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INTRODUÇÃO À BIOLOGIA CELULAR E DO DESENVOLVIMENTO Unidade 1 - Seção 1 O FENÔMENO DA VIDA. CARACTERÍSTICAS DAS CÉLULAS PROCARIONTES E EUCARIONTES CONVITE AO ESTUDO Você já parou para pensar do que somos formados? É comum dizermos que todos os seres vivos são compostos por células, sendo esta a unidade fundamental da vida, mas de onde surgiu este conceito? Será que todas estas células são iguais nos diferentes tipos de organismos? Como elas estão organizadas e como se comunicam? A citologia ou biologia celular é a ciência que estuda as estruturas celulares e suas funções permite a compreensão da fisiologia celular e seus mecanismos de controle interno e a interação com o meio externo no funcionamento celular, seja ele humano, animal, vegetal ou mineral. O estudo detalhado desta ciência só foi possível a partir de 1590, quando foi inventado o microscópio que permitiu a visualização da célula. As células em geral possuem estruturas semelhantes em sua composição, no entanto, algumas estruturas estão presentes apenas em células específicas. Existem seres vivos que são compostos por uma única célula e outros como nós, por trilhões de células. Nesta unidade abordaremos os conteúdos que permitirão a você identificar e distinguir as células animais das células vegetais, assim como a composição e as funções da membrana plasmática. Vamos também compreender o complexo processo de comunicação entre as células, a sinalização celular. Ao final da unidade, você saberá explicar a teoria celular, identificar e diferenciar as células eucarióticas e procarióticas, descrever detalhes sobre a membrana plasmática e os tipos de sinalizações celulares. Na Seção 1.1, estudaremos a teoria celular, o início da microscopia e o estudo dos organismos vivos, conhecendo os tipos celulares e as diferenças entre eles. Já na Seção 1.2, daremos enfoque para a membrana plasmática, suas características, composição e funções. Por fim, na Seção 1.3, conheceremos as classes de receptores da membrana plasmática e os tipos de sinalizadores celulares. Graças a esta ciência é possível compreender mais sobre nossa composição, criarmos medicamentos mais eficientes e avançarmos nos estudos de tratamentos para inúmeras doenças. Bons estudos! PRATICAR PARA APRENDER Caro aluno, vamos iniciar a nossa jornada buscando compreender em detalhes as células, uma vez que elas fazem parte da estrutura dos organismos, e nós as possuímos em grande quantidade em nosso corpo. As células, por se tratar de unidades funcionais, têm a responsabilidade de manter o adequado funcionamento do organismo. Mas será que todas elas são iguais e têm a mesma função? Veremos que diante da grande diversidade existente dos seres vivos, as células participam de sua formação de modos distintos, assim como há diferentes tipos celulares. Muitas das técnicas altamente sofisticadas utilizadas hoje, encontradas na biotecnologia e aplicadas à diversas áreas da saúde, envolvem o estudo das células. Desde as descobertas significativas na cura de doenças, o desenvolvimento de medicamentos e fármacos, alimentos transgênicos, células-tronco usadas em diferentes tratamentos, até mesmo no rendimento de atletas as células estão envolvidas, você sabia? Um dos fatores do rendimento físico está relacionado à quantidade e funcionalidade dos glóbulos vermelhos presentes no corpo, que são as células transportadoras de oxigênio para os tecidos do corpo, incluindo os músculos. Um dos primeiros passos para os futuros profissionais da área da saúde está relacionado ao conhecimento sobre as células: como diferenciá-las, quais são suas características fundamentais e como é sua estrutura. Esse é o momento inicial para compreender o vasto universo dos organismos vivos, por isso da importância deste estudo. É importante estar ciente que o estudo das células só foi possível após a criação do microscópio, instrumento óptico de alto poder de resolução, capaz de ampliar imagens de objetos muito pequenos. A microscopia foi fundamental também para a formulação da teoria celular, possibilitando o estudo dos microrganismos, tornando-se um marco para a ciência. Estudaremos um pouco da história desta invenção para conhecermos a trajetória e evolução dos microscópios e a relação com o estudo das células e a consequente origem da citologia. A indústria farmacêutica é um dos setores que mais vem recebendo destaque por investir em inovação. A busca constante pelo desenvolvimento e pela produção de novos medicamentos faz com que ela invista nas atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Assim para contextualizar as temáticas dessa seção junto às possíveis atividades profissionais, veremos o contexto em que uma multinacional farmacêutica abriu um processo seletivo de trainee para diversos setores. Nesta situação-problema, você foi um dos candidatos selecionados para uma das vagas de trainee. Você irá atuar no setor de produção, na área de pesquisa, desenvolvimento e testes dos medicamentos. Você irá trabalhar com uma equipe de farmacêuticos, biólogos, biomédicos, médicos, engenheiros químicos e biotecnólogos. Para tanto, você precisará se dedicar muito e estar disposto a aprender com esta nova experiência. Para auxiliar na contextualização da sua aprendizagem, você foi encaminhado para um dos laboratórios da empresa, para acompanhar o trabalho de um biólogo experiente e aprender um pouco do trabalho dele. O biólogo Jean, para iniciar a condução do seu treinamento, lhe apresentou para a equipe, fez algumas perguntas para conhecê-lo e passou algumas atividades. Jean questionou qual o seu entendimento em relação à célula, pois vocês trabalhariam muito com elas nos próximos dias. O que você poderia responder ao biólogo para demonstrar o seu conhecimento relacionado às células? Jean lhe mostrou ainda os diferentes microscópios presentes no laboratório, com os quais eles trabalham para fazer as análises dos materiais em estudo. Você conhece diferentes tipos de microscópio e a vantagem de utilizar cada um deles? Sabe a importância deles na história e evolução da ciência? Para finalizar, o biólogo lhe entregou três lâminas para você analisar ao microscópio e caracterizá-las. A partir das imagens das lâminas a seguir, quais são as características das células observadas por você? Identifique as principais estruturas e tome nota para posteriormente apresentá-las ao Jean. Figura 1.1 | Lâmina A Fonte: Engelkirk; Duben-Engelkirk (2012, p. 59).Figura 1.2 | Lâmina B Fonte: Junqueira; Carneiro (2013, p. 51).Figura 1.3 | Lâmina C Fonte: Wikimedia Commons. A todo instante uma nova descoberta científica se dá! O estudo das células permite ampliar o potencial de pesquisas relacionadas à saúde, além de trazer mais evolução para o ramo da ciência e esta é a sua oportunidade de conhecer um pouco mais sobre o tema. CONCEITO-CHAVE A citologia (do grego kytos: célula, e logos: estudo), atualmente designada biologia celular, é a ciência que estuda a célula (unidade funcional de todo o ser vivo) e seu comportamento (composição, estruturas e fisiologia). O estudo desta ciência só foi possível com a invenção dos primeiros equipamentos de visualização microscópica, permitindo a observação de estruturas não visíveis a olho nu, como células e microrganismos. Para auxiliar nosso estudo, faremos um breve histórico com os principais eventos ocorridos no ramo da biologia celular desde a invenção do microscópio até a descoberta da célula, e a formulação da teoria celular, uma vez que a história da biologia celular está diretamente ligada ao desenvolvimento tecnológico que tornou possível o estudo da célula. • 1590: Hans Janssen e Zacharias Janssen, os holandeses fabricantes de óculos, criaram lentes capazes de ampliar imagens, permitindo uma visão de detalhes impossíveis de serem visualizados a olho nu. Acredita-se terem sido os inventores do primeiro microscópio. • 1665: Robert Hook, cientista inglês, inventa o microscópio composto (com lente ocular e objetiva). A partir de observações realizadas em finos cortes de cortiça (materialde origem vegetal), descreveu pequenas cavidades preenchidas por ar, no caso as paredes celulares das células mortas do tecido observado por ele, nomeando-as “célula” (do latim cella: pequeno compartimento), sendo a descoberta de maior divulgação do século XVII. • 1673: Anton Van Leeuwenhock, holandês, construiu o seu próprio microscópio simples e conseguiu visualizar pela primeira vez células vivas (em material biológico humano: sangue, fibras musculares, espermatozoides etc.). • 1831: Robert Brown, botânico escocês, descreveu pela primeira vez o núcleo, constatando que a maioria das células possuía uma estrutura interna ovoide ou esférica. • 1838: Mathias Jakob Schleiden, botânico alemão, defende que as plantas e seus órgãos eram formados por células e relaciona o núcleo à divisão celular. • 1839: Theodor Schwann, fisiologista alemão, por meio de estudos com tecidos animais, descobre a enzima pepsina, o metabolismo celular e a fisiologia de células musculares e nervosas. TEORIA CELULAR Considerado um marco na biologia, a teoria celular foi formulada por meio do estudo das propriedades das células. Esse conceito surgiu no século XIX, pelo botânico alemão Mathias Jakob Shleiden e o fisiologista, também alemão, Theodor Schwann, entre os anos de 1838 e 1839, que formularam a hipótese de que todos os seres vivos são constituídos por uma ou mais células, e a célula é a unidade estrutural da vida, sendo esta a base da teoria celular. Mais tarde, em 1855, o médico polonês Rudolf Virchow propôs a ideia de que todas as células são provenientes de outra célula pré-existente. Em 1878, Walther Flemming estudou o processo de divisão celular e a distribuição dos cromossomos no processo que chamou de mitose, conseguindo comprovar como a multiplicação das células ocorria. Os princípios gerais que fundamentam a teoria celular, são: • Todos os seres vivos são formados por uma ou mais células. • Toda célula se origina de outra preexistente. • A célula é a menor unidade estrutural e funcional de todos os seres vivos. Sabe-se que a atividade de um organismo depende da atividade de suas células, e todas as reações metabólicas e bioquímicas ocorrem no interior das células. As células contêm informações genéticas e hereditárias que são passadas para outras células durante o processo de divisão celular. Atualmente, afirma-se que as células são formadas por três partes básicas: a membrana, o citoplasma e o núcleo, e possuem basicamente a mesma constituição química. MICROSCOPIA Como vimos anteriormente, o estudo das células não seria possível sem a descoberta do microscópio, instrumento essencial para o desenvolvimento da citologia, o qual revolucionou o conhecimento científico. O objetivo da microscopia é permitir que possamos distinguir detalhes não observáveis a olho nu, por meio de imagens ampliadas de um objeto. As células, além de minúsculas, são também incolores e transparentes, e a descoberta de suas principais características internas está relacionada com a evolução dos microscópicos, assim como a derrubada da teoria da geração espontânea e os “seres invisíveis” causadores de doenças. O microscópio possibilitou a evolução no conhecimento sobre o funcionamento e tratamento de doenças. Vamos conhecer um pouco destes instrumentos tão importantes e revolucionários para a ciência? Os primeiros microscópios eram muito simples, com apenas uma lente, restringindo os resultados dos trabalhos realizados. Mais tarde, no final do século XIX, surgiram os primeiros microscópios binoculares e com um conjunto de lentes objetivas que permitiram uma visualização melhor. Trata-se dos microscópios ópticos (MO) ou também conhecidos como microscópios de luz. O feixe luminoso projetado pelo microscópio, ao atravessar a célula ou material de estudo, penetra na lente objetiva (de cristal) e refrata a luz, projetando uma imagem aumentada do material de 100 a 1000 vezes. Em 1933, Ernst Ruska inventou o microscópio eletrônico, um grande avanço na microscopia que o rendeu um Prêmio Nobel de Física. O microscópio eletrônico (ME), possui um poder de resolução muito maior e utiliza em sua tecnologia feixes de elétrons e lentes eletromagnéticas para observar o objeto, com possibilidade de ampliação em até 300 mil vezes, contribuindo para a detecção de estruturas não visíveis pelo microscópio óptico. Figura 1.4 | Poder de resolução Nota: Os tamanhos das células e de seus componentes estão representados em uma escala logarítmica, indicando a amplitude de objetos que podem ser prontamente resolvidos a olho nu e nos microscópios ópticos e eletrônicos. Fonte: Alberts et al. (2017, p. 531). É importante sabermos que existem vários tipos de microscópios ópticos (de fluorescência, de polarização, ultravioleta etc.) e microscópios eletrônicos (de varredura e de transmissão) e cada um deles é utilizado para uma determinada finalidade, sendo possível visualizar diferentes níveis de estruturas, dependendo do tamanho, espessura, origem, dentre outras características (Figura 1.4). ASSIMILE No microscópio eletrônico de transmissão (MET), a imagem é formada simultaneamente à passagem do feixe de elétrons através do material. A imagem final é visualizada em uma tela fosforescente ou placa fotográfica, uma vez que os feixes de elétrons são imperceptíveis ao olho humano. O MET é utilizado no estudo de materiais biológicos, com alto poder de definição permite estudos de morfologia celular, organelas e interações entre as células e outros organismos. O microscópio eletrônico de varredura (MEV) é muito semelhante ao MET, no entanto, a sua principal característica é que o feixe de elétrons não atravessa o material, ele varre a superfície da amostra, fornecendo uma imagem tridimensional. O MEV é geralmente utilizado de forma complementar ao MET, para estudos de morfologia e taxonomia, e o seu poder de resolução é menor do que o MET. Desta forma, verificamos que com o avanço da microscopia foi possível o aprofundamento no conhecimento das células, tecidos e órgãos, permitindo ampliar e aplicar pesquisas na área da saúde em geral, mas também em outras áreas de conhecimento. REFLITA Com a invenção do microscópio eletrônico, mais evoluído e potente, por que os microscópios ópticos não deixaram de ser utilizados? Qual a vantagem deles em relação ao microscópio eletrônico? ESTUDO DOS ORGANISMOS VIVOS A vida está presente por toda parte e fazemos parte de um grupo de seres vivos muito diversificado. Apesar de sabermos que todo organismo vivo é formado por células e que as células são a unidade fundamental de todos os seres vivos, podemos dizer que elas são todas iguais? Todos os organismos vivos possuem as mesmas células e em quantidade igual? Realmente a célula faz parte da estrutura de um organismo e nós, por exemplo, as possuímos em grande quantidade. Nosso corpo é composto por tecidos, órgãos, músculos, sangue, os quais são, todos, compostos por células. Quando qualquer célula tem o seu papel prejudicado, seja estrutural ou funcional, o organismo vivo apresenta alterações que podem inclusive gerar o desenvolvimento de patologias. EXEMPLIFICANDO Vamos pensar no nosso corpo como um grande quebra-cabeça, e cada uma das peças é uma célula. Todos os seres vivos são formados por células. Desta forma, quando o quebra-cabeça está montado forma-se uma imagem, assim como a união de várias células forma um ser vivo. Quando alguém perde uma peça, o quebra-cabeça fica incompleto e a imagem não pode ser formada, ou se uma peça se danifica, a imagem completa não ficará tão nítida. Ocorre o mesmo com o nosso corpo, quando uma célula morre ou é danificada, dependendo do papel que ela exerce, pode haver alterações e desenvolvimento de patologias, como ocorrem com as células cancerígenas por exemplo. O corpo humano é formado por milhares de células, e cada uma delas tem funções e formatos distintos, no entanto, elas precisam trabalhar em conjunto para que o nosso corpo se mantenha estruturado e em ótimo funcionamento. A diferenciação celular é o processo na qualas células se especializam para desempenhar funções diferentes. Como exemplo, podemos pensar nas milhares de células que se unem e formam os tecidos, e estes por sua vez formam os órgãos, que unidos formam os sistemas, que juntos fazem parte da composição do nosso corpo. Uma vez que a célula é a unidade de todo ser vivo, existem os seres vivos que são formados por uma única célula, os unicelulares, como as bactérias, os protozoários e alguns tipos de fungos e algas, os quais são considerados os seres mais simples. E os seres vivos formandos por muitas células são chamados de pluricelulares ou multicelulares, como os animais, as plantas, algumas algas e fungos, todos caracterizados por possuírem células diferenciadas capazes de formar tecidos. Cada célula possui todas as estruturas responsáveis pela nutrição, produção energética, metabolismo e reprodução e, desta forma, cumprem o ciclo vital do ser vivo. Independentemente do formato da célula, todas são constituídas pela membrana plasmática, citoplasma e material genético, o qual pode estar disperso no citoplasma (células procariontes) ou em um núcleo delimitado por uma membrana nuclear, a carioteca (células eucariontes). CÉLULAS PROCARIONTES E EUCARIONTES Há apenas dois tipos básicos de células: as procariontes e as eucariontes. As células procariontes (pro: primeiro, e cario: núcleo), também chamadas de procarióticas, são células bem simples, consideradas primitivas, e quando comparadas a outro tipo de célula, são consideradas bem menores. Estas células são caracterizadas pela escassez de membranas – em geral, a membrana plasmática é a única membrana presente nesse tipo de célula. O seu material genético fica disperso no citoplasma, uma vez que ela não tem núcleo, e o DNA se apresenta na forma de anel e não está associado a proteínas (histonas). A molécula de DNA se enrola formando um bloco denso chamado de nucleoide. O citoplasma não é compartimentado, por essas células não possuírem citoesqueleto, e sua forma é definida por uma parede celular, cobertura resistente que serve como proteção para a célula (proteção mecânica). Estas células possuem formas simples e variadas, como esferas, bastonetes ou hélices e, em alguns casos, podem formar colônias. Os seres vivos que possuem células procariontes são denominados procariotas: são as bactérias (Figura 1.5) e cianobactérias (cianofíceas ou algas azuis). A bactéria Escherichia coli é a célula procariota mais estudada, por sua estrutura simplificada e a sua rápida multiplicação. Figura 1.5 | Desenho tridimensional das estruturas de uma bactéria, exemplo de célula procarionte Fonte: Junqueira e Carneiro (2012, p. 293). A E. coli tem a forma de bastão, é separada pelo meio externo por uma membrana plasmática, por fora desta membrana ainda possui uma parede rígida composta de proteínas e glicosaminoglicanas, com função protetora. As células procariontes não possuem organelas, com exceção dos ribossomos, que podem se ligar a moléculas de RNAm (formando os polirribossomos). Também não se dividem por mitose e meiose, utilizam um mecanismo bem mais simples, a reprodução assexuada binária ou por bipartição. Neste processo de reprodução, a bactéria duplica o seu material genético e se divide em duas, ambas as partes terão a mesma quantidade de DNA. Em alguns casos, a membrana plasmática sofre invaginações que penetram no citoplasma e se enrola, originando estrutura chamadas de mesossomos (auxiliam na respiração). Algumas células procariontes autotróficas (realizam fotossíntese) possuem em seu citoplasma membranas paralelas entre si, associadas à clorofila ou a outros pigmentos responsáveis pela captação de energia luminosa. A maioria, no entanto, são células heterotróficas, que dependem de uma fonte externa de energia, e utilizam mecanismos de absorção de alimentos por meio da fermentação ou respiração celular. As células procariontes podem, ainda, possuir flagelos (auxiliam na locomoção) e fímbrias ou pili (auxiliam na aderência às células hospedeiras). Já as células eucariontes (eu: verdade, e cario: núcleo), possuem um núcleo bem individualizado e delimitado pelo envoltório nuclear. Em geral, há um núcleo por célula, mas algumas células podem ter mais de um núcleo. São células mais complexas e maiores do que as células procariontes e estão presentes nos protozoários, fungos, algas, plantas e animais. As células eucarióticas são caracterizadas pela riqueza de membranas, além da membrana plasmática e da membrana nuclear, possuem compartimentos internos menores, denominados organelas citoplasmáticas, responsáveis por processos metabólicos. O material genético está separado do citoplasma por uma membrana dupla chamada de carioteca. Nesta célula, os filamentos de DNA se ligam a proteínas histonas e formam filamentos chamados de cromatina, por sua vez dentro da cromatina são encontrados os nucléolos. As células eucariontes realizam um processo de divisão mais complexo, que envolvem os mecanismos de mitose e meiose, que serão estudados mais adiante. A variabilidade de formas das células eucarióticas é grande e, geralmente, a sua função específica é que a determina. Com o sistema de organelas, as células eucariontes aumentaram a sua eficiência, permitindo atingirem tamanhos maiores sem prejuízo de suas funções. Agora que já conhecemos as principais diferenças entre as células procariontes e eucariontes, como podemos diferenciar a célula animal da célula vegetal, sendo que ambas são células eucariontes? A presença ou a ausência de determinadas organelas citoplasmáticas é que as diferenciará, vejamos a seguir. CÉLULA ANIMAL E CÉLULA VEGETAL Muitos componentes celulares são comuns às células animais e às células vegetais, mas a distribuição das organelas difere uma célula de outra. O aspecto ou distribuição das organelas também pode ser diferente, inclusive dentro de uma mesma célula. No entanto, ao analisarmos os componentes de ambas as células, é possível notarmos algumas diferenças marcantes. Vamos conhecê-las: Figura 1.6 | Esquema representativo de uma célula vegetal e um célula animal, exemplos de células eucariontes Fonte: adaptado de Shutterstock. A célula animal (Figura 1.6) é uma célula eucarionte presente nos animais do Reino Animalia e é caracterizada por não ter parede celular, sendo delimitada pela membrana plasmática, responsável por delimitar e proteger a célula. A célula animal, assim como vimos nas bactérias, possui membrana plasmática, citoplasma e ribossomos. O citoplasma é constituído pelo citosol, composto por água, proteínas, íons, aminoácidos, enzimas, entre outros. Dispersos no citoplasma, diferentemente das bactérias, nestas células encontramos as organelas citoplasmáticas. Estas organelas são estruturas intracelulares com funções bem definidas, responsáveis pelo funcionamento das células: digestão, respiração, sintetização e transporte de proteínas, dentre outras. Estudaremos mais adiante cada uma delas: ribossomos, vesículas, retículo endoplasmático liso e rugoso, aparelho de Golgi, microtúbulos, citoesqueleto, lisossomos (organela exclusiva das células animais), centríolos, vacúolos, mitocôndrias e peroxissomos. LEMBRE-SE Os lisossomos são organelas citoplasmáticas com a função de degradar partículas, auxiliando na digestão intracelular de células animais eucariontes. As células vegetais como são autótrofas, capazes de produzir o seu próprio alimento, possuem os plastídeos, organela exclusiva destas células, que auxiliam no processo de fotossíntese, síntese de aminoácidos e ácidos graxos, além de armazenamento. A célula vegetal (Figura 1.6) também é uma célula eucarionte e é muito semelhante à célula animal: tem núcleo, ribossomos, retículo endoplasmático rugoso e liso, complexo de Golgi, citoesqueleto, mitocôndrias, dente outros. Contudo, por apresentarem diferenças estruturais e metabólicas, elas possuem alguns componentes exclusivos. As células vegetais possuem a parede celular, responsável pela proteção das células e dos vacúolos, uma vez que os vacúolos das célulasvegetais são muito maiores do que os das células animais e podem ocupar quase todo o volume celular. Devido a sua capacidade de produzir o próprio alimento, ou seja, por ser autotrófica, para realizar a fotossíntese as células possuem uma organela específica, os plastos (ou plastídeos). Os plastos são diferenciados de acordo com a função que exercem e podem ser classificados como cromoplastos (possuem pigmentos coloridos, como carotenoides e xantofilas), leucoplastos (ausente de pigmentos, armazenam lipídeos, amido e proteínas) e cloroplastos (possuem o pigmento da clorofila, responsável pela absorção da luz e realização da fotossíntese). Outra organela presente somente em células vegetais é o glioxissomo, semelhante ao peroxissomo, porém especializado, o qual é importante na germinação de sementes. Estamos chegando ao fim desta seção, mas não podemos deixar de comentar a respeito de um grupo biológico extremamente discutido, os vírus. Afinal, eles são considerados um organismo vivo? Os vírus são estruturas muito pequenas, visíveis somente com a microscopia eletrônica. São conhecidos pelas doenças que causam aos seres humanos, animais e plantas. Uma das principais características destes organismos que os diferencia de outros seres vivos é não possuírem células, ou seja, são acelulares. Mas nós acabamos de estudar que todos os seres vivos são formados por células, não é mesmo? Os vírus são formados por uma molécula de DNA ou RNA (material genético), envoltos por uma estrutura conhecida por capsídeo, composta por proteínas. Os vírus precisam de uma célula hospedeira viva para replicar o seu material genético, porque eles não possuem metabolismo próprio e acabam utilizando todas as organelas e enzimas de uma célula para se reproduzir, prejudicando, assim, as funcionalidades da célula. Estes organismos seriam uma exceção à regra? Há controvérsias em relação à classificação dos vírus. Segundo as considerações científicas, se analisarmos a característica dos seres vivos de se reproduzirem, a capacidade de evoluírem em resposta ao ambiente e apresentarem uma variabilidade, os vírus devem, então, ser considerados organismos vivos. No entanto, por não possuírem metabolismo próprio, muitos cientistas acreditam que deveriam ser considerados somente partículas infecciosas, entidades sem vida, ao invés de seres vivos propriamente ditos. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO: O FENÔMENO DA VIDA. CARACTERÍSTICAS DAS CÉLULAS PROCARIONTES E EUCARIONTES SEM MEDO DE ERRAR Você como trainee precisa demonstrar os seus conhecimentos a respeito da origem das células, as suas principais estruturas para conseguir identificá-las e saber as diferenças dos tipos de microscópios e quando utilizá-los. Agora você já está preparado para resolver a situação-problema com todo o conhecimento adquirido até o momento. Vamos lá? A célula é a unidade estrutural e funcional dos seres vivos, sendo visível apenas com o microscópio. Foi descoberta em 1665, por Robert Hook, quando este observou células mortas de cortiça. Em geral, as células são constituídas pela membrana plasmática, citoplasma e material genético. Elas se diferenciam tanto em sua estrutura quando em sua funcionalidade e podem ser células procariontes (mais simples) e células eucariontes (mais complexas). A invenção do microscópio permitiu ao homem uma nova visão do mundo e a exploração de diversos campos antes desconhecidos, invisíveis a olho nu. Foi possível reconhecer as células e suas estruturas graças a este advento. Com o avanço desta tecnologia e o conhecimento científico, muitos tratamentos de doenças, medicamentos e terapias vêm sendo desenvolvidos, trazendo ótimos benefícios à saúde. Existem dois modelos de microscópios, os ópticos e os eletrônicos, e dentre eles existem vários tipos, cada um com uma determinada finalidade. Os microscópios ópticos, também conhecidos como microscópios de luz, são os mais comuns de serem vistos, mais utilizados em instituições de ensino. O microscópio óptico utiliza a luz e as lentes de cristal, permitindo um aumento de 10 a 100 vezes, chegando a uma ampliação final de 1000 vezes de uma imagem. Já os microscópios eletrônicos não utilizam a luz e, sim, feixes de elétrons, e ao invés de lentes de cristal utilizam lentes eletromagnéticas. São muito mais potentes e podem ampliar uma imagem em até 300 mil vezes. No entanto, mesmo sendo muito potentes, eles permitem apenas a visualização da superfície da amostra, enquanto os microscópios ópticos permitem a visualização direta da amostra, sendo ideais para observar materiais vivos. Figura 1.1 | Lâmina A Fonte: Engelkirk; Duben-Engelkirk (2012, p. 59).Figura 1.2 | Lâmina B Fonte: Junqueira; Carneiro (2013, p. 51).Figura 1.3 | Lâmina C Fonte: Wikimedia Commons. Na lâmina A, é possível visualizar bactérias. As bactérias são microrganismos unicelulares procariontes e podem ter variadas formas, no caso da figura, estas bactérias possuem formato de bacilos. Estes organismos vivos são compostos de citoplasma, membrana plasmática e parede celular. O material genético fica disperso no citoplasma. A lâmina B representa uma célula animal e pode ser de um organismo pluricelular eucarioto. Possui a membrana plasmática, o citoplasma e o núcleo, visíveis na imagem. O seu material genético encontra-se dentro do núcleo, delimitado pela membrana nuclear, e em seu citoplasma ficam alocadas diversas organelas citoplasmáticas não visíveis ao microscópio óptico, com exceção dos vacúolos. Por fim, a lâmina C contém células vegetais. É possível dizer que é de um organismo pluricelular eucarioto. São notáveis a parede celular, o núcleo e o citoplasma destas células. Notamos ainda que o citoplasma ocupa quase toda a parte da célula. Após todas estas observações, você já está preparado para apresentar todas os seus apontamentos para o Jean, demonstrando que você está preparado para as próximas etapas do treinamento. Você conseguiu superar o desafio até aqui, parabéns! O caminho proposto foi apenas um exemplo de como você poderia responder a situação-problema apresentada. AVANÇANDO NA PRÁTICA MICROSCOPIA E A SAÚDE O laboratório de biologia celular e molecular da universidade na qual você estuda recebeu uma demanda de amostras para serem analisadas. Os pesquisadores de doutorado e mestrado estão analisando o vírus SARS-CoV-2, para a publicação de um trabalho. O vírus causador da doença COVID-19, de importância internacional, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 80% dos pacientes são assintomáticos ou apresentam poucos sintomas da doença, enquanto em aproximadamente 20% dos casos, os pacientes requerem atendimento hospitalar. Os pesquisadores estão buscando compreender um pouco mais a respeito da estrutura deste vírus e o seu comportamento. O laboratório recebeu equipamentos novos e foi todo estruturado para atender a estas pesquisas, no entanto, os estagiários que auxiliavam os pesquisadores estavam ausentes, devido a uma viagem da universidade. O professor da disciplina de Biologia Celular convocou alguns alunos para ajudar os pesquisadores e a sua missão será tirar fotos do vírus no microscópio para serem analisadas posteriormente. No entanto, lhe foi solicitado que você tire as fotos de mais de um microscópio. Quais microscópios você deve utilizar? Qual a diferença na imagem deles? E você consegue se lembrar das características e estruturas dos vírus para poder observá-las? RESOLUÇÃO Primeiramente, você deve se recordar das características dos vírus. São organismos acelulares, ou seja, não possuem células, tão pouco possuem ribossomos ou outras estruturas que sustentem o seu organismo, não realizando, portanto, nenhuma atividade metabólica. Os vírus necessitam de outras células para se reproduzir e sobreviver, desta forma são considerados parasitas intracelulares obrigatórios. São formados por uma capsula proteica (capsídio), que envolve o material genético (ou um DNA ou um RNA, ou em alguns casos os dois). Alguns vírus têm ainda um envelope viral (proteção lipídica externa) e emseu capsídeo há proteínas ligantes para se ligarem as células que serão infectadas. Estes organismos são muito pequenos e não podem ser vistos a olho nu ou em microscópio óptico. Desta forma, você já sabe que não deverá utilizar o microscópio óptico, pois não irá conseguir visualizar o vírus SARS-CoV-2 e registrar as imagens solicitadas. O outro tipo de microscópio é o microscópio eletrônico, que possui dois modelos, o MET (microscópio eletrônico de transmissão) e o MEV (microscópio eletrônico de varredura). No MET, o material a ser analisado deverá ser cortado em fatias finas, e ele possui um maior poder de resolução do que o MEV. O microscópio de transmissão permite uma resolução de 0,002 nm, permitindo a visualização de estruturas celulares como as organelas, interação de parasitas com as células e informações sobre alterações nas células ocorridas por vírus, bactérias, dentre outros. O MEV pode ser considerado complementar à microscopia de transmissão, tem a vantagem de fornecer imagens tridimensionais e o https://conteudo.colaboraread.com.br/202102/INTERATIVAS_2_0/INTRODUCAO_A_BIOLOGIA_CELULAR_E_DO_DESENVOLVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u1s1.html#resolucao%20.item-1 material a ser analisado não precisa ser cortado (ou seja, podem ser utilizadas amostras grossas). O poder de resolução é de 10 nm, utilizado para estudos de morfologia e taxonomia, visualizando organismos inteiros, tecidos e órgãos. Figura 1.7 | Imagens do vírus SARS-CoV-2 Imagem A Imagem B Fonte: adaptado de Instituto Butantan (n.p.). Unidade 1 - Seção 2 MEMBRANA PLASMÁTICA PRATICAR PARA APRENDER Caro aluno, estudamos até aqui a unidade fundamental da vida, a célula. Aprendemos a classificá-la e conhecemos um pouco sobre a suas características e particularidades. Vocês se lembram dos três componentes básicos de todas as células? Todas as células, sejam elas procariontes ou eucariontes, têm em sua estrutura a membrana plasmática, o citoplasma e o material genético. Nesta seção, iremos aprofundar os nossos estudos em um dos componentes mais característicos das células, a membrana plasmática ou membrana celular. Você seguramente já ouviu falar em “mosaico fluido”, “permeabilidade seletiva”, “uma camada que tem medo da água e outra com afinidade à água”, dentre outras expressões, todas elas fazem referência a algumas das características da membrana celular. A membrana plasmática é a estrutura que delimita todas as células vivas: ela separa o ambiente intracelular do ambiente extracelular, controlando assim tudo o que entra e sai da célula, por meio de transportes ativos (com gasto de energia) ou passivos (sem gasto de energia). Além de delimitar a célula e protegê-la de agentes diversos, a membrana celular participa de processos de reconhecimento celular e sinalização celular, participa da comunicação entre as células, dentre outras funções particulares de algumas membranas. E qual seria então a sua importância na saúde? Algumas doenças são causadas por alterações na membrana plasmática e acabam apresentando risco à vidacomo o mal de Alzheimer e a fibrose cística. Além disso, a absorção de fármacos também está relacionada com o funcionamento da membrana celular, dependendo da composição, eles conseguem penetrar mais rápido pelas membranas, como no caso dos fármacos solúveis em lipídios. Desta forma, estudaremos não só a composição da membrana plasmática, mas também as suas funções, características e como são realizados os transportes de substâncias através da membrana, uma vez que esta é seletiva e apenas algumas substâncias podem entrar ou sair das células. Além disso, dependendo da concentração de moléculas no meio intracelular em relação ao meio extracelular, a membrana faz um transporte diferente. Vamos conhecê-los no decorrer desta seção. Seguiremos com a situação hipotética em que uma multinacional farmacêutica abriu um processo seletivo de trainee em diversos setores e você foi um dos candidatos selecionados. Você está atuando no setor de produção, na área de pesquisa, desenvolvimento e testes dos medicamentos e trabalha com uma equipe de farmacêuticos, biólogos, biomédicos, médicos, engenheiros químicos e biotecnólogos. Para executar bem a sua função, você precisa se dedicar muito e estar disposto a aprender com esta nova experiência. Você foi encaminhado para um dos laboratórios da empresa, para acompanhar o trabalho de um biólogo experiente e aprender um pouco do trabalho feito por ele. O gestor que está conduzindo o seu treinamento lhe apresentou ao farmacêutico Carlos, do mesmo laboratório, e vocês farão alguns testes para verificar a ação de fármacos nas células e como eles atravessam a membrana celular para agirem. Eles lhe explicaram que os fármacos podem atravessar a membrana plasmática de quatro formas distintas: por difusão passiva, por difusão passiva facilitada, por transporte ativo e por pinocitose. Qual a diferença entre estes transportes? Existem outros transportes realizados pela membrana plasmática? Jean solicitou o seu auxílio para montar uma apresentação para os outros trainees que irão conhecer o laboratório. Para a apresentação será necessário apresentar uma introdução com as partes principais das células comuns a todos os seres vivos, com ênfase na membrana plasmática, suas características e funções, para que todos possam compreender a demonstração dos testes que vocês farão. Como veremos, a membrana plasmática não é apenas uma barreira inerte na célula que a delimita: ela tem funções de extrema importância e seu mau funcionamento pode afetar algumas de suas funções, gerando problemas sérios como o desenvolvimento de doenças, entre outros, os quais podem trazer consequências para o ser vivo em questão. Todos esses pontos serão estudados nesta seção. CONCEITO-CHAVE A membrana plasmática ou celular, como também é chamada, é a estrutura que delimita a célula, ou seja, separa o meio intracelular do extracelular. Ela está presente na superfície de todas as células, sejam elas procariontes ou eucariontes, e é responsável por manter a integridade da célula e controlar o tráfego de substâncias que entram e saem, formando uma barreira seletiva com uma estrutura complexa e organizada. Devido a sua diminuta espessura, com cerca de 7 a 10 nm, não pode ser visualizada em microscópio óptico, no entanto, a sua existência já era conhecida antes da invenção do microscópio eletrônico, por meio de técnicas de coloração e contrastes. Um dos primeiros indícios de sua existência foi a observação da alteração do volume das células de acordo com a concentração de soluções inseridas nestas. Na década de 1950, com a microscopia eletrônica, foi possível identificar as características e composição das membranas plasmáticas, concluindo que a estrutura básica das membranas biológicas é semelhante em todos os tipos celulares. Vamos conhecer um pouco mais desta membrana a seguir. COMPOSIÇÃO E FUNÇÕES Todas as membranas plasmáticas são constituídas basicamente por moléculas de lipídeos, proteínas e cadeias de carboidratos ligados aos lipídios e às proteínas. A proporção destes componentes varia conforme o tipo de célula. Por exemplo: as membranas de mielina (recobrem fibras nervosas) possuem 80% de lipídios, enquanto as membranas de eritrócitos (glóbulos vermelhos) possuem cerca de 40% de sua massa composta por lipídios, e o restante distribuídos entre os demais constituintes. ATENÇÃO Apesar das porcentagens dos componentes da membrana plasmática variarem bastante de acordo com o tipo celular considerado, elas, em geral, apresentam uma composição lipoproteica predominante. O primeiro componente da membrana celular que iremos estudar é o lipídio. Os lipídios associados às membranas são moléculas com uma extremidade hidrofílica e uma cadeia hidrofóbica. Mas o que isso significa e qual é a sua importância? As moléculas que apresentam a região hidrofílica têm afinidade com a água, sendo solúveis em meio aquoso, isto ocorre porque elas são moléculas polares. Já a região hidrofóbica destas moléculas tem aversão à água eé insolúvel em meio aquoso, porém solúvel em lipídios e considerada apolar. As moléculas que apresentam estas características são consideradas anfipáticas, ou seja, elas têm regiões hidrofílicas e hidrofóbicas. Os lipídios mais abundantes da membrana são os fosfolipídios, por conterem grupos fosfato e, dentre eles, os mais comuns encontrados nas membranas celulares são os fosfoglicerídeos, esfingolipídios, colesterol e glicolipídios. ASSIMILE O colesterol está presente nas membranas das células animais e não é encontrado nas células vegetais, que, ao contrário, contêm outros esteróis. A concentração de esteróis determina a fluidez da membrana e quanto maior a concentração, menos fluida é a membrana. As células procariontes não contêm esteróis, salvo raras exceções (JUNQUEIRA e CARNEIRO, 2012). Graças às suas propriedades anfipáticas, os fosfolipídios, em meio aquoso, formam uma dupla camada ou bicamada, com porções hidrofóbicas voltadas para o interior da célula e a as extremidades hidrofílicas voltadas para o meio exterior aquoso. Essa característica é essencial para a manutenção da bicamada lipídica, estrutura básica universal da membrana plasmática, assim como de outras membranas biológicas, que, associadas a proteínas, constituem um mosaico fluido, que estudaremos mais adiante. As proteínas podem ser consideradas o segundo maior componente das membranas plasmáticas, cuja atividade metabólica depende delas. Cada tipo de membrana tem proteínas características, responsáveis pelas funções da membrana (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2012). Existem dois grandes grupos de proteínas, as integrais (ou intrínsecas) e as periféricas (ou extrínsecas), classificadas de acordo com a facilidade ou não de extraí-las da bicamada lipídica. Elas atravessam a bicamada lipídica e auxiliam em quase todas as funções da membrana e estão envolvidas no transporte através da membrana e na comunicação celular. As proteínas se encontram agrupadas pela membrana de acordo com as suas especialidades, uma vez que são as principais responsáveis pela atividade da membrana plasmática. ASSIMILE As proteínas integrais são integradas à membrana, estão firmemente associadas aos lipídios e só podem ser separadas da parte lipídica com o auxílio de técnicas, como o uso de detergentes. As proteínas que atravessam a membrana de um lado a outro são conhecidas por proteínas transmembranas. Enquanto as proteínas extrínsecas não estão associadas aos lipídios e podem ser facilmente isoladas com o emprego de soluções salinas. E, por fim, os outros componentes da membrana celular são os carboidratos (oligossacarídeos). Encontrados na superfície externa das células, eles podem estar associados às proteínas (glicoproteínas) ou aos lipídios (glicolipídios). Quando associados às proteínas, os carboidratos formam marcadores celulares, que permitem às células reconhecerem umas às outras. EXEMPLIFICANDO O nosso sistema imunológico possui células imunitárias (leucócitos) que por meio de marcadores celulares conseguem diferenciar as células do nosso organismo que não devem ser “atacadas” das células estranhas, que devem ser “atacadas”. Ou seja, trata-se de um mecanismo de defesa do nosso organismo. A região composta por glicoproteínas e glicolipídios é denominada de glicocálice ou glicocálix, com importantes funções para a célula, desde proteção contra lesões de natureza química e mecânica, capacidade de adsorver água (evitando ligações indesejadas entre células), reconhecimento celular e adesão celular (importante para criação de tecidos). DICA O glicocálice das hemácias determina os grupos sanguíneos (A, B, AB ou O). O reconhecimento do tipo sanguíneo é extremamente importante para a realização de transfusões de sangue e tratamento de algumas doenças. Conhecendo a composição básica das membranas plasmáticas, podemos concluir que elas estão envolvidas em processos vitais das células: proteção das estruturas celulares, permeabilidade seletiva (no controle de entrada e saída de substâncias da célula), delimitação do conteúdo intracelular e extracelular (mantém a integridade da célula), transporte de substâncias essenciais ao metabolismo celular (com o auxílio das proteínas), suporte físico para enzimas que ficam fixadas nela, reconhecimento de substâncias e comunicação celular (por meio de receptores específicos na membrana). MEMBRANA PLASMÁTICA E SUAS CARACTERÍSTICAS Além da sua propriedade de permeabilidade seletiva, controlando o fluxo de substâncias na célula, a membrana plasmática possui outras duas características: a sua fluidez e assimetria. Para representar a estrutura dinâmica e complexa da membrana plasmática, formada por uma bicamada lipídica, constituída de proteínas e carboidratos, foi proposto, em 1972, o modelo de mosaico fluido (figura 1.7), idealizado por Singer e Nicholson. O modelo foi assim denominado, porque a membrana plasmática se assemelha a um mosaico composto por uma combinação de proteínas e lipídios (fosfolipídios). Figura 1.8 | Modelo mosaico fluido da membrana plasmática Fonte: adaptada de Wikimedia Commons. A bicamada da membrana é formada por fosfolipídios, moléculas anfipáticas que se encontram em constante deslocamento, permitindo a fluidez da membrana. As moléculas de proteínas presentes na bicamada da membrana estão dispostas com a sua parte hidrofílica em contato com a região aquosa da célula. Algumas proteínas podem se deslocar lateralmente, comprovando que a membrana é um fluido que permite a movimentação das proteínas dentro de uma matriz lipídica líquida (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2012). A membrana plasmática apresenta uma assimetria entre as duas faces de sua membrana, as quais marcam a composição de lipídios e de proteínas. Outro fator que corrobora com esta assimetria é a distribuição das moléculas de carboidratos (glicolipídios e glicoproteínas), localizadas somente na face da membrana voltada para o meio extracelular, conhecida como glicocálix. É importante termos o conhecimento de que a membrana plasmática de algumas células apresenta especializações de funções. Nestes casos, as regiões da membrana sofrem determinadas modificações especializando-a para uma atividade mais específica, como absorção de substâncias, aderência, locomoção e comunicação intracelular. Alguns exemplos mais conhecidos destas especializações são: • Microvilosidades: prolongamentos digitiformes, encontradas na superfície de células do intestino e rins, aumentam a absorção de nutrientes. • Desmossomos: estruturas formadas pela membrana com a função de manter as células unidas umas às outras, aumentando a adesão entre elas. São encontrados em vários pontos da superfície da membrana plasmática. • Cílios e flagelos: estruturas citoplasmáticas anexas à membrana plasmática, com função, em geral, de locomoção. Os flagelos por exemplo são encontrados em espermatozoides, enquanto os cílios estão presentes nas vias respiratórias, auxiliando na defesa (retenção de impurezas). TRANSPORTES ATRAVÉS DA MEMBRANA A membrana plasmática, como vimos, não só separa o meio intracelular do extracelular, como também controla a entrada e saída de substâncias da célula, formando uma barreira que facilita ou dificulta a passagem de moléculas, por isso é denominada de membrana semipermeável ou com permeabilidade seletiva. O transporte de substâncias através da membrana pode ocorrer de diferentes maneiras, dependendo das características das substâncias e das estruturas presentes em cada uma das células. Para compreender os diferentes tipos de transportes da membrana plasmática, precisamos primeiro conhecer as substâncias que passam pelas membranas, conhecidas como soluto (íons ou pequenas moléculas que são dissolvidas) e solvente (meio líquido, no qual o soluto é dissolvido). E como ocorre o fluxo dessas substâncias na membrana? As moléculas seguem um gradiente de concentração, isto significa que elas sempre seguem em direção ao local de maior concentração para o local de menor concentração, até que a distribuição das moléculas seja uniforme, e paramanter o equilíbrio, o intercâmbio de substâncias passa a ser proporcional. Desta forma, podemos caracterizar o meio intra e extracelular como isotônico, quando a concentração de soluto é igual no meio interno e externo da célula; hipertônico, quando a concentração de soluto é maior em relação ao solvente, no meio; e hipotônico, quando a concentração de soluto é menor em relação ao solvente, no meio. Com estas informações já sabemos que o tipo de substância e a concentração dela influenciam no tipo de transporte que será adotado, de forma ativa (com gasto de energia) ou passiva (sem gasto de energia). O transporte passivo é caracterizado pela passagem das substâncias através da membrana plasmática, seguindo o gradiente de concentração, da região mais concentrada para a menos concentrada, podendo ocorrer tanto no interior das células como entre as células e o meio externo. Existem três tipos: difusão simples, difusão facilitada e osmose. Como podemos diferenciá-los? Na difusão simples ou passiva, o soluto é transferido através da membrana plasmática do meio mais concentrado para o menos concentrado, podendo entrar ou sair da célula de acordo com a disposição destas concentrações nos meios intra e extracelulares. Neste caso, o soluto precisa ser pequeno e apolar. A força que impulsiona o soluto para dentro ou para fora da célula é a própria agitação térmica das moléculas, não havendo gasto de energia (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2012). A relação entre a concentração de O2 e CO2 nas células é devida à difusão simples. A maioria dos fármacos, por exemplo, por apresentarem moléculas pequenas, é capaz de atravessar a membrana placentária por difusão, permitindo à gestante transferi-los para o feto, no entanto, a insulina possui moléculas grandes incapazes de atravessar a membrana da placenta por meio da difusão. Já na difusão facilitada, as moléculas que não conseguem atravessar facilmente a membrana precisam do auxílio de algumas proteínas com função transportadora, chamadas de proteínas permeases ou carreadoras. Estas proteínas transportam as substâncias (moléculas e íons) polares que não conseguem atravessar a parte dos fosfolipídios (hidrofóbica) da membrana. Como exemplo, podemos citar a molécula de glicose, algumas vitaminas e aminoácidos. As proteínas que auxiliam neste transporte são capazes de mudar a sua conformação de forma e reconhecerem a substância que deve ser transportada, facilitando o transporte, sem gasto de energia, a favor do gradiente de concentração. Este processo ocorre em uma velocidade maior do que o processo de difusão simples. Por fim, na osmose, a passagem do solvente ocorre de uma região com baixa concentração de soluto para uma região mais concentrada. A entrada ou saída do solvente na célula depende da quantidade de soluto presente, controlada pela pressão osmótica, que atua no equilíbrio destas concentrações. Você deve se lembrar de ter ouvido que jogar sal no corpo da lesma, ela derrete, certo? Isso ocorre porque a concentração de sal é muito maior no meio externo do que no corpo da lesma e, desta forma, a água através do processo de osmose sai do corpo da lesma, causando a sua morte. Quando estudamos as células do sangue (hemácias) e as inserimos em um meio hipotônico, a água passará por osmose para o interior da célula, mais concentrado. Assim, a célula acaba inchando por ganhar água e, pode, até mesmo estourar. Estas mesmas células inseridas em um meio hipertônico perdem água para o meio e acabam murchando, muitas vezes, elas podem inclusive morrer ou ter as suas funções afetadas. O ideal é que as células estejam em um meio isotônico, com a mesma pressão osmótica nos meios intra e extracelular, permitindo a entrada e saída de água da célula com facilidade. REFLITA A osmose ocorre da mesma forma em células animais e vegetais? A parede celular das células vegetais teria alguma influência no comportamento da célula, já que ela é uma camada de proteção extra? Diferentemente das células animais, as células vegetais quando expostas ao meio hipotônico ou hipertônico, em virtude da presença de parede celular, impedem a entrada ou saída excessiva de água na célula. As células vegetais ficam turgidas, mas não chegam a se romper, ou ficam plasmolisadas, quando perdem muita água, no entanto, a sua composição interna fica preservada e ao absorver água, elas retornam à sua situação inicial. No transporte passivo ocorre a ação dos gradientes de concentração, sem a atuação celular ou gasto energético, e sua classificação é de transporte físico. Como funciona então o transporte ativo? Ao contrário do transporte passivo, as substâncias são transportadas para a célula contra o gradiente de concentração, do meio de menor concentração (meio hipotônico) para um meio de maior concentração (meio hipertônico), sendo necessário o gasto de energia. Figura 1.9 | Diferentes mecanismos e estruturas da membrana são utilizados pelos solutos para atravessar as membranas da célula Fonte: De Robertis e Hib (2017, p. V). O transporte ativo pode ser dividido em transporte primário e secundário. Vamos entender a diferença entre eles? Em ambos os casos, são utilizadas proteínas carreadoras que auxiliam no transporte destas substâncias, que precisam ser ativadas por meio de energia. O transporte ativo primário utiliza uma fonte de energia química, como o trifosfato de adenosina (ATP) ou outro fosfato rico em energia, para ativar as proteínas transportadoras e mover as substâncias através da membrana contra o seu gradiente. Um exemplo é a bomba de sódio-potássio, que utiliza proteínas transportadoras que capturam os íons de sódio (Na+) de dentro do citoplasma da célula e os bombeia para fora delas, enquanto capturam os íons de potássio (K+) do meio externo bombeando-os para o interior das células. Como as proteínas utilizam energia, proveniente do ATP, este processo de transporte é considerado ativo primário. A bomba de Na+/K+ tem a importante função de manter as concentrações apropriadas destes íons nas células vivas, controlando a estabilidade do volume celular e a concentração de água no interior da célula, evitando assim que as células inchem a ponto de estourarem. Além disso, a bomba de sódio-potássio está diretamente relacionada às funções fisiológicas dos processos de contração muscular e condução dos impulsos nervosos, manutenção de gradientes eletroquímicos na célula e em suas organelas. Já o transporte ativo secundário (cotransporte) é caracterizado pelo uso de energia indireta, por meio do uso de um gradiente eletroquímico gerado pelo transporte ativo primário para mover outras substâncias contra os seus gradientes. Senso assim, este tipo de transporte depende da atividade em paralelo de um transportador ativo primário. A energia armazenada em gradientes, proveniente do transporte ativo primário, é utilizada no lugar da energia química (molécula de ATP) para ativar as proteínas transportadoras e realizar o transporte. Este tipo de transporte ativo secundário ocorre por exemplo nas células do intestino delgado, durante a absorção de glicose na superfície da célula exposta à luz do intestino (BARRETO et al., 2014). Além dos processos de transportes descritos, muitas células são capazes de transferir macromoléculas (proteínas, polissacarídeos etc.), além de partículas maiores visíveis ao microscópio óptico, como bactérias e outros microrganismos, por meio de alterações morfológicas da superfície celular. As alterações morfológicas envolvem a formação de vesículas e dobras que englobam o material a ser introduzido na célula. Estes processos são conhecidos por endocitose (transporte para o interior da célula) e exocitose (transporte para o meio extracelular). A endocitose envolve o englobamento e transporte de partículas maiores, moléculas, solutos, pedaços de tecido, microrganismos, dentre outros. Este processo é diferenciado pelo tipo de substância englobada, podendo ser: fagocitose (englobamento de partículas sólidas, por pseudópodes) e pinocitose (englobamento de partículas líquidas, pormeio de invaginações). As partículas englobadas sofrem processo de digestão intracelular por auxílio de enzimas presentes nos lisossomos. Já o processo de exocitose permite à célula a liberação ou excreção de produtos metabólicos provenientes de digestão celular, ou compostos sintetizados no interior da célula, em grandes quantidades. O complexo de Golgi está envolvido neste processo de liberação de moléculas da célula para o meio extracelular. Figura 1.10 | Processos de endocitose e exocitose Fonte: adaptado de Wikimedia Commons. IMPACTOS DO MAU FUNCIONAMENTO DAS MEMBRANAS CELULARES A membrana plasmática desempenha um papel de extrema importância para a manutenção da vida, relacionada à sua propriedade de permeabilidade seletiva. Quando há qualquer defeito nas membranas celulares que ocorra a perda de permeabilidade seletiva, pode ocorrer a entrada ou escape de substâncias. Estas alterações ou lesões podem ser causadas pela falta de energia ou por toxinas, substâncias químicas, vírus, dentre outros. Algumas doenças de origem genética estão relacionadas à membrana, representando risco à vida,. O mal de Alzheimer por exemplo, resulta em alterações fosfolipídicas no cérebro, que comprometem a membrana celular, visto que este componente é essencial ao funcionamento da membrana plasmática. Podemos citar ainda a fibrose cística, outra doença provocada pela alteração na proteína responsável pelo transporte de íons através das membranas celulares. Essa doença afeta pulmões, pâncreas e o sistema digestivo. Todas as funções desempenhadas pela membrana plasmática como sua organização e composição fazem dela uma estrutura complexa e essencial à vida. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO: MEMBRANA PLASMÁTICA SEM MEDO DE ERRAR Agora que você já conheceu um pouco mais a respeito das células, sua importância aos seres vivos e sua composição, o estudo de um de seus componentes, a membrana plasmática, permitiu ter mais clareza do quão complexa é a organização das células. São inúmeras proteínas, carboidratos, lipídios, dentre outras moléculas, todas com funções especializadas trabalhando em conjunto para o funcionamento correto das células, sejam elas eucariontes ou procariontes. Com todo este conhecimento, você já está preparado para resolver a situação-problema da seção. Para realizar os testes nas células utilizando fármacos, Jean e Carlos lhe explicaram que os fármacos utilizam os transportes por difusão passiva, por difusão passiva facilitada, por transporte ativo e por pinocitose. Qual a diferença entre estes transportes? Existem outros transportes feitos pela membrana plasmática? Devemos nos lembrar dos dois tipos de transportes que as membranas realizam: o transporte passivo (sem gasto de energia) e o transporte ativo (com gasto de energia). É importante frisar que o gasto ou não de energia está relacionado com o gradiente de concentração em relação aos meios intracelular e extracelular. Quando o transporte de substâncias é realizado de um meio mais concentrado para um meio menos concentrado, não há gasto de energia porque o fluxo das substâncias está a favor do gradiente de concentração. Ao contrário, quando há gasto de energia, as substâncias seguem em direção contrária ao gradiente de concentração, se movem do meio menos concentrado para o meio mais concentrado. Sabemos que a difusão passiva ou simples e a difusão facilitada são exemplos de transporte passivo. Quando há difusão simples, as substâncias transportadas são solutos pequenos que conseguem atravessar a membrana seguindo o gradiente de concentração. Já na difusão facilitada, as substâncias que não possuem afinidade com os lipídios, ou íons que mesmo pequenos não conseguem atravessar sozinhos a bicamada lipídica da membrana, recebem o auxílio de proteínas carreadoras que as transportam através da membrana. Esta é uma característica destas proteínas auxiliares, capazes de reconhecerem as substâncias e realizarem esta modificação em sua estrutura, sem a necessidade de gasto de energia. No transporte ativo é necessário o gasto de energia: quando esta é proveniente de uma molécula de ATP, caracteriza-se o transporte ativo primário; já quando a energia utilizada é proveniente de outro processo, tem-se o transporte ativo secundário. A pinocitose é um transporte feito por membranas que englobam partículas líquidas e as transportam para o interior das células, por um processo chamado de endocitose. Existem outros tipos de transportes feitos pela membrana plasmática, como a osmose (transporte passivo), a bomba de sódio-potássio (transporte ativo), a fagocitose (transporte realizado por membranas), a exocitose (transporte realizado por membranas). Após responder com clareza estes questionamentos, você já está pronto para montar uma apresentação destacando os principais conceitos das células e membrana plasmática, de forma que fique clara e objetiva para os seus colegas também trainees. Caso seja necessário retome o conteúdo. AVANÇANDO NA PRÁTICA ATUAÇÕES DA MEMBRANA PLASMÁTICA Imagine você, no laboratório de biologia celular, como estagiário, auxiliando o professor de biologia em uma prática laboratorial de transportes de membrana plasmática. O professor procura trazer em suas aulas conhecimentos do cotidiano dos alunos para que eles consigam associar o conteúdo de uma forma mais prática. Foram preparados dois experimentos: 1o experimento: em um copo de água foi adicionado um pouco de iodo. Introduziu-se no copo uma espécie de bolsa feita com um pedaço de papel filme (fino e aderente, utilizado para envolver alimentos), uma colher de sopa de amido de milho e um pouco de água. Simulando a membrana plasmática, a bolsa de papel filme, contendo amido e água, ao ser imersa na solução do copo (água e iodo) e passado algum tempo, adquire coloração violeta. A coloração é por conta da cor do iodo dissolvido em água presente no copo. 2o experimento: duas folhas de alface são colocadas em um prato e em uma das folhas foi adicionado grande quantidade de sal e limão, enquanto a outra folha de alface permaneceu sem adição de substâncias. Passado algum tempo, a folha de alface com adição de sal e limão (simulando uma salada temperada que utilizamos em nossas casas) encontrava-se murcha, já a folha sem tempero estava como antes, intacta. Você ficou encarregado de explicar os dois experimentos aos alunos. Mas o que será que aconteceu? Você consegue explicar estes processos imaginando o funcionamento das células? Qual transporte celular foi simulado no 1º experimento? O mesmo processo ocorreu no 2º experimento? RESOLUÇÃO Bom, vamos lá. Para você explicar aos alunos os experimentos realizados, você precisa se lembrar dos tipos de transportes feitos pela membrana plasmática e os seus conceitos. No 1º experimento, o processo observado foi o transporte passivo de difusão simples, resultante da passagem espontânea das partículas de iodo (soluto) de um meio mais concentrado (copo de água com iodo) para o menos concentrado (simulador da célula – amido de milho com água envolto por plástico filme). O plástico filme está simulando a membrana plasmática, e as partículas do iodo atravessaram esta membrana no sentido do gradiente de concentração, buscando o equilíbrio da concentração dos meios. Já no 2º experimento, o transporte celular simulado é o transporte passivo conhecido por osmose. A folha de alface temperada com com sal e limão, simulando a salada que costumamos comer, ficou com aspecto murcho devido ao sal adicionado na superfície da folha, uma vez que no interior das células da folha de alface criou-se um meio hipotônico (menor concentração de solutos) em relação ao meio extracelular (a folha em contato com o ambiente externo), fazendo com que a folha perdesse água para o ambiente externo, apresentando o aspecto murcho. Pode-se dizer também que o meio externo estava hipertônico (mais concentrado) do que o interior das células da folha de alface. Enquanto a folha de alface sem adição de sal e limão permaneceu intacta, por estar em um meio isotônico, de equilíbrio.Vale lembrar das propriedades da osmose em células vegetais, que têm a parede celular que auxilia no processo de desplasmólise, o inverso da plasmólise. A folha lavada e imersa em um meio hipotônico (vasilha de água), absorve a água e retorna a sua situação inicial. Unidade 1 - Seção 3 SINALIZAÇÕES CELULARES PRATICAR PARA APRENDER Caro aluno, como está? Vamos dar sequência aos nossos estudos? Você se recorda da unidade fundamental da vida, a célula, e os seus principais componentes? Estudamos um pouco mais afundo a membrana plasmática, a sua https://conteudo.colaboraread.com.br/202102/INTERATIVAS_2_0/INTRODUCAO_A_BIOLOGIA_CELULAR_E_DO_DESENVOLVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u1s2.html#resolucao%20.item-1 composição e importância. Estudamos também a bicamada fosfolipídica que constitui a membrana plasmática, composta por proteínas inseridas nesta dupla camada, que auxiliam em quase todas as atividades celulares. Elas se encarregam desde o transporte de substâncias, permitindo a passagem para o interior ou exterior das células, até a ancoragem para o citoesqueleto, auxiliando na adesão das células adjacentes formadoras de tecidos, além de funcionarem como receptores da membrana no processo de sinalização celular, que estudaremos nesta seção. Mas o que é a sinalização celular? Este complexo processo de comunicação existente entre as células é fundamental para o funcionamento dos organismos, principalmente dos multicelulares, que precisam emitir sinais de uma célula a outra para se comunicar. As células podem detectar o que ocorre ao seu redor por meio de sinais advindos de células vizinhas, células mais distantes ou até mesmo sinais advindos do meio exterior. A membrana plasmática junto das proteínas funcionam como transdutoras de sinais, ou seja, convertem um tipo de sinal ou estímulo em outro, que são levadas para outras células através de proteínas e enzimas. Desta forma, as células recebem informações a respeito das funções que deverão desempenhar, assim sendo, as respostas celulares que deverão resultar em contração, secreção, crescimento, diferenciação, propagação de um impulso nervoso, morte celular, dentre inúmeras outras. A compreensão deste complexo sistema é fundamental para o desenvolvimento de pesquisas na área de biologia celular, nas interações de fármacos com os receptores específicos da membrana, ação destes fármacos nas células e desenvolvimento de metodologias terapêuticas e de diagnóstico para doenças, como o câncer. Nesta seção estudaremos como funciona esta comunicação entre as células, os requisitos necessários que envolvem este processo, desde a molécula sinalizadora que contém o sinal emitido por uma célula emissora, até a ligação desta molécula a um receptor específico presente na célula-alvo que irá receber o sinal. Veremos que não são todos os sinais que são recebidos por todas as células, a depender do tipo de molécula sinalizadora, do tipo de receptor presente na membrana da célula, e, ainda, da distância em que os sinais são transmitidos entre as células. As sinalizações ocorrem por meio de sinais químicos ou elétricos e podem ser classificadas em: dependentes de contato, parácrina, sináptica e endócrina, de acordo com a proximidade entre as células. Já os receptores presentes na membrana celular que captam os sinais podem estar localizados no interior das células ou em sua superfície, e cada um deles é classificado em subtipos que entenderemos no decorrer da seção. Para contextualizar os conteúdos desta seção, daremos sequência à situação hipotética de sua atuação como trainee no setor de produção, na área de pesquisa, desenvolvimento e testes de medicamentos, de uma multinacional farmacêutica. Você trabalha com uma equipe de farmacêuticos, biólogos, biomédicos, médicos, engenheiros químicos e biotecnólogos. Para tanto, você precisará se dedicar muito e estar disposto a aprender com esta nova experiência. Você estava acompanhando o trabalho de Jean, um biólogo experiente, para aprender um pouco do trabalho feito por ele, e iniciou alguns testes com fármacos, com auxílio do farmacêutico Carlos. Dando continuidade aos testes para verificar a ação de fármacos nas células, Carlos está trabalhando com um fármaco antitireoidiano que diminui a quantidade de hormônio produzido pela tireoide, auxiliando no tratamento de pessoas que sofrem com o hipertireoidismo. Este fármaco a base de metimazol age diminuindo a quantidade de iodo, consequentemente inibe a elevada taxa de T3 e T4 no organismo, controlando a glândula da tireoide. No entanto, alguns pacientes podem ter efeitos adversos e devem ser analisados para descrição na bula. Considerando essa situação, pensando em auxiliar Carlos nos testes que fará, você saberia explicar como as células se comunicam, ou seja, como ocorre sinalização celular no caso dos hormônios tireoidianos? Quais são os fatores que devemos levar em conta na sinalização celular? Como podemos classificar a molécula do hormônio tireoidiano? E os receptores das células-alvo envolvidas? Em princípio parece ser uma situação difícil de se explicar, mas no decorrer desta seção serão apresentados os principais conceitos que darão o embasamento teórico para chegar às respostas. Compreender a importância do processo de comunicação celular é essencial para entendermos a complexidade de um organismo vivo e podermos atuar em seus diversos mecanismos, não só compreendendo enfermidades como também auxiliando em tratamentos. CONCEITO-CHAVE Até agora você estudou a composição dos seres vivos, a estrutura das células (unidade fundamental da vida) e alguns de seus componentes. Vamos compreender agora como as células recebem estímulos e respondem ao seu ambiente, afinal, uma célula precisa ser capaz de identificar o seu alimento, evitar substâncias prejudiciais, se comunicar com outras células, sobreviver, se reproduzir ou morrer. As sinalizações celulares são essenciais para que as células decodifiquem os sinais recebidos do ambiente e de outras células, havendo uma diversidade de sinais que estimulam a comunicação intracelular, como estímulos físicos (luz, temperatura), hormônios, neurotransmissores, patógenos, dentre outros. A sinalização celular é um complexo sistema de comunicação que coordena as atividades e funções celulares, seja em células procariontes ou eucariontes. Por meio dos sinais recebidos, as células sabem como e quando devem agir, desde a formação de tecidos, síntese de anticorpos, multiplicação celular até a coordenação do metabolismo e de várias outras atividades celulares. SINALIZADORES NAS MEMBRANAS CELULARES A base da comunicação celular ocorre com a emissão de um sinal produzido por uma célula emissora e liberado no meio extracelular. Este sinal é enviado através de moléculas sinalizadoras (ligantes), que podem ser proteínas, peptídeos, aminoácidos, nucleotídeos, hormônios, gases e derivados de ácidos graxos. As moléculas sinalizadoras “flutuam” no meio extracelular até serem reconhecidas por uma proteína receptora localizada na célula-alvo (célula que irá receber o sinal). É importante saber que não são todas as células que podem receber todos os sinais: a célula só recebe o sinal se tiver uma proteína específica (receptor) para receber aquele sinal. As proteínas receptoras estão localizadas na superfície das membranas, quando a molécula sinalizadora tem natureza hidrofílica, ou localizadas no interior das células, no citoplasma ou núcleo, quando a natureza da molécula sinalizadora é hidrofóbica. VOCABULÁRIO Ligante: molécula sinalizadora que se liga a um sítio específico de uma proteína ou outra molécula. Receptor: proteína localizada na superfície da membrana plasmática ou no interior da célula, que se liga à molécula sinalizadora. Quando o ligante se prende à proteína receptora, a ligação ativa o receptor, que por sua vez ativa uma ou mais proteínas sinalizadoras intracelulares e, desta forma, a mensagem é retransmitida por uma cadeia de mensageiros químicos dentro da célula, possibilitando a resposta celular, ou seja, o sinal intercelular(entre as células) original é convertido em sinal intracelular (dentro das células), ocorrendo a transdução do sinal, permitindo que a informação chegue ao alvo intracelular apropriado (proteínas efetoras) que acionam a resposta. Cada célula é programada para responder a combinações específicas de moléculas sinalizadoras. A célula passa por mudanças, que permitem, por exemplo, em resposta, alterar a atividade de um gene, alterar a indução de uma divisão celular, alterar funções do metabolismo, formas e movimentos celulares, entre outras. A troca de sinais químicos entre as células regula quase todas as funções celulares, e um mesmo sinal pode causar diferentes efeitos dependendo do receptor ao qual ele se associa. Figura 1.11 | Sinalização intracelular Fonte: Alberts et al. (2017, p. 814). ASSIMILE Para que ocorra a sinalização celular são necessários os seguintes passos: • Célula emissora realiza a síntese e liberação da molécula sinalizadora. • Molécula sinalizadora é transportada até a célula-alvo. • Célula alvo-detecta o sinal através do receptor específico (proteína receptora). Nesta fase, a molécula sinalizadora altera a conformação do receptor, sendo considerada o primeiro mensageiro. • O sinal é transmitido para o interior da célula (proteínas de sinalização intracelular), podendo haver um mensageiro secundário que irá retransmitir este sinal a outra ou a outras proteínas (proteínas efetoras), enzimas etc. • O sinal é recebido e ocorre modificação do metabolismo celular e uma resposta da célula, podendo esta estar relacionada à função ou ao desenvolvimento celular. TIPOS DE SINALIZAÇÃO A sinalização celular pode envolver sinais químicos ou elétricos, envolvendo sempre a transmissão de um sinal de uma célula emissora para uma célula receptora. Mas sabemos que as células nem sempre estão próximas umas às outras e nem todas as células trocam sinais da mesma forma, precisamos então considerar os diferentes tipos de sinalização que ocorrem, baseados principalmente na distância que o sinal percorre no organismo para alcançar a célula-alvo. Encontramos quatro categorias de sinalização química nos organismos multicelulares, são elas: sinalização dependente de contato, sinalização parácrina, sinalização sináptica e sinalização endócrina (ALBERTS et al., 2017). • Sinalização dependente de contato: ocorre em contato direto, quando as moléculas sinalizadoras permanecem ligadas à membrana plasmática de uma célula e podem interagir com receptores de uma célula adjacente. É importante durante o desenvolvimento embrionário e a resposta imune. Em alguns casos, as células podem não estar tão próximas umas das outras e as células se comunicam estendendo prolongamentos, que formam canais, para fazer o contato com a outra célula. Estes canais por onde percorrem íons e substâncias pequenas de uma célula à outra, são as junções comunicantes ou gaps (em células animais) e plasmodesmos (em células vegetais). • Sinalização parácrina: ocorre em distâncias curtas, quando as moléculas sinalizadoras estão muito próximas às células-alvo. Neste caso, as moléculas atuam em diferentes células vizinhas. São exemplos os hormônios, tais como as citocinas, fatores de crescimento, neurotransmissores, entre outros. Este tipo de sinalização pode ser classificado também como autócrina, quando a célula responde à sinalização através da molécula sinalizadora que ela mesma produziu. A célula emissora e a célula-alvo são a mesma célula. Para exemplificar podemos citar as células cancerosas, as quais produzem sinais extracelulares que estimulam a sobrevivência e proliferação de sua própria célula. • Sinalização sináptica: ocorre em longas distâncias e as moléculas sinalizadoras (neurotransmissores) são liberadas por neurônios por meio de sinais elétricos, em uma longa fibra (axônio). Quando o impulso alcança a sinapse (junção de duas células nervosas, onde ocorre a transmissão de sinal), os neurotransmissores são liberados e desencadeiam respostas em células-alvo que estão localizadas em outras partes do organismo. Os neurotransmissores, uma vez liberados, podem ser degradados ou retomados pela célula emissora, para que a sinapse fique preparada para receber o próximo sinal. Estas sinalizações através dos neurotransmissores podem ser consideradas também endócrinas (por percorrerem longas distâncias) ou parácrinas (por percorrerem curtas distâncias, nos casos em que neurônios próximos se comunicam nas sinapses). • Sinalização endócrina: ocorre também em longas distâncias, neste caso as moléculas sinalizadoras (hormônios) são secretadas na corrente sanguínea até alcançar a célula-alvo. O sistema circulatório, como uma rede de distribuição, se encarrega de transportar os hormônios por todo o corpo, permitindo a sua atuação em células-alvo que estejam em qualquer parte do corpo. Nos animais, as glândulas endócrinas são as células que liberam um ou mais tipos de hormônios, podemos citar a tireoide, o hipotálamo, as gônadas, a pituitária e o pâncreas. Figura 1.12 | As categorias de sinalização celular. Nota: (A) Sinalização dependente de contato; (B) Sinalização parácrina; (C) Sinalização sináptica; (D) Sinalização endócrina. Fonte: Alberts et al. (2017, p. 815). ASSIMILE Nos humanos a hipófise libera hormônios responsáveis pelo crescimento. As plantas, porém, não possuem glândulas endócrinas e, neste caso, as moléculas que regulam o seu crescimento e se locomovem pela planta até as células mais distantes são os hormônios vegetais. As moléculas químicas, sinalizadoras, responsáveis pela atuação em diversos locais, são classificadas em moléculas hidrossolúveis (moléculas de peso molecular considerável, como os aminoácidos, as catecolaminas e peptídeos – são os neurotransmissores e os hormônios), podem se difundir pela membrana e chegar ao núcleo, transportadas por carreadoras. E moléculas lipossolúveis (moléculas de pouco peso molecular, são derivadas do colesterol (esteroides), de aminoácidos (tireoides) e compostos gasosos (óxido nítrico – NO e monóxido de carbono – CO), que se ligam a receptores intracelulares. Diferentes células podem receber um mesmo sinal, utilizarem de um mesmo tipo de receptor na membrana e apresentar comportamento de reação distinto entresi. EXEMPLIFICANDO O neurotransmissor acetilcolina (molécula sinalizadora) pode induzir diferentes respostas dependendo da célula-alvo que atinge, uma vez que tipos celulares diferentes são especializados para responder de maneiras diferentes aos sinais. Podemos citar a célula muscular cardíaca, em que a proteína receptora acoplada à proteína G se liga à acetilcolina e os sinais interpretados pela célula produzem como resposta a redução da velocidade de contração. Já a mesma molécula, ao se ligar a um receptor de uma célula da glândula salivar, também acoplado à proteína G, irá produzir uma resposta diferente, de secreção. Ainda a mesma molécula de acetilcolina, ao ligar-se a um receptor acoplado a um canal iônico de uma célula muscular esquelética, produz uma resposta distinta das demais, de contração. CLASSE DE RECEPTORES DE MEMBRANAS Como vimos, a sinalização celular ocorre quando há uma ligação entre uma molécula sinalizadora (ligante) e sua molécula receptora (receptor). Um receptor reconhece um ou poucos ligantes específicos, e um ligante se liga a apenas um ou poucos receptores presentes nas células-alvo. Quando há ligação entre ambos, ligante e receptor, o receptor altera a sua forma ou atividade e o sinal é transmitido ou são desencadeadas modificações adaptativas dentro da célula-alvo. Os receptores podem ser classificados como intracelulares ou de superfície celular. Os receptores intracelulares (proteínas receptoras) são encontrados dentro da célula, no citoplasma ou no núcleo. Geralmente se ligam a pequenas moléculas hidrofóbicas, transportadas por carreadoras para atravessarem a membrana plasmática por difusão. Os hormônios esteroidais (testosterona, estrogênio, cortisol), hormônios da tireoide e a vitamina D, presentes no corpo humano sãoexemplos de moléculas hidrofóbicas. Outro exemplo é o óxido nítrico (NO), uma pequena molécula que age sobre as células musculares lisas dos vasos sanguíneos, provocando vasodilatação local (relaxamento das células musculares locais), com isso, o calibre do vaso aumenta, permitindo ao fluxo sanguíneo fluir facilmente. Possuem difusão rápida através da membrana por serem gasosos e, rapidamente, se espalharem pelas células vizinhas. REFLITA Você consegue associar o tipo de sinalização que o óxido nítrico (NO), sendo a molécula ligante, realiza na célula? Os receptores de superfície celular, também conhecidos por receptores de membrana plasmática, são as proteínas localizadas na superfície externa da célula. As moléculas grandes ou hidrofílicas, que não conseguem atravessar a membrana plasmática se ligam a três tipos de receptores: acoplados a canais iônicos, acoplados a enzimas e acoplados à proteína G. Todos eles são proteínas transmembranas e não entram na célula, a menos que sejam degradados. Os receptores acoplados a canais iônicos são canais controlados por um ligante. Em resposta à ligação, estes receptores possuem uma região intramembranal com um canal hidrofílico no meio dele, permitindo que os íons atravessem a membrana sem precisar se deparar com a camada fosfolipídica. A alteração dos níveis de íons dentro da célula pode alterar a atividade de outras moléculas, na produção de uma resposta. A sinalização sináptica, que envolve a transmissão rápida de sinais entre células eletricamente excitáveis, está envolvida com estes receptores. Os neurotransmissores, por exemplo, abrem e fecham o canal iônico formado pela proteína a qual eles se ligam. Desta forma, eles conseguem mudar rapidamente a permeabilidade iônica da membrana. Os receptores acoplados a enzimas são receptores da membrana plasmática que estão associados a uma enzima, podendo este receptor ser a enzima que catalisa a reação, ou em outros casos, o receptor interage com outra enzima. Um exemplo são os receptores tirosina quinases (RTKs), encontrados em humanos e em outras espécies. Moléculas sinalizadoras se ligam a dois receptores de tirosina quinase próximos e estes receptores vizinhos se juntam trocando fosfatos que se ligam à tirosina um do outro. Estes receptores, agora fosforilados, podem transmitir sinais para outras células ou se tornam receptivas a uma diversidade de proteínas, que quando se ligam a estes receptores podem ativar uma grande variedade de vias de sinalização, que levam a uma resposta celular. As proteínas receptoras atravessam a membrana uma única vez, têm um sítio de ligação no exterior da célula e um sítio catalítico no interior celular. Já os receptores acoplados à proteína G (GPCRs) são heterogêneos e se ligam a diversos tipos de ligantes. São receptores associados a uma proteína transmembrana multipasso, isso significa que atravessam a membrana sete vezes e, ao se ligarem à molécula sinalizadora, ativam outras proteínas, alterando a sua conformação e transmitindo o sinal adiante. A sinalização celular associada a este tipo de receptor pode se repetir várias vezes em resposta à molécula sinalizadora, em um ciclo. Estes receptores atuam indiretamente regulando a atividade de uma proteína-alvo ligada à membrana plasmática, que pode ser um canal iônico ou uma enzima. Estudaremos um pouco mais sobre esta família de proteínas para compreender como as proteínas G funcionam e como ocorre a sinalização celular em ciclos. PROTEÍNAS G E SEQUÊNCIAS DE SINALIZAÇÕES As proteínas G (nucleotídeos de guanosina) fazem parte de uma família com mais de 50 tipos descritos. São proteínas com estado inativo, acopladas a receptores no meio intracelular com propriedades funcionais e estruturais, que quando ativadas podem migrar pelo citosol e ativar enzimas efetoras ou canais iônicos, realizando a transdução de sinais (MOURA; VIDAL, 2011). As proteínas G recebem este nome porque se combinam com nucleotídeos da guanina GDT (trifosfato de guanosina) e GTP (difosfato de guanosina), possuem alto peso molecular e são formadas por três polipeptídios distintos, ou subunidades, α (liga e hidrolisa GTP), β e γ (responsáveis pelo ancoramento à membrana), formando um complexo transdutor de sinais. As proteínas G funcionam como interruptores, quando associadas com GTP estão “ligadas” (ativadas) e associadas à GDP estão “desligadas” (desativadas). Quando a célula-alvo recebe o primeiro mensageiro (hormônio, neurotransmissor, secreção parácrina) e este se liga ao receptor acoplado à proteína G, estes são ativados, e a proteína G pode ativar outras proteínas (proteínas G estimulatórias – Gs) ou inibir proteínas (proteínas inibitórias – Gi). As proteínas G estimulatórias fazem o efeito cascata de sinalização, quando um receptor recebe o ligante e ativa a proteína G, ela por sua vez ativa uma terceira proteína, geralmente uma enzima efetora (adenilciclase ou fosfolipase C). Ao serem ativadas pela proteína G por meio da sua ação enzimática geram várias reações moleculares de curta duração que levam a uma modificação no comportamento celular. A enzima ativada gera um segundo mensageiro que afetará outros alvos. Alguns exemplos de tipos de proteínas G: Gs, Gq, Gi, Gt, Go e Gk. A adenilciclase é uma importante enzima que tem papel no processo de sequenciamento de sinalizações envolvendo a proteína G. Quando esta enzima é ativada pela proteína G, ela hidrolisa uma molécula de ATP, retirando o fosfato dela, transformando-a em AMP (adenosina monofosfato) ou AMPc (AMP cíclico). O aumento do número de AMPc aumenta consequentemente o número de enzimas citoplasmáticas ativadas por ela, reagindo ao pico de concentração. Para que este mecanismo funcione bem é necessário controlar a concentração de AMPc, somente assim a célula poderá perceber o próximo sinal e há uma enzima específica para controlar este processo. Quadro 1.1 | Algumas respostas celulares induzidas por hormônios mediadas por AMP cíclico Fonte: Alberts et al. (2017, p. 835). As proteínas G junto de seus receptores transmitem sinais de hormônios e neurotransmissores, sendo importantes intermediários para a fisiologia do organismo, controlando o metabolismo celular, como o sistema cardíaco, funções cerebrais e controle hormonal. Quando há alterações na fisiologia da proteína G muitos distúrbios orgânicos podem ser gerados. ASSIMILE O tempo que uma célula leva para responder a um sinal extracelular varia muito, dependendo das ações que a célula deve fazer para chegar à resposta requerida. Algumas moléculas sinalizadoras, como a acetilcolina (neurotransmissor), se degradam em um intervalor de milissegundos após serem secretadas, isto ocorre porque as proteínas afetadas já se encontram no interior da célula-alvo aguardando os sinais. Outras como a secreção das glândulas salivares duram em torno de um minuto. Já alguns hormônios podem levar horas ou dias antes de serem degradados, um exemplo é o hormônio de crescimento, pois a resposta celular depende de mudanças na expressão gênica e produção de novas proteínas. A sinalização celular só ocorre com o perfeito funcionamento de cada uma das etapas envolvidas, pois qualquer alteração significativa afeta a comunicação entre as células e gera uma alteração que afeta diretamente a função que a célula deveria executar para desempenhar o seu correto funcionamento. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO: SINALIZAÇÕES CELULARES SEM MEDO DE ERRAR Relembrando a nossa situação-problema, Carlos está testando um fármaco antitideoidiano que diminui a quantidade de hormônio produzido pela tireoide, para auxiliar no tratamento de hipertireoidismo. Com isso, você saberia explicar como as células se comunicam, ou seja, como ocorre sinalização celular no caso dos hormônios tireoidianos? Quais são os fatores que devemos levar em conta na sinalização celular? Como podemos classificar a molécula do hormônio tireoidiano? E os receptores das células-alvo envolvidas? Os hormônios tiroidianos são produzidos pela glândula tireoide (localizada no pescoço) e levadosatravés do sangue para as demais partes do corpo, regulando o metabolismo. Sabemos que o hipertireoidismo é uma condição na qual a glândula da tireoide produz em excesso os hormônios tireoidianos T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina), que podem levar a outros problemas de saúde. A aceleração ou irregularidade nos batimentos cardíacos, a insuficiência cardíaca ou até mesmo casos de osteoporose, perda de peso, fraqueza muscular e infertilidade podem ser sintomas do hipertireoidismo. De acordo com as características dos tipos de sinalização celular que as células utilizam para se comunicar, decorrente principalmente do distanciamento entre elas, a sinalização endócrina é a que ocorre no caso dos hormônios tireoidianos e outros tipos de hormônios secretados por glândulas endócrinas. Este tipo de sinalização é caracterizado por carregar os hormônios através do sistema circulatório agindo em células distantes do alvo. Lembrando que devemos levar em conta que para a sinalização celular ocorrer é necessário uma célula emissora (glândula endócrina – tireoide), a emissão de um sinal ou molécula sinalizadora (hormônio tireoidiano), o receptor da membrana específico que irá interpretar o sinal à célula-alvo, neste caso a célula distante que recebe o sinal e irá produzir uma resposta (reação). Com isso, podemos classificar o hormônio tireoidiano como uma molécula sinalizadora lipossolúvel, solúvel em gordura, no entanto não solúvel em solventes orgânicos e incapaz de atravessar a membrana plasmática da célula-alvo ou percorrer a corrente sanguínea sem o auxílio de uma proteína transportadora ou carreadora. Os hormônios da tireoide se ligam a receptores intracelulares encontrados no núcleo celular, que, ao se ligarem, o receptor muda a sua conformação, permitindo que o hormônio entre no núcleo e regule a atividade gênica para a qual foi “instruído”. Os medicamentos antitireoidianos diminuem a quantidade de hormônio produzido pela tireoide, mas como todo medicamento pode causar efeitos adversos quando o princípio ativo age em outras células do nosso organismo que não precisam do medicamento, podendo promover efeitos colaterais de maior ou menor grau – algumas vezes o efeito é sutil que não percebemos. Isto ocorre devido a diferentes células utilizarem o mesmo receptor específico para a molécula sinalizadora, podendo responder a este sinal de maneiras distintas. Como vimos, a sinalização celular é extremamente importante para o funcionamento do organismo dos seres vivos, este é um dos caminhos que você pode chegar para a resolução da situação-problema, no entanto, há outras formas de pensar também. Por exemplo, você pode pensar na função da tireoide sendo controlada pela hipófise (pequena glândula localizada na base do cérebro). A hipófise produz o hormônio estimulante da tireoide (TSH) que induz a produção de T3 e T4 pela tireoide. Desta forma, se você pensar na molécula de TSH para resolver a situação, você se deparará com outro cenário, devendo explicar a sinalização por meio de receptores acoplados à proteína G. Essa poderia ser uma possibilidade de resolução, com base no que estudamos nesta seção, ou seja, você tem plenas condições de indicar uma outra proposta. Vá em frente! AVANÇANDO NA PRÁTICA A DOENÇA DA FRAQUEZA Uma jovem estudante de medicina, de 25 anos, integrante da equipe de vôlei da faculdade, começou a apresentar sintomas de fraqueza durante as práticas de atividade física intensas, que antecediam o campeonato, do qual a sua equipe iria participar. Além da fraqueza muscular, a jovem começou a apresentar falta de ar, cansaço excessivo e muitas vezes uma sensação de visão dupla. Preocupada com o seu rendimento para o campeonato, a jovem conversou com um de seus professores da faculdade, que a encaminhou para realizar alguns exames no hospital universitário. Além dos testes laboratoriais, fez uma série de testes neurofisiológicos. Em um de seus testes laboratoriais ela obteve resposta positiva a uma injeção com medicamentos anticolinesterásicos (que agem nos receptores neuromusculares, prevenindo a deterioração das moléculas de acetilcolina, consequentemente melhorando à força muscular). A jovem foi detectada com miastenia gravis, uma doença neuromuscular autoimune crônica, caracterizada por vários graus de fraqueza dos músculos esqueléticos do corpo. Atualmente já existem várias terapias que ajudam a reduzir a fraqueza muscular e melhorar a condição do paciente. Desta forma, o médico recomendou a jovem iniciar o tratamento com um medicamento de neostigmine, geralmente indicado para o tratamento desta doença. No entanto, o médico alertou a jovem de possíveis sintomas que ela poderia ter com o uso do medicamento, dentre eles a hipersecreção brônquica e salivar e bradicardia (diminuição da frequência cardíaca). Considerando a situação apresentada, como você poderia relacionar a atuação da acetilcolina com essa doença? Lembre-se da importância dos sinalizadores celulares e as suas funções específicas, incluindo a ação de um mesmo sinal em diferentes células. RESOLUÇÃO Para resolver esta situação-problema, você precisa se recordar do papel dos sinalizadores celulares e como atuam mediante a substâncias que se ligam a receptores específicos e desempenham uma resposta determinada, a qual pode ser diferente em diferentes tipos celulares. A acetilcolina é um neurotransmissor, molécula sinalizadora hidrossolúvel, que se liga a receptores específicos na superfície das células e se comunica através da sinalização sináptica. Estes receptores atuam como transdutores de sinal que se ligam à molécula sinalizadora e transmitem os sinais extracelulares para o interior da célula, alterando o comportamento da célula-alvo que recebe o sinal. Sabemos que a acetilcolina pode se ligar a receptores acoplados a canais iônicos, atuando em células musculares esqueléticas de forma rápida, ocasionando a contração muscular. E se associamos o uso do medicamento sugerido pelo médico como forma de controlar a doença, os efeitos colaterais que podem ser ocasionados estão relacionados à ação da acetilcolina em outros tipos celulares, como as células musculares cardíacas (ocasiona a redução da velocidade de contração do coração) e as células das glândulas salivares (ocasiona a secreção), que também possuem receptores específicos para esta molécula sinalizadora. No caso das células musculares cardíacas e das glândulas salivares, a acetilcolina utiliza receptores acoplados à proteína G. Não esqueça que você pode propor outra forma para resolver tal situação, vamos nessa? https://conteudo.colaboraread.com.br/202102/INTERATIVAS_2_0/INTRODUCAO_A_BIOLOGIA_CELULAR_E_DO_DESENVOLVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u1s3.html#resolucao%20.item-1 Unidade 2 - Seção 1 CITOSOL, CITOESQUELETO E FORMAÇÃO DE PROTEÍNAS CONVITE AO ESTUDO Caro aluno, seja bem-vindo! Vamos dar sequência ao estudo das células, as unidades básicas fundamentais à vida. Além de estruturar os organismos vivos, elas são responsáveis pelas funcionalidades do nosso corpo. Mas como estas estruturas microscópicas são capazes de desempenhar tantas funções? Qual a composição delas e como as células se diferenciam umas das outras? Uma vez que já conhecemos as diferenças entre as células procariontes e eucariontes, as diferenças entre as células animais e vegetais, podemos agora refletir sobre como as milhares de células do nosso corpo se diferenciam e desempenham diferentes funções. Todas as células são compostas pela membrana plasmática, citoplasma e o material genético. Este último pode estar disperso no citoplasma ou protegido dentro de um núcleo. Para compreendermos o funcionamento das células, precisamos conhecer cada uma de suas estruturas, composição e funcionalidades. A membrana plasmática confere principalmente a proteção das estruturas presentes no interior da célula, permite o controle e seleção de todas as substâncias que entram ou saem das células, além de participar da comunicação celular. A membrana precisa de ajuda para fazer todas essas funções. As proteínas sãode extrema importância para auxiliar as células de todo o nosso organismo e auxiliam em diversas funções. Você já se perguntou como elas são formadas? Dentro das células eucariontes há um complexo sistema de endomembranas no citoplasma, composto por várias organelas citoplasmáticas, cada qual desempenhando determinada função, seja de respiração celular, armazenamento, digestão, quebra de moléculas, transporte e até mesmo a síntese de proteínas. Abordaremos nesta unidade as funções e a constituição do citosol, o citoesqueleto – a base estrutural das células –, e os ribossomos, todas estruturas comuns às células, cada uma com suas particularidades. Compreenderemos o sistema de endomembranas e as características das principais organelas citoplasmáticas. Você será capaz de explicar como ocorre o processo de formação de proteínas e a diferenciação das células nos organismos, assim como demonstrar as fases do ciclo celular e os mecanismos que a envolvem. Na Seção 2.1, daremos ênfase para a estrutura da célula e a sua composição, conheceremos o citosol e o citoesqueleto, assim como a importância deles e a formação de proteínas. Na Seção 2.2, estudaremos o complexo sistema de endomembranas e a funcionalidade das organelas. Para finalizar, na Seção 2.3, analisaremos as fases do ciclo celular e como ocorre a diferenciação das células e a morte celular. Vamos seguir conhecendo estas pequenas estruturas microscópicas tão importantes e compreendermos o verdadeiro sistema que as envolve, o funcionamento incorreto ou deficiente de qualquer um de seus componentes podem desencadear inúmeros problemas e doenças. Bons estudos! PRATICAR PARA APRENDER Caro aluno, você já parou para pensar nos diversos tipos celulares que compõem o nosso corpo? As células têm estruturas e formas diferentes, mas como será que elas conseguem manter a sua forma? A membrana plasmática delimita as células, separa o meio intracelular do meio extracelular e promove proteção. No entanto, se a membrana não é rígida e o interior das células é composto pelo citoplasma, constituído por um líquido viscoso, como elas se sustentam? Dispersos neste líquido viscoso, conhecido por citosol, estão contidos importantes estruturas que compõem as células. O citoesqueleto é uma espécie de esqueleto – trata-se de uma estrutura formada por uma rede de filamentos proteicos que conferem não só a sustentação e a forma das células, como também é responsável por todos os seus movimentos. Isso mesmo, as células podem se locomover, seja por meio da emissão de projeções (no caso das amebas), por cílios (como os protozoários) e flagelos (como os espermatozoides), até as células fixas (como os neurônios) podem emitir projeções para fazer contato com células vizinhas. O citoesqueleto é composto por três tipos distintos de filamentos. Cada um está associado a diferentes proteínas que o auxiliam a exercer a sua função. Você se lembra que as proteínas são encontradas em quase todas as estruturas celulares e são responsáveis por praticamente todas as atividades celulares? Elas são formadas pelos ribossomos, que assim como as organelas citoplasmáticas, estão localizados no citosol das células. Nesta seção estudaremos a composição e as funções do citosol, presente no citoplasma das células, local onde são armazenadas as substâncias utilizadas pelas células e onde ocorre a produção de várias moléculas usadas na formação de estruturas celulares. Conheceremos a importância dos ribossomos – presentes tanto em células procariontes como em células eucariontes –, na formação das proteínas e compreenderemos como este processo funciona. No decorrer da seção, conheceremos a composição do citoesqueleto, também presente no citosol, e cada um de seus filamentos proteicos, distinguindo as diferenças entre eles e as funções específicas de cada um dentro da célula. Vamos lá? Bons estudos! Vivemos em um ambiente sujeito a grandes variações de temperatura, pressões atmosféricas, qualidade do ar, com alterações de umidade do ar, pressão de O2, entre outros extremos. O homem é responsável por um dos mais graves problemas ambientais sobre o meio ambiente: a poluição. Ela não só inviabiliza a utilização de recursos naturais, mas também provoca inúmeros problemas ecológicos, que acabam provocando desequilíbrios que afetam também a saúde humana. E devemos nos lembrar que o ambiente intracelular não se altera muito, pois sempre busca manter o equilíbrio e a estabilidade, mantendo o seu funcionamento. As células têm mecanismos de proteção e regulação que são capazes de aquecer o ar frio e umedecer o ar seco que inalamos, manter o fluxo sanguíneo constante, manter a quantidade de água e substâncias importantes para o metabolismo celular estáveis (carboidratos, lipídios, proteínas etc.), dentro das necessidades ideais das células. Pequenas variações são toleradas pelas células, sem prejuízo, como pequenas oscilações da quantidade de oxigênio. No entanto, em algumas situações de desequilíbrios maiores, as células não conseguem manter a sua morfologia e o seu funcionamento íntegros, o que pode desencadear inúmeras doenças e lesões celulares reversíveis ou até mesmo irreversíveis. Diante deste contexto e para trabalhar os temas da seção junto às possíveis situações da prática profissional, vamos acompanhar um professor universitário durante uma de suas aulas para alunos da área da saúde. Durante o debate sobre a importância das células e todas as suas funcionalidades no corpo dos organismos, o professor estava explicando os benefícios da prática de exercícios físicos para a saúde e a sua relação com as células. Inúmeras pesquisas comprovam que a prática de exercícios de baixa e média intensidade auxiliam na manutenção do bom funcionamento do sistema imunológico, com o aumento da produção das células de defesa (linfócitos) do nosso organismo, por exemplo. Rapidamente, o professor notou a conversa paralela entre dois alunos a respeito de exercícios para hipertrofia e sobre intensidade de treinos. Com o intuito de prender a atenção desses alunos, o professor resolveu trazer em sua aula o tema de hipertrofia relacionando-o ao contexto celular. Você, no lugar deste professor, saberia explicar a seus alunos a estrutura e o funcionamento das células para que ocorra a hipertrofia do músculo? Quais componentes da célula estão envolvidos nesse processo? A estrutura e a forma de todas as células são iguais? Relacione este conteúdo aos filamentos citoplasmáticos. Para que você consiga trazer a atenção dos alunos para a aula, introduzindo o contexto de hipertrofia, sem fugir do conteúdo da disciplina, o convido a estudar esta seção, que irá lhe fornecer os subsídios para resolver esta situação. Confie no processo, vamos juntos nos aprofundando pouco a pouco no conteúdo, e no final, nossos esforços serão recompensados! CONCEITO-CHAVE Sabemos que as células têm diversas estruturas com funções bem definidas e de vital importância para o funcionamento do organismo. Em sua composição básica, comum a todas as células, há a membrana plasmática, o citoplasma e o material genético. Já conhecemos um pouco sobre a estrutura e as funções da membrana plasmática, então agora estudaremos o citoplasma. O citoplasma, no caso das células eucariontes, é encontrado na parte interna da célula, entre a membrana celular e a membrana nuclear. No caso das células procariontes, como não há presença de núcleo, o citoplasma ocupa todo o conteúdo do interior das células. A maioria das reações celulares ocorre no interior das células, no citoplasma. Ele é composto por um fluido viscoso, o citosol, o citoesqueleto e as organelas citoplasmáticas. No entanto, esta constituição varia conforme o tipo de célula. ASSIMILE Nos tipos celulares eucariontes, a constituição citoplasmática difere conforme o tipo de célula – se animal ou vegetal. As células vegetais têm vacúolos grandes, que ocupam grande parte do espaço intracelular, enquanto nas células animais, o citoplasma ocupa metade do seu volume. CITOSOL: CONSTITUIÇÃO E FUNÇÕES O citosol,hialoplasma ou matriz citoplasmática, como é conhecido, é composto por água em grande quantidade, por macromoléculas (proteínas e enzimas), lipídios, sais minerais e açúcares, e devido a sua consistência viscosa ou gelatinosa forma um coloide. É considerada a parte líquida do citoplasma. No citosol estão imersas várias estruturas como os ribossomos, organelas citoplasmáticas (lisossomos, mitocôndrias, complexo de Golgi, retículo endoplasmático liso e rugoso, dentre outras), além das inclusões citoplasmáticas e do citoesqueleto. A consistência do hialoplasma depende da região em que está localizado na célula. A região denominada ectoplasma (próxima à membrana celular) é mais viscosa, pobre em organelas, conhecida como coloide em estado gel. Já a região denominada endoplasma (próxima à membrana nuclear) é mais fluida, rica em organelas, conhecida como coloide em estado sol (coloides formados pela dispersão de um sólido em um líquido ou sólido). Podem ocorrer mudanças de estado coloidal, dependendo do citoesqueleto e de fatores como pH e temperatura, por meio da transformação de consistência do estado de gel para o estado de sol e vice-versa – esse processo é conhecido como tixotropismo. O pH do citosol é de 7,2 (DE ROBERTIS; HIB, 2017). Principalmente na região do endoplasma, encontramos um movimento contínuo, uma espécie de corrente citoplasmática, conhecida como ciclose. Esta corrente torna-se mais intensa com o aumento da temperatura, elevação de luz e disponibilidade de oxigênio. Sabe-se que a maior parte das atividades celulares ocorre no citoplasma, mais especificadamente no citosol, e muitas delas estão associadas às organelas citoplasmáticas. No citosol ocorrem também reações químicas relacionadas ao metabolismo celular. Algumas atividades como a respiração celular, o armazenamento de substâncias em grandes quantidades (glicogênio e gorduras), e a síntese de proteínas envolvem os ribossomos. Em geral, o citosol fornece substrato para a organização de moléculas enzimáticas que, quando ordenadas em sequência, funcionam melhor do que quando distribuídas ao acaso, uma vez que dependeriam de colisões esporádicas com outros substratos (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2013). RIBOSSOMOS E A FORMAÇÃO DE PROTEÍNAS Os ribossomos são estruturas ribonucleioproteicas muito complexas encontradas em todos os tipos celulares, em células procariontes (bactérias) e em células eucariontes, de forma semelhante. Há, porém, diferenças entre elas. EXEMPLIFICANDO Os ribossomos dos eucariontes são maiores do que os ribossomos dos procariontes. Além do tamanho dos ribossomos, outra diferença notável é a composição química dessas estruturas celulares, as quais são compostas por proteínas diferentes. Esta última característica tem grande importância à medicina, já que alguns medicamentos agem somente em ribossomos de células procariontes, não afetando os ribossomos de eucariontes, o que permite seu uso em tratamentos de doenças bacterianas, por exemplo. Os ribossomos são pequenas estruturas, que medem 20 a 30 nm, compostas de RNA ribossômico (rRNA), um tipo de RNA estrutural, e proteínas, responsáveis pela síntese de proteínas. Em sua maioria situam-se no citosol, são ligados a membranas e podem ser encontrados também nas mitocôndrias e nos cloroplastos (estas duas últimas se assemelham aos ribossomos das células procariontes). Conforme sua localização, os ribossomos são classificados em livres ou ligados. ASSIMILE Ribossomos livres: encontram-se dispersos no citosol da célula e produzem proteínas que em sua maioria ficarão no próprio citoplasma. Ribossomos ligados: estão associados às membranas do núcleo e do retículo endoplasmático, produzem proteínas que atuam no interior de organelas citoplasmáticas ou que são excretadas da célula. Os ribossomos são constituídos por duas subunidades de tamanhos diferentes, uma subunidade maior e outra menor. Nas células eucariontes, o rRNA (Ácido Ribonucleico Ribossômico), de ambas as subunidades, é sintetizado no nucléolo, enquanto no citoplasma, são sintetizadas as proteínas. As proteínas migram para o núcleo através de poros nucleares e se juntam ao rRNAs, dando origem as duas subunidades que formam o ribossomo. As duas subunidades têm características funcionais e estruturais diferentes, são encontradas separadas, sendo deslocadas de volta ao citosol, onde irão exercer a sua função de síntese de proteínas. As subunidades se unem de forma reversível no início da síntese de molécula proteica. Quando a subunidade menor se liga a uma molécula de RNA mensageiro (mRNA) forma no citosol um ribossomo funcional capaz de realizar a sua função. Após a proteína ser sintetizada, as subunidades voltam a se separar. REFLITA Você consegue pensar nos ribossomos das células procariontes? Já vimos que os ribossomos em células procariontes são menores do que os de células eucariontes. Mas eles são encontrados livres ou ligados? Ou de ambas as formas, como nas células eucariontes? Quando os ribossomos estão presos a uma fita de mRNA em grupos são denominados polirribossomos, presentes em células que têm altas taxas de síntese proteica (exemplo: células do pâncreas). O mRNA é o responsável por conter o código da sequência de aminoácidos que constitui a cadeia polipeptídica que deverá ser sintetizada no ribossomo, formando uma proteína. As proteínas (constituídas por uma ou mais cadeias polipeptídicas) são sintetizadas pelos ribossomos presentes no citosol e apenas uma parte delas permanece no citosol, a outra parte das proteínas, após a tradução do RNA, migra para outras regiões, como o núcleo, membrana citoplasmática, mitocôndrias, lisossomos, entre outras. É importante lembrar que para alcançarem diferentes destinos, as proteínas devem ser reconhecidas pelo sinal emitido pela membrana do retículo endoplasmático, local em que irão terminar a sua síntese. São espécies de rótulos (sequência de aminoácidos) que “endereçam” as proteínas a serem entregues em locais específicos. Os ribossomos completos (Figura 2.1), prontos para realizar a síntese de proteínas, têm quatro sítios de ligação, um deles se liga ao RNA mensageiro e os outros três aos RNAs transportadores (tRNAs). O tRNA transporta o aminoácido que será adicionado à cadeia polipeptídica, e no sítio A o aminoácido se liga à cadeia polipeptídica que está sendo formada no sítio P até ser finalizada e liberada. Este processo será estudado posteriormente com mais detalhes. Figura 2.1 | Estrutura do ribossomo e formação de proteínas Fonte: Wikimedia Commons / Nossedotti (Anderson Brito). Quando os ribossomos não são formados corretamente, as proteínas consequentemente não são produzidas na célula, o que acaba acarretando problemas mais graves, como o caso de muitas doenças genéticas humanas, causadas pela falta de determinada proteína em uma célula que atuaria na formação do ribossomo ou até mesmo a má formação deste ribossomo que deixa de sintetizar proteínas importantes para a vida. CITOESQUELETO: FILAMENTOS DE ACTINA, FILAMENTOS INTERMEDIÁRIOS Você já se perguntou como é possível que as células tenham formatos diferentes? E como todos os componentes dela conseguem se sustentar em um citosol fluido? Seria a membrana plasmática a responsável por manter o formato da célula? Como vimos, o citoesqueleto está localizado no citosol e é uma estrutura composta por uma rede complexa de filamentos proteicos interligados, uma espécie de esqueleto presente nas células eucariontes. O citoesqueleto é a estrutura responsável por manter a forma e sustentação das células, no entanto também está relacionado a vários processos dinâmicos, fornecendo suporte mecânico, como a movimentação celular, divisão celular e o transporte de organelas e outras estruturas citoplasmáticas. É considerado um processo evolutivo que distingue as células eucariontes das células procariontes. Estas últimas, por não terem um núcleo definido e organelas, apresenta fibras que são semelhantes às fibras que formam o citoesqueleto, mas diferem em sua composição. O citoesqueletodas células eucariontes é composto por três tipos de filamentos: os microfilamentos (filamentos de actina), os filamentos intermediários e os microtúbulos. Além dos filamentos, o citoesqueleto é composto por um conjunto de proteínas acessórias: proteínas reguladoras, responsáveis por regular o aparecimento ou desaparecimento, e o alongamento ou encurtamento dos filamentos; proteínas ligadoras, que ligam os filamentos uns aos outros, ou com outros componentes presentes na célula); e as proteínas motoras, que transportam macromoléculas e organelas no citoplasma, e fazem com que haja deslizamento de filamentos paralelos e contíguos em direções opostas, permitindo a motilidade. O citoesqueleto tem uma estrutura dinâmica, com características de resistência a tensões, flexibilidade e estabilidade próprias de cada um de seus filamentos. Por ser formado pela polimerização de proteínas, permite que se decomponham (despolimerizar) em uma região da célula e se reestruturar (polimerizar) em outra, de forma rápida. VOCABULÁRIO Polimerização é uma reação química que resulta na formação de macromoléculas (moléculas grandes) denominadas polímeros, mediante a combinação de moléculas menores, os monômeros. Iniciaremos pelos microfilamentos ou filamentos de actina, com aproximadamente 8 nm de diâmetro, os quais são filamentos longos e considerados os mais finos, formados por proteínas de actina. São flexíveis, costumam se associar a feixes paralelos ou em redes de filamentos na região periférica da célula, no entanto são distribuídos por todo o citoplasma. Os microfilamentos são formados pela proteína actina, denominada actina G (globular). Quando há a união de dois ou mais filamentos da actina G, denominamos também de actina F (filamento). As moléculas menores (monômeros) de actina G estão dispersas no citosol e se associam formando polímeros dispostos em uma dupla hélice (formato helicoidal). Novos monômeros podem ser adicionados ou removidos dos filamentos de actina em qualquer uma das extremidades (Figura 2.2). No entanto, nas extremidades mais (+) novos monômeros são polimerizados (alongamento) e despolarizados (encurtamento) no filamento mais rapidamente do que na exterminada menos (-), essa bipolaridade é consequente dos monômeros, permitindo assim que o filamento se adapte rapidamente às necessidades da célula. Em geral, a extremidade de maior crescimento está voltada em direção a membrana plasmática. Figura 2.2 | Formação e organização estrutural do filamento de actina Fonte: De Robertis; Hib (2017, p. 75). ATENÇÃO Na fibra muscular estriada não ocorre a polimerização e despolimerização, neste caso o filamento de actina é estável e considerado uma exceção (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2013). As moléculas de actina G estão associadas a moléculas de ATP em seu interior, importantes para a manutenção da estrutura da molécula. Caso contrário, sem o ATP, a molécula perde a sua forma característica. Durante o processo de polimerização, quando a actina G é incorporada ao filamento, ela hidrolisa a molécula de ATP na qual está associada, formando ADP. Os microfilamentos podem desempenhar uma diversidade de funções, dependendo das proteínas acessórias a que se associam, formando estruturas diferentes. Estão envolvidos também em alguns processos fundamentais como: a movimentação celular (devido a sua propriedade de polimerizar e despolimerizar rapidamente, um exemplo é a movimentação dos glóbulos brancos – leucócitos – no sistema imunológico), a adesão celular (muito importante para a ligação entre as células ou entre a célula e a matriz extracelular), o englobamento de partículas (fagocitose), estruturação das microvilosidades (em células epiteliais) e a divisão celular (separação de células ao fim da mitose – citocinese). Os microfilamentos também participam da contração muscular, ao se ligarem a uma proteína acessória –, no caso, a proteína motora miosina, que interage com a actina e, juntas, são responsáveis pela contração do músculo. EXEMPLIFICANDO A contração muscular ocorre em consequência do deslizamento dos filamentos de actina (mais finos) sobre os filamentos de miosina (mais grossos). A disposição dessas proteínas produz ao longo da fibra o padrão de faixas do músculo estriado (sarcômeros), com faixas alternadas entre claras e escuras, denominadas banda I (contém apenas filamentos de actina) e banda A (composta por filamentos de actina e miosina sobrepostos), respectivamente. No movimento de contração, o sarcômero é encurtado, as moléculas de miosina se aproximam das linhas Z, local onde se originam os filamentos de actina. A contração é desencadeada pela liberação de acetilcolina por meio da sinalização sináptica e a interação de íons de cálcio (Ca2+) com as miofibrilas (células musculares). Com a diminuição dos níveis de Ca2+, o sarcômero volta ao estado de relaxamento, em que o músculo se encontra relaxado. Dando continuidade à composição do citoesqueleto, falaremos agora dos filamentos intermediários. Estes filamentos, com cerca de 10 nm de diâmetro, são formados por proteínas fibrosas, sendo considerados os mais resistentes e os mais estáveis em comparação aos microfilamentos e aos microtúbulos. Ao contrário dos filamentos de actina, eles não são constituídos por monômeros, não são capazes de polimerizar e despolarizar rapidamente e suas extremidades são equivalentes, o que os torna resistentes. Quando a célula é rompida, em sua maioria os filamentos intermediários permanecem intactos, enquanto os outros componentes do citoesqueleto são destruídos. São especializados em suportar tensão, conferindo às células resistência mecânica, muito importante para os tecidos de modo geral, como as células musculares, cardíacas e a pele, que são submetidos à tensão. Desta forma, a sua principal atuação está relacionada à função estrutural da célula. Os filamentos intermediários estão presentes no citoplasma de quase todas as células eucariontes (ATTIAS; SILVA, 2006), são encontrados em abundância nas células que sofrem atrito (como as células da epiderme), que se prendem à membrana plasmática em áreas de junções de células (desmossomos), sendo frequentes também nos axônios e em células musculares. Está ausente nas células que se multiplicam com frequência, como os embriões muito jovens e em células do sistema nervoso central que não produzem mielina. Estes filamentos têm a mesma estrutura, são constituídos pela junção de moléculas alongadas, constituídas por três cadeias polipeptídicas entrelaçadas em forma de hélice. São formados por várias proteínas fibrosas diferentes (Tabela 2.1), de acordo com o tipo celular, que se unem espontaneamente sem necessidade de energia. Quadro 2.1 | Proteínas que constituem os filamentos intermediários Proteína Localização Queratina Células epiteliais e de estruturas derivadas delas exclusivamente. Ex.: unhas, pelos, cabelo, chifres. Vimentina Células originadas do mesênquima embrionário. Ex.: fibroblastos, macrófagos, células musculares lisas. Algumas vezes é produzida apenas transitoriamente durante o desenvolvimento embrionário. Desmina Células musculares lisas, esqueléticas e do miocárdio. Proteína ácida fibrilar da gila Dois tipos de células da gila (constituintes do tecido nervoso): astrócitos e células de Schwann. Proteína dos neurofilament os Corpo celular e prolongamentos dos neurônios (principalmente axônios). Lamina Lâmina nuclear, estrutura em grade que reforça internamente o envoltório nuclear. Fonte: adaptado de Junqueira; Carneiro (2013, p. 127). CENTRÍOLOS E MICROTÚBULOS Para completar o estudo dos três filamentos que compõem o citoesqueleto, vamos conhecer um pouco sobre os microtúbulos. Os microtúbulos são mais rígidos do que os microfilamentos e têm aproximadamente 25 nm de diâmetro, o mais espesso dentre todos os filamentos do citoesqueleto. São formados pela polarização de proteínas globulares, assim como os filamentos de actina. As proteínas tubulinas (alfa e beta), em forma de hélice, formam o heterodímero, responsável pela polarizaçãoe despolarização das subunidades com extremidades mais (+) e menos (-). Estes processos de alongamento e encurtamento dos microtúbulos ocorrem devido ao desequilíbrio entre a polarização e despolarização, regulada pela concentração de íons de cálcio (Ca2+), que atuam de forma mais rápida em polimerizações de curta duração, e as proteínas que participam das polimerizações mais duráveis, quando associadas aos microtúbulos (MAPS). A adição de heterodímeros ao polímero funciona de forma semelhante aos filamentos de actina, mas ao invés da molécula de ATP, as subunidades da tubulina estão associadas ao trifosfato de guanosina (GTP), que após ser incorporado ao heterodímero é hidrolisado em difosfato de guanosina (GDP) liberando energia, que causa uma instabilidade e permite a separação do filamento. Esta instabilidade faz parte da dinâmica de muitos processos biológicos regulados pelos microtúbulos. É importante saber que a quantidade de energia liberada a partir da hidrólise de GTP é menor do que a energia liberada a partir da hidrólise de ATP, por isso GTP é mais frequente como um sinal. REFLITA Você se recorda da molécula de GTP, quando está ativa e inativa e em qual processo de sinalização ela é utilizada? Nas células, existe uma estrutura no citoplasma que desempenha um importante papel no processo de divisão celular, o centro organizador (MTOC – microtubule organizing center) ou centrossoma, de onde partem todos os microtúbulos, geralmente próximos ao núcleo, exceto no processo de divisão celular. Quando a célula tem centríolos, eles são encontrados no centrossoma, mas não são todas as células que têm centríolos, mas todas as células têm centrossoma. Nas células animais e em algumas células vegetais, exceto nas células das plantas superiores, há um par de centríolos, além de uma grande diversidade de proteínas. Os centríolos são estruturas cilíndricas formadas por microtúbulos que compõem o corpo basal dos cílios e flagelos, e auxiliam no processo de divisão celular das células animais. Os microtúbulos na divisão celular formam o fuso acromático, local onde os cromossomos se prendem e são puxados em direção às extremidades da célula em divisão. Os microtúbulos irradiam-se em todas as direções, dando preferência no sentido para o qual a célula será deslocada. Desta forma, os microtúbulos têm um papel importante nos movimentos dos cílios e flagelos, no transporte de partículas no interior das células, no deslocamento dos cromossomos no processo de mitose e na sustentação e manutenção da forma das células (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2013). Nos filamentos de actina encontramos as proteínas motoras, miosinas, associadas aos filamentos, participando de movimentos celulares como os de contração muscular. Nos microtúbulos, encontramos outras proteínas motoras associadas a eles, a dineína (relacionada aos movimentos dos cílios e flagelos) e a cinesína (envolvida no movimento dos cromossomos e de vesículas e organelas). As proteínas motoras associadas aos microtúbulos utilizam a molécula de ATP para se movimentar. O citoesqueleto é de grande importância para as células. Como vimos, ele não é importante somente pelo fato de manter a sustentação das células, mas também por outras funções como suporte mecânico à célula, movimentação celular, formação de cílios e flagelos, formação do fuso mitótico e movimento de organelas e vesículas no interior da célula. Qualquer alteração em sua estrutura pode prejudicar o perfeito funcionamento das células, incluindo o desenvolvimento de patologias. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO: CITOSOL,CITOESQUELETO E FORMAÇÃO DE PROTEÍNAS SEM MEDO DE ERRAR Agora que já sabemos um pouco mais a respeito da estrutura da célula, o que mantém a sua forma e sustento, responsável por diversas funções na célula, incluindo a movimentação celular e execução de contrações musculares, vamos resolver a situação apresentada. Você, no lugar do professor de Biologia Celular, saberia explicar a seus alunos a estrutura e o funcionamento das células para que ocorra a hipertrofia do músculo? Quais os componentes da célula estão envolvidos? A estrutura e a forma de todas as células são iguais? Relacione este conteúdo aos filamentos citoplasmáticos. Primeiramente, para atender essa demanda, você deve se recordar dos conceitos aprendidos referentes ao citoesqueleto, os filamentos que o compõem e a função de cada um deles. O citoesqueleto, presente no citosol da célula, é responsável por sustentar a forma da célula. Trata-se de uma espécie de esqueleto que além da sustentação confere os movimentos celulares. Composto por três tipos de filamentos proteicos dispostos em uma espécie de rede, ele se associa a diferentes proteínas, dependendo do tipo de filamento e o tipo da célula, desempenhando funções distintas. Os microfilamentos, filamentos intermediários e microtúbulos que compõem o citoesqueleto têm características próprias, formados através da polimerização de proteínas, e podem resistir a tensões, serem flexíveis e estáveis. Os filamentos citoplasmáticos que participam de vários fenômenos celulares, mas talvez sejam mais conhecidos por participar da contração muscular, são os microfilamentos, os mais finos e flexíveis, distribuídos por todo o citoplasma de todas as células eucariontes. Os microfilamentos são encontrados principalmente na parte mais periférica da célula (córtex celular) e são formados pela proteína actina. Para participarem do fenômeno de contração muscular precisam se unir a proteínas acessórias, neste caso, a proteína motora miosina. As miosinas são capazes de hidrolisar ATP em ADP quando se associam aos filamentos de actina, promovendo o deslizamento de um filamento sobre o outro. É importante neste momento explicar aos alunos que o citoesqueleto está presente em todas as células, mas, neste caso, como estamos relacionando-o às células musculares, é necessário situar esta estrutura nos músculos esqueléticos e fazê-los compreender o mecanismo de contração e relaxamento muscular, envolvendo os sarcômeros. O processo de contração envolve ainda liberação de neurotransmissor (acetilcolina) por meio da sinalização sináptica, o que envolve a bomba de sódio e potássio na membrana plasmática, liberação de íons de Ca2+ pelo retículo sarcoplasmático e a interação com as miofibrilas ou fibras musculares. A prática de exercícios físicos estimula a produção de proteínas pelas miofibrilas (fibras musculares), tornando-as mais grossas, com repetidas sessões de treinamento de força, os músculos aumentam de tamanho, uma vez que os estímulos mecânicos associados aos estímulos hormonais e metabólicos resultam em hipertrofia muscular. Neste caso, é importante enfatizar que a prática de exercícios em alta intensidade pode aumentar o estresse oxidativo das células e ao invés de ser benéfico para o aumento da imunidade tem efeito contrário. Cabe lembrar que baseado nos conhecimentos adquiridos nesta seção, existem outros caminhos para a resolução desta situação-problema, esta foi somente uma possibilidade apresentada. Busque alternativas, podemos sempre aprimorar. AVANÇANDO NA PRÁTICA A IMPORTANTE PROTEÍNA DA PELE Para introduzir essa situação, considere o texto retirado de uma matéria publicada no site G37 em 2018. “Um churrasco em uma residência fez 10 vítimas, todas com queimaduras após uma explosão ao utilizarem álcool líquido próximo à churrasqueira. As vítimas chegaram ao hospital com queimaduras de primeiro, segundo e terceiro grau” (G37, 2018). Os acidentes por queimaduras ficam em segundo lugar no mundo, quando comparados aos acidentes com fraturas. As queimaduras podem ser classificadas de acordo com a profundidade e extensão da lesão, quanto maior a extensão e maior a profundidade da lesão, maior a gravidade. Assim, imagine que você que é membro de uma equipe de consultoria de uma empresa que atua com capacitação de profissionais da saúde e estava em uma capacitação para profissionais de uma grande clínica médica. Durante o evento você foi indagado a respeito do acidente ocorrido e como vocêavalia a importância da pele em nosso organismo. Pensando na estrutura do tecido danificado pela queimadura, as células da epiderme tiveram as suas estruturas alteradas. Relacione este fato aos filamentos proteicos que compõem o citoesqueleto e apresente a sua importância para a estrutura das células. RESOLUÇÃO Para atender aos questionamentos, o consultor poderia enfatizar que sabemos que a pele é um órgão composto por diversos tecidos e tipos celulares especializados, que exercem funções fundamentais para a vida, como a termorregulação, sensibilidade, proteção contra agressões exógenas, de natureza química, física e biológica, contra a perda de água para o exterior, dentre outras funções. Como estudamos, as células conseguem se sustentar e manter a forma devido à presença do citoesqueleto, estrutura presente em todas as células. Os filamentos proteicos que https://conteudo.colaboraread.com.br/202102/INTERATIVAS_2_0/INTRODUCAO_A_BIOLOGIA_CELULAR_E_DO_DESENVOLVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u2s1.html#resolucao%20.item-1 compõem o citoesqueleto são os microfilamentos, microtúbulos e os filamentos intermediários. Estes últimos são os mais abundantes nas células que sofrem estresses mecânicos, por serem os mais resistentes, capazes de suportar altos níveis de tensão e deformação, que os outros dois filamentos não suportam, se rompendo facilmente. Desta forma, ele está presente nas células musculares, cardíacas e a pele. São formados por diferentes proteínas fibrosas, que se unem aos filamentos intermediários dependendo do tipo celular. A pele, nosso tecido epitelial, é formado por três camadas interdependentes: a epiderme, derme e a hipoderme, todas contendo queratinócitos (células diferenciadas responsáveis pela produção de queratina). A queratina é uma proteína fibrosa, que apresenta conformação rígida, elasticidade e impermeabilidade à água. Está presente também em nossos pelos e unhas, conferindo resistência. Apesar de conferir resistência e proteção à nossa pele, os danos causados à célula com as queimaduras danificam estas estruturas e rapidamente as camadas mais internas da epiderme devem aumentar a síntese de queratina para suprir os danos causados pela lesão, repondo as proteínas e reerguendo a sua estrutura. Mas, vale lembrar que as lesões mais graves muitas vezes são irreversíveis e necessitam do auxílio de tratamentos, medicamentos e outros procedimentos para se recuperarem. Unidade 2 - Seção 2 SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS E ORGANELAS PRATICAR PARA APRENDER Caro aluno, estamos aprofundando cada vez mais o nosso conhecimento neste universo das células. Já conhecemos as diferenças entre elas, a função fundamental na vida de todos os organismos, a interação de uma célula com a outra, o que as mantém estruturadas e os componentes celulares, permitindo uma maior compreensão de como o nosso corpo funciona, assim como os outros organismos vivos. Nesta seção, vamos nos dedicar a compreender o sistema de endomembranas presentes nas células eucarióticas, acompanharemos como ocorre o transporte de proteínas e lipídios, e a interação entre as organelas deste sistema, como o retículo endoplasmático rugoso e liso, a relação deles com o complexo de Golgi, os lisossomos, vacúolos e vesículas e até mesmo a relação destas organelas membranosas com a membrana plasmática. As organelas são estruturas menores que estão presentes dentro das células, cada qual desempenhando uma função diferente, mas todas trabalhando em conjunto para que a máquina (nosso organismo) funcione. Imagine o corpo humano como uma máquina que tem vários órgãos que trabalham para mantê-lo funcionando. As organelas funcionam como se fossem órgãos das células, são responsáveis pela digestão, respiração, circulação de substâncias, dentre outras funções. Lembrando que os organismos vivos são compostos por milhares de células, incluindo nossos órgãos. Algumas organelas não compreendem o sistema de endomembranas, como as mitocôndrias, muito importantes para a manutenção da vida, por serem responsáveis pela produção de energia para realização das atividades celulares. Os plastídios que têm função de fotossíntese, e são importantes na síntese de aminoácidos e ácidos graxos, presentes exclusivamente nas células vegetais. E os peroxissomos, que degradam gordura e outras substâncias no interior das células. Você já deve ter ouvido falar que algumas células se autodestroem e, muitas vezes, cometem a autofagia, ou seja, a destruição ou reciclagem de estruturas e organelas que não estão desempenhando corretamente as suas funções, para não prejudicar as atividades celulares, que podem, consequentemente, trazer prejuízos para o funcionamento de todo o organismo. Estudaremos assim, as particularidades das principais organelas e suas funções, vamos lá? Vamos retomar ao nosso cenário hipotético criado para a resolução da situação-problema geradora de aprendizagem. Por conta de todas as instabilidades ambientais às quais estamos expostos – como grandes variações de temperatura, pressões atmosféricas, qualidade do ar, alterações de umidade do ar, pressão de O2, dentre outros extremos – desequilíbrios dos mais diversos são provocados, incluindo prejuízos à saúde humana. As células conseguem tolerar pequenas variações, sem grandes prejuízos, no entanto, em algumas situações de desequilíbrios maiores, elas não conseguem manter a sua morfologia e o seu funcionamento íntegros, o que pode desencadear inúmeras patologias e lesões celulares reversíveis ou até mesmo irreversíveis. Muitas doenças estão sendo frequentemente notificadas e um número crescente de casos está relacionado à poluição do ar. Acredita-se que a poluição possa danificar todas as células do nosso corpo. O dano é causado pelos poluentes que entram na corrente sanguínea e geram uma série de infecções, podendo causar doenças pulmonares, cardíacas, demência, problemas no fígado, câncer, dentre outros, com a possibilidade de afetar inclusive a fertilidade, o feto durante a gestação e aumentar o número de abortos espontâneos. Diante deste contexto e para trabalhar os temas da seção, junto às possíveis situações da prática profissional, continuaremos acompanhando o nosso professor universitário durante as suas aulas para dicentes da área da saúde. O professor segue buscando envolver os seus alunos mediante a situações comuns com as quais nos deparamos e a relação delas com o universo das células. Ao relacionar os possíveis danos ocasionados pela poluição do ar à fertilidade, uma aluna o questionou em relação ao tema, expondo a história de um casal que procurou auxílio médico, após 12 meses de tentativa e fracasso para engravidar. Depois de uma série de exames, o espermograma do homem evidenciou teratospermia, ou seja, alterações na morfologia do espermatozoide, mais precisamente foi notificada a ausência de acrossomos. Como você, no lugar do professor, poderia explicar esta notificação constatada no exame? Qual a importância do acrossomo para o processo de reprodução? Como você relacionaria este contexto às organelas celulares para explicar aos alunos a situação? Para explicarmos a importância de um determinado produto, precisamos conhecer a fundo todas as suas características, sua composição e seu funcionamento, assim como os diferenciais que o tornam específico, não é mesmo? Só assim conseguiremos convencer o nosso cliente. O mesmo ocorre com as células, não basta dizermos que elas são importantes, precisamos conhecer a sua estrutura e composição, como elas funcionam internamente para compreendermos a dimensão de suas funções e a atuação delas nos organismos vivos. CONCEITO-CHAVE Dentre os componentes do citoplasma, além dos já estudados citosol e citoesqueleto, há também as organelas citoplasmáticas, as quais desempenham diversas funções específicas. As organelas são estruturas envolvidas ou não por membranas. As organelas não membranosas, ou seja, que não têm membranas, são encontradas no citosol e não dependem de transportes para realizar sua função, o que facilita seu trabalho. São exemplosos ribossomos, estruturas do citoesqueleto (filamentos, microtúbulos e centríolo) e o centrossomo. Já as organelas membranosas são compartimentos envolvidos por membranas biológicas originadas a partir da invaginação da membrana celular, compostas por lipídios, proteínas e hidratos de carbono, muito semelhantes à membrana plasmática. As organelas, exclusivas às células eucariontes, são capazes de realizar funções como captura de alimentos, produção de energia, síntese de moléculas, dentre outras. Algumas organelas se unem e formam um sistema de endomembranas, distribuído por todo o citoplasma, trabalham em conjunto com o intuito de modificar, empacotar e transportar as proteínas e os lipídios que serão utilizados nos processos metabólicos das células. Este sistema apresenta vários subcompartimentos que se intercomunicam, enviando e recebendo informações através de moléculas (sinalização celular), constituídos pelas organelas: retículo endoplasmático, complexo de Golgi, endossomos e lisossomos. Vale lembrar que as mitocôndrias e os cloroplastos ou peroxissomos não fazem parte do sistema de endomembranas. Veremos a seguir as características e funções de cada uma destas organelas. Figura 2.3 | Anatomia da célula animal Fonte: adaptada de Shutterstock/VectorMine. RETICULO ENDOPLASMÁTICO LISO E RUGOSO O retículo endoplasmático (RE) é uma rede contínua de membranas distribuídas por todo o citoplasma, ocupando quase a metade deste espaço, que formam uma espécie de labirinto. É uma organela encontrada em todas as células eucariontes, composta por túbulos e vesículas achatadas, todos interligados, que se comunicam com a carioteca. Têm espaços “vazios” em seu interior, chamados de cisternas ou lúmen (luz). Esta estrutura é visível apenas no microscópio eletrônico, mas pode ser observada a presença dela sem detalhes, em microscópio óptico quando coradas. Na superfície externa (face citosólica) da membrana do RE, em alguns locais, são encontrados poliribossomos aderidos à membrana, sintetizando proteínas que são inseridas nas cisternas. Desta forma, o retículo endoplasmático pode ser dividido em duas regiões: rugosa e lisa. REFLITA Você consegue pensar em como os ribossomos podem se ligar à membrana do retículo endoplasmático rugoso? Temos que nos recordar do processo de sinalização celular e os componentes necessários para que a sinalização ocorra. O retículo endoplasmático rugoso (RER) é a região que apresenta grande quantidade de ribossomos, ou seja, está presente em maior quantidade nas células especializadas em sintetizar proteínas, como as células do pâncreas que sintetizam enzimas digestivas ou os fibroblastos, os quais sintetizam o colágeno. Dentre as principais funções do RER está a síntese de proteínas de membrana e proteínas para secreção, mas há outras funções como a degradação de glicogênio, síntese de fosfolipídios e montagem de proteínas com longas cadeias polipeptídicas. Aprendemos que a formação de todas as proteínas é iniciada no citosol pelos ribossomos livres, certo? Grande parte destas proteínas sintetizadas permanecem no citosol, algumas são destinadas ao núcleo, as mitocôndrias ou cloroplastos, também sintetizadas pelos ribossomos livres. No entanto, as proteínas que serão utilizadas na membrana plasmática, no próprio retículo endoplasmático ou no complexo de Golgi, e as proteínas que serão armazenadas no interior das células (como no caso dos lisossomos) ou as proteínas armazenadas no interior das células para posterior exportação (no caso do pâncreas e algumas glândulas endócrinas) são sintetizadas por ribossomos ligados ao RER. Mas a estrutura destes ribossomos é diferente? A resposta é não. Conforme estudamos, todos os ribossomos são formados por duas subunidades, uma maior e outra menor, esta subunidade menor ao se ligar a um mRNA (RNA mensageiro) se torna funcional e pode sintetizar proteínas. As proteínas que são sintetizadas com destino ao retículo endoplasmático, conforme os aminoácidos vão sendo expostos do ribossomo, chamados de sequência sinal, se ligam a uma partícula reconhecedora do sinal (SRP – sinal recognition particle). A SRP inibe a síntese de proteínas destinadas ao retículo até o momento em que os ribossomos se liguem a um receptor da membrana do RER. Quando ocorre a ligação, o SRP do polirribossomo é liberado e a síntese proteica continua. Com isso, o que definirá se um ribossomo ficará solto no citosol ou aderido à membrana do retículo dependerá do tipo de proteína que ele estiver sintetizando, se ela possui ou não uma sequência sinal. As proteínas que não irão permanecer no retículo endoplasmático rugoso são enviadas até o complexo de Golgi pelas vesículas de transporte e túbulos, assim como os fosfolipídios produzidos para outras membranas, transportados também em vesículas. A outra região do retículo endoplasmático desprovida de ribossomos é conhecida como retículo endoplasmático liso (REL). A membrana do REL é contínua à membrana do RER, mas as moléculas que constituem estas membranas são diferentes. O retículo endoplasmático liso, na maioria das células, se localiza próximo à membrana nuclear. Ele participa da síntese de lipídios, presente em maior quantidade em células envolvidas no metabolismo de lipídios, como as células intersticiais do testículo, tecido muscular, fígado e das glândulas adrenais; além de participar da síntese de carboidratos e de hormônios esteroides, do processo de desintoxicação (no caso de medicamentos, venenos, substâncias químicas e o etanol), reciclagem de organelas envelhecidas pelo processo de autofagia, da degradação de glicogênio (produzindo glicose para o metabolismo energético – função em comum com o RER) e o armazenamento e controle intracelular de íons de cálcio (Ca2+). O REL é responsável por controlar a concentração de Ca2+ necessário no processo de ativação da contração muscular nas células musculares, recebendo nestes casos o nome de retículo sarcoplasmático. Há algumas regiões do retículo endoplasmático que têm pouquíssimos ribossomos, geralmente são as regiões de transição entre o RER e REL. ASSIMILE Os termos liso e rugoso são aplicados aos estados transitórios das membranas do retículo endoplasmático. Por se tratar de um compartimento único e contínuo, as regiões podem se alternar, em determinado momento estar lisa e em outro rugosa. Com isso, é importante considerarmos que o retículo está rugoso ou liso e não que ele é rugoso ou liso (ATTIAS; SILVA, 2010). COMPLEXO DE GOLGI Vimos que o material que sai do retículo endoplasmático é transportado em vesículas até o complexo de Golgi, uma vez que estas duas organelas têm conexão entre si. Sendo assim, existe um complexo de Golgi (ou aparelho de Golgi), por célula eucariótica, estando ausente em hemácias e espermatozoides, no entanto, nos espermatozoides o complexo de Golgi tem participação na formação do acrossomo. VOCABULÁRIO Acrossomo: estrutura que compõe a cabeça do espermatozoide, é formada por várias vesículas contendo enzimas digestivas (lisossomos), cuja função é perfurar a membrana do óvulo no processo de fecundação. Esta organela é composta por vesículas achatadas e empilhadas, como uma espécie de pilha de pratos/sacos, conhecidos por cisternas do complexo de Golgi. Cada pilha de cisternas recebe o nome de dictiossomo e são encontradas geralmente em uma determinada região do citoplasma, principalmente ao lado do núcleo e próximo dos centríolos, embora em alguns tipos celulares, como é o caso das células nervosas, esta organela forma pequenos grupamentos circundando o núcleo, ou como nas células vegetais que estão espalhadas pelo citoplasma. O tamanho e a quantidade de cisternas de Golgi dependem do tipo celular. EXEMPLIFICANDO As glândulas salivares (secretam enzimas digestivas) e as células do sistema imunológico (secretam anticorpos) são células que secretam grande quantidade de proteínas e, consequentemente, têm muitas cisternas do complexo de Golgi. Em células musculares são encontrados em tamanho pequeno, já em células que secretamglicoproteínas são encontrados em tamanhos maiores. O complexo de Golgi está envolvido na separação, empacotamento e distribuição de proteínas e lipídios advindos do RE através das vesículas de transporte, por isso também pode ser denominado vesícula transportadora. Essas vesículas são constituídas por uma face cis (ou face de entrada), mais convexa, geralmente próxima ao núcleo e ao RE, considerada a face receptora, que recebe as vesículas transportadoras do retículo endoplasmático. A face oposta é côncava, denominada de face trans (ou face de saída), mais distante do núcleo, e está voltada para a membrana plasmática. Entre estas duas faces são encontradas as cisternas médias. As proteínas produzidas no RE e transferidas para o complexo de Golgi se fundem à membrana da face cis e após serem modificadas, formadas e organizadas com auxílio de enzimas específicas são empacotadas e liberadas pela face trans, por meio de vesículas de secreção, após a maturação. Os conteúdos despejados pelas vesículas podem se fundir à membrana plasmática, no caso de proteínas úteis para ela, ou serem secretados para o meio extracelular. Em outros casos, o conteúdo das vesículas pode ser liberado em outras partes da célula onde serão utilizados, como nos lisossomos (digestão intracelular) ou nos vacúolos (enzimas digestivas). Muitas células do nosso corpo secretam substâncias e até elas serem secretadas passam por todo este processo, como a insulina (hormônio) secretada pelas células do pâncreas. Conhecendo esta organela, podemos elencar sua principal função como a distribuição das macromoléculas (proteínas e lipídios) advindas do retículo endoplasmático para as vesículas. Além de participar da modificação das proteínas e lipídios através da glicosilação (adição de açúcares) e a síntese de proteoglicanas (adição de grupamentos sulfato às proteínas), elas formam os lisossomos. As proteínas modificadas pelo complexo de Golgi, quando liberadas, podem ser incorporadas a um endossomo (pequenas vesículas), retornar para o retículo endoplasmático ou, ainda, ser encaminhadas para a membrana plasmática, onde serão secretadas. LISOSSOMOS Os lisossomos são vesículas, também delimitadas por membranas, que contêm enzimas hidrolíticas, ou seja, com função de digestão. Estas organelas estão presentes em quase todas as células animais, sendo mais abundantes nas fagocitárias (macrófagos e leucócitos) e ausentes nas hemácias. Elas têm uma variedade de enzimas com capacidade de digerir substâncias que variam de acordo com o tipo celular e a função de cada célula, como exemplo podemos citar a protease, lipase, fosfatase, desoxirribonuclease, dentre outras, todas com atividade máxima em pH 5,0 (ácido). Mas estas enzimas não podem destruir a célula? As células já pensaram em tudo, e como mecanismo de defesa a membrana dos lisossomos funciona como uma espécie de barreira, que impede as enzimas de alcançarem o citosol, e caso acidentalmente isso ocorra, o pH do citosol é relativamente neutro impedindo a ação destrutiva das enzimas. ASSIMILE Para que as enzimas digestivas não destruam a sua própria membrana, os lisossomos têm glicoproteínas na face interna, cujo revestimento de açúcares protege a membrana da ação enzimática. As enzimas hidrolíticas são produzidas no retículo endoplasmático rugoso e transportadas para o complexo de Golgi, onde sofrem modificações e são empacotadas em vesículas, conhecidas por lisossomos primários. Estes lisossomos primários ainda não estão participando do processo de digestão intracelular. Como uma de suas funções é a digestão de substâncias extracelulares introduzidas na célula por meio da endocitose (fagocitose e pinocitose), quando a membrana dos lisossomos primários se funde aos fagossomos ou pinossomos, formando um vacúolo digestório, também chamado de lisossomo secundário, inicia a digestão intracelular com a ação das enzimas. ASSIMILE Nas células vegetais não são encontrados lisossomos. Assim, a organela que desempenha função semelhante é o vacúolo e, por esse motivo, ele é bem maior nestas células. O vacúolo ocupa grande parte do conteúdo celular das células vegetais, armazena água e nutrientes e pode fazer a quebra de moléculas e componentes celulares, além de atuar no equilíbrio do volume de água disponível no interior da célula. Quando a célula não absorve todo o material digerido, o que resta compõe um corpo residual, que será eliminado do citoplasma posteriormente. Outra função destas organelas é realizar o processo de autofagia, ou seja, a digestão de estruturas da própria célula. Mas quando isto ocorre? Quando as células têm alguma organela ou estrutura danificada, com um componente envelhecido e não estão mais executando corretamente a sua função, os lisossomos fazem a digestão destas partes da célula, em um processo que é comum em células glandulares que acumulam secreções em excesso. EXEMPLIFICANDO Durante a gravidez por exemplo, há um aumento na produção de leite pós parto, aumentando o número de células secretoras nas glândulas mamárias. No entanto, quando termina o período de lactação ocorre o processo de autofagia, destruindo os restos de secreção e organelas que não serão mais utilizados. A autofagia é um tipo de morte celular. Os lisossomos podem ainda agir no exterior das células, destruindo substâncias ou estruturas extracelulares pela ação de suas enzimas digestivas. Esta ação pode ser observada por exemplo durante o crescimento dos ossos, quando as enzimas destroem áreas da matriz óssea. Algumas células armazenam materiais que serão secretados após a ação metabólica, hormonal ou neural que regulam a secreção. Estas moléculas secretadas são armazenas em grandes quantidades em vesículas ou grânulos secretórios, que contêm enzimas digestivas. Podemos concluir que os lisossomos são organelas importantes para a manutenção da homeostase da célula, compondo o sistema de endomembranas junto do retículo endoplasmático, do complexo de Golgi, das vesículas e dos vacúolos, da membrana celular e da carioteca. OUTRAS ORGANELAS MEMBRANOSAS As organelas classificadas como membranosas que não fazem parte do sistema de endomembranas da célula são as mitocôndrias, os cloroplastos e os peroxissomos. As mitocôndrias são organelas presentes somente em células eucarióticas. Elas têm forma de bastonetes e a sua principal função está relacionada ao processo de produção de energia para a célula (respiração celular): na presença de oxigênio sintetizam ATP, importantes no ciclo de Krebs e na cadeia respiratória. Estas organelas estão presentes em maiores quantidades em células que requerem um maior gasto energético e junto do REL auxiliam na regulação da concentração de íons no citoplasma celular. As mitocôndrias têm duas membranas, uma interna e outra externa. A primeira é composta por invaginações, chamadas de cristas mitocondriais, direcionadas para o interior da mitocôndria, delimitando o espaço interno (matriz mitocondrial). O espaço entre a dupla membrana é conhecido por espaço intramembranoso. Além das duas membranas, as mitocôndrias têm material genético próprio (DNA mitocondrial), permitindo a sua autoduplicação. Os cloroplastos são também organelas citoplasmáticas, do grupo plastídio, exclusivos de células vegetais e algas. Eles estão relacionados ao processo de fotossíntese, produção de energia para as atividades metabólicas da célula através da conversão de energia solar em energia química, no armazenamento de amido e na síntese de metabólitos. Os peroxissomos são organelas presentes em células eucariontes, tanto de animais quanto de plantas, constituem bolsas membranosas e se assemelham aos lisossomos. No entanto, não fazem parte do sistema de endomembranas e formados por apenas uma membrana e sem material genético próprio. As suas enzimas oxidativas permitem aos peroxissomos fazer a função de degradação de substâncias, como as gorduras e os aminoácidos no interior das células, através de enzimas como a catalase, capaz de decompor o peróxido de oxigênio (água oxigenada),elemento muito tóxico para as células. Eles auxiliam também na desintoxicação de moléculas (principalmente na corrente sanguínea) e nas plantas têm um papel importante no processo de fotorrespiração e na conversão de açúcares nas sementes, permitindo o desenvolvimento das plantas. Muitas doenças são causadas em decorrência de alterações nas organelas, seja devido a modificações bioquímicas, como defeitos na síntese de proteínas ou degradação de moléculas, ou ainda alterações morfológicas, prejudicando a estrutura e, consequentemente, o funcionamento da célula. Com isso, podemos perceber que independente de uma organela ser membranosa ou não, todas elas têm funções bem específicas e são dependentes umas das outras. Assim, situações que causem danos a uma organela afetam a célula por completo. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO: SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS E ORGANELAS SEM MEDO DE ERRAR Com os conhecimentos aprendidos até aqui, você já é capaz de descrever e identificar as organelas membranosas das não membranosas, as suas funções específicas e o funcionamento do sistema de endomembranas. Então, já está preparado para solucionar a situação-problema apresentada. Uma aluna questionou o professor de Biologia Celular sobre fertilidade e expôs a história de um casal que procurou auxílio médico, após 12 meses de tentativa de engravidar, sem sucesso. Depois de uma série de exames, o espermograma do homem evidenciou teratospermia, ou seja, alterações na morfologia do espermatozoide, mais precisamente foi notificada a ausência de acrossomos. Como você, no lugar do professor, pode explicar o que foi constatado no exame? Qual a importância do acrossomo para o processo de reprodução? Como você relacionaria este contexto às organelas celulares para explicar aos alunos? Para responder aos questionamentos, o professor deve considerar que há um crescente aumento na procura por clínicas de reprodução humana por casais em idade fértil que querem se tornar pais, mas por algum motivo, que deve ser investigado, não conseguem. As causas podem ser diversas: disfunções na ovulação, alterações no útero, endometriose, produção inadequada de esperma, tabagismo, uso de drogas e medicamentos, obesidade, incompatibilidade genética, ação de fatores ambientais, dentre outras possibilidades, que devem ser investigadas, pois existe também uma variedade de tratamentos. Os espermatozoides são os gametas masculinos, responsáveis pela reprodução sexual nos animais, juntamente com os óvulos (gametas femininos). Para resolvermos a situação é necessário conhecer a estrutura do espermatozoide, já que se trata de uma célula composta pela cabeça, peça intermediária e cauda. A cauda, também conhecida como flagelo, é formada por um par de centríolos e permite a locomoção do espermatozoide no órgão reprodutor feminino. Na peça intermediária (ou colo) há uma grande concentração de mitocôndrias, essenciais na produção de energia (ATP) para a movimentação dos flagelos. E, por fim, a cabeça é composta pelo núcleo, que abriga o material genético masculino e está coberto pelo acrossomo. Este é formado por vesículas contendo muitas enzimas digestivas (lisossomos), produzidas pelo complexo de Golgi. A partir das suas enzimas, o acrossomo consegue penetrar na membrana do óvulo, permitindo a fecundação. A ausência desta estrutura impede a penetração do espermatozoide no óvulo, o que causa a infertilidade do homem. Com isso, explicamos aqui o envolvimento de várias organelas citoplasmáticas, lembrando que elas precisam desempenhar cada uma o seu papel para o correto funcionamento da célula, e este é só um caminho dentre outros que você pode utilizar para explicar a situação. Vá em frente! AVANÇANDO NA PRÁTICA OS EFEITOS DO ÁLCOOL Imagine a seguinte situação: um jovem, recém-formado, passou a noite rodeado de amigos e familiares aproveitando a sua festa de formatura. Ele estava consumindo muitas bebidas alcoólicas de forma exagerada durante toda a noite e em certo momento da festa começou a apresentar muita confusão mental, dificuldades de respiração, vômitos e convulsões. Levado às pressas para o hospital mais próximo ao local da festa, o jovem foi diagnosticado em coma alcoólico e assistido. Dessa forma, imagine que você é um dos profissionais da saúde que fazia parte da equipe multiprofissional que participou desse atendimento. Após a estabilização da saúde do jovem, esse lhe questionou sobre os efeitos do álcool às células do seu organismo. Como você explicaria o papel de uma organela envolvida no processo de desintoxicação do organismo? Esses questionamentos podem ocorrer em vários contextos da sua futura atuação como profissional da saúde. RESOLUÇÃO Para responder aos questionamentos do jovem, você poderia enfatizar que após a ingestão grande quantidade de álcool, este foi absorvido pelo estômago e através da corrente sanguínea atingiu rapidamente o cérebro e passou a ter efeito em outros órgãos do organismo. No cérebro, o álcool age em neurotransmissores inibitórios, reduzindo o retardamento fisiológico, gerando fala enrolada, movimentos lentos e outros. Mas é no fígado que ocorre o metabolismo de substâncias tóxicas advindas da corrente sanguínea. As células do fígado têm os peroxissomos, organelas com alta capacidade de oxidar substâncias orgânicas, por possuir uma grande quantidade de enzimas oxidativas, elas auxiliam na desintoxicação de moléculas a partir da quebra destas moléculas, tornando-as substâncias menos nocivas à saúde. Os hepatócitos (células do fígado) têm a enzima álcool desidrogenase, que converte o álcool em acetaldeído (extremamente tóxico ao nosso organismo). Este composto em excesso provoca vários dos sintomas sentidos pelo jovem em estado de alcoolismo. O fígado produz ainda outra enzima (aldeído desidrogenase), capaz de converter o acetaldeído em acetato (produto atóxico ao nosso organismo). O álcool em excesso acaba provocando outros efeitos como desidratação e náuseas, pois também atinge os rins e o estômago. No estômago ocorre o aumento de secreções intestinais e nos rins a inibição do hormônio antidiurético, que auxilia na reabsorção de água pelos rins, evitando a eliminação em excesso (estratégia da manutenção da vida dos seres vivos), desta forma, o corpo sob efeito do álcool libera água em excesso ao invés de reabsorvê-la. Outras organelas, como o retículo endoplasmático liso e as mitocôndrias, também têm papel importante na desintoxicação do organismo. Que tal propor uma outra solução à situação-problema? Conto com você. Unidade 2 - Seção 3 CICLO CELULAR, DIFERENCIAÇÃO CELULAR E APOPTOSE PRATICAR PARA APRENDER Caro aluno, o quanto nós já aprendemos sobre a unidade fundamental para a existência da vida, não é mesmo? Diferenciamos seres unicelulares de seres pluricelulares, seres procariontes de seres eucariontes, células animais de células vegetais, além de estudarmos a composição e a estrutura destas unidades microscópicas que têm diversas funções dependendo do seu tipo celular. Mas, independentemente do seu tipo celular, vimos que elas têm características em comum, como a membrana plasmática que controla a entrada e saída de substâncias da célula e confere proteção; o citoplasma composto pelo citoesqueleto, que traz sustentação e https://conteudo.colaboraread.com.br/202102/INTERATIVAS_2_0/INTRODUCAO_A_BIOLOGIA_CELULAR_E_DO_DESENVOLVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u2s2.html#resolucao%20.item-1 manutenção às células, bem como a presença de inúmeras organelas, presentes ou ausentes, de acordo com o tipo celular; e o material genético, responsável por conter toda a informação e as características da célula. Elas se comunicam, certo? E é por meio desta comunicação que elas desempenham as suas funções. Uma de suas propriedades fundamentais, capaz de diferenciar os seres vivos de seres inanimados, é a sua capacidade de se reproduzir. Você já parou para pensar que um ser humano é composto por bilhões de células, todas originadas de uma única célula, o zigoto? Como ocorre o crescimento celular e como as células se multiplicame se dividem em novas células é um dos temas que abordaremos nesta seção. Todos os organismos vivos têm um ciclo de vida, que envolve diversas transformações para que possa manter a vida: é preciso se desenvolver, crescer, se reproduzir e se manter até deixar de existir. O mesmo ocorre com as células, elas têm o ciclo celular e estudaremos em detalhes cada uma de suas fases e os processos que as envolvem, compreenderemos o processo de divisão celular utilizado para quase todas as necessidades de um organismo, que permite a manutenção e renovação de células, produzindo cópias idênticas, a mitose. Ao mesmo tempo, pensando em reprodução, estudaremos também a meiose, processo presente em organismos que fazem reprodução sexual, como os seres humanos. A partir da fecundação, há a formação de um zigoto, que iniciará a formação e o desenvolvimento de uma nova vida, conheceremos também um pouco do processo de diferenciação celular e como uma célula cujo material genético é idêntico a outra pode adquirir funções diferentes. E, claro, assim como as células se multiplicam e se diferenciam, para que seja mantida a homeostase ou equilíbrio dos organismos, alguns mecanismos são extremamente necessários, como a morte celular programada. Talvez lhe pareça estranho pensar em como seria uma morte programada, mas saiba que ela é essencial para eliminar células danificadas ou que deixam de ser úteis ao organismo, ela está diretamente relacionada ao surgimento de tumores e outras patologias. As doenças autoimunes também são influenciadas por este processo. Para discutirmos os temas dessa seção, dentro de possíveis situações profissionais, continuaremos acompanhando o nosso professor universitário durante as suas aulas para discentes da área da saúde, que continua a introduzir os conteúdos didáticos associados a situações reais presenciadas pelos seus alunos, buscando despertar a curiosidade e o interesse pelos temas discutidos. Mais uma vez, o cenário gira em torno das instabilidades ambientais às quais estamos expostos e que em determinadas situações geram prejuízos à saúde humana. A poluição do ar está associada a um número crescente de doenças notificadas, como doenças pulmonares, cardíacas, demência, problemas no fígado, câncer, fertilidade, dentre outras. Apesar de as células conseguirem tolerar pequenas variações sem tantos prejuízos, muitas vezes elas não conseguem manter o seu funcionamento íntegro, o que pode desencadear inúmeras patologias. Dando continuidade ao tema da aula, os alunos estavam debatendo a respeito do câncer, que segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) é a segunda principal causa de morte a nível global. Em 2018, foram calculadas aproximadamente 9,8 milhões de mortes pela doença. O câncer de pulmão, seguido dos cânceres de mama e colorretal são os mais (OPAS Brasil, 2018). A seguinte fala de um aluno foi notada pelo professor: “meu tio tem 57 anos, começou a emagrecer muito, sentir dores no ombro, e nos joelhos, e estava tendo muitas tosses secas e dificuldade para respirar mesmo quando fazia atividades de médio esforço, o que o prejudicou no desempenho de algumas atividades em seu trabalho. Ele é construtor civil há anos e fumou desde a sua adolescência, mas parou recentemente. Minha tia o levou ao médico e ele foi diagnosticado com câncer de pulmão, começará o tratamento com quimioterapia na próxima semana”. Diante deste fato, como o professor poderia relacionar a fala do aluno ao conteúdo didático de sua disciplina? Como o câncer está relacionado ao ciclo celular, aos processos de mitose e meiose e até mesmo à morte celular e à diferenciação das células? Como você, no lugar deste professor, explicaria o assunto a seus alunos? Entender a vida, suas etapas e como ela se multiplica é importante. Quando há falhas nesse percurso, elas podem ser ajustadas com cuidados especiais. Vamos juntos desvendar, então, o ciclo celular? CONCEITO-CHAVE Todas as células têm capacidade de crescer e se reproduzir, e a única forma de uma célula se reproduzir é duplicar uma célula já existente. Para as células se reproduzirem, elas fazem uma série de eventos organizados de forma cíclica. Há um aumento coordenado das substâncias e moléculas em seu interior, incluindo o seu material genético, que é duplicado e posteriormente dividido. Este mecanismo é conhecido como ciclo celular, ou ciclo de divisão celular, essencial para a manutenção e geração de vida, mecanismo pelo qual os seres vivos se reproduzem. Organismos unicelulares produzem um novo organismo a cada divisão celular, como é o caso das bactérias e leveduras. Já os organismos pluricelulares, para formarem um indivíduo funcional são necessárias sucessivas sequências de divisões celulares, tanto durante o período embrionário quanto durante todo o seu desenvolvimento, incluindo a fase adulta. Nos eucariontes, cada divisão celular produz milhares de células necessárias para a sobrevivência, pois assim como um tecido ou um órgão é formado por inúmeras células, a proliferação celular é responsável não só pela reprodução como também pela manutenção do organismo. Através da multiplicação celular, é possível repor células que estão danificadas ou por algum motivo sofreram apoptose (morte celular programada). A divisão celular mantém um volume característico e constante das células em nosso organismo, regulando o equilíbrio entre a proliferação de células e a sua morte programadas. E com o intuito de manter o tamanho das células a cada divisão, elas não duplicam somente o material genético, como também podem duplicar organelas e macromoléculas, coordenando o crescimento e o volume da massa celular, para que as células não fiquem menores no decorrer de inúmeras divisões. O tempo que dura o processo de divisão celular depende do tipo de célula, do tempo que ela necessita para dobrar de tamanho e manter a massa celular, sem diminuir o seu tamanho ou aumentar, fator controlado durante o ciclo celular em momentos específicos. Vamos entender como funciona este processo? FASES DO CICLO DE DIVISÃO CELULAR O ciclo celular envolve uma série de eventos, desde o crescimento e desenvolvimento de uma célula, a formação da célula-mãe por meio da divisão (duplicação do material genético – DNA), e posterior reprodução que origina duas células-filhas (cópias geneticamente idênticas à célula original), que ao serem formadas podem dar início ao ciclo novamente. O processo é dividido basicamente em duas fases: a interfase (fase em que a célula cresce e faz a cópia do seu DNA), e a mitótica (fase em que a célula se divide em duas novas células, contendo DNA). Que tal desvendarmos como ocorrem estas fases nas células eucariontes? Iniciaremos com a interfase, a fase essencial para que a divisão celular ocorra, intermediária entre uma fase mitótica (M) e a próxima. Nesta fase, a célula se encontra em crescimento e intensa atividade metabólica e ocorre a duplicação do material genético e dos componentes da célula-mãe, sendo considerada a fase mais longa da divisão celular, composta por três etapas: G1, S e G2, a abreviatura G significa “intervalo” (gap em inglês) e a abreviatura S significa “síntese”. A etapa G1 é caracterizada como o primeiro intervalo de tempo entre o final da mitose (fase mitótica – M) até o início da replicação do DNA (fase de síntese – S). É conhecido também por período pós-mitótico ou pré-sintético, tem duração variável de acordo com o tipo celular e é nesta etapa que a célula copia as organelas e outros componentes celulares que serão utilizados nas etapas seguintes, a célula está em crescimento celular e com o seu metabolismo celular normal. A etapa S é marcada por ser a fase mais longa, na qual ocorre a síntese do DNA (replicação) e a duplicação do centrossomo (se lembram dele? A estrutura que organiza os microtúbulos e irá ajudar a separar o material genético na fase mitótica). O segundo intervalo, etapa G2, é marcado pela síntese de proteínas e dos microtúbulos. Neste momento, a célula organiza o seu conteúdo se preparando para a fase seguinte,ocorre a duplicação de cromossomos e o reparo de possíveis danos no DNA, sendo finalizada com o início da mitose. Em G2, a célula permanece em crescimento. É importante saber que durante toda a fase de interfase ocorre síntese de proteínas e estruturas celulares são produzidas. VOCABULÁRIO Cromossomos são estruturas constituídas por uma molécula de DNA (material genético) associada a proteínas presentes no núcleo da célula e variam de espécie para espécie. A fase mitótica (M) compreende a etapa que a célula divide o seu material genético (DNA) que foi duplicado, repartindo o seu conteúdo de forma igualitária entre duas novas células-filhas. A fase M é marcada por duas etapas: a mitose (ou divisão celular) e citocinese (ou divisão citoplasmática). Durante a mitose, os cromossomos copiados são separados pelo fuso mitótico e se dividem para os núcleos das células filhas. Este processo ocorre em quatro etapas que estudaremos a seguir: a prófase, metáfase, anáfase e telófase. A citocinese é marcada pela divisão do citoplasma da célula em duas novas células, iniciada após o término da mitose. É importante saber que esta etapa ocorre de formas distintas em células animais e vegetais, a citocinese descrita ocorre em células animais. EXEMPLIFICANDO A citocinese em células animais é chamada de citocinese centrípeta (ocorre da parte periférica da célula em direção ao centro), com a formação de um anel contrátil, formado por fibras do citoesqueleto. Filamentos de actina e miosina formam o sulco de clivagem, que divide a célula em duas, por elas serem macias e moles. Já nas células vegetais, devido à presença da parede celular, elas são mais duras e resistentes e a pressão interna é alta, o processo é chamado de citocinese centrífuga (do centro da célula para a periferia). Para que as células se dividam é formada uma estrutura (lamela média) composta por membrana plasmática e outros componentes da parede celular, dividindo a célula ao meio. As células- filhas foram produzidas, mas o que acontece com elas? Vai depender muito do tipo de célula, pois alguns tipos celulares se dividem rapidamente, outros se dividem de forma lenta ou não se dividem. Isso porque as células do nosso corpo podem ser células lábeis (que continuam a se multiplicar durante toda a vida), como é o caso das células epiteliais e hematopoiéticas; podem ser células estáveis (em geral não se dividem, mas têm a capacidade de se proliferar quando estimuladas), no caso as células presentes em glândulas, como o fígado, pâncreas, células salivares, endócrinas e outras; e, por fim, há as células permanentes (que perdem a capacidade de se dividir), como as células musculares e células do sistema nervoso central. As células estáveis e permanentes, por exemplo, deixam a fase G1 e entram na fase G0, considerada uma fase de repouso. Neste momento, as células não estão ativas para se dividirem, mas seguem com as atividades metabólicas, desempenhando suas funções. As células podem permanecer nesta fase G0 (para algumas células este estado é permanente) e em outros casos elas recebem um sinal ou estímulo e retornam para a fase G1, de onde seguirão o ciclo da divisão celular. O ciclo celular tem mecanismos de controle para regular os processos de divisão celular e síntese de proteínas, pois você já imaginou se ocorre algum erro no processo e ele não pode ser interrompido ou há uma proliferação descontrolada de células? Muitos problemas podem ocorrer, prejudicando não só o funcionamento do organismo, mas também ocasionando uma série de patologias, como a formação de tumores. O controle é feito em pontos de verificação ou checagem, por moléculas (exemplo: ciclinas) que atuam em pontos de transição entre fases do ciclo celular, para que uma fase não inicie antes do término da fase anterior, e auxilia na checagem de qualquer anomalia no processo, para que o problema seja reparado e o ciclo possa seguir. Caso a célula não possa ser reparada, ela é encaminhada para o processo de apoptose, que veremos mais adiante. Existem três pontos de checagem: o primeiro é na fase G1 (final da fase G1 para a fase S), o segundo ponto é na fase G2 (transição da fase G2 para a fase M) e por fim o terceiro ponto é na fase M, antes do processo de conclusão da mitose e início da citocinese. No final da fase G1, há o ponto de controle conhecido como ponto de restrição (R), que impede a célula de seguir no ciclo caso sejam verificadas condições insatisfatórias ou desfavoráveis. Mesmo com todos os pontos de checagem e correções dos danos às células, durante a divisão celular, podem ocorrer alterações que interferem diretamente no número ou na estrutura dos cromossomos, ocasionando mutações cromossômicas que serão estudas mais adiante. ASSIMILE A duração do ciclo celular depende muito do tipo de célula, apesar de todas elas precisarem crescer e atingir um tamanho que lhes permita manter-se constante antes de iniciar a divisão. A maior parte do ciclo, em torno de 95%, é composto pela interfase, e a sua duração depende de fatores como condições fisiológicas da célula (idade, disponibilidade de hormônios, temperatura, pressão osmótica, dentre outros). Em células de mamíferos, o ciclo celular tem duração de aproximadamente 12 horas e em outros casos de 24 horas, com crescimento mais lento. Em compensação, um organismo unicelular é capaz de formar duas novas células em um intervalo de 1 hora e meia, como as leveduras. A fase que apresenta mais variações de tempo é a G1, a qual pode durar horas, dias e até mesmo anos. As fases S, G1 e M costumam ser mais constantes, no entanto podem variar dependendo da espécie ou, ainda, dependendo do estágio de desenvolvimento em que o organismo se encontra. Figura 2.4 | Fases do ciclo celular Fonte: adaptada de Wikimedia Commons / Richard Wheeler (Zephyris). MITOSE E MEIOSE. GAMETOGÊNESE A fase mitótica (M), como vimos, é o processo da divisão celular, cuja função é garantir o crescimento celular e a substituição de células. Desta forma, através da multiplicação celular (produção de células idênticas), renova tecidos celulares e auxilia em processos de cicatrização, faz o preenchimento do corpo dos organismos, além de possibilitar a reprodução de organismos unicelulares. A mitose deve assegurar que a célula-mãe reparta o seu material genético de forma que cada uma das células-filhas formadas (duas) receba um par de cromossomos, uma vez que qualquer erro nesta divisão pode levar ao mau funcionamento da célula, à morte celular ou até mesmo ao desenvolvimento de câncer ou outras patologias. Este processo ocorre em todas as células somáticas (todas as células não reprodutivas, que formam tecidos e órgãos). Vamos entender agora como ocorre cada uma das quatro etapas deste processo. Antes de iniciar a mitose, ainda na interfase, os centrômeros (centrossomos) foram duplicados, o DNA já foi copiado e os cromossomos presentes no núcleo se encontram conectados a suas cópias, chamadas de cromátides irmãs. É quando inicia a primeira etapa da mitose, a prófase. Nesta etapa, são iniciados alguns processos, tais como a condensação dos cromossomos, a formação do fuso mitótico (composto por centrossomos e microtúbulos – organiza os cromossomos) e a fragmentação da carioteca e o desaparecimento do nucléolo (local de formação de ribossomos). Na etapa seguinte, a metáfase, os cromossomos atingem o seu ponto máximo de condensação e se alinham na placa metafásica (estrutura formada na região média da célula) ligados ao centrômero. Neste momento que ocorre o ponto de checagem da fase M, para verificar se todos os cromossomos estão ligados à placa metafásica, garantindo que a divisão das cromátides-irmãs seja feita corretamente. A anáfase é a próxima etapa, marcada pela separação das cromátides-irmãs, que são agora cromossomos independentes, deslocados para as extremidades opostas da célula. É importante lembrar que estes cromossomos independentes têm genético idêntico ao da célula original (célula-mãe). A célula é alongada e neste processo muitas proteínasmotoras são acionadas para auxiliar na movimentação dos cromossomos e microtúbulos. Por fim, a telófase é a etapa em que a célula se prepara para ser dividida, estabelece a sua estrutura normal conforme a citocinese inicia a divisão. É marcada pela divisão do fuso mitótico em dois, a formação de dois núcleolos e o reaparecimento dos nucléolos e carioteca e o início do descondensamento dos cromossomos. Ao final desta etapa, a mitose é encerrada. Figura 2.5 | Etapas da mitose Fonte: adaptada de Shutterstock/Akor86. Mas será que todas as células se multiplicam por meio do ciclo celular típico que acabamos de estudar? A formação de novas células quando envolve organismos que se reproduzem sexualmente não apresenta um processo cíclico. Ao contrário, ele é feito através da meiose, cujo objetivo é produzir células-filhas que contenham metade dos cromossomos da célula-mãe original. São produzidos gametas (células sexuais), que dão origem aos espermatozoides e óvulos, como é o caso dos seres humanos, por exemplo. Desta forma, ao contrário da mitose, em que uma célula diploide (2n) produz outra célula idêntica também diploide (2n), na meiose, a célula diploide (2n) forma quatro células filhas haploides (n), com a metade do número de cromossomos da célula original, sendo conhecida por divisão reducional. Mas, lembre-se que a mitose pode ocorrer tanto em células diploides como em células haploides. A divisão meiótica se assemelha à mitose em relação às etapas, no entanto ela é um pouco mais complexa, como veremos a seguir. A meiose é iniciada logo após a interfase, quando ocorre a duplicação dos cromossomos. Esta divisão ocorre por meio de duas fases, a meiose I (fase reducional) e a meiose II (fase equacional). Ambas as fases são divididas em quatro etapas: prófase, metáfase, anáfase e telófase. A prófase I é a primeira das etapas, subdividida em outras cinco etapas caracterizadas pelos seguintes acontecimentos: ● Leptóteno: os cromossomos são condensados em pontos específicos, denominados de cromômeros. ● Zigóteno: os cromossomos homólogos são emparelhados, denominados de sinapse. ● Paquíteno: observação de bivalente ou tétrade (pares de cromossomos emparelhados). Pode ocorrer o crossing-over ou permutação (cromossomos homólogos trocam partes entre si – importante para a variabilidade genética das espécies). ● Diplóteno: início da separação dos cromossomos, com quiasmas (pontos de cruzamento de cromátides). ● Diacinese: os cromossomos homólogos se separam, os quiasmas são deslocados para as extremidades do bivalente, marcado pelas terminalizações dos quiasmas. Ocorre a desintegração temporária da carioteca. Final da prófase I. A seguinte etapa é a metáfase I, em que os cromossomos alcançam o máximo de condensação e se ligam às fibras do fuso, dispostas na célula na região equatorial. Logo em seguida, há a anáfase I – os cromossomos homólogos migram para os polos da célula, não havendo, no entanto, o rompimento dos centrômeros, os cromossomos são deslocados inteiros para os polos, diferenciando o ocorrido na mesma etapa na mitose. Para finalizar a telófase I, os cromossomos são descondensados, a carioteca volta a se formar e a célula é dividida em duas células-filhas, cada uma contendo metade dos cromossomos da célula original (célula-mãe), por esta razão é conhecida como fase reducional. No intervalo de transição entre o final da meiose I e o início da meiose II, há um intervalo de tempo conhecido como intercinese, marcado pela ausência de duplicação do material genético. A meiose II é mais simples e semelhante à mitose, composta pelas etapas de prófase II, metáfase II, anáfase II e telófase II, e ao final ocorre a citocinese II, em que são formadas agora quatro células-filhas contendo o mesmo número de cromossomos da célula-mãe, por isso é conhecida como fase equacional. A meiose tem grande importância no desenvolvimento da diversidade das espécies com a produção de novas combinações genéticas, graças à mistura de cromossomos paternos e maternos, que aumentam a variabilidade genética, influenciando diretamente na seleção natural e na evolução das espécies. Relacionada à meiose também temos o processo de gametogênese, processo de formação dos gametas masculinos e femininos, essenciais para a reprodução sexuada dos organismos. Nos animais, os gametas masculinos são produzidos nos testículos (espermatogênese), responsável pela produção dos espermatozoides, iniciada na puberdade e que permanece ativa durante toda a vida adulta. Os gametas femininos são produzidos nos ovários (ovogênese), responsável pela produção dos ovócitos maduros, iniciada antes do nascimento. A produção dos ovócitos passa por um período de interrupção (meiose I) e é ativado novamente na puberdade, no entanto a produção destes gametas é interrompida com a idade avançada da mulher (em torno de 50 anos). Um ponto importante que diferencia a espermatogênese da ovogênese é em relação ao número de células produzidas após o processo de divisão celular meiose I e meiose II. Na espermatogênese, uma célula produz ao final quatro novas células (espermatozoides), enquanto na ovogênese uma célula produz ao final apenas uma célula viável (óvulo), nesta, são gerados dois corpúsculos celulares que são desintegrados, um na meiose I e outro na meiose II. Figura 2.6 | Etapas da meiose Fonte: adaptada de Shutterstock/Ody_Stocker. DIFERENCIAÇÃO CELULAR O processo de diferenciação celular contempla um conjunto de fatores, tanto internos à célula quanto externos, como fatores ambientais, que provocam a diferenciação ou especialização das células embrionárias a partir da expressão gênica. Estas modificações são necessárias para que a célula tenha a sua morfologia e fisiologia definidas, tornando-a capaz de realizar determinada função. Os fatores intrínsecos são derivados do DNA, no interior da célula, já os fatores extrínsecos estão relacionados à sinalização celular entre as células, matriz extracelular, incluindo agentes ambientais, tais como medicamentos, vírus, drogas, entre outros. Mas por que é necessária esta diferenciação? Um organismo tem a sua vida iniciada por apenas uma célula, após a fecundação, e a partir de então origina novas células por meio da divisão celular (processo de mitose). Todas estas novas células possuem a mesma constituição genética, no entanto para que o organismo funcione, cada célula deve exercer uma função diferente. Nesse momento, a expressão gênica age na célula precursora até ela se tornar uma célula terminalmente diferenciada. ASSIMILE As células precursoras são as células que têm capacidade de se diferenciar em um ou vários tipos celulares, gerando células especializadas pelo processo de diferenciação. São conhecidas também por células-mãe ou células estaminais, com exemplo podemos citar as células-tronco. Quando dizemos que a célula está terminalmente diferenciada, ela já sofreu o processo de diferenciação celular. As células se tornam diferentes umas das outras devido à síntese de proteínas e ao acúmulo destas em suas estruturas. O processo de formação de um organismo multicelular é controlado por alguns mecanismos da expressão gênica, são eles: a proliferação celular (garante a produção de muitas células); a especialização celular (permite que as células exerçam funções diferentes); a interação celular (o comportamento entre células vizinhas); o movimento celular (permite a migração celular para que se unam, por exemplo, para formação dos tecidos). Isto significa que mesmo as células que têm o mesmo material genético (produzidas na mitose) poderão fazer funções diferentes com a ação da expressão gênica. Assim, os genes podem ser ativados ou inativados de acordo com a função que a célula vai exercer. As primeiras diferenciações em células animais, mais especificadamente o ser humano, ocorrem quando o zigoto é formado, e se encontra no estágio de blástula, dando origem a anexos embrionários e tecidos e órgãos do embrião. Estas células são classificadas neste estágio de células-tronco embrionáriaspluripotentes, ou seja, têm a capacidade de se transformar em qualquer tipo celular adulto. Conforme o organismo se desenvolve, a especialização das células aumenta e surgem os tecidos e órgãos, que ao longo da vida são responsáveis pela renovação de células, com capacidade de gerar uma nova célula idêntica de mesmo potencial ou uma nova célula diferenciada. Nesse estágio, são classificadas como células-tronco multipotentes ou adultas e podem se desenvolver nos mais diversos tipos celulares conhecidos do corpo humano. Neste estágio também encontramos células terminalmente diferenciadas, ou conhecidas também por células-tronco unipotentes, como exemplo podemos citar os neurônios, que são capazes de dar origem somente a uma linhagem de células diferenciadas. Enquanto as células-tronco totipotentes são as células capazes de se diferenciar e formar qualquer tecido do corpo, incluindo os tecidos embrionários. Uma outra forma de célula-tronco são as células-tronco induzidas. Produzidas em laboratório pelo homem, são células cujo código genético é reprogramado e ela volta ao estágio de célula-embrionária, com capacidade de autorrenovação e pode se diferenciar em qualquer outro tipo celular, extremamente importante no combate a algumas doenças. Alguns testes permitem aos pesquisadores compreenderem o organismo humano e apresentar tratamentos por meio da terapia celular (método de substituição de células danificadas por células novas saudáveis, principalmente no combate a doenças). APOPTOSE, DESPROGRAMAÇÃO CELULAR Durante o processo de diferenciação celular, muitas células são formadas e deixarão de ser necessárias, como ocorre por exemplo durante o desenvolvimento embrionário em que alguns tecidos provisórios (por exemplo as membranas interdigitais no processo de formação dos dedos), células supérfluas (durante a neurogênese, muitos neurônios), orifícios, dentre outras que precisam ser eliminadas. Mas como as células são eliminadas? Em que momento elas devem ser removidas? A morte celular programada, desprogramação celular ou apoptose, como também é conhecida, ocorre de forma organizada, com o intuito de remover as células que não serão mais úteis para o organismo. Isto pode ocorrer tanto durante o desenvolvimento embrionário, como durante a vida, quando são identificadas células danificadas, com modificações ou alterações de funções que afetem a saúde do organismo, caso sigam vivas. Neste último caso, podemos citar as células tumorais ou autorreativas, como os linfócitos que podem reagir contra o seu próprio organismo. E como o organismo segue produzindo células, para manter o equilíbrio e reaproveitamento de células ou produção de novas células, aquelas que já cumpriram sua função devem ser eliminadas. A apoptose é uma morte celular fisiológica ou programada, ocorre devido a uma série de alterações morfológicas muito importantes no desenvolvimento embrionário, na eliminação de células infectas ou cancerosas, e de grande importância no desenvolvimento e namanutenção do sistema imune. REFLITA Como podemos explicar a perda da cauda de um girino e o surgimento de doenças autoimunes? Duas situações tão adversas poderiam estar relacionadas à apoptose? Durante o desenvolvimento dos girinos, eles perdem a cauda para resultarem em sapo, certo? O desaparecimento da cauda ocorre por apoptose ou desprogramação celular, regulada por genes. Assim como quando o nosso organismo produz células imunes, capazes de defender nosso organismo contra qualquer ataque muitas delas são produzidas a fim de testar a reação em componentes do nosso próprio organismo. Quando não são eliminadas rapidamente por apoptose por alguma falha, estas células acabam sendo liberadas no corpo e podem atacar tecidos, causando doenças autoimunes. Quando nosso sistema imune produz uma grande quantidade de células em resposta a um patógeno e este é destruído, as células imunes deixam de ser necessárias e precisam ser removidas para a manutenção do equilíbrio do sistema imune. Você já deve ter ouvido também falar no termo necrose, um outro tipo de morte celular. Ao contrário da apoptose, considerada um “suicídio celular”, a necrose é considerada uma morte celular acidental, desorganizada, em que as células morrem devido a um dano provocado por substâncias tóxicas, lesões físicas, ou outros fatores que danificam a célula e, consequentemente, danificam o funcionamento da sua membrana celular, causando inflamações aos tecidos vizinhos ao expelirem seu conteúdo (secretam o conteúdo do citoplasma, com o rompimento da membrana) para o meio extracelular. Diferentemente da necrose, a apoptose mantém a membrana plasmática sem o extravasamento do citoplasma, não causando, assim, inflamações. Além de ter um papel muito importante nos processos de crescimento celular desgovernado, relacionados a problemas oncológicos, uma vez que a morte celular programada age em defesa ao organismo no controle a estas células malignas, caso ela não ocorra, haverá um acúmulo maior destas células tumorais tão prejudiciais à saúde. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO: CICLO CELULAR, DIFERENCIAÇÃO CELULAR E APOPTOSE SEM MEDO DE ERRAR Vamos relembrar a nossa situação hipotética, em que um professor de Biologia Celular em sala de aula notou a fala de um aluno relacionada aos sintomas que o tio apresentou, ex-fumante e construtor civil, o qual foi detectado com câncer de pulmão e iniciará o tratamento quimioterápico. Diante deste fato, como o professor poderia relacionar a fala do aluno ao conteúdo didático de sua disciplina? Como o câncer está relacionado ao ciclo celular, aos processos de mitose e meiose e até mesmo à morte celular e a diferenciação das células? Como você, no lugar deste professor, explicaria a situação aos seus alunos? O câncer é uma doença cuja característica principal é o crescimento desordenado de células, ou seja, sem controle e com potencial agressivo, que invade tecidos e órgãos, podendo se espalhar para diversas regiões do corpo, quando ocorre a metástase. É uma doença genética, no entanto não deve ser relacionada exclusivamente à hereditariedade (transmitidas por genes advindos de gerações anteriores da família), são muitos os fatores relacionados ao aparecimento do câncer. Fatores relacionados a poluentes encontrados no ar, água, como resíduos industriais, fumaça de cigarro, substâncias que apresentam risco quando há exposição direta, como amianto, arsênico e níquel, consumo de alguns tipos de alimentos (como o excesso de álcool ou até mesmo alguns produtos industrializados), medicamentos, alguns hábitos como o sedentarismo, problemas de obesidade, além de fatores internos, como mutações genéticas, ações de hormônios e condições imunológicas. O câncer é formado quando a molécula de DNA de uma célula normal é danificada ou sofre uma mutação, podendo ocorrer em uma célula somática e ser uma particularidade daquele indivíduo, ou em menores casos, a mutação pode ocorrer em células germinativas, podendo ser transmitidas a gerações seguintes através da hereditariedade. Neste caso, é importante saber que o gene do câncer pode ser transferido para alguma outra geração, mas este gene poderá expressar-se ou não, desenvolvendo o câncer, o que dependerá da atuação de outros fatores. E em qual momento ocorre a duplicação do material genético (DNA) nas células? Como vimos, durante o ciclo de divisão celular no período de interfase, a célula passa por etapas de crescimento e ocorre a síntese do DNA, antes de seguir para a fase seguinte, mitótica. Durante a síntese do DNA qualquer mutação ocasionada por influência de fatores externos ou internos, pode resultar em erros ou danos na formação da molécula de DNA sem ser percebidas, mesmo com a atividade dos reguladores do ciclo celular que realizam checagens em pontos específicos do ciclo celular, buscando corrigir falhas para impedir que uma célula danificada ou com alguma má formação siga seu ciclo. Por se tratar de um processo cíclico e dinâmico, a velocidade em que as células cancerosas se multiplicam é muito maiordo que o tempo de a multiplicação de uma célula normal saudável. Estudos verificaram que a célula cancerosa é capaz de crescer e se multiplicar por artifícios próprios, sendo capaz de produzir fatores de crescimento próprios ou ainda, faz com que células vizinhas os produzam para poder utilizar. Quando uma célula normal durante a divisão celular é identificada com algum dano ou falha em seu DNA ou estrutura, ela é desligada do ciclo e sofre o processo de apoptose, ou morte celular programada. No entanto, grande parte das células cancerosas não são submetidas à apoptose, passando para a fase mitótica do ciclo celular. Durante a mitose, uma célula dá origem a duas novas células com o mesmo material genético, sendo assim, as células cancerosas rapidamente são reproduzidas, criando uma concentração grande de células que se dividem excessivamente e podem gerar um número maior de mutações. No caso de cânceres hereditários, as mutações ocorrem nas células germinativas. Há diversos tipos de câncer, câncer de pulmão é só um deles, podendo ainda haver variações deste tipo de câncer. Tosse, falta de ar, perda de apetite, fraqueza ou cansaço e dor nos ossos são alguns dentre outros sintomas que a pessoa portadora da doença pode apresentar. Uma pessoa fumante aumenta o risco de adquirir a doença em cerca de 20 vezes mais quando comparada a uma pessoa não fumante. Muitos estudos já comprovaram também que a sílica, presente em forma de poeira, muitas vezes em ambientes de trabalho (como na construção civil, metalurgia, agricultura e nas indústrias de cerâmica) aumenta o risco de câncer, podendo aumentar também o risco de doenças autoimunes. Esta é uma forma simplificada de relacionar o câncer aos conteúdos estudados, mas você é capaz de escolher outros caminhos para resolver a situação-problema proposta, com riqueza de detalhes, explicando o funcionamento de cada um dos mecanismos, incluindo os reguladores do ciclo celular relacionados ao desenvolvimento do câncer, que inativam ou ativam os genes (expressão gênica), como os reguladores positivos (quando superativados tornam-se oncogênicos) e os reguladores negativos (que podem ser inativados e são supressores de tumor). Poderá relacionar também aos efeitos da quimioterapia (que age também no ciclo celular) e do sistema imunológico. Existem diversas possibilidades, que tal tentar? Vá em frente! AVANÇANDO NA PRÁTICA AS CÉLULAS CAPAZES DE SALVAR VIDAS Uma menina de 7 anos precisa encontrar urgentemente um doador compatível para realizar um transplante de medula óssea. A sua vida está dependendo de encontrar esta compatibilidade genética com um doador. A criança já está há um ano em tratamento de uma leucemia aguda e depois de análise de mais de 5 milhões de doadores, todos incompatíveis, a família da menina segue realizando campanhas para que mais pessoas se tornem doadoras, na esperança de encontrar alguém compatível ou gerar mais possibilidades para outros pacientes na mesma situação. Os médicos, no entanto, estão muito esperançosos, pois os pais da menina diante de toda esta luta em salvar a vida da filha, resolveram ter um novo bebê, que está a caminho (a mãe está no 8º mês da gravidez), aumentando as chances de compatibilidade. Diversas campanhas são realizadas anualmente em busca de novos doadores e para atualização de cadastro de doadores antigos, pois muitas vidas dependem destes transplantes, apesar de as chances de compatibilidade entre pessoas desconhecidas ser muito pequena. Considerando esse contexto, imagine que você é o profissional da saúde que, em algum momento, participou de uma das etapas atendimento à menina em um serviço de saúde, bem como teve contato com seus cuidadores, e foi questionado pelo pai da garota, já que esse gostava de ler sobre o assunto e lhe questionou sobre a importância deste transplante relacionando-o a diferenciação celular. Qual a importância das células da medula óssea para o organismo? E por que os médicos estão esperançosos com o nascimento do bebê? RESOLUÇÃO Na situação-problema dessa seção nos deparamos com um pai que questionou o profissional de saúde sobre a importância deste transplante relacionando-o à diferenciação célula, além de qual seria a importância das células da medula óssea para o organismo e, por fim, por que os médicos estão esperançosos com o nascimento do bebê na família para https://conteudo.colaboraread.com.br/202102/INTERATIVAS_2_0/INTRODUCAO_A_BIOLOGIA_CELULAR_E_DO_DESENVOLVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u2s3.html#resolucao%20.item-1 uma outra filha que tem leucemia. Diante desta situação, para atender aos questionamentos do pai, primeiramente você precisa compreender a importância da medula óssea para o nosso organismo: ela é responsável pela produção das nossas células sanguíneas, tanto as hemácias (glóbulos vermelhos) quanto as plaquetas, além das células de defesa do nosso organismo, os conhecidos leucócitos (glóbulos brancos). Estas células são renovadas continuamente através do ciclo celular. Quando a produção normal destas células sanguíneas é comprometida por alguma aplasia ou síndromes de imunodeficiência congênita, o transplante de medula óssea se torna necessário para o paciente, pois as células doentes se multiplicam rapidamente e há um acúmulo destas células, que substituem as células normais saudáveis, comprometendo todo o organismo. As células-tronco são células com alto potencial de se renovar e se diferenciar em outras células e são utilizadas no tratamento de várias doenças. As células-tronco podem ser classificadas em diversos tipos, sendo as células-tronco hematopoéticas (células-tronco adultas) encontradas na medula óssea, relacionadas à produção dos elementos que compõem o sangue. O transplante consiste em transferir células, substituindo as células doentes por células normais, com o objetivo de reconstrução de uma nova medula óssea saudável. Para tanto, é necessário que haja compatibilidade entre o doador e o receptor, senão a medula é rejeitada. A compatibilidade é testada em laboratórios, decorrente da análise de genes específicos, encontrados no cromossomo 6. De acordo com as leis da genética, as chances de o doente encontrar um doador compatível entre irmãos de mesmo pai e mãe é de 25% (muito maior). Com isso, podemos explicar o entusiasmo dos médicos, com o nascimento do bebê, as células retiradas do próprio cordão umbilical da criança poderão salvar a vida da irmã. Lembrando que estas células também são consideradas células-tronco adultas, com uma potencialidade e capacidade de ação bem menores do que as células-tronco embrionárias. Não esqueça que essa poderia ser uma forma de explicar ao pai, mas você poderia trilhar outro caminho. Você percebeu como os conceitos básicos da biologia celular podem ser importantes na sua futura atuação como profissional da saúde? Espero que sim, continue se dedicando aos estudos, pois você irá utilizar estes conhecimentos em muitas outras situações da sua vida profissional. Unidade 3 - Seção 1 DNA, RNA E FORMAÇÃO DE PROTEÍNAS CONVITE AO ESTUDO Caro aluno, seja bem-vindo! Apresentaremos nesta unidade o tema genética, para compreendermos alguns conceitos básicos que nos permitem entender diferentes eventos que ocorrem nos seres vivos. Por exemplo: para o funcionamento do organismo, estudamos que as proteínas são essenciais, mas quem é o responsável pela síntese de proteínas ou pela formação de moléculas e tantas outras funções que ocorrem nas células? O que faz um organismo ter características semelhantes às dos seus descendentes ou como é possível comprovar paternidade através do exame de DNA? A genética é uma especialidade da biologia que estuda a hereditariedade e a transmissão de características entre gerações dos organismos. Esta ciência estuda os genes, ou seja, o material genético que contém as informações que determinam as características dos organismos. Durante a divisão celular, nos processos de mitose e meiose, vimos que o material genético é replicado e distribuído às novas células-filhas geradas e qualquer alteraçãoque ocorra durante a replicação do material genético, ou qualquer mutação que possa ocorrer de forma induzida ou espontânea, altera o código genético do organismo, podendo produzir novas características aos portadores da mutação, incluindo inúmeras doenças genéticas, como o câncer, diabetes, anemia falciforme e algumas síndromes, síndrome de Down, síndrome de Klinefelter, dentre outras. O estudo da genética não só nos permite compreender todos estes fenômenos, como as pesquisas nesta área permitem o avanço constante no desenvolvimento de inúmeras tecnologias na prevenção e no tratamento de doenças, incluindo a produção de medicamentos. Nesta unidade introdutória à genética, abordaremos como classificar e identificar o processo de formação das proteínas e conheceremos o conjunto de fundamentos que nos permite compreender o mecanismo de transmissão do material genético de uma geração para a outra. Ao final dela, você será capaz de definir os conceitos de DNA, RNA e cromossomos, explicar como como ocorre a síntese de proteínas e as estruturas envolvidas nesse processo. Saberá identificar e diferenciar as leis de Mendel e compreender as heranças genéticas, como surgem as doenças genéticas e até mesmo como elas podem ser evitadas por meio do aconselhamento genético. Iniciaremos a Seção 3.1 abordando alguns conceitos básicos de genética, importante para compreendermos os processos a serem estudados. Caracterizaremos a estrutura do nosso material genético e como ele está organizado dentro das células. Na Seção 3.2, serão abordadas as leis de Mendel, que explicam os fundamentos da transmissão hereditária através das gerações. Finalizaremos com a Seção 3.3, compreendendo as interferências nos mecanismos e os erros inatos do metabolismo, que acabam provocando distúrbios de herança monogênica e o câncer, além da importância do aconselhamento genético. Vamos conhecer um pouco mais sobre o material genético, a sua importância e funcionalidade, visto que este componente está presente em todas as células dos seres vivos. Bons estudos! PRATICAR PARA APRENDER O corpo humano é composto por trilhões de células, cada uma com uma função específica, trabalhando em conjunto para o funcionamento do corpo. As células do nosso corpo possuem um conjunto de organelas e estruturas que são capazes de cuidar da proteção, da nutrição, da produção de energia e da reprodução do nosso corpo, sendo consideradas as unidades fundamentais da vida. Todos os seres vivos são compostos por células e todas as células, sejam elas procariontes ou eucariontes, têm material genético. Caro aluno, você já parou para pensar que durante a divisão celular e a reprodução dos seres vivos ocorre a troca de materiais genéticos e que cada célula do corpo humano é composta por cerca de 25 mil genes? Os genes são considerados a unidade fundamental da hereditariedade. Mas o isso significa? O que é um gene? Qual é a diferença entre o cromossomo e o DNA? Não são todos materiais genéticos? As respostas para essas perguntas serão dadas ao longo dos conteúdos trabalhados nesta seção. Estudaremos os conceitos de gene, a estrutura do cromossomo e do DNA, identificaremos as diferenças entre a molécula de DNA e RNA e como está organizado o material genético nas células. Aprenderemos como acontece a replicação do DNA, processo importante que ocorre durante a divisão celular em que o material genético é dividido de forma igual entre as células-filhas, podendo estas conter o material genético idêntico à célula mãe (mitose) ou apenas metade do material genético da célula-mãe (meiose), o que é importante para a variabilidade das espécies. Conheceremos o processo completo da formação das proteínas, desde a transcrição da molécula de DNA em RNA até a tradução do RNA mensageiro pelos ribossomos formando uma proteína. As proteínas são essenciais para a manutenção das células, crescimento celular e em suas atividades, como na produção de hormônios, enzimas, anticorpos, transporte de substâncias, dentre outras. Esta seção traz conhecimentos básicos para o estudo da genética, que serão essenciais para o entendimento dos próximos temas. Hoje, graças aos avanços na área médica, é possível identificar diferentes tipos de alterações na arquitetura do nosso genoma por meio de exames. Ainda assim, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), das famílias com doenças raras no mundo hoje, 80% têm causas genéticas. O desafio, então, é fazer um diagnóstico rápido. Existem clínicas especializadas em orientar pacientes e seus familiares sobre os riscos de ocorrência de doenças genéticas na família. Essas clínicas são muito procuradas por casais que pensam em ter filhos, mas têm histórico de doenças genéticas na família, cânceres, casos de infertilidade ou abortos de repetição e sabe haver alta probabilidade de transmitirem algum tipo de patologia ou malformação aos filhos. Para auxiliar na contextualização de sua aprendizagem diante dos temas que serão abordados nesta seção, junto de uma possibilidade de prática profissional, vamos acompanhar a história de um casal, que já tem dois filhos e pretende ter mais um, no entanto, foram encaminhados a buscar auxílio médico por meio do aconselhamento genético. O casal procurou por uma clínica renomada na cidade, que realiza consultas e aconselhamento genético, com profissionais altamente capacitados e habilitados para atender pacientes e familiares com histórico de doenças genéticas. Além de contar com um laboratório de genômica com recursos tecnológicos de última geração, os quais permitem um diagnóstico assertivo. A mulher tem 35 anos, olhos verdes e cabelos castanho-claros e lisos, aparentemente normal, teve dois filhos com o seu marido, de 38 anos, que tem olhos castanhos e cabelos castanhos e lisos, é daltônico. A primeira filha do casal, com 6 anos, é loira e tem o cabelo encaracolado, os olhos azuis e é aparentemente normal. No entanto, o segundo filho do casal é pessoa com Síndrome de Down, tem 3 anos, tem olhos castanhos e cabelos lisos e castanhos. O casal quer ter mais um filho, mas por possuírem histórico de anomalias genéticas na família, resolveu investigar as probabilidades de terem uma gestação normal. Você trabalha nessa clínica e faz parte de uma equipe composta por médicos geneticistas, especialistas em biologia molecular, citogenética e bioinformatas e ficou responsável pelo acompanhamento do casal. Como você explicaria ao casal a importância de fazer um mapeamento genético de ambos para verificar o cariótipo de cada um deles? E como você pode explicar as diferenças existentes no genótipo e fenótipo do casal e de seus filhos? Nós, seres humanos, somos uma mistura dos nossos pais, do meio em que nascemos e vivemos, e da nossa cultura. O que nos faz refletir a respeito da hereditariedade da vida, mas qual seria a relação? Vamos compreendê-la juntos. CONCEITO-CHAVE Depois de compreendermos a constituição dos organismos vivos formados por uma ou milhares de células, como estas estão organizadas, a estrutura e o funcionamento delas, chegou a hora de estudarmos o material genético, componente de todos os organismos, que contempla a constituição genética do indivíduo. Mas o que isso significa? Vimos que as células têm material genético (DNA) que transmite características aos seus descendentes. A partir da expressão gênica, vimos que além de controlar diversos processos, incluindo o ciclo celular, as células são diferenciadas e realizam funções distintas, mas também há características perceptíveis aos nossos olhos, como a cor das flores, dos olhos, dos cabelos. Para iniciarmos os nossos estudos de genética, precisamos primeiramente compreender os conceitos de gene e o de cromossomos, os quais são imprescindíveis nesse contexto. CONCEITO DE GENE E ESTRUTURA DO CROMOSSOMO Afinal o que é um gene? Um gene é um segmento do DNA (ácido desoxirribonucleico) que contém a informação necessária para a produção de uma proteína específica (código), que poderá ser utilizada em um ou mais tipos de células. Você se lembra que paraa produção de uma proteína é necessário haver a leitura do código de uma molécula de RNA mensageiro (mRNA)? Então, os genes são os responsáveis por conter as informações do DNA e fazer a produção de síntese de moléculas de RNA. As moléculas de mRNA são direcionadas para o citosol da célula e lá se ligam aos ribossomos para fazer a síntese de proteínas. Mas não são todos os genes que codificam proteínas (polipeptídios ou cadeias de aminoácidos), alguns fornecem informações para a construção de moléculas de RNA, como os RNA transportadores (tRNA) e RNA ribossômico (rRNA). Assim como a célula é a unidade fundamental da vida, o gene é considerado a unidade fundamental da hereditariedade. Um organismo pluricelular é constituído de muitos genes, todas as suas células têm os genes iguais, o que as diferencia, como vimos na diferenciação celular, é que os genes podem ser ativados ou desativados e, em alguns casos, permanecem ativados o tempo todo, por serem fundamentais para realizar as atividades da célula. Os genes estão localizados dentro dos cromossomos, em um lugar chamado locus gênico. É importante saber que os genes nem sempre se apresentam iguais quando determinam uma mesma característica e estas formas alternativas são conhecidas por alelos. Desse modo, os alelos podem determinar a mesma característica em um indivíduo de maneiras diferentes, já que um gene pode ter alelos diferentes decorrentes de modificações ou pequenas mutações ocorridas em algumas partes do DNA. Em um indivíduo, a sua constituição genética, formada por um conjunto de genes que não podem ser modificados naturalmente, é denominada genótipo, enquanto as características mensuráveis e visíveis, que podem ser modificadas, são denominadas fenótipo. EXEMPLIFICANDO O genótipo de um indivíduo representa a combinação de dois alelos, um proveniente do pai e o outro proveniente da mãe (exemplo: Vv, vv, VV). Já o fenótipo é a expressão deste genótipo, determinado pelo gene e pela influência do meio ambiente (por exemplo: cor dos olhos, cor da pele, cor do cabelo). Para que cada característica do nosso corpo seja expressa, temos duas cópias de um gene (alelos) que podem dominantes (a presença de um único alelo é capaz de expressar determinada característica) ou recessivo (a característica somente é expressa com os pares de alelos). Veremos com mais detalhes quando estudarmos a transmissão e expressão destes genes através das leis de Mendel. Durante a divisão celular a todo instante mencionamos os cromossomos, a sua movimentação no processo de mitose e meiose, o seu grau máximo de condensação e quando se encontra descondensado, mas como podemos explicar o que são os cromossomos? E se os genes estão dentro deles, qual é a sua estrutura? Os cromossomos são estruturas constituídas por uma molécula de DNA associadas a proteínas, formadas por um complexo conhecido por cromatina. Quando os filamentos do DNA e as proteínas estão soltos são as cromatinas e quando estas se unem, enroladas ou em forma de “X”, são denominadas cromossomos. E um cromossomo é dividido em cromátides (2), assim, cada cromátide é um pedaço do cromossomo. Alguns cromossomos são chamados ainda de cromossomos homólogos, dispostos em pares, isto significa que durante a divisão celular os pares de cromossomos herdados dos pais possuem informação genética semelhante. Em um cromossomo estão presentes milhares de genes diferentes, que determinam diferentes características e a frequência em que elas aparecem. Figura 3.1 | Estrutura do cromossomo Nota: Cromossomo. (1) Cromatídeo. Cada um dos dois braços idênticos dum cromossoma depois da fase S. (2) Centrômero. O ponto de ligação de dois cromatídeos, onde se ligam os microtúbulos. (3) Braço curto. (4) Braço longo. Fonte: Wikimedia Commons / Magnus Manske. VOCABULÁRIO Centrômero: região do cromossomo que se encontra mais condensada. Nesse local, ocorre a união das cromátides irmãs (cópias dos cromossomos duplicados) no fuso mitótico. O centrômero divide o cromossomo em braços que podem ser longos ou curtos, conforme a sua posição. Os centrômeros podem ser classificados em: metacêntrico (o centrômero se encontra na posição mediana), submetacêntrico (o centrômero se encontra deslocado para um dos braços do cromossomo), acrocêntrico (o centrômero se encontra próximo da extremidade) e telocêntrico (o centrômero se encontra muito próximo à extremidade, parecendo que o cromossomo possui um braço único braço), conforme a Figura 3.2. Figura 3.2 | Classificação dos centrômeros Fonte: Wikimedia Commons / MarceloTeles. ORGANIZAÇÃO DO MATERIAL GENÉTICO Sabemos que a maioria dos genes está presente dentro dos cromossomos e que uma célula humana tem cerca de 25 mil genes (INSTITUTO ONCOGÊNESE, 2015). Mas como está organizado este material genético nos organismos? O conjunto de genes de um ser vivo é caracterizado pela sequência completa da molécula de DNA, denominado genoma. O estudo do genoma permite não só conhecer a anatomia molecular de um indivíduo e sua espécie, como também possibilitar o estudo e diagnóstico de doenças, síndromes, criação de medicamentos, técnicas de terapia gênica, testes genéticos, compreender o processo evolutivo, fornecendo diversas respostas ao campo da ciência. Os cromossomos de uma espécie têm aspecto e número de cromossomos característicos. Nos seres humanos observamos 23 pares de cromossomos (total de 46 cromossomos), sendo 22 pares de cromossomos autossomos (não sexuais), e um par de cromossomos sexuais ou alossômicos (representados por XX as fêmeas e XY os machos). Nas células somáticas humanas, em cada célula, podemos observar a presença de 46 cromossomos, dizemos que elas são diploides (2n), ou seja, têm dois cromossomos homólogos. Já as células germinativas (sexuais), são ditas haploides (n), pois têm apenas um cromossomo, não há cromossomos homólogos e são compostas por um total de 23 cromossomos, para que após a fecundação seja reestabelecido o número de cromossomos humanos, totalizando 46 cromossomos. EXEMPLIFICANDO Os cachorros, por exemplo, são compostos por um conjunto de 39 pares de cromossomos (total de 78 cromossomos), sendo um par de cromossomos sexuais. Esta variação na quantidade de cromossomos é o que determina cada espécie. No entanto, durante a divisão celular pode haver problemas no cariótipo (conjunto de cromossomos em uma célula), ocasionadas por mutações, havendo uma variação maior ou menor no número de cromossomos presentes na célula, ocasionando as aneuploidias. Nos humanos, são exemplos: a síndrome de Down, a síndrome de Klinefelter, a síndrome de Turner, dentre outras. O genoma está localizado em maior quantidade nos núcleos das células dos organismos eucariontes, mas também aparece nas mitocôndrias e cloroplastos das células vegetais. O DNA tem formato linear e aparece em grande número nos organismos eucariontes, onde são encontradas também proteínas histonas, importantes para a regulação dos genes; nos procariontes, a molécula do DNA é única e circular e graças à ausência de núcleo, o DNA está disperso no citoplasma. ASSIMILE O Projeto Genoma Humano é um projeto internacional, iniciado em 1990, cuja duração estimada era de 15 anos. O principal objetivo era realizar a identificação de todos os genes humanos, por meio do sequenciamento das bases nitrogenadas do DNA. O projeto recebeu grandes investimentos econômicos, com o intuito de auxiliar nas pesquisas, possibilitando a criação de ferramentas para análise dos dados e a disponibilização de um banco público de dados para dar suporte às pesquisas médicas, farmacológicas e científicas. O projeto contou com a participação de cientistas de 18 países e foi concluído em 2003. Foi sequenciado 99,9% do genoma humano, o 0,1% não sequenciado, foi por limitações tecnológicas, uma vez que apresentavam muitas repetições de bases nitrogenadas. Vamos entender como funciona a estrutura do DNA? Assim poderemos compreender o que são as bases nitrogenadas que não foram sequenciadas no Projeto Genoma Humano. ESTRUTURA DO DNAA estrutura da molécula de DNA (ácido desoxirribonucleico) e o seu mecanismo foram descritos em 1953 por James Watson e Francis Frick e esta é considerada uma importante descoberta para a ciência. O modelo proposto por eles considera a molécula de DNA em formato de dupla-hélice, constituída por dois filamentos longos (cadeias de polinucleotídicas), enrolados em formato semelhante a um espiral. Os dois filamentos em formato de dupla-hélice se mantêm unidos pelas pontes de hidrogênio entre as bases de nucleotídeos. No caso, os nucleotídeos são compostos de açúcares, um ou mais grupo fosfato e uma base nitrogenada. No DNA, o açúcar dos nucleotídeos é uma desoxirribose ligada a um único grupo fosfato. As bases nitrogenadas podem ser: purinas – adenina (A) e guanina (G), ou pirimidinas – citosina (C) e timina (T). As bases nitrogenadas estão pareadas de forma complementar e o pareamento entre as bases na molécula de DNA sempre será de (A) com (T) e (C) com (G). As duas cadeias de nucleotídeos devem estar em posição antiparalela (com as polaridades opostas) ou polaridade inversa. Um filamento de nucleotídeo através de uma ligação covalente liga a extremidade 5´ com fosfato livre de uma fita com a extremidade 3` da fita adjacente, com hidroxila livre, denominada ligação açúcar-fosfato com polaridade 5´para 3´. Uma fita de DNA é complementar a outra, desta forma possuem duas fitas com uma sequência de nucleotídeos com sequências nucleotídicas complementares. Na molécula de DNA, o pareamento das fitas é feito entre as bases purinas e pirimidinas. Desta forma, sempre uma adenina será pareada com uma timina e sempre uma citocina será pareada com uma guanina. ASSIMILE Erwin Chagaff fez algumas observações no modelo proposto por Watson e Crick, que determinaram as regras de Chargaff: A quantidade de A e T é sempre igual, assim como a quantidade de C e G. Mas a soma das bases A+T não precisa ser necessariamente igual a soma das bases C+G, em contrapartida, a soma da quantidade de nucleotídeos purínicos é sempre igual à soma da quantidade de nucleotídeos pirimidínicos. Entre as espécies, as quantidades de bases variam, mas todos os indivíduos de uma mesma espécie têm a mesma quantidade entre as bases nitrogenadas. Figura 3.3 | Estrutura do DNA Fonte: Alberts et al. (2017, p.176). O modelo da estrutura do DNA permitiu a compreensão de muitos aspectos em relação ao DNA, por exemplo, como esta molécula pode ser copiada e como a célula utiliza as informações do material genético para a produção de proteínas, conforme veremos a seguir. REPLICAÇÃO DO DNA E SÍNTESE DE PROTEÍNAS Todos os organismos vivos têm material genético e durante o seu ciclo celular, mais precisamente durante a fase S da interfase, duplicam o seu DNA para dar origem a células-filhas. Vamos entender como este processo funciona nos organismos eucariontes? Para que o DNA seja replicado é necessário a separação da dupla-hélice formadora da molécula de DNA em duas fitas-molde, com auxílio da enzima helicase de DNA, formando uma espécie de forquilha. Para que ocorra a síntese de novas fitas, são adicionados indicadores conhecidos como primers, que conduzem a síntese da fita. Os nucleotídeos das fitas-moldes precisam ser pareados por nucleotídeos complementares livres (que ainda não foram polimerizados), para serem incorporados à nova fita. A polimerização desta nova fita é catalisada pela enzima DNA-polimerase, que polimeriza nucleotídeos utilizando como molde uma fita simples de DNA. Com isso, cada molécula de DNA tem duas fitas que servirão de molde para a formação de duas novas moléculas de DNA (compostas por uma fita da célula original e uma nova fita replicada), que serão destinadas às células-filhas. Este processo é conhecido como replicação semiconservativa. As fitas novas de DNA, recém-sintetizadas, reestabelecem as ligações fosfodiéster entre os nucleotídeos com o auxílio da enzima DNA-ligase. As novas moléculas de DNA, idênticas à célula-mãe são sempre polimerizadas na direção das extremidades 5´ para a extremidade 3´. ASSIMILE Os números 5 e 3 determinam respectivamente, o quinto e o terceiro átomo de carbono presente na molécula de açúcar que compõe os nucleotídeos. Cada nucleotídeo é composto por uma molécula de açúcar com cinco carbonos. Você deve estar se perguntando como a molécula de DNA está envolvida na síntese de proteínas, certo? O DNA não controla diretamente a síntese de proteínas, ele utiliza o RNA (ácido ribonucleico) como intermediário. Sendo assim, quando uma célula requer uma proteína específica, a molécula de DNA é inicialmente copiada sob a forma de RNA, processo conhecido como transcrição. Estas cópias de RNA são utilizadas como moldes para a síntese da proteína, processo denominado tradução. O fluxo da informação genética nas células segue de uma molécula de DNA para uma molécula de RNA e, consequentemente, a formação de uma proteína. Este fluxo ocorre em todas as células e é conhecido como dogma central da biologia molecular. A transcrição ocorre no núcleo das células eucariontes e em alguns casos nas mitocôndrias e nos cloroplastos (organelas com capacidade genética, além do núcleo). O processo de transcrição ocorre de forma semelhante à replicação do DNA, no entanto, o resultado é uma molécula de RNA e a enzima que atua na transcrição é a RNA polimerase. O RNA é composto pelas bases nitrogenadas adenina, guanina, citosina e uracila (U), esta última é inserida no lugar da timina, presente na molécula de DNA. A fita de RNA é simples e ao ser transcrita, no lugar do pareamento das bases A+T, no RNA ocorre o pareamento das bases A+U. A molécula formada será um RNA mensageiro (mRNA), que contém a sequência de nucleotídeos que será lida pelos ribossomos e traduzida em uma sequência de aminoácidos (proteína). REFLITA Você se lembra do processo de formação das proteínas que ocorre através dos ribossomos? E o papel de cada um dos tipos de RNA? RNA ribossômico, RNA transportador e RNA mensageiro? A molécula de DNA forma a fita do mRNA que será traduzida pelo ribossomo e irá sintetizar uma proteína. A tradução do mRNA é feita pelo RNA transportador (tRNA), que traduz códons (trincas de nucleotídeos) presentes no mRNA em um aminoácido. Este processo ocorre no citoplasma e somente é iniciado quando é encontrado um códon específico, AUG, que dá início a síntese de proteínas. Durante a tradução, os códons são lidos da extremidade 5´ para a extremidade 3´ pelos tRNA. Os RNAs transportadores possuem um anticódon que se liga ao códon do mRNA correspondente, através do pareamento de bases. Os tRNA preenchem com os seus aminoácidos a cadeia de polipeptídios que vai sendo formada no ribossomo, até que a sequência de códons no mRNA seja UAA, UAG ou UGA, indicando o fim da tradução e a liberação da proteína ou em alguns casos da cadeia de polipeptídio que precisa sofrer algumas edições antes de se tornar uma proteína ativa. Cada códon tem quatro nucleotídeos repetidos, desta forma em 20 aminoácidos podemos encontrar 64 possibilidades de códons. O código genético é formado por trincas de bases de códons, sendo universal, assim, em todos os organismos vivos os mesmos códons determinam os mesmos aminoácidos. É no código genético que são encontradas todas as informações para o desenvolvimento e funcionamento dos organismos, uma vez que são capazes de passar informações genéticas de um indivíduo a outro e fazer a síntese de proteínas, essenciais para a vida e o funcionamento das células. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO: DNA, RNA E FORMAÇÃO DE PROTEÍNAS SEM MEDO DE ERRAR Vamos agora retomar a situação-problema apresentada, pois já estamos munidos de todo o conhecimento necessário para resolvê-la. O caso do casal que procurou a clínica de aconselhamento genético onde você trabalha com o intuito de uma terceira gestação foi descrito da seguinte forma: A mulher, de 35 anos, tem olhos verdes e cabelos castanho-claros e lisos, aparentemente normal, teve dois filhos com o seu marido, de 38 anos, que tem olhos castanhos e cabeloslisos e castanhos, é daltônico. A primeira filha do casal, com 6 anos, é loira com cabelo encaracolado, dos olhos azuis e aparentemente normal. No entanto, o segundo filho do casal, com 3 anos, tem olhos castanhos e cabelos lisos e castanhos, e tem síndrome de Down. O casal quer ter mais um filho, mas, por possuírem histórico de anomalias genéticas na família, resolveu investigar as probabilidades de terem uma gestação normal. Como você explicaria ao casal a importância em realizar um mapeamento genético de ambos para verificar o cariótipo de cada um deles? E como você pode explicar as diferenças existentes no genótipo e fenótipo do casal e dos seus filhos? Primeiramente é importante explicar aos pais que o teste genético pode ser realizado através de uma pequena amostra de sangue, é indolor e o resultado pode demorar alguns dias. O mapeamento genético é utilizado para auxiliar no diagnóstico precoce de possíveis doenças, além de fornecer evidências de características hereditárias, possibilitando descobrir a origem delas em seus antepassados. Ao fazer o mapa genético, o casal conhecerá as probabilidades de possíveis riscos para a prole, visto que o casal já tem casos de alterações genéticas registrados. É importante descrever que toda a informação genética de um ser vivo, uma pessoa, é armazenada no DNA dela, o qual é transmitido aos seus descendentes. Como vimos, este material genético é transmitido durante a divisão celular, e nas células animais, é transmitido através da meiose, em que as células-filhas recebem uma parte do material genético da célula original, para quando sofrer a fecundação, o zigoto (novo embrião que se desenvolverá) receber uma parte do material genético da mãe e uma parte do material genético do pai. Os genes são sequências (partes) deste DNA, responsáveis por desenvolver as características de um ser vivo, compondo o genoma deste organismo, que varia de um para outro. O genoma humano é composto por 23 pares de cromossomos autossômicos e um par de cromossomos sexuais. Os cromossomos representam uma molécula de DNA associado a proteínas, e o conjunto destes cromossomos representa o cariótipo. A partir da análise do cariótipo, contendo a informação hereditária contida no DNA, é possível determinar possíveis alterações cromossômicas ocasionadas por mutações que poderão ser transmitidas geneticamente. Em relação ao genótipo e fenótipo dos filhos do casal, eles são diferentes. As características externas, visíveis, determinadas pela aparência do indivíduo, são as características fenotípicas e elas estão relacionadas às características genotípicas e à interação do meio ambiente. A cor dos olhos e dos cabelos pode ser explicada por meio do genótipo, da constituição dos genes herdados dos progenitores, mas ao longo do tempo, assim como a cor da pele, podem sofrer alterações. Já o genótipo, como representa a constituição genética deles, são os genes que eles possuem, não é alterado. O filho mais novo do casal possui uma alteração genética que altera o genoma de um ser humano sem anomalia, esta criança possui 47 cromossomos, um cromossomo a mais do que o cariótipo de um ser humano dito normal com 46 cromossomos. Desta forma, conseguimos explicar ao casal a importância do mapeamento genético, o que nos possibilita tentar explicar de onde a filha herdou o olho azul, a probabilidade de um próximo filho nascer daltônico como o pai, dentre outras informações. Este é um caminho para resolvermos a situação-problema, mas você é capaz de seguir outros caminhos para resolver esta situação. Vamos praticar! AVANÇANDO NA PRÁTICA TESTE DE PATERNIDADE Um laboratório de análises clínicas recebe com frequência exames de comprovação de paternidade. São comuns os exames de mulheres que não têm certeza em relação à paternidade da criança ou de homens que desejam confirmar sua paternidade e solicitam um teste. Desta vez, o laboratório recebeu uma ordem judicial solicitando o teste de paternidade de Francisco, um jovem de 25 anos, criado pela mãe, cujo pai não consta em seu registro, mas a mãe alega ser filho de JB Junior, falecido recentemente. Em busca dos direitos à herança, o teste será feito. É possível realizar um teste de paternidade mesmo após o suposto pai estar morto? Como o DNA pode auxiliar nesta comprovação? Como você, técnico em análises clínicas do laboratório, explicaria esta situação? RESOLUÇÃO Para resolver esta situação, você deve se lembrar que as características hereditárias são controladas por genes, localizados em cromossomos (moléculas de DNA associadas a proteínas), os quais são transmitidos aos descendentes, mantendo a continuidade genética das gerações. O padrão de uma molécula de DNA de uma pessoa é único (com exceção em gêmeos idênticos), formado por combinações do pai e da mãe. O teste de paternidade consiste em comprovar por meio do DNA do filho o grau de parentesco com o suposto pai. Como existe um padrão na molécula de DNA, é possível detectar as sequências de nucleotídeos que se repetem ao longo das fitas do DNA. Estas sequências são chamadas de VNTR (Variable Number of Tandem Repeats), ou seja, números variáveis de repetições de sequências. Como o DNA é único em cada indivíduo, a confiabilidade do teste é de 99,9% de certeza da suposta paternidade, no entanto, o exame apresenta 100% de probabilidade caso a paternidade não seja comprovada. Como estudamos, o corpo humano é formado por milhares de células, e todas elas têm material genético transmitido entre gerações. Desta forma, mesmo o suposto pai estando morto, é possível fazer o teste com familiares de primeiro grau, como irmãos ou avós, e ainda em casos de mortes recentes, é possível utilizar amostras de fios de cabelo em objetos, secreções em lenços, etc. Caso seja solicitado judicialmente, pode haver a coleta de material do cadáver exumado. Unidade 3 - Seção 2 LEIS DE MENDEL PRATICAR PARA APRENDER Caro aluno, depois de aprendermos alguns conceitos básicos relacionados à genética, compreendermos a composição do material genético presente em todas as células dos organismos vivos e a estrutura da molécula de DNA, chegou a hora de conhecermos um pouco a respeito da história da genética, como ela surgiu e os experimentos que permitiram tantos avanços à genética moderna. Você sabia que muitos pesquisadores mesmo antes da descoberta da molécula do DNA já estudavam o cruzamento de plantas e animais buscando explicar como os descendentes (filhos) tinham características semelhantes aos seus progenitores (pais)? Foi Mendel, um monge austríaco, que, por meio de vários trabalhos e experimentos com ervilhas, propôs importantes bases teóricas para explicar a hereditariedade e a transmissão de características. Considerado o pai da genética clássica, o pesquisador tem importante papel na genética moderna atual, influenciando muitas pesquisas posteriores que resultaram em grandes conquistas para a área da saúde. Afinal, a partir do conhecimento do processo de hereditariedade, as características dos genes, https://conteudo.colaboraread.com.br/202102/INTERATIVAS_2_0/INTRODUCAO_A_BIOLOGIA_CELULAR_E_DO_DESENVOLVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u3s1.html#resolucao%20.item-1 cromossomos, DNA e RNA foi possível compreender muitos processos de evolução, auxiliando na compreensão do desenvolvimento humano. Por exemplo: você já imaginou como é possível identificar uma doença genética hereditária e prever a sua transmissão para futuras gerações? Como entender como é possível um casal de olhos castanhos ter um filho de olhos azuis, como os avós. São inúmeras as contribuições que a genética proporciona para o avanço da humanidade, beneficiando as nossas vidas. Hoje já é possível fazer testes de paternidade, desvendar muitos crimes através do estudo da genética em materiais biológicos encontrados no local. Certamente, você já deve ter escutado falar de produtos transgênicos ou geneticamente modificados, os alimentos são modificados para que fiquem com mais nutrientes ou sejam resistentes a pragas, graças ao desenvolvimento da biotecnologiae aos conhecimentos da genética. Nesta seção, estudaremos um pouco da história da genética e seus impactos na saúde, desde a genética clássica até a genética moderna atual. Conheceremos em detalhes os experimentos feitos por Gregor Mendel, utilizando plantas de ervilhas, que culminaram na primeira e segunda lei de Mendel, permitindo o entendimento da transmissão das características dos pais para os filhos. Vamos dar sequência à situação-problema criada para auxiliar na contextualização de seu aprendizado. Diante do número cada vez mais expressivo de doenças genéticas presentes nas famílias, indicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e dos avanços na área da genética médica, possibilitando a realização de exames capazes de detectar diferentes tipos de alterações na arquitetura do genoma, um casal procurou uma clínica renomada na cidade, especializada em consultas e aconselhamento genético. A mulher tem 35 anos, olhos verdes e cabelos castanho-claros e lisos, aparentemente normal, teve dois filhos com o seu marido, de 38 anos, que tem olhos castanhos e cabelos castanhos e lisos, é daltônico. A primeira filha do casal, com 6 anos, é loira e tem o cabelo encaracolado, os olhos azuis e é aparentemente normal. No entanto, o segundo filho do casal é pessoa com Síndrome de Down, tem 3 anos, tem olhos castanhos e cabelos lisos e castanhos. O casal quer ter mais um filho, mas por possuírem histórico de anomalias genéticas na família, resolveu investigar as probabilidades de terem uma gestação normal. Você trabalha nessa clínica e faz parte de uma equipe composta por médicos geneticistas, especialistas em biologia molecular, citogenética e bioinformatas e ficou responsável pelo acompanhamento deste casal. Após alguns exames e a coleta de informações do histórico familiar do casal, foi possível identificar o genótipo para as cores dos olhos do casal, mulher (genótipo: bbGb; fenótipo: olhos verdes) e homem (genótipo: Bbbb; fenótipo: olhos castanhos). Com base nesta informação, como você pode explicar o fato de o casal ter uma filha de olhos azuis, sendo que nenhum dos pais tem olhos azuis? O outro filho do casal tem olhos castanhos, iguais aos do pai, mas existe a probabilidade de um próximo filho nascer com os olhos verdes iguais aos da mãe? Estes eventos podem ser explicados por meio da herança monogênica? Cada indivíduo é um ser único, cujas características se assemelham a outros da mesma espécie, ao mesmo tempo que os distanciam e diferenciam de outras espécies. Compreender o conjunto de processos que asseguram o recebimento e a transmissão de informações e características genéticas através da hereditariedade contribui para a saúde e o entendimento do ser vivo. CONCEITO-CHAVE Antes mesmo da molécula do DNA ser descoberta, muitos pesquisadores já buscavam compreender a hereditariedade dos organismos vivos e buscavam explicações para a transmissão dos caracteres dos progenitores para a prole. Até a descoberta do material genético e como ele era transmitido há uma longa história, vamos conhecer um pouco alguns fatos marcantes para a genética? 1. HISTÓRIA DA GENÉTICA E SEU IMPACTO NA SAÚDE O homem, desde a antiguidade, busca compreender a transmissão das características de um indivíduo para outro, repassadas de geração a geração. O estudo da hereditariedade, ou seja, o estudo da genética, foi iniciado em 1865 com os experimentos e a formulação de leis fundamentais da herança biológica, propostas pelo monge austríaco Gregor Mendel, publicadas em 1866. Mendel fez cruzamentos entre variedades de ervilhas, com o intuito de entender o motivo pelo qual o cruzamento entre híbridos gerava muitas diferenças entre os descendentes. Estudaremos estas leis mais adiante, que ficaram conhecidas como herança mendeliana. Mendel foi quem sugeriu pela primeira vez a existência de fatores independentes dos genitores serem transmitidos para a prole. No entanto, na época, o trabalho de Mendel não foi reconhecido, por falta de conhecimentos e comprovações em relação à divisão celular e à estrutura do DNA. Mais tarde, foi constatado que o espermatozoide é composto por material nuclear, e os cientistas chegaram à conclusão de que o núcleo era o responsável pela hereditariedade. Em 1877, os cromossomos puderam ser visualizados dentro do núcleo e, somente em 1900, os pesquisadores “redescobriram” os trabalhos de Mendel e puderam contribuir para a aceitação de suas ideias. Walter S. Sutton, no início do século XX, em 1914, propôs a teoria cromossômica da herança, na qual se admitia que os fatores hereditários estavam localizados nos cromossomos. Ainda assim, foram anos tentando comprovar esta teoria. Os pesquisadores Hugo de Vries, Carl Correns e Erich von Tschermak aplicaram, em 1915, os princípios básicos da genética propostos por Mendel em uma variedade de organismos, com destaque a mosca (Drosophila melanogaster). Thomas Hunt Morgan, em 1926, publicou o livro da Teoria do gene, que indicava a herança ser decorrente de unidades transmitidas do genitor para o filho de modo ordenado, no caso, tratava-se dos genes localizados nos cromossomos. Todas estas tentativas de explicar os experimentos de Mendel tinham o intuito de comprovar cientificamente as semelhanças entre pais e filhos. Em 1945, o termo biologia molecular foi empregado pela primeira vez por William Astbury, se referindo ao estudo das estruturas das macromoléculas biológicas, tanto estruturas químicas quanto físicas. E foi em 1953 que o modelo da molécula de DNA foi proposto por James Watson e Francis Crick, apresentando o modelo tridimensional de dupla hélice do DNA. Descoberta a estrutura do DNA, Francis Crick em 1958 postulou o Dogma Central da Biologia Molecular, que conceituava o mecanismo de transmissão e a expressão da hereditariedade após descoberta a codificação do DNA, compreendendo a produção de proteínas através da síntese de RNA pelo DNA e a síntese de proteínas pelo RNA. Você deve estar se perguntando como estes fatos impactaram a saúde ou qual a importância deles, não é mesmo? O desenvolvimento e o avanço da genética mudaram muitos aspectos em nossas vidas e na sociedade, em relação à saúde, à produção de alimentos e até mesmo a questões jurídicas. Você já deve ter escutado a respeito da ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado utilizando uma célula de um animal adulto, ou ainda de alimentos transgênicos como o tomate (Favr Savr), resistente às pragas e aos herbicidas. Com todos estes avanços, a genética possibilitou solucionar crimes e fazer testes de paternidade (técnica de fingerprint – impressão digital, específicos para cada indivíduo), mapear doenças, realizar aconselhamento genético, produzir alimentos transgênicos e clones, a partir da técnica do DNA recombinante (quando se isola um trecho do DNA e o combina com outro DNA, produzindo cópia deste novo trecho, gerando diferentes combinações deste material genético). Com todas as contribuições deixadas por Gregor Mendel, muito importantes para a pesquisa científica e todas as descobertas subsequentes aos seus trabalhos, Mendel ficou conhecido como o pai da genética. Vamos conhecer um pouco mais sobre os trabalhos realizados por Mendel e as suas conclusões que nos trouxeram tantos adventos. 2. HERANÇA MENDELIANA O conjunto de princípios que estão relacionados à transmissão hereditária das características de um indivíduo aos seus descendentes é conhecido por herança mendeliana, mendelismo ou genética mendeliana, considerada a base da genética clássica. A transmissão de características ocorre através da expressão do fenótipo de um gene, conhecida também por herança monogênica. Muitos pesquisadores fracassaram em seus experimentos realizando cruzamentos com plantas e/ou animais e foi Mendel que obteve sucesso em seus trabalhos, uma vez que ele procurava compreender as características dos indivíduos, uma por vez, com o intuito de compreender o mecanismo e conseguir validar as suas regras na característica seguinte, enquanto os demais pesquisadores consideravam todas as característicasde uma única vez. Gregor Mendel escolheu o material que apresentava características constantes, as ervilhas (Pinus sativum), para realizar seus experimentos e posteriormente tratar os dados. A espécie escolhida é um vegetal de cultivo simples, com ciclo de vida curto (possibilita o estudo de diversas gerações), são plantas hermafroditas (permitem a autofecundação), têm diversidade de características morfológicas fáceis de observar (altura da planta, cor das flores, cor das sementes, textura das sementes). Mendel postulou a existência de fatores hereditários (genes) nas células sexuais, que durante a formação de gametas deveriam se separar, e após a fecundação, ao invés de se fundirem, permaneciam lado a lado, podendo ou não se manifestar. Todos os resultados de Mendel foram baseados em análises estatísticas, pois ele não tinha o conhecimento sobre genes, tampouco como estes controlavam o fenótipo. Suas observações foram realizadas por meio de fatores hipotéticos, representados por símbolos, sem se preocupar ou saber onde estes fatores estariam localizados dentro de uma célula. Assim, Mendel foi o primeiro a dizer que existiam fatores independentes que eram transferidos para a prole através dos genitores. 3. PRIMEIRA LEI DE MENDEL A primeira lei de Mendel ou lei da segregação dos fatores foi decorrente de um dos experimentos mais importantes de Mendel, a partir da análise da hereditariedade em cruzamentos de ervilhas. Você deve estar se perguntando em que consistia este experimento, certo? Para realizar o cruzamento, Mendel utilizou plantas de ervilhas com linhagem de sementes amarelas com plantas de ervilhas com linhagens de sementes verdes. Transferiu o pólen de uma planta para a outra, de forma a realizar o processo de autopolinização, garantindo linhagens puras – isto significa dizer que cada linhagem nunca havia cruzado com outra linhagem de cor diferente, e as denominou de geração parental (P). Após o cruzamento de ambas as plantas, foi observado que todas as plantas nascidas das linhagens puras (sementes verdes e sementes amarelas), possuíam sementes amarelas, independente do gênero dos genitores (femininos ou masculinos). Mas como isso era possível? Mendel denominou esta geração de primeira geração filial (F1), todas compostas por sementes amarelas. Curioso com o fato de nenhuma planta “filha” ter apresentado sementes verdes, Mendel seguiu os seus experimentos. Figura 3.4 | Demonstração do cruzamento de plantas de ervilhas realizado por Mendel (1ª lei de Mendel) Fonte: Shutterstock / Designua. O próximo passo foi cruzar as plantas “filhas”, todas de sementes amarelas, entre elas. Você tem ideia do que isso significou? A partir do cruzamento das plantas “filhas” híbridas, denominadas de segunda geração filial (F2), foi observado que a maioria das plantas “filhas” possuíam sementes amarelas, como esperado, no entanto, algumas plantas voltaram a apresentar sementes verdes, em uma parcela menor. Analisando os resultados, na geração F1 foi observado 100% de sementes amarelas no cruzamento, já na geração seguinte, F2, foi observado 75% de sementes amarelas e 25% de sementes verdes, na proporção de 3:1, isso significa dizer que a cada quatro plantas observadas, três apresentavam sementes amarelas (característica dominante) e uma apresentava semente verde (característica recessiva). ASSIMILE Alguns dos conceitos de genética importantes para o entendimento dos experimentos realizados por Mendel, lembrando que na época estes termos não eram utilizados, foram deduzidos posteriormente: Alelos: formas alternativas de um gene, ocupam o mesmo loco (ou posição) no cromossomo homólogo (cromossomos que têm genes com características iguais). Genes dominantes: genes que determinam uma característica hereditária mesmo quando estão em dose simples, ou seja, sozinhos. Genes recessivos: genes que se expressam somente quando estão em dose dupla, pois quando acompanhados de um gene dominante eles se tornam inativos. Homozigoto (puro): quando possui dois alelos iguais em cromossomos homólogos. Heterozigoto (híbrido): quando possui dois alelos diferentes em cromossomos homólogos. Mendel realizou os experimentos observando outras características, como a cor das flores, as características da textura das sementes, dentre outras, e para todas obteve os mesmos resultados, que culminaram nas seguintes conclusões: ● Uma característica é determinada por um par de fatores hereditários: os fatores hoje são conhecidos por genes, e suas versões são os alelos. Por exemplo, existem fatores que determinam a cor amarela da semente e outros que determinam a cor verde. ● O par de fatores que determina uma característica é herdado da mãe e do pai: desta forma o organismo recebe dois alelos, um da mãe e outro do pai, e eles serão expressos dependendo da sua dominância ou recessividade. ● Os indivíduos transmitem apenas um fator em cada gameta: desta forma, os fatores se separam durante a formação dos gametas, cada gameta possui apenas um alelo. Com isso, a primeira lei de Mendel ficou conhecida pela segregação dos fatores durante a formação dos gametas. Na época, ele não tinha o conhecimento de genes e cromossomos, mas por meio dos seus trabalhos foi possível compreender posteriormente que os pares de genes são segregados, e estes estão presentes nos cromossomos. Nas células eucariontes esta segregação ocorre durante a etapa da meiose da divisão celular. EXEMPLIFICANDO Para determinar a proporção genotípica e fenotípica de um cruzamento, vamos utilizar o seguinte exemplo: Cruzamento entre uma planta de flor púrpura homozigota dominante com uma planta de flor branca recessiva. Lembrando que a flor púrpura poderia ser homozigota dominante (BB) ou heterozigota dominante (Bb), já a flor branca é homozigota recessiva (bb). Então: P = Flor púrpura (BB) x Flor branca (bb) B B b Bb Bb b Bb Bb Proporção genotípica: Bb = 100% Proporção fenotípica: 100% das plantas púrpuras F1 = 100% das plantas são de flor púrpura heterozigota dominante (Bb). Realizando o cruzamento entre as flores da geração F1, obteremos: B b B BB Bb b Bb Bb Proporção genotípica: BB = ¼ ou 25% | Bb = ½ ou 50% | bb = ¼ ou 25% Proporção fenotípica: 75% flores púrpuras e 25% flores brancas F2 = A proporção é de 3:1, três flores púrpuras para uma flor branca. A primeira lei de Mendel também ficou conhecida por monoibridismo, a herança monogênica, ou a herança condicionada a um par de alelos para determinar uma característica. 4. SEGUNDA LEI DE MENDEL Inicialmente, Mendel realizou os seus experimentos com as ervilhas, analisando o comportamento somente de uma característica, como ela se comportava através das gerações. Não contento, Mendel resolveu analisar duas características ao mesmo tempo e observar como elas se comportariam, se cada um dos fatores era transmitido de forma independente ou não, culminando na segunda lei de Mendel ou a lei da segregação independente dos fatores (diibridismo). Vamos compreendê-la a seguir. Mendel passou a estudar a transmissão de duas características das ervilhas, a cor da semente (amarela e verde) e a forma das sementes (lisa ou rugosa). Com base em seus experimentos, ele sabia que a cor amarela era dominante em relação à cor verde, assim como o formato liso da semente era dominante em relação ao formato rugoso. Mendel realizou o cruzamento entre duas linhagens puras com características distintas (plantas homozigotas), uma planta com sementes amarelas e lisas (determinadas pelo genótipo VVRR) e a outra com sementes verdes e rugosas (vvrr). REFLITA Não podemos esquecer que os alelos são representados por letras maiúsculas, quando são dominantes, e por letras minúsculas, quando são recessivos. Por convenção, quando vamos analisar mais de um fator, as letras correspondem geralmente aos fatores recessivos, mas não é uma regra obrigatória. Sendo assim, por que as sementes amarelas e lisas, cujas características são dominantes não são representadas pelas letras AALL? Na geração F1, Mendel obteve 100% dos indivíduosheterozigotos para ambas as características (VvRr), plantas com sementes amarelas e lisas. Na geração seguinte (F2), realizado o cruzamento entre duas plantas da geração F1 (diíbridas), os resultados obtidos foram plantas com fenótipo semelhantes às plantas “pais” (geração parental), e dois novos fenótipos, plantas com sementes amarelas e rugosas e plantas com sementes verdes e lisas. A proporção fenotípica observada foi de 9:3:3:1 (Figura 3.5), assim, a cada 9 plantas em um total de 16 plantas apresentavam sementes amarelas e lisas (56%); três apresentavam sementes amarelas e rugosas (por volta de 18%); outras três apresentavam sementes verdes e lisas (por volta de 18%); e apenas uma a cada dezesseis, apresentava semente verde e rugosa (em torno de 6%). A partir destes resultados, e vários outros testes aplicados, Mendel concluiu que os alelos são segregados de maneira independente durante a formação do gameta, isto significa dizer que um ou mais fatores (características) são distribuídos de maneira independente e se combinam ao acaso na formação do gameta. Assim, a reprodução entre indivíduos possibilita a combinação gênica a partir da segregação dos gametas, favorecendo a diversidade de espécies. Figura 3.5 | Demonstração do cruzamento de plantas de ervilha (2ª lei de Mendel) utilizando o quadro de Punnett Fonte: Shutterstock / N.Vinoth Narasingam. VOCABULÁRIO Quadro de Punnett: ferramenta criada pelo geneticista Reginald Crundall Punnett, utilizada para descobrir os genótipos esperados para um determinado cruzamento. É uma tabela que separa os possíveis gametas de um indivíduo e são determinadas as possíveis combinações entre os gametas de ambos os indivíduos. A segunda lei de Mendel, também conhecida por diibridismo, refere-se à herança condicionada por dois pares de alelos diferentes e independentes que determinam duas características diferentes em um mesmo indivíduo. Gregor Mendel é considerado o pai da genética clássica, podemos dizer que a genética clássica é anterior à descoberta do DNA, e as bases teóricas para a compreensão da hereditariedade e para a genética moderna são subsidiadas pelas leis de Mendel. A partir dos cruzamentos da geração parental é possível prever possíveis características esperadas para o nascimento da prole, determinar a probabilidade de um determinado genótipo ou fenótipo acontecer nas gerações seguintes. Desta forma, nos permite compreender a transmissão de algumas doenças genéticas e até mesmo explicar a cor dos olhos ou dos cabelos de uma criança. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO: LEIS DE MENDEL SEM MEDO DE ERRAR Agora que você já tem o conhecimento da herança mendeliana, que define como determinada característica é transmitida dos genitores para os seus descendentes, podemos resolver a situação-problema apresentada. O casal que procurou a clínica de aconselhamento genético, na qual você trabalha e ficou responsável pelo acompanhamento: a mulher tem 35 anos, olhos verdes e cabelos castanho-claros e lisos, aparentemente normal, e o marido, de 38 anos, que tem olhos castanhos e cabelos castanhos e lisos, é daltônico, são pais de duas crianças. A primeira filha do casal, com 6 anos, é loira e tem o cabelo encaracolado, os olhos azuis e é aparentemente normal. No entanto, o segundo filho do casal é pessoa com Síndrome de Down, tem 3 anos, tem olhos castanhos e cabelos lisos e castanhos. O casal quer ter mais um filho. A partir do genótipo para as cores dos olhos do casal, mulher (genótipo: bbGb; fenótipo: olhos verdes) e homem (genótipo: Bbbb; fenótipo: olhos castanhos), como você pode explicar o fato de o casal ter uma filha de olhos azuis, sendo que nenhum dos pais tem olhos azuis? O outro filho do casal tem olhos castanhos, iguais aos do pai, mas existe a probabilidade de um próximo filho nascer com os olhos verdes iguais aos da mãe? Estes eventos podem ser explicados por meio da herança monogênica? A cor dos olhos, assim como a cor dos cabelos, a altura e a cor da pele, por exemplo, são características humanas que por apenas um gene apresentam muitas variações e desta forma são controladas por muitos genes, os quais dependem da quantidade em que aparecem no genótipo, determinam a característica no fenótipo do indivíduo. Os olhos, por exemplo, podem ser pretos, castanho-escuros, castanho-claros, verde-claros e escuros, azuis, entre outras variações. Quando vários genes interagem para determinar uma única característica, havendo uma grande variedade de fenótipos e genótipos para estas características, chamamos de herança poligênica. A herança poligênica é uma das variações das leis de Mendel, ocorrendo de forma diferente da herança monogênica. Muitos autores consideram a cor dos olhos ou a cor da pele como uma herança monogênica, considerando duas possibilidades para uma mesma característica, por exemplo olhos azuis e olhos castanhos, sem considerar as demais variações. Na situação-problema apresentada, porém, como temos três cores diferentes, não é possível. Mas para a cor do cabelo e o tipo do cabelo, se considerarmos como um único gene que age de forma independente, é possível. Por exemplo, se considerarmos a cor do cabelo (alelo dominante para cabelo escuro e alelo recessivo para cabelo claro) ou se analisarmos o tipo de cabelo (alelo dominante para cabelo liso e alelo recessivo para cabelo crespo), sem considerarmos as variáveis das cores do cabelo ou as variáveis para os tipos de cabelo. A cor dos olhos pode ser determinada pela quantidade de pigmento de melanina na íris, e na forma como a luz interage com os pigmentos e outras substâncias nos olhos. Em geral, as pessoas que têm mais melanina nos olhos apresentam olhos escuros, e as pessoas que apresentam olhos mais claros têm menos melanina no olho. São dois os genes principais que determinam a cor dos olhos: o gene Bey2 (brown eye – olho castanho) ou EYCL3 (eye color – cor do olho), localizado no cromossomo 15, possui um alelo para a cor castanho (B) com traço dominante, e outro para a cor azul (b) recessivo; e gene Gey (green eye – olho verde) ou EYCL1 (eye color – cor do olho), localizado no cromossomo 19, com um alelo para a cor verde (G) com traço dominante, e outro para a cor azul (b). Neste caso, o alelo B é sempre dominante, enquanto o alelo G é dominante em relação ao alelo b, e o alelo b sempre será recessivo. Portanto, as possíveis combinações entre estes dois genes são as seguintes: Genes Cor dos olhos BBbb / BBGb / BBGG / Bbbb / BbGb / BbGG Castanho bbGG / bbGb Verde bbbb Azul Fonte: elaborado pela autora. Desta forma, conseguimos notar que os olhos castanhos são muito mais comuns do que as outras cores de olhos. O cruzamento entre os genes do casal: mulher (bbGb) x homem (Bbbb) resulta na probabilidade de os filhos nascerem com os seguintes genótipos e fenótipos: BbGb e Bbbb (50% para olhos castanhos), bbGb (25% para olhos verdes) e bbbb (25% para olhos azuis). Por meio desta análise, é possível explicar o fato de a filha mais velha do casal ter olhos azuis e o filho mais novo ter olhos castanhos. Caso o casal venha a ter outro filho, existe 25% de chances ou ¼ de probabilidade de a criança nascer com olhos verdes iguais aos da mãe. Demonstramos aqui apenas uma forma de resolvermos a situação-problema, você pode seguir outros caminhos, inclusive você é convidado a explicar a cor dos cabelos dos filhos do casal, utilizando a primeira lei de Mendel, considerando cabelo loiro como alelo recessivo e o cabelo castanho alelo dominante, ou ainda aplicar a segunda lei de Mendel avaliando as duas características, a cor do cabelo (loiro e castanho) e o tipo do cabelo (liso – recessivo, ou encaracolado – dominante). Que tal, vamos praticar? AVANÇANDO NA PRÁTICA MELHORAMENTO GENÉTICO DO TOMATE O tomate é a segunda hortaliça mais cultivada no mundo, superada pela batata (SANTOS et al., 2011). Cultivado em regiões tropicais e subtropicais, a espécie Solanum lycopersicum acaba sendo de difícil cultivo por enfrentar variações no clima, pragas e doenças e a necessidade de uma grande quantidadede produtos químicos para manter as lavouras. Um jovem pesquisador resolveu estudar diversas características desta hortaliça, com o intuito de entender como funciona o processo de adaptação destas plantas e poder desenvolver técnicas de melhoramento, de forma a tornar os tomates mais produtivos e resistentes às variações ambientais e aos predadores naturais. O jovem analisou dois genótipos selvagens em relação à forma do fruto, uma planta com fruto comprido (FC) e outra com fruto redondo (FR). Realizou o cruzamento em plantas com estes dois genótipos, repetidas vezes entre si, e sempre originaram descendentes com frutos compridos. O jovem resolveu realizar novos cruzamentos testes utilizando os descendentes obtidos. Para auxiliar o jovem pesquisador, como você poderia explicar os resultados esperados para a seguinte geração (F2) nos novos testes, pensando que é um cruzamento mendeliano? Indique ao jovem os genótipos das gerações P, F1 e F2, e qual a proporção dos fenótipos que ele irá obter, economizando a quantidade de testes que precisará fazer para obter o mesmo resultado. RESOLUÇÃO Para auxiliar o jovem pesquisador, você precisa se lembrar das leis de Mendel. Elas estão relacionadas com os princípios que explicam a transmissão de características hereditárias de um organismo a seus descendentes. Neste caso, como temos somente uma característica em estudo, e os resultados obtidos a partir dos cruzamentos da geração parental pura, 100% de tomates com frutos compridos, devemos considerar a primeira lei de Mendel ou lei da segregação dos fatores. Podemos considerar o genótipo da geração P (RR – fruto comprido e rr – fruto redondo), ambos homozigotos puros, sendo o alelo que determina o fruto comprido dominante em relação ao alelo que determina o fruto redondo. A primeira geração (F1), apresentou 100% dos frutos compridos, cujo genótipo é um heterozigoto (Rr). A geração seguinte (F2), obtida através do cruzamento de dois descendentes de F1, ou seja, Rr x Rr, irá gerar os seguintes genótipos: RR e Rr (fruto comprido) e rr (fruto redondo). A proporção é de 3:1, a cada quatro tomates, três apresentarão frutos compridos (ou 75%) e um apresentará fruto redondo (ou 25%). Esta é uma forma de apresentar os resultados, mas você pode explicar de outras formas, uma delas é realizando os cruzamentos no quadro de Punnett. Unidade 3 - Seção 3 PADRÕES CLÁSSICOS E NÃO CLÁSSICOS DE HERANÇA GÊNICA PRATICAR PARA APRENDER Conhecemos um pouco da história da genética, desde a genética clássica até a genética moderna, dos experimentos de Mendel que resultaram na primeira lei de Mendel (ou lei da segregação dos fatores) e na segunda lei de Mendel (ou lei da segregação independente). Vimos também as contribuições que a herança mendeliana trouxer para a área da saúde e o entendimento da transmissão de muitas características hereditárias, incluindo doenças, através das células. As milhares de células das quais somos formados e a habilidade que elas possuem, devido à presença do material genético, em transmitir características hereditárias de uma geração para a outra, que foi compreendida no século XX também foram assuntos estudados até o momento. Nesta seção, daremos continuidade ao estudo da herança mendeliana, compreendendo os padrões clássicos e não clássicos da herança monogênica, com enfoque no https://conteudo.colaboraread.com.br/202102/INTERATIVAS_2_0/INTRODUCAO_A_BIOLOGIA_CELULAR_E_DO_DESENVOLVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u3s2.html#resolucao%20.item-1 comportamento das interações gênicas, como eles atuam em determinadas situações e as propriedades biológicas que eles expressam. Utilizaremos muitos conceitos básicos da genética que aprendemos, como genótipo, fenótipo, cromossomos autossômicos, sexuais, genes dominantes e recessivos, além dos recursos dos heredogramas no estudo de diversas doenças e as probabilidades de ocorrência. O estudo das doenças hereditárias nos permite compreender os erros inatos do metabolismo que acabam gerando doenças metabólicas hereditárias (DMH), a compreender a genética do câncer, doenças como a fibrose cística, a fenilcetonúria, acondroplasia, anemia falciforme, dentre inúmeras outras que estudaremos adiante. E você já se perguntou alguma vez sobre a importância do sangue? Vamos conhecer as suas propriedades, como ele pode salvar vidas, sua utilização em transfusões e aprenderemos sobre o sistema sanguíneo ABO humano, os tipos sanguíneos e a influência do sistema Rh na compatibilidade entre os sangues, assim como relacionaremos o tipo sanguíneo com a herança mendeliana Com o intuito de orientar casais e famílias, entenderemos como funciona o aconselhamento genético, os diversos especialistas que trabalham auxiliando na informação e tomada de decisões ao avaliarem o risco de ocorrência ou recorrência de doenças genéticas na família, investigando o histórico familiar, traçando o fenótipo dos indivíduos, avaliando o genótipo por meio de exames, construindo assim árvores genealógicas, em muitos casos representadas por heredogramas. Para contextualizar a sua aprendizagem e discutirmos os temas desta seção com uma possível situação profissional, continuaremos com o cenário de uma clínica especializada em aconselhamento genético, da qual você faz parte da equipe composta por diversos médicos geneticistas, especialistas em biologia molecular, citogenética e bioinformatas. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), os números de doenças genéticas presentes nas famílias têm se tornado cada vez mais expressivo e há muitos avanços na área da genética médica que possibilitam a realização de exames capazes de detectar as probabilidades da ocorrência ou recorrência de uma doença hereditária na família. O casal que você vem acompanhando deseja ter mais um filho, mas tem histórico de anomalias genéticas na família e, por isso, resolveram investigar as probabilidades de terem uma gestação normal. A mulher tem 35 anos, olhos verdes e cabelos castanho-claros e lisos, aparentemente normal, teve dois filhos com o seu marido, de 38 anos, que tem olhos castanhos e cabelos castanhos e lisos, é daltônico. A primeira filha do casal, com 6 anos, é loira e tem o cabelo encaracolado, os olhos azuis e é aparentemente normal. No entanto, o segundo filho do casal é pessoa com Síndrome de Down, tem 3 anos, tem olhos castanhos e cabelos lisos e castanhos. Como C.J.N., o homem do casal, é daltônico, serão investigadas as probabilidades de os filhos do casal serem portadores ou afetados pela doença hereditária. Com base no histórico familiar, descobriu-se que o avô materno de C.J.N. também era daltônico, os avós tiveram três filhos (um menino e duas meninas, todos aparentemente normais). Uma das filhas é a mãe de C.J.N. que se casou com o pai de C.J.N., que também não são daltônicos. C.J.N. nasceu daltônico e sua única irmã realizou o teste genético e descobriu ser portadora do gene do daltonismo. A mulher de C.J.N. não apresentou o alelo recessivo para o daltonismo em seu genótipo. Os dois filhos de C.J.N. não são daltônicos, no entanto, há probabilidade do terceiro filho, caso seja um menino, herdar do pai o daltonismo. Diante desta situação, como você construiria o heredograma deste casal, tomando como base o histórico familiar de C.J.N., para demonstrar a probabilidade do terceiro filho do casal ser portador ou afetado pelo daltonismo? E como explicar o fato dos pais de C.J.N. não serem daltônicos e ele ter nascido com esta doença hereditária? No caso da Síndrome de Down, foi constatado que se trata de uma doença genética não hereditária, como você explicaria esta ocorrência na família? A família pode ser comparada a uma enorme árvore, com diversos galhos, cada um crescendo em direções diferentes, mas todos eles têm a mesma raiz e o mesmo tronco. Qualquer interferência que estas raízes ou tronco sofram pode ser espelhada para todos os demais galhos da árvore. De uma forma metafórica, para os geneticistas procuram explicações para compreender a genética de uma família, devem buscar a informação na origemdos descendentes, estudar as ramificações dos galhos, ou seja, as gerações anteriores e subsequentes, para compreender como os genes de algumas doenças se comportam e podem ser transmitidos para as gerações futuras. CONCEITO-CHAVE A herança mendeliana é composta por princípios que buscam explicar a transmissão hereditária de uma característica para os seus descendentes. Vimos que Mendel ficou conhecido como o pai da genética clássica, sendo o precursor de várias teorias genéticas. No entanto, estudamos que nem todas as doenças genéticas são hereditárias, e que há várias formas distintas de doenças hereditárias que seguem os padrões clássicos e os padrões não clássicos da herança mendeliana, os quais vamos compreender um pouco mais durante o nosso estudo. 1. ERROS INATOS DO METABOLISMO Os distúrbios genéticos, os quais correspondem, geralmente, a um defeito em uma enzima (proteína específica) produzida pelo organismo, podendo gerar a interrupção de alguma via metabólica, prejudicando portando a degradação, síntese, transporte ou armazenamento de moléculas em nosso organismo, ou de qualquer ser vivo, são conhecidos como erros inatos do metabolismo (EIM). Quando um alimento não é metabolizado corretamente, para gerar energia, pode ocorrer o acúmulo de substâncias intermediárias no organismo que podem causar o comprometimento de processos celulares, ou ainda gerar vários problemas de saúde para o indivíduo com EIM, como atrasos no desenvolvimento, por exemplo. Considerados a causa de doenças metabólicas hereditárias (DMH), os erros inatos do metabolismo representam aproximadamente 10% das doenças genéticas existentes. As DMH são doenças que podem se manifestar em qualquer idade, afetando todo o organismo. Muitas vezes, por possuírem manifestações clínicas não específicas, e serem mais raras, o diagnóstico é mais difícil. As doenças hereditárias do metabolismo são causadas por mutações em um ou vários genes, responsáveis por um determinado processo metabólico, a transmissão nestes casos pode ser mendeliana ou mitocondrial, geralmente são de herança autossômica recessiva. Os erros inatos do metabolismo têm várias classificações, a de maior aplicação clínica adotada é a classificação em duas categorias: ● Categoria 1: alterações que afetam apenas um órgão ou um sistema orgânico, os sintomas são uniformes e o diagnóstico é um pouco mais fácil. Podemos exemplificar com o sistema imunológico, os fatores de coagulação, os túbulos renais, eritrócitos, entre outros. ● Categoria 2: engloba grande diversidade, são as doenças cujo defeito bioquímico acaba comprometendo uma via metabólica utilizada por diversos órgãos (doenças lisossomais) ou restrita a um único órgão (hiperamonemia), com manifestações humorais e sistêmicas. O tratamento terapêutico para s DMH depende do erro inato do metabolismo que gera a doença, o acúmulo da substância que não está sendo sintetizada e o desequilíbrio bioquímico causado. O controle geralmente é permanente, por meio de dietas, e em alguns casos é necessário transplante de medula óssea ou reposição de enzimas, sendo indispensável o aconselhamento familiar para conhecer o prognóstico do paciente e verificar a probabilidade de recorrência da doença. 2. GENÉTICA DO CÂNCER Uma das doenças genômicas com maior causa de mortes no mundo é o câncer, ocasionada por uma sucessão de alterações no material genético das células normais que, como consequência das transformações sofridas, se tornam malignas. A reação carcinogênica pode ser resultado de múltiplas etapas, envolvendo diversos genes, podendo estar relacionado a mutações gênicas e cromossômicas, com quebras, perdas, duplicações, translocações, com instabilidade genômica e mecanismos epigenéticos, em que os principais genes envolvidos são os proto-oncogenes, que são supressores de tumor, podendo se tornar um oncogene, desenvolvendo um câncer. Nossas células estão programadas para se desenvolver, crescer, se diferenciar e morrer, recebendo estímulos e sinais internos e externos, e qualquer evento que cause o desequilíbrio deste processo, desde os estímulos ao bloqueio da multiplicação celular, pode levar ao desenvolvimento de um câncer. O diagnóstico dos genes envolvidos no câncer auxilia na compreensão acerca da doença, facilitando o tratamento. Os geneticistas têm desenvolvido várias estratégias para conter o câncer, e uma delas já estudadas por nós, é a morte celular programada ou apoptose. A genética do câncer pode ainda ser hereditária, são afecções genéticas que se tornam mais comuns em indivíduos da mesma família. A transmissão das neoplasias malignas ocorre de uma geração para a outra (transmissão vertical), sendo observado o padrão de herança mendeliano, geralmente autossômico dominante, com 50% de transmissão para os descendentes em cada gestação, não importando o sexo. ASSIMILE Quando falamos em doenças genéticas e doenças hereditárias precisamos saber que há diferenças entre estes dois termos. As doenças genéticas ocorrem a partir de uma mutação ou erro no material genético, podendo surgir pela primeira vez em uma família sem histórico, como é o caso da Síndrome de Down. Já as doenças hereditárias, também genéticas, apresentam uma tendência de um indivíduo ter a doença, já que pode ser herdada através de gerações. Isso não significa, necessariamente, que o indivíduo terá a doença, ele pode possuir um gene da doença e não apresentar sintomas (portador), como pode possuir o gene e expressar a doença (afetado). 3. GENÉTICA DOS GRUPOS SANGUÍNEOS ABO O sistema ABO, composto pelos diferentes tipos sanguíneos humanos, foi descoberto por Karl Landsteiner no século XX. De grande importância para a medicina, permitiu compreender os princípios para a transfusão de sangue, auxiliando no salvamento de inúmeras vidas. Os tipos sanguíneos humano são codificados por três alelos múltiplos (IA, IB e i), que podem se combinar de seis diferentes tipos, determinando o tipo sanguíneo. Há uma codominância entre os alelos IA e IB, isso significa que ambos os alelos se expressam, ao mesmo tempo que há dominância destes dois alelos sobre o alelo i. Desta forma, os fenótipos e genótipos dos grupos sanguíneos são expressos da seguinte forma, como demonstrado no Quadro 3.1: Quadro 3.1 | Grupos sanguíneos ABO Fenótipo Genótipo Antígeno Anticorpo A IAIA e IAi a Anti-b B IBIB e IBi b Anti-a AB IAIB a e b - O ii - Anti-a e Anti-b Fonte: elaborado pela autora. Cada fenótipo de um grupo sanguíneo é caracterizado pela ausência ou presença de aglutinogênio (antígeno) e aglutinina (anticorpo), assim, um indivíduo com fenótipo A, possui aglutinogênio (proteínas presentes na membrana plasmática das hemácias) a, e aglutinina (anticorpo presente no plasma) anti-b, o indivíduo tipo O, não possui aglutinogênio e possui anticorpo anti-a e anti-b. Com isso, é possível testar o sangue antes de realizar uma transfusão, e é o que determina o princípio da transfusão de sangue, em que pode ser transferida uma certa quantidade total de sangue ou somente alguns de seus componentes, tais como plasma, plaquetas, leucócitos, hemácias, etc. EXEMPLIFICANDO Indivíduos com sangue tipo A possuem aglutinina anti-B no plasma e podem receber sangue do tipo A e do tipo O, não podendo receber sangue do tipo B e AB, porque nestes tipos sanguíneos são encontrados aglutinogênio B, causando incompatibilidade sanguínea. Nesse caso, as hemácias que são recebidas através da doação irão se aglutinar, formando aglomerados compactos que impedem a circulação do sangue. O tipo sanguíneo considerado receptor universal é o tipo AB, e o doador universal é o tipo sanguíneo O. No sangue humano podemos encontrar outros antígenos, como o denominado sistema MN, com antígenos M, antígenos N e antígenos MN, não havendo dominância entre eles ou restrições quanto à transfusão sanguínea. E o sistema Rh, determinado por um par de alelos R (dominante) e r (recessivo), com dominância completa. Os indivíduos que não possuem antígeno Rh, são consideradas com fator Rh- (negativo), e osindivíduos que possuem hemácias que se aglutinam, com antígeno Rh, são considerados com fator Rh+ (positivo). Desta forma, o fator Rh também é importante ser considerado nas transfusões sanguíneas, uma vez que pode haver incompatibilidade. O tipo O- (negativo) pode ser doado para todos os tipos de sangue, no entanto só pode receber do mesmo tipo que o seu. Já o tipo AB+ (positivo) pode receber todos os tipos de sangue, mas só pode doar para o mesmo tipo que o seu. Veja a distribuição em destaque no Quadro 3.2. Quadro 3.2 | Compatibilidade sanguínea para doação Tipo sanguíneo Pode doar para Pode receber de A+ AB+ e A+ A+, A-, O+ e O- A- A+, A-, AB+ e AB- A- e O- B+ B+ e AB+ B+, B-, O+ e O- B- B+, B-, AB+ e AB- B- e O- AB+ AB+ Todos AB- AB+ e AB- A-, B-, O- e AB- O+ A+, B+, O+ e AB+ O+ e O- O- Todos O- Fonte: elaborado pela autora. Os efeitos da consanguinidade ou endogamia (cruzamento de indivíduos com certo grau de parentesco) são muito altos, quando são estudados padrões de heranças de anomalias recessivas, uma vez que casais consanguíneos têm maior probabilidade de ter filhos homozigotos. A endogamia aumenta a semelhança dos indivíduos, podendo reduzir a fertilidade, sobrevivência, crescimento e aumentar as taxas de transmissão de doenças genéticas e infecções de outras doenças. O grau de consanguinidade depende do grau de parentesco do cruzamento, podendo ser ascendente, incluindo pais, avós, bisavós, ou descendentes, incluindo filhos, netos e bisnetos. Ou ainda, transversal, incluindo irmãos, tios, primos, dentre outros. Quanto mais próximo o grau de parentesco, maiores são os riscos de efeitos negativos. 4. PADRÕES CLÁSSICOS E NÃO CLÁSSICOS DE HERANÇA MONOGÊNICA Os padrões clássicos da herança monogênica, ou seja, herança determinada por um único gene, podem ser autossômicas ou ligadas ao cromossomo X, dominantes ou recessivas. Seguem a lei da segregação mendeliana, sempre em proporções fixas, e são expressos geralmente por heredogramas. REFLITA Na herança dominante, o alelo normal é recessivo, enquanto o alelo mutante é dominante. E na herança recessiva o que deve ocorrer? É importante saber que quando uma pessoa é designada como portadora do gene ou doença, significa que este indivíduo não tem a doença, ele tem o gene mutado e poderá transmiti-lo para os seus descendentes. No entanto, quando dizemos que uma pessoa é afetada, ela não só possui a doença, como apresenta sintomas dela. No caso da herança autossômica dominante, o fenótipo é notado em todas as gerações de uma família e todo indivíduo afetado possui um genitor afetado. Dominantes puros são muito raros. O risco de um filho de um genitor afetado herdar o fenótipo e ser afetado é de 50%, independente do sexo de ambos os genitores ou dos filhos, e de 50% do filho não receber o gene mutado. Os genitores com fenótipos normais não transmitem para seus descendentes o fenótipo EXEMPLIFICANDO A acondroplasia (um tipo de nanismo), a polidactilia (alteração quantitativa no número de dedos das mãos ou dos pés, gerando um aumento na quantidade de dedos), assim como a doença de Huntington (doença neurodegenerativa do cérebro, causa perda de coordenação motora, demência progressiva e alterações psicológicas), dentre outras, são exemplos de distúrbios autossômicos dominantes. A herança autossômica recessiva é caracterizada pela anomalia afetar na mesma proporção os indivíduos de ambos os sexos. Os genitores, neste caso, raramente são afetados, e os genitores de um indivíduo afetado têm 25% de probabilidade de gerar outro filho afetado, 50% de chance de gerar um filho portador do gene, sem ser afetado pela doença, e outros 25% de probabilidade de o filho não receber genes mutados. Um casal afetado gera somente filhos afetados, já casais compostos por um afetado e um não afetado, geralmente geram filhos não afetados. As doenças recessivas são mais surpreendentes para as famílias, pois geralmente os pais de um filho afetado são portadores não afetados e a doença muitas vezes não aparece por várias gerações. Algumas doenças conhecidas são o albinismo, a anemia falciforme e a fibrose cística. As heranças monogênicas ligadas ao sexo também podem ser dominantes ou recessivas. Como veremos, este padrão de herança é mais complexo, porque tanto o sexo dos pais quanto dos filhos influencia na transmissão da doença. ASSIMILE As mulheres têm dois cromossomos X, e os homens têm um cromossomo X e outro Y. Quando um casal tem um filho, a mulher sempre irá transmitir um cromossomo X e o pai poderá transmitir um cromossomo X (gerando uma filha mulher) ou um cromossomo Y (gerando um filho homem). Em geral, como as doenças ligadas ao cromossomo X são transmitidas pelo próprio cromossomo X, os homens são afetados e as mulheres são portadoras, no entanto não são afetadas. As mulheres portadoras acabam transmitindo a doença para os seus filhos homens. No caso da dominância, quando a mulher é afetada e o homem não afetado, os filhos do casal têm 50% de chance de herdar o fenótipo da doença. Já no caso do homem afetado e a mulher não afetada não geram filhos homens afetados, e as filhas são afetadas. Como exemplo podemos citar o raquitismo hipofostatêmico. Na herança recessiva ligada ao sexo, a incidência da doença em homens é superior. O cruzamento entre um homem afetado e uma mulher não afetada, o homem transmite o cromossomo X afetado para todas as suas filhas mulheres, que serão portadoras. Já os filhos homens serão todos não afetados. Quando ocorre o cruzamento de um casal, em que o homem é não afetado e a mulher portadora, a probabilidade é de 50% de chance de os filhos homens serem afetados e as filhas mulheres serem portadoras. Podemos citar como exemplo, a hemofilia. Dentre as heranças ligadas ao sexo, há também a herança restrita ao sexo, relacionadas ao cromossomo Y, conhecidas também por genes holândricos. Os genes holândricos são herdados de pai para filho, como a hipertricose (doença que apresenta pelos longos e grossos na orelha masculina). Há também as heranças influenciadas pelo sexo, que podem ser expressas em ambos os sexos, no entanto elas se comportam de formas diferentes, como a calvície (caracterizada pela perda gradual de cabelo), o gene é dominante nos homens e recessivo nas mulheres. Os padrões não clássicos da herança mendeliana são considerados variações às regras de Mendel, envolvendo a interação de alelos de um único gene. A sequência de um gene pode ser alterada de diferentes modos, cada forma produzindo um alelo mutante. Algumas destas variações mendelianas já foram citadas, como é o caso de codominância, em que dois alelos diferentes podem ser expressos simultaneamente quando estão presentes, o conjunto dos dois alelos irá expressar o fenótipo do indivíduo, como ocorre no sistema sanguíneo ABO. A dominância incompleta é uma outra variável de expressão, quando dois alelos produzem um fenótipo intermediário quando ambos estão presentes, desta forma nenhum deles determina o fenótipo completamente, como ocorre quando há dominância completa. Um exemplo é o que ocorre com a espécie de plantas, conhecida como boca-de-leão: há uma planta homozigota que produz flores vermelhas e outra planta homozigota que produz flores brancas, mas quando a planta é heterozigota, ao invés de um pigmento ser dominante em relação ao outro, ocorre a expressão de uma nova coloração, já que há a expressão dos pigmentos bancos e rosas em proporções menores, o heterozigoto expressa a cor rosa, caracterizada pela dominância incompleta (Figura 3.6). Quando Mendel em seus estudos priorizou dois alelos dos genes das ervilhas, observou que muitos genes são determinados por alelos múltiplos (ou também conhecido por polialelia), para determinar uma característica, como vimos no sistema sanguíneo ABO, em que os três alelos múltiplos (IA, IB e i) determinam um único gene, assim como o que determina a pelagem dos coelhos, em que são observados quatro tipos de genes alelos (C – expressa a cor da pelagem marrom ou cinza escuro, do coelho aguti ou selvagem;Cch – expressa a cor da pelagem cinza prateada, do coelho chinchila; Ch – expressa a cor da pelagem branca com algumas regiões do focinho e patas escuras, do coelho himalaia; e, por fim, Ca – expressa a cor da pelagem completamente branca, do coelho albino). Mas é importante ressaltar, que neste caso de alelos múltiplos há uma dominância entre os alelos, no caso da pelagem, a dominância pode ser expressa da seguinte forma: C > Cch > Ch > Ca. Figura 3.6 | Dominância incompleta na espécie boca-de-leão Nota: Na planta boca-de-leão, o heterozigoto é rosa, intermediário entre os dois homozigotos, o vermelho e o branco. O heterozigoto rosa demonstra dominância incompleta. Fonte: Griffiths et al. (2016, p. 194). Há variações em que os genes possuem alelos que impedem a sobrevivência do indivíduo homozigoto ou heterozigoto, mas como assim impede a sobrevivência? Na acondroplasia ou nanismo, que é ocasionada por uma mutação genética, os indivíduos apresentam pernas e braços mais curtos em relação ao tronco e a cabeça. Para esta doença, quando os genes aparecem em homozigose dominante, ocorre a morte do embrião antes mesmo do nascimento, chamado de genes letais. Caso o gene expresse apenas um alelo, ocorre o nanismo. Quando várias características diferentes são afetadas por um par de alelos (gene), diferenciando das interações gênicas em que, em geral, vários genes determinam uma única característica, chamamos de pleiotropia. Nos humanos, podemos exemplificar a pleiotropia com a doença fenilcetonúria, caracterizada por uma falha cromossômica na tradução de uma enzima que auxilia no metabolismo do aminoácido fenilalanina no fígado, provocando diminuição na capacidade intelectual do indivíduo, diminuição da pigmentação da pele, assim como diminuição na quantidade de pelos. A anemia falciforme, que atinge os glóbulos vermelhos, provocando uma alteração anatômica e acarretando uma série de problemas, também é considerada uma pleiotropia. Outras variações da herança mendeliana são observadas, como a penetrância, expressividade, heterogeneidade alélica, e todas elas têm características distintas do comportamento dos alelos de um gene. Dentre os padrões clássicos e não clássicos da herança mendeliana, é importante aos casais que são portadores, afetados ou possuem casos de doenças genéticas na família procurar auxílio médico, por meio do aconselhamento genético, para serem orientandos caso desejem ter filhos. 5. ACONSELHAMENTO GENÉTICO O processo que avalia os riscos, a ocorrência ou recorrência de doenças genéticas em uma família é realizado por especialistas em genética clínica por meio do aconselhamento genético. O profissional que acompanha a pessoa ou casal que pretende ter filhos solicita vários exames, incluindo testes genéticos e exames de cromossomos, com o intuito de verificar a probabilidade de ocorrência de uma doença genética na família, de forma a orientar em possíveis tratamentos ou opções para conduzir o problema. É possível verificar as possibilidades de os pais transmitirem alguma malformação ou patologia para o futuro bebê. Além dos exames solicitados, é feito um levantamento do histórico familiar, para verificar a herança de uma doença genética e a probabilidade de ela ocorrer. Mas todo mundo deve fazer o aconselhamento genético antes de ter um filho? Não é necessário. O aconselhamento genético é indicado em algumas situações como por casais consanguíneos, que aumentam o risco de gerar uma criança com algum distúrbio genético, ou casais com histórico familiar de doenças genéticas, suspeitas de câncer hereditário, em casos de repetidos abortos ou infertilidade. Quando algum risco é detectado não significa que o casal não poderá ter filhos, mas serão orientados aos riscos, em alguns casos são indicados tratamentos ou somente precauções e, em outros, o teste pode detectar por exemplo doenças para as quais ainda não há cura e que poderão ser desenvolvidas somente com uma idade mais avançada. Assim, caberá aos pais tomar a difícil decisão, uma vez que o aconselhamento genético procura entender as opções perante o risco da doença que a família possui, diante dos objetivos familiares e prestar auxílio. É importante que os profissionais diferenciem no diagnóstico o que é genético e o que é hereditário. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO: PADRÕES CLÁSSICOS E NÃO CLÁSSICOS DE HERANÇA GÊNICA SEM MEDO DE ERRAR Com os conhecimentos adquiridos no decorrer da seção já é possível resolvermos a situação hipotética apresentada. Vamos relembrá-la? Você, como funcionário de uma clínica especializada em aconselhamento genético, está acompanhando um casal, que já tem dois filhos e está planejando ter mais um. Como C.J.N., o homem do casal, é daltônico, foram investigadas as probabilidades de os filhos do casal serem portadores ou afetados pela doença hereditária. De acordo com o histórico familiar, descobriu que o avô materno de C.J.N. também era daltônico. Os avós tiveram três filhos (um menino e duas meninas, todos aparentemente normais). Uma das filhas é a mãe de C.J.N. que se casou com o pai de C.J.N., que também não são daltônicos. C.J.N. nasceu daltônico e sua única irmã realizou o teste genético e descobriu ser portadora do gene do daltonismo. A mulher de C.J.N. não apresentou o alelo recessivo para o daltonismo em seu genótipo. Diante desta situação, como você construiria o heredograma deste casal, tomando como base o histórico familiar de C.J.N., para demonstrar a probabilidade de o terceiro filho do casal ser portador ou afetado pelo daltonismo? E como explicar o fato dos pais de C.J.N. não serem daltônicos e ele ter nascido com esta doença hereditária? No caso da síndrome de Down de um dos filhos do casal, foi constatado que se trata de uma doença genética não hereditária, então, como você explicaria esta ocorrência? O daltonismo é um distúrbio ou anomalia visual, caracterizado pela dificuldade ou alteração na capacidade de o indivíduo distinguir determinadas cores, principalmente as cores verde e vermelho. A mutação ocorre em genes encontrados na parte homóloga do cromossomo X, sendo assim uma condição genética hereditária recessiva, é uma herança ligada ao sexo ou ao cromossomo X. Cabe lembrar que, para a mulher apresentar o daltonismo ela precisa necessariamente possuir dois alelos com mutação em homozigose, diferentemente dos homens, que bastam apresentar um alelo recessivo com a mutação herdada da mãe, uma vez que eles apresentam somente um cromossomo X. Veja o quadro 3.3. Quadro 3.3 | O fenótipo e genótipo para o daltonismo Indivíduo Genótipo Fenótipo ♀ XDXD ou XDXd Visão normal ♀ XdXd Daltônico ♂ XDY Visão normal ♂ XdY Daltônico Nota: O alelo dominante é o D, corresponde à visão normal, e o alelo recessivo é o d, correspondente ao daltonismo. Fonte: elaborado pela autora. Figura 3.7 | O heredograma Fonte: elaborada pela autora. A mãe de C.J.N. é portadora do gene para o daltonismo, no entanto ela não é afetada. Ela transferiu o alelo recessivo do daltonismo para C.J.N., e ele acabou sendo afetado pelo distúrbio. Por se tratar de uma herança ligada ao cromossomo X, todas as filhas mulheres que o casal tiver receberão o alelo recessivo do daltonismo, sendo portadoras do distúrbio, podendo transferir esta herança para as gerações seguintes. No entanto, como a mulher de C.N.J. não é portadora do alelo recessivo para daltonismo, todos os filhos homens que o casal vier a ter não serão afetados pelo distúrbio. Já a síndrome de Down, também conhecida como trissomia do 21, é causada pela presença de um cromossomo extra no par 21. Esta condição genética pode ocorrer com indivíduos 100% saudáveis em qualquer idade, é originada a partir de erros no processo de divisão celular, são raros os casos em que esta doença é causada por uma herança genética do tipo translocação Robertsoniana. Um dos riscos que aumentam as chances de uma criança nascer com a síndrome de Down está relacionada com a idade materna: a partir dos 35 anos, as chances de alterações cromossômicas se tornam maiores, mas atualmentehá um aumento de mulheres que decidem ter filhos após os 35 anos e já existem outros exames e acompanhamentos para o sucesso da gravidez e o diagnóstico precoce de qualquer alteração cromossômica que possa acontecer. Como o casal não foi diagnosticado portadores da translocação Robertsoniana, é difícil predizer a probabilidade de um futuro filho do casal ser afetado novamente pela síndrome. Para isso, são necessários outros exames e dar continuidade ao acompanhamento de especialistas durante a gestação. Finalizamos assim mais um desafio proposto, parabéns! Lembrando que este é apenas um exemplo de como você poderia agir diante desta situação. AVANÇANDO NA PRÁTICA A DOENÇA HEMOLÍTICA DO RECÉM-NASCIDO Em um hospital do interior de uma pequena cidade, M.S.A. dá à luz a um bebê. O parto foi de risco, mas felizmente o bebê e a mãe não correm risco de vida. É o segundo filho de M.S.A e por falta de informação e acompanhamento médico durante a gravidez, o bebê nasceu com icterícia (coloração amarela da pele devido a um aumento na concentração de bilirrubina no sangue) e anemia grave (baixo conteúdo de hemoglobina, que diminui a capacidade de transporte de oxigênio no corpo), o que fará com que os médicos mantenham o bebê em observação por um período maior. Os funcionários da área da saúde presentes no hospital iniciam uma investigação breve relacionada ao histórico da paciente e verificam que o bebê nasceu com a doença hemolítica do recém-nascido. Como você explicaria o ocorrido? Considerando que M.S.A. deu à luz ao segundo filho, qual a relação com a tipagem sanguínea e a incompatibilidade de Rh? RESOLUÇÃO Para resolver esta situação-problema você deve se recordar que a doença hemolítica do recém-nascido ou eritroblastose fetal é caracterizada pela incompatibilidade do sangue da mãe com o sangue do feto, ocorrendo a degradação ou destruição dos glóbulos vermelhos do feto pelos anticorpos da mãe. Esta incompatibilidade ocorre quando a mãe possui tipo sanguíneo Rh negativo, ou seja, a hemácia dela não apresenta a proteína conhecida como antígeno D; e o bebê possui tipo sanguíneo Rh positivo, com a presença deste antígeno. Quando há contato do sangue da mãe com o sangue do bebê, a mulher recebe hemácias do bebê, contendo antígenos, passando a produzir através do sistema imunológico anticorpos anti-Rh, que irão “defender” a mãe da proteína estranha do bebê, considerada como uma espécie de vírus. No caso da mãe, não há nenhum problema, pois ela irá criar uma sensibilização no corpo dela, ou seja, os anticorpos criados estarão presentes para “protegê-la”, e em alguns dias o sangue do feto, ou bebê será automaticamente retirado da circulação sanguínea dela. Durante a primeira gravidez o bebê, mesmo sendo Rh positivo, não é afetado, mas no momento do parto a mãe teve contato com o sangue do bebê e ficou sensibilizada, produzindo anticorpos anti-Rh. Por isso, a segunda gestação pode ser de risco e o bebê pode desenvolver a eritroblastose fetal, uma vez que a mãe já produziu anticorpos anti-Rh, https://conteudo.colaboraread.com.br/202102/INTERATIVAS_2_0/INTRODUCAO_A_BIOLOGIA_CELULAR_E_DO_DESENVOLVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u3s3.html#resolucao%20.item-1 que podem atravessar a placenta, promovendo a aglutinação das hemácias do feto. Esta doença pode ser evitada e controlada com diagnósticos durante a gestação do tipo sanguíneo da mãe, e em algumas situações do pai. Há medidas preventivas como a aplicação de injeções de imunoglobulina durante ou após a gestação, e quando detectada a tempo, é possível realizar a transfusão de sangue para o feto antes do nascimento, ou em alguns casos após o nascimento. Unidade 4 - Seção 1 FECUNDAÇÃO, PRIMEIRA E SEGUNDA SEMANAS DO DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO CONVITE AO ESTUDO Prezado aluno, seja bem-vindo! Estamos chegando em nossa última etapa da disciplina Introdução à Biologia Celular e do Desenvolvimento. Até aqui pudemos conhecer um pouco da citologia e sua importância, desvendando a estrutura e a composição das células, como elas funcionam e o porquê de elas serem a unidade fundamental da vida. Estudamos também um pouco sobre a genética, para compreendermos como é estrutura do material genético que caracteriza os diferentes tipos de organismos, e o mecanismo de transmissão deste material de uma geração para a outra. Vimos ainda como ocorre a hereditariedade das características e o comportamento da expressão gênica em diferentes situações, de forma que seja possível, por meio destes estudos e do desenvolvimento de tecnologias, a prevenção e o tratamento de doenças. Mas, afinal, como ocorre o desenvolvimento dos organismos vivos? Nós vimos que os seres vivos que se reproduzem de forma sexuada, passam pelos processos de divisão celular (mitose e meiose) e a partir da gametogênese e espermatogênese são formados os gametas femininos e masculinos, respectivamente. Partiremos deste ponto, que será o tema desta unidade, para conhecer um pouco sobre a embriologia básica. Embriologia se refere ao estudo do processo de desenvolvimento de embriões, compreende o processo desde a fecundação (união dos gametas femininos e masculinos – zigoto) até a formação dos seres vivos. Acompanha e analisa os estágios do organismo, todas as mudanças que compõem o cenário evolutivo embrionário até o momento do parto. Durante o desenvolvimento, é possível identificar possíveis anormalidades ou doenças congênitas, ocasionadas por fatores genéticos ou ambientais, que impedem a evolução normal do feto. Compreender os eventos da embriologia auxilia na otimização do conhecimento das alterações pelas quais o corpo passa, compreendendo as mudanças que são geradas ao feto, de modo a diminuir os riscos na gestação. A embriologia compreende algumas especialidades, como a embriologia humana (dedicada ao estudo de embriões humanos), embriologia comparada (dedicada ao estudo de embriões de espécies animais diversificadas, de forma comparativa) e a embriologia vegetal (dedicada ao desenvolvimento das plantas). Nesta unidade, abordaremos as etapas do desenvolvimento embrionário humano, conhecendo passo a passo os principais eventos e transformações pelas quais o embrião passa, desde a sua origem até a fase do nascimento. Você será capaz de identificar e diferenciar cada uma das etapas, semana a semana do desenvolvimento, da primeira à nona semana, incluindo os anexos embrionários e a formação da placenta. Na Seção 4.1, abordaremos o processo de fecundação e o início dos eventos que ocorrem nas duas primeiras semanas do desenvolvimento embrionário. Na sequência, a Seção 4.2 abordará o desenvolvimento do embrião da terceira à oitava semana, elencando os principais eventos e formação de estruturas e folhetos embrionários. Para finalizarmos, na Seção 4.3, conheceremos as transformações da última etapa do desenvolvimento embrionário, da nona semana ao nascimento, e algumas estruturas importantes como a placenta e as membranas fetais. Vamos juntos desvendar este fascinante mundo que origina a vida? Bons estudos! Para que uma nova vida seja gerada é necessário que uma série de etapas sejam percorridas e bem-sucedidas. A fecundação marca o início do desenvolvimento embrionário, mas ela só ocorre quando há o encontro de um óvulo maduro e saudável com um espermatozoide que consiga penetrar nesse óvulo, seja de forma natural, através da relação sexual, seja através de técnicas de reprodução assistida, como a fertilização in vitro ou a inseminação artificial. São milhões de espermatozoides e somente um deles será capaz de dar início a uma nova vida. As duas primeiras semanas de desenvolvimento são marcadas por vários eventos e alterações das células – nesse estágio, na maioria dos casos, a mulher ainda não sabe que está grávida. A embriologia trouxe uma infinidade de benefícios, permitindo a identificação de possíveis anomalias que possam ocorrer durante o desenvolvimento e doenças genéticas, diminuindo com isso a probabilidade de riscos durante a gestação, tanto para a mãe quanto para o feto. Além disso, a ciência permitiuque mulheres pudessem engravidar por meio de técnicas especializadas, quando a fecundação natural não é possível. As células-tronco embrionárias são de grande interesse da área médica, visto que elas têm grande capacidade de se tornar outros tipos celulares, por serem pluripotentes com capacidade de se multiplicar. Caro aluno, você consegue imaginar a complexidade de eventos que são necessários para que a fecundação ocorra? Quantas etapas são necessárias? E o que ocorre nas duas primeiras semanas do desenvolvimento embrionário? Nesta seção, daremos foco ao desenvolvimento humano, descrevendo os principais eventos que ocorrem para que a fecundação seja bem-sucedida e o zigoto seja gerado. Todas as transformações pelas quais o zigoto passará durante a clivagem, a formação do blastocisto até o início de sua implantação no útero, caracterizando a primeira semana do desenvolvimento. Já a segunda semana é caracterizada pela implantação completa do blastocisto que irá se desenvolver para formar o futuro bebê. Esta fase é marcada ainda pela formação e pelo desenvolvimento de algumas estruturas consideradas anexos extraembrionários, que irão desempenhar diferentes funções para o desenvolvimento do embrião. Caso ocorra algum problema na implantação do blastocisto, quais são as consequências? Como evitar a implantação, para que não ocorra uma gravidez? A embriologia nada mais é do que o estudo e o acompanhamento de todas as etapas do desenvolvimento dos embriões, desde quando ocorre a fecundação até a formação de uma nova vida. No entanto, a natureza sozinha às vezes não consegue iniciar uma nova vida e graças à tecnologia e às pesquisas, hoje, muitos casais, mulheres que desejam ter uma gestação independente, entre outros casos – como de indivíduos que desejam ser pais em um futuro, mesmo com a idade mais avançada, e optam por congelar os gametas –, podem ser auxiliados pela medicina, através da reprodução assistida. Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a reprodução assistida vem crescendo no Brasil e em 2018 foram realizados 43.093 ciclos de fertilização in vitro, resultando em um crescimento de 18,7% na realização de procedimentos (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2019). Um casal, ambos com mais de 35 anos, apresenta dificuldade para engravidar há mais de dois anos de tentativas. Após fazerem uma série de exames, investigarem a fertilidade de ambos, foram instruídos a realizar uma fertilização in vitro, para alcançar o sonho de ter um bebê. Apesar de ser uma das técnicas de reprodução assistida mais eficazes, ainda assim não é possível garantir que a gravidez ocorrerá. Apesar de as chances serem grandes nessa técnica, o sucesso depende da implantação do embrião. Imagine que você, como profissional da saúde, trabalha para a clínica especializada em reprodução humana utilizando técnicas de reprodução assistida, com médicos e especialistas altamente qualificados. O casal procura pela clínica e inicia o procedimento para a FIV (fertilização in vitro). Como você explicaria a relação entre a endometriose detectada na mulher e a indicação da técnica FIV ao invés da inseminação artificial? Em qual caso seria usada a técnica de inseminação artificial? Realizado o processo de fertilização dos gametas, o embrião fica em incubadora sendo acompanhado por 3 a 5 dias até ser transferido para o útero. O que ocorre durante este período com o embrião? Vamos continuar ampliando os nossos conhecimentos e compreender o fenômeno que inicia a geração de uma nova vida. CONCEITO-CHAVE O desenvolvimento embrionário humano é composto por uma série de eventos coordenados para produzir um bebê saudável após semanas de gestação. A primeira semana de desenvolvimento embrionário é marcada por muitas mudanças físicas e bioquímicas no corpo feminino. A gestação depende de acontecimentos prévios, para que o corpo crie um ambiente ideal para que ocorra a fecundação e a implantação do zigoto, o futuro feto. Você se lembra da formação dos gametas? Ao final da espermatogênese, através da meiose, são formados os gametas masculinos (espermatozoides), e ao final da ovogênese, é formado o gameta feminino (óvulo). A ovulação no corpo da mulher é marcada pelo seu período fértil, em que um ovócito secundário (presente na metáfase da segunda divisão meiótica), também chamado de óvulo, é liberado pelo ovário. O óvulo, quando liberado, migra em direção ao útero, por meio das contrações da tuba uterina, pois esta célula não tem estruturas locomotoras como os espermatozoides. O percurso do óvulo até o útero leva em torno de oito dias. Quando o óvulo maduro, geralmente ainda na tuba uterina, entra em contato com um espermatozoide e este consegue nele penetrar, ocorre a fecundação, o começo de uma possível gravidez. 1. FECUNDAÇÃO A fecundação ou fertilização marca o início da primeira semana do desenvolvimento humano. O processo ocorre com o encontro do óvulo e do espermatozoide, através da relação sexual (quando ocorre de forma natural), quando os milhares de espermatozoides lançados por meio da ejaculação dentro do corpo da mulher percorrem o útero até a tuba uterina para encontrar o óvulo, e apenas um deles irá conseguir penetrar no óvulo (salvo os casos de gêmeos). REFLITA Para penetrar no óvulo, os espermatozoides contam com a sua estrutura, o acrossomo, se lembra dela? Essa estrutura possui enzimas digestivas que auxiliam na decomposição da membrana externa do ovócito (zona pelúcida) permitindo a penetração no óvulo.s A célula haploide do espermatozoide se junta à célula haploide do ovócito, formando o zigoto (célula diploide, contendo cromossomos maternos e paternos), ou o início da formação de um novo ser, encerrando a fertilização. Todo este processo, apesar de rápido, é complexo e envolve várias fases, vamos conhecê-las a seguir. A primeira fase é marcada pela passagem do espermatozoide através das células da corona radiata do oócito ou óvulo. Nesta fase, o óvulo é liberado junto de uma camada que o envolve, a corona radiata, que emite sinais químicos responsáveis por atrair os espermatozoides até o óvulo. O primeiro obstáculo do espermatozoide é atravessar esta camada, assim, o acrossomo libera enzimas que são auxiliadas por enzimas liberadas pela mucosa da tuba uterina e juntamente com os movimentos da cauda do espermatozoide provocam a movimentação das células da corona, permitindo que o espermatozoide entre em contato com a zona pelúcida. É iniciada a segunda fase, a penetração da zona pelúcida. A zona pelúcida é uma camada glicoproteica, que protege o óvulo envolvendo a sua parte externa, esta camada não contém células. Para penetrar nesta camada, o acrossomo libera enzimas como a acrosina, neuraminidase e esterase, e juntas estas enzimas causam a lise da zona pelúcida, permitindo a penetração do espermatozoide ao alcance do óvulo. ATENÇÃO Assim que um espermatozoide penetra na zona pelúcida, ela impossibilita a penetração de outros espermatozoides, uma vez que se torna impermeável, formando a membrana de fecundação. Após a penetração do espermatozoide, ocorre a fusão de membranas, as membranas plasmáticas do óvulo e do espermatozoide se unem, e a cabeça e a cauda do espermatozoide entram no citoplasma do óvulo. A membrana do espermatozoide e as mitocôndrias não entram no óvulo, são destruídas. Com isso, ocorre o término da segunda divisão meiótica do ovócito. Nesta etapa, é necessário se lembrar do processo de ovogênese, no qual o ovócito ao sofrer a segunda divisão da meiose origina um ovócito maduro e um segundo corpo polar. Ocorre a descondensação dos cromossomos do núcleo do óvulo e é formado o pronúcleo feminino. O pronúcleo masculino é formado na fase seguinte com a degeneração da cauda do espermatozoide e o aumento do volume do núcleo. Os pronúcleos, durante o crescimento, replicam o material genético (DNA), quando ocorre a fusão dos pronúcleos. A última fase da fertilização é marcada pela união dos dois pronúcleos, formando uma única estrutura que contém informações dos genitores. A nova célulaformada é conhecida como zigoto ou célula-ovo, que se deslocará até o útero para dar início a nova vida que será desenvolvida. É importante lembrar que o zigoto é uma célula totipotente, com capacidade de se diferenciar em qualquer tipo de célula, composto por 46 cromossomos (23 cromossomos do gameta masculino e 23 cromossomos do gameta feminino), sendo, portanto, uma célula diploide. Neste instante, ocorre também a determinação cromossômica do sexo (XX ou XY). ASSIMILE Para que a fecundação ocorra é necessário que a mulher esteja no período fértil, ou seja, esteja ovulando. Além disso, é necessário que o espermatozoide alcance o óvulo e ambos se unam dando origem ao zigoto. O óvulo se mantém viável para a fertilização por 24 horas e os espermatozoides se mantém viáveis no corpo feminino nas primeiras 48 horas após a relação. 2. CLIVAGEM DO ZIGOTO E FORMAÇÃO DO BLASTOCISTO Formado o zigoto, o que ocorre antes de ele chegar ao útero? É iniciado o processo de clivagem, ou segmentação, que consiste em múltiplas divisões celulares, resultando em células chamadas blastômeros. Aproximadamente 30 horas após a fertilização, é iniciada a primeira divisão do zigoto, formando dois blastômeros. A zona pelúcida segue envolvendo o zigoto e conforme os blastômeros seguem em divisão, a cada divisão têm o seu tamanho reduzido e migram para o útero, local onde ocorrererá o processo de implantação que veremos mais adiante. Os blastômeros vão se unindo em uma espécie de complexo e quando já foram formados de 12 a 32 blastômeros, ainda envolvidos pela zona pelúcida, o concepto (embrião) passa a ser chamado de mórula (parecido com uma amora), encaminhada para a cavidade uterina, cerca de três a quatro dias após a fecundação. A zona pelúcida neste estágio começa a ser digerida por enzimas, um fluido é secretado pela tuba uterina, formando uma cavidade entre os blastômeros, conhecida por blastocele, que separa as células em dois grupos: trofoblasto (células mais periféricas – formarão a parte embrionária da placenta) e embrioblasto (massa celular interna – dará origem ao embrião). Nesta fase do desenvolvimento, o concepto recebe o nome de blastocisto, que aumenta de tamanho rapidamente e “flutua” pela cavidade uterina até alcançar o útero. Após aproximadamente seis dias da fecundação, o blastocisto é aderido ao epitélio endometrial, em um processo implantação também conhecido por nidação. O trofoblasto começa a proliferar, diferenciando em duas camadas: o citotrofoblasto (cama interna de células) e o sinciciotrofoblasto (camada externa de células). No final da primeira semana, a implantação do blastocisto na camada do endométrio (região póstero-superior do útero) ainda é superficial, mas já é possível a nutrição através dos tecidos maternos. Considerado altamente invasivo, o sinciciotrofoblasto se expande rapidamente, atravessa o endométrio, atinge glândulas e vasos sanguíneos. Além disso, produz enzimas que possibilitam ao blastocisto se implantar no endométrio do útero. Figura 4.1 | Esquema da clivagem do zigoto e formação do blastocisto Nota: A-D representam os estágios da clivagem. E e F representam cortes de blastocistos.Fonte: Moore et al. (2016, p. 23). Estudamos até aqui a primeira semana do desenvolvimento e, ao final desta, o blastocisto ainda se encontra parcialmente implantado no endométrio. A implantação completa ocorre durante a segunda semana, junto da formação de outras estruturas extraembrionárias. 3. FORMAÇÃO DE CAVIDADE AMNIÓTICA, SACO VITELINO E DISCO EMBRIONÁRIO Durante o processo de implantação do blastocisto, ele passa por mudanças morfológicas que alteram o embrioblasto, ocasionando a formação do disco embrionário, em forma de placa achatada e circular, composta por duas camadas bilaminares de células (epiblasto – mais espessa –, e hipoblasto – mais fina). O disco embrionário será responsável posteriormente pela formação de tecidos e órgãos do embrião. As células do epiblasto formam o assoalho da cavidade amniótica, revestida por uma membrana, o âmnio. Dentro desta cavidade encontramos o líquido amniótico (responsável pela proteção do embrião contra choques mecânicos, patógenos e desidratação. Já as células do hipoblasto formam o teto da cavidade exocelômica, que em conjunto com a membrana exocelômica, ambas formadas a partir do hipoblasto, originam o saco vitelino primário ou primitivo. Ainda na segunda semana de desenvolvimento, o disco embrionário se interpõe entre a cavidade amniótica e o saco vitelino primário. Células do endoderma do saco vitelino formam uma camada de tecido conjuntivo frouxo (mesoderma extraembrionário), que envolve o âmnio e o saco vitelino. A partir do momento que o âmnio, o disco embrionário e o caso vitelino primário se formam, alguns espaços aparecem no sinciciotrofoblasto e rapidamente são preenchidos por uma mistura de sangue materno, que irá nutrir o embrião. No 10º dia, o embrião já está completamente implantado no endométrio. Por volta do 12º dia, os espaços do sinciciotrofoblasto adjacentes se unem para formar as redes lacunares. O mesoderma extraembrionário sofre um aumento e em consequência surgem espaços que se fundem formando uma cavidade grande, conhecida por celoma extraembrionário. Esta nova cavidade é composta por líquido e envolve o âmnio e o saco vitelino e conforme o celoma extraembrionário cresce, o saco vitelino primário tem o seu tamanho reduzido, formando o saco vitelino secundário (ausência de vitelo). O disco embrionário forma o embrião com seus folhetos primitivos e os outros componentes são os anexos embrionários: saco vitelino, cavidade amniótica e saco coriônico (Figura 4.2). ASSIMILE O sinciciotrofoblasto, além de permitir a implantação do blastocisto, secreta na corrente sanguínea a gonadotrofina coriônica humana (hCG), que mantém a atividade do ovário durante a gravidez, e serve também como base dos testes de gravidez. Após 24 a 48 horas após a fecundação, já é detectado nos testes de gravidez o fator inicial da gravidez, através de uma proteína secretada pelo trofoblasto e encontrada no soro materno, durante os 10 primeiros dias de desenvolvimento. Ao final da segunda semana de desenvolvimento, o hCG já é detectado na corrente sanguínea da mãe, em quantidade suficiente, através de anticorpos marcados, para indicar um resultado positivo de gravidez (SHOLL-FRANCO et al., 2010). 4. DESENVOLVIMENTO DO SACO CORIÔNICO Ao final da segunda semana do desenvolvimento embrionário, surgem vilosidades coriônicas primárias da placenta, formadas a partir da proliferação das células do sinciciotrofoblasto e do citotrofoblasto. E o mesoderma extramebrionário é dividido pelo celoma extramebrionário em duas camadas: mesoderma somático extraembrionário (lâmina que reveste o âmnio e o trofoblasto); e o mesoderma esplâncnico extraembrionário (lâmina que envolve o saco vitelino). Outra estrutura aparece ao final desta semana, o córion, composto pelo mesoderma somático extraembrionário e as duas camadas do trofoblasto. O córion forma o saco coriônico ou saco gestacional, cuja função é transportar oxigênio e nutrientes da circulação materna para o embrião. Os anexos embrionários (saco amniótico e saco vitelino), juntamente com o embrião, ficam suspensos no saco coriônico por um pedúnculo de conexão (futuro cordão umbilical). Figura 4.2 | Esquema ilustrando a origem dos anexos embrionários Nota: – Blastocisto tardio. B – Início da implantação. C e D – Blastocisto implantado entre 7-8 dias. E – Embrião em 9 dias. F – Após a segunda semana.Fonte: Carlson (2014, p. 75). Algumas células do hipoblasto se modificam em uma determinada região do disco embrionário e formam a placa precordal. Esta placa marca o local onde será originada a boca, na região da cabeça. Assim, caracterizamos os principais eventos que ocorrem durante a segunda semana deste novo indivíduo que ganha vida. 5. LOCAIS DE IMPLANTAÇÃO DOS BLASTOCISTOS Em geral, o blastocisto é implantado no endométrio uterino, na parte superior do corpo do útero. Com menor frequência, o blastocistoé implantado na parede posterior a do corpo do útero. Mas em ambos os casos, a gravidez é dita como gravidez tópica, em que ocorre no interior da cavidade uterina. O desenvolvimento do embrião se dá dentro do útero, local em que há trocas de oxigênio e nutrientes de forma adequada entre a mãe e o feto. Nestes casos, o óvulo foi fecundado ainda dentro da trompa e percorreu durante alguns dias a trompa até alcançar o útero e se fixar, ainda na primeira semana de desenvolvimento. Ao final da segunda semana de gestação, muitas vezes, as mulheres ainda não sabem que estão grávidas e a implantação do blastocisto pode ser visualizada na ultrassonografia. REFLITA Algumas mulheres podem apresentar endometriose, doença crônica, em que o tecido endometrial encontrado normalmente no interior do útero, revestindo-o, cresce para fora do útero. A endometriose pode causar dores e inclusive comprometer a fertilidade da mulher, apesar de que, em muitos casos, não há sintomas, por isso a importância de realizar exames regulares. Uma vez diagnosticado, o médico poderá indicar o melhor método para desacelerar o crescimento do tecido inapropriado, que pode ser desde medicamentos até cirurgias. A implantação do blastocisto, no entanto, pode ocorrer fora do útero, conhecida por implantações extrauterinas ou gravidez ectópica. Em cerca em 95% dos casos, ela ocorre nas tubas uterinas, podendo ocorrer também na cérvice, em cicatrizes uterinas, cavidade pélvica ou abdominal e nos ovários. EXEMPLIFICANDO Quando a gravidez ocorre na tuba uterina, uma das possíveis causas está relacionada com o atraso ou o impedimento do zigoto até o útero. Por exemplo o bloqueio da tuba uterina (ou trompa) durante a fase de clivagem do desenvolvimento. As trompas não estão preparadas para desenvolver o embrião, não há nutrientes suficientes e todo o restante do desenvolvimento acaba sendo prejudicado. Ocorre muitas vezes o aborto tubário, em que o próprio organismo encontra uma forma de expulsar o embrião, identificado como um corpo estranho. Em outros casos mais graves, o desenvolvimento continua dentro da trompa, e próximo à 6ª ou 7ª semana há o risco de rompimento desta trompa, o sangramento pode inclusive colocar em risco a vida da gestante. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO: FECUNDAÇÃO, PRIMEIRA E SEGUNDA SEMANAS DO DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO SEM MEDO DE ERRAR Diante da situação-problema apresentada, já temos o conhecimento do que é embriologia, como inicia o desenvolvimento embrionário, bem como as alterações morfológicas que ocorrem durante as duas primeiras semanas de desenvolvimento, sendo possível resolvermos a contextualização profissional. O casal procura pela clínica e inicia o procedimento para a FIV (fertilização in vitro). Como você, profissional da saúde, explicaria a relação entre a endometriose detectada na mulher e a indicação da técnica FIV ao invés da inseminação artificial? Em qual caso seria usada a técnica de inseminação artificial? Realizado o processo de fertilização dos gametas, o embrião fica em incubadoras sendo acompanhado por 3 a 5 dias até ser transferido para o útero – durante esse período, o que ocorre com o embrião? Primeiramente é necessário se lembrar que uma gravidez somente é iniciada quando há a fecundação ou fertilização, ou seja, o encontro de um óvulo (gameta feminino) com um espermatozoide (gameta masculino), gerando um zigoto (embrião). A partir de então, há uma série de eventos pelos quais o embrião passa, até a implantação no útero da mulher, quando de fato é possível a identificação da gravidez por meio de testes (a dosagem de hormônio gonadotrofina coriônica humana – hCG). A endometriose é uma doença que apresenta o tecido que reveste a cavidade uterina, o endométrio, presente em outras estruturas fora do útero, como nos ovários, nas trompas e até mesmo no intestino ou na bexiga. O tecido estimula fatores inflamatórios, se tornando mais espesso e em alguns casos pode provocar dores intensas no período menstrual, em outros casos é imperceptível. Isso significa que esta doença tem diferentes graus e características, deve ser diagnosticada por médicos especialistas durante exames físicos ou complementares ginecológicos e somente ele poderá indicar se há algum tipo de tratamento, ou a necessidade de uma cirurgia. O principal fator da endometriose estar associada à infertilidade é quando em grau mais avançado, ela produz um processo inflamatório tubário, que influencia na mobilidade das trompas, consequentemente dificulta o processo de fecundação, que em geral ocorre ainda na tuba uterina. Por esta razão, para o casal da situação-problema, a FIV foi indicada. A fertilização in vitro consiste em uma técnica na qual os óvulos são fertilizados em laboratório, unindo os gametas masculinos e femininos, fora do corpo da mulher. O acompanhamento do desenvolvimento do embrião é realizado em laboratório, após 3 a 5 dias, e depois é transferido para o útero da mulher, onde deverá ocorrer a implantação e dar sequência ao desenvolvimento. A técnica de FIV é indicada em casos de casais com dificuldade para engravidar, não só pela endometriose, mas por falhas em outros tratamentos, doenças genéticas, infertilidade masculina, alterações nas tubas uterinas, idade materna avançada, gestações independentes, casais homossexuais, dentre outros. A técnica de FIV se difere da inseminação artificial (IA), já que neste último caso, a fertilização ocorre no próprio corpo da mulher, e não in vitro. A IA é utilizada nos casos em que os espermatozoides não alcançam o óvulo maduro na tuba uterina, desta forma, esta técnica consiste no preparo do sêmen, inserindo os espermatozoides no momento ideal no interior do útero, auxiliando o processo de fertilização. A FIV pode ser realizada com doadores anônimos de gametas, os quais são congelados e armazenados em bancos específicos. Como podem ser do próprio casal, antes de serem coletados, tanto o homem como a mulher podem receber doses altas de hormônios; além disso, os gametas coletados são selecionados em laboratório para que a fertilização tenha mais sucesso, o que não ocorre de forma natural. Após realizar a fertilização in vitro, é necessário aguardar o período de 3 a 5 dias, que é o período em que o zigoto formado no momento da união dos dois gametas inicia o processo de clivagem. No processo de clivagem, o zigoto passa por diversas divisões celulares e rapidamente multiplica suas células. Até o quinto dia, o embrião esteja no estado de blastocisto, e esteja preparado para ser transferido para o útero onde deverá ser implantado. O acompanhamento dos estágios do embrião em blastômeros, mórula até o estado de blastocisto é observado em incubadoras, assim, os embriões que alcançarem este estado até o quinto dia têm maiores probabilidades de oferecerem sucesso na gravidez, com potencial maior de implantação no útero. Vamos lembrar que esta é somente uma possibilidade de explicar a situação-problema, pois ela pode ser abordada de outras formas e como você já está preparado para resolvê-la, que tal praticar? AVANÇANDO NA PRÁTICA A PÍLULA DO DIA SEGUINTE A história de uma jovem de 34 anos viraliza na internet. Durante a sua estadia no Canadá, em que tirava um ano sabático, a jovem foi estuprada. Na mesma noite em que o incidente ocorreu, a jovem foi instruída pelos médicos, como parte dos cuidados recebidos após o ataque sofrido, a tomar a pílula do dia seguinte. No entanto, dois meses após o ocorrido, a jovem descobrira que estava grávida. Existem outras histórias em que mesmo após tomar a pílula do dia seguinte, a gravidez acontece. ASSOCIAÇÃO Paulista de Medicina. ‘Tomei a pílula do dia seguinte, mas engravidei’: quando o método anticoncepcional falha. Notícias. O que diz a mídia. 13/11/2019. Após este relato, como você explicaria esta gravidez, mesmo após a ingestão da pílula do dia seguinte? Qual a ação desta pílula no organismo que possibilita a intervenção da implantação do embrião, dando início a uma nova vida? RESOLUÇÃO Esta situação-problema é umasituação que pode acontecer na vida real. Sabemos que nenhum método contraceptivo possui uma eficácia de 100%, apesar de alguns deles chegarem bem próximos deste número. A pílula do dia seguinte deve ser ingerida em até 72 horas após a relação sexual desprotegida, sendo mais eficaz nas primeiras 12 a 24 horas, isso a torna o único contraceptivo que pode ser utilizado após o ato sexual (todos os demais devem ser utilizados antes ou durante a relação). No entanto, é também o contraceptivo que possui a maior taxa de falha, podendo chegar a cerca de 5%, dependendo do tempo passado do ato até a ingestão do comprimido, do período do ciclo menstrual em que a mulher está, assim como a frequência da utilização do medicamento. Este é um medicamento que não necessita de receituário para ser adquirido em farmácias, mas o uso frequente ou sem acompanhamento de um profissional pode trazer riscos para a saúde da mulher, bem como aumentar a ineficácia do produto, lembrando que não é um método contraceptivo para ser utilizado de forma recorrente, mas somente em casos emergenciais. A pílula do dia seguinte contém uma alta taxa de hormônios que dependendo da fase do ciclo menstrual em que a mulher se encontra age de uma forma. Quando a mulher ainda não ovulou, ela age alterando os folículos e a mobilidade tubária, inibindo ou retardando a ovulação. Após a ovulação, ela altera o muco cervical, interferindo na mobilidade dos espermatozoides, para que estes tenham mais dificuldade para encontrar o óvulo, impedindo que ocorra a fecundação. Ainda assim, a pílula evita a formação do endométrio que irá ser preparado para a implantação do óvulo fecundado, forçando a descamação deste (menstruação), por isso o ciclo menstrual da mulher é alterado. Mas se todos estes processos falharem, dependendo de todos os fatores citados, a implantação do embrião pode ocorrer e, uma vez ocorrida, esta pílula não tem efeito. Para consultar mais informações e possibilitar outras formas de conduzir esta situação, sugere-se a leitura do artigo: CAMPANHA, J. T. P. et al. Pílula do dia seguinte: uma alternativa segura. Revista Thêma et Scientia, v. 2, n. 2, jul/dez. 2012. https://conteudo.colaboraread.com.br/202102/INTERATIVAS_2_0/INTRODUCAO_A_BIOLOGIA_CELULAR_E_DO_DESENVOLVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u4s1.html#resolucao%20.item-1 Unidade 4 - Seção 2 TERCEIRA À OITAVA SEMANAS DO DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO PRATICAR PARA APRENDER Caro aluno, estamos acompanhando o passo a passo de como se origina a vida de um novo indivíduo e cada uma das etapas do seu desenvolvimento. Até agora, vimos como ocorre a fertilização e a formação do zigoto, que dará origem ao futuro indivíduo, após uma série de transformações. Nas duas primeiras semanas do desenvolvimento embrionário, o zigoto passa por várias divisões mitóticas até a formação do blastocisto e sua implantação no útero. Após a implantação do blastocisto o processo já é considerado uma gestação. Já parou para pensar quando o nosso cérebro é formado? Quando surgem os olhos, a boca, nossos braços e pernas e os órgãos e sistemas? Será que sempre segue a mesma sequência ou são formados aleatoriamente? Em qual momento o embrião passa a aparentar um ser humano? Pois até então, vimos que ele surge de um aglomerado de células, não é mesmo? Compreender esta transformação de células em um novo indivíduo e as etapas deste desenvolvimento são de grande importância para os profissionais da saúde, tornando possível o entendimento das estruturas anatômicas em crianças e adultos e a correlação destas com possíveis anomalias congênitas. A utilização de teratógenos neste período pode colocar em risco a saúde e o desenvolvimento do embrião, todo o cuidado e acompanhamento são extremamente necessários. Nesta seção, estudaremos importantes etapas do desenvolvimento do embrião, como a gastrulação, neurulação e a organogênese. A terceira semana é marcada pela transformação do disco bilaminar para um embrião trilaminar, com a formação dos folhetos embrionários que darão origem aos tecidos e órgãos, cada um com uma função específica. Acompanharemos esta transformação e o início de cada uma das estruturas da quarta à oitava semana de desenvolvimento do embrião, quando este finalmente adotará aspectos humanos em sua aparência. Acompanharemos em nosso estudo os principais eventos, desde a ausência da primeira menstruação da mãe, após a fecundação, até a formação de estruturas como o tubo neural que irá se diferenciar no sistema nervoso, ou os diferentes nomes que o concepto recebe em cada uma das fases. A oitava semana é finalizada junto com o processo de organogênese, neste estágio o embrião já mede aproximadamente 3 cm de comprimento, e como pode haver muitas variações de gestação a gestação, conheceremos também como é calculado o estágio gestacional. As necessidades do embrião aumentam e a troca de substâncias entre o sangue materno e o do embrião se tornam essenciais para a manutenção da gravidez. Retomaremos a situação-problema criada para a contextualização do seu aprendizado. Como vimos, segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a reprodução assistida vem crescendo no Brasil, a técnica de fertilização in vitro teve um grande crescimento nos últimos anos. Muitas vezes, não é possível gerar uma vida por vias naturais – seja por infertilidade, idade avançada etc. – ou o desejo de uma gestação independente. Isso hoje é possível graças à tecnologia. Um casal que apresentava dificuldade para engravidar há mais de dois anos de tentativas, após realizarem uma série de exames, investigarem a fertilidade de ambos, foram instruídos a realizar uma fertilização in vitro, para tentar realizar o sonho de ter um bebê. O casal, ambos com mais de 35 anos, procurou uma clínica especializada em reprodução humana, que utiliza técnicas de reprodução assistida, com médicos especialistas e altamente qualificados. Você, profissional da saúde, trabalha na clínica e acompanhou o processo de fertilização in vitro realizado na mulher, que foi detectada com endometriose. Apesar de ser uma das técnicas de reprodução assistida mais eficazes, a gravidez depende do sucesso da implantação do embrião. Decorridos 10 dias da transferência embrionária, F.L.S. (a mulher), realizou o teste sanguíneo, cujo Beta hCG (hormônio gonadotrofina coriônica humana) foi positivo. F.L.S. voltou à clínica para realizar o seu primeiro ultrassom estando grávida. É aconselhável realizar o primeiro ultrassom entre 5 e 7 semanas após detectada a gravidez. Muito ansiosa, F.L.S. foi logo no início da quinta semana de desenvolvimento e ao visualizar o pequeno embrião no ultrassom, emocionada, fez um monte de perguntas a você. Dentre as principais perguntas, F.L.S. gostaria de saber o porquê ela ainda não escutava o coração do seu bebê, quando ela iria poder escutá-lo, se de fato estava tudo bem. Estranhando ainda o formato de seu bebê, curiosamente ela indagou quando ela conseguiria ver os “bracinhos e as perninhas” do seu filho e saber o sexo. Para completar, F.L.S. lhe informou que a sua última menstruação havia ocorrido do dia 13/09 a 18/09/2020, e gostaria de saber qual a data prevista para o seu parto. Como você responderia a todas estas dúvidas, relacionando-as ao processo de desenvolvimento embrionário humano? "Em algum lugar, alguma coisa incrível está esperando para ser descoberta” (Carl Sagan, 1934-1996). Vamos juntos, falta pouco! CONCEITO-CHAVE A terceira semana do desenvolvimento embrionário se inicia com o disco embrionário composto pela cavidade amniótica e a cavidade exocelômica, dentro da cavidade coriônica, gerados durante a segunda semana de desenvolvimento. O concepto, ainda chamado de blastocisto, já foi totalmente implantado no endométrio e esta semana é marcada por alguns eventos, como o surgimento da linha primitiva, que indica o início da gastrulação, o desenvolvimento da notocorda (eixo de sustentação do corpo), e o embrião, até então composto pelo disco bilaminar, passará a ser trilaminar, com a diferenciação das três camadasgerminativas, que irão dar origem aos tecidos e órgãos do futuro bebê. A terceira semana é marcada ainda pela ausência do período menstrual da mulher (aproximadamente cinco semanas após o primeiro dia do último ciclo menstrual), sendo um dos indicativos que a fertilização ocorreu, já sendo possível, em uma gravidez normal, ser detectada por ultrassonografia. 1. GASTRULAÇÃO A gastrulação marca o início da morfogênese, ou seja, o início do desenvolvimento da forma e estrutura dos órgãos e partes do corpo. O processo de gastrulação é iniciado com a formação da linha primitiva, que se dá pelo espessamento das células do epiblasto na extremidade caudal do embrião. A outra extremidade, chamada de extremidade cefálica, se caracteriza pela formação do nó primitivo (acúmulo de células). As células proliferam rapidamente, e seguem em direção à região central, formando o sulco primitivo, que se estende até o nó primitivo, e formam a fosseta primitiva. Com a formação da linha primitiva, já é possível verificar uma simetria no embrião, como lados direito e esquerdo, faces ventral e dorsa, e as extremidades caudal (próxima à cauda da linha primitiva) e cefálica (próxima ao nó primitivo). Figura 4.3 | Processo de gastrulação e formação das três camadas germinativas Nota: A – Vista dorsal de um embrião humano durante a gastrulação. As setas mostram as direções dos movimentos celulares pelo epiblasto em direção, através e afastando-se da linha primitiva como mesoderme recém-formado. B – Secção sagital através do eixo craniocaudal do mesmo embrião. A seta curva indica células passando pelo nó primitivo dentro do notocorda. C – Secção transversal em nível da linha primitiva em A (linhas pontilhadas).Fonte: Carlson (2014, p. 78). As células da linha primitiva migram através do sulco primitivo e formam o mesoderma intraembrionário, que interpõe entre as duas camadas bilaminares formadas durante a segunda semana de desenvolvimento. Ele se torna trilaminar ou triblástico, com as três camadas germinativas (ou folhetos), e cada uma dará origem a tecidos e órgãos específicos: ectoderma (se origina da diferenciação do epiblasto), mesoderma (originado da linha primitiva) e a endoderma (se origina da diferenciação do hipoblasto). Neste estágio, o concepto é chamado de gástrula. A regressão gradativa da linha primitiva ocorre após a quarta semana de desenvolvimento, até se tornar uma estrutura sem importância na região do sacrococcígea. Ainda no processo de gastrulação, as células mesenquimais (multipotentes) migram da extremidade cefálica e da fosseta primitiva formando o processo notocordal (cordão celular mediano). Uma luz é adquirida por este processo, se tornando o canal notocordal, que ao crescer acaba encontrando a placa precordal. A placa precordal é composta por células endodérmicas aderidas à ectoderma, e quando estas duas camadas se fundem formam a região onde será a futura boca, a membrana bucofaríngea. Na extremidade caudal da linha primitiva, a região circular do disco bilaminar é o local onde será o futuro ânus, a membrana cloacal. O assoalho do processo notocordal junto com as células do endoderma se unem e se degeneram, liberando células notocordais a partir da extremidade cefálica, a notocorda, então, é formada pelo dobramento da placa notocordal. Mas afinal o que é a notocorda? A notocorda tem uma grande importância para o embrião, em formato de bastão celular, ela define o eixo do embrião, servindo de base para o desenvolvimento do esqueleto axial (coluna vertebral), que no futuro será a área dos corpos vertebrais. REFLITA Você se lembra dos anexos embrionários formados durante a segunda semana do desenvolvimento embrionário? E a função deles para o embrião? O saco vitelino (armazena vitelo), o âmnio (proteção do embrião), o córion (envolve embrião e anexos embrionários) e o alantoide, este último, não foi formado na segunda semana. O alantoide é um anexo embrionário que aparece por volta do 16º dia, no saco vitelino, mais precisamente na parede caudal deste. O alantoide, nos mamíferos, permanece como uma linha que se estende da bexiga urinária até a região umbilical, de forma reduzida. Sua função é auxiliar na eliminação de excrementos e formação de vasos sanguíneos da placenta. 2. NEURULAÇÃO A notocorda formada durante a gastrulação induz a formação da placa neural (início do sistema nervoso central) através do espessamento do ectoderma embrionário. No 18º dia aproximadamente do desenvolvimento embrionário, a placa neural forma um sulco neural mediano, composto de pregas neurais que se fundem para formar o tubo neural (medula espinhal primitiva). Mais tarde, ocorre o fechamento deste tubo neural e algumas células neuroectodérmicas dispostas na crista de cada prega neural perdem a adesão com células epiteliais vizinhas, e formam a crista neural, uma massa achatada e irregular, entre o tubo neural e a superfície da ectoderme, dividindo o embrião em duas partes (direita e esquerda), que originarão os gânglios espinhais e do sistema nervoso autônomo, incluindo as meninges do cérebro. O sistema nervoso inicia a sua formação na terceira semana de desenvolvimento, mas só estará totalmente formado após o nascimento do bebê, durante o crescimento da criança. A fase de neurulação é marcada pela formação da placa neural e do tudo neural, nesta fase o concepto é chamado de nêurula. 3. FORMAÇÃO DE SOMITOS E CELOMA A terceira semana de desenvolvimento é marcada por muitos eventos, e a formação dos somitos e do celoma são alguns destes acontecimentos marcantes, então vamos entender como eles são formados (Figura 4.4). O mesoderma intraembrionário, durante a formação do tubo neural e da notocorda, se divide em mesoderma paraxial, intermediário e lateral. Ao final da terceira semana, o mesoderma paraxial se diferencia, formando os somitos, que permanecerão se desenvolvendo e irão dar origem a uma grande parte do esqueleto axial e dos músculos, além da derme (uma camada da pele). Durante o período embrionário, o número de somitos auxilia na identificação da idade do embrião: cada três somitos formados, em média, correspondem a um dia do embrião. Já o mesoderma lateral junto do mesoderma cardiogênico (que forma o coração) apresentam espaços celômicos, que se unem para formar o celoma intraembrionário. O celoma nada mais é do que a cavidade revestida por mesoderma que irá alojar os órgãos internos. O celoma intraembrionário divide o mesoderma lateral em outras duas camadas, a camada parietal (ou somática, somatopleura), que se estende ao mesoderma extraembrionário, cobrindo o âmnio; e a camada visceral (ou esplâncnica, esplancnopleura), que cobre o saco vitelino, sendo contínua ao mesoderma extraembrionário. A parede do corpo do embrião é formada pela somatopleura e o ectoderma embrionário sobrejacente, e a parede do intestino do embrião é formada pela esplancnopleura e pelo endoderma embrionário subjacente. Figura 4.4 | Formação dos somitos e do celoma intraembrionário Nota: Esquema de embriões de 19 a 21 dias apresentando o desenvolvimento dos somitos e do celoma intraembrionário., visão dorsal do embrião, exposto pela remoção do âmnio. B, D e F, secções transversais através do disco embrionário nos níveis mostrados.Fonte: Moore et al. (2016, p. 39). Vimos que inicialmente a nutrição do embrião ocorre através do sangue materno por difusão através do córion, do celoma extraembrionário e do saco vitelino, formados no final da segunda semana de desenvolvimento. O início da terceira semana é marcado pela formação de vasos sanguíneos (vasculogênese), uma vez que começa o desenvolvimento do sistema cardiovascular primitivo, necessário para transportar nutrientes e oxigênio da mãe para o embrião através do córion. É iniciada no córion e ao final da terceira semana já é notável a circulação uteroplacentária primitiva. As células sanguíneas são desenvolvidas no fim da terceira semana, a partir de células especializadas presentes nos vasos do saco vitelino e do alantoide (estudaremos ainda nesta seção a suaformação e função). O primórdio do coração (tubo cardíaco primitivo) também é formado nesta etapa, a partir de células mesenquimais, assim, ao final da terceira semana já é possível detectar os primeiros batimentos cardíacos embrionários, quando o sangue circula e o coração começa a bater, por volta do 21º dia. No entanto, na maioria dos casos, é a partir da sexta semana de desenvolvimento que se torna perceptível o som dos batimentos cardíacos por meio da ultrassonografia. Você se lembra das vilosidades coriônicas primárias que começaram a ser formadas no final da segunda semana do desenvolvimento? Durante a terceira semana do desenvolvimento, as células mesenquimais se diferenciam, formam um eixo de tecido mesenquimal, passando a ser chamado de vilosidades coriônicas secundárias e logo se diferenciam em capilares e células do sangue. Os capilares, quando visíveis, se fundem com as vilosidades que agora são chamadas de terciárias e formam as redes arteriocapilares, que irão se conectar ao tubo do coração por meio de vasos, através do córion e do pedículo de conexão. No final da terceira semana, o sangue embrionário começa aos poucos a fluir, e o oxigênio e nutrientes maternos já são difundidos através das paredes das vilosidades até alcançarem o embrião. Neste momento, é muito importante destacar que o uso de drogas ou outros agentes podem causar anomalias no desenvolvimento do embrião, pois quando utilizados pela mãe, neste estágio já são transmitidos pela corrente sanguínea. EXEMPLIFICANDO Durante a terceira semana do desenvolvimento, alguns medicamentos podem provocar malformações congênitas, uma vez que são transferidos ao embrião através da corrente sanguínea. Podemos citar os medicamentos utilizados em tratamentos quimioterápicos (agentes antineoplásicos), que podem causar malformações no esqueleto e no tubo neural do embrião, como a meroencefalia, ou ausência de uma parte do cérebro. Iniciamos a quarta semana do desenvolvimento embrionário, marcada pelo dobramento do embrião, ou seja, a forma laminar do embrião passa a ter forma tubular (quase cilíndrico). A forma laminar antes era composta por plano longitudinal (prega cefálica e caudal) e o plano transversal (pregas laterais). Os dobramentos ocorrem devido ao crescimento rápido do embrião, principalmente do encéfalo e da medula espinhal. A partir dos dobramentos cefálico e caudal, ocasionados pelo crescimento do tubo neural, tanto da região dorsal quanto caudal, estas estruturas são arrastadas para a região ventral, o embrião forma a pregas cefálica e caudal. Neste processo, o embrião passa a ser todo envolvido pela cavidade amniótica, são formados o intestino anterior, médio e posterior, sendo o intestino médio o único que ainda mantém uma comunicação com o saco vitelino, e a alantoide é parcialmente incorporada. O pedículo de conexão assume a posição ventro-medial (cordão umbilical) e o saco vitelino tem o seu tamanho reduzido. A placenta (estrutura essencial no intercâmbio de substâncias, desde nutrientes até gases e secreções, entre a mãe e o embrião, através da circulação sanguínea) já está mais desenvolvida e pronta para promover o desenvolvimento e manutenção da gravidez, como veremos mais adiante ao estudarmos esta estrutura. O dobramento lateral é o resultado do crescimento rápido dos somitos e da medula espinhal. Cada uma das somatopleuras se dobra em direção ventral e o embrião se torna quase cilíndrico. Parte do saco vitelino é incorporado ao intestino médio, formando o intestino primitivo. 4. FOLHETOS EMBRIONÁRIOS E SEUS DERIVADOS Durante a gastrulação vimos que foram formados os três folhetos embrionários, também chamados de camadas germinativas, o ectoderma, mesoderma e endoderma. Você lembra que dissemos que a partir destes folhetos são formados vários tecidos e órgãos do indivíduo que está sendo gerado? O ectoderma, por exemplo, dará origem a epiderme, ao sistema nervoso central e periférico, além de outras estruturas, como a retina do olho. O mesoderma originará as camadas de músculos lisos, tecidos conjuntivos, cardíacos, hematológico e vascular e será o responsável pela formação do sistema excretor e reprodutor. Já o endoderma dará origem aos revestimentos epiteliais do trato gastrointestinal e vias respiratórias, órgãos associados como os pulmões, tireoide, fígado, pâncreas, entre outros, também são formados a partir do endoderma. Figura 4.5 | Ilustração dos derivados das três camadas germinativas (ectoderma, mesoderma e endoderma) Fonte: Moore et al. (2016, p. 51). Com o intuito de estimar a idade gestacional (tempo de gravidez), uma regra utilizada por obstetras para calcular a data provável do parto, já que a data da concepção pode não ser conhecida, eles subtraem três meses desde o primeiro dia do último período menstrual, e acrescentam um ano e sete dias. Na ultrassonografia é possível determinar o tamanho do saco gestacional e do embrião (ou feto), a partir do comprimento do início da cabeça até a nádega, e estimar uma data provável do parto. A classificação de Carnegie, um sistema de classificação utilizado internacionalmente, é usada para estimar a idade de embriões recuperados (por exemplo, através de abortos espontâneos). O sistema possui um padrão de 23 estágios de desenvolvimento, que levam em conta o desenvolvimento de características externas e comprimento. 5. PRINCIPAIS EVENTOS DA QUARTA À OITAVA SEMANA DE DESENVOLVIMENTO O período da quarta à oitava semana do desenvolvimento é marcado pelo período de organogênese, no qual ocorre a diferenciação dos folhetos germinativos, e o embrião adquire características humanas. A organogênese é a etapa em que os tecidos começam a se diferenciar dando origem aos órgãos do organismo, mesmo que o seu funcionamento ainda seja precário. Na quarta semana, os arcos faríngeos aparecem por volta do 24º dia, o embrião apresenta um formato curvo, após passar pelos dobramentos cefálicos e caudais. A extremidade rostral, no 26º dia, já se encontra fechada, o coração primitivo já bombeia sangue, e entre o 26º ou 27º dia, já é possível observar os brotos dos membros superiores, e os inferiores começam a surgir. O início das orelhas e das fossetas óticas se tornam visíveis na cabeça. Alguns órgãos passam a ser notados, rudimentares ainda. Na quinta semana, a forma corporal não é muito alterada, é marcada pelo crescimento mais acentuado da cabeça que as demais partes do corpo, visto que ocorre o desenvolvimento das proeminências faciais e encefálicas. Começam a surgir os primórdios dos rins permanentes. Na b, o embrião passa a apresentar respostas de reflexo ao toque, mostra movimentos espontâneos e começam a surgir os dedos com o início das impressões digitais. Os membros inferiores são desenvolvidos e as aurículas (parte externa da orelha em formato de concha) também são desenvolvidas. São formados os pigmentos da retina e os olhos apresentam um tamanho maior. A cabeça se destaca pelo seu tamanho em relação ao corpo, e ela se encontra curvada em direção a proeminência cardíaca. A curvatura da cabeça resulta da formação do pescoço e o tronco inicia a posição ereta. Nesta fase, os intestinos penetram no celoma extraembrionário próximos ao cordão umbilical. A sétima semana é marcada principalmente pelas alterações ocorridas nos membros, são quando surgem as membranas entre os raios digitais das mãos, separando os futuros dedos. Surge o ducto onfaloentérico, que faz a comunicação entre a vesícula umbilical e o intestino primitivo. Por fim, a oitava semana encerra a fase de organogênese, os dedos das mãos se alongam e são individualizados, nos pés é possível notar o aparecimento das membranas até serem individualizados como ocorre nos dedos das mãos. No couro cabeludo é formado o plexo vascular (rede de nervos). Nesta semana, ocorrem os primeiros movimentos coordenados dos membros, e a ossificação primária é iniciada (primeiro no fêmur). A proeminência caudal desaparece, os membros se aproximam ventralmente e ao final dessa semana, o embrião apresenta as característicashumanas, ainda um pouco distintas. A região do pescoço já está estabelecida, as pálpebras começam a se unir e os intestinos ainda estão concentrados na região próxima ao cordão umbilical. O embrião possui aproximadamente 3 cm de comprimento e está com aproximadamente 56 dias de desenvolvimento, no entanto ainda não é possível constatar a diferenciação sexual por observação das genitálias externas, estas ainda não estão desenvolvidas. Figura 4.6 | Ilustrações dos estágios do embrião Nota: 1 – Embrião humano na quinta semana de desenvolvimento, os membros anteriores com formato de remo. 2 – Embrião humano na sexta semana, visível a vesícula vitelina na cavidade coriônica. 3 – Embrião humano na sétima semana, o tamanho da cabeça é bem maior em comparação com o restante do corpo. 4 – Embrião humano na oitava semana de desenvolvimento, com presença da aurícula da orelha, o olho e dedos do pé formados.Fonte: Adaptado de Sadler (2021, p. 70-71). ASSIMILE Durante a etapa de organogênese, ocorre a diferenciação de muitos tecidos e de órgãos, o início da formação dos sistemas e, desta forma, o risco de interferências é grande, aumentando as chances de anomalias congênitas pela exposição do embrião à teratógenos. Os teratógenos podem ser considerados todas as substâncias, agentes da natureza, físicos ou químicos, infecções maternas, fatores nutricionais, entre outros, que podem produzir alterações na estrutura ou função dos componentes do futuro indivíduo que está em formação. Durante a quarta e a oitava semana, as principais estruturas internas e externas são formadas. Os sistemas orgânicos (respiratório, circulatório, muscular, nervoso, urinário, etc.) começam a se desenvolver. Ao final da oitava semana, o funcionamento dos principais sistemas e órgãos formados ainda é precário, exceto o sistema cardiovascular. Neste período o embrião passa a apresentar aspecto humano. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO: TERCEIRA À OITAVA SEMANAS DO DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO SEM MEDO DE ERRAR Caro aluno, com os conhecimentos que adquiridos até aqui, já é possível resolver a situação-problema. Você já é capaz de descrever e identificar as etapas do desenvolvimento embrionário, desde a fecundação até a oitava semana, com os principais eventos que ocorrem durante estas etapas. Após o casal realizar a FIV (fertilização in vitro) e ser constatada a gravidez através do exame de sangue positivo para o beta hCG (hormônio gonadotrofina coriônica humana), F.L.S. (a mulher) foi até a clínica realizar o primeiro ultrassom estando grávida. Você, como profissional da saúde, a estava acompanhando. F.L.S. gostaria de saber o porquê ela ainda não escutava o coração do seu bebê, quando ela iria poder escutá-lo, se de fato estava tudo bem. Estranhando ainda o formato de seu bebê, curiosamente ela indagou quando ela conseguiria ver os “bracinhos e as perninhas” do seu filho, e poder saber o sexo. Para completar, F.L.S. lhe informou que a sua última menstruação havia ocorrido do dia 13/09 a 18/09/2020, e gostaria de saber qual a data prevista para o seu parto. Como você contestaria a todas estas dúvidas, relacionando-as ao processo de desenvolvimento embrionário humano? Diante desta situação, você deve primeiro se lembrar dos principais eventos que ocorrem entre a quarta e oitava semana do desenvolvimento embrionário. Durante este período, ocorre a organogênese, ou seja, os órgãos e sistemas começam a ser formados, o embrião durante a quarta semana sofre dobramentos, tanto laterais quanto cefálicos e caudais. O disco embrionário passa a ser trilaminar, com as três camadas germinativas que irão se diferenciar formando os diferentes tipos de tecidos e órgãos. E embora o coração primitivo já esteja formado desde o final da terceira semana do desenvolvimento, quando o coração começa a bater devido à circulação do sangue, ainda é muito difícil a percepção dos batimentos cardíacos através do ultrassom, os quais se tornam evidentes, em geral, a partir da sexta semana de desenvolvimento. Neste primeiro ultrassom será possível confirmar a implantação do embrião e visualizar a presença da vesícula vitelina, assim como pode ser verificada se a gestação é múltipla. A partir da quarta semana de desenvolvimento aparecem os brotos dos membros superiores e vestígios dos brotos dos membros inferiores, mas somente na sétima semana de desenvolvimento é que os membros já estão mais desenvolvidos e surgem as membranas entre os raios digitais que irão separar os dedos. É importante informar a F.L.S. que somente ao final da oitava semana o seu bebê começará a apresentar características humanas e, ainda assim, não é possível observar através do ultrassom a diferenciação sexual, pois as genitálias externas ainda não são visíveis. Isto ocorre por volta da 12ª e 15ª semana. No entanto, a partir da oitava semana é possível realizar o exame de sexagem fetal, através da análise do sangue da mãe, que neste estágio já está em contato com o sangue do embrião, e é realizada a identificação das características do DNA, em busca do cromossomo Y, que identifica se o bebê será um menino. E, por fim, com a informação da data da última menstruação de F.L.S., é possível indicar que a data provável do parto será 20/06/2021, você deve se recordar do cálculo baseado na data do primeiro dia da última menstruação (13/09/2020), acrescido de 7 dias (ou seja, 13+7 = 20), subtraindo três meses ao mês da última menstruação (assim, 9-3 = 6), e ao final, adicionar um ano (2020+1 = 2021). Caro aluno, vale lembrar que esta é somente uma possibilidade de resolver esta situação, há também outras formas de fazer o cálculo de previsão do parto e idade gestacional, vamos praticar! AVANÇANDO NA PRÁTICA RESQUÍCIOS DA LINHA PRIMITIVA Um recém-nascido, fruto de uma gestação sem intercorrências e vigiada, do sexo feminino, acaba de nascer no hospital Sta. Maria. Não foram apresentadas alterações nas ecografias pré-natais, o parto foi espontâneo e a idade gestacional estava adequada. No entanto, o exame físico realizado na recém-nascida revelou uma tumefacção na região sacrococcígea, redonda, coberta por pele e pelos, de tonalidade vinosa. Foi constatado se tratar de um teratoma sacrococcígeo, devido ao não desaparecimento por completo da linha primitiva, durante o desenvolvimento embrionário. Será realizada uma cirurgia para a retirada deste tumor, sem prejuízos aparente para a recém-nascida. Como você, profissional da saúde, relaciona o fato ocorrido com o desenvolvimento embrionário? Em qual momento é formada a linha primitiva e para que ela serve? E em qual momento poderia ter ocorrido o aparecimento deste teratoma sacroccígeo? Figura 1 | Recém-nascido do sexo feminino com teratoma sacroccígeo Fonte: Moore et al. (2016, p. 45). RESOLUÇÃO Para resolver esta situação, é necessário primeiro ter o conhecimento sobre o teratoma sacroccígeo, uma neoplasia diagnosticada com maior frequência no período neonatal, apesar de poder ser diagnosticado por meio de ultrassonografia durante o acompanhamento pré-natal, muitas vezes é diagnosticado somente após o nascimento do bebê. Apesar de ocorrer com mais frequência em recém-nascidos, com uma maior incidência no sexo feminino, ocorrem um caso a cada aproximadamente 27 mil nascimentos. Estes tumores geralmente são decorrentes de resquícios da linha primitiva, contendo vários tecidos, como músculo, tecido adiposo, epitelial, incluindo inclusive cabelos ou até mesmo dentes. A linha primitiva é decorrente do espessamento do epiblasto e da migração das células do epiblasto para o disco embrionário, o que ocorre durante a terceira semana do desenvolvimento embrionário, marcando o início da gastrulação. Assim que o embrião adquire a linha primitiva, ele adquire simetria (lados direito/esquerdo, superfícies dorsal/vertical e extremidades cefálica/caudal). Normalmente, a linha primitiva desaparece no final da quarta semana de desenvolvimento, mas quando isso não ocorre, pode haver o acúmulo de restos de tecidos que formam o tumor na região sacral e coccígea.Este tumor é formado por células pluripotentes, ou seja, com alto potencial de se multiplicar. Na maioria das vezes o tumor é benigno, quando detectado ainda na gestação a cirurgia pode ser planejada, e na maioria dos casos os resultados pós-cirúrgicos são positivos. O teratoma sacrococcígeo pode aparecer em casos mais raros em outros locais, vale a pena pesquisar! Unidade 4 - Seção 3 NONA SEMANA AO NASCIMENTO, PLACENTA E MEMBRANAS FETAIS PRATICAR PARA APRENDER Caro aluno, estamos chegando ao fim de mais uma etapa. A embriologia, como vimos, estuda cada uma das fases do desenvolvimento embrionário, desde a fecundação até o nascimento de um novo indivíduo. Nos possibilita compreender os mecanismos de formação dos tecidos, dos órgãos, as alterações do corpo humano, as possíveis interferências que podem ocasionar alguma malformação, deficiência ou alteração genética no indivíduo ainda em desenvolvimento. O novo indivíduo surge de células que se unem para a formação do zigoto, a partir de https://conteudo.colaboraread.com.br/202102/INTERATIVAS_2_0/INTRODUCAO_A_BIOLOGIA_CELULAR_E_DO_DESENVOLVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u4s2.html#resolucao%20.item-1 várias divisões celulares, passa por várias transformações sendo mórula, blástula, gástrula, nêurula, até ser reconhecido como feto. Durante as oito primeiras semanas do desenvolvimento embrionário são cruciais os cuidados com interferências externas que possam influenciar no processo de desenvolvimento, uma vez que os tecidos e órgãos começam a ser desenvolvidos, os sistemas ainda primitivos iniciam o seu funcionamento, como o sistema cardiovascular. É neste período que malformações, problemas congênitos e genéticos são mais frequentes. Ao final da oitava semana do desenvolvimento, o embrião já começa a apresentar características mais humanas, é quando se inicia o período fetal, que estudaremos nesta seção. Acompanharemos os principais eventos ocorridos durante o período fetal, que inclui a nona semana de desenvolvimento até o nascimento do novo indivíduo. As primeiras batidas do coração detectadas pelo ultrassom, os primeiros movimentos do feto, a formação de cabelo, unhas e cílios, assim como a formação da genitália externa e a possibilidade de identificar o sexo através do ultrassom. Compreender cada um dos mecanismos deste processo e as necessidades do organismo em se adaptar a cada mudança é fascinante. Daremos destaque para a placenta e as membranas fetais, que aparecem ainda no período embrionário, analisaremos as características de cada uma delas, funções e importância, uma vez que são estas membranas acessórias extraembrionárias, as quais dão todo o suporte para o feto em desenvolvimento. Além disso, estudaremos o mecanismo do parto e as eventuais complicações que o feto possa apresentar caso nasça prematuro. Para finalizar o período fetal, você irá conhecer algumas particularidades quando ocorrem gestações múltiplas e aprender a diferenciá-las. Vamos dar continuidade ao cenário criado, da clínica especializada em reprodução assistida, como uma possível situação profissional, para contextualizar a sua aprendizagem. A reprodução assistida vem crescendo no Brasil, segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e as técnicas utilizadas auxiliam no sonho de gerar uma nova vida, graças a tecnologia e muitas pesquisas. Há mais de dois anos tentando engravidar, um casal foi instruído a realizar a fertilização in vitro, com o intuito de realizar o sonho de ter um bebê. O casal, ambos bom mais de 35 anos, fez o procedimento de reprodução assistida em uma clínica especializada em reprodução humana, onde você trabalha como especialista da saúde. A transferência embrionária através da técnica da fertilização in vitro foi um sucesso e após o teste sanguíneo de F.L.S. (a mulher) ter sido positivo, ela fez o seu primeiro ultrassom estando grávida, na quinta semana de desenvolvimento. Os embriões ainda estavam muito pequenos e não foi possível identificar os sexos ou ouvir o batimento cardíaco dos gêmeos, isso mesmo, F.L.S e o seu esposo tiveram uma surpresa ao descobrir que estavam esperando por dois bebês, ou seja, foi detectada uma gestação múltipla. Por se tratar de uma gestação gemelar, as consultas do pré-natal e os exames de ultrassom devem ser mais frequentes, além de todas as recomendações recebidas por F.L.S., em relação à necessidade de manter uma alimentação balanceada, fazer exercícios físicos leves e com acompanhamento para prevenção da diabetes gestacional, dentre outras. Durante uma das visitas do casal à clínica, você acompanha o exame de ultrassonografia de rotina de F.L.S., já em sua décima sexta semana de gestação. Os bebês estão bem e apesar de o casal estar na expectativa em saber o sexo dos bebês, pelo ultrassom só foi possível visualizar a genitália de um dos fetos (uma menina), devido ao posicionamento dos fetos na barriga. No entanto, por se tratar de uma gestação de gêmeos monozigóticos, você poderia facilmente dizer o sexo do outro bebê? Foi possível, ainda, visualizar outras estruturas formadas, além das genitálias. Quais outras estruturas são formadas durante esta semana do desenvolvimento fetal? Você aproveitou para alertar aos pais que em casos de gestações múltiplas as chances de os bebês nascerem antes da data provável do parto, ou seja, ocorrer um parto prematuro, são maiores. Por que os bebês que nascem antes da vigésima sexta semana possuem menos chance de sobreviver? E no caso de gêmeos que compartilham a mesma placenta, qual síndrome pode ser desenvolvida? Você chegou até aqui, falta muito pouco para compreendermos todas as etapas para geração de uma nova vida. Vamos juntos, não desanime! CONCEITO-CHAVE No final da oitava semana de desenvolvimento embrionário, o embrião passa a ter um aspecto humano e ao iniciar a nona semana ou o terceiro mês do desenvolvimento, ele é chamado de feto. A transição de embrião para feto ocorre de forma gradual, os tecidos e órgãos que tiveram o início da formação do período embrionário agora no período fetal são caracterizados pelo rápido crescimento. A diferença de tamanho entre a cabeça e o corpo diminui neste período, e poucas estruturas novas são formadas, com isso, os danos causados pelos teratógenos e problemas de malformações são mais difíceis neste período, no entanto, ainda são passíveis de ocorrer, incluindo a utilização de substâncias tóxicas que podem afetar a visão e o sistema nervoso do feto. Vamos conhecer os principais eventos que marcam o desenvolvimento no período fetal que compreende da nona semana até o parto. 1. PRINCIPAIS EVENTOS DA NONA SEMANA AO NASCIMENTO Durante este período não há um sistema formal que determine o estágio em que o feto se encontra no período fetal. São levadas em consideração as mudanças que ocorrem neste período e o crescimento do feto é medido através do ultrassom pelo comprimento linear entre a cabeça e a nádega (CRL) e o comprimento linear entre a cabeça e o calcanhar (CHL), sendo possível determinar o tamanho e a idade provável do feto. O início da nona semana é marcado pelo tamanho da cabeça do feto, que ainda possui cerca de metade do CRL. Os olhos ainda são bem separados, as pálpebras seguem fusionadas, a face é larga e as orelhas possuem uma implantação baixa. Durante essa semana, os membros inferiores ainda são curtos e relativamente pequenos. A décima primeira semana é marcada pelo retorno do intestino ao abdome. Entre a nona e a décima segunda semana ocorre a formação da urina, e esta é lançada no líquido amniótico. Parte do líquido é absorvido pelo feto e os produtos excretados são transferidos para a mãe através da membrana placentária pela circulação materna. No final da décima segunda semana, o CRL corresponde praticamente ao dobro do tamanho. Os membros superiores alcançam o seu tamanho relativo ao nascimento, e os membros inferiores ainda em desenvolvimento não atingiram o tamanho relativo final. A genitália externa (masculina ou feminina) ainda não está completamente desenvolvida. A partir da décima quartasemana, os movimentos dos membros notados durante o final do período embrionário passam a ser coordenados e visíveis ao ultrassom e já são perceptíveis os movimentos lentos dos olhos. Ainda na décima quarta semana ocorre a padronização dos cabelos no couro cabeludo. Na décima sexta semana, o tecido ósseo inicia a sua formação, os primeiros dentes decíduos iniciam a sua formação. A face já está bem formada com lábios, boca, nariz e bochechas. O cabelo, as sobrancelhas e cílios são formados, e a genitália externa está desenvolvida e já pode ser identificado o sexo do feto através da ultrassonografia. O feto já pesa em torno de 200 g e tem cerca de 140 mm, e a cabeça em comparação a um feto na décima segunda semana é relativamente pequena. No período entre a décima sétima semana e a vigésima semana, o crescimento é desacelerado, os membros inferiores alcançam o seu tamanho relativo final e a mãe já pode facilmente sentir os movimentos fetais, os pontapés. Durante este período, a pele do feto é coberta pelo verniz caseoso (material gorduroso composto por células mortas secretadas pelas glândulas sebáceas do feto). Além disso, o feto é coberto por uma penugem delicada de pelo, conhecida por lanugo, auxiliando no mantimento do verniz caseoso e auxiliando na proteção da pele muito sensível do feto. O útero fetal feminino é formado e é iniciada a formação da vagina, ou no caso dos fetos masculinos, os testículos começam a descer. Após a vigésima semana de gestação, a morte do feto é chamada de natimorto. Na vigésima primeira semana são iniciados os movimentos rápidos dos olhos e nas semanas seguintes é possível detectar as piscadas. Na vigésima quarta semana as unhas já estão formadas e as células epiteliais secretoras começam a secretar nos pulmões um líquido (surfactante) que mantém alvéolos pulmonares em desenvolvimento abertos. Durante a vigésima primeira à vigésima quinta semana, o feto ganha peso, e embora já possa sobreviver caso nasça prematuro, mesmo com cuidados intensivos, o risco de o feto morrer é grande, pois ao nascer antes da vigésima sexta semana o sistema respiratório ainda está imaturo e possibilita o risco de problemas neurológicos, por este sistema ainda estar em desenvolvimento. Neste período o feto começa a desenvolver a percepção da dor. No período da vigésima sexta à vigésima nona semana, os pulmões já conseguem fazer trocas gasosas suficientes e o sistema nervoso central já amadureceu ao ponto de possibilitar o controle da temperatura corporal e guiar os movimentos respiratórios, embora nasça prematuro, necessite de cuidados especiais em incubadoras para auxiliar no controle da temperatura e respiração artificial, e o fator peso é levado em consideração para aumentar as chances de sobrevivência. Os testículos já começam a descer no saco escrotal, o cabelo está desenvolvido, as pálpebras abertas e as unhas dos pés se tornam visíveis. As últimas semanas do desenvolvimento, que englobam da trigésima a trigésima oitava semana (os dois últimos meses), o feto adquire metade do peso que terá no nascimento, aproximadamente. Durante este período, o cérebro cresce bastante, a pele já é rósea e os membros superiores e inferiores já estão semelhantes a como irão nascer. O feto já é capaz de responder a estímulos luminosos e sonoros e desenvolve um aperto firme nas mãos, uma vez que entre a trigésima sétima e trigésima oitava semana, o sistema nervoso já é considerado maduro para realizar determinadas interações. Quando se aproxima do final da gestação, o feto ganha em média 14 g de gordura por dia, chegando ao final de 38 semanas a cerca de 3.000 a 3.500 g, e CRL aproximado de 36 cm, e a circunferência do abdômen já é maior do que a da cabeça. Os fetos nascidos durante a trigésima segunda semana têm grandes chances de sobrevivência sem a necessidade de incubadoras. O bebê já está formado e pronto para o parto. LEMBRE-SE Uma gestação tem duração de cerca de 280 dias, ou seja, em torno de 40 semanas após a data da última menstruação (DUM). Ou, duração de 266 dias (38 semanas), contabilizadas após a fecundação. 2. PLACENTA E MEMBRANAS FETAIS O principal local de trocas entre a mãe e o feto, tanto de nutrientes quanto de gases e outras substâncias, é a placenta. A sua formação é iniciada com a proliferação do trofoblasto, das vilosidades coriônicas e do saco coriônico no final da terceira semana de desenvolvimento. A placenta é um órgão materno fetal, responsável pelo suporte nutricional e respiratório para o desenvolvimento do feto. É composta por uma parte fetal (originada a partir do caso coriônico) e a parte materna (originada a partir do endométrio). Ela é constituída ainda pela decídua basal (componente materno da placenta) e pelo córion frondoso (componente fetal da placenta). Vamos compreender estes componentes? A decídua é o endométrio gravídico, ou seja, o endométrio de uma mulher grávida. Ela possui três nomeações distintas, de acordo com a região e o local de implantação do concepto, são eles: decídua basal (a parte mais distante do concepto), decídua capsular (a parte que recobre o concepto) e a decídua parietal (corresponde as partes restantes da decídua). As células deciduais são formadas pelo aumento das células do tecido endometrial, devido ao aumento dos níveis de progesterona no sangue da mãe. Já o córion frondoso se origina pela expansão e pelo crescimento das vilosidades-tronco, conforme ocorre a progressão da gravidez. O córion frondoso (ou córion viloso) representa a parte fetal da placenta, e do lado oposto a este polo embrionário, as vilosidades se degeneram e formam o córion liso. ASSIMILE O córion reveste a parede do saco coriônico e o tamanho deste é muito importante para auxiliar na determinação da idade gestacional de embriões, principalmente para pacientes com histórico incerto de menstruação. Através de ultrassom é possível detectar os sacos coriônicos com diâmetros entre 2-3 mm, indicando aproximadamente 18 dias da idade gestacional, após a fecundação. Conforme o feto cresce, o que ocorre? A decídua capsular se une com a decídua parietal e aos poucos obstrui a cavidade uterina. A cavidade coriônica também é obstruída, e ocorre a fusão entre o âmnio e o córion, resultando na membrana amniocoriônica. REFLITA A mulher quando inicia o trabalho de parto, em geral, tem a sua bolsa d´água rompida, certo? O “tampão” ou a membrana que se rompe é a membrana amniocoriônica. Quando esta membrana se rompe, o fluido amniótico é perdido por meio do colo uterino e vagina. A placenta é limitada do lado fetal pela placa coriônica e do lado materno pela decídua basal (placa decidual). Entre estas placas, o sangue materno preenche os espaços intervilosos derivados das lacunas do sinciotrofoblasto, se lembra dele? São as camadas externas do trofoblasto. A placenta cresce juntamente com o feto e o útero, durante o desenvolvimento do feto. Por volta do terceiro mês, a placenta está completa e entre o quarto e o quinto mês, são formados os septos placentários (septos que crescem em direção aos espaços intervilosos), dividindo a placenta em cotilédones (espaços irregulares formados na parte fetal da placenta, delimitados pelos septos placentários). O formato da placenta é discoide, e é expelida da cavidade uterina após o parto. No final da gravidez, a placenta já ocupa cerca de 30% da superfície interna do útero, pesa cerca de 500 g, e possui em média 20 cm de diâmetro com 3 cm de espessura. A partir da terceira semana do desenvolvimento embrionário, é iniciado o desenvolvimento cardiovascular, com o surgimento do primórdio da circulação uteroplacentária. Mas e como será a circulação placentária? Na quarta semana, a placenta forma a rede vascular, a partir das vilosidades coriônicas que cobrem o saco coriônico. O endométrio tem artérias espiraladas que atravessam a placa decidual e os espaços intervilosos, banhando, com sangue oxigenado, as vilosidades coriônicas. Neste momento, por se tratar de vasos estreitos, o sangue é encontrado sob grande pressão, e à medida queesta pressão diminui, o sangue flui, atingindo a decídua, até penetrar nas veias endometriais. O sangue materno e o sangue fetal são separados pela membrana placentária, formada por tecidos das vilosidades coriônicas. Esta membrana, até o quinto mês do desenvolvimento embrionário, é composta pelo sinciciotrofoblasto, citotrofoblasto, mesoderma extraembrionário e endotélio dos vasos sanguíneos do feto. Depois, o citotrofoblasto degenera, o mesoderma extraembrionário diminui e a membrana se reduz ao sinciciotrofoblasto e ao endotélio, permitindo com maior facilidade as trocas de substâncias entre a mãe e o feto em crescimento. Através da veia do cordão umbilical, o oxigênio e os nutrientes atravessam a membrana placentária, difundidos do sangue materno para o sangue fetal. Já o gás carbônico e a ureia, dentre outros resíduos do metabolismo fetal, são difundidos no sentido inverso, do feto para a mãe, porque a mãe irá realizar a troca do gás carbônico por oxigênio, nos pulmões, e a ureia será excretada através dos rins, auxiliando o desenvolvimento do feto. ASSIMILE Conforme a substância transportada entre a mãe e o feto, e vice-versa, existe um tipo de transporte. Por exemplo: água, gases, ureia e hormônios esteroides são transportados por difusão simples. A glicose, no entanto, é transportada por difusão facilitada. Já os aminoácidos, lipídios e grande parte das vitaminas são transportados por transporte ativo. A placenta em conjunto com o cordão umbilical (composto por duas artérias e uma veia) formam um verdadeiro sistema de transportes entre a mãe e o feto. Podemos, então, destacar algumas das principais funções da placenta, como a sua participação no metabolismo (síntese de glicogênio, ácidos graxos, colesterol, etc.); o transporte de nutrientes e gases (oxigênio, gás carbônico, água, aminoácidos, hormônios, vitaminas, anticorpos maternos, medicamentos, drogas, agentes infecciosos, etc.); a excreção de resíduos (por exemplo a ureia) e a síntese e secreções endócrinas (gonadotrofina coriônica humana – hCG, progesterona, estrógenos, etc.). EXEMPLIFIQUE O cordão umbilical geralmente apresenta entre 1-2 cm de diâmetro e 55 cm de comprimento. Alterações muito grandes no comprimento do cordão podem causar problemas ao feto. Cordões muito longos podem se enrolar no feto ou causar um prolapso, ocasionando em uma deficiência de oxigênio para o feto. Já os cordões muito curtos, podem ocasionar a separação da placenta da parede do útero de forma prematura no momento do parto. As membranas fetais ou anexos embrionários são as estruturas que surgem durante o desenvolvimento embrionário a partir das camadas germinativas e auxiliam na separação do embrião (ou feto) do endométrio. Eles se originam do zigoto, e com exceção do saco vitelino e do alantoide, não participam da formação do embrião. Vamos compreender agora as funções de cada uma delas. Iniciaremos pelo âmnio, membrana fetal que forma o saco amniótico, cheio de líquido (líquido amniótico), que envolve o embrião (ou feto), evitando o ressecamento deste, além de conferir proteção contra choques mecânicos. Conforme aumenta o seu tamanho, ele se une à cavidade coriônica e forma a membrana amniocoriônica. O líquido amniótico é inicialmente composto pelo líquido secretado pelas células amnióticas e a maioria do líquido é proveniente do fluido tecidual materno. A passagem de água e solutos do feto para a cavidade amniótica ocorre através da pele, e também pelas vias respiratórias e gastrointestinais do feto. A partir da décima primeira semana o feto auxilia na formação do líquido amniótico pela urina expelida. A composição do líquido amniótico inclui compostos orgânicos e sais inorgânicos em proporções aproximadamente iguais, sendo metade dos compostos orgânicos formados por proteínas e a outra metade de carboidratos, enzimas, gorduras e hormônios. Para o desenvolvimento do embrião, o líquido amniótico tem a função de permitir o crescimento externo simétrico do embrião, forma uma barreira contra infeções, impede o contato entre o âmnio e o embrião, além de proteger o embrião de choques, lesões e traumatismos. Contribui ainda para o desenvolvimento muscular, do pulmão fetal e auxilia no controle da temperatura do feto. Por meio de estudos das células presentes no líquido amniótico é possível detectar anomalias cromossômicas. O córion como vimos, está relacionado ao tecido uterino, e após formar as vilosidades coriônicas origina a placenta. O saco vitelino (ou vesícula umbilical) é essencial para a transferência de nutrientes durante a segunda e terceira semana de desenvolvimento, antes da circulação uteroplacentária ser estabelecida ainda na terceira semana. As células do sangue durante a terceira semana do desenvolvimento recobrem o saco vitelino e iniciam a formação do fígado até a sexta semana, quando as atividades hematopoiéticas são iniciadas. O saco vitelino é reduzido durante a quarta semana de desenvolvimento, incorporado na formação do intestino primitivo. As células germinativas primitivas do saco vitelino se diferenciam e migram para as glândulas sexuais em desenvolvimento, que iram se diferenciar em espermatogônias e ovogônias. Neste sentido, o saco vitelino não é funcional em relação ao armazenamento de vitelo no caso do desenvolvimento humano, mas desempenha um grande papel como pudemos ver. Por fim, o alantoide, assim como o saco vitelino, não é funcional para os embriões humanos, mas são importantes na formação do sangue em sua parede durante a terceira e quinta semana do desenvolvimento. A partir dos seus vasos sanguíneos são formadas as artérias e a veia umbilical. Com o crescimento da bexiga, o alantoide involui e forma um tubo espesso, o úraco, que após o nascimento se torna o cordão fibroso (ligamento umbilical mediano), que abrange o ápice da bexiga urinária até o umbigo. Figura 4.6 | Desenvolvimento da placenta e membranas fetais Nota: A, Secção coronal do útero mostrando a protuberância da decídua capsular e o saco coriônico expandindo em 4 semanas. B, Ilustração ampliada do local de implantação. Os vilos coriônicos foram expostos por um corte de abertura na decídua capsular. C a F, Secções sagitais de útero gravídico da 5ª à 22ª semana (gestação) mostrando as alterações das relações das membranas fetais com a decídua. Em F, o âmnio e o cório estão fusionados entre si e com a decídua parietal, obliterando a cavidade uterina.Fonte: Moore et al. (2016, p. 72). É importante saber que após o parto, as membranas fetais (anexos embrionários), assim como a placenta e o cordão umbilical, são expulsos do corpo. A seguir iremos conhecer alguns eventos que envolvem o parto. 3. PARTO O parto é o momento do nascimento. Neste momento, o feto, a placenta e os anexos embrionários (ou membranas fetais) são expelidos do corpo materno. O trabalho de parto (sequência de contrações uterinas) resulta na dilatação do colo uterino para a saída do feto, resultante da ação secretada pelo hormônio liberador de corticotropina pelo hipotálamo do feto. Este hormônio estimula a produção do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) pela hipófise, que provocará outra reação, a secreção de cortisol pelo córtex suprarrenal. Há um aumento de estrógeno, já que o cortisol está relacionado à síntese de estrógenos, e estes por sua vez liberam a ocitocina, estimulando as contrações peristálticas do músculo liso do útero. Os estrógenos aumentam a contração do miométrio e estimulam a liberação de mais ocitocina e prostaglandinas. Durante o trabalho de parto, as contrações inicialmente são espaçadas e aos poucos forçam o âmnio e o córion liso para dentro do colo do útero, fazendo com que este seja dilatado progressivamente. A membrana amniocoriônica é rompida e o líquido amniótico é expelido pela vagina. Neste momento, as contrações uterinas já são mais fortes e com a ajuda da contração dos músculos abdominais o feto é expulso com as demais membranas fetais. Assim que o feto sai do corpo da mãe, ele passa a ser chamado de recém-nascido. A placenta é separada daparede uterina logo que o feto nasce, durante este período para que seja controlado o sangramento excessivo, as contrações do útero comprimem as artérias, o que dura em torno de 15 minutos. Caso a placenta fique aderida ou não seja expelida após cerca de 60 minutos, pode haver hemorragia pós-parto. 4. MÚLTIPLAS GESTAÇÕES As gestações múltiplas são aquelas em que a mulher fica grávida de dois ou mais conceptos de uma única vez, estão associadas a um risco maior de morbidade e mortalidade fetal comparadas às gestações únicas. As anomalias cromossômicas são maiores e conforme o número de fetos aumenta, o risco se torna progressivo. Riscos de parto prematuro, hipertensão ou diabetes gestacional, anemia e crescimento fetal reduzidos são alguns dos riscos para a mãe e os fetos. A incidência de múltiplas gestações aumenta com o uso de técnicas de reprodução assistida, como a fertilização in vitro. E como os gêmeos são formados? Os gêmeos podem se originar de dois zigotos diferentes (gêmeos dizigóticos – DZ, bivitelinos ou dicoriônicos) ou eles se originam de um único zigoto (gêmeos monozigóticos – MZ, univitelinos ou monocoriônicos). Nestes casos, a placenta e as membranas fetais estão relacionadas com a origem dos gêmeos. As gestações de gêmeos dizigóticos ocorrem em maior número. Antes do início da clivagem, os gêmeos são resultantes da separação de blastômeros, eles têm cada um o seu âmnio, o seu córion e a placenta, e estas membranas podem ou não se fundir. Em gêmeos MZ é comum que ambos os embriões partilhem da mesma placenta e se desenvolvam no mesmo córion, mas cada um pode ou não ter o mesmo âmnio (monoamniótico ou diamniótico). Cada embrião apresenta, ainda, o seu sistema vascular individual, mas em alguns casos eles podem ser fundidos quando dividem a mesma placenta e nestes casos um gêmeo pode receber uma proporção maior de fluxo sanguíneo do que o outro, acarretando problemas de deformações, atrofias no crescimento, dentre outros. Os gêmeos DZ são originados da fecundação de dois oócitos por dois espermatozoides, o que os confere a possibilidade de possuírem o mesmo sexo ou sexos diferentes, sendo fraternos. Gêmeos dizigóticos têm características semelhantes como qualquer outro irmão. Já os gêmeos MZ são originados da fecundação de um ovócito e desenvolvidos a partir de um único zigoto. Os gêmeos monozigóticos são sempre do mesmo sexo, são similares na aparência física e são geneticamente idênticos. Lembrando que nestes casos, as impressões digitais e algumas características fenotípicas são distintas, pois são resultantes da interação do genótipo com o meio ambiente. No caso de trigêmeos, quádruplos, quíntuplos e assim por diante, os nascimentos múltiplos podem ser originados de um único zigoto (sendo idênticos), originados de dois zigotos (com gêmeos idênticos e outro diferente), ou ainda a partir de um zigoto para cada gêmeo, o que os permite terem sexos iguais ou distintos, e as semelhanças entre eles são maiores do que em irmãos de gestações distintas. Você já deve ter ouvido falar de gêmeos siameses, que em alguns casos de sucesso são separados em cirurgia. Os gêmeos siameses são casos raros em que o disco embrionário não é dividido completamente, assim sendo, podem ser formados gêmeos monozigóticos conjugados. Para a genética humana, o estudo dos gêmeos é importante para comparar a influência do ambiente e as ações dos genes durante o desenvolvimento. As condições anormais quando não exibem um padrão genético simples podem ser comparadas à ocorrência em gêmeos para verificar se a hereditariedade está envolvida. Compreender o desenvolvimento humano é fundamental para o entendimento da vida, os processos que envolvem desde o momento da fecundação até o nascimento de um novo indivíduo são fascinantes, ao mesmo tempo complexos. Os principais eventos e as transformações pelas quais células, tecidos e órgãos passam foram elencados para que você possa relacionar à vida aos conceitos de biologia celular, de genética e de embriologia e perceber que estão todos interligados. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO: NONA SEMANA AO NASCIMENTO, PLACENTA E MEMBRANAS FETAIS SEM MEDO DE ERRAR Para resolvermos a situação-problema apresentada, você, caro aluno, já adquiriu os conhecimentos necessários durante esta seção. Você já é capaz de descrever todas as fases do desenvolvimento embrionário, desde o momento em que ocorre a fertilização até o momento do nascimento, descrevendo os principais eventos e modificações do feto. Vamos relembrar o cenário hipotético criado? O casal que fez a técnica de fertilização in vitro, na clínica de reprodução humana onde você trabalha, teve sucesso com a fertilização. F.L.S. (a mulher) e o seu esposo, serão pais de gêmeos, após ter sido detectada uma gestação múltipla em um dos ultrassons feitos. No ultrassom realizado na décima sexta semana de gestação, a expectativa dos pais era em saber o sexo dos gêmeos, mas devido ao posicionamento dos fetos, foi possível visualizar somente a genitália externa de um dos fetos (uma menina). No entanto, por se tratar de uma gestação de gêmeos monozigóticos, você poderia facilmente dizer o sexo do outro bebê, certo? Foi possível, ainda, visualizar outras estruturas formadas, além das genitálias. Quais outras estruturas são formadas durante esta semana do desenvolvimento fetal? Você aproveitou para alertar aos pais que em casos de gestações múltiplas as chances de os bebês nascerem antes da data provável do parto, em um parto prematuro, são maiores. Por que os bebês que nascem antes da vigésima sexta semana têm menos chance de sobrevivência? E no caso de gêmeos que compartilham a mesma placenta, qual síndrome pode ser desenvolvida? Você deve se lembrar que as gestações múltiplas estão associadas a um risco maior de morbidade e mortalidade fetal, quando comparadas às gestações de um único concepto. Por esta razão, os cuidados durante a gravidez devem ser intensificados e o acompanhamento durante a gestação gemelar monocoriônica (em que os fetos compartilham a mesma cavidade coriônica) deve ocorrer em intervalos menores, para o benefício da saúde da mãe e dos fetos, pois caso qualquer alteração seja notificada, há possibilidades maiores de intervenção. A gravidez de gêmeos monozigóticos (MZ), também chamados de univitelinos ou monocoriônicos, ocorre da fertilização de um único ovócito, ou seja, formação de um único zigoto. Durante o desenvolvimento do zigoto, nos estágios iniciais de divisão celular, a massa celular interna se divide em dois grupos separados de células dentro da mesma cavidade do blastocisto, dando origem aos gêmeos monozigóticos, que compartilham a mesma placenta e cavidade coriônica, no entanto cada um tem o seu âmnio. Há outras possibilidades de formação dos gêmeos MZ. Os gêmeos MZ são sempre do mesmo sexo, são chamados de gêmeos idênticos, por isso você poderia afirmar que o casal está à espera de duas meninas. Durante a décima sexta semana de desenvolvimento, a face já está formada, é possível verificar os lábios, a boca, nariz e bochechas do feto. Além da genitália externa desenvolvida, é possível ver o início da formação do cabelo e dos cílios. Os membros superiores já estão bem desenvolvidos e os movimentos dos membros e dos olhos já é perceptível no ultrassom, no entanto, a mãe só passa a senti-los fisicamente por volta da décima sétima semana e vigésima semana. Os fetos que nascem antes da vigésima sexta semana de desenvolvimento ainda têm o sistema respiratório muito imaturo e por mais que recebam cuidados intensivos, fiquem em incubadoras, a probabilidade de sobrevivência é pequena. Ainda não têm também um peso “adequado” e o risco de desenvolver problemas neurológicos é muito grande. Após este período, os pulmões começam a amadurecer e já conseguem realizar trocas gasosas mesmo que necessitem de auxílio, aumentando as chances de sobrevivência. No caso de gêmeos que compartilham a mesma placenta, pode ocorrer a síndrome da transfusão feto-fetal, em que há um desequilíbrio na proporção de sangue que umfeto recebe em relação ao outro. Durante o desenvolvimento, o feto é totalmente dependente da placenta para crescer, nutrir-se e amadurecer, mas quando o compartilhamento da placenta favorece um feto em relação ao outro, por mais que eles sejam geneticamente idênticos, um feto acaba sendo prejudicado, é menor se comparado ao outro e pode não sobreviver. O diagnóstico pode ser realizado por ultrassom, geralmente em torno da décima nona semana de gestação, podendo em alguns casos precoces ser identificado com 16 semanas. Finalizamos mais este desafio proposto, continue praticando e não se esqueça que este é somente um caminho para a resolução da situação apresentada, você pode explorá-lo de outras formas. AVANÇANDO NA PRÁTICA O PROLAPSO DO CORDÃO UMBILICAL Jovem de 31 anos entra em trabalho de parto, o médico de plantão verificou um padrão anormal na frequência cardíaca do feto e ao tentar mudar a jovem de posição verificou o cordão umbilical saindo pela vagina da mulher antes de visualizar o feto. A ruptura das membranas fetais já havia ocorrido, bem como o derrame do líquido. Rapidamente, a enfermeira mantém o feto dentro do corpo da mãe e será realizado um parto por cesariana (feito através de cirurgia) de urgência, para que o cordão prolapsado não interrompa o fornecimento de sangue para o feto. Diante desta situação, durante o parto da jovem ocorreu um evento raro, o prolapso do cordão umbilical (o cordão umbilical precede o bebê através da vagina, podendo interromper o fluxo de sangue ao feto). Como você explica a importância do fluxo sanguíneo através do cordão umbilical para o feto? De acordo com o texto, as membranas fetais e o líquido citados se referem respectivamente a quais componentes embrionários? Estas membranas são expelidas juntamente com a placenta após a ruptura de qual membrana? RESOLUÇÃO Primeiramente, para resolvermos a situação é necessário lembrar da importância do cordão umbilical para o feto. O cordão umbilical, composto por duas artérias e uma veia, é uma espécie de tubo, responsável por conectar o embrião/feto à placenta. Através do cordão, o feto recebe nutrientes da placenta e faz as trocas gasosas através do fluxo sanguíneo materno-fetal. Caso este fluxo seja interrompido durante o parto, ocorrerá uma deficiência de oxigênio para o feto e, caso ela persista, em poucos minutos pode causar uma anóxia fetal (falta de oxigênio para o feto) e o cérebro deste poderá ser danificado ou até mesmo causar a sua morte. Por isso, nestes casos, quando o prolapso do cordão umbilical não é detectado antes do parto, é necessário manter o feto dentro do corpo da mãe, com o intuito de impedir a compressão e possível rompimento ou obstrução do cordão com o nascimento do feto. Geralmente, a mulher entra em trabalho de parto após a ruptura da membrana amnicoriônica (o “tampão”). O líquido descrito é o líquido amniótico, que com o rompimento da membrana amniocoriônica é expelido do corpo da mulher, assim como a placenta e as membranas fetais (âmnio e o córion). https://conteudo.colaboraread.com.br/202102/INTERATIVAS_2_0/INTRODUCAO_A_BIOLOGIA_CELULAR_E_DO_DESENVOLVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u4s3.html#resolucao%20.item-1