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Para Lacan, o infantil não é a experiência de uma criança. A infância não é a história de uma 
criança, mas o efeito do “essaim”
37
. O infantil é o efeito da linguagem na constituição do ser 
falante. Em Freud, a criança é uma construção feita a-posteriori a partir do discurso do 
analisante. 
Como nos lembra Cirino (2001), a psicanálise não se constitui como uma teoria sobre a infância, 
mas sobre o inconsciente e o gozo e, como tal, o que importa não é a realidade dos fatos da 
infância, mas “a realidade psíquica constituída pelos desejos inconscientes e fantasias a eles 
vinculadas” (ibid., p. 16). O sujeito do inconsciente não coincide com as etapas da vida chamadas 
idades: da criança, do adolescente e do adulto. O infantil, sendo atemporal, promoverá um 
constante retorno no presente, independentemente da idade cronológica do sujeito. Para a 
psicanálise, a criança é aquela que não pode responder pelo seu gozo (LAURENT, 1994, p. 32). 
Assim, o que se supõe como separador entre a criança e o adulto, não é a cronologia, mas a 
posição ética de cada um em relação a seu modo de gozo (LACAN, 1967). Com efeito, assinala 
Naveau (2001), são sempre crianças que vêm para a análise, sendo esta a razão de não haver 
psicanálise e nem especialista de criança. 
O infantil remete ao que não evolui, mas que retorna e insiste em não se inscrever na ordem 
significante. Segundo Cirino, a análise tem como foco “tanto um sujeito que não tem idade – o 
sujeito do inconsciente – como uma satisfação paradoxal que não se desenvolve – o gozo” (ibid., 
p. 50). Em análise, trata-se de escutar o sujeito do inconsciente, pois o que se analisa é o infantil 
recalcado. 
Na Conferência de Genebra sobre o sintoma, Lacan (1975/1998) nos fala que o sintoma 
cristaliza-se na primeira infância quando a criança vai fazer uma coalescência entre sua realidade 
sexual e a linguagem. 
É absolutamente certo que é pelo modo como alíngua38 foi falada e também ouvida por tal ou qual em 
sua particularidade, que alguma coisa em seguida reaparecerá nos sonhos, em todo tipo de tropeços, 
em toda espécie de modos de dizer. É, se me permitem empregar pela primeira vez esse termo, nesse 
motérialisme39 onde reside a tomada do inconsciente – quero dizer que é o que faz com que cada um 
 
37 Neologismo criado por Lacan (1972-73/1985) a partir da homofonia em francês entre as palavras esse un (S1) e 
essain, em português, enxame. De significantes. 
38 Lalangue. 
39 Condensação de mot (palavra) e materialisme (materialismo). Para Lacan, há materialismo no inconsciente que 
Lacan traduz como palavrismo (moterialismo): são palavras, palavras que permaneceram, coisas que ouvimos, restos 
de linguagem, fragmentos de frases que, ao se articularem numa lógica, produzem sonhos, atos falhos, lapsos e 
sintomas – manifestações do inconsciente.

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