por mais que sejamos protegidos e amados, já fomos vítimas dos pecados de outrem. Muitas dessas dores passam com o tempo, porém, algumas persistem. São como grãos colocados numa destilaria de fundo de quintal. Enquanto vamos fazendo nossos afazeres diários, eles fermentam em silêncio. Depois, após meses ou anos, se transformam em uma bebida fermentada de alto teor alcoólico. As dores do passado, quando não tratadas, podem piorar. Não é surpresa que as ignoremos. Afinal, quem quer encará-las, especialmente se não puder fazer nada a respeito? Isso só piora as coisas, fomentando ressentimentos. Mas existe outro caminho. Dores barulhentas Algumas dores gritam do passado: rejeição por parte do pai ou da mãe, traição do amigo íntimo, abandono do cônjuge, vítima de abusos. Se você quiser encontrá-las, escute no momento da ira ou observe-se rejeitando os outros. Analise que os outros jamais estão à altura, ou sempre estão decepcionando. Tome cuidado com votos passados, quando você jurou jamais confiar em alguém. Isso pode apontar eventos em sua formação que não foram tratados espiritualmente. A mãe de Maria era “imprevisível”. Isso quer dizer que Maria nunca sabia qual tipo de mãe apareceria. Seria aquela que passava dias sem sair da cama, deixando que ela cuidasse sozinha de si mesma; a que a culpava por todas as coisas; que dizia o quanto a amava, expressando isso de modo estranho, sufocante; ou seria uma que batia nela – dando-lhe socos – sem nenhuma provocação? Maria se esforçava, pisando em ovos no momento que entrava no apartamento, mas nunca conseguia fazer a coisa certa. Parece que ela sempre despertava o pior em sua mãe. Quando não culpava a si mesma, sua mãe se encarregava disso. E, é claro, Maria (com a ajuda da mãe) estava convicta de que ela era a responsável pelo divórcio de seus pais. Embora tenha saído do apartamento de sua mãe, Maria não conseguia tirar o apartamento dela mesma. Começava duvidando de si mesma. Talvez realmente houvesse algo errado com ela, como sua mãe sempre dizia. Talvez fosse verdade que ela “não prestava para nada”. Sendo assim, Maria só procurava emprego de nível mais baixo possível. A dúvida de si mesma crescia e se transformava em temor. Como poderia esperar um relacionamento bom com quem quer que fosse, se os relacionamentos a feriam tanto? Por isso, ela se dispunha a relações sexuais com vários parceiros, mas não entregava seus sentimentos a ninguém. O medo dá lugar ao desespero, e a desesperança, à depressão. Sem recursos espirituais, não é de surpreender que Maria deixasse de tratar do seu passado. Entretanto, temos aqui uma amostra de palavras surpreendentes que certamente podem trazer vida. Deus se opõe aos opressores e consola seu rebanho ferido. Já observou como as pessoas que se sentem vítimas, muitas vezes, acreditam que Deus está longe e não as escuta? Não acredite nelas. Até poderá ser uma opinião comum, mas é mentirosa! A verdade é que quase cada página da Escritura revela que Deus se entristece com a opressão e vitimização. Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto! – diz o Senhor . Portanto, assim diz o Senhor , o Deus de Israel, contra os pastores que apascentam o meu povo: Vós dispersastes as minhas ovelhas, e as afugentastes, e delas não cuidastes; mas eu cuidarei em vos castigar a maldade das vossas ações, diz o Senhor . Eu mesmo recolherei o restante das minhas ovelhas, de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos; serão fecundas e se multiplicarão. (Jr 23.1-3) O Deus que criou o ouvido é o mesmo que ouve, e o Deus que ouve é o que age. Sim, ele está agindo, agora mesmo, e a Escritura ocasionalmente abre o véu do céu para que reconheçamos sua ação em resposta ao clamor do seu povo. Parece bom demais para ser verdade? Ouça o Senhor repetindo para que não haja dúvida quanto ao seu cuidado para com os feridos: Veio a mim a palavra do Senhor , dizendo: Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; profetiza e dize-lhes: Assim diz o Senhor Deus: Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não apascentarão os pastores as ovelhas? Comeis a gordura, vestis-vos da lã e degolais o cevado; mas não apascentais as ovelhas. A fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não tornastes a trazer e a perdida não buscastes; mas dominais sobre elas com rigor e dureza. Assim, se espalharam, por não haver pastor, e se tornaram pasto para todas as feras do campo. As minhas ovelhas andam desgarradas por todos os montes e por todo elevado outeiro; as minhas ovelhas andam espalhadas por toda a terra, sem haver quem as procure ou quem as busque. Portanto, ó pastores, ouvi a palavra do Senhor : Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, visto que as minhas ovelhas foram entregues à rapina e se tornaram pasto para todas as feras do campo, por não haver pastor, e que os meus pastores não procuram as minhas ovelhas, pois se apascentam a si mesmos e não apascentam as minhas ovelhas, – portanto, ó pastores, ouvi a palavra do Senhor : Assim diz o Senhor Deus: Eis que eu estou contra os pastores e deles demandarei as minhas ovelhas; porei termo no seu pastoreio, e não se apascentarão mais a si mesmos; livrarei as minhas ovelhas da sua boca, para que já não lhes sirvam de pasto. Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu mesmo procurarei as minhas ovelhas e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que encontra ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; livrá-las-ei de todos os lugares para onde foram espalhadas no dia de nuvens e de escuridão. (Ez 34.1-12) Isto não responde a todos nossos questionamentos, mas deverá nos surpreender bastante para que busquemos ao Senhor e renunciemos às mentiras que negam o seu amor. Deus, em Cristo, cobre a vergonha daquilo que foi feito contra você. Uma das consequências inevitáveis de termos sido vítimas de outra pessoa é a vergonha. É o sentimento de que somos sujos e corrompidos. Parece culpa, mas é diferente. Quando somos culpados, somos maculados por nossos próprios feitos, todavia, a confissão e a graça de Deus nos reconduzem à inteireza. Quando sentimos vergonha, somos sujos como se alguém lançasse imundícia sobre nós, contudo, nem toda confissão e penitência do mundo poderão fazer com que nos sintamos limpos. Quando Jesus veio, ele tratou de ambas: a culpa e a vergonha. Observe-o em ação nas histórias do Novo Testamento. Jesus tinha o hábito de sair de seu caminho para se encontrar e tocar em pessoas imundas. Leprosos, mulheres adúlteras, cegos e coxos – todas as pessoas que estariam cheias de vergonha, naquela cultura. Considere, por exemplo, uma história específica: da mulher cuja hemorragia uterina a tornava literalmente intocável. Enquanto ele ia, as multidões o apertavam. Certa mulher que, havia doze anos, vinha sofrendo de uma hemorragia, e a quem ninguém tinha podido curar [e que gastara com os médicos todos os seus haveres], veio por trás dele e lhe tocou na orla da veste, e logo se lhe estancou a hemorragia. Mas Jesus disse: – Quem me tocou? Como todos negassem, Pedro [com seus companheiros] disse: Mestre, as multidões te apertam e te oprimem [e dizes: Quem me tocou?] Contudo, Jesus insistiu: – Alguém me tocou, porque senti que de mim saiu poder. Vendo a mulher que não podia ocultar-se, aproximou-se trêmula e, prostrando-se diante dele, declarou, à vista de todo o povo, a causa por que lhe havia tocado e como imediatamente fora curada. Então, lhe disse: – Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz. (Lc 8.42-48) As multidões empurravam e encostavam-se em Jesus, onde quer que ele fosse, mas havia certas ocasiões quando o toque era realmente intencional.Neste caso, a mulher acreditava que sua última esperança de cura seria tocar em Jesus. Mas o Senhor também tinha um propósito quando permitiu o toque físico de uma mulher cheia de vergonha. Isso, por si só, já é extraordinário. Jesus é o Santo, e quando estamos perto do Deus Santo, não podemos simplesmente agarrá-lo. Contudo, essa mulher cria que o Santo era também aquele que tinha compaixão pelos abandonados e rejeitados. Sabia que um único toque poderia transformar tudo. Há um mistério mais profundo nesse toque. Quando tocou em Jesus, ela o contaminou, segundo a tradição. Tornou-o religiosamente impuro. Essa era a regra, na cultura hebraica. No entanto, Jesus não seria poluído como se acidentalmente tivesse pegado uma gripe. Em vez disso, Jesus propositadamente absorveu a impureza da mulher, e trouxe-lhe pureza e limpeza, simbolizadas na cura física. Esse único toque foi uma troca: a mulher cedeu sua impureza a Jesus, ele lhe deu de sua pureza. É claro que essa história é um aquecimento prévio para o próprio evangelho, quando, então, Jesus tomou nosso pecado e nossa vergonha sobre a cruz ignominiosa. Pelo toque que evidencia nossa fé no Redentor, ele nos estende as mãos e nos purifica, veste-nos e nos tira do lamaçal. Por nossa vez, nós lhe entregamos nossa vergonha. Somente o toque do Santo é capaz para apagar a vergonha, e aquela mulher demonstrou que Jesus tem prazer intencional em tocar aqueles que dele se aproximam, crendo nele como o enviado de Deus. Você percebe o despertar da esperança? Dores mais silenciosas, mas tão influentes quanto às outras O passado de Maria era ruidoso, sem dúvida. Mas existem passados muito mais silentes que contribuem para a depressão. Linda, hoje com trinta e oito anos, dizia que suas circunstâncias não podiam ser melhores, mas que sua depressão não podia ser pior. Seu marido a amava. Seus filhos eram saudáveis e estavam crescendo em Cristo, e ela mesma tinha dinheiro suficiente para pagar todas as dívidas, e ainda sobrava alguma coisa no final do mês para gastar como quisesse. Quando fez uma revisão de seu passado, esse lhe pareceu relativamente calmo e sem qualquer ocorrência que pudesse perturbá-la. Criada em um lar próspero, seus pais ainda estavam juntos e tanto seu pai quanto sua mãe sempre lhe ofereceram boa orientação. O lar de sua infância fora bem estruturado. Havia diretrizes e expectativas claras que lhe proporcionavam o sentimento de ser “amada e segura”. Quando, porém, indagada sobre coisas mais específicas, Linda recontou expectativas desordenadas e opressivas. Notas na escola, carreira futura, curriculum vitae de pretendente a marido, vestuário, todas as decisões quanto ao estudo desde o ensino fundamental até a pós-graduação eram algumas das áreas que seu pai controlava. O choro ou uma aparente fraqueza e escolhas independentes eram totalmente inaceitáveis. O estranho é que, superficialmente, Linda não parecia ter sido afetada por isso tudo, como se todo o seu passado fosse bom e normal. Quando inquirida sobre seu histórico depressivo, Linda calmamente resumiu que fora hospitalizada em uma instituição psiquiátrica, aos treze anos de idade, “porque eu nunca estava com fome”. Começou a tomar medicamentos psiquiátricos desde aquela ocasião e, exceto quando estava grávida ou quando os psiquiatras mudavam os medicamentos, continuava tomando. Como viver em um mundo onde erros, conforme estabelecido por seu pai, eram totalmente inaceitáveis? Como sobreviver em um ambiente controlado detalhadamente? Até o dia de hoje, quando figuras em autoridade falam, Linda adota uma postura subserviente, e com o olhar vidrado, sem questionar nem mesmo quando os pedidos são impiedosos. Assim, a depressão, de uma maneira estranha, fica-lhe bem. Ela parece entorpecida; além disso, não precisa conviver com a tristeza e pesar. Sente que não pode pensar com clareza; portanto, não questiona a autoridade externa. Todo ato de submissão, ou de fazer aquilo que se espera, contribui para um senso de despersonalização e perda de identidade. Fazer tais conexões foi um começo importante para Linda. Ela começou a perceber que o que sentia estava ligado principalmente, de alguma forma, aos padrões diários do lar onde foi criada. Após isso, ela passou a observar as questões em seu relacionamento com Deus. Seu sistema operacional de crenças incluía falsidades significativas. Quando você se junta a alguém que está sofrendo, muitas vezes descobre que as pessoas também passam por circunstâncias difíceis. Geralmente, a dor está ligada a algo que aconteceu conosco. Isso tem importância? Importa para Deus? O controle soberano de Deus, na história e em nossas histórias pessoais, torna as situações passadas mais, e não menos, importantes. O que nos acontece não é uma série de eventos aleatórios e não relacionados. Ferido para sempre? As dores do passado podem fazer com que nos sintamos permanentemente confinados a uma vida de vergonha e sofrimento, e sob o poder da depressão; contudo, uma vez mais, os sentimentos enganam. Você poderá sentir que suas necessidades relacionais mais básicas jamais tenham sido supridas. A rejeição dos pais, cônjuge, ou amigos, deixa um vazio profundo que lhe parece, até, uma deficiência emocional. Considere, porém, o exemplo de Jesus. Se alguém pudesse ser ferido permanentemente, ele seria essa pessoa. Foi incompreendido por todos, traído por um companheiro próximo, abandonado por aqueles que melhor o conheciam, e afligido fisicamente quase a ponto de morrer antes mesmo da cruz. Todavia, tais rejeição e abandono não o deixaram como um bem estragado. Era plenamente humano e amado do Pai. Com tudo o que sofreu, não se deixou controlar pela vitimização. Com isso, obtemos uma perspectiva mais profunda da qualidade de ser humano. Parece que o sofrimento e a dor, mesmo nas mãos dos outros, não tem o poder de diminuir nossa humanidade. Na verdade, eles não têm mais o poder de fazer com que sejamos impuros. A impureza e a vergonha não são mais uma questão daquilo que fizeram contra nós, mas sim do que nós fazemos. “Não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem” (Mt 15.11). Nosso passado, por si só, não tem o poder de nos trancafiar na cela da depressão. O desejo de ser amado á algo natural. Se você não possui esse desejo, alguma coisa deve estar errada. Porém algo ainda mais profundo quando olhamos para Jesus – o verdadeiro humano –, cujo compromisso de amar o próximo foi mais intenso do que o desejo de ser amado. Eis a revelação de um dos mistérios do universo. Todo mundo pode sentir um desejo pessoal de ser amado, contudo, o desejo de amar aos outros, mesmo quando não nos amam, é ainda mais profundo. Fica dormente, mas ainda permanece. Vai além do amor recíproco encontrado em alguns relacionamentos, em que as pessoas amam uma a outra, ainda que possa incluir tal amor. Mas o verdadeiro amor é tão poderoso que é derramado até sobre os inimigos. Isso poderá parecer coisa impossível, mas deveria ressoar como verdadeiro e certo, e vagamente reconhecível. Não quer dizer que você se colocará no caminho do perigo e deixará que os opressores do passado continuem a oprimi- lo. Não. O amor tem infindas variedades e sempre estará ligado à sabedoria. O amor pode censurar; pode ficar quieto. Pode virar a outra face; pode buscar justiça. Qualquer que seja a forma que assuma, o amor é sempre paciente e benigno (1Co 13.4). É claro que isso é apenas o começo de tudo o que Deus diz aos que foram feridos. Se suas palavras lhe chegam ao coração, encoraje-se, pois há muitas outras verdades semelhantes a essa. Respostas Por que algumas pessoas que sofrem tais experiências caem em um espiral de depressão, ao passo que outras não? A razão é que essas circunstâncias não são, em si mesmas, a causa da depressão. Geralmente, fazem parte de um ciclo depressivo, mas não são suficientes para desencadear a depressão. As circunstâncias têm de estar ligadas a um sistema interno de crenças, ou uma lente interpretativa,que, então, precipita a depressão. Mesmo os desequilíbrios químicos precisarão de coadjuvantes, se forem causar depressão, especialmente uma depressão acompanhada de desesperança e autoacusação. Todos nós conhecemos pessoas que passaram por situações muito trágicas e não perderam a esperança. Podem dizer, como o apóstolo Paulo: “Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos” (2Coríntios 4.8-9). Algumas pessoas evitam a depressão mais profunda porque são dotadas de constituição inabalável; outras, porque sua fé e confiança em Deus tomam conta delas antes que caiam muito fundo. A seguir, olharemos de perto os mecanismos internos da alma. Será de ajuda se nós atentarmos ao fato de que as nossas crenças e cosmovisão se misturam com as dores da vida para decantar a bebida tóxica da depressão. Capítulo 13 O coração da depressão Estamos tomando cuidado ao dissecar a depressão. Estamos escutando sua voz, esperando encontrar pistas de como ela teve início e como poderá ser aliviada. Isso nos levou primeiramente a destacar diversas causas que sobrevêm contra nós. Satanás, outras pessoas, temores de morte e fatores errôneos da cultura, muitas vezes, desempenham esse papel. O próximo passo será o de completar o laço e considerar as coisas que vêm de dentro de nós. Como elas contribuem para a depressão (Figura 13.1)? Figura 13.1. O desenvolvimento da depressão As coisas não acontecem sem um propósito. Então, quando algo novo surge, reagimos com uma interpretação imediata de seu significado. Filtramos o acontecimento por meio de nossa visão de Deus, dos outros e de nós mesmos. Por exemplo, digamos que alguém não nos tenha cumprimentado, na igreja. Interpretamos assim: “Ela está zangada comigo”; “Ela é uma esnobe”, ou então “deve estar com muita coisa na cabeça. Devo ligar para ela”. Choveu durante todo o fim de semana em que você planejava trabalhar com o madeiramento no quintal. Você interpreta assim: “Não acredito que isso esteja acontecendo comigo”, que significa: “Não acredito que Deus faça isso comigo!” Ou então, você poderá pensar: “Ainda creio que Deus seja bom, mesmo que eu esteja decepcionado. Ele está cuidando, até mesmo, desses detalhes”. Essas interpretações fazem diferença mesmo que a depressão tenha causas físicas. A dor mental geralmente precisa de um empurrão interpretativo a fim de mandá-la para o inferno bem como a desesperança, que chamamos de depressão. Toda dor é interpretada. Tendo isso em mente, volte sua atenção para o que está acontecendo dentro de você. Descobrirá que está dando ocupação à mente bem mais do que pensava inicialmente. A mente é seu próprio lugar, e, em si mesma. Pode tornar um céu do inferno, ou um inferno do céu.¹ Definição do coração Nossa história, nossas interpretações, nossas motivações e crenças procedem do coração. Ele é o centro de nossa vida. O coração examina os “porquês”. Por que trabalhar? Por que brincar? Por que amar? O coração é o fator definidor de nossa humanidade. Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida. (Pv 4.23) Porque a boca fala do que está cheio o coração. (Mt 12.34) O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração. (Lc 6.45) Como você pode imaginar, a essa altura, quando chegamos ao alcance mais longínquo do coração, descobrimos que tudo tem a ver com Deus. Toda a vida é vivida coram deo (diante da face de Deus). Isso não quer dizer que estejamos sempre conscientes de Deus. Quando o adolescente quebra as regras dos pais, raramente percebe suas infrações como ataques pessoais contra eles. Ele pensa: Quero fazer o que der na telha. Quero independência. Minha desobediência não é nada pessoal. Toda a vida, contudo, é pessoal. Em algum nível, todas as pessoas conhecem a Deus (Rm 1.21). Não temos apenas uma ideia vaga de que exista um Deus, deuses ou um “poder superior”, aí, em algum lugar. Dentro do coração humano, há um conhecimento pessoal do Deus que existe, e nele confiamos ou em uma outra coisa. Usando uma linguagem mais religiosa, ou adoramos a Deus ou aos ídolos, tais como prazer, dinheiro, sucesso e amor. No final, o coração é uma questão de ou isso ou aquilo. A quem você ama? A Deus ou o mundo? (Dt 6.5; 1Jo 2.15) Em quem você confia? Em Deus ou em pessoas? (Jr 17.5-8) Quem (ou o que) você adora? A Deus ou os deuses? (2Rs 17.36) A quem você serve? A Deus ou ao dinheiro? (Mt 6.24) A quem obedece? A Deus ou ao diabo? (1Jo 3.10) Para a glória de quem você vive? A glória de Deus ou a sua própria glória? (Rm 1.21-23) Onde está o seu tesouro? Em Deus ou no mundo? (Mt 6.21) A quem você pertence? A Deus ou Satanás? (Jo 8.44) Alguns jovens que foram criados na igreja, bastante conscientes de si mesmos, voltaram-se contra Deus. Sabem que Deus existe e, até mesmo, creem que o evangelho é verdadeiro, mas querem andar pelos próprios caminhos. Suas alianças são com seus próprios desejos e não com Deus. Outras pessoas poderão nem pensar sobre Deus. Não o negam conscientemente nem o reconhecem. Mas seu coração se revela quando, de repente, ficam irados contra Deus por alguma dificuldade que surge na vida. Por exemplo, um empresário que trabalha muito e se considerou não religioso – simplesmente não pensa em Deus. Mas no dia em que sua empresa é incendiada e queima até o chão, ele amaldiçoa a Deus e jura jamais entrar em uma igreja, pelo resto da vida. Ele sabia da existência de Deus. Tem gente que diz não acreditar em Deus. Pensa sobre a existência ou não de Deus, e escolhe crer que Deus não existe. Aqui, também, o coração será revelado. Poderá ser que descubra um profundo medo da morte, que faça consultas a cartomantes, ou que tenha uma crise de meia idade, indicando total falta de propósito. Lembre-se que qualquer pergunta que se refere a propósito será uma pergunta religiosa. Não importa quem sejamos ou que crença tenhamos, todos fomos criados com a mesma estrutura. Vemos as nossas ações; contudo, ainda mais escondidos, estão os nossos pensamentos e sentimentos. Abaixo deles, estão nossas imaginações e motivações – as aparentes razões dos nossos pensamentos, sentimentos e ações. E ainda mais profundos, estão o conhecimento de Deus e nossa reação a ele (Figura 3.2). Figura 13.2. Uma visão do coração A inclinação natural do coração Conforme vimos, nosso coração está fora de forma e defeituoso. Isso não deveria nos surpreender, pois nossa vida inteira parece estar desequilibrada. Mas existe um modo específico em que nosso coração está desalinhado. Fomos feitos para dedicá-lo a Deus, mas não o fazemos. Em vez disso, o dedicamos a uma estranha fermentação composta de Deus, nós mesmos, e os objetos de nossos afetos, a saber, os nossos ídolos. Por que essa dedicação inapropriada e transigente? Somos orgulhosos. De início, poderá até não fazer muito sentido, especialmente quando nos sentimos no abismo, mas nosso coração continua altivo. Desde a antiguidade, as pessoas se inclinam diante de ídolos em uma atitude de aparente humildade e contrição. Mas o seu alvo não é ser controlado pelo ídolo. As pessoas cultuam a fim de obter as coisas. Escolhemos os ídolos porque acreditamos que eles nos darão aquilo que queremos. O deus das drogas traz falta de temor, o deus do sexo promete prazer e intimidade, o deus da riqueza estende o poder e a influência. Podemos nos sentir mal a nosso próprio respeito porque queremos ser grandes, ou pelo menos conseguir alguma coisa, e não estamos nos sentindo muito bem. Como os profetas de Baal, somos arrogantes a ponto de acreditar que poderemos manipular o ídolo – quer infligindo ferimentos a nossos próprios corpos quer por meio de alguma outra forma de obra de justiça – a fim de que o ídolo ceda e nos dê aquilo que queremos. Isso se encaixa em sua experiência? Estamos falando de algo universal. Examine sua imaginação e suas fantasias. Elas nãorevelam uma sugestão de autoexaltação? Até mesmo os pensamentos de suicídio podem ter elementos de orgulho. O suicídio faz parar a dor, mas também deixa uma forte impressão na mente de outras pessoas. Até mesmo a modesta autopiedade poderá se tornar rapidamente em uma razão para pensar em nós mesmos. Poderá ser uma forma orgulhosa de autoindulgência. Ainda que sob depressão, você é uma pessoa – e como pessoas, por natureza, nós temos traços orgulhosos permeando a totalidade da vida. Almejamos autonomia. A autonomia está intimamente ligada à arrogância. Ambas são expressões do orgulho humano, mas a autonomia sugere que queiramos nos separar de, mais do que estar sobre alguma coisa ou alguém. Queremos estabelecer as regras para não nos submetermos ao senhorio do Deus vivo. Esta foi a essência do pecado original de Adão. Queremos interpretar o mundo de acordo com nosso sistema de pensamentos. Queremos estabelecer nosso próprio universo paralelo, separado de Deus. Uma expressão popular de autonomia é encontrada no deísmo norte-americano. O deísmo não é uma igreja ou denominação formal, mas podemos dizer sem sombra de dúvida que é o sistema de crença mais popular nos Estados Unidos. O deísmo reconhece Deus, mas acredita que ele está longe, ocupado demais para se envolver nos afazeres comuns das pessoas. Seus lemas são: “Deus ajuda a quem se ajuda” e outros princípios semelhantes que evitam fé e confiança como a atitude principal diante de Deus. No deísmo, podemos desbravar fronteiras sem que ninguém se meta em nossos afazeres. Dá para observar isso na depressão? Uma parte da síndrome depressiva é que somos imensamente leais às nossas interpretações de nós mesmos e de nosso mundo. Se Deus diz que fomos perdoados em Cristo, criamos novas regras que exigem contrição, penitência e desprezo próprio. Se Deus diz que nos ama, insistimos que isso é coisa impossível. Aí está: nosso sistema é mais elevado do que o de Deus. Observe como o desejo de controlar nosso próprio reino tem ligação com o vazio que acompanha a depressão. Quando tentamos fazer com que a vida funcione separada de Deus, estamos confiando em pessoas e não em Deus. O problema de confiar nas pessoas é que, ou elas não são confiáveis, ou estamos confiando tanto nelas que nenhum ser humano teria capacidade para suportar tamanho peso. Imagine isso: outras pessoas tornam-se ídolos quando tentamos fazer com que o mundo dê certo sem Deus. Os ídolos, quando derrubados, não nos dão mais aquilo que queremos, e nos deixam com um sentimento de vazio. O caminho para sair da autonomia começa com uma simples oração: “Senhor, ensina-me. Quero pensar como tu pensas”. Isso significa viver sob o reinado do Rei de amor em vez de procurar amor, aceitação, significado ou segurança à parte dele. Somente sob seu domínio poderemos conhecer o amor de Deus. Pense em como seria ter certeza de que o Deus do universo ama a você. Apenas isso provavelmente transformará os contornos da depressão. Queremos ceder a nossos próprios desejos. O orgulho e a autonomia não representam tudo o que está errado em nosso coração. Ambos apontam para o fato de que somos criaturas ávidas, desejosas. Queremos alguma coisa mais do que tudo. Cobiçamos. Queremos mais (Ef 4.19). E temos inveja daqueles que têm o que nós queremos. – Eu quero! Quero mais! Mais segurança, mais amor, mais paz, mais dinheiro, mais respeito, mais liberdade, mais beleza, e assim por diante. Pense nisso por um momento. É verdadeiro que se tivermos o quanto queremos, nossa depressão mudaria? Se for assim, provavelmente você está considerando os desejos mais ávidos e cobiçosos do coração humano. O problema é que, ainda que conseguíssemos mais, não sentiríamos satisfação e ainda continuaremos a desejar mais. Até mesmo Deus não nos basta. E quando não temos mais à nossa disposição, a vida torna-se vazia e nada mais interessa. Nada disso parece bonito, ainda que nos soe conhecido. A depressão não nos poupa das aflições normais do coração humano. Podem, até mesmo, distrair nossa atenção, mas isso não impedirá que nos agarrem. Resposta Então, quer dizer que o pecado é causa da depressão? Não! Tome cuidado aqui. Sendo ser humano normal, você deve ver evidências de suas próprias carências, descrenças e caminhos de autonomia. Se não conseguir enxergá-los, então você estará com um problema, porque estes são fatores comuns a todo coração humano. Pergunte às pessoas sábias que passaram por sofrimentos, e elas se lembrarão prontamente de como o Pai Celestial usou o sofrimento para lhes revelar como estavam procurando acertar a vida à parte dele. Entretanto, isso não significa que o sofrimento tenha sido causado por seu pecado pessoal. Significa apenas que a dor tende a gritar bem alto o nome daquelas coisas que a prosperidade esconde. Afinal, quando tudo vai bem, a maioria das pessoas são agradáveis e gratas. A angústia mostra coisas dentro de nós que não veríamos de outra forma. Os capítulos seguintes tratarão mais a respeito disso. Em tempos de sofrimento, a Escritura nos estimula a desembaraçar “de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia” e a correr, “com perseverança, a carreira que nos está proposta” (Hb 12.1). Devemos, sim, nos preocupar se não estivermos vendo algum pecado, porque uma das maneiras de o Espírito Santo nos amar é revelando o nosso pecado. Como o pecado é o que realmente corrompe a vida e tudo que há de bom, somos abençoados quando conseguimos enxergá-lo e desviamos dele. Porém, isso não significa automaticamente que o pecado seja o causador de nossa depressão. É possível que alianças mal feitas e simples descrença sobre o que Deus diz sejam catalisadoras da depressão? Com certeza. Nessas horas, a depressão é uma luz de advertência espiritual a nos lembrar de Deus e de tomarmos decisões quanto à escolha do seu reino ou do nosso. Traga Cristo bem próximo em todo esse caminho. Mantenha à mão o salmo 130. O cerne da Escritura é que Deus veio a nós e tomou a iniciativa do perdão. Ele não nos perdoa em função da tristeza com o pecado, mas porque Jesus pagou a penalidade do pecado. O caminho certo para a vida verdadeira consiste em crescer no conhecimento do amor de Deus e do nosso próprio pecado. Spurgeon disse: “Enquanto via Deus como tirano, achava que o meu pecado fosse uma ninharia; quando o conheci como meu Pai, lamentei que tivesse um dia me oposto a ele”.² E Pascal forneceu este sábio resumo: Conhecer Deus sem conhecer nossa própria baixeza produz orgulho. Conhecer nossa própria miséria sem conhecer Deus produz desespero. Conhecer Jesus Cristo dá o equilíbrio, pois ele nos mostra tanto Deus quanto nossa própria baixeza.³ O que vemos em nosso próprio coração? 1 MILTON, John. Paradise Lost (Nova York: Penguin, 1968), 1:249-55, p. 54. 2 SPURGEON, Charles. “Repentance After Conversion”, The Metropolitan Tabernacle Pulpit, vol. 41 (Londres: Banner of Truth, 1895), sermão # 2419. 3 PASCAL, Blaise. Pensees, trad. A.J. Kreitsheimer (Londres: Penguin, 1966), nº. 192. Capítulo 14 O coração desvendado Faça uma pausa um pouco maior para analisar seu coração. Um dos desafios é que ele é complicado e difícil de conhecer. Podemos enumerar rapidamente as circunstâncias da vida que moldam quem somos – tais como família, amigos, professores – mas o coração tende a se esconder, tanto de nós quanto de outros. Saber a respeito do coração e conhecê-lo são duas coisas bem diferentes. Eis uma série de perguntas a fazer para descobrir o que se passa no íntimo. O que você ama? O que você odeia? O que você quer? Almeja? Espera? Qual é o seu alvo? O que você teme? Com o que você se preocupa? O que você acha que precisa? Onde encontra refúgio, consolo, prazer ou segurança? Quem são os seus heróis e exemplos? O que define sucesso ou fracasso para você? Como você completa a frase: “Se apenas...”? (Por exemplo, “Se o meu marido apenas...”) O que você considera seus direitos? Quais são as coisas pelas quais você ora? Sobre o que você conversa? Quais os seus sonhos ou fantasias?Quando é que você fica zangado? Em que é que você tende a duvidar da Escritura? Onde, em sua vida, você tem lutado contra a amargura? O que ou quem você evita? Às vezes, você sente-se culpado?¹ Sob circunstâncias normais, raramente fazemos essas perguntas ou permitimos que nos levem ao centro espiritual de nossa vida. Mas a depressão não é uma circunstância normal. Ela desvenda nosso coração. Não é verdadeiro que o sofrimento revela quem somos? Enquanto a prosperidade permite que nos escondamos, as dificuldades removem máscaras que nem sabíamos existir. Durante tempos melhores, conseguimos ser felizes, destemidos, confiantes e otimistas, mas os anos magros revelam o melhor e o pior de nós. Coloque uma dúzia de pessoas de mentes relativamente semelhantes na mesma crise e verá uma dúzia de respostas diferentes. Algumas são heroínas; outras, covardes. Algumas são líderes; outras, submetem-se silenciosamente. Realmente não sabemos quem somos até passarmos pelo sofrimento. Conseguimos medir nosso crescimento espiritual pelo modo como agimos sob pressão. Por meio da história, Deus tem usado as dificuldades para manifestar o coração das pessoas, e esse desvendamento tem um propósito. É parte essencial do processo de mudança. Temos de ver o que está no coração antes que comece a transformação. Observe como parecem imaturos aqueles que apagam os sofrimentos por meio do uso de remédios, drogas ilegais, álcool ou sexo. Podem ter quarenta e cinco anos de idade, mas o seu caráter é como de um adolescente. Encontre alguém que tenha enfrentado as tempestades da vida em vez de evitá-las e encontrará uma pessoa sábia. O crescimento pessoal e a mudança nem sempre são fáceis, mas são essenciais para a verdadeira humanidade. Simplesmente, fomos feitos assim. São partes do intento do Criador. Podemos observar sua ocorrência nos animais, nas plantas e nas pessoas, pois tudo que vive, cresce. A diferença é que os seres humanos crescem física e espiritualmente. Quando estivermos crescendo na direção certa, será justo e bom. A palavra hebraica shalom encerra os sentidos de paz, integridade, inteireza, realinhamento, e não de deslocamento. O crescimento espiritual é um sentimento apropriado. De fato, é uma bênção que torna a depressão menos opressiva. A depressão pode ser comparada com a dor severa de quem morre vítimado pelo câncer, e também com a dor da cirurgia que auxilia na nossa melhora. Se ambas pudessem ser medidas fisicamente, seriam idênticas em sua intensidade, pelo menos, para o pesquisador. Mas a dor da cirurgia terá menor gravidade ao sofredor do que a do câncer. A dor da cirurgia estará nos tornando melhores; a outra, sinaliza o pior. Quando enxergarmos alguma coisa do coração, estaremos em posição de crescer e mudar. Por mais difícil que seja a exposição de nosso ser interior, é uma parte necessária do caminho da bênção. Esse desvendamento produzirá também outros benefícios. Revelará coisas da intimidade que contribuíram para a depressão. Não há como ter certeza de que nosso coração seja a causa principal da depressão, mas quando trabalhamos nas questões que a depressão denuncia, a dor diminuirá, pois encontramos uma de suas causas. Em outras palavras, o problema por trás da depressão nem sempre é físico. Muitos especialistas em depressão chegaram a conclusões semelhantes. Por exemplo, uma abordagem popular à depressão chama-se terapia cognitiva. Ela enfoca o modo de pensar das pessoas. Tudo lhe parece branco ou preto, tudo ou nada, oportunidade ou obstáculo? Tais maneiras de pensar ficam relativamente dormentes durante tempos de calma, mas são, sem dúvida, ativas na depressão. O alvo da terapia cognitiva é o de identificar “erros no pensamento”, mudá-los e, fazendo isso, ter esperança de alívio da depressão. Essa escola de pensamento sugere que os erros de pensamento não são apenas revelados pela depressão, mas são, na verdade, sua causa. Assim, quando você mudar o pensamento, mudará a depressão. Imagens de ressonância magnética de cérebros ativos mostram que podemos produzir mudanças físicas significativas ao cérebro, simplesmente, pensando de modo diferente. O rumo que estamos tomando não é forçado nem implausível. Tem semelhança com as teorias mais bem conhecidas sobre depressão. Não é estranho o pensamento de que a depressão nos expõe e que damos a ela a nossa contribuição. O que impressiona sobre a nossa posição é que penetramos mais profundamente: ultrapassamos as falhas dos pensamentos para considerar os erros no modo de conhecer a Deus. Desvios no deserto O princípio de que o sofrimento nos prova e desvenda o coração surge em toda a Escritura. Podemos vê-lo pela primeira vez quando os israelitas saíram do Egito, episódio-chave na história bíblica. Ali, Deus mostrou que ele mesmo não era apenas um deus tribal e local. Era o Deus Criador que reina sobre todas as coisas, incluindo o Egito e Faraó. Para destacar, Deus usou Moisés, um orador sem qualificações, como seu representante, e livrou Israel da escravidão egípcia sem que guerreiro algum desembainhasse espada. Antes que o povo obtivesse acesso à terra prometida, Moisés o guiou pelo deserto. Não era uma caminhada fácil, mas o propósito de Deus era manifestar sua paciência, bondade e cuidado. Ele também quis testar o povo para que visse o que lhes habitava o coração. Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o Senhor , teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos. (Dt 8.2). O povo repetidamente falhou no teste. Quando faltou água, murmurou contra o Senhor em vez de confiar nele. Quando ansiava carne e pão, agia da mesma forma. De uma provação após outra, deixava de confiar no Senhor. Como não estivesse pronto para entrar na Terra Prometida, pois o temor dos habitantes da terra era maior do que sua confiança em Deus, o Senhor estendeu o tempo de sua passagem pelo deserto por quarenta anos. Daí em diante, o tema de região inóspita ou deserta tornou-se repetitivo na Escritura como parte da jornada enfrentada por quase todo cristão, na qual Deus é o guia. Durante essa jornada, o coração das pessoas é desnudado. Abraão, José, Daniel e muitos outros passaram pelo deserto e foram confirmados como pessoas de fé. Confiaram no Senhor durante suas viagens pelo deserto. Arão, o rei Acabe, e Jonas confiaram e si mesmos. Os textos que relatam a passagem de pessoas pelo deserto, na Escritura, alcançam o seu ápice quando “Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mt 4.1). Ele reproduziu a jornada dos israelitas (um dia para cada um de seus anos) e suportou a fome que tiveram, com o seu jejum de quarenta dias. Em seguida, Jesus foi conduzido às tribulações e tentações mais rigorosas, pelo próprio Satanás. O resultado, porém, nunca esteve em dúvida. O coração de Jesus jamais titubeou. Não obstante a dor física ou as provas, ele confiou no Pai para livrá-lo. Ao fazê-lo, tornou-se nosso modelo, esperança e poder em nosso próprio deserto. Quando falharmos nas nossas provas desérticas, poderemos sempre apontar para o sucesso de Jesus. Suas vitórias são nossas, pela fé, e assim, sua história torna-se nossa quando confiamos nele. Alegria no deserto? É no contexto de provações no deserto que o livro de Tiago diz o seguinte: Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes. (Tg 1.2-4) A alegria e o sofrimento estão casados. De relance, parece um casamento impossível, mas Tiago não foi o único a falar de dificuldades com um esboço de sorriso no rosto. Outros textos bíblicos concordam. Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível,mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo. (1Pe 1.6-7) Antes da vinda de Jesus, as pessoas sábias suportavam voluntariamente as dificuldades porque sabiam que Deus estava com elas. Depois da cruz todas as coisas se transformaram, até mesmo a visão do sofrimento. Viajantes peregrinos, ainda hoje, encontram o mesmo sofrimento, mas, agora, ele é enxergado mais como as angústias de parto do que uma dor aleatória e sem propósito – meros acidentes. Desde a vinda de Cristo, o sofrimento é redentivo. Quando conhecemos a Jesus claramente – aquele que “aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” (Hb 5.8) –, compreendemos como Tiago pôde nos estimular à alegria na caminhada pelo deserto. Se você acha que a Escritura não está a par da vida real – que os santos gastavam seu tempo pensando na vida futura em vez de tratar do presente – leia o livro de Tiago. Ele é extremamente prático; o sofrimento e a perseguição lhe eram familiares. Compreendia a vida verdadeira. Seu conselho não foi dado a místicos que desprezam o mundo, mas a gente comum que precisa enfrentá-lo. Observe por que ele se empolga com as tribulações: as tribulações, ele escreve, têm um propósito. Provam nossa fé. Revelam aquilo que adoramos, cremos e amamos. Da perspectiva de Tiago, isso evidencia o cuidado paterno de Deus. É imprescindível para nosso bem-estar espiritual. Seria trágico passar pela vida com uma fé nominal que achamos ser autêntica, mas que, na verdade, não é. O amor de Deus está por trás das provações que revelam a verdadeira condição de nossa fé. O seu desejo é que nos tornemos “maduros e completos, em nada faltosos”. Em outras palavras, quando nossa fé passar pelo crisol para que aprendamos a confiar em Deus em todas as coisas, estaremos satisfeitos nele, acima de tudo mais. Não precisaremos dos apetrechos tradicionais da vida. Cristo será o suficiente. Para Tiago, esse processo de crescimento é tão glorioso que nos provoca alegria. Escute a outros mestres sábios que padeceram. No pesar, muitas vezes, aprendemos lições que jamais atingiríamos em outro lugar. Sabes que Deus tem belezas para todas as partes do mundo, e tem belezas para todos os lugares da experiência? Há paisagens a serem vistas do cume dos Alpes... mas há também belezas a ser vistas nas profundezas dos vales sombrios que jamais veríamos do topo das montanhas... Ah! disse Lutero, a aflição é o melhor livro de minha biblioteca. A melhor página é a do pesar.² Isso tem profundas implicações para a luta com a depressão. Tiago não presume ingenuamente que nossas dificuldades acabarão deste lado do céu. Presume que elas continuarão. As pessoas ficarão deprimidas e isso poderá, inclusive, repetir. Mas Tiago apresenta uma experiência emocional que é difícil de descrever: a alegria, ele escreve, pode estar presente durante qualquer experiência no deserto. A alegria não era tão acessível durante a jornada original dos israelitas porque tudo era novo e incerto. Eles não entendiam os caminhos de Deus e não tinham confiança em sua bondade e seu poder. Mas a cruz aclara qualquer dúvida. Dessa forma, no fim da história, podemos, na verdade, cantar de alegria em pleno deserto. A alegria não é o oposto da depressão. Ela é mais profunda do que a depressão. Portanto, podemos experimentar ambas. A depressão é chuva que não para. A alegria é rocha. Quer a depressão esteja presente quer não, podemos sempre firmar os pés sobre a alegria. Isso tudo parece inatingível? Você fica ainda mais desesperançado quando lê essas palavras? Se for esse o caso, trate esses versículos como se fossem os dos salmos: mesmo que não encerre sua experiência atual, deixe que sejam uma visão daquilo que está por vir. É o que Deus quer lhe dar. Então, ore para que você se aproprie mais e mais desta passagem, e para que Deus seja glorificado por te conceder alegria em meio às tribulações. Resposta Sua oração poderá ser simplesmente: “Sonda-me”. Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno (Sl 139.23-24). A vida diante de Deus é uma sequência contínua de vivências, avaliação e mudança, depois, reavaliação e mudança, para, mais uma vez, reavaliar e mudar. A depressão também é ocasião para reavaliação e mudança. 1 POWLISON, David. Basic Biblical Concepts of Human Motivation, não publicado. Ver também de Paul Tripp, “Opening Blind Eyes: Another look at data gathering”, Journal of Biblical Counseling, 14.2, 1996, p. 6-11. 2 SKOGLUND, E.R. Bright Days, Dark Nights (Grand Rapids: Baker, 2000), p. 86-87. Capítulo 15 Temor Agora estamos equipados com uma compreensão básica de como as nossas circunstâncias e o nosso coração conspiram juntos para a depressão. Isso possivelmente nos ajudará a ouvir mais quando escutarmos o que a depressão nos fala. Ela poderá dizer “está doendo” e nada mais. Entretanto, pode estar dizendo algo mais específico, e nesses indícios pode brilhar a luz em nosso caminho. Escutando as descrições da depressão, muitas vezes ouvimos palavras como “desespero”, “pânico”, “abandono” e “pavor”. Você escuta isso? O medo fala alto e bom tom. Ouvimos alusões ao inferno, e a esse sempre está associado um profundo medo. Quando a depressão está mais severa, a paranoia é uma de suas características cardeais. É o medo que perdeu o controle. Parece que tanto você quanto o seu mundo estão desmoronando, e você tem certeza de que não pode fazer nada a esse respeito. O que as pessoas medrosas fazem quando se sentem impotentes? Evitam. Retraem-se. Seu mundo torna-se cada vez menor. Noutras palavras, agem de forma deprimida. Quando os temores não são tratados, podem levar à depressão. Podemos tentar evitá-los quando eles nos assombram, mas ainda são perceptíveis. O único jeito realmente de aquietá-los é confrontando. E como os temores andam em bando, só podemos esperar encontrá-los ainda mais e não um único medo. Podemos descobrir que estamos aterrorizados diante: • de tomar uma decisão errada • do fracasso • da morte • de sofrer • de sermos expostos • de perder uma pessoa amada • de perder dinheiro, emprego, ou outras formas de segurança • de sermos abandonados, rejeitados ou de ficar sós • de perder o controle da vida Sem a depressão, esses temores podem estar dormentes; e por meio dela, eles se revelam. Às vezes, porém, as pessoas deprimidas não reconhecem seu temor. Pessoas medrosas parecem agitadas e inquietas, enquanto, geralmente, a depressão se expressa mais em passividade e resignação. Portanto, escute com cuidado o seu coração. Descubra do que você tem medo. Seus temores poderão estar contribuindo para seus sentimentos de depressão, e existe muito que pode ser feito para aliviá-los. Temores comuns Quando começamos a fazer uma lista de nossos maiores receios, reconhecemos rapidamente que não estamos sozinhos. Somos um povo dado ao medo. Alguns dos temores mais comuns são: Medo da morte. O medo da morte nos afeta muito mais do que fazemos ideia. Imagine como a vida seria diferente se não houvesse nenhum medo de morrer. Mesmo que tenhamos confiança de estar com Jesus, o desconhecido é sempre intimidador e a Escritura não esclarece esse detalhes especificamente. Quando ansiamos e aguardamos alguma coisa, ficamos um pouco nervosos quanto aos detalhes imprevisíveis. Na depressão isso intensifica. Muitas vezes, as pessoas deprimidas não têm confiança de que estarão um dia com Jesus, e seus temores tornam-se ainda mais aguçados. Será que todos os nossos pecados serão expostos? Deus se desagradará de nós? Nós cremos “o suficiente”? Sabendo de nossas preocupações, Deus fala clara e frequentemente da esperança da vida eterna. A primeira carta de João se dedica a esse assunto, e os demais escritores do Novo Testamento tratam disso. Medo do modo como morreremos. A maioria das pessoas reconhece ter medo de como a morte lhes virá. Será prolongada e dolorosa? Repentina e sem dor? Estaremos sozinhos? Se já testemunhamosuma morte dolorosa, é provável que esses medos sejam mais fortes. E, como os outros temores, quando não tratados, podem desencadear em depressão. Agora é hora de ouvir as palavras de Deus e crer quando ele diz que nos dará a graça necessária quando precisarmos. Medo da volta do passado. Se tivermos experimentado um passado especialmente difícil, isso pode controlar-nos mais do que imaginamos. As nossas emoções não discernem muito bem entre o passado e o presente. Ainda que seja impossível experimentar novamente as mesmas dores, os nossos sentimentos dizem o contrário. O perigo parece eminente. Estamos sempre de sobreaviso. É aqui que muitos dos salmos são de valor especial, porque foram escritos por e para pessoas que enfrentavam ameaças. Medo de confiar em coisas que não duram. Talvez nosso temor mais comum surja quando aquilo em que confiamos se torna instável e começa a ruir. Se tivermos confiança na beleza física, ela acomodará a nossa confiança por um tempo. Mas o que acontece quando a cirurgia plástica não consegue nos livrar de todas as rugas e nosso corpo perde a firmeza por mais que façamos exercícios? Se a confiança estiver na segurança financeira, o que acontece se perdermos o emprego? Sentimo-nos como se sempre estivéssemos precisando de mais do que temos, não é mesmo? Se confiarmos em alguém, o que acontece se ele morrer? E se ele for menos que perfeito ao dar-nos afeto? Se ele nos abandonar? Talvez não confiemos em uma só pessoa específica. O problema é que confiamos nas pessoas. Nosso alvo tem sido agradá-las, e descobrimos que um alvo desses é cada vez mais impossível de atingir. Se nossa confiança estiver investida em qualquer coisa que não seja Jesus, eventualmente o medo tomará conta. E quando o reinado do medo continuar, ele convidará a depressão a ser o seu corregente. Mais uma vez, a questão Não obstante qual seja nosso medo específico, o temor sempre faz as mesmas perguntas: “Em quem confiaremos? A quem nos voltaremos quando estivermos com medo ou ansiosos?” A história da Escritura é a única na qual Deus demonstra ser confiável, e então ele convida as pessoas cautelosas a confiar nele. Dado um convite tão atraente, seria de imaginar que ninguém resistiria, mas todos nós temos razões para depositar nossa confiança nas coisas que conseguimos enxergar. O Pastor está presente Apesar de nossa relutância, Deus se compraz em dizer palavras de esperança e consolo a pessoas medrosas. Ele reserva algumas das mais belas revelações de si mesmo aos tímidos. Arrazoa pacientemente com eles. Lembra-lhes que ele é Deus e promete que jamais os deixará sozinhos. Ele compartilha com eles alguns de seus nomes – aqueles que somente os amigos íntimos conhecem. Em ti, força minha, esperarei; pois Deus é meu alto refúgio. Meu Deus virá ao meu encontro com a sua benignidade. (Sl 59.9-10 - itálicos acrescentados pelo autor) Deus é o meu escudo; ele salva os retos de coração. Sl 7.10 O Senhor é a minha rocha, a minha cidadela… a força da minha salvação, o meu baluarte. (Sl 18.2) O nome mais conhecido é Pastor. O salmo mais bem conhecido para os que têm medo é o salmo 23. Sua contrapartida no Novo Testamento, palavras realmente ditas pelo próprio Bom Pastor, é o ensino de Jesus sobre a ansiedade no Sermão do Monte (Mt 5 – 7). Provavelmente você já conheça a passagem, mas leia-a com cuidado. Estas são palavras de Deus a você. Observe como Jesus jamais se cansa de repetir as suas promessas. Ele argumenta pacientemente com as pessoas temerosas. Está nos persuadindo a confiar nele. A seguir, dirigiu-se Jesus a seus discípulos, dizendo: Por isso, eu vos advirto: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Porque a vida é mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes. Observai os corvos, os quais não semeiam, nem ceifam, não têm despensa nem celeiros; todavia, Deus os - sustenta. Quanto mais valeis do que as aves! Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida? Se, portanto, nada podeis fazer quanto às coisas mínimas, por que andais ansiosos pelas outras? Observai os lírios; eles não fiam, nem tecem. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada no forno, quanto mais tratando-se de vós, homens de pequena fé! Não andeis, pois, a indagar o que haveis de comer ou beber e não vos entregueis a inquietações. Porque os gentios de todo o mundo é que procuram estas coisas; mas vosso Pai sabe que necessitais delas. Buscai, antes de tudo, o seu reino, e estas coisas vos serão acrescentadas. Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino. Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça consome, porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. (Lc 12.22-34) Quanto carinho incrível! Quanta paciência! Ele nos chama de pequenino rebanho, consciente de que a vida tem muitos perigos. Ele nos lembra que o Criador conhece todos os detalhes de sua criação. Está próximo e se envolve. Conhece as necessidades dos corvos comuns; sabe quando cai uma pétala do lírio. Se ele conhece tais detalhes sobre coisas que não foram criadas à sua imagem, quanto mais não cuidará de nós? Aos olhos de Deus, valemos muito mais do que o restante da criação. Ele não apenas se interessa no grande quadro de nossa vida. Ele conhece os detalhes, até quantos fios de cabelo temos na cabeça (Lc 12.7). Para ter tal conhecimento, alguém tem de estar presente junto à pessoa e ter por ela imenso carinho. Conhecidos fortuitos se satisfazem com conhecimentos básicos e resumidos da nossa vida. Os amigos íntimos querem conhecer todos os detalhes. Jesus então pergunta, com humor, se a ansiedade realmente ajuda alguém. Pode fazer com que cresçamos? Pode nos dar mais dinheiro? Ele sugere que a situação na verdade não é tão medonha quanto pensamos. E pode falar com leveza porque sabe que não existe razão para nos preocuparmos. Ele é o pastor amoroso. Não nos deixará, e jamais dormirá (Sl 121.4). – Confia em mim. Eu cuido do amanhã – diz o Senhor. Então, em bela e persuasiva conclusão, Jesus nos lembra que ele é um Deus generoso que não somente dá o reino a seus filhos como também tem prazer em fazê-lo. Aqui surgem duas perguntas. Primeira, o que é o reino? O reino é tudo que Deus promete aos seus filhos: amor, alegria, paz, sua presença, perdão, adoção em sua família, a esperança de estarmos livres do pecado, e de estar com o Pai, o Rei. Segunda, o reino é importante para você? Talvez você já creia que Deus se agrada de nos dar o reino, mas o reino não lhe parece tão bom assim. Talvez o seu coração esteja mirando outra coisa. Você acredita que “meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades” (Fp 4.19), mas não está tão certo de que ele suprirá tudo que você deseja. É assim que a idolatria cresce em nosso coração. Queremos coisas e não temos certeza de que Deus as dará, e assim, confiamos em outros deuses. Este é o problema do coração humano – confiança não apropriada. Valorizamos, amamos e confiamos em alguma coisa na criação que não o Criador e não existe nada na criação que tenha capacidade de portar o peso de nossa confiança, somos fadados a viver em medo. Todos os outros amores têm de ser subordinados ao amor por Cristo. Isso pode soar como uma exigência exagerada de Deus, e é, até certo ponto, verdade. A razão por que devemos amá-lo mais que todas as outras coisas é que, entre os muitos pretendentes ao nosso afeto, somente Deus é digno de tal amor. Como voltar para aquele que realmente nos ama? Isso se chama arrependimento. Reconhecemos nosso erro em buscar falsos deuses e procuramos conhecer a beleza do Deus verdadeiro, que pacientemente nos busca. Aprendendo domaná Outro fator comum na maioria dos temores é o de se preocupar mais com o futuro do que o presente. “Acho que está para acontecer uma tragédia”. Predizemos o futuro e nos agarramos tenazmente a nossas profecias. Algumas pessoas se especializam nessas ansiedades, outras apenas atabalhoam- se nelas, mas todos nós cedemos a elas. Eis por que uma das primeiras lições que Deus ensinou a seu povo tratava de ansiedade e confiança. Quando os israelitas estavam no deserto, a comida era pouca; e ali foi o lugar ideal para a aprendizagem da confiança. Para alimentar as centenas de milhares de israelitas, Deus fez chover a cada dia uma espécie de pão (Êx16), mas ele só era suficiente para um dia (exceto no dia anterior ao sábado, quando recebiam o suficiente para dois dias). Isso estabeleceu um ritmo espiritual. Faziam o que Deus disse para fazer hoje, e confiavam nele para o amanhã. Os que confiavam em si mesmos e colhiam mais do que precisavam para o dia descobriram que o maná que sobejava apodrecia na manhã seguinte. Aprenderam rapidamente que a fé no Deus verdadeiro era a única maneira de viver. Sem dúvida, os primeiros dois ou três dias foram os mais difíceis. O povo acordava com fome e notava que não havia comida em sua tenda. Será que haveria maná lá fora, nessa manhã? Deus seria fiel às suas promessas? Com o tempo, eles ficaram mais confiantes. Aprenderam que no amanhã Deus cuidaria deles porque assim havia prometido, e fora fiel no dia anterior. É este o pano de fundo para as palavras de consolo de Jesus: “mas buscai o seu reino (hoje) e estas coisas também lhes serão dadas (amanhã)”. Nosso alvo é entrar no ritmo do maná. Buscar sua graça hoje, ser fiel nas tarefas à nossa frente, e confiar nele para o amanhã. Então, quando olharmos para trás e percebermos que ele foi fiel, a nossa fé será “alimentada” para o dia seguinte. “Eu estarei com vocês” Ainda está com medo? Jesus sabe de antemão que lutaremos contra o medo e ele não desaparecerá instantaneamente. Sua resposta é lembrar-nos que ele jamais nos abandonará. Não temas, porque eu sou contigo. (Gn 26.24) Sede fortes e corajosos, não temais, nem vos atemorizeis diante deles, porque o Senhor , vosso Deus, é quem vai convosco; não vos deixará, nem vos desamparará. (Dt 31.6) Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a minha destra fiel. (Is 41.10) Mas Sião diz: O Senhor me desamparou, o Senhor se esqueceu de mim. Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti. Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei; os teus muros estão continuamente perante mim. (Is 49.14-16) E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade... ele habita convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros. (Jo 14.16-18) Imagine a presença de alguém que nos ama e tem poder para lidar com as coisas que nós tememos. Ele muda o medo em confiança. Mas como é o caso de todo crescimento espiritual, esta transformação só ocorre com a prática contínua. Vem quando dizemos “Amém – eu creio”, ao ouvir ou ler uma promessa de Deus. Vem mediante a meditação nas palavras de Deus. Vem quando a cruz de Cristo nos assegura de que Deus é fiel. Estas palavras aos temerosos são tão importantes que Jesus as usou em seus instantes finais sobre a terra: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20). A ressurreição é a resposta de Deus para o medo. Jesus está vivo. Resposta Os temores são gritantes e exigentes. Mesmo quando sabemos que são irracionais, ainda conseguem nos controlar. É difícil discutir com sentimentos tão intensos, e fácil ser leal a nossas interpretações errôneas. Portanto, não espere escrever salmos de vitória no momento. Em vez disso, temos de assumir como nossos alguns salmos que são diários pelos quais documentamos o medo. Por exemplo, o salmo 46 trata de circunstâncias traiçoeiras, mas continua voltando ao mesmo refrão: “O Senhor dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio” (Sl 46.7, 11). O salmo 56 descreve difamação e ataque, mas o salmista acalma seu coração: “Em me vindo o temor, hei de confiar em ti” (Sl 56.3). Ao meditarmos nos salmos que falam sobre o medo, descobrimos que nós também poderemos fazer transições mais rápidas do temor para a fé (ver Sl 57.4-5). Existem dois passos básicos para tratar com o medo. Primeiro, confessá-lo como incredulidade. Não é verdade que grande parte do medo é nosso coração dizendo: “Senhor, eu não acredito em ti” ou “Senhor, meu desejo é por algo diferente do que aquilo que o Senhor prometeu”? Segundo, examine a Escritura com confiança no amor e fidelidade de Jesus. Peça a alguém que tem tal confiança em Jesus que dê as razões para sua fé. Quais são os seus medos? Em que está a sua confiança? Capítulo 16 Ira O medo é o coconspirador mais óbvio da depressão; a ira é o mais comum. A fórmula é simples: Tristeza + ira = depressão A maioria das pessoas consegue encontrar facilmente sua ira, mas, às vezes, você terá de procurá-la em lugares inesperados. – Por que não consegue acreditar que você foi perdoada? Essa mulher de trinta e cinco anos de idade estava deprimida havia dez anos e fizera duas tentativas de suicídio. Como tantas pessoas depressivas, tudo sobre ela falava de autoaversão. Nesta ocasião ela estava descrevendo a culpa que sentia por ter dito algo danoso a sua irmã. Dava para ver como ela estava abatida pelo peso do que fizera. Sua resposta foi chocante. – Se eu acreditar que Deus me perdoa, então terei de perdoar o meu pai, e jamais poderei fazer isso. – A sua ira era patente, surpreendendo até a ela mesmo. Sim, era culpada, mas sua culpa era mais profunda do que pensava. Era culpada por ser juiz de seu pai, cujos pecados, neste caso, eram mínimos. Ela não acreditava que Deus seria suficientemente duro com ele, e, assim, assumiu papel de juiz, júri e algoz. O fato de que isso significava que ela teria de negar a graça e misericórdia sobre si, era preço baixo para pagar pelo prazer de julgar seu pai. A ira nem sempre será causa da depressão, embora alguns pesquisadores queiram dizer que seja a causa provável. Contudo, ela frequentemente é revelada pela depressão. O modo mais sábio de abordar o assunto é assumir que estamos irados. A ira é tão básica à nossa condição quanto a nossa locomoção bípede e os polegares opostos nas mãos. Se você for uma pessoa com mente e emoções, com certeza encontrará ira. Para tornarmos essa busca ainda mais importante, lembre-se de que a ira se esconde. A pessoa irada sempre será a última a saber disso. Reconheceremos estar deprimidos, temerosos, sofrendo, mas somos cegos quanto à nossa ira. Ela sempre é problema dos outros, não nosso. Descobrir a ira A ira inclui amplo espectro de comportamentos. Pode contribuir para a depressão mesmo quando não nos lembramos de uma causa específica. Como entre os Hatfields e os McCoys, nenhum lado se lembra do que começou a briga entre as duas famílias, mas sabem que deverão estar zangados uns contra os outros. Algumas perguntas podem ajudar a descobrir as raízes. Quais as minhas necessidades pessoais? Nossas “necessidades” geralmente são um eufemismo para “direitos” e “exigências”. Onde minhas necessidades não foram supridas? Onde meus direitos foram violados? O que acho que mereço que não tenha recebido? De quem tenho inveja? Se limitarmos nossa consciência de ira à raiva descarada, deixaremos de percebê-la. A explosão violenta é apenas uma das expressões da ira (Figura 16.1). “Minha lei foi violada” Quente Frio Ataque Afastamento Assassinato Violência Fúria Calúnia Inveja Sarcasmo Reclamações Fofoca Indiferença Praguejamento Desejar o mal Rabugice Autopiedade Figura 16.1. O espectro da ira Um homemdeprimido não disse nada durante um ano à sua esposa – nenhuma palavra. Em público, relacionava-se normalmente. Omitia a solidariedade porque estava desempregado. Seu raciocínio para estar assim “calado” era que estava deprimido. Mas a tristeza pode encobrir a raiva furiosa. A ira pode ser quente ou fria. As pessoas se ferem mutuamente. A principal diferença é que a ira quente é breve e explosiva; a fria se acomoda a longo prazo. A ira depressiva geralmente é fria: “dar de ombros”, retrair-se, rejeitar calculadamente, culpar os outros, autocomiseração. De alguma forma, é a ira mais extrema porque se recusa a ser afetada pela outra pessoa. “Fui ferido, e jamais me importarei o bastante para ser ferido outra vez”. Evite a pessoa de gênio explosivo, mas trema diante da pessoa fria, distante, sem sentimentos e irada. O coração da ira A ira diz “Você errou”. Está fazendo algum tipo de juízo, e muitas vezes esse julgamento é acertado. A ira pode ser uma resposta a um mal real. Mas é só o começo da história. Uma vez que a ira se instala, nos levará a uma encruzilhada cada vez mais conhecida. Você se volta ao Deus verdadeiro, que mostra compaixão aos que foram feitos de vítimas, ou confiará em si mesmo? Você se volta ao Deus verdadeiro, que é o juiz santo e justo, ou formará um partido de vigilante que se encontra no seu próprio nome, para si mesmo, e para sua própria glória? A ira começa tipicamente imitando a Deus – faz juízos quanto ao que está certo ou errado. Mas rapidamente poderá tornar-se uma posição contrária a ele. Ficamos irados porque nossos direitos e nossa glória – não os de Deus – foram violados. Aqui é que devemos tornar-nos especialistas em conhecer nosso próprio coração, senão ficaremos tateando no escuro. O que vemos quanto à ira é que alguém fez o mal e ficamos zangados. O que não enxergamos é que a ira revela mais sobre nosso próprio coração do que sobre a outra pessoa. Especificamente, a ira é entre nós e Deus. Tome, por exemplo, a murmuração. Quem nunca se queixou e murmurou nos últimos dois dias? A murmuração ou reclamação cabe na categoria maior de ira porque é fazer juízo. O murmurador declara que algo está errado, seja uma pessoa, o tempo, ou o preço extorsivo do conserto do carro. Geralmente, não é dirigido contra uma pessoa específica. É apenas uma queixa. Enquanto os que são abertamente zangados podem sacudir o punho contra Deus, ele é raramente mencionado na reclamação ou murmuração de baixo nível. Porém, murmuramos mais a nosso respeito do que de outros ou de nossas circunstâncias. Nosso coração está dizendo alguma coisa contra Deus; quando Israel estava com fome durante sua jornada pelo deserto, “Toda a congregação dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e Arão” (Êx 16.2). Mas isso é apenas um retrato unidimensional no qual somente o horizontal, e não o vertical, é visto. O povo precisava da percepção espiritual de Moisés para enxergar melhor: “As vossas murmurações não são contra nós, e sim contra o Senhor” (Êx 16.8). Pouco tempo depois, reclamaram contra Moisés por não terem água. Mais uma vez, Moisés diagnosticou o problema imediatamente. A questão não era a água. O problema estava no coração. Ele os desafiou: “Por que tentais ao Senhor?” (Êx 17.2). Moisés estava fazendo uma acusação muito séria. Sabia que Deus é quem prova o coração de seu povo para ver se este o seguirá sob as condições mais aflitivas. Esta era uma prerrogativa de Deus, e ensinava o seu povo a confiar nele. Mas, o povo, testar a Deus! Moisés os acusou de se postar como juízes contra Deus. Dá para ver a reversão de papéis na ira? Deus tem o direito de provar nosso coração. Quem somos nós para testar e questionar a Deus? É o cúmulo da arrogância. Na verdade, nossas circunstâncias podem ser muito difíceis, mas Deus é Deus. Ele tem o direito de fazer o que bem quer. Esta história seminal nos desafia a estar em alerta. Durante tempos difíceis, ainda podemos seguir a turba e testar a Deus mesmo sem saber. – Está certo, Deus! O Senhor está ou não está presente? Mostra-me. Mostra-me fazendo _______. Se o Senhor não me mostrar aqui e agora, não confiarei mais em ti! Claro que não dizemos isso abertamente, mas se escutarmos atentamente nossa murmuração, perceberemos palavras contra Deus. Conhecer a Deus Ao cavarmos mais fundo, percebemos que a ira trata de alianças espirituais. Em quem confiamos? Nossa ira revela que na verdade não confiamos em Deus. Assim, quando identificamos a ira em nossa vida, não podemos dizer simplesmente: “vou parar de ficar irado”. Tal resolução é admirável, mas está fadada ao fracasso. A ira, em última instância, é contra Deus. Demonstra que não confiamos nele, e torna-se uma oportunidade de conhecê-lo mais. O que passamos a compreender pode nos surpreender. É a Deus que imitamos. Deus nos diz: “vós vos consagrareis e sereis santos, porque eu sou santo” (Lv 11.44). Se realmente quisermos entender o que significa ser humano, teremos de imitar a Deus. Como você sabe, Deus não é um frouxo. Odeia balanças desonestas (Pv 20.10), o mal (8.13), olhos altivos, língua mentirosa, assassinos, maquinadores trambiqueiros, falsas testemunhas, os que semeiam contendas (6.16-19). Odeia as injustiças que podem se encontrar no divórcio (Ml 2.16). Odeia a hipocrisia, especialmente entre os líderes do povo (Mc 3.5). Jesus ficou indignado quando os discípulos repreenderam as criancinhas (Mc 10.14). Realmente existe um tempo para o ódio e a ira (Ec 3.8). Mas não fique com a impressão errada. A ira de Deus é expressão de seu amor. Se não nos iramos, não amamos. Se não somos comovidos ao ver a injustiça, não amamos a vítima. Assim, se Deus odeia a desonestidade, ele ama a honestidade. Se ele odeia olhos altivos, ama a humildade; se ele odeia a língua mentirosa, ama a verdade; se ele odeia o homicídio, ama aquele que edifica o próximo; se ele odeia os maquinadores e falsas testemunhas, ama os pacificadores. Por que Deus ama essas coisas? Tudo que Deus ama é reflexo de seu caráter. Ele é honesto, humilde, verdadeiro, pacificador. Quando amamos aquilo que ele ama, é sinal de que estamos nos tornando mais parecidos com ele, como Deus nos fez para ser. Quando pensamos na ira, geralmente imaginamos alguém com acesso de raiva. Esse jamais será o retrato da ira de Deus. Ele nunca perde as estribeiras. Quando revela a sua ira, ele a coloca em fervura lenta (Êx 32.9-10, 14). Convida seu povo a voltar e arrazoar com ele (Is 1.18), e pode rapidamente ser persuadido a deixá-la. Para agora, Deus escolheu colocar limites em sua ira: “num ímpeto de indignação, escondi de ti a minha face por um momento; mas com misericórdia eterna me compadeço de ti, diz o Senhor, o teu Redentor” (Is 54.8). Isso parece maravilhoso quando aplicado a nós mesmos, mas parece que Deus poderia ser um pouco menos mole como juiz quando se trata de nossos inimigos. Queremos misericórdia para nós mesmos e justiça para os outros. Ser misericordioso e justo é uma combinação complicada. Se pensarmos nisso sem a direção divina, começaremos a achar que a misericórdia é injusta e a justiça é falta de misericórdia. Em última análise, a cruz resolveu o dilema. A razão pela qual Deus estende tal misericórdia e paciência é porque sua ira contra nossa rebeldia se derramou sobre Jesus. Não se engane: a cruz trata de amor e ira. Deus é mais irado que qualquer de suas criaturas, e a cruz foi onde sua ira e cólera foram plenamente concentradas. Quando nos voltamos a Jesus, a ira de Deus é desviada de nós para a cruz. Sua justiça é plenamente satisfeita pelo altíssimo preço da morte de seu Filho. Enquanto isso, sua misericórdia e amor são expressos plenamente a nós, por ele nos dar a vida verdadeira mediante a morte e ressurreição de Jesus. Tal exoneração do juízo nos torna livres para vivermos por aquele que morreu por nós. Tendo um vislumbre da pena que merecíamos e do amor que recebemos, como poderíamos desejar outra coisa? Portanto, olhamos para Jesus, que é nosso redentor bem como o que temos o privilégio de imitar e seguir.Observamos o modo radical como ele tratava a injustiça pessoal. Jesus jamais esteve zangado pelo que fizeram contra ele. Ao invés disso, ensinou-nos a bendizer os inimigos (Lc 6.27-31). Ele se irava apenas quando os líderes conduziam outros a caminhos de destruição ou cambistas traziam vergonha ao templo de seu Pai. Seu segredo era que ele tinha paixão pela glória do Pai, e não por sua própria glória. Confiava completamente que os juízos do Pai eram bons e verdadeiros. Escolheu abrir mão de seu status como juiz e confiou inteiramente em seu Pai. Pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente. (1 Pe 2.23) A ira sempre é uma forma de imitar. Estaremos imitando o modo como a misericórdia supera a ira no caráter de Jesus, ou, então, a ira destrutiva de Satanás (Jo 8.44). Não existem outras alternativas. Olhar para nós mesmos Depois de voltarmos a Deus para conhecê-lo melhor, precisamos considerar novamente nosso próprio coração. Nossa tarefa é julgar a nós mesmos antes de julgar os outros. Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão. (Mt 7.3-5) Temos de nos examinar mais, por mais tempo, e mais do que examinamos aos outros. Isso sempre será difícil, mas a ira faz com que seja ainda pior porque realmente alguém poderá ter cometido uma injustiça. Com a ira, é natural apontar o dedo acusatório. Somos convencidos de que o que aconteceu estava errado e nós estamos certos. Todavia, pense na natureza da ira. Ela sempre se acha certa, mas quase sempre está errada. Não é verdade que a maior parte dela é destrutiva e danosa? E não é verdade que a ira egoísta acaba trazendo danos sobre a pessoa irada porque é contrária ao modo como Deus nos fez? Pergunte a si mesmo: O que eu amo? Quais os meus direitos que foram violados? Respeito pessoal, apreço, admiração, controle, poder, impacto, estar certo, vingança, conforto, privacidade? Se nossa ira dura mais que dez minutos, descobriremos que nosso coração não está inocentado. Agora, ligue isso a seu relacionamento com Deus. O pior relacionamento que tivermos com as pessoas revela nosso coração diante de Deus. Se não amamos ao próximo, não amamos a Deus. Se estivermos irados contra outros, estaremos nos postando contra Deus. Nossas queixas e murmurações formam implicitamente um teste para Deus: Será que ele vai ou não dar aquilo que queremos? Fazemos a vida tratar apenas de nós. E ao fazermos isso, estamos fadados a uma insatisfação contínua. Observe a batalha espiritual que é travada sob a superfície. Estamos ouvindo vozes diabólicas que questionam o amor e poder de Deus. Não acreditamos que ele nos ame do jeito certo nem que use seu poder para julgar em nosso favor. Sempre que encontrarmos a ira que não foi rapidamente tratada, encontraremos Satanás maquinando a discórdia (Ef 4.26-27). Deus nos responde de modo bem diferente do nosso jeito de responder ao próximo. “Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia e em verdade” (Sl 86.15). Ele chama assassinos para liderar sua igreja como maneira de demonstrar sua “paciência sem limites” para aqueles que nele creem (1Tm 1.16). Lava os pés dos discípulos que o traem e rejeitam (Jo 13). E se compraz em nos perdoar porque seu perdão demonstra que ele é realmente o Deus Santo que não nos trata conforme nossos merecimentos. Confiar e obedecer Para pessoas iradas, Deus diz: “Confesse sua ira egoísta; confie em mim e obedeça”. Jesus contou a história de um homem que foi perdoado de uma imensa dívida – maior que o valor do salário de toda uma vida. Tão logo se viu livre e anistiado dessa dívida, foi atrás de um homem que lhe devia o equivalente a dois dólares, exigindo pagamento imediato (Mt 18.21-35). Se esta história nos deixa zangados, devemos perceber que Jesus está falando sobre nós – Tu és o homem. Por intermédio de Jesus, fomos perdoados de uma dívida de muitas vidas inteiras contra o Pai Celestial, contudo, queremos que os que nos desprezam paguem imediatamente. Se a história nos couber (e sempre nos caberá em alguma ocasião), ela demonstra que não entendemos a graça e misericórdia de Deus outorgadas por meio de Cristo. Tratamos os outros do modo como achamos que fomos tratados. Se pensamos que Deus foi sovina conosco, somos mesquinhos para com o próximo. Existe, porém, outro caminho. Os que sabem que foram perdoados serão generosos e ansiosos por imitar a Cristo, cobrindo as ofensas do outro (Pv 19.11). Se houver uma ofensa mais séria, a Escritura é muito prática. Converse com amor com aquele a quem ofendeu. Se ele não escutar, peça a ajuda de outras pessoas para procurar reconciliação (Mt 18.15-16). É certo que o amor toma diversas formas nos diferentes relacionamentos, e será sempre sábio procurar conselho quanto a como amar, mas permanece o alvo de amar. Viva como uma pessoa que foi liberta de uma imensa dívida. Dê um passo adiante e viva como quem é devedor ao próximo, não como se ele devesse alguma coisa a você (Rm 13.8). Resposta A ira é uma das razões por que as pessoas se agarram à depressão. Quando estou deprimida, a dor é minha amiga. Revolvo-me na dor. É o que conheço bem. Eu lhe direi que não existe nada de bom nela, mas ainda me agarro a ela. Estou morta por dentro, vazia de todo entusiasmo ou esperança. Minha dor relembra que estou viva, e permite que eu esteja irada.¹ Lembre-se de que a ira é tortuosa e difícil de ser encontrada. Podemos estar irados mesmo sem perceber. Ore: “Senhor, sonda-me”. Como a oração é um dos meios no qual nosso coração se revela, temos de permitir que ela nos prove. Se pudermos meditar na Oração do Pai Nosso (Mt 6.9-13), tornando-a nossa, será evidência de que estamos lutando contra a ira que ainda permanece. Uma passagem sucinta da Escritura que resume o que escrevi aqui (e muito mais) se encontra no quarto capítulo de Tiago. Ele nos ensina a dizer “Se for a vontade do Senhor”. Quantas vezes tivemos enormes expectativas que foram despedaçadas? Como teria sido diferente se tivéssemos começado com: “Se for a vontade do Senhor”? Onde você vê a ira em sua vida? 1 THORNE, Julia. You Are Not Alone (Nova York: Harper, 1993), p. 30. Capítulo 17 Esperanças esmagadas Continue a escutar. A depressão poderá dizer: “Tenho medo”, “estou zangado” ou as duas coisas. Há também boa possibilidade de se ouvir: “Não tenho esperança”. Esperança é coisa arriscada. Quanto maior a expectativa, maior será a chance de ficarmos decepcionados. Se pusermos o coração em um dia ensolarado na praia, uma chuva da tarde poderá nos deixar arrasados. Parece ser mais seguro tomar o rumo pessimista e esperar um toró. Aí, pelo menos, as nossas esperanças não serão frustradas. Sem dúvida, já assistimos ascensões e quedas de esperanças em nossa própria vida. Todo mundo experimenta isso, e sempre dói. “A esperança que se adia faz adoecer o coração” (Pv 13.12). Para algumas pessoas, quando os sonhos se despedaçam, elas apenas passam a sonhar com outras coisas. Mas outras resolvem que basta: jamais sonharão outra vez. Todos que passam por sofrimentos devem estar alertas quanto à falta de esperança e considerar a resposta de Deus. Com a depressão, na qual a desesperança toma papel preponderante, isso é essencial. Somos pessoas que têm esperanças A esperança é uma característica destacadamente humana. Por mais difícil que seja nossa vida, podemos nos lembrar de quando tínhamos esperanças e sonhos. Ansiávamos pelo futuro. As crianças esperam uma sobremesa favorita, uma excursão especial, uma festa de aniversário. Adolescentes esperam as férias, os finais de semana e os momentos com os amigos. Nas empresas, chamam-na de visão – a capacidade de pensar em coisas que ainda não existem. Os especialistasdizem que isso é essencial para a liderança. Popularmente, nós a chamamos de imaginação. Nossa língua é rica em palavras sobre esperanças: desejar, almejar, sonhar, antever, ansiar, expectação, alvo, ambição, meta, objetivo. Vivemos no presente. O passado pode ser um peso debilitante, mas o futuro nos impulsiona. Existe uma destinação na vida. Vivemos uma história com passado, presente e futuro. Viver sem esperança é existir sem futuro. É quase impossível imaginar uma vida assim. Porém, os cínicos e pessimistas zombam da esperança, como se pudéssemos viver sem ela. Os que se encontram deprimidos tentam matar a esperança porque se sentem traídos por ela. Matar a esperança e muito mais Você já decidiu não ter mais esperança? Algumas pessoas conseguem se lembrar do momento exato em que isso ocorreu. Para outras, porém, as esperanças simplesmente se esvaíram, aos poucos, à medida que as decepções aumentavam. De qualquer modo, sentimos que a esperança acarretou tanto sofrimento que não pudemos mais suportar. Faz sentido matar a esperança ou então deixá-la morrer de causas naturais. Pensamos: só um tolo continuaria esperando quando todos os sonhos se provaram impossíveis. O que não percebemos é que grande parte do que associamos à própria vida está ligada à esperança. Ela é o futuro estendendo sua mão no presente. Quando o amanhã não se mostra nítido, não temos por que sair da cama, amar ou trabalhar. Matando a esperança, matamos mais do que supomos. Pensamos que a dor diminuiria, mas toda tentativa para matar a esperança mata também os sonhos futuros e as alegrias presentes. Se quisermos nos ver livres de todos os desapontamentos futuros, teremos de ser indiferentes às afeições do presente – pois, o que acontecerá, se perdermos aquilo que amamos? Você tem um cônjuge a quem ama? Um filho? O único jeito de manter a segurança será por meio de uma completa indiferença. Cremos que estamos nos protegendo, quando matamos a esperança, mas, na verdade, estamos nos condenando a um presente sem vida. Se deixarmos que ela morra aos poucos, sem lutar, acabaremos do mesmo jeito. Será a mesma falta de sentido para a vida. Sem esperança, nos sentiremos como mortos ambulantes. Se tivermos compromisso com a desesperança ou relutantes quanto à luta, será o mesmo que morrer. Sabemos disso, mas continuamos no curso. Seria o momentum? Tradição? Teimosia? Qualquer que seja a razão, há um caminho melhor. Temos de nos dispor à luta, aqui. Esperanças despedaçadas, ira e autopiedade Há uma razão para falarmos de esperanças despedaçadas, logo depois de comentar sobre a ira. Embora as frustrações nos levem a entregar os pontos, em vez de combater, a ira e o desespero acabam sempre se encontrando. Esperanças frustradas começam com um simples desejo. Queremos alguma coisa – provavelmente, algo bom como casamento, relacionamentos, emprego, saúde. Aos poucos, o desejo cresce. O objeto do desejo nos parece atingível. Começamos a imaginá-lo. Quase podemos sentir seu gosto. E, de repente, a coisa desejada desaparece. Quando não obtemos aquilo que queremos, ficamos frustrados (uma parte do espectro da ira). Se houver alguém para culpar, nossa reação poderá ser facilmente reconhecida como ira. Mas, se parecer que as circunstâncias conspiram contra nós, não haverá um rosto humano ligado a ela. Consequentemente, não haverá explosões, gritarias ou outros sinais que prontamente possamos classificar como ira. Mas se prestarmos cuidadosa atenção, observaremos a presença dela da maneira como Deus nos parece menos relevante. Nós o marginalizamos. Empurramo-lo para longe, damos-lhe de ombros. Poderemos, até mesmo, ficar insensíveis a ele. Talvez o busquemos para algumas coisas, mas não confiaremos nele quanto a qualquer coisa relacionada à nossa decepção. É a versão fria da ira. Procure esperanças frustradas misturadas à ira, mas entenda que elas geralmente não param por aí. Esperanças desfeitas poderão nos levar à frustração com relação a Deus. Tal frustração provoca uma isolação espiritual autoimposta, ou afastamento, e a isolação espiritual conduz à autopiedade. Jonas O profeta Jonas ilustra isso em sua autobiografia bíblica. Como um israelita dos tempos antigos, Jonas esperava que Israel voltasse ao patamar que atingira sob o reinado de Salomão, e que todos os seus inimigos fossem derrotados. Embora o reino estivesse indo relativamente bem, naquela época, outros profetas já profetizavam um exílio que ocorreria nas mãos de um país “de além de Damasco” (Am 5.27). Todos os indicadores apontavam para a Assíria. A missão de Jonas seria a de ir à Assíria e clamar “contra ela, porque a sua malícia subiu até mim” (Jn 1.2). Parecia-lhe ser o trabalho ideal, adequado aos seus próprios sonhos: pregar juízo contra os potenciais opressores de Israel. Mas Jonas resistia à pregação porque sabia que o Deus de Israel era misericordioso. Observe a mensagem. A nação pagã seria avisada do juízo e receberia uma oportunidade de mudança. Se o povo na cidade assíria de Nínive realmente se arrependesse – o que Jonas supôs ser provável – Deus os pouparia e os sonhos de Jonas estariam em risco. Depois, de um breve mas notável desvio, Jonas finalmente pregou um sermão magro, que, quando lemos, parece pouco impressionante, inconvincente, mas o povo respondeu de maneira dramática. Houve um arrependimento massivo, e Deus teve compaixão deles. Jonas não conseguiu o que queria. “Jonas desgostou-se e ficou irado” (Jn 4.1). Embora o texto não diga diretamente, sabemos de outros textos na Escritura em que a ira inapropriada, não importando sua direção, em última instância, é contra Deus. Implica dizer que Deus não é bom e que seus juízos têm de ser, eles mesmos, julgados, em vez de fielmente acolhidos. Jonas seguiu um caminho desgastante. Suas esperanças frustradas e sua ira desandaram para a autocomiseração: “Peço-te, pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver” (Jn 4.3). Jonas tinha um profundo senso de que Deus é quem dá e tira a vida, portanto, o suicídio estava fora de questão. Assim, ele optou pela versão do Antigo Testamento do suicídio e pediu que Deus o matasse. Deus não lhe dera o que queria, e ele estava zangado e sem esperança. – Você tem algum direito de estar zangado? – foi o que Deus lhe disse. Jonas ignorou a pergunta. No dia seguinte, quando estava sentado fora dos limites da cidade, esperando, contra a esperança, que viesse fogo do céu sobre Nínive, o Senhor deu-lhe a sombra de uma parreira que, logo em seguida, fez murchar. Jonas ficou ainda mais irado. Queria a sombra, e Deus não lhe deu o que ele queria. – Seria melhor se eu tivesse morrido do que vivido – Jonas disse sem dirigir-se a ninguém em especial. – Você tem algum direito de estar zangado por causa da planta? – Deus lhe perguntou. – Tenho sim. Estou irado a ponto de morrer (Jn 4.8-9). Aí está: a tríade de expectações não realizadas, ira e autopiedade. Quando a tríade persiste, acaba em pensamentos de morte. As palavras de Jonas para nós Assumimos que Jonas tenha escrito essa história, o que é surpreendente, pois ele se dispõe a exibir a própria maldade. Uma coisa era fugir do chamado de Deus de pregar a Nínive. Seria espiritualmente incorreto, mas politicamente correto. Ele poderia ser interpretado como patriota. Mas outra coisa bem diferente era revelar autopiedade, que jamais é atraente, e fica ainda pior quando posta no papel. Fica patente que ele quer que aprendamos com Jonas. Deus é grande. Sua grandeza é exposta nesse curto livro. Antes de Jonas, certamente, Deus sempre foi maior do que outros deuses, contudo, essa foi a primeira viagem missionária para além dos limites de Israel. Deus está anunciando que ele é também o Deus dos gentios. Em outras palavras, Deus é muito maior do que qualquer pessoa havia pensado. É Deus do mundo inteiro, não apenas de um povo específico. Você já experimentou uma sensação de paz, depois de considerar os majestosos picos das montanhas ou as expansões do oceano? Testemunhamos a bênção de encontrar algomaior que nós. Nossos próprios fardos ficam mais leves quando vemos coisas impressionantes e majestosas. Tais grandezas claramente apontam para um Criador maior do que a criação. Jonas nos revela um Deus maior do que imaginávamos – e esse é exatamente o remédio de que precisamos para sairmos de dentro de nós mesmos. Deus é bom. O caráter de Deus tem infinitas facetas. “Deus é Espírito, infinito, eterno e imutável, em seu ser, sabedoria, poder, santidade e verdade”¹. Destes atributos, e de muitos outros, a Escritura enfatiza que Deus é grande e bom, poderoso e amável. No livro de Jonas, essas qualidades são todas exibidas. O cerne do livro está na defesa de Jonas: “Pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal” (Jn 4.2). O problema é que tal conhecimento não lhe fazia diferença; na verdade, fazia que as coisas, da sua perspectiva, ficassem, até mesmo, piores. É estranho, dada a confiança que Jonas tinha no amor de Deus, que ele evitasse confiar nele. Não acreditava que Deus fosse misericordioso para com Israel? Sua experiência, contudo, é semelhante à nossa. Podemos até crer que Deus nos ama, mas não temos tanta certeza de que ele nos dará aquilo que nós queremos. Necessitamos ser amados, mas queremos também ditar o modo e por quem somos amados. Jonas cria que Deus fosse gracioso e compassivo, mas queria esse amor servisse como juízo e destruição dos seus inimigos. Mais uma vez, a confissão é a saída. Ocorreu com Jonas e ocorre conosco: quando afastados da vontade de Deus, nossos desejos tornam-se idólatras. Não queremos que nada se interponha entre nós e nosso objeto de adoração. Jonas não queria se submeter a Deus – queria ser um deus. A confissão reconhece a raiz de nossos comportamentos contrários a Deus. É o início de um processo em que nos voltamos contra nossos desejos autocentrados e retornamos ao Deus Santo. Quando nos arrependemos, reconhecemos quão pequena era nossa visão do seu amor. No caso de Jonas, ele acreditava na bondade de Deus, mas, na verdade, ele não cria realmente nisso. Acreditava que seus próprios planos fossem melhores. Sua visão míope do amor divino era tal que ele achava que se Deus fosse bom para uma nação, não poderia abençoar outra. Não entendia que Deus podia ser bom tanto para Nínive quanto para Jerusalém. Talvez concordemos que Deus seja bom. Sabemos o que Cristo fez por nós e cremos que a cruz seja evidência da bondade de Deus. Mas essa bondade não faz diferença para nós. É irrelevante porque o bem está sendo definido em nossos termos e não nos de Deus. Como crianças, a satisfação de nossos planos, nosso querer, nossos desejos, é o padrão para a bondade de Deus. O livro de Jonas nos diz que o bem tem de ser definido pelos termos de Deus, e não pelos nossos. De outra maneira, nos colocamos como juízes dele. Temos o direito de estar irados? Jonas é um livro muito pessoal. Deus não está simplesmente ordenando o que ele deveria dizer a Nínive – está produzindo um diálogo verdadeiro com Jonas. Tais conversações são eventos especiais no Antigo Testamento de modo que devemos ouvi-las com cuidado. Há, no livro de Jonas, três seções com as palavras do Senhor. Primeiro, ele dá a Jonas a mensagem a ser transmitida. Depois, duas vezes, ele pergunta se Jonas tem o direito de se irar. Conclui, então, defendendo sua preocupação com o povo de Nínive. Note, especialmente, as perguntas que Deus faz. Jonas havia fugido de Deus e estava, agora, zangado e cheio de autopiedade porque Deus havia sido misericordioso. Apesar da recalcitrância de Jonas, Deus lhe responde, ao desejo de morrer, com uma pergunta: Você tem o direito de estar irado? Se você acha que Deus tirou seus sonhos e suas esperanças, pergunte a si mesmo: Tenho o direito de estar irado? Quando pudermos identificar nossa frustração e estivermos tentados a dizer: Sim, tenho todo o direito, então devemos deixar que Deus arrazoe conosco a respeito de seu amor. Permitamos que Deus nos persuada a dizer “não” e confiemos nele. Otimismo seletivo Sob o véu da passividade da depressão, o coração está ocupado em fazer escolhas. Às vezes, preferimos o desespero. Queremos isso. Aspiramos por isso. Não seria uma forma razoável de explicar por que estamos tão imunes ao encorajamento? Ouvimos e entendemos as palavras, mas não as queremos. Ainda que a autocomiseração e nossas tentativas de matar a esperança não estejam dando certo, somos leais às nossas estratégias de como acabar com a esperança. Em resposta, Deus nos fala palavras de misericórdia e graça, mesmo quando não confiamos nele. Ele as repete. Ele nos persegue e faz-nos promessas, ao invés de fazer com que façamos promessas a ele. Eis algumas coisas sobre as quais podemos ser otimistas: Ele nunca nos deixará (Hb 13.5). Jamais nos colocará em situação em que uma resposta pecaminosa seja a única saída (1Co 10.13). Ele nos dá graça sobre graça em nossa luta contra o pecado (Fp 1.6). Podemos ser otimistas porque na semana que vem amaremos ainda mais do que hoje. Ele será achado daqueles que o buscam. Até mesmo por aqueles que não o buscam (Rm 10.20). Ele nos tornará frutíferos à medida que permanecemos nele (Jo 15.8). Os seus propósitos jamais serão impedidos (Ef 1.11). Deus sempre diz “sim” a essas promessas. Bom, é muito bom A depressão está certa, quando diz que a morte e o pecado lançam uma sombra sobre tudo. Existe razão para nos sentirmos miseráveis. Mas estará errada, acomodando-se a tal interpretação. Essa não é toda a história. O Rei Jesus voltou e está estabelecendo o seu reinado. Esse reino rompeu com grande poder quando o Espírito Santo foi dado e continua a crescer (Mc 4.30-32). Sendo assim, a depressão enxerga algumas coisas com acuidade, mas é totalmente cega quanto a outras. Não vê como o Espírito do Deus Vivo está operando, agora mesmo, à nossa frente. Deste lado da cruz, a miséria persiste, mas a balança está inclinada na direção da alegria. O Rei está assentado; a celebração já começou no céu; não é possível que sejamos amados mais do que já somos; existem, agora, à nossa disposição, os sabores do céu. Existem realidades presentes que sustentam nossas esperanças. Ore pedindo que seus olhos sejam abertos. Resposta Quer tenhamos matado as esperanças quer jamais as tenhamos alimentado, a desesperança será letal. Já ouvimos a pergunta: “Você quer mudar?” Agora compreendemos por que a pergunta é tão importante. Existem razões lógicas para resistir às mudanças. Por exemplo: “E se a esperança despontar?” Poderá ser que queiramos nos sentir menos mal, mas não a ponto de despertar a esperança. Certamente Jonas não queria mudar, pelo menos não no começo. É provável que queiramos menos as mudanças do que reconhecemos. Não nos enganemos. Curtimos o desespero. Escolhemo-lo. Mas existe uma saída. Em parte, a resposta volta ao que Deus diz às pessoas temerosas. A ligação é que o temor, como a desesperança, reluta em confiar o futuro a Deus. Deus diz que nos dará a graça para lidar com as decepções que estão à nossa frente. Nossa tarefa é vivermos por ele, no presente. No começo, isso nos parece arriscado, como se estivéssemos apreciando a emoção de um carro de corrida, aguardando a devastação na próxima curva. Mas não é temerário confiar em Deus em lugar de confiar em nós mesmos. Lutar contra o desespero, portanto, é tomar uma atitude no presente. Você acha que marcar uma lista de coisas para fazer seria falta de espiritualidade? Se essa lista for feita pela fé, será um ato heroico. Existem paradoxos na depressão; aparentemente há outros na maneira que Deus opera em nós. Por exemplo, se quisermos vitalidade no presente, teremos de confiar nosso futuro ao Senhor. Se quisermos vislumbres de esperança para amanhã, confiemos em Deus agora. Quais são suas esperanças desfeitas? O que você fez com elas? Onde estão suas esperanças novas, emergentes? 1 Breve Catecismo de Westminster, resposta à Pergunta 4. Capítulo 18 Fracasso e vergonha As esperanças são desfeitasquando queremos alguma coisa e não a conseguimos. Por exemplo, sonhamos com segurança financeira antes dos quarenta anos de idade, mas permanecemos vivendo na penúria. Embora estejamos nos esforçando no trabalho, a instabilidade econômica conspira contra nós. Ou sonhamos com o casamento ideal, contudo duvidamos que exista um Homem Ideal. Parece que a pessoa errada é que sempre se interessa por você e a certa se interessou por outra. Note que nem sempre alcançamos nossas esperanças por nós mesmos. O objeto desejado nem sempre está ao nosso alcance. Precisamos de ajuda para atingi-lo. Por isso é que não nos culpamos imediatamente por possíveis decepções, já que não conseguimos controlar os resultados. Mas com o fracasso e a vergonha é diferente. Eles apontam o dedo contra nós mais do que contra as circunstâncias externas. Não somos medidos conforme nossas próprias expectativas ou pelas expectações dos outros. Dá para ver isso até no modo que nos postamos, como se as expectações e os padrões fossem peso que nos rebaixassem. Quase conseguimos senti-los; parece que surgirão como excesso de peso na balança do banheiro. O peso está sobre você. Não existe ninguém mais para culpar. Já vimos como a vergonha poderá contribuir para a depressão. Mas desta vez, em lugar de ligar a vergonha ao sentimento de vitimização, observe como a vergonha e o nosso senso pessoal de fracasso vão de mãos dadas. Isso poderá acontecer mesmo que não tenhamos sido feridos por outras pessoas. Em outras palavras, o senso de vergonha é algo que criamos sozinhos. Surge muito naturalmente de nosso próprio coração. Padrão de quem? A depressão anda de mãos dadas com a baixa autoestima, que é apenas mais uma expressão popular para descrever o baixo nível de vergonha. Faz parte até da definição de depressão da Associação Americana de Psiquiatria. Esse senso de falta de valor atinge tudo que fazemos; estende-se até mesmo a quem nós somos (com efeito, se não estivermos experimentando uma baixa autoestima, poderá ser que estejamos sofrendo de um problema médico que imita a depressão). Os seres humanos pesam o valor – não existe dúvida quanto a isso. Fazemos juízos quanto a pessoas, música, arte e centenas de outras ocorrências de um dia normal. São bons ou maus, valiosos ou descartáveis, certos ou errados. Não é de surpreender que também façamos juízo quanto a nós mesmos. De acordo com algum padrão, determinamos não ter atingido a meta. De quem é o padrão? O modelo varia, mas as consequências emocionais são as mesmas. Sentimo-nos rebaixados e ficamos soterrados sob o autodesprezo. Poderá ser o padrão das expectativas de nossos pais, comunicadas diariamente por meio de críticas, castigos imprevisíveis ou indiferença. Talvez o padrão das expectações culturais de sucesso e fracasso que se tornam aparentes quando recebemos um convite para um encontro de ex-alunos do colégio. Poderá ser o padrão dos inalienáveis mandamentos de Deus. Qualquer que seja esse modelo, nós falhamos. O resultado é que a baixa autoestima se evidencia em todo mundo. Encontramo-la no médico abastado, no atleta profissional, na modelo fugidia e na estrela de cinema. Os autojuízos dos deprimidos apenas tendem a ser mais gritantes. A saída nos parece clara: rejeitar os padrões impostos por outros; não nos preocuparmos com os mandamentos de Deus, porque ninguém consegue mesmo segui-los; fazer nova avaliação, com padrões menos opressores, mais equilibrados e justos. Como todo mundo, somos híbridos de bons e maus, de forças e fraquezas. Se formos avaliar o mau, teremos de incluir o bom. Isso, esperamos, manterá nossa autoimagem bem equilibrada. O problema é que não é assim tão fácil. Mesmo que pudermos encontrar pontos fortes e algum bem em nós mesmos – o que é quase impossível quando sob depressão –, não conseguiremos equilibrá-los com tudo aquilo que nos faz sentir pessoas desvalorizadas. As pessoas que nos amam já afirmaram nosso valor, mas não fez nenhuma diferença. Existe um problema mais profundo a ser confrontado. Precisamos mudar nossa orientação, lembrando da natureza do coração humano. Muitos problemas nos sobrevêm, contudo, nenhum deles encontra um interior vazio. São interpretados por corações constantemente ocupados. Quando deprimidos, nos sentimos como cascas vazias, mesmo fazendo alguma coisa. Lembre-se, o coração está sempre fazendo escolhas. Com isso em mente, procure reestruturar sua experiência. Por exemplo, em vez de pensar que está oprimido por expectativas que outros lançaram sobre seus ombros, reconheça que o coração é que escolhe viver sob o padrão dos outros. Em vez de pensar que está aflito porque as pessoas não se agradam de você, perceba que houve uma escolha de um estilo de vida para obter a aprovação dos outros. Não queremos experimentar a vergonha e o fracasso; isto nós não escolhemos. Mas escolhemos confiar nas outras pessoas e em seus juízos. Mais uma vez voltamos à questão mais profunda: em quem nós confiamos? A Escritura mostra que viemos de uma longa linha de idólatras incorrigíveis. Tempos atrás, era Baal; mas Baal jamais foi o ídolo favorito. Os verdadeiros prediletos sempre foram o dinheiro e as pessoas. Esses dois continuam a ser os objetos mais populares de culto. Por que escolhemos tais ídolos? Porque pensamos que eles conseguirão nos satisfazer. Achamos que eles nos darão aquilo que queremos. Aplicando isso à depressão: queremos admiração, respeito, honra, influência, bondade ou amor. Podemos comprar, mas preferimos que as pessoas nos deem aquilo que desejamos. Vivemos, assim, com base nas expectações, opiniões e padrões colocados por outras pessoas. Os outros se tornaram nossos deuses. O nosso propósito, é claro, não é o de nos submeter a eles. Nosso alvo é o de receber aquilo que queremos por meio da pacificação de demandas. Dar-lhes o que eles querem para que nos deem o que nós precisamos. Mas o diabo está nos detalhes. As letras miúdas desse arranjo prometem duas coisas: Primeiro, os outros jamais nos satisfarão. Jamais conseguiremos alcançar a medida de seus padrões nem obter o suficiente daquilo que queremos deles. Segundo, nos tornamos servos daquilo em que pomos nossa confiança. Se confiarmos no dinheiro, estaremos escravizados à sua obtenção e preocupados quando ele faltar. Se confiarmos em pessoas, nossa vida será dedicada à conformação com suas expectativas. Não quer dizer que seja errado desejar respeito, amor e outras coisas que obtemos dos relacionamentos. Geralmente, a idolatria diz respeito a coisas que seriam boas, mas foram degradadas. Podemos perceber que algo deu errado, quando deixamos o alvo da glória de Deus para perseguir o alvo de nossa própria glória. Queremos ser, nós mesmos, o assunto em pauta – mas não somos. Às vezes, é difícil detectar a deificação gradativa das pessoas em nossa vida. Nosso coração ergue os pedestais para os ídolos ao mesmo tempo em que lhes voltamos as costas. Contudo, há um meio bastante fácil para nos alertar quanto ao que ocorre. Quando estamos mornos em relação a Deus, ou quando não estamos fixando os olhos em Jesus, podemos estar certos de que a idolatria lançou raízes. Se não estivermos adorando ao Deus verdadeiro, estamos adorando a outra coisa. Uma estratégia ainda mais fácil será presumir que nós forjamos ídolos. O coração pode crer nas coisas certas e ainda assim ser dobre. Como foi com Arão e Israel, quando esperavam por Moisés, acreditavam que o Deus verdadeiro os livrara do Egito, mas, ainda assim, forjaram um bezerro de ouro. Deuses/pessoas Se o fracasso e a vergonha cabem em nossa experiência, é provável que tenhamos feito das pessoas deuses. Queremos alguma coisa delas e elas não nos deram o que queríamos. A depressão não isenta dos problemas que afligem a todos, e cada um de nós instintivamente nos desviamos de Deus em direção às pessoas. A princípio, a isolação da depressão sugere que estejamos distantes das pessoas e impassíveis quanto a elas. Mas os outros significam enorme parcela de nosso autojuízo. Uma pessoa realmente isolada – perdidanuma ilha deserta – não precisará negociar a vergonha e o fracasso. Não há ninguém recontando as falhas pessoais e absolutamente ninguém em quem confiar. Mas não vivemos em ilhas desertas. Poderemos, até mesmo, tentar uma fuga psicológica, mas as pessoas estão ao nosso redor, e sua presença nos lembra de que não estamos à altura esperada. Além disso, por mais que procuremos fugir, nosso coração vai conosco. Não escapamos por meio de uma mudança geográfica. A baixa autoestima e o senso de fracasso e vergonha não surgem somente porque nos sentimos mal quanto a nós mesmos. Confiamos em outras pessoas e achamos que elas se sentem mal a nosso respeito. Talvez tenhamos experimentado a rejeição por parte de alguém que nos era importante, mas a verdade é que não precisamos que alguém fale mal de nós. Nós sabemos que falhamos. Conhecemos pessoas que fazem as coisas de maneira melhor do que nós, são mais atraentes, aparentam relacionamentos mais íntimos do que os nossos, melhores empregos, e assim por diante. É como se tivéssemos nascido com capacidade de fazer uma pesquisa pelo mundo afora, quanto a centenas de medidas diferentes, e naquelas que nos são mais importantes atribuímos nota média ou baixa. Tememos ser comuns, ordinários. Derrubar os ídolos Você reconhece, é claro, que, falando sobre confiar em alguém ou em alguma coisa que não Deus, falamos sobre o pecado. Por favor, não fuja disso. O pecado passou a ser nome feio para aqueles que se postam como juiz hipócrita contra o próximo. O próprio Espírito é quem nos convence do pecado. Deus se agrada quando percebemos nosso pecado e o confessamos. Uma das bênçãos, quando percebemos nosso pecado, é que realmente podemos fazer algo a respeito dele: clamar por misericórdia, alcançá-la e mudar. O Espírito nos foi dado para que não fôssemos mais escravos do pecado. Existe uma saída. Quando estivermos em dúvida, a saída será voltar às declarações básicas de propósito. “Pertenço a Deus. Posso honrar, agradar e glorificar ao Senhor por meio da confiança e da obediência”. Amar a Deus e ao próximo. Confiar e obedecer. Em seu plano generoso, Deus determinou que tais atos espirituais comuns fossem o ápice da verdadeira humanidade. Confiança. Quando confiamos no juízo de outros, estamos dizendo a Deus que não confiamos nele. “O Senhor não basta”. Acreditamos que Deus nos ofereça o céu, mas será que irá satisfazer nossos crescentes desejos psicológicos? Será que ele nos conferirá a nota máxima que desejamos, especialmente em algumas áreas nas quais nos sentimos “regulares” ou “péssimos”? Isso não atinge o ponto. Nosso propósito não trata de nós mesmos; é sobre Deus. Por essa razão, parece que Deus escolhe os “médios” e até os abaixo da média. Se não fosse assim, a escolha dependeria de nossos talentos e capacidades. Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são (1Co 1.26-28). Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte (2Co 12.10). Assim diz o Senhor : Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor . (Jr 9.23-24) A vida não é sobre meu currículo – mas como estender a fama de Jesus. Uma forma de fazê-lo é admitir que Deus é mais que suficiente. Afinal de contas, ele é amor. Isto foi provado na cruz. Todos os demais amores são figuras que deveriam apontar e não usurpar o lugar do original. Confiar é dizer que carecemos de Jesus. Nossa busca por autorrealização foi um fracasso, e agora nos voltamos Àquele que, afinal, sempre foi nosso destino verdadeiro. Existe certo paradoxo em confiar em Deus. Ao confiar nele, estamos reconhecendo que somos totalmente inadequados – o que é verdade, ainda que isso não faça maravilhas para nossa autoimagem. Mas, quando confiamos nele, é também como se tivéssemos retornado ao lar. Tudo fica bem. Sim, ainda haverá problemas, mas nós estamos em casa, e o conforto e a alegria do lar reduzem os problemas da vida ao nível de simples incômodo. Temos o amor do Pai e sabemos que ele é o Rei que está no trono. Isto basta. Confissão. Ao voltarmos ao lar, colocamos nossa confissão aos pés do Senhor. Dizemos a ele que nosso coração tende a vaguear e que nossa tendência para erigir ídolos é incorrigível. Confessar é dizer ao Senhor a verdade sobre o nosso coração. Embora a Escritura nos estimule a fazer da confissão uma característica diária de nossa conversa com Deus (Mt 6.9-13), essa é uma disciplina negligenciada. Uma regra básica da confissão é continuar a expor o coração até que vislumbremos esperança ou alegria. Confissão não é tempo de rastejar diante do Senhor. É hora de confiar no Deus que se compraz em nos perdoar, porque isso o glorifica. Não se esqueça da alegria do pastor que, encontrando uma ovelha perdida, toma-a em seus braços. Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, não deixará ele nos montes as noventa e nove, indo procurar a que se extraviou? E, se porventura a encontra, em verdade vos digo que maior prazer sentirá por causa desta do que pelas noventa e nove que não se extraviaram. Assim, pois, não é da vontade de vosso Pai celeste que pereça um só destes pequeninos. (Mt 18.12-14) Sim, nós nos extraviamos, mas o foco está na felicidade do pastor. Não era o que você esperava. Obediência. Nossa reação ao amor de Deus é resumida no amor ao próximo. Essa simples expressão de obediência é um tratamento profundo para a falha e a vergonha. A princípio, parece contraproducente. Afinal, nosso problema se resumia em que nos apaixonávamos por aquilo que desejávamos receber dos outros; na possibilidade de não recebermos, faria mais sentido nos afastarmos deles. Mas este amor é diferente. É o amor de alguém que foi liberto e não escravizado. Tendo recebido o amor de Cristo, estamos dispostos a dizer ao próximo: “Meu desejo de amá-lo terá mais peso do que minha vontade de ser amado [honrado, apreciado, respeitado]”. Pode imaginar a liberdade que existe aí? Não somos mais dominados pela opinião popular. A percepção da rejeição já não nos controla como antes. Em vez disso, voltamos à questão: “Que forma o amor assumirá, agora?” Resposta Observe a conexão com a ira. Se a ira for juízo que fazemos dos outros, a baixa autoestima parecerá juízo que fazemos de nós mesmos. Dizemos: “Eu estou errado. Eu mereço a culpa”. A ligação com a ira é ainda mais aparente quando damos outro nome à baixa autoestima: ódio ou desprezo de si mesmo. Quando nos voltamos a Cristo, tais juízos tornam-se menos importantes. Não precisamos dizer: “Sou especial porque Deus me ama”, o que é verdade, mas não é a questão principal. Não precisamos dizer: “Como sou um desgraçado miserável e idólatra” – que também é verdade, mas também não é a questão principal. Em vez disso, simplesmente pensemos com menos frequência a nosso próprio respeito. Nossos sucessos e fracassos serão observáveis, mas não nos estorvarão como antes. Capítulo 19 Culpa e legalismo O fracasso e a vergonha são sinalizadores. Parece que só têm a ver conosco mesmos ou com nosso relacionamento com o próximo, mas, na verdade, apontam para o senso mais profundo, de não estar em paz com Deus. Este é o princípio: se você vê um problema em seus relacionamentos com as pessoas, encontrará problema idêntico em sua relação com Deus. Se estiver irado contra as pessoas, descobrirá ira contra Deus. Se alguém não amar ao próximo, nãoamará a Deus. Se você sente que não consegue atingir as expectações dos outros ou as suas próprias, também não atingirá os padrões de Deus. Aquilo a que chamamos de fracasso, vergonha e de “não alcançar as expectações das pessoas”, chamamos de culpa diante de Deus. Para entendermos isto, temos de nos lembrar que nem sempre estamos conscientes daquilo que nos influencia. Neste momento, existem milhares de pessoas que, de alguma forma, contribuíram para a nossa vida. Afetaram nossas emoções, pensamentos e sonhos atuais, mas não estamos cônscios disso. Não deve nos surpreender que o Deus Vivo, em cuja face sempre vivemos, tenha impacto sobre nós, estejamos ou não pensando nele. Onde está a culpa? “Laura engordou demais. Parece que vai estourar”. Quando dizemos uma coisa dessas a alguém, que não seja a Laura, não nos sentimos culpados. Mas, e se Laura estiver ouvindo? Você não vai querer vê-la novamente ou ficará se desculpando sem parar. Por que não percebemos nosso erro em dados momentos e nos envergonhamos dele em outros? A diferença, é claro, está na presença de Laura. A Escritura ensina que todos nós conhecemos a Deus, mas tentamos suprimir esse conhecimento. Para os que conseguem afastá-lo, Deus lhes parece bem distante. O sentimento de culpa também deixa uma lembrança distante. Contudo, para o restante de nós, em quem o conhecimento de Deus continua a se impressionar, a culpa é palpável e nos afeta muito mais do que pensamos. Isto é um bom sinal – é um dom! Significa que Deus está agindo em nossa vida, dando-nos graça para perceber quando pecamos e para transformar-nos em vez de permitir que continuemos cegos para o pecado. Se você não consegue, imediatamente, encontrar culpa em sua vida, eis algumas perguntas que poderão ajudar a vir à tona: Se você visse a Deus face a face hoje, haveria alguma coisa de que se envergonhar? Se todos os seus pensamentos particulares fossem expostos, você iria querer se esconder? Como ter certeza de que você foi perdoado de todos os seus pecados? Você sente a vida diferente? Como saber que o Pai Celestial o aceita com entusiasmo? A única hora em que as pessoas falam sobre culpa é durante o sermão de domingo. A culpa não faz parte de nossas conversas normais. Assim, não estamos acostumados a procurá-la. Mas, se formos pacientes, nós a encontraremos. Variedades de culpa Existem numerosas razões pelas quais podemos nos sentir culpados. 1. Sentimo-nos culpados porque devemos sentir culpa. Amamos o pecado mais do que a Deus, e planejamos continuar pecando. De vez em quando, inserimos a desculpa: “Errar é humano”. 2. Sentimo-nos culpados porque não confessamos nosso pecado a Deus. “Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei. Disse: confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado” (Sl 32.5). 3. Sentimo-nos culpados porque ainda existem consequências dos pecados passados. Por exemplo, um membro da família foi ferido gravemente por você ter dirigido embriagado, e você vê essa pessoa todos os dias. Assumindo que tenha havido confissão e restituição necessárias, isso seria, acertadamente, mais tristeza do que culpa diante de Deus. 4. Sentimo-nos culpados, mas poderá ser que o que estamos sentindo, na verdade, é um senso de impureza por termos sido vitimizados por outra pessoa. Às vezes, é difícil distinguir entre a experiência desse sentimento de impureza quanto a nosso próprio pecado e a da impureza que sentimos devido ao pecado de outros. Entretanto, eles são bem diferentes. 5. Sentimo-nos culpados porque achamos que temos de fazer alguma coisa a fim de sermos perdoados. É essa última espécie de sentimento de culpa que tem relevância especial em relação à depressão. O evangelho A história da cruz é também chamada de evangelho, que significa simplesmente boas-novas. O que a torna boas-novas é que existe perdão de pecados. Esse perdão é dado pela fé em Jesus e não por nossas próprias boas obras. É por essa razão que ouvimos, vez após vez, o chamado para confiar em Deus. Se quisermos dar fundação à nossa vida, será pela confiança e fé naquilo que Deus fez por meio de Jesus. Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé. (Rm 1.16-17) Em vos converterdes e em sossegardes, está a vossa salvação; na tranquilidade e na confiança, a vossa força. (Is 30.15) Sem nenhuma dúvida, tudo isso é divino. Ninguém poderia inventar um arranjo assim tão unilateral. Pecamos contra Deus – é o que trazemos à mesa. Deus nos busca, envia seu Filho para sofrer a pena, adota-nos, dá-nos a justiça de Jesus, transforma-nos para que sejamos cada vez mais parecidos com ele, e nos ama por toda a eternidade. Deus nos diz simplesmente para confiar nele em vez de confiar em nós mesmos. Legalismo: o antievangelho Uma vez que tenhamos ouvido as boas-novas, deveríamos abraçá-las de todo coração. Encontramos a pérola de grande preço. O maior e mais precioso presente nos foi dado; e o Doador se alegra em dá-lo porque ele nos ama. Eureca! É o tesouro que esperávamos. Tudo mais que procurávamos e adorávamos eram meras falsificações desse dom maravilhoso. Em face do que temos recebido, jamais deveríamos buscar outras coisas. Pensamos que essa deveria ser nossa resposta, mas há horas em que surpreendemos até a nós mesmos. Por alguma razão, gostamos do arranjo antigo, em que temos de vencer por conta própria. Talvez, a ideia de que não tenhamos nada para trazer à mesa de negociação seja humilhante demais para nós. Afinal, pensamos, só uma criança reconhece a própria carência, e é isso que o evangelho requer de nós. Temos de dizer: preciso de Jesus. Para evitar isso, defendemos algo mais que vai além do evangelho. Este antievangelho se chama legalismo, justiça pelas obras, ou viver debaixo da lei. Significa que confiamos em Cristo e em mais alguma coisa que façamos. No Novo Testamento, a circuncisão era a obra acrescentada. Hoje, deixamos a circuncisão, mas nossas alternativas criativas não têm limites. Acrescentamos centenas de outras atividades, algumas das quais aparentemente bastante piedosas. Por exemplo, na época medieval as pessoas se flagelavam para demonstrar tristeza em face do pecado. Hoje, pessoas com anorexia morrem de fome; outras simplesmente coxeiam em autodesprezo. Poderá parecer contrição religiosa até que pensemos melhor no assunto. Então, perceberemos que acrescentar qualquer coisa ao que Cristo já fez por nós significa diminuir a glória de Deus, rejeitando o dom de Deus como insuficiente. Tentamos nos desculpar, dizendo que o evangelho parece bom demais para ser verdade. Mas, não importa o que dissermos, quando acrescentarmos qualquer coisa ao evangelho, minimizamos a obra completa de Deus, e, em essência, estaremos tentando compartilhar a glória de Deus, trazendo à mesa o nosso próprio dom. Encontrando o legalismo O legalismo é mais comum do que imaginamos. É um daqueles instintos humanos que encontramos alojados em cada coração. Você já disse: “Simplesmente não posso me perdoar”? Sua vida é uma longa litania de: “Se eu simplesmente pudesse...”? Outros já o chamaram de compulsivo? Você está sob o peso de pecados passados? Você acredita que Deus está cronicamente decepcionado com você? Você acredita que Deus goste mais de você quando você é realmente bom? Você faz negócios com Deus do tipo: “Se o Senhor... eu...”? Dá para ouvir nessas perguntas a convicção de que sua relação com Deus depende mais de você do que dele mesmo? Considere, agora, o que você acha que pode acrescentar ao evangelho. A vida se encontra em Deus + ____________. Servir na igreja. Ler a Bíblia. Não ser muito maldoso. Ser relativamente honesto. Não se embebedar. Ser sexualmente cuidadoso. Todas essas coisas são boas. O que as torna feias é o motivo que as impele. Se fizermos essas coisas para encontrar o favordiante de Deus, elas não terão valor. Quando se tornam atividades em que confiamos, elas se tornarão abominações, pois tentam substituir a Deus. Fazemos tais acréscimos ao evangelho porque eles permitem que nos sintamos bem a nosso respeito, à parte de Deus. Dão também base para que julguemos o próximo. Se conseguirmos passar bem pelo dia, medindo-nos segundo nossa nova lei, seremos um sucesso (ainda que temporário). Assim, fazemo-nos aptos para julgar aqueles que não estiverem à mesma altura que nós. Nem mesmo Deus escapa do nosso julgamento. “Tenho sido uma boa filha, mesmo tendo que morar com um pai problemático. Por que Deus está fazendo isso comigo?” Achamos que, se fizermos a coisa certa, teremos o direito de obter algo em troca, e nos iramos ou nos deprimimos quando não conseguimos aquilo que queremos. Com isso em mente, observe outros sinais de legalismo. “Depois de tudo que fiz, esta é a gratidão que recebo?” “A vida não é justa”. Existem pequenas compensações de curta duração, mas a pedra fundamental emotiva do legalismo é a falta de alegria (Gl 4.15). Poderíamos esperar outra coisa? Se acreditarmos que nossa relação mais importante depende de apaziguar um Deus irado ou irritado, por mais que façamos, jamais teremos certeza de ser o bastante. A realidade é que quaisquer boas obras que fizermos deverão ser em reação ao que Deus já fez, não às causas da ação de Deus. A graça e o amor de Deus precedem nossas próprias boas obras. Ele nos amou antes que nós o amássemos – antes mesmo que o reconhecêssemos. Dado esse fato, por que pensar, agora, que poderemos merecer sua aprovação? Jane teve um aborto há dez anos e, desde então, tem estado deprimida. Ainda sente culpa pelo que fez. Não consegue “se perdoar”. Seus amigos persistem em amá-la e a falar sobre o perdão dos pecados, e ela conhece a verdade da cruz, mas, para ela, isso parece não ter nenhuma importância. É como se a culpa fosse um vírus altamente resistente, imune ao evangelho. O legalismo explica a aflição de Jane. Ela tem todas as características de quem segue o antievangelho. Se o evangelho em que ela acredita fosse apenas Cristo, sua tristeza pelo pecado teria sido substituída, cada vez mais, pela gratidão. Mas, para Jane, o evangelho nem mesmo parece relevante. Quando isso acontece, o antievangelho já o substituiu. Seu antievangelho é que a vida e o perdão vêm mais por meio de Cristo jamais por um aborto. Tendo violado suas crenças, seus padrões, “ela tem de ser” castigada. Como não havia como reverter as consequências do aborto, ela resolveu que o seu castigo autoimposto seria uma tristeza longa e severa. Talvez, depois de um período não especificado de sofrimento, Jane se permitiria ser perdoada. Mas quão rígida teria de ser sua penitência? Por quanto tempo? Tentativas múltiplas de suicídio e reflexão diária sobre os seus atos passados não lhe eram suficientes. Ela continuava em profunda tristeza, esperando que, algum dia, pudesse acordar e descobrir que sua penitência havia satisfeito a justiça de Deus. Voltar atrás “Vocês, que querem viver debaixo da lei, digam-me” – Paulo escreveu à igreja. O evangelho se torna uma nova lei autoimposta, quando acrescentamos qualquer coisa ao que Cristo já fez, e Paulo diz que, na verdade, nós preferimos assim. Abandonar o legalismo entrincheirado no coração é o processo direto, mas poderemos esperar abandoná-lo muitas outras vezes. Não acontece de uma única vez. Na carta às igrejas da Galácia, Paulo dispõe de numerosos argumentos para nos persuadir da verdade de Cristo e do erro do legalismo. Expressa surpresa pessoal porque as pessoas se desviaram da graça de Cristo (Gl 1.6). Estabelece suas próprias credenciais para falar com autoridade (Gl 1.11–2.14) Cita Abraão como o primeiro exemplo de como foram dadas as promessas, que recebemos pela fé, e, somente então, as regras para a vida. Essas são respostas à graça (Gl 3.1-25). Ele menciona como Deus escolheu a Isaque, filho da promessa feita a Abraão, em vez de Ismael, filho de Abraão por meio de um plano humanamente engendrado (Gl 4.21-31). Lembra-nos de que é somente pela graça que somos impedidos de ser racistas e de outras formas de orgulho. Julgamos as pessoas mediante leis que presumivelmente conseguiríamos guardar e que outros não. Se acrescentarmos nossas obras à graça de Deus, não seremos mais povo unificado por Cristo, mas grupo que se acha melhor do que os outros (Gl 3.26-29). Enfatiza constantemente que Deus quer que sejamos livres, e essa liberdade só é encontrada quando reconhecemos que Cristo já fez tudo por nós e em nosso lugar (Gl 5.1-5). Paulo resume seu ensinamento contra o legalismo com a conhecida exortação: “Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor” (Gl 5.6). Se isso for verdade (e é), como legalistas que somos, temos de responder dizendo: “Senhor, perdoa-me”. Estivemos contando com alguma coisa que nós pudéssemos realizar, em vez de depender da graça de Deus. Fomos orgulhosos a ponto de achar que conseguiríamos agradar a Deus com base em nossos próprios méritos. Para tanto, tínhamos um entendimento muito superficial do pecado. Jane sentia-se culpada porque fizera um aborto, mas o que dizer da incredulidade e outros pecados que ela comete a cada dia? Enquanto maximizava o pecado do aborto, colocando-o além do âmbito do perdão e, com isso, punindo a si mesma, estava minimizando todos os seus outros pecados. Em relação a esses, ela nada fazia para se punir. Se fosse correta a tentativa para ganhar o favor de Deus por meio do esforço humano, ela estaria obrigada a cumprir toda a lei (Gl 5.3), e isso, claro, seria impossível. A única saída para Jane é dizer: “Senhor, perdoa-me” – não por causa de seu aborto (que já confessou milhares de vezes), mas por suas tentativas para resolver o pecado por meio de esforços humanos e não mediante a fé. Deveria, sim, permanecer à sombra da cruz, diariamente lembrando de que ela só se encontra diante de Deus por causa de sua graça, não por qualquer esforço próprio, e continuar em frente na tarefa maravilhosa de amar as outras pessoas. Resposta No caso de Jane, o legalismo era a causa da depressão. Se essa não for uma das causas de nossa depressão, poderemos estar certos de que, pelo menos, a depressão será revelada por ele. E quando o virmos, poderemos ter esperança. Estaremos no rumo certo quando conseguirmos enxergar nosso legalismo. Quando ele for tratado, a alegria estará a nosso alcance. O povo da Galácia passava por severas provações, mas o que lhes roubava a alegria era o legalismo. E seu retorno ao coração do evangelho foi o que lhes recuperou a alegria. Para outra biografia, leia Filipenses 3.4-11. Paulo olhava para trás, para sua vida e suas grandes realizações, e dizia que as considerava sem valor quando comparadas com o que Cristo lhe dera pela fé. Onde você enxerga seu próprio legalismo? Capítulo 20 Morte Como filhos de Deus, desejamos a vida. Ele é o seu autor e diz que viver é bom, e concordamos tacitamente com isso. Naturalmente, você também desejou a vida. Houve um tempo, em que a morte, pelo menos como opção, jamais foi cogitada. Mas, então, ela surgiu. Quando o desejo de morte apareceu, até mesmo você ficou surpreso. A ideia era tão estranha que parecia ter sido implantada por outro agente. Você se sentia como um observador que via a morte passar zunindo. Com o tempo, o choque desses pensamentos tornou-se mais comum. Para algumas pessoas, continuam um estorvo terrível. Para outras, tais pensamentos tornam-se confortáveis, a ponto de parecerem naturais, bons e certos. Se estivermos deprimidos, certamente temos um relacionamento tumultuoso com a morte. Ao mesmo tempo, desejamos e tememos sua vinda. Graças a Deus, o temor e outras circunstâncias mantêm muitas pessoas longe de agir sob esse impulso, mas o medo não é um impedimento duradouro. O desespero de um momento poderá prevalecer. Por favor, tire o tempo para pensar com mais profundidade sobre o quesignifica o seu desespero. Pensamentos suicidas Existe alguma verdade no pensamento suicida. Quando a vida é examinada à parte de Deus, pensamentos de morte fazem sentido. O escritor de Eclesiastes viu isso; Nietsche também, quando disse que, para propósitos práticos, Deus está morto. Se Deus está morto, não existe propósito nem futuro. Nós também estaremos mortos. Mas o pensamento suicida só enxerga uma parte do quadro. Na verdade, insiste em só ver uma parte do quadro – a que confirmará sua interpretação da realidade. Se você já pensou no suicídio, sua lógica é clara e simples, mas é irracional. Você tem certeza de um futuro catastrófico, mas já previu outras catástrofes e sabe que tem sido um profeta calamitosamente impreciso. Você pensa que a morte é a única opção, mas se esquece que há vezes quando a dor é menos severa. E se esquece de ter feito inúmeras coisas que tornaram a dor mais tolerável. Você acha que ninguém se importaria se você tirasse a própria vida, mas está cego quanto às pessoas que já tentaram ajudar, e sabe que todo suicídio deixa uma vigília de enlutados cujas vidas ficam para sempre marcadas. Você acha que Deus não ouve ou não se importa, mas crê também que seu céu é um paraíso livre de dor. Você pensa que tem de resolver problemas impossíveis, mas Deus o chama para tarefas menores e mais comuns. Chama-o para olhar à volta e ser fiel com o que está diretamente à sua frente. Preocupamo-nos com a morte. O fato de que Deus é vida, por si só, deveria nos produzir dúvidas quanto ao raciocínio que fizemos. Você poderá, até mesmo, entreter uma satisfação perversa ao considerar meios de suicídio. Mas, tendo experimentado um pouco do inferno, tem medo da morte. Preocupa-se que a morte “destruiria por completo a tudo”.¹ “Pavor” é a palavra que encerra toda sua experiência. Como criança assustada que assiste a um filme de terror, você tapa os olhos, mas olha por entre os dedos. O pavor é um desejo por aquilo que se teme, uma antipatia simpática; pavor é um poder alienígena que toma conta do indivíduo, contudo, não podemos nos desprender dele, não queremos... aquilo que mais tememos nos atrai.² Continuam os paradoxos. Você sente maior desespero do que qualquer pessoa viva. Sente-se incapaz diante do escoadouro da dor. Sente-se absolutamente sem poder. Mas as elucubrações sobre o suicídio são a expressão máxima da autonomia e tentativa humana de controle. Contra todo conselho, você persiste em pensar sobre a morte e o suicídio. Escolhe o individualismo. Sua própria lei. Faz o que quer. Parece uma declaração de independência, e soa irada. Contudo, tudo que você sabe é que a dor é insuportável. Não aguenta mais, e não existe nenhum alívio à vista. Basta. Todos os outros fatos são irrelevantes. Por quê? Quando estamos deprimidos, raramente desafiamos nossos próprios pensamentos. Se sua depressão inclui pensamentos suicidas, você faz ainda menos objeção. Contudo, isto é importante demais para ficar sem exame. Você pensa na morte porque não aguenta mais a dor. Já pensou de onde veio a dor? É raro que apareça do nada. A dor é sempre tão intensa ou flutua? O que a intensifica? O que a diminui? Quando sofre a dor mais extrema, você se esquece de que nem sempre ela permanece na mesma intensidade. O que você perdeu de tão precioso? O que você acredita que precisa e não tem? Com essas perguntas, você perceberá onde tem colocado a confiança. O que você tem medo de enfrentar? A vergonha leva muitas pessoas ao desespero, mas o perdão de Deus cobre tanto a culpa quanto a vergonha. A dor tem a ver com outra pessoa? Se for assim, a Escritura está cheia de esperança quanto a confessar, perdoar e propor reconciliação. O que você espera conseguir com a morte? Quer que ela tire a dor, e o que mais? Seria também uma declaração a alguém? Por que você se sente tão impotente? Tem ficado a escutar os conselhos de fora? O que eles lhe disseram? O que você fez? Por que, na verdade, você não quer mais viver? Quem é Deus? A conexão entre a aflição e o relacionamento com Deus nem sempre será óbvia, mas o tópico de pensamentos suicidas torna a ligação inevitável. O sofrimento sempre levanta questões teológicas, mas a morte e o suicídio as compelem. A morte ainda é um lugar em que a religião domina sobre toda discussão. Mais importante, a morte significa que nos encontraremos com Deus. Quem é Deus? Você crê que ele ouve? Acredita que Deus seja imensamente compassivo? Crê que a sua compaixão seja ativa – que ele está fazendo alguma coisa agora mesmo? Você crê que ele provê graça para perseverar em meio às tribulações? Acredita que ele conhece os detalhes de sua dor e fornece graça suficiente para cada dia? Qual seria a diferença, se você acreditasse nessas verdades? Você sabe que o Jesus ressurreto “sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.3)? Você tem procurado conhecer realmente a mente de Deus quanto à sua atual situação? Com quem você tem conversado? Alguém sugeriu que o suicídio seria uma escolha sábia? Que parte da Escritura você tem lido? Como você tem orado? Você entende o evangelho? O evangelho trata de ressurreição e a ressurreição é a base de nossa esperança. Se você acha que o suicídio é uma opção viável, você não conhece a Deus. Crê que ele está calado, mas não está. Ele é generoso ao revelar-se, e fala com clareza. Fala de sua paciência e amor por você. Conclama-o a confiar nele e a deixar que essa confiança se expresse no amor ao próximo. Ele diz que lhe dará graça para perseverar e te ensina como. Talvez você esteja escutando outra coisa em vez do que ele está dizendo. Leia novamente o final do livro de Jó (Jó 38-42). Jó foi torturado por dor física e psicológica. Lutou contra questões de vida e morte mais que qualquer outro homem das Escrituras. Apesar de tudo, ele perseverou na fé, mas sentia que precisava mais de Deus. Queria compreender melhor os seus caminhos. A resposta de Deus foi declarar enfaticamente que ele mesmo é Deus. Suas perguntas a Jó começaram assim: Cinge, pois, os lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber. Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento. Quem lhe pôs as medidas, se é que o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel? Sobre que estão fundadas as suas bases ou quem lhe assentou a pedra angular, quando as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus? Ou quem encerrou o mar com portas, quando irrompeu da madre; quando eu lhe pus as nuvens por vestidura e a escuridão por fraldas? Quando eu lhe tracei limites, e lhe pus ferrolhos e portas, e disse: até aqui virás e não mais adiante, e aqui se quebrará o orgulho das tuas ondas? (Jó 38.3-11) Certifique-se de ter lido todas as perguntas de Deus. Elas nos permitem ver uma história muito mais ampla. Pelo menos, no momento, elas retirarão os teus olhos da imensidão de sua dor e os lançarão para o objeto da esperança. Não mais do que você pode suportar? Se você estiver procurando respostas, Jó é um dos lugares para se voltar. Outro lugar é nas promessas de Deus, no restante da Escritura. Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar. (1Co 10.13) Essa é uma das promessas mais conhecidas, na qual parece que Deus falhou, pois a depressão severa parece ser mais aflitiva do que conseguimos suportar. Portanto, é importante considerar esse versículo, e por duas razões. Primeiro, é uma grande promessa. Segundo, se estivermos começando a acreditar que a promessa nem sempre é verdadeira, teremos de perguntar onde mais as promessas de Deus têm exceções. Dúvidas desse tipo corroem a fé. Se lermos a próxima passagem, veremos que ela recorda o êxodo de Israel do Egito e suas lutas no deserto. Quando surgiram dificuldades, muitas pessoas rapidamente abandonaram a Deus, murmuraram contra ele ou voltaram-seaos ídolos. Esse trecho diz que nós também passamos por desertos, e que, quando passarmos por eles, o Espírito nos fortalecerá de maneira que evitaremos a murmuração e a idolatria. A promessa de Deus é que ele jamais nos colocará em situação onde nossa única escolha seja pecar. Ou nos livrará da intensidade da tentação ou nos dará graça suficiente para confiar e obedecer em meio à dificuldade. Essa promessa significa que a depressão não pode nos coagir ao pecado. Uma encolhida de ombros e indiferença generalizada, que tantas vezes a depressão provoca, revela a irracionalidade que há dentro de todos nós. Da nossa perspectiva, existe apenas uma coisa que Deus poderia fazer para nos fazer escutar: queremos que ele tire a nossa dor. Porém, da perspectiva de Deus, o presente mais importante que ele poderia nos dar é o de confiar nele e obedecer a sua palavra quando nos sentirmos sem forças. Na mente de Deus, o pecado é problema muito maior do que o sofrimento. Na nossa, invertemos a ordem. Aqui está um ponto de partida. Considere que sua desesperança atual é pecaminosa. Ou você tem colocado sua confiança em outra coisa que não Cristo, o que é pecado, ou, como os israelitas no deserto, diz, em essência, que a Palavra de Deus não é verdadeira – o que é o pecado da incredulidade. Deus não somente perdoa tais pecados que cometemos contra ele, também dá poder para colocar nele a esperança. Em seu desespero, você está disposto a pedir a Deus que lhe dê graça para resistir ao pecado e para confiar nele por meio do sofrimento? Qual é a sua única consolação? Jó abre nossos olhos para ver a grandeza de Deus. A promessa de 1Coríntios 10.13 abre nossos olhos para o fato de que nosso pecado é mais sério do que nosso sofrimento. Muitas outras passagens abrem nossos olhos para o Deus que consola o seu povo. O Senhor é o bom pastor cuja presença consola suas ovelhas. Ele é quem clama: “Consolai, consolai o meu povo” (Is 40.1) e que é chamado “Deus de toda consolação” (2Co 1.3). Onde está esse conforto? Peça-o. Peça que seus olhos sejam abertos para vê-lo. Procure por ele. A consolação que você procura está à disposição, e se encontra em Jesus Cristo. Pergunta 1. Qual é o seu único conforto, na vida e na morte? Resposta: O meu único conforto é meu fiel Salvador Jesus Cristo. A Ele pertenço, em corpo e alma, na vida e na morte, e não pertenço a mim mesmo. Com seu precioso sangue ele pagou por todos os meus pecados e me libertou de todo o domínio do diabo. Agora ele me protege de tal maneira que, sem a vontade do meu Pai do céu, não perderei nem um fio de cabelo. Além disto, tudo coopera para o meu bem. Por isso, pelo Espírito Santo, ele também me garante a vida eterna e me torna disposto a viver para ele, daqui em diante, de todo o coração. ³ Tal consolação vem em duas partes: no conhecimento de Jesus e no fato de que pertencemos a ele, pela fé. Você não pertence a si mesmo. Essa certeza dá propósito, esperança e conforto. “Porque fostes comprados por preço” (1Co 6.20), “não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro... mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula” (1Pe 1.18-19). “E vós, de Cristo, e Cristo, de Deus” (1Co 3.23). Se você for um trabalhador autônomo, e não se importar se sua empresa tenha sucesso ou fracasso, então, não verá razão para trabalhar. De vez em quando, poderá, até mesmo, sair da cama para cumprir as obrigações somente por amor aos entes queridos, mas seu coração não estará no trabalho. Entretanto, se você for um embaixador, chamado por um rei – um emissário real – você nem pensará se deve ou não levantar-se. Simplesmente levantará e trabalhará. Está em uma missão. Você poderá dizer que Deus consegue facilmente um substituto. Ninguém sentirá sua falta. Afinal, existem milhares de pessoas entre as quais Deus poderá escolher. Mas tenha cuidado. Suspeite desses pensamentos. Mentiras se misturam facilmente à verdade. É claro que Deus chamou a muitos para si, e cumprirá os seus propósitos. Mas a realidade é que ele escolhe pessoas, em especial pessoas fracas, para realizar seus intentos. Ele escolheu indivíduos e estabeleceu suas tarefas, antes mesmo da fundação do mundo (Ef 2.10). O conforto está em que você pertence a ele. Resposta Você pode orar, partilhando com o apóstolo Paulo este cântico de louvor? Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação! É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus. (2Co 1.3-4) Por que você pensa na morte? O que Deus lhe diz, quando você coloca esperança em pensamentos suicidas? 1 HUME, William e Lucy. Wrestling with Depression (Minneapolis: Augsburg, 1995), p. 28. 2 The Journals of Kierkegaard, 1834-1854, editados e traduzidos por Alexander Dru (Londres: Collins, 1958), p. 79-80. 3 Catecismo de Heidelberg, versão on-line. Parte III Ajuda e conselhos de outros Capítulo 21 Tratamentos médicos A depressão envolve a pessoa em sua totalidade, corpo e alma. A alma ou o coração sempre se ocupa interpretando as circunstâncias adversas e escolhendo as alianças básicas. O corpo apenas se sente doente. Seguindo a direção da Escritura, as questões do coração são prioritárias. “O exercício físico para pouco é proveitoso, mas a piedade [treinamento espiritual] para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser” (1Tm 4.8). O coração é o verdadeiro campo de batalha durante o sofrimento, e merece sua máxima atenção. Na medida em que você aprende a colocar sua esperança em Cristo, seu trabalho colhe benefícios eternos. Mas não é só isso. Como somos uma conexão sem costura entre o físico e o espiritual, nosso corpo físico poderá responder ao nosso crescimento espiritual, e geralmente ele o faz durante a depressão. Em outras palavras, enquanto o Espírito, a Escritura e pessoas muito sábias o orientam, provavelmente você se sentirá mais leve (2Co 4.16-18). Sua dor não terá força tão devastadora. Em sua maior parte, os pensamentos correntes tendem a perder de vista a essência espiritual da depressão. Especializam-se nos tratamentos físicos que também poderão aliviar os sintomas físicos da depressão. Entre os tratamentos, as medicações antidepressivas são as mais conhecidas e populares, existem centenas deles, e muitos poderão mudar o quadro depressivo. Eles não trarão esperança, mas poderão fazer com que você se sinta menos desgraçado. Os tratamentos físicos conseguem mudar sintomas físicos, mas somente isso. Antidepressivos Existe ampla concordância nas áreas de pesquisa de que a medicação antidepressiva poderá ajudar algumas pessoas a se sentirem melhor. Com efeito, há casos em que a redução dos sintomas depressivos será dramática. É essa sua maior vantagem. Mas existe muito que ainda desconhecemos. Por exemplo, por que isso ajuda. A teoria mais popular é de que a depressão está relacionada, pelo menos em parte, à falta da substância química no cérebro, denominada serotonina. Muitos dos novos medicamentos, chamados de inibidores seletivos da recaptação da serotonina (SSRI), tornam essa substância mais disponível ao cérebro. Se elas realmente ajudarem, isso estabelecerá a presença de um desequilíbrio químico específico. Mas existem muito mais de cinquenta neurotransmissores no cérebro, espalhados em grandes áreas, e sua interação desafia a pesquisa atual. A verdade é que a hipótese biológica repousa sobre um terreno instável. Quando a medicação ajuda, não sabemos a razão. O cérebro é complexo demais e o conhecimento de sua mecânica é ainda demasiadamente primitivo. Neste ano, o neurotransmissor favorito é a serotonina. Em anos anteriores, foi a dopamina. Em anos futuros, será outra substância química do “Muitas permanecem sem resposta”. • Não sabemos por que a medicação ajuda algumas pessoas. • Não sabemos por que a medicação não ajuda a outras pessoas. • Não sabemos por que paradados indivíduos, algumas medicações produzem melhor efeito do que para outros. • Não sabemos por que medicações quimicamente diferentes têm efeitos semelhantes. • Não sabemos por que alguns antidepressivos parecem ser igualmente efetivos com problemas aparentemente não relacionados, tais como pensamentos obsessivos e comportamentos compulsivos. • Não sabemos por que leva até um mês para as pessoas notarem diferença entre medicações. • Não sabemos por que os antidepressivos, muitas vezes, perdem o efeito com o passar do tempo. A esta altura, a analogia mais acertada para se referir ao funcionamento desses medicamentos é da aspirina. A aspirina pode aliviar sintomas, mas geralmente não trata causas subjacentes. De maneira semelhante, os antidepressivos poderão ajudar, mesmo que um exame médico não revele um “desequilíbrio químico”. No momento, não existem exames de sangue que possam verificar se uma deficiência química é causa de depressão. Você deveria tomar medicamentos? Provavelmente já esteja tomando. Se não estiver, faça uma decisão sábia e bem-informada. Medicação versus nenhuma medicação. Não está claro se a medicação ajuda mais do que o aconselhamento. Também não se sabe ao certo se o aconselhamento seria melhor do que conversar com um amigo sábio. Mesmo no caso de depressão severa, uma análise cuidadosa da evidência nem sempre demonstra a efetividade superior da medicação acima do aconselhamento secular.¹ É de esperar, pelo menos, alguns resultados semelhantes quando permitida a orientação da Escritura. Efeitos colaterais. Qualquer medicação poderá ter efeitos colaterais. Nisso, os antidepressivos não são diferentes de outros remédios. Em geral, seus efeitos colaterais não são tão severos, contudo, algumas pessoas têm reações tão difíceis que param de tomar sua medicação. Boca seca e dificuldade de funcionamento sexual são os efeitos colaterais mais comuns. Uso a longo prazo. Embora pessoas tenham tomado antidepressivos durante muitos anos, ainda não temos certeza de seus efeitos a longo prazo. Sabemos que alguns deles perdem a efetividade depois de algum tempo de uso – o que chamamos de perda de eficácia. Também existem evidências crescentes de que os antidepressivos viciam, até certo ponto, sendo necessário retirá-los aos poucos e com cuidado. O problema é que, em tal processo, fica difícil distinguir entre as consequências da diminuição da medicação e as da própria depressão. Quando uma medicação é retirada, poderá haver uma falsa constatação de que os sentimentos depressivos estejam voltando, quando, na realidade, são sintomas do abandono do medicamento. Outros cuidados. Algumas pessoas descobrem que o uso da medicação fornece energia e clareza para enfrentar questões da vida relacionadas à depressão. Outras se esquecem das questões do coração reveladas pela depressão em função de encontrar o alívio que queriam. Em suma, é o seguinte: não ponha suas esperanças na medicação. Seja grato, se ela o ajudar, mas se for apenas um lugar a mais em que depositar as esperanças, em vez de confiar em Jesus, você estará apenas dando continuidade ao ciclo do desespero. Diretrizes. Caso você já esteja tomando medicação, diga: está se sentindo melhor ou pior do que antes de começar esse tratamento? Se não estiver melhor, ou estiver pior, converse com seu médico a fim de discutir uma mudança. De outra forma, torne-se especialista naquilo que Deus diz aos que sofrem, e seja rápido para dizer: “Sonda-me, Senhor”. Se você estiver deprimido e não estiver tomando medicamentos específicos para esse caso, poderia começar imediatamente. Mas, se for possível, adie a decisão. Uma vez que tiver começado, você tenderá a permanecer preso a ela.² Em vez disso, considere tomar tempo para “dar trabalho à alma” e reaprender o evangelho. Muitas pessoas sugerem também que o exercício físico regular é bom auxiliar no tratamento. Ele poderá aliviar a dor além do esperado. Outro benefício da protelação é que será mais fácil determinar o “tratamento” que ajuda, introduzindo um de cada vez. Por exemplo, se tiver iniciado a medicação ao mesmo tempo em que começou a considerar seriamente o próprio coração, não terá como saber se as melhoras experimentadas são provenientes das transformações espirituais ou da medicação. Algumas pessoas depressivas são altamente tendentes ao suicídio ou extremamente passivas. Tais homens e mulheres estão, sem dúvida, lutando com questões essenciais do coração e você deverá insistir na proposta de expressões criativas do evangelho. Contudo, nessas situações, as famílias também buscam tratamentos médicos, em um esforço para tentar qualquer coisa razoável que possa ajudar. Aqui, a grande preocupação será se a pessoa deprimida tiver considerado uma overdose como plano suicida. Dado que os antidepressivos poderão ser letais quando ingeridos em grande quantidade, os familiares deverão restringir a quantidade de remédio acessível à pessoa deprimida. Se estiver em dúvida, procure o conselho de outros pastores, conselheiros, médicos ou leigos que tenham sabedoria bíblica e experiência com a depressão. Um exame médico Em uma discussão sobre medicamentos, facilmente é esquecido o fato de que a depressão pode resultar de numerosos problemas médicos. Na maioria dos casos, nenhum diagnóstico médico tratável foi encontrado, mas, se sua experiência depressiva não estiver claramente ligada a determinadas circunstâncias, consulte o médico para fazer um exame clínico (Tabela 21.1).³ Tabela 21.1 Problemas médicos com conhecidos efeitos depressivos Doença de Parkinson Derrame cerebral Esclerose múltipla Epilepsia Trauma Cerebral Lupus (SLE) Deficiências vitamínicas Mudanças pós-cirúrgicas Aids Hepatite Mudanças pós-parto Nessa lista de problemas médicos, a depressão pós-parto é uma das mais reconhecíveis. Em suas formas menores ou temporárias, é muito comum o sentimento de tristeza. Muitas mulheres experimentam a depressão, pois acabaram de experimentar um transtorno físico e o corpo precisa de tempo para se ajustar. Pessoas que passam por grandes cirurgias têm a mesma experiência. Algumas mulheres, contudo, experimentam uma depressão mais severa e de mais longa duração. As causas parecem incertas. Os medicamentos antidepressivos poderão ajudar, e as mulheres devem estar prontas a considerá- los. Também, como a ajuda secular não médica, encorajamento e orientação têm ajudado tais mulheres,⁴ devemos esperar que a ajuda bíblica, encorajamento e direção sejam ainda mais úteis. Outros tratamentos físicos Como a depressão é tão comum e não existem curas médicas definitivas, proliferam os tratamentos possíveis. Alguns dos mais comuns são: fototerapia (para quem sofre de depressão sazonal); tratamento com erva-de-são-joão e outras ervas medicinais; exercícios, megavitaminas, drogas originalmente não desenvolvidas para o tratamento da depressão, tais como Mifepristona (também denominada de RU-486 ou pílula do aborto). Procedimentos mais técnicos incluem estimulação magnética transcraniana e terapia eletroconvulsiva (ECT). ECT é de interesse especial porque, depois de um tempo de declínio nos anos 1970’s e 1980’s, é mais uma vez um tratamento popular para a depressão Maior.⁵ A questão com tais tratamentos físicos não é se tal tratamento está certo ou errado, mas se é o correto. As diretrizes de sabedoria se aplicam. Para alguns tratamentos, tais como mudanças moderadas de dieta e exercício, o risco e o custo são mínimos, e assim não exigem longas deliberações. Mas outros têm riscos mais altos. Portanto, é necessário ter sabedoria para uma investigação cuidadosa dos mesmos, com oração, conselho de um grupo experiente e sábio, e andar no temor do Senhor. A cultura de tratamentos médicos Somos gratos por viver em uma época em que existem maneiras de aliviar a dor física da depressão. Ainda assim, vale a pena examinar a cultura na qual emergiram tais tratamentos. Por exemplo, um fator do pensamento atual é que ainda colocamos muita esperança na medicina. Assim, ela poderá se tornar um ídolopara nós. Poderá ser que qualquer tratamento que tenha o verniz da ciência médica intensifique o efeito de placebo. Ou seja, um tratamento médico poderá mudar a experiência da depressão, não por ser bem-sucedido em si mesmo, mas porque nós colocamos nossas esperanças nele e, assim, revisamos a nossa experiência da depressão. Vivemos também em uma cultura que presume sermos apenas corpos físicos. Desse modo, a medicação e os demais tratamentos físicos são vistos como as únicas possibilidades de ajuda. Porém, somos também seres espirituais, e isso de maneira fundamental. Vivemos na presença de Deus. Quando reconhecemos nosso âmago espiritual, descobrimos que há pontos mais profundos em nossa vida do que qualquer medicação possa atingir. Finalmente, nossa cultura não vê valor algum nas dificuldades. Embora todos saibam que as dificuldades refinam nosso caráter e nos fazem amadurecer, ainda assim queremos fugir do sofrimento que nos sobrevêm. Certamente não devemos procurar sofrer ou continuar com dor quando houver meios legítimos para mitigá-los, mas as dificuldades nos parecerão diferentes quando soubermos que Deus as usa para aprimorar e transformar nosso caráter. Com isso em mente, tome cuidado e faça escolhas sábias. Resposta As discussões sobre medicamentos e outros tratamentos físicos tendem a provocar reações fortes, às vezes extremas. Se tiver sido prejudicado por medicações, você se oporá a elas. Se tiver sido ajudado, dará todo apoio. Como é próprio da Escritura, a Bíblia toma uma terceira posição que estimula sabedoria, abre nossos olhos para as questões maiores de nossa cultura, e continua focalizando o coração. 1 DERUBEIS, Robert J., GELFAND, Lois A., TANG, Tony Z. e SIMMONS, Anne D. “Medications versus Cognitive Behavior Therapy for Severely Depressed Outpatients: Mega-Analysis of Four Randomized Comparisons”, American Journal of Psychiatry, 156 (1999), p. 1007-1013. 2 BULL, S. A. et al. “Discontinuation of use and switching of antidepressant drug treatment in depressive disorders: a systematic review”, Lancet, 361 (2003), p. 653-61. 3 A depressão devido a doenças conhecidas tende a ser diferente daquelas descritas no capítulo 2. A falta de esperança, o pensamento suicida e o autodesprezo não estarão presentes. 4 Por exemplo, STUART, S, O’HARA, M.W. & GORMAN, L.L. “The Prevention and Treatment of Post-Partum Depression’, Archives of Woman’s Mental Health, 6 (Suppl. 2), S57-S69. 5 The UK ECT Review Group, “Efficacy and Safety of electroconvulsive therapy in depressive disorders: A systematic review and meta-analysis”, Lancet, 361 (2003), 799-808. Capítulo 22 Para familiares e amigos Este capítulo fala primeiramente a quem se encontra deprimido e, depois, aos seus familiares e amigos. Se você estiver deprimido A depressão pode prejudicar os relacionamentos. A pessoa deprimida precisa deles, mas se isola. Quer ajuda, mas rejeita a maioria dos conselhos. Recebe palavras encorajadoras, mas não acredita nelas. Se a família e os amigos se frustram, você diz que previa isso, desde o início. Age como se esperasse a frustração da parte deles, até mesmo, desejando que seja assim. Você acredita que não tem valor e está se esforçando para provar exatamente isso. Uma das mais firmes descobertas a respeito da depressão é que não é fácil conviver com pessoas deprimidas. “Pessoas deprimidas agem com ampla gama de comportamentos sociais inapropriados, verbais e não verbais, que tendem a provocar hostilidade e rejeição da parte dos outros. Por meio desses comportamentos, os indivíduos deprimidos criam mundos sociais a seu redor que praticamente garantem contínuas avaliações negativas”.¹ Como reagir? Poderá não parecer relevante para você, mas se tiver uma reação contrária a esse comentário, considere a sua resposta. Você sente culpa? Mantenha tudo simples. Você é culpado, se tiver ferido a outros. Se tiver pecado nisso, confesse a Deus e às pessoas a quem prejudicou, agradeça a Deus, pois ele se compraz em você. Peça-lhe ajuda para mudar. Você se sente sem esperança ou sem ajuda? Sente que os outros simplesmente não entendem a depressão? Pense nisto: nada poderá nos impedir de amar ao próximo – nem os pecados de outros nem mesmo nossas enfermidades ou nossa humanidade. É certo que essa tarefa poderá parecer impossível – e será, se ignorarmos a cruz de Jesus. Mas quando clamamos pela graça para amarmos ao próximo com mais profundidade, Deus sempre nos responde com um sim. Neste ponto, resista à depressão. Não permita que ela seja uma desculpa para não amar ou manter relacionamentos. Isso só aumentaria o desespero. Amar ao próximo não é apenas nosso dever – é o jeito como fomos projetados. Quando não tivermos confiança e amor, estaremos desligados do propósito para o qual fomos criados, e veremos medrar o desespero. Planeje amar. O amor parecerá diferente sob depressão severa, mas, enquanto você estiver consciente, ainda poderá encontrar em Deus a graça para amar ao próximo das seguintes maneiras: • Agradeça-lhes • Cumprimente-os • Ore por eles • Ouça-os • Toque-os Se você tropeçar nessas coisas, peça perdão a Deus e aos outros. Peça que outras pessoas orem por você para que possa amar de modo palpável, e ame de novo. Se não estiver dando nenhum passo em direção ao amor, o seu coração estará revelando seus verdadeiros motivos. Você estará se aventurando em novo terreno com essas coisas. Estará fazendo algo sem que sinta vontade de fazer. Não é que não queira amar; é que não sente amor. Algumas pessoas compram a mentira de que forçar para amar é um ato hipócrita. Por que fazer algo que o coração não quer? A verdade é que é um ato heroico. Poderá ser a primeira vez que você faz alguma coisa simplesmente por causa de Jesus. Se você for amigo ou pessoa da família Os familiares e amigos também serão forçados a se desdobrar na forma de amar. Você poderá descobrir que seu amor estava acompanhado de motivações mistas. Talvez quisesse mudar a pessoa deprimida, ou tornar a vida mais fácil para você mesmo, a amá-la simplesmente porque Cristo a amou. Tal como seu amigo deprimido, você também terá de considerar as próprias motivações e orar para que o ame profundamente e de coração. Às vezes, cansamos de amar. Acontece com todo mundo. Amamos com autenticidade, mas isso parece não obter resultado ou ser irrelevante. Talvez não pareça importante para a pessoa deprimida, mas saiba o seguinte: seu amor faz diferença. Não quer dizer que apenas um empurrão na direção do amor imediatamente tirará alguém da depressão. Sozinho, seu amor não muda nada. Como lembrou um batalhador: Nenhuma quantia de amor das outras pessoas – e havia muito amor – era bastante para ajudar. Nenhuma vantagem de uma família amorosa e emprego fabuloso eram suficientes para vencer a dor e o desespero que eu sentia.² Mas, como todos nós, as pessoas deprimidas percebem quando a bondade e o amor se dispõem ao sacrifício. Sendo assim, as pessoas deprimidas que obtêm melhores resultados são as que são amparadas por um amor perseverante. O seu desânimo Provavelmente, a passividade da pessoa deprimida será o fator que mais a desanimará. Talvez, o desafio mais óbvio apresentado por deprimidos seja a aparente falta de paixão ou entusiasmo por alguma coisa. Para a família ou amigos mais íntimos, isso é difícil porque nossa paixão é o que nos torna especiais e únicos aos olhos daqueles que nos cercam. Uma pessoa sem paixão é estranha para os outros. Não só parece imóvel como também indiferente. “Ele não está normal”. “Não conheço mais o homem com quem eu me casei”. Existem algumas formas de se preparar para amar a pessoa deprimida, quando o relacionamento não mais parece recíproco. Acima de tudo, temos de reconhecer que não poderemos depender do afeto natural. No passado, havia uma atitude de dar e receber, na relação com a pessoa deprimida. Você tinha prazer nessa pessoa, e ela gostava de você. Agora, porém, o relacionamento parece sem recompensa afetiva, o que, é claro, não é aquilo que deveríamos considerar em umrelacionamento. São pouquíssimas as pessoas dispostas a se dar em longo prazo, em um arranjo tão unilateral. Depois de um impulso inicial de amor, as pessoas desistem. Isso nos coloca em posição semelhante à da pessoa deprimida. Ela também não pode mais depender dos afetos naturais. O problema não é que ela desgoste de você; é mais: ela simplesmente não consegue sentir, ou, aquilo que ela sente são diversos níveis de dor, e a dor implacável expulsa todas as demais paixões. Sem paixões relacionais normais a nos energizar, temos uma oportunidade tremenda. Temos o privilégio de realmente amar como expressão de confiança no amor de Jesus Cristo e em nosso amor por ele. Essa é uma das habilidades espirituais-chave de que os deprimidos necessitam. E por ser característica dos caminhos de Deus, isso é exatamente aquilo que nós também precisamos. O curso que teremos de caminhar é idêntico ao que você acaba de descrever quanto ao seu amigo. Por exemplo, você consegue definir, rapidamente, o seu propósito? Qualquer coisa menos do que “conhecer a Cristo e amar ao próximo para a glória dele e não a minha” nos deixará sem esperança ou sem poder para amar. Um dos fatores singulares do caminho de Deus é que todos nós mudamos, para frente e para trás, em nossos papéis de médico e de paciente. Precisamos de ajuda e os outros precisam de nossa ajuda. Talvez jamais tenhamos lidado com a depressão, mas as questões em volta dela são básicas para a vida de todos. Qual é o seu propósito? Quem é Jesus? Como posso crescer em confiança nele e na expressão desta confiança em amor ao próximo? Isso significa que, quando chegamos ao lado de uma pessoa deprimida, não podemos depender do conhecimento do ano passado. Quando falamos acerca de propósito, temos de ser pessoais. Tem de vir da experiência de como você mesmo encontrou propósito na vida. Quando você oferece esperança, é porque encontrou esperança. Uma conselheira profissional havia tentado de tudo para encorajar sua aconselhada deprimida e nada parecia ajudar. Nada mais tendo a oferecer, ela confessou sua própria pobreza e conversou sobre como ela, pessoalmente, estava aprendendo da Palavra de Deus. Ao terminar a conversa, gastando mais tempo do que geralmente fazia, orou por si mesma e pela aconselhada. Para sua surpresa, a aconselhada marcou outro encontro. Na entrevista seguinte, tão logo entrou na sala, deu imediatamente uma avaliação da sessão anterior: – Aquele foi o melhor tempo que já tivemos. Por que não fazemos isso mais vezes? A conselheira tinha se tornado uma pessoa carente, em vez de dispensadora de informações necessárias. Não estava mais dando princípios, mas sim, dando o próprio testemunho. Era óbvio o passo seguinte: – Os caminhos de Deus são melhores que os meus. Não é típico de Deus que, quando eu me senti mais necessitada e inadequada, pude dizer as coisas mais acertadas? Você está certa: eu deveria ter feito isso o tempo todo. Também deveria ter pedido isso de você, pois quero aprender com você. Da próxima vez que nos encontrarmos, por que você não compartilha o que está aprendendo da leitura da Escritura? Para ajudar uma pessoa deprimida, não precisamos do conhecimento de especialistas. Precisamos, sim, da consciência de nossas próprias necessidades espirituais, um conhecimento crescente do Senhor Jesus e disposição para aprender dos outros, incluindo, até mesmo, daquele que queremos ajudar. O mais importante Sem paixão ou nítida clareza espiritual, a pessoa deprimida acha quase impossível manter uma visão daquilo que é realmente importante. No meio de sua névoa de desespero, nada surge que lhe prenda a atenção. Isso também pode ser reconhecido por todos nós, pois o mundo funciona de modo semelhante. A Escritura antevê essa luta. Para batalhar, Deus levanta pessoas comuns para nos lembrar da verdade. Hebreus 3.12-13 nos lembra o seguinte: Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo; pelo contrário, exortai- vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado. O que as pessoas deprimidas precisam – aquilo que todos precisamos – são lembretes diários da realidade espiritual. À medida que a verdade de Cristo é impressa em nosso coração, temos de oferecê-la ao próximo, e ele a nós. O alvo será sempre Cristo, e este, crucificado. Essas palavras não são mágicas, e sim, alimento para a alma. Não seja desviante. Aquilo que você precisa não é algo novo, e sim, a simples perseverança na aplicação de velhas verdades às situações atuais. Você não precisará se desculpar por ler as Escrituras para a pessoa deprimida, orar com ela e procurar evidências diárias da obra do Espírito no cotidiano. Do mesmo jeito que a perseverança é chave para o deprimido, a perseverança no ministério “comum” também é central para você. A pessoa deprimida é leal às suas interpretações pessimistas; você terá de ser leal às interpretações centradas em Cristo. Quando possível, ofereça interpretações cristocêntricas, de maneira pessoal, significativa (pelo menos para você), e que seja sucinta, pois a depressão pode afetar a habilidade de concentração. Trabalhar juntos Sendo mais parecidos do que diferentes da pessoa deprimida, precisaremos pensar em termos de parceria. Trabalhar juntos em uma caminhada difícil. Às vezes, carregaremos o peso mais pesado (Gl 6.2), mas, se estivermos trabalhando juntos, procuraremos maneiras de partilhar a carga. Um erro que muitos familiares e amigos cometem logo nos primeiros estágios da depressão é fazer sozinhos todo o esforço. Poderá ser um sacrifício nobre, mas não conseguiremos andar por muito tempo dessa forma. Poderemos ler com a pessoa deprimida, orar por ela, exortá-la, expressar-lhe amor de muitas maneiras diferentes, mas não podemos arrastá-la para os nossos alvos. O destino final é um alvo compartilhado. A meta final é Cristo. Os alvos intermediários, às vezes, serão passos infinitamente pequenos que trazem estrutura a uma existência que parece sem sentido. A estrutura tem a ver com limites, diretrizes, responsabilidades, lembretes e planos organizados. O princípio é o seguinte: quanto mais dolorosa e debilitante a depressão, mais o conselheiro e os amigos precisarão fornecer estrutura. A estrutura poderá incluir o seguinte: • Ir para a cama e levantar-se no mesmo horário todos os dias. • Comer em determinados horários. • Fazer exercício em determinados horários. • Ter horário definido para o dia. • Deixar por escrito algo que concordam em esforçar para fazer cada dia. • Seguir aquilo que foi contratado. Seja o seu “sim”, sim. Tal estrutura não é simplesmente imposta sobre uma vítima indisposta. É uma parceria entre irmãos e irmãs em Cristo. Inclui também um tempo para considerar os “porquês”. Lembre e reveja os propósitos de Deus, e recordem um ao outro que o treino presente – embora duro e cansativo – tem benefícios eternos (1Tm 4.8). Há duas maneiras de errar quando a pessoa deprimida começa a estruturar a vida. Uma é impor um passo além de sua capacidade, fazendo com que sinta ainda maior desespero. Comece devagar. Ajude a pessoa a estabelecer pequenos alvos básicos, e trabalhem juntos para, aos poucos, aumentar as tarefas e os alvos para o dia. O outro erro é omitir tempo frequente para responsabilização. É melhor uma responsabilização, pelo menos, a cada dia. Como isso poderá continuar durante muitos meses, os que ministram têm de desenvolver um passo prático e sábio para si mesmos, dispostos a servir enquanto seguem mantendo a consciência de outras responsabilidades. Interromper conforme for necessário Se seu amigo íntimo, de repente, insistisse que você é um alienígena disposto a matá-lo, certamente você tentaria fazê-lo desistir de tal interpretação errônea. Tentaria descobrir por que ele desenvolveu essa perspectiva, mas não ficaria sentado, passivamente, enquanto estivesse sendo acusado. Em vez disso, procuraria persuadi-lo da verdade.Poderia, até mesmo, repreender o amigo por se ater a uma interpretação, a despeito de todas as evidências e conselhos contrários. Da mesma forma, quando a pessoa deprimida quiser interpor suas ideias distorcidas e nocivas da vida, você não poderá simplesmente ficar sentado observando, sem intervir. Precisará desafiar, interrompendo a interpretação incorreta, porque ela é errada e simplesmente levará a maior desesperança. Isso, claro, é normal nos relacionamentos em que existe amor. Contudo, na depressão, às vezes, os amigos não procuram seguir caminhos normais de interações. Talvez temam que a pessoa deprimida se sinta rejeitada. Talvez, tenham medo que a mínima provocação leve ao suicídio. Sendo assim, muitas vezes, as pessoas deprimidas são tratadas com excesso de cuidado – como se estivessem carregando uma tocha junto a uma bomba de pavio curto. Sabedoria e amor, certamente, precisam dominar no relacionamento com a pessoa deprimida, assim como em qualquer relacionamento. Se você descobrir que está sendo crescentemente relutante para dizer coisas que são importantes, reconsidere o seu caminho. Converse com alguém que já esteve em situação semelhante. Se estiver reticente para falar de assuntos que julga ser importantes, talvez não esteja realmente envolvido em um relacionamento. Geralmente, quanto mais próximo o relacionamento, mais devemos estar abertos para o outro. Não hesite em interromper o rio de desespero, autocomiseração e reclamações que só reforçam as interpretações não bíblicas que a pessoa entretém sobre Deus e sobre si mesma. Fazer isso cedo demais no relacionamento com uma pessoa deprimida (ou com qualquer pessoa) poderá comunicar que você, na verdade, não quer entender. Poderá fazer a outra pessoa calar. Contudo, a explicação do seu propósito poderá ser facilmente interpretada como uma expressão de amor. Vou interrompê-lo por um segundo. Você consegue perceber o que está acontecendo? Quanto mais você fala, mais desesperado fica. Dá para ver isso. Na verdade, sinto isso mesmo em mim. Vamos seguir um plano. De agora em diante, cada vez que eu perceber uma onda de interpretações depressivas, que na verdade são antibíblicas, desmoronando sobre você, eu vou apontá-las e tentar fugir delas junto com você. Resposta Há mais na perseverança do que você imagina. Não é apenas uma palavra que aparece rapidamente na Escritura. Perseverança é algo poderoso, uma resposta profundamente espiritual para as lutas que não desaparecem de repente. Quando perseverarmos juntos, estaremos imitando uma das gloriosas facetas do caráter de Deus. É aqui, na perseverança junto a alguém que luta contra a depressão, que você tem uma vantagem sobre os especialistas. O especialista dá a consulta para, depois, cada um seguir o seu caminho. Amigos e familiares continuam juntos da pessoa deprimida. É verdadeiro que a depressão corrói o coração de um relacionamento, mas podemos observar também a bênção do Senhor enquanto perseveramos. “Olhando para trás, eu diria que permanecer firme com a pessoa amada, mediante todos os seus dramas estressantes, poderá vir a ser algo incrivelmente recompensador”.³ A palavra “comum” surge incessantemente. Isso em nada diminui a beleza e o poder do ministério impulsionado pelo Espírito, porque a obra de Deus sempre será extraordinária. Contudo, enfatizamos que Deus determinou que seremos mais encorajadores uns dos outros, utilizando meios comuns, que não exijam especialização técnica. A sabedoria da Escritura é de domínio público. Se começarmos a dizer coisas que chamem a atenção ao nosso próprio entendimento e sabedoria, é bem provável que percamos de vista os meios normais que Deus usa para nos transformar. 1 GEISLER, R. B. e SWANN, W.B. Jr. “Striving to Confirmation: the Role of Self-Verification in Depression”, in JOINER, Thomas e COYNE, James C. (editores), The Interactional Nature of Depression (Washington, D.C: The American Psychiatric Association), p. 189-218. 2 JAMISON, K.R. Night Falls Fast: Understanding Suicide (Nova York: Knopf, 1999), p. 291. 3 STYRON, Rose, “Strands”, in CASEY, Nell, org., The Unholy Ghost: Writers on Depression (Nova York: HarperCollins, 2002), p. 137. Capítulo 23 O que tem ajudado Cada pessoa é diferente. Uma história que seja tocante para uma pessoa poderá ser incompreensível para outra. Uma estratégia que lhe pareça essencial poderá não ter nenhum significado para outra. Assim, as listas seguintes são ideias lançadas como sugestões iniciais e não para esgotar o assunto sobre o que faremos. São ideias específicas que já ajudaram outras pessoas deprimidas. Senti que as coisas começaram a mudar quando... Esta primeira lista vem de pessoas que já estiveram deprimidas, a quem pedimos para completar a frase: “Senti que as coisas começaram a mudar quando:” 1. Comecei a falar ao meu coração, em vez de escutar a mim mesmo. Passei a citar textos diferentes da Escritura, em vez de escutar minhas vozes internas que soavam inconsoláveis. 2. Parei de dizer: “Não vai dar certo”. Estava sempre procurando a resposta. Orava, tentando fazer barganhas com Deus, considerava meu próprio coração por uns poucos minutos, ou tentava exercitar alguma atividade espiritual, por breve tempo. Quando não dava certo, eu desistia. Encontrava sempre uma justificativa para desistir. Agora, creio que realmente dará certo. Há contentamento e, até mesmo, alegria em dar pequenos passos de fé e obediência a longo prazo. 3. Eu tinha um amigo e um pastor que mantinham à minha frente um grande quadro do reino de Deus. A depressão tornava meu mundo muito pequeno. Quando vi que Deus está agindo, comecei a ter esperança. 4. Minha filha ficou muito doente. Isso me forçou a olhar para fora de meu mundo interior. 5. Uma amiga não abriu mão de mim. Demonstrou amor e apontou para a verdade, mesmo quando eu não queria ouvir de Jesus. 6. Uma amiga permitiu que eu “tomasse emprestada” a sua fé. Minha própria fé era tão fraca, mas ela sempre tinha confiança na presença e amor de Deus pela igreja e até mesmo por mim. 7. Perdoei meu pai. 8. Ouvi muitas historias de tristeza e de vitória dos amigos. 9. Percebi que noventa por cento do que sentia era orgulho. Eu achava que merecia algumas coisas de certas pessoas – tudo se tratava de mim. 10. Uma amiga que me conhecia bem disse que eu estava me fazendo de mártir. Fiquei chocada, mas sabia que ela me amava e estava certa. 11. Passei a acreditar que estava em uma batalha e comecei a lutar. 12. Percebi que eu estava fazendo coisas em vez de permitir que algo fosse feito em meu favor. Por exemplo, estava fazendo ira; estava me queixando todo o tempo. No coração, fazia aquilo que eu queria fazer. 13. Medicação. 14. Um amigo me ajudou a sair da “tirania do que tem de ser feito” para viver, na prática, o evangelho da graça. 15. Reconheci que minhas interpretações eram falhas. Eu tinha uma enorme falta de entendimento e fiz muitas acusações falsas. 16. Comecei a me forçar para ler e escutar a Escritura. 17. Comecei a compreender a graça de Deus. Passei a perceber que revolver-me na culpa era uma forma de justificação por meio de obras, e não tristeza segundo Deus. 18. Uma vez que percebi que o reconhecimento do meu pecado era uma coisa boa, passei a dizer a mim mesmo: “Quando em dúvida, arrependa-se”. 19. Decidi. 20. Realmente não sei o que foi que Deus usou, porque foram tantas coisas aparentemente pequenas. “Não me ajudou quando...” Esta segunda lista é de coisas que não ajudaram. “Não me ajudou quando”: 1. Fiquei a procurar pecados superficiais em minha vida. Focalizava pecados específicos, como, por exemplo, o modo como eu falava com meus filhos, e não olhava para o pecado mais profundo que motivava meu senso de carência. 2. Eu estava irado, e ninguém tentou entender o que minha ira dizia sobre meu relacionamento com Deus. Eles só diziam que eu tinha de fazer o que é certo. 3. Eu estava irado e as pessoas diziam que eu tinha todo o direito de me sentir assim. 4. Disseram-me que eu teria de me amar mais.5. Disseram que eu tinha de abaixar as minhas expectações quanto a mim mesmo. 6. As pessoas davam respostas antes mesmo de me escutar. Parecia que todos tinham algum remédio para oferecer. 7. As pessoas falavam demais. 8. Amigos não diziam algumas das coisas que pensavam. Tinham medo de falar com sinceridade porque achavam que eu estaria fragilizado demais para escutar. 9. As pessoas se esforçavam demais. Estratégias específicas A lista seguinte contém tarefas para casa e estratégias específicas que têm ajudado as pessoas. 1. Tome uma história bíblica e leia-a diariamente. Escreva dez (ou mais) aplicações para o texto lido. A ideia básica dessa e de outras tarefas é que a pessoa deprimida seja motivada a meditar. Senão, sua mente será levada a maior desespero. No afã de ajudar, talvez você pense em tentar tudo o que for possível, em vez de se firmar em uma coisa até que a pessoa consiga realizá-la e, só então, passar para a seguinte. Se a pessoa deprimida consegue perceber o mérito dessa única estratégia de batalha, e estiver disposta a cooperar, prossiga com a tarefa até que seja completada. 2. Encontre dez qualidades positivas em uma pessoa amiga. Anote-as e mande essa lista para ela. 3. Escreva qual o seu propósito de vida. Permita que outras pessoas façam uma revisão dele. Em seguida, memorize-o. 4. Torne-se especialista naquilo que Deus diz ao sofredor. Comece, por exemplo, com Hebreus 10-12. 5. Tome nota de ensinos e aplicações do sermão de domingo que sejam bons, importantes e verdadeiros. 6. A cada dia, fale ou escreva algo que edifique o próximo. 7. Tome um aspecto da criação (por exemplo, a relva, uma árvore, um esquilo, uma folha) e considere-o até poder dizer que é realmente bom. 8. Ouça a palavra de Deus. Escute música que aponte para Cristo, ou peça a alguém que leia ou ensine aquilo que ele está aprendendo, de modo que você possa resumir o que ouviu. Pratique a arte de escutar. 9. Fique de olho nas reclamações ou murmurações. Tal como a maledicência, o pecado da murmuração se tornou coisa aceitável em nossa cultura e, assim, não enxergamos suas raízes feias. O que é que a murmuração está realmente dizendo? 10. Pense nestas perguntas: Em nossa cultura, nós teríamos nos esquecido dos benefícios das provações? Quais são alguns dos possíveis benefícios do sofrimento (Sl 119.67, 71; 2Co 1.8-10; Hb 5.8; Tg 1.3)? 11. Dado que o rótulo de “depressão” não consegue captar toda a profundidade da sua experiência, que outras palavras (especialmente palavras que se encontram na Escritura) poderão traduzir de forma mais concreta aquilo que se passa em seu coração? 12. Procure ajuda. Peça a algumas pessoas que orem por você e que lhe falem a verdade. Quando pedir oração, não peça apenas para ter alívio da depressão. Use a oportunidade para fazer grandes orações. Por exemplo, pedir que você conheça o amor de Cristo (Ef 3); ore para que você seja mais semelhante a Jesus (Rm 8.29); peça que possa amar mais ao próximo; peça discernimento do que significa hoje dar glória a Deus. 13. Nem sempre podemos mudar nossos sentimentos, mas podemos mudar o modo de pensar. Que pensamentos precisam ser mudados? Comece, dizendo um enfático “PARE!”, sempre que notar que eles aparecem. 14. Pergunte-se: o que estou ganhando com minha depressão? Talvez não tenha respostas nem a pergunta pareça relevante, mas será um lembrete para nos conscientizar de que, muitas vezes, estamos fazendo mais do que percebemos. 15. Faça uma representação gráfica da sequência da depressão. Comece com um evento recente que o tenha tirado do sério. Seja o mais específico possível quanto aos passos que seguiu para restaurar o equilíbrio. 16. Quais são as suas opções? Talvez você sinta que percorre uma longa trilha de desesperança, mas isso não é verdadeiro. Você toma decisões a cada dia. No presente momento, você se encontra em mais uma encruzilhada. 17. Procure outra pessoa deprimida e fale a ela palavras de encorajamento. 18. Jamais recorra à Escritura sem nela buscar a Jesus. 19. Tome cuidado ao fazer análises pessoais. Passe a sua análise para ser revisada por outra pessoa. 20. Caminhe o mais rápido que você puder, juntamente com outra pessoa. Agora, com a máquina engrenada, o que você acrescentaria a essas listas? Capítulo 24 O que esperar A depressão aumenta e diminui. Poderá passar um tempo de muita ferocidade para, depois, permanecer, silenciosa, no pano de fundo. Poderá persistir firme durante longos períodos para, então, perder a força e nunca mais voltar. Quando a depressão perde a intensidade, haverá sempre a possibilidade de que ela esteja à espreita para voltar, e isso poderá atemorizar o coração de quem a experimentou. Como todo sofrimento humano, a depressão é de difícil previsão. Ainda que tenha a tendência de aparecer inesperadamente, existem algumas coisas que podemos prever a fim de nos prepararmos para enfrentá-la. Fique de sobreaviso Uma das razões pelas quais precisamos escutar a depressão é que ela tem um histórico. Geralmente, há uma razão para que ela surja. Se você pensar em seu próprio histórico de depressão, poderá perceber alguns avisos. Por exemplo, avisos físicos, como fadiga e mudanças nos hábitos do sono. Poderá perder o interesse pela comida. As cores poderão não parecer tão vibrantes, e você, talvez, não tenha reações normais diante de pessoas e atividades que antes apreciava. Espiritualmente, poderá se perceber irado, solitário ou sem consolo em face da lembrança de que Deus é o soberano amável que está no controle de tudo. Escreva isso em uma pedra: se a depressão lhe der indicações prévias – e, em geral, ela o faz –, municie-se com tudo o que tem e prepare-se para a batalha. Empenhe sua alma. Peça ajuda. Force-se a uma alimentação mais consistente das Escrituras e de outras palavras de esperança. Esteja vigilante quanto à autopiedade, murmuração e queixas. Esteja bem próximo da cruz. Se permitir que esses sentimentos corram seu curso, logo você perderá vitalidade e se entregará à depressão. Mas, com a prática, você observará que já possui mais recursos do que imaginava ser possível para repelir a pior parte da depressão. Espere ser ensinado sobre Deus e sobre você mesmo Um homem de quarenta anos e propenso a flutuações depressivas, ao perceber os sinais de aprofundamento da depressão, perguntou a si mesmo: O que Deus vai me ensinar desta vez? Na verdade, aguardava com prazer aquilo que estava para ser ensinado na escola de Deus. Se estivermos dispostos a ser treinados pela depressão, veremos que ela é uma boa mestra. Isso não significa que devamos procurar a depressão e, certamente, não quer dizer que não devamos buscar alento. Contudo, a maioria das pessoas dispostas a ser ensinadas pelo sofrimento poderá olhar para trás com gratidão. Os que sofrem doenças crônicas testificam quanto a isto. Com exceção da doença, a saúde é a melhor coisa do mundo. Na verdade, sabendo o que Deus tem feito por mim por meio da fraqueza física, e convencido de que certas bênçãos jamais poderiam ter vindo de outra maneira, a não ser por esta experiência, sinto que teria sido calamitoso se eu não tivesse tido o sofrimento físico pelo qual passei.¹ Depois de passar três anos em um campo japonês para prisioneiros de guerra, um oficial britânico que encontrou Cristo naquela prisão disse algo que só um verdadeiro seguidor de Cristo poderia dizer: Bem, tudo acabou. Eu não teria perdido isso por nada. Na verdade, foi duro. Mas aprendi muito mais do que jamais teria aprendido na universidade ou em outro lugar qualquer. Por exemplo, aprendi que as coisas da vida são reais; aprendi também que é maravilhoso estar vivo... O sofrimento não mais nos prende à casa de detenção da autopiedade, dó de si mesmo; ao invés disso leva-nos ao que Albert Schweitzer chamou de “comunhão dos que portam as marcas da dor”. Olhamos para a cruz e fomos fortalecidos com o conhecimento que há ali, o conhecimento de que Deus estava em nosso meio.² Embora essas perspectivas nos pareçam extremadas, vemosesse tipo de testemunho em toda a igreja. Os benefícios do sofrimento são bem conhecidos. Por exemplo, entre os argumentos usados por conselheiros na reabilitação de usuários de drogas está o de que drogas, como remédios, mascaram o sofrimento, fazendo com que os viciados evitem a dor e não enfrentem a realidade para aprender dela. O resultado é que permanecem imaturos e faltos de caráter. Depois que Jesus veio ao mundo, contudo, as perspectivas sobre o sofrimento tornaram-se mais radicais. Hoje, o sofrimento é visto como as dores de parto – não um evento aleatório e sem propósito. Com a vinda de Jesus, o sofrimento tornou-se redentivo. Faz parte do caminho do peregrino, e é bom. Como diz Romanos 5.3-4: “nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança”. O sofrimento é um professor. Jesus ensinou (Hb 5.8) e poderá nos ensinar também. Mas só o faz quando estamos com os olhos fixos nele. Se nós o evitarmos em meio à dor, certamente nos tornaremos amargurados. Porém, se olharmos para Jesus, nós não estaremos sós. Seremos fortalecidos e transformados. Podemos dizer: Era exatamente disso eu precisava. Pela depressão, aprendi mais sobre Deus e sobre mim mesmo. Teria sido uma tragédia não ter aprendido. Espere que Deus o use à medida que você ama ao próximo Uma das lições que Deus nos dá é sobre o amor. “Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou” (1Jo 3.23). Amar a Deus e amar ao próximo é o resumo de nosso propósito. Se nos dispusermos, poderemos esperar crescimento no amor por outras pessoas. Quando nos dispomos a amar ao próximo mesmo em meio ao nosso sofrimento, a glória de Cristo ficará indubitável. É tão extraordinário que não passa despercebido. Em geral, quando padecemos, não pensamos nos outros. Só pensamos em como encontrar alívio. Mas o Espírito nos torna mais parecidos com Jesus, e Jesus certamente amava profundamente ao próximo, mesmo quando sofreu intensa dor e rejeição. Podemos, contudo, esperar impedimentos. Deste lado do céu, o amor não cresce sem lutas. Mesmo que a glória de Cristo esteja sempre ao alcance, ainda encontraremos em nosso próprio coração uma resistência que permanece favorecida pelas forças das trevas. Podemos encontrar tal guerra em numerosas reações comuns: – Tentei, mas não deu certo. – De que adianta? – Jesus pode fazer isso, mas eu não sou Jesus. Ou então as pessoas simplesmente ignoram. Para elas, o chamado ao amor nem merece resposta. Você também tem suas desculpas. Quando se dispuser a imitar o amor sacrifical de Jesus, deverá esperar resistência do próprio coração. Para alguém seguir a Cristo, será imprescindível a obra do Espírito de Cristo. O amor ao próximo vem da confissão: Senhor, eu preciso de ti. Vem de fé e confiança. Quando aceitamos o desafio de amar ao próximo, será revelado mais sobre o nosso coração, pois nossa tendência é amar com condições. Por exemplo, amar aos outros se isso aliviar a depressão. “Está bem, Deus. Fiz a minha parte – agora o Senhor faça a sua!” Ou amaremos o próximo a fim de que sejamos amados pelos outros. Se o nosso amor proceder de qualquer outra razão, exceto que “Nós o amamos porque ele nos amou primeiro”, seremos decepcionados. Se encontrarmos alegria no amor ao próximo, certamente virá da constatação de que fizemos algo mais importante do que simplesmente aliviar a depressão. Teremos visto a ação do Espírito de Deus em nossa vida. Teremos obtido evidências de que pertencemos a Cristo, e de ele estar nos usando para cumprir os seus propósitos. Ainda que o mandamento de amar ao próximo seja muito simples, não é natural que amemos da maneira como Deus nos ama, especialmente quando nos sentimos vazios. Espere o sobrenatural em sua vida. Espere se tornar um embaixador do Rei do amor. Espere que sua depressão seja “leve e momentânea” A carta mais pessoal do apóstolo Paulo foi a sua Segunda Epístola aos Coríntios. Toda carta revela alguma coisa sobre seu autor, mas a maioria das cartas paulinas tratou da natureza do evangelho e sua aplicação à vida. Não eram altamente autobiográficas. Contudo, em 2Coríntios, Paulo estava sendo atacado. Falsos mestres sugeriam que Paulo não tivesse qualificações para falar com autoridade. Neste contexto, ele falou muito pessoalmente A fim de estabelecer as credenciais apostólicas, ele destacou, em especial, que sofrera grandes dificuldades e provações devido ao evangelho de Cristo. Suas provações eram tamanhas que Paulo pensava que fosse morrer (1.8). Isso aconteceu repetidamente (11.23), Foi “atribulado de todos os lados”, “perplexo”, “perseguido” e “abatido” (4.8-9). Cinco vezes recebeu trinta e nove açoites; foi três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; (11.24-25) aprisionado e centro focal de uma revolta (6.5). Foi apedrejado e deixado como morto (11.25). Passou muitas vezes sem comer e sem dormir (6.5). Naufragou três vezes, sendo que uma ele passou na voragem do mar (11.25). Viveu com uma doença debilitante (12.7). Foram essas apenas algumas das dificuldades pelas quais Paulo passou. O ponto é o seguinte: quando fala sobre sofrimento, Paulo tem credibilidade. Algumas pessoas dizem: “Sim, Jesus sofreu, mas ele era Deus, e assim pode suportar tudo”. Isso, naturalmente, é uma manobra para manter Jesus à distância e justificar a autopiedade. Mas, tratando-se de Paulo, essa desculpa é quase impossível de ser aceita. Paulo era gente como nós e seus sofrimentos foram bem mais intensos do que os nossos. Mantendo isso em mente, considere a avaliação do que ele fez de sua vida sofrida: Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas. (2Co 4.16-18) Paulo chamou seu sofrimento de “breve e momentâneo” – e ainda estava sofrendo! Imagine uma balança – daquelas antigas em que um peso conhecido é colocado de um lado e o item a ser pesado do outro. Se os pesos originais fossem honestos, seria possível conhecer o peso de alguma coisa, mediante o equilíbrio da balança. Paulo está dizendo que, na verdade, o sofrimento pesa e oprime. Mas o que ele recebeu em Cristo tem peso ainda maior. Isso mais que contrabalança os pesos do sofrimento, tornando-os, em comparação, leves e efêmeros. Parece impossível, ou pelo menos, exagero, mas todos nós já tivemos a experiência de algo semelhante. Uma criança cai e rala o joelho, mas seu choro cessa assim que ela ganha um pirulito. A dor não desapareceu imediatamente, mas a alegria é maior. Melhor: a criança cai e rala o joelho, mas o seu choro para tão logo sua mãe a tome nos braços e a conforte. A dor não sumiu, mas ela possui algo ainda melhor. Um menino, na escola de primeiro grau, sente-se rejeitado porque foi o último a ser escolhido para o time de futebol, mas a vergonha desaparece no momento que ele faz um gol, segundos antes de o sinal tocar. Uma mulher perde o emprego devido à redução de custos na firma, para, momentos depois, ser contratada pela companhia ao lado – com um salário melhor. Todos conhecemos situações ruins que são contrabalançadas por algo muito melhor. Para que Paulo tivesse um contrapeso maior e melhor do que seu sofrimento, precisaria ser algo realmente extraordinário. Encontrou isso em Jesus. Só isso trará a esperança que você também precisa. É como encontrar alguém que passou por depressão severa, e diz: “Consegui me livrar! Estou muito melhor. Você também vai conseguir!” Mesmo sem saber como essa pessoa conseguiu vencer, você é encorajado, pelo menos, ao saber que é possível vencer. Paulo se alegrou com a possibilidade de compartilhar seu remédio conosco,e deixou claro que ele se encontra disponível para todos que quiserem, independentemente de quem somos – ou mesmo o quanto estejamos velhos, doentes ou feridos. Você acha que Deus é sovina? Sim, acha. Contudo, Paulo lembra que Deus fez uma balança de promessas, e todas elas são “sim” (2Co 1.20). Ele perdoa? Sim. Jamais nos deixará nem nos abandonará? Sim. Ama-nos com amor eterno? Sim. Demonstrará paciência sem limites? Sim. Fará de nós sua noiva? Sim. Sabe como parecemos quando buscamos a Jesus? Lembre-se de Moisés, ao descer da montanha. Seu rosto brilhava pelo reflexo da luz de Deus, de modo que ele usou um véu para encobrir a glória desvanecente. Paulo aludiu a essa história quando disse: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co 3.18). São essas algumas das razões pelas quais o sofrimento lhe pareceu leve e momentâneo. À luz do que tinha recebido, sua dor era mínima. Contudo, não foi somente o que ele recebeu. Era também o que ele receberia. Paulo se alegrava com os benefícios presentes da cruz, contudo, sabia o bastante sobre a miséria e o pecado para manter os olhos fixos naquilo que estava adiante dele. Aguardava especialmente a glória eterna – a glória do porvir. De algum modo, essa esperança mudava tudo. Resposta A depressão proporciona uma visão de túnel. A Escritura nos dá visões que se estendem do início da criação e vai por toda a eternidade. Se você não estiver deslumbrado pela expansão que a Escritura abre à sua frente, seja persistente. Na medida em que continuarmos olhando, veremos cada vez mais. Um de nossos alvos é permitir que as palavras do apóstolo Paulo sejam nossos olhos até que possamos ver com mais clareza. 1 FROST, H.W. Miraculous Healing (Nova York: R. Smith, 1931), p. 45-46. 2 GORDON, Ernest, Miracle on the River Kwai (Wheaton, IL: Tyndale, 1984), p. 158, 287. Parte IV Esperança e alegria Pensando os pensamentos de Deus Capítulo 25 Humildade e esperança Em qualquer livro, o final da história faz toda a diferença. Uma história trágica como a de Romeu e Julieta, de Shakespeare, começa bem, com as pessoas plenas de esperança e amor – mas acaba mal. Uma comédia tal como Muito barulho por nada inicia com presságios tenebrosos e tramas de traições. O futuro parece incerto, mas termina de modo maravilhoso. É o final do filme, mais que o humor, que o torna engraçado. Você precisa resolver se vai viver a vida como tragédia ou comédia. A história que Jesus nos oferece é um drama alegre. Quando assistimos pela primeira vez a um bom filme cômico, ainda ficamos tensos porque não sabemos qual rumo a história irá tomar. Queremos o melhor para as personagens principais, mas parece que alguma coisa está sempre interferindo. Quando finalmente chegamos ao fim e os heróis estão vivendo felizes para sempre, enquanto os vilões recebem o merecido castigo, relaxamos. Shakespeare estava certo – Tudo está bem quando acaba bem. Assista à peça ou ao filme uma segunda vez. Dessa vez, você já conhece a trama. As dificuldades ainda estão ali; a ideia de que acabará mal ainda está ali, mas, agora, você tem certeza de esperança. Está alerta aos sinais de que as coisas logo vão melhorar. Não tem o mesmo medo ou peso de quando assistiu pela primeira vez. Ainda passa por uma série de emoções. Chora e ri, nos mesmos pedaços. Mas interpreta a história toda com referência ao clímax final. Como aquele leitor que começa a ler o livro pelo último capítulo, você vê as dificuldades sob uma luz muito diferente. A Escritura conta o final, e, se tivermos depositado nossa fé em Jesus e não em nós mesmos, esse será também o nosso final. Jesus vence. Sua justiça prevalece. Vemos o seu amor tal como realmente é – irresistível e sem limites. Nossa união em Cristo excede a imaginação. Veremos a vida com propósito muito maior do que imaginávamos. Tudo quanto fizermos pela fé – por Jesus – permanecerá firme e redundará “em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” (1Pe 1.7). É claro que tal conhecimento, somente, não apaga nossa tristeza. Como disse Nicolas Wolterstorff, em Lament for a Son [Lamento por um filho], somos “visionários doloridos”.¹ Porém, saber o final mostra que a tristeza e a morte não terão a vitória. Para quem conhece Cristo, vida e alegria são as últimas palavras. A história de Deus Até aqui, você sabe que a esperança é uma questão-chave para a depressão. A transição crítica é do desespero para a esperança. Você entende também que Deus fez promessas, e é do seu agrado que nós aguardemos o cumprimento delas com alegria. Deus preza a esperança. Significa que nós não tentaremos encontrar nosso lar na terra, mas aguardamos o melhor de tudo – encontrar nosso lar na presença de Deus. Uma coisa peço ao Senhor , e a buscarei: que eu possa morar na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo. (Sl 27.4) A desesperança significa que: Não estamos dispostos a esperar Queremos alguma coisa mais do que queremos a Jesus Realmente não conhecemos a Jesus Conquanto nossa cultura exalte riqueza e saúde, a esperança é uma das mais cobiçadas possessões espirituais. Obtemos esperança quando a pedimos e praticamos. Praticamos esperança ao lembrar e meditar na história de Deus. Sem a história de Deus, todos estarão deprimidos, sem esperança e cheios de desespero, pois, juntamente com todas as histórias falsificadas, tudo que almejamos sem Deus acabará, agora ou no futuro, em ruínas. Simplesmente, não há esperança. “Por que se importar?” é uma questão que colore todas as coisas. Sem a história da cruz e da ressurreição, somos como pessoas que acabaram de vender a casa para um empreendedor que planeja derrubar tudo amanhã para fazer um estacionamento no local. Em um caso desses, você não compraria carpete novo, não podaria os arbustos nem poderia pintar os beirais da casa. A propriedade será destruída completamente – por que investir tanto dinheiro e esforço? Até mesmo, a história da ciência, com toda confiança de que consegue melhorar todas as coisas, no final, não poderá dar esperança. Alguém que tenha ganhado o prêmio Nobel, nessa área, saberá que realizou grandes descobertas, mas sabe também que seu trabalho apenas arranha a superfície, será lido por poucos, será ultrapassado por outros, e nada fará para vencer a morte. Quanto mais o universo parece compreensível, mais sem sentido ele parece... O esforço de entender o universo é uma das poucas coisas que eleva o espírito humano um pouco acima do nível de uma farsa, dando-lhe um pouco da graça da tragédia.² “A graça de uma tragédia” é o máximo que podemos esperar, se não contarmos uma história diferente. Talvez a “graça da tragédia” seja o bastante para aqueles que encontram certo romance e heroísmo em um ponto de vista completamente pessimista e sem vida; entretanto, tal perspectiva é um luxo para quem, de alguma maneira, encontrou em si mesmo uma esperança temporária. Para o restante de nós, “a modernidade é a tentativa de viver uma história universal sem um contador universal de histórias”.³ Na pós-modernidade, não há história universal nem contador de história. A história de Deus vai de eternidade a eternidade. Começa com um “No princípio Deus...”. Ele é o Criador e nós, as suas criaturas. Essa revisão da história imediatamente subverte todas as demais. As outras histórias sempre procuram maneiras de humanizar a Deus e deificar a nós mesmos, contudo, a história de Deus exalta a ele mesmo e traz a nós, suas criaturas, a devida humildade. Toda sabedoria começa aqui. Se a perdermos de vista, estaremos no caminho errado e sem esperança. Muitas vezes, as palavras de esperança começam com a afirmação de Deus, de que ele mesmo é Criador e nós as suas criaturas. Ouça suas palavras em Isaías 44.24: “Assim diz o Senhor, que te redime, o mesmo que te formou desde o ventre materno: Eu sou o Senhor, que faço todasas coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra”. Neste caso, a revelação que Deus faz de si como Criador é confortante, pois lembra-nos de que não existe outro deus que possa impedir os intentos do Senhor. Os seus planos prosperarão. Isso também lembra aos seus ouvintes de que eles não são Deus. São filhos de Deus e devem somente a ele, e a ninguém mais, a aliança salvadora. A história continua. Deus cria para si um povo, porém, esse povo escolhe uma história diferente. Assim mesmo, ele prossegue com seu plano e busca suas teimosas criaturas. Em tudo existe esperança, porém o pecado e a morte são proeminentes. Eis o porquê de a autêntica história da esperança depender da ressurreição de Jesus – resposta de Deus a um mundo em desespero. A ressurreição de Cristo introduz o clímax extenso da história de Deus, que vai da ressurreição até sua volta final, quando anuncia a consumação de todas as coisas. Durante esse clímax, Deus nos assegura que quem coloca sua fé em Jesus também ressuscitará, entretanto, essa ressurreição corporal terá de esperar até a volta de Jesus. Ele é “as primícias”, o irmão mais velho que prepara o caminho. Nossa própria ressurreição é aguardada em confiança; portanto, por enquanto, nós esperamos. Esperamos com a expectação de quem está prestes a dar à luz ou a se casar – mas temos de esperar. E enquanto esperamos, às vezes, nós gememos. Em meio a esses gemidos, nós esperamos. Vivemos como Jesus, que, em meio ao sofrimento, aguardava sua vida ressurreta junto ao Pai. Se a vida de Jesus foi arraigada em esperança, somos honrados e humilhados pelo fato de que a nossa vida possa ser semelhante. As nossas revisões à história de Deus Se você estiver sem esperança, dentre vários contribuintes para isto, haverá, com certeza, pelo menos dois. Primeiro, você pôs a confiança em algo que não é Deus – em uma pessoa, no dinheiro, na reputação pessoal – e ficou decepcionado. Segundo, talvez você tenha entendido que Jesus venceu a morte, mas vive como se ele ainda estivesse enterrado. Todo desespero é, em última análise, uma negação da ressurreição. Essa falsa profecia faz com que a morte, o desespero, a falta de significado, a ruína e o vazio sejam as últimas palavras. Contudo, a ressurreição venceu a morte, o pecado, a miséria e tudo o mais que foi contaminado pela maldição. A ressurreição é a última palavra. Seu resultado é: “o vosso trabalho não é vão” (1Co 15.58). Você tem clamado ao Senhor em meio às suas dificuldades? A ressurreição diz que tal ato de fé tem valor eterno. Você tem procurado amar em meio ao seu sofrimento? A ressurreição diz que esse ato tem valor eterno. Você tem procurado obedecer humildemente a Jesus? Tem feito alguma coisa por amor de Jesus? A ressurreição diz que isso é um ato de fé que redunda em glória e provará ser mais valioso do que o ouro (1Pe 1.7). Algumas pessoas sem esperança, que aguardam apenas a morte, citam o trecho bíblico que diz “tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23). Mas Cristo não é o que as pessoas desesperadas realmente desejam. Tal conversa sobre Deus é enganosa. O alvo da desesperança é finalizar o sofrimento, e se, por acaso, Deus estiver lá quando isso acontecer, muito bem. A presença de Deus não é essencial para elas. Considere sua própria história. Se você crê em Jesus como o Senhor ressurreto, então a sua história é a seguinte: Fui criado por Deus. Sou seu filho; ele é meu Pai. Sou pecador, mas, como o filho pródigo, o meu Pai me buscou. Enviou Jesus como sacrifício por meu pecado, para me redimir da morte e do maligno. Agora, vivo por aquele que morreu por mim e que está vivo. Luto contra o pecado pelo poder do Espírito Santo e aguardo ansioso o dia quando o pecado e o sofrimento não mais existirão – e assim verei Jesus face a face. Observe como Paulo conta sua história. Começa com seu currículo: foi circuncidado, veio da tribo certa entre os hebreus, dos guardiões certos da lei, a qual guardava integralmente: Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos (Fp 3.7-11). Podia contar, também, outra história mais curta: “Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.21). Uma história desta torna impossível a desesperança. Qual é a sua história? O seu alvo é o de aceitar o que a Escritura conta dela, tornando-a sua própria história, porém, tantas vezes, acrescentamos edições pessoais e fazemos revisões com finais alterados. Inserimos capítulos sobre como precisamos de coisas deste mundo, tais como o amor das outras pessoas ou o sucesso pessoal. Raciocinamos que somos apenas humanos, não reconhecendo que fomos criados para algo muito maior do que esperar nas coisas que foram criadas. Fazemos interjeições de temas que correm independentemente do nosso relacionamento com Deus. Por exemplo, uma parte de nossa história poderá ser sobre o que Deus fez, enquanto a outra trata de nossa busca pela independência. Deixamos a casa do Pai para embarcar em jornadas próprias, e, tolamente, esperamos nesta vida em vez de estar com Jesus. Criamos nossa própria história de sofrimento e a levamos ao ápice de sua libertação ao invés de fazermos isso com Jesus. Todas essas emendas à história de Deus seguramente resultarão na falta de esperança. Melhor que livre de dor A maioria das pessoas acha que a eternidade será melhor do que o presente. É claro que isso é verdade para aqueles que esperam a volta de Jesus. Quando virmos Jesus, ele cumprirá a promessa: “lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” (Ap 21.4). Existe, porém, algo ainda melhor. Assim, se esperamos pelos presentes que Deus nos dará quando estivermos com ele face a face, esperemos o seguinte: quando estivermos com Jesus, não seremos mais pessoas que pecam (1Jo 3.3). Sim, isto é melhor. Pense nisso. Amaremos a Deus perfeitamente. Amaremos ao próximo, sem reservas. Pensaremos menos em nós mesmos e nos deleitaremos com o fato de que a eternidade é sobre Deus e não sobre nós mesmos. Estaremos maravilhados pelo fato de a glória de Deus ser revelada à vista de todo seu povo. Estar livres de toda dor não será mais do que uma agradável percepção que, de vez em quando, surgirá em nossa consciência. Dada uma escolha, a eternidade sem pecado, na presença do Deus que nos ama, será incomparavelmente melhor do que uma eternidade sem dor em que o pecado ainda atormenta. Certifique-se de incluir isso em sua história. Estamos nos tornando aquilo para o que fomos intencionalmente feitos – santos filhos do Deus Altíssimo. Esperança deste lado do céu Quando intencionalmente nos apropriarmos da história de Deus como a nossa própria, estaremos sempre olhando em duas direções. Olhamos para trás, para a cruz, e, aguardamos o futuro, quando estaremos com Jesus, razão de nossa esperança. Quando olhamos para a cruz, vemos o perdão do pecado, a generosidade e o amor de Deus para com pecadores, o fato de que podemos nos aproximar de Deus sem nenhum medo, e a justiça que recebemos dele sem que nós tivéssemos feito algo para merecê-la. Essas e muitas outras promessas são “sim”, e mudam o presente de maneira radical. Vivemos como um povo que recebeu um dom maravilhoso, de modo que a gratidão e a alegria sejam persistentes. Não há por que achar que devemos “pagar” a Deus pelos nossos pecados. Não existe razão a temer. Não temos de achar que precisamos de mais segurança.Disse Paul Tournier: “Viver significa fazer escolhas, e escolher significa correr o risco de cometer erros e aceitar o risco de ser culpado por errar”.⁴ A cruz significa que temos a liberdade de cometer erros. A ressurreição de Jesus comprova que ele é realmente o filho de Deus com todo poder. Redireciona nossa atitude para a ressurreição futura de todos quantos creem. Aponta para o céu – e o céu é o que dá significado ao presente. Significa que sua casa não vai parar nas mãos de um empreendedor que destruirá tudo. Um dia, essa casa será algo de máxima beleza, portanto, você troca os carpetes, cuida do jardim e pinta do lado de fora. Sabe que seu trabalho não será em vão: o mestre-construtor determinou que as suas tentativas, ainda que menores que as de um profissional, contribuirão para a obra-prima final. Nada que fizermos por Cristo será em vão. Isso traz propósito e diligência ao nosso presente. Mas existe algo mais que a esperança realiza, aqui e agora. Abre nossos olhos para que, como o salmista, contemplemos a obra contínua de Deus. Diz o salmista: “Eu creio que verei a bondade do Senhor na terra dos viventes” (Sl 27.13). A verdade da história de Deus é que ele está agindo agora mesmo. Está nos transformando, aumentando sua igreja, e trazendo toda a história para o clímax. O livro do Apocalipse é o melhor ensino conhecido quanto ao fato de que Deus está atuando no presente. Foi escrito a um povo que passava por grande sofrimento, que perguntava se o mal acabaria vencendo, fazendo com que a igreja, aos poucos, não resistisse. A fim de encorajá-la, Deus abre as cortinas do céu para que o povo de Deus veja que seus exércitos estão marchando, agora mesmo. Deus não somente está vencendo como também já venceu. Quando sabemos que uma estratégia de Deus está sendo desenvolvida perfeitamente, vemos muito mais. Por exemplo, se estivéssemos assistindo a uma corrida de dez mil metros das Olimpíadas, e nossa atleta favorita parecesse estar lutando para correr no meio da turma. Talvez você estivesse tentado a acreditar que cada expressão de esforço da atleta é evidência de que ela não ganhará, e a cada volta você tem certeza de que ela vai perder. Porém, se soubéssemos mais detalhes, como o fato de que seu melhor tempo de corrida é mais que vinte segundos superior ao de qualquer outra corredora no campo, ou que ela geralmente acompanha as outras corredoras até os últimos dois lances, para então acelerar em um passo inigualado pelas outras, a situação seria diferente. Será que a expressão facial com a qual compete na pista não é simplesmente o jeito que ela corre? Se soubéssemos desses detalhes, interpretaríamos de maneira diferente aquilo que estamos vendo. Teríamos mais otimismo, ressaltando confiantemente a estratégia, interpretando sua careta como característica pessoal e não uma razão para nos alarmar. Quando olhamos à nossa volta e ao mundo que nos cerca, é possível que fiquemos pessimistas, pois o futuro não nos parece promissor. Mas, quando sabemos a conclusão – que a igreja vencerá e Cristo reinará – podemos ver os atos do Espírito de Deus mexendo nos detalhes. Peça a Deus que abra seus olhos para que você veja a sua bondade na terra dos viventes. Humildade A história de Deus é uma grande história. Nós, porém, somos criaturas de hábitos. As mudanças não nos vêm rapidamente. Apegamo-nos obstinadamente a interpretações passadas e velhas histórias, conquanto a história universal de Deus seja muito melhor. Não é porque nos falte cultura ou conhecimento, mas porque transbordamos de orgulho. Você tem fabricado sua própria história há anos. Não é original – foi formada de pedaços da cultura e das pessoas que admiramos, com suas características pessoais. Mas é sua própria história. Adotar uma história diferente, com outro herói, significa que teremos de dizer: “Eu estava errado”. Dadas as opções, muitos de nós ficamos com a nossa velha história. Mudança profunda raramente é uma questão de conhecimento. É questão de arrependimento. Nós escolhemos um caminho contrário a Deus; o arrependimento é o processo de voltar para trás. Nós escolhemos uma história diferente, cheia de mentiras sutis em relação a Deus, questionando seu amor, cuidado e compaixão. O arrependimento significa que renunciamos a nossa própria história para crer em um Único Contador de História. Só Deus tem autoridade para interpretar nossa vida. A esperança só crescerá no terreno da humildade. Resposta Esta questão é tão importante que merece uma resposta mais extensa. Primeiro, observe que existe uma marca de esperança. Ela se recusa a ceder e a ficar sentada, passivamente, enquanto cresce o desespero. “A esperança encontra em Cristo não somente o consolo no sofrimento, mas também o protesto da promessa divina contra o sofrimento”.⁵ A esperança diz que as coisas não são como deveriam ser, mas faz parceria ativa com Deus para fazer com que o seu reino venha à consumação. É um ato de rebeldia contra o status quo. Segundo, esperança nada mais é do que crença nas promessas de Deus e, portanto, falta de esperança é incredulidade. Com efeito, ela revela que não cremos no que Deus disse. Portanto, é pecado. Terceiro, a esperança é uma atividade da comunidade. A igreja, como tudo mais para as pessoas desesperadas, poderá parecer irrelevante e sem propósito. Mas uma das formas como ela nos abençoa é nos lembrando da história verdadeira. Hinos, orações, sermão e a comunhão fraterna lembram a todos de uma realidade. Muitas vezes, quando vão à igreja, pessoas sem esperança desafiam o pregador a dizer coisas que as ajudem. O resultado é que perdem o reconto da história. A esperança é uma habilidade desenvolvida com o tempo. É também uma ventura corporativa que necessita da repetida lembrança do corpo de Cristo. Comprometa-se com uma igreja em que a história de Deus seja relatada e procure nela oportunidades de lembretes diários. Finalmente, um breve resumo deste capítulo: aprenda a dizer: “Vem Senhor Jesus” (Ap 22.20). Isso nos lembra que nossa esperança é uma pessoa – Jesus – e essa esperança é certa. Sua resposta ao apelo é: “Sim, eu venho em breve” (Ap 22.20). Qual é o seu plano para crescer em esperança? 1 WOLTERSTORFF, Nicholas. Lament for a Son (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 86. 2 WALLS, Jerry L. Heaven: the Logic of Eternal Joy (Nova York: Oxford, 2002), p. 175. 3 Heaven, p. 174. 4 TOURNIER, Paul. Guilt and Grace (Nova York: Harper and Row, 1962), p. 107. 5 MOLTMANN, Jurgen. Theology of Hope (Nova York: Harper & Row, 1967), p. 21. Capítulo 26 Gratidão e alegria Toda pessoa deprimida deveria dispor-se a ser especialista em alegria. É uma proposta absolutamente sem riscos. O pior que poderá acontecer será honrar a Deus (Sl 126.1-2), e se surpreender com a promessa de tão grande contentamento, que permite sentir o gosto da alegria mesmo no meio do sofrimento. Contudo, verdade seja dita, existem barreiras e riscos que poderão impedir a busca da pura alegria. A depressão poderá ser uma companhia conhecida – repugnante, mas, ainda assim, companheira. Sempre que uma experiência tem longa duração em nossa vida, aos poucos passamos a derivar dela alguma identidade pessoal. Por exemplo, a depressão poderá ser muito poderosa no modo como domina os relacionamentos. Para quem nunca teve impacto sobre os outros, a depressão muda as coisas. Poderá nos colocar no centro das atenções, foco das preocupações das outras pessoas. Outro risco é que, geralmente, a depressão quer alguma coisa que, ao mesmo tempo, rejeita. E se o desejo for satisfeito e, ainda assim, permanecerem dor e desespero subjacentes? E aí, o que fazer? Quando frustrados, muitas vezes, pensamos que queríamos a satisfação de todos os nossos desejos e emoções... Contudo, nenhum entendimento das paixões será possível até que compreendamos e apreciemos este fator importantíssimo e talvez surpreendente: a permanência da insatisfação, geralmente, é mais importante para nós do que a bem-sucedida expressão de satisfação.¹ Se, de alguma forma, a irafizer parte de nossa depressão, a possibilidade de alegria cria um dilema desafiador. Ao pensar que outros, inclusive Deus, tenham errado em relação a você, terá criado uma escolha difícil de ser tomada, se essas mesmas pessoas fizerem algo especialmente agradável em seu favor. Considere uma menina de seis anos de idade que esteja irada porque tem de fazer suas tarefas antes de sair para brincar. A fim de mostrar sua ira e deleitar-se na autopiedade, ela completa as tarefas com bastante barulho, repele os pais e se fecha no quarto. Até aí, tudo bem. Mas o que ela fará quando os pais a convidarem para sair e tomar um sorvete e ir ao minigolfe? Se ela disser não, prejudicará a si mesma por causa do amor que tem pelo sorvete e o minigolfe. Então, ela resolve dividir a diferença, aceitando o convite dos pais, enquanto fará o máximo de esforço para parecer miserável. Mas a cada bocado de sorvete ou ponto no minigolfe, ela terá de mascarar a alegria. Em outras palavras, existe algo de maravilhoso na alegria, mas há também algo de humilhação. A alegria retira a atenção de nós mesmos e a coloca em Deus e em tudo que tenha fonte em Deus – tudo que seja verdadeiro, nobre, justo, puro e belo (Fp 4.8). É possível dividir a diferença e considerar a alegria com um coração dobre, mas estejamos avisados de antemão: se abrirmos uma fresta da porta para receber a alegria, encontraremos mais do que esperamos. Comparação entre alegria e gratidão Poderemos também escolher a gratidão como uma área de especialidade. Muitos livros cristãos sobre depressão nos motivam – sabiamente – à prática da gratidão. A habilidade da gratidão poderá impedir a mais sombria depressão: poderá, até mesmo, fortalecer nossos ombros e tornar o sofrimento mais leve. Gratidão começa com um senso de nosso próprio desespero. Somos carentes, incapazes de suprir as nossas necessidades. Então, vem alguém e nos dá aquilo que não conseguimos por nós mesmos, e nossa situação melhora. Em troca, ficamos cheios de gratidão. Quando estamos diante de Deus, a gratidão começa com o reconhecimento de nossa carência espiritual. Somos pecadores que só conseguem pecar; merecemos de Deus a rejeição eterna. Deus, por sua vez, nos busca, abre nossos olhos à sua graça e misericórdia, e satisfaz nossas necessidades mais profundas, nossa sede espiritual. Nossa situação melhora grandemente. De nossa parte, somos eternamente gratos. A maior parte dos presentes vem de uma só vez, mas as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã (Lm 3.23) e seu amor é para sempre. Portanto, sempre damos graças. “Rendei graças ao SENHOR, porque ele é bom, e a sua misericórdia dura para sempre” (Sl 107.1; 118.29; 136). Não haverá como errar, se permitirmos que a Escritura nos dê razões para gratidão. Mantenha um bloco de papel junto à Bíblia e anote tais razões à medida que for lendo. Utilize também os horários de refeições para dar graças a Deus por todas as suas provisões. A alegria é ainda melhor. A gratidão é entretida em virtude de um benefício que tenhamos recebido. A alegria inclui a gratidão, porém o seu deleite é na beleza de Deus e em sua profunda bondade em todas as coisas que dele provêm. A alegria chama a atenção para fora, com uma apreciação não possessiva por algo que é bom. Por exemplo, você está em um barco, prestes a soçobrar. Os ventos assolam as águas como um sorvedouro prestes a engoli-lo em minutos. Jesus diz uma palavra e as águas se acalmam completamente. No entanto, ninguém diz nada para agradecer. Estão maravilhados demais (Mt 8.23-27). Esse senso de maravilha ante o poder de Jesus é o início da alegria. Não é primariamente autorreferencial. A alma está mais do que satisfeita por simplesmente contemplar a majestade daquele que acaba de falar. Outro exemplo. Você é cego. Jesus vem em sua direção e você clama por misericórdia. Ele para e pergunta o que você deseja. Você pede para enxergar. Quando ele concede, você não fica simplesmente grato – você o segue! Isso também é o começo da alegria. Sua atenção é mais cativada pelo Doador do que pelo benefício recebido (Mt 20.29-34). As palavras gratidão e ações de graças podem ser encontradas dezenas de vezes na Escritura. Alegria, felicidade, regozijo e deleite são encontrados centenas de vezes. Alegria no sofrimento Alegria não é antônimo de sofrimento. Se fosse assim, a pessoa que tivesse prática na alegria poderia abafar a dor, porque uma não existiria na presença da outra. Podemos observar isso em funerais de cristãos. São ocasiões sofridas na igreja pela perda de alguém querido. Mas estão também entre os eventos mais cheios de alegria, pois os adoradores contemplam a glória do céu, lembrando- lhes que a morte não é a última palavra. Parece um equilíbrio precário dizer que algumas coisas são simultaneamente boas e ruins, mas tal é a natureza das coisas no presente momento da história. Maldição e pecado persistem; são ruins e nós aguardamos o tempo em que serão erradicados. Mas ainda é possível perceber a bondade original da criação; e as glórias da cruz e tudo quanto dela provêm são evidentes por meio de Jesus. Essas, é claro, são preciosas bênçãos que gozamos e pelas quais louvamos a Deus. Continuamos sofrendo, mas o sofrimento não nos rouba a alegria eterna que já começou. Jó falava sobre sua situação: “minha dor, que ele não poupa – porque não tenho negado as palavras do Santo” (Jó 6.10). Ele se alegrava no fato de não ter negado a Deus nem questionado sua fidelidade em meio a toda provação. Não tinha orgulho disso – mas havia encontrado a alegria. Sabia que Deus via a sua fidelidade como algo bom, e o próprio Jó também viu que isso era bom. Agora, junte isso à promessa de Deus de que ele nunca permitirá que sejamos tentados de modo a tornar inevitável o pecado (1Co 10.13). Isso significa que Deus lhe dará graça para vencer a depressão,e, em especial, o pecado de acusá-lo de errar (Jó 1.22). Você também poderá ter alegria em meio à dor mais implacável. Esse é o precedente para ter “motivo de toda alegria o passardes por várias provações” (Tg 1.2). Tal alegria não é a negação da dor. É alegria porque algo maravilhoso está ocorrendo. A pessoa que passa por provações tem oportunidade de observar como a fé se refina, a perseverança se desenvolve e a maturidade é atingida. São coisas cuja contemplação nos alegra, quer estejam sendo alimentadas em nós quer em outras pessoas. Tédio e depressão Antes de tentar identificar as coisas que provocam alegria, considere como o tédio e a depressão se mesclam. Tédio tem muito a ver com depressão e, às vezes, é seu ponto-chave. Podemos descrever o tédio como depressão sem dor. O tédio é a declaração de que “nada é suficientemente interessante de modo que valha a pena”.² Ele diz: “Eu o desafio a me empolgar – duvido que consiga!” Tudo é chato, em tons de azul e cinza. Há duas maneiras de ficarmos entediados. Primeira, podemos ter os olhos abertos para a feiúra da vida, ao mesmo tempo que estamos cegos para os feixes de glória que se encontram por toda parte, especialmente agora que foi dado o Espírito de Deus. Quando não enxergamos a glória, não há muito neste mundo que valha nossa atenção. Segunda, o tédio é uma forma de orgulho. A pessoa entediada é fria demais para se comover com o que é ordinário ou popular. Quando isso ocorre, “observadores cultos e sofisticados têm a tendência de descartar como maçantes as pessoas que encontram, as reuniões que assistem, os sentimentos que ouvem ou leem. Para isso atestam à fineza de suas próprias sensibilidades”.³ Alegria é o antídoto ao tédio. A alegria diz: “Olhe à volta. Veja a glória de Deus por toda parte”. Procurando a alegria Para obter alegria, é necessário que estejamos dispostos a procurar por ela. Temos de estar dispostos a dar-lhe as boas-vindas, em vez de sentir que estaríamos traindo nossa depressão, se a buscarmos. E é verdadeiro – a busca da alegria é uma traição à depressão! Como no caso da esperança, existe humildade na alegria. Temos de reconhecer que estamos errados. Apostamosem que não existisse beleza – nem em Deus nem em nada mais – mas existe, sim. Comece, portanto, com confissão e arrependimento. Confesse ter discordado de Deus quando ele disse que existe o bem. Confesse que você nem considerou como glorificá-lo buscando a alegria, ainda que soubesse que essa é a maneira óbvia de surpreender uma geração entediada e pessimista. Buscando a alegria na criação. O lugar mais comum para procurar a alegria é na criação de Deus. A Escritura não enfatiza isso, mas presume que haja na criação algo de bom que aponta para a bondade do Criador. Oceanos, montanhas, e qualquer coisa grandiosa, são objetos prediletos. Um bom amigo escolheu algo pequeno. Ele cultiva roseiras que produzem lindíssimos botões, mas andava ocupado demais para apreciá-los. Certo dia, a sua tarefa autoimposta foi apreciar uma rosa. Depois do jantar, levou uma cadeira para o jardim, sentou-se em frente a ela, e começou a trabalhar. Seu alvo era apreciar sua cor variada, seu perfume e toda sua beleza. Ainda que não tivesse obtido sucesso da primeira vez – embora tivesse gostado muito da rosa – estava no caminho certo, por seu compromisso de procurar. Se não tivesse nenhum prazer na rosa, logo ele teria encontrado prazer em coisas ainda melhores. Temos de ter a cautela de permitir que a rosa seja um sinaleiro. Se o nosso prazer estiver apenas na rosa, arriscamos que ela se torne um ídolo. A alegria última não estará ali. Em vez disso, a rosa diz: “Veja, não sou eu! Sou apenas um lembrete. Olhe só. Do que você se lembra?”.⁴ Por mais bela que seja a criação, ela declara: “Nós não somos teu Deus – olhe acima de nós... foi ele que nos fez”.⁵ Poderá ser que a própria criação fique surpresa com o modo como desperta a elicia alegria, pois, não obstante sua grande atração, existem sinais ainda melhores por todo lado. A Escritura fala da criação como que gemendo até que ela mesma seja liberta da corrupção (Rm 8.22). A Escritura também revela que a criação está mais acostumada a ser tomada pela alegria de Deus (Is 44.32) do que ser apreciada por si mesma. Provavelmente a natureza não estaria confortável com toda a atenção sobre ela mesma. Dizei entre as nações: Reina o Senhor . Ele firmou o mundo para que não se abale e julga os povos com equidade. Alegrem-se os céus, e a terra exulte; ruja o mar e a sua plenitude. Folgue o campo e tudo o que nele há; regozijem-se todas as árvores do bosque, na presença do Senhor , porque vem, vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, consoante a sua fidelidade. (Sl 96.10-13) Se a criação se alegra com a bondade de Deus, e as crianças ainda não nascidas saltam no ventre materno quando ouvem a notícia do Messias (Lc 1.44), então a alegria também está ao nosso alcance. Encontrar alegria no Senhor. O objetivo verdadeiro da alegria, é claro, é o Senhor. É a ele que nos lembram todas as alegrias terrenas. Por meio da história, as pessoas têm encontrado grande alegria na presença do Senhor (Sl 21.6). Deus é a alegria e o deleite de seu povo (Sl 43.4). Para Jonathan Edwards, essa era a grande prova da verdadeira religião. Você encontra alegria em Deus? A alegria... consiste no doce entretenimento que sua mente tem em vista, ou na contemplação da divina e santa beleza destas coisas [o caráter de Deus], tal como são em si mesmas. Essa é a principal diferença entre a alegria do hipócrita e a do verdadeiro santo. O primeiro se alegra em si mesmo, o segundo se alegra em Deus. Algumas pessoas acham tediosa a ideia do céu. Mas, uma vez que começamos a nos entreter com a alegria do Senhor, encontramos deleite incansável. Dia após dia, encontraremos nova beleza divina para contemplar, e a busca continuará por toda a eternidade. Lembre-se do resumo da Escritura feito pelos escritores do Breve Catecismo de Westminster? “Qual é o fim principal do homem? Glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. Esse resumo é sempre verdadeiro. Deus é o Deus de alegria e felicidade. Livre e liberalmente, ele concede alegria a seu povo e, na verdade, ordena que a busquemos nele (Sl 106.4-5; 1Ts 5.18). Deveras, o salmista realmente entende os pensamentos de Deus quando ora: “Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que exultem os ossos que esmagaste” (Sl 51.8). Essa não é uma oração egoísta: ela é cheia de propósito. O salmista deseja ser a pessoa que foi feita para ser; a pessoa que, um dia, todo seguidor de Cristo será – um adorador repleto de alegria. Observar alegria em tudo que é verdadeiro, nobre, justo, puro e belo. Sabedores de que a alegria provém de Deus, estamos livres para nos alegrar naquilo que ele abençoou. Ele é o Deus que “tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento” (1Tm 6.17). “Tudo” que nos apraz pode ser uma lista bastante extensa! Comer, beber, trabalhar (Ec 5.18-20) A lei de Deus (Sl 19.8) Portar seu nome (Jr 15.16) Amor e unidade que apontam para o Amante Divino (Jo 15.11-12; 1Jo 1.3-4). Fé e obediência ao próximo (2Co 7.4; Fp 1.25; 3Jo 1) Semblante alegre (Pv 15.30) Justiça (Pv 11.10) Sabedoria do próximo (Pv 10.1) e a capacidade de oferecer sabedoria e consolo a outros (Pv 15.23) Consolo dado àqueles a quem você ama (2Co 7.7) Pessoas vindo a conhecer a Cristo (1Ts 2.19) Receber a salvação (1Pe 1.8) Alegria nas outras pessoas (2Co 1.24) A lista pode ser infinda: o riso das crianças, a honra dos justos, a perseverança daqueles que estão deprimidos, perseguidos ou enfermos, evidencia em todo o mundo do derramamento do Espírito de Deus. Observe que muitos dos objetos de alegria estão em outras pessoas e sua semelhança com Cristo. Se Deus diz que é boa a criação e podemos usufruí-la, quanto mais poderemos desfrutar das pessoas, a parte da criação que ele proclama ser “muito boa”? Se Deus se deleita em você e nos outros, você também pode deleitar-se nas pessoas. O Senhor , teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar-te; ele se deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo (Sf 3.17). A vida atual é complicada. Existe, no momento, muita miséria, mas há, sobretudo, grande esperança para o futuro. Deus já deu início à renovação que ocorrerá, portanto, não será somente quando chegar a eternidade que teremos grandes oportunidades de alegria, há também alegria no presente. Nossa dupla alegria Quando estiver buscando alegria, você terá acesso a um duplo prazer. Encontrará alegria em Cristo e no que ele fez, e também em compartilhar a alegria de Deus. Há alguns anos, minha esposa pediu que eu lesse um de seus livros prediletos. Quando finalmente eu o li, foi um imenso prazer. Gostei do conteúdo e da maneira como foi escrito. Isso, claro, acontece sempre que apreciamos um bom livro. Mas, como eu sabia que esse livro havia dado uma alegria especial à minha esposa, meu prazer tinha uma dimensão a mais. Trouxe a espécie de unidade que vem quando as pessoas compartilham os mesmos prazeres. Eu não apenas conheci melhor os deleites de minha esposa, como também realmente participei de sua alegria. A minha esposa tem interesses pelos quais eu não tenho a mesma paixão, e sou feliz porque ela os possui. Sou abençoado por isso. Mas uma coisa é ficar feliz porque minha esposa experimenta algo especialmente prazeroso, e outra é quando compartilhamos a mesma alegria. Cria um elo e um entendimento mútuos – em si mesmos prazeres especiais. É este o duplo deleite da alegria. Alegramos no que Deus nos deu, e existe um elo – um sorriso de conhecimento – que partilhamos com ele quando participamos de sua alegria. A verdadeira alegria vem de aprender a nos deleitarmos nas coisas que agradam a Deus. Resposta É preciso praticar a alegria. Estude a alegria nos salmos. Os salmistas sequer conheciam o amor de Jesus, mas seu vislumbre do amor de Deus deu-lhes alegria e grande gozo. Se você estiver disposto a procurar a alegria, os salmistas poderão levá-lo a isso. A bondade de Deus é vista em toda a criação e na igreja; assim, a alegria é sempre possível. Quando não conseguir enxergá-la, vá à cruz e apreciea beleza do que Cristo fez por você. Aprecie a beleza de seu sacrifício – sua disposição em se tornar um de nós, abrindo mão de tudo o que possuía. Aprecie a beleza do seu amor. Simplesmente contemple-o. Admire-o. Considere a alegria de Jó por não ter negado a Deus no meio do sofrimento implacável. Você poderá aplicar essa experiência, pensando em maneiras específicas de amar as pessoas. Em seguida, tome a alegria do Espírito que opera dentro de você. O esplendor de Deus sobe além das tristezas da vida. A alegria é possível. Escolha tornar-se um especialista em alegria. Afinal, a alegria do Senhor não é algo que esvanece. Experimentaremos, no final, “a alegria eterna” (Is 35.10). Essa vem para ficar, e chegará o dia quando aqueles que conhecem a Jesus serão conhecidos por sua alegria. Acredite ou não, você está se tornando uma pessoa jubilosa. Você será uma pessoa cheia de alegria. Alguns dizem que a alegria é o negócio sério do céu. Não pense, porém, que é só para o doce porvir. O reino do céu começou com poder quando Jesus veio ao mundo, e assim, a partir de agora, entramos no negócio da família. 1 SOLOMON, Robert C. The Passions: Emotions and the Meaning of Life (Indiannapolis: Hacket, 1993), p. 160. 2 SPACKS, Patricia. Boredom: a Literary History of a State of Mind (Chicago: University of Chicago, 1995), p. 229. 3 Ibid., p. 252. 4 LEWIS, C.S. Surprised by Joy (Nova York: Harcourt, Brace and World, 1955), p. 220. 5 AGOSTINHO, Confessions (Nova York: Pocket, 1952), X, p. 178. 6 EDWARDS, Jonathan. Religious Affections (New Haven: Yale University Press, 1959), p. 240. Uma palavra final Os músicos do jazz minimizam sua arte musical ao dizer: “existem apenas doze notas com as quais brincamos; apenas toque todas elas e certifique-se de terminar com a nota certa”. Quando enfrentamos a depressão, a pauta musical da Escritura inclui muito mais que doze notas. Sua amplitude e profundidade não têm igual. Sua sabedoria tem inúmeras e densas camadas. Às vezes, poderão parecer demais, e cada vez que tentar seguir uma verdade bíblica, você se sentirá perdido. “Atirei o pau no gato”, de repente, torna-se composição atonal, sem direção discernível. Você fica completamente confuso. Quando isso acontecer – e tenha certeza, acontecerá –, simplesmente continue tentando tocar a música e termine na nota certa. Os salmos são o seu modelo. No tocante a mim, confio na tua graça; regozije-se o meu coração na tua salvação. (Sl 13.5) Eu creio que verei a bondade do Senhor na terra dos viventes. Espera pelo Senhor , tem bom ânimo, e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo Senhor . (Sl 27.13-14) Muito sofrimento terá de curtir o ímpio, mas o que confia no Senhor , a misericórdia o assistirá. (Sl 32.10) Quando você lê uma carta de alguém que lhe seja importante, seu coração pode subir e descer muitas vezes. Em um parágrafo você encontra uma expressão de ternura; em outro, uma notícia comum ou mesmo alguma indicação de insatisfação com você. Depois, você chega às palavras finais. “Afetuosamente” é o que um irmão ou uma irmã escreveria. Muitos escritores terminam casualmente com “amor”. Mas as palavras finais desta carta são: “eu amo você”. Não tenha dúvidas. Ainda que não entenda como ou por quê, você é “claramente” o objeto do amor desta pessoa. Durante o restante do dia, você é transformado pela lembrança daquelas palavras finais. As pessoas notam seu passo mais animado, ou indícios de vitalidade que não estavam ali no dia anterior. Quando você estiver perdido ou confuso, chegue a essas palavras finais. O fato de Jesus ter vindo ao mundo para morrer em seu lugar é sua ressoante declaração de amor. Sendo que o amor de Jesus depende dele e não de nós, não há perigo de sermos mal-amados nos dias em que nos sentimos totalmente sem fé. Na verdade, nessas horas o seu amor será ainda mais surpreendente e precioso, porque você se lembrará de que tal extravagante amor é, para nós, indevido e imerecido. O seu próprio coração tem muito a dizer, mas permita que Jesus diga a palavra final. “Graça”. É a versão taquigráfica. Nessa única palavra, Deus nos tira de dentro de nós mesmos e transporta nossa atenção para ele, Aquele que derrama amor perdoador, ainda que não reconheçamos tudo que ele tem perdoado. Esse amor transborda de promessas e garantias. Não é de surpreender que o apóstolo Paulo começasse quase todas suas cartas com as palavras “graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 1.3). Era também seu prazer terminar da mesma forma: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós” (2Co 13.13). Em nossa batalha contra os múltiplos fatores da depressão, – Que a graça esteja conosco. Edward T. Welch (MDiv, PhD), é membro do corpo docente e Diretor da School of Biblical Counseling na Christian Counseling an Educational Foundation (CCEF) e Professor de Teologia Prática no Westminster Theological Seminary. Autor de vários livros e artigos, Edward é casado com Sheri e tem duas filhas. Cover Page Capa Rosto Créditos Sumário Agradecimentos Introdução Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Parte I Depressão é sofrimento Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Parte II Escutar a Depressão Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Parte III Ajuda e conselhos de outros Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Parte IV Esperança e alegria Pensando os pensamentos de Deus Capítulo 25 Capítulo 26 Uma palavra final Sobre o autor