Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Depressão	–	A	tenebrosa	noite	da	alma,	de	Edward	T.	Welch	©	2011	Editora
Cultura	Cristã.	Título	original	Depression	–	A	Stubborn	Darkness:	Ligth	for	the
Path	Copyrigth	©	2004	by	Edward	T.	Welch.	Traduzido	e	publicado	com
permissão	da	New	Growth	Press,	728	W.	Davis	Street–Burlington	NC	27215,
USA.	Todos	os	direitos	são	reservados.
1ª	edição	–	2011
Conselho	Editorial	Cláudio	Marra	(Presidente)	Christian	Brially	Tavares	de	Medeiros	Filipe	Fontes	Heber	Carlos	de	Campos	Jr	Hermisten	Maia	Pereira	da	Costa	Joel	Theodoro	da	Fonseca	Jr	Misael	Batista	do	Nascimento	Tarcízio	José	de	Freitas	Carvalho	Victor	Alexandre	Nascimento	Ximenes
W4391p	Welch,	Edward	T.
Depressão	/	Edward	T.	Welch;	traduzido	por	Elizabeth	Gomes.	_São	Paulo:
Cultura	Cristã,	2011
Recurso	eletrônico	(ePbub)
Tradução	Depression
ISBN	978-65-5989-096-5
1.	Aconselhamento	2.	Depressão	3.	Vida	Cristã
CDD	253.5
A	posição	doutrinária	da	Igreja	Presbiteriana	do	Brasil	é	expressa	em	seus
“símbolos	de	fé”,	que	apresentam	o	modo	Reformado	e	Presbiteriano	de
compreender	a	Escritura.	São	esses	símbolos	a	Confissão	de	Fé	de	Westminster	e
seus	catecismos,	o	Maior	e	o	Breve.	Como	Editora	oficial	de	uma	denominação
confessional,	cuidamos	para	que	as	obras	publicadas	espelhem	sempre	essa
posição.	Existe	a	possibilidade,	porém,	de	autores,	às	vezes,	mencionarem	ou
mesmo	defenderem	aspectos	que	refletem	a	sua	própria	opinião,	sem	que	o	fato
de	sua	publicação	por	esta	Editora	represente	endosso	integral,	pela
denominação	e	pela	Editora,	de	todos	os	pontos	de	vista	apresentados.	A	posição
da	denominação	sobre	pontos	específicos	porventura	em	debate	poderá	ser
encontrada	nos	mencionados	símbolos	de	fé.
EDITORA	CULTURA	CRISTÃ
Rua	Miguel	Teles	Júnior,	394	–	CEP:	01540-040	–	São	Paulo	–	SP
Fones	0800-0141963	/	(11)	3207-7099
www.editoraculturacrista.com.br	-	cep@cep.org.br
Superintendente:	Clodoaldo	Waldemar	Furlan
Editor:	Cláudio	Antônio	Batista	Marra
Sumário
Agradecimentos
Introdução
Capítulo	1	O	caminho	adiante
Capítulo	2	Como	a	depressão	é	sentida
Capítulo	3	Definições	e	causas
Parte	I	-	Depressão	é	sofrimento
Capítulo	4	Sofrimento
Capítulo	5	Deus
Capítulo	6	Clame	ao	Senhor
Capítulo	7	Guerra
Capítulo	8	Lembrar
Capítulo	9	Propósito
Capítulo	10	Perseverança
Parte	II	-	Escutar	a	depressão
Capítulo	11	A	depressão	tem	suas	razões:	nossa	cultura,
nosso	corpo	e	Satanás
Capítulo	12	A	depressão	tem	suas	razões:	outras	pessoas
Capítulo	13	O	coração	da	depressão
Capítulo	14	O	coração	desvendado
Capítulo	15	Temor
Capítulo	16	Ira
Capítulo	17	Esperanças	esmagadas
Capítulo	18	Fracasso	e	vergonha
Capítulo	19	Culpa	e	legalismo
Capítulo	20	Morte
Parte	III	-	Ajuda	e	conselhos	de	outros
Capítulo	21	Tratamentos	médicos
Capítulo	22	Para	familiares	e	amigos
Capítulo	23	O	que	tem	ajudado
Capítulo	24	O	que	esperar
Parte	IV	-	Esperança	e	alegria	-	pensando	os	pensamentos	de	Deus
Capítulo	25	Humildade	e	esperança
Capítulo	26	Gratidão	e	alegria
Uma	palavra	final
Agradecimentos
						Se	este	livro	puder	captar	a	experiência	da	depressão,	será	porque	homens	e
mulheres,	especialmente	os	que	procuraram	aconselhamento	no	Christian
Counseling	and	Educational	Foundation	(CCEF),	dispuseram-se	a	contar	suas
histórias,	mesmo	quando	fui	lento	para	compreendê-las.	Meus	alunos	no
Seminário	Teológico	Westminster	e	CCEF	preencheram	o	que	faltava.
Pude	escrever,	graças	à	generosa	política	sabática	providenciada	pelo	CCEF.
Assim,	sou	devedor	à	diretoria,	corpo	docente,	equipe	administrativa	e	aos
contribuintes	dessa	instituição.	O	corpo	docente	e	a	equipe	administrativa
assumiram	tarefas	que	eu	deixei	de	realizar	e	cobriram	minha	ausência	de	modo
que	eu	ainda	tivesse	um	emprego	ao	qual	retornar.	Sue	Lutz,	novamente,
forneceu	aguçada	direção	editorial,	como	tem	feito	em	quase	todo	livro	que	já
completei.	Certamente	ela	não	poderá	se	aposentar	antes	de	mim.
Minha	esposa	e	filhas	já	estão	acostumadas	com	o	tempo	que	ocupo	com	um
manuscrito.	Elas	me	inspiram	mais	do	que	poderiam	imaginar.
Introdução
Capítulo	1
O	caminho	adiante
Em	meio	à	jornada	da	vida
Descobri-me	em	uma	escura	floresta,
Pois	havia	perdido	o	rumo	certo.
Dante	Allighieri
						Como	será	possível	dar	um	passo,	quanto	mais	pensar	em	uma	jornada,
quando	nos	encontramos	sob	forte	depressão?	Quando	toda	nossa	força	vital	se
concentra	em	continuar	vivo,	e	só	conseguimos	chegar	até	a	hora	seguinte,	como
acrescentar	mais	alguma	coisa	–	tal	como	esperança	–	ao	dia	seguinte?
São	essas	perguntas	sobre	“como”	que,	diante	da	depressão,	parecem	quase
impossíveis	de	serem	respondidas.	Sugestões	práticas	e	muitas	páginas	de	tarefas
de	casa	poderiam	encher	vários	livros,	mas	provavelmente	não	fariam	com	que
nos	sentíssemos	mais	vivos.
Aquilo	de	que	eu	e	você	precisamos	é	mais	profundo	do	que	sugestões	práticas.
Você	não	precisa	de	uma	lista	de	“como	fazer”	as	coisas.	Na	verdade,	você
mesmo	seria	capaz	de	produzir	uma	lista	plausível	de	coisas	para	fazer.
Provavelmente	já	fez	algumas	delas	e	sabe	de	muitas	outras	que	poderia	fazer.
A	depressão,	e	a	miríade	de	sentimentos	e	pensamentos	embutidos	nessa	palavra,
invocam	a	pergunta	“por	quê?”.	Primeiro,	por	que	isso	está	acontecendo
comigo?	Depois,	por	que	amar?	Por	que	trabalhar?	Por	que	adorar?	Por	que	crer?
Por	que	viver?	Por	que	me	esforçar?	O	coração	deprimido	responde	melhor	com
os	termos	“Vaidade	das	vaidades,	tudo	é	vaidade”	do	que	com	“101	passos	para
combater	a	depressão”.	Uma	lista	de	coisas	a	fazer	não	atende	às	questões	de
propósito,	esperança,	nem	responde	a	perguntas	fundamentais	sobre	a	existência
e	a	fé	que	inevitavelmente	surgem	com	a	depressão.	Não	é	de	se	surpreender
que,	ao	mesmo	tempo	em	que	o	Prozac	vem	sendo	propalado	como	a	cura	para	a
doença,	os	filósofos	também	encontrem	um	nicho	na	área	de	ajuda	às	pessoas
deprimidas.
No	caminho	que	temos	em	frente,	portanto,	procure	descobrir	uma	parceria	entre
os	“por	quês”	e	os	“comos”.	Quando	surgirem	as	perguntas	do	tipo	“por	quê?”,
essas	serão	religiosas,	como	todas	as	perguntas	desse	tipo.	Elas	dizem	respeito	a
Deus.	Naturalmente,	a	depressão	faz	isso	mesmo:	leva-nos	de	volta	às	questões
básicas	da	vida.	Se	as	ignorarmos	a	fim	de	focalizar	as	perguntas	do	tipo
“como”,	talvez	até	encontremos	um	atalho	para	um	alívio	mental	temporário,
mas	o	coração	continuará	faminto	de	respostas.
A	ideia	básica
O	plano	será	colocar	a	depressão	sob	a	categoria	de	“sofrimento”.	Nada	é	mais
óbvio.	Desse	modo,	tal	decisão	não	terá	o	potencial	de	despertar	rumores	de
esperança.
•	Se	você	jamais	a	experimentou,	a	depressão	será	dolorosa	e	difícil	de
entender.	Tal	como	a	maioria	das	formas	de	sofrimento,	ela	nos	parece	bem
particular	e	solitária.	Porém,	o	sofrimento	deveria	nos	lembrar	de	que	não
estamos	sós.
•	Muitas	abordagens	da	depressão	dependem	de	que	um	diagnóstico
acurado	seja	feito	logo	de	início.	Entretanto,	a	depressão	raramente	poderá
ser	reduzida	a	uma	única	causa.	Se	começar	a	descrevê-la	como	sofrimento,
você	poderá	ser	mais	paciente	na	busca	de	suas	causas	e	contribuições.
Poderá	encontrar	esperança,	consolo	e	descanso	em	meio	ao	sofrimento,
antes	mesmo	de	tentar	desenrolar	sua	lógica,	se	houver	alguma.
•	A	família	e	os	amigos	poderão	escutar	melhor.	Não	estarão	tão	apressados
para	dar	a	resposta.	Em	vez	disso,	poderão	pospor	um	compromisso	com
determinada	teoria,	tomando	tempo	para	conhecer	melhor	a	pessoa
deprimida	a	fim	de	trabalhar	com	ela.
•	Quando	você	considerar	que	a	depressão	é	uma	forma	de	sofrimento,
estará	mais	disposto	a	olhar	para	a	condição	humana.	Em	outras	palavras,
observará	lutas	e	males	que	são	comuns	a	todos.	Não	permita	que	um
diagnóstico	técnico	ou	científico	o	impeça	de	ver	esses	problemas	como
ordinários.	Quando	estiver	em	dúvida,	espere	até	encontrar,	logo	abaixo	da
superfície,	uma	situação	frequente	a	todo	ser	humano,	em	forma	de	medo,
ira,	culpa,	vergonha,	inveja,	carência,	desespero	quanto	a	uma	perda,
fraqueza	física	e	outros	problemas	presentes	em	cada	pessoa.	Nem	sempre	a
depressão	será	causada	por	tais	coisas,	mas	sempre	seráocasião	para
considerá-las.
•	Procuremos	a	direção	nas	Escrituras.	Se	buscarmos	a	palavra	“depressão”,	não
encontraremos	muitas	referências,	mas	se	ampliarmos	a	busca	para
“sofrimento”,	com	suas	infindas	variações,	ela	ficará	repleta	de	sentido.	Cada
página	terá	o	potencial	de	falar	diretamente	a	você.
Existem	emoções	“corretas”?
É	comum	a	homens	e	mulheres	espiritualmente	maduros	que	se	sentem
deprimidos	pensarem	que	estejam	fazendo	algo	de	errado.	Afinal,	a	Escritura
está	repleta	de	palavras	de	alegria	e	corações	jubilosos.	Quando	não	se	sentem
felizes,	muitas	pessoas	julgam	ter	perdido	alguma	coisa	ou	que	Deus	as	castiga,
até	que	aprendam	alguma	lição	escondida.
Contudo,	nesta	terra,	Deus	não	dá	a	receita	para	uma	vida	feliz.	Veja	alguns	dos
salmos.	Foram	escritos	por	pessoas	de	grande	fé,	que	discorreram	sobre	uma
ampla	gama	de	emoções.	Um	deles,	até	mesmo,	termina	com	a	frase:	“os	meus
conhecidos	são	trevas”	(Sl	88.18	–	outra	tradução,	a	ARC,	diz:	“os	meus	íntimos
amigos	agora	são	trevas”).	Quando	as	emoções	parecem	sempre	pálidas	ou
insípidas,	quando	não	conseguimos	mais	sentir,	como	antes,	os	altos	e	baixos	da
vida,	a	pergunta	que	mais	importa	é:	para	onde	–	ou	para	quem	–	nos	voltaremos,
em	tempos	de	depressão?
Um	modo	de	proceder
Se	você	estiver	deprimido,	os	capítulos	que	seguem	são	intencionalmente	breves
e,	às	vezes,	provocantes.	Se	você	quiser	ajudar	alguém	que	está	deprimido,	esses
capítulos	têm	a	intenção	de	oferecer	direção	e	poderão	ser	usados	como	leituras
a	ser	compartilhadas	com	a	pessoa	deprimida.	Espero	que	este	livro	encoraje
parcerias	entre	as	pessoas	deprimidas	e	aqueles	que	as	amam.	O	sofrimento	não
é	uma	jornada	que	deveríamos	enfrentar	sozinhos.	Haverá	muitos	trechos	em	que
seremos	tentados	a	desistir	e	demasiadas	horas	em	que	não	poderemos	ver	com
clareza.	Caso	você	mesmo	esteja	deprimido,	leia	o	livro	com	algum	amigo	sábio;
se	for	o	caso	de	ajudar	alguém,	sugira	à	pessoa	que	leia	com	você	o	livro	todo	ou
um	determinado	capítulo	selecionado.
A	jornada	de	um	peregrino
Nos	capítulos	seguintes,	você	encontrará	inúmeras	imagens,	tais	como	trevas	e
luz,	torpor	e	vitalidade,	luta	e	rendição.	A	figura	da	jornada	de	um	peregrino
aparece	em	destaque.	Quer	sintamos	quer	não,	estamos	trilhando	um	caminho
em	que	constantemente	nos	deparamos	com	escolhas.	A	cada	dia,	estamos	nos
vendo	em	encruzilhadas	nas	quais	temos	de	tomar	decisões	de	consequências
significativas.
A	ideia	de	iniciar	uma	jornada	não	é	nada	agradável	quando	você	se	encontra
deprimido,	mas,	pelo	menos,	estará	em	boa	companhia,	e	terá	alguma
consolação.	A	começar	com	Abraão,	Deus	tem	chamado	pessoas	para	sair	de	um
lugar	conhecido,	tomar	novo	rumo,	deixar	para	trás	o	passado,	enfrentar	perigos
desconhecidos,	chegar	ao	ponto	do	desespero,	clamar	por	ajuda	e	aguardar	algo
(ou	alguém)	melhor.
Orígenes	ofereceu	estas	palavras	de	encorajamento:
“Há	muito	minha	alma	está	em	peregrinação”	(Sl	119.54).	Entenda,	portanto,	o
que	sejam	as	peregrinações	da	alma,	especialmente	quando	ela	lamenta	com
gemidos	e	sofrimentos	que	a	peregrinação	seja	tão	longa.	Entendemos	essas
jornadas	somente	obtusa	e	obscuramente	enquanto	perdura	a	peregrinação.	Mas
quando	a	alma	retorna	para	seu	descanso,	ou	seja,	para	o	lar	do	paraíso,	ela	será
realmente	ensinada	e	entenderá	mais	verdadeiramente	o	significado	do	que	foi
essa	peregrinação.¹
Ele	estava	certo.	Deste	lado	do	céu,	andamos	pela	fé	e	não	temos	todas	as
respostas	que	queremos.	Mas	há	razão	para	crer	que	encontraremos	o
cumprimento	de	certas	esperanças,	mesmo	neste	lado	do	paraíso.
1	Orígenes,	Homilia	XXVII	sobre	Números,	seção	4,	CWS	250.	Citado	por	-
Thomas	Oden,	Classical	Pastoral	Care,	vol.	4	Crisis	Ministries	(Grand	Rapids:
Baker,	1994),	p.	67.
Capítulo	2
Como	a	depressão	é	sentida
						Muitas	vezes,	surge	a	figura	do	“inferno”.	O	inferno	me	visitou	de	surpresa.
“Se	existe	inferno	sobre	a	terra,	ele	habita	em	um	coração	melancólico”,
observou	Robert	Burton,	nos	anos	de	1600.	O	poeta	Robert	Lowell	escreveu:
“Eu	mesmo	sou	um	inferno”.	Uma	mãe	descreveu	a	experiência	de	seu	filho	com
as	frases:	“A	descida	de	Danny	ao	inferno”;	“Um	quarto	no	inferno”;	“Um
inferno	solitário	e	privado”.	João	da	Cruz	o	descreveu	como	“a	tenebrosa	noite
da	alma”.	“Tormentas	infernais”,	disse	J.B.	Phillips.	“As	negras	profundidades
do	inferno”,	disse	William	Styron,	autor	de	Escolha	de	Sofia	e	outros	romances
populares,	às	vezes,	sombrios.¹	Como	Dante	entendia,	há	uma	conexão	íntima
entre	o	inferno	e	a	falta	de	esperança	que	há	na	depressão.	Na	versão	do	inferno
de	Dante,	logo	na	entrada	está	a	inscrição:	“Abandonai	toda	esperança,	vós	que
aqui	entrais”.
A	linguagem	depressiva	é	poética.	A	prosa	não	consegue	exprimir	essa
experiência,	por	isso,	a	comunicação	é	feita	por	intermédio	de	poesia,	ou
silêncio.	Pessoas	deprimidas	são	eloquentes,	mesmo	quando	sentem	o	centro
emotivo	vazio	e	destituído	de	pessoalidade.
–	Quando	o	médico	chegou	ao	meu	quarto,	disse	que	iria	me	fazer	uma	pergunta.
Se	eu	não	me	sentisse	pronto	para	responder,	não	precisava.	Então,	ele
perguntou:
–	Quem	é	você?
Fiquei	em	pânico.
–	O	que	o	Sr.	quer	dizer?
–	Quando	olha	para	dentro	de	si	mesmo,	quem	é	que	você	vê?
Foi	horrível.	Eu	não	via	nada.	Só	via	um	buraco	negro.
–	Não	sou	ninguém	–	eu	disse.
As	imagens	são	sombrias	e	evocativas.	Sozinho,	em	desespero,	só	vazio	e
buracos	negros.	“Parecia	que	eu	andava	por	um	campo	de	flores	mortas	e	tinha
encontrado	uma	linda	rosa,	mas	quando	me	abaixei	para	sentir	o	cheiro,	caí	num
buraco	invisível”.	“Ouvi	meu	grito	de	silêncio	ecoar	e	penetrar	minha	alma
vazia”.	“Não	existe	nada	que	eu	odeie	mais	do	que	o	nada”.²	“Meu	coração	está
vazio.	Todas	as	fontes	que	correriam	com	anseio	estão	secas	em	mim”.³	“É
totalmente	natural	pensar,	incessantemente,	no	esquecimento”.	“Sinto-me	como
se	tivesse	morrido	há	algumas	semanas	e	meu	corpo	ainda	não	tivesse	sido
descoberto.”⁴
A	depressão	...	envolve	ausência	completa:	ausência	de	afeto,	ausência	de
sentimento,	ausência	de	resposta,	ausência	de	interesse.	A	dor	sentida	no	decurso
de	uma	grande	depressão	clínica	é	uma	tentativa	da	parte	da	natureza...	de
preencher	o	espaço	vazio.	Contudo,	com	todos	os	intentos	e	propósitos,	pessoas
profundamente	deprimidas	são	apenas	mortos	andando	acordados.⁵
A	dor	mental	parece	insuportável.	O	tempo	para.	Uma	menina	de	doze	anos	de
idade	disse:	“Eu	não	posso	continuar”.	“Poderia	chorar	durante	horas	como	uma
criança,	mas	ainda	assim	não	saber	por	que	estava	chorando”,	relatou	Spurgeon
sobre	um	de	seus	muitos	episódios	depressivos. 	“Uma	verdadeira	tempestade
uivante	no	cérebro”.⁷	“Tristeza	maligna”.⁸	“Envelheceram	os	meus	ossos	pelos
meus	constantes	gemidos	todo	o	dia”. 	“A	tristeza	era	como	o	pó	que	infiltrava
tudo”.	“Sou	agora	um	homem	desesperado,	rejeitado,	trancado	nessa	jaula	de
ferro	de	onde	não	existe	escape”.¹ 	“A	tranca	de	ferro...	misteriosamente	prende	a
porta	da	esperança	e	mantém	nosso	espírito	em	lúgubre	prisão”.¹¹
Melancolia	profunda	é	uma	agonia,	dia	após	dia,	noite	após	noite,	em	nível
quase	arterial.	É	uma	dor	impiedosa	que	não	oferece	janela	de	esperança,
nenhuma	alternativa	à	existência	repugnante	e	inflexível.	Não	há	alívio	para	as
gélidas	propensões	ocultas	do	pensamento	e	sentimentos	que	dominam	as	noites
intoleravelmente	inquietas	do	desespero.¹²
Não	é	só	a	dor.	Parece	uma	dor	sem	sentido.	“Tudo	que	quero	na	vida	é	sentir
que	essa	dor	tenha	um	propósito”.¹³	Se	a	dor	conduzisse	ao	nascimento	do	filho,
seria	tolerável,	mas	se	esta	for	apenas	um	vazio	de	trevas,	será	uma	ameaça	de
destruição.
Abraão	Lincoln	achava	que	a	dor	o	levaria	à	morte;	o	seu	corpo	não	poderia
tolerar	essa	dor:
Sou	agora	o	mais	miserável	dos	homens.	Se	aquilo	que	sinto	fosse	distribuído
igualmente	a	toda	a	família	humana,	não	haveria	um	só	rosto	alegre	sobre	a	terra.
Não	sei	dizer	se	em	algum	tempo	estarei	melhor;	pressinto	tenebrosamente	que
não.	Permanecer	como	estou	é	impossível.	Parece-me	que	terei	de	morrer,	ou
então	melhorar.¹⁴
O	que	tortura	muita	gente	é	o	fato	de	eles	não	morrerem.“A	exaustão	combinada
à	insônia	é	uma	rara	tortura”.	“A	dor	penetra	tudo”.	A	ideia	de	que	possam
permanecer	nesse	estado	horroroso	é	impossível	de	ser	pensada.	“Ninguém	sabe
o	quanto	eu	desejaria	morrer”.	Mas	a	morte	tem	seus	próprios	horrores.	Ela
parece,	a	princípio,	um	ponto	de	desvanecimento	em	que	a	existência	cessa
totalmente.	Contudo,	o	que	dizer	sobre	a	incerteza	da	vida	após	a	morte?	Existirá
o	aniquilamento?	O	juízo	divino	esmagará	e	destruirá?	Você	não	tem	companhia
no	medo	do	pior.
“Não	havia	como	controlar	minha	mente	–	os	pensamentos	me	assolavam,	as
ideias	vinham	brutalmente	ásperas,	os	ideais	totalmente	triturados,	os
sentimentos	incompreensíveis”.	A	mente	fica	emperrada.	Como	alguém
conseguirá	pensar	em	alguma	coisa	quando	isso	está	ali?	“Estou	numa	camisa	de
força”.	“Estou	completamente	preso	e	amarrado	–	e	tenho	uma	mordaça	na
boca”.	Sem	os	recursos	mentais	normais,	o	mundo	é	assustador.	Pânico.	Sem
controle,	as	alucinações	e	ilusões	apoderam-se	da	imaginação	com	tamanha
força	que	não	conseguimos	distinguir	a	realidade.	A	autoconfiança	parece	coisa
impossível.	O	único	modo	de	sobrevivência	é	uma	dependência	infantil.	Estar
sozinho	é	aterrador.	O	abandono	é	um	medo	constante.	“Tenho	medo	de	tudo	e
de	todos”.
Tentei	dormir,	mas	não	consegui.	Em	parte,	porque	eu	tinha	medo	de	acordar
com	sentimento	de	pânico	refletido	na	boca	do	estômago.	A	ansiedade	estava
sempre	presente	e,	sem	razão,	só	piorava.	Queria	estar	fora	de	casa,	mas	tinha
medo	de	ficar	sozinho.	Não	importando	o	que	fizesse,	não	conseguia	me
concentrar,	exceto	em	perguntas	tais	como	“Estou	ficando	louco?	O	que	fiz	para
merecer	isso?	Que	espécie	de	castigo	é	esse”?
Poderíamos	pensar	que,	se	as	circunstâncias	fossem	melhores,	também
estaríamos	bem	melhor.	Mas	a	depressão	tem	uma	lógica	própria.	Uma	vez
instalada,	ela	não	distingue	entre	um	abraço	amável,	a	morte	de	um	amigo
chegado	e	a	notícia	de	que	a	grama	do	quintal	do	vizinho	está	crescida.
Decisões?	Impossível.	A	mente	está	travada.	Como	escolher?	Nada	dá	certo;	o
mecanismo	de	seu	cérebro	quase	não	funciona.	E	não	é	fato	que	a	maioria	das
decisões	é	questão	de	preferência	emocional?	Como	descodificar	quando	não
existem	preferências	emocionais?
Certezas?	A	única	certeza	é	a	de	que	a	miséria	persistirá.	Se	existiu	convicção	de
qualquer	coisa	boa	–	e	você	sequer	se	lembra	disso	–	ela	foi	substituída	pelas
constantes	dúvidas.	Você	duvida	que	alguém	o	ame.	Duvida	das	intenções	e	da
fidelidade	do	cônjuge.	Se	você	for	crente	em	Jesus	Cristo,	talvez	duvide,	até
mesmo,	da	presença	de	Cristo	e	dos	fundamentos	de	sua	fé.	“Deus	tenha
misericórdia	do	homem/que	duvida	daquilo	que	tem	certeza.”¹⁵
A	única	coisa	que	você	tem	certeza	é	de	sua	culpa,	vergonha	e	desvalor.	Não	é
apenas	o	caso	de	ter	cometido	erros	na	vida,	ou	pecado,	ou	buscado	futilidades.
Você	é	um	erro,	você	é	pecado,	você	é	insignificante.	“Neste	aspecto,	a
depressão	pode	ser	uma	forma	de	autopunição,	por	mais	subconsciente	ou
involuntária	que	seja	sua	administração”.¹ 	Deus	virou	as	costas.	Por	que	se
importar	em	continuar	num	estado	desses?	Melhor	é	fazer	o	mesmo	que	Deus	e
também	virar	as	costas	para	si	mesmo.
Quando	forçado	a	fazer	uma	distinção,	alguém	poderia	dizer	que	existem	horas
piores	que	outras,	mas	quem	será	capaz	de	medir	os	diferentes	graus	do	inferno?
Digamos	apenas	que	existe	um	ritmo	nisso.	Dormindo	às	23	horas,	acordando	às
duas.	Angústia,	temores	e	uma	torrente	de	dor	o	assomam	enquanto	você	tenta
viver	até	chegar	a	manhã.	A	angústia	se	instala	na	tristeza	normal,	profunda	e
paralítica	até	o	meio	da	tarde,	e	é	seguida	de	constantes	respingos	de	medo,	dor,
culpa,	pânico,	morte	e	fadiga	até	o	entardecer.	Às	vezes,	chega	ao	ápice	do	mal-
estar	generalizado.	É	verdade:	o	corpo	não	suporta	por	muito	tempo	uma	dor
constantemente	repetida.	Assim,	você	obtém	intervalos	ocasionais	no	meio	das
piores	crises.
Para	muitas	pessoas,	poderá	ser	mais	calmo.	Em	vez	de	abismo	sem	fundo	e
uivos	no	cérebro,	a	vida	se	apresenta	chata,	cinzenta	e	fria.	Nada	é	interessante.
Somos	zumbis	que	mal	conseguem	andar.	Tudo	é	monótono,	sem	vida,	só
cansaço.	Por	que	trabalhar?	Por	que	levantar	da	cama?	Por	que	fazer	qualquer
coisa?	Por	que	se	suicidar?	Nada	tem	importância.	Temos	medo	de	que,	se	um
dos	filhos	morresse,	ainda	assim	não	sentiríamos	nada.
A	dor	irrompe	por	meio	desse	estado	entorpecido	e	sem	vida.	Especialmente,
quando	nos	lembramos	de	que	já	estivemos	vivos.	Era	outra	pessoa?	Outra	vida?
Não,	devo	ter	sido	eu	mesmo.	Lembro-me	de	que	eu	realmente	desejava	ter	um
relacionamento	sexual	com	meu	esposo.	Um	livro	na	prateleira,	antes,	mantinha-
me	acordado	a	noite	inteira	–	não	conseguia	largá-lo.	Aquela	música	me	fazia
querer	levantar	e	dançar.	Mas,	hoje,	eu	tento	esquecer	essas	horas,	porque	o
contraste	entre	o	então	e	o	agora	é	insuportável.	Prefiro	o	torpor.
Você	se	sente	doente	o	tempo	todo.	Em	gerações	passadas	ou	lugares	de	menor
preocupação	com	o	psicológico,	as	pessoas	descreviam	a	depressão	apenas	em
termos	físicos.	Por	exemplo,	na	China,	chamavam-na	de	shenjing	shuairo,	um
problema	alegadamente	físico	caracterizado	por	tontura,	fadiga,	dores	de	cabeça.
Seu	corpo	não	se	sente	bem.	Você	está	sempre	cansado.	Médicos	são	mais
procurados	do	que	pastores	ou	conselheiros.
No	início	do	século	20,	um	empresário	relatou	os	seguintes	sintomas	a	seu
médico.
Não	é	só	meu	corpo	que	está	cansado;	é	meu	cérebro.	Sinto-me	constantemente
como	se	um	pino	de	ferro	estivesse	apertando	contra	meu	crânio.	Minha	cabeça
parece	vazia.	Minha	mente	não	quer	funcionar.	Minhas	ideias	são	confusas	e	não
consigo	me	concentrar.	Minha	memória	está	gasta.	Quando	leio,	não	me	lembro,
no	fim	da	página,	o	que	eu	lia	no	começo...	Quanto	à	vontade,	minha	energia
acabou.	Não	sei	mais	o	que	quero	nem	o	que	devo	fazer.	Duvido.	Hesito.	Não
ouso	tomar	decisões.	Além	do	mais,	não	tenho	apetite	e	durmo	mal.	Não	tenho
nenhum	desejo	sexual.¹⁷
Como	é	que	tudo	isso	pode	estar	na	cabeça?	Ele	pensa.
Ficamos	esperando	um	médico	dizer	que	ele	errou.
“A	boa	notícia	é	que	não	é	algo	só	da	cabeça.	Peço	desculpas	pelo	diagnóstico
errado.	As	más	notícias	são	que	o	câncer	o	matará	dentro	de	uma	semana	e
meia”.
Você	tem	a	certeza	de	que	todo	mundo	estará	melhor	sem	você.
Não	é	de	admirar	que	os	pensamentos	de	suicídio	estejam	sempre	rondando
perto?
Resposta
Talvez	essas	descrições	não	pareçam	esperançosas,	mas	demonstram	que	muitos
outros	passaram	pelas	mesmas	experiências.	Isso	em	si	pode	nos	encorajar.	Não
estamos	sós.	Além	disso,	várias	dessas	reflexões	foram	extraídas	de	pessoas	que
contam	uma	história	maior	de	esperança	e	mudança.	Contam	o	que	era	em	vez
do	que	é.	A	maioria	delas	ainda	teve	força	e	clareza	mental	para	escrever	uma
literatura	comovente	que	serve	de	ajuda	para	outros.
Que	palavras	você	escolheria?	Como	você	descreveria	aquilo	que	é
indescritível?
1	As	citações	deste	parágrafo	vêm	das	seguintes	fontes:	Andrew	Solomon,
“Anatomy	of	Melancholy”,	The	New	Yorker,	12	janeiro,	1998,	p.	61.	Robert
Burton	citado	em	John	Green	e	James	Jefferson,	Depression	and	its	Treatment
(Nova	York:	Warner,	1992),	p.	4.	Robert	Lowell,	“Skunk	Hour”.	Sandra	McCoy,
“Danny’s	Descent	into	Hell”,	Reimpresso	por	Reader’s	Digest.	Martha	Manning:
Undercurrents:	A	Therapist’s	Reckoning	with	Depression	(Nova	York:	Harper,
1995),	p.	10.	Lillian	V.	Grissen,	A	Path	through	the	Sea	(Grand	Rapids:
Eerdmans,	1993),	p.	9.	J.	B.	Phillips,	The	Price	of	Darkness	Visible	(Nova	York:
Vintage,	1990),	p.	84.	Citações	sem	crédito	ao	longo	do	capítulo	resultaram
conversa	pessoais.
2	BRICKNELL,	Edie.“Nothing”.
3	LEWIS,	C.S.	“The	Naked	Seed”.	Poems	by	C.	S.	Lewis	(Grand	Rapids:
Eerdmans,	1964),	p.	117.
4	SOLOMON,	Andrew.	“Anatomy	of	Melancholy”,	The	New	Yorker,	12	janeiro,
1998,	p.53.
5	WURTZEL,	Elizabeth.	Prozac	Nation	(Nova	York:	Riverhead),	p.	22.
6	AMUNDSEN,	Daniel.	“The	Anguish	and	Agonies	of	Charles	Spurgeon”,
Christian	History,	10	(1991),	p.	64.
7	Styron,	p.	38.
8	“Spirit	of	the	Age”,	The	Economist,	19	dezembro,	1998,	p.	113.
9	Salmo	32.3.
10	BUNYAN,John.	Pilgrim’s	Progress	(Chicago:	Moody,	1964),	p.	33.
11	SPURGEON,	Charles.	Lectures	to	my	students	(Grand	Rapids:	Zondervan,
1972),	p.	24.
12	JAMISON,	An	Unquiet	Mind	(Nova	York:	Random	House,	1995),	p.	114.
13	WURTZEL,	p.	50.
14	Citada	em	John	H.	Greist	e	James	W.	Jefferson,	Depression	and	its	Treatment
(Nova	York:	Warner,	1992),	p.	8.
15	SPRINGSTEEN,	Bruce.	“Brilliant	Disguise”.
16	HULME,	W.	e	HULME,	L.	Wrestling	with	Depression:	a	Spiritual	Guide	to
Reclaiming	Life	(Minneapolis:	Augsburg,	1995),	p.	22.
17	Citado	por	SHORTER,	Edward.	From	the	Mind	to	the	Body:	the	Cultural
Origins	of	Psychosomatic	Symptoms	(Nova	York:	Free	Press,	1994),	p.	135.
Capítulo	3
Definições	e	causas
						Ainda	que	seja	encorajador	saber	que	não	estamos	sós	e	que	outros	tiveram	a
mesma	experiência	que	nós,	será	melhor	conhecer	a	causa	e	a	cura.	É	provável
que	você	tenha	alguma	suspeita	quanto	à	causa	de	sua	depressão.
Eis	uma	sugestão:	não	se	comprometa	rapidamente	com	uma	única	explicação
da	sua	depressão.	É	certo	que	seja	algo	que	exige	resposta	e	existem
interpretações	mais	que	suficientes	entre	as	quais	poderíamos	escolher,
entretanto	existem	muitas	causas	para	a	depressão,	e	a	experiência	depressiva	de
cada	indivíduo	poderá	indicar	mais	de	uma.	Se	você	se	ativer	depressa	demais	a
uma	única	interpretação,	poderá	ficar	cego	quanto	a	outras	perspectivas
importantes.
Tipos	de	depressão
Pense	na	depressão	como	uma	linha	contínua	e	crescente	em	termos	de
severidade.	Em	um	dos	extremos	ela	perturba,	no	outro,	debilita.	A	depressão
menos	severa	é	chamada	de	Desordem	Distímica;	a	mais	severa,	de	Depressão
Maior.	Popularmente,	a	menos	severa	é	uma	depressão	situacional	e	a	mais
severa	é	depressão	clínica	(Figura	2.1).
Menos	severa Mais	severa
Depressão	situacional Depressão	clínica
Desordem	distímica Distúrbio	depressivo	maior
Descontentamento Desesperança
Figura	2.1.	Níveis	de	depressão
A	linguagem	técnica	para	depressão	da	Associação	de	Psiquiatria	Americana
(APA)	encontra-se	em	seu	manual	diagnóstico,	o	Manual	de	Diagnostico	e
Estatístico	de	Transtornos	Mentais,	agora,	em	sua	quarta	edição.	O	DSM-IV
propõe	que	o	bloco	construtivo	para	o	“distúrbio	depressivo”	ou	“distúrbio
bipolar”	seja	o	que	o	manual	se	refere	como	“episódio	depressivo	maior”.	Reza	o
seguinte:
Cinco	(ou	mais)	dos	seguintes	sintomas	presentes	durante	um	mesmo	período	de
duas	semanas	e	representando	mudança	no	funcionamento	anterior,	sendo	pelo
menos	um	desses	sintomas	ou	(1)	disposição	deprimida	ou	(2)	perda	de	interesse
ou	perda	de	prazer.
(1)	humor	deprimido	a	maior	parte	do	dia,	quase	todo	dia,	conforme	indicação
por	relato	subjetivo	(ou	seja,	sentimento	de	tristeza	ou	vazio)	ou	observação	feita
por	outros	(ou	seja,	ele	parece	choroso);
(2)	interesse	ou	prazer	marcadamente	diminuído	de	todas,	ou	quase	todas	as
atividades,	quase	o	dia	inteiro,	todo	dia;
(3)	perda	significativa	de	peso	sem	fazer	dieta,	ou	ganho	de	peso	(ou	seja,	uma
mudança	de	mais	de	5%	do	peso	do	corpo	em	um	mês),	ou	aumento	ou
diminuição	de	apetite	quase	todos	os	dias;
(4)	insônia	ou	hipersonia	quase	todos	os	dias;
(5)	agitação	ou	retardo	psicomotor	quase	todo	dia	(observável	pelas	outras
pessoas);
(6)	fadiga	ou	perda	de	energia	quase	todos	os	dias;
(7)	sentimentos	de	desvalor	ou	culpa	excessiva	ou	não	apropriada...	quase	todos
os	dias;
(8)	capacidade	de	pensamento	ou	concentração	diminuídos,	ou	indecisão,	quase
todos	os	dias;
(9)	pensamentos	recorrentes	sobre	a	morte...	ideação	suicida	recorrente	sem
nenhum	plano	específico,	ou	uma	tentativa	de	suicídio	ou	plano	específico	para
suicídio...	Os	sintomas	não	são	devidos	aos	efeitos	fisiológicos	diretos	de	alguma
substância	(ou	seja,	o	abuso	de	uma	droga	ou	medicação)	ou	condição	médica
generalizada	(por	exemplo,	hipotiroidismo).¹
Um	distúrbio	distímico	é	uma	variante	da	depressão	de	duração	mais	longa	–
pelo	menos	dois	anos	–	mas	menos	intensa.	Em	vez	da	longa	lista	de	sintomas	de
um	Episódio	Depressivo	Maior,	os	requisitos	para	a	distimia	omitem	alguns	dos
critérios	mais	severos.
Presença,	quando	deprimido,	de	dois	(ou	mais)	dos	seguintes:
(1)	falta	de	apetite	ou	comer	demais;
(2)	insônia	ou	hipersonia;
(3)	falta	de	energia	ou	fadiga;
(4)	baixa	autoestima;
(5)	falta	de	concentração	ou	dificuldade	em	tomar	decisões;
(6)	sentimento	de	falta	de	esperança²
Acrescentando	à	lista	sentimentos	de	ansiedade,	culpa,	ira	e	falta	de	amor,
podemos	ver	como	a	depressão	abre	um	leque	tão	amplo	que	poderá	incluir
muita	coisa.
Na	última	década,	um	rótulo	cada	vez	mais	popular	para	a	depressão	é	Distúrbio
Bipolar.	Quando	os	deprimidos	são	rotulados	de	bipolares,	significa	que
provavelmente	experimentaram	um	período	fora	do	comum,	de	humor	elevado.
Tipos	e	causas
Entre	as	linhas	acima	descritas,	existe	toda	espécie	de	teoria	quanto	às	causas	da
depressão.	Indo	em	direção	ao	menos	severo,	muitos	presumem	que	as	causas
sejam	de	relacionamentos,	circunstâncias	difíceis,	ou	pensamentos	negativos.
Em	direção	ao	mais	severo,	a	teoria	popular	é	que	se	origine	de	um	desequilíbrio
químico.
Não	compre	ainda	as	generalizações.	Tente	permanecer	descrente	por	mais	um
pouco,	pois	aqui,	é	cedo	demais	para	fazer	juízos.	Ninguém	poderá	diagnosticar
um	desequilíbrio	químico	convicto	de	estar	totalmente	certo	porque	não	há	como
saber	isso	com	segurança.	Ainda	que	existisse	um	teste	para	isso	(o	que	não	há),
esse	não	pode	dizer	se	o	desequilíbrio	causou	a	depressão	ou	resultou	dela.
O	problema	de	uma	opção	imediata	por	uma	explicação	médica	é	que,	uma	vez
feita	a	decisão,	todas	as	demais	perspectivas	parecerão	superficiais	ou
irrelevantes.	Por	exemplo,	por	que	preocupar-se	com	questões	surgidas	devido
ao	sofrimento	pessoal,	quando	um	comprimido	pode	dar	alívio?	Se	as	pessoas
deprimidas	assumirem	que	seu	problema	seja	fundamentalmente	médico,	pedir
que	elas	examinem	seus	relacionamentos	ou	suas	crenças	básicas	a	respeito	de
Deus	parecerá	tão	inútil	quanto	prescrever	exercícios	físicos	para	a	calvície.	O
exercício	sempre	ajuda,	mas	não	faz	crescer	o	cabelo.
Uma	razão	pela	qual	no	capítulo	anterior	insistimos	para	que	você	descreva	seus
sentimentos	é	que,	ao	fazê-lo,	você	começará	a	notar	seus	temores,	fracassos,
perdas,	frustrações	e	relacionamentos	quebrados,	ligados	a	esses	sentimentos.
Quando	enxergar	essa	colcha	de	retalhos	de	contribuições,	você	poderá	ver	que	a
limitação	a	uma	explicação	física	minimizará	o	problema	e	fará	com	que	você
perca	a	sinalização	indicativa	de	outras	respostas.
Acrescentamos	ainda	que	devemos	suspeitar	também	das	causas	espirituais.
Você	sabe	que	toda	espécie	de	dificuldade	poderá	desafiar	e	fortalecer	a	fé,	mas
você	não	sabe	muito	mais	que	isso.	Algumas	pessoas	deprimidas	reagem
fortemente	contra	a	possibilidade	de	uma	causa	espiritual.	Outras	correm	para
essa	ideia,	acreditando	que	uma	vez	descoberto	o	pecado	central,	tudo	mais
mudará.	Sentem	que	deve	ser	uma	deficiência	espiritual	pois	faltam-lhes	alegria,
afeto	profundo,	vitalidade	espiritual.	Pensam:	talvez	eu	esteja	entre	os	“mornos”
do	livro	do	Apocalipse	(Ap	3.16),	grupo	esse	que	certamente	querem	abandonar
tão	logo	seja	possível.	A	depressão,	porém,	é	o	momento	de	rever	tanto	as	nossas
expectativas	quanto	as	de	Deus	para	a	vida	emotiva.	Contrário	ao	que	podemos
pensar,	Deus	diz	que	uma	fé	forte	pode	coexistir	com	altos,	baixos	e	todos	os
entremeios	emocionais.	É	um	mito	crer	que	a	fé	esteja	sempre	sorrindo.	A
verdade	é	que	a	fé,	muitas	vezes,	parece	um	processo	bem	ordinário,	de	arrastar
um	pé	ante	o	outro	porque	estamos	conscientes	de	Deus.
Nenhum	pecado	é	necessariamente	ligado	à	tristeza	de	coração,	pois	Jesus	Cristo
nosso	Senhor	disse	certa	vez:	“Minha	alma	está	triste	até	a	morte”.	Não	havia
nele	pecado	algum,	e,	consequentemente,	na	sua	profunda	depressão	não	havia
pecado.³
Aqui,	neste	ponto,	você	sabe	o	seguinte:	a	vida	é	sem	graça.	A	miséria	marca
tudo	mais.	Sua	primeira	reação	é:	Como	poderei	me	livrar	disso	o	mais	depressa
possível?	Existe	algum	valor	em	diminuir	rapidamente	a	dor,	se	for	possível.
Masa	depressão	deverá	ser	abordada	com	cuidado.	Ela,	talvez,	esteja	apontando
questões	importantes	do	coração	que	clamam,	pedindo	atenção.	Ignorá-las,
simplesmente	fará	com	que	voltem	mais	tarde.	Há	momento	quando	a	depressão
diz	alguma	coisa	e	nós	precisamos	escutar.
Resposta
Em	outro	capítulo,	examinaremos	questões	sobre	medicamentos	e	outros
tratamentos.	No	ponto	em	que	nos	encontramos,	não	discutiremos	se	você	está
ou	não	tomando	medicação,	mas	se	a	medicação	não	é	o	único	plano	de	ataque
ao	problema.	Mesmo	que	os	remédios	aliviem	um	pouco	o	peso	da	depressão,
poderá	funcionar	apenas	como	uma	aspirina.	Ou	seja,	tira	alguns	dos	sintomas,
mas	a	raiz	dos	problemas	permanece.
O	que,	além	de	desequilíbrio	químico,	poderá	estar	contribuindo	para	sua
experiência	depressiva?
1	American	Psychiatric	Association,	Diagnostic	and	Statistical	Manual	of
Mental	Diseases,	Fourth	Edition	(Washington,	D.C.:	American	Psychiatric
Association,	1994),	p.	327.
2	Diagnostic	and	Statistical	Manual	of	Mental	Diseases,	Fourth	Edition,	p.	349.
3	SPURGEON,	C.H.	Sword	&	Travel,	2000:	1,	p.	11.
Parte	I
Depressão	é	sofrimento
Capítulo	4
Sofrimento
						Com	todo	o	debate	sobre	as	causas	da	depressão,	é	fácil	perder	de	vista
aquilo	que	é	óbvio:	a	depressão	é	dolorosa.	É	uma	forma	de	sofrimento.	De
início,	esta	declaração	não	parece	acrescentar	nada.	Apenas	diz	o	que	você	já
sabe.	Entretanto,	se	você	conhece	as	Escrituras,	deve	perceber	um	raio	de	luz.
Sem	o	entendimento	da	Escritura,	o	sofrimento	é	aleatório	e	sem	sentido.
Quando	chegar	o	sofrimento	–	você	pensa	–,	fuja	depressa!	A	Bíblia,	porém,
trata	do	sofrimento.	Ela	tem	consolado	a	milhões	de	pessoas	e	gerado	centenas
de	livros	maravilhosos	que	destacam	o	terno	cuidado	de	Deus	e	a	profundidade
do	entendimento	da	Escritura.	O	único	problema	que	enfrentamos	é:	quais	as
palavras	mais	relevantes	da	rica	comunicação	de	Deus	aos	sofredores?
Se	examinarmos	as	Escrituras,	procurando	a	palavra	“depressão”	em	uma
concordância	bíblica,	só	encontraremos	uma	curta	lista	de	versículos.
(Dependendo	da	tradução,	poderá	ser	que	nem	encontremos	uma	lista.)	Se,
contudo,	expandirmos	a	investigação	para	incluir	homens	e	mulheres	cujas	lutas
sejam	paralelas	à	depressão	dos	dias	de	hoje,	encontraremos	mais	material.	Elias,
Saul,	Jeremias	e	Jonas	são	exemplos	que	vêm	imediatamente	à	mente.	Se	a
pesquisa	abranger	a	categoria	mais	ampla,	de	dor,	sofrimento,	provas,
tribulações,	desespero,	fardos,	pavor,	desesperança	e	uma	multidão	de	palavras	e
temas	relatados,	descobriremos	que	em	quase	toda	página	da	Escritura	há	algum
direcionamento,	entendimento	e	encorajamento.
Por	exemplo,	você	já	aplicou	à	depressão	o	ensino	seguinte?
Meus	irmãos,	tende	por	motivo	de	toda	alegria	o	passardes	por	várias	provações,
sabendo	que	a	provação	da	vossa	fé,	uma	vez	confirmada,	produz	perseverança.
Ora,	a	perseverança	deve	ter	ação	completa,	para	que	sejais	perfeitos	e	íntegros,
em	nada	deficientes.	(Tg	1.2-4)
Não	são	as	palavras	de	Deus	mais	fáceis	de	serem	ouvidas	e,	ligá-las	à	sua
situação	em	particular,	exigiria	algumas	explicações.	Mas	a	ausência	do
vocábulo	“depressão”	não	nos	impede	de	encontrar	encorajamento	e	propósito
nessa	passagem.	Tiago	aumenta	intencionalmente	o	escopo	do	sofrimento	–
várias	provações.	Ao	fazer	isso,	ele	convida	os	que	passam	pela	experiência	de
depressão	a	aprender	que,	qualquer	que	seja	a	causa,	a	depressão	revela	nossa	fé
e	serve	como	catalisador	do	crescimento,	não	havendo	espaço	para	o	desespero.
Esse	trecho	é	apenas	uma	comunicação	de	Deus	que	escolhemos	aleatoriamente.
Você	já	pode	ver	que	existe	propósito	no	sofrimento.	Isso,	em	si,	pode	ter
impacto	profundo	sobre	a	depressão.	“Tudo	que	quero	na	vida	é	que	essa	dor
pareça	ter	propósito”.¹
As	causas	do	sofrimento
Quando	a	depressão	é	incluída	no	problema	maior	do	sofrimento	humano,
descobrimos	que	sabemos	mais	a	respeito	da	depressão	do	que	pensamos.	A
Escritura	é	como	óculos	para	daltônicos	horrivelmente	míopes.	Com	eles,	vemos
detalhes	que	não	sabíamos	existir,	e	os	vemos	em	cores	de	alta	definição.
Contemple	pela	visão	da	Escritura,	por	exemplo,	para	a	questão	da	causa	da
depressão	(sofrimentos	e	provações).	Suas	respostas	afastam-se	do	simplismo	e
apontam	pelo	menos	cinco	causas	possíveis:
Outras	pessoas	poderão	ser	uma	das	causas	de	provação	depressiva.	Olhe	os
salmos	e	descobrirá	que	metade	deles	é	de	clamor	ao	Senhor	em	função	de
opressão	da	parte	de	outros.	As	pessoas	traem	e	abusam.	Prometem	e	não
cumprem;	ferem,	espalham	e	destroem	porque	se	importam	com	seus	próprios
desejos	e	não	com	os	interesses	do	próximo.	Em	alguns	casos	de	depressão,
somos	capazes	de	encontrar	uma	pessoa	que	cambaleia	devido	aos	pecados	de
outros.
Nós	também	somos	causa	de	sofrimento.	Nossa	raiva	causa	o	divórcio	e	a
solidão	subsequente.	Nosso	roubo	causa	aprisionamento.	Não	se	surpreenda,
se	descobrir	dentro	de	si	mesmo	temores,	iras	e	desejos	egoístas	espreitando
por	trás	de	alguma	depressão.	A	ira,	em	especial,	é	uma	causa	notória.
Nossos	corpos	são	outra	causa	óbvia	de	depressão.	Desde	a	entrada	do	pecado
no	mundo,	nosso	corpo	enfraquece	e	aos	poucos	se	desgasta.	Doença,
deterioração	devido	ao	avanço	da	idade,	lutas	pós-parto	e	possíveis
desequilíbrios	químicos	são	apenas	algumas	das	causas	físicas	ligadas	à
depressão.
Isso	significa	que	aqueles	a	quem	amamos	também	sofrerão	declínio	e	morte
física,	que,	claramente,	é	outra	causa	de	sofrimento	pessoal	e	depressão.	Charles
Spurgeon,	o	famoso	pregador	inglês,	lutou	contra	a	depressão	durante	toda	sua
vida.	Aparentemente,	o	que	deu	início	a	essa	condição	foi	uma	tragédia
específica.	Ele	pregava	a	uma	imensa	congregação	–	mais	de	doze	mil	pessoas
abarrotavam	a	igreja	e	mais	de	dez	mil	permaneciam	do	lado	de	fora.	Logo	após
o	início	do	culto,	alguém	gritou:	“Fogo”!	No	caos	resultante,	a	multidão
frenética	causou	a	morte	de	sete	pessoas.	Spurgeon	ficou	inconsolável.
Essas	três	causas	–	os	outros,	nós	mesmos	e	o	corpo	físico	que	se	desgasta	e
morre	–	são	aparentes	a	olho	nu.	Mas	duas	outras	causas	são	mais	difíceis	de
serem	vistas	sem	a	lente	e	a	luz	da	Escritura.
Satanás	é	a	quarta	causa	do	sofrimento	humano.	O	livro	de	Jó	é	um	dos
poucos	lugares	da	Escritura	em	que	sua	faina	é	claramente	exibida.	Satanás
mente	e	pode	nos	afligir	fisicamente,	mas,	em	geral,	procura	nos	persuadir	de
que	a	fidelidade	ao	Deus	verdadeiro	não	é	de	nosso	interesse.	Fora	dos
círculos	religiosos,	não	é	estimado	falar	sobre	Satanás,	mas	isso,	em	si	mesmo,
não	é	razão	para	descartá-lo.	Satanás	não	busca	reconhecimento	para	o	seu
nome;	prefere	não	chamar	atenção	a	si	mesmo.	Em	lugar	disso,	ele	procura
desviar	nossa	atenção	de	Deus.
Finalmente,	o	próprio	Deus	poderá	ser	causa	de	nosso	sofrimento.	“Às	vezes
Deus	põe	seus	filhos	para	dormir	no	escuro”	–	era	o	jeito	de	um	velho	pregador
descrever	a	possibilidade.	Dizemos	que	Deus	“permite”	o	sofrimento,	e,	às
vezes,	as	Escrituras	utilizam	tal	linguagem,	porém	os	autores	bíblicos	estavam
convencidos	de	que	Deus	era	o	Deus	criador	único,	verdadeiro	e	soberano.	Não
podiam	imaginar	um	mundo	em	que	Deus	não	estivesse	entronizado.	Nada
acontece	sem	sua	supervisão	soberana,	inclusive	nosso	sofrimento.
O
Senhor
é	o	que	tira	a	vida	e	a	dá;	faz	descer	à	sepultura	e	faz	subir.	O
Senhor
empobrece	e	enriquece;	abaixa	e	também	exalta	(1	Sm	2.6-7).
Eu	formo	a	luz	e	crio	as	trevas;	faço	a	paz	e	crio	o	mal;	eu,	o
Senhor
,	faço	todas	estas	coisas	(Is	45.7).
Deus	está	sobre	todas	as	coisas.	Nada	acontece	sem	seu	conhecimento	ou	fora	de
sua	vontade.	Quando	o	sofrimento	e	a	depressão	batem	à	porta,	foi	o	agir	de
Deus.	Crer	em	outra	alternativa	seria	optar	por	um	universo	aleatório,	fora	do
controle,	sem	mão	para	dirigir,	sem	algo	que	traga	todas	as	coisas	a	um	fim
predeterminado	e	que	inspire	admiração.
É	claro	que	isso	levanta	outras	questões	quanto	à	bondade	de	Deus,	e	essas	estão
em	nossa	agenda.	Para	o	momento,	quero	apenas	que	você	se	oriente	para	ver	a
depressão	por	meio	da	lente	do	sofrimento,	lembrando	que	o	sofrimento	poderá
vir	de	inúmerase	diferentes	causas.	Não	chegue	depressa	demais	às	conclusões.
Causas	múltiplas
Depois	de	ter	dado	uma	lista	de	cinco	possíveis	causas	para	o	sofrimento,	o
próximo	passo,	logicamente,	será	discernir	a	origem	de	um	instante	específico	de
sofrimento.	Mesmo	isso	não	é	tão	simples	assim.	Embora	existam	vezes	em	que
um	motivo	específico	seja	óbvio,	a	Escritura	não	reduz	as	dificuldades	a	uma
única	causa	específica.	Para	cada	luta	na	vida,	ela	nos	conduz	a	esperar	múltiplas
fontes.
Um	exemplo	popular	está	nos	sofrimentos	de	José	(Gn	37-50).	Aquilo	que
começou	com	inveja,	transformou-se	em	sequestro	e	sua	venda	como	escravo,
perpetrados	pelos	próprios	irmãos.	Foi	esse	o	primeiro	dominó	de	uma	longa
sequência	de	eventos	que	incluiu	a	traição	da	parte	de	uma	mulher	mentirosa	e
uma	prisão	egípcia.	Quando,	pela	providência	divina,	José	encontrou	seus
irmãos,	anos	mais	tarde,	sua	explicação	para	o	sofrimento	foi:	“Vocês	[irmãos]
planejaram	o	mal	contra	mim,	mas	Deus	o	tornou	em	bem,	para	que	hoje	fosse
preservada	a	vida	de	muitos”	(Gn	50.20	–	NVI).	Em	outras	palavras,	José
identificou	duas	causas	para	seu	sofrimento:	seus	irmãos	e	Deus.	Fazendo	isso,
ele	abriu	uma	janela	que	fornece	vislumbres	do	caráter	de	Deus.	No
entendimento	dele,	Deus	podia	ser	a	causa	do	sofrimento,	de	forma	que	até
mesmo	a	dificuldade	evidenciasse	a	sua	bondade.	É	certo	que	isso	é	um	mistério,
mas	José	é	apresentado	na	Escritura	como	um	homem	sábio.	É	modelo	cuja
perspectiva	convida	à	reflexão,	o	que	faremos	em	outros	capítulos.
Outro	sofredor	bem	conhecido	foi	o	apóstolo	Paulo.	Seus	problemas,	muitas
vezes,	foram	causados	por	outras	pessoas,	mas	ele	também	reconheceu	que	Deus
era	autor	de	seus	sofrimentos,	o	que	lhe	permitiu	andar	após	os	sofrimentos	de
Cristo.	Entre	as	maiores	dificuldades,	havia	uma	que	Paulo	chamou	de	“espinho
na	carne”	(2	Co	12.7).	Embora	não	saibamos	precisamente	a	natureza	do	mal,
Paulo	identificou	pelo	menos	três	causas:	seu	próprio	orgulho,	a	mensagem	de
Satanás,	e	Deus	–	três	causas	de	um	único	sofrimento.
Aplicando	isso	à	depressão,	o	ensino	sugere	que	a	busca	de	uma	única	causa
específica	poderá	ocasionar	também	exagerada	redução.	Por	exemplo,	ela	poderá
ter	causas	físicas,	mas	isso	não	fechará	a	lista	para	outras	possibilidades.	Poderá
ser,	simultaneamente,	consequência	de	batalha	espiritual,	do	pecado	de	outros	e
do	próprio	pecado	–	e	sempre	estará	sob	a	supervisão	do	soberano	Deus.
Causas	desconhecidas
Ainda	que	a	Escritura	revele	a	existência	de	origens	múltiplas	para	o	sofrimento,
e	que	as	mesmas	operem	simultaneamente,	a	qualquer	tempo,	ela	é	menos	clara
quanto	ao	diagnóstico	preciso	das	causas	específicas	das	dificuldades.	É	claro
que	existem	vezes	em	que	essas	causas	são	óbvias.	Por	exemplo,	se	o	seu	amigo
foi	à	falência	depois	de	muitos	anos	de	dívidas	acumuladas	em	jogatina,	ele	terá
sido	a	causa	do	próprio	sofrimento.	Se	uma	mulher	abandonou	o	marido
simplesmente	porque	preferiu	ser	livre,	ela	terá	sido	a	causa	do	próprio
sofrimento	(bem	como	de	seu	marido).	Nesses	casos,	nem	sempre
conseguiremos	discernir	todos	os	fatores	implicados,	tais	como:	a	pessoa	que
apresentou	o	amigo	aos	jogos	de	azar,	o	agenciador	de	apostas	que	continuou	a
estender	crédito,	a	colega	de	trabalho	que	estimulou	a	mulher	a	deixar	o	marido
–	ou	a	mãe	dela	que,	divorciando-se	do	marido	sem	causa	legítima	e
abandonando	a	família,	deu-lhe	exemplo	de	uma	opção	que,	talvez,	jamais	teria
considerado.
A	razão	de	a	Escritura	não	oferecer	diretrizes	claras	quanto	ao	diagnóstico	é	que
não	é	essencial	saber	as	causas	específicas.	Uma	vez	mais,	temos	Jó	como
modelo.	Embora	nós	saibamos	que	Satanás	foi	o	causador	do	seu	sofrimento,	Jó
não	tinha	consciência	dos	motivos.	Mesmo	depois	de	ter	a	sorte	restaurada,	Jó
jamais	soube	realmente	por	que	havia	sofrido	tanto.	Ainda	que	tenha	pedido	uma
entrevista	com	Deus	a	fim	de	pleitear	inocência,	a	única	coisa	que	o	Senhor
revelou	foi	que	ele	mesmo	–	e	não	Jó	–	era	Deus.	No	entanto,	isso	satisfez
plenamente	a	todas	as	perguntas	que	Jó	tinha	quanto	aos	porquês.
Dá	para	ver	o	quadro	que	surge?	Será	possível	descobrir	algumas	das	razões	do
sofrimento,	mas	não	todas.	Há	um	mistério	em	todo	sofrimento,	tal	como	o
mistério	que	persiste	no	final	de	toda	a	investigação	humana.
Em	vez	de	ensinar	como	identificar	as	causas	do	sofrimento,	a	Escritura	nos
dirige	ao	Deus	que	sabe	todas	as	coisas	e	que	é	plenamente	confiável.	Em	outras
palavras,	a	Escritura	não	nos	dá	conhecimento	para	que	tenhamos	domínio
intelectual	de	certos	acontecimentos;	dá-nos	conhecimento	para	que	nos
acheguemos	a	Deus	com	toda	confiança.	“Deus,	eu	não	sei	o	que	o	Senhor	está
fazendo,	mas	o	Senhor	sabe,	e	isso	basta”.	A	resposta	para	o	problema	do
sofrimento	está	em,	de	algum	modo,	voltarmos	para	Deus	e	confiarmos	nele
quanto	aos	mistérios	do	sofrimento.
O	que	isso	tem	a	ver	com	a	depressão?	Talvez	você	consiga	discernir	algumas
causas	mais	óbvias	do	sofrimento,	e	o	conhecimento	poderá	aliviar	a	dor.
Contudo,	todo	padecimento	tem	o	propósito	de	nos	treinar	para	fixarmos	os
olhos	no	Deus	verdadeiro.	Assim,	a	depressão,	não	obstante	suas	causas,	é	uma
oportunidade	para	responder	às	questões	mais	profundas	e	importantes:	em	quem
confiarei?	A	quem	adorarei?
Resposta
Isso	tudo	é	muita	coisa	para	ser	assimilada	de	uma	só	vez.	Você	começa	a
perceber	como	a	simples	inclusão	da	depressão	na	categoria	mais	ampla	do
sofrimento	tem	imensas	implicações,	entretanto,	sua	resposta	poderá	ser	menos
que	entusiasmada.	Por	outro	lado,	você	sabe	que	existe	esperança	para	quem
sofre.	Dezenas	de	milhares	de	pessoas	têm	amadurecido	em	meio	às	dificuldades
e	dado	testemunho	de	que	Deus	é	fiel.	Isso	ainda	levanta	as	antigas	questões:
Como	Deus	pode	permitir	evento	tão	doloroso	e	debilitante	em	sua	vida?	Como
dizer	que	um	Deus	como	esse	se	importa	conosco?	Como	poderá	ser	um	Deus
bom?
Há	duas	maneiras	de	fazer	essas	perguntas.	Uma,	de	punho	cerrado;	a	outra,	de
coração	aberto.	A	primeira	maneira	fecha	os	ouvidos;	a	segunda	espera	ouvir	a
resposta.	Se	você	estiver	escutando,	serão	perguntas	boas	a	serem	feitas,	pois
existem	respostas.
Qual	é	a	diferença,	quando	consideramos	a	nossa	própria	luta	com	a	depressão
como	uma	forma	de	sofrimento?
1	WURTZEL,	Prozac	Nation,	p.	50.
Capítulo	5
Deus
						Existem	paradoxos	na	maioria	das	depressões.
Você	odeia	o	isolamento	da	depressão,	mas	evita	as	outras	pessoas.
Quer	ajuda,	mas	nem	sempre	escuta.
Acredita	que	existe	um	Deus,	mas	sente-se	ateu.
Dado	que	o	paradoxo	em	relação	a	Deus	é	o	de	maior	importância,	nós	o
examinaremos	primeiro.	Ele	é	encontrado	em	todo	tipo	de	sofrimento.
Você	já	ouviu	dizer	que	não	existem	ateus	nas	trincheiras?	Durante	tempos	de
luta	ou	crise	intensa,	muitas	pessoas	que	jamais	entretiveram	um	pensamento
religioso,	de	repente,	com	toda	humildade,	se	pegam	orando,	recitando	o	Pai
Nosso	e	lembrando:	“O	Senhor	é	meu	pastor...”	–	como	se	isso	tudo	estivesse
codificado	no	DNA	humano.
Todavia,	se	os	problemas	desaparecem	depressa,	com	a	mesma	rapidez
desaparecem	os	pensamentos	sobre	Deus;	o	guerreiro	prossegue	em	seu	caminho
sem	uma	única	palavra	de	gratidão,	quanto	mais	de	fidelidade	em	longo	prazo.
Que	fazer,	porém,	se	a	batalha	continuar	e	as	circunstâncias	não	mudarem?	Os
pleitos	humanos	tornar-se-ão	perguntas	que,	se	não	iradas,	serão,	pelo	menos,
ousadas:	“Por	que	Deus	está	fazendo	isso	comigo?”	“Deus,	o	que	eu	fiz	para
merecer	isso?”	O	sofrimento	nos	aflige	com	questionamentos	sobre	Deus,	de
uma	maneira	que	o	conforto	jamais	faria.
Quando	continuamente	atacados	pelas	circunstâncias	adversas,	poderá	ser	que
notemos	o	paradoxo	de	sermos	“crentes	ateus”.	Se	forçados	a	decidir,	diríamos
que	Deus	existe,	mas	nos	sentimos	cada	vez	mais	isolados	e	sós.	Quanto	mais
extremo	o	sofrimento,	mais	intenso	o	senso	de	solidão.	Se	Deus	existe,
certamente	não	parece	que	ele	está	aí	–	você	pensa.	O	refrão,	mesmo	entre
aqueles	cuja	fé	parecia	bastante	óbvia,	é:	“Durante	minha	depressão	mais
profunda,	eu	não	tinha	f锹.	Um	psiquiatra	francês,	depois	de	muitos	anos
cuidando	depacientes	deprimidos,	observou:	“Todas	as	pessoas	deprimidas	são
ateias,	rabugentas	e	radicais”.	Qualquer	que	seja	o	lado	do	paradoxo	enfatizado
em	sua	própria	vida	–	de	crente	ou	de	incrédulo	–	a	depressão	levanta
questionamentos	sobre	Deus.	Incertezas	são	inevitáveis	ao	longo	de	qualquer
tipo	de	sofrimento	prolongado.
Muita	discussão	existe	quanto	ao	modo	como	as	pessoas	deprimidas	entretêm
pensamentos	distorcidos	e	inexatos,	mas	aqui	–	em	suas	batalhas	espirituais,
questionamentos	e	ateísmo	prático	–	elas	estão	com	alguma	coisa	certa.	Na	raiz,
o	tema	da	vida	é	Deus.	Quer	cerremos	o	punho	contra	ele,	quer	o	sintamos	tão
distante	que	sua	existência	seja	irrelevante,	quer	tremamos	diante	dele,	sentindo-
nos	réus	de	seu	juízo;	a	realidade	é	esta:	as	questões	básicas	da	vida	e	as
fundamentais	do	coração	humano	estão	relacionadas	com	Deus.	A	vida	abrange
o	conhecimento	ou	a	rejeição	de	Deus.	Trata-se	de	alianças	espirituais.	Em	quem
você	confiará	no	meio	do	sofrimento?	A	quem	adorará?
Consideremos	Jó,	mais	uma	vez.	O	intenso	sofrimento	e	as	imensas	perdas	na
vida	levaram-no,	quase	imediatamente,	a	um	questionamento	espiritual	básico:
agora	que	o	sofrimento	tinha	residência	permanente	em	sua	casa,	poderia	ele
ainda	confiar	em	Deus	e	adorá-lo?
Não	houve	ambiguidade	em	sua	resposta.	Quando	perdeu	todos	os	filhos,
“lançou-se	em	terra,	e	”,	fez	a	impactante	declaração:	“o	Senhor	o	deu	e	o
Senhor	o	tomou;	bendito	seja	o	nome	do	Senhor!”	(Jo	1.21)
Nesse	exato	momento,	é	provável	que	não	lhe	pareça	bem	cair	ao	chão,
prostrado,	para	adorar.	Torpor,	dor	e	adoração	não	lhe	parecem	andar	juntos.
Contudo,	ao	menos	reflita	sobre	quem	Deus	é.	A	depressão	ao	mesmo	tempo
requer	e	evita	essa	consideração.	Requer,	porque	todo	sofrimento	leva	a
perguntas	quanto	ao	caráter	de	Deus.	Evita	porque,	naturalmente,	ninguém	busca
a	Deus.	O	sofrimento	faz	com	que	Deus	pareça	mais	distante	e	desinteressado.
Ao	refletir	sobre	Deus,	espere	encontrar	falácias	de	pensamento,	a	seu	próprio
respeito	e	a	respeito	de	Deus.	Em	outras	palavras,	embora	você	goste	de	pensar
que	tudo	que	precisa	saber	a	respeito	de	Deus	–	ou	tudo	que	você	quer	saber
sobre	–	você	não	conhece!	Se	resistir	tal	oferta	graciosa,	provavelmente	estará
zangado	com	Deus;	e	então	terá	ainda	mais	razões	para	considerar	quem	ele	é.
Deus	convida	pessoas	iradas	para	que	venham	a	ele,	e	se	surpreendam.
Surpresa	#	1:	Jesus	compartilhou	os	nossos	sofrimentos
Às	vezes	fazemos	uma	estranha	divisão	entre	Jesus,	o	Filho,	e	Deus,	Pai.	O	Pai
parece	sempre	um	tanto	irritável	e	exigente	com	nossas	falhas;	Jesus	sempre
perdoa	e	é	bondoso.	Contudo,	considere	que	o	Deus	trino	é	um	único	Deus,	que
escolheu	revelar-se	plenamente	em	Jesus.	Jesus	é	o	sumário	do	próprio	Deus.
“Ele	[Jesus],	que	é	o	resplendor	da	glória	e	a	expressão	exata	do	seu	Ser”	(Hb
1.3).
Jesus	é	a	mais	sofisticada	expressão	da	pessoa	de	Deus,	a	nós	revelada.	Nele
podemos	sempre	escolher	aquilo	que	surpreende.	Eis	uma	característica
inesperada:	Jesus	partilhou	de	nossos	sofrimentos.
Se	inventássemos	um	sistema	religioso,	provavelmente	não	imaginaríamos	um
deus	que	se	tornasse	como	as	pessoas	que	criou.	Mas	Deus	fez	ainda	mais	do	que
isso.	Ele	se	tornou	como	uma	de	suas	criaturas	e	voluntariamente	sofreu	morte
horrorosa	para	que	elas	fossem	poupadas.	Mesmo	os	homens	e	mulheres	que
estudavam	as	Escrituras,	antes	do	advento	de	Cristo,	não	puderam	imaginar	que
Deus	se	aproximaria	tanto.	Nunca	imaginaram	que	o	Messias,	o	próprio	Deus,
sofreria	em	seu	lugar	da	maneira	como	ocorreu.
Se	você	imagina	que	Deus	está	distante	e	indiferente,	eis	uma	revelação
surpreendente.	Desde	a	fundação	do	mundo,	Deus	conhecia	os	nossos
sofrimentos	particulares,	e	declarou	que	ele	mesmo	tomaria	a	forma	humana	e
participaria	deles	(o	que	quer	dizer	que	nós	também	poderemos	participar	dos
dele).	Leia	com	cuidado	o	Novo	Testamento.	Você	encontrará	Jesus	decidido	a
absorver	o	sofrimento	ao	seu	redor.	Esse	não	é	um	Deus	distante	ou	indiferente.
Em	um	hospital	africano,	uma	senhora	idosa	e	pobre	aproximou-se	de	um	pastor
que	acabara	de	testemunhar	mais	uma	morte.	Tomando	o	braço	do	pastor,	ela
disse:
Sabe,	por	meio	da	perda	de	muitos	familiares	e	amigos	e	sofrimentos	intensos,	o
Senhor	me	ensinou	uma	coisa:	Jesus	Cristo	não	veio	para	tirar	nossa	dor	e
sofrimento,	mas	para	partilhar	dela	conosco.²
Fazendo	a	crônica	de	um	dia,	o	Evangelho	de	Marcos,	no	capítulo	catorze,	revela
a	extensão	em	que	Jesus	participou	de	nossos	sofrimentos:
“Os	principais	sacerdotes	e	mestres	da	lei	procuravam	ocasião	para	prendê-lo,	à
traição,	e	o	matariam”	(v.1).
Judas	concordou	com	a	traição,	em	troca	de	dinheiro.
Jesus	predisse	que	um	de	seus	seguidores	o	negaria.
Jesus	predisse	que	seus	outros	seguidores	o	abandonariam.
Os	líderes	o	prenderam.
Cuspiram	nele.
Deram-lhe	bofetadas	e	murros	que	poderiam	tê-lo	matado.
Isso	tudo,	antes	de	ser	humilhado	e	crucificado.
Todavia,	ao
Senhor
agradou	moê-lo,	fazendo-o	enfermar
(Is	53.10).
Então,	começou	ele	a	ensinar-lhes	que	era	necessário	que	o	Filho	do	Homem
sofresse	muitas	coisas,	fosse	rejeitado	pelos	anciãos,	pelos	principais	sacerdotes
e	pelos	escribas,	fosse	morto	e	que,	depois	de	três	dias,	ressuscitasse	(Mc	8.31).
Conduzindo	muitos	filhos	à	glória,	aperfeiçoasse,	por	meio	de	sofrimentos,	o
Autor	da	salvação	deles	(Hb	2.10).
Jesus	foi	chamado	“homem	de	dores”	(Is	53.3).	Foi	afligido,	oprimido,
desprezado	e	rejeitado	a	ponto	de	as	pessoas	virarem-lhe	as	costas	para	evitar	o
seu	rosto.	Tudo	isso	é	sabido	a	respeito	de	Jesus,	mas	agora	que	seu	sofrimento
lhe	é	familiar,	você	deveria	se	chocar	com	o	fato	de	que	alguém,
voluntariamente,	assumisse	tamanha	dor	sobre	si	mesmo.
Um	sofredor	deveria	reconhecer	outro	sofredor.	Como	pessoa	que	sofre,	você
reconhecerá	as	dores	de	Jesus;	certamente	ele	conhece	as	suas.	Um	profundo
suspiro	denota	isso.	Quando	Jesus	curou	o	surdo,	ele	deu	um	profundo	suspiro,
olhando	para	o	céu	(Mc	7.34).	Jesus	Cristo	deixou-se	comover	com	o	sofrimento
que	via	ao	seu	redor	e,	como	Senhor	ressuscitado,	continua	a	se	comover	com	o
nosso	sofrimento,	hoje.
Martinho	Lutero	disse	que	a	cruz,	somente,	é	nossa	teologia.	Na	cruz,	vemos
Deus	tomando	sobre	si	mesmo	todo	o	nosso	sofrimento	e	juízo.	Olhe	de	perto	e
você	verá	um	cordeiro	inocente	imolado.	Como	resultado	dessa	constatação,	os
teólogos	têm	sido	rápidos	em	observar	que,	por	mais	trágicas	que	sejam	as	coisas
que	acontecem	às	criaturas	de	Deus	que	se	acham	decaídas	por	causa	do	pecado,
ainda	assim,	são	menos	monstruosas	e	criminosas	do	que	o	ocorrido	ao	Filho	de
Deus.³
Como	responder	a	isso?
•	Você	observou	que,	às	vezes,	diante	de	alguém	cujo	sofrimento	parece	maior
que	o	nosso,	nossa	dor	se	torna	mais	leve,	menos	intensa?	É	como	se	o
sofrimento,	por	alguns	instantes,	fosse	afastado	de	nós.	As	dores	de	Jesus
podem,	na	verdade,	alçar-nos	a	ele,	permitindo-nos	ver	do	lado	de	fora	de	nós
mesmos.
•	A	cruz	adverte	que	a	vida	não	será	fácil.	Se	Jesus	foi	um	servo,	nós	também
seremos.	Se	Jesus	sofreu,	nós	também	seremos	provados,	pois	nenhum	servo	é
maior	que	seu	mestre.	No	entanto,	as	coisas	nem	sempre	são	o	que	aparentam.	O
sofrimento	faz	parte	do	caminho	que	conduz	à	glória	e	beleza.	“Quem	sai
andando	e	chorando,	enquanto	semeia,	voltará	com	júbilo,	trazendo	os	seus
feixes”	(Sl	126.6).	Existe	propósito	no	sofrimento.	Ele	nos	transforma	para	que
sejamos,	cada	vez	mais,	como	o	próprio	Jesus.	“Quando	Cristo	chama	uma
pessoa,	ele	manda	que	venha	e	morra”.⁴	Mas	essa	morte	não	é	o	fim	da	história.
•	Quando	alguém	já	padeceu	como	você,	certamente	entende	sua	dor	antes	que
você	a	expresse.	Poderá,	até	mesmo,	emprestar	palavras	que	descrevam	o	seu
sofrimento.	Jesus	sofreu:	portanto,	ele	conhece	nossa	dor.
Surpresa	#	2:	Deus	é	bom	e	generoso
É	difícil	argumentar	contra	a	bondade	de	Jesus,	quando	somos	lembrados	de	que
ele	partilhou	dos	nossos	sofrimentos	e	tem	compaixão	por	aquele	que	padece.
No	entanto,	é	fácil	protestar,	quando	ouvimos	que	Deus	é	bom	e	generoso.	Nesse
momento	de	sua	vida,	parece	que	a	bondade	e	a	generosidade,especialmente	da
parte	de	um	Deus	todo-poderoso,	só	podem	ser	demonstradas	com	a	remoção	de
nossa	depressão.	Se	Deus	a	arrancar,	você	se	convencerá.	Caso	contrário,
continuará	duvidando.
Lembre-se,	porém,	do	que	já	sabe.	Primeiro,	que	Jesus	sofreu	–	ele,	que	é	o	Filho
unigênito	do	Pai,	profundamente	amado.	Quando	nós	sofremos	aquilo	que	nos
parece	dor	sem	fim,	fica	mesmo	difícil	acreditar	que	Deus	nos	ama.	Contudo,	a
aflição	de	Jesus	prova	essa	verdade	indubitável,	ainda	que	nem	sempre
compreendamos	aquilo	que	ocorre	nos	bastidores.	De	alguma	forma,	o
sofrimento	temporário	e	o	amor	poderão	andar	juntos.
Em	segundo	lugar,	“Aquele	que	não	poupou	o	seu	próprio	Filho,	antes,	por	todos
nós	o	entregou,	porventura,	não	nos	dará	graciosamente	com	ele	todas	as
coisas?”	(Rm	8.32).	A	cruz	é	a	única	evidência	que	poderá	nos	persuadir
totalmente	da	bondade	e	da	generosidade	de	Deus.	Não	há	argumento	contra
alguém	disposto	a	fazer	tamanho	sacrifício.	Se	alguém	entrega	seu	único	amado
filho	por	amor	de	outrem,	não	haverá	como	duvidar	desse	amor.	Quando	a
memória	do	sacrifício	de	tamanho	custo	parecer	distante,	e	formos	tentados	a
duvidar,	devido	às	frustrações	da	vida,	precisaremos	somente	de	um	rápido
lembrete.	Nosso	Deus	diz:	“Se	por	você	sacrifiquei	meu	próprio	Filho,	acha
mesmo	que	eu	seria	pão-duro	a	ponto	de	sonegar-lhe	meu	amor?”
Quando	não	conseguem	o	que	querem,	os	filhos	têm	dificuldade	em	acreditar	no
amor	dos	pais.	Afinal,	o	que	poderia	ser	melhor	do	que	lhes	satisfazer	todos	os
desejos?	Os	pais,	todavia,	conhecem	um	amor	mais	sofisticado.	Sabem	que
realizar	todos	os	desejos	dos	filhos	nem	sempre	será	o	melhor	para	eles.	Só
poderemos	lembrar-lhes	de	que	os	amamos.	“Meu	filho,	você	sabe	que	o	amo	e
quero	só	o	que	é	melhor	para	você.	O	que	estou	fazendo	no	momento	pode
parecer	ruim,	mas	pense	nisto:	eu	jamais	seria	cruel	com	você.	Eu	o	amo.	Agora,
terá	de	confiar	em	mim,	pois	sei	que	você	não	sente	isso”.
Deus	é	bom	e	generoso.	Jamais	será	sovina.	Ele	ordena	que	seu	povo	não
entretenha	a	cobiça	exatamente	porque	a	cobiça	é	a	negação	da	generosidade
divina.	Ele	não	está	tentando	negar	as	coisas	até	que	você	se	aprume	diante	de
ameaça	e	castigo.	Os	demônios	é	que	querem	que	você	acredite	nisso.	Em	vez
disso,	Deus	diz:	“Abre	bem	a	boca,	e	ta	encherei”	(Sl	81.10).	Ele	nos	convida	ao
mais	pródigo	banquete,	requerendo	apenas	que	estejamos	com	fome	e	não
tragamos	nada	(Is	55.1-3).
Essa	não	é	uma	tentativa	religiosa	para	produzir	sentimentos	agradáveis.	Na
verdade,	é	mais	difícil	surpreender-nos	com	a	bondade	e	generosidade	de	Deus
quando	nos	sentimos	tão	miseráveis.	Foi	dito,	a	respeito	do	puritano	William
Cowper:	“É	possível	ser	filho	de	Deus	sem	ter	consciência	da	bênção,	e	possuir
título	da	coroa	e	ainda	sentir-se	murado	nas	profundezas	de	um	calabouço”.⁵	O
alvo	é	simplesmente	lembrá-lo	da	verdade.	A	sua	tarefa	é	simplesmente	crer	(Jo
6.29).
Resposta
Quais	têm	sido	suas	reações	a	essas	ideias?	Preste	atenção	aos	sentimentos.
Indiferença?	Ambivalência?	Vislumbre	de	esperança?	Hostilidade?	Parece	uma
conversa	sobre	estrelas	e	galáxias,	quando	tudo	que	você	quer	é	consertar	o
carro?
Desde	os	anos	1960,	a	depressão	tem	sido	diagnosticada	como	um	problema
“clínico”	e	muitos	não	pensam	em	Deus	com	um	diagnósico	assim.	Mas	a
depressão	é	um	problema	humano	–	é	sofrimento	–	e	as	dores	normalmente
dizem	algo	para	Deus	e	sobre	Deus.	Se	essas	declarações	forem	ignoradas,	a	sua
jornada	será	cheia	de	desvios	e	becos	sem	saída.
O	que	sua	reação	está	lhe	dizendo?	O	que	revela	a	seu	próprio	respeito?
Você	só	é	amigo	de	Deus	em	tempo	ensolarado,	que	confia	nele	quando	tudo	vai
bem,	mas	suspeita	quando	as	coisas	se	complicam?	Se	esse	for	o	caso,	bem
vindo	à	raça	humana.	Olhe	para	pessoas	como	São	Basílio.	A	seu	respeito,
Gregório	de	Nissa	comentou	que	sua	fé	era	“ambidestra”	–	de	um	lado	ele	dava
boas-vindas	ao	prazer,	do	outro,	às	aflições.
Temos	de	batalhar,	neste	ponto,	com	a	tendência	à	passividade	comum	à
depressão.	Não	espere	até	que	a	fé	seja	inculcada	em	seu	coração.	Busque	ao
Senhor.	Se	há	alguma	garantia	maior	na	Escritura,	é	a	de	que	ele	se	revelará	cada
vez	mais	àqueles	que	o	buscam.	Leia	as	grandes	orações	da	Escritura	(Ef	1.17-
23;	3.14-19),	apropriando-se	delas.	Se	não	conseguir	tomar	posse,	pelo	menos,
permita	que	elas	o	induzam	à	honestidade	enquanto	derrama	diante	de	Deus	as
suas	próprias	orações.
1	HULME,	W.	e	HULME,	L.	Wrestling	with	Depression:	a	Spiritual	Guide	to
Reclaiming	Life	(Minneapolis:	Augsburg,	1995),	p.	45.
2	SEMPANGI,	K.	A	Distant	Grief	(Ventura,	CA:	Regal,	1979),	p.	179.
3	FORSYTH,	P.T.	The	Justification	of	God	(Londres:	Independent	Press,	1917),
p.	149.
4	BONNHOEFFER,	D.	The	Cost	of	Discipleship	(Nova	York:	Macmillan,
1967),	p.	99.
5	“William	Cowper	and	His	Afflictions”,	The	Banner	of	Truth,	Issue	96,	Sept
1971,	p.	28.
Capítulo	6
Clame	ao	Senhor
						Você	já	esteve	em	uma	igreja	em	que	a	ordem	e	o	conteúdo	do	culto	são
prescritos	do	começo	ao	fim?	Cultos	assim	são	chamados	de	litúrgicos.
Consistem	em	orações	e	leituras	preparadas	com	antecedência.
Quando	deprimido,	você	terá	de	aprender	a	ser	um	adorador	litúrgico.
Se	esperar	até	que	tenha	vontade	de	adorar	a	Deus,	esperará	muito	tempo.
Mesmo	que	queira	se	comunicar	com	Deus,	descobrirá	que	suas	palavras	falham
e	que	não	tem	nada	a	dizer.	Quando	você	se	arrastar	para	o	culto,	será	bom	que
já	esteja	com	a	programação	delineada	de	antemão.
A	depressão	se	curva	para	dentro
Na	depressão,	tudo	se	inclina	para	dentro.	Uma	linda	flor	prende	por	um	instante
sua	atenção,	mas,	em	segundos,	o	foco	se	torna	para	o	seu	próprio	sofrimento.
Você	observa	pessoas	amadas	comemorando	uma	bênção	recente,	mas,	antes	que
consiga	sincronizar	seus	sentimentos	com	os	delas,	já	está	de	volta	ao	vazio
pessoal.	Como	um	bumerangue	que	sempre	retorna,	não	importando	quão	longe
tente	projetá-lo,	você	não	consegue	fugir	de	si	mesmo.
A	dor	é	assim.	Se	uma	parte	de	seu	corpo	é	ferida,	você	não	consegue	fugir.
Talvez	tenha	breves	distrações,	mas	o	latejo	volta,	insistentemente,	na
consciência,	e	de	novo	a	domina.	No	ápice	da	aflição,	parece	não	existir	saída.
Você	caiu	na	armadilha	e	está	preso.
São	poucas	as	alternativas.	Poderia	tentar	lutar,	mas	isso	só	o	distrairia	por
alguns	instantes.	Tudo	o	que	você	quer	é	passar	o	dia	e	sobreviver.
Duas	escolhas
Ainda	que	sejam	poucas,	há	outras	alternativas.	Mais	acertadamente,	existem
escolhas.	Você	está	em	uma	encruzilhada	e	necessita	optar	por	um	ou	outro
caminho.	Não	há	como	não	fazer	a	escolha,	porque	“não	escolher”	já	é	uma
alternativa,	e	também	uma	escolha.
A	decisão	é	entre	clamar	ou	não	ao	Senhor.	Essas	foram	as	opções	que	tiveram
todos	os	que	sofreram	no	decorrer	da	história.	Ouça	o	que	disse	o	profeta	Oseias,
escrevendo	em	nome	do	Senhor:	“Não	clamam	a	mim	de	coração,	mas	dão	uivos
nas	suas	camas”	(Os	7.14).¹	Você	poderá	escolher	entre	ficar	sentado	em	silêncio
ou	clamar	ao	Senhor.	Poderá	chorar	em	sua	cama	ou	chorar	diante	do	Senhor.	Há
duas	escolhas.
Dá	para	ver	por	que	as	orações	litúrgicas	podem	ser	muito	úteis.	Tentando	falar
com	Deus,	você	se	descobre	sem	palavras.	Não	tem	como	descrever	o	que	está
passando:	não	tem	palavras	para	bendizer	a	Deus;	nem	sabe	o	que	pedir.	Isso
poderia	fadá-lo	ao	silêncio,	não	fosse	o	fato	de	agradar	a	Deus	comunicar-se	com
seu	povo.	Ele	se	deleita	em	nos	ensinar	como	clamar	a	ele.
Deus	dá	nome	ao	silêncio
Poderá	parecer	que	Deus	esteja	longe,	mas	nossos	sentimentos	certamente
estarão	nos	enganando.	A	Escritura	está	repleta	de	promessas	da	presença	de
Deus	com	seu	povo.	Quer	evidências?	Deus	fala	conosco	e	deseja	que	falemos
com	ele.	Somente	quem	estiver	bem	próximo	poderá	falar	e	se	fazer	ouvir.	Ele
nos	fala	especialmente	por	meio	da	Escritura,	e	nos	convoca	para	falar	com	ele.
Quando	parece	que	nossa	língua	está	amarrada,	ele	nos	dá,	até	mesmo,	as
palavras.
Contudo,	ele	não	nos	fornece	um	mero	roteiro.	Quando	repetimos	um	roteiro,
estamos	fingindo.	Usamos	a	máscara	de	outro.	Somos	atores.	Mas	Deus	nos
fornece	poesia	que,	de	alguma	forma,concede	voz	ao	silêncio	de	nosso	coração.
Se	tivéssemos	habilidade	e	palavras,	escreveríamos	muitas	dessas	mesmas
palavras	que	ele	nos	dá.
Encontramos	muitos	desses	poemas	nos	salmos.	Fazem	parte	da	liturgia	de	Deus,
de	antemão	preparada.
Até	quando,
Senhor
?	Esquecer-te-ás	de	mim	para	sempre?	Até	quando	ocultarás	de	mim	o	rosto?	(Sl
13.1)
Mas	eu	sou	verme	e	não	homem;	opróbrio	dos	homens	e	desprezado	do	povo.
(Sl	22.6)
Estremece-me	no	peito	o	coração,	terrores	de	morte	me	salteiam;	temor	e	tremor
me	sobrevêm,	e	o	horror	se	apodera	de	mim.	Então,	disse	eu:	quem	me	dera	asas
como	de	pomba!	Voaria	e	acharia	pouso.	Eis	que	fugiria	para	longe	e	ficaria	no
deserto.	(Sl	55.4-7)
Estou	atolado	em	profundo	lamaçal,	que	não	dá	pé;	estou	nas	profundezas	das
águas,	e	a	corrente	me	submerge.	Estou	cansado	de	clamar,	secou-se-me	a
garganta;	os	meus	olhos	desfalecem	de	tanto	esperar	por	meu	Deus.	(Sl	69.2-3)
Pois	a	minha	alma	está	farta	de	males,	e	a	minha	vida	já	se	abeira	da	morte...
Puseste-me	na	mais	profunda	cova,	nos	lugares	tenebrosos,	nos	abismos...	Mas
eu,
Senhor
,	clamo	a	ti	por	socorro,	e	antemanhã	já	se	antecipa	diante	de	ti	a	minha	oração.
Por	que	rejeitas,
Senhor
,	a	minha	alma	e	ocultas	de	mim	o	rosto?	(Sl	88.3,6,	13-14)
Comece	uma	busca.	Inicie	com	palavras	e	frases	que	reflitam	o	que	você	está
experimentando.	Se	isso	parecer	coisa	demais	para	ser	pedida,	peça	que	alguém
leia	para	você	alguns	salmos	selecionados.
Não	se	esqueça	de	que,	embora	esses	salmos	expressem	emoções	bastante	cruas,
são	palavras	que	o	próprio	Deus	lhe	concede.	Ele	é	o	ministro	que	fez	a	ordem
do	culto.	É	o	Pai	que	o	ensina	a	falar.
Os	salmos	de	Jesus
Quando	ouvimos	as	palavras	do	Salmo	22:	“Deus	meu,	Deus	meu,	por	que	me
desamparaste?”	podemos	pensar	em	nossa	própria	experiência.	Na	depressão,
parece	que	fomos	desamparados.	Mas	lembre-se	de	que	essas	foram	palavras	de
Jesus,	na	cruz.	Indicam	o	fato	de	que,	quando	lemos	tais	orações	litúrgicas,	não
estamos	sós.	Muitas	delas	foram	compostas	por	Davi,	cantadas	pelos	israelitas,
recitadas	na	igreja,	apontando,	todas	elas,	para	Jesus;	você	mesmo	aprende	a
cantar	com	o	salmista.	Jesus	é	o	Cantor	Divino,	e,	hoje,	os	cânticos	do	Filho	de
Deus	foram	presenteados	para	os	filhos	de	Deus.
Os	salmos	endireitam	a	trajetória	de	nossa	vida.	Usando	as	suas	próprias
palavras,	Deus	carinhosamente	torna	nosso	coração	para	a	sua	direção.	Em	vez
de	olhar	como	se	todas	as	coisas	se	inclinassem	para	trás	e	para	dentro	de	nós
mesmos,	enxergaremos	para	fora	de	nós,	fixando	os	olhos	em	Jesus	(Hb	12.2).
Mantenha	em	mente	este	padrão.	É	o	caminho	da	esperança.	O	fato	de	que	todos
os	pensamentos	se	voltam	para	nós	mesmos	é	opressivo.	O	eu	não	suporta	tanto
peso.	Fomos	feitos	para	funcionar	com	a	visão	voltada	para	fora,	para	Deus	e
para	as	pessoas.	Repetindo	os	salmos,	lembrando-se	de	que	Jesus	os	citou	antes
de	nós,	aos	poucos,	você	descobrirá	mudanças	no	foco	de	sua	visão.	Talvez,	por
exemplo,	comece	a	observar	mudanças	no	modo	como	cumprimenta	alguém
antes	que	ele	o	cumprimente;	ou	comece	a	escrever	algumas	de	suas	próprias
orações.	Passo	a	passo,	estará	saindo	de	dentro	de	sua	prisão	de	isolamento.
Tente	salmos	inteiros
Apropriando-se	das	palavras	de	Jesus,	tente	trabalhar	com	porções	maiores	de
salmos	específicos.	Isso	lhe	permitirá	recitar	palavras	sobre	sua	própria
experiência	e	sobre	Deus.	O	salmo	22,	por	exemplo,	começa	com	uma	expressão
sincera	do	coração:	Por	que	me	desamparaste?	Essa	é	uma	declaração	de	fé,	pois
é	uma	confissão	dirigida	a	Deus.	Implica	conhecimento	suficiente	sobre	o	caráter
de	Deus	para	que	o	sentimento	de	abandono	não	faça	sentido.	E	quando	você
entender	e	cantar	esse	salmo	com	seu	sentido	maior,	certamente	será	dirigido	a
uma	nova	situação:
Pois	não	desprezou,	nem	abominou	a	dor	do	aflito,	nem	ocultou	dele	o	rosto,
mas	o	ouviu,	quando	lhe	gritou	por	socorro.	(v.24)
Os	sofredores	hão	de	comer	e	fartar-se;	louvarão	o
Senhor
os	que	o	buscam.	Viva	para	sempre	o	vosso	coração.	Lembrar-se-ão	do
Senhor
e	a	ele	se	converterão	os	confins	da	terra;	perante	ele	se	prostrarão	todas	as
famílias	das	nações.	Pois	do
Senhor
é	o	reino,	é	ele	quem	governa	as	nações.	(vv.	26-28)
Você	descobrirá	que	a	esperança	é	uma	habilidade	que	exige	prática.	Não	há	um
versículo,	um	comprimido	ou	um	objeto	que	faça	essa	habilidade	surgir	como
num	passe	de	mágica.	A	meditação	recitada	dos	salmos	da	qual	nos	apropriamos
faz	parte	dessa	prática.
Clame	com	frequência
Há	ocasiões	em	que,	participando	de	um	culto	litúrgico,	seu	coração	se	mostra
animado	e	cheio	de	vida.	Você	recita	as	Escrituras	e	profere	orações,	cheio	de
paixão.	Outras	vezes,	tudo	lhe	parece	mera	repetição	de	gestos.	Não	obstante,
você	ora	e	lê	a	Escritura	apenas	porque	as	palavras	são	verdadeiras,	mesmo	que
não	as	esteja	sentindo.	Por	mais	fraco	que	você	esteja,	Deus	escuta	e	se	agrada
do	seu	clamor,	quando	você	clama	por	ele,	em	vez	de	ficar	na	cama	lamuriando.
“As	orações	oferecidas	em	estado	de	sequidão	são	as	que	mais	agradam	a
Deus”.²
Sentimos	a	fé	de	várias	e	diferentes	maneiras.	Ela	pode	ser	esperançosa,	e	pode
ser	deprimida	e	sem	vida.	Os	sentimentos	não	definem	a	fé.	Pois	ela	significa
simplesmente	voltar-se	para	o	Senhor.	Quando	fala	os	salmos,	você	“exercita	a”
fé.	Lembre-se	de	que	a	fé	é	obra	do	Espírito	de	Deus	em	nosso	coração.	Sendo
assim,	se	você	consegue	falar	os	salmos,	Deus	está	perto.
Tendo	isso	em	mente,	persevere.	Não	apenas	profira	orações	para	sair	da
depressão.	Diga-as	porque	são	verdadeiras	e	evidenciam	a	operação	de	Cristo
dentro	de	você.	Repita	os	salmos	com	frequência.
Sobre	os	teus	muros,	ó	Jerusalém,	pus	guardas,	que	todo	o	dia	e	toda	a	noite
jamais	se	calarão;	vós,	os	que	fareis	lembrado	o
Senhor
,	não	descanseis,	nem	deis	a	ele	descanso	até	que	restabeleça	Jerusalém	e	a
ponha	por	objeto	de	louvor	na	terra.	(Is	62.6-7)
Em	determinadas	horas	do	dia	declare,	faça	a	sua	liturgia.	Obtenha	a	ajuda	de
irmãos	que	orem	com	você	e	por	você.
Resposta
Talvez	você	se	sinta	espiritualmente	desajustado	porque	não	consegue	apreender
um	salmo	inteiro.	Tão	logo	você	se	conecta	a	um	salmo,	ele	sobe	a	alturas
espirituais	que	o	deixam	para	trás.	Não	se	aflija;	por	ora,	bastará	que	consiga
meditar	em	algumas	partes.	A	fé	não	é	a	presença	de	um	sentimento	caloroso	de
religiosidade.	É	o	conhecimento	de	que	andamos	diante	do	Deus	que	nos	escuta.
Leia	o	Salmo	88.	Observe	como	ele	termina	–	“As	trevas	são	minha	única
companheira”	(NVI).	Não	costumamos	pensar	nisso	como	uma	expressão	de	fé,
mas	é	isso	mesmo.	Quando	clamarmos	a	Deus	–	até	mesmo,	quando	a	dor
questionar:	por	que	se	importar?	–	nos	depararemos	com	uma	confiança	que	é
heroica.
Permita-me	lembrar	onde	estamos.	Ainda	não	entramos	nos	detalhes	específicos
da	depressão.	Estamos	apenas	tocando	em	alguns	aspectos	da	comunicação	de
Deus	com	você.	Por	favor,	não	pense	que	vamos	exaurir	as	profundezas	da
Escritura.	Em	vez	disso,	se	deixe	encorajar,	pois	as	palavras	de	consolo	e	direção
de	Deus	são	quase	sem	limites.	Dezenas	de	maravilhosos	livros	só	começaram	a
desenrolar	as	surpresas	das	Escrituras.
Se	nada	estiver	ressoando	em	sua	alma,	considere	as	razões	pelas	quais	isso
ocorre.	Às	vezes,	queremos	que	Deus	esteja	distante.	Mesmo	que	nossa
indiferença	possa	vir	de	outra	fonte,	não	é	verdadeiro	que	nos	tornamos
indiferentes	quando	não	queremos	mais	nos	preocupar	com	alguém?	Talvez,
você	tenha	frustrações	não	formuladas	quanto	ao	seu	relacionamento	com	Deus.
Quais	seriam?	Diga-as	a	ele.
Confiai	nele,	ó	povo,
em	todo	tempo;	derramai	perante	ele	o	vosso	coração;
Deus	é	o	nosso	refúgio.	(Sl	62.8)
1	Agradeço	a	Andree	Seu,	que	destacou	para	mim	esta	passagem.
2	LEWIS,	C.S.	Screwtape	Letters	(Nova	York:	Macmillan,	1977),	p.	39.
Capítulo	7
Guerra
						Se	soubesse	que	um	inimigo	o	persegue	de	perto,	você	certamente	o
colocaria	sob	vigilância,	especialmente	se	tal	inimigo	fosse	especialista	em
táticas	de	guerrilha.	Até	mesmo	quando	estamos	deprimidos,	uma	ameaça	à
nossa	vida	bastará	para	garantir	que	aumentemos	os	esforços,a	não	ser,	é	claro,
que	ignoremos	a	sanha	do	inimigo.
Em	tempos	de	dificuldade	e	sofrimento,	é	quase	certo	que	haverá	batalha
espiritual.	Lemos	sobre	a	tentativa	de	Satanás	para	levar	vantagem	ao	que	julgou
ser	uma	oportunidade	singular	de	ataque,	quando	Jesus	foi	levado	ao	deserto
para	sofrer	isolamento	espiritual	e	físico	(Mt	4).	Quanto	mais	Satanás	perseguirá
a	meros	mortais,	quando	passarem	pela	experiência	emocionalmente	árida	da
depressão.	A	Bíblia	o	descreve	como	um	leão	à	espreita	no	campo,
pacientemente	aguardando	a	oportunidade	para	devorar	os	incautos	(1Pe	5.8).
Pense	na	natureza	da	depressão.	Toda	a	vida	está	voltada	para	dentro.	Já	temos
um	sentimento	de	que,	na	prática,	Deus	não	se	faz	sempre	presente.	Acrescente	a
isso	a	implacável	condenação	e	difundida	autocrítica	que	nos	persuadem	de	que
Deus	não	nos	ama.	Não	podemos	ser	alvo	espiritual	mais	óbvio	e	fácil,	se	fosse
pintado	um	alvo	em	nosso	peito.
As	estratégias	de	Satanás
Satanás	se	apresenta	travestido	de	anjo	de	luz	(2Co	11.14),	o	que	significa	que
ele	não	é	facilmente	notado.	Mas	o	apóstolo	Paulo	nos	assegura	que	Deus
revelou	o	suficiente	para	nos	conscientizar	de	suas	táticas	e	estratagemas	(2Co
2.11).	A	fim	de	identificá-las,	deveremos	pensar	mais	no	que	é	comum	e
ordinário	do	que	naquilo	que	é	bizarro.	A	possessão	demoníaca	descarada,	com
suas	manifestações	assustadoras,	é	uma	das	táticas	de	Satanás;	mas	outra
manobra	mais	comum	do	inimigo	é	levar-nos	a	pensar	que	suas	estratégias
estejam	sempre	acompanhadas	de	sinais	que	chamam	atenção	a	ele	mesmo.	A
verdade	é	que,	no	dia	a	dia,	ele	prefere	não	se	fazer	notório.	Trabalha	mais
sutilmente,	das	seguintes	formas:
Mentiras.	Existe	algo	mais	comum	e	ordinário	do	que	a	mentira?	Ela
certamente	não	prende	mais	nossa	atenção,	pois	vem	de	modo	muito	natural.
Crianças	pequenas	mentem	sem	que	sejam	ensinadas.	Políticos	mentem,	e	nós
esperamos	isso	deles.	As	variações	são	infindas:	mentiras	brancas,	mentiras
brutas,	justificativas,	exageros,	minimizações,	mudança	de	assunto.	Por	trás
desses	enganos	existe	mais	que	uma	tentativa	para	se	esquivar	da
responsabilidade	pessoal	pelo	mal	feito.	Por	trás	das	mentiras	está	o	pai	das
mentiras,	o	próprio	Satanás.	“Quando	ele	profere	mentira,	fala	do	que	lhe	é
próprio,	porque	é	mentiroso	e	pai	da	mentira”	(Jo	8.44).
Você	também	é	vulnerável.	Poderá	ser	leal	para	com	crenças	erradas,	e	altamente
resistente	às	mudanças.	Por	exemplo,	dado	que	você	se	sente	como	um	fardo
para	sua	família,	e	sente	que	eles	estariam	melhor	sem	você,	para	acreditar	que
essa	seja	a	verdade.	Todos	os	protestos	e	as	afirmações	de	amor	que	fazem	não	o
convencerão	a	mudar	de	ideia.	Se	você	sente	que	Deus	o	abandonou,	acabará
acreditando	que	isso	realmente	aconteceu.	Nada	o	persuadirá	do	contrário.	Em
outras	palavras,	os	sentimentos	podem	mentir.
Dá	para	perceber	a	progressão?
Somos	espiritualmente	vulneráveis	→	nossas	emoções	são	tão	fortes	que
distorcem	nossas	interpretações	→	Satanás	ataca	→	juramos	fidelidade	à	nossa
interpretação	mais	pessimista,	não	obstante	o	que	digam	as	pessoas.
Aqui	não	há	encantamentos,	cabeças	em	torvelinho,	vozes	estranhas	ou
aparentes	rituais	satânicos.	Tudo	parece	muito	natural.	Mas	é	uma	batalha
espiritual	de	longa	duração	para	derrubar	alguém.
Mentiras	a	nosso	próprio	respeito.	As	mentiras	de	Satanás	são	calculadas	e
estrategicamente	arquitetadas.	São	dirigidas	à	jugular	espiritual	–	às	questões
mais	importantes	da	vida.
Você	acredita	que	algumas	coisas	que	fez,	sejam	demasiadamente	ruins	que	não
possam	ser	perdoadas?	Se	for	assim,	você	estará	crendo	na	mentira	de	Satanás	de
que	o	sangue	de	Jesus	só	vale	para	pecados	pequenos	ou	não	intencionais.	A
verdade	é	que,	mediante	a	cruz,	o	julgamento	do	pecado	já	foi	assumido	por
Cristo	em	relação	a	todos	os	que	creem,	incluindo	você,	se	tiver	afirmado	sua	fé
nele.
Você	acredita	também	que	é	impossível	para	o	Espírito	Santo	amá-lo	e,	até
mesmo,	ter	prazer	em	você?	Se	for	assim,	você	estará	acreditando	na	mentira	de
Satanás	de	que	Deus	o	ama	devido	ao	que	você	faz.	A	verdade	é	que	Deus	nos
ama,	não	porque	sejamos	amáveis,	mas	porque	ele	é	amor.	Nós	simplesmente
não	temos	poder	para	mudar	o	caráter	de	Deus.	Ele	nos	amou	primeiro.	Nada
que	você	faça	o	impedirá	de	amá-lo.	Precisa	de	provas?	O	sacrifício	de	Jesus
comprova	isso.	Ele	morreu	por	nós	quando	ainda	éramos	seus	inimigos.	Ele	não
pede	que	primeiro	endireitemos	nossa	vida.	Simplesmente	pede	que
respondamos	confiando	nele	e	não	em	nosso	modo	inútil	de	conduzir	a	vida.
Você	acredita	que	não	tem	razão	para	viver?	Se	estiver	crendo	nisso,	estará
crendo	na	mentira	de	Satanás,	de	que	você	pertence	apenas	a	você	mesmo.	A
verdade	é	que	você	é	propriedade	de	Deus	e	que	ele	tem	propósito	em	relação	à
sua	vida.	Além	disso,	a	cruz	de	Cristo	revela	que	os	propósitos	de	Deus	são
sempre	bons.
Você	acredita	que	tais	questões	não	tenham	importância?	Se	for	este	o	caso,
estará	crendo	na	mentira	de	Satanás,	de	que	nosso	relacionamento	com	Deus	não
tem	nada	a	ver	com	a	nossa	luta	contra	a	depressão.	A	verdade	é	que	sua	relação
com	Deus	é	absolutamente	essencial,	especialmente	agora.	Sua	vida	depende
disso.
Você	foi	“pego”	por	essas	perguntas?	É	isso	aí	–	essa	é	a	batalha.	Tem	tudo	a	ver
com	a	depressão.
Não	pense	que	tais	mentiras	sejam	automaticamente	“baixadas”	(downloaded)
em	nossa	mente,	para	que,	como	robôs,	as	repitamos.	As	mentiras	não	se
impõem	ao	coração.	Ao	contrário,	as	mentiras	de	Satanás	brotam	depois	que	as
sementes	foram	plantadas.	Satanás	é	o	conselheiro	que	endossa	as	mentiras	que
já	suspeitávamos	ser	verdadeiras.	Ele	é	a	falsa	testemunha,	rápida	em	confirmar
nossas	falsas	interpretações.	Por	isso	é	que	a	batalha	espiritual	parece	tão	natural.
Não	somos	tomados	contra	nossa	vontade.	Em	vez	de	lutar	contra	nós	nas	áreas
em	que	temos	forte	fé	e	certeza	(onde	as	mentiras	nos	parecem	tolas	e	óbvias),
Satanás	procura	a	fé	enfraquecida,	na	esperança	de	que	cedamos	mansamente.
Começa	onde	abrigamos	dúvidas.	Sempre	oportunista,	Satanás	percebe	nossa
vulnerabilidade	e	diz	simplesmente:	“É,	o	que	você	acredita	é	verdade”.
Mentiras	sobre	Deus.	Se	olharmos	de	perto	para	as	mentiras	em	que	cremos,
perceberemos	que	somos	pegos	no	fogo	cruzado.	Sim,	somos	as	vítimas	que	ele
pretende	derrubar	com	mentiras	que	causam	autocondenação;	mas	não	somos
o	alvo	principal	dessas	mentiras.	A	saraivada	é	destinada	especificamente
contra	o	caráter	de	Deus.	Seu	alvo	é	levantar	dúvidas	sobre	Deus.
Especificamente,	elas	questionam	o	amor	e	poder	de	Deus.
Observe,	por	exemplo,	as	primeiras	mentiras	de	Satanás:
É	assim	que	Deus	disse:	Não	comereis	de	toda	árvore	do	jardim?	(Gn	3.1)
É	certo	que	não	morrereis.	(Gn	3.4)
Essas	palavras	atacam	diretamente	a	bondade	e	a	verdade	de	Deus,	ambas
expressões	do	seu	amor.	Satanás	está	dizendo:	“Você	pode	realmente	confiar	nas
palavras	de	Deus?	Será	que	ele	é	realmente	bom?	Talvez	esteja	sonegando	algum
bem...	Poderá	ser	que	ele	seja	sovina”.	Com	questionamentos	e	acusações	dessa
espécie,	Satanás	tem	toda	a	munição	que	precisa.	A	maior	parte	da	batalha
espiritual	consiste	em	variações	menores	desses	ataques	antigos.
Se	você	suspeita	ser	vulnerável	às	mentiras	de	Satanás	–	e,	se	estiver	deprimido,
o	que	é	provável	–,	terá	de	reproduzi-las	com	outras	palavras	e	perceber	que	elas
visam	mais	a	Deus	do	que	a	nós	mesmos.
Por	exemplo,	podemos	reinterpretar:
“Eu	sou	sem	valor”,	em	termos	de:	“Deus	não	me	deu	o	sucesso	que	eu	queria,
portanto,	não	acredito	que	ele	seja	bom”.
“Perdi	o	que	era	mais	importante	na	vida”,	por:	“Deus	não	basta	para	mim”.
“Não	consigo	continuar”,	passa	a	ser:	“Não	acredito	que	Deus	escute	nem	que
tenha	suficiente	poder	para	trabalhar	nas	fraquezas	humanas”.
Dá	para	perceber?	Nosso	sofrimento	poderá	caminhar	por	muitos	lugares
diferentes,	contudo,	não	obstante	sua	origem	próxima,	no	final,	Satanás	está
sempre	no	jogo.	Para	ele,	o	tempo	do	sofrimento	é	a	ocasião	ideal	para	levantar
questionamentos	sobre	Deus,	pois	nós	mesmos	estamos	fazendo	isso.	O
sofrimento	levanta	perguntas	espirituais	quenão	podem	ser	ignoradas.	O
apóstolo	Paulo	ressalta	isso,	nos	lembrando	que,	durante	o	sofrimento,	uma
batalha	demoníaca	“se	levanta	contra	o	conhecimento	de	Deus”	(2Co	10.5).
Mentiras	que	focalizam	as	realidades	temporais	e	não	as	espirituais.	Esse
engano	bem	comum	ocorre,	até	mesmo,	antes	que	o	sofrimento	comece.	Em
tempos	melhores,	Satanás	estimula-nos	a	ver	a	bondade	de	Deus	ao	nosso
redor.
–	Vocês	têm	um	casamento	sólido.	Deus	é	bom!
–	Sua	saúde	está	ótima.	Deus	é	tão	bom!
–	Suas	contas	estão	todas	pagas	e	ainda	há	dinheiro	no	banco.	Como	Deus	é
bom!
–	Fite	os	olhos	nessas	bênçãos	materiais	e	afira	a	bondade	de	Deus	diante	do	que
você	vê,	porque	a	vida	nem	sempre	será	um	acúmulo	de	coisas	boas.	Quando
vierem	as	dificuldades,	você	não	verá	nenhuma	evidência	da	bondade	de	Deus!
Foi	o	que	Satanás	tentou	com	Jó,	se	bem	que	sem	sucesso.	Esse	justo	possuía
tudo	de	bom	na	vida,	e	Satanás	presumiu	que	uma	vez	que	perdesse	tudo	voltar-
se-ia	contra	Deus.	Mas	Jó	confiou	em	Deus	em	todo	tempo,	fazendo	Satanás
fugir,	derrotado.
Nosso	contra-ataque
Se	quisermos	seguir	os	passos	de	Jó,	teremos	uma	vantagem	espiritual	sobre
Satanás.	Na	verdade,	teremos	mais	vantagem	do	que	Jó.	Ele	não	sabia	aquilo	que
nós	sabemos	sobre	Satanás.	Jó	não	foi	precedido	por	Jesus,	que	ficou	firme
contra	as	ciladas	de	Satanás,	no	deserto.	O	que	acontece	em	nossa	vida,	quando
simplesmente	dizemos	a	Jesus:	Sim,	confio	no	Senhor,	é	que	também	confiamos
em	seu	poder	de	nos	manter	firmes	contra	os	ataques	de	Satanás.
Os	detalhes	de	como	opera	a	fé	na	batalha	espiritual	são	conhecidos,	se	bem	que
facilmente	esquecidos.
Lembre-se	de	que	temos	um	inimigo.	Temos	de	seguir	a	liderança	de	pessoas
sábias	que	começam	cada	dia,	dizendo	“Hoje	tenho	de	estar	alerta	porque
tenho	um	inimigo”.	Peça	a	outras	pessoas	que	te	lembrem	disso,	e	esteja
pronto	para	fazer	o	mesmo	pelos	outros.	Reconheça	que	estamos	caminhando
aonde	rebeldes	conhecidos	rondam	a	área	e	se	empenham	em	destruir-nos.
Assuma	que	a	guerra	é	rompante.	Sequer	procure	pelos	sinais	de	batalha.
Simplesmente	presuma	estar	no	meio	dela.	Se	quiser	evidências,	não	as
procure	na	intensidade	da	depressão.	Não	estamos	certos,	ainda,	se	Satanás
tem	influência	nesse	momento	específico,	mas	já	sabemos	que	ele	se	utiliza	da
natureza	crônica	de	nossa	dor	como	área	onde	empregar	estratégias
conhecidas	tais	como	estas:
Você	está	sem	esperança?	Acredita	que	Deus	esteja	afastado	e	distante?
Você	questiona	o	amor	de	Deus?
Você	questiona	o	perdão	de	Deus?
Você	não	vê	razão	para	conhecer	melhor	a	Cristo?	Lembre-se	que	Satanás
sempre	ataca	o	caráter	de	Deus.
Você	está	ouvindo	conselhos	sábios	e	a	Escritura?	Se	não,	isto	é	sinal	certo	de
que	está	perdendo	algumas	brigas	espirituais.	Escutar	é	um	marco	de	humildade
contra	o	qual	Satanás	não	consegue	obter	vitória.
Não	pense	que	o	seu	caso	seja	único.	Essa	mentira	comum	questiona	o
cuidado	de	Deus:	todo	sofredor	é	tentado	a	acreditar	que	o	seu	sofrimento	é
único.	Tal	mentira	torna	irrelevante	todo	conselho	porque	ninguém	entende	o
que	enfrentamos,	portanto,	nenhum	conselho	se	aplica.	Como	resultado,	a
solidão	que	já	experimentamos	torna-se	fato	estabelecido,	e	damos	maior
permissão	ao	desespero.
Ninguém	é	imune	a	essa	mentira	e	todos	podem	dar	exemplos	pessoais	de	como
ela	é	atraente.	Por	exemplo,	William	Cowper,	compositor	de	hinos	no	século	18,
tal	como	o	conhecido	“Há	uma	fonte	carmesim”,	ainda	que	imbuído	das
Escrituras,	comentou	sobre	sua	depressão:	“Não	existe	encorajamento	na
Escritura	que	inclua	o	meu	caso,	nem	consolo	tão	efetivo	que	me	alcance”.¹
Em	sua	depressão,	assuma	que	a	mentira	está	presente.	Considere-a	um	anexo
permanente.	Enquanto	estiver	lutando	contra	a	depressão,	terá	de	estar
especialmente	alerta	quanto	a	isso.	Seu	alvo	não	é	o	de	vencer	a	luta,	mas	se
engajar	nela	com	o	conhecimento	crescente	de	Jesus	Cristo.
Conheça	a	Cristo.	Satanás	dedica	todos	seus	esforços	contra	um	ponto:	a
verdade	sobre	Jesus.	Se	você	estiver	crescendo	no	conhecimento	acurado	de
Jesus	Cristo,	já	estará	ganhando	a	batalha.	Se	não,	estará	perdendo	terreno	a
cada	dia.
O	conhecimento	de	Cristo	é	mais	plenamente	revelado	na	cruz	–	com	a	morte	e	a
ressurreição	de	Jesus,	fatos	de	suma	importância	(1Co15.3-5).	A	cruz	é	a
evidência	de	que	o	amor	de	Cristo	é	bem	mais	que	apenas	boas	intenções	ou
compaixão	desprovida	de	ação.	Demonstra	que	o	amor	de	Cristo	é	um	amor
santo	que	ultrapassa	nosso	entendimento.	Se	estivermos	zangados	porque	Deus
permitiu	que	a	dor	encontrasse	lugar	em	nossa	vida,	devemos	nos	lembrar	que
seu	amor	é	muito	mais	desenvolto	que	o	nosso.	Nossa	ira	demonstra	que	somos
apenas	filhos	pequeninos	que	acham	que	sabem	o	que	é	melhor.
Não	é	surpresa	que	o	conhecimento	de	Cristo	seja	o	centro	do	plano	de	Deus
para	tudo,	não	apenas	para	a	guerra	espiritual.	Deus	exaltou	a	Cristo	acima	de
todas	as	coisas.	Quando	conhecemos	e	honramos	a	Jesus,	Deus	se	agrada	de	nos
abençoar	com	mais:	mais	conhecimento,	mais	fé,	mais	amor,	mais	esperança.
Somos	assim	melhor	equipados	para	a	luta.
Outra	razão	por	que	é	importante	conhecermos	a	Jesus	é	porque	um	dos	grandes
propósitos	da	existência	humana	é	que	nos	assemelhemos	mais	e	mais	a	ele.	Este
é	o	plano	de	Deus	para	nós,	um	dos	maiores	dons	que	poderíamos	receber.
Evidencia	que	ele	nos	fez	participantes	de	sua	família.	Se	Jesus	aprendeu	a
obediência	mediante	o	sofrimento,	nós	também	aprenderemos.	Um	caminho	sem
sofrimentos	faz	com	que	indaguemos	se	realmente	pertencemos	a	Deus.
Pensar	como	Deus	é	um	desafio.	Em	outras	palavras,	o	nosso	pensamento	atual
deve	ser	virado	de	cabeça	para	baixo.	Antes,	pensávamos	que	teríamos	de	evitar
o	sofrimento	a	todo	custo;	agora,	entendemos	que	o	caminho	pelo	qual	nos
tornamos	semelhantes	a	Jesus	passa	pelo	sofrimento,	e	é	muito	melhor	do	que	o
de	conforto	breve	e	superficial	sem	Jesus.	Quando	entendemos	esse	grande
propósito,	descobrimos	que	o	sofrimento	não	é	oposto	ao	amor;	resulta	dele	(Hb
12.8).	Temos	a	impressão	errada	de	que	o	amor	divino	não	possa	existir	junto	ao
sofrimento	humano.	Essa	ideia	é	uma	das	estratégias	mais	eficazes	de	Satanás,	e
tem	de	ser	atacada	pelo	evangelho	da	graça.
Humilhe-se	diante	do	Senhor.	Quando	deprimidos,	sentimos	que	não	será
possível	descer	mais	baixo.	No	entanto,	a	humildade	será	uma	reação	ao	amor
de	Cristo	que	sempre	se	mostrará	adequada	e	fortalecedora.	Humildade	é
diferente	de	se	sentir	rebaixado.	É	curvar-se	diante	de	Deus	e	aceitar	a	sua
vontade	soberana.
A	humildade	diz:	Deus	não	me	deve	nada.	Ele	não	é	meu	servo	–	eu	sou	servo
dele.	Deus	é	Deus	e	tem	o	direito	de	fazer	o	que	quiser.
Foi	esse	o	presente	que	Deus	deu	a	Jó,	na	sua	batalha	espiritual.	Embora	quisesse
questioná-lo,	ocorreu	o	contrário;	Jó	foi	questionado	por	Deus	e,	depois	de	ouvir
sua	resposta,	humilhou-se	em	sua	presença:	“Sou	indigno;	que	te	responderia	eu?
Ponho	a	mão	na	minha	boca”	(Jó	40.4).	Quando	temos	um	crescente
conhecimento	de	Deus,	nossa	reação	natural	é	a	humildade.	Em	face	de	tão
poderosa	resposta	espiritual	ao	conhecimento	de	Cristo,	Satanás	fica	sem	ação.
Resposta
Considere	sua	reação	à	batalha	espiritual.	Se	você	tiver	consciência	de	que	ela
está	sendo	travada	mesmo	quando	não	estiver	emocionalmente	movido	por	tal
conhecimento,	estará	no	caminho	certo.	O	Espírito	estará	trabalhando	em	sua
vida.
Tome,	então,	alguns	pequenos	passos	para	participar	dessa	batalha.	Considere	a
leitura	de	Jó	38	a	42.	Talvez	as	perguntas	pareçam	duras,	mas	perceba	que	esse
era	o	modo	como	os	pais	judeus	ensinavam	a	seus	filhos.	O	contexto	é	o	amor.
A	argumentação	lhe	parece	irrelevante?	Considere,	então,	duas	perguntas.
Primeiro,	o	seu	compromisso	é	com	Jesus	Cristo?	Se	não	for,	abra	o	coração	para
conhecê-lo.	Como	você	poderia	recusar	uma	oportunidade	para	considerar
alguém	que	promete	vida	e	esperança?	Ainda	que	você	não	tenha	toda	certeza
quanto	às	suas	alianças,	faça-o	assim	mesmo.	Abra-se	para	conhecê-lo	melhor.
No	decorrer	da	história,	Jesus	tem	sido	especialista	em	revelar-se	àqueles	que
sofrem.	Se	você	já	declarou	publicamente	sua	fé	emJesus,	mas,	hoje,	encontra-
se	tomado	de	dúvidas,	pode	distinguir	entre	depressão	e	fé?	Não	esqueça	que	a
depressão	lança	sombras	sobre	tudo,	até	mesmo	sobre	a	fé.	Sendo	assim,	sua	fé
não	parecerá	jubilosa.	Mas	isso	não	significa	que	não	pode	ou	não	quer	crer.
Você	não	consegue,	por	sua	vontade,	sair	da	depressão,	mas	pode,	sim,	confiar
no	que	Deus	disse.	É	essa	sua	tarefa.	Disse	Jesus:	“A	obra	de	Deus	é	esta:	que
creiais	naquele	que	por	ele	foi	enviado”	(Jo	6.29).	Diga	“amém”	quando	alguém
está	lhe	dizendo	a	verdade.	Comece	o	dia	com:	Sim,	Senhor,	eu	creio!	–	por	mais
fraca	que	seja	a	sua	fé.
A	outra	pergunta	a	considerar	é:	Você	quer	mudar?	Por	mais	estranho	que	seja,	a
depressão	pode	acabar	parecendo	amiga.	Você	não	escolheria	sua	amizade,	se
tivesse	opção,	mas	agora	que	ela	está	aí,	é	confortável	e	previsível.	Podemos	até
mesmo	derivar	uma	identidade	pessoal	da	depressão,	o	que	é	especialmente
tentador,	porque,	sem	a	depressão,	não	sentimos	possuir	identidade.	Se	não
estiver	envolvido	na	batalha	espiritual	que	até	agora	estivemos	tratando,	é	bem
possível	que	você	esteja	se	enganando.	Talvez,	esteja	apenas	fazendo	os	gestos
certos.	Daí,	pode	sempre	dizer	que	tentou,	quando	na	verdade	não	o	fez.	E,	ainda
mais,	poderá	alegar	uma	consciência	limpa,	enquanto	permanece	preso	no
buraco	da	desesperança.	Essa	é	uma	batalha.	Se	quiser	proceder	a	uma	mudança,
terá	de	se	dispor	a	enfrentar	a	tarefa	à	frente.
1	“William	Cowper	and	His	Affliction”,	The	Banner	of	Truth,	p.	28.
Capítulo	8
Lembrar
						Mostre	a	uma	criancinha	o	seu	brinquedo	favorito	e,	depois,	coloque-o	atrás
das	costas.	Da	perspectiva	infantil,	parecerá	que	você	tem	poderes	mágicos.
Você	acaba	de	fazer	desaparecer	um	objeto	sólido!
Agora,	coloque	o	objeto	de	volta	à	frente	da	criança.	Abracadabra,	shazã,	é
mágica!	Reapareceu	do	nada.
É	claro	que	você	não	tem	nenhum	mérito	nesse	truque.	Está	simplesmente
tirando	vantagem	de	um	cérebro	que	ainda	está	em	amadurecimento.	Crianças
muito	pequeninas	acham	que	o	objeto	desapareceu;	crianças	maiorzinhas	olharão
atrás	das	suas	costas	procurando	o	brinquedo	escondido.	Para	elas,	ainda	será	um
jogo,	mas	não	é	mais	mágico.	É	um	fenômeno	chamado	permanência	do	objeto	–
a	capacidade	de	saber	que	um	objeto	escondido	ainda	existe,	ainda	que	não
consigamos	vê-lo.	É	uma	habilidade	que	adquirimos	à	medida	que	crescemos.
A	realidade	espiritual	é	assim.	Você	ouve	uma	ilustração	muito	boa,	participa	de
um	culto	centrado	em	Cristo,	seu	coração	se	comove,	mas	dentro	de	instantes	é
como	se	nunca	tivesse	ouvido	nenhuma	palavra	nem	participado	de	nada.	Você
sai	do	mesmo	modo	que	entrou	–	é	um	caso	de	Alzheimer	espiritual.	Não	ouve
nenhum	eco.	É	como	se	ainda	não	tivéssemos	alcançado	o	estado	de
permanência	de	objeto,	pelo	menos	no	que	diz	respeito	ao	conhecimento	de
Deus.
Com	isso	em	mente,	a	Escritura	implora	para	que	nos	lembremos.	Antes	da
vinda	de	Jesus,	ela	oferecia	muitos	artifícios	mnemônicos,	tais	como	as	festas
anuais	que	celebravam	a	libertação,	e	as	Escrituras	que	podiam	ser	lidas
diariamente.	Depois	da	morte	e	ressurreição	de	Jesus,	Deus	está	disposto	a
estimular	nossa	memória,	a	cada	dia.	A	Bíblia,	hoje,	é	bem	mais	acessível;
celebramos	a	Ceia	do	Senhor,	recebemos	o	Espírito	Santo,	testemunha	ocular,
apontando-nos	continuamente	para	Cristo.	Parece	que	Deus	se	agrada	de	repetir
o	que	fala.
Para	alguns,	a	repetição	torna-se	um	diz	que	disse	e	fez	aquilo	que	ora	é	ligado
ora	desligado,	indo	e	voltando	à	medida	da	necessidade.	Os	sábios,	porém,
consideram	a	memória	essencial	à	alma	humana.	Faz	parte	da	antiga	e	esquecida
arte	da	meditação.	É	essencial	ao	processo	de	transformação	e	um	instrumento
para	a	batalha	espiritual.
Temos	aqui	um	salmo	que	nos	guia	nas	lembranças:
Das	profundezas	clamo	a	ti,
Senhor
.
Escuta,	Senhor,	a	minha	voz;
estejam	alertas	os	teus	ouvidos	às	minhas	súplicas.
Se	observares,
Senhor
,	iniquidades,
quem,
Senhor
,	subsistirá?
Contigo,	porém,	está	o	perdão,
para	que	te	temam.
Aguardo	o
Senhor
,	a	minha	alma	o	aguarda;
eu	espero	na	sua	palavra.
A	minha	alma	anseia	pelo
Senhor
mais	do	que	os	guardas	pelo	romper	da	manhã.
mais	do	que	os	guardas	pelo	romper	da	manhã,
espere	Israel	no
Senhor
,
pois	no
Senhor
há	misericórdia;
nele,	copiosa	redenção.
É	ele	quem	redime	a	Israel	de	todas	as	suas	iniquidades.	(Sl	130)
Das	profundezas
O	salmo	130	começa	com	os	sofrimentos	que	levaram	o	salmista	ao	vórtice	da
própria	morte.	É	o	que	ele	diz	quando	grita:	“das	profundezas”.	Não	sabemos
como	isso	ocorre	ou	o	que	exatamente	acontece,	mas	sabemos	que	ele	se	sente
prestes	a	cair	na	cova.	Em	outras	palavras,	o	salmista	entende	o	que	é	sofrer.
Enquanto	cambaleia	à	beira	do	abismo,	o	salmista	tem	por	escolha:	lamentar	sua
pavorosa	condição	ou	clamar	ao	Senhor.	É	claro,	como	nossa	voz	e	direção,	ele
nos	lidera	no	clamor.
Perdão	dos	pecados
Como	seremos	salvos?	Deus	subjugará	seus	inimigos?	Trará	cura?	O	salmista
carece	de	algo	poderoso,	urgentemente.	Sente	que	sua	vida	está	em	jogo	e,	se
não	for	liberto,	terá	apenas	alguns	minutos	–	não	dias	–	antes	da	morte.
A	libertação	vem,	mas,	como	é	costume	de	Deus,	não	vem	de	modo	previsível.
Sinceramente,	à	primeira	vista,	parece	uma	fraca	tentativa	de	salvamento.	O
salmista	recebe	uma	corda	um	tanto	fraca	que	o	erga	do	abismo:	seu	Deus	é	o
Deus	que	perdoa	os	pecados.
Isso	nos	força	à	reflexão.	Não	temos	evidência	de	que	o	pecado	do	salmista	fosse
o	motivo	do	seu	sofrimento.	Como	poderá	obter	esperança	de	ter	sido	perdoado?
Como	isso	o	salvará?	Parece	um	chavão	espiritual	para	uma	situação	de	vida	ou
morte.	Se	você	ouvisse	um	amigo	dizer	isso,	poderia,	até	mesmo,	agradecer,	mas
certamente	não	voltaria	a	buscar	a	sua	ajuda.	Na	hierarquia	de	necessidades,	a
sobrevivência	física	parece	mais	básica	que	o	encorajamento	espiritual.	Mas	o
salmista	é	claro	quanto	a	essa	questão.	Sem	se	desculpar,	ele	apresenta	o	perdão
dos	pecados	como	a	resposta	mais	profunda	de	todas.	De	sua	perspectiva,	o
perdão	dos	pecados	alcançou	o	filão	mestre.
Para	que	apreciemos	a	direção	do	salmo	quanto	a	isso,	temos	de	crer	que	o
pecado	é	problema	em	nossa	vida.	De	fato,	para	que	realmente	sejamos	dirigidos
pelo	salmo,	temos	de	reconhecer	que	o	pecado	é	o	nosso	problema	mais	grave,
mais	profundo	do	que	a	depressão.	Robert	Fleming,	pastor	escocês	que	viveu	nos
idos	de	1630-1694,	quando	perseguido,	disse:	“No	pior	dos	tempos,	ainda	há
mais	razão	para	reclamar	de	um	coração	mau	do	que	de	um	mundo	mau”.	Em
uma	cultura	em	que	o	pecado	não	faz	parte	do	discurso	público	normal,	a	adoção
dessa	perspectiva	dará	um	pouco	de	trabalho.
Temos	aqui	algumas	perguntas,	para	começar.
Você	acredita	que	encontrar	pecado	em	sua	vida	seja	algo	positivo?	Você	sente
que	a	autoestima	não	poderia	estar	mais	baixa,	e	as	pessoas	começam	a	falar
de	pecado.	Por	que	não	cravar	o	prego	final	no	caixão?	Mas,	contrário	à
opinião	popular,	é	uma	boa	coisa.	Mais	especificamente,	quando	enxergamos
o	pecado	em	nós	mesmos,	isso	é	algo	bom.	Por	duas	razões.	Primeira,	o	pecado
poderá	parecer	natural,	mas	fomos	criados	originalmente	para	vivermos	sem
pecado.	A	humanidade	verdadeira	–	humanidade	bendita	–	é	humanidade	sem
pecado.	Claro	que,	deste	lado	do	céu,	a	perfeição	é	impossível,	mas,	quando
lutamos	contra	o	pecado,	nos	certificamos	de	que	fomos	feitos	para	viver
assim.
Segunda,	quando	enxergamos	nosso	pecado	é	evidência	de	que	Deus	está	perto.
O	Espírito	Santo	é	quem	revela	o	pecado	(Jo	16.8).	De	nós	mesmos,	não	temos
tamanha	perspicácia.	Se	você	percebe	seu	pecado,	tenha	esperança	–	o	Espírito
Santo	está	atuando	em	sua	vida.	É	uma	evidência	clara	do	amor	de	Deus.
Você	crê	que	o	pecado	é	cometido	contra	Deus?	Indo	um	passo	adiante,
embora	seja	fácil	reconhecer	que	pecamos	–	quem	não	peca?	–	é	sempre	mais
difícil	reconhecer	que	o	nosso	pecado	é	contra	Deus.
Não	pensamos	que	a	maior	parte	dos	erros	sejam	atos	pessoais.	Quando
quebramos	uma	lei,	não	entendemos	ter	infringido	uma	disposição	da	câmara
municipal,	do	congresso	ou	de	qualquer	que	tenha	estabelecido	a	lei,sem,
contudo,	ofender	o	autor	dela.	Mas	na	Bíblia,	a	violação	da	lei	é	muito	mais
pessoal.	É	mais	um	adultério	do	que	um	excesso	de	velocidade.	O	adúltero	pensa
que	pode	obter	o	que	deseja,	mas,	quando	exposto,	reconhece	que	o	malfeito	é
altamente	pessoal.	Sim,	fez	o	que	queria,	mas	entende	que	o	fez	contra	seu
cônjuge.	De	maneira	semelhante,	nem	sempre	reconhecemos	que	o	pecado	é
rebeldia	consciente	contra	Deus.	Não	vemos,	de	imediato,	que	todo	mandamento
bíblico	emana	do	caráter	de	Deus	e	que	toda	violação	o	desonra.	Para	nós,	o
processo	é	mais	encoberto.	Somente	quando	o	Espírito	Santo	faz	brilhar	sua	luz
em	nosso	coração	é	que	reconhecemos	que	o	pecado	é	pessoal.
Você	crê	que	o	pecado	é	encontrado	na	imaginação,	motivação,	pensamentos	e
ações?	Embora	possamos	passar	um	dia	sem	que	outras	pessoas	vejam	nosso
pecado,	não	passaremos	nem	uma	hora	sem	pecar	por	meio	de	pensamentos	e
imaginações.	É	aí,	nos	termos	do	coração	humano,	que	encontramos	egoísmo,
orgulho,	desejo	de	ser	amado	em	vez	de	amar,	ira	e	falta	de	perdão,	inveja,
reclamações,	murmuração,	e	ingratidão	contra	Deus	que	perdoa	o	ímpio.
Poderemos	esconder	dos	outros	todos	esses	pecados,	mas	Deus	os	vê	com
clareza.
Você	pode,	neste	momento,	identificar	com	precisão	vários	pecados?	Agora
vem	a	prova	de	fogo:	quais	são	os	pecados	que	você	vê	em	sua	própria	vida?
Não	faça	uma	lista	dos	insucessos	de	sua	vida;	faça	uma	lista	dos	modos	como
você	realmente	peca	contra	Deus.	Comece	com	o	óbvio:	você	não	ama	de	todo
coração;	você	se	preocupa	com	o	próprio	sucesso	mais	do	que	com	Deus	e	seu
reino;	você	está	cheio	de	orgulho	e	julga	as	outras	pessoas.	Só	assim	será	mais
específico.	Se	falhar	quanto	a	essa	questão,	o	salmo	não	terá	nenhum
significado	para	você.
O	salmista	sabe	que	o	pecado	é	um	problema	mais	profundo	e	sério	do	que	o	seu
próprio	sofrimento.	(Lembre-se	que	o	fato	de	ter	sido	escolhido	como	autor
humano	dos	salmos	bíblicos	revela	que	ele	seria	uma	pessoa	decente	e
razoavelmente	moral.	Se	ele	conhecia	seu	pecado,	nós	também	deveríamos
reconhecer	o	nosso.)	Ele	sabia	também	que	nenhum	outro	deus	perdoaria	tais
infrações	sem	penitências	intermináveis.	Mas	o	seu	Deus,	o	Deus	triúno	das
Escrituras,	não	guarda	uma	lista	dos	erros	daqueles	que	se	voltam	para	ele.
Sendo	assim,	o	salmista	se	colocou	diante	de	Deus,	maravilhado.	Não	podia
compreender	tal	amor,	mas	era	grato	por	ele.
O	modo	exato	como	Deus	pode	perdoar	a	rebeldia	é	algo	que	não	fica	muito
claro,	nesse	salmo.	Mas,	hoje,	nós	sabemos	como	ele	realizou	isso.	O	salmista
anteviu	a	cruz	de	Cristo,	onde	o	próprio	Deus	carregou	a	justa	pena	da	rebeldia
de	suas	criaturas.
Dificilmente,	alguém	morreria	por	um	justo;	pois	poderá	ser	que	pelo	bom
alguém	se	anime	a	morrer.	Mas	Deus	prova	o	seu	próprio	amor	para	conosco
pelo	fato	de	ter	Cristo	morrido	por	nós,	sendo	nós	ainda	pecadores.	(Rm	5.7-8)
Tal	conhecimento	dominou	o	salmista,	deixando-o	sem	palavras.
Esperança
O	amor	produz	esperança.	Se,	em	nossa	miséria,	formos	totalmente	convencidos
do	amor	de	Deus,	teremos	confiança	no	seu	livramento.	Portanto,	esperamos
nele.	Esperemos	quanto	tempo	for	necessário,	porque	estamos	certos	de	que	ele
nos	ama	e	nos	ouve.	Ele	virá,	sim.	Libertará,	sim.	De	fato,	já	está	a	caminho.	O
amor	de	Deus	inspira	o	anseio	de	estar	com	ele	e	a	confiança	de	que	sua	palavra
é	verdadeira	–	portanto,	sabemos	que	ele	vem.	Essas	duas	coisas	–	anseio	e
confiança	–	combinam	para	formar	a	esperança.
Quando	o	amor	faz	parte	da	vida,	o	tempo	se	move	em	ritmo	diferente.	Veja	este
exemplo:	“por	amor	a	Raquel,	serviu	Jacó	sete	anos;	e	estes	lhe	pareceram	como
poucos	dias,	pelo	muito	que	a	amava”	(Gn	29.20).	Contraste	isso	com	o
sentimento	sem	fim	e	sempre	presente	do	sofrimento	da	depressão:	não	há
expectação	de	alívio,	o	sono	não	chega,	a	manhã	não	é	uma	promessa.
A	realidade	é	que	somos	os	vigilantes	da	última	vigília	da	noite.	São	4h30	da
madrugada.	Já	vimos,	muitas	vezes,	o	nascer	do	sol;	ansiamos	por	sua	chegada;
estamos	certos	de	que	chegará.	Que	raio	de	sol	esperamos?	No	salmo	130,	a
manhã	de	sol	é	uma	pessoa.	Nessa	pessoa	há	muitos	benefícios:	cura,	libertação
e	amor,	mas	não	se	engane	–	trata-se	mesmo	de	uma	pessoa.	Esperamos	por	ela
mais	do	que	pelos	seus	dons.	Não	somos	crianças	ansiosas	para	chegar	à	casa	da
vovó,	só	porque	esperamos	seus	presentes.	Somos	como	a	esposa	apaixonada,
cujo	esposo	está	prestes	a	chegar	de	uma	longa	viagem.	Só	ver	o	amado	bastará,
trazendo	ou	não	os	presentes.
Aqui,	tenha	cuidado	para	não	se	desanimar	com	o	entusiasmo	do	salmista.	Ele	é
realmente	inspirador,	e	será	difícil	encontrar	outro	igual.	Se	ele	ainda	não	nos
contagia,	não	desesperemos.	Mudar	das	profundezas	para	as	alturas	de	uma
esperança	confiante	é	algo	que	requer	algum	esforço.	Considere	este	salmo	como
a	versão	condensada	de	um	longo	processo	de	aprendizado.
Deus	determina	muitas	coisas	boas	que	vêm	mediante	a	perseverança.	Olhe	ao
seu	redor	e	veja	como	teve	de	se	esforçar	com	alguma	coisa	antes	de	aprendê-la.
Esportes,	hobbies,	vocações,	até	mesmo,	relacionamentos	–	tudo	segue	o	mesmo
esquema.	Não	espere	que	a	esperança	surja	repentinamente.	Seria	como	insistir
em	tocar	Mozart	antes	da	segunda	aula	de	piano.	A	esperança	é	um	dom	de
Deus,	e	é	também	uma	habilidade	que	ele	nos	capacita	a	adquirir.	O	ponto	é	que
podemos	ter	a	mesma	esperança	do	salmista.
Encorajar	a	outros
Quando	recebemos	algo	maravilhoso,	geralmente	falamos	sobre	isso	a	outras
pessoas.	Notícia	boa	não	pode	ficar	escondida.	Nesse	salmo,	aquilo	que	começou
como	o	clamor	de	um	homem	isolado,	tornou-se	um	grito	para	a	comunidade:	Se
eu	pude	encontrar	esperança	e	amor	no	Senhor,	vocês	também	podem.	Se
encontrei	alegria	no	perdão,	vocês	também	encontrarão.	Ou,	parafraseando	o
salmo:	“Se	eu,	salmista	do	Antigo	Testamento,	que	não	vi	a	vinda	de	Jesus,
posso	falar	com	tamanha	esperança,	quanto	mais	vocês,	que	testemunharam	a
cruz	–	evidência	irrefutável	do	perdão	dos	pecados?”
Concordo	que	ainda	isso	possa	parecer	um	sonho	impossível,	mas	lembre-se	de
que	é	o	próprio	Deus	quem	dá	esse	salmo.	Deus	está	reescrevendo	sua	história.
Talvez	você	se	sentiu	bem	repetindo	o	clamor	dos	primeiros	dois	versículos,	mas
o	Espírito	de	Deus	quer	que	você	conheça	a	totalidade	da	história.
Esse	é	apenas	um	dos	muitos	salmos	que	você	poderá	tomar	para	si.	Poderá	ser
sua	propriedade	e	seu	futuro.	Pense	nisso.	Você	que	entende	que	não	tem
propósito.	Reflita	no	significado	de	ser	embaixador	da	esperança	para	pessoas
desesperadas.	Aqueles	que	já	lutaram	com	a	depressão	são	especialmente	críveis
porque	tiveram	experiência	do	sofrimento;	sua	esperança	foi	testada	e
autenticada.	Quando	você	falar	da	esperança	para	outra	pessoa,	certamente	seu
testemunho	será	atraente	e	persuasivo.
Resposta
Às	vezes,	temos	de	nos	forçar	para	comer.	Não	temos	fome.	Simplesmente	não
queremos	comer.	Mas	sabemos	que	precisamos	nos	alimentar.	É	o	momento	de
nos	forçarmos	a	comer.	Nossa	saúde	espiritual	depende	disso.
Não	estamos	acostumados	a	fazer	aquilo	que	não	sentimos	vontade.	Se	já
tentamos	outras	vezes,	certamente,	repetir	nos	parecerá	mecânico	e	estranho.
Não	nos	parecerá	muito	humano,	pois	estamos	acostumados	a	ser	mobilizados
por	nossas	paixões.	Esteja	certo	que	isso	é	muito	humano.	Quando	os	animais
usam	os	instintos	–	sua	versão	de	sentimentos	–	são	escravos	deles.	Nós,	porém,
podemos	sobrepujar	nossos	instintos.	Podemos	agir	em	sabedoria	e	fé.
Se	este	salmo	lhe	cabe,	fique	com	ele.	Destaque-o,	releia,	deixe	que	outras
pessoas	o	recitem	para	você,	fale	a	respeito	dele.	É	preciso	praticar	para	torná-lo
sua	propriedade.
Qual	é	o	seu	plano	para	relembrar?
Capítulo	9
Propósito
						Muitas	vezes,	vivemos	em	fragmentos	de	significado.	É	surpreendente	como
conseguimos	sobreviver	com	tão	pouco:	um	aumento	de	três	por	cento,	perder
três	quilos,	sexo	casual,	uma	relação	pela	internet.	Só	com	muita	dificuldade
conseguimos	enxergar	significado	e	propósito	a	partir	de	fumaça,	isto	é,	até
sucumbir	à	depressão.	Daí,	percebemos	não	haver	mais	uma	história	maior,	e	cai
o	pano	no	palco.Há	momentos	em	que	nosso	trabalho	–	a	atividade	por	meio	da	qual	descobrimos
nosso	valor	no	mundo	–,	momentos,	eu	digo,	quando,	de	repente,	nossa
profissão,	nosso	labor	diário,	parece	um	cenário	de	teatro,	e	este	rui.	Todo	nosso
trabalho	de	valor	colapsa.	Horrorizados,	olhamos	para	o	reverso	das	coisas
materiais,	a	profundidade	espiritual	em	que	sempre	acreditamos	haver
significado,	mas	não	vemos	nada.	É	nada,	nu.¹
A	depressão	parece	esse	estado	de	ausência	de	pensamento,	mas	é	também	um
lugar	de	percepção,	porque	vemos	que	o	palco	era,	na	verdade,	apenas	um	palco.
O	que	parecia	significante	e	verdadeiro	há	alguns	anos,	acabou	sendo	apenas
uma	fachada.	Os	prazeres	eram	fugidios.	Nada	durou.	O	casamento	ficou
rançoso.
Esse	insight,	essa	percepção,	é	coisa	dolorosa	e	parece	custar	a	vida.	Mas,	se
estivermos	dispostos,	o	passo	seguinte	iniciará	uma	jornada	significativa	no
caminho	da	sabedoria.	Muitos	sábios	já	fizeram	essa	peregrinação.
Palavra	do	Pregador,	filho	de	Davi,	rei	de	Jerusalém:	Vaidade	de	vaidades,	diz	o
Pregador;	vaidade	de	vaidades,	tudo	é	vaidade.	(Ec	1.1-2)
Isso,	no	entanto,	é	apenas	o	início.
A	depressão	diz:	“Você	não	encontra	significado	naquilo	que	está	fazendo”.	E
essa	afirmativa	está	certa.	O	que	ela	não	diz	é:	“Continue	a	procurar,	que	você
achará.	Você	é	uma	criatura	com	propósito	real”.	Para	isto,	precisará	ouvir	outros
que	já	trilharam	este	caminho	antes	de	você.	Eles	insistem	para	que	você
continue	e	apontam	o	caminho.
Tema	a	Deus	e	guarde	seus	mandamentos
Quando	observamos	a	vida,	escutando	pessoas	sábias,	rapidamente	descobrimos
que	não	somos	o	centro	dela.	Isso,	certamente,	ferirá	nosso	orgulho,	mas	será	um
alívio	bem	vindo.	Simplesmente	não	podemos	investir	nossas	esperanças,	nossos
sonhos	e	nosso	amor	no	“eu”,	porque	ele	não	foi	feito	para	carregar	carga	tão
pesada.	Na	verdade,	não	há	nada	concebido	na	criação	para	sustentar	tais
esperanças.	A	criação	deve	ser	usufruída,	mas	não	podemos	colocar	nela	nossa
confiança.	A	única	alternativa	é	confiar	no	próprio	Deus.
O	Pregador	(ou	professor,	mestre)	do	livro	de	Eclesiastes	tenta	economizar
tempo	em	nossa	busca	de	significado	e	propósito.	Ele	diz	que	tentou	fazer	a	vida
girar	em	torno	dele	mesmo,	e	não	deu	certo.	Tentou	cultura,	riso,	grandes
projetos,	prazer	sexual	desenfreado,	dinheiro,	música	e	filhos.	Todas	essas
coisas,	quando	tornadas	em	finalidade	de	vida,	conduziram	apenas	ao	desespero.
Ele	não	encontrava	propósito	no	mundo	criado.
Depois	de	invejar,	por	breve	tempo,	uma	vida	comum	de	trabalho	honesto,	bons
amigos,	comida,	bebida	em	moderação,	e	fazer	o	bem,	ele	chegou	à	sua	resposta
–	seu	objetivo.	“De	tudo	o	que	se	tem	ouvido,	a	suma	é:	Teme	a	Deus	e	guarda
os	seus	mandamentos;	porque	isto	é	o	dever	de	todo	homem”	(Ec	12.13).
Não	se	assuste	com	a	palavra	“temer”	na	expressão	“teme	a	Deus”.	Ela	é,	na
Escritura,	uma	palavra	muito	mais	expansiva	do	que	entendemos	por	estar	com
medo	de	alguém.	Inclui	profunda	reverência	e	admiração,	honra	e	adoração.
Sim,	há	o	modo	certo	de	nos	aproximarmos	de	Deus	em	temor,	mas	isso	não
implica	uma	possível	condenação.	Se	pusermos	nossa	confiança	em	Cristo,	não
existe	nenhuma	condenação.	Tememos	a	Deus	porque	ele	é	Deus.	Não	é	manso	e
domesticado	como	algumas	vezes	gostaríamos	que	ele	fosse.
O	temor	de	Deus	deve	ser	nosso	modo	de	responder	ao	fato	de	que	ele	é	superior
a	nós	–	diferente	de	nós	–	em	todas	as	coisas.	Sua	beleza	é	bem	maior.	Maior	a
sua	sabedoria.	Seu	amor	é	muito	maior.	E,	sim,	sua	ira	também	é	maior.	Em
palavras	simples:	ele	é	Deus	e	nós	não	somos.
Numa	época	em	que	está	na	moda	“suavizar”	o	caráter	divino,	“temor”	é	um
antídoto	maravilhoso.	Há	ocasiões	em	que,	conhecendo	a	Deus	e	sabendo	o	que
ele	fez	e	faz,	nossos	joelhos	deveriam	estar	tremendo.	Martinho	Lutero,	por
exemplo,	estava	convicto	de	que	deveríamos	estar	aterrorizados	ante	os
sofrimentos	de	Cristo,	porque	tais	sofrimentos	revelam	a	gravidade	de	nosso
pecado,	merecedor	de	severo	julgamento.	Claro,	ele	não	parou	ali.	Estava
persuadido	também	de	que	deveríamos	tremer	em	face	do	conhecimento	do
amor	de	Deus,	que	é	maior	do	que	qualquer	coisa	conhecida	ou	concedida.²
Temer	a	Deus	e	guardar	os	seus	mandamentos	trazem	certa	simplicidade	à	vida.
Ele	é	Criador,	nós	somos	criaturas.	Somos	sua	propriedade.	Quando	ele	dirige,
nós	o	seguimos.	Chegamos	diante	dele,	dizendo:	Como	é	que	o	Senhor	quer	que
eu	viva	hoje?	O	salmista	chegou	a	ponto	de	dizer	que	sua	aflição	foi	valiosa
porque	o	ensinou	mais	sobre	guardar	os	mandamentos	de	Deus,	objetos	do	seu
prazer	(Sl	119.71).
Existem,	claro,	muitos	mandamentos	nas	Escrituras.	Ninguém	poderá	guardar
tudo	na	cabeça.	Mas	podemos	nos	lembrar	mais	fácil	e	resumidamente	da	lei	de
Deus:	amá-lo	sobre	todas	as	coisas	e	amar-nos	uns	aos	outros.	O	que	isso	tem	a
ver	com	propósito	e	significado?	Todo	mandamento	da	Escritura	é	uma
declaração	com	propósito.	Somos	servos	do	Rei	exaltado.	Quando	ele	nos	fala
sobre	o	que	fazer,	isso	se	torna	nosso	propósito.	Nosso	propósito	torna-se	viver
segundo	os	seus	propósitos.
Tristemente,	sua	lei	não	nos	causa	muito	entusiasmo.	É	simples	demais,	e
achamos	que	servir	alguém	acima	de	nós	mesmos	não	é	lá	grande	coisa.
Achamos	que	viver	segundo	os	nossos	próprios	propósitos	seria	bem	mais
realizador.	Porém,	você	sabe	a	verdade.	Eclesiastes	faz	sentido.	Já	tentamos
outros	propósitos	e	ficamos	em	falta.	Você	já	foi	advertido	de	que	estamos	em
terreno	onde	uma	batalha	espiritual	está	sendo	travada,	e	temos	de	andar	com
muito	cuidado.	Somos	facilmente	enganados	quanto	às	coisas	mais	importantes.
Pare	e	pense.	Uma	pessoa	muito	sábia,	o	escritor	de	Eclesiastes,	resumiu	nosso
propósito.	Sabemos	que	esse	propósito	é	o	caminho	da	vida.	Ele	sabe	o	que	o
coração	realmente	quer.	Insta	que	você	escute	sua	conclusão	e	a	apreenda	no
coração.
Esteja	disposto	a	experimentá-la.	Como	você	poderá	guardar	os	mandamentos	de
Deus	hoje?	Procure	alguém	para	amar.	Um	conselheiro	mais	velho,	bastante
sábio,	que	experimentou	ele	mesmo	a	depressão,	desafia	as	pessoas	deprimidas
da	seguinte	forma:	“Lute	as	batalhas	espirituais	que	acompanham	a	depressão,	a
fim	de	poder	amar	aos	outros”.	Parece	simples,	mas	é	um	resumo	de	muitos	anos
de	experiência.
Amar	a	Deus	e	ao	próximo,	e	outras	declarações	de	propósito
Se	você	conhece	as	Escrituras,	encontrará	o	resumo	de	Eclesiastes	de	muitas	e
diferentes	formas.
Ele	te	declarou,	ó	homem,	o	que	é	bom	e	que	é	o	que	o
Senhor
pede	de	ti:	que	pratiques	a	justiça,	e	ames	a	misericórdia,	e	andes	humildemente
com	o	teu	Deus.	(Mq	6.8)
Respondeu-lhe	Jesus:	Amarás	o	Senhor,	teu	Deus,	de	todo	o	teu	coração,	de	toda
a	tua	alma	e	de	todo	o	teu	entendimento.	Este	é	o	grande	e	primeiro
mandamento.	O	segundo,	semelhante	a	este,	é:	Amarás	o	teu	próximo	como	a	ti
mesmo.	(Mt	22.37-39)
A	única	coisa	que	tem	valor	é	a	fé	que	atua	pelo	amor.	(Gl	5.6	–	NIV)
A	linguagem	é	variada:	temer	o	Senhor,	confiar	nele,	amá-lo,	andar
humildemente	com	ele,	crer	nele.	Expressamos	esse	compromisso	ao	Senhor,
obedecendo	aos	seus	mandamentos,	cujo	resumo	é	o	amor.	Este	é	o	verdadeiro
fundamento	para	a	vida	humana.	Sem	isso,	a	vida	não	tem	sentido.
Pare	mais	uma	vez	e	considere	suas	respostas.	Isso	lhe	parece	superficial?
Cediço?	Sonho	impossível?	Fácil	demais?	Importante,	mas	você	não	consegue
se	entusiasmar	com	isso?	Reflita.	Converse	sobre	o	assunto	com	alguém.	Não	se
desanime	por	haver	tentado	sem	sucesso.	Haver	tentado	e	não	ter	dado	certo.	Se
achar	que	tudo	isso	é	obsoleto	ou	irrelevante,	estará	revelando	seu	propósito:
livrar-se	da	depressão.	É	claro	que	isso	seria	de	algum	valor,	mas	não	faça	com
que	nisso	esteja	todo	o	seu	propósito	de	vida.
Se	ainda	estiver	em	dúvida,	assuma	que	o	seu	propósito	não	está	sincronizado
com	o	de	Deus.	É	provável	que	tenha	“tentado”	alcançar	esse	objetivo	bem
menos	do	que	pensa.	Embora	possa	entendê-lo,	intelectualmente,	aspirar	por	ele
é	coisa	bem	diferente.	Vivê-lo	será	ainda	mais.	A	verdade	é	que	ninguém	aspira,
de	todo	coração,	amar	a	Deus	e	ao	próximo	acima	de	tudo;	ninguém	vive	isso
com	total	coerência.Portanto,	comece	pela	confissão.	Diga	ao	Pai	Celeste	que
você	é	como	o	filho	pródigo	que	fica	a	procurar	propósitos	egoístas	em	vez	dos
orientados	por	Deus.
Há	também	outra	realidade.	Podemos	crescer	diariamente,	com	o	Espírito	de
Deus	a	nos	fortalecer,	fazendo	com	que	isso	seja	mais	e	mais	o	propósito	de
nossa	vida.	Ao	fazê-lo,	estaremos	sendo	transformados.
Glorificar	a	Deus
O	vocabulário	da	Bíblia	é	tão	rico	assim	como	a	variedade	do	que	ela	tem	a	dizer
sobre	nosso	propósito.	Um	dos	vocábulos,	especialmente	excelente,	é	a	palavra
glorificar.	Fomos	criados	para	glorificar	a	Deus.	No	livro	de	Efésios,	Paulo
lembra-nos	três	vezes,	na	introdução,	de	que	vivemos	“para	o	louvor	da	sua
glória”	(Ef	1.6,	12,	14).
Quando	pensamos	em	glória,	pensamos	em	algo	grande,	lindo	e	muito	óbvio.
Que	glorioso	por	do	sol	esta	tarde!	Ela	cantou	uma	ária	simplesmente	gloriosa.
Glorificar	a	Deus	significa	que	o	façamos	de	modo	visível	e	belíssimo.
Queremos	que	ele	seja	famoso.	Queremos	que	toda	a	atenção	seja	dada	ao	Deus
glorioso	que	nos	amou,	e	o	fazemos	confiando	nele	e	amando	as	outras	pessoas.
Em	1646,	mais	de	cem	pastores	se	reuniram,	a	pedido	do	rei	da	Inglaterra,	para
desenvolver	um	resumo	do	ensino	bíblico	para	a	orientação	da	igreja.	No
catecismo	para	crianças	que	eles	desenvolveram	(uma	série	de	perguntas	e
respostas),	a	primeira	pergunta	trata	de	nosso	propósito:	“Qual	é	o	fim	principal
do	homem?	O	fim	principal	do	homem	é	glorificar	a	Deus	e	alegrar-se	nele	para
sempre”.³
Estavam	certos.	É	esse	o	nosso	propósito:	não	para	nós;	mas	para	Deus	e	seus
propósitos.	O	que	poderia	ser	maior	e	mais	grandioso	do	que	isso?	Não	passa	de
um	fragmento	de	significado.
Cristo	crucificado
A	fim	de	testar	a	qualidade	da	declaração	de	propósito	que	escolhemos,
examinemos	o	lugar	de	Jesus	Cristo	nela.	Nossa	resposta,	de	temor,	amor,	louvor
e	adoração,	é	oriunda	do	conhecimento	de	Cristo.	Glorificamos	a	Deus	por
aquilo	que	Jesus	fez.
Quando	olhamos	por	meio	das	páginas	da	Escritura,	visando	encontrar
declarações	de	propósito,	não	podemos	evitar	a	consideração	do	resumo	que	o
apóstolo	Paulo	fez,	pois	ele	começa,	dizendo:	“Antes	de	tudo”.
Antes	de	tudo,	vos	entreguei	o	que	também	recebi:	que	Cristo	morreu	pelos
nossos	pecados,	segundo	as	Escrituras,	e	que	foi	sepultado	e	ressuscitou	ao
terceiro	dia,	segundo	as	Escrituras.	E	apareceu	a	Cefas	e,	depois,	aos	doze.
Depois,	foi	visto	por	mais	de	quinhentos	irmãos	de	uma	só	vez,	dos	quais	a
maioria	sobrevive	até	agora;	porém	alguns	já	dormem.	(1Co	15.3-6)
Se	quisermos	ver	uma	declaração	ainda	mais	básica,	Paulo	a	resume	nisto:
“Jesus	Cristo	e	este	crucificado”	(1Co	2.2).	Ao	personalizá-lo,	escreve:
“Porquanto,	para	mim,	o	viver	é	Cristo,	e	o	morrer	é	lucro”	(Fp	1.21).	A
Escritura	é	uma	história	que	tem	seu	clímax	em	Cristo.	Se	quisermos	que	a	nossa
história	tenha	um	propósito	duradouro,	devemos	focá-la	na	mesma	conclusão.
De	que	adianta?	Por	que	se	importar?	A	resposta	é	que	Jesus	Cristo	foi
crucificado	e	ressuscitou	dos	mortos.	Não	poderíamos	encontrar	resposta	mais
completa.	Nela,	descobrimos	que	fomos	chamados,	perdoados,	adotados	em	uma
nova	família,	recebemos	dons,	uma	missão	e	um	futuro.	Recebemos	o	amor;
amor	tão	extremado	que	tomará	toda	uma	eternidade	para	começarmos	a
entendê-lo.
Digamos	desta	forma:	Cristo	tomou	sobre	si	a	nossa	história	miserável	e	deu-nos
a	sua	história	de	ressurreição	e	esperança.	Recebemos	os	sucessos	de	Cristo,	o
relato	de	Cristo,	e	o	amor	que	Jesus	desfruta	do	Pai.	Quando	pomos	nossa	fé	em
Jesus,	tudo	muda.	O	que	algumas	pessoas	acham	ser	apenas	um	ingresso	para	o
céu	é	muito,	muito	mais.	Existem	benefícios	futuros	bem	como	presentes	no
sangue	de	Jesus.	Pela	fé,	entramos	na	família	real	com	todos	os	seus	direitos	e
privilégios.	No	começo,	poderemos,	até	mesmo,	sentir-nos	como	estranhos	que
não	pertencem	ao	reino,	mas	quando	o	Pai	continua	a	nos	assegurar	de	que	a
cruz	de	Cristo	foi	a	entrega	de	nossos	documentos	de	adoção,	eventualmente
começamos	a	olhar	pelos	corredores	do	palácio	e	ver	que	os	quadros	nas	paredes
são	de	nossos	parentes.	Ao	invés	de	pedir	uma	audiência	com	o	Rei,	diremos	que
Deus	é	nosso	–	meu	–	Deus	(Sl	63.1)	e	nosso	Pai	(Mt	6.9).
Portar	a	semelhança	da	família
Temer	a	Deus	e	guardar	seus	mandamentos,	amar	a	Deus	e	ao	próximo,
glorificar	a	Deus	e	“para	mim	o	viver	é	Cristo”	são	declarações	de	propósito.
Todas	são	maneiras	diferentes	de	nos	lembrar	sobre	quem	nós	somos,	de
verdade.	Os	seres	humanos	foram	criados	para	ser	descendência	real	de	Deus,
feitos	para	portar	o	distinto	caráter	do	Pai.	Nosso	propósito	é	o	de	ter	semelhança
com	nossa	família.	A	lei	de	Deus	descreve	o	caráter	do	Rei	para	que	possamos
imitá-lo.
Temos,	contudo,	anseios	de	filho	pródigo	dentro	de	cada	um	de	nós.	Queremos
encontrar	nosso	próprio	caminho.	Ainda	que	nos	percamos	sem	esperança,	existe
em	nós	algo	que	prefere	vagar	sem	rumo	a	imitar	e	obedecer	com	a	confiança	de
uma	criança.	A	cruz	é	o	modo	como	Deus	busca	a	filhos	teimosos.	É	um	convite
para	o	retorno	à	família.
“Sereis	santos,	porque	eu	sou	santo”	(Lv	11.44;	19.2;	20.8;	20.26);	“Sede,	pois,
imitadores	de	Deus,	como	filhos	amados”	(Ef	5.1);	“andai	como	filhos	da	luz”
(Ef	5.8);	“Tende	em	vós	o	mesmo	sentimento	que	houve	também	em	Cristo
Jesus”	(Fp	2.5)	–	todas	são	exortações	próprias	da	família.	Estude	Jesus,	nosso
irmão	mais	velho	e	nosso	Deus,	e	imite-o	pela	fé.	Este	é	o	nosso	propósito.
“Deus,	porém,	nos	disciplina	para	aproveitamento,	a	fim	de	sermos	participantes
da	sua	santidade...	produz	fruto	pacífico	aos	que	são	por	ela	exercitados,	fruto	de
justiça”	(Hb	12.10-11).
Um	versículo	das	Escrituras,	prontamente	pregado	sobre	todo	sofrimento,	é	o	de
Romanos	8.28:	“Sabemos	que	todas	as	coisas	cooperam	para	o	bem	daqueles
que	amam	a	Deus,	daqueles	que	são	chamados	segundo	o	seu	propósito”.	Como,
de	alguma	maneira,	nosso	sofrimento	poderá	ser	bom?	A	resposta	está	no
versículo	seguinte:	estamos	sendo	transformados	conforme	à	imagem	de	seu
Filho.	Isso	é	o	que	Deus	pretendeu	que	fôssemos.	É	o	nosso	propósito,	e	quando
estivermos	mais	alinhados	a	ele,	a	experiência	depressiva	mudará.
Em	seu	livro,	Forty-Five	Years	in	China	(Quarenta	e	cinco	anos	na	China	–
1916),	Timothy	Richard	escreveu	sobre	o	líder	de	uma	seita	chinesa	que
promovia	acusações	contra	os	cristãos.	Como	evidência,	ele	mostrou	um	texto
sobre	cirurgia	utilizado	por	alguns	dos	médicos	missionários.	“Ignorante	do
objetivo	humanitário	da	cirurgia,	ele	considerava	as	operações	como	prova	da
crueldade	dos	cristãos”.	O	sofrimento	é	a	cirurgia	de	Deus	que	conduz	à	saúde,
quando	atendida	pela	fé.
Resposta
Você	quer	uma	evidência	do	Espírito	Santo	em	sua	vida?	Quando	disser:	Por	que
me	importaria?	Responda:	Por	causa	de	Jesus.	Muitas	vezes,	nossa	vida	cruza
com	agrado	com	as	leis	de	Deus,	porque	suas	leis	fazem	sentido.	A	vida	tende	a
melhorar,	quando	falamos	a	verdade,	perdoamos,	amamos	e	não	matamos.	Mas,
às	vezes,	nossos	desejos	e	os	desejos	de	Deus	parecem	não	sincronizar.
Queremos	ir	numa	direção	e	Deus	nos	chama	para	outra.	Sentimo-nos
paralisados	quando	Deus	nos	chama	à	ação.	Nessas	horas,	a	fé	e	a	obra	do
Espírito	Santo	serão	mais	visíveis.
C.	S.	Lewis	observou,	em	um	diálogo	imaginário	entre	dois	demônios:
[Screwtape	adverte	Wormwood]	–	Nossa	causa	jamais	estará	em	perigo	maior	do
que	quando	um	humano	não	somente	apenas	deseja,	mas	ainda	tem	a	intenção	de
fazer	a	vontade	de	nosso	Inimigo	[Deus];	quando,	olhando	em	volta	para	um
universo	do	qual	parece	que	sumiu	todo	vestígio	dele,	pergunta	por	que	foi
desamparado,	e,	ainda	assim,	obedece.⁴
Como	será	essa	obediência	ou	imitação?	Uma	vez	que	Jesus	fez-se	homem,
dando	assim	maior	dignidade	às	atividades	comuns	da	vida	humana,	devemos
esperar	que	a	fé	norteada	por	propósitos	tenha	uma	aparência	bastante	comum,
humana.	Para	algumas	pessoas,	isso	significa	“dar	o	passo	seguinte”.	Um	passo
depois	do	outro.	Será	algo	como	servir	a	Deus	e	ao	próximo,	cumprimentando-o
com	a	pergunta:	como	é	que	vai?	–	e	orando	por	ele.	Será	como	dizer:	Senhor,
estou	disposto.	O	que	o	Senhorquer	que	eu	faça	hoje?
Qual	é	o	seu	propósito?
1	CAMUS,	A.	The	Myth	of	Sisyphus	(Nova	York:	Vintage,	1955),	p.	10.
2	NICHOLS,	S.	Martin	Luther:	A	Guided	Tour	of	his	Life	and	Thought
(Phillipsburg,	NJ:	Presbyterian	and	Reformed,	2002).
3	Breve	Catecismo	11.
4	LEWIS,	C.	S.	The	Screwtape	Letters	(Nova	York:	Macmillan,	1977),	p.	39.
Capítulo	10
Perseverança
						A	depressão	diz:	“Renda-se”.	A	mensagem	é	implacável	e	muitos	cedem	sob
sua	pressão,	porque,	mesmo	sabendo	que	existe	propósito	em	nosso	sofrimento,
a	batalha	parece	longa	demais.	“Nem	posso	dizer	o	quanto	estou	cansado	de
experiências	que	constroem	o	caráter”,	diz	um	autor	que	já	passou	pela
depressão,	muitas	vezes.¹	Se	os	ataques	de	depressão	tocassem	apenas	em	uma
parte	da	vida,	poderíamos	enfrentá-la.	Mas	ela	acessa	todos	os	setores	e,	até
mesmo,	o	menor	passo	nos	oprime.	A	capitulação	nos	parece	inevitável.
Poderemos	adiar	a	rendição,	mas	não	evitá-la.
Na	Escritura,	o	termo	“entrega”,	em	relação	a	Deus,	nos	liga	diretamente	à
“perseverança,	ser	paciente	na	tribulação”.	Certamente	isso	não	soa	muito
libertador.	Continue	firme.	Vá	em	frente.	Você	consegue!	Parecem	chavões
triviais,	quando	ditos	por	amigos	e	familiares,	como	se	não	tivessem	mais	nada	a
dizer	e,	então,	oferecem	esse	“estímulo”	só	para	falar	alguma	coisa.	O	chamado
à	perseverança	talvez	não	soe	atraente,	mesmo	quando	vem	do	próprio	Deus.
Ressoa,	sim,	com	maior	autoridade,	como	um	general	que	manda	que	as	tropas
continuem	em	face	de	um	inimigo	muito	mais	forte.	Mas	ainda	assim	soa	vazio.
Entretanto,	lembre-se	de	que	não	podemos	evitar	a	Deus.	Todas	as	trilhas
conduzem	a	ele.	Se	estiver	tentado	a	“pular”	suas	palavras	sobre	perseverança,
considere	que	ele	é	a	vida.	Suas	palavras	vivificam.	Aquilo	que	ele	diz	é
surpreendentemente	belo	e	elegante,	de	inestimável	valor.	Noutras	palavras,
existe	mais	na	perseverança	do	que	podemos	imaginar.
Deus	persevera
Como	é	o	caso	de	tantos	mandamentos	das	Escrituras,	“perseverar”	é	muito	mais
do	que	algo	que	Deus	manda	fazer:	Ele	mesmo	o	faz.	A	persistência	é	um	dos
muitos	aspectos	de	seu	caráter.	A	razão	de	ter	tanto	valor	é	que	Deus	se	nos
revela	principalmente	por	meio	da	perseverança.	A	Escritura	aponta
consistentemente	à	pertinácia	e	paciência	de	Deus	para	com	seu	povo.
Não	retarda	o	Senhor	a	sua	promessa,	como	alguns	a	julgam	demorada;	pelo
contrário,	ele	é	longânimo	para	convosco,	não	querendo	que	nenhum	pereça,
senão	que	todos	cheguem	ao	arrependimento.	(2Pe	3.9,	itálicos	acrescidos)
Pois	tenho	suportado	afrontas	por	amor	de	ti,	e	o	rosto	se	me	encobre	de	vexame.
(Sl	69.7)
Ora,	o	Senhor	conduza	o	vosso	coração	ao	amor	de	Deus	e	à	constância	de
Cristo.	(2Ts	3.5)
Olhando	firmemente	para	o	Autor	e	Consumador	da	fé,	Jesus,	o	qual,	em	troca
da	alegria	que	lhe	estava	proposta,	suportou	a	cruz,	não	fazendo	caso	da
ignomínia,	e	está	assentado	à	destra	do	trono	de	Deus.	(Hb	12.2)
A	perseverança	só	é	relevante	na	adversidade,	e	nós	somos,	de	fato,	pessoas
muito	difíceis	para	Deus	tratar.	Nosso	Deus	Criador	criou-nos	para	si	mesmo,
contudo,	com	demasiada	frequência,	respondemos	com	indiferença	ou,	então,
como	um	adolescente	em	busca	de	independência.	Em	termos	ainda	mais
pessoais,	nós	somos	seus	amados,	porém,	mesmo	em	face	de	seu	amor
inexplicável	e	superabundante,	vamos	atrás	de	outros	amantes	que	acabam	nos
abandonando.	Nesse	contexto,	Deus	revela	sua	perseverança	para	conosco.
Como	te	deixaria?	Como	te	entregaria?	Meu	coração	está	comovido	dentro	de
mim,	as	minhas	compaixões,	à	uma,	se	acendem.	Não	executarei	o	furor	da
minha	ira,	porque	eu	sou	Deus	e	não	homem	–	o	Santo	no	meio	de	ti.	Não
voltarei	em	ira.	Quando	o	Senhor	bramir	como	leão,	os	filhos,	tremendo,
voltarão.	(Os	11.8-11,	paráfrase	do	autor)
O	apóstolo	Paulo	destacou	esses	temas	da	paciência	e	da	perseverança.	Sendo
perseguidor	dos	seguidores	de	Jesus,	a	ponto	de,	condená-los	à	morte,	ele	era	a
última	pessoa	no	mundo	de	quem	se	podia	esperar	que	fosse	utilizado	por	Deus
como	um	dos	mais	influentes	missionários.
Mas,	por	esta	mesma	razão,	me	foi	concedida	misericórdia,	para	que,	em	mim,	o
principal,	evidenciasse	Jesus	Cristo	a	sua	completa	longanimidade,	e	servisse	eu
de	modelo	a	quantos	hão	de	crer	nele	para	a	vida	eterna.	(1Tm	1.16)
Todo	ensinamento	sobre	perseverança,	paciência	e	persistência	perene	tem	sua
origem	no	caráter	de	Deus.	Assim	como	o	amamos	porque	ele	nos	amou
primeiro,	antes	que	o	conhecêssemos,	também	perseveramos	porque	ele	é
longânimo	e	permanece	conosco	através	da	história.
Perseverança	no	cotidiano
Se	você	for	agricultor,	ou	cuidar	de	seu	jardim,	saberá	algo	a	respeito	da
perseverança.	Quando	plantadas	as	sementes,	o	chão	não	produz	rapidamente	o
milho.	Poderá	levar	alguns	anos	antes	que	comamos	os	frutos	de	parreiras	ou
outras	árvores	frutíferas.
Quando	decidimos	estudar	violino,	no	começo,	produzimos	apenas	guinchos	e
arranhaduras	no	instrumento,	até	conseguirmos	reproduzir	estudos	de
Beethoven.	Se	você	já	adquiriu	habilidade	em	qualquer	coisa,	essa	terá	vindo
mediante	a	perseverança.
As	crianças	são	notórias	quanto	à	impaciência;	não	conseguem	esperar	e
perseverar.
–	Quando	vamos	chegar	à	casa	da	vovó?
–	Logo	–	é	a	resposta	típica	e	insatisfatória.
–	Mamãe,	quando	é	que	você	vai	brincar	comigo?
–	Ainda	não.	Tenho	de	terminar	este	relatório	primeiro.	–	Quinze	segundos	mais
tarde,	a	criança	repete	a	mesma	pergunta,	dessa	vez	com	um	tom	de	voz	que
consegue	tirar	a	mãe	do	sério.
Essa	infantilidade	está	em	todos	nós.	Ansiamos	pelo	dia	em	que	aprenderemos	a
permanecer	diante	do	Senhor.	Só	o	homem,	ou	a	mulher,	mais	maduro	e	sábio
conseguirá	enfrentar	as	confusões	da	vida	sem	reclamar	ou	murmurar,	com
contentamento	e	não	apenas	resignação.
Deus	escolheu	inculcar	seu	caráter	perseverante	e	paciente	na	vida	terrena	de
cada	dia.	Aguardamos	pacientemente	a	vinda	do	Senhor.	A	própria	criação
aguarda	com	paciência	o	tempo	de	sua	libertação	da	escravidão	(Rm	8.22).
Sede,	pois,	irmãos,	pacientes,	até	à	vinda	do	Senhor.	Eis	que	o	lavrador	aguarda
com	paciência	o	precioso	fruto	da	terra,	até	receber	as	primeiras	e	as	últimas
chuvas.	(Tg	5.7	–	itálicos	acrescidos)
Deus	poderia	ter	revelado,	imediatamente	e	de	antemão,	o	tempo	do	fim,	depois
que	Jesus	subiu	ao	céu,	mas,	por	diversas	razões,	escolheu	esperar
pacientemente.
Perseverança	no	sofrimento
Embora	as	oportunidades	para	crescer	em	perseverança	nos	sejam	dadas	a	cada
dia,	o	sofrimento	é	que	torna	a	perseverança	uma	habilidade	imprescindível.
E	não	somente	isto,	mas	também	nos	gloriamos	nas	próprias	tribulações,
sabendo	que	a	tribulação	produz	perseverança.(Rm	5.3)
Portanto,	também	nós,	visto	que	temos	a	rodear-nos	tão	grande	nuvem	de
testemunhas,	desembaraçando-nos	de	todo	peso	e	do	pecado	que	tenazmente	nos
assedia,	corramos,	com	perseverança,	a	carreira	que	nos	está	proposta.	(Hb	12.1)
sabendo	que	a	provação	da	vossa	fé,	uma	vez	confirmada,	produz	perseverança.
(Tg1.3)
Eis	que	temos	por	felizes	os	que	perseveraram	firmes.	Tendes	ouvido	da
paciência	de	Jó	e	vistes	que	fim	o	Senhor	lhe	deu;	porque	o	Senhor	é	cheio	de
terna	misericórdia	e	compassivo.	(Tg	5.11)
Por	isso	mesmo,	vós,	reunindo	toda	a	vossa	diligência,	associai	com	a	vossa	fé	a
virtude;	com	a	virtude,	o	conhecimento;	com	o	conhecimento,	o	domínio
próprio;	com	o	domínio	próprio,	a	perseverança;	com	a	perseverança,	a	piedade.
(2Pe1.5-6)
Se	Jesus	aprendeu	a	obediência	e	a	constância	por	meio	daquilo	que	sofreu,	por
que	esperar	que	a	nossa	vida	seja	diferente?	Por	meio	de	nossas	lutas	e	dores,	é-
nos	oferecida	a	persistência,	parte	do	caráter	de	Deus.	As	dificuldades	têm	o
intuito	de	nos	proporcionar	transformação	espiritual	“a	fim	de	sermos
participantes	da	sua	santidade”	(Hb	12.10).	Sendo	assim,	quando	Deus	insta	para
que	sejamos	constantes,	não	está	apenas	titubeando	em	busca	de	palavras	de
encorajamento.	Está	nos	ensinando	a	ser	como	ele	é.
Dada	essa	conexão	com	o	caráter	de	Deus,	a	perseverança	não	é	nada	comum	–	é
gloriosa.	Pense	nisso	por	um	momento.	Vamos	supor	que	você	tenha	acabado	de
ouvir	umtestemunho	de	alguém	que	tenha	estado	deprimido	até	que	Deus	o
libertasse	completamente.	Naturalmente,	ele	estará	extasiado.	Poderia	ser,
contudo,	que	ele	estivesse	confiando	na	cura	em	vez	de	no	Deus	que	o	ama,
perdoa,	persevera	e	cura?
Considere,	agora,	outra	mulher	que	teve	uma	depressão	profunda.	Seu
testemunho	foi	de	que	ela	cria	na	bondade	de	Deus,	quer	a	depressão
desaparecesse	quer	não.	Ela	aprendeu	a	perseverar	na	tribulação	e	a	encontrar
contentamento	em	Deus,	no	meio	das	provações.	Esse	é	um	testemunho
realmente	glorioso.
A	perseverança	não	é	ostentosa.	Não	chama	a	atenção	para	si	mesma.	Parece	que
apenas	coloca	um	pé	diante	do	outro,	passo	a	passo.	Debaixo	da	superfície,	onde
poucos	enxergam	a	glória,	está	algo	muito	profundo	(Ap	2.2,19).	Estamos	nos
tornando	mais	parecidos	com	Deus.	Deus	vê,	e	se	agrada	disso.
A	perseverança	é	mais	do	que	simplesmente	passar	pela	vida	até	morrer	de
causas	naturais.	É	persistir	na	fé	e	na	obediência	e	permanecer	no	propósito	dado
por	Deus,	ainda	que	a	vida	seja	muito	difícil.	Ela	pergunta:	Como	representarei	a
Deus	hoje?	Como	confiarei	nele	e	o	seguirei	com	obediência?	Em	seguida,	pede
ajuda	a	outros,	clama	ao	Senhor	e	busca	oportunidade	para	amar.	Poderá	parecer
fraca,	mas	nossa	confiança	é	no	Deus	que	é	forte.	A	essência	da	perseverança	é
confiar	ou	obedecer	por	causa	de	Jesus.
Perseverança	na	batalha
Aquilo	que	achávamos	ser	um	caminho	de	vida	agora	parece	mais	um	campo	de
batalha.	A	estratégia	de	Satanás	é	cansá-lo	até	a	exaustão.	Um	dia	você	se	lembra
da	cruz,	e	Satanás	se	contentará	em	esperar	até	amanhã.	Se	não	conseguir	vencer
a	briga	(porque	Deus	é	quem	luta	por	você),	ele	tentará	esperar	além	do	que	você
consegue.	Em	guerras	prolongadas,	o	que	precisamos	é	de	perseverança.
Paulo	disse	a	Timóteo:	“Participa	dos	meus	sofrimentos	como	bom	soldado	de
Cristo	Jesus”	(2Tm	2.3).	Martinho	Lutero	chamava	a	depressão	de	anfechtungen,
que	quer	dizer	“ser	alvo	de	lutas”.	Que	nome	perfeito!	Em	vez	de	ser	traduzido
como	“algo	para	o	qual	ceder”,	é	um	chamado	às	armas.	Martyn	Lloyd-Jones,
pastor	e	médico	britânico,	que	considerou	profundamente	a	depressão,	tratou	do
assunto	em	uma	palestra	de	chamada	à	batalha.	Ouça-o,	porém,	como	um
médico	da	alma	que	deseja	o	melhor	para	seus	ouvintes:
Você	tem	de	tomar-se	pela	mão...	brigar	consigo	mesmo,	censurar-se,	condenar-
se,	exortar-se	e	dizer:	Espera	em	Deus	–	em	vez	de	murmurar	desse	modo
depressivo	e	triste.²
O	conselho	sábio	diz	que	temos	de	argumentar	com	a	depressão	–	lutar	contra
ela	–	em	vez	de	simplesmente	escutá-la.	Frequentemente,	ouvimos	a	depressão
dizer:	“Deus	não	se	importa”	–	se	é	que,	na	verdade,	ouvimos	o	nome	de	Deus.
O	que	temos	de	dizer	à	depressão	é:	“Ponha	sua	esperança	em	Deus”.
Por	que	estás	abatida,	ó	minha	alma?
Por	que	te	perturbas	dentro	de	mim?
Espera	em	Deus,	pois	ainda	o	louvarei,
a	ele,	meu	auxílio	e	Deus	meu.	(Sl	42.5)
“Esperança”.	Eis	aí,	de	novo.	Ela	é	companheira	constante	da	perseverança.
Em	meio	a	batalhas	prolongadas,	os	comandantes	proferem	palavras
encorajadoras	e	cheias	de	esperança,	tais	como:	“Vocês	são	a	melhor	unidade
lutadora	do	mundo.	A	batalha	à	nossa	frente	será	difícil,	mas	vocês	irão	ganhar.
Não	se	esqueçam	do	motivo	pelo	qual	estamos	aqui.	Temos	um	propósito	–	um
dever.	Estamos	lutando	pela	democracia	e	pela	liberdade.	Estamos	lutando	por
nosso	país”.
Ao	fornecer-lhes	esperança,	o	alvo	é	estimular	as	tropas	à	perseverança.	A
Palavra	de	Deus	nos	dá	encorajamento	a	cada	dia.	De	fato,	toda	Escritura	é	o	seu
meio	de	nos	sustentar	na	batalha.
“Pois	tudo	quanto,	outrora,	foi	escrito	para	o	nosso	ensino	foi	escrito,	a	fim	de
que,	pela	paciência	e	pela	consolação	das	Escrituras,	tenhamos	esperança”	(Rm
15.4,	itálico	do	autor).
A	esperança	é	que	Deus	ouve,	encontra	grande	valor	na	perseverança	e
recompensa	àqueles	que	o	buscam	(Hb	11.6),	abençoa	os	que	perseveram	(Tg
1.12)	e	é	fiel	a	todas	as	suas	promessas.	A	esperança	virá	quando	fixarmos	os
olhos	no	invisível,	em	Jesus	(Hb	11.27).
Parece	impossível?	Se	você	não	consegue	ser	despertado	à	esperança,	está	em
boa	companhia.	Houve	um	tempo	na	vida	de	Jó	em	que	ele	disse:	“Por	que
esperar	se	já	não	tenho	forças?	Por	que	prolongar	a	vida,	se	o	meu	fim	é	certo?”
(Jó	6.11).	Mas,	mesmo	em	seu	desespero,	Jó	continuou	a	buscar	a	Deus.	Assim
também	nós,	continuaremos	buscando	ao	Senhor.
Se	isso	lhe	parece	demais,	caminhe	sobre	a	esperança	de	outro,	enquanto
precisar.	Considere	Abraão,	Moisés,	José	e	tantos	outros	que	sabiam	que	Deus
tinha	algo	melhor	em	seus	planos	(Hb	11).	Deixe	que	sua	família	ou	seus	amigos
leiam	a	Escritura	para	você.	Deixe	que	falem	sobre	a	esperança	e	a	confiança	em
Cristo.
Há	muitas	maneiras	de	proceder	à	batalha.	Clame	ao	Deus	que	persevera	e	que
fornece	paciência	(Rm	15.5).	Ele	responderá.
Resposta
Este	é	um	mapa	que	monta	algumas	das	peças	da	perseverança	(ver	a	figura
10.1,	abaixo).	Começa	com	você,	dizendo:	“o	poder	pertence	a	Deus...	e	a	graça”
(Sl	62.11-12);	ou	escutando,	enquanto	Deus	lhe	fala:	“Eu	o	amo	e	sou	o	Deus
poderoso”.	Então,	você	caminha	com	a	esperança	e	o	propósito	que	conduzem	à
perseverança.	Porém,	não	para	por	aí.	A	perseverança	e	a	paciência	encontram	a
graça	de	Deus,	que	nos	dá	um	conhecimento	mais	profundo	de	seu	amor	e	sua
força	soberana.	Isso,	por	sua	vez,	leva	a	um	maior	senso	de	propósito	e
confiança	em	Deus,	que	nos	leva	ao	patamar	de	perseverança.
Figura	10.1	Um	mapa	de	perseverança
Se	você	se	sente	incapaz	de	perseverar,	talvez	esteja	omitindo	algum	dos	passos
necessários	para	chegar	lá.	Lembre-se	de	quem	Deus	é,	e	seja	capaz	de	articular
seu	propósito	e	sua	esperança.	Se	a	perseverança	ainda	parece	fugidia,	talvez
você	queira	considerar	como	a	recebeu.	Por	exemplo,	você	está,	de	alguma
forma,	aberto	para	o	que	escrevemos	até	aqui?	Isso	será	uma	evidência	de
perseverança,	e	é	mais	lindo	do	que	pensa.	Deus	se	agrada	muito	da
perseverança.	Se	você	precisar	de	mais	evidências,	peça	a	um	amigo	que	lhe
diga	se	consegue	vê-las	em	você.
Ainda	não	consegue	lutar?	Lembre-se	que	Deus	nos	dá	a	companhia	de	outras
pessoas	para	que	não	lutemos	sozinhos.	Quando	se	sentir	totalmente	exausto,
peça	socorro.	A	igreja	funciona	como	uma	competição	em	que	as	equipes	se
apoiam	nos	combates	individuais.	Simplesmente,	chegue	às	cordas	e	toque	a
mão	do	companheiro.	A	perseverança	do	próximo	levará	a	luta	–	e	você	–
adiante.
1	Kay	Jamison,	citada	por	A.	Solomon,	“Anatomy	of	Melancholy”,	The	New
Yorker,	12	janeiro	1998,	p.	61.
2	LLOYD-JONES,	Martyn.	Spiritual	Depression	(Grand	Rapids:	Eerdmans,
1990),	p.	21.
Parte	II
Escutar	a	Depressão
Capítulo	11
A	depressão	tem	suas	razões:
nossa	cultura,	nosso	corpo	e	Satanás
						Escutemos	com	maior	cuidado	o	que	a	depressão	diz.	Como	todos	os
sentimentos,	ela	é	uma	espécie	de	linguagem.
A	culpa	diz:	–	estou	errado.
A	ira	diz:	–	você	está	errado.
O	temor	diz:	–	estou	em	perigo.
A	depressão	também	tem	uma	mensagem,	mas	geralmente,	ela	não	é	assim	tão
simples.	Conquanto	algumas	emoções	sejam	claras	e	nada	ambíguas,	a
linguagem	da	depressão	é	mais	encapsulada.	Poderá	haver	necessidade	de
alguma	decodificação,	antes	que	se	torne	compreensível,	porém	o	esforço	é
compensador.
Reconstruir	a	história	da	depressão
As	emoções	têm	uma	história.	Para	colocar	um	processo	complexo	da	maneira
mais	simples	possível,	essa	história	consiste	de	duas	partes:	(1)	acontecimentos
fora	de	nós,	incluindo	problemas	físicos	e	(2)	crenças,	alianças	espirituais	e
interpretações,	no	interior.	A	interação	desses	pares,	com	o	tempo,	é	o	que	causa
a	depressão	(Figura	11.1).
Figura	11.1.	Desenvolvimento	da	depressão
Manter	tal	interação	em	mente	desafia-nos	a	investigar	mais.	A	depressão	não
aparece	simplesmente	do	nada.	Ela	tem	seus	motivos.	Ainda	que	entendamos
que	não	seja	essencial	conhecê-los	inteiramente,	nós	os	procuramos.	Por
exemplo,	se	o	seu	carro	estiver	parado	no	meio	de	um	lugar	deserto	que	não
tenha	um	telefone	por	perto,	certamente,	Deus	lhe	concede	a	graça	de	viver	pela
fé	em	meio	a	essa	dificuldade.	Contudo,	issonão	significa	que	você	levantaria	o
capô	do	carro	para	dar	uma	olhada.	Mesmo	que	não	saiba	nada	a	respeito	de
carros,	você	remexe	nos	fios	e	tenta	dar	partida	no	motor.
Juntamente	com	a	depressão,	Deus	nos	concede	graça	para	viver	em	meio	às
dificuldades	e	concede	graça	para	que	as	investiguemos	com	maior	cuidado.
Comece	pelos	acontecimentos	externos.	Mesmo	que	a	conexão	entre	os
acontecimentos	e	os	sentimentos	de	depressão	tiverem	esmaecido	com	o	passar
dos	anos,	a	depressão	geralmente	apontará	para	alguém	ou	para	alguma	coisa	–
um	divórcio,	um	acidente	mais	sério,	um	passado	de	abuso,	entre	outras	coisas.
Talvez,	um	único	fato	não	tenha	toda	a	responsabilidade,	mas	poderá	ser
significativo	por	ter	sido	o	primeiro	ou	o	mais	intenso.	Provavelmente,	tenha
provocado	uma	percepção	à	vida	que	acabou	culminando	em	depressão.
A	cultura	e	o	“mundo”
Não	entendemos	muito	como	a	nossa	cultura	possa	ser	um	“acontecimento
externo”,	mas	ela	nos	afeta	mais	do	que	imaginamos.	A	cultura	supervisiona	as
diretrizes	não	escritas	de	costumes,	trabalho	e	relacionamentos.	Realmente,	não
a	notamos	até	que	vivamos	longe	de	nossa	terra	e	encontremos	tantos	costumes
que	parecem	estranhos.	Tradições	culturais	cobrem	tudo,	desde	o	nosso	vestuário
até	a	comemoração	de	festas	e	feriados.
A	Escritura	chama	de	mundo	aquilo	que	é	insuflado	pela	cultura	popular.	O
mundo	foi	criado	por	Deus	como	habitação	para	os	seres	humanos.	Sendo	criado
por	Deus,	ele	é	bom,	como	nossa	habitação;	porém	é	portador	das	marcas	do
nosso	pecado.	Pense	no	mundo	como	nossa	“carne	corporativa”,¹	isto	é,	como	se
nossas	tendências	pecaminosas	estivessem	cantando	em	uníssono.	Essa	mistura
entre	cultura	local	e	mundo	provavelmente	contribui	para	a	rápida	difusão	da
depressão.
Uma	cultura	do	indivíduo.	Em	1984,	Edward	Scheiffelin	estudou	uma	tribo
primitiva	da	Nova	Guiné.	Entre	suas	descobertas	estava	a	ausência	de
desespero,	de	depressão	ou	suicídio.	Estudos	entre	os	Amish	obtiveram
resultados	semelhantes.	O	que	é	parecido	nas	duas	culturas	é	o	fato	de	os
indivíduos	fazerem	parte	de	uma	comunidade	maior.	Embora	a	cultura
ocidental	seja	uma	pseudocomunidade	na	qual	ocasionalmente	nos	ajuntamos
em	grupos	de	pensamentos	semelhantes,	aquelas	culturas	apresentam	grupos
familiares	mais	extensos,	com	pessoas	e	interesses	diferentes,	que	aprendem	a
viver	e	trabalhar	juntos.
Pense	nisto:	como	as	estatísticas	sobre	depressão	mudariam,	se	as	pessoas	se
sentissem	parte	de	uma	comunidade?	Parte	de	uma	mesma	família?	Na	cultura
ocidental	moderna	não	há	nada	maior	do	que	nós	mesmos.	A	satisfação	não	vem
de	servir	ao	próximo	em	nosso	círculo	estendido	de	relacionamentos.	Ao
contrário,	pensamos	que	vem	do	consumo	e	gratificação	de	nossos	desejos
pessoais	–	e	não	leva	muito	tempo	para	descobrirmos	que,	quando	nosso	foco
está	voltado	para	o	interior,	somos	poços	sem	fundo,	de	desejos	que	jamais	serão
satisfeitos.
Uma	cultura	de	decisões.	Martin	Seligman,	renomado	pesquisador	da
depressão,	concorda	que	nossos	estilos	de	relacionamentos	fragmentados
poderão	contribuir	para	a	depressão,	e	acrescenta	ainda	outro	fator:	“O
indivíduo	moderno	não	é	o	peão	de	outrora,	com	o	futuro	bocejando	fixamente
à	sua	frente.	Ele	–	e	agora	ela,	dobrando	efetivamente	o	mercado	–	é	um
campo	de	batalha	de	decisões	e	preferências”.²
Em	gerações	anteriores,	estava	implícito	um	sistema	de	castas	que	mantinha	o
mesmo	tipo	de	trabalho,	de	pais	para	filhos,	e	a	maioria	das	decisões	da	vida	era
feita	antes	do	nascimento.	Se	seu	pai	era	ferreiro,	você	também.	Um	menino	da
sua	vila	que	vinha	da	família	certa,	e	seus	pais	frequentavam	a	igreja	certa:
quando	tivessem	a	idade	apropriada,	vocês	se	casariam.	Era	um	sistema	que
tinha	problemas,	mas	a	pressão	de	decisões	não	fazia	parte	dele.	Hoje,	o	estudo,
a	carreira,	o	casamento	e,	até	mesmo,	a	preferência	sexual,	são	coisas	de	pegar
ou	largar.	A	vida	é	um	redemoinho	de	decisões.
Se	as	decisões	não	nos	pegam	de	pronto,	as	pressões	por	certo	o	farão.	Pais
reservam	lugar	em	escolas	seletas	de	educação	fundamental	logo	que	os	filhos
acabam	de	nascer,	esperando	fornecer-lhes	toda	vantagem	possível	em	um
mundo	altamente	competitivo.	Tentam	oferecer	toda	experiência	extracurricular
humanamente	possível	para	que	os	filhos	descubram	suas	aptidões	e,	talvez,
recebam	bolsa	para	a	universidade.	As	crianças	sentem	a	pressão	quanto	à
vocação	antes	de	entrar	no	nono	ano.	Os	adolescentes	no	colegial	tomam
decisões	quanto	aos	cursos,	que	seus	pais	não	tinham	de	fazer	na	faculdade.	Até
os	pré-adolescentes	são	expostos	a	situações	sexuais,	e	a	pressões	e	decisões	a
elas	associadas.³	Os	jovens	enfrentam,	semanalmente,	escolhas	que	podem	afetar
todo	o	decurso	da	vida	–	e	se	fizerem	a	escolha	errada?	Embora	a	vida	diante	de
um	Deus	soberano	nos	assegure	que	ele	está	no	controle,	realizando	os	seus	bons
propósitos,	mesmo	mediante	nossas	escolhas	mal	feitas,	é	sempre	fácil	perder	de
vista	tal	realidade.	Quando	isso	acontece,	podemos	sentir	como	se	uma	má
decisão	nos	fadasse	para	sempre	a	um	caminho	de	segunda	categoria.
Uma	resposta	compreensível	às	pressões	dessa	cultura	será	nos	retirar,	ficar
paralisado	diante	das	decisões,	com	medo	de	errar,	fatigados,	sentindo	que
poderemos	dormir	durante	dias,	e	ainda	estar	cansados.	Em	outras	palavras,	a
depressão	é	uma	resposta	adequada	às	pressões	culturais.	Será	importante	que
amigos	e	conselheiros	estejam	alertas	a	essa	possível	influência	cultural,	para
que	a	Escritura	possa,	então,	falar	de	maneira	mais	significante.	Por	exemplo,	a
maiorias	das	listas	sobre	depressão	não	inclui	a	pergunta:	“Você	basicamente
entende	sobre	como	tomar	decisões	diante	da	vontade	de	Deus?”	Contudo,	se
essa	questão	for	parte	do	problema,	os	amigos	poderão	fornecer	instrução	sobre
como	tomar	decisões	sábias.⁴	Poderão	nos	lembrar	também	que,	em	vista	de	seu
controle	soberano,	Deus	cumprirá	seus	propósitos	em	nossa	vida,	mesmo	quando
tomarmos	decisões	que,	mais	tarde,	lastimemos.
Uma	cultura	em	que	a	felicidade	é	o	bem	maior.	Pergunte	a	quem	vive	na
cultura	ocidental	qual	é	o	seu	maior	desejo,	e	ele	responderá:	“felicidade”.
Olhe	nos	álbuns	do	colegial	e	verá	o	que	é	valorizado	como	a	maior	ambição
de	vida:	“Quero	ser	feliz”.	Até	mesmo,	a	Ética	de	Aristóteles	sugere	que	o
maior	bem	seja	a	felicidade.	Tendo	tal	alvo,	não	é	surpresa	se	houver	uma
relação	ambígua	com	as	dificuldades.
Quem	teve	a	experiência	da	guerra	aprendeu	a	aceitar	as	agruras	e	sofrimentos
da	vida.	Entre	muitos	sábios	anciãos	da	sociedade	norte-americana,	não	existe
uma	fuga	desesperada	do	sofrimento,	e	sim,	o	reconhecimento	de	que	o	mesmo
faz	parte	da	vida	e	que	pode	produzir	benefícios.	Entretanto,	entre	os	da	geração
pós	Segunda	Guerra	mundial,	o	alvo	passou	a	ser	um	punhado	de	felicidade,	e	o
sofrimento,	algo	a	ser	evitado	a	todo	custo.	A	ideia	é:	caso	haja	dificuldades	em
um	relacionamento,	termine-o;	se	houver	emoções	desagradáveis,	tome
medicação.	É	uma	geração	que	não	percebe	o	valor	na	maioria	das	dificuldades,
e	não	tem	habilidade	para	crescer	por	meio	das	tribulações.
É	claro	que	sendo	possível	aliviar	a	dor,	geralmente	isso	será	bom.	Mas	vivemos
em	uma	cultura	que	idolatra	a	felicidade,	e	se	fizermos	dela	o	nosso	ídolo,	ela
sempre	será	fugaz.
Uma	cultura	de	entretenimento	e	tédio.	Outra	característica	da	cultura
moderna	que	está	ligada	à	depressão	é	nossa	busca	pelo	novo	e	empolgante,
que,	para	muitos,	é	uma	fuga	desenfreada	do	tédio.	O	tema	é	“divirta-me”.	Se
não	nos	divertirmos,	teremos	esse	silêncio	horroroso	a	ser	preenchido.	Como
Pascal	observou	com	astúcia:	“Muitas	vezes	tenho	dito	que	a	única	causa	da
infelicidade	do	homem	é	que	ele	não	sabe	ficar	quieto	em	seu	quarto”.⁵
O	tédio	é	um	mal-estar	que	paira	sobre	as	gerações	mais	jovens.	Talvez	porque
elas	tenham	compactado	sexo,	drogas	e	dinheiro	em	um	período	mais	curto	de
tempo,	e,	depois,	descobriram	que	era	impossível	que	essas	coisas	fossem
satisfeitas.	Nada	mais	havendo	que	os	entretenha,	eles	têm	pavor	das	décadas
que	se	seguirão.	Sem	propósito	específico,	sua	meta	é	apenas	tolerar	e	sobrevivera	uma	existência	sem	alvo,	tediosa,	provavelmente	menos	afluente	que	a	de	seus
pais.
Existe	um	antídoto	para	o	tédio.	Chama-se	alegria.	Ela	vem	quando	nossa
esperança	se	fixa	em	algo	eternamente	maravilhoso	e	belo.	Santo	Agostinho
corretamente	identificou	Deus	como	o	objeto	final	da	alegria.	“A	verdadeira
felicidade	é	alegrar-se	na	verdade,	porque	a	alegria	na	verdade	é	regozijar-nos
em	ti,	ó	Deus,	que	és	a	verdade...	Os	que	pensam	que	existe	alguma	outra
espécie	de	alegria	buscam-na	em	outras	coisas,	mas	essas	não	significam
verdadeira	alegria”.
De	acordo	com	Agostinho,	a	verdadeira	felicidade	é	deleitar-se	na	suprema
beleza,	bondade	e	verdade	que	são	atributos	de	Deus,	dos	quais	muitos	traços	se
encontram	no	bem	e	nas	coisas	belas	que	existem	no	mundo.
C.	S.	Lewis	pensou	consideravelmente	na	experiência	da	felicidade.	Ele	a
encontrava	em	pequenas	coisas	boas	como	maçãs,	ar	puro,	as	estações	do	ano,
música.	Falava	sobre	“ler”	a	mão	de	Deus	em	nossos	pequenos	prazeres.	Tal
como	Agostinho,	Lewis	queria	deixar	claro	que	a	felicidade	não	residia	nessas
coisas,	por	mais	que	fossem	boas.
Os	livros	ou	a	música	em	que	pensamos	residir	beleza	nos	trairão	se	neles
confiarmos;	não	foi	neles,	apenas	veio	por	meio	deles;	o	que	veio	foi	um
anseio...	pois	não	são	a	coisa	em	si;	são	apenas	o	perfume	de	uma	flor	que	ainda
não	encontramos,	o	eco	de	uma	melodia	que	ainda	não	escutamos,	notícias	de
um	país	que	ainda	não	pudemos	visitar.⁷
Esse	é	o	anseio	de	felicidade.	É	um	desejo	de	glória,	céu	e,	especialmente,	pelo
próprio	Deus.
Agostinho	e	Lewis	ecoam	a	exortação	de	Paulo	à	igreja	de	Filipos,	de	meditar
em	tudo	que	é	verdadeiro,	nobre,	puro	e	belo	(Fp	4.8).	Essa	exortação	reside	em
uma	carta	dedicada,	de	forma	única,	a	ensinar	à	igreja	como	ter	alegria	em	meio
aos	sofrimentos.
A	alegria	será	uma	reação	natural,	quando	contemplarmos	Deus.	O	que	tem	isso
a	ver	com	o	tédio?	Pessoas	felizes	são	mobilizadas.	Alegram-se	com	pequenas
obediências.	Agradam-se	de	servir	a	Deus	de	qualquer	maneira	por	ordinária	que
seja,	que	agrada	a	Deus.	Elas	também	sabem	que	o	que	impulsiona	com	poder	o
reino	de	Deus	é	um	exército	de	pessoas,	dando	pequenos	passos	de	obediência.
O	corpo	físico
Quando	Adão	pecou,	a	criação,	que	fora	agraciada	e	pronunciada	como	“muito
boa”,	ficou	sob	o	juízo	de	Deus.	De	repente,	o	trabalho	tornou-se	difícil,	os
relacionamentos	cheios	de	tensão,	o	corpo	passível	de	doenças,	de	desgaste,	e	a
morte	lançando	sua	sombra	sobre	todas	as	coisas.	Até	mesmo	o	clima	–	sol	e
chuva,	calor	e	frio	–	não	mais	cooperaria.	Em	vez	de	uma	neblina	previsível	a
regar	o	jardim	fértil,	secas,	tufões,	tornados,	inundações	e	terremotos	nos
lembrariam	que	a	terra	também	geme.	Nada,	em	toda	a	criação,	está
perfeitamente	bem.
Saúde	debilitada.	O	declínio	de	nosso	corpo	é,	possivelmente,	uma	das	causas
da	depressão.	Parece	estranho	localizar	essa	causa	entre	outras	circunstâncias
externas	de	nossa	vida,	porque	nós	temos	um	corpo.	Mas	somos	muito	mais	do
que	isso,	e	o	corpo	tem	muito	em	comum	com	outras	causas	externas.	Doenças
neurológicas	ou	endócrinas,	os	efeitos	colaterais	dos	medicamentos,
deficiências	vitamínicas,	transtornos	pós-parto	e	desequilíbrios	químicos
formam	uma	curta	lista	de	possíveis	contribuintes	à	depressão.
Desagrado	no	trabalho.	Está	também	incluído	sob	a	maldição	o	fato	de	que	o
trabalho,	agora,	parece	muito	mais	difícil	e	fútil.	Gastamos	anos	trabalhando
em	nossa	casa	para,	depois,	vendê-la,	e	vê-la	derrubada	pelo	próximo
proprietário	que	construirá	algo	mais	contemporâneo.	Registramos	dados	o
dia	inteiro	–	mas	nem	tente	pensar	sobre	sua	irrelevância	nos	esquemas	dos
acontecimentos	no	mundo.	Com	a	maldição,	o	trabalho	mudou	de	prazer	para
enfado.	Sim,	há	horas	em	que	o	intento	original	de	Deus	irrompe	e
descobrimos	satisfação	em	nosso	labor	(ainda	que	este	não	mude	o	curso	da
história),	mas	a	miséria	jamais	estará	longe.
A	falta	de	significado	percebida	no	trabalho,	muitas	vezes,	faz	parte	da
depressão.	Geralmente,	porém,	é	sinal	e	não	sua	causa.
Morte.	O	pior	da	maldição	é	a	morte.	Todos	já	perdemos	entes	queridos,
perderemos	outros,	e	eles	nos	perderão.	Não	existe	boa	morte.	Se	perdemos
alguém	por	um	infarto	fulminante,	sentiremos	por	não	termos	despedido	dele	e
resolvido	pendências.	Se	foi	devido	a	doença	crônica,	a	morte	tornou-se
previsível,	agonizaremos	com	ele	enquanto	a	doença	o	transformará	em	uma
pessoa	diferente.	Na	verdade,	a	morte	é	uma	inimiga	implacável.
Dizem	que	a	depressão	dá	boas-vindas	à	morte,	porém	o	desejo	é	o	alívio	da	dor
mental	não	da	morte	em	si.	A	morte	é	inimiga	de	todos,	e	existe	boa	razão	para
pensar	que	ela	seja	causa	de	depressão	muito	mais	do	que	seu	resultado.
Não	é	verdade	que	a	morte	–	especialmente	quando	não	fortemente	interpretada
pela	ressurreição	de	Jesus	Cristo	–	deva	nos	deixar	deprimidos?	A	morte	deixa
tudo	sem	sentido.	Por	que	trabalhar?	Por	que	amar?	Por	que	buscar	prazer?	Não
é	nada.	A	morte	engole	tudo.	Sua	maré	apaga	toda	pegada	que	pretendíamos
deixar.
Não	que	estejamos	sempre	pensando	nela.	A	sociedade	moderna	tem	nos
distanciado	da	morte,	e	fazemos	todo	o	possível	para	evitá-la.	Os	médicos	usam
uma	fileira	de	eufemismos,	tais	como	“passagem”	e	“descansou	em	paz”.	Os
humoristas	se	especializam	nas	fraquezas	humanas,	mas	não	tocam	na	morte	a
não	ser	que	rapidamente	evoquem	imagens	de	anjos	e	prazer.	Talvez	nem
pensemos	conscientemente	na	morte,	mas,	tenha	certeza:	se	não	for	tratada	de
frente,	essa	inimiga	deixará	sua	marca	sobre	toda	a	miséria	terrena.
Loções	e	cremes	antirrugas,	adoração	à	juventude	e	marginalização	dos	idosos,
“ansiedade	generalizada”,	ataques	de	pânico,	personalidade	tipo	A,	tédio,
obsessão	com	saúde,	elevado	status	dos	médicos,	falta	de	propósito,
desesperança	e	a	maior	parte	dos	temores	–	você	encontrará	em	todos	esses,	logo
abaixo	da	superfície,		a	morte	e	o	seu	medo.
Satanás
Outra	causa	externa	de	depressão	é	Satanás.	Já	estamos	conscientes	de	como
seus	ataques	mais	ferrenhos	questionam	o	poder	e	amor	de	Deus.	Mas	ele	faz	a
maior	parte	de	seu	trabalho	por	meio	de	parcerias	estratégicas.	Parceiro	da
maldição,	aparentemente	ele	consegue	afetar	a	natureza	(Jó	1)	e	trazer	doenças.
Ajuntando-se	com	nosso	próprio	coração,	ele	aplaude	a	opressão,	o	assassínio	e
a	desumanidade	em	suas	múltiplas	formas.	Não	fica	muito	claro	quando	ele	entra
nessa	parceria.	A	maldição	da	criação	e	nossa	própria	tendência	para	o	pecado
nos	afetam	sem	a	assistência	satânica	e,	assim,	não	há	como	saber	qual	seja	a
porcentagem	exata	de	quem	contribuiu	com	o	quê.	É	por	isso	que,	quando	a
depressão	persiste,	não	podemos	afirmar,	imediatamente:	“Foi	Satanás	que	fez
isso”.
Resposta
Não	é	muito	encorajador	recordar	os	diversos	contribuintes	de	nossa	depressão,
mas,	se	possível,	poderemos	fazer	uma	pequena	lista	dos	elementos	mais	óbvios.
Ela	o	ajudará	a	lembrar	que,	em	geral,	a	depressão	vem	de	algum	lugar.
E	mais,	se	algum	desses	parceiros	da	depressão	se	encaixar	em	sua	situação,
esteja	seguro	e	aja!	Por	exemplo,	diga	não	a	uma	cultura	de	individualismo	e
siga	em	frente,	amando	ao	próximo.	Rejeite	as	estratégias	de	Satanás	–	reafirme
que	a	depressão	pode	mentir	a	seu	respeito,	dos	outros,	e,	até	mesmo,	sobre	o
próprio	Deus.	Não	se	esqueça	de	que	temos	um	inimigo	espiritual.	A	ordem	do
dia	é	vigilância.	Uma	suspeita	saudável	quanto	a	qualquer	coisa	que	tome	o
partido	do	desespero	poderá	nos	ajudar	a	enfrentar	a	batalha	em	vez	de	sermos
derrotados	na	mesma.
1	LOVELACE,	Richard,	Renewal	(Downers	Grove,	Il:	InterVarsity,	1985),	p.	86.
2	BUIE,	James.	“Me	Decades	Generate	Depression”,	APA	Monitor,	fevereiro
1991,	p.	18.
3	David	Elkind	descreve	essas	mudanças	sociológicas	em	um	livro	antigo,	mas
ainda	bastante	relevante:	The	Hurried	Child:	Growing	Up	Too	Fast	Too	Soon
(Reading,	MA:	Addison	Wesley	Longman,	Inc.	1989).
4	Por	exemplo,	PETTY,	James.	Step	by	Step	(Phillipsburg,	NJ:	P&R,	1999).
5	PASCAL,	Blaise.	Pensees	136,	trad.	A.J.Krailsheimer	(Londres:	Penguin,
1966).
6	AUGUSTINE,	Confessions	(Nova	York:	Penguin,	1984),	p.	22.
7	LEWIS,C.	S.	“The	Weight	of	Glory	and	Other	Addresses”	(Nova	York:
Macmillan,	1980),	p.	7.
Capítulo	12
A	depressão	tem	suas	razões:
outras	pessoas
						As	outras	pessoas	são	contribuintes	óbvios	à	depressão.	Todos	fomos	feridos
pelos	outros.	Ainda	que	procedamos	dos	melhores	lares,	por	mais	que	sejamos
protegidos	e	amados,	já	fomos	vítimas	dos	pecados	de	outrem.	Muitas	dessas
dores	passam	com	o	tempo,	porém,	algumas	persistem.	São	como	grãos
colocados	numa	destilaria	de	fundo	de	quintal.	Enquanto	vamos	fazendo	nossos
afazeres	diários,	eles	fermentam	em	silêncio.	Depois,	após	meses	ou	anos,	se
transformam	em	uma	bebida	fermentada	de	alto	teor	alcoólico.
As	dores	do	passado,	quando	não	tratadas,	podem	piorar.
Não	é	surpresa	que	as	ignoremos.	Afinal,	quem	quer	encará-las,	especialmente
se	não	puder	fazer	nada	a	respeito?	Isso	só	piora	as	coisas,	fomentando
ressentimentos.	Mas	existe	outro	caminho.
Dores	barulhentas
Algumas	dores	gritam	do	passado:	rejeição	por	parte	do	pai	ou	da	mãe,	traição
do	amigo	íntimo,	abandono	do	cônjuge,	vítima	de	abusos.	Se	você	quiser
encontrá-las,	escute	no	momento	da	ira	ou	observe-se	rejeitando	os	outros.
Analise	que	os	outros	jamais	estão	à	altura,	ou	sempre	estão	decepcionando.
Tome	cuidado	com	votos	passados,	quando	você	jurou	jamais	confiar	em
alguém.	Isso	pode	apontar	eventos	em	sua	formação	que	não	foram	tratados
espiritualmente.
A	mãe	de	Maria	era	“imprevisível”.	Isso	quer	dizer	que	Maria	nunca	sabia	qual
tipo	de	mãe	apareceria.	Seria	aquela	que	passava	dias	sem	sair	da	cama,
deixando	que	ela	cuidasse	sozinha	de	si	mesma;	a	que	a	culpava	por	todas	as
coisas;	que	dizia	o	quanto	a	amava,	expressando	isso	de	modo	estranho,
sufocante;	ou	seria	uma	que	batia	nela	–	dando-lhe	socos	–	sem	nenhuma
provocação?	Maria	se	esforçava,	pisando	em	ovos	no	momento	que	entrava	no
apartamento,	mas	nunca	conseguia	fazer	a	coisa	certa.	Parece	que	ela	sempre
despertava	o	pior	em	sua	mãe.	Quando	não	culpava	a	si	mesma,	sua	mãe	se
encarregava	disso.	E,	é	claro,	Maria	(com	a	ajuda	da	mãe)	estava	convicta	de	que
ela	era	a	responsável	pelo	divórcio	de	seus	pais.
Embora	tenha	saído	do	apartamento	de	sua	mãe,	Maria	não	conseguia	tirar	o
apartamento	dela	mesma.	Começava	duvidando	de	si	mesma.	Talvez	realmente
houvesse	algo	errado	com	ela,	como	sua	mãe	sempre	dizia.	Talvez	fosse	verdade
que	ela	“não	prestava	para	nada”.	Sendo	assim,	Maria	só	procurava	emprego	de
nível	mais	baixo	possível.
A	dúvida	de	si	mesma	crescia	e	se	transformava	em	temor.	Como	poderia	esperar
um	relacionamento	bom	com	quem	quer	que	fosse,	se	os	relacionamentos	a
feriam	tanto?	Por	isso,	ela	se	dispunha	a	relações	sexuais	com	vários	parceiros,
mas	não	entregava	seus	sentimentos	a	ninguém.
O	medo	dá	lugar	ao	desespero,	e	a	desesperança,	à	depressão.
Sem	recursos	espirituais,	não	é	de	surpreender	que	Maria	deixasse	de	tratar	do
seu	passado.	Entretanto,	temos	aqui	uma	amostra	de	palavras	surpreendentes	que
certamente	podem	trazer	vida.
Deus	se	opõe	aos	opressores	e	consola	seu	rebanho	ferido.	Já	observou	como
as	pessoas	que	se	sentem	vítimas,	muitas	vezes,	acreditam	que	Deus	está	longe
e	não	as	escuta?	Não	acredite	nelas.	Até	poderá	ser	uma	opinião	comum,	mas
é	mentirosa!	A	verdade	é	que	quase	cada	página	da	Escritura	revela	que	Deus
se	entristece	com	a	opressão	e	vitimização.
Ai	dos	pastores	que	destroem	e	dispersam	as	ovelhas	do	meu	pasto!	–	diz	o
Senhor
.	Portanto,	assim	diz	o
Senhor
,	o	Deus	de	Israel,	contra	os	pastores	que	apascentam	o	meu	povo:	Vós
dispersastes	as	minhas	ovelhas,	e	as	afugentastes,	e	delas	não	cuidastes;	mas	eu
cuidarei	em	vos	castigar	a	maldade	das	vossas	ações,	diz	o
Senhor
.	Eu	mesmo	recolherei	o	restante	das	minhas	ovelhas,	de	todas	as	terras	para
onde	as	tiver	afugentado,	e	as	farei	voltar	aos	seus	apriscos;	serão	fecundas	e	se
multiplicarão.	(Jr	23.1-3)
O	Deus	que	criou	o	ouvido	é	o	mesmo	que	ouve,	e	o	Deus	que	ouve	é	o	que	age.
Sim,	ele	está	agindo,	agora	mesmo,	e	a	Escritura	ocasionalmente	abre	o	véu	do
céu	para	que	reconheçamos	sua	ação	em	resposta	ao	clamor	do	seu	povo.
Parece	bom	demais	para	ser	verdade?	Ouça	o	Senhor	repetindo	para	que	não
haja	dúvida	quanto	ao	seu	cuidado	para	com	os	feridos:
Veio	a	mim	a	palavra	do
Senhor
,	dizendo:	Filho	do	homem,	profetiza	contra	os	pastores	de	Israel;	profetiza	e
dize-lhes:	Assim	diz	o
Senhor
Deus:	Ai	dos	pastores	de	Israel	que	se	apascentam	a	si	mesmos!	Não
apascentarão	os	pastores	as	ovelhas?	Comeis	a	gordura,	vestis-vos	da	lã	e
degolais	o	cevado;	mas	não	apascentais	as	ovelhas.	A	fraca	não	fortalecestes,	a
doente	não	curastes,	a	quebrada	não	ligastes,	a	desgarrada	não	tornastes	a	trazer
e	a	perdida	não	buscastes;	mas	dominais	sobre	elas	com	rigor	e	dureza.	Assim,
se	espalharam,	por	não	haver	pastor,	e	se	tornaram	pasto	para	todas	as	feras	do
campo.	As	minhas	ovelhas	andam	desgarradas	por	todos	os	montes	e	por	todo
elevado	outeiro;	as	minhas	ovelhas	andam	espalhadas	por	toda	a	terra,	sem	haver
quem	as	procure	ou	quem	as	busque.
Portanto,	ó	pastores,	ouvi	a	palavra	do
Senhor
:	Tão	certo	como	eu	vivo,	diz	o
Senhor
Deus,	visto	que	as	minhas	ovelhas	foram	entregues	à	rapina	e	se	tornaram	pasto
para	todas	as	feras	do	campo,	por	não	haver	pastor,	e	que	os	meus	pastores	não
procuram	as	minhas	ovelhas,	pois	se	apascentam	a	si	mesmos	e	não	apascentam
as	minhas	ovelhas,	–	portanto,	ó	pastores,	ouvi	a	palavra	do
Senhor
:	Assim	diz	o
Senhor
Deus:	Eis	que	eu	estou	contra	os	pastores	e	deles	demandarei	as	minhas	ovelhas;
porei	termo	no	seu	pastoreio,	e	não	se	apascentarão	mais	a	si	mesmos;	livrarei	as
minhas	ovelhas	da	sua	boca,	para	que	já	não	lhes	sirvam	de	pasto.
Porque	assim	diz	o
Senhor
Deus:	Eis	que	eu	mesmo	procurarei	as	minhas	ovelhas	e	as	buscarei.	Como	o
pastor	busca	o	seu	rebanho,	no	dia	em	que	encontra	ovelhas	dispersas,	assim
buscarei	as	minhas	ovelhas;	livrá-las-ei	de	todos	os	lugares	para	onde	foram
espalhadas	no	dia	de	nuvens	e	de	escuridão.	(Ez	34.1-12)
Isto	não	responde	a	todos	nossos	questionamentos,	mas	deverá	nos	surpreender
bastante	para	que	busquemos	ao	Senhor	e	renunciemos	às	mentiras	que	negam	o
seu	amor.
Deus,	em	Cristo,	cobre	a	vergonha	daquilo	que	foi	feito	contra	você.	Uma	das
consequências	inevitáveis	de	termos	sido	vítimas	de	outra	pessoa	é	a	vergonha.
É	o	sentimento	de	que	somos	sujos	e	corrompidos.	Parece	culpa,	mas	é
diferente.	Quando	somos	culpados,	somos	maculados	por	nossos	próprios
feitos,	todavia,	a	confissão	e	a	graça	de	Deus	nos	reconduzem	à	inteireza.
Quando	sentimos	vergonha,	somos	sujos	como	se	alguém	lançasse	imundícia
sobre	nós,	contudo,	nem	toda	confissão	e	penitência	do	mundo	poderão	fazer
com	que	nos	sintamos	limpos.
Quando	Jesus	veio,	ele	tratou	de	ambas:	a	culpa	e	a	vergonha.	Observe-o	em
ação	nas	histórias	do	Novo	Testamento.	Jesus	tinha	o	hábito	de	sair	de	seu
caminho	para	se	encontrar	e	tocar	em	pessoas	imundas.	Leprosos,	mulheres
adúlteras,	cegos	e	coxos	–	todas	as	pessoas	que	estariam	cheias	de	vergonha,
naquela	cultura.
Considere,	por	exemplo,	uma	história	específica:	da	mulher	cuja	hemorragia
uterina	a	tornava	literalmente	intocável.
Enquanto	ele	ia,	as	multidões	o	apertavam.	Certa	mulher	que,	havia	doze	anos,
vinha	sofrendo	de	uma	hemorragia,	e	a	quem	ninguém	tinha	podido	curar	[e	que
gastara	com	os	médicos	todos	os	seus	haveres],	veio	por	trás	dele	e	lhe	tocou	na
orla	da	veste,	e	logo	se	lhe	estancou	a	hemorragia.	Mas	Jesus	disse:
–	Quem	me	tocou?
Como	todos	negassem,	Pedro	[com	seus	companheiros]	disse:	Mestre,	as
multidões	te	apertam	e	te	oprimem	[e	dizes:	Quem	me	tocou?]	Contudo,	Jesus
insistiu:
–	Alguém	me	tocou,	porque	senti	que	de	mim	saiu	poder.
Vendo	a	mulher	que	não	podia	ocultar-se,	aproximou-se	trêmula	e,	prostrando-se
diante	dele,	declarou,	à	vista	de	todo	o	povo,	a	causa	por	que	lhe	havia	tocado	e
como	imediatamente	fora	curada.	Então,	lhe	disse:
–	Filha,	a	tua	fé	te	salvou;	vai-te	em	paz.	(Lc	8.42-48)
As	multidões	empurravam	e	encostavam-se	em	Jesus,	onde	quer	que	ele	fosse,
mas	havia	certas	ocasiões	quando	o	toque	era	realmente	intencional.Neste	caso,
a	mulher	acreditava	que	sua	última	esperança	de	cura	seria	tocar	em	Jesus.	Mas
o	Senhor	também	tinha	um	propósito	quando	permitiu	o	toque	físico	de	uma
mulher	cheia	de	vergonha.
Isso,	por	si	só,	já	é	extraordinário.	Jesus	é	o	Santo,	e	quando	estamos	perto	do
Deus	Santo,	não	podemos	simplesmente	agarrá-lo.	Contudo,	essa	mulher	cria
que	o	Santo	era	também	aquele	que	tinha	compaixão	pelos	abandonados	e
rejeitados.	Sabia	que	um	único	toque	poderia	transformar	tudo.
Há	um	mistério	mais	profundo	nesse	toque.	Quando	tocou	em	Jesus,	ela	o
contaminou,	segundo	a	tradição.	Tornou-o	religiosamente	impuro.	Essa	era	a
regra,	na	cultura	hebraica.	No	entanto,	Jesus	não	seria	poluído	como	se
acidentalmente	tivesse	pegado	uma	gripe.	Em	vez	disso,	Jesus	propositadamente
absorveu	a	impureza	da	mulher,	e	trouxe-lhe	pureza	e	limpeza,	simbolizadas	na
cura	física.	Esse	único	toque	foi	uma	troca:	a	mulher	cedeu	sua	impureza	a	Jesus,
ele	lhe	deu	de	sua	pureza.
É	claro	que	essa	história	é	um	aquecimento	prévio	para	o	próprio	evangelho,
quando,	então,	Jesus	tomou	nosso	pecado	e	nossa	vergonha	sobre	a	cruz
ignominiosa.	Pelo	toque	que	evidencia	nossa	fé	no	Redentor,	ele	nos	estende	as
mãos	e	nos	purifica,	veste-nos	e	nos	tira	do	lamaçal.	Por	nossa	vez,	nós	lhe
entregamos	nossa	vergonha.	Somente	o	toque	do	Santo	é	capaz	para	apagar	a
vergonha,	e	aquela	mulher	demonstrou	que	Jesus	tem	prazer	intencional	em
tocar	aqueles	que	dele	se	aproximam,	crendo	nele	como	o	enviado	de	Deus.
Você	percebe	o	despertar	da	esperança?
Dores	mais	silenciosas,	mas	tão	influentes
quanto	às	outras
O	passado	de	Maria	era	ruidoso,	sem	dúvida.	Mas	existem	passados	muito	mais
silentes	que	contribuem	para	a	depressão.
Linda,	hoje	com	trinta	e	oito	anos,	dizia	que	suas	circunstâncias	não	podiam	ser
melhores,	mas	que	sua	depressão	não	podia	ser	pior.	Seu	marido	a	amava.	Seus
filhos	eram	saudáveis	e	estavam	crescendo	em	Cristo,	e	ela	mesma	tinha
dinheiro	suficiente	para	pagar	todas	as	dívidas,	e	ainda	sobrava	alguma	coisa	no
final	do	mês	para	gastar	como	quisesse.	Quando	fez	uma	revisão	de	seu	passado,
esse	lhe	pareceu	relativamente	calmo	e	sem	qualquer	ocorrência	que	pudesse
perturbá-la.	Criada	em	um	lar	próspero,	seus	pais	ainda	estavam	juntos	e	tanto
seu	pai	quanto	sua	mãe	sempre	lhe	ofereceram	boa	orientação.
O	lar	de	sua	infância	fora	bem	estruturado.	Havia	diretrizes	e	expectativas	claras
que	lhe	proporcionavam	o	sentimento	de	ser	“amada	e	segura”.	Quando,	porém,
indagada	sobre	coisas	mais	específicas,	Linda	recontou	expectativas
desordenadas	e	opressivas.	Notas	na	escola,	carreira	futura,	curriculum	vitae	de
pretendente	a	marido,	vestuário,	todas	as	decisões	quanto	ao	estudo	desde	o
ensino	fundamental	até	a	pós-graduação	eram	algumas	das	áreas	que	seu	pai
controlava.	O	choro	ou	uma	aparente	fraqueza	e	escolhas	independentes	eram
totalmente	inaceitáveis.	O	estranho	é	que,	superficialmente,	Linda	não	parecia
ter	sido	afetada	por	isso	tudo,	como	se	todo	o	seu	passado	fosse	bom	e	normal.
Quando	inquirida	sobre	seu	histórico	depressivo,	Linda	calmamente	resumiu	que
fora	hospitalizada	em	uma	instituição	psiquiátrica,	aos	treze	anos	de	idade,
“porque	eu	nunca	estava	com	fome”.	Começou	a	tomar	medicamentos
psiquiátricos	desde	aquela	ocasião	e,	exceto	quando	estava	grávida	ou	quando	os
psiquiatras	mudavam	os	medicamentos,	continuava	tomando.
Como	viver	em	um	mundo	onde	erros,	conforme	estabelecido	por	seu	pai,	eram
totalmente	inaceitáveis?	Como	sobreviver	em	um	ambiente	controlado
detalhadamente?	Até	o	dia	de	hoje,	quando	figuras	em	autoridade	falam,	Linda
adota	uma	postura	subserviente,	e	com	o	olhar	vidrado,	sem	questionar	nem
mesmo	quando	os	pedidos	são	impiedosos.
Assim,	a	depressão,	de	uma	maneira	estranha,	fica-lhe	bem.	Ela	parece
entorpecida;	além	disso,	não	precisa	conviver	com	a	tristeza	e	pesar.	Sente	que
não	pode	pensar	com	clareza;	portanto,	não	questiona	a	autoridade	externa.	Todo
ato	de	submissão,	ou	de	fazer	aquilo	que	se	espera,	contribui	para	um	senso	de
despersonalização	e	perda	de	identidade.
Fazer	tais	conexões	foi	um	começo	importante	para	Linda.	Ela	começou	a
perceber	que	o	que	sentia	estava	ligado	principalmente,	de	alguma	forma,	aos
padrões	diários	do	lar	onde	foi	criada.	Após	isso,	ela	passou	a	observar	as
questões	em	seu	relacionamento	com	Deus.	Seu	sistema	operacional	de	crenças
incluía	falsidades	significativas.
Quando	você	se	junta	a	alguém	que	está	sofrendo,	muitas	vezes	descobre	que	as
pessoas	também	passam	por	circunstâncias	difíceis.	Geralmente,	a	dor	está
ligada	a	algo	que	aconteceu	conosco.	Isso	tem	importância?	Importa	para	Deus?
O	controle	soberano	de	Deus,	na	história	e	em	nossas	histórias	pessoais,	torna	as
situações	passadas	mais,	e	não	menos,	importantes.	O	que	nos	acontece	não	é
uma	série	de	eventos	aleatórios	e	não	relacionados.
Ferido	para	sempre?
As	dores	do	passado	podem	fazer	com	que	nos	sintamos	permanentemente
confinados	a	uma	vida	de	vergonha	e	sofrimento,	e	sob	o	poder	da	depressão;
contudo,	uma	vez	mais,	os	sentimentos	enganam.	Você	poderá	sentir	que	suas
necessidades	relacionais	mais	básicas	jamais	tenham	sido	supridas.	A	rejeição
dos	pais,	cônjuge,	ou	amigos,	deixa	um	vazio	profundo	que	lhe	parece,	até,	uma
deficiência	emocional.
Considere,	porém,	o	exemplo	de	Jesus.	Se	alguém	pudesse	ser	ferido
permanentemente,	ele	seria	essa	pessoa.	Foi	incompreendido	por	todos,	traído
por	um	companheiro	próximo,	abandonado	por	aqueles	que	melhor	o	conheciam,
e	afligido	fisicamente	quase	a	ponto	de	morrer	antes	mesmo	da	cruz.	Todavia,
tais	rejeição	e	abandono	não	o	deixaram	como	um	bem	estragado.	Era
plenamente	humano	e	amado	do	Pai.	Com	tudo	o	que	sofreu,	não	se	deixou
controlar	pela	vitimização.
Com	isso,	obtemos	uma	perspectiva	mais	profunda	da	qualidade	de	ser	humano.
Parece	que	o	sofrimento	e	a	dor,	mesmo	nas	mãos	dos	outros,	não	tem	o	poder	de
diminuir	nossa	humanidade.	Na	verdade,	eles	não	têm	mais	o	poder	de	fazer	com
que	sejamos	impuros.	A	impureza	e	a	vergonha	não	são	mais	uma	questão
daquilo	que	fizeram	contra	nós,	mas	sim	do	que	nós	fazemos.	“Não	é	o	que	entra
pela	boca	o	que	contamina	o	homem,	mas	o	que	sai	da	boca,	isto,	sim,	contamina
o	homem”	(Mt	15.11).	Nosso	passado,	por	si	só,	não	tem	o	poder	de	nos
trancafiar	na	cela	da	depressão.
O	desejo	de	ser	amado	á	algo	natural.	Se	você	não	possui	esse	desejo,	alguma
coisa	deve	estar	errada.	Porém	algo	ainda	mais	profundo	quando	olhamos	para
Jesus	–	o	verdadeiro	humano	–,	cujo	compromisso	de	amar	o	próximo	foi	mais
intenso	do	que	o	desejo	de	ser	amado.	Eis	a	revelação	de	um	dos	mistérios	do
universo.	Todo	mundo	pode	sentir	um	desejo	pessoal	de	ser	amado,	contudo,	o
desejo	de	amar	aos	outros,	mesmo	quando	não	nos	amam,	é	ainda	mais
profundo.	Fica	dormente,	mas	ainda	permanece.	Vai	além	do	amor	recíproco
encontrado	em	alguns	relacionamentos,	em	que	as	pessoas	amam	uma	a	outra,
ainda	que	possa	incluir	tal	amor.	Mas	o	verdadeiro	amor	é	tão	poderoso	que	é
derramado	até	sobre	os	inimigos.
Isso	poderá	parecer	coisa	impossível,	mas	deveria	ressoar	como	verdadeiro	e
certo,	e	vagamente	reconhecível.	Não	quer	dizer	que	você	se	colocará	no
caminho	do	perigo	e	deixará	que	os	opressores	do	passado	continuem	a	oprimi-
lo.	Não.	O	amor	tem	infindas	variedades	e	sempre	estará	ligado	à	sabedoria.	O
amor	pode	censurar;	pode	ficar	quieto.	Pode	virar	a	outra	face;	pode	buscar
justiça.	Qualquer	que	seja	a	forma	que	assuma,	o	amor	é	sempre	paciente	e
benigno	(1Co	13.4).
É	claro	que	isso	é	apenas	o	começo	de	tudo	o	que	Deus	diz	aos	que	foram
feridos.	Se	suas	palavras	lhe	chegam	ao	coração,	encoraje-se,	pois	há	muitas
outras	verdades	semelhantes	a	essa.
Respostas
Por	que	algumas	pessoas	que	sofrem	tais	experiências	caem	em	um	espiral	de
depressão,	ao	passo	que	outras	não?	A	razão	é	que	essas	circunstâncias	não	são,
em	si	mesmas,	a	causa	da	depressão.	Geralmente,	fazem	parte	de	um	ciclo
depressivo,	mas	não	são	suficientes	para	desencadear	a	depressão.	As
circunstâncias	têm	de	estar	ligadas	a	um	sistema	interno	de	crenças,	ou	uma	lente
interpretativa,que,	então,	precipita	a	depressão.	Mesmo	os	desequilíbrios
químicos	precisarão	de	coadjuvantes,	se	forem	causar	depressão,	especialmente
uma	depressão	acompanhada	de	desesperança	e	autoacusação.
Todos	nós	conhecemos	pessoas	que	passaram	por	situações	muito	trágicas	e	não
perderam	a	esperança.	Podem	dizer,	como	o	apóstolo	Paulo:	“Em	tudo	somos
atribulados,	porém	não	angustiados;	perplexos,	porém	não	desanimados;
perseguidos,	porém	não	desamparados;	abatidos,	porém	não	destruídos”
(2Coríntios	4.8-9).	Algumas	pessoas	evitam	a	depressão	mais	profunda	porque
são	dotadas	de	constituição	inabalável;	outras,	porque	sua	fé	e	confiança	em
Deus	tomam	conta	delas	antes	que	caiam	muito	fundo.
A	seguir,	olharemos	de	perto	os	mecanismos	internos	da	alma.	Será	de	ajuda	se
nós	atentarmos	ao	fato	de	que	as	nossas	crenças	e	cosmovisão	se	misturam	com
as	dores	da	vida	para	decantar	a	bebida	tóxica	da	depressão.
Capítulo	13
O	coração	da	depressão
						Estamos	tomando	cuidado	ao	dissecar	a	depressão.	Estamos	escutando	sua
voz,	esperando	encontrar	pistas	de	como	ela	teve	início	e	como	poderá	ser
aliviada.	Isso	nos	levou	primeiramente	a	destacar	diversas	causas	que	sobrevêm
contra	nós.	Satanás,	outras	pessoas,	temores	de	morte	e	fatores	errôneos	da
cultura,	muitas	vezes,	desempenham	esse	papel.	O	próximo	passo	será	o	de
completar	o	laço	e	considerar	as	coisas	que	vêm	de	dentro	de	nós.	Como	elas
contribuem	para	a	depressão	(Figura	13.1)?
Figura	13.1.	O	desenvolvimento	da	depressão
As	coisas	não	acontecem	sem	um	propósito.	Então,	quando	algo	novo	surge,
reagimos	com	uma	interpretação	imediata	de	seu	significado.	Filtramos	o
acontecimento	por	meio	de	nossa	visão	de	Deus,	dos	outros	e	de	nós	mesmos.
Por	exemplo,	digamos	que	alguém	não	nos	tenha	cumprimentado,	na	igreja.
Interpretamos	assim:	“Ela	está	zangada	comigo”;	“Ela	é	uma	esnobe”,	ou	então
“deve	estar	com	muita	coisa	na	cabeça.	Devo	ligar	para	ela”.
Choveu	durante	todo	o	fim	de	semana	em	que	você	planejava	trabalhar	com	o
madeiramento	no	quintal.	Você	interpreta	assim:	“Não	acredito	que	isso	esteja
acontecendo	comigo”,	que	significa:	“Não	acredito	que	Deus	faça	isso	comigo!”
Ou	então,	você	poderá	pensar:	“Ainda	creio	que	Deus	seja	bom,	mesmo	que	eu
esteja	decepcionado.	Ele	está	cuidando,	até	mesmo,	desses	detalhes”.
Essas	interpretações	fazem	diferença	mesmo	que	a	depressão	tenha	causas
físicas.	A	dor	mental	geralmente	precisa	de	um	empurrão	interpretativo	a	fim	de
mandá-la	para	o	inferno	bem	como	a	desesperança,	que	chamamos	de	depressão.
Toda	dor	é	interpretada.	Tendo	isso	em	mente,	volte	sua	atenção	para	o	que	está
acontecendo	dentro	de	você.	Descobrirá	que	está	dando	ocupação	à	mente	bem
mais	do	que	pensava	inicialmente.
A	mente	é	seu	próprio	lugar,	e,	em	si	mesma.	Pode	tornar	um	céu	do	inferno,	ou
um	inferno	do	céu.¹
Definição	do	coração
Nossa	história,	nossas	interpretações,	nossas	motivações	e	crenças	procedem	do
coração.	Ele	é	o	centro	de	nossa	vida.	O	coração	examina	os	“porquês”.	Por	que
trabalhar?	Por	que	brincar?	Por	que	amar?	O	coração	é	o	fator	definidor	de	nossa
humanidade.
Sobre	tudo	o	que	se	deve	guardar,	guarda	o	coração,	porque	dele	procedem	as
fontes	da	vida.	(Pv	4.23)
Porque	a	boca	fala	do	que	está	cheio	o	coração.	(Mt	12.34)
O	homem	bom	do	bom	tesouro	do	coração	tira	o	bem,	e	o	mau	do	mau	tesouro
tira	o	mal;	porque	a	boca	fala	do	que	está	cheio	o	coração.	(Lc	6.45)
Como	você	pode	imaginar,	a	essa	altura,	quando	chegamos	ao	alcance	mais
longínquo	do	coração,	descobrimos	que	tudo	tem	a	ver	com	Deus.	Toda	a	vida	é
vivida	coram	deo	(diante	da	face	de	Deus).	Isso	não	quer	dizer	que	estejamos
sempre	conscientes	de	Deus.	Quando	o	adolescente	quebra	as	regras	dos	pais,
raramente	percebe	suas	infrações	como	ataques	pessoais	contra	eles.	Ele	pensa:
Quero	fazer	o	que	der	na	telha.	Quero	independência.	Minha	desobediência	não
é	nada	pessoal.
Toda	a	vida,	contudo,	é	pessoal.	Em	algum	nível,	todas	as	pessoas	conhecem	a
Deus	(Rm	1.21).	Não	temos	apenas	uma	ideia	vaga	de	que	exista	um	Deus,
deuses	ou	um	“poder	superior”,	aí,	em	algum	lugar.	Dentro	do	coração	humano,
há	um	conhecimento	pessoal	do	Deus	que	existe,	e	nele	confiamos	ou	em	uma
outra	coisa.	Usando	uma	linguagem	mais	religiosa,	ou	adoramos	a	Deus	ou	aos
ídolos,	tais	como	prazer,	dinheiro,	sucesso	e	amor.	No	final,	o	coração	é	uma
questão	de	ou	isso	ou	aquilo.
A	quem	você	ama?	A	Deus	ou	o	mundo?	(Dt	6.5;	1Jo	2.15)
Em	quem	você	confia?	Em	Deus	ou	em	pessoas?	(Jr	17.5-8)
Quem	(ou	o	que)	você	adora?	A	Deus	ou	os	deuses?	(2Rs	17.36)
A	quem	você	serve?	A	Deus	ou	ao	dinheiro?	(Mt	6.24)
A	quem	obedece?	A	Deus	ou	ao	diabo?	(1Jo	3.10)
Para	a	glória	de	quem	você	vive?	A	glória	de	Deus	ou	a	sua	própria	glória?	(Rm
1.21-23)
Onde	está	o	seu	tesouro?	Em	Deus	ou	no	mundo?	(Mt	6.21)
A	quem	você	pertence?	A	Deus	ou	Satanás?	(Jo	8.44)
Alguns	jovens	que	foram	criados	na	igreja,	bastante	conscientes	de	si	mesmos,
voltaram-se	contra	Deus.	Sabem	que	Deus	existe	e,	até	mesmo,	creem	que	o
evangelho	é	verdadeiro,	mas	querem	andar	pelos	próprios	caminhos.	Suas
alianças	são	com	seus	próprios	desejos	e	não	com	Deus.
Outras	pessoas	poderão	nem	pensar	sobre	Deus.	Não	o	negam	conscientemente
nem	o	reconhecem.	Mas	seu	coração	se	revela	quando,	de	repente,	ficam	irados
contra	Deus	por	alguma	dificuldade	que	surge	na	vida.	Por	exemplo,	um
empresário	que	trabalha	muito	e	se	considerou	não	religioso	–	simplesmente	não
pensa	em	Deus.	Mas	no	dia	em	que	sua	empresa	é	incendiada	e	queima	até	o
chão,	ele	amaldiçoa	a	Deus	e	jura	jamais	entrar	em	uma	igreja,	pelo	resto	da
vida.	Ele	sabia	da	existência	de	Deus.
Tem	gente	que	diz	não	acreditar	em	Deus.	Pensa	sobre	a	existência	ou	não	de
Deus,	e	escolhe	crer	que	Deus	não	existe.	Aqui,	também,	o	coração	será
revelado.	Poderá	ser	que	descubra	um	profundo	medo	da	morte,	que	faça
consultas	a	cartomantes,	ou	que	tenha	uma	crise	de	meia	idade,	indicando	total
falta	de	propósito.	Lembre-se	que	qualquer	pergunta	que	se	refere	a	propósito
será	uma	pergunta	religiosa.
Não	importa	quem	sejamos	ou	que	crença	tenhamos,	todos	fomos	criados	com	a
mesma	estrutura.	Vemos	as	nossas	ações;	contudo,	ainda	mais	escondidos,	estão
os	nossos	pensamentos	e	sentimentos.	Abaixo	deles,	estão	nossas	imaginações	e
motivações	–	as	aparentes	razões	dos	nossos	pensamentos,	sentimentos	e	ações.
E	ainda	mais	profundos,	estão	o	conhecimento	de	Deus	e	nossa	reação	a	ele
(Figura	3.2).
Figura	13.2.	Uma	visão	do	coração
A	inclinação	natural	do	coração
Conforme	vimos,	nosso	coração	está	fora	de	forma	e	defeituoso.	Isso	não	deveria
nos	surpreender,	pois	nossa	vida	inteira	parece	estar	desequilibrada.	Mas	existe
um	modo	específico	em	que	nosso	coração	está	desalinhado.	Fomos	feitos	para
dedicá-lo	a	Deus,	mas	não	o	fazemos.	Em	vez	disso,	o	dedicamos	a	uma	estranha
fermentação	composta	de	Deus,	nós	mesmos,	e	os	objetos	de	nossos	afetos,	a
saber,	os	nossos	ídolos.	Por	que	essa	dedicação	inapropriada	e	transigente?
Somos	orgulhosos.	De	início,	poderá	até	não	fazer	muito	sentido,
especialmente	quando	nos	sentimos	no	abismo,	mas	nosso	coração	continua
altivo.	Desde	a	antiguidade,	as	pessoas	se	inclinam	diante	de	ídolos	em	uma
atitude	de	aparente	humildade	e	contrição.	Mas	o	seu	alvo	não	é	ser
controlado	pelo	ídolo.	As	pessoas	cultuam	a	fim	de	obter	as	coisas.
Escolhemos	os	ídolos	porque	acreditamos	que	eles	nos	darão	aquilo	que
queremos.	O	deus	das	drogas	traz	falta	de	temor,	o	deus	do	sexo	promete
prazer	e	intimidade,	o	deus	da	riqueza	estende	o	poder	e	a	influência.	Podemos
nos	sentir	mal	a	nosso	próprio	respeito	porque	queremos	ser	grandes,	ou	pelo
menos	conseguir	alguma	coisa,	e	não	estamos	nos	sentindo	muito	bem.	Como
os	profetas	de	Baal,	somos	arrogantes	a	ponto	de	acreditar	que	poderemos
manipular	o	ídolo	–	quer	infligindo	ferimentos	a	nossos	próprios	corpos	quer
por	meio	de	alguma	outra	forma	de	obra	de	justiça	–	a	fim	de	que	o	ídolo	ceda
e	nos	dê	aquilo	que	queremos.
Isso	se	encaixa	em	sua	experiência?	Estamos	falando	de	algo	universal.
Examine	sua	imaginação	e	suas	fantasias.	Elas	nãorevelam	uma	sugestão	de
autoexaltação?	Até	mesmo	os	pensamentos	de	suicídio	podem	ter	elementos	de
orgulho.	O	suicídio	faz	parar	a	dor,	mas	também	deixa	uma	forte	impressão	na
mente	de	outras	pessoas.	Até	mesmo	a	modesta	autopiedade	poderá	se	tornar
rapidamente	em	uma	razão	para	pensar	em	nós	mesmos.	Poderá	ser	uma	forma
orgulhosa	de	autoindulgência.
Ainda	que	sob	depressão,	você	é	uma	pessoa	–	e	como	pessoas,	por	natureza,
nós	temos	traços	orgulhosos	permeando	a	totalidade	da	vida.
Almejamos	autonomia.	A	autonomia	está	intimamente	ligada	à	arrogância.
Ambas	são	expressões	do	orgulho	humano,	mas	a	autonomia	sugere	que
queiramos	nos	separar	de,	mais	do	que	estar	sobre	alguma	coisa	ou	alguém.
Queremos	estabelecer	as	regras	para	não	nos	submetermos	ao	senhorio	do
Deus	vivo.	Esta	foi	a	essência	do	pecado	original	de	Adão.	Queremos
interpretar	o	mundo	de	acordo	com	nosso	sistema	de	pensamentos.	Queremos
estabelecer	nosso	próprio	universo	paralelo,	separado	de	Deus.
Uma	expressão	popular	de	autonomia	é	encontrada	no	deísmo	norte-americano.
O	deísmo	não	é	uma	igreja	ou	denominação	formal,	mas	podemos	dizer	sem
sombra	de	dúvida	que	é	o	sistema	de	crença	mais	popular	nos	Estados	Unidos.	O
deísmo	reconhece	Deus,	mas	acredita	que	ele	está	longe,	ocupado	demais	para	se
envolver	nos	afazeres	comuns	das	pessoas.	Seus	lemas	são:	“Deus	ajuda	a	quem
se	ajuda”	e	outros	princípios	semelhantes	que	evitam	fé	e	confiança	como	a
atitude	principal	diante	de	Deus.	No	deísmo,	podemos	desbravar	fronteiras	sem
que	ninguém	se	meta	em	nossos	afazeres.
Dá	para	observar	isso	na	depressão?	Uma	parte	da	síndrome	depressiva	é	que
somos	imensamente	leais	às	nossas	interpretações	de	nós	mesmos	e	de	nosso
mundo.	Se	Deus	diz	que	fomos	perdoados	em	Cristo,	criamos	novas	regras	que
exigem	contrição,	penitência	e	desprezo	próprio.	Se	Deus	diz	que	nos	ama,
insistimos	que	isso	é	coisa	impossível.	Aí	está:	nosso	sistema	é	mais	elevado	do
que	o	de	Deus.
Observe	como	o	desejo	de	controlar	nosso	próprio	reino	tem	ligação	com	o	vazio
que	acompanha	a	depressão.	Quando	tentamos	fazer	com	que	a	vida	funcione
separada	de	Deus,	estamos	confiando	em	pessoas	e	não	em	Deus.	O	problema	de
confiar	nas	pessoas	é	que,	ou	elas	não	são	confiáveis,	ou	estamos	confiando
tanto	nelas	que	nenhum	ser	humano	teria	capacidade	para	suportar	tamanho
peso.	Imagine	isso:	outras	pessoas	tornam-se	ídolos	quando	tentamos	fazer	com
que	o	mundo	dê	certo	sem	Deus.	Os	ídolos,	quando	derrubados,	não	nos	dão
mais	aquilo	que	queremos,	e	nos	deixam	com	um	sentimento	de	vazio.
O	caminho	para	sair	da	autonomia	começa	com	uma	simples	oração:	“Senhor,
ensina-me.	Quero	pensar	como	tu	pensas”.	Isso	significa	viver	sob	o	reinado	do
Rei	de	amor	em	vez	de	procurar	amor,	aceitação,	significado	ou	segurança	à
parte	dele.	Somente	sob	seu	domínio	poderemos	conhecer	o	amor	de	Deus.
Pense	em	como	seria	ter	certeza	de	que	o	Deus	do	universo	ama	a	você.	Apenas
isso	provavelmente	transformará	os	contornos	da	depressão.
Queremos	ceder	a	nossos	próprios	desejos.	O	orgulho	e	a	autonomia	não
representam	tudo	o	que	está	errado	em	nosso	coração.	Ambos	apontam	para	o
fato	de	que	somos	criaturas	ávidas,	desejosas.	Queremos	alguma	coisa	mais	do
que	tudo.	Cobiçamos.	Queremos	mais	(Ef	4.19).	E	temos	inveja	daqueles	que
têm	o	que	nós	queremos.
–	Eu	quero!	Quero	mais!	Mais	segurança,	mais	amor,	mais	paz,	mais	dinheiro,
mais	respeito,	mais	liberdade,	mais	beleza,	e	assim	por	diante.	Pense	nisso	por
um	momento.	É	verdadeiro	que	se	tivermos	o	quanto	queremos,	nossa	depressão
mudaria?	Se	for	assim,	provavelmente	você	está	considerando	os	desejos	mais
ávidos	e	cobiçosos	do	coração	humano.
O	problema	é	que,	ainda	que	conseguíssemos	mais,	não	sentiríamos	satisfação	e
ainda	continuaremos	a	desejar	mais.	Até	mesmo	Deus	não	nos	basta.	E	quando
não	temos	mais	à	nossa	disposição,	a	vida	torna-se	vazia	e	nada	mais	interessa.
Nada	disso	parece	bonito,	ainda	que	nos	soe	conhecido.	A	depressão	não	nos
poupa	das	aflições	normais	do	coração	humano.	Podem,	até	mesmo,	distrair
nossa	atenção,	mas	isso	não	impedirá	que	nos	agarrem.
Resposta
Então,	quer	dizer	que	o	pecado	é	causa	da	depressão?	Não!	Tome	cuidado	aqui.
Sendo	ser	humano	normal,	você	deve	ver	evidências	de	suas	próprias	carências,
descrenças	e	caminhos	de	autonomia.	Se	não	conseguir	enxergá-los,	então	você
estará	com	um	problema,	porque	estes	são	fatores	comuns	a	todo	coração
humano.
Pergunte	às	pessoas	sábias	que	passaram	por	sofrimentos,	e	elas	se	lembrarão
prontamente	de	como	o	Pai	Celestial	usou	o	sofrimento	para	lhes	revelar	como
estavam	procurando	acertar	a	vida	à	parte	dele.	Entretanto,	isso	não	significa	que
o	sofrimento	tenha	sido	causado	por	seu	pecado	pessoal.	Significa	apenas	que	a
dor	tende	a	gritar	bem	alto	o	nome	daquelas	coisas	que	a	prosperidade	esconde.
Afinal,	quando	tudo	vai	bem,	a	maioria	das	pessoas	são	agradáveis	e	gratas.	A
angústia	mostra	coisas	dentro	de	nós	que	não	veríamos	de	outra	forma.	Os
capítulos	seguintes	tratarão	mais	a	respeito	disso.
Em	tempos	de	sofrimento,	a	Escritura	nos	estimula	a	desembaraçar	“de	todo
peso	e	do	pecado	que	tenazmente	nos	assedia”	e	a	correr,	“com	perseverança,	a
carreira	que	nos	está	proposta”	(Hb	12.1).	Devemos,	sim,	nos	preocupar	se	não
estivermos	vendo	algum	pecado,	porque	uma	das	maneiras	de	o	Espírito	Santo
nos	amar	é	revelando	o	nosso	pecado.	Como	o	pecado	é	o	que	realmente
corrompe	a	vida	e	tudo	que	há	de	bom,	somos	abençoados	quando	conseguimos
enxergá-lo	e	desviamos	dele.	Porém,	isso	não	significa	automaticamente	que	o
pecado	seja	o	causador	de	nossa	depressão.
É	possível	que	alianças	mal	feitas	e	simples	descrença	sobre	o	que	Deus	diz
sejam	catalisadoras	da	depressão?	Com	certeza.	Nessas	horas,	a	depressão	é	uma
luz	de	advertência	espiritual	a	nos	lembrar	de	Deus	e	de	tomarmos	decisões
quanto	à	escolha	do	seu	reino	ou	do	nosso.
Traga	Cristo	bem	próximo	em	todo	esse	caminho.	Mantenha	à	mão	o	salmo	130.
O	cerne	da	Escritura	é	que	Deus	veio	a	nós	e	tomou	a	iniciativa	do	perdão.	Ele
não	nos	perdoa	em	função	da	tristeza	com	o	pecado,	mas	porque	Jesus	pagou	a
penalidade	do	pecado.
O	caminho	certo	para	a	vida	verdadeira	consiste	em	crescer	no	conhecimento	do
amor	de	Deus	e	do	nosso	próprio	pecado.	Spurgeon	disse:	“Enquanto	via	Deus
como	tirano,	achava	que	o	meu	pecado	fosse	uma	ninharia;	quando	o	conheci
como	meu	Pai,	lamentei	que	tivesse	um	dia	me	oposto	a	ele”.²	E	Pascal	forneceu
este	sábio	resumo:
Conhecer	Deus	sem	conhecer	nossa	própria	baixeza	produz	orgulho.
Conhecer	nossa	própria	miséria	sem	conhecer	Deus	produz	desespero.
Conhecer	Jesus	Cristo	dá	o	equilíbrio,
pois	ele	nos	mostra	tanto	Deus	quanto	nossa	própria	baixeza.³
O	que	vemos	em	nosso	próprio	coração?
1	MILTON,	John.	Paradise	Lost	(Nova	York:	Penguin,	1968),	1:249-55,	p.	54.
2	SPURGEON,	Charles.	“Repentance	After	Conversion”,	The	Metropolitan
Tabernacle	Pulpit,	vol.	41	(Londres:	Banner	of	Truth,	1895),	sermão	#	2419.
3	PASCAL,	Blaise.	Pensees,	trad.	A.J.	Kreitsheimer	(Londres:	Penguin,	1966),
nº.	192.
Capítulo	14
O	coração	desvendado
						Faça	uma	pausa	um	pouco	maior	para	analisar	seu	coração.	Um	dos	desafios
é	que	ele	é	complicado	e	difícil	de	conhecer.	Podemos	enumerar	rapidamente	as
circunstâncias	da	vida	que	moldam	quem	somos	–	tais	como	família,	amigos,
professores	–	mas	o	coração	tende	a	se	esconder,	tanto	de	nós	quanto	de	outros.
Saber	a	respeito	do	coração	e	conhecê-lo	são	duas	coisas	bem	diferentes.
Eis	uma	série	de	perguntas	a	fazer	para	descobrir	o	que	se	passa	no	íntimo.
O	que	você	ama?	O	que	você	odeia?
O	que	você	quer?	Almeja?	Espera?
Qual	é	o	seu	alvo?
O	que	você	teme?
Com	o	que	você	se	preocupa?
O	que	você	acha	que	precisa?
Onde	encontra	refúgio,	consolo,	prazer	ou	segurança?
Quem	são	os	seus	heróis	e	exemplos?
O	que	define	sucesso	ou	fracasso	para	você?
Como	você	completa	a	frase:	“Se	apenas...”?	(Por	exemplo,	“Se	o	meu	marido
apenas...”)
O	que	você	considera	seus	direitos?
Quais	são	as	coisas	pelas	quais	você	ora?
Sobre	o	que	você	conversa?
Quais	os	seus	sonhos	ou	fantasias?Quando	é	que	você	fica	zangado?
Em	que	é	que	você	tende	a	duvidar	da	Escritura?
Onde,	em	sua	vida,	você	tem	lutado	contra	a	amargura?
O	que	ou	quem	você	evita?
Às	vezes,	você	sente-se	culpado?¹
Sob	circunstâncias	normais,	raramente	fazemos	essas	perguntas	ou	permitimos
que	nos	levem	ao	centro	espiritual	de	nossa	vida.	Mas	a	depressão	não	é	uma
circunstância	normal.
Ela	desvenda	nosso	coração.
Não	é	verdadeiro	que	o	sofrimento	revela	quem	somos?	Enquanto	a
prosperidade	permite	que	nos	escondamos,	as	dificuldades	removem	máscaras
que	nem	sabíamos	existir.	Durante	tempos	melhores,	conseguimos	ser	felizes,
destemidos,	confiantes	e	otimistas,	mas	os	anos	magros	revelam	o	melhor	e	o
pior	de	nós.	Coloque	uma	dúzia	de	pessoas	de	mentes	relativamente	semelhantes
na	mesma	crise	e	verá	uma	dúzia	de	respostas	diferentes.	Algumas	são	heroínas;
outras,	covardes.	Algumas	são	líderes;	outras,	submetem-se	silenciosamente.
Realmente	não	sabemos	quem	somos	até	passarmos	pelo	sofrimento.
Conseguimos	medir	nosso	crescimento	espiritual	pelo	modo	como	agimos	sob
pressão.
Por	meio	da	história,	Deus	tem	usado	as	dificuldades	para	manifestar	o	coração
das	pessoas,	e	esse	desvendamento	tem	um	propósito.	É	parte	essencial	do
processo	de	mudança.	Temos	de	ver	o	que	está	no	coração	antes	que	comece	a
transformação.
Observe	como	parecem	imaturos	aqueles	que	apagam	os	sofrimentos	por	meio
do	uso	de	remédios,	drogas	ilegais,	álcool	ou	sexo.	Podem	ter	quarenta	e	cinco
anos	de	idade,	mas	o	seu	caráter	é	como	de	um	adolescente.	Encontre	alguém
que	tenha	enfrentado	as	tempestades	da	vida	em	vez	de	evitá-las	e	encontrará
uma	pessoa	sábia.
O	crescimento	pessoal	e	a	mudança	nem	sempre	são	fáceis,	mas	são	essenciais
para	a	verdadeira	humanidade.	Simplesmente,	fomos	feitos	assim.	São	partes	do
intento	do	Criador.	Podemos	observar	sua	ocorrência	nos	animais,	nas	plantas	e
nas	pessoas,	pois	tudo	que	vive,	cresce.	A	diferença	é	que	os	seres	humanos
crescem	física	e	espiritualmente.
Quando	estivermos	crescendo	na	direção	certa,	será	justo	e	bom.	A	palavra
hebraica	shalom	encerra	os	sentidos	de	paz,	integridade,	inteireza,
realinhamento,	e	não	de	deslocamento.	O	crescimento	espiritual	é	um	sentimento
apropriado.	De	fato,	é	uma	bênção	que	torna	a	depressão	menos	opressiva.	A
depressão	pode	ser	comparada	com	a	dor	severa	de	quem	morre	vítimado	pelo
câncer,	e	também	com	a	dor	da	cirurgia	que	auxilia	na	nossa	melhora.	Se	ambas
pudessem	ser	medidas	fisicamente,	seriam	idênticas	em	sua	intensidade,	pelo
menos,	para	o	pesquisador.	Mas	a	dor	da	cirurgia	terá	menor	gravidade	ao
sofredor	do	que	a	do	câncer.	A	dor	da	cirurgia	estará	nos	tornando	melhores;	a
outra,	sinaliza	o	pior.
Quando	enxergarmos	alguma	coisa	do	coração,	estaremos	em	posição	de	crescer
e	mudar.	Por	mais	difícil	que	seja	a	exposição	de	nosso	ser	interior,	é	uma	parte
necessária	do	caminho	da	bênção.
Esse	desvendamento	produzirá	também	outros	benefícios.	Revelará	coisas	da
intimidade	que	contribuíram	para	a	depressão.	Não	há	como	ter	certeza	de	que
nosso	coração	seja	a	causa	principal	da	depressão,	mas	quando	trabalhamos	nas
questões	que	a	depressão	denuncia,	a	dor	diminuirá,	pois	encontramos	uma	de
suas	causas.	Em	outras	palavras,	o	problema	por	trás	da	depressão	nem	sempre	é
físico.	Muitos	especialistas	em	depressão	chegaram	a	conclusões	semelhantes.
Por	exemplo,	uma	abordagem	popular	à	depressão	chama-se	terapia	cognitiva.
Ela	enfoca	o	modo	de	pensar	das	pessoas.	Tudo	lhe	parece	branco	ou	preto,	tudo
ou	nada,	oportunidade	ou	obstáculo?	Tais	maneiras	de	pensar	ficam
relativamente	dormentes	durante	tempos	de	calma,	mas	são,	sem	dúvida,	ativas
na	depressão.	O	alvo	da	terapia	cognitiva	é	o	de	identificar	“erros	no
pensamento”,	mudá-los	e,	fazendo	isso,	ter	esperança	de	alívio	da	depressão.
Essa	escola	de	pensamento	sugere	que	os	erros	de	pensamento	não	são	apenas
revelados	pela	depressão,	mas	são,	na	verdade,	sua	causa.	Assim,	quando	você
mudar	o	pensamento,	mudará	a	depressão.	Imagens	de	ressonância	magnética	de
cérebros	ativos	mostram	que	podemos	produzir	mudanças	físicas	significativas
ao	cérebro,	simplesmente,	pensando	de	modo	diferente.
O	rumo	que	estamos	tomando	não	é	forçado	nem	implausível.	Tem	semelhança
com	as	teorias	mais	bem	conhecidas	sobre	depressão.	Não	é	estranho	o
pensamento	de	que	a	depressão	nos	expõe	e	que	damos	a	ela	a	nossa
contribuição.	O	que	impressiona	sobre	a	nossa	posição	é	que	penetramos	mais
profundamente:	ultrapassamos	as	falhas	dos	pensamentos	para	considerar	os
erros	no	modo	de	conhecer	a	Deus.
Desvios	no	deserto
O	princípio	de	que	o	sofrimento	nos	prova	e	desvenda	o	coração	surge	em	toda	a
Escritura.	Podemos	vê-lo	pela	primeira	vez	quando	os	israelitas	saíram	do	Egito,
episódio-chave	na	história	bíblica.	Ali,	Deus	mostrou	que	ele	mesmo	não	era
apenas	um	deus	tribal	e	local.	Era	o	Deus	Criador	que	reina	sobre	todas	as
coisas,	incluindo	o	Egito	e	Faraó.	Para	destacar,	Deus	usou	Moisés,	um	orador
sem	qualificações,	como	seu	representante,	e	livrou	Israel	da	escravidão	egípcia
sem	que	guerreiro	algum	desembainhasse	espada.
Antes	que	o	povo	obtivesse	acesso	à	terra	prometida,	Moisés	o	guiou	pelo
deserto.	Não	era	uma	caminhada	fácil,	mas	o	propósito	de	Deus	era	manifestar
sua	paciência,	bondade	e	cuidado.	Ele	também	quis	testar	o	povo	para	que	visse
o	que	lhes	habitava	o	coração.
Recordar-te-ás	de	todo	o	caminho	pelo	qual	o
Senhor
,	teu	Deus,	te	guiou	no	deserto	estes	quarenta	anos,	para	te	humilhar,	para	te
provar,	para	saber	o	que	estava	no	teu	coração,	se	guardarias	ou	não	os	seus
mandamentos.	(Dt	8.2).
O	povo	repetidamente	falhou	no	teste.	Quando	faltou	água,	murmurou	contra	o
Senhor	em	vez	de	confiar	nele.	Quando	ansiava	carne	e	pão,	agia	da	mesma
forma.	De	uma	provação	após	outra,	deixava	de	confiar	no	Senhor.	Como	não
estivesse	pronto	para	entrar	na	Terra	Prometida,	pois	o	temor	dos	habitantes	da
terra	era	maior	do	que	sua	confiança	em	Deus,	o	Senhor	estendeu	o	tempo	de	sua
passagem	pelo	deserto	por	quarenta	anos.
Daí	em	diante,	o	tema	de	região	inóspita	ou	deserta	tornou-se	repetitivo	na
Escritura	como	parte	da	jornada	enfrentada	por	quase	todo	cristão,	na	qual	Deus
é	o	guia.	Durante	essa	jornada,	o	coração	das	pessoas	é	desnudado.	Abraão,	José,
Daniel	e	muitos	outros	passaram	pelo	deserto	e	foram	confirmados	como
pessoas	de	fé.	Confiaram	no	Senhor	durante	suas	viagens	pelo	deserto.	Arão,	o
rei	Acabe,	e	Jonas	confiaram	e	si	mesmos.
Os	textos	que	relatam	a	passagem	de	pessoas	pelo	deserto,	na	Escritura,
alcançam	o	seu	ápice	quando	“Jesus	foi	levado	pelo	Espírito	ao	deserto,	para	ser
tentado	pelo	diabo”	(Mt	4.1).	Ele	reproduziu	a	jornada	dos	israelitas	(um	dia
para	cada	um	de	seus	anos)	e	suportou	a	fome	que	tiveram,	com	o	seu	jejum	de
quarenta	dias.	Em	seguida,	Jesus	foi	conduzido	às	tribulações	e	tentações	mais
rigorosas,	pelo	próprio	Satanás.	O	resultado,	porém,	nunca	esteve	em	dúvida.	O
coração	de	Jesus	jamais	titubeou.	Não	obstante	a	dor	física	ou	as	provas,	ele
confiou	no	Pai	para	livrá-lo.	Ao	fazê-lo,	tornou-se	nosso	modelo,	esperança	e
poder	em	nosso	próprio	deserto.	Quando	falharmos	nas	nossas	provas	desérticas,
poderemos	sempre	apontar	para	o	sucesso	de	Jesus.	Suas	vitórias	são	nossas,
pela	fé,	e	assim,	sua	história	torna-se	nossa	quando	confiamos	nele.
Alegria	no	deserto?
É	no	contexto	de	provações	no	deserto	que	o	livro	de	Tiago	diz	o	seguinte:
Meus	irmãos,	tende	por	motivo	de	toda	alegria	o	passardes	por	várias	provações,
sabendo	que	a	provação	da	vossa	fé,	uma	vez	confirmada,	produz	perseverança.
Ora,	a	perseverança	deve	ter	ação	completa,	para	que	sejais	perfeitos	e	íntegros,
em	nada	deficientes.	(Tg	1.2-4)
A	alegria	e	o	sofrimento	estão	casados.	De	relance,	parece	um	casamento
impossível,	mas	Tiago	não	foi	o	único	a	falar	de	dificuldades	com	um	esboço	de
sorriso	no	rosto.	Outros	textos	bíblicos	concordam.
Nisso	exultais,	embora,	no	presente,	por	breve	tempo,	se	necessário,	sejais
contristados	por	várias	provações,	para	que,	uma	vez	confirmado	o	valor	da
vossa	fé,	muito	mais	preciosa	do	que	o	ouro	perecível,mesmo	apurado	por	fogo,
redunde	em	louvor,	glória	e	honra	na	revelação	de	Jesus	Cristo.	(1Pe	1.6-7)
Antes	da	vinda	de	Jesus,	as	pessoas	sábias	suportavam	voluntariamente	as
dificuldades	porque	sabiam	que	Deus	estava	com	elas.	Depois	da	cruz	todas	as
coisas	se	transformaram,	até	mesmo	a	visão	do	sofrimento.	Viajantes	peregrinos,
ainda	hoje,	encontram	o	mesmo	sofrimento,	mas,	agora,	ele	é	enxergado	mais
como	as	angústias	de	parto	do	que	uma	dor	aleatória	e	sem	propósito	–	meros
acidentes.	Desde	a	vinda	de	Cristo,	o	sofrimento	é	redentivo.	Quando
conhecemos	a	Jesus	claramente	–	aquele	que	“aprendeu	a	obediência	pelas
coisas	que	sofreu”	(Hb	5.8)	–,	compreendemos	como	Tiago	pôde	nos	estimular	à
alegria	na	caminhada	pelo	deserto.
Se	você	acha	que	a	Escritura	não	está	a	par	da	vida	real	–	que	os	santos	gastavam
seu	tempo	pensando	na	vida	futura	em	vez	de	tratar	do	presente	–	leia	o	livro	de
Tiago.	Ele	é	extremamente	prático;	o	sofrimento	e	a	perseguição	lhe	eram
familiares.	Compreendia	a	vida	verdadeira.	Seu	conselho	não	foi	dado	a	místicos
que	desprezam	o	mundo,	mas	a	gente	comum	que	precisa	enfrentá-lo.
Observe	por	que	ele	se	empolga	com	as	tribulações:	as	tribulações,	ele	escreve,
têm	um	propósito.	Provam	nossa	fé.	Revelam	aquilo	que	adoramos,	cremos	e
amamos.	Da	perspectiva	de	Tiago,	isso	evidencia	o	cuidado	paterno	de	Deus.	É
imprescindível	para	nosso	bem-estar	espiritual.	Seria	trágico	passar	pela	vida
com	uma	fé	nominal	que	achamos	ser	autêntica,	mas	que,	na	verdade,	não	é.	O
amor	de	Deus	está	por	trás	das	provações	que	revelam	a	verdadeira	condição	de
nossa	fé.	O	seu	desejo	é	que	nos	tornemos	“maduros	e	completos,	em	nada
faltosos”.	Em	outras	palavras,	quando	nossa	fé	passar	pelo	crisol	para	que
aprendamos	a	confiar	em	Deus	em	todas	as	coisas,	estaremos	satisfeitos	nele,
acima	de	tudo	mais.	Não	precisaremos	dos	apetrechos	tradicionais	da	vida.
Cristo	será	o	suficiente.	Para	Tiago,	esse	processo	de	crescimento	é	tão	glorioso
que	nos	provoca	alegria.
Escute	a	outros	mestres	sábios	que	padeceram.
No	pesar,	muitas	vezes,	aprendemos	lições	que	jamais	atingiríamos	em	outro
lugar.	Sabes	que	Deus	tem	belezas	para	todas	as	partes	do	mundo,	e	tem	belezas
para	todos	os	lugares	da	experiência?	Há	paisagens	a	serem	vistas	do	cume	dos
Alpes...	mas	há	também	belezas	a	ser	vistas	nas	profundezas	dos	vales	sombrios
que	jamais	veríamos	do	topo	das	montanhas...	Ah!	disse	Lutero,	a	aflição	é	o
melhor	livro	de	minha	biblioteca.	A	melhor	página	é	a	do	pesar.²
Isso	tem	profundas	implicações	para	a	luta	com	a	depressão.	Tiago	não	presume
ingenuamente	que	nossas	dificuldades	acabarão	deste	lado	do	céu.	Presume	que
elas	continuarão.	As	pessoas	ficarão	deprimidas	e	isso	poderá,	inclusive,	repetir.
Mas	Tiago	apresenta	uma	experiência	emocional	que	é	difícil	de	descrever:	a
alegria,	ele	escreve,	pode	estar	presente	durante	qualquer	experiência	no	deserto.
A	alegria	não	era	tão	acessível	durante	a	jornada	original	dos	israelitas	porque
tudo	era	novo	e	incerto.	Eles	não	entendiam	os	caminhos	de	Deus	e	não	tinham
confiança	em	sua	bondade	e	seu	poder.	Mas	a	cruz	aclara	qualquer	dúvida.	Dessa
forma,	no	fim	da	história,	podemos,	na	verdade,	cantar	de	alegria	em	pleno
deserto.
A	alegria	não	é	o	oposto	da	depressão.	Ela	é	mais	profunda	do	que	a	depressão.
Portanto,	podemos	experimentar	ambas.	A	depressão	é	chuva	que	não	para.	A
alegria	é	rocha.	Quer	a	depressão	esteja	presente	quer	não,	podemos	sempre
firmar	os	pés	sobre	a	alegria.
Isso	tudo	parece	inatingível?	Você	fica	ainda	mais	desesperançado	quando	lê
essas	palavras?	Se	for	esse	o	caso,	trate	esses	versículos	como	se	fossem	os	dos
salmos:	mesmo	que	não	encerre	sua	experiência	atual,	deixe	que	sejam	uma
visão	daquilo	que	está	por	vir.	É	o	que	Deus	quer	lhe	dar.	Então,	ore	para	que
você	se	aproprie	mais	e	mais	desta	passagem,	e	para	que	Deus	seja	glorificado
por	te	conceder	alegria	em	meio	às	tribulações.
Resposta
Sua	oração	poderá	ser	simplesmente:	“Sonda-me”.
Sonda-me,	ó	Deus,	e	conhece	o	meu	coração,
prova-me	e	conhece	os	meus	pensamentos;
vê	se	há	em	mim	algum	caminho	mau
e	guia-me	pelo	caminho	eterno	(Sl	139.23-24).
A	vida	diante	de	Deus	é	uma	sequência	contínua	de	vivências,	avaliação	e
mudança,	depois,	reavaliação	e	mudança,	para,	mais	uma	vez,	reavaliar	e	mudar.
A	depressão	também	é	ocasião	para	reavaliação	e	mudança.
1	POWLISON,	David.	Basic	Biblical	Concepts	of	Human	Motivation,	não
publicado.	Ver	também	de	Paul	Tripp,	“Opening	Blind	Eyes:	Another	look	at
data	gathering”,	Journal	of	Biblical	Counseling,	14.2,	1996,	p.	6-11.
2	SKOGLUND,	E.R.	Bright	Days,	Dark	Nights	(Grand	Rapids:	Baker,	2000),	p.
86-87.
Capítulo	15
Temor
						Agora	estamos	equipados	com	uma	compreensão	básica	de	como	as	nossas
circunstâncias	e	o	nosso	coração	conspiram	juntos	para	a	depressão.	Isso
possivelmente	nos	ajudará	a	ouvir	mais	quando	escutarmos	o	que	a	depressão
nos	fala.	Ela	poderá	dizer	“está	doendo”	e	nada	mais.	Entretanto,	pode	estar
dizendo	algo	mais	específico,	e	nesses	indícios	pode	brilhar	a	luz	em	nosso
caminho.
Escutando	as	descrições	da	depressão,	muitas	vezes	ouvimos	palavras	como
“desespero”,	“pânico”,	“abandono”	e	“pavor”.	Você	escuta	isso?	O	medo	fala
alto	e	bom	tom.	Ouvimos	alusões	ao	inferno,	e	a	esse	sempre	está	associado	um
profundo	medo.	Quando	a	depressão	está	mais	severa,	a	paranoia	é	uma	de	suas
características	cardeais.	É	o	medo	que	perdeu	o	controle.	Parece	que	tanto	você
quanto	o	seu	mundo	estão	desmoronando,	e	você	tem	certeza	de	que	não	pode
fazer	nada	a	esse	respeito.
O	que	as	pessoas	medrosas	fazem	quando	se	sentem	impotentes?	Evitam.
Retraem-se.	Seu	mundo	torna-se	cada	vez	menor.	Noutras	palavras,	agem	de
forma	deprimida.
Quando	os	temores	não	são	tratados,	podem	levar	à	depressão.	Podemos	tentar
evitá-los	quando	eles	nos	assombram,	mas	ainda	são	perceptíveis.	O	único	jeito
realmente	de	aquietá-los	é	confrontando.	E	como	os	temores	andam	em	bando,
só	podemos	esperar	encontrá-los	ainda	mais	e	não	um	único	medo.
Podemos	descobrir	que	estamos	aterrorizados	diante:
•	de	tomar	uma	decisão	errada
•	do	fracasso
•	da	morte
•	de	sofrer
•	de	sermos	expostos
•	de	perder	uma	pessoa	amada
•	de	perder	dinheiro,	emprego,	ou	outras	formas	de	segurança
•	de	sermos	abandonados,	rejeitados	ou	de	ficar	sós
•	de	perder	o	controle	da	vida
Sem	a	depressão,	esses	temores	podem	estar	dormentes;	e	por	meio	dela,	eles	se
revelam.	Às	vezes,	porém,	as	pessoas	deprimidas	não	reconhecem	seu	temor.
Pessoas	medrosas	parecem	agitadas	e	inquietas,	enquanto,	geralmente,	a
depressão	se	expressa	mais	em	passividade	e	resignação.	Portanto,	escute	com
cuidado	o	seu	coração.	Descubra	do	que	você	tem	medo.	Seus	temores	poderão
estar	contribuindo	para	seus	sentimentos	de	depressão,	e	existe	muito	que	pode
ser	feito	para	aliviá-los.
Temores	comuns
Quando	começamos	a	fazer	uma	lista	de	nossos	maiores	receios,	reconhecemos
rapidamente	que	não	estamos	sozinhos.	Somos	um	povo	dado	ao	medo.	Alguns
dos	temores	mais	comuns	são:
Medo	da	morte.	O	medo	da	morte	nos	afeta	muito	mais	do	que	fazemos	ideia.
Imagine	como	a	vida	seria	diferente	se	não	houvesse	nenhum	medo	de	morrer.
Mesmo	que	tenhamos	confiança	de	estar	com	Jesus,	o	desconhecido	é	sempre
intimidador	e	a	Escritura	não	esclarece	esse	detalhes	especificamente.	Quando
ansiamos	e	aguardamos	alguma	coisa,	ficamos	um	pouco	nervosos	quanto	aos
detalhes	imprevisíveis.	Na	depressão	isso	intensifica.	Muitas	vezes,	as	pessoas
deprimidas	não	têm	confiança	de	que	estarão	um	dia	com	Jesus,	e	seus
temores	tornam-se	ainda	mais	aguçados.
Será	que	todos	os	nossos	pecados	serão	expostos?	Deus	se	desagradará	de	nós?
Nós	cremos	“o	suficiente”?
Sabendo	de	nossas	preocupações,	Deus	fala	clara	e	frequentemente	da	esperança
da	vida	eterna.	A	primeira	carta	de	João	se	dedica	a	esse	assunto,	e	os	demais
escritores	do	Novo	Testamento	tratam	disso.
Medo	do	modo	como	morreremos.	A	maioria	das	pessoas	reconhece	ter	medo
de	como	a	morte	lhes	virá.	Será	prolongada	e	dolorosa?	Repentina	e	sem	dor?
Estaremos	sozinhos?	Se	já	testemunhamosuma	morte	dolorosa,	é	provável
que	esses	medos	sejam	mais	fortes.	E,	como	os	outros	temores,	quando	não
tratados,	podem	desencadear	em	depressão.	Agora	é	hora	de	ouvir	as	palavras
de	Deus	e	crer	quando	ele	diz	que	nos	dará	a	graça	necessária	quando
precisarmos.
Medo	da	volta	do	passado.	Se	tivermos	experimentado	um	passado
especialmente	difícil,	isso	pode	controlar-nos	mais	do	que	imaginamos.	As
nossas	emoções	não	discernem	muito	bem	entre	o	passado	e	o	presente.	Ainda
que	seja	impossível	experimentar	novamente	as	mesmas	dores,	os	nossos
sentimentos	dizem	o	contrário.	O	perigo	parece	eminente.	Estamos	sempre	de
sobreaviso.	É	aqui	que	muitos	dos	salmos	são	de	valor	especial,	porque	foram
escritos	por	e	para	pessoas	que	enfrentavam	ameaças.
Medo	de	confiar	em	coisas	que	não	duram.	Talvez	nosso	temor	mais	comum
surja	quando	aquilo	em	que	confiamos	se	torna	instável	e	começa	a	ruir.
Se	tivermos	confiança	na	beleza	física,	ela	acomodará	a	nossa	confiança	por	um
tempo.	Mas	o	que	acontece	quando	a	cirurgia	plástica	não	consegue	nos	livrar	de
todas	as	rugas	e	nosso	corpo	perde	a	firmeza	por	mais	que	façamos	exercícios?
Se	a	confiança	estiver	na	segurança	financeira,	o	que	acontece	se	perdermos	o
emprego?	Sentimo-nos	como	se	sempre	estivéssemos	precisando	de	mais	do	que
temos,	não	é	mesmo?
Se	confiarmos	em	alguém,	o	que	acontece	se	ele	morrer?	E	se	ele	for	menos	que
perfeito	ao	dar-nos	afeto?	Se	ele	nos	abandonar?
Talvez	não	confiemos	em	uma	só	pessoa	específica.	O	problema	é	que
confiamos	nas	pessoas.	Nosso	alvo	tem	sido	agradá-las,	e	descobrimos	que	um
alvo	desses	é	cada	vez	mais	impossível	de	atingir.
Se	nossa	confiança	estiver	investida	em	qualquer	coisa	que	não	seja	Jesus,
eventualmente	o	medo	tomará	conta.	E	quando	o	reinado	do	medo	continuar,	ele
convidará	a	depressão	a	ser	o	seu	corregente.
Mais	uma	vez,	a	questão
Não	obstante	qual	seja	nosso	medo	específico,	o	temor	sempre	faz	as	mesmas
perguntas:	“Em	quem	confiaremos?	A	quem	nos	voltaremos	quando	estivermos
com	medo	ou	ansiosos?”	A	história	da	Escritura	é	a	única	na	qual	Deus
demonstra	ser	confiável,	e	então	ele	convida	as	pessoas	cautelosas	a	confiar	nele.
Dado	um	convite	tão	atraente,	seria	de	imaginar	que	ninguém	resistiria,	mas
todos	nós	temos	razões	para	depositar	nossa	confiança	nas	coisas	que
conseguimos	enxergar.
O	Pastor	está	presente
Apesar	de	nossa	relutância,	Deus	se	compraz	em	dizer	palavras	de	esperança	e
consolo	a	pessoas	medrosas.	Ele	reserva	algumas	das	mais	belas	revelações	de	si
mesmo	aos	tímidos.	Arrazoa	pacientemente	com	eles.	Lembra-lhes	que	ele	é
Deus	e	promete	que	jamais	os	deixará	sozinhos.	Ele	compartilha	com	eles	alguns
de	seus	nomes	–	aqueles	que	somente	os	amigos	íntimos	conhecem.
Em	ti,	força	minha,	esperarei;	pois	Deus	é	meu	alto	refúgio.	Meu	Deus	virá	ao
meu	encontro	com	a	sua	benignidade.	(Sl	59.9-10	-	itálicos	acrescentados	pelo
autor)
Deus	é	o	meu	escudo;	ele	salva	os	retos	de	coração.	Sl	7.10
O
Senhor
é	a	minha	rocha,	a	minha	cidadela…	a	força	da	minha	salvação,	o	meu	baluarte.
(Sl	18.2)
O	nome	mais	conhecido	é	Pastor.	O	salmo	mais	bem	conhecido	para	os	que	têm
medo	é	o	salmo	23.	Sua	contrapartida	no	Novo	Testamento,	palavras	realmente
ditas	pelo	próprio	Bom	Pastor,	é	o	ensino	de	Jesus	sobre	a	ansiedade	no	Sermão
do	Monte	(Mt	5	–	7).
Provavelmente	você	já	conheça	a	passagem,	mas	leia-a	com	cuidado.	Estas	são
palavras	de	Deus	a	você.	Observe	como	Jesus	jamais	se	cansa	de	repetir	as	suas
promessas.	Ele	argumenta	pacientemente	com	as	pessoas	temerosas.	Está	nos
persuadindo	a	confiar	nele.
A	seguir,	dirigiu-se	Jesus	a	seus	discípulos,	dizendo:	Por	isso,	eu	vos	advirto:
não	andeis	ansiosos	pela	vossa	vida,	quanto	ao	que	haveis	de	comer,	nem	pelo
vosso	corpo,	quanto	ao	que	haveis	de	vestir.	Porque	a	vida	é	mais	do	que	o
alimento,	e	o	corpo,	mais	do	que	as	vestes.	Observai	os	corvos,	os	quais	não
semeiam,	nem	ceifam,	não	têm	despensa	nem	celeiros;	todavia,	Deus	os	-
sustenta.	Quanto	mais	valeis	do	que	as	aves!	Qual	de	vós,	por	ansioso	que	esteja,
pode	acrescentar	um	côvado	ao	curso	da	sua	vida?	Se,	portanto,	nada	podeis
fazer	quanto	às	coisas	mínimas,	por	que	andais	ansiosos	pelas	outras?
Observai	os	lírios;	eles	não	fiam,	nem	tecem.	Eu,	contudo,	vos	afirmo	que	nem
Salomão,	em	toda	a	sua	glória,	se	vestiu	como	qualquer	deles.	Ora,	se	Deus	veste
assim	a	erva	que	hoje	está	no	campo	e	amanhã	é	lançada	no	forno,	quanto	mais
tratando-se	de	vós,	homens	de	pequena	fé!	Não	andeis,	pois,	a	indagar	o	que
haveis	de	comer	ou	beber	e	não	vos	entregueis	a	inquietações.	Porque	os	gentios
de	todo	o	mundo	é	que	procuram	estas	coisas;	mas	vosso	Pai	sabe	que
necessitais	delas.	Buscai,	antes	de	tudo,	o	seu	reino,	e	estas	coisas	vos	serão
acrescentadas.
Não	temais,	ó	pequenino	rebanho;	porque	vosso	Pai	se	agradou	em	dar-vos	o	seu
reino.	Vendei	os	vossos	bens	e	dai	esmola;	fazei	para	vós	outros	bolsas	que	não
desgastem,	tesouro	inextinguível	nos	céus,	onde	não	chega	o	ladrão,	nem	a	traça
consome,	porque,	onde	está	o	vosso	tesouro,	aí	estará	também	o	vosso	coração.
(Lc	12.22-34)
Quanto	carinho	incrível!	Quanta	paciência!	Ele	nos	chama	de	pequenino
rebanho,	consciente	de	que	a	vida	tem	muitos	perigos.	Ele	nos	lembra	que	o
Criador	conhece	todos	os	detalhes	de	sua	criação.	Está	próximo	e	se	envolve.
Conhece	as	necessidades	dos	corvos	comuns;	sabe	quando	cai	uma	pétala	do
lírio.	Se	ele	conhece	tais	detalhes	sobre	coisas	que	não	foram	criadas	à	sua
imagem,	quanto	mais	não	cuidará	de	nós?	Aos	olhos	de	Deus,	valemos	muito
mais	do	que	o	restante	da	criação.
Ele	não	apenas	se	interessa	no	grande	quadro	de	nossa	vida.	Ele	conhece	os
detalhes,	até	quantos	fios	de	cabelo	temos	na	cabeça	(Lc	12.7).	Para	ter	tal
conhecimento,	alguém	tem	de	estar	presente	junto	à	pessoa	e	ter	por	ela	imenso
carinho.	Conhecidos	fortuitos	se	satisfazem	com	conhecimentos	básicos	e
resumidos	da	nossa	vida.	Os	amigos	íntimos	querem	conhecer	todos	os	detalhes.
Jesus	então	pergunta,	com	humor,	se	a	ansiedade	realmente	ajuda	alguém.	Pode
fazer	com	que	cresçamos?	Pode	nos	dar	mais	dinheiro?	Ele	sugere	que	a	situação
na	verdade	não	é	tão	medonha	quanto	pensamos.	E	pode	falar	com	leveza	porque
sabe	que	não	existe	razão	para	nos	preocuparmos.	Ele	é	o	pastor	amoroso.	Não
nos	deixará,	e	jamais	dormirá	(Sl	121.4).
–	Confia	em	mim.	Eu	cuido	do	amanhã	–	diz	o	Senhor.	Então,	em	bela	e
persuasiva	conclusão,	Jesus	nos	lembra	que	ele	é	um	Deus	generoso	que	não
somente	dá	o	reino	a	seus	filhos	como	também	tem	prazer	em	fazê-lo.
Aqui	surgem	duas	perguntas.	Primeira,	o	que	é	o	reino?	O	reino	é	tudo	que	Deus
promete	aos	seus	filhos:	amor,	alegria,	paz,	sua	presença,	perdão,	adoção	em	sua
família,	a	esperança	de	estarmos	livres	do	pecado,	e	de	estar	com	o	Pai,	o	Rei.
Segunda,	o	reino	é	importante	para	você?	Talvez	você	já	creia	que	Deus	se
agrada	de	nos	dar	o	reino,	mas	o	reino	não	lhe	parece	tão	bom	assim.	Talvez	o
seu	coração	esteja	mirando	outra	coisa.	Você	acredita	que	“meu	Deus,	segundo	a
sua	riqueza	em	glória,	há	de	suprir,	em	Cristo	Jesus,	cada	uma	de	vossas
necessidades”	(Fp	4.19),	mas	não	está	tão	certo	de	que	ele	suprirá	tudo	que	você
deseja.
É	assim	que	a	idolatria	cresce	em	nosso	coração.	Queremos	coisas	e	não	temos
certeza	de	que	Deus	as	dará,	e	assim,	confiamos	em	outros	deuses.	Este	é	o
problema	do	coração	humano	–	confiança	não	apropriada.	Valorizamos,	amamos
e	confiamos	em	alguma	coisa	na	criação	que	não	o	Criador	e	não	existe	nada	na
criação	que	tenha	capacidade	de	portar	o	peso	de	nossa	confiança,	somos
fadados	a	viver	em	medo.
Todos	os	outros	amores	têm	de	ser	subordinados	ao	amor	por	Cristo.	Isso	pode
soar	como	uma	exigência	exagerada	de	Deus,	e	é,	até	certo	ponto,	verdade.	A
razão	por	que	devemos	amá-lo	mais	que	todas	as	outras	coisas	é	que,	entre	os
muitos	pretendentes	ao	nosso	afeto,	somente	Deus	é	digno	de	tal	amor.
Como	voltar	para	aquele	que	realmente	nos	ama?	Isso	se	chama	arrependimento.
Reconhecemos	nosso	erro	em	buscar	falsos	deuses	e	procuramos	conhecer	a
beleza	do	Deus	verdadeiro,	que	pacientemente	nos	busca.
Aprendendo	domaná
Outro	fator	comum	na	maioria	dos	temores	é	o	de	se	preocupar	mais	com	o
futuro	do	que	o	presente.	“Acho	que	está	para	acontecer	uma	tragédia”.
Predizemos	o	futuro	e	nos	agarramos	tenazmente	a	nossas	profecias.
Algumas	pessoas	se	especializam	nessas	ansiedades,	outras	apenas	atabalhoam-
se	nelas,	mas	todos	nós	cedemos	a	elas.	Eis	por	que	uma	das	primeiras	lições	que
Deus	ensinou	a	seu	povo	tratava	de	ansiedade	e	confiança.
Quando	os	israelitas	estavam	no	deserto,	a	comida	era	pouca;	e	ali	foi	o	lugar
ideal	para	a	aprendizagem	da	confiança.	Para	alimentar	as	centenas	de	milhares
de	israelitas,	Deus	fez	chover	a	cada	dia	uma	espécie	de	pão	(Êx16),	mas	ele	só
era	suficiente	para	um	dia	(exceto	no	dia	anterior	ao	sábado,	quando	recebiam	o
suficiente	para	dois	dias).	Isso	estabeleceu	um	ritmo	espiritual.	Faziam	o	que
Deus	disse	para	fazer	hoje,	e	confiavam	nele	para	o	amanhã.	Os	que	confiavam
em	si	mesmos	e	colhiam	mais	do	que	precisavam	para	o	dia	descobriram	que	o
maná	que	sobejava	apodrecia	na	manhã	seguinte.	Aprenderam	rapidamente	que
a	fé	no	Deus	verdadeiro	era	a	única	maneira	de	viver.
Sem	dúvida,	os	primeiros	dois	ou	três	dias	foram	os	mais	difíceis.	O	povo
acordava	com	fome	e	notava	que	não	havia	comida	em	sua	tenda.	Será	que
haveria	maná	lá	fora,	nessa	manhã?	Deus	seria	fiel	às	suas	promessas?	Com	o
tempo,	eles	ficaram	mais	confiantes.	Aprenderam	que	no	amanhã	Deus	cuidaria
deles	porque	assim	havia	prometido,	e	fora	fiel	no	dia	anterior.
É	este	o	pano	de	fundo	para	as	palavras	de	consolo	de	Jesus:	“mas	buscai	o	seu
reino	(hoje)	e	estas	coisas	também	lhes	serão	dadas	(amanhã)”.	Nosso	alvo	é
entrar	no	ritmo	do	maná.	Buscar	sua	graça	hoje,	ser	fiel	nas	tarefas	à	nossa
frente,	e	confiar	nele	para	o	amanhã.	Então,	quando	olharmos	para	trás	e
percebermos	que	ele	foi	fiel,	a	nossa	fé	será	“alimentada”	para	o	dia	seguinte.
“Eu	estarei	com	vocês”
Ainda	está	com	medo?	Jesus	sabe	de	antemão	que	lutaremos	contra	o	medo	e	ele
não	desaparecerá	instantaneamente.	Sua	resposta	é	lembrar-nos	que	ele	jamais
nos	abandonará.
Não	temas,	porque	eu	sou	contigo.	(Gn	26.24)
Sede	fortes	e	corajosos,	não	temais,	nem	vos	atemorizeis	diante	deles,	porque	o
Senhor
,	vosso	Deus,	é	quem	vai	convosco;	não	vos	deixará,	nem	vos	desamparará.	(Dt
31.6)
Não	temas,	porque	eu	sou	contigo;	não	te	assombres,	porque	eu	sou	o	teu	Deus;
eu	te	fortaleço,	e	te	ajudo,	e	te	sustento	com	a	minha	destra	fiel.	(Is	41.10)
Mas	Sião	diz:	O
Senhor
me	desamparou,	o	Senhor	se	esqueceu	de	mim.	Acaso,	pode	uma	mulher
esquecer-se	do	filho	que	ainda	mama,	de	sorte	que	não	se	compadeça	do	filho	do
seu	ventre?	Mas	ainda	que	esta	viesse	a	se	esquecer	dele,	eu,	todavia,	não	me
esquecerei	de	ti.	Eis	que	nas	palmas	das	minhas	mãos	te	gravei;	os	teus	muros
estão	continuamente	perante	mim.	(Is	49.14-16)
E	eu	rogarei	ao	Pai,	e	ele	vos	dará	outro	Consolador,	a	fim	de	que	esteja	para
sempre	convosco,	o	Espírito	da	verdade...	ele	habita	convosco	e	estará	em	vós.
Não	vos	deixarei	órfãos,	voltarei	para	vós	outros.	(Jo	14.16-18)
Imagine	a	presença	de	alguém	que	nos	ama	e	tem	poder	para	lidar	com	as	coisas
que	nós	tememos.	Ele	muda	o	medo	em	confiança.	Mas	como	é	o	caso	de	todo
crescimento	espiritual,	esta	transformação	só	ocorre	com	a	prática	contínua.	Vem
quando	dizemos	“Amém	–	eu	creio”,	ao	ouvir	ou	ler	uma	promessa	de	Deus.
Vem	mediante	a	meditação	nas	palavras	de	Deus.	Vem	quando	a	cruz	de	Cristo
nos	assegura	de	que	Deus	é	fiel.
Estas	palavras	aos	temerosos	são	tão	importantes	que	Jesus	as	usou	em	seus
instantes	finais	sobre	a	terra:	“E	eis	que	estou	convosco	todos	os	dias	até	à
consumação	do	século”	(Mt	28.20).	A	ressurreição	é	a	resposta	de	Deus	para	o
medo.	Jesus	está	vivo.
Resposta
Os	temores	são	gritantes	e	exigentes.	Mesmo	quando	sabemos	que	são
irracionais,	ainda	conseguem	nos	controlar.	É	difícil	discutir	com	sentimentos
tão	intensos,	e	fácil	ser	leal	a	nossas	interpretações	errôneas.	Portanto,	não
espere	escrever	salmos	de	vitória	no	momento.	Em	vez	disso,	temos	de	assumir
como	nossos	alguns	salmos	que	são	diários	pelos	quais	documentamos	o	medo.
Por	exemplo,	o	salmo	46	trata	de	circunstâncias	traiçoeiras,	mas	continua
voltando	ao	mesmo	refrão:	“O	Senhor	dos	Exércitos	está	conosco;	o	Deus	de
Jacó	é	o	nosso	refúgio”	(Sl	46.7,	11).	O	salmo	56	descreve	difamação	e	ataque,
mas	o	salmista	acalma	seu	coração:	“Em	me	vindo	o	temor,	hei	de	confiar	em	ti”
(Sl	56.3).	Ao	meditarmos	nos	salmos	que	falam	sobre	o	medo,	descobrimos	que
nós	também	poderemos	fazer	transições	mais	rápidas	do	temor	para	a	fé	(ver	Sl
57.4-5).
Existem	dois	passos	básicos	para	tratar	com	o	medo.	Primeiro,	confessá-lo	como
incredulidade.	Não	é	verdade	que	grande	parte	do	medo	é	nosso	coração
dizendo:	“Senhor,	eu	não	acredito	em	ti”	ou	“Senhor,	meu	desejo	é	por	algo
diferente	do	que	aquilo	que	o	Senhor	prometeu”?	Segundo,	examine	a	Escritura
com	confiança	no	amor	e	fidelidade	de	Jesus.	Peça	a	alguém	que	tem	tal
confiança	em	Jesus	que	dê	as	razões	para	sua	fé.
Quais	são	os	seus	medos?	Em	que	está	a	sua	confiança?
Capítulo	16
Ira
						O	medo	é	o	coconspirador	mais	óbvio	da	depressão;	a	ira	é	o	mais	comum.	A
fórmula	é	simples:
Tristeza	+	ira	=	depressão
A	maioria	das	pessoas	consegue	encontrar	facilmente	sua	ira,	mas,	às	vezes,
você	terá	de	procurá-la	em	lugares	inesperados.
–	Por	que	não	consegue	acreditar	que	você	foi	perdoada?
Essa	mulher	de	trinta	e	cinco	anos	de	idade	estava	deprimida	havia	dez	anos	e
fizera	duas	tentativas	de	suicídio.	Como	tantas	pessoas	depressivas,	tudo	sobre
ela	falava	de	autoaversão.	Nesta	ocasião	ela	estava	descrevendo	a	culpa	que
sentia	por	ter	dito	algo	danoso	a	sua	irmã.	Dava	para	ver	como	ela	estava	abatida
pelo	peso	do	que	fizera.
Sua	resposta	foi	chocante.
–	Se	eu	acreditar	que	Deus	me	perdoa,	então	terei	de	perdoar	o	meu	pai,	e	jamais
poderei	fazer	isso.	–	A	sua	ira	era	patente,	surpreendendo	até	a	ela	mesmo.
Sim,	era	culpada,	mas	sua	culpa	era	mais	profunda	do	que	pensava.	Era	culpada
por	ser	juiz	de	seu	pai,	cujos	pecados,	neste	caso,	eram	mínimos.	Ela	não
acreditava	que	Deus	seria	suficientemente	duro	com	ele,	e,	assim,	assumiu	papel
de	juiz,	júri	e	algoz.	O	fato	de	que	isso	significava	que	ela	teria	de	negar	a	graça
e	misericórdia	sobre	si,	era	preço	baixo	para	pagar	pelo	prazer	de	julgar	seu	pai.
A	ira	nem	sempre	será	causa	da	depressão,	embora	alguns	pesquisadores
queiram	dizer	que	seja	a	causa	provável.	Contudo,	ela	frequentemente	é	revelada
pela	depressão.	O	modo	mais	sábio	de	abordar	o	assunto	é	assumir	que	estamos
irados.	A	ira	é	tão	básica	à	nossa	condição	quanto	a	nossa	locomoção	bípede	e	os
polegares	opostos	nas	mãos.	Se	você	for	uma	pessoa	com	mente	e	emoções,	com
certeza	encontrará	ira.
Para	tornarmos	essa	busca	ainda	mais	importante,	lembre-se	de	que	a	ira	se
esconde.	A	pessoa	irada	sempre	será	a	última	a	saber	disso.	Reconheceremos
estar	deprimidos,	temerosos,	sofrendo,	mas	somos	cegos	quanto	à	nossa	ira.	Ela
sempre	é	problema	dos	outros,	não	nosso.
Descobrir	a	ira
A	ira	inclui	amplo	espectro	de	comportamentos.	Pode	contribuir	para	a	depressão
mesmo	quando	não	nos	lembramos	de	uma	causa	específica.	Como	entre	os
Hatfields	e	os	McCoys,	nenhum	lado	se	lembra	do	que	começou	a	briga	entre	as
duas	famílias,	mas	sabem	que	deverão	estar	zangados	uns	contra	os	outros.
Algumas	perguntas	podem	ajudar	a	descobrir	as	raízes.
Quais	as	minhas	necessidades	pessoais?	Nossas	“necessidades”	geralmente	são
um	eufemismo	para	“direitos”	e	“exigências”.
Onde	minhas	necessidades	não	foram	supridas?
Onde	meus	direitos	foram	violados?
O	que	acho	que	mereço	que	não	tenha	recebido?
De	quem	tenho	inveja?
Se	limitarmos	nossa	consciência	de	ira	à	raiva	descarada,	deixaremos	de
percebê-la.	A	explosão	violenta	é	apenas	uma	das	expressões	da	ira	(Figura
16.1).
“Minha	lei	foi	violada”
Quente 												Frio
Ataque 												Afastamento
Assassinato	Violência	Fúria	Calúnia	Inveja	Sarcasmo	Reclamações	Fofoca
Indiferença
Praguejamento	Desejar	o	mal Rabugice	Autopiedade
Figura	16.1.	O	espectro	da	ira
Um	homemdeprimido	não	disse	nada	durante	um	ano	à	sua	esposa	–	nenhuma
palavra.	Em	público,	relacionava-se	normalmente.	Omitia	a	solidariedade	porque
estava	desempregado.	Seu	raciocínio	para	estar	assim	“calado”	era	que	estava
deprimido.	Mas	a	tristeza	pode	encobrir	a	raiva	furiosa.
A	ira	pode	ser	quente	ou	fria.	As	pessoas	se	ferem	mutuamente.	A	principal
diferença	é	que	a	ira	quente	é	breve	e	explosiva;	a	fria	se	acomoda	a	longo	prazo.
A	ira	depressiva	geralmente	é	fria:	“dar	de	ombros”,	retrair-se,	rejeitar
calculadamente,	culpar	os	outros,	autocomiseração.	De	alguma	forma,	é	a	ira
mais	extrema	porque	se	recusa	a	ser	afetada	pela	outra	pessoa.	“Fui	ferido,	e
jamais	me	importarei	o	bastante	para	ser	ferido	outra	vez”.	Evite	a	pessoa	de
gênio	explosivo,	mas	trema	diante	da	pessoa	fria,	distante,	sem	sentimentos	e
irada.
O	coração	da	ira
A	ira	diz	“Você	errou”.	Está	fazendo	algum	tipo	de	juízo,	e	muitas	vezes	esse
julgamento	é	acertado.	A	ira	pode	ser	uma	resposta	a	um	mal	real.	Mas	é	só	o
começo	da	história.	Uma	vez	que	a	ira	se	instala,	nos	levará	a	uma	encruzilhada
cada	vez	mais	conhecida.
Você	se	volta	ao	Deus	verdadeiro,	que	mostra	compaixão	aos	que	foram	feitos	de
vítimas,	ou	confiará	em	si	mesmo?
Você	se	volta	ao	Deus	verdadeiro,	que	é	o	juiz	santo	e	justo,	ou	formará	um
partido	de	vigilante	que	se	encontra	no	seu	próprio	nome,	para	si	mesmo,	e	para
sua	própria	glória?
A	ira	começa	tipicamente	imitando	a	Deus	–	faz	juízos	quanto	ao	que	está	certo
ou	errado.	Mas	rapidamente	poderá	tornar-se	uma	posição	contrária	a	ele.
Ficamos	irados	porque	nossos	direitos	e	nossa	glória	–	não	os	de	Deus	–	foram
violados.
Aqui	é	que	devemos	tornar-nos	especialistas	em	conhecer	nosso	próprio	coração,
senão	ficaremos	tateando	no	escuro.	O	que	vemos	quanto	à	ira	é	que	alguém	fez
o	mal	e	ficamos	zangados.	O	que	não	enxergamos	é	que	a	ira	revela	mais	sobre
nosso	próprio	coração	do	que	sobre	a	outra	pessoa.	Especificamente,	a	ira	é	entre
nós	e	Deus.
Tome,	por	exemplo,	a	murmuração.	Quem	nunca	se	queixou	e	murmurou	nos
últimos	dois	dias?	A	murmuração	ou	reclamação	cabe	na	categoria	maior	de	ira
porque	é	fazer	juízo.	O	murmurador	declara	que	algo	está	errado,	seja	uma
pessoa,	o	tempo,	ou	o	preço	extorsivo	do	conserto	do	carro.	Geralmente,	não	é
dirigido	contra	uma	pessoa	específica.	É	apenas	uma	queixa.	Enquanto	os	que
são	abertamente	zangados	podem	sacudir	o	punho	contra	Deus,	ele	é	raramente
mencionado	na	reclamação	ou	murmuração	de	baixo	nível.
Porém,	murmuramos	mais	a	nosso	respeito	do	que	de	outros	ou	de	nossas
circunstâncias.	Nosso	coração	está	dizendo	alguma	coisa	contra	Deus;	quando
Israel	estava	com	fome	durante	sua	jornada	pelo	deserto,	“Toda	a	congregação
dos	filhos	de	Israel	murmurou	contra	Moisés	e	Arão”	(Êx	16.2).	Mas	isso	é
apenas	um	retrato	unidimensional	no	qual	somente	o	horizontal,	e	não	o	vertical,
é	visto.	O	povo	precisava	da	percepção	espiritual	de	Moisés	para	enxergar
melhor:	“As	vossas	murmurações	não	são	contra	nós,	e	sim	contra	o	Senhor”	(Êx
16.8).
Pouco	tempo	depois,	reclamaram	contra	Moisés	por	não	terem	água.	Mais	uma
vez,	Moisés	diagnosticou	o	problema	imediatamente.	A	questão	não	era	a	água.
O	problema	estava	no	coração.	Ele	os	desafiou:	“Por	que	tentais	ao	Senhor?”	(Êx
17.2).	Moisés	estava	fazendo	uma	acusação	muito	séria.	Sabia	que	Deus	é	quem
prova	o	coração	de	seu	povo	para	ver	se	este	o	seguirá	sob	as	condições	mais
aflitivas.	Esta	era	uma	prerrogativa	de	Deus,	e	ensinava	o	seu	povo	a	confiar
nele.	Mas,	o	povo,	testar	a	Deus!	Moisés	os	acusou	de	se	postar	como	juízes
contra	Deus.
Dá	para	ver	a	reversão	de	papéis	na	ira?	Deus	tem	o	direito	de	provar	nosso
coração.	Quem	somos	nós	para	testar	e	questionar	a	Deus?	É	o	cúmulo	da
arrogância.	Na	verdade,	nossas	circunstâncias	podem	ser	muito	difíceis,	mas
Deus	é	Deus.	Ele	tem	o	direito	de	fazer	o	que	bem	quer.	Esta	história	seminal
nos	desafia	a	estar	em	alerta.	Durante	tempos	difíceis,	ainda	podemos	seguir	a
turba	e	testar	a	Deus	mesmo	sem	saber.
–	Está	certo,	Deus!	O	Senhor	está	ou	não	está	presente?	Mostra-me.	Mostra-me
fazendo	_______.	Se	o	Senhor	não	me	mostrar	aqui	e	agora,	não	confiarei	mais
em	ti!
Claro	que	não	dizemos	isso	abertamente,	mas	se	escutarmos	atentamente	nossa
murmuração,	perceberemos	palavras	contra	Deus.
Conhecer	a	Deus
Ao	cavarmos	mais	fundo,	percebemos	que	a	ira	trata	de	alianças	espirituais.	Em
quem	confiamos?	Nossa	ira	revela	que	na	verdade	não	confiamos	em	Deus.
Assim,	quando	identificamos	a	ira	em	nossa	vida,	não	podemos	dizer
simplesmente:	“vou	parar	de	ficar	irado”.	Tal	resolução	é	admirável,	mas	está
fadada	ao	fracasso.	A	ira,	em	última	instância,	é	contra	Deus.	Demonstra	que	não
confiamos	nele,	e	torna-se	uma	oportunidade	de	conhecê-lo	mais.	O	que
passamos	a	compreender	pode	nos	surpreender.
É	a	Deus	que	imitamos.	Deus	nos	diz:	“vós	vos	consagrareis	e	sereis	santos,
porque	eu	sou	santo”	(Lv	11.44).	Se	realmente	quisermos	entender	o	que
significa	ser	humano,	teremos	de	imitar	a	Deus.
Como	você	sabe,	Deus	não	é	um	frouxo.	Odeia	balanças	desonestas	(Pv	20.10),
o	mal	(8.13),	olhos	altivos,	língua	mentirosa,	assassinos,	maquinadores
trambiqueiros,	falsas	testemunhas,	os	que	semeiam	contendas	(6.16-19).	Odeia
as	injustiças	que	podem	se	encontrar	no	divórcio	(Ml	2.16).	Odeia	a	hipocrisia,
especialmente	entre	os	líderes	do	povo	(Mc	3.5).	Jesus	ficou	indignado	quando
os	discípulos	repreenderam	as	criancinhas	(Mc	10.14).	Realmente	existe	um
tempo	para	o	ódio	e	a	ira	(Ec	3.8).
Mas	não	fique	com	a	impressão	errada.	A	ira	de	Deus	é	expressão	de	seu	amor.
Se	não	nos	iramos,	não	amamos.	Se	não	somos	comovidos	ao	ver	a	injustiça,	não
amamos	a	vítima.	Assim,	se	Deus	odeia	a	desonestidade,	ele	ama	a	honestidade.
Se	ele	odeia	olhos	altivos,	ama	a	humildade;	se	ele	odeia	a	língua	mentirosa,	ama
a	verdade;	se	ele	odeia	o	homicídio,	ama	aquele	que	edifica	o	próximo;	se	ele
odeia	os	maquinadores	e	falsas	testemunhas,	ama	os	pacificadores.
Por	que	Deus	ama	essas	coisas?	Tudo	que	Deus	ama	é	reflexo	de	seu	caráter.	Ele
é	honesto,	humilde,	verdadeiro,	pacificador.	Quando	amamos	aquilo	que	ele
ama,	é	sinal	de	que	estamos	nos	tornando	mais	parecidos	com	ele,	como	Deus
nos	fez	para	ser.
Quando	pensamos	na	ira,	geralmente	imaginamos	alguém	com	acesso	de	raiva.
Esse	jamais	será	o	retrato	da	ira	de	Deus.	Ele	nunca	perde	as	estribeiras.	Quando
revela	a	sua	ira,	ele	a	coloca	em	fervura	lenta	(Êx	32.9-10,	14).	Convida	seu
povo	a	voltar	e	arrazoar	com	ele	(Is	1.18),	e	pode	rapidamente	ser	persuadido	a
deixá-la.	Para	agora,	Deus	escolheu	colocar	limites	em	sua	ira:	“num	ímpeto	de
indignação,	escondi	de	ti	a	minha	face	por	um	momento;	mas	com	misericórdia
eterna	me	compadeço	de	ti,	diz	o	Senhor,	o	teu	Redentor”	(Is	54.8).
Isso	parece	maravilhoso	quando	aplicado	a	nós	mesmos,	mas	parece	que	Deus
poderia	ser	um	pouco	menos	mole	como	juiz	quando	se	trata	de	nossos	inimigos.
Queremos	misericórdia	para	nós	mesmos	e	justiça	para	os	outros.	Ser
misericordioso	e	justo	é	uma	combinação	complicada.	Se	pensarmos	nisso	sem	a
direção	divina,	começaremos	a	achar	que	a	misericórdia	é	injusta	e	a	justiça	é
falta	de	misericórdia.
Em	última	análise,	a	cruz	resolveu	o	dilema.	A	razão	pela	qual	Deus	estende	tal
misericórdia	e	paciência	é	porque	sua	ira	contra	nossa	rebeldia	se	derramou
sobre	Jesus.	Não	se	engane:	a	cruz	trata	de	amor	e	ira.	Deus	é	mais	irado	que
qualquer	de	suas	criaturas,	e	a	cruz	foi	onde	sua	ira	e	cólera	foram	plenamente
concentradas.	Quando	nos	voltamos	a	Jesus,	a	ira	de	Deus	é	desviada	de	nós	para
a	cruz.	Sua	justiça	é	plenamente	satisfeita	pelo	altíssimo	preço	da	morte	de	seu
Filho.	Enquanto	isso,	sua	misericórdia	e	amor	são	expressos	plenamente	a	nós,
por	ele	nos	dar	a	vida	verdadeira	mediante	a	morte	e	ressurreição	de	Jesus.
Tal	exoneração	do	juízo	nos	torna	livres	para	vivermos	por	aquele	que	morreu
por	nós.	Tendo	um	vislumbre	da	pena	que	merecíamos	e	do	amor	que
recebemos,	como	poderíamos	desejar	outra	coisa?	Portanto,	olhamos	para	Jesus,
que	é	nosso	redentor	bem	como	o	que	temos	o	privilégio	de	imitar	e	seguir.Observamos	o	modo	radical	como	ele	tratava	a	injustiça	pessoal.	Jesus	jamais
esteve	zangado	pelo	que	fizeram	contra	ele.	Ao	invés	disso,	ensinou-nos	a
bendizer	os	inimigos	(Lc	6.27-31).	Ele	se	irava	apenas	quando	os	líderes
conduziam	outros	a	caminhos	de	destruição	ou	cambistas	traziam	vergonha	ao
templo	de	seu	Pai.	Seu	segredo	era	que	ele	tinha	paixão	pela	glória	do	Pai,	e	não
por	sua	própria	glória.	Confiava	completamente	que	os	juízos	do	Pai	eram	bons	e
verdadeiros.	Escolheu	abrir	mão	de	seu	status	como	juiz	e	confiou	inteiramente
em	seu	Pai.
Pois	ele,	quando	ultrajado,	não	revidava	com	ultraje;	quando	maltratado,	não
fazia	ameaças,	mas	entregava-se	àquele	que	julga	retamente.	(1	Pe	2.23)
A	ira	sempre	é	uma	forma	de	imitar.	Estaremos	imitando	o	modo	como	a
misericórdia	supera	a	ira	no	caráter	de	Jesus,	ou,	então,	a	ira	destrutiva	de
Satanás	(Jo	8.44).	Não	existem	outras	alternativas.
Olhar	para	nós	mesmos
Depois	de	voltarmos	a	Deus	para	conhecê-lo	melhor,	precisamos	considerar
novamente	nosso	próprio	coração.	Nossa	tarefa	é	julgar	a	nós	mesmos	antes	de
julgar	os	outros.
Por	que	vês	tu	o	argueiro	no	olho	de	teu	irmão,	porém	não	reparas	na	trave	que
está	no	teu	próprio?	Ou	como	dirás	a	teu	irmão:	Deixa-me	tirar	o	argueiro	do	teu
olho,	quando	tens	a	trave	no	teu?	Hipócrita!	Tira	primeiro	a	trave	do	teu	olho	e,
então,	verás	claramente	para	tirar	o	argueiro	do	olho	de	teu	irmão.	(Mt	7.3-5)
Temos	de	nos	examinar	mais,	por	mais	tempo,	e	mais	do	que	examinamos	aos
outros.
Isso	sempre	será	difícil,	mas	a	ira	faz	com	que	seja	ainda	pior	porque	realmente
alguém	poderá	ter	cometido	uma	injustiça.	Com	a	ira,	é	natural	apontar	o	dedo
acusatório.	Somos	convencidos	de	que	o	que	aconteceu	estava	errado	e	nós
estamos	certos.	Todavia,	pense	na	natureza	da	ira.	Ela	sempre	se	acha	certa,	mas
quase	sempre	está	errada.	Não	é	verdade	que	a	maior	parte	dela	é	destrutiva	e
danosa?	E	não	é	verdade	que	a	ira	egoísta	acaba	trazendo	danos	sobre	a	pessoa
irada	porque	é	contrária	ao	modo	como	Deus	nos	fez?
Pergunte	a	si	mesmo:	O	que	eu	amo?	Quais	os	meus	direitos	que	foram
violados?	Respeito	pessoal,	apreço,	admiração,	controle,	poder,	impacto,	estar
certo,	vingança,	conforto,	privacidade?	Se	nossa	ira	dura	mais	que	dez	minutos,
descobriremos	que	nosso	coração	não	está	inocentado.
Agora,	ligue	isso	a	seu	relacionamento	com	Deus.	O	pior	relacionamento	que
tivermos	com	as	pessoas	revela	nosso	coração	diante	de	Deus.	Se	não	amamos
ao	próximo,	não	amamos	a	Deus.	Se	estivermos	irados	contra	outros,	estaremos
nos	postando	contra	Deus.	Nossas	queixas	e	murmurações	formam
implicitamente	um	teste	para	Deus:	Será	que	ele	vai	ou	não	dar	aquilo	que
queremos?	Fazemos	a	vida	tratar	apenas	de	nós.	E	ao	fazermos	isso,	estamos
fadados	a	uma	insatisfação	contínua.
Observe	a	batalha	espiritual	que	é	travada	sob	a	superfície.	Estamos	ouvindo
vozes	diabólicas	que	questionam	o	amor	e	poder	de	Deus.	Não	acreditamos	que
ele	nos	ame	do	jeito	certo	nem	que	use	seu	poder	para	julgar	em	nosso	favor.
Sempre	que	encontrarmos	a	ira	que	não	foi	rapidamente	tratada,	encontraremos
Satanás	maquinando	a	discórdia	(Ef	4.26-27).
Deus	nos	responde	de	modo	bem	diferente	do	nosso	jeito	de	responder	ao
próximo.	“Mas	tu,	Senhor,	és	Deus	compassivo	e	cheio	de	graça,	paciente	e
grande	em	misericórdia	e	em	verdade”	(Sl	86.15).	Ele	chama	assassinos	para
liderar	sua	igreja	como	maneira	de	demonstrar	sua	“paciência	sem	limites”	para
aqueles	que	nele	creem	(1Tm	1.16).	Lava	os	pés	dos	discípulos	que	o	traem	e
rejeitam	(Jo	13).	E	se	compraz	em	nos	perdoar	porque	seu	perdão	demonstra	que
ele	é	realmente	o	Deus	Santo	que	não	nos	trata	conforme	nossos	merecimentos.
Confiar	e	obedecer
Para	pessoas	iradas,	Deus	diz:	“Confesse	sua	ira	egoísta;	confie	em	mim	e
obedeça”.	Jesus	contou	a	história	de	um	homem	que	foi	perdoado	de	uma	imensa
dívida	–	maior	que	o	valor	do	salário	de	toda	uma	vida.	Tão	logo	se	viu	livre	e
anistiado	dessa	dívida,	foi	atrás	de	um	homem	que	lhe	devia	o	equivalente	a	dois
dólares,	exigindo	pagamento	imediato	(Mt	18.21-35).	Se	esta	história	nos	deixa
zangados,	devemos	perceber	que	Jesus	está	falando	sobre	nós	–	Tu	és	o	homem.
Por	intermédio	de	Jesus,	fomos	perdoados	de	uma	dívida	de	muitas	vidas	inteiras
contra	o	Pai	Celestial,	contudo,	queremos	que	os	que	nos	desprezam	paguem
imediatamente.
Se	a	história	nos	couber	(e	sempre	nos	caberá	em	alguma	ocasião),	ela
demonstra	que	não	entendemos	a	graça	e	misericórdia	de	Deus	outorgadas	por
meio	de	Cristo.	Tratamos	os	outros	do	modo	como	achamos	que	fomos	tratados.
Se	pensamos	que	Deus	foi	sovina	conosco,	somos	mesquinhos	para	com	o
próximo.	Existe,	porém,	outro	caminho.	Os	que	sabem	que	foram	perdoados
serão	generosos	e	ansiosos	por	imitar	a	Cristo,	cobrindo	as	ofensas	do	outro	(Pv
19.11).	Se	houver	uma	ofensa	mais	séria,	a	Escritura	é	muito	prática.	Converse
com	amor	com	aquele	a	quem	ofendeu.	Se	ele	não	escutar,	peça	a	ajuda	de	outras
pessoas	para	procurar	reconciliação	(Mt	18.15-16).	É	certo	que	o	amor	toma
diversas	formas	nos	diferentes	relacionamentos,	e	será	sempre	sábio	procurar
conselho	quanto	a	como	amar,	mas	permanece	o	alvo	de	amar.
Viva	como	uma	pessoa	que	foi	liberta	de	uma	imensa	dívida.	Dê	um	passo
adiante	e	viva	como	quem	é	devedor	ao	próximo,	não	como	se	ele	devesse
alguma	coisa	a	você	(Rm	13.8).
Resposta
A	ira	é	uma	das	razões	por	que	as	pessoas	se	agarram	à	depressão.
Quando	estou	deprimida,	a	dor	é	minha	amiga.	Revolvo-me	na	dor.	É	o	que
conheço	bem.	Eu	lhe	direi	que	não	existe	nada	de	bom	nela,	mas	ainda	me
agarro	a	ela.	Estou	morta	por	dentro,	vazia	de	todo	entusiasmo	ou	esperança.
Minha	dor	relembra	que	estou	viva,	e	permite	que	eu	esteja	irada.¹
Lembre-se	de	que	a	ira	é	tortuosa	e	difícil	de	ser	encontrada.	Podemos	estar
irados	mesmo	sem	perceber.	Ore:	“Senhor,	sonda-me”.
Como	a	oração	é	um	dos	meios	no	qual	nosso	coração	se	revela,	temos	de
permitir	que	ela	nos	prove.	Se	pudermos	meditar	na	Oração	do	Pai	Nosso	(Mt
6.9-13),	tornando-a	nossa,	será	evidência	de	que	estamos	lutando	contra	a	ira	que
ainda	permanece.
Uma	passagem	sucinta	da	Escritura	que	resume	o	que	escrevi	aqui	(e	muito
mais)	se	encontra	no	quarto	capítulo	de	Tiago.	Ele	nos	ensina	a	dizer	“Se	for	a
vontade	do	Senhor”.	Quantas	vezes	tivemos	enormes	expectativas	que	foram
despedaçadas?	Como	teria	sido	diferente	se	tivéssemos	começado	com:	“Se	for	a
vontade	do	Senhor”?
Onde	você	vê	a	ira	em	sua	vida?
1	THORNE,	Julia.	You	Are	Not	Alone	(Nova	York:	Harper,	1993),	p.	30.
Capítulo	17
Esperanças	esmagadas
						Continue	a	escutar.	A	depressão	poderá	dizer:	“Tenho	medo”,	“estou
zangado”	ou	as	duas	coisas.	Há	também	boa	possibilidade	de	se	ouvir:	“Não
tenho	esperança”.
Esperança	é	coisa	arriscada.	Quanto	maior	a	expectativa,	maior	será	a	chance	de
ficarmos	decepcionados.	Se	pusermos	o	coração	em	um	dia	ensolarado	na	praia,
uma	chuva	da	tarde	poderá	nos	deixar	arrasados.	Parece	ser	mais	seguro	tomar	o
rumo	pessimista	e	esperar	um	toró.	Aí,	pelo	menos,	as	nossas	esperanças	não
serão	frustradas.
Sem	dúvida,	já	assistimos	ascensões	e	quedas	de	esperanças	em	nossa	própria
vida.	Todo	mundo	experimenta	isso,	e	sempre	dói.	“A	esperança	que	se	adia	faz
adoecer	o	coração”	(Pv	13.12).	Para	algumas	pessoas,	quando	os	sonhos	se
despedaçam,	elas	apenas	passam	a	sonhar	com	outras	coisas.	Mas	outras
resolvem	que	basta:	jamais	sonharão	outra	vez.
Todos	que	passam	por	sofrimentos	devem	estar	alertas	quanto	à	falta	de
esperança	e	considerar	a	resposta	de	Deus.	Com	a	depressão,	na	qual	a
desesperança	toma	papel	preponderante,	isso	é	essencial.
Somos	pessoas	que	têm	esperanças
A	esperança	é	uma	característica	destacadamente	humana.	Por	mais	difícil	que
seja	nossa	vida,	podemos	nos	lembrar	de	quando	tínhamos	esperanças	e	sonhos.
Ansiávamos	pelo	futuro.	As	crianças	esperam	uma	sobremesa	favorita,	uma
excursão	especial,	uma	festa	de	aniversário.	Adolescentes	esperam	as	férias,	os
finais	de	semana	e	os	momentos	com	os	amigos.
Nas	empresas,	chamam-na	de	visão	–	a	capacidade	de	pensar	em	coisas	que
ainda	não	existem.	Os	especialistasdizem	que	isso	é	essencial	para	a	liderança.
Popularmente,	nós	a	chamamos	de	imaginação.	Nossa	língua	é	rica	em	palavras
sobre	esperanças:	desejar,	almejar,	sonhar,	antever,	ansiar,	expectação,	alvo,
ambição,	meta,	objetivo.
Vivemos	no	presente.	O	passado	pode	ser	um	peso	debilitante,	mas	o	futuro	nos
impulsiona.	Existe	uma	destinação	na	vida.	Vivemos	uma	história	com	passado,
presente	e	futuro.
Viver	sem	esperança	é	existir	sem	futuro.	É	quase	impossível	imaginar	uma	vida
assim.	Porém,	os	cínicos	e	pessimistas	zombam	da	esperança,	como	se
pudéssemos	viver	sem	ela.	Os	que	se	encontram	deprimidos	tentam	matar	a
esperança	porque	se	sentem	traídos	por	ela.
Matar	a	esperança	e	muito	mais
Você	já	decidiu	não	ter	mais	esperança?	Algumas	pessoas	conseguem	se	lembrar
do	momento	exato	em	que	isso	ocorreu.	Para	outras,	porém,	as	esperanças
simplesmente	se	esvaíram,	aos	poucos,	à	medida	que	as	decepções	aumentavam.
De	qualquer	modo,	sentimos	que	a	esperança	acarretou	tanto	sofrimento	que	não
pudemos	mais	suportar.	Faz	sentido	matar	a	esperança	ou	então	deixá-la	morrer
de	causas	naturais.	Pensamos:	só	um	tolo	continuaria	esperando	quando	todos	os
sonhos	se	provaram	impossíveis.
O	que	não	percebemos	é	que	grande	parte	do	que	associamos	à	própria	vida	está
ligada	à	esperança.	Ela	é	o	futuro	estendendo	sua	mão	no	presente.	Quando	o
amanhã	não	se	mostra	nítido,	não	temos	por	que	sair	da	cama,	amar	ou	trabalhar.
Matando	a	esperança,	matamos	mais	do	que	supomos.	Pensamos	que	a	dor
diminuiria,	mas	toda	tentativa	para	matar	a	esperança	mata	também	os	sonhos
futuros	e	as	alegrias	presentes.	Se	quisermos	nos	ver	livres	de	todos	os
desapontamentos	futuros,	teremos	de	ser	indiferentes	às	afeições	do	presente	–
pois,	o	que	acontecerá,	se	perdermos	aquilo	que	amamos?	Você	tem	um	cônjuge
a	quem	ama?	Um	filho?	O	único	jeito	de	manter	a	segurança	será	por	meio	de
uma	completa	indiferença.
Cremos	que	estamos	nos	protegendo,	quando	matamos	a	esperança,	mas,	na
verdade,	estamos	nos	condenando	a	um	presente	sem	vida.	Se	deixarmos	que	ela
morra	aos	poucos,	sem	lutar,	acabaremos	do	mesmo	jeito.	Será	a	mesma	falta	de
sentido	para	a	vida.	Sem	esperança,	nos	sentiremos	como	mortos	ambulantes.
Se	tivermos	compromisso	com	a	desesperança	ou	relutantes	quanto	à	luta,	será	o
mesmo	que	morrer.	Sabemos	disso,	mas	continuamos	no	curso.	Seria	o
momentum?	Tradição?	Teimosia?	Qualquer	que	seja	a	razão,	há	um	caminho
melhor.	Temos	de	nos	dispor	à	luta,	aqui.
Esperanças	despedaçadas,	ira	e	autopiedade
Há	uma	razão	para	falarmos	de	esperanças	despedaçadas,	logo	depois	de
comentar	sobre	a	ira.	Embora	as	frustrações	nos	levem	a	entregar	os	pontos,	em
vez	de	combater,	a	ira	e	o	desespero	acabam	sempre	se	encontrando.
Esperanças	frustradas	começam	com	um	simples	desejo.	Queremos	alguma	coisa
–	provavelmente,	algo	bom	como	casamento,	relacionamentos,	emprego,	saúde.
Aos	poucos,	o	desejo	cresce.	O	objeto	do	desejo	nos	parece	atingível.
Começamos	a	imaginá-lo.	Quase	podemos	sentir	seu	gosto.	E,	de	repente,	a
coisa	desejada	desaparece.
Quando	não	obtemos	aquilo	que	queremos,	ficamos	frustrados	(uma	parte	do
espectro	da	ira).	Se	houver	alguém	para	culpar,	nossa	reação	poderá	ser
facilmente	reconhecida	como	ira.	Mas,	se	parecer	que	as	circunstâncias
conspiram	contra	nós,	não	haverá	um	rosto	humano	ligado	a	ela.
Consequentemente,	não	haverá	explosões,	gritarias	ou	outros	sinais	que
prontamente	possamos	classificar	como	ira.	Mas	se	prestarmos	cuidadosa
atenção,	observaremos	a	presença	dela	da	maneira	como	Deus	nos	parece	menos
relevante.	Nós	o	marginalizamos.	Empurramo-lo	para	longe,	damos-lhe	de
ombros.	Poderemos,	até	mesmo,	ficar	insensíveis	a	ele.	Talvez	o	busquemos	para
algumas	coisas,	mas	não	confiaremos	nele	quanto	a	qualquer	coisa	relacionada	à
nossa	decepção.	É	a	versão	fria	da	ira.
Procure	esperanças	frustradas	misturadas	à	ira,	mas	entenda	que	elas	geralmente
não	param	por	aí.	Esperanças	desfeitas	poderão	nos	levar	à	frustração	com
relação	a	Deus.	Tal	frustração	provoca	uma	isolação	espiritual	autoimposta,	ou
afastamento,	e	a	isolação	espiritual	conduz	à	autopiedade.
Jonas
O	profeta	Jonas	ilustra	isso	em	sua	autobiografia	bíblica.	Como	um	israelita	dos
tempos	antigos,	Jonas	esperava	que	Israel	voltasse	ao	patamar	que	atingira	sob	o
reinado	de	Salomão,	e	que	todos	os	seus	inimigos	fossem	derrotados.	Embora	o
reino	estivesse	indo	relativamente	bem,	naquela	época,	outros	profetas	já
profetizavam	um	exílio	que	ocorreria	nas	mãos	de	um	país	“de	além	de
Damasco”	(Am	5.27).	Todos	os	indicadores	apontavam	para	a	Assíria.
A	missão	de	Jonas	seria	a	de	ir	à	Assíria	e	clamar	“contra	ela,	porque	a	sua
malícia	subiu	até	mim”	(Jn	1.2).	Parecia-lhe	ser	o	trabalho	ideal,	adequado	aos
seus	próprios	sonhos:	pregar	juízo	contra	os	potenciais	opressores	de	Israel.	Mas
Jonas	resistia	à	pregação	porque	sabia	que	o	Deus	de	Israel	era	misericordioso.
Observe	a	mensagem.	A	nação	pagã	seria	avisada	do	juízo	e	receberia	uma
oportunidade	de	mudança.	Se	o	povo	na	cidade	assíria	de	Nínive	realmente	se
arrependesse	–	o	que	Jonas	supôs	ser	provável	–	Deus	os	pouparia	e	os	sonhos
de	Jonas	estariam	em	risco.
Depois,	de	um	breve	mas	notável	desvio,	Jonas	finalmente	pregou	um	sermão
magro,	que,	quando	lemos,	parece	pouco	impressionante,	inconvincente,	mas	o
povo	respondeu	de	maneira	dramática.	Houve	um	arrependimento	massivo,	e
Deus	teve	compaixão	deles.	Jonas	não	conseguiu	o	que	queria.	“Jonas
desgostou-se	e	ficou	irado”	(Jn	4.1).	Embora	o	texto	não	diga	diretamente,
sabemos	de	outros	textos	na	Escritura	em	que	a	ira	inapropriada,	não	importando
sua	direção,	em	última	instância,	é	contra	Deus.	Implica	dizer	que	Deus	não	é
bom	e	que	seus	juízos	têm	de	ser,	eles	mesmos,	julgados,	em	vez	de	fielmente
acolhidos.
Jonas	seguiu	um	caminho	desgastante.	Suas	esperanças	frustradas	e	sua	ira
desandaram	para	a	autocomiseração:	“Peço-te,	pois,	ó	Senhor,	tira-me	a	vida,
porque	melhor	me	é	morrer	do	que	viver”	(Jn	4.3).	Jonas	tinha	um	profundo
senso	de	que	Deus	é	quem	dá	e	tira	a	vida,	portanto,	o	suicídio	estava	fora	de
questão.	Assim,	ele	optou	pela	versão	do	Antigo	Testamento	do	suicídio	e	pediu
que	Deus	o	matasse.	Deus	não	lhe	dera	o	que	queria,	e	ele	estava	zangado	e	sem
esperança.
–	Você	tem	algum	direito	de	estar	zangado?	–	foi	o	que	Deus	lhe	disse.	Jonas
ignorou	a	pergunta.
No	dia	seguinte,	quando	estava	sentado	fora	dos	limites	da	cidade,	esperando,
contra	a	esperança,	que	viesse	fogo	do	céu	sobre	Nínive,	o	Senhor	deu-lhe	a
sombra	de	uma	parreira	que,	logo	em	seguida,	fez	murchar.	Jonas	ficou	ainda
mais	irado.	Queria	a	sombra,	e	Deus	não	lhe	deu	o	que	ele	queria.
–	Seria	melhor	se	eu	tivesse	morrido	do	que	vivido	–	Jonas	disse	sem	dirigir-se	a
ninguém	em	especial.
–	Você	tem	algum	direito	de	estar	zangado	por	causa	da	planta?	–	Deus	lhe
perguntou.
–	Tenho	sim.	Estou	irado	a	ponto	de	morrer	(Jn	4.8-9).
Aí	está:	a	tríade	de	expectações	não	realizadas,	ira	e	autopiedade.	Quando	a
tríade	persiste,	acaba	em	pensamentos	de	morte.
As	palavras	de	Jonas	para	nós
Assumimos	que	Jonas	tenha	escrito	essa	história,	o	que	é	surpreendente,	pois	ele
se	dispõe	a	exibir	a	própria	maldade.	Uma	coisa	era	fugir	do	chamado	de	Deus
de	pregar	a	Nínive.	Seria	espiritualmente	incorreto,	mas	politicamente	correto.
Ele	poderia	ser	interpretado	como	patriota.	Mas	outra	coisa	bem	diferente	era
revelar	autopiedade,	que	jamais	é	atraente,	e	fica	ainda	pior	quando	posta	no
papel.	Fica	patente	que	ele	quer	que	aprendamos	com	Jonas.
Deus	é	grande.	Sua	grandeza	é	exposta	nesse	curto	livro.	Antes	de	Jonas,
certamente,	Deus	sempre	foi	maior	do	que	outros	deuses,	contudo,	essa	foi	a
primeira	viagem	missionária	para	além	dos	limites	de	Israel.	Deus	está
anunciando	que	ele	é	também	o	Deus	dos	gentios.	Em	outras	palavras,	Deus	é
muito	maior	do	que	qualquer	pessoa	havia	pensado.	É	Deus	do	mundo	inteiro,
não	apenas	de	um	povo	específico.
Você	já	experimentou	uma	sensação	de	paz,	depois	de	considerar	os	majestosos
picos	das	montanhas	ou	as	expansões	do	oceano?	Testemunhamos	a	bênção	de
encontrar	algomaior	que	nós.	Nossos	próprios	fardos	ficam	mais	leves	quando
vemos	coisas	impressionantes	e	majestosas.	Tais	grandezas	claramente	apontam
para	um	Criador	maior	do	que	a	criação.	Jonas	nos	revela	um	Deus	maior	do	que
imaginávamos	–	e	esse	é	exatamente	o	remédio	de	que	precisamos	para	sairmos
de	dentro	de	nós	mesmos.
Deus	é	bom.	O	caráter	de	Deus	tem	infinitas	facetas.	“Deus	é	Espírito,
infinito,	eterno	e	imutável,	em	seu	ser,	sabedoria,	poder,	santidade	e	verdade”¹.
Destes	atributos,	e	de	muitos	outros,	a	Escritura	enfatiza	que	Deus	é	grande	e
bom,	poderoso	e	amável.	No	livro	de	Jonas,	essas	qualidades	são	todas
exibidas.	O	cerne	do	livro	está	na	defesa	de	Jonas:	“Pois	sabia	que	és	Deus
clemente,	e	misericordioso,	e	tardio	em	irar-se,	e	grande	em	benignidade,	e
que	te	arrependes	do	mal”	(Jn	4.2).	O	problema	é	que	tal	conhecimento	não
lhe	fazia	diferença;	na	verdade,	fazia	que	as	coisas,	da	sua	perspectiva,
ficassem,	até	mesmo,	piores.
É	estranho,	dada	a	confiança	que	Jonas	tinha	no	amor	de	Deus,	que	ele	evitasse
confiar	nele.	Não	acreditava	que	Deus	fosse	misericordioso	para	com	Israel?	Sua
experiência,	contudo,	é	semelhante	à	nossa.	Podemos	até	crer	que	Deus	nos	ama,
mas	não	temos	tanta	certeza	de	que	ele	nos	dará	aquilo	que	nós	queremos.
Necessitamos	ser	amados,	mas	queremos	também	ditar	o	modo	e	por	quem
somos	amados.	Jonas	cria	que	Deus	fosse	gracioso	e	compassivo,	mas	queria
esse	amor	servisse	como	juízo	e	destruição	dos	seus	inimigos.
Mais	uma	vez,	a	confissão	é	a	saída.	Ocorreu	com	Jonas	e	ocorre	conosco:
quando	afastados	da	vontade	de	Deus,	nossos	desejos	tornam-se	idólatras.	Não
queremos	que	nada	se	interponha	entre	nós	e	nosso	objeto	de	adoração.	Jonas
não	queria	se	submeter	a	Deus	–	queria	ser	um	deus.
A	confissão	reconhece	a	raiz	de	nossos	comportamentos	contrários	a	Deus.	É	o
início	de	um	processo	em	que	nos	voltamos	contra	nossos	desejos	autocentrados
e	retornamos	ao	Deus	Santo.	Quando	nos	arrependemos,	reconhecemos	quão
pequena	era	nossa	visão	do	seu	amor.	No	caso	de	Jonas,	ele	acreditava	na
bondade	de	Deus,	mas,	na	verdade,	ele	não	cria	realmente	nisso.	Acreditava	que
seus	próprios	planos	fossem	melhores.	Sua	visão	míope	do	amor	divino	era	tal
que	ele	achava	que	se	Deus	fosse	bom	para	uma	nação,	não	poderia	abençoar
outra.	Não	entendia	que	Deus	podia	ser	bom	tanto	para	Nínive	quanto	para
Jerusalém.
Talvez	concordemos	que	Deus	seja	bom.	Sabemos	o	que	Cristo	fez	por	nós	e
cremos	que	a	cruz	seja	evidência	da	bondade	de	Deus.	Mas	essa	bondade	não	faz
diferença	para	nós.	É	irrelevante	porque	o	bem	está	sendo	definido	em	nossos
termos	e	não	nos	de	Deus.	Como	crianças,	a	satisfação	de	nossos	planos,	nosso
querer,	nossos	desejos,	é	o	padrão	para	a	bondade	de	Deus.	O	livro	de	Jonas	nos
diz	que	o	bem	tem	de	ser	definido	pelos	termos	de	Deus,	e	não	pelos	nossos.	De
outra	maneira,	nos	colocamos	como	juízes	dele.
Temos	o	direito	de	estar	irados?	Jonas	é	um	livro	muito	pessoal.	Deus	não	está
simplesmente	ordenando	o	que	ele	deveria	dizer	a	Nínive	–	está	produzindo	um
diálogo	verdadeiro	com	Jonas.	Tais	conversações	são	eventos	especiais	no
Antigo	Testamento	de	modo	que	devemos	ouvi-las	com	cuidado.
Há,	no	livro	de	Jonas,	três	seções	com	as	palavras	do	Senhor.	Primeiro,	ele	dá	a
Jonas	a	mensagem	a	ser	transmitida.	Depois,	duas	vezes,	ele	pergunta	se	Jonas
tem	o	direito	de	se	irar.	Conclui,	então,	defendendo	sua	preocupação	com	o	povo
de	Nínive.	Note,	especialmente,	as	perguntas	que	Deus	faz.	Jonas	havia	fugido
de	Deus	e	estava,	agora,	zangado	e	cheio	de	autopiedade	porque	Deus	havia	sido
misericordioso.	Apesar	da	recalcitrância	de	Jonas,	Deus	lhe	responde,	ao	desejo
de	morrer,	com	uma	pergunta:	Você	tem	o	direito	de	estar	irado?
Se	você	acha	que	Deus	tirou	seus	sonhos	e	suas	esperanças,	pergunte	a	si
mesmo:	Tenho	o	direito	de	estar	irado?	Quando	pudermos	identificar	nossa
frustração	e	estivermos	tentados	a	dizer:	Sim,	tenho	todo	o	direito,	então
devemos	deixar	que	Deus	arrazoe	conosco	a	respeito	de	seu	amor.	Permitamos
que	Deus	nos	persuada	a	dizer	“não”	e	confiemos	nele.
Otimismo	seletivo
Sob	o	véu	da	passividade	da	depressão,	o	coração	está	ocupado	em	fazer
escolhas.	Às	vezes,	preferimos	o	desespero.	Queremos	isso.	Aspiramos	por	isso.
Não	seria	uma	forma	razoável	de	explicar	por	que	estamos	tão	imunes	ao
encorajamento?	Ouvimos	e	entendemos	as	palavras,	mas	não	as	queremos.
Ainda	que	a	autocomiseração	e	nossas	tentativas	de	matar	a	esperança	não
estejam	dando	certo,	somos	leais	às	nossas	estratégias	de	como	acabar	com	a
esperança.
Em	resposta,	Deus	nos	fala	palavras	de	misericórdia	e	graça,	mesmo	quando	não
confiamos	nele.	Ele	as	repete.	Ele	nos	persegue	e	faz-nos	promessas,	ao	invés	de
fazer	com	que	façamos	promessas	a	ele.
Eis	algumas	coisas	sobre	as	quais	podemos	ser	otimistas:
Ele	nunca	nos	deixará	(Hb	13.5).
Jamais	nos	colocará	em	situação	em	que	uma	resposta	pecaminosa	seja	a	única
saída	(1Co	10.13).
Ele	nos	dá	graça	sobre	graça	em	nossa	luta	contra	o	pecado	(Fp	1.6).	Podemos
ser	otimistas	porque	na	semana	que	vem	amaremos	ainda	mais	do	que	hoje.
Ele	será	achado	daqueles	que	o	buscam.	Até	mesmo	por	aqueles	que	não	o
buscam	(Rm	10.20).
Ele	nos	tornará	frutíferos	à	medida	que	permanecemos	nele	(Jo	15.8).
Os	seus	propósitos	jamais	serão	impedidos	(Ef	1.11).
Deus	sempre	diz	“sim”	a	essas	promessas.
Bom,	é	muito	bom
A	depressão	está	certa,	quando	diz	que	a	morte	e	o	pecado	lançam	uma	sombra
sobre	tudo.	Existe	razão	para	nos	sentirmos	miseráveis.	Mas	estará	errada,
acomodando-se	a	tal	interpretação.	Essa	não	é	toda	a	história.	O	Rei	Jesus	voltou
e	está	estabelecendo	o	seu	reinado.	Esse	reino	rompeu	com	grande	poder	quando
o	Espírito	Santo	foi	dado	e	continua	a	crescer	(Mc	4.30-32).
Sendo	assim,	a	depressão	enxerga	algumas	coisas	com	acuidade,	mas	é
totalmente	cega	quanto	a	outras.	Não	vê	como	o	Espírito	do	Deus	Vivo	está
operando,	agora	mesmo,	à	nossa	frente.
Deste	lado	da	cruz,	a	miséria	persiste,	mas	a	balança	está	inclinada	na	direção	da
alegria.	O	Rei	está	assentado;	a	celebração	já	começou	no	céu;	não	é	possível
que	sejamos	amados	mais	do	que	já	somos;	existem,	agora,	à	nossa	disposição,
os	sabores	do	céu.	Existem	realidades	presentes	que	sustentam	nossas
esperanças.
Ore	pedindo	que	seus	olhos	sejam	abertos.
Resposta
Quer	tenhamos	matado	as	esperanças	quer	jamais	as	tenhamos	alimentado,	a
desesperança	será	letal.	Já	ouvimos	a	pergunta:	“Você	quer	mudar?”	Agora
compreendemos	por	que	a	pergunta	é	tão	importante.	Existem	razões	lógicas
para	resistir	às	mudanças.	Por	exemplo:	“E	se	a	esperança	despontar?”	Poderá
ser	que	queiramos	nos	sentir	menos	mal,	mas	não	a	ponto	de	despertar	a
esperança.	Certamente	Jonas	não	queria	mudar,	pelo	menos	não	no	começo.	É
provável	que	queiramos	menos	as	mudanças	do	que	reconhecemos.	Não	nos
enganemos.	Curtimos	o	desespero.	Escolhemo-lo.	Mas	existe	uma	saída.
Em	parte,	a	resposta	volta	ao	que	Deus	diz	às	pessoas	temerosas.	A	ligação	é	que
o	temor,	como	a	desesperança,	reluta	em	confiar	o	futuro	a	Deus.	Deus	diz	que
nos	dará	a	graça	para	lidar	com	as	decepções	que	estão	à	nossa	frente.	Nossa
tarefa	é	vivermos	por	ele,	no	presente.	No	começo,	isso	nos	parece	arriscado,
como	se	estivéssemos	apreciando	a	emoção	de	um	carro	de	corrida,	aguardando
a	devastação	na	próxima	curva.	Mas	não	é	temerário	confiar	em	Deus	em	lugar
de	confiar	em	nós	mesmos.
Lutar	contra	o	desespero,	portanto,	é	tomar	uma	atitude	no	presente.	Você	acha
que	marcar	uma	lista	de	coisas	para	fazer	seria	falta	de	espiritualidade?	Se	essa
lista	for	feita	pela	fé,	será	um	ato	heroico.
Existem	paradoxos	na	depressão;	aparentemente	há	outros	na	maneira	que	Deus
opera	em	nós.	Por	exemplo,	se	quisermos	vitalidade	no	presente,	teremos	de
confiar	nosso	futuro	ao	Senhor.	Se	quisermos	vislumbres	de	esperança	para
amanhã,	confiemos	em	Deus	agora.
Quais	são	suas	esperanças	desfeitas?	O	que	você	fez	com	elas?	Onde	estão	suas
esperanças	novas,	emergentes?
1	Breve	Catecismo	de	Westminster,	resposta	à	Pergunta	4.
Capítulo	18
Fracasso	e	vergonha
						As	esperanças	são	desfeitasquando	queremos	alguma	coisa	e	não	a
conseguimos.	Por	exemplo,	sonhamos	com	segurança	financeira	antes	dos
quarenta	anos	de	idade,	mas	permanecemos	vivendo	na	penúria.	Embora
estejamos	nos	esforçando	no	trabalho,	a	instabilidade	econômica	conspira	contra
nós.	Ou	sonhamos	com	o	casamento	ideal,	contudo	duvidamos	que	exista	um
Homem	Ideal.	Parece	que	a	pessoa	errada	é	que	sempre	se	interessa	por	você	e	a
certa	se	interessou	por	outra.
Note	que	nem	sempre	alcançamos	nossas	esperanças	por	nós	mesmos.	O	objeto
desejado	nem	sempre	está	ao	nosso	alcance.	Precisamos	de	ajuda	para	atingi-lo.
Por	isso	é	que	não	nos	culpamos	imediatamente	por	possíveis	decepções,	já	que
não	conseguimos	controlar	os	resultados.
Mas	com	o	fracasso	e	a	vergonha	é	diferente.	Eles	apontam	o	dedo	contra	nós
mais	do	que	contra	as	circunstâncias	externas.	Não	somos	medidos	conforme
nossas	próprias	expectativas	ou	pelas	expectações	dos	outros.	Dá	para	ver	isso
até	no	modo	que	nos	postamos,	como	se	as	expectações	e	os	padrões	fossem
peso	que	nos	rebaixassem.	Quase	conseguimos	senti-los;	parece	que	surgirão
como	excesso	de	peso	na	balança	do	banheiro.	O	peso	está	sobre	você.	Não
existe	ninguém	mais	para	culpar.
Já	vimos	como	a	vergonha	poderá	contribuir	para	a	depressão.	Mas	desta	vez,
em	lugar	de	ligar	a	vergonha	ao	sentimento	de	vitimização,	observe	como	a
vergonha	e	o	nosso	senso	pessoal	de	fracasso	vão	de	mãos	dadas.	Isso	poderá
acontecer	mesmo	que	não	tenhamos	sido	feridos	por	outras	pessoas.	Em	outras
palavras,	o	senso	de	vergonha	é	algo	que	criamos	sozinhos.	Surge	muito
naturalmente	de	nosso	próprio	coração.
Padrão	de	quem?
A	depressão	anda	de	mãos	dadas	com	a	baixa	autoestima,	que	é	apenas	mais	uma
expressão	popular	para	descrever	o	baixo	nível	de	vergonha.	Faz	parte	até	da
definição	de	depressão	da	Associação	Americana	de	Psiquiatria.	Esse	senso	de
falta	de	valor	atinge	tudo	que	fazemos;	estende-se	até	mesmo	a	quem	nós	somos
(com	efeito,	se	não	estivermos	experimentando	uma	baixa	autoestima,	poderá	ser
que	estejamos	sofrendo	de	um	problema	médico	que	imita	a	depressão).
Os	seres	humanos	pesam	o	valor	–	não	existe	dúvida	quanto	a	isso.	Fazemos
juízos	quanto	a	pessoas,	música,	arte	e	centenas	de	outras	ocorrências	de	um	dia
normal.	São	bons	ou	maus,	valiosos	ou	descartáveis,	certos	ou	errados.	Não	é	de
surpreender	que	também	façamos	juízo	quanto	a	nós	mesmos.	De	acordo	com
algum	padrão,	determinamos	não	ter	atingido	a	meta.
De	quem	é	o	padrão?	O	modelo	varia,	mas	as	consequências	emocionais	são	as
mesmas.	Sentimo-nos	rebaixados	e	ficamos	soterrados	sob	o	autodesprezo.
Poderá	ser	o	padrão	das	expectativas	de	nossos	pais,	comunicadas	diariamente
por	meio	de	críticas,	castigos	imprevisíveis	ou	indiferença.
Talvez	o	padrão	das	expectações	culturais	de	sucesso	e	fracasso	que	se	tornam
aparentes	quando	recebemos	um	convite	para	um	encontro	de	ex-alunos	do
colégio.
Poderá	ser	o	padrão	dos	inalienáveis	mandamentos	de	Deus.
Qualquer	que	seja	esse	modelo,	nós	falhamos.	O	resultado	é	que	a	baixa
autoestima	se	evidencia	em	todo	mundo.	Encontramo-la	no	médico	abastado,	no
atleta	profissional,	na	modelo	fugidia	e	na	estrela	de	cinema.	Os	autojuízos	dos
deprimidos	apenas	tendem	a	ser	mais	gritantes.
A	saída	nos	parece	clara:	rejeitar	os	padrões	impostos	por	outros;	não	nos
preocuparmos	com	os	mandamentos	de	Deus,	porque	ninguém	consegue	mesmo
segui-los;	fazer	nova	avaliação,	com	padrões	menos	opressores,	mais
equilibrados	e	justos.	Como	todo	mundo,	somos	híbridos	de	bons	e	maus,	de
forças	e	fraquezas.	Se	formos	avaliar	o	mau,	teremos	de	incluir	o	bom.	Isso,
esperamos,	manterá	nossa	autoimagem	bem	equilibrada.
O	problema	é	que	não	é	assim	tão	fácil.	Mesmo	que	pudermos	encontrar	pontos
fortes	e	algum	bem	em	nós	mesmos	–	o	que	é	quase	impossível	quando	sob
depressão	–,	não	conseguiremos	equilibrá-los	com	tudo	aquilo	que	nos	faz	sentir
pessoas	desvalorizadas.	As	pessoas	que	nos	amam	já	afirmaram	nosso	valor,	mas
não	fez	nenhuma	diferença.	Existe	um	problema	mais	profundo	a	ser
confrontado.
Precisamos	mudar	nossa	orientação,	lembrando	da	natureza	do	coração	humano.
Muitos	problemas	nos	sobrevêm,	contudo,	nenhum	deles	encontra	um	interior
vazio.	São	interpretados	por	corações	constantemente	ocupados.	Quando
deprimidos,	nos	sentimos	como	cascas	vazias,	mesmo	fazendo	alguma	coisa.
Lembre-se,	o	coração	está	sempre	fazendo	escolhas.
Com	isso	em	mente,	procure	reestruturar	sua	experiência.	Por	exemplo,	em	vez
de	pensar	que	está	oprimido	por	expectativas	que	outros	lançaram	sobre	seus
ombros,	reconheça	que	o	coração	é	que	escolhe	viver	sob	o	padrão	dos	outros.
Em	vez	de	pensar	que	está	aflito	porque	as	pessoas	não	se	agradam	de	você,
perceba	que	houve	uma	escolha	de	um	estilo	de	vida	para	obter	a	aprovação	dos
outros.
Não	queremos	experimentar	a	vergonha	e	o	fracasso;	isto	nós	não	escolhemos.
Mas	escolhemos	confiar	nas	outras	pessoas	e	em	seus	juízos.	Mais	uma	vez
voltamos	à	questão	mais	profunda:	em	quem	nós	confiamos?
A	Escritura	mostra	que	viemos	de	uma	longa	linha	de	idólatras	incorrigíveis.
Tempos	atrás,	era	Baal;	mas	Baal	jamais	foi	o	ídolo	favorito.	Os	verdadeiros
prediletos	sempre	foram	o	dinheiro	e	as	pessoas.	Esses	dois	continuam	a	ser	os
objetos	mais	populares	de	culto.	Por	que	escolhemos	tais	ídolos?	Porque
pensamos	que	eles	conseguirão	nos	satisfazer.	Achamos	que	eles	nos	darão
aquilo	que	queremos.
Aplicando	isso	à	depressão:	queremos	admiração,	respeito,	honra,	influência,
bondade	ou	amor.	Podemos	comprar,	mas	preferimos	que	as	pessoas	nos	deem
aquilo	que	desejamos.	Vivemos,	assim,	com	base	nas	expectações,	opiniões	e
padrões	colocados	por	outras	pessoas.	Os	outros	se	tornaram	nossos	deuses.	O
nosso	propósito,	é	claro,	não	é	o	de	nos	submeter	a	eles.	Nosso	alvo	é	o	de
receber	aquilo	que	queremos	por	meio	da	pacificação	de	demandas.	Dar-lhes	o
que	eles	querem	para	que	nos	deem	o	que	nós	precisamos.
Mas	o	diabo	está	nos	detalhes.	As	letras	miúdas	desse	arranjo	prometem	duas
coisas:	Primeiro,	os	outros	jamais	nos	satisfarão.	Jamais	conseguiremos	alcançar
a	medida	de	seus	padrões	nem	obter	o	suficiente	daquilo	que	queremos	deles.
Segundo,	nos	tornamos	servos	daquilo	em	que	pomos	nossa	confiança.	Se
confiarmos	no	dinheiro,	estaremos	escravizados	à	sua	obtenção	e	preocupados
quando	ele	faltar.	Se	confiarmos	em	pessoas,	nossa	vida	será	dedicada	à
conformação	com	suas	expectativas.
Não	quer	dizer	que	seja	errado	desejar	respeito,	amor	e	outras	coisas	que
obtemos	dos	relacionamentos.	Geralmente,	a	idolatria	diz	respeito	a	coisas	que
seriam	boas,	mas	foram	degradadas.	Podemos	perceber	que	algo	deu	errado,
quando	deixamos	o	alvo	da	glória	de	Deus	para	perseguir	o	alvo	de	nossa	própria
glória.	Queremos	ser,	nós	mesmos,	o	assunto	em	pauta	–	mas	não	somos.
Às	vezes,	é	difícil	detectar	a	deificação	gradativa	das	pessoas	em	nossa	vida.
Nosso	coração	ergue	os	pedestais	para	os	ídolos	ao	mesmo	tempo	em	que	lhes
voltamos	as	costas.	Contudo,	há	um	meio	bastante	fácil	para	nos	alertar	quanto
ao	que	ocorre.	Quando	estamos	mornos	em	relação	a	Deus,	ou	quando	não
estamos	fixando	os	olhos	em	Jesus,	podemos	estar	certos	de	que	a	idolatria
lançou	raízes.	Se	não	estivermos	adorando	ao	Deus	verdadeiro,	estamos
adorando	a	outra	coisa.
Uma	estratégia	ainda	mais	fácil	será	presumir	que	nós	forjamos	ídolos.	O
coração	pode	crer	nas	coisas	certas	e	ainda	assim	ser	dobre.	Como	foi	com	Arão
e	Israel,	quando	esperavam	por	Moisés,	acreditavam	que	o	Deus	verdadeiro	os
livrara	do	Egito,	mas,	ainda	assim,	forjaram	um	bezerro	de	ouro.
Deuses/pessoas
Se	o	fracasso	e	a	vergonha	cabem	em	nossa	experiência,	é	provável	que
tenhamos	feito	das	pessoas	deuses.	Queremos	alguma	coisa	delas	e	elas	não	nos
deram	o	que	queríamos.	A	depressão	não	isenta	dos	problemas	que	afligem	a
todos,	e	cada	um	de	nós	instintivamente	nos	desviamos	de	Deus	em	direção	às
pessoas.
A	princípio,	a	isolação	da	depressão	sugere	que	estejamos	distantes	das	pessoas	e
impassíveis	quanto	a	elas.	Mas	os	outros	significam	enorme	parcela	de	nosso
autojuízo.	Uma	pessoa	realmente	isolada	–	perdidanuma	ilha	deserta	–	não
precisará	negociar	a	vergonha	e	o	fracasso.	Não	há	ninguém	recontando	as	falhas
pessoais	e	absolutamente	ninguém	em	quem	confiar.	Mas	não	vivemos	em	ilhas
desertas.	Poderemos,	até	mesmo,	tentar	uma	fuga	psicológica,	mas	as	pessoas
estão	ao	nosso	redor,	e	sua	presença	nos	lembra	de	que	não	estamos	à	altura
esperada.	Além	disso,	por	mais	que	procuremos	fugir,	nosso	coração	vai
conosco.	Não	escapamos	por	meio	de	uma	mudança	geográfica.
A	baixa	autoestima	e	o	senso	de	fracasso	e	vergonha	não	surgem	somente	porque
nos	sentimos	mal	quanto	a	nós	mesmos.	Confiamos	em	outras	pessoas	e
achamos	que	elas	se	sentem	mal	a	nosso	respeito.	Talvez	tenhamos
experimentado	a	rejeição	por	parte	de	alguém	que	nos	era	importante,	mas	a
verdade	é	que	não	precisamos	que	alguém	fale	mal	de	nós.	Nós	sabemos	que
falhamos.	Conhecemos	pessoas	que	fazem	as	coisas	de	maneira	melhor	do	que
nós,	são	mais	atraentes,	aparentam	relacionamentos	mais	íntimos	do	que	os
nossos,	melhores	empregos,	e	assim	por	diante.	É	como	se	tivéssemos	nascido
com	capacidade	de	fazer	uma	pesquisa	pelo	mundo	afora,	quanto	a	centenas	de
medidas	diferentes,	e	naquelas	que	nos	são	mais	importantes	atribuímos	nota
média	ou	baixa.	Tememos	ser	comuns,	ordinários.
Derrubar	os	ídolos
Você	reconhece,	é	claro,	que,	falando	sobre	confiar	em	alguém	ou	em	alguma
coisa	que	não	Deus,	falamos	sobre	o	pecado.	Por	favor,	não	fuja	disso.	O	pecado
passou	a	ser	nome	feio	para	aqueles	que	se	postam	como	juiz	hipócrita	contra	o
próximo.	O	próprio	Espírito	é	quem	nos	convence	do	pecado.	Deus	se	agrada
quando	percebemos	nosso	pecado	e	o	confessamos.
Uma	das	bênçãos,	quando	percebemos	nosso	pecado,	é	que	realmente	podemos
fazer	algo	a	respeito	dele:	clamar	por	misericórdia,	alcançá-la	e	mudar.	O
Espírito	nos	foi	dado	para	que	não	fôssemos	mais	escravos	do	pecado.	Existe
uma	saída.
Quando	estivermos	em	dúvida,	a	saída	será	voltar	às	declarações	básicas	de
propósito.	“Pertenço	a	Deus.	Posso	honrar,	agradar	e	glorificar	ao	Senhor	por
meio	da	confiança	e	da	obediência”.	Amar	a	Deus	e	ao	próximo.	Confiar	e
obedecer.	Em	seu	plano	generoso,	Deus	determinou	que	tais	atos	espirituais
comuns	fossem	o	ápice	da	verdadeira	humanidade.
Confiança.	Quando	confiamos	no	juízo	de	outros,	estamos	dizendo	a	Deus	que
não	confiamos	nele.	“O	Senhor	não	basta”.	Acreditamos	que	Deus	nos
ofereça	o	céu,	mas	será	que	irá	satisfazer	nossos	crescentes	desejos
psicológicos?	Será	que	ele	nos	conferirá	a	nota	máxima	que	desejamos,
especialmente	em	algumas	áreas	nas	quais	nos	sentimos	“regulares”	ou
“péssimos”?
Isso	não	atinge	o	ponto.	Nosso	propósito	não	trata	de	nós	mesmos;	é	sobre	Deus.
Por	essa	razão,	parece	que	Deus	escolhe	os	“médios”	e	até	os	abaixo	da	média.
Se	não	fosse	assim,	a	escolha	dependeria	de	nossos	talentos	e	capacidades.
Irmãos,	reparai,	pois,	na	vossa	vocação;	visto	que	não	foram	chamados	muitos
sábios	segundo	a	carne,	nem	muitos	poderosos,	nem	muitos	de	nobre
nascimento;	pelo	contrário,	Deus	escolheu	as	coisas	loucas	do	mundo	para
envergonhar	os	sábios	e	escolheu	as	coisas	fracas	do	mundo	para	envergonhar	as
fortes;	e	Deus	escolheu	as	coisas	humildes	do	mundo,	e	as	desprezadas,	e
aquelas	que	não	são,	para	reduzir	a	nada	as	que	são	(1Co	1.26-28).
Pelo	que	sinto	prazer	nas	fraquezas,	nas	injúrias,	nas	necessidades,	nas
perseguições,	nas	angústias,	por	amor	de	Cristo.	Porque,	quando	sou	fraco,
então,	é	que	sou	forte	(2Co	12.10).
Assim	diz	o
Senhor
:	Não	se	glorie	o	sábio	na	sua	sabedoria,	nem	o	forte,	na	sua	força,	nem	o	rico,
nas	suas	riquezas;	mas	o	que	se	gloriar,	glorie-se	nisto:	em	me	conhecer	e	saber
que	eu	sou	o
Senhor
e	faço	misericórdia,	juízo	e	justiça	na	terra;	porque	destas	coisas	me	agrado,	diz
o
Senhor
.	(Jr	9.23-24)
A	vida	não	é	sobre	meu	currículo	–	mas	como	estender	a	fama	de	Jesus.	Uma
forma	de	fazê-lo	é	admitir	que	Deus	é	mais	que	suficiente.	Afinal	de	contas,	ele
é	amor.	Isto	foi	provado	na	cruz.	Todos	os	demais	amores	são	figuras	que
deveriam	apontar	e	não	usurpar	o	lugar	do	original.
Confiar	é	dizer	que	carecemos	de	Jesus.	Nossa	busca	por	autorrealização	foi	um
fracasso,	e	agora	nos	voltamos	Àquele	que,	afinal,	sempre	foi	nosso	destino
verdadeiro.
Existe	certo	paradoxo	em	confiar	em	Deus.	Ao	confiar	nele,	estamos
reconhecendo	que	somos	totalmente	inadequados	–	o	que	é	verdade,	ainda	que
isso	não	faça	maravilhas	para	nossa	autoimagem.	Mas,	quando	confiamos	nele,	é
também	como	se	tivéssemos	retornado	ao	lar.	Tudo	fica	bem.	Sim,	ainda	haverá
problemas,	mas	nós	estamos	em	casa,	e	o	conforto	e	a	alegria	do	lar	reduzem	os
problemas	da	vida	ao	nível	de	simples	incômodo.	Temos	o	amor	do	Pai	e
sabemos	que	ele	é	o	Rei	que	está	no	trono.	Isto	basta.
Confissão.	Ao	voltarmos	ao	lar,	colocamos	nossa	confissão	aos	pés	do	Senhor.
Dizemos	a	ele	que	nosso	coração	tende	a	vaguear	e	que	nossa	tendência	para
erigir	ídolos	é	incorrigível.	Confessar	é	dizer	ao	Senhor	a	verdade	sobre	o
nosso	coração.	Embora	a	Escritura	nos	estimule	a	fazer	da	confissão	uma
característica	diária	de	nossa	conversa	com	Deus	(Mt	6.9-13),	essa	é	uma
disciplina	negligenciada.
Uma	regra	básica	da	confissão	é	continuar	a	expor	o	coração	até	que
vislumbremos	esperança	ou	alegria.	Confissão	não	é	tempo	de	rastejar	diante	do
Senhor.	É	hora	de	confiar	no	Deus	que	se	compraz	em	nos	perdoar,	porque	isso	o
glorifica.	Não	se	esqueça	da	alegria	do	pastor	que,	encontrando	uma	ovelha
perdida,	toma-a	em	seus	braços.
Que	vos	parece?	Se	um	homem	tiver	cem	ovelhas,	e	uma	delas	se	extraviar,	não
deixará	ele	nos	montes	as	noventa	e	nove,	indo	procurar	a	que	se	extraviou?	E,
se	porventura	a	encontra,	em	verdade	vos	digo	que	maior	prazer	sentirá	por
causa	desta	do	que	pelas	noventa	e	nove	que	não	se	extraviaram.	Assim,	pois,
não	é	da	vontade	de	vosso	Pai	celeste	que	pereça	um	só	destes	pequeninos.	(Mt
18.12-14)
Sim,	nós	nos	extraviamos,	mas	o	foco	está	na	felicidade	do	pastor.	Não	era	o	que
você	esperava.
Obediência.	Nossa	reação	ao	amor	de	Deus	é	resumida	no	amor	ao	próximo.
Essa	simples	expressão	de	obediência	é	um	tratamento	profundo	para	a	falha
e	a	vergonha.	A	princípio,	parece	contraproducente.	Afinal,	nosso	problema	se
resumia	em	que	nos	apaixonávamos	por	aquilo	que	desejávamos	receber	dos
outros;	na	possibilidade	de	não	recebermos,	faria	mais	sentido	nos	afastarmos
deles.	Mas	este	amor	é	diferente.	É	o	amor	de	alguém	que	foi	liberto	e	não
escravizado.	Tendo	recebido	o	amor	de	Cristo,	estamos	dispostos	a	dizer	ao
próximo:	“Meu	desejo	de	amá-lo	terá	mais	peso	do	que	minha	vontade	de	ser
amado	[honrado,	apreciado,	respeitado]”.
Pode	imaginar	a	liberdade	que	existe	aí?	Não	somos	mais	dominados	pela
opinião	popular.	A	percepção	da	rejeição	já	não	nos	controla	como	antes.	Em	vez
disso,	voltamos	à	questão:	“Que	forma	o	amor	assumirá,	agora?”
Resposta
Observe	a	conexão	com	a	ira.	Se	a	ira	for	juízo	que	fazemos	dos	outros,	a	baixa
autoestima	parecerá	juízo	que	fazemos	de	nós	mesmos.	Dizemos:	“Eu	estou
errado.	Eu	mereço	a	culpa”.	A	ligação	com	a	ira	é	ainda	mais	aparente	quando
damos	outro	nome	à	baixa	autoestima:	ódio	ou	desprezo	de	si	mesmo.
Quando	nos	voltamos	a	Cristo,	tais	juízos	tornam-se	menos	importantes.	Não
precisamos	dizer:	“Sou	especial	porque	Deus	me	ama”,	o	que	é	verdade,	mas
não	é	a	questão	principal.	Não	precisamos	dizer:	“Como	sou	um	desgraçado
miserável	e	idólatra”	–	que	também	é	verdade,	mas	também	não	é	a	questão
principal.	Em	vez	disso,	simplesmente	pensemos	com	menos	frequência	a	nosso
próprio	respeito.	Nossos	sucessos	e	fracassos	serão	observáveis,	mas	não	nos
estorvarão	como	antes.
Capítulo	19
Culpa	e	legalismo
						O	fracasso	e	a	vergonha	são	sinalizadores.	Parece	que	só	têm	a	ver	conosco
mesmos	ou	com	nosso	relacionamento	com	o	próximo,	mas,	na	verdade,
apontam	para	o	senso	mais	profundo,	de	não	estar	em	paz	com	Deus.	Este	é	o
princípio:	se	você	vê	um	problema	em	seus	relacionamentos	com	as	pessoas,
encontrará	problema	idêntico	em	sua	relação	com	Deus.	Se	estiver	irado	contra
as	pessoas,	descobrirá	ira	contra	Deus.	Se	alguém	não	amar	ao	próximo,	nãoamará	a	Deus.	Se	você	sente	que	não	consegue	atingir	as	expectações	dos	outros
ou	as	suas	próprias,	também	não	atingirá	os	padrões	de	Deus.	Aquilo	a	que
chamamos	de	fracasso,	vergonha	e	de	“não	alcançar	as	expectações	das
pessoas”,	chamamos	de	culpa	diante	de	Deus.
Para	entendermos	isto,	temos	de	nos	lembrar	que	nem	sempre	estamos
conscientes	daquilo	que	nos	influencia.	Neste	momento,	existem	milhares	de
pessoas	que,	de	alguma	forma,	contribuíram	para	a	nossa	vida.	Afetaram	nossas
emoções,	pensamentos	e	sonhos	atuais,	mas	não	estamos	cônscios	disso.	Não
deve	nos	surpreender	que	o	Deus	Vivo,	em	cuja	face	sempre	vivemos,	tenha
impacto	sobre	nós,	estejamos	ou	não	pensando	nele.
Onde	está	a	culpa?
“Laura	engordou	demais.	Parece	que	vai	estourar”.
Quando	dizemos	uma	coisa	dessas	a	alguém,	que	não	seja	a	Laura,	não	nos
sentimos	culpados.	Mas,	e	se	Laura	estiver	ouvindo?	Você	não	vai	querer	vê-la
novamente	ou	ficará	se	desculpando	sem	parar.	Por	que	não	percebemos	nosso
erro	em	dados	momentos	e	nos	envergonhamos	dele	em	outros?	A	diferença,	é
claro,	está	na	presença	de	Laura.
A	Escritura	ensina	que	todos	nós	conhecemos	a	Deus,	mas	tentamos	suprimir
esse	conhecimento.	Para	os	que	conseguem	afastá-lo,	Deus	lhes	parece	bem
distante.	O	sentimento	de	culpa	também	deixa	uma	lembrança	distante.	Contudo,
para	o	restante	de	nós,	em	quem	o	conhecimento	de	Deus	continua	a	se
impressionar,	a	culpa	é	palpável	e	nos	afeta	muito	mais	do	que	pensamos.	Isto	é
um	bom	sinal	–	é	um	dom!	Significa	que	Deus	está	agindo	em	nossa	vida,
dando-nos	graça	para	perceber	quando	pecamos	e	para	transformar-nos	em	vez
de	permitir	que	continuemos	cegos	para	o	pecado.
Se	você	não	consegue,	imediatamente,	encontrar	culpa	em	sua	vida,	eis	algumas
perguntas	que	poderão	ajudar	a	vir	à	tona:
Se	você	visse	a	Deus	face	a	face	hoje,	haveria	alguma	coisa	de	que	se
envergonhar?
Se	todos	os	seus	pensamentos	particulares	fossem	expostos,	você	iria	querer	se
esconder?
Como	ter	certeza	de	que	você	foi	perdoado	de	todos	os	seus	pecados?	Você	sente
a	vida	diferente?
Como	saber	que	o	Pai	Celestial	o	aceita	com	entusiasmo?
A	única	hora	em	que	as	pessoas	falam	sobre	culpa	é	durante	o	sermão	de
domingo.	A	culpa	não	faz	parte	de	nossas	conversas	normais.	Assim,	não
estamos	acostumados	a	procurá-la.	Mas,	se	formos	pacientes,	nós	a
encontraremos.
Variedades	de	culpa
Existem	numerosas	razões	pelas	quais	podemos	nos	sentir	culpados.
1.	Sentimo-nos	culpados	porque	devemos	sentir	culpa.	Amamos	o	pecado	mais
do	que	a	Deus,	e	planejamos	continuar	pecando.	De	vez	em	quando,	inserimos	a
desculpa:	“Errar	é	humano”.
2.	Sentimo-nos	culpados	porque	não	confessamos	nosso	pecado	a	Deus.
“Confessei-te	o	meu	pecado	e	a	minha	iniquidade	não	mais	ocultei.	Disse:
confessarei	ao
Senhor
as	minhas	transgressões;	e	tu	perdoaste	a	iniquidade	do	meu	pecado”	(Sl	32.5).
3.	Sentimo-nos	culpados	porque	ainda	existem	consequências	dos	pecados
passados.	Por	exemplo,	um	membro	da	família	foi	ferido	gravemente	por	você
ter	dirigido	embriagado,	e	você	vê	essa	pessoa	todos	os	dias.	Assumindo	que
tenha	havido	confissão	e	restituição	necessárias,	isso	seria,	acertadamente,	mais
tristeza	do	que	culpa	diante	de	Deus.
4.	Sentimo-nos	culpados,	mas	poderá	ser	que	o	que	estamos	sentindo,	na
verdade,	é	um	senso	de	impureza	por	termos	sido	vitimizados	por	outra	pessoa.
Às	vezes,	é	difícil	distinguir	entre	a	experiência	desse	sentimento	de	impureza
quanto	a	nosso	próprio	pecado	e	a	da	impureza	que	sentimos	devido	ao	pecado
de	outros.	Entretanto,	eles	são	bem	diferentes.
5.	Sentimo-nos	culpados	porque	achamos	que	temos	de	fazer	alguma	coisa	a	fim
de	sermos	perdoados.
É	essa	última	espécie	de	sentimento	de	culpa	que	tem	relevância	especial	em
relação	à	depressão.
O	evangelho
A	história	da	cruz	é	também	chamada	de	evangelho,	que	significa	simplesmente
boas-novas.	O	que	a	torna	boas-novas	é	que	existe	perdão	de	pecados.	Esse
perdão	é	dado	pela	fé	em	Jesus	e	não	por	nossas	próprias	boas	obras.	É	por	essa
razão	que	ouvimos,	vez	após	vez,	o	chamado	para	confiar	em	Deus.	Se
quisermos	dar	fundação	à	nossa	vida,	será	pela	confiança	e	fé	naquilo	que	Deus
fez	por	meio	de	Jesus.
Pois	não	me	envergonho	do	evangelho,	porque	é	o	poder	de	Deus	para	a
salvação	de	todo	aquele	que	crê,	primeiro	do	judeu	e	também	do	grego;	visto	que
a	justiça	de	Deus	se	revela	no	evangelho,	de	fé	em	fé,	como	está	escrito:	O	justo
viverá	por	fé.	(Rm	1.16-17)
Em	vos	converterdes	e	em	sossegardes,	está	a	vossa	salvação;	na	tranquilidade	e
na	confiança,	a	vossa	força.	(Is	30.15)
Sem	nenhuma	dúvida,	tudo	isso	é	divino.	Ninguém	poderia	inventar	um	arranjo
assim	tão	unilateral.	Pecamos	contra	Deus	–	é	o	que	trazemos	à	mesa.	Deus	nos
busca,	envia	seu	Filho	para	sofrer	a	pena,	adota-nos,	dá-nos	a	justiça	de	Jesus,
transforma-nos	para	que	sejamos	cada	vez	mais	parecidos	com	ele,	e	nos	ama
por	toda	a	eternidade.	Deus	nos	diz	simplesmente	para	confiar	nele	em	vez	de
confiar	em	nós	mesmos.
Legalismo:	o	antievangelho
Uma	vez	que	tenhamos	ouvido	as	boas-novas,	deveríamos	abraçá-las	de	todo
coração.	Encontramos	a	pérola	de	grande	preço.	O	maior	e	mais	precioso
presente	nos	foi	dado;	e	o	Doador	se	alegra	em	dá-lo	porque	ele	nos	ama.
Eureca!	É	o	tesouro	que	esperávamos.	Tudo	mais	que	procurávamos	e
adorávamos	eram	meras	falsificações	desse	dom	maravilhoso.	Em	face	do	que
temos	recebido,	jamais	deveríamos	buscar	outras	coisas.
Pensamos	que	essa	deveria	ser	nossa	resposta,	mas	há	horas	em	que
surpreendemos	até	a	nós	mesmos.	Por	alguma	razão,	gostamos	do	arranjo
antigo,	em	que	temos	de	vencer	por	conta	própria.	Talvez,	a	ideia	de	que	não
tenhamos	nada	para	trazer	à	mesa	de	negociação	seja	humilhante	demais	para
nós.	Afinal,	pensamos,	só	uma	criança	reconhece	a	própria	carência,	e	é	isso
que	o	evangelho	requer	de	nós.	Temos	de	dizer:	preciso	de	Jesus.	Para	evitar
isso,	defendemos	algo	mais	que	vai	além	do	evangelho.
Este	antievangelho	se	chama	legalismo,	justiça	pelas	obras,	ou	viver	debaixo	da
lei.	Significa	que	confiamos	em	Cristo	e	em	mais	alguma	coisa	que	façamos.	No
Novo	Testamento,	a	circuncisão	era	a	obra	acrescentada.	Hoje,	deixamos	a
circuncisão,	mas	nossas	alternativas	criativas	não	têm	limites.	Acrescentamos
centenas	de	outras	atividades,	algumas	das	quais	aparentemente	bastante
piedosas.	Por	exemplo,	na	época	medieval	as	pessoas	se	flagelavam	para
demonstrar	tristeza	em	face	do	pecado.	Hoje,	pessoas	com	anorexia	morrem	de
fome;	outras	simplesmente	coxeiam	em	autodesprezo.
Poderá	parecer	contrição	religiosa	até	que	pensemos	melhor	no	assunto.	Então,
perceberemos	que	acrescentar	qualquer	coisa	ao	que	Cristo	já	fez	por	nós
significa	diminuir	a	glória	de	Deus,	rejeitando	o	dom	de	Deus	como	insuficiente.
Tentamos	nos	desculpar,	dizendo	que	o	evangelho	parece	bom	demais	para	ser
verdade.	Mas,	não	importa	o	que	dissermos,	quando	acrescentarmos	qualquer
coisa	ao	evangelho,	minimizamos	a	obra	completa	de	Deus,	e,	em	essência,
estaremos	tentando	compartilhar	a	glória	de	Deus,	trazendo	à	mesa	o	nosso
próprio	dom.
Encontrando	o	legalismo
O	legalismo	é	mais	comum	do	que	imaginamos.	É	um	daqueles	instintos
humanos	que	encontramos	alojados	em	cada	coração.
Você	já	disse:	“Simplesmente	não	posso	me	perdoar”?
Sua	vida	é	uma	longa	litania	de:	“Se	eu	simplesmente	pudesse...”?
Outros	já	o	chamaram	de	compulsivo?
Você	está	sob	o	peso	de	pecados	passados?
Você	acredita	que	Deus	está	cronicamente	decepcionado	com	você?
Você	acredita	que	Deus	goste	mais	de	você	quando	você	é	realmente	bom?
Você	faz	negócios	com	Deus	do	tipo:	“Se	o	Senhor...	eu...”?
Dá	para	ouvir	nessas	perguntas	a	convicção	de	que	sua	relação	com	Deus
depende	mais	de	você	do	que	dele	mesmo?
Considere,	agora,	o	que	você	acha	que	pode	acrescentar	ao	evangelho.	A	vida	se
encontra	em	Deus	+	____________.
Servir	na	igreja.
Ler	a	Bíblia.
Não	ser	muito	maldoso.
Ser	relativamente	honesto.
Não	se	embebedar.
Ser	sexualmente	cuidadoso.
Todas	essas	coisas	são	boas.	O	que	as	torna	feias	é	o	motivo	que	as	impele.	Se
fizermos	essas	coisas	para	encontrar	o	favordiante	de	Deus,	elas	não	terão	valor.
Quando	se	tornam	atividades	em	que	confiamos,	elas	se	tornarão	abominações,
pois	tentam	substituir	a	Deus.
Fazemos	tais	acréscimos	ao	evangelho	porque	eles	permitem	que	nos	sintamos
bem	a	nosso	respeito,	à	parte	de	Deus.	Dão	também	base	para	que	julguemos	o
próximo.	Se	conseguirmos	passar	bem	pelo	dia,	medindo-nos	segundo	nossa
nova	lei,	seremos	um	sucesso	(ainda	que	temporário).	Assim,	fazemo-nos	aptos
para	julgar	aqueles	que	não	estiverem	à	mesma	altura	que	nós.
Nem	mesmo	Deus	escapa	do	nosso	julgamento.	“Tenho	sido	uma	boa	filha,
mesmo	tendo	que	morar	com	um	pai	problemático.	Por	que	Deus	está	fazendo
isso	comigo?”	Achamos	que,	se	fizermos	a	coisa	certa,	teremos	o	direito	de	obter
algo	em	troca,	e	nos	iramos	ou	nos	deprimimos	quando	não	conseguimos	aquilo
que	queremos.
Com	isso	em	mente,	observe	outros	sinais	de	legalismo.
“Depois	de	tudo	que	fiz,	esta	é	a	gratidão	que	recebo?”
“A	vida	não	é	justa”.
Existem	pequenas	compensações	de	curta	duração,	mas	a	pedra	fundamental
emotiva	do	legalismo	é	a	falta	de	alegria	(Gl	4.15).	Poderíamos	esperar	outra
coisa?	Se	acreditarmos	que	nossa	relação	mais	importante	depende	de	apaziguar
um	Deus	irado	ou	irritado,	por	mais	que	façamos,	jamais	teremos	certeza	de	ser
o	bastante.
A	realidade	é	que	quaisquer	boas	obras	que	fizermos	deverão	ser	em	reação	ao
que	Deus	já	fez,	não	às	causas	da	ação	de	Deus.	A	graça	e	o	amor	de	Deus
precedem	nossas	próprias	boas	obras.	Ele	nos	amou	antes	que	nós	o	amássemos
–	antes	mesmo	que	o	reconhecêssemos.	Dado	esse	fato,	por	que	pensar,	agora,
que	poderemos	merecer	sua	aprovação?
Jane	teve	um	aborto	há	dez	anos	e,	desde	então,	tem	estado	deprimida.	Ainda
sente	culpa	pelo	que	fez.	Não	consegue	“se	perdoar”.	Seus	amigos	persistem	em
amá-la	e	a	falar	sobre	o	perdão	dos	pecados,	e	ela	conhece	a	verdade	da	cruz,
mas,	para	ela,	isso	parece	não	ter	nenhuma	importância.	É	como	se	a	culpa	fosse
um	vírus	altamente	resistente,	imune	ao	evangelho.
O	legalismo	explica	a	aflição	de	Jane.	Ela	tem	todas	as	características	de	quem
segue	o	antievangelho.	Se	o	evangelho	em	que	ela	acredita	fosse	apenas	Cristo,
sua	tristeza	pelo	pecado	teria	sido	substituída,	cada	vez	mais,	pela	gratidão.	Mas,
para	Jane,	o	evangelho	nem	mesmo	parece	relevante.	Quando	isso	acontece,	o
antievangelho	já	o	substituiu.	Seu	antievangelho	é	que	a	vida	e	o	perdão	vêm
mais	por	meio	de	Cristo	jamais	por	um	aborto.
Tendo	violado	suas	crenças,	seus	padrões,	“ela	tem	de	ser”	castigada.	Como	não
havia	como	reverter	as	consequências	do	aborto,	ela	resolveu	que	o	seu	castigo
autoimposto	seria	uma	tristeza	longa	e	severa.	Talvez,	depois	de	um	período	não
especificado	de	sofrimento,	Jane	se	permitiria	ser	perdoada.
Mas	quão	rígida	teria	de	ser	sua	penitência?	Por	quanto	tempo?	Tentativas
múltiplas	de	suicídio	e	reflexão	diária	sobre	os	seus	atos	passados	não	lhe	eram
suficientes.	Ela	continuava	em	profunda	tristeza,	esperando	que,	algum	dia,
pudesse	acordar	e	descobrir	que	sua	penitência	havia	satisfeito	a	justiça	de	Deus.
Voltar	atrás
“Vocês,	que	querem	viver	debaixo	da	lei,	digam-me”	–	Paulo	escreveu	à	igreja.
O	evangelho	se	torna	uma	nova	lei	autoimposta,	quando	acrescentamos	qualquer
coisa	ao	que	Cristo	já	fez,	e	Paulo	diz	que,	na	verdade,	nós	preferimos	assim.
Abandonar	o	legalismo	entrincheirado	no	coração	é	o	processo	direto,	mas
poderemos	esperar	abandoná-lo	muitas	outras	vezes.	Não	acontece	de	uma	única
vez.	Na	carta	às	igrejas	da	Galácia,	Paulo	dispõe	de	numerosos	argumentos	para
nos	persuadir	da	verdade	de	Cristo	e	do	erro	do	legalismo.
	Expressa	surpresa	pessoal	porque	as	pessoas	se	desviaram	da	graça	de	Cristo
(Gl	1.6).
	Estabelece	suas	próprias	credenciais	para	falar	com	autoridade	(Gl	1.11–2.14)
	Cita	Abraão	como	o	primeiro	exemplo	de	como	foram	dadas	as	promessas,
que	recebemos	pela	fé,	e,	somente	então,	as	regras	para	a	vida.	Essas	são
respostas	à	graça	(Gl	3.1-25).	Ele	menciona	como	Deus	escolheu	a	Isaque,	filho
da	promessa	feita	a	Abraão,	em	vez	de	Ismael,	filho	de	Abraão	por	meio	de	um
plano	humanamente	engendrado	(Gl	4.21-31).
	Lembra-nos	de	que	é	somente	pela	graça	que	somos	impedidos	de	ser	racistas
e	de	outras	formas	de	orgulho.	Julgamos	as	pessoas	mediante	leis	que
presumivelmente	conseguiríamos	guardar	e	que	outros	não.	Se	acrescentarmos
nossas	obras	à	graça	de	Deus,	não	seremos	mais	povo	unificado	por	Cristo,	mas
grupo	que	se	acha	melhor	do	que	os	outros	(Gl	3.26-29).
	Enfatiza	constantemente	que	Deus	quer	que	sejamos	livres,	e	essa	liberdade	só
é	encontrada	quando	reconhecemos	que	Cristo	já	fez	tudo	por	nós	e	em	nosso
lugar	(Gl	5.1-5).
Paulo	resume	seu	ensinamento	contra	o	legalismo	com	a	conhecida	exortação:
“Porque,	em	Cristo	Jesus,	nem	a	circuncisão,	nem	a	incircuncisão	têm	valor
algum,	mas	a	fé	que	atua	pelo	amor”	(Gl	5.6).	Se	isso	for	verdade	(e	é),	como
legalistas	que	somos,	temos	de	responder	dizendo:	“Senhor,	perdoa-me”.
Estivemos	contando	com	alguma	coisa	que	nós	pudéssemos	realizar,	em	vez	de
depender	da	graça	de	Deus.	Fomos	orgulhosos	a	ponto	de	achar	que
conseguiríamos	agradar	a	Deus	com	base	em	nossos	próprios	méritos.	Para
tanto,	tínhamos	um	entendimento	muito	superficial	do	pecado.
Jane	sentia-se	culpada	porque	fizera	um	aborto,	mas	o	que	dizer	da	incredulidade
e	outros	pecados	que	ela	comete	a	cada	dia?	Enquanto	maximizava	o	pecado	do
aborto,	colocando-o	além	do	âmbito	do	perdão	e,	com	isso,	punindo	a	si	mesma,
estava	minimizando	todos	os	seus	outros	pecados.	Em	relação	a	esses,	ela	nada
fazia	para	se	punir.	Se	fosse	correta	a	tentativa	para	ganhar	o	favor	de	Deus	por
meio	do	esforço	humano,	ela	estaria	obrigada	a	cumprir	toda	a	lei	(Gl	5.3),	e
isso,	claro,	seria	impossível.
A	única	saída	para	Jane	é	dizer:	“Senhor,	perdoa-me”	–	não	por	causa	de	seu
aborto	(que	já	confessou	milhares	de	vezes),	mas	por	suas	tentativas	para
resolver	o	pecado	por	meio	de	esforços	humanos	e	não	mediante	a	fé.	Deveria,
sim,	permanecer	à	sombra	da	cruz,	diariamente	lembrando	de	que	ela	só	se
encontra	diante	de	Deus	por	causa	de	sua	graça,	não	por	qualquer	esforço
próprio,	e	continuar	em	frente	na	tarefa	maravilhosa	de	amar	as	outras	pessoas.
Resposta
No	caso	de	Jane,	o	legalismo	era	a	causa	da	depressão.	Se	essa	não	for	uma	das
causas	de	nossa	depressão,	poderemos	estar	certos	de	que,	pelo	menos,	a
depressão	será	revelada	por	ele.	E	quando	o	virmos,	poderemos	ter	esperança.
Estaremos	no	rumo	certo	quando	conseguirmos	enxergar	nosso	legalismo.
Quando	ele	for	tratado,	a	alegria	estará	a	nosso	alcance.	O	povo	da	Galácia
passava	por	severas	provações,	mas	o	que	lhes	roubava	a	alegria	era	o	legalismo.
E	seu	retorno	ao	coração	do	evangelho	foi	o	que	lhes	recuperou	a	alegria.
Para	outra	biografia,	leia	Filipenses	3.4-11.	Paulo	olhava	para	trás,	para	sua	vida
e	suas	grandes	realizações,	e	dizia	que	as	considerava	sem	valor	quando
comparadas	com	o	que	Cristo	lhe	dera	pela	fé.
Onde	você	enxerga	seu	próprio	legalismo?
Capítulo	20
Morte
						Como	filhos	de	Deus,	desejamos	a	vida.	Ele	é	o	seu	autor	e	diz	que	viver	é
bom,	e	concordamos	tacitamente	com	isso.	Naturalmente,	você	também	desejou
a	vida.	Houve	um	tempo,	em	que	a	morte,	pelo	menos	como	opção,	jamais	foi
cogitada.	Mas,	então,	ela	surgiu.
Quando	o	desejo	de	morte	apareceu,	até	mesmo	você	ficou	surpreso.	A	ideia	era
tão	estranha	que	parecia	ter	sido	implantada	por	outro	agente.	Você	se	sentia
como	um	observador	que	via	a	morte	passar	zunindo.	Com	o	tempo,	o	choque
desses	pensamentos	tornou-se	mais	comum.	Para	algumas	pessoas,	continuam
um	estorvo	terrível.	Para	outras,	tais	pensamentos	tornam-se	confortáveis,	a
ponto	de	parecerem	naturais,	bons	e	certos.
Se	estivermos	deprimidos,	certamente	temos	um	relacionamento	tumultuoso
com	a	morte.	Ao	mesmo	tempo,	desejamos	e	tememos	sua	vinda.	Graças	a	Deus,
o	temor	e	outras	circunstâncias	mantêm	muitas	pessoas	longe	de	agir	sob	esse
impulso,	mas	o	medo	não	é	um	impedimento	duradouro.	O	desespero	de	um
momento	poderá	prevalecer.	Por	favor,	tire	o	tempo	para	pensar	com	mais
profundidade	sobre	o	quesignifica	o	seu	desespero.
Pensamentos	suicidas
Existe	alguma	verdade	no	pensamento	suicida.	Quando	a	vida	é	examinada	à
parte	de	Deus,	pensamentos	de	morte	fazem	sentido.	O	escritor	de	Eclesiastes
viu	isso;	Nietsche	também,	quando	disse	que,	para	propósitos	práticos,	Deus	está
morto.	Se	Deus	está	morto,	não	existe	propósito	nem	futuro.	Nós	também
estaremos	mortos.
Mas	o	pensamento	suicida	só	enxerga	uma	parte	do	quadro.	Na	verdade,	insiste
em	só	ver	uma	parte	do	quadro	–	a	que	confirmará	sua	interpretação	da
realidade.	Se	você	já	pensou	no	suicídio,	sua	lógica	é	clara	e	simples,	mas	é
irracional.
Você	tem	certeza	de	um	futuro	catastrófico,	mas	já	previu	outras	catástrofes	e
sabe	que	tem	sido	um	profeta	calamitosamente	impreciso.
Você	pensa	que	a	morte	é	a	única	opção,	mas	se	esquece	que	há	vezes	quando	a
dor	é	menos	severa.	E	se	esquece	de	ter	feito	inúmeras	coisas	que	tornaram	a	dor
mais	tolerável.
Você	acha	que	ninguém	se	importaria	se	você	tirasse	a	própria	vida,	mas	está
cego	quanto	às	pessoas	que	já	tentaram	ajudar,	e	sabe	que	todo	suicídio	deixa
uma	vigília	de	enlutados	cujas	vidas	ficam	para	sempre	marcadas.
Você	acha	que	Deus	não	ouve	ou	não	se	importa,	mas	crê	também	que	seu	céu	é
um	paraíso	livre	de	dor.
Você	pensa	que	tem	de	resolver	problemas	impossíveis,	mas	Deus	o	chama	para
tarefas	menores	e	mais	comuns.	Chama-o	para	olhar	à	volta	e	ser	fiel	com	o	que
está	diretamente	à	sua	frente.
Preocupamo-nos	com	a	morte.	O	fato	de	que	Deus	é	vida,	por	si	só,	deveria	nos
produzir	dúvidas	quanto	ao	raciocínio	que	fizemos.	Você	poderá,	até	mesmo,
entreter	uma	satisfação	perversa	ao	considerar	meios	de	suicídio.	Mas,	tendo
experimentado	um	pouco	do	inferno,	tem	medo	da	morte.	Preocupa-se	que	a
morte	“destruiria	por	completo	a	tudo”.¹	“Pavor”	é	a	palavra	que	encerra	toda
sua	experiência.	Como	criança	assustada	que	assiste	a	um	filme	de	terror,	você
tapa	os	olhos,	mas	olha	por	entre	os	dedos.
O	pavor	é	um	desejo	por	aquilo	que	se	teme,	uma	antipatia	simpática;	pavor	é
um	poder	alienígena	que	toma	conta	do	indivíduo,	contudo,	não	podemos	nos
desprender	dele,	não	queremos...	aquilo	que	mais	tememos	nos	atrai.²
Continuam	os	paradoxos.	Você	sente	maior	desespero	do	que	qualquer	pessoa
viva.	Sente-se	incapaz	diante	do	escoadouro	da	dor.	Sente-se	absolutamente	sem
poder.	Mas	as	elucubrações	sobre	o	suicídio	são	a	expressão	máxima	da
autonomia	e	tentativa	humana	de	controle.	Contra	todo	conselho,	você	persiste
em	pensar	sobre	a	morte	e	o	suicídio.	Escolhe	o	individualismo.	Sua	própria	lei.
Faz	o	que	quer.	Parece	uma	declaração	de	independência,	e	soa	irada.
Contudo,	tudo	que	você	sabe	é	que	a	dor	é	insuportável.	Não	aguenta	mais,	e	não
existe	nenhum	alívio	à	vista.	Basta.	Todos	os	outros	fatos	são	irrelevantes.
Por	quê?
Quando	estamos	deprimidos,	raramente	desafiamos	nossos	próprios
pensamentos.	Se	sua	depressão	inclui	pensamentos	suicidas,	você	faz	ainda
menos	objeção.	Contudo,	isto	é	importante	demais	para	ficar	sem	exame.
Você	pensa	na	morte	porque	não	aguenta	mais	a	dor.	Já	pensou	de	onde	veio	a
dor?	É	raro	que	apareça	do	nada.
A	dor	é	sempre	tão	intensa	ou	flutua?	O	que	a	intensifica?	O	que	a	diminui?
Quando	sofre	a	dor	mais	extrema,	você	se	esquece	de	que	nem	sempre	ela
permanece	na	mesma	intensidade.
O	que	você	perdeu	de	tão	precioso?	O	que	você	acredita	que	precisa	e	não	tem?
Com	essas	perguntas,	você	perceberá	onde	tem	colocado	a	confiança.
O	que	você	tem	medo	de	enfrentar?	A	vergonha	leva	muitas	pessoas	ao
desespero,	mas	o	perdão	de	Deus	cobre	tanto	a	culpa	quanto	a	vergonha.
A	dor	tem	a	ver	com	outra	pessoa?	Se	for	assim,	a	Escritura	está	cheia	de
esperança	quanto	a	confessar,	perdoar	e	propor	reconciliação.
O	que	você	espera	conseguir	com	a	morte?	Quer	que	ela	tire	a	dor,	e	o	que	mais?
Seria	também	uma	declaração	a	alguém?
Por	que	você	se	sente	tão	impotente?	Tem	ficado	a	escutar	os	conselhos	de	fora?
O	que	eles	lhe	disseram?	O	que	você	fez?
Por	que,	na	verdade,	você	não	quer	mais	viver?
Quem	é	Deus?
A	conexão	entre	a	aflição	e	o	relacionamento	com	Deus	nem	sempre	será	óbvia,
mas	o	tópico	de	pensamentos	suicidas	torna	a	ligação	inevitável.	O	sofrimento
sempre	levanta	questões	teológicas,	mas	a	morte	e	o	suicídio	as	compelem.	A
morte	ainda	é	um	lugar	em	que	a	religião	domina	sobre	toda	discussão.	Mais
importante,	a	morte	significa	que	nos	encontraremos	com	Deus.
Quem	é	Deus?
Você	crê	que	ele	ouve?	Acredita	que	Deus	seja	imensamente	compassivo?	Crê
que	a	sua	compaixão	seja	ativa	–	que	ele	está	fazendo	alguma	coisa	agora
mesmo?	Você	crê	que	ele	provê	graça	para	perseverar	em	meio	às	tribulações?
Acredita	que	ele	conhece	os	detalhes	de	sua	dor	e	fornece	graça	suficiente	para
cada	dia?	Qual	seria	a	diferença,	se	você	acreditasse	nessas	verdades?
Você	sabe	que	o	Jesus	ressurreto	“sustenta	todas	as	coisas	pela	palavra	do	seu
poder”	(Hb	1.3)?
Você	tem	procurado	conhecer	realmente	a	mente	de	Deus	quanto	à	sua	atual
situação?	Com	quem	você	tem	conversado?	Alguém	sugeriu	que	o	suicídio	seria
uma	escolha	sábia?	Que	parte	da	Escritura	você	tem	lido?	Como	você	tem
orado?
Você	entende	o	evangelho?	O	evangelho	trata	de	ressurreição	e	a	ressurreição	é	a
base	de	nossa	esperança.
Se	você	acha	que	o	suicídio	é	uma	opção	viável,	você	não	conhece	a	Deus.	Crê
que	ele	está	calado,	mas	não	está.	Ele	é	generoso	ao	revelar-se,	e	fala	com
clareza.	Fala	de	sua	paciência	e	amor	por	você.	Conclama-o	a	confiar	nele	e	a
deixar	que	essa	confiança	se	expresse	no	amor	ao	próximo.	Ele	diz	que	lhe	dará
graça	para	perseverar	e	te	ensina	como.	Talvez	você	esteja	escutando	outra	coisa
em	vez	do	que	ele	está	dizendo.
Leia	novamente	o	final	do	livro	de	Jó	(Jó	38-42).	Jó	foi	torturado	por	dor	física	e
psicológica.	Lutou	contra	questões	de	vida	e	morte	mais	que	qualquer	outro
homem	das	Escrituras.	Apesar	de	tudo,	ele	perseverou	na	fé,	mas	sentia	que
precisava	mais	de	Deus.	Queria	compreender	melhor	os	seus	caminhos.
A	resposta	de	Deus	foi	declarar	enfaticamente	que	ele	mesmo	é	Deus.	Suas
perguntas	a	Jó	começaram	assim:
Cinge,	pois,	os	lombos	como	homem,	pois	eu	te	perguntarei,	e	tu	me	farás	saber.
Onde	estavas	tu,	quando	eu	lançava	os	fundamentos	da	terra?	Dize-mo,	se	tens
entendimento.	Quem	lhe	pôs	as	medidas,	se	é	que	o	sabes?	Ou	quem	estendeu
sobre	ela	o	cordel?
Sobre	que	estão	fundadas	as	suas	bases	ou	quem	lhe	assentou	a	pedra	angular,
quando	as	estrelas	da	alva,	juntas,	alegremente	cantavam,	e	rejubilavam	todos	os
filhos	de	Deus?
Ou	quem	encerrou	o	mar	com	portas,	quando	irrompeu	da	madre;	quando	eu	lhe
pus	as	nuvens	por	vestidura	e	a	escuridão	por	fraldas?	Quando	eu	lhe	tracei
limites,	e	lhe	pus	ferrolhos	e	portas,	e	disse:	até	aqui	virás	e	não	mais	adiante,	e
aqui	se	quebrará	o	orgulho	das	tuas	ondas?	(Jó	38.3-11)
Certifique-se	de	ter	lido	todas	as	perguntas	de	Deus.	Elas	nos	permitem	ver	uma
história	muito	mais	ampla.	Pelo	menos,	no	momento,	elas	retirarão	os	teus	olhos
da	imensidão	de	sua	dor	e	os	lançarão	para	o	objeto	da	esperança.
Não	mais	do	que	você	pode	suportar?
Se	você	estiver	procurando	respostas,	Jó	é	um	dos	lugares	para	se	voltar.	Outro
lugar	é	nas	promessas	de	Deus,	no	restante	da	Escritura.
Não	vos	sobreveio	tentação	que	não	fosse	humana;	mas	Deus	é	fiel	e	não
permitirá	que	sejais	tentados	além	das	vossas	forças;	pelo	contrário,	juntamente
com	a	tentação,	vos	proverá	livramento,	de	sorte	que	a	possais	suportar.	(1Co
10.13)
Essa	é	uma	das	promessas	mais	conhecidas,	na	qual	parece	que	Deus	falhou,
pois	a	depressão	severa	parece	ser	mais	aflitiva	do	que	conseguimos	suportar.
Portanto,	é	importante	considerar	esse	versículo,	e	por	duas	razões.	Primeiro,	é
uma	grande	promessa.	Segundo,	se	estivermos	começando	a	acreditar	que	a
promessa	nem	sempre	é	verdadeira,	teremos	de	perguntar	onde	mais	as
promessas	de	Deus	têm	exceções.	Dúvidas	desse	tipo	corroem	a	fé.
Se	lermos	a	próxima	passagem,	veremos	que	ela	recorda	o	êxodo	de	Israel	do
Egito	e	suas	lutas	no	deserto.	Quando	surgiram	dificuldades,	muitas	pessoas
rapidamente	abandonaram	a	Deus,	murmuraram	contra	ele	ou	voltaram-seaos
ídolos.	Esse	trecho	diz	que	nós	também	passamos	por	desertos,	e	que,	quando
passarmos	por	eles,	o	Espírito	nos	fortalecerá	de	maneira	que	evitaremos	a
murmuração	e	a	idolatria.	A	promessa	de	Deus	é	que	ele	jamais	nos	colocará	em
situação	onde	nossa	única	escolha	seja	pecar.	Ou	nos	livrará	da	intensidade	da
tentação	ou	nos	dará	graça	suficiente	para	confiar	e	obedecer	em	meio	à
dificuldade.	Essa	promessa	significa	que	a	depressão	não	pode	nos	coagir	ao
pecado.
Uma	encolhida	de	ombros	e	indiferença	generalizada,	que	tantas	vezes	a
depressão	provoca,	revela	a	irracionalidade	que	há	dentro	de	todos	nós.	Da	nossa
perspectiva,	existe	apenas	uma	coisa	que	Deus	poderia	fazer	para	nos	fazer
escutar:	queremos	que	ele	tire	a	nossa	dor.	Porém,	da	perspectiva	de	Deus,	o
presente	mais	importante	que	ele	poderia	nos	dar	é	o	de	confiar	nele	e	obedecer	a
sua	palavra	quando	nos	sentirmos	sem	forças.	Na	mente	de	Deus,	o	pecado	é
problema	muito	maior	do	que	o	sofrimento.	Na	nossa,	invertemos	a	ordem.
Aqui	está	um	ponto	de	partida.	Considere	que	sua	desesperança	atual	é
pecaminosa.	Ou	você	tem	colocado	sua	confiança	em	outra	coisa	que	não	Cristo,
o	que	é	pecado,	ou,	como	os	israelitas	no	deserto,	diz,	em	essência,	que	a	Palavra
de	Deus	não	é	verdadeira	–	o	que	é	o	pecado	da	incredulidade.
Deus	não	somente	perdoa	tais	pecados	que	cometemos	contra	ele,	também	dá
poder	para	colocar	nele	a	esperança.	Em	seu	desespero,	você	está	disposto	a
pedir	a	Deus	que	lhe	dê	graça	para	resistir	ao	pecado	e	para	confiar	nele	por
meio	do	sofrimento?
Qual	é	a	sua	única	consolação?
Jó	abre	nossos	olhos	para	ver	a	grandeza	de	Deus.	A	promessa	de	1Coríntios
10.13	abre	nossos	olhos	para	o	fato	de	que	nosso	pecado	é	mais	sério	do	que
nosso	sofrimento.	Muitas	outras	passagens	abrem	nossos	olhos	para	o	Deus	que
consola	o	seu	povo.	O	Senhor	é	o	bom	pastor	cuja	presença	consola	suas
ovelhas.	Ele	é	quem	clama:	“Consolai,	consolai	o	meu	povo”	(Is	40.1)	e	que	é
chamado	“Deus	de	toda	consolação”	(2Co	1.3).
Onde	está	esse	conforto?	Peça-o.	Peça	que	seus	olhos	sejam	abertos	para	vê-lo.
Procure	por	ele.	A	consolação	que	você	procura	está	à	disposição,	e	se	encontra
em	Jesus	Cristo.
Pergunta	1.		Qual	é	o	seu	único	conforto,	na	vida	e	na	morte?
Resposta:	O	meu	único	conforto	é	meu	fiel	Salvador	Jesus	Cristo.		A	Ele
pertenço,	em	corpo	e	alma,	na	vida	e	na	morte,	e	não	pertenço	a	mim	mesmo.
Com	seu	precioso	sangue	ele	pagou	por	todos	os	meus	pecados	e	me	libertou	de
todo	o	domínio	do	diabo.	Agora	ele	me	protege	de	tal	maneira	que,	sem	a
vontade	do	meu	Pai	do	céu,	não	perderei	nem	um	fio	de	cabelo.	Além	disto,	tudo
coopera	para	o	meu	bem.	Por	isso,	pelo	Espírito	Santo,	ele	também	me	garante	a
vida	eterna	e	me	torna	disposto	a	viver	para	ele,	daqui	em	diante,	de	todo	o
coração.	³
Tal	consolação	vem	em	duas	partes:	no	conhecimento	de	Jesus	e	no	fato	de	que
pertencemos	a	ele,	pela	fé.
Você	não	pertence	a	si	mesmo.	Essa	certeza	dá	propósito,	esperança	e	conforto.
“Porque	fostes	comprados	por	preço”	(1Co	6.20),	“não	foi	mediante	coisas
corruptíveis,	como	prata	ou	ouro...	mas	pelo	precioso	sangue,	como	de	cordeiro
sem	defeito	e	sem	mácula”	(1Pe	1.18-19).	“E	vós,	de	Cristo,	e	Cristo,	de	Deus”
(1Co	3.23).
Se	você	for	um	trabalhador	autônomo,	e	não	se	importar	se	sua	empresa	tenha
sucesso	ou	fracasso,	então,	não	verá	razão	para	trabalhar.	De	vez	em	quando,
poderá,	até	mesmo,	sair	da	cama	para	cumprir	as	obrigações	somente	por	amor
aos	entes	queridos,	mas	seu	coração	não	estará	no	trabalho.	Entretanto,	se	você
for	um	embaixador,	chamado	por	um	rei	–	um	emissário	real	–	você	nem	pensará
se	deve	ou	não	levantar-se.	Simplesmente	levantará	e	trabalhará.	Está	em	uma
missão.
Você	poderá	dizer	que	Deus	consegue	facilmente	um	substituto.	Ninguém	sentirá
sua	falta.	Afinal,	existem	milhares	de	pessoas	entre	as	quais	Deus	poderá
escolher.	Mas	tenha	cuidado.	Suspeite	desses	pensamentos.	Mentiras	se
misturam	facilmente	à	verdade.	É	claro	que	Deus	chamou	a	muitos	para	si,	e
cumprirá	os	seus	propósitos.	Mas	a	realidade	é	que	ele	escolhe	pessoas,	em
especial	pessoas	fracas,	para	realizar	seus	intentos.	Ele	escolheu	indivíduos	e
estabeleceu	suas	tarefas,	antes	mesmo	da	fundação	do	mundo	(Ef	2.10).	O
conforto	está	em	que	você	pertence	a	ele.
Resposta
Você	pode	orar,	partilhando	com	o	apóstolo	Paulo	este	cântico	de	louvor?
Bendito	seja	o	Deus	e	Pai	de	nosso	Senhor	Jesus	Cristo,	o	Pai	de	misericórdias	e
Deus	de	toda	consolação!	É	ele	que	nos	conforta	em	toda	a	nossa	tribulação,
para	podermos	consolar	os	que	estiverem	em	qualquer	angústia,	com	a
consolação	com	que	nós	mesmos	somos	contemplados	por	Deus.	(2Co	1.3-4)
Por	que	você	pensa	na	morte?	O	que	Deus	lhe	diz,	quando	você	coloca
esperança	em	pensamentos	suicidas?
1	HUME,	William	e	Lucy.	Wrestling	with	Depression	(Minneapolis:	Augsburg,
1995),	p.	28.
2	The	Journals	of	Kierkegaard,	1834-1854,	editados	e	traduzidos	por	Alexander
Dru	(Londres:	Collins,	1958),	p.	79-80.
3	Catecismo	de	Heidelberg,	versão	on-line.
Parte	III
Ajuda	e	conselhos	de	outros
Capítulo	21
Tratamentos	médicos
						A	depressão	envolve	a	pessoa	em	sua	totalidade,	corpo	e	alma.	A	alma	ou	o
coração	sempre	se	ocupa	interpretando	as	circunstâncias	adversas	e	escolhendo
as	alianças	básicas.	O	corpo	apenas	se	sente	doente.
Seguindo	a	direção	da	Escritura,	as	questões	do	coração	são	prioritárias.	“O
exercício	físico	para	pouco	é	proveitoso,	mas	a	piedade	[treinamento	espiritual]
para	tudo	é	proveitosa,	porque	tem	a	promessa	da	vida	que	agora	é	e	da	que	há
de	ser”	(1Tm	4.8).
O	coração	é	o	verdadeiro	campo	de	batalha	durante	o	sofrimento,	e	merece	sua
máxima	atenção.	Na	medida	em	que	você	aprende	a	colocar	sua	esperança	em
Cristo,	seu	trabalho	colhe	benefícios	eternos.	Mas	não	é	só	isso.	Como	somos
uma	conexão	sem	costura	entre	o	físico	e	o	espiritual,	nosso	corpo	físico	poderá
responder	ao	nosso	crescimento	espiritual,	e	geralmente	ele	o	faz	durante	a
depressão.	Em	outras	palavras,	enquanto	o	Espírito,	a	Escritura	e	pessoas	muito
sábias	o	orientam,	provavelmente	você	se	sentirá	mais	leve	(2Co	4.16-18).	Sua
dor	não	terá	força	tão	devastadora.
Em	sua	maior	parte,	os	pensamentos	correntes	tendem	a	perder	de	vista	a
essência	espiritual	da	depressão.	Especializam-se	nos	tratamentos	físicos	que
também	poderão	aliviar	os	sintomas	físicos	da	depressão.	Entre	os	tratamentos,
as	medicações	antidepressivas	são	as	mais	conhecidas	e	populares,	existem
centenas	deles,	e	muitos	poderão	mudar	o	quadro	depressivo.	Eles	não	trarão
esperança,	mas	poderão	fazer	com	que	você	se	sinta	menos	desgraçado.	Os
tratamentos	físicos	conseguem	mudar	sintomas	físicos,	mas	somente	isso.
Antidepressivos
Existe	ampla	concordância	nas	áreas	de	pesquisa	de	que	a	medicação
antidepressiva	poderá	ajudar	algumas	pessoas	a	se	sentirem	melhor.	Com	efeito,
há	casos	em	que	a	redução	dos	sintomas	depressivos	será	dramática.	É	essa	sua
maior	vantagem.
Mas	existe	muito	que	ainda	desconhecemos.	Por	exemplo,	por	que	isso	ajuda.	A
teoria	mais	popular	é	de	que	a	depressão	está	relacionada,	pelo	menos	em	parte,
à	falta	da	substância	química	no	cérebro,	denominada	serotonina.	Muitos	dos
novos	medicamentos,	chamados	de	inibidores	seletivos	da	recaptação	da
serotonina	(SSRI),	tornam	essa	substância	mais	disponível	ao	cérebro.	Se	elas
realmente	ajudarem,	isso	estabelecerá	a	presença	de	um	desequilíbrio	químico
específico.	Mas	existem	muito	mais	de	cinquenta	neurotransmissores	no	cérebro,
espalhados	em	grandes	áreas,	e	sua	interação	desafia	a	pesquisa	atual.	A	verdade
é	que	a	hipótese	biológica	repousa	sobre	um	terreno	instável.
Quando	a	medicação	ajuda,	não	sabemos	a	razão.	O	cérebro	é	complexo	demais
e	o	conhecimento	de	sua	mecânica	é	ainda	demasiadamente	primitivo.	Neste
ano,	o	neurotransmissor	favorito	é	a	serotonina.	Em	anos	anteriores,	foi	a
dopamina.	Em	anos	futuros,	será	outra	substância	química	do	“Muitas
permanecem	sem	resposta”.
•	Não	sabemos	por	que	a	medicação	ajuda	algumas	pessoas.
•	Não	sabemos	por	que	a	medicação	não	ajuda	a	outras	pessoas.
•	Não	sabemos	por	que	paradados	indivíduos,	algumas	medicações	produzem
melhor	efeito	do	que	para	outros.
•	Não	sabemos	por	que	medicações	quimicamente	diferentes	têm	efeitos
semelhantes.
•	Não	sabemos	por	que	alguns	antidepressivos	parecem	ser	igualmente	efetivos
com	problemas	aparentemente	não	relacionados,	tais	como	pensamentos
obsessivos	e	comportamentos	compulsivos.
•	Não	sabemos	por	que	leva	até	um	mês	para	as	pessoas	notarem	diferença	entre
medicações.
•	Não	sabemos	por	que	os	antidepressivos,	muitas	vezes,	perdem	o	efeito	com	o
passar	do	tempo.
A	esta	altura,	a	analogia	mais	acertada	para	se	referir	ao	funcionamento	desses
medicamentos	é	da	aspirina.	A	aspirina	pode	aliviar	sintomas,	mas	geralmente
não	trata	causas	subjacentes.	De	maneira	semelhante,	os	antidepressivos	poderão
ajudar,	mesmo	que	um	exame	médico	não	revele	um	“desequilíbrio	químico”.
No	momento,	não	existem	exames	de	sangue	que	possam	verificar	se	uma
deficiência	química	é	causa	de	depressão.
Você	deveria	tomar	medicamentos?	Provavelmente	já	esteja	tomando.	Se	não
estiver,	faça	uma	decisão	sábia	e	bem-informada.
Medicação	versus	nenhuma	medicação.	Não	está	claro	se	a	medicação	ajuda
mais	do	que	o	aconselhamento.	Também	não	se	sabe	ao	certo	se	o
aconselhamento	seria	melhor	do	que	conversar	com	um	amigo	sábio.	Mesmo
no	caso	de	depressão	severa,	uma	análise	cuidadosa	da	evidência	nem	sempre
demonstra	a	efetividade	superior	da	medicação	acima	do	aconselhamento
secular.¹	É	de	esperar,	pelo	menos,	alguns	resultados	semelhantes	quando
permitida	a	orientação	da	Escritura.
Efeitos	colaterais.	Qualquer	medicação	poderá	ter	efeitos	colaterais.	Nisso,	os
antidepressivos	não	são	diferentes	de	outros	remédios.	Em	geral,	seus	efeitos
colaterais	não	são	tão	severos,	contudo,	algumas	pessoas	têm	reações	tão
difíceis	que	param	de	tomar	sua	medicação.	Boca	seca	e	dificuldade	de
funcionamento	sexual	são	os	efeitos	colaterais	mais	comuns.
Uso	a	longo	prazo.	Embora	pessoas	tenham	tomado	antidepressivos	durante
muitos	anos,	ainda	não	temos	certeza	de	seus	efeitos	a	longo	prazo.	Sabemos
que	alguns	deles	perdem	a	efetividade	depois	de	algum	tempo	de	uso	–	o	que
chamamos	de	perda	de	eficácia.	Também	existem	evidências	crescentes	de	que
os	antidepressivos	viciam,	até	certo	ponto,	sendo	necessário	retirá-los	aos
poucos	e	com	cuidado.	O	problema	é	que,	em	tal	processo,	fica	difícil
distinguir	entre	as	consequências	da	diminuição	da	medicação	e	as	da	própria
depressão.	Quando	uma	medicação	é	retirada,	poderá	haver	uma	falsa
constatação	de	que	os	sentimentos	depressivos	estejam	voltando,	quando,	na
realidade,	são	sintomas	do	abandono	do	medicamento.
Outros	cuidados.	Algumas	pessoas	descobrem	que	o	uso	da	medicação	fornece
energia	e	clareza	para	enfrentar	questões	da	vida	relacionadas	à	depressão.
Outras	se	esquecem	das	questões	do	coração	reveladas	pela	depressão	em
função	de	encontrar	o	alívio	que	queriam.	Em	suma,	é	o	seguinte:	não	ponha
suas	esperanças	na	medicação.	Seja	grato,	se	ela	o	ajudar,	mas	se	for	apenas
um	lugar	a	mais	em	que	depositar	as	esperanças,	em	vez	de	confiar	em	Jesus,
você	estará	apenas	dando	continuidade	ao	ciclo	do	desespero.
Diretrizes.	Caso	você	já	esteja	tomando	medicação,	diga:	está	se	sentindo
melhor	ou	pior	do	que	antes	de	começar	esse	tratamento?	Se	não	estiver
melhor,	ou	estiver	pior,	converse	com	seu	médico	a	fim	de	discutir	uma
mudança.	De	outra	forma,	torne-se	especialista	naquilo	que	Deus	diz	aos	que
sofrem,	e	seja	rápido	para	dizer:	“Sonda-me,	Senhor”.
Se	você	estiver	deprimido	e	não	estiver	tomando	medicamentos	específicos	para
esse	caso,	poderia	começar	imediatamente.	Mas,	se	for	possível,	adie	a	decisão.
Uma	vez	que	tiver	começado,	você	tenderá	a	permanecer	preso	a	ela.²	Em	vez
disso,	considere	tomar	tempo	para	“dar	trabalho	à	alma”	e	reaprender	o
evangelho.	Muitas	pessoas	sugerem	também	que	o	exercício	físico	regular	é	bom
auxiliar	no	tratamento.	Ele	poderá	aliviar	a	dor	além	do	esperado.	Outro
benefício	da	protelação	é	que	será	mais	fácil	determinar	o	“tratamento”	que
ajuda,	introduzindo	um	de	cada	vez.	Por	exemplo,	se	tiver	iniciado	a	medicação
ao	mesmo	tempo	em	que	começou	a	considerar	seriamente	o	próprio	coração,
não	terá	como	saber	se	as	melhoras	experimentadas	são	provenientes	das
transformações	espirituais	ou	da	medicação.
Algumas	pessoas	depressivas	são	altamente	tendentes	ao	suicídio	ou
extremamente	passivas.	Tais	homens	e	mulheres	estão,	sem	dúvida,	lutando	com
questões	essenciais	do	coração	e	você	deverá	insistir	na	proposta	de	expressões
criativas	do	evangelho.	Contudo,	nessas	situações,	as	famílias	também	buscam
tratamentos	médicos,	em	um	esforço	para	tentar	qualquer	coisa	razoável	que
possa	ajudar.	Aqui,	a	grande	preocupação	será	se	a	pessoa	deprimida	tiver
considerado	uma	overdose	como	plano	suicida.	Dado	que	os	antidepressivos
poderão	ser	letais	quando	ingeridos	em	grande	quantidade,	os	familiares	deverão
restringir	a	quantidade	de	remédio	acessível	à	pessoa	deprimida.
Se	estiver	em	dúvida,	procure	o	conselho	de	outros	pastores,	conselheiros,
médicos	ou	leigos	que	tenham	sabedoria	bíblica	e	experiência	com	a	depressão.
Um	exame	médico
Em	uma	discussão	sobre	medicamentos,	facilmente	é	esquecido	o	fato	de	que	a
depressão	pode	resultar	de	numerosos	problemas	médicos.	Na	maioria	dos	casos,
nenhum	diagnóstico	médico	tratável	foi	encontrado,	mas,	se	sua	experiência
depressiva	não	estiver	claramente	ligada	a	determinadas	circunstâncias,	consulte
o	médico	para	fazer	um	exame	clínico	(Tabela	21.1).³
Tabela	21.1	Problemas	médicos	com	conhecidos	efeitos	depressivos
Doença	de	Parkinson	Derrame	cerebral	Esclerose	múltipla	Epilepsia	Trauma	Cerebral	Lupus	(SLE)	Deficiências	vitamínicas	Mudanças	pós-cirúrgicas	Aids	Hepatite	Mudanças	pós-parto
Nessa	lista	de	problemas	médicos,	a	depressão	pós-parto	é	uma	das	mais
reconhecíveis.	Em	suas	formas	menores	ou	temporárias,	é	muito	comum	o
sentimento	de	tristeza.	Muitas	mulheres	experimentam	a	depressão,	pois
acabaram	de	experimentar	um	transtorno	físico	e	o	corpo	precisa	de	tempo	para
se	ajustar.	Pessoas	que	passam	por	grandes	cirurgias	têm	a	mesma	experiência.
Algumas	mulheres,	contudo,	experimentam	uma	depressão	mais	severa	e	de
mais	longa	duração.	As	causas	parecem	incertas.	Os	medicamentos
antidepressivos	poderão	ajudar,	e	as	mulheres	devem	estar	prontas	a	considerá-
los.	Também,	como	a	ajuda	secular	não	médica,	encorajamento	e	orientação	têm
ajudado	tais	mulheres,⁴	devemos	esperar	que	a	ajuda	bíblica,	encorajamento	e
direção	sejam	ainda	mais	úteis.
Outros	tratamentos	físicos
Como	a	depressão	é	tão	comum	e	não	existem	curas	médicas	definitivas,
proliferam	os	tratamentos	possíveis.	Alguns	dos	mais	comuns	são:	fototerapia
(para	quem	sofre	de	depressão	sazonal);	tratamento	com	erva-de-são-joão	e
outras	ervas	medicinais;	exercícios,	megavitaminas,	drogas	originalmente	não
desenvolvidas	para	o	tratamento	da	depressão,	tais	como	Mifepristona	(também
denominada	de	RU-486	ou	pílula	do	aborto).	Procedimentos	mais	técnicos
incluem	estimulação	magnética	transcraniana	e	terapia	eletroconvulsiva	(ECT).
ECT	é	de	interesse	especial	porque,	depois	de	um	tempo	de	declínio	nos	anos
1970’s	e	1980’s,	é	mais	uma	vez	um	tratamento	popular	para	a	depressão	Maior.⁵
A	questão	com	tais	tratamentos	físicos	não	é	se	tal	tratamento	está	certo	ou
errado,	mas	se	é	o	correto.	As	diretrizes	de	sabedoria	se	aplicam.	Para	alguns
tratamentos,	tais	como	mudanças	moderadas	de	dieta	e	exercício,	o	risco	e	o
custo	são	mínimos,	e	assim	não	exigem	longas	deliberações.	Mas	outros	têm
riscos	mais	altos.	Portanto,	é	necessário	ter	sabedoria	para	uma	investigação
cuidadosa	dos	mesmos,	com	oração,	conselho	de	um	grupo	experiente	e	sábio,	e
andar	no	temor	do	Senhor.
A	cultura	de	tratamentos	médicos
Somos	gratos	por	viver	em	uma	época	em	que	existem	maneiras	de	aliviar	a	dor
física	da	depressão.	Ainda	assim,	vale	a	pena	examinar	a	cultura	na	qual
emergiram	tais	tratamentos.	Por	exemplo,	um	fator	do	pensamento	atual	é	que
ainda	colocamos	muita	esperança	na	medicina.	Assim,	ela	poderá	se	tornar	um
ídolopara	nós.	Poderá	ser	que	qualquer	tratamento	que	tenha	o	verniz	da	ciência
médica	intensifique	o	efeito	de	placebo.	Ou	seja,	um	tratamento	médico	poderá
mudar	a	experiência	da	depressão,	não	por	ser	bem-sucedido	em	si	mesmo,	mas
porque	nós	colocamos	nossas	esperanças	nele	e,	assim,	revisamos	a	nossa
experiência	da	depressão.
Vivemos	também	em	uma	cultura	que	presume	sermos	apenas	corpos	físicos.
Desse	modo,	a	medicação	e	os	demais	tratamentos	físicos	são	vistos	como	as
únicas	possibilidades	de	ajuda.	Porém,	somos	também	seres	espirituais,	e	isso	de
maneira	fundamental.	Vivemos	na	presença	de	Deus.	Quando	reconhecemos
nosso	âmago	espiritual,	descobrimos	que	há	pontos	mais	profundos	em	nossa
vida	do	que	qualquer	medicação	possa	atingir.
Finalmente,	nossa	cultura	não	vê	valor	algum	nas	dificuldades.	Embora	todos
saibam	que	as	dificuldades	refinam	nosso	caráter	e	nos	fazem	amadurecer,	ainda
assim	queremos	fugir	do	sofrimento	que	nos	sobrevêm.	Certamente	não
devemos	procurar	sofrer	ou	continuar	com	dor	quando	houver	meios	legítimos
para	mitigá-los,	mas	as	dificuldades	nos	parecerão	diferentes	quando	soubermos
que	Deus	as	usa	para	aprimorar	e	transformar	nosso	caráter.
Com	isso	em	mente,	tome	cuidado	e	faça	escolhas	sábias.
Resposta
As	discussões	sobre	medicamentos	e	outros	tratamentos	físicos	tendem	a
provocar	reações	fortes,	às	vezes	extremas.	Se	tiver	sido	prejudicado	por
medicações,	você	se	oporá	a	elas.	Se	tiver	sido	ajudado,	dará	todo	apoio.	Como	é
próprio	da	Escritura,	a	Bíblia	toma	uma	terceira	posição	que	estimula	sabedoria,
abre	nossos	olhos	para	as	questões	maiores	de	nossa	cultura,	e	continua
focalizando	o	coração.
1	DERUBEIS,	Robert	J.,	GELFAND,	Lois	A.,	TANG,	Tony	Z.	e	SIMMONS,
Anne	D.	“Medications	versus	Cognitive	Behavior	Therapy	for	Severely
Depressed	Outpatients:	Mega-Analysis	of	Four	Randomized	Comparisons”,
American	Journal	of	Psychiatry,	156	(1999),	p.	1007-1013.
2	BULL,	S.	A.	et	al.	“Discontinuation	of	use	and	switching	of	antidepressant
drug	treatment	in	depressive	disorders:	a	systematic	review”,	Lancet,	361
(2003),	p.	653-61.
3	A	depressão	devido	a	doenças	conhecidas	tende	a	ser	diferente	daquelas
descritas	no	capítulo	2.	A	falta	de	esperança,	o	pensamento	suicida	e	o
autodesprezo	não	estarão	presentes.
4	Por	exemplo,	STUART,	S,	O’HARA,	M.W.	&	GORMAN,	L.L.	“The
Prevention	and	Treatment	of	Post-Partum	Depression’,	Archives	of	Woman’s
Mental	Health,	6	(Suppl.	2),	S57-S69.
5	The	UK	ECT	Review	Group,	“Efficacy	and	Safety	of	electroconvulsive
therapy	in	depressive	disorders:	A	systematic	review	and	meta-analysis”,	Lancet,
361	(2003),	799-808.
Capítulo	22
Para	familiares	e	amigos
Este	capítulo	fala	primeiramente	a	quem	se	encontra	deprimido	e,	depois,	aos
seus	familiares	e	amigos.
Se	você	estiver	deprimido
A	depressão	pode	prejudicar	os	relacionamentos.	A	pessoa	deprimida	precisa
deles,	mas	se	isola.	Quer	ajuda,	mas	rejeita	a	maioria	dos	conselhos.	Recebe
palavras	encorajadoras,	mas	não	acredita	nelas.	Se	a	família	e	os	amigos	se
frustram,	você	diz	que	previa	isso,	desde	o	início.	Age	como	se	esperasse	a
frustração	da	parte	deles,	até	mesmo,	desejando	que	seja	assim.	Você	acredita
que	não	tem	valor	e	está	se	esforçando	para	provar	exatamente	isso.
Uma	das	mais	firmes	descobertas	a	respeito	da	depressão	é	que	não	é	fácil
conviver	com	pessoas	deprimidas.	“Pessoas	deprimidas	agem	com	ampla	gama
de	comportamentos	sociais	inapropriados,	verbais	e	não	verbais,	que	tendem	a
provocar	hostilidade	e	rejeição	da	parte	dos	outros.	Por	meio	desses
comportamentos,	os	indivíduos	deprimidos	criam	mundos	sociais	a	seu	redor
que	praticamente	garantem	contínuas	avaliações	negativas”.¹
Como	reagir?	Poderá	não	parecer	relevante	para	você,	mas	se	tiver	uma	reação
contrária	a	esse	comentário,	considere	a	sua	resposta.
Você	sente	culpa?	Mantenha	tudo	simples.	Você	é	culpado,	se	tiver	ferido	a
outros.	Se	tiver	pecado	nisso,	confesse	a	Deus	e	às	pessoas	a	quem	prejudicou,
agradeça	a	Deus,	pois	ele	se	compraz	em	você.	Peça-lhe	ajuda	para	mudar.
Você	se	sente	sem	esperança	ou	sem	ajuda?	Sente	que	os	outros	simplesmente
não	entendem	a	depressão?	Pense	nisto:	nada	poderá	nos	impedir	de	amar	ao
próximo	–	nem	os	pecados	de	outros	nem	mesmo	nossas	enfermidades	ou	nossa
humanidade.	É	certo	que	essa	tarefa	poderá	parecer	impossível	–	e	será,	se
ignorarmos	a	cruz	de	Jesus.	Mas	quando	clamamos	pela	graça	para	amarmos	ao
próximo	com	mais	profundidade,	Deus	sempre	nos	responde	com	um	sim.
Neste	ponto,	resista	à	depressão.	Não	permita	que	ela	seja	uma	desculpa	para
não	amar	ou	manter	relacionamentos.	Isso	só	aumentaria	o	desespero.	Amar	ao
próximo	não	é	apenas	nosso	dever	–	é	o	jeito	como	fomos	projetados.	Quando
não	tivermos	confiança	e	amor,	estaremos	desligados	do	propósito	para	o	qual
fomos	criados,	e	veremos	medrar	o	desespero.
Planeje	amar.	O	amor	parecerá	diferente	sob	depressão	severa,	mas,	enquanto
você	estiver	consciente,	ainda	poderá	encontrar	em	Deus	a	graça	para	amar	ao
próximo	das	seguintes	maneiras:
•	Agradeça-lhes
•	Cumprimente-os
•	Ore	por	eles
•	Ouça-os
•	Toque-os
Se	você	tropeçar	nessas	coisas,	peça	perdão	a	Deus	e	aos	outros.	Peça	que	outras
pessoas	orem	por	você	para	que	possa	amar	de	modo	palpável,	e	ame	de	novo.
Se	não	estiver	dando	nenhum	passo	em	direção	ao	amor,	o	seu	coração	estará
revelando	seus	verdadeiros	motivos.
Você	estará	se	aventurando	em	novo	terreno	com	essas	coisas.	Estará	fazendo
algo	sem	que	sinta	vontade	de	fazer.	Não	é	que	não	queira	amar;	é	que	não	sente
amor.	Algumas	pessoas	compram	a	mentira	de	que	forçar	para	amar	é	um	ato
hipócrita.	Por	que	fazer	algo	que	o	coração	não	quer?	A	verdade	é	que	é	um	ato
heroico.	Poderá	ser	a	primeira	vez	que	você	faz	alguma	coisa	simplesmente	por
causa	de	Jesus.
Se	você	for	amigo	ou	pessoa	da	família
Os	familiares	e	amigos	também	serão	forçados	a	se	desdobrar	na	forma	de	amar.
Você	poderá	descobrir	que	seu	amor	estava	acompanhado	de	motivações	mistas.
Talvez	quisesse	mudar	a	pessoa	deprimida,	ou	tornar	a	vida	mais	fácil	para	você
mesmo,	a	amá-la	simplesmente	porque	Cristo	a	amou.	Tal	como	seu	amigo
deprimido,	você	também	terá	de	considerar	as	próprias	motivações	e	orar	para
que	o	ame	profundamente	e	de	coração.
Às	vezes,	cansamos	de	amar.	Acontece	com	todo	mundo.	Amamos	com
autenticidade,	mas	isso	parece	não	obter	resultado	ou	ser	irrelevante.	Talvez	não
pareça	importante	para	a	pessoa	deprimida,	mas	saiba	o	seguinte:	seu	amor	faz
diferença.	Não	quer	dizer	que	apenas	um	empurrão	na	direção	do	amor
imediatamente	tirará	alguém	da	depressão.	Sozinho,	seu	amor	não	muda	nada.
Como	lembrou	um	batalhador:
Nenhuma	quantia	de	amor	das	outras	pessoas	–	e	havia	muito	amor	–	era
bastante	para	ajudar.	Nenhuma	vantagem	de	uma	família	amorosa	e	emprego
fabuloso	eram	suficientes	para	vencer	a	dor	e	o	desespero	que	eu	sentia.²
Mas,	como	todos	nós,	as	pessoas	deprimidas	percebem	quando	a	bondade	e	o
amor	se	dispõem	ao	sacrifício.	Sendo	assim,	as	pessoas	deprimidas	que	obtêm
melhores	resultados	são	as	que	são	amparadas	por	um	amor	perseverante.
O	seu	desânimo
Provavelmente,	a	passividade	da	pessoa	deprimida	será	o	fator	que	mais	a
desanimará.	Talvez,	o	desafio	mais	óbvio	apresentado	por	deprimidos	seja	a
aparente	falta	de	paixão	ou	entusiasmo	por	alguma	coisa.	Para	a	família	ou
amigos	mais	íntimos,	isso	é	difícil	porque	nossa	paixão	é	o	que	nos	torna
especiais	e	únicos	aos	olhos	daqueles	que	nos	cercam.	Uma	pessoa	sem	paixão	é
estranha	para	os	outros.	Não	só	parece	imóvel	como	também	indiferente.	“Ele
não	está	normal”.	“Não	conheço	mais	o	homem	com	quem	eu	me	casei”.
Existem	algumas	formas	de	se	preparar	para	amar	a	pessoa	deprimida,	quando	o
relacionamento	não	mais	parece	recíproco.	Acima	de	tudo,	temos	de	reconhecer
que	não	poderemos	depender	do	afeto	natural.	No	passado,	havia	uma	atitude	de
dar	e	receber,	na	relação	com	a	pessoa	deprimida.	Você	tinha	prazer	nessa
pessoa,	e	ela	gostava	de	você.	Agora,	porém,	o	relacionamento	parece	sem
recompensa	afetiva,	o	que,	é	claro,	não	é	aquilo	que	deveríamos	considerar	em
umrelacionamento.	São	pouquíssimas	as	pessoas	dispostas	a	se	dar	em	longo
prazo,	em	um	arranjo	tão	unilateral.	Depois	de	um	impulso	inicial	de	amor,	as
pessoas	desistem.
Isso	nos	coloca	em	posição	semelhante	à	da	pessoa	deprimida.	Ela	também	não
pode	mais	depender	dos	afetos	naturais.	O	problema	não	é	que	ela	desgoste	de
você;	é	mais:	ela	simplesmente	não	consegue	sentir,	ou,	aquilo	que	ela	sente	são
diversos	níveis	de	dor,	e	a	dor	implacável	expulsa	todas	as	demais	paixões.
Sem	paixões	relacionais	normais	a	nos	energizar,	temos	uma	oportunidade
tremenda.	Temos	o	privilégio	de	realmente	amar	como	expressão	de	confiança
no	amor	de	Jesus	Cristo	e	em	nosso	amor	por	ele.	Essa	é	uma	das	habilidades
espirituais-chave	de	que	os	deprimidos	necessitam.	E	por	ser	característica	dos
caminhos	de	Deus,	isso	é	exatamente	aquilo	que	nós	também	precisamos.
O	curso	que	teremos	de	caminhar	é	idêntico	ao	que	você	acaba	de	descrever
quanto	ao	seu	amigo.	Por	exemplo,	você	consegue	definir,	rapidamente,	o	seu
propósito?	Qualquer	coisa	menos	do	que	“conhecer	a	Cristo	e	amar	ao	próximo
para	a	glória	dele	e	não	a	minha”	nos	deixará	sem	esperança	ou	sem	poder	para
amar.	Um	dos	fatores	singulares	do	caminho	de	Deus	é	que	todos	nós	mudamos,
para	frente	e	para	trás,	em	nossos	papéis	de	médico	e	de	paciente.	Precisamos	de
ajuda	e	os	outros	precisam	de	nossa	ajuda.	Talvez	jamais	tenhamos	lidado	com	a
depressão,	mas	as	questões	em	volta	dela	são	básicas	para	a	vida	de	todos.
Qual	é	o	seu	propósito?
Quem	é	Jesus?
Como	posso	crescer	em	confiança	nele	e	na	expressão	desta	confiança	em	amor
ao	próximo?
Isso	significa	que,	quando	chegamos	ao	lado	de	uma	pessoa	deprimida,	não
podemos	depender	do	conhecimento	do	ano	passado.	Quando	falamos	acerca	de
propósito,	temos	de	ser	pessoais.	Tem	de	vir	da	experiência	de	como	você
mesmo	encontrou	propósito	na	vida.	Quando	você	oferece	esperança,	é	porque
encontrou	esperança.
Uma	conselheira	profissional	havia	tentado	de	tudo	para	encorajar	sua
aconselhada	deprimida	e	nada	parecia	ajudar.	Nada	mais	tendo	a	oferecer,	ela
confessou	sua	própria	pobreza	e	conversou	sobre	como	ela,	pessoalmente,	estava
aprendendo	da	Palavra	de	Deus.	Ao	terminar	a	conversa,	gastando	mais	tempo
do	que	geralmente	fazia,	orou	por	si	mesma	e	pela	aconselhada.
Para	sua	surpresa,	a	aconselhada	marcou	outro	encontro.	Na	entrevista	seguinte,
tão	logo	entrou	na	sala,	deu	imediatamente	uma	avaliação	da	sessão	anterior:
–	Aquele	foi	o	melhor	tempo	que	já	tivemos.	Por	que	não	fazemos	isso	mais
vezes?
A	conselheira	tinha	se	tornado	uma	pessoa	carente,	em	vez	de	dispensadora	de
informações	necessárias.	Não	estava	mais	dando	princípios,	mas	sim,	dando	o
próprio	testemunho.	Era	óbvio	o	passo	seguinte:
–	Os	caminhos	de	Deus	são	melhores	que	os	meus.	Não	é	típico	de	Deus	que,
quando	eu	me	senti	mais	necessitada	e	inadequada,	pude	dizer	as	coisas	mais
acertadas?	Você	está	certa:	eu	deveria	ter	feito	isso	o	tempo	todo.	Também
deveria	ter	pedido	isso	de	você,	pois	quero	aprender	com	você.	Da	próxima	vez
que	nos	encontrarmos,	por	que	você	não	compartilha	o	que	está	aprendendo	da
leitura	da	Escritura?
Para	ajudar	uma	pessoa	deprimida,	não	precisamos	do	conhecimento	de
especialistas.	Precisamos,	sim,	da	consciência	de	nossas	próprias	necessidades
espirituais,	um	conhecimento	crescente	do	Senhor	Jesus	e	disposição	para
aprender	dos	outros,	incluindo,	até	mesmo,	daquele	que	queremos	ajudar.
O	mais	importante
Sem	paixão	ou	nítida	clareza	espiritual,	a	pessoa	deprimida	acha	quase
impossível	manter	uma	visão	daquilo	que	é	realmente	importante.	No	meio	de
sua	névoa	de	desespero,	nada	surge	que	lhe	prenda	a	atenção.	Isso	também	pode
ser	reconhecido	por	todos	nós,	pois	o	mundo	funciona	de	modo	semelhante.
A	Escritura	antevê	essa	luta.	Para	batalhar,	Deus	levanta	pessoas	comuns	para
nos	lembrar	da	verdade.	Hebreus	3.12-13	nos	lembra	o	seguinte:
Tende	cuidado,	irmãos,	jamais	aconteça	haver	em	qualquer	de	vós	perverso
coração	de	incredulidade	que	vos	afaste	do	Deus	vivo;	pelo	contrário,	exortai-
vos	mutuamente	cada	dia,	durante	o	tempo	que	se	chama	Hoje,	a	fim	de	que
nenhum	de	vós	seja	endurecido	pelo	engano	do	pecado.
O	que	as	pessoas	deprimidas	precisam	–	aquilo	que	todos	precisamos	–	são
lembretes	diários	da	realidade	espiritual.	À	medida	que	a	verdade	de	Cristo	é
impressa	em	nosso	coração,	temos	de	oferecê-la	ao	próximo,	e	ele	a	nós.	O	alvo
será	sempre	Cristo,	e	este,	crucificado.	Essas	palavras	não	são	mágicas,	e	sim,
alimento	para	a	alma.	Não	seja	desviante.	Aquilo	que	você	precisa	não	é	algo
novo,	e	sim,	a	simples	perseverança	na	aplicação	de	velhas	verdades	às	situações
atuais.
Você	não	precisará	se	desculpar	por	ler	as	Escrituras	para	a	pessoa	deprimida,
orar	com	ela	e	procurar	evidências	diárias	da	obra	do	Espírito	no	cotidiano.	Do
mesmo	jeito	que	a	perseverança	é	chave	para	o	deprimido,	a	perseverança	no
ministério	“comum”	também	é	central	para	você.	A	pessoa	deprimida	é	leal	às
suas	interpretações	pessimistas;	você	terá	de	ser	leal	às	interpretações	centradas
em	Cristo.	Quando	possível,	ofereça	interpretações	cristocêntricas,	de	maneira
pessoal,	significativa	(pelo	menos	para	você),	e	que	seja	sucinta,	pois	a
depressão	pode	afetar	a	habilidade	de	concentração.
Trabalhar	juntos
Sendo	mais	parecidos	do	que	diferentes	da	pessoa	deprimida,	precisaremos
pensar	em	termos	de	parceria.	Trabalhar	juntos	em	uma	caminhada	difícil.	Às
vezes,	carregaremos	o	peso	mais	pesado	(Gl	6.2),	mas,	se	estivermos
trabalhando	juntos,	procuraremos	maneiras	de	partilhar	a	carga.
Um	erro	que	muitos	familiares	e	amigos	cometem	logo	nos	primeiros	estágios	da
depressão	é	fazer	sozinhos	todo	o	esforço.	Poderá	ser	um	sacrifício	nobre,	mas
não	conseguiremos	andar	por	muito	tempo	dessa	forma.	Poderemos	ler	com	a
pessoa	deprimida,	orar	por	ela,	exortá-la,	expressar-lhe	amor	de	muitas	maneiras
diferentes,	mas	não	podemos	arrastá-la	para	os	nossos	alvos.	O	destino	final	é
um	alvo	compartilhado.
A	meta	final	é	Cristo.	Os	alvos	intermediários,	às	vezes,	serão	passos
infinitamente	pequenos	que	trazem	estrutura	a	uma	existência	que	parece	sem
sentido.	A	estrutura	tem	a	ver	com	limites,	diretrizes,	responsabilidades,
lembretes	e	planos	organizados.	O	princípio	é	o	seguinte:	quanto	mais	dolorosa	e
debilitante	a	depressão,	mais	o	conselheiro	e	os	amigos	precisarão	fornecer
estrutura.
A	estrutura	poderá	incluir	o	seguinte:
•	Ir	para	a	cama	e	levantar-se	no	mesmo	horário	todos	os	dias.
•	Comer	em	determinados	horários.
•	Fazer	exercício	em	determinados	horários.
•	Ter	horário	definido	para	o	dia.
•	Deixar	por	escrito	algo	que	concordam	em	esforçar	para	fazer	cada	dia.
•	Seguir	aquilo	que	foi	contratado.	Seja	o	seu	“sim”,	sim.
Tal	estrutura	não	é	simplesmente	imposta	sobre	uma	vítima	indisposta.	É	uma
parceria	entre	irmãos	e	irmãs	em	Cristo.	Inclui	também	um	tempo	para
considerar	os	“porquês”.	Lembre	e	reveja	os	propósitos	de	Deus,	e	recordem	um
ao	outro	que	o	treino	presente	–	embora	duro	e	cansativo	–	tem	benefícios
eternos	(1Tm	4.8).
Há	duas	maneiras	de	errar	quando	a	pessoa	deprimida	começa	a	estruturar	a
vida.	Uma	é	impor	um	passo	além	de	sua	capacidade,	fazendo	com	que	sinta
ainda	maior	desespero.	Comece	devagar.	Ajude	a	pessoa	a	estabelecer	pequenos
alvos	básicos,	e	trabalhem	juntos	para,	aos	poucos,	aumentar	as	tarefas	e	os	alvos
para	o	dia.
O	outro	erro	é	omitir	tempo	frequente	para	responsabilização.	É	melhor	uma
responsabilização,	pelo	menos,	a	cada	dia.	Como	isso	poderá	continuar	durante
muitos	meses,	os	que	ministram	têm	de	desenvolver	um	passo	prático	e	sábio
para	si	mesmos,	dispostos	a	servir	enquanto	seguem	mantendo	a	consciência	de
outras	responsabilidades.
Interromper	conforme	for	necessário
Se	seu	amigo	íntimo,	de	repente,	insistisse	que	você	é	um	alienígena	disposto	a
matá-lo,	certamente	você	tentaria	fazê-lo	desistir	de	tal	interpretação	errônea.
Tentaria	descobrir	por	que	ele	desenvolveu	essa	perspectiva,	mas	não	ficaria
sentado,	passivamente,	enquanto	estivesse	sendo	acusado.	Em	vez	disso,
procuraria	persuadi-lo	da	verdade.Poderia,	até	mesmo,	repreender	o	amigo	por
se	ater	a	uma	interpretação,	a	despeito	de	todas	as	evidências	e	conselhos
contrários.
Da	mesma	forma,	quando	a	pessoa	deprimida	quiser	interpor	suas	ideias
distorcidas	e	nocivas	da	vida,	você	não	poderá	simplesmente	ficar	sentado
observando,	sem	intervir.	Precisará	desafiar,	interrompendo	a	interpretação
incorreta,	porque	ela	é	errada	e	simplesmente	levará	a	maior	desesperança.	Isso,
claro,	é	normal	nos	relacionamentos	em	que	existe	amor.	Contudo,	na	depressão,
às	vezes,	os	amigos	não	procuram	seguir	caminhos	normais	de	interações.	Talvez
temam	que	a	pessoa	deprimida	se	sinta	rejeitada.	Talvez,	tenham	medo	que	a
mínima	provocação	leve	ao	suicídio.	Sendo	assim,	muitas	vezes,	as	pessoas
deprimidas	são	tratadas	com	excesso	de	cuidado	–	como	se	estivessem
carregando	uma	tocha	junto	a	uma	bomba	de	pavio	curto.
Sabedoria	e	amor,	certamente,	precisam	dominar	no	relacionamento	com	a
pessoa	deprimida,	assim	como	em	qualquer	relacionamento.	Se	você	descobrir
que	está	sendo	crescentemente	relutante	para	dizer	coisas	que	são	importantes,
reconsidere	o	seu	caminho.	Converse	com	alguém	que	já	esteve	em	situação
semelhante.	Se	estiver	reticente	para	falar	de	assuntos	que	julga	ser	importantes,
talvez	não	esteja	realmente	envolvido	em	um	relacionamento.	Geralmente,
quanto	mais	próximo	o	relacionamento,	mais	devemos	estar	abertos	para	o	outro.
Não	hesite	em	interromper	o	rio	de	desespero,	autocomiseração	e	reclamações
que	só	reforçam	as	interpretações	não	bíblicas	que	a	pessoa	entretém	sobre	Deus
e	sobre	si	mesma.	Fazer	isso	cedo	demais	no	relacionamento	com	uma	pessoa
deprimida	(ou	com	qualquer	pessoa)	poderá	comunicar	que	você,	na	verdade,
não	quer	entender.	Poderá	fazer	a	outra	pessoa	calar.	Contudo,	a	explicação	do
seu	propósito	poderá	ser	facilmente	interpretada	como	uma	expressão	de	amor.
Vou	interrompê-lo	por	um	segundo.	Você	consegue	perceber	o	que	está
acontecendo?	Quanto	mais	você	fala,	mais	desesperado	fica.	Dá	para	ver	isso.
Na	verdade,	sinto	isso	mesmo	em	mim.	Vamos	seguir	um	plano.	De	agora	em
diante,	cada	vez	que	eu	perceber	uma	onda	de	interpretações	depressivas,	que	na
verdade	são	antibíblicas,	desmoronando	sobre	você,	eu	vou	apontá-las	e	tentar
fugir	delas	junto	com	você.
Resposta
Há	mais	na	perseverança	do	que	você	imagina.	Não	é	apenas	uma	palavra	que
aparece	rapidamente	na	Escritura.	Perseverança	é	algo	poderoso,	uma	resposta
profundamente	espiritual	para	as	lutas	que	não	desaparecem	de	repente.	Quando
perseverarmos	juntos,	estaremos	imitando	uma	das	gloriosas	facetas	do	caráter
de	Deus.
É	aqui,	na	perseverança	junto	a	alguém	que	luta	contra	a	depressão,	que	você
tem	uma	vantagem	sobre	os	especialistas.	O	especialista	dá	a	consulta	para,
depois,	cada	um	seguir	o	seu	caminho.	Amigos	e	familiares	continuam	juntos	da
pessoa	deprimida.
É	verdadeiro	que	a	depressão	corrói	o	coração	de	um	relacionamento,	mas
podemos	observar	também	a	bênção	do	Senhor	enquanto	perseveramos.
“Olhando	para	trás,	eu	diria	que	permanecer	firme	com	a	pessoa	amada,
mediante	todos	os	seus	dramas	estressantes,	poderá	vir	a	ser	algo	incrivelmente
recompensador”.³
A	palavra	“comum”	surge	incessantemente.	Isso	em	nada	diminui	a	beleza	e	o
poder	do	ministério	impulsionado	pelo	Espírito,	porque	a	obra	de	Deus	sempre
será	extraordinária.	Contudo,	enfatizamos	que	Deus	determinou	que	seremos
mais	encorajadores	uns	dos	outros,	utilizando	meios	comuns,	que	não	exijam
especialização	técnica.	A	sabedoria	da	Escritura	é	de	domínio	público.	Se
começarmos	a	dizer	coisas	que	chamem	a	atenção	ao	nosso	próprio
entendimento	e	sabedoria,	é	bem	provável	que	percamos	de	vista	os	meios
normais	que	Deus	usa	para	nos	transformar.
1	GEISLER,	R.	B.	e	SWANN,	W.B.	Jr.	“Striving	to	Confirmation:	the	Role	of
Self-Verification	in	Depression”,	in	JOINER,	Thomas	e	COYNE,	James	C.
(editores),	The	Interactional	Nature	of	Depression	(Washington,	D.C:	The
American	Psychiatric	Association),	p.	189-218.
2	JAMISON,	K.R.	Night	Falls	Fast:	Understanding	Suicide	(Nova	York:	Knopf,
1999),	p.	291.
3	STYRON,	Rose,	“Strands”,	in	CASEY,	Nell,	org.,	The	Unholy	Ghost:	Writers
on	Depression	(Nova	York:	HarperCollins,	2002),	p.	137.
Capítulo	23
O	que	tem	ajudado
						Cada	pessoa	é	diferente.	Uma	história	que	seja	tocante	para	uma	pessoa
poderá	ser	incompreensível	para	outra.	Uma	estratégia	que	lhe	pareça
essencial	poderá	não	ter	nenhum	significado	para	outra.	Assim,	as	listas
seguintes	são	ideias	lançadas	como	sugestões	iniciais	e	não	para	esgotar	o
assunto	sobre	o	que	faremos.	São	ideias	específicas	que	já	ajudaram	outras
pessoas	deprimidas.
Senti	que	as	coisas	começaram	a	mudar	quando...
Esta	primeira	lista	vem	de	pessoas	que	já	estiveram	deprimidas,	a	quem
pedimos	para	completar	a	frase:	“Senti	que	as	coisas	começaram	a	mudar
quando:”
1.	Comecei	a	falar	ao	meu	coração,	em	vez	de	escutar	a	mim	mesmo.	Passei	a
citar	textos	diferentes	da	Escritura,	em	vez	de	escutar	minhas	vozes	internas	que
soavam	inconsoláveis.
2.	Parei	de	dizer:	“Não	vai	dar	certo”.	Estava	sempre	procurando	a	resposta.
Orava,	tentando	fazer	barganhas	com	Deus,	considerava	meu	próprio	coração
por	uns	poucos	minutos,	ou	tentava	exercitar	alguma	atividade	espiritual,	por
breve	tempo.	Quando	não	dava	certo,	eu	desistia.	Encontrava	sempre	uma
justificativa	para	desistir.	Agora,	creio	que	realmente	dará	certo.	Há
contentamento	e,	até	mesmo,	alegria	em	dar	pequenos	passos	de	fé	e	obediência
a	longo	prazo.
3.	Eu	tinha	um	amigo	e	um	pastor	que	mantinham	à	minha	frente	um	grande
quadro	do	reino	de	Deus.	A	depressão	tornava	meu	mundo	muito	pequeno.
Quando	vi	que	Deus	está	agindo,	comecei	a	ter	esperança.
4.	Minha	filha	ficou	muito	doente.	Isso	me	forçou	a	olhar	para	fora	de	meu
mundo	interior.
5.	Uma	amiga	não	abriu	mão	de	mim.	Demonstrou	amor	e	apontou	para	a
verdade,	mesmo	quando	eu	não	queria	ouvir	de	Jesus.
6.	Uma	amiga	permitiu	que	eu	“tomasse	emprestada”	a	sua	fé.	Minha	própria	fé
era	tão	fraca,	mas	ela	sempre	tinha	confiança	na	presença	e	amor	de	Deus	pela
igreja	e	até	mesmo	por	mim.
7.	Perdoei	meu	pai.
8.	Ouvi	muitas	historias	de	tristeza	e	de	vitória	dos	amigos.
9.	Percebi	que	noventa	por	cento	do	que	sentia	era	orgulho.	Eu	achava	que
merecia	algumas	coisas	de	certas	pessoas	–	tudo	se	tratava	de	mim.
10.	Uma	amiga	que	me	conhecia	bem	disse	que	eu	estava	me	fazendo	de	mártir.
Fiquei	chocada,	mas	sabia	que	ela	me	amava	e	estava	certa.
11.	Passei	a	acreditar	que	estava	em	uma	batalha	e	comecei	a	lutar.
12.	Percebi	que	eu	estava	fazendo	coisas	em	vez	de	permitir	que	algo	fosse	feito
em	meu	favor.	Por	exemplo,	estava	fazendo	ira;	estava	me	queixando	todo	o
tempo.	No	coração,	fazia	aquilo	que	eu	queria	fazer.
13.	Medicação.
14.	Um	amigo	me	ajudou	a	sair	da	“tirania	do	que	tem	de	ser	feito”	para	viver,
na	prática,	o	evangelho	da	graça.
15.	Reconheci	que	minhas	interpretações	eram	falhas.	Eu	tinha	uma	enorme	falta
de	entendimento	e	fiz	muitas	acusações	falsas.
16.	Comecei	a	me	forçar	para	ler	e	escutar	a	Escritura.
17.	Comecei	a	compreender	a	graça	de	Deus.	Passei	a	perceber	que	revolver-me
na	culpa	era	uma	forma	de	justificação	por	meio	de	obras,	e	não	tristeza	segundo
Deus.
18.	Uma	vez	que	percebi	que	o	reconhecimento	do	meu	pecado	era	uma	coisa
boa,	passei	a	dizer	a	mim	mesmo:	“Quando	em	dúvida,	arrependa-se”.
19.	Decidi.
20.	Realmente	não	sei	o	que	foi	que	Deus	usou,	porque	foram	tantas	coisas
aparentemente	pequenas.
“Não	me	ajudou	quando...”
Esta	segunda	lista	é	de	coisas	que	não	ajudaram.	“Não	me	ajudou	quando”:
1.	Fiquei	a	procurar	pecados	superficiais	em	minha	vida.	Focalizava	pecados
específicos,	como,	por	exemplo,	o	modo	como	eu	falava	com	meus	filhos,	e	não
olhava	para	o	pecado	mais	profundo	que	motivava	meu	senso	de	carência.
2.	Eu	estava	irado,	e	ninguém	tentou	entender	o	que	minha	ira	dizia	sobre	meu
relacionamento	com	Deus.	Eles	só	diziam	que	eu	tinha	de	fazer	o	que	é	certo.
3.	Eu	estava	irado	e	as	pessoas	diziam	que	eu	tinha	todo	o	direito	de	me	sentir
assim.
4.	Disseram-me	que	eu	teria	de	me	amar	mais.5.	Disseram	que	eu	tinha	de	abaixar	as	minhas	expectações	quanto	a	mim
mesmo.
6.	As	pessoas	davam	respostas	antes	mesmo	de	me	escutar.	Parecia	que	todos
tinham	algum	remédio	para	oferecer.
7.	As	pessoas	falavam	demais.
8.	Amigos	não	diziam	algumas	das	coisas	que	pensavam.	Tinham	medo	de	falar
com	sinceridade	porque	achavam	que	eu	estaria	fragilizado	demais	para	escutar.
9.	As	pessoas	se	esforçavam	demais.
Estratégias	específicas
A	lista	seguinte	contém	tarefas	para	casa	e	estratégias	específicas	que	têm
ajudado	as	pessoas.
1.	Tome	uma	história	bíblica	e	leia-a	diariamente.	Escreva	dez	(ou	mais)
aplicações	para	o	texto	lido.	A	ideia	básica	dessa	e	de	outras	tarefas	é	que	a
pessoa	deprimida	seja	motivada	a	meditar.	Senão,	sua	mente	será	levada	a	maior
desespero.	No	afã	de	ajudar,	talvez	você	pense	em	tentar	tudo	o	que	for	possível,
em	vez	de	se	firmar	em	uma	coisa	até	que	a	pessoa	consiga	realizá-la	e,	só	então,
passar	para	a	seguinte.	Se	a	pessoa	deprimida	consegue	perceber	o	mérito	dessa
única	estratégia	de	batalha,	e	estiver	disposta	a	cooperar,	prossiga	com	a	tarefa
até	que	seja	completada.
2.	Encontre	dez	qualidades	positivas	em	uma	pessoa	amiga.	Anote-as	e	mande
essa	lista	para	ela.
3.	Escreva	qual	o	seu	propósito	de	vida.	Permita	que	outras	pessoas	façam	uma
revisão	dele.	Em	seguida,	memorize-o.
4.	Torne-se	especialista	naquilo	que	Deus	diz	ao	sofredor.	Comece,	por	exemplo,
com	Hebreus	10-12.
5.	Tome	nota	de	ensinos	e	aplicações	do	sermão	de	domingo	que	sejam	bons,
importantes	e	verdadeiros.
6.	A	cada	dia,	fale	ou	escreva	algo	que	edifique	o	próximo.
7.	Tome	um	aspecto	da	criação	(por	exemplo,	a	relva,	uma	árvore,	um	esquilo,
uma	folha)	e	considere-o	até	poder	dizer	que	é	realmente	bom.
8.	Ouça	a	palavra	de	Deus.	Escute	música	que	aponte	para	Cristo,	ou	peça	a
alguém	que	leia	ou	ensine	aquilo	que	ele	está	aprendendo,	de	modo	que	você
possa	resumir	o	que	ouviu.	Pratique	a	arte	de	escutar.
9.	Fique	de	olho	nas	reclamações	ou	murmurações.	Tal	como	a	maledicência,	o
pecado	da	murmuração	se	tornou	coisa	aceitável	em	nossa	cultura	e,	assim,	não
enxergamos	suas	raízes	feias.	O	que	é	que	a	murmuração	está	realmente
dizendo?
10.	Pense	nestas	perguntas:	Em	nossa	cultura,	nós	teríamos	nos	esquecido	dos
benefícios	das	provações?	Quais	são	alguns	dos	possíveis	benefícios	do
sofrimento	(Sl	119.67,	71;	2Co	1.8-10;	Hb	5.8;	Tg	1.3)?
11.	Dado	que	o	rótulo	de	“depressão”	não	consegue	captar	toda	a	profundidade
da	sua	experiência,	que	outras	palavras	(especialmente	palavras	que	se
encontram	na	Escritura)	poderão	traduzir	de	forma	mais	concreta	aquilo	que	se
passa	em	seu	coração?
12.	Procure	ajuda.	Peça	a	algumas	pessoas	que	orem	por	você	e	que	lhe	falem	a
verdade.	Quando	pedir	oração,	não	peça	apenas	para	ter	alívio	da	depressão.	Use
a	oportunidade	para	fazer	grandes	orações.	Por	exemplo,	pedir	que	você	conheça
o	amor	de	Cristo	(Ef	3);	ore	para	que	você	seja	mais	semelhante	a	Jesus	(Rm
8.29);	peça	que	possa	amar	mais	ao	próximo;	peça	discernimento	do	que
significa	hoje	dar	glória	a	Deus.
13.	Nem	sempre	podemos	mudar	nossos	sentimentos,	mas	podemos	mudar	o
modo	de	pensar.	Que	pensamentos	precisam	ser	mudados?	Comece,	dizendo	um
enfático	“PARE!”,	sempre	que	notar	que	eles	aparecem.
14.	Pergunte-se:	o	que	estou	ganhando	com	minha	depressão?	Talvez	não	tenha
respostas	nem	a	pergunta	pareça	relevante,	mas	será	um	lembrete	para	nos
conscientizar	de	que,	muitas	vezes,	estamos	fazendo	mais	do	que	percebemos.
15.	Faça	uma	representação	gráfica	da	sequência	da	depressão.	Comece	com	um
evento	recente	que	o	tenha	tirado	do	sério.	Seja	o	mais	específico	possível
quanto	aos	passos	que	seguiu	para	restaurar	o	equilíbrio.
16.	Quais	são	as	suas	opções?	Talvez	você	sinta	que	percorre	uma	longa	trilha	de
desesperança,	mas	isso	não	é	verdadeiro.	Você	toma	decisões	a	cada	dia.	No
presente	momento,	você	se	encontra	em	mais	uma	encruzilhada.
17.	Procure	outra	pessoa	deprimida	e	fale	a	ela	palavras	de	encorajamento.
18.	Jamais	recorra	à	Escritura	sem	nela	buscar	a	Jesus.
19.	Tome	cuidado	ao	fazer	análises	pessoais.	Passe	a	sua	análise	para	ser
revisada	por	outra	pessoa.
20.	Caminhe	o	mais	rápido	que	você	puder,	juntamente	com	outra	pessoa.
Agora,	com	a	máquina	engrenada,	o	que	você	acrescentaria	a	essas	listas?
Capítulo	24
O	que	esperar
A	depressão	aumenta	e	diminui.	Poderá	passar	um	tempo	de	muita	ferocidade
para,	depois,	permanecer,	silenciosa,	no	pano	de	fundo.	Poderá	persistir	firme
durante	longos	períodos	para,	então,	perder	a	força	e	nunca	mais	voltar.	Quando
a	depressão	perde	a	intensidade,	haverá	sempre	a	possibilidade	de	que	ela	esteja
à	espreita	para	voltar,	e	isso	poderá	atemorizar	o	coração	de	quem	a
experimentou.
Como	todo	sofrimento	humano,	a	depressão	é	de	difícil	previsão.	Ainda	que
tenha	a	tendência	de	aparecer	inesperadamente,	existem	algumas	coisas	que
podemos	prever	a	fim	de	nos	prepararmos	para	enfrentá-la.
Fique	de	sobreaviso
Uma	das	razões	pelas	quais	precisamos	escutar	a	depressão	é	que	ela	tem	um
histórico.	Geralmente,	há	uma	razão	para	que	ela	surja.	Se	você	pensar	em	seu
próprio	histórico	de	depressão,	poderá	perceber	alguns	avisos.	Por	exemplo,
avisos	físicos,	como	fadiga	e	mudanças	nos	hábitos	do	sono.	Poderá	perder	o
interesse	pela	comida.	As	cores	poderão	não	parecer	tão	vibrantes,	e	você,
talvez,	não	tenha	reações	normais	diante	de	pessoas	e	atividades	que	antes
apreciava.	Espiritualmente,	poderá	se	perceber	irado,	solitário	ou	sem	consolo
em	face	da	lembrança	de	que	Deus	é	o	soberano	amável	que	está	no	controle	de
tudo.
Escreva	isso	em	uma	pedra:	se	a	depressão	lhe	der	indicações	prévias	–	e,	em
geral,	ela	o	faz	–,	municie-se	com	tudo	o	que	tem	e	prepare-se	para	a	batalha.
Empenhe	sua	alma.	Peça	ajuda.	Force-se	a	uma	alimentação	mais	consistente	das
Escrituras	e	de	outras	palavras	de	esperança.	Esteja	vigilante	quanto	à
autopiedade,	murmuração	e	queixas.	Esteja	bem	próximo	da	cruz.	Se	permitir
que	esses	sentimentos	corram	seu	curso,	logo	você	perderá	vitalidade	e	se
entregará	à	depressão.	Mas,	com	a	prática,	você	observará	que	já	possui	mais
recursos	do	que	imaginava	ser	possível	para	repelir	a	pior	parte	da	depressão.
Espere	ser	ensinado	sobre	Deus	e
sobre	você	mesmo
Um	homem	de	quarenta	anos	e	propenso	a	flutuações	depressivas,	ao	perceber
os	sinais	de	aprofundamento	da	depressão,	perguntou	a	si	mesmo:	O	que	Deus
vai	me	ensinar	desta	vez?	Na	verdade,	aguardava	com	prazer	aquilo	que	estava
para	ser	ensinado	na	escola	de	Deus.
Se	estivermos	dispostos	a	ser	treinados	pela	depressão,	veremos	que	ela	é	uma
boa	mestra.	Isso	não	significa	que	devamos	procurar	a	depressão	e,	certamente,
não	quer	dizer	que	não	devamos	buscar	alento.	Contudo,	a	maioria	das	pessoas
dispostas	a	ser	ensinadas	pelo	sofrimento	poderá	olhar	para	trás	com	gratidão.
Os	que	sofrem	doenças	crônicas	testificam	quanto	a	isto.
Com	exceção	da	doença,	a	saúde	é	a	melhor	coisa	do	mundo.	Na	verdade,
sabendo	o	que	Deus	tem	feito	por	mim	por	meio	da	fraqueza	física,	e	convencido
de	que	certas	bênçãos	jamais	poderiam	ter	vindo	de	outra	maneira,	a	não	ser	por
esta	experiência,	sinto	que	teria	sido	calamitoso	se	eu	não	tivesse	tido	o
sofrimento	físico	pelo	qual	passei.¹
Depois	de	passar	três	anos	em	um	campo	japonês	para	prisioneiros	de	guerra,	um
oficial	britânico	que	encontrou	Cristo	naquela	prisão	disse	algo	que	só	um
verdadeiro	seguidor	de	Cristo	poderia	dizer:
Bem,	tudo	acabou.	Eu	não	teria	perdido	isso	por	nada.	Na	verdade,	foi	duro.	Mas
aprendi	muito	mais	do	que	jamais	teria	aprendido	na	universidade	ou	em	outro
lugar	qualquer.	Por	exemplo,	aprendi	que	as	coisas	da	vida	são	reais;	aprendi
também	que	é	maravilhoso	estar	vivo...	O	sofrimento	não	mais	nos	prende	à	casa
de	detenção	da	autopiedade,	dó	de	si	mesmo;	ao	invés	disso	leva-nos	ao	que
Albert	Schweitzer	chamou	de	“comunhão	dos	que	portam	as	marcas	da	dor”.
Olhamos	para	a	cruz	e	fomos	fortalecidos	com	o	conhecimento	que	há	ali,	o
conhecimento	de	que	Deus	estava	em	nosso	meio.²
Embora	essas	perspectivas	nos	pareçam	extremadas,	vemosesse	tipo	de
testemunho	em	toda	a	igreja.	Os	benefícios	do	sofrimento	são	bem	conhecidos.
Por	exemplo,	entre	os	argumentos	usados	por	conselheiros	na	reabilitação	de
usuários	de	drogas	está	o	de	que	drogas,	como	remédios,	mascaram	o
sofrimento,	fazendo	com	que	os	viciados	evitem	a	dor	e	não	enfrentem	a
realidade	para	aprender	dela.	O	resultado	é	que	permanecem	imaturos	e	faltos	de
caráter.
Depois	que	Jesus	veio	ao	mundo,	contudo,	as	perspectivas	sobre	o	sofrimento
tornaram-se	mais	radicais.	Hoje,	o	sofrimento	é	visto	como	as	dores	de	parto	–
não	um	evento	aleatório	e	sem	propósito.	Com	a	vinda	de	Jesus,	o	sofrimento
tornou-se	redentivo.	Faz	parte	do	caminho	do	peregrino,	e	é	bom.	Como	diz
Romanos	5.3-4:	“nos	gloriamos	nas	próprias	tribulações,	sabendo	que	a
tribulação	produz	perseverança;	e	a	perseverança,	experiência;	e	a	experiência,
esperança”.
O	sofrimento	é	um	professor.	Jesus	ensinou	(Hb	5.8)	e	poderá	nos	ensinar
também.	Mas	só	o	faz	quando	estamos	com	os	olhos	fixos	nele.	Se	nós	o
evitarmos	em	meio	à	dor,	certamente	nos	tornaremos	amargurados.	Porém,	se
olharmos	para	Jesus,	nós	não	estaremos	sós.	Seremos	fortalecidos	e
transformados.	Podemos	dizer:	Era	exatamente	disso	eu	precisava.	Pela
depressão,	aprendi	mais	sobre	Deus	e	sobre	mim	mesmo.	Teria	sido	uma
tragédia	não	ter	aprendido.
Espere	que	Deus	o	use	à	medida	que	você
ama	ao	próximo
Uma	das	lições	que	Deus	nos	dá	é	sobre	o	amor.	“Ora,	o	seu	mandamento	é	este:
que	creiamos	em	o	nome	de	seu	Filho,	Jesus	Cristo,	e	nos	amemos	uns	aos
outros,	segundo	o	mandamento	que	nos	ordenou”	(1Jo	3.23).	Amar	a	Deus	e
amar	ao	próximo	é	o	resumo	de	nosso	propósito.	Se	nos	dispusermos,	poderemos
esperar	crescimento	no	amor	por	outras	pessoas.
Quando	nos	dispomos	a	amar	ao	próximo	mesmo	em	meio	ao	nosso	sofrimento,
a	glória	de	Cristo	ficará	indubitável.	É	tão	extraordinário	que	não	passa
despercebido.	Em	geral,	quando	padecemos,	não	pensamos	nos	outros.	Só
pensamos	em	como	encontrar	alívio.	Mas	o	Espírito	nos	torna	mais	parecidos
com	Jesus,	e	Jesus	certamente	amava	profundamente	ao	próximo,	mesmo
quando	sofreu	intensa	dor	e	rejeição.
Podemos,	contudo,	esperar	impedimentos.	Deste	lado	do	céu,	o	amor	não	cresce
sem	lutas.	Mesmo	que	a	glória	de	Cristo	esteja	sempre	ao	alcance,	ainda
encontraremos	em	nosso	próprio	coração	uma	resistência	que	permanece
favorecida	pelas	forças	das	trevas.	Podemos	encontrar	tal	guerra	em	numerosas
reações	comuns:
–	Tentei,	mas	não	deu	certo.
–	De	que	adianta?
–	Jesus	pode	fazer	isso,	mas	eu	não	sou	Jesus.
Ou	então	as	pessoas	simplesmente	ignoram.	Para	elas,	o	chamado	ao	amor	nem
merece	resposta.
Você	também	tem	suas	desculpas.	Quando	se	dispuser	a	imitar	o	amor	sacrifical
de	Jesus,	deverá	esperar	resistência	do	próprio	coração.	Para	alguém	seguir	a
Cristo,	será	imprescindível	a	obra	do	Espírito	de	Cristo.	O	amor	ao	próximo	vem
da	confissão:	Senhor,	eu	preciso	de	ti.	Vem	de	fé	e	confiança.
Quando	aceitamos	o	desafio	de	amar	ao	próximo,	será	revelado	mais	sobre	o
nosso	coração,	pois	nossa	tendência	é	amar	com	condições.	Por	exemplo,	amar
aos	outros	se	isso	aliviar	a	depressão.	“Está	bem,	Deus.	Fiz	a	minha	parte	–
agora	o	Senhor	faça	a	sua!”	Ou	amaremos	o	próximo	a	fim	de	que	sejamos
amados	pelos	outros.	Se	o	nosso	amor	proceder	de	qualquer	outra	razão,	exceto
que	“Nós	o	amamos	porque	ele	nos	amou	primeiro”,	seremos	decepcionados.
Se	encontrarmos	alegria	no	amor	ao	próximo,	certamente	virá	da	constatação	de
que	fizemos	algo	mais	importante	do	que	simplesmente	aliviar	a	depressão.
Teremos	visto	a	ação	do	Espírito	de	Deus	em	nossa	vida.	Teremos	obtido
evidências	de	que	pertencemos	a	Cristo,	e	de	ele	estar	nos	usando	para	cumprir
os	seus	propósitos.
Ainda	que	o	mandamento	de	amar	ao	próximo	seja	muito	simples,	não	é	natural
que	amemos	da	maneira	como	Deus	nos	ama,	especialmente	quando	nos
sentimos	vazios.	Espere	o	sobrenatural	em	sua	vida.	Espere	se	tornar	um
embaixador	do	Rei	do	amor.
Espere	que	sua	depressão	seja	“leve	e	momentânea”
A	carta	mais	pessoal	do	apóstolo	Paulo	foi	a	sua	Segunda	Epístola	aos	Coríntios.
Toda	carta	revela	alguma	coisa	sobre	seu	autor,	mas	a	maioria	das	cartas	paulinas
tratou	da	natureza	do	evangelho	e	sua	aplicação	à	vida.	Não	eram	altamente
autobiográficas.	Contudo,	em	2Coríntios,	Paulo	estava	sendo	atacado.	Falsos
mestres	sugeriam	que	Paulo	não	tivesse	qualificações	para	falar	com	autoridade.
Neste	contexto,	ele	falou	muito	pessoalmente
A	fim	de	estabelecer	as	credenciais	apostólicas,	ele	destacou,	em	especial,	que
sofrera	grandes	dificuldades	e	provações	devido	ao	evangelho	de	Cristo.
Suas	provações	eram	tamanhas	que	Paulo	pensava	que	fosse	morrer	(1.8).	Isso
aconteceu	repetidamente	(11.23),
Foi	“atribulado	de	todos	os	lados”,	“perplexo”,	“perseguido”	e	“abatido”	(4.8-9).
Cinco	vezes	recebeu	trinta	e	nove	açoites;	foi	três	vezes	fustigado	com	varas;
uma	vez,	apedrejado;	(11.24-25)	aprisionado	e	centro	focal	de	uma	revolta	(6.5).
Foi	apedrejado	e	deixado	como	morto	(11.25).
Passou	muitas	vezes	sem	comer	e	sem	dormir	(6.5).
Naufragou	três	vezes,	sendo	que	uma	ele	passou	na	voragem	do	mar	(11.25).
Viveu	com	uma	doença	debilitante	(12.7).
Foram	essas	apenas	algumas	das	dificuldades	pelas	quais	Paulo	passou.
O	ponto	é	o	seguinte:	quando	fala	sobre	sofrimento,	Paulo	tem	credibilidade.
Algumas	pessoas	dizem:	“Sim,	Jesus	sofreu,	mas	ele	era	Deus,	e	assim	pode
suportar	tudo”.	Isso,	naturalmente,	é	uma	manobra	para	manter	Jesus	à	distância
e	justificar	a	autopiedade.	Mas,	tratando-se	de	Paulo,	essa	desculpa	é	quase
impossível	de	ser	aceita.	Paulo	era	gente	como	nós	e	seus	sofrimentos	foram
bem	mais	intensos	do	que	os	nossos.
Mantendo	isso	em	mente,	considere	a	avaliação	do	que	ele	fez	de	sua	vida
sofrida:
Por	isso,	não	desanimamos;	pelo	contrário,	mesmo	que	o	nosso	homem	exterior
se	corrompa,	contudo,	o	nosso	homem	interior	se	renova	de	dia	em	dia.	Porque	a
nossa	leve	e	momentânea	tribulação	produz	para	nós	eterno	peso	de	glória,
acima	de	toda	comparação,	não	atentando	nós	nas	coisas	que	se	veem,	mas	nas
que	se	não	veem;	porque	as	que	se	veem	são	temporais,	e	as	que	se	não	veem	são
eternas.	(2Co	4.16-18)
Paulo	chamou	seu	sofrimento	de	“breve	e	momentâneo”	–	e	ainda	estava
sofrendo!
Imagine	uma	balança	–	daquelas	antigas	em	que	um	peso	conhecido	é	colocado
de	um	lado	e	o	item	a	ser	pesado	do	outro.	Se	os	pesos	originais	fossem
honestos,	seria	possível	conhecer	o	peso	de	alguma	coisa,	mediante	o	equilíbrio
da	balança.
Paulo	está	dizendo	que,	na	verdade,	o	sofrimento	pesa	e	oprime.	Mas	o	que	ele
recebeu	em	Cristo	tem	peso	ainda	maior.	Isso	mais	que	contrabalança	os	pesos
do	sofrimento,	tornando-os,	em	comparação,	leves	e	efêmeros.
Parece	impossível,	ou	pelo	menos,	exagero,	mas	todos	nós	já	tivemos	a
experiência	de	algo	semelhante.	Uma	criança	cai	e	rala	o	joelho,	mas	seu	choro
cessa	assim	que	ela	ganha	um	pirulito.	A	dor	não	desapareceu	imediatamente,
mas	a	alegria	é	maior.	Melhor:	a	criança	cai	e	rala	o	joelho,	mas	o	seu	choro	para
tão	logo	sua	mãe	a	tome	nos	braços	e	a	conforte.	A	dor	não	sumiu,	mas	ela
possui	algo	ainda	melhor.
Um	menino,	na	escola	de	primeiro	grau,	sente-se	rejeitado	porque	foi	o	último	a
ser	escolhido	para	o	time	de	futebol,	mas	a	vergonha	desaparece	no	momento
que	ele	faz	um	gol,	segundos	antes	de	o	sinal	tocar.
Uma	mulher	perde	o	emprego	devido	à	redução	de	custos	na	firma,	para,
momentos	depois,	ser	contratada	pela	companhia	ao	lado	–	com	um	salário
melhor.	Todos	conhecemos	situações	ruins	que	são	contrabalançadas	por	algo
muito	melhor.
Para	que	Paulo	tivesse	um	contrapeso	maior	e	melhor	do	que	seu	sofrimento,
precisaria	ser	algo	realmente	extraordinário.	Encontrou	isso	em	Jesus.	Só	isso
trará	a	esperança	que	você	também	precisa.	É	como	encontrar	alguém	que
passou	por	depressão	severa,	e	diz:	“Consegui	me	livrar!	Estou	muito	melhor.
Você	também	vai	conseguir!”	Mesmo	sem	saber	como	essa	pessoa	conseguiu
vencer,	você	é	encorajado,	pelo	menos,	ao	saber	que	é	possível	vencer.
Paulo	se	alegrou	com	a	possibilidade	de	compartilhar	seu	remédio	conosco,e
deixou	claro	que	ele	se	encontra	disponível	para	todos	que	quiserem,
independentemente	de	quem	somos	–	ou	mesmo	o	quanto	estejamos	velhos,
doentes	ou	feridos.
Você	acha	que	Deus	é	sovina?	Sim,	acha.	Contudo,	Paulo	lembra	que	Deus	fez
uma	balança	de	promessas,	e	todas	elas	são	“sim”	(2Co	1.20).	Ele	perdoa?	Sim.
Jamais	nos	deixará	nem	nos	abandonará?	Sim.	Ama-nos	com	amor	eterno?	Sim.
Demonstrará	paciência	sem	limites?	Sim.	Fará	de	nós	sua	noiva?	Sim.
Sabe	como	parecemos	quando	buscamos	a	Jesus?	Lembre-se	de	Moisés,	ao
descer	da	montanha.	Seu	rosto	brilhava	pelo	reflexo	da	luz	de	Deus,	de	modo
que	ele	usou	um	véu	para	encobrir	a	glória	desvanecente.	Paulo	aludiu	a	essa
história	quando	disse:	“E	todos	nós,	com	o	rosto	desvendado,	contemplando,
como	por	espelho,	a	glória	do	Senhor,	somos	transformados,	de	glória	em	glória,
na	sua	própria	imagem,	como	pelo	Senhor,	o	Espírito”	(2Co	3.18).	São	essas
algumas	das	razões	pelas	quais	o	sofrimento	lhe	pareceu	leve	e	momentâneo.	À
luz	do	que	tinha	recebido,	sua	dor	era	mínima.
Contudo,	não	foi	somente	o	que	ele	recebeu.	Era	também	o	que	ele	receberia.
Paulo	se	alegrava	com	os	benefícios	presentes	da	cruz,	contudo,	sabia	o	bastante
sobre	a	miséria	e	o	pecado	para	manter	os	olhos	fixos	naquilo	que	estava	adiante
dele.	Aguardava	especialmente	a	glória	eterna	–	a	glória	do	porvir.	De	algum
modo,	essa	esperança	mudava	tudo.
Resposta
A	depressão	proporciona	uma	visão	de	túnel.	A	Escritura	nos	dá	visões	que	se
estendem	do	início	da	criação	e	vai	por	toda	a	eternidade.	Se	você	não	estiver
deslumbrado	pela	expansão	que	a	Escritura	abre	à	sua	frente,	seja	persistente.	Na
medida	em	que	continuarmos	olhando,	veremos	cada	vez	mais.	Um	de	nossos
alvos	é	permitir	que	as	palavras	do	apóstolo	Paulo	sejam	nossos	olhos	até	que
possamos	ver	com	mais	clareza.
1	FROST,	H.W.	Miraculous	Healing	(Nova	York:	R.	Smith,	1931),	p.	45-46.
2	GORDON,	Ernest,	Miracle	on	the	River	Kwai	(Wheaton,	IL:	Tyndale,	1984),
p.	158,	287.
Parte	IV
Esperança	e	alegria
Pensando	os	pensamentos	de	Deus
Capítulo	25
Humildade	e	esperança
						Em	qualquer	livro,	o	final	da	história	faz	toda	a	diferença.	Uma	história
trágica	como	a	de	Romeu	e	Julieta,	de	Shakespeare,	começa	bem,	com	as
pessoas	plenas	de	esperança	e	amor	–	mas	acaba	mal.	Uma	comédia	tal	como
Muito	barulho	por	nada	inicia	com	presságios	tenebrosos	e	tramas	de	traições.	O
futuro	parece	incerto,	mas	termina	de	modo	maravilhoso.	É	o	final	do	filme,
mais	que	o	humor,	que	o	torna	engraçado.
Você	precisa	resolver	se	vai	viver	a	vida	como	tragédia	ou	comédia.	A	história
que	Jesus	nos	oferece	é	um	drama	alegre.
Quando	assistimos	pela	primeira	vez	a	um	bom	filme	cômico,	ainda	ficamos
tensos	porque	não	sabemos	qual	rumo	a	história	irá	tomar.	Queremos	o	melhor
para	as	personagens	principais,	mas	parece	que	alguma	coisa	está	sempre
interferindo.	Quando	finalmente	chegamos	ao	fim	e	os	heróis	estão	vivendo
felizes	para	sempre,	enquanto	os	vilões	recebem	o	merecido	castigo,	relaxamos.
Shakespeare	estava	certo	–	Tudo	está	bem	quando	acaba	bem.
Assista	à	peça	ou	ao	filme	uma	segunda	vez.	Dessa	vez,	você	já	conhece	a	trama.
As	dificuldades	ainda	estão	ali;	a	ideia	de	que	acabará	mal	ainda	está	ali,	mas,
agora,	você	tem	certeza	de	esperança.	Está	alerta	aos	sinais	de	que	as	coisas	logo
vão	melhorar.	Não	tem	o	mesmo	medo	ou	peso	de	quando	assistiu	pela	primeira
vez.	Ainda	passa	por	uma	série	de	emoções.	Chora	e	ri,	nos	mesmos	pedaços.
Mas	interpreta	a	história	toda	com	referência	ao	clímax	final.	Como	aquele	leitor
que	começa	a	ler	o	livro	pelo	último	capítulo,	você	vê	as	dificuldades	sob	uma
luz	muito	diferente.
A	Escritura	conta	o	final,	e,	se	tivermos	depositado	nossa	fé	em	Jesus	e	não	em
nós	mesmos,	esse	será	também	o	nosso	final.	Jesus	vence.	Sua	justiça	prevalece.
Vemos	o	seu	amor	tal	como	realmente	é	–	irresistível	e	sem	limites.	Nossa	união
em	Cristo	excede	a	imaginação.	Veremos	a	vida	com	propósito	muito	maior	do
que	imaginávamos.	Tudo	quanto	fizermos	pela	fé	–	por	Jesus	–	permanecerá
firme	e	redundará	“em	louvor,	glória	e	honra	na	revelação	de	Jesus	Cristo”	(1Pe
1.7).	É	claro	que	tal	conhecimento,	somente,	não	apaga	nossa	tristeza.	Como
disse	Nicolas	Wolterstorff,	em	Lament	for	a	Son	[Lamento	por	um	filho],	somos
“visionários	doloridos”.¹	Porém,	saber	o	final	mostra	que	a	tristeza	e	a	morte	não
terão	a	vitória.	Para	quem	conhece	Cristo,	vida	e	alegria	são	as	últimas	palavras.
A	história	de	Deus
Até	aqui,	você	sabe	que	a	esperança	é	uma	questão-chave	para	a	depressão.	A
transição	crítica	é	do	desespero	para	a	esperança.	Você	entende	também	que
Deus	fez	promessas,	e	é	do	seu	agrado	que	nós	aguardemos	o	cumprimento	delas
com	alegria.	Deus	preza	a	esperança.	Significa	que	nós	não	tentaremos	encontrar
nosso	lar	na	terra,	mas	aguardamos	o	melhor	de	tudo	–	encontrar	nosso	lar	na
presença	de	Deus.
Uma	coisa	peço	ao
Senhor
,	e	a	buscarei:	que	eu	possa	morar	na	Casa	do
Senhor
todos	os	dias	da	minha	vida,	para	contemplar	a	beleza	do
Senhor
e	meditar	no	seu	templo.	(Sl	27.4)
A	desesperança	significa	que:
Não	estamos	dispostos	a	esperar
Queremos	alguma	coisa	mais	do	que	queremos	a	Jesus
Realmente	não	conhecemos	a	Jesus
Conquanto	nossa	cultura	exalte	riqueza	e	saúde,	a	esperança	é	uma	das	mais
cobiçadas	possessões	espirituais.	Obtemos	esperança	quando	a	pedimos	e
praticamos.	Praticamos	esperança	ao	lembrar	e	meditar	na	história	de	Deus.
Sem	a	história	de	Deus,	todos	estarão	deprimidos,	sem	esperança	e	cheios	de
desespero,	pois,	juntamente	com	todas	as	histórias	falsificadas,	tudo	que
almejamos	sem	Deus	acabará,	agora	ou	no	futuro,	em	ruínas.	Simplesmente,	não
há	esperança.	“Por	que	se	importar?”	é	uma	questão	que	colore	todas	as	coisas.
Sem	a	história	da	cruz	e	da	ressurreição,	somos	como	pessoas	que	acabaram	de
vender	a	casa	para	um	empreendedor	que	planeja	derrubar	tudo	amanhã	para
fazer	um	estacionamento	no	local.	Em	um	caso	desses,	você	não	compraria
carpete	novo,	não	podaria	os	arbustos	nem	poderia	pintar	os	beirais	da	casa.	A
propriedade	será	destruída	completamente	–	por	que	investir	tanto	dinheiro	e
esforço?
Até	mesmo,	a	história	da	ciência,	com	toda	confiança	de	que	consegue	melhorar
todas	as	coisas,	no	final,	não	poderá	dar	esperança.	Alguém	que	tenha	ganhado	o
prêmio	Nobel,	nessa	área,	saberá	que	realizou	grandes	descobertas,	mas	sabe
também	que	seu	trabalho	apenas	arranha	a	superfície,	será	lido	por	poucos,	será
ultrapassado	por	outros,	e	nada	fará	para	vencer	a	morte.
Quanto	mais	o	universo	parece	compreensível,	mais	sem	sentido	ele	parece...	O
esforço	de	entender	o	universo	é	uma	das	poucas	coisas	que	eleva	o	espírito
humano	um	pouco	acima	do	nível	de	uma	farsa,	dando-lhe	um	pouco	da	graça	da
tragédia.²
“A	graça	de	uma	tragédia”	é	o	máximo	que	podemos	esperar,	se	não	contarmos
uma	história	diferente.	Talvez	a	“graça	da	tragédia”	seja	o	bastante	para	aqueles
que	encontram	certo	romance	e	heroísmo	em	um	ponto	de	vista	completamente
pessimista	e	sem	vida;	entretanto,	tal	perspectiva	é	um	luxo	para	quem,	de
alguma	maneira,	encontrou	em	si	mesmo	uma	esperança	temporária.	Para	o
restante	de	nós,	“a	modernidade	é	a	tentativa	de	viver	uma	história	universal	sem
um	contador	universal	de	histórias”.³	Na	pós-modernidade,	não	há	história
universal	nem	contador	de	história.
A	história	de	Deus	vai	de	eternidade	a	eternidade.	Começa	com	um	“No
princípio	Deus...”.	Ele	é	o	Criador	e	nós,	as	suas	criaturas.	Essa	revisão	da
história	imediatamente	subverte	todas	as	demais.	As	outras	histórias	sempre
procuram	maneiras	de	humanizar	a	Deus	e	deificar	a	nós	mesmos,	contudo,	a
história	de	Deus	exalta	a	ele	mesmo	e	traz	a	nós,	suas	criaturas,	a	devida
humildade.	Toda	sabedoria	começa	aqui.	Se	a	perdermos	de	vista,	estaremos	no
caminho	errado	e	sem	esperança.
Muitas	vezes,	as	palavras	de	esperança	começam	com	a	afirmação	de	Deus,	de
que	ele	mesmo	é	Criador	e	nós	as	suas	criaturas.	Ouça	suas	palavras	em	Isaías
44.24:	“Assim	diz	o	Senhor,	que	te	redime,	o	mesmo	que	te	formou	desde	o
ventre	materno:	Eu	sou	o	Senhor,	que	faço	todasas	coisas,	que	sozinho	estendi
os	céus	e	sozinho	espraiei	a	terra”.
Neste	caso,	a	revelação	que	Deus	faz	de	si	como	Criador	é	confortante,	pois
lembra-nos	de	que	não	existe	outro	deus	que	possa	impedir	os	intentos	do
Senhor.	Os	seus	planos	prosperarão.	Isso	também	lembra	aos	seus	ouvintes	de
que	eles	não	são	Deus.	São	filhos	de	Deus	e	devem	somente	a	ele,	e	a	ninguém
mais,	a	aliança	salvadora.
A	história	continua.	Deus	cria	para	si	um	povo,	porém,	esse	povo	escolhe	uma
história	diferente.	Assim	mesmo,	ele	prossegue	com	seu	plano	e	busca	suas
teimosas	criaturas.	Em	tudo	existe	esperança,	porém	o	pecado	e	a	morte	são
proeminentes.	Eis	o	porquê	de	a	autêntica	história	da	esperança	depender	da
ressurreição	de	Jesus	–	resposta	de	Deus	a	um	mundo	em	desespero.
A	ressurreição	de	Cristo	introduz	o	clímax	extenso	da	história	de	Deus,	que	vai
da	ressurreição	até	sua	volta	final,	quando	anuncia	a	consumação	de	todas	as
coisas.	Durante	esse	clímax,	Deus	nos	assegura	que	quem	coloca	sua	fé	em	Jesus
também	ressuscitará,	entretanto,	essa	ressurreição	corporal	terá	de	esperar	até	a
volta	de	Jesus.	Ele	é	“as	primícias”,	o	irmão	mais	velho	que	prepara	o	caminho.
Nossa	própria	ressurreição	é	aguardada	em	confiança;	portanto,	por	enquanto,
nós	esperamos.	Esperamos	com	a	expectação	de	quem	está	prestes	a	dar	à	luz	ou
a	se	casar	–	mas	temos	de	esperar.	E	enquanto	esperamos,	às	vezes,	nós
gememos.	Em	meio	a	esses	gemidos,	nós	esperamos.	Vivemos	como	Jesus,	que,
em	meio	ao	sofrimento,	aguardava	sua	vida	ressurreta	junto	ao	Pai.	Se	a	vida	de
Jesus	foi	arraigada	em	esperança,	somos	honrados	e	humilhados	pelo	fato	de	que
a	nossa	vida	possa	ser	semelhante.
As	nossas	revisões	à	história	de	Deus
Se	você	estiver	sem	esperança,	dentre	vários	contribuintes	para	isto,	haverá,	com
certeza,	pelo	menos	dois.	Primeiro,	você	pôs	a	confiança	em	algo	que	não	é
Deus	–	em	uma	pessoa,	no	dinheiro,	na	reputação	pessoal	–	e	ficou
decepcionado.	Segundo,	talvez	você	tenha	entendido	que	Jesus	venceu	a	morte,
mas	vive	como	se	ele	ainda	estivesse	enterrado.	Todo	desespero	é,	em	última
análise,	uma	negação	da	ressurreição.	Essa	falsa	profecia	faz	com	que	a	morte,	o
desespero,	a	falta	de	significado,	a	ruína	e	o	vazio	sejam	as	últimas	palavras.
Contudo,	a	ressurreição	venceu	a	morte,	o	pecado,	a	miséria	e	tudo	o	mais	que
foi	contaminado	pela	maldição.	A	ressurreição	é	a	última	palavra.	Seu	resultado
é:	“o	vosso	trabalho	não	é	vão”	(1Co	15.58).
Você	tem	clamado	ao	Senhor	em	meio	às	suas	dificuldades?	A	ressurreição	diz
que	tal	ato	de	fé	tem	valor	eterno.
Você	tem	procurado	amar	em	meio	ao	seu	sofrimento?	A	ressurreição	diz	que
esse	ato	tem	valor	eterno.
Você	tem	procurado	obedecer	humildemente	a	Jesus?	Tem	feito	alguma	coisa
por	amor	de	Jesus?	A	ressurreição	diz	que	isso	é	um	ato	de	fé	que	redunda	em
glória	e	provará	ser	mais	valioso	do	que	o	ouro	(1Pe	1.7).
Algumas	pessoas	sem	esperança,	que	aguardam	apenas	a	morte,	citam	o	trecho
bíblico	que	diz	“tendo	o	desejo	de	partir	e	estar	com	Cristo,	o	que	é
incomparavelmente	melhor”	(Fp	1.23).	Mas	Cristo	não	é	o	que	as	pessoas
desesperadas	realmente	desejam.	Tal	conversa	sobre	Deus	é	enganosa.	O	alvo	da
desesperança	é	finalizar	o	sofrimento,	e	se,	por	acaso,	Deus	estiver	lá	quando
isso	acontecer,	muito	bem.	A	presença	de	Deus	não	é	essencial	para	elas.
Considere	sua	própria	história.	Se	você	crê	em	Jesus	como	o	Senhor	ressurreto,
então	a	sua	história	é	a	seguinte:
Fui	criado	por	Deus.	Sou	seu	filho;	ele	é	meu	Pai.	Sou	pecador,	mas,	como	o
filho	pródigo,	o	meu	Pai	me	buscou.	Enviou	Jesus	como	sacrifício	por	meu
pecado,	para	me	redimir	da	morte	e	do	maligno.	Agora,	vivo	por	aquele	que
morreu	por	mim	e	que	está	vivo.	Luto	contra	o	pecado	pelo	poder	do	Espírito
Santo	e	aguardo	ansioso	o	dia	quando	o	pecado	e	o	sofrimento	não	mais	existirão
–	e	assim	verei	Jesus	face	a	face.
Observe	como	Paulo	conta	sua	história.	Começa	com	seu	currículo:	foi
circuncidado,	veio	da	tribo	certa	entre	os	hebreus,	dos	guardiões	certos	da	lei,	a
qual	guardava	integralmente:
Mas	o	que,	para	mim,	era	lucro,	isto	considerei	perda	por	causa	de	Cristo.	Sim,
deveras	considero	tudo	como	perda,	por	causa	da	sublimidade	do	conhecimento
de	Cristo	Jesus,	meu	Senhor;	por	amor	do	qual	perdi	todas	as	coisas	e	as
considero	como	refugo,	para	ganhar	a	Cristo	e	ser	achado	nele,	não	tendo	justiça
própria,	que	procede	de	lei,	senão	a	que	é	mediante	a	fé	em	Cristo,	a	justiça	que
procede	de	Deus,	baseada	na	fé;	para	o	conhecer,	e	o	poder	da	sua	ressurreição,	e
a	comunhão	dos	seus	sofrimentos,	conformando-me	com	ele	na	sua	morte;	para,
de	algum	modo,	alcançar	a	ressurreição	dentre	os	mortos	(Fp	3.7-11).
Podia	contar,	também,	outra	história	mais	curta:	“Porquanto,	para	mim,	o	viver	é
Cristo,	e	o	morrer	é	lucro”	(Fp	1.21).	Uma	história	desta	torna	impossível	a
desesperança.
Qual	é	a	sua	história?	O	seu	alvo	é	o	de	aceitar	o	que	a	Escritura	conta	dela,
tornando-a	sua	própria	história,	porém,	tantas	vezes,	acrescentamos	edições
pessoais	e	fazemos	revisões	com	finais	alterados.	Inserimos	capítulos	sobre
como	precisamos	de	coisas	deste	mundo,	tais	como	o	amor	das	outras	pessoas	ou
o	sucesso	pessoal.	Raciocinamos	que	somos	apenas	humanos,	não	reconhecendo
que	fomos	criados	para	algo	muito	maior	do	que	esperar	nas	coisas	que	foram
criadas.	Fazemos	interjeições	de	temas	que	correm	independentemente	do	nosso
relacionamento	com	Deus.	Por	exemplo,	uma	parte	de	nossa	história	poderá	ser
sobre	o	que	Deus	fez,	enquanto	a	outra	trata	de	nossa	busca	pela	independência.
Deixamos	a	casa	do	Pai	para	embarcar	em	jornadas	próprias,	e,	tolamente,
esperamos	nesta	vida	em	vez	de	estar	com	Jesus.	Criamos	nossa	própria	história
de	sofrimento	e	a	levamos	ao	ápice	de	sua	libertação	ao	invés	de	fazermos	isso
com	Jesus.	Todas	essas	emendas	à	história	de	Deus	seguramente	resultarão	na
falta	de	esperança.
Melhor	que	livre	de	dor
A	maioria	das	pessoas	acha	que	a	eternidade	será	melhor	do	que	o	presente.	É
claro	que	isso	é	verdade	para	aqueles	que	esperam	a	volta	de	Jesus.	Quando
virmos	Jesus,	ele	cumprirá	a	promessa:	“lhes	enxugará	dos	olhos	toda	lágrima,	e
a	morte	já	não	existirá,	já	não	haverá	luto,	nem	pranto,	nem	dor,	porque	as
primeiras	coisas	passaram”	(Ap	21.4).	Existe,	porém,	algo	ainda	melhor.	Assim,
se	esperamos	pelos	presentes	que	Deus	nos	dará	quando	estivermos	com	ele	face
a	face,	esperemos	o	seguinte:	quando	estivermos	com	Jesus,	não	seremos	mais
pessoas	que	pecam	(1Jo	3.3).
Sim,	isto	é	melhor.	Pense	nisso.	Amaremos	a	Deus	perfeitamente.	Amaremos	ao
próximo,	sem	reservas.	Pensaremos	menos	em	nós	mesmos	e	nos	deleitaremos
com	o	fato	de	que	a	eternidade	é	sobre	Deus	e	não	sobre	nós	mesmos.	Estaremos
maravilhados	pelo	fato	de	a	glória	de	Deus	ser	revelada	à	vista	de	todo	seu	povo.
Estar	livres	de	toda	dor	não	será	mais	do	que	uma	agradável	percepção	que,	de
vez	em	quando,	surgirá	em	nossa	consciência.	Dada	uma	escolha,	a	eternidade
sem	pecado,	na	presença	do	Deus	que	nos	ama,	será	incomparavelmente	melhor
do	que	uma	eternidade	sem	dor	em	que	o	pecado	ainda	atormenta.	Certifique-se
de	incluir	isso	em	sua	história.	Estamos	nos	tornando	aquilo	para	o	que	fomos
intencionalmente	feitos	–	santos	filhos	do	Deus	Altíssimo.
Esperança	deste	lado	do	céu
Quando	intencionalmente	nos	apropriarmos	da	história	de	Deus	como	a	nossa
própria,	estaremos	sempre	olhando	em	duas	direções.	Olhamos	para	trás,	para	a
cruz,	e,	aguardamos	o	futuro,	quando	estaremos	com	Jesus,	razão	de	nossa
esperança.
Quando	olhamos	para	a	cruz,	vemos	o	perdão	do	pecado,	a	generosidade	e	o
amor	de	Deus	para	com	pecadores,	o	fato	de	que	podemos	nos	aproximar	de
Deus	sem	nenhum	medo,	e	a	justiça	que	recebemos	dele	sem	que	nós	tivéssemos
feito	algo	para	merecê-la.	Essas	e	muitas	outras	promessas	são	“sim”,	e	mudam
o	presente	de	maneira	radical.	Vivemos	como	um	povo	que	recebeu	um	dom
maravilhoso,	de	modo	que	a	gratidão	e	a	alegria	sejam	persistentes.	Não	há	por
que	achar	que	devemos	“pagar”	a	Deus	pelos	nossos	pecados.	Não	existe	razão	a
temer.	Não	temos	de	achar	que	precisamos	de	mais	segurança.Disse	Paul
Tournier:	“Viver	significa	fazer	escolhas,	e	escolher	significa	correr	o	risco	de
cometer	erros	e	aceitar	o	risco	de	ser	culpado	por	errar”.⁴	A	cruz	significa	que
temos	a	liberdade	de	cometer	erros.
A	ressurreição	de	Jesus	comprova	que	ele	é	realmente	o	filho	de	Deus	com	todo
poder.	Redireciona	nossa	atitude	para	a	ressurreição	futura	de	todos	quantos
creem.	Aponta	para	o	céu	–	e	o	céu	é	o	que	dá	significado	ao	presente.	Significa
que	sua	casa	não	vai	parar	nas	mãos	de	um	empreendedor	que	destruirá	tudo.
Um	dia,	essa	casa	será	algo	de	máxima	beleza,	portanto,	você	troca	os	carpetes,
cuida	do	jardim	e	pinta	do	lado	de	fora.	Sabe	que	seu	trabalho	não	será	em	vão:	o
mestre-construtor	determinou	que	as	suas	tentativas,	ainda	que	menores	que	as
de	um	profissional,	contribuirão	para	a	obra-prima	final.	Nada	que	fizermos	por
Cristo	será	em	vão.	Isso	traz	propósito	e	diligência	ao	nosso	presente.
Mas	existe	algo	mais	que	a	esperança	realiza,	aqui	e	agora.	Abre	nossos	olhos
para	que,	como	o	salmista,	contemplemos	a	obra	contínua	de	Deus.	Diz	o
salmista:	“Eu	creio	que	verei	a	bondade	do	Senhor	na	terra	dos	viventes”	(Sl
27.13).	A	verdade	da	história	de	Deus	é	que	ele	está	agindo	agora	mesmo.	Está
nos	transformando,	aumentando	sua	igreja,	e	trazendo	toda	a	história	para	o
clímax.
O	livro	do	Apocalipse	é	o	melhor	ensino	conhecido	quanto	ao	fato	de	que	Deus
está	atuando	no	presente.	Foi	escrito	a	um	povo	que	passava	por	grande
sofrimento,	que	perguntava	se	o	mal	acabaria	vencendo,	fazendo	com	que	a
igreja,	aos	poucos,	não	resistisse.	A	fim	de	encorajá-la,	Deus	abre	as	cortinas	do
céu	para	que	o	povo	de	Deus	veja	que	seus	exércitos	estão	marchando,	agora
mesmo.	Deus	não	somente	está	vencendo	como	também	já	venceu.
Quando	sabemos	que	uma	estratégia	de	Deus	está	sendo	desenvolvida
perfeitamente,	vemos	muito	mais.	Por	exemplo,	se	estivéssemos	assistindo	a
uma	corrida	de	dez	mil	metros	das	Olimpíadas,	e	nossa	atleta	favorita	parecesse
estar	lutando	para	correr	no	meio	da	turma.	Talvez	você	estivesse	tentado	a
acreditar	que	cada	expressão	de	esforço	da	atleta	é	evidência	de	que	ela	não
ganhará,	e	a	cada	volta	você	tem	certeza	de	que	ela	vai	perder.	Porém,	se
soubéssemos	mais	detalhes,	como	o	fato	de	que	seu	melhor	tempo	de	corrida	é
mais	que	vinte	segundos	superior	ao	de	qualquer	outra	corredora	no	campo,	ou
que	ela	geralmente	acompanha	as	outras	corredoras	até	os	últimos	dois	lances,
para	então	acelerar	em	um	passo	inigualado	pelas	outras,	a	situação	seria
diferente.	Será	que	a	expressão	facial	com	a	qual	compete	na	pista	não	é
simplesmente	o	jeito	que	ela	corre?	Se	soubéssemos	desses	detalhes,
interpretaríamos	de	maneira	diferente	aquilo	que	estamos	vendo.	Teríamos	mais
otimismo,	ressaltando	confiantemente	a	estratégia,	interpretando	sua	careta	como
característica	pessoal	e	não	uma	razão	para	nos	alarmar.
Quando	olhamos	à	nossa	volta	e	ao	mundo	que	nos	cerca,	é	possível	que
fiquemos	pessimistas,	pois	o	futuro	não	nos	parece	promissor.	Mas,	quando
sabemos	a	conclusão	–	que	a	igreja	vencerá	e	Cristo	reinará	–	podemos	ver	os
atos	do	Espírito	de	Deus	mexendo	nos	detalhes.
Peça	a	Deus	que	abra	seus	olhos	para	que	você	veja	a	sua	bondade	na	terra	dos
viventes.
Humildade
A	história	de	Deus	é	uma	grande	história.	Nós,	porém,	somos	criaturas	de
hábitos.	As	mudanças	não	nos	vêm	rapidamente.	Apegamo-nos	obstinadamente
a	interpretações	passadas	e	velhas	histórias,	conquanto	a	história	universal	de
Deus	seja	muito	melhor.	Não	é	porque	nos	falte	cultura	ou	conhecimento,	mas
porque	transbordamos	de	orgulho.
Você	tem	fabricado	sua	própria	história	há	anos.	Não	é	original	–	foi	formada	de
pedaços	da	cultura	e	das	pessoas	que	admiramos,	com	suas	características
pessoais.	Mas	é	sua	própria	história.	Adotar	uma	história	diferente,	com	outro
herói,	significa	que	teremos	de	dizer:	“Eu	estava	errado”.	Dadas	as	opções,
muitos	de	nós	ficamos	com	a	nossa	velha	história.
Mudança	profunda	raramente	é	uma	questão	de	conhecimento.	É	questão	de
arrependimento.	Nós	escolhemos	um	caminho	contrário	a	Deus;	o
arrependimento	é	o	processo	de	voltar	para	trás.	Nós	escolhemos	uma	história
diferente,	cheia	de	mentiras	sutis	em	relação	a	Deus,	questionando	seu	amor,
cuidado	e	compaixão.	O	arrependimento	significa	que	renunciamos	a	nossa
própria	história	para	crer	em	um	Único	Contador	de	História.	Só	Deus	tem
autoridade	para	interpretar	nossa	vida.
A	esperança	só	crescerá	no	terreno	da	humildade.
Resposta
Esta	questão	é	tão	importante	que	merece	uma	resposta	mais	extensa.
Primeiro,	observe	que	existe	uma	marca	de	esperança.	Ela	se	recusa	a	ceder	e	a
ficar	sentada,	passivamente,	enquanto	cresce	o	desespero.	“A	esperança	encontra
em	Cristo	não	somente	o	consolo	no	sofrimento,	mas	também	o	protesto	da
promessa	divina	contra	o	sofrimento”.⁵	A	esperança	diz	que	as	coisas	não	são
como	deveriam	ser,	mas	faz	parceria	ativa	com	Deus	para	fazer	com	que	o	seu
reino	venha	à	consumação.	É	um	ato	de	rebeldia	contra	o	status	quo.
Segundo,	esperança	nada	mais	é	do	que	crença	nas	promessas	de	Deus	e,
portanto,	falta	de	esperança	é	incredulidade.	Com	efeito,	ela	revela	que	não
cremos	no	que	Deus	disse.	Portanto,	é	pecado.
Terceiro,	a	esperança	é	uma	atividade	da	comunidade.	A	igreja,	como	tudo	mais
para	as	pessoas	desesperadas,	poderá	parecer	irrelevante	e	sem	propósito.	Mas
uma	das	formas	como	ela	nos	abençoa	é	nos	lembrando	da	história	verdadeira.
Hinos,	orações,	sermão	e	a	comunhão	fraterna	lembram	a	todos	de	uma
realidade.	Muitas	vezes,	quando	vão	à	igreja,	pessoas	sem	esperança	desafiam	o
pregador	a	dizer	coisas	que	as	ajudem.	O	resultado	é	que	perdem	o	reconto	da
história.
A	esperança	é	uma	habilidade	desenvolvida	com	o	tempo.	É	também	uma
ventura	corporativa	que	necessita	da	repetida	lembrança	do	corpo	de	Cristo.
Comprometa-se	com	uma	igreja	em	que	a	história	de	Deus	seja	relatada	e
procure	nela	oportunidades	de	lembretes	diários.
Finalmente,	um	breve	resumo	deste	capítulo:	aprenda	a	dizer:	“Vem	Senhor
Jesus”	(Ap	22.20).	Isso	nos	lembra	que	nossa	esperança	é	uma	pessoa	–	Jesus	–	e
essa	esperança	é	certa.	Sua	resposta	ao	apelo	é:	“Sim,	eu	venho	em	breve”	(Ap
22.20).
Qual	é	o	seu	plano	para	crescer	em	esperança?
1	WOLTERSTORFF,	Nicholas.	Lament	for	a	Son	(Grand	Rapids:	Eerdmans,
1987),	p.	86.
2	WALLS,	Jerry	L.	Heaven:	the	Logic	of	Eternal	Joy	(Nova	York:	Oxford,
2002),	p.	175.
3	Heaven,	p.	174.
4	TOURNIER,	Paul.	Guilt	and	Grace	(Nova	York:	Harper	and	Row,	1962),	p.
107.
5	MOLTMANN,	Jurgen.	Theology	of	Hope	(Nova	York:	Harper	&	Row,	1967),
p.	21.
Capítulo	26
Gratidão	e	alegria
						Toda	pessoa	deprimida	deveria	dispor-se	a	ser	especialista	em	alegria.	É	uma
proposta	absolutamente	sem	riscos.	O	pior	que	poderá	acontecer	será	honrar	a
Deus	(Sl	126.1-2),	e	se	surpreender	com	a	promessa	de	tão	grande
contentamento,	que	permite	sentir	o	gosto	da	alegria	mesmo	no	meio	do
sofrimento.
Contudo,	verdade	seja	dita,	existem	barreiras	e	riscos	que	poderão	impedir	a
busca	da	pura	alegria.	A	depressão	poderá	ser	uma	companhia	conhecida	–
repugnante,	mas,	ainda	assim,	companheira.	Sempre	que	uma	experiência	tem
longa	duração	em	nossa	vida,	aos	poucos	passamos	a	derivar	dela	alguma
identidade	pessoal.	Por	exemplo,	a	depressão	poderá	ser	muito	poderosa	no
modo	como	domina	os	relacionamentos.	Para	quem	nunca	teve	impacto	sobre	os
outros,	a	depressão	muda	as	coisas.	Poderá	nos	colocar	no	centro	das	atenções,
foco	das	preocupações	das	outras	pessoas.
Outro	risco	é	que,	geralmente,	a	depressão	quer	alguma	coisa	que,	ao	mesmo
tempo,	rejeita.	E	se	o	desejo	for	satisfeito	e,	ainda	assim,	permanecerem	dor	e
desespero	subjacentes?	E	aí,	o	que	fazer?
Quando	frustrados,	muitas	vezes,	pensamos	que	queríamos	a	satisfação	de	todos
os	nossos	desejos	e	emoções...	Contudo,	nenhum	entendimento	das	paixões	será
possível	até	que	compreendamos	e	apreciemos	este	fator	importantíssimo	e
talvez	surpreendente:	a	permanência	da	insatisfação,	geralmente,	é	mais
importante	para	nós	do	que	a	bem-sucedida	expressão	de	satisfação.¹
Se,	de	alguma	forma,	a	irafizer	parte	de	nossa	depressão,	a	possibilidade	de
alegria	cria	um	dilema	desafiador.	Ao	pensar	que	outros,	inclusive	Deus,	tenham
errado	em	relação	a	você,	terá	criado	uma	escolha	difícil	de	ser	tomada,	se	essas
mesmas	pessoas	fizerem	algo	especialmente	agradável	em	seu	favor.	Considere
uma	menina	de	seis	anos	de	idade	que	esteja	irada	porque	tem	de	fazer	suas
tarefas	antes	de	sair	para	brincar.	A	fim	de	mostrar	sua	ira	e	deleitar-se	na
autopiedade,	ela	completa	as	tarefas	com	bastante	barulho,	repele	os	pais	e	se
fecha	no	quarto.	Até	aí,	tudo	bem.	Mas	o	que	ela	fará	quando	os	pais	a
convidarem	para	sair	e	tomar	um	sorvete	e	ir	ao	minigolfe?	Se	ela	disser	não,
prejudicará	a	si	mesma	por	causa	do	amor	que	tem	pelo	sorvete	e	o	minigolfe.
Então,	ela	resolve	dividir	a	diferença,	aceitando	o	convite	dos	pais,	enquanto	fará
o	máximo	de	esforço	para	parecer	miserável.	Mas	a	cada	bocado	de	sorvete	ou
ponto	no	minigolfe,	ela	terá	de	mascarar	a	alegria.
Em	outras	palavras,	existe	algo	de	maravilhoso	na	alegria,	mas	há	também	algo
de	humilhação.	A	alegria	retira	a	atenção	de	nós	mesmos	e	a	coloca	em	Deus	e
em	tudo	que	tenha	fonte	em	Deus	–	tudo	que	seja	verdadeiro,	nobre,	justo,	puro	e
belo	(Fp	4.8).	É	possível	dividir	a	diferença	e	considerar	a	alegria	com	um
coração	dobre,	mas	estejamos	avisados	de	antemão:	se	abrirmos	uma	fresta	da
porta	para	receber	a	alegria,	encontraremos	mais	do	que	esperamos.
Comparação	entre	alegria	e	gratidão
Poderemos	também	escolher	a	gratidão	como	uma	área	de	especialidade.	Muitos
livros	cristãos	sobre	depressão	nos	motivam	–	sabiamente	–	à	prática	da
gratidão.	A	habilidade	da	gratidão	poderá	impedir	a	mais	sombria	depressão:
poderá,	até	mesmo,	fortalecer	nossos	ombros	e	tornar	o	sofrimento	mais	leve.
Gratidão	começa	com	um	senso	de	nosso	próprio	desespero.	Somos	carentes,
incapazes	de	suprir	as	nossas	necessidades.	Então,	vem	alguém	e	nos	dá	aquilo
que	não	conseguimos	por	nós	mesmos,	e	nossa	situação	melhora.	Em	troca,
ficamos	cheios	de	gratidão.
Quando	estamos	diante	de	Deus,	a	gratidão	começa	com	o	reconhecimento	de
nossa	carência	espiritual.	Somos	pecadores	que	só	conseguem	pecar;	merecemos
de	Deus	a	rejeição	eterna.	Deus,	por	sua	vez,	nos	busca,	abre	nossos	olhos	à	sua
graça	e	misericórdia,	e	satisfaz	nossas	necessidades	mais	profundas,	nossa	sede
espiritual.	Nossa	situação	melhora	grandemente.	De	nossa	parte,	somos
eternamente	gratos.
A	maior	parte	dos	presentes	vem	de	uma	só	vez,	mas	as	misericórdias	do	Senhor
se	renovam	a	cada	manhã	(Lm	3.23)	e	seu	amor	é	para	sempre.	Portanto,	sempre
damos	graças.	“Rendei	graças	ao	SENHOR,	porque	ele	é	bom,	e	a	sua
misericórdia	dura	para	sempre”	(Sl	107.1;	118.29;	136).
Não	haverá	como	errar,	se	permitirmos	que	a	Escritura	nos	dê	razões	para
gratidão.	Mantenha	um	bloco	de	papel	junto	à	Bíblia	e	anote	tais	razões	à
medida	que	for	lendo.	Utilize	também	os	horários	de	refeições	para	dar	graças	a
Deus	por	todas	as	suas	provisões.
A	alegria	é	ainda	melhor.	A	gratidão	é	entretida	em	virtude	de	um	benefício	que
tenhamos	recebido.	A	alegria	inclui	a	gratidão,	porém	o	seu	deleite	é	na	beleza
de	Deus	e	em	sua	profunda	bondade	em	todas	as	coisas	que	dele	provêm.	A
alegria	chama	a	atenção	para	fora,	com	uma	apreciação	não	possessiva	por	algo
que	é	bom.
Por	exemplo,	você	está	em	um	barco,	prestes	a	soçobrar.	Os	ventos	assolam	as
águas	como	um	sorvedouro	prestes	a	engoli-lo	em	minutos.	Jesus	diz	uma
palavra	e	as	águas	se	acalmam	completamente.	No	entanto,	ninguém	diz	nada
para	agradecer.	Estão	maravilhados	demais	(Mt	8.23-27).	Esse	senso	de
maravilha	ante	o	poder	de	Jesus	é	o	início	da	alegria.	Não	é	primariamente
autorreferencial.	A	alma	está	mais	do	que	satisfeita	por	simplesmente	contemplar
a	majestade	daquele	que	acaba	de	falar.
Outro	exemplo.	Você	é	cego.	Jesus	vem	em	sua	direção	e	você	clama	por
misericórdia.	Ele	para	e	pergunta	o	que	você	deseja.	Você	pede	para	enxergar.
Quando	ele	concede,	você	não	fica	simplesmente	grato	–	você	o	segue!	Isso
também	é	o	começo	da	alegria.	Sua	atenção	é	mais	cativada	pelo	Doador	do	que
pelo	benefício	recebido	(Mt	20.29-34).
As	palavras	gratidão	e	ações	de	graças	podem	ser	encontradas	dezenas	de	vezes
na	Escritura.	Alegria,	felicidade,	regozijo	e	deleite	são	encontrados	centenas	de
vezes.
Alegria	no	sofrimento
Alegria	não	é	antônimo	de	sofrimento.	Se	fosse	assim,	a	pessoa	que	tivesse
prática	na	alegria	poderia	abafar	a	dor,	porque	uma	não	existiria	na	presença	da
outra.	Podemos	observar	isso	em	funerais	de	cristãos.	São	ocasiões	sofridas	na
igreja	pela	perda	de	alguém	querido.	Mas	estão	também	entre	os	eventos	mais
cheios	de	alegria,	pois	os	adoradores	contemplam	a	glória	do	céu,	lembrando-
lhes	que	a	morte	não	é	a	última	palavra.
Parece	um	equilíbrio	precário	dizer	que	algumas	coisas	são	simultaneamente
boas	e	ruins,	mas	tal	é	a	natureza	das	coisas	no	presente	momento	da	história.
Maldição	e	pecado	persistem;	são	ruins	e	nós	aguardamos	o	tempo	em	que	serão
erradicados.	Mas	ainda	é	possível	perceber	a	bondade	original	da	criação;	e	as
glórias	da	cruz	e	tudo	quanto	dela	provêm	são	evidentes	por	meio	de	Jesus.
Essas,	é	claro,	são	preciosas	bênçãos	que	gozamos	e	pelas	quais	louvamos	a
Deus.	Continuamos	sofrendo,	mas	o	sofrimento	não	nos	rouba	a	alegria	eterna
que	já	começou.
Jó	falava	sobre	sua	situação:	“minha	dor,	que	ele	não	poupa	–	porque	não	tenho
negado	as	palavras	do	Santo”	(Jó	6.10).	Ele	se	alegrava	no	fato	de	não	ter
negado	a	Deus	nem	questionado	sua	fidelidade	em	meio	a	toda	provação.	Não
tinha	orgulho	disso	–	mas	havia	encontrado	a	alegria.	Sabia	que	Deus	via	a	sua
fidelidade	como	algo	bom,	e	o	próprio	Jó	também	viu	que	isso	era	bom.	Agora,
junte	isso	à	promessa	de	Deus	de	que	ele	nunca	permitirá	que	sejamos	tentados
de	modo	a	tornar	inevitável	o	pecado	(1Co	10.13).	Isso	significa	que	Deus	lhe
dará	graça	para	vencer	a	depressão,e,	em	especial,	o	pecado	de	acusá-lo	de	errar
(Jó	1.22).	Você	também	poderá	ter	alegria	em	meio	à	dor	mais	implacável.
Esse	é	o	precedente	para	ter	“motivo	de	toda	alegria	o	passardes	por	várias
provações”	(Tg	1.2).	Tal	alegria	não	é	a	negação	da	dor.	É	alegria	porque	algo
maravilhoso	está	ocorrendo.	A	pessoa	que	passa	por	provações	tem	oportunidade
de	observar	como	a	fé	se	refina,	a	perseverança	se	desenvolve	e	a	maturidade	é
atingida.	São	coisas	cuja	contemplação	nos	alegra,	quer	estejam	sendo
alimentadas	em	nós	quer	em	outras	pessoas.
Tédio	e	depressão
Antes	de	tentar	identificar	as	coisas	que	provocam	alegria,	considere	como	o
tédio	e	a	depressão	se	mesclam.	Tédio	tem	muito	a	ver	com	depressão	e,	às
vezes,	é	seu	ponto-chave.	Podemos	descrever	o	tédio	como	depressão	sem	dor.
O	tédio	é	a	declaração	de	que	“nada	é	suficientemente	interessante	de	modo	que
valha	a	pena”.²	Ele	diz:	“Eu	o	desafio	a	me	empolgar	–	duvido	que	consiga!”
Tudo	é	chato,	em	tons	de	azul	e	cinza.
Há	duas	maneiras	de	ficarmos	entediados.
Primeira,	podemos	ter	os	olhos	abertos	para	a	feiúra	da	vida,	ao	mesmo	tempo
que	estamos	cegos	para	os	feixes	de	glória	que	se	encontram	por	toda	parte,
especialmente	agora	que	foi	dado	o	Espírito	de	Deus.	Quando	não	enxergamos	a
glória,	não	há	muito	neste	mundo	que	valha	nossa	atenção.
Segunda,	o	tédio	é	uma	forma	de	orgulho.	A	pessoa	entediada	é	fria	demais	para
se	comover	com	o	que	é	ordinário	ou	popular.	Quando	isso	ocorre,
“observadores	cultos	e	sofisticados	têm	a	tendência	de	descartar	como	maçantes
as	pessoas	que	encontram,	as	reuniões	que	assistem,	os	sentimentos	que	ouvem
ou	leem.	Para	isso	atestam	à	fineza	de	suas	próprias	sensibilidades”.³
Alegria	é	o	antídoto	ao	tédio.	A	alegria	diz:	“Olhe	à	volta.	Veja	a	glória	de	Deus
por	toda	parte”.
Procurando	a	alegria
Para	obter	alegria,	é	necessário	que	estejamos	dispostos	a	procurar	por	ela.
Temos	de	estar	dispostos	a	dar-lhe	as	boas-vindas,	em	vez	de	sentir	que
estaríamos	traindo	nossa	depressão,	se	a	buscarmos.	E	é	verdadeiro	–	a	busca	da
alegria	é	uma	traição	à	depressão!
Como	no	caso	da	esperança,	existe	humildade	na	alegria.	Temos	de	reconhecer
que	estamos	errados.	Apostamosem	que	não	existisse	beleza	–	nem	em	Deus
nem	em	nada	mais	–	mas	existe,	sim.	Comece,	portanto,	com	confissão	e
arrependimento.	Confesse	ter	discordado	de	Deus	quando	ele	disse	que	existe	o
bem.	Confesse	que	você	nem	considerou	como	glorificá-lo	buscando	a	alegria,
ainda	que	soubesse	que	essa	é	a	maneira	óbvia	de	surpreender	uma	geração
entediada	e	pessimista.
Buscando	a	alegria	na	criação.	O	lugar	mais	comum	para	procurar	a	alegria	é
na	criação	de	Deus.	A	Escritura	não	enfatiza	isso,	mas	presume	que	haja	na
criação	algo	de	bom	que	aponta	para	a	bondade	do	Criador.
Oceanos,	montanhas,	e	qualquer	coisa	grandiosa,	são	objetos	prediletos.	Um
bom	amigo	escolheu	algo	pequeno.	Ele	cultiva	roseiras	que	produzem
lindíssimos	botões,	mas	andava	ocupado	demais	para	apreciá-los.	Certo	dia,	a
sua	tarefa	autoimposta	foi	apreciar	uma	rosa.	Depois	do	jantar,	levou	uma
cadeira	para	o	jardim,	sentou-se	em	frente	a	ela,	e	começou	a	trabalhar.	Seu	alvo
era	apreciar	sua	cor	variada,	seu	perfume	e	toda	sua	beleza.	Ainda	que	não
tivesse	obtido	sucesso	da	primeira	vez	–	embora	tivesse	gostado	muito	da	rosa	–
estava	no	caminho	certo,	por	seu	compromisso	de	procurar.	Se	não	tivesse
nenhum	prazer	na	rosa,	logo	ele	teria	encontrado	prazer	em	coisas	ainda
melhores.
Temos	de	ter	a	cautela	de	permitir	que	a	rosa	seja	um	sinaleiro.	Se	o	nosso	prazer
estiver	apenas	na	rosa,	arriscamos	que	ela	se	torne	um	ídolo.	A	alegria	última
não	estará	ali.	Em	vez	disso,	a	rosa	diz:	“Veja,	não	sou	eu!	Sou	apenas	um
lembrete.	Olhe	só.	Do	que	você	se	lembra?”.⁴	Por	mais	bela	que	seja	a	criação,
ela	declara:	“Nós	não	somos	teu	Deus	–	olhe	acima	de	nós...	foi	ele	que	nos
fez”.⁵
Poderá	ser	que	a	própria	criação	fique	surpresa	com	o	modo	como	desperta	a
elicia	alegria,	pois,	não	obstante	sua	grande	atração,	existem	sinais	ainda
melhores	por	todo	lado.	A	Escritura	fala	da	criação	como	que	gemendo	até	que
ela	mesma	seja	liberta	da	corrupção	(Rm	8.22).	A	Escritura	também	revela	que	a
criação	está	mais	acostumada	a	ser	tomada	pela	alegria	de	Deus	(Is	44.32)	do
que	ser	apreciada	por	si	mesma.	Provavelmente	a	natureza	não	estaria
confortável	com	toda	a	atenção	sobre	ela	mesma.
Dizei	entre	as	nações:	Reina	o
Senhor
.
Ele	firmou	o	mundo	para	que	não	se	abale
e	julga	os	povos	com	equidade.
Alegrem-se	os	céus,	e	a	terra	exulte;
ruja	o	mar	e	a	sua	plenitude.
Folgue	o	campo	e	tudo	o	que	nele	há;
regozijem-se	todas	as	árvores	do	bosque,
na	presença	do
Senhor
,	porque	vem,
vem	julgar	a	terra;	julgará	o	mundo	com	justiça
e	os	povos,	consoante	a	sua	fidelidade.	(Sl	96.10-13)
Se	a	criação	se	alegra	com	a	bondade	de	Deus,	e	as	crianças	ainda	não	nascidas
saltam	no	ventre	materno	quando	ouvem	a	notícia	do	Messias	(Lc	1.44),	então	a
alegria	também	está	ao	nosso	alcance.
Encontrar	alegria	no	Senhor.	O	objetivo	verdadeiro	da	alegria,	é	claro,	é	o
Senhor.	É	a	ele	que	nos	lembram	todas	as	alegrias	terrenas.	Por	meio	da
história,	as	pessoas	têm	encontrado	grande	alegria	na	presença	do	Senhor	(Sl
21.6).	Deus	é	a	alegria	e	o	deleite	de	seu	povo	(Sl	43.4).
Para	Jonathan	Edwards,	essa	era	a	grande	prova	da	verdadeira	religião.	Você
encontra	alegria	em	Deus?
A	alegria...	consiste	no	doce	entretenimento	que	sua	mente	tem	em	vista,	ou	na
contemplação	da	divina	e	santa	beleza	destas	coisas	[o	caráter	de	Deus],	tal
como	são	em	si	mesmas.	Essa	é	a	principal	diferença	entre	a	alegria	do	hipócrita
e	a	do	verdadeiro	santo.	O	primeiro	se	alegra	em	si	mesmo,	o	segundo	se	alegra
em	Deus.
Algumas	pessoas	acham	tediosa	a	ideia	do	céu.	Mas,	uma	vez	que	começamos	a
nos	entreter	com	a	alegria	do	Senhor,	encontramos	deleite	incansável.	Dia	após
dia,	encontraremos	nova	beleza	divina	para	contemplar,	e	a	busca	continuará	por
toda	a	eternidade.
Lembre-se	do	resumo	da	Escritura	feito	pelos	escritores	do	Breve	Catecismo	de
Westminster?	“Qual	é	o	fim	principal	do	homem?	Glorificar	a	Deus	e	gozá-lo
para	sempre”.	Esse	resumo	é	sempre	verdadeiro.	Deus	é	o	Deus	de	alegria	e
felicidade.	Livre	e	liberalmente,	ele	concede	alegria	a	seu	povo	e,	na	verdade,
ordena	que	a	busquemos	nele	(Sl	106.4-5;	1Ts	5.18).	Deveras,	o	salmista
realmente	entende	os	pensamentos	de	Deus	quando	ora:	“Faze-me	ouvir	júbilo	e
alegria,	para	que	exultem	os	ossos	que	esmagaste”	(Sl	51.8).	Essa	não	é	uma
oração	egoísta:	ela	é	cheia	de	propósito.	O	salmista	deseja	ser	a	pessoa	que	foi
feita	para	ser;	a	pessoa	que,	um	dia,	todo	seguidor	de	Cristo	será	–	um	adorador
repleto	de	alegria.
Observar	alegria	em	tudo	que	é	verdadeiro,	nobre,	justo,	puro	e	belo.
Sabedores	de	que	a	alegria	provém	de	Deus,	estamos	livres	para	nos	alegrar
naquilo	que	ele	abençoou.	Ele	é	o	Deus	que	“tudo	nos	proporciona	ricamente
para	nosso	aprazimento”	(1Tm	6.17).	“Tudo”	que	nos	apraz	pode	ser	uma	lista
bastante	extensa!
Comer,	beber,	trabalhar	(Ec	5.18-20)
A	lei	de	Deus	(Sl	19.8)
Portar	seu	nome	(Jr	15.16)
Amor	e	unidade	que	apontam	para	o	Amante	Divino	(Jo	15.11-12;	1Jo	1.3-4).
Fé	e	obediência	ao	próximo	(2Co	7.4;	Fp	1.25;	3Jo	1)
Semblante	alegre	(Pv	15.30)
Justiça	(Pv	11.10)
Sabedoria	do	próximo	(Pv	10.1)	e	a	capacidade	de	oferecer	sabedoria	e	consolo	a
outros	(Pv	15.23)
Consolo	dado	àqueles	a	quem	você	ama	(2Co	7.7)
Pessoas	vindo	a	conhecer	a	Cristo	(1Ts	2.19)
Receber	a	salvação	(1Pe	1.8)
Alegria	nas	outras	pessoas	(2Co	1.24)
A	lista	pode	ser	infinda:	o	riso	das	crianças,	a	honra	dos	justos,	a	perseverança
daqueles	que	estão	deprimidos,	perseguidos	ou	enfermos,	evidencia	em	todo	o
mundo	do	derramamento	do	Espírito	de	Deus.
Observe	que	muitos	dos	objetos	de	alegria	estão	em	outras	pessoas	e	sua
semelhança	com	Cristo.	Se	Deus	diz	que	é	boa	a	criação	e	podemos	usufruí-la,
quanto	mais	poderemos	desfrutar	das	pessoas,	a	parte	da	criação	que	ele
proclama	ser	“muito	boa”?	Se	Deus	se	deleita	em	você	e	nos	outros,	você
também	pode	deleitar-se	nas	pessoas.
O
Senhor
,	teu	Deus,	está	no	meio	de	ti,	poderoso	para	salvar-te;	ele	se	deleitará	em	ti	com
alegria;	renovar-te-á	no	seu	amor,	regozijar-se-á	em	ti	com	júbilo	(Sf	3.17).
A	vida	atual	é	complicada.	Existe,	no	momento,	muita	miséria,	mas	há,
sobretudo,	grande	esperança	para	o	futuro.	Deus	já	deu	início	à	renovação	que
ocorrerá,	portanto,	não	será	somente	quando	chegar	a	eternidade	que	teremos
grandes	oportunidades	de	alegria,	há	também	alegria	no	presente.
Nossa	dupla	alegria
Quando	estiver	buscando	alegria,	você	terá	acesso	a	um	duplo	prazer.	Encontrará
alegria	em	Cristo	e	no	que	ele	fez,	e	também	em	compartilhar	a	alegria	de	Deus.
Há	alguns	anos,	minha	esposa	pediu	que	eu	lesse	um	de	seus	livros	prediletos.
Quando	finalmente	eu	o	li,	foi	um	imenso	prazer.	Gostei	do	conteúdo	e	da
maneira	como	foi	escrito.	Isso,	claro,	acontece	sempre	que	apreciamos	um	bom
livro.	Mas,	como	eu	sabia	que	esse	livro	havia	dado	uma	alegria	especial	à
minha	esposa,	meu	prazer	tinha	uma	dimensão	a	mais.	Trouxe	a	espécie	de
unidade	que	vem	quando	as	pessoas	compartilham	os	mesmos	prazeres.	Eu	não
apenas	conheci	melhor	os	deleites	de	minha	esposa,	como	também	realmente
participei	de	sua	alegria.
A	minha	esposa	tem	interesses	pelos	quais	eu	não	tenho	a	mesma	paixão,	e	sou
feliz	porque	ela	os	possui.	Sou	abençoado	por	isso.	Mas	uma	coisa	é	ficar	feliz
porque	minha	esposa	experimenta	algo	especialmente	prazeroso,	e	outra	é
quando	compartilhamos	a	mesma	alegria.	Cria	um	elo	e	um	entendimento
mútuos	–	em	si	mesmos	prazeres	especiais.
É	este	o	duplo	deleite	da	alegria.	Alegramos	no	que	Deus	nos	deu,	e	existe	um
elo	–	um	sorriso	de	conhecimento	–	que	partilhamos	com	ele	quando
participamos	de	sua	alegria.	A	verdadeira	alegria	vem	de	aprender	a	nos
deleitarmos	nas	coisas	que	agradam	a	Deus.
Resposta
É	preciso	praticar	a	alegria.	Estude	a	alegria	nos	salmos.	Os	salmistas	sequer
conheciam	o	amor	de	Jesus,	mas	seu	vislumbre	do	amor	de	Deus	deu-lhes
alegria	e	grande	gozo.	Se	você	estiver	disposto	a	procurar	a	alegria,	os	salmistas
poderão	levá-lo	a	isso.	A	bondade	de	Deus	é	vista	em	toda	a	criação	e	na	igreja;
assim,	a	alegria	é	sempre	possível.	Quando	não	conseguir	enxergá-la,	vá	à	cruz	e
apreciea	beleza	do	que	Cristo	fez	por	você.	Aprecie	a	beleza	de	seu	sacrifício	–
sua	disposição	em	se	tornar	um	de	nós,	abrindo	mão	de	tudo	o	que	possuía.
Aprecie	a	beleza	do	seu	amor.	Simplesmente	contemple-o.	Admire-o.
Considere	a	alegria	de	Jó	por	não	ter	negado	a	Deus	no	meio	do	sofrimento
implacável.	Você	poderá	aplicar	essa	experiência,	pensando	em	maneiras
específicas	de	amar	as	pessoas.	Em	seguida,	tome	a	alegria	do	Espírito	que	opera
dentro	de	você.
O	esplendor	de	Deus	sobe	além	das	tristezas	da	vida.	A	alegria	é	possível.
Escolha	tornar-se	um	especialista	em	alegria.	Afinal,	a	alegria	do	Senhor	não	é
algo	que	esvanece.	Experimentaremos,	no	final,	“a	alegria	eterna”	(Is	35.10).
Essa	vem	para	ficar,	e	chegará	o	dia	quando	aqueles	que	conhecem	a	Jesus	serão
conhecidos	por	sua	alegria.	Acredite	ou	não,	você	está	se	tornando	uma	pessoa
jubilosa.	Você	será	uma	pessoa	cheia	de	alegria.
Alguns	dizem	que	a	alegria	é	o	negócio	sério	do	céu.	Não	pense,	porém,	que	é	só
para	o	doce	porvir.	O	reino	do	céu	começou	com	poder	quando	Jesus	veio	ao
mundo,	e	assim,	a	partir	de	agora,	entramos	no	negócio	da	família.
1	SOLOMON,	Robert	C.	The	Passions:	Emotions	and	the	Meaning	of	Life
(Indiannapolis:	Hacket,	1993),	p.	160.
2	SPACKS,	Patricia.	Boredom:	a	Literary	History	of	a	State	of	Mind	(Chicago:
University	of	Chicago,	1995),	p.	229.
3	Ibid.,	p.	252.
4	LEWIS,	C.S.	Surprised	by	Joy	(Nova	York:	Harcourt,	Brace	and	World,	1955),
p.	220.
5	AGOSTINHO,	Confessions	(Nova	York:	Pocket,	1952),	X,	p.	178.
6	EDWARDS,	Jonathan.	Religious	Affections	(New	Haven:	Yale	University
Press,	1959),	p.	240.
Uma	palavra	final
						Os	músicos	do	jazz	minimizam	sua	arte	musical	ao	dizer:	“existem	apenas
doze	notas	com	as	quais	brincamos;	apenas	toque	todas	elas	e	certifique-se	de
terminar	com	a	nota	certa”.	Quando	enfrentamos	a	depressão,	a	pauta	musical	da
Escritura	inclui	muito	mais	que	doze	notas.	Sua	amplitude	e	profundidade	não
têm	igual.	Sua	sabedoria	tem	inúmeras	e	densas	camadas.	Às	vezes,	poderão
parecer	demais,	e	cada	vez	que	tentar	seguir	uma	verdade	bíblica,	você	se	sentirá
perdido.	“Atirei	o	pau	no	gato”,	de	repente,	torna-se	composição	atonal,	sem
direção	discernível.	Você	fica	completamente	confuso.	Quando	isso	acontecer	–
e	tenha	certeza,	acontecerá	–,	simplesmente	continue	tentando	tocar	a	música	e
termine	na	nota	certa.	Os	salmos	são	o	seu	modelo.
No	tocante	a	mim,	confio	na	tua	graça;	regozije-se	o	meu	coração	na	tua
salvação.	(Sl	13.5)
Eu	creio	que	verei	a	bondade	do
Senhor
na	terra	dos	viventes.	Espera	pelo
Senhor
,	tem	bom	ânimo,	e	fortifique-se	o	teu	coração;	espera,	pois,	pelo
Senhor
.	(Sl	27.13-14)
Muito	sofrimento	terá	de	curtir	o	ímpio,	mas	o	que	confia	no
Senhor
,	a	misericórdia	o	assistirá.	(Sl	32.10)
Quando	você	lê	uma	carta	de	alguém	que	lhe	seja	importante,	seu	coração	pode
subir	e	descer	muitas	vezes.	Em	um	parágrafo	você	encontra	uma	expressão	de
ternura;	em	outro,	uma	notícia	comum	ou	mesmo	alguma	indicação	de
insatisfação	com	você.	Depois,	você	chega	às	palavras	finais.
“Afetuosamente”	é	o	que	um	irmão	ou	uma	irmã	escreveria.	Muitos	escritores
terminam	casualmente	com	“amor”.	Mas	as	palavras	finais	desta	carta	são:	“eu
amo	você”.	Não	tenha	dúvidas.	Ainda	que	não	entenda	como	ou	por	quê,	você	é
“claramente”	o	objeto	do	amor	desta	pessoa.	Durante	o	restante	do	dia,	você	é
transformado	pela	lembrança	daquelas	palavras	finais.	As	pessoas	notam	seu
passo	mais	animado,	ou	indícios	de	vitalidade	que	não	estavam	ali	no	dia
anterior.
Quando	você	estiver	perdido	ou	confuso,	chegue	a	essas	palavras	finais.	O	fato
de	Jesus	ter	vindo	ao	mundo	para	morrer	em	seu	lugar	é	sua	ressoante	declaração
de	amor.	Sendo	que	o	amor	de	Jesus	depende	dele	e	não	de	nós,	não	há	perigo	de
sermos	mal-amados	nos	dias	em	que	nos	sentimos	totalmente	sem	fé.	Na
verdade,	nessas	horas	o	seu	amor	será	ainda	mais	surpreendente	e	precioso,
porque	você	se	lembrará	de	que	tal	extravagante	amor	é,	para	nós,	indevido	e
imerecido.
O	seu	próprio	coração	tem	muito	a	dizer,	mas	permita	que	Jesus	diga	a	palavra
final.
“Graça”.	É	a	versão	taquigráfica.	Nessa	única	palavra,	Deus	nos	tira	de	dentro	de
nós	mesmos	e	transporta	nossa	atenção	para	ele,	Aquele	que	derrama	amor
perdoador,	ainda	que	não	reconheçamos	tudo	que	ele	tem	perdoado.	Esse	amor
transborda	de	promessas	e	garantias.	Não	é	de	surpreender	que	o	apóstolo	Paulo
começasse	quase	todas	suas	cartas	com	as	palavras	“graça	a	vós	outros	e	paz,	da
parte	de	Deus,	nosso	Pai,	e	do	nosso	Senhor	Jesus	Cristo”	(Gl	1.3).	Era	também
seu	prazer	terminar	da	mesma	forma:	“A	graça	do	Senhor	Jesus	Cristo,	e	o	amor
de	Deus,	e	a	comunhão	do	Espírito	Santo	sejam	com	todos	vós”	(2Co	13.13).
Em	nossa	batalha	contra	os	múltiplos	fatores	da	depressão,
–	Que	a	graça	esteja	conosco.
Edward	T.	Welch	(MDiv,	PhD),	é	membro	do	corpo	docente	e	Diretor	da	School
of	Biblical	Counseling	na	Christian	Counseling	an	Educational	Foundation
(CCEF)	e	Professor	de	Teologia	Prática	no	Westminster	Theological	Seminary.
Autor	de	vários	livros	e	artigos,	Edward	é	casado	com	Sheri	e	tem	duas	filhas.
	Cover Page
	Capa
	Rosto
	Créditos
	Sumário
	Agradecimentos
	Introdução
	Capítulo 1
	Capítulo 2
	Capítulo 3
	Parte I Depressão é sofrimento
	Capítulo 4
	Capítulo 5
	Capítulo 6
	Capítulo 7
	Capítulo 8
	Capítulo 9
	Capítulo 10
	Parte II Escutar a Depressão
	Capítulo 11
	Capítulo 12
	Capítulo 13
	Capítulo 14
	Capítulo 15
	Capítulo 16
	Capítulo 17
	Capítulo 18
	Capítulo 19
	Capítulo 20
	Parte III Ajuda e conselhos de outros
	Capítulo 21
	Capítulo 22
	Capítulo 23
	Capítulo 24
	Parte IV Esperança e alegria Pensando os pensamentos de Deus
	Capítulo 25
	Capítulo 26
	Uma palavra final
	Sobre o autor

Mais conteúdos dessa disciplina