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Hot yoga e crioterapia: conheça riscos das temperaturas
extremas
10 minutos para ler
Praticar exercícios de hot yoga ou crioterapia, submetendo o corpo ao calor ou ao frio extremos, pode
trazer prejuízos à saúde. Inclusive, o risco é ainda maior para pessoas que têm problemas
cardiovasculares.
Em uma manhã de março, quando os termômetros marcavam 3°C em Aarhus, na Dinamarca, o píer da
cidade estava lotado. Durante essa época do ano, a temperatura do mar na região não costuma passar
de 2°C.
Antes de nadar, a maioria dos visitantes passa alguns minutos a cerca de 60°C na sauna pública à beira-
mar estava lotada em um domingo ensolarado. Em seguida, eles dão alguns passos até o deck e entram
na água gelada do oceano.
Parece loucura, mas mergulhar no mar frio após uma sessão de sauna, como fazem muitos
dinamarqueses toda semana, é um hábito que está se tornando cada vez mais popular também em
outros países. Outras práticas que envolvem mudanças de temperatura, como a hot yoga, na qual as
posturas são praticadas em salas aquecidas a até 38°C, ou sessões de crioterapia, técnica que utiliza
água gelada para aliviar sintomas de lesões esportivas, também estão se popularizando nos últimos
anos. 
Apesar disso, especialistas alertam que submeter o corpo a temperaturas extremas pode trazer sérios
riscos. Segundo a cardiologista Luciana Janot, do Hospital Israelita Albert Einstein, nadar no mar gelado,
como fazem muitos moradores de países escandinavos, pode ser arriscado para quem tem problemas
cardiovasculares. 
Riscos e benefícios das práticas térmicas
“Esse susto da água gelada vai causar uma constrição imediata dos vasos, porque a gente tenta fazer
com que o corpo perca menos calor, então ocorre o estreitamento dos vasos e um aumento da pressão
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arterial. Neste momento, pode ocorrer uma arritmia, porque há um estresse para o coração. Para quem
já tem algum problema cardiovascular prévio, isso não é nada indicado”, explica Janot.
O médico Mike Tipton, professor da Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, é um dos principais
pesquisadores dos efeitos da imersão em água fria, ou Cold Water Immersion (CWI), como ficou
conhecido o mergulho gelado em inglês. 
Para o especialista, apesar de a prática ter muitos adeptos, ainda não existem comprovações científicas
de que a temperatura baixa é responsável pelos supostos benefícios à saúde atribuídos ao “cold plunge”
(mergulho frio).
“Ainda precisamos ter um experimento científico definitivo e controlado feito de forma adequada, ou seja,
um experimento que isola o fator água fria dos outros aspectos envolvidos na prática”, explica Tipton. 
“A maioria das pessoas que vai praticar o mergulho em água fria vai para um lugar bonito para fazê-lo,
vai com amigos. Então, eles têm a socialização, eles têm estímulos visuais, eles se exercitam. Portanto,
a água fria é apenas um aspecto”, afirma o especialista. 
“O que precisamos é de estudos que digam, ok, é o frio? É o fato de estar flutuando na água? É a
atividade física? É a socialização? É a sensação de realização por ter sobrevivido a uma experiência
extrema?”, questiona o professor. 
Evidências científicas do Yoga
Embora os benefícios do mergulho gelado no mar não tenham sido comprovados, o uso do frio para
tratar problemas específicos já possui evidências científicas sólidas. É o caso da utilização de gelo para
lesões esportivas, por exemplo. Esse princípio é o que está por trás de uma técnica chamada
crioterapia, na qual partes do corpo são submetidas a temperaturas muito baixas para diminuir a
inflamação dos tecidos.
“No caso da crioterapia, ela foi criada porque a gente sabe que o uso de gelo local em pequena
quantidade tem poder analgésico, ou seja, alivia a dor, e é anti-inflamatório”, explica a médica do esporte
Karina Hatano, do Hospital Israelita Albert Einstein. 
“Dentre os protocolos de recuperação esportiva, o que a gente tem mais embasamento é o
uso de gelo, por até 20 minutos, na área que foi treinada”, completa. 
No entanto, ainda faltam evidências científicas para justificar o uso do gelo em outros contextos, para
além do uso tópico por 20 minutos, e para embasar a utilização de temperaturas contrastantes na
recuperação de atletas, segundo a médica. 
Check-up antes de iniciar a prática
Apesar de não trazerem riscos para a maioria das pessoas, quando praticadas de maneira eventual,
essas atividades podem ser perigosas para alguns indivíduos. Por isso, é importante checar se a saúde
está em dia antes de aderir a elas. 
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“O que é mais delicado nessas estratégias que estão na moda é que elas trazem uma série de riscos. É
importante sempre ter uma orientação médica e fazer um check-up antes de adotar atividades físicas
mais intensas ou estratégias de recuperação. É preciso ter cuidado com essas práticas da moda”, avalia
Hatano. 
Além de uma avaliação prévia, os especialistas também recomendam se adaptar aos poucos às
temperaturas extremas. No caso da sauna ou da hot yoga, por exemplo, o ideal é começar com períodos
curtos e reforçar a hidratação antes e depois da prática. 
“Quando você pratica hot yoga, por exemplo, há um risco grande de desidratação, e isso
pode levar até a desmaios, por exemplo. Já no frio extremo, como em uma banheira de gelo
ou um mergulho em água fria, há o risco de hipotermia e de vasoconstrição”, explica Hatano.
A cardiologista Luciana Janot também destaca que práticas em ambientes muito quentes trazem dois
riscos combinados: o do exercício intenso e o da temperatura extrema. 
“Em um ambiente quente e úmido, como o da hot yoga, a gente tem uma vasodilatação, e isso faz com
que a gente tenha aumento de frequência cardíaca e queda da pressão arterial. Quem já é hipotenso
[tem pressão baixa], ou sensível ao calor, num ambiente desse vai ter grande chance de passar mal.
Todo mundo passa mal? Não. Tem gente que se acostuma? Sim, mas tem que ter alguns cuidados”,
explica Janot. 
Além de se manter hidratado, outra precaução importante ao fazer exercício em ambientes de
temperaturas altas é diminuir a intensidade da atividade para evitar lesões.
“O calor pode dar uma sensação de soltura, de analgesia, e a gente fica com a musculatura mais
relaxada. Assim, a gente consegue fazer alongamentos maiores, por exemplo, e fica mais fácil passar do
ponto”, afirma a cardiologista. 
Já no caso das banheiras de gelo ou dos mergulhos em água fria, é indispensável ter um check-up
médico em dia antes de se aventurar por conta própria. Ainda assim, é importante lembrar que muitos
problemas cardiovasculares mais sutis podem não ser detectados em exames de rotina.
“Mesmo com a saúde em dia, a gente sabe que não é para todo mundo. Para quem nunca
se aventurou, o tempo na água tem que ser menor. Também vai depender muito da
tolerância prévia ao frio de cada um: se é uma pessoa que já tem dificuldades normalmente,
eu acho que pode não ser prazeroso”, avalia a cardiologista. 
Para o mergulho em água gelada, o ideal é começar com temperaturas intermediárias e aumentar o
tempo de banho aos poucos, sem nunca ultrapassar a marca de 10 minutos. 
“Não há razão para permanecer por mais de 10 minutos [na água gelada]. Os benefícios não vão ser
maiores se você ficar mais tempo, e não adianta se basear em como você se sente, porque depois de
um tempo o corpo se acostuma com a água fria, mas o organismo continua esfriando na mesma
velocidade, o que pode ser perigoso”, explica Tipton. 
É preciso ainda ter um cuidado redobrado com o contraste de temperatura, ou seja, com a exposição ao
frio logo após o calor, ou vice-versa. É o que ocorre com pessoas que praticam mergulho gelado logo
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depois de sair da sauna, por exemplo. 
“Para indivíduos saudáveis, fazer sauna antes do mergulho gelado provavelmente reduz o
estímulo frio na imersão inicial, então se torna mais fácil entrar na água fria. No entanto, se
você sofre de doenças cardiovasculares, a sauna pode ser perigosa por si só, e a imersão
em água fria também”, afirma Tipton. 
“Se você combina as duas práticas, vocêestá dobrando suas chances de ter um problema”, completa o
médico.
Outros benefícios à saúde
Os estudos que relacionam temperaturas extremas e benefícios à saúde são, muitas vezes, baseados
nos relatos positivos de pessoas que já praticam essas atividades. Por isso, ainda é difícil avaliar o efeito
dessas temperaturas em pesquisas sem vieses, explica o professor Mike Tipton, da Universidade de
Portsmouth. 
“Existem muitos estudos em que os pesquisadores perguntam às pessoas que praticam natação em
águas geladas: ‘Você acha que é bom para você? E como você acha que é bom para você?’ E é claro
que eles dizem que sim, porque seria muito idiota fazer algo que você não acha que é bom para você”,
afirma Tipton.
“Se você perguntar a um corredor: ‘Você acha que correr é bom para você?’. A chance de
ele dizer não é muito pequena”, exemplifica o pesquisador. 
Ainda que não tenham benefícios comprovados, práticas que envolvem temperaturas extremas, como a
hot yoga ou o mergulho em água gelada, estão ganhando adeptos pelo mundo porque trazem uma
sensação de bem-estar imediato. Além disso, outro fator que pode explicar a popularidade dessas
atividades é o estímulo de experimentar temperaturas com as quais o corpo humano não está mais
habituado. 
“Inconscientemente, as pessoas perceberam que se tornaram muito estáticas não só em termos de
atividade física, mas também em temperaturas. Os ambientes hoje em dia são tão controlados que
quase nunca sentimos muito frio ou muito calor, e isso não é bom para nós. As pessoas querem um
novo estímulo nesse sentido”, avalia Tipton. 
Segundo os principais estudos sobre o tema, os benefícios que os praticantes dessas atividades mais
relatam estão relacionados com a redução do estresse e uma sensação de bem-estar generalizada. 
“Uma das vantagens que os praticantes relatam é de se sentir mais acordado, mais vivo, e
de que essa sensação se prolonga depois da atividade. Isto é comum porque as
temperaturas baixas fazem com que o corpo entre em um modo de urgência e libere
adrenalina”, relata Tipton. 
Revisão técnica: Alexandre R. Marra, pesquisador do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa
Albert Einstein (IIEP) e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da
Saúde da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein (FICSAE).
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