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Estudo Dirigido 4 para a Disciplina Diversidade Vegetal e Fungos – ACH 4095 Nesse estudo dirigido vamos focar em outros aspectos morfológicos e anatômicos que nos auxiliam na diferenciação entre as linhagens das “Peridófitas”. Vamos observar a ocorrência da heterosporia, dos tipos de estelos, da diferenciação dos tipos de folhas. Exploraremos aspectos morfológicos da classe Polypodiopsida, uma das classes entre as Monilófitas, que abrange as famílias das samambaias mais comumente observadas. Polypodiopsida é uma das quatro classes de Monilophyta, sendo as outras Marattiopsida, Equisetopsida e Psilotopsida. A classificação das “Pteridófitas” foi alvo de intenso debate nos últimos 20 anos. Por isto encontramos conflitos nos livros textos, a classificação atualmente aceita foi realizada por Smith & et al. 2006, que seguirá anexo. Após a compreensão dos temas aqui descritos e que podem ser estudados no livro “Biologia Vegetal - Raven”. Sugiro também que visualizem o vídeo da série “The Secret Life of Ferns” sobre as Pteridófitas, com ênfase nas Polypodiopsida, para visualizarem tópicos aqui explorados. https://www.youtube.com/watch?v=4aJqQj4TMSk Como vimos, os esporófitos das primeiras plantas vasculares eram eixos dicotomicamente ramificados com esporângios em suas extremidades, mas que não apresentavam raízes e folhas, o que fazia dessas plantas dependentes de associações micorrízicas. Todas as plantas vasculares são oogâmicas, ou seja, elas apresentam grandes oosferas imóveis e pequenos anterozóides que nadam ou são conduzidos até a oosfera por outros agentes nas Gimnospermas e Angiospermas, como veremos futuramente. Enquanto nas Briófitas, um gametófito forma, após a fecundação, um único esporófito com uma única cápsula, onde se formam os esporos; o que vemos nas “Pteridófitas” são esporófitos muitas vezes ramificados e poliesporângiados, ou seja, muitos esporângios em um único indivíduo, o que será observado também nas plantas com sementes. Figura 1: Um gametófito de um Musgo portanto um esporóifito, um esporófito ramificado de uma Huperzia portanto estróbilos terminais compostos por esporângios subtendidos por folhas modificadas denominadas esporófilos. Nas “Pteridófitas”, as folhas que apresentam esporângios são denominadas de folhas férteis ou esporófilos. Os esperogângios podem ou não se agrupar em diferentes tipos de aparelhos esporíferos que são taxonomicamente importantes para a separação dos seus filos. Os tipos de aparelhos esporíferos são assim denominados: - Sinângio: esporângios concrescidos (ocorre em Psilotopsida – 2 d); - Estróbilo: esporângios reunidos em espigas (ocorre em Lycopodiophyta – 2a e c); - Soros: esporângios reunidos em grupos regulares (ocorrem em Polipodiopsida- Fig. 3); - Esporocarpos: esporângios em estruturas globosas com parede resistente (Polipodiopsida aquáticas - Fig. 12). Figura 2: Tipos de estróbilos observadas nas Lycopodiophyta (A e C). As folhas que apresentam os esporângios são denominadas esporófilos (B) em uma Huperzia que não forma estróbilos. D: sinângio em Psilotum. Nas Monilófitas são observados dois tipos de esporângios: eusporângio e leptosporângio (Figura 3). Nas monilófitas eusporangiadas, os esporângios se desenvolvem a partir de uma série de células, sua parede possui mais de uma camada de células e produzem de centenas a milhares de esporos. Nas monilófitas leptosporangiadas, os esporângios se desenvolvem a partir de uma única célula inicial, são pequenos, com apenas uma camada de células na parede (lepto = fino), possuem um ânulo, na maior parte dos casos diferenciado longitudinalmente, e produzem poucos esporos, geralmente até 64. Figura 3: Um gametófito de um Musgo portanto um esporóifto (A), um esporófito ramificado de uma Huperzia portanto estróbilos terminais compostos por esporângios subtendidos por folhas modificadas denominadas esporófilos (B). Algumas linhagens das “Pteridófitas” apresentam o que denominamos de heterosporia, ou seja, a produção de dois tipos de esporos, dando origem a um gametófito masculino e outro feminino, como as plantas com sementes. Quando as primeiras plantas vasculares surgiram, elas produziam apenas um único tipo de esporo, por isso tais plantas são consideradas como homosporadas, condição que se manteve na maioria das “Pteridófitas”. A condição homosporada faz com que a maioria dos gametófitos seja bissexuado, de forma que a fecundação cruzada pode ser viabilizada pela maturação de arquegônio e anterídio em diferentes épocas. Nas plantas heterosporadas há dois tipos de esporos, micrósporos e megásporos, que são produzidos no microsporângio e megasporângio, respectivamente. As plantas heterosporadas sempre originam gametófitos unissexuados realizando obrigatoriamente a fecundação cruzada. A heterosporia é acompanhada pela endosporia, que consiste no desenvolvimento dos gametófitos feminino e masculino no interior da parede do esporo. Nas Plantas Vasculares, os tecidos vasculares primários, xilema primário e floema primário, e a medula, se presente, constituem o cilindro central, ou estelo, do caule e da raiz no corpo primário das plantas. São reconhecidos vários tipos de estelos, entre eles três modelos padrões: o protostelo, o sifonostelo e o eustelo (Figura 4). Os cilindros vasculares dos caules das primeiras plantas vasculares apresentavam o tipo protostélico, o qual também passou a ocorrer nas raízes a partir de sua diferenciação e foi mantido ao longo da evolução nas raízes de todas plantas A B vasculares. No curso da evolução um outro tipo de estelo, denominado sifonostelo, se desenvolveu nos caules de algumas pteridófitas. Figura 4: Tipos de estelos das plantas vasculares. Reparem os espaços em branco denominados lacunas foliares observados nos tipos c e d. O protostelo é o mais simples e mais primitivo tipo de estelo, consiste em um cilindro sólido de tecidos vasculares no qual o floema circunda o xilema ou está disperso dentro dele. Ele é encontrado nos grupos extintos de plantas vasculares sem sementes, bem como em Psilotales e em licófitas (compostas principalmente por licopódios) e nos caules jovens de alguns outros grupos atuais. Além disso, esse é o tipo de estelo encontrado na maioria das raízes. O sifonostelo é o tipo de estelo encontrado nos caules da maioria das espécies de plantas vasculares sem sementes, é caracterizado por uma medula central circundada por um tecido vascular. O floema pode formar-se somente na parte externa do cilindro de xilema ou em ambos os lados. O eustelo é o tipo de estelo no qual o cilindro vascular primário é constituído por um sistema de feixes isolados em torno de uma medula, ocorre em quase todas as plantas com sementes. Estudos comparativos de plantas vasculares atuais e fósseis sugerem que o eustelo das plantas com sementes evoluiu diretamente de um protostelo, ou seja, não seja evolui de sifonostelos. Nas pteridófitas podemos encontrar dois tipos de folhas: as microfilas, que geralmente estão associadas com caules que possuem protostelo ou sifonostelo sem lacuna foliar, e as megafilas que estão associadas a caules sifonostélicos, ou nos eustelos das plantas com sementes (Figura 5). Figura 5: Evolução de microfilos e megafilos segundo a Teoria Telomática e de Enação. (a) Teoria de Enação e em (b) Teoria Telomática. Essas teorias coadunam em afirmar que os megafilos foram formados pela redução de ramos laterais e posterior formação do limbo foliar. Em http://nomogrosso.blogspot.com/2009/12/guia-de-estudio-bps-la- teoria-telomica.html pode se encontrar mais informações sobre a Teoria Teloma desenvolvida por Walter Zimmermann: https://es.wikipedia.org/wiki/Walter_Zimmermann Os microfilos, folhas com uma única nervura, formados por um único feixe de tecido vascular, e cujos traços foliares não estão associados a lacunas foliares, evoluíram como apêndices laterais superficiaisdo caule ou de esporângios estéreis e estão associados a protostelos. Os microfilos teriam evoluído como projeções laterais do eixo principal da planta, e ocorrem em protostelos e sifonostelos sem lacuna foliar. Os megafilos, ou seja, folhas com venação completa, apresentam um sistema complexo de nervuras, ou seja, vários feixes vasculares se deslocam do estelo para vascularizar a folha. A teoria mais aceita é que eles evoluíram a partir da fusão de sistemas de ramos laterais que se reduziram. Eles estão associados a sifonostelos e eustelos. Nos sifonostelos de samambaias, os traços foliares estão associados às lacunas foliares (Figura 4c e 6). Figura 6: Lacuna foliar nas samambaias ou lacuna do traço foliar nas plantas com sementes (B) é observada na altura do nó de origem dos megafilos. Nos microfilos observamos somente um traço de feixe vascular (A). Tanto no protostelo e no sifonostelo sem lacunas foliares, os traços foliares não deixam lacuna foliar, não se forma uma região sem vascularização na altura do nó onde é formado o microfilo. Somente um único feixe vascular se destaca do estelo para vascularizar o microfilo. Nos sifonostelos com traços foliares das samambaias, a saída de cordões de tecido vascular, a partir do estelo em direção às folhas, forma uma região denominada lacunas foliares. As lacunas foliares são preenchidas por células de parênquima exatamente como aquelas que ocorrem dentro e fora do tecido vascular do sifonostelo, o que não é observado nas plantas com sementes, preenchido por células parenquimáticas do tecido fundamental. Os megafilos originaram-se independentemente pelo menos três vezes: em samambaias, em cavalinhas e em plantas com sementes. Por isso, as lacunas foliares nas plantas com sementes devem ser referidas como lacuna do traço foliar, assim os megafilos das samambaias não são homólogos aos das plantas com semente. No exercício anterior aprendemos sobre os tipos de tecidos fundamentais das plantas. As plantas crescem através dos meristemas apicais. Este crescimento está envolvido principalmente com o aumento em comprimento do corpo da planta, ou seja, com seu crescimento vertical. Esse tipo de crescimento é denominado de crescimento primário que pode ser definido como aquele crescimento que ocorre relativamente próximo às extremidades da raiz e do caule. O crescimento em espessura dos caules e raízes das plantas é chamado de crescimento secundário. Ele é resultado da atividade de meristemas laterais, um dos quais o câmbio vascular que produz xilema e floemas secundários. Em vários grupos de plantas vasculares não relacionados observamos o xilema secundário advindo do câmbio vascular, há cerca de 380 milhões de anos. Nas linhagens viventes da Pteridófitas somente o gênero Isoetes apresenta crescimento secundário. O floema secundário surge com o desenvolvimento de um câmbio vascular bifacial que produz xilema secundário para o interior do lenho e floema secundário para o seu exterior. O xilema secundário (lenho) de um grupo denominado Progimnospermas (Filo Progimnospermophyta) é extremamente similar aos das coníferas atuais, e eram uma das linhagens entre as plantas lenhosas do Devoniano que apresentavam floemas secundário, tornando-as únicas em relação às Trimerófitas (Filo Trimerophytophyta) e as demais linhagens “Pteridófitas” do Carbonífero, algumas das quais podem estar na base da evolução das plantas com sementes, ou mesmo das Angiospermas. POLIPODIOPSIDA - AS SAMAMBAIAIS LEPTOESPORANGIADAS As samambaias, propriamente ditas, podem viver em vários ecossistemas, desde desertos até as florestas tropicais. A maior parte (cerca de ¾) é encontrada nos trópicos e destas, cerca de 1/3 cresce sobre troncos de árvores, como epífitas. O aparecimento e a irradiação das angiospermas durante a era Mesozóica, causou uma grande redução no número de espécies na maioria dos grupos de samambaias e licófitas, que hoje são o principal componente da flora fóssil (Figura 7). Figura 7: Árvore filogenética datada demonstrando o surgimento de novas linhagens das Polipodiospida contemporâneo a diversificação da Angiospermas ao final do Mesozóico. Fonte: Ferns diversified in the shadow of angiosperms. Nature. 2004. Em anexo. Assim, a ideia de que as samambaias são “plantas fósseis” e de que as espécies atuais são remanescentes das antigas é errada. Por um lado, muitas linhagens se extinguiram, porém outras, como as Polipodiospida, se diversificaram e hoje representam cerca de 80% das espécies de samambaias em todo o mundo. Nas Polipodiospida, o gametófito, denominado protalo, é uma planta pequena, com alguns milímetros de comprimento (Figura 8). Nesse estágio, a planta se parece com uma hepática talosa ou um Antócero. No gametófito ocorre a mitose e a produção dos gametas masculinos e femininos. Mas dependendo da espécie, um mesmo gametófito pode produzir gametas de um sexo só ou de ambos. Figura 8: Protalo das Polipodiospida. Vários fatores podem determinar que tipos de gametas serão traduzidos, como o tamanho do esporo, época de germinação e a densidade de gametófitos na área, entre outros Se os recursos (como luz, nutrientes e umidade) forem limitados serão produzidos gametas masculinos, e se houver abundância de recursos, serão produzidos gametas femininos em maior quantidade. Em praticamente todas as espécies o esporófito diploide é o estágio persistente. Porém são registrados alguns casos raros de espécies que crescem dentro de cavernas, com condições limitadas de luz, em que o gametófito é o estágio mais duradouro do ciclo de vida. Essas plantas também podem se reproduzir por propagação vegetativa, por brotos que podem se originar do caule, do ápice da folha ou até mesmo pelo meio desta. Na figura 9 podemos visualizar as partes constituintes das Polipodiospida. As samambaias são constituídas por Figura 9: Partes constituintes das samambaias. um rizoma (caule sifonostélico) do qual emergem raízes adventícias e folhas. As folhas (megafilos) são referidas como frondes, que na maioria das vezes são compostas por folíolos ou pinas, inseridos na raque, uma extensão do pecíolo. As folhas nas quais se encontram os esporângios, são denominadas de folhas férteis ou esporófilos. Em algumas espécies são produzidos esporófilos que possuem morfologia diferente das frondes estéreis. Em quase todas as samambaias, as folhas jovens são enroladas (circinadas) e denominadas báculos, de onde advém o nome Pteridofita. Tanto os báculos e os rizomas são geralmente revestidos por tricomas ou escamas muito importantes para a classificação das samambaias. Todas as samambaias terrestres são homosporodas e leptoesporangiadas, esporângios pedicelados que portam uma cápsula onde se formam os esporos. Na figura 9 e 10 podemos observar o ânulo que ao ressacar rompe a cápsula e catapulta os esporos. Os esporângios nas samambaias terrestres comumente estão reunidos em soros que podem apresentar diferentes formatos sobre a face inferior da fronde fértil (Figura 11). Em muitos gêneros, os soros jovens são recobertos por apêndices especializados da folha, o indúsio (Figura 10). Diferentes formatos de indúsios podem ser observados e auxiliam na taxonomia das Polypodiopsida. Nesse site podem visualizar especialistas abordando estes assuntos: https://www.sciencelearn.org.nz/resources/1104-classifying-and-identifying-ferns. Figura 10: Soros portado os esporângios e recoberto pelo indúsio. Figura 11: Exemplos da morfologia dos tipos de soros e indúsios das samambaias terrestres. Já as samambaias aquáticas das famílias Marsileaceae e Salviniaceae (Ordem Salviniliales) são heterosporadas e seus megasporângios (feminino) e microsporângios (masculino) são reunidos em soros em uma estrutura especializada denominada esporocarpos (Figura 12). Figura 12: Ilustração de espécies de Marsilea com os esporocarpos. Por fim valeressaltar que as Licófitas e Monolófitas são as únicas duas linhagens viventes entre as plantas terrestres em que o gametófito e os esporófito são nutricionalmente independentes. Nas Gimnospermas e nas Angiospermas, o gametófito, ao contrário das “Briófitas”, passa a ser dependente fisiologicamente do esporófito, como veremos nas atividades seguintes. Isto também ocorria nos Filos extintos Rhyniophyta, Zosterophyllophyta e entre as Trimerophytophyta. Outra questão bastante interessante a ser destacada é evolução não sequencial, não ordenada, entre as linhagens viventes das Plantas Terrestres, principalmente entre as Plantas Vasculares, como nos é ensinado no segundo grau. Nenhuma linhagem vivente das “Pteridófitas” deu origem às Gimnospermas ou às Angiospermas. As Zosterophyllophyta provavelmente estão relacionadas às Licófitas, enquanto linhagens distintas entre as Trimerophytophyta, podem representar o grupo ancestral, tantos das Monilófitas, como das Progminospermas. Um grupo de Gimnosperma extinto – as Bennettitales ou cicadoídeas – de posição filogenética ainda incerta, poderiam ser membros da mesma linhagem evolutiva das Angiospermas. A relação filogenética entre grupos extintos de plantas vasculares e viventes continua a ser objeto de pesquisa entre os Botânicos e Paleobotânicos. Isto influencia fortemente como reconhecemos órgãos análogos e homólogos entre as plantas vasculares, como vimos para o exemplo dos megafilos. Registrem a ocorrência do câmbio vascular bifacial nas Progimnospermas (Filo Progimnospermophyta), um passo evolutivo de grande importância em busca da relação entre as linhagens de Pteridófitas e Gimnospermas extintas e a busca do entendimento da evolução de características exclusivas das Gimnospermas e Angiospermas que serão vistas nas próximas atividades. Anexo 1: Árvore filogenética das Polypodiopsida com suas ordens (terminação - ales) e famílias (terminação - aceae). Retirado de Smith & et al. 2006.