Prévia do material em texto
See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.net/publication/279886703 COMO FAZER INIMIGOS E AFASTAR PESSOAS. Book · January 2011 CITATIONS 0 READS 372 1 author: Some of the authors of this publication are also working on these related projects: Business schools and social impact: mechanisms and practices of valorisation and dissemination of knowledge View project The Management Industry View project Thomaz Wood Jr. Fundação Getulio Vargas 196 PUBLICATIONS 1,977 CITATIONS SEE PROFILE All content following this page was uploaded by Thomaz Wood Jr. on 02 May 2020. The user has requested enhancement of the downloaded file. https://www.researchgate.net/publication/279886703_COMO_FAZER_INIMIGOS_E_AFASTAR_PESSOAS?enrichId=rgreq-0317e50a7a2911ba0236bbedd6694c1f-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzI3OTg4NjcwMztBUzo4ODY4MDk1MTcxMDUxNTdAMTU4ODQ0MzI3Mzg3OQ%3D%3D&el=1_x_2&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/publication/279886703_COMO_FAZER_INIMIGOS_E_AFASTAR_PESSOAS?enrichId=rgreq-0317e50a7a2911ba0236bbedd6694c1f-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzI3OTg4NjcwMztBUzo4ODY4MDk1MTcxMDUxNTdAMTU4ODQ0MzI3Mzg3OQ%3D%3D&el=1_x_3&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/project/Business-schools-and-social-impact-mechanisms-and-practices-of-valorisation-and-dissemination-of-knowledge?enrichId=rgreq-0317e50a7a2911ba0236bbedd6694c1f-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzI3OTg4NjcwMztBUzo4ODY4MDk1MTcxMDUxNTdAMTU4ODQ0MzI3Mzg3OQ%3D%3D&el=1_x_9&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/project/The-Management-Industry?enrichId=rgreq-0317e50a7a2911ba0236bbedd6694c1f-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzI3OTg4NjcwMztBUzo4ODY4MDk1MTcxMDUxNTdAMTU4ODQ0MzI3Mzg3OQ%3D%3D&el=1_x_9&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/?enrichId=rgreq-0317e50a7a2911ba0236bbedd6694c1f-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzI3OTg4NjcwMztBUzo4ODY4MDk1MTcxMDUxNTdAMTU4ODQ0MzI3Mzg3OQ%3D%3D&el=1_x_1&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/profile/Thomaz_Wood_Jr?enrichId=rgreq-0317e50a7a2911ba0236bbedd6694c1f-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzI3OTg4NjcwMztBUzo4ODY4MDk1MTcxMDUxNTdAMTU4ODQ0MzI3Mzg3OQ%3D%3D&el=1_x_4&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/profile/Thomaz_Wood_Jr?enrichId=rgreq-0317e50a7a2911ba0236bbedd6694c1f-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzI3OTg4NjcwMztBUzo4ODY4MDk1MTcxMDUxNTdAMTU4ODQ0MzI3Mzg3OQ%3D%3D&el=1_x_5&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/institution/Fundacao_Getulio_Vargas?enrichId=rgreq-0317e50a7a2911ba0236bbedd6694c1f-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzI3OTg4NjcwMztBUzo4ODY4MDk1MTcxMDUxNTdAMTU4ODQ0MzI3Mzg3OQ%3D%3D&el=1_x_6&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/profile/Thomaz_Wood_Jr?enrichId=rgreq-0317e50a7a2911ba0236bbedd6694c1f-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzI3OTg4NjcwMztBUzo4ODY4MDk1MTcxMDUxNTdAMTU4ODQ0MzI3Mzg3OQ%3D%3D&el=1_x_7&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/profile/Thomaz_Wood_Jr?enrichId=rgreq-0317e50a7a2911ba0236bbedd6694c1f-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzI3OTg4NjcwMztBUzo4ODY4MDk1MTcxMDUxNTdAMTU4ODQ0MzI3Mzg3OQ%3D%3D&el=1_x_10&_esc=publicationCoverPdf COMO FAZER INIMIGOS E AFASTAR PESSOAS Thomaz Wood Jr. Este livro é dedicado a todos os colegas e amigos q ue conseguiram preservar o senso crítico e o bom humor durante o p eríodo de trevas do culto do management e do conformismo... Sumário Apresentação PARTE 1: FALANDO MAL DOS GENTIOS Homo ignobilis Os cavernícolas Clientes selvagens Heróis em baixa Empurrando com a barriga O erro tipo três O erro tipo quatro Voyeurs em fúria Distopia virtual A turma Y Na contramão Sexo verde PARTE 2: FALANDO MAL DAS CORPORAÇÕES Enxofre e naftalina A praga de Colbert Insensatez e insensibilidade Pulmões e cérebros Mal amadas, mal entendidas Na beira do abismo Depois das horas A armadilha do groupthinking Déficit de atenção O futuro em cores O encontro das águas Homo mobilis PARTE 3: FALANDO MAL DA GESTÃO A vida como extensão da empresa Na turma do fundão RH negativo Clonagem arriscada Salsicheiros e pasteleiros Leituras fugazes O futuro do management Revolucion ! Impostos em fúria Corrida de obstáculos Empregos vitalícios PARTE 4: FALANDO MAL DA CRISE A crise e os bodes Troca de cena Humores em transe Tragédia nórdica Marolas e vagalhões Apresentação Como Fazer Inimigos e Afastar Pessoas reúne ensaios escritos a partir de um olhar crítico sobre as organizações e seus habitantes. O título, naturalmente, é uma paródia d o conhecido Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie. De fato, se pensarmos em uma “célula tronco” dos livro s de auto- ajuda empresarial, este seria a obra de Carnegie. O fato é que há sete décadas o curioso volume manté m uma carreira de sucesso. Nada menos do que 15 milhões de cópias foram vendidas. Os preceitos contidos no livro venceram a s fronteiras do espaço e do tempo. Os clones Carnegie espalharam -se pelo comércio e pela indústria, pelo litoral e pelo plan alto (central), pelas letras e pela mídia. Este escriba prefere tomar a rota oposta e apresent ar aos leitores uma visão crítica sobre a vida nas organiz ações. Os ensaios deste libro estão divididos em quatro parte s: a primeira parte é composta por 12 textos focados no indivíduo , suas posturas e seus comportamentos; a segunda parte tam bém é composta por 12 textos, voltados para o estranho mundo das o rganizações; a terceira parte é composta por 11 textos, que focali zam as práticas de gestão; e a quarta parte compreende cin co textos, que tratam do momento de crise vivido a partir do final de 2008. Como Fazer Inimigos e Afastar Pessoas, da mesma forma que outros volumes que o antecederam, foi escrito para o leito r de tempo escasso, porém determinado a buscar conhecimento be m fundamentado. Os capítulos são curtos, porém foram escritos com base em pesquisas. Todos os textos foram norteados pelo dever e pelo prazer de exercer um olhar crítico sobre a vid a executiva. Boa leitura! São Paulo, julho de 2009. PARTE 1: FALANDO MAL DOS GENTIOS Homo Ignobilis Na chamada era do conhecimento, segmentos considerá veis da população parecem sofrer de anorexia intelectual: e les hostilizam o saber e celebram a ignorância. Circulam freqüentemente pela Internet listas de atr ocidades lingüísticas cometidas por estudantes em exames ves tibulares. Há alguns anos, uma safra auspiciosa, embalada por que stões ambientais, produziu impagáveis reflexões sobre a “ dificuldade de achar os pandas na Amazônia”, a “extinção do micro- leão dourado” e a poluição das “bacias esferográficas”. Muito ant es de Al Gore, nossos jovens já haviam chegado à conclusão de que a questão ambiental “é um problema de muita gravidez” e que, para resolvê- lo, não se deve preservar “apenas o meio ambiente, e sim todo ele”. Em suma, como bem sumariou um luminar: “vamos deixar de sermos egoístas e pensarmos um pouco em nós mesmos” . Sejam verdadeiras ou apenas fruto de algum malicioso bem humorado, o fato é que tais pérolas bem representam a condição educacional das hordas locais. Frente a tais manifestações de “exuberância intelec tual”, conservadores e nostálgicos costumam deplorar a deg radação do ensino público e relembrar momentos passados, não t ão soturnos, da educação pindoramense. Os lamentadores bem poder iam se associar aos vizinhos do norte. Lá como cá, a tendê ncia para a lamúria é perene, a cruzar gerações e a produzir re flexões e provocações. Em 1963, Richard Hofstadter publicou sua seminal ob ra “Anti- intellectualism in American Life” , relacionando a tendência anti- intelectual da sociedade à ação dos religiosos, dos políticos e dos empresários. Segundo o autor, tais atores envol vem sua retórica como conceitos como moralidade, democracia ,utilidade e praticidade para fomentar nos indivíduos desconfian ça e ressentimento contra o mundo da mente e a vida inte lectual. Em 1987, Allan David Bloom lançou “Closing of the A merican Mind” . A obra trazia uma crítica da universidade contempor ânea e da sociedade centrada no interesse individual. Bloom l amentava a desvalorização dos grandes livros do pensamento oci dental e a emergência de uma cultura popular que embalava os n ovos estudantes, incapazes de buscar um sentido filosófi co para a vida, e movidos apenas pela satisfação de desejos i mediatos de reconhecimento e sucesso comercial. Vinte anos depois, uma nova obra – “The Age of Amer ican Unreason” – assinada por Susan Jacoby, faz eco às duas primeir as. Em declarações sobre o livro, a autora se mostra assus tada com demonstrações de ignorância na mídia e na vida coti diana. Ainda pior é o que percebe como uma hostilidade geral ao conhecimento, uma mistura catastrófica que combina anti-intelectu alismo – a percepção de que muito conhecimento pode ser algo p erigoso – e anti-racionalismo – que reflete o primado da opiniã o sobre os fatos e as evidências. Segundo declarou ao The New York Times , os cidadãos de hoje não são apenas ignorantes sobre co nhecimento científico, cívico e cultural, como não acreditam q ue tal conhecimento tenha alguma importância. A tenebrosa frase “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe” nu nca foi tão popular. Jacoby alinha três causas para o estado das coisas: primeiro, as deficiências do sistema educacional, que segue prol ongando os anos de escolaridade, porém não gera evidências de que os estudantes estejam aprendendo mais; segundo, a forç a do fundamentalismo religioso, com sua antipatia pela c iência; e terceiro, a influência dos liberals (esquerdistas) norte- americanos sobre as universidades, a promover a cul tura pop, e a tornar trivial e superficial o aprendizado no ensin o superior. Em um artigo publicado no jornal The Washington Post , a própria Jacoby condena o inexorável movimento ladeira abaix o, catalisado pela superação da cultura escrita pela cultura do v ídeo. A autora relaciona a popularização do uso deste tipo de tecn ologia ao decréscimo da capacidade de concentração por períod os mais longos de tempo. A onipresença da mídia eletrônica e visua l estimula a cultura da distração, e avança contra indivíduos su sceptíveis, sem defesas. Conforme o público se torna mais impac iente com o processo de conseguir informação por meio da lingua gem escrita, aceleram-se os processos de comunicação, o que cont ribui para a erosão do conhecimento geral. Enquanto as taxas de leitura declinam, o uso de computadores, de Internet e de v ideogames sobe. Em um mundo cada vez mais dependente do conheciment o, é paradoxal que o reconhecimento da importância da educação e d o intelecto conviva com o anti-intelectualismo, com o obscurant ismo corporativo ou religioso e com celebrações sem pudo r da mais pura ignorância. É como se inexoráveis forças ambientais induzissem os indivíduos a um novo tipo de patologia: a anorexia intelectual. Os cavernícolas Só Platão explica o comportamento de alguns publici tários e de seus pares nos domínios mercadológicos corporativos . Em meados de agosto, o Conselho Superior do Audiovi sual (CSA) francês anunciou que proximamente os canais de TV d as terras de Voltaire não poderão mais exibir programas com a in dicação de que são destinados a crianças com menos de três anos de idade. Havia causado irritação nos franceses as declarações veic uladas por dois canais – Baby TV, lançado na França em 2005, e Baby First, criado em 2007, com emissões a partir da Grã-Bretan ha – de que a programação para a audiência infantil traria supost os benefícios. Segundo o jornal Le Monde , especialistas consultados pela CSA avaliaram que a TV representa uma ameaça ao desenvo lvimento de crianças com menos de três anos de idade. Assistir TV favorece a passividade, provoca agitação, gera problemas de so no, dificulta a concentração e retarda o desenvolvimento da lingu agem. Na França e em outros países a TV é há muito tempo objeto de preocupação para educadores, psicólogos e formulado res de políticas públicas. No Brasil, as crianças de quatr o a 11 anos de idade passam quase cinco horas por dia diante da TV , mais tempo do que convivendo com a família ou na escola. A inf ormação é assinada por Ana Lucia Villela, presidente do Insti tuto Alana, uma organização sem fins lucrativos, no website www.alana.org.br . O Instituto Alana desenvolve, desde 2005, o Projeto Criança e Consumo, que tem como objetivo fomentar “a consciên cia crítica da sociedade brasileira a respeito das práticas de con sumo de produtos e serviços por crianças e adolescentes”. A mercantilização da infância e da juventude, o consu mismo, a erotização precoce, a obesidade infantil, a violênc ia na juventude, o materialismo excessivo e o desgaste da s relações sociais são os temas prioritários do Projeto. O Pro jeto visa disseminar a informação apoiar a educação, porém su a equipe também realiza uma ação direta de denúncia contra a busos dos meios de comunicação. basta Ligar a TV para confirm ar que crianças são alvos costumeiros de publicitários e p rofissionais de marketing. Significativamente, o website do Instituto Alana registra dezenas de notificações e ações jurídicas contra empresas q ue endereçam mensagens publicitárias a crianças. A lista inclui pesos pesados do cenário corporativo local, tais como C&A, CadBur y Adams, Cartoon Network, Coca-Cola, Editora Abril, Kellog, Nestlé, Sadia e Unilever. Muitas das empresas mencionadas possuem listas de valores e códigos de ética, mas parecem ignorar ou interpretar de forma “peculiar” o Estatuto da Criança e do Adolesc ente e outros instrumentos legais que tratam da matéria. As peças relacionadas no website revelam um quadro triste da “criação” publicitária. Uma peça para TV mostra o D VD de bordo do Renault Scénic como a solução perfeita para “discip linar” crianças em uma suposta viagem de férias. O próximo passo talvez seja promover diretamente pílulas tranqüilizantes p ara crianças ativas. Comerciais de sandálias Havaianas e de serv iços telefônicos da Claro projetam jogos sensuais, própr ios dos adultos, em grupos de crianças de seis ou sete anos de idade. O que deveria ser visto como constrangedor torna-se “ engraçadinho”. A Mattel coloca suas tradicionais Barbies a serviço do consumismo kitsch e do mau gosto, enquanto a Candide persegue o mesm o fim, porém usando um personagem mais ou menos real: a ap resentadora Xuxa. Alguns publicitários e seus pares dos domínios merc adológicos parecem ter enveredado pelo século 21 como caverníc olas do século 20, herdeiros do laissez-faire de outras eras. Assemelham-se aos prisioneiros da célebre caverna de Platão, acorrent ados ao chão e impossibilitados de sair. Seguem a interpretar o mu ndo segundo as sombras projetadas na parede à frente. Caso deixassem a caverna, se espantariam com um mun do exterior cheio de implicações e conseqüências. Borboletas ba tem asas na Amazônia e já se forma um tornado no Texas. Talvez se surpreendessem ao saber que fumar causa danos à saú de, que dirigir alcoolizado causa acidentes e que fixar outdoors emporcalha a cidade. Quiçá até notassem que os urso s polares andam reclamando do calor e que “tirar vantagem de tudo” não é mais o lema de algumas profissões. No entanto, a vida segue tranqüila dentro da cavern a. Na caverna não há borboletas amazônicas, ameaça à camada de oz ônio, aquecimento global, infância roubada, consumismo e outros temas aborrecidos da vida real. Na caverna, a conversa gi ra em torno de insights geniais, campanhas criativas, verbas espetaculares e platéias deslumbradas comtanta criatividade. Não h á crise de consciência, porque não há consciência. Não há cris e moral, porque não há moral. Na caverna, há somente caverní colas, muitos deles. Clientes selvagens A considerar o comportamento de alguns clientes, ta lvez seja pertinente criar o Provicon – o Programa de Proteçã o e Defesa das Vítimas dos Consumidores. Ouço, constrangido, gravações de um call center. A seqüência, que une quatro chamadas e soma 20 minutos, retrata a ep opéia de um cliente mal atendido. O ritmo é de filme policial. Os diálogos são de teatro do absurdo. O primeiro ato (ou chamad a) revela o despreparo do atendente, que não registra a solicit ação do cliente, confunde seu nome e coloca-o repetidamente em espera. O cliente responde com desmedida irritação: recusa-se a repetir as informações prestadas, insinua as limitações mentai s do atendente, ameaça processá-lo e exige falar com um superior. De cliente mal atendido, transforma-se em destemido gu erreiro, a invocar códigos e regulamentos: “aos amigos, tudo; aos inimigos a lei”. O segundo ato traz o cliente em embate com o requis itado superior. Belicoso, ele delata o atendente, exige r etratação e clama por compensação. Ciente de sua limitada auton omia, o superior, que, afinal, não é assim tão superior, es mera-se na retratação, porém nega a compensação. Em um crescen do de irritação, o guerreiro pragueja e esbraveja. Transf orma o superior em “mané”, lembra-o de seu minguado salári o e ameaça suprimir, pela força de suas relações pessoais, seu emprego. O terceiro ato mostra o cliente triunfante. Sua com pensação é autorizada pelo superior do superior. Seu pedido se rá atendido. Vitória, afinal. Porém, a conquista não lhe é sufic iente. É preciso que o inimigo seja humilhado e aprenda uma inesquecível lição. O massacre, impetrado pelo sádico, atravessa bons cinco minutos. O superior é levado seguidamente às cordas , nocauteado até sentir o peso do adversário, aceitar a derrota e suplicar por perdão. O cliente já não é um simples guerreiro. É também inquisidor e justiceiro. Sua missão é sagrada, rede ntora: usar o chicote e a palmatória para salvar a alma dos pecad ores. O quarto ato conclui o drama. O cliente – guerreiro , justiceiro, inquisidor e missionário – é traído pelo destino. D epois de contundentes vitórias, sua entrega sofre um atraso, o que lhe remove o chão e a razão. A quarta ligação é marcada pelo delírio. Sua ira transborda na forma de um fluxo trôpego e i ninteligível de blasfêmias. A vítima é uma humilde atendente que , sem defesa, agarra-se ao seu script como a uma bóia salva-vidas. A tensão cresce até o esperado desfecho: o corte seco da lig ação. Desce a cortina. Os call centers constituem um fenômeno emergente no mundo do trabalho. Suas condições de trabalho são comumente comparadas àquelas das tecelagens inglesas da Revolução Indust rial: a mão de obra é abundante e tem baixa qualificação, o trabal ho é árduo e estafante, o controle é impiedoso e a remuneração é ínfima. Na pré-história dos call centers encontra-se Murray Roman, um norte-americano que, em meados da década de 1960, c riou uma nova técnica de vendas. Roman reuniu um grupo de atores desempregados, coloco-os em uma sala repleta de telefones e pagou salários de fome para que dessem vida a um tosco roteiro de ven da. Foi um sucesso. Nos anos 1980 e 1990, o desenvolvimento do setor foi catalisado pelo avanço das tecnologias de informaçã o e de comunicação. Empresas especializadas cresceram vert iginosamente, cruzando barreiras regionais e nacionais, em busca de mão de obra barata. Quem viu um, viu todos. Call centers são geralmente alojados em salões amplos, o espaço dividido em dezenas ou cent enas de cubículos. A inspiração das linhas de montagem é ní tida: os atendentes têm seus tempos e movimentos minuciosame nte controlados; as gravações são monitoradas e o tempo de atendimento é acompanhado. As falas, do “bom dia” a té o “obrigado por ligar”, são determinadas por scripts pré-definidos. As conseqüências do sistema são conhecidas: alto nível de estresse, distúrbios mentais, altas taxas de absenteísmo e de rotatividade. Os dois tipos de call centers – as centrais de televendas e as centrais de atendimento – são alvos comuns de recla mações. As primeiras são criticadas por invasão de privacidade . Quem não foi interrompido no trabalho ou no repouso por uma ofer ta irrecusável de um novo (e inútil) cartão de crédito? As últimas são criticadas pela dificuldade de conseguir contato e pela má qualidade dos serviços. Alguns países vêm estabelec endo controles para evitar abusos. Porém, quem controla a incivilidade dos clientes? S eqüências, como a descrita acima, são cada vez mais comuns, a revelar que Pindorama ecoa ainda costumes e abusos da casa gran de e da senzala. Talvez, além do Procom, deva-se criar o Pr ovicom: o Programa de Proteção e Defesa das Vítimas dos Consu midores. Heróis em baixa O culto aos executivos-chefes transformou-os em cel ebridades e engordou suas contas bancárias. No entanto, estudos científicos trazem dúvidas sobre o seu impacto no desempenho da s empresas. Se formos ingênuos a ponto de acreditar nas manchet es das revistas de negócios, concluiremos que Carlos Ghosn salvou a Nissan, Lou Gerstner fez o elefante IBM dançar, e J ack Welch levou as ações da General Electric aos céus. Por de trás da despudorada adoração, repousa uma premissa: executi vos-chefes são peças vitais nas engrenagens corporativas. Sua insp iração e sua transpiração abrem trilhas e levam suas empresas ao sucesso. Honras e glórias lhes são devidas. Tome-se o caso emblemático de Steve Jobs e da Apple . Jobs foi um dos fundadores da icônica organização, em 1976. Uma década e muitos computadores vendidos depois, foi afastado d a própria empresa. Retornou nos anos 1990, para comandar uma reviravolta coroada por sucessos com o iMac, o iPod e o iPhone. O turn-around e os novos produtos iluminaram a estrela de Jobs e inflaram sua legião de adoradores. Em 2004, Jobs anunciou um dia gnóstico de tumor no pâncreas. Desde então, sua saúde tornou-se tema público, acompanhado de perto pelo mercado financeiro. Anúnc ios oficiais da empresa, boatos e até mesmo notícias falsas sobr e a condição física de Jobs fazem as ações da Apple oscilar, rou bando em poucas horas bilhões de dólares do valor da empresa . Harris Collingwood, em um artigo para o periódico The Atlantic, parte do caso de Jobs para introduzir uma intrigant e questão: quanta diferença um executivo-chefe pode realmente fazer? Até a década de 1970, os presidentes de empresa eram figu ras apagadas, tecnocratas que eram vistos, e se viam, como peças de uma engrenagem maior. Sua missão era manter, com discri ção, a máquina em funcionamento. Porém, a partir do final dos anos 1970 começaram a surgir celebridades no mundo corporativ o. Lee Iacocca, na Chrysler, e Bill Gates, na Microsoft, a lém dos citados Steve Jobs Jack Welch, Lou Gerstner e Carlo s Ghosn tiveram seus feitos registrados em incontáveis capa s de revistas, artigos e livros. Além de beneficiar os próprios ex ecutivos, o fenômeno movimentou a indústria editorial, fomentou as atividades das empresas de eventos corporativos e alimentou co nsultores de recursos humanos, estratégia e gestão da mudança. Apesar da crescente oferta de fábulas de sucesso, Collingwood observa que a importância do executivo chefe não é obvia. As investigações sobre o tema começaram na década de 1 930 e seus resultados são polêmicos. Chester Barnard, pioneiro estudioso da vida corporativa, considerava o executivo chefe com o uma força vital, a prover sentido e direção para a empresa, i nduzindo os liderados a fazerem mais do que a simples obrigação profissional.Nem todos os seus pares concordam. Em um estudo emp írico publicado em 1972 na revista científica American Sociological Review, Stanley Lieberson e James O’Connor argumentam que a influência do executivo-chefe sobre o desempenho or ganizacional é relativamente pequena. Os pesquisadores investigara m 167 empresas e constataram que fatores ligados ao ambiente (por exemplo, disponibilidade de capital e grau de estabilidade d o mercado) e à organização (por exemplo, posição da empresa frente aos concorrentes) têm maior efeito sobre os resultados do que a ação do executivo-chefe. James March, professor de Stanford e decano do estu do das organizações, afirma que em qualquer organização be m gerenciada os candidatos ao posto de executivo-chefe são tão p arecidos em termos de educação, competências e perfil psicológi co que a escolha é irrelevante. O que importa é ter alguém n o cargo. Arremata March: “é difícil dizer a diferença entre duas lâmpadas; porém, se você retirar todas elas, fica difícil ler no escuro”. Jeffrey Immelt, atual presidente da General Electri c, faz coro a March, afirmando, literalmente, que nos anos 1990 q ualquer um poderia ter gerenciado bem a GE, até mesmo um pasto r alemão! Mostrando as nuanças do tema, mm estudo conduzido p or três professores de Harvard – Noam Wasserman, Bharat Ana nd, e Nitin Nohria – concluiu que os executivos-chefes podem fa zer mais diferença em algumas indústrias do que em outras. S etores muito regulados ou estáveis dão pouca margem de manobra à ação gerencial. Setores instáveis e competitivos, por ou tro lado, exigem criatividade, iniciativa e agilidade de seus líderes. Collingwood fecha seu artigo com uma frase de Jeffr ey Pfeffer, um professor de Stanford notório por suas posturas crí ticas: “Bons líderes podem fazer uma pequena diferença positiva; maus líderes podem fazer uma enorme diferença negativa”. A consi derar a conduta de certos líderes pindoramenses, a máxima d e Pfeffer vale também ao sul da Linha do Equador. Empurrando com a barriga Trabalho científico procura lançar luzes sobre um d os nossos mais irritantes hábitos: a mania de deixar para o dia se guinte o que deveríamos fazer hoje. No patoá cotidiano, empregamos a expressão “empurra r com a barriga”. Ela vem assim mesmo, no infinitivo, ou en tão no gerúndio, como no título deste capítulo. No entanto , o termo apropriado na fala pátria é procrastinar. Substituí mos o segundo pelo primeiro para tornar a pouco edificante mania mais simpática. Empurrar com a barriga é coisa de boa-pr aça. Procrastinar soa quase delinqüente. E é difícil de falar, como se a língua lutasse para sincronizar seus movimentos c om os músculos faciais, o palato a reprimir, sem sucesso, a sublev ação das partes inferiores. O significado tampouco é dos mai s dignos. Procrastinar ( apud Houaiss) é adiar, deixar para depois, delongar, postergar. Em suma, coisa boa não é. Não obstante, a feiúra não lhe subtrai popularidade : procrastinamos o início da dieta, as resoluções de ano novo e o check-up médico; procrastinamos tudo que parece enfadonho e tudo que demanda muito trabalho; procrastinamos decisões difíceis e ações impopulares; procrastinamos no trabalho e na vida pessoal; procrastinamos o namoro (por temer o casamento) e o casamento (por temer o divórcio); as vezes procrastinamos a v ida e até tentamos procrastinar a morte. A popularidade e a irracionalidade do ato – a procr astinação – sempre despertaram a curiosidade dos estudiosos do comportamento humano. Porque, afinal, sabotamos ou prejudicamos a nós mesmos deixando para amanhã o que devemos fazer hoje? Porq ue preferimos a agonia da espera em lugar de fazer de uma vez o q ue precisamos? Terá nossa herança genética nos programado para adi ar e postergar? Terá nossa mente uma perversão instalada que nos isola do senso de urgência? Alguns psicólogos apostam em nossa baixa auto-estim a e em nossa insegurança. Se estivermos incertos do sucesso ou t emermos os resultados, adiaremos o quanto pudermos a tarefa. O utros pesquisadores notam a falta nossa falta de autocont role. Sem disciplina, tendemos a agir de forma impulsiva e po uco racional, adiando atividades para as quais deveríamos dar pri oridade. Naturalmente, embora às vezes seja completamente ir racional, aceitamos como deveras humano tentar adiar atividad es pouco estimulantes, difíceis ou simplesmente aborrecidas. Em um número da revista científica Psychological Science , Sean M. McCrea e mais três colegas pesquisadores tentam uma outra explicação. A conclusão, que recebeu atenção da imp rensa européia e norte-americana, é que agimos em tempo quando rec ebemos tarefas concretas, porém tendemos a adiar o trabalho quando enxergamos as tarefas de uma forma mais abstrata, ou seja, quando percebemos uma atividade como distante do aqui e agora, tendem os a confiná- la em um futuro vago e longínquo. Em um experimento realizado com estudantes, os pesq uisadores observaram que quase todos que foram induzidos a pe nsar em termos concretos completaram suas tarefas dentro do prazo, enquanto que mais da metade daqueles que foram induzidos a pensa r de forma mais abstrata perderam seus prazos. Se os resultado s forem generalizáveis, então simplesmente apresentar certa s tarefas de forma mais detalhada e objetiva pode aumentar a pos sibilidade de tê-las resolvidas dentro do prazo. Os resultados têm inegável interesse para o mundo c orporativo, no qual o comportamento de empurrar com a barriga cheg a a ser endêmico. Nos últimos anos, mudanças no ambiente de trabalho, com a introdução de novos sistemas e modelos de gestão, de incontáveis prêmios e certificações, criaram uma ca mada de fumaça e vapor sobre as organizações. Administrar perdeu p arte de seu caráter prático para se transformar em atividade ab strata, cheia de metáforas, estórias e fábulas. Muita reunião par a pouca ação. Em suma, um ambiente que não só favorece a procrast inação, como também premia os procrastinadores. Neste novo ambie nte, para cada decisão banal, é preciso penetrar no obscuro mundo dos modelos teóricos e discutir coerências improváveis. Mais ab stração levando a mais procrastinação. O pior é que a torpe mania gera efeito dominó. As o rganizações são hoje sistemas fortemente interconectados, nos q uais cada área ou profissional depende de outros, e condiciona o t rabalho de outros. Se uma dessas “peças” atrasa sua tarefa ou deixa de cumprir seu prazo, gera uma onda de ineficiência em toda o sistema. Somem-se estas ineficiências e chega-se ao resultado: custos altos, baixa rentabilidade, serviços de má q ualidade, clientes mal atendidos e imagem prejudicada. Conclu são: procrastinar pode ser humano, mas é feio; portanto, usemos com moderação. O erro tipo três Segundo renomados pesquisadores, na raiz de algumas grandes catástrofes contemporâneas está nossa tendência de resolver da forma certa os problemas errados. Há pouco mais de dez anos, as montadoras instaladas em Pindorama viviam um momento bem diferente do atual. Diante da situação econômica desfavorável e da retração do consumo, el as tinham seus pátios inundados com um mar de veículos novos e red uziam a produção. Enquanto isso, um grande fornecedor de au topeças, embora ligado por cordão umbilical às montadoras, a gia como se habitasse um planeta distante. Seu diretor industri al, orgulhoso de seus quadros e de suas máquinas, comemorava mais um recorde de produção. O paradoxo era óbvio: como seria possível para um fornecedor quebrar recordes se seus principais clie ntes estavam reduzindo drasticamente a produção? De fato, milagr e não havia. A empresa em questão produzia, mas não vendia. Os est oques de produto acabado lotavam seus armazéns e eram levado s para armazénsexternos, alugados em ritmo de emergência e a preço de ouro. A queda do faturamento obrigava a empresa a c aptar dinheiro em bancos para comprar matéria prima. A situação er a, de fato, surreal: a empresa tomava empréstimos para produzir em velocidades cada vez maiores, e estocar, a um custo cada vez mais alto, um produto que seus clientes não queriam. Fel izmente, a insensatez foi descoberta e o prejuízo contido. Situações como esta são muito comuns. A todo o mome nto, nas empresas, é possível identificar esforços sinceros para resolver da forma mais eficaz possível determinados problema s. No entanto, em muitos casos, esses problemas são os problemas e rrados. No caso acima, um enorme esforço da equipe de produção havia sido realizado para eliminar gargalos e maximizar o uso dos equipamentos e recursos. A questão real, no entanto , situava-se além da fronteira da produção: era uma questão de m ercado. Esse é o tema do novo livro dos veteranos pesquisad ores Ian I. Mitroff e Abraham Silvers: Dirty Rotten Strategies: How We Trick Ourselves and Others into Solving the Wrong Problem s Precisely , a ser lançado em 2008 pela Stanford University Press. Mitroff e Silvers denominam a conduta acima de erro tipo três . Os erros do tipo um e dois tiveram seu uso consagrado pela esta tística: o erro tipo um refere-se a rejeitar como falsa uma hi pótese verdadeira e o erro tipo dois refere-se a aceitar c omo verdadeira uma hipótese falsa. Em síntese, o erro tipo três re fere-se a solucionar de forma correta o problema errado. A idéia do erro tipo três veio do estatístico John Tukey, que argumentava que a maior parte dos erros ocorrem por que tentamos resolver os problemas errados e não porque falhamos em conseguir as soluções certas para os problemas certos. A deno minação de erro tipo três foi dada por Howard Raiffa, um pesqu isador da teoria das decisões. O ponto de partida de Mitroff e Silvers foi o traba lho de Jerome Groopman, um hematologista de Harvard. Groopman ana lisou a questão dos erros médicos. Seu argumento é que part e considerável desses erros resulta da forma padronizada como os m édicos são formados e da pressão a que são submetidos para agi r com assertividade e rapidez. Em lugar de considerar div ersas possibilidades de problemas e diagnóstico, a formaç ão e a prática dos médicos os força a usar certas rotinas para tra tar problemas complexos. Falta análise crítica. Os resultados pod em ser, eventualmente, fatais. A dificuldade com a maior das situações nas quais s urgem os erros tipo três é que nós acreditamos saber, de antemão, qual é a raiz de um problema. Parte considerável dessa questionáv el premissa, segundo os autores, se deve ao sistema de “des-educ ação” (sic). Explica-se: na escola, em todos os níveis, somos in duzidos a confundir “exercícios” com “problemas”. Somos trein ados para resolver exercícios, que tem soluções lógicas e úni cas, e não problemas, que são complexos, exigem análises ampla s e podem levar a múltiplas soluções. Então, levamos tal dist orção para a vida profissional e tentamos resolver situações com plexas com o uso de ferramentas simples. Ambiciosa, a obra de Mitroff e Silvers procura ir a lém dos casos específicos e compreender os padrões que permeiam a s situações que levam ao erro tipo três. Seu foco ultrapassa as fronteiras corporativas e repousa sobre grandes temas da atual idade norte- americana: o caro e criticado sistema de saúde (obj eto de um documentário de Michael Moore), as meias verdades e inverdades utilizadas para justificar a guerra do Iraque, o fi asco do atendimento das vítimas do furacão Katrina, e o pol êmico fenômeno das mega-igrejas e a “reinvenção de Deus”. Além do erro tipo três, os autores também mencionam o erro tipo quatr o. Deste, trataremos no próximo capítulo. O erro tipo quatro Mais grave do que resolver da forma certa os proble mas errados é, visando benefício próprio, induzir intencionalmente os outros a resolver os problemas errados. No capítulo anterior, este escriba comentou o livro de Ian I. Mitroff e Abraham Silvers: Dirty Rotten Strategies: How We Trick Ourselves and Others into Solving the Wrong Problem s Precisely , a ser lançado em 2008 pela Stanford University Press. O argumento central da obra é que as distorções do sistema educ acional e certas condições na prática profissiomal nos levam a cometer o que os autores denominam de erro tipo três. Os erro s do tipo um e dois tiveram seu uso disseminado pela estatística: o erro tipo um refere-se a rejeitar como falsa uma hipótese verdad eira e o erro tipo dois refere-se a aceitar como verdadeira uma h ipótese falsa. O erro tipo três refere-se a solucionar de forma co rreta o problema errado. A obra explica também o erro tipo quatro, que signi fica intencionalmente resolver os problemas errados. O e rro tipo três é produto da simples ignorância ou de uma prática p rofissional irrefletida. O erro tipo quatro, por sua vez, ocorr e quando, em detrimento dos outros e para benefício próprio, cer tos indivíduos ou grupos intencionalmente forçam outros a resolver problemas segundo sua própria definição dos problemas. Segundo Mitroff e Silvers, o erro tipo quatro ocorr e quando, por exemplo, as grandes corporações utilizam táticas et icamente condenáveis para gerar lucros desmedidos às custas do bem estar da população, afirmando que tudo faz parte da “orde m natural das coisas”; ou ainda quando o governo utiliza técnicas de manipulação da informação para promover políticas d esastrosas para a sociedade. A antipatia com o governo republi cano norte- americano e com as grandes corporações marca boa pa rte do livro. O capítulo cinco é dedicado à mídia. Para Mitroff e Silvers, a mídia é um exemplo contundente do erro tipo quatro, ao induzir a tolerância a abusos do governo. Os autores também a condenam por utilizar as mais sofisticadas formas de “irrealidad e” para nos distrair, reduzindo nossa habilidade de lidar com as cada vez mais complexas formas de realidade. A irrealidade m ediática, observam, não faz apenas com que o irreal pareça re al, mas também com que o irreal, povoado por celebridades, pseudo- problemas e pseudo-soluções, pareça melhor do que o real. Segundo os autores, a mídia parece ter abandonado s eu papel fundamental de reportar a realidade, migrando tenaz mente para a atividade de criação e a disseminação da irrealidad e. Para determinar se um problema – social, cultural ou cor porativo – precisa de solução ou não, primeiro temos que recon hecê-lo. No entanto, a existência de problemas parece cada vez mais determinada pelo reconhecimento pela mídia. A mídia em geral, e a TV, em especial, se tornaram as principais fontes d e legitimação de agendas políticas, sociais e culturais. Se não a parece na mídia, simplesmente não aconteceu. No Brasil, a mídia de negócios teve, a partir dos a nos 1990, um papel marcante na mudança dos valores e comportamen tos. Ela promoveu o indivíduo-marca de sabão, sempre preocup ado com a própria aparência e com a própria carreira; ela tam bém ajudou a disseminar incontáveis modas gerenciais, de grande apelo e benefício duvidoso; ajudou a tornar empresários e e xecutivos modelos de conduta e, principalmente, contribuiu pa ra levar a linguagem dos negócios para o governo, a sociedade e a cultura. Em suma, a mídia de negócios criou, por meio de seu s textos, prêmios e rankings de empresas , uma irrealidade contra a qual a realidade das organizações e dos profissionais pass ou a ser medida. Mitroff e Silvers listam cinco fatores responsáveis pela ascensão da irrealidade: primeiro, o fato de que a vida mode rna ganhou um nível de complexidade além da nossa capacidade indi vidual de compreensão; segundo, a incapacidade da educação, f ragmentada ereducionista, de fazer frente a tal contexto; terce iro, o aumento exponencial dos anestesiantes “sistemas de produção de irrealidade” – shows da TV, jogos eletrônicos etc.; quarto, forças econômicas, sociais e culturais que transfor mam a sociedade em unidade produtora e consumidora da irr ealidade; e quinto, a dificuldade de refletir e agir de forma s istêmica, pensando nos problemas a partir de múltiplas perspe ctivas. Para os autores, o processo contínuo de criação da irrealidade vem acompanhado do emburrecimento da população, da comercialização das coisas e das pessoas, da aceita ção de comportamentos bizarros e anti-sociais como coisas normais, e da distorção da realidade e da verdade. Mitroff e Silv ers não são pessimistas. Porém, a leitura de seu livro deixa a amarga sensação de que o excesso de luzes parece estar lev ando a uma nova idade das trevas. Voyeurs em fúria A cada quatro anos, turbas de conformistas, de vari adas latitudes e idênticas atitudes, unem-se em uma orgia comunal, a celebrar a superioridade da euforia sobre a alegria. Hoje, uma boa medida de popularidade é o número de citações obtidas no Google . Tome-se, por exemplo, o termo football e retornarão nada menos do que 564 milhões de citaçõe s, superando God (545 milhões) e Christ (apenas 131 milhões). Significativo! Insira-se o nome das celebridades relacionadas ao c itado esporte e resultarão cifras igualmente astronômicas. O ingl ês Beckham conta com mais de 31 milhões de citações e o brasil eiro Ronaldo chega a quase 24 milhões. Outro inglês, Harry Potte r, com 162 milhões de citações, supera-os com folga. Entretant o, é bruxo e pratica outro esporte. Do outro lado da fama, este pobre escriba não chega a insignificantes 60 mil citações, o que leva a deduzir que duas chuteiras valem aproximadamente 500 penas. Trata-se, sem dúvida, de um fenômeno. O New York Times , há quatro anos, dedicava apenas espaços secundários ao mais g lobalizado dos esportes. Hoje, o diário mais lido da Internet faz chamadas na primeira página, traz longas matérias e mantém um blog exclusivo. Da pátria mãe do esporte, o semanário The Economist advoga que a Copa do Mundo é o principal evento esportivo do mun do, superando as Olimpíadas. Rationale : a Copa é mais igualitária, mais surpreendente e menos propensa a manipulações por g overnos e ditadores. Será? Aos excêntricos, que teimam em ignorar o fenômeno, restam o isolamento e a perplexidade. É o caso deste escriba , que na vida assistiu a uma única peleja. Foi no ano de 1998, na terra de Asterix, em uma abertura festiva de Copa do Mundo. No pasto plano à frente perfilaram-se 22 atletas, sendo que 11 rep resentavam Pindorama e 11 outros defendiam a pátria dos saiote s. Aberta a partida, a curiosidade de marciano não durou mais d o que doze minutos. Então, a vista se perdeu a atenção se esva iu. Teria sido diferente com uma partida de críquete ou um torneio de bocha? Provavelmente, não. Exercitar esqueleto e músculos é uma maneira muito prazerosa e saudável para manter o espírito alerta, a coluna re ta, a mente aberta e o coração tranqüilo. Espiar trotes cansado s, alternados com desabaladas correrias e pontapés, é meramente e nfadonho. Não menos bizarro é testemunhar os malabarismos romanes cos de talentosas penas, a acrescentar genialidade e poesi a a movimentos incertos e desarmônicos. Nas linhas desses magos, e ncontros aborrecidos transmutam-se em lutas épicas, momentos insossos ganham matizes políticas e ascensões fortuitas ress urgem como tratados sociológicos. Tudo isso ficaria recolhido aos subterrâneos da civilização, não fosse a incontrolá vel histeria da mídia, a fazer eco em parcela considerável da po pulação. Então, por motivos que escapam ao senso comum, emba tes de pouco brilho transformam voyeurs em selvagens, a brandir buzinas e explodir rojões madrugada afora. Na entrada do terceiro milênio, o esporte em questã o soma religião, mercado e espetáculo. É religião, porque é marcado por uma fé de fanático, que turva a razão e a sensibili dade. É mercado, porque é dominado pelo comércio das pernas , da imagem e dos sonhos. É espetáculo, por que foi transformado em show mundial, com mídias especializadas e celebridades p róprias , tudo acompanhado em tempo real por turbas globais, confo rmistas e esbaforidas. A perseverar as tendências atuais de hiper-especial ização e hiper-comercialização, o futuro será ainda mais fre nético e eufórico. Aos atletas, assessorias e entourage , serão acrescidos torcedores profissionais. Eles serão recrutados em todo o mundo, ganharão maquiagem e fantasia, e preencherão ordena damente as arenas esportivas. De Liverpool e de São Paulo, ser ão trazidos exemplares mais violentos, destinados a erupções co ntroladas de selvageria. Do Rio de Janeiro, virão os tagarelas p rofissionais, mestres da incontinência verbal. De Estocolmo e de Buenos Aires, virão exuberantes loiras, postas a adornar pontos e stratégicos das arquibancadas. Da África e da China, virão os a tletas, em grande quantidade e com baixo custo. Da Califórnia e da Índia, virão os gurus da auto-ajuda, para garantir a harmo nia e a auto- estima das equipes. Fotógrafos e cinegrafistas, dir igidos por magos da publicidade, ensaiarão e produzirão moment os de espontaneidade e vivacidade. Escritores de grande t alento e baixa renda serão recrutados para elaborar épicos e fábul as. Fabricantes de cerveja e de tênis comandarão todo o espetáculo, explorando cada oportunidade de merchandising . Pelas TVs, Internet e fones móveis, as hordas continuarão a ac ompanhar o show, uivando e disparando rojões em momentos precisos. Ao menos não estarão pelas ruas roubando, dirão as avós. Distopia virtual A Internet ampliou extraordinariamente nosso acesso a informações. Porém, sua influência sobre a forma co mo lemos e pensamos pode ser menos gloriosa. A edição de julho e agosto da revista The Atlantic traz na capa uma incômoda questão: “estará o Google nos tornando estúpidos?” Nicholas Carr assina a matéria de 4.193 palavras e muitas provocações. A perspectiva crítica não é nova. Nos anos setenta, a IBM e seus paquidérmicos mainframes serviram de inspiração para o temível HAL, o computador de “2001: Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick. Nos anos noventa, não faltaram teo rias conspiratórias contra a Microsoft ou libelos contra os efeitos danosos do PowerPoint e do MS-Word. O alvo do momen to é a onipresente Google, por seus ambiciosos planos de “ organizar o conhecimento humano”. O incômodo humano com os avanços tecnológicos é ant igo. Como lembra Carr, Sócrates lamentava o desenvolvimento d a escrita. O ateniense viveu entre 470 a.C. e 399 a.C. e foi um dos fundadores da filosofia ocidental, mas não deixou registros. S alvou-nos Platão, que o transformou em personagem de seus diá logos. Sócrates temia que as pessoas passassem a contar co m a palavra escrita como um substituto para o conhecimento que antes levavam em suas mentes, tornando-se portadoras de grandes q uantidades de informações, mas sem lhes compreender propriamente o significado. Isso faria com que fossem consideradas sábias, quan do na verdade eram essencialmente ignorantes. No século XV, com o desenvolvimento dos sistemas de impressão, por Johannes Gutenberg, uma nova onda de temores af ligiu os pensantes. O medo que então se instalou foi que a a mpliação da disponibilidade de livros provocasse preguiça intel ectual, tornasse os indivíduos menos estudiosos e enfraquec esse suas mentes. Não se pode dizer que os medos eram infundados. Mui tos efeitos negativos foram comprovados como verdadeiros, assim como enormes benefícios que não foram inicialmente previstos. Da mesma forma, não se deve ignorar os incômodos gerados peladisse minação das novas tecnologias, ainda que as vantagens percebida s sejam inegáveis. Em 1882, lembra Carr, a visão de Friedrich Nietzsch e começara a falhar. Escrever, para o filósofo, transformara-se em agonia. Salvou-o uma máquina de escrever. Porém, a tecnolog ia cobrou seu preço. O texto de Nietzsche tornou-se mais compacto e telegráfico. O meio havia transformado o conteúdo, a forma de escrever e, portanto, a forma de pensar. Se o mesmo é verdade para as tecnologias atuais, então estamos diante de um novo desafio. A convivência intensa com websites , emails , orkuts , facebooks e you - tubes está alterando o uso que fazemos da memória e interferindo em nossa atividade cerebral. As novas mídias provêm informações e ainda influenciam a forma como reflet imos sobre o que vemos e lemos. Temos cada vez mais dificuldade para enfrentar textos longos e densos. Concentração e contemplação tornaram-se capacidades raras. A atenção se dispersa, os olhos lacrimejam, a cabeça pesa. Estamos nos acostumando a pensar em so luços, em ziguezague. Estudos mostram que adotamos na Internet um comport amento similar ao zapping diante da TV. Saltamos de página em página de form a quase randômica. Não lemos, no sentido tradicional da palavra, acompanhando uma trajetória ou mergulhando, pela pe na do autor, em imagens e sentidos. Na Internet, embarcamos em u ma navegação desorientada, por um mar de signos que nem sempre s e relacionam. Terminamos as jornadas como o turista que visita ci nco países em sete dias e retorna considerando-se conhecedor da c ultura européia. Maryanne Wolf, uma psicóloga da Tufts Uni versity, teme que o novo estilo de leitura enfraqueça nossa capac idade de leitura mais profunda. Na Internet, segundo ela, ap enas decodificamos informações. Por excesso de informaçã o e pressão de tempo, não avaliamos ou interpretamos os textos. Para Carr, o quartel general da Google, na Califórn ia – o Gloogleplex – é a igreja maior da Internet, e sua r eligião é o taylorismo. Carr se refere à administração científi ca e aos estudos de tempos e movimentos desenvolvidos no iní cio do século XX por Frederick Winslow Taylor. Seus métodos, ao b uscar ganhos de produtividade, transformavam operários em autôma tos. Segundo a visão dos senhores da Google, a Internet deve ser u ma máquina hiper-eficiente, um algoritmo perfeito, a permear t oda a atividade cerebral da nossa Era do Conhecimento. O que Taylor fez pelo trabalho manual, a Google está fazendo pelo tr abalho mental, dispara o autor. Talvez estejamos, de fato, nos tra nsformando em “homens panqueca”, amplos e finos, capazes de nos c onectarmos com uma vasta rede, mas sem profundidade alguma. Como a firmava o filósofo praiano Bordallo, muito antes da Internet: no fundo, é raso. A turma Y Nem tão parecida, nem tão diferente das que a antec ederam, a geração que agora trilha os primeiros passos da car reira profissional traz oportunidades e desafios para as empresas. Todos os anos, as escolas de administração, engenha ria e similares despejam centenas e centenas de novos rec rutas no mercado de trabalho. A fauna é rica e variada em te rmos de formação, ambição e vontade de trabalhar. Há pelo menos duas décadas as grandes empresas dedi cam grande atenção a este grupo. Os programas de trainees buscam identificar, entre os mais promissores talentos das melhores escolas, aqueles que supostamente conduzirão as org anizações pelo século XXI. As expectativas de parte a parte são altas. Os novi ços desejam boas condições de trabalho e esperam remuneração co mpatível. As empresas querem que seus escolhidos tornem-se verda deiros agentes de mudança, a espanar as teias de aranha e a lubrif icar as engrenagens enferrujadas. Apesar dos recursos empregados na seleção e na prep aração dos noviços, frustrações são comuns. Boca-a-boca, circu lam histórias sobre trainees que se demitem no meio do processo de desenvolvimento e sobre choques entre trainees e veteranos. Conhecer o perfil e as demandas deste grupo é prior idade para as empresas. Afinal, projeta-se (ou teme-se), a eles o futuro pertence. Estudos têm denominado a turma nascida entre o fina l da década de 1970 e o início da década de 1990 de geração Net ou de geração Y. Ainda que imperfeita, a classificação ajuda a ident ificar alguns traços comuns a esta lavra demográfica do final do milênio passado. Grown Up Digital: How the Net Generation is Changin g Your World (Editora McGraw-Hill), livro do guru de gestão Don Tapscott, ocupa-se dessa questão. A obra é atraente e fácil d e ler, porém é também reducionista e apresenta um retrato excessiv amente róseo da realidade. Portanto, a leitura exige boa dose de desconfiança e aguçado olhar crítico. Tapscott considera a turma Y mais esperta e ágil qu e suas antecessoras, e também mais preocupada com a socied ade e com a justiça. Em suma, a safra recente, muito superior à geração anterior, de sacos de batatas, educada diante da TV e acostumada a atividade cerebral mínima. A turma Y valoriza a l iberdade de escolha, gosta de personalizar tudo que têm e faz, avalia criticamente tudo e todos, exige integridade e tran sparência, espera que o trabalho (ou o estudo) seja agradável e divertido, gosta de trabalhar em grupo, espera que tudo aconte ça rápido e crê que a inovação deve fazer parte do cotidiano. Naturalmente, este perfil gera impactos para as emp resas, nem todos positivos. Primeiro, o gosto pela velocidade alimenta a impaciência. A turma Y acredita que a carreira é um a montanha a ser escalada com rapidez. Sempre com pressa, aposta nas redes de contatos e no gerenciamento da impressão para mater ializar seus desejos. Frequentemente, domina mais a retórica do que o métier. Continuamente pressionadas, as empresas cedem às su as vontades, promovendo os mais ambiciosos. Frustrações e tombos rondam o horizonte. Segundo, a visão crítica e a expectativa de integri dade e transparência podem facilitar mudanças positivas. D e fato, elas ecoam tendências recentes em gestão, de adoção de c ondutas éticas, de sistemas abertos de governança, de progr amas de responsabilidade social e de comunicação mais abert a. Entretanto, muito do que se vê nas empresas é maquiagem. A coli são entre a utopia tímida e jovem da turma Y e o pragmatismo ca lejado das empresas pode gerar conflitos e atitudes cínicas, p or parte dos noviços. Terceiro, o desejo que o trabalho seja agradável e divertido, nutrido por um hedonismo juvenil, que é, aliás, sin al dos tempos, pode privilegiar o presente em detrimento do futuro . De fato, o mundo parecer existir para que a turma Y o goze, aq ui e agora. Tal postura dificulta a realização de projetos de l ongo alcance, que exigem disciplina e tolerância a pequenos fraca ssos. Quarto, a tendência de trabalhar em grupo, também l ouvável, pode transformar-se em prática para inglês ver. Hoje, po ucos problemas corporativos podem ser resolvidos sem uma perspecti va coletiva. No entanto, para trabalhar em grupo é preciso somar postura cooperativa com boa dose de disciplina. Quando tais características estão ausentes, prevalece um simula cro de trabalho em grupo: muitas reuniões e comitês, avala nches de mensagens eletrônicas e celulares eternamente em fú ria. Porém, muito pouco trabalho produtivo. Com a turma Y, tudo mudará para ficar como exatamen te como está? Talvez não. A turma Y quiçá não seja assim diferent e das anteriores. Entretanto, ao mergulhar em organizaçõe s construídas por e para suas antecessoras, surgirão tensões e co nflitos, que a transformarão e às empresas que à absorverem. Na contramão Para fazer frente aos tediosos Jogos Olímpicos, nad a melhor do que o Campeonato Mundial de Ciclismo de Marcha Únic a. Poucos eventos sãomais aborrecidos do que as Olimp íadas. Provavelmente só a Copa do Mundo de Futebol e os co ncursos de beleza com os jogos podem rivalizar. Durante alguma s semanas, rebentos privilegiados de todo o mundo, submetidos a intenso condicionamento físico e opressiva lavagem cerebral , comportam-se como ciborgues, exibindo-se em movimentos mecânicos diante de platéias hipnotizadas. Alguns já retornam destruído s, física e psicologicamente. Outros duram ainda alguns anos e sobrevivem a outros jogos, usando o nome e a fama para vender bu gigangas e espalhar exemplos duvidosos para hordas de consumid ores. Não foi diferente na versão chinesa. Entre uma aber tura kitsch e um encerramento idem, o tempo foi preenchido com sa ltos, cambalhotas, números, gritos e lágrimas. Consta que a festa serviu ao propósito chinês, de mostrar ao mundo a a scensão da nova potência. Afinal, nada mais apropriado para si nalizar o culto da competitividade que abraçou a gigantesca n ação asiática. Competitividade é uma idéia central na vida dos atl etas olímpicos. Competitividade é também uma idéia centr al em economia e em administração de empresas. O conceito costuma referir-se ao desempenho de uma empresa, de um setor de atividade s ou de um país, ou à sua capacidade de vender e distribuir be ns ou serviços em um determinado mercado. Nas últimas décadas, com petitividade tornou-se um conceito fetiche. Ser competitivo é se r melhor que os outros. N´algumas plagas, os mais promissores sã o atazanados desde a primeira infância. As escolas, os clubes e a mídia pisam e repisam valores relacionados à competitividade e à vitória. Um pouco mais de flexibilidade ou velocidade podem con denar uma criança a anos de disciplina militar, tutores rigor osos e horizontes estreitos. Nos século XX, as olimpíadas foram, aos poucos, rev ertendo a máxima de Pierre de Frédy, o Barão de Coubertin, pa i dos jogos modernos. A primazia da participação cedeu lugar à busca insaciável por vitórias e recordes. O papel educaci onal e inclusivo dos esportes cedeu lugar para as fábricas de ciborgues hiper-alimentados e hiper-treinados. Política e “ca rtolagem” avançaram sobre as quadras, campos e raias. A merca ntilização e a espetacularização completaram o trabalho. Entretanto, ainda há esperanças. Na contramão das t ediosas olimpíadas situa-se o fabuloso Campeonato Mundial d e Ciclismo de Marcha Única (Single Speed World Championship). Con sta que a “disputa” teve início em 1999, quando diversos cicl istas aglutinaram-se no Rancho Cucamonga (sim, ele existe e fica na Califórnia). Desde então, o campeonato teve edições em Berlim, Estocolmo e diversas cidades norte-americanas. Os organizadores são extremamente zelosos quanto ao nível de desorganização da prova. Afinal, não querem perder a aura alternativa. As linhas de partida e de chegada são cuidadosamente incertas e uma piscina infantil é cuidadosamente pr eenchida com gelo e cerveja. Não beber é equivalente ao doping , pois confere vantagem desleal aos concorrentes sóbrios. Juízes p ostam-se durante o trajeto penalizando os mais velozes com t apas na bunda. Os mais afoitos, que escapam da fiscalização, são v aiados pelos expectadores. Os patrocinadores corporativos são ev itados com galhardia, especialmente os fabricantes de automóve is, que, segundo alguns participantes, “estão arruinando o p laneta”. Matéria veiculada no New York Times registra que Ra chel Lloyd, a primeira mulher a completar a prova em 2008, parou e desmontou de sua bicicleta antes da linha de chegada, relutante de ganhar o primeiro prêmio, uma tatuagem alusiva à “conquista” . Porém, convencida pela multidão, cruzou a linha e recebeu o prêmio. Naturalmente, usar bicicleta de marcha única para s ubir e descer morros pode parecer um estúpido, mas não faltam int eressados. Afinal, nos aclives mais acentuados basta descer da bicicleta e empurrá-la, sob os aplausos entusiasmados da audiên cia. Como prova da popularidade, na corrida de 2008 as 400 va gas foram preenchidas nove minutos após a abertura das inscri ções. Em lugar das coloridas e aerodinâmicas roupas de ci clismo, os participantes do Campeonato Mundial de Ciclismo de Marcha Única apresentam-se para a prova paramentados de forma cr iativa: eles e elas participam vestidos como escoteiros, com orelh as de coelho, usando pijamas e até mesmo fantasiados com sungas i nspiradas pelo personagem Borat. A idéia é não levar a prova a sér io. O que importa é que o local seja aprazível, a companhia a gradável e a diversão garantida. Para os interessados no espírit o anti- olímpico ou melhor, no verdadeiro espírito olímpico , recomenda-se o blog da prova: http://sswc08.blogspot.com/ . Sexo verde Se o prezado leitor não é capaz de deter o desmatam ento da Amazônia ou salvar da extinção o antílope tibetano, que ao menos seja ecológico na cama. Circulou pelo mundo virtual um decálogo de práticas sexuais criado pelo Greenpeace. Se o prezado leitor havia s e entusiasmado com o vídeo da campanha Forest Love, estrelado por plantas que se acariciavam sensualmente, e também produzido pela d ecana ONG, então chegou o momento de levar a luta pelo meio am biente para uma nova frente: sua cama. Comece pela questão energética. Apague as luzes e d ê sua contribuição para a preservação da camada de ozônio . Mais sexo no escuro significa menor consumo de energia. No entan to, se o leitor é do tipo visual, que precisa ver para ter, a solução é simples: basta transar de dia. Resolvida a matriz e nergética, enfrente à não menos crítica questão da água. Afina l, além do petróleo, a água também está se tornando um bem car o e raro. Estima-se que mais de um bilhão de pessoas no mundo não tem acesso à água limpa. Solução: banho a dois. A natur eza agradece. O casal gosta de temperar sua paixão com frutas? Ót imo, nada mais natural, mas não deixem de observar a procedência g enética dos suprimentos. Afinal, sabe-se pouco sobre os efeitos do uso de alimentos geneticamente modificados sobre a saúde e menos ainda sobre o seu uso em atividades íntimas. Não corram r iscos. O mar inspira o romance? Excelente, mas não esqueça que, embora certas iguarias marinhas tenham fama de afrodisíaco s, os oceanos estão sendo destruídos. A saída é apelar para a flo ra amazônica, rica em substâncias milagrosas. Mares limpos, consc iência tranqüila e prazer vitaminado: combinação perfeita. O leitor é do tipo que se entusiasma com acessórios ? Perfeito, mas cuidado com os materiais. A produção de PVC, po r exemplo, cria e libera dioxina, um dos componentes químicos mais tóxicos que existe. Prefira couro e borracha. Se o caso for de equipamentos de madeira, garanta a origem certifica da e o selo verde. Afinal, você não quer ver seu prazer ligado ao desmatamento da Amazônia. A ocasião pede o uso de l ubrificantes? Tudo bem, mas cuidado com os derivados de petróleo. As empresas petrolíferas estão destruindo o planeja, mas você n ão precisa fazer o mesmo. Opte por similares naturais. O Greenpeace nasceu no início da década de 1970 par a se tornar a mais conhecida organização de defesa do meio ambien te do mundo. No início dos anos 1990, a organização chegou a con tar com quase cinco milhões de membros. Hoje, são quase três milh ões de membros, um número ainda impressionante. América La tina e Ásia, regiões nas quais o desenvolvimento econômico mais ameaça o meio ambiente, estão no centro de seu alvo estratégico. Durante muitos anos, a organização foi marcada pela personalidade de David McTaggard, um canadense de origem escocesa . McTaggard era fascinado pelo Sul do Pacífico, tinha um pequen o barco e velejava de ilha em ilha. Em 1972, fez contato o Co mitê Não Faça Onda, que protestava contra os testes nucleares fra nceses no Atol de Mururoa, na Polinésiafrancesa. McTaggard aderiu à causa e rapidamente se tornou seu mais fiel guerreiro. Seus enfrentamentos com os franceses lhe renderam alguma s escoriações e fama mundial. Sob seu comando, Não Faça Onda transformou-se em Gr eenpeace, galvanizou milhares de indivíduos ao redor do mundo em torno da causa ambiental e deu origem a um estilo espetacula r de ação. Sua estética sempre explorou a audácia, o choque e o co nfronto. Seus meios sempre foram a comunicação de impacto e a pub licidade. Com os anos, o Greenpeace cresceu e se internaciona lizou. Tornou- se, segundo alguns observadores, grande e complexo demais para uma organização cuja imagem ainda era de um grupo d e idealistas em botes de borracha enfrentando inimigos poderosos para salvar baleias e protestar contra o lixo radioativo: os “g uerreiros do arco-íris”. McTaggard deixou o comando e retirou-se para uma fazenda italiana em 1991. Como outras organizações similares, o Greenpeace pr ocura manter sua identidade e seus valores diante de um mundo em transformação. Seus métodos espetaculares perderam força em uma sociedade dominada pelo espetáculo do consumo. Sua retórica foi absorvida pelo mundo corporativo e adotada por seus mais tradicionais inimigos. Algumas companhias petrolífe ras agora se declaram campeãs da causa das energias limpas. A en ergia nuclear deixou de ser o bicho-papão dos anos 1970 e até fab ricantes de tabaco hoje publicam balanços sociais. Os fatos con tinuam milhas náuticas atrás do discurso, mas fatos são pouco rel evantes na sociedade do espetáculo. Felizmente, o lema “faça a mor, não faça a guerra” continua atual. PARTE 2: FALANDO MAL DAS CORPORAÇÕES Enxofre e naftalina Com freqüência irritante, o mundo corporativo ofend e nossas narinas com odores desagradáveis. Deixar de respira r não é opção. Segundo a Wikipedia, a enciclopédia livre, que afir ma facilitar a nossa vida, o enxofre é um elemento químico de símb olo S, número atômico 16 e que se encontra, à temperatura ambient e, em estado sólido. Trata-se de um não-metal de coloração amare la, frágil e que desprende um conhecido odor de ovo podre, ao mi sturar-se ao hidrogênio. Segundo a mesma fonte, a naftalina, ou naftaleno, é um hidrocarboneto aromático. Trata-se de uma substâ ncia cristalina branca, volátil, que se obtém por destil ação do alcatrão da hulha. A naftalina é um híbrido de ress onância de três estruturas canônicas e, como o enxofre, tem od or peculiar, reconhecido nas populares esferas anti-traça. Além das propriedades odoríferas óbvias, enxofre e naftalina têm também propriedades metafóricas. O enxofre é comume nte associado a Mefistófeles, ao mundo subterrâneo e às trevas. R ecentemente, o enxofre foi também associado a um alto dignitário d e uma nação amiga; no caso, o presidente George W. Bush, dos Es tados Unidos. A associação, de cunho irônico, foi feita por um ou tro alto dignitário de uma nação também amiga, o presidente Hugo Chávez, da Venezuela. Por sua vez, a prosaica naftalina não se presta a a ssociações tão marcantes. Perde em dramaticidade, porém rivaliza e m popularidade. Conserva até mesmo certa brejeirice, provavelmente por despertar sentimentos de nostalgia nas narinas crescidas no último quartil do século passado. O cheiro de nafta lina está associado ao que é velho, anacrônico, fora de propó sito ou deslocado no tempo. Não há registro que o alto dign itário norte- americano tenha retrucado o intempestivo colega ven ezuelano, mas poderia tê-lo associado, por seu estilo e retórica, ao cheiro de naftalina. Além das bancadas de laboratório e da tribuna da ON U, enxofre e naftalina também disputam a primazia odorífera no m undo corporativo. Muitos executivos hoje abraçam causas filantrópicas, comemoram balanços sociais e juram proteger a fauna e a flora. Porém, não escapa às narinas mais treinadas um inde lével cheiro de enxofre. De seu lado, os sindicatos rosnam, uiva m e esbravejam. O som e a fúria continuam a entorpecer os ouvidos, mas o que chega ao olfato é o odor que emana do dis curso antigo e gasto: o cheiro de naftalina. A crise econômica arrancou os telhados dos bancos d e investimentos e das montadoras de automóveis. Das e xóticas e sofisticadas práticas bancárias desprendeu-se nause abundo odor sulfuroso, que rapidamente atormentou governos e pe quenos investidores. Das linhas de montagem emanou inconfu ndível odor de naftalina, embora não se saiba se a origem é a gest ão arcaica ou os produtos anacrônicos. Os bancos de investimento talvez se juntem ao clube dos sulfurosos históricos: os fabricantes de armas, de bebidas alcoólicas e de tabaco; um seleto e poderoso grupo, formado por especialistas em evasão lógica e flexibilidade mora l. Pelo noticiário, nota-se que o clube está em franca expa nsão. Os próximos associados provavelmente serão os laborató rios farmacêuticos, acusados, em um relatório da União E uropéia, de utilizar táticas condenáveis para proteger suas dro gas mais lucrativas contra a entrada de genéricos. No dito c lube, os sócios blasfemarão contra os órgãos reguladores, or ganizações não governamentais e outros detratores. Objetivos e mat reiros, discutirão métodos para manipulação da opinião públ ica, evasão fiscal e lavagem verde. Por sua vez, as montadoras de automóveis provavelme nte ganharão título e carteirinha do clube da naftalina. Talvez seus executivos estranhem as instalações decadentes, a p iscina abandonada, as salas mofadas e os carpetes puídos. Entretanto, lá encontrarão seus camaradas das empresas estatais e das universidades públicas. Corteses, trocarão longos m onólogos e discretos bocejos, discorrerão com pompa sobre glór ias passadas, invocarão heróis e feitos d’outras gerações e lamen tarão as injustiças e a má sina. Em ocasiões especiais, eles alugarão arranjos florais e convidarão autoridades eclesiást icas, civis e militares para a outorga de honrarias e a entrega d e prêmios. Então, se submeterão a discursos longos e vazios, e ntremeados por aplausos formais. Enquanto o clube do enxofre e o clube da naftalina crescem e prosperam, diminui a nossa sensibilidade nasal. Ent orpecidos, percebemos cada vez menos as emissões gasosas e hab ituamo-nos ao mau cheiro. Neutralizado o olfato, as emissões turv arão nossa visão, paladar, tato e audição. Aos poucos, elas em botarão nosso senso crítico e corromperão nosso julgamento. Haver á resistência possível? Não se sabe, mas deixar de respirar não é opção. A praga de Colbert A burocracia nasceu para estruturar o Estado modern o e atender os cidadãos. Porém, com o tempo, as organizações buroc ráticas costumam se desvirtuar e se voltar para os interess es de seus próprios funcionários. Balzac deixou a frase para a história: “A burocracia é um sistema gigantesco gerido por pigmeus” . Seu país, a França, teve a duvidosa honra de cunhar o termo. A palavra burocra cia combina o termo bureau (escritório ou mesa de trabalho, em francês) com o termo krátos (poder, regra ou governo, em grego). Consta que origem remonta ao ano de 1665, quando o rei Luís XIV nomeou Jean-Baptiste Colbert como controlador geral das finanças. Colbert reorganizou o comércio e a indústria e pers eguiu os corruptos. Para garantir a atuação justa do Governo , exigiu que os funcionários seguissem regras rígidas, aplicadas a todos. O rigor e a inflexibilidade de Colbert levaram Jean C laude Marie Vincent, administrador do comércio, a criticar as r esoluções, as quais considerava impeditivas para a atividade come rcial. Para ilustrar a sua crítica, Vincent criou o termo bureaucratie , referindo-se, de forma pejorativa, à concepção e ap licação de regras, sem considerar as consequências práticas. A burocracia fundamenta-se na idéia de que todas as funções são executadaspor profissionais habilitados e balizada s por certos princípios: o caráter legal das normas e regulament os, a formalização da comunicação e a divisão racional do trabalho. O sistema nasceu para ser a materialização da raciona lidade. Porém, pelas mãos dos burocratas, converteu-se em um monst ro que todos aprendemos a temer e a abominar. A lista de disfunções e vícios associados à burocra cia é longa. A burocracia afirma que, diante dela, todos somos igu ais. No entanto, a igualdade de tratamento costuma vir acom panhada pela impessoalidade, pela negligência e pela ineficácia. A burocracia sacraliza as regras, que passam de meios a fins. En tre resolver um problema e seguir uma norma, o burocrata comumen te opta por seguir a norma. Lixe-se o cidadão. A burocracia mud a apenas lentamente, quando muda. O ambiente pode transforma r-se radicalmente, mas a burocracia não se adapta. Tende a tornar-se anacrônica. A burocracia organiza-se como um sistem a neutro e justo. Entretanto, a sua complexidade e o seu porte facilitam o nepotismo, os abusos de poder e a corrupção. O resu ltado é um sistema central em nossas vidas, do qual não conseg uimos escapar, mas que costumamos odiar. A burocracia consegue som ar a ineficiência ao poder ameaçador, a incompetência do s amanuenses lerdos à manipulação interesseira dos funcionários corruptos. Dentro do sistema, os burocratas buscam incessantem ente a “expansão geográfica e demográfica”. Quadros inchad os significam mais gente a coordenar, mais serviço a controlar e mais poder a exercer. Assim, a burocracia combina negligência no serviço ao cidadão com a capacidade de inventar trabalho para si mesma. John Kenneth Galbraith registrou para a posteridade : “A tendência da burocracia é achar objetivo em qualquer coisa qu e se esteja fazendo” . Na burocracia pública ou na burocracia privada, os burocratas procriam sem parar. Donald Keough, ex-CEO da Coca-C ola e autor de TheTen Commandments for Business Failure , comentou em alusão à própria multinacional: “Tendo despendido os meus primeiros anos no negócio de gado de meu pai, verifiquei que se co locarmos a mistura certa de machos e fêmeas, acabaremos por ob ter muito mais animais. As burocracias multiplicam-se do mesmo mod o. Eis como funcionam: põe-se um gestor em um lugar e, decorrid os dezoito meses, ele tem uma assistente. A assistente torna-s e um gestor júnior – e o que se observa? Outra assistente. O ri tmo continua”. Nas burocracias, as regras originalmente estabeleci das para garantir clareza e eficiência, deixam de ser meios e se transformam em fins. Por sua vez, os burocratas con trolam o sistema como se protegessem sua própria vida, pois sentem que mudanças podem reduzir seu poder ou sua autoridade. Com o tempo, os burocratas isolam-se em seus castelos, os abusos tornam-se corriqueiros e eventuais mudanças enfrentam barreir as intransponíveis. Em Pindorama, muitas empresas e órgãos públicos man têm padrões inaceitáveis de atendimento e de relacionamento com os cidadãos. Do poder judiciário às estatais, do sistema de saúd e ao sistema de educação, observemos casos gritantes de desperdí cio de recursos e de desrespeito aos contribuintes. Todos temos histórias de horror para contar. A situação não é d iferente em algumas empresas privadas. Além de vitimar os seus clientes e funcionários, estas organizações também vitimam a s i próprias. No embate entre as forças para mudança e os interesses estabelecidos, os últimos continuam vencendo. Insensatez e insensibilidade Certas organizações tratam seus parceiros e colabor adores com mal disfarçado desdém, como se fizessem um grande favor por permitir que eles a elas se associem. Para ter um bom hospital, é preciso ter bons médico s; para ter uma boa escola, é preciso ter bons professores; par a ter uma boa empresa é preciso ter bons profissionais e forneced ores; e para ter uma boa editora, é preciso ter bons autores ... ou não? A considerar o caso narrado em seguida, para alguns a premissa pode não ser tão óbvia. Tome-se o caso da prestigiosa editora X. Sim, vamos manter-lhe o nome incógnito, que de nada nos serviria granjear a ntipatias. Pois ocorre que X é uma das mais respeitadas editor as de Pindorama. Seu catálogo contém admiráveis clássicos , suas capas são esmeradas e suas obras exalam cultura e bom gos to. Sua excelência editorial merece aplauso e seu crescimen to nos resgata a crença de que ainda existem adultos que lêem. Porém, aquele que visitar sua página de “envio de o riginais” na Internet descobrirá que naquela casa do saber autor es não são bem vindos. Estranho e paradoxal, porém verdadeiro. Poi s lá consta: “Não publicamos auto-ajuda, esoterismo, marketing, ficção- científica, guias de turismo, culinária, didáticos e livros técnico-científicos”. Bravo! Até aqui, um bom começ o. E a esta bem vinda escolha, segue-se: “livros e projetos em versão eletrônica não serão avaliados”. Ótimo! Nada como o velho papel para marcar a tradição das belas letras. Então, esc apa-lhe de uma linha a outra a civilidade: “A editora se reserva o direito de não confirmar o recebimento de originais, seja por telefone, fax ou e-mail”. Puxa, será que custa tanto enviar uma c arta simpática, reconhecendo o esforço do autor, a sua d edicação e o seu idealismo? E a prosa fica ainda pior: “Dado o g rande número de originais que nos chegam, caso queira confirmar o recebimento utilize o serviço de carta registrada dos Correios” . Direto e duro: quer saber da sua amada criança? Vire-se. E, por fim, o golpe final: “Os originais não aceitos serão remeti dos a empresas de reciclagem de papel. Por favor, não telefone ou envie mensagens sobre o envio de sua obra, pois elas não serão respondidas”. Bonito, não? Então, o idolatrado rebe nto, depois de longa gestação e terríveis dores de parto vai termi nar é no lixão. E não adianta reclamar ou procurar os desalm ados, porque resposta não haverá mesmo. A esta altura, estará a se perguntar o gentil leito r: de onde veio tanta deselegância e insensibilidade? Terão si do os iluminados funcionários da prestigiosa editora arre matados entre os mais empedernidos matutos do serviço público fed eral, entre aqueles que rosnam para o público e esmeram-se em d ificultar a vida dos semelhantes? Pior, e se a moda pega? E se alastra pelos hospitais, que passam a destratar seus médicos e a esnobar seus fornecedores. E se alastra pelas escolas, que passa m a maltratar seus professores. E se alastra pelas empresas, que passam a desdenhar suas legiões de terceiros e a assediar se us prestadores de serviços. Talvez os ditos estabelecimentos opere m por algum tempo sem perceber os danos causados, o quanto dure o instável equilíbrio entre o estoque de sádicos e a quantidad e de masoquistas. Então, o clima organizacional se deter iorará, a gestão entrará em declínio e os resultados iniciarã o uma firme trajetória, rumo ao solo. Nesse nosso mundo de mercados e corporações, indiví duos assumem alternativamente os papéis de produtores e de consu midores. Hoje, indivíduos e comunidades estão entrelaçados na aren a de produção e consumo, seus membros comunicam-se, espalham impr essões. O autor da nossa editora X pode ser no momento seguin te o professor que indica os seus livros. O fornecedor de uma empr esa pode ser no momento seguinte um cliente importante. Se forem maltratados, eles talvez prefiram buscar as obras e serviços de um concorrente mais simpático, ou menos obtuso. Tratar mal um auto r, um fornecedor ou um terceiro pode gerar consequências negativas, que se propagam e transcendem a relação original. O que provoca o rude comportamento? Simples: miopia e incivilidade. Miopia, pela incapacidade de perceber o que está a além de alguns poucos palmos do nariz. Incivilidade, pela dificuldade em expressar um comportamento respeitos o e cortês. Como mudar? Este escriba propõe uma receita singela . Primeiro, abrir os olhos e fazê-los girar em todas as direçõe s, complementando o movimento com o corpo de forma a p erceber todo o espaço a volta: as costas e a frente, o céu e o chã o, o metro e o horizonte. Segundo, abraçar os mais básicos princíp ios de civilidade: que melhores palavras tragam posturas m ais elevadas, e que estas nutram atitudes mais gentis. Pulmões e cérebros O fumo está para o pulmão assim como a TV está para o cérebro. A batalha contra o fumo está em estágio avançado. A l uta contra a TV está apenas começando. Estima-se que haja no mundo mais de um bilhão de fu mantes. Cinco milhões de indivíduos morrem por ano por causas rel acionadas ao tabaco. Nos anos 1940, o cigarro ganhou glamour, co m uma ajuda providencial do cinema, e tornou-se produto de mass a. Na década de 1950, surgiram os primeiros estudos relacionando tabaco e câncer de pulmão. Os fabricantes reagiram com um in tenso esforço de lobby e relações públicas. Nas décadas seguintes , o embate se intensificou. Nos países desenvolvidos, cresceu o c erco aos fumantes o vício passou a ser estigmatizado. Além d o mal causado a si mesmo, o fumante socializa o prejuízo com seus pares – os fumantes passivos – e com o sistema de saúde. Todos pagamos por seu duvidoso prazer. Entretanto, apesar do esforço de ativistas e legisladores, a indústria do tabaco continua cresce ndo, especialmente nos países em desenvolvimento, o que reflete o poder das corporações envolvidas tanto quanto a ign orância e a incivilidade dos fumantes. O cigarro atinge o pulmão. A TV atinge o cérebro. N ão são poucas as similaridades entre as duas pragas: ambos são fe nômenos de massa, de escala mundial; ambos tem seus efeitos da nosos conhecidos; ambos envolvem grandes interesses econô micos; ambos são associados ao lazer e ao prazer; e ambos contro lam lobbies poderosos. As diferenças também são significativas, com vantagem para a pequena tela: a TV atinge praticamente toda a população da Terra, é fonte de poder e influência, constitui moe da de troca em barganhas políticas e emprega certa classe artístic a, muito hábil e criativa na defesa de seus interesses. Ativistas anti-TV não costumam se iludir. Eles conh ecem o monstrengo que enfrentam e são modestos em suas exp ectativas. Em lugar de propor banir o meio, o que só um improváve l surto de iluminação e civilidade poderia viabilizar, eles bu scam objetivos mais realistas, tais como coibir o abuso na publici dade e controlar as horas de exposição de crianças ao efei to hipnótico da do lixo eletrônico. Quem se dispuser a realizar uma pesquisa em periódicos científicos acerca da influência da T V sobre crianças e adolescentes encontrará um quadro alarma nte: a maioria esmagadora dos artigos trata de impactos negativos do meio sobre a sociabilidade, os comportamentos, o desempenho es colar e a alimentação. Em um estudo pioneiro publicado na década de 1970 n o Journal of Communication, Patricia Edgar, uma especialista aus traliana, pesquisou 296 famílias sem TV. Suas conclusões fora m expressivas. O grupo estudado constituía uma elite econômica e c ultural: os adultos eram mais escolarizados e ganhavam mais do que a média da população. Mais de 90% eram membros de clubes e out ras organizações e 96% afirmavam ter muitos livros em c asa. Mais de 40% eram tocavam instrumentos musicais e mais de 60 % apreciavam música clássica. Quase todos as famílias justificav am sua opção por crer que o tempo deve ser ocupado com atividade s mais nobres do que assistir TV. Alguns dos entrevistados regist raram o sentimento de frustração e inutilidade que sentiam quando passavam algum tempo na frente da pequena tela. Out ros compararam a sensação de assistir TV ao consumo de drogas: a a tividade reduz a sensibilidade e provoca uma preguiçosa inércia, a lém de restringir e condicionar a dinâmica familiar. Segun do os respondentes, a vida comunitária estava se deterior ando e parte da responsabilidade era da TV: como menos tempo e d isponibilidade para contato pessoal, os indivíduos estavam se torn ando menos sensíveis aos problemas de seus vizinhos, e menos i nclinados a atuar em seu meio social. Desde a década de 1970, muita coisa mudou (para pio r): surgiram a TV shopping, a TV a cabo, a TV digital e os canais especializados. O poder de sedução aumentou. O escr itor Gore Vidal, na pele da inesquecível personagem Myra Brec kinridge, em livro dos anos 1960, descreve a primeira geração da TV como um ajuntamento de criaturas pálidas e desatentas, inca pazes de enfrentar leituras mais complexas do que textos de tablóides e aptas a reagir somente ao ritmo frenético dos comer ciais. As novas gerações são ainda mais pálidas e incapazes d e articular idéias. Elas são conformistas, individualistas, ave ssas a esforços intelectuais, impacientes, culturalmente r asas e consumistas. A TV certamente não é o único vilão, m as não se pode menosprezar sua capacidade de imbecilizar a audiênc ia. Como registrou Sergio Augusto nas páginas da revista Bra vo! (dos bons tempos): “a TV não suporta conversa séria, profunda e consistente ... tudo nela descamba para o circo”. Na arquibanca da, a platéia dócil e narcotizada grunhe, baba e ronca. Mal amadas, mal entendidas Multinacionais geram grandes impactos sobre a econo mia e a sociedade. Dois estudos avaliam a reação destas emp resas a tendências políticas e o efeito de seus investiment os sobre empresas locais. A empresa multinacional é uma invenção do século XX que entrou firme e forte no século XXI. Derrubado o muro e aba tidos outros ícones, as multis avançaram céleres sobre velhos e novos cenários. Sua capacidade de adaptação é notável e s ua influência sobre a economia, a sociedade e a cultura continua em alta. Apetite para crescer e disponibilidade de capital s eguem alimentando fusões e aquisições. Nada no horizonte revela sinais de fraqueza ou de declínio. Naturalmente, tanto alcance e poder não escapam das consciências mais críticas. O documentário A Corporação, dirigid o por Jennifer Abbott e Mark Achbar, lançado em 2003, é um bom exe mplo: seu olhar crítico fê-lo transformar-se em peça didática de cursos de Administração de Empresas. O filme descreve, em tom irônico e didático, a gênese e a evolução da grande empresa. O argumento central é que o mau comportamento corporativo – o d escaso com o meio ambiente, a exploração de mão de obra barata e m países pobres, a manipulação do consumidor e práticas ileg ais de negócios – não se deve apenas a executivos destramb elhados ou algumas “maçãs podres”. Os desvios, sugerem os auto res, vem de uma personalidade doentia. A linha narrativa é pontuada pela comparação entre os comportamentos exibidos pelo “personagem principal” e os sintomas associados a um indivíduo psicopata: impermeabilida de em relação aos sentimentos alheios, incapacidade de manter re lações duradouras, desinteresse pela segurança dos outros, tendência para mentir ou ocultar a verdade, incapacidade de e xperimentar sentimentos de culpa e inépcia para se conformar a normas sociais. Cosem a tese Noam Chomsky, Naomi Klein e M ichael Moore e outras personalidades conhecidas. O filme tem mérit os, mas não pretende ser equilibrado ou neutro. Seu objetivo é registrar o lado escuro da vida corporativa. Com menos emoção e mais ciência, alguns trabalhos a cadêmicos tem sido publicados sobre as grandes empresas. Temas em foco: seus comportamentos e seus impactos sobre a economia e a sociedade. How Do MNCs Vote in Developing Country Elections?, publicado por Paul M. Vaaler na revista The Academy of Management Journal, número 1 de 2008, traz um amploestudo sobre o comp ortamento das multinacionais diante de eleições em nações em dese nvolvimento. O autor estudou 35 eleições presidenciais, de 1987 a 2000, em 17 países, inclusive o Brasil. Muitas equações e exaustivas análises depois, Vaale r comprovou o que o senso comum já lhe indicava: as empresas mult inacionais percebem maiores riscos quando um governo de direit a tende a dar lugar a um governo de esquerda. Daí, reduzem seus i nvestimentos. O inverso também se mostrou verdade: a percepção de riscos diminui e os investimentos crescem quando um govern o de esquerda tende a dar lugar a um governo de direita. Quase um século depois dos 12 dias que abalaram o mundo, executivos ainda sofrem taquicardia quando vislumbram um couraçado Potenkim , real ou imaginário, pela proa. Ruim para as empresas, que p erdem negócios; ruim para os países, que perdem investime ntos. Um outro artigo, The Impact of MNE Strategy on Indigenous Enterprises: Horizontal Spilovers and Crowding Out in Developing Countries, publicado por Jennifer W. Spencer na revista The Academy of Management Review, número 2 de 2008, discute os efeitos dos investimentos realizados por empresas m ultinacionais em países em desenvolvimento. Governos costumam oferecer benesses fiscais e outra s vantagens a investidores estrangeiros. Espera-se que tais esfor ços se revertam em geração de riqueza e melhores condições de vida para as populações. Em certas condições, a entrada de no vas empresas traz novos produtos, serviços, tecnologias e técnic as de produção. No entanto, críticos apontam que tais in vestimentos também geram efeitos negativos sobre as empresas lo cais, provocando maior competição por mercados, por forne cedores e pela mão de obra. Spencer advoga que estes dois grupos de efeitos cos tumam ocorrer. Os efeitos negativos são mais visíveis em curto pra zo e os efeitos positivos são mais notáveis em médio prazo. A autora também argumenta que os impactos dependem das condi ções das empresas locais: quando mais preparadas, elas tende m a ganhar com o novo contexto. Deveria, portanto, ser do interess e dos formuladores de políticas públicas entender os meca nismos e as condições que permeiam tais investimentos, de forma a tomar decisões que maximizem os impactos positivos e mini mizem os impactos negativos. A orientação para tais decisões vem do que se denomina, quando existe, política industrial. Na beira do abismo A crise econômica elevou as águas acima do respirad ouro da General Motors. Asfixiada, a icônica empresa luta p ara sobreviver. Na década de 1950, a General Motors era a maior emp resa norte- americana. Seu presidente, Charles E. Wilson, foi n omeado como Secretário da Defesa. Questionado pelo Senado sobre o conflito de interesses, Wilson registrou para a posteridade que acreditava que o “o que era bom para o país, era bom para a Ge neral Motors e vice-versa”. A máxima permaneceu válida por décadas . Porém, parece ter sido revogada. No dia 30 de março de 2008, o governo norte-america no divulgou um relatório com uma avaliação contundente sobre a res posta da empresa às condições exigidas pelo pacote financeir o aprovado no final de 2008. O documento aponta as chagas da mega -corporação: primeiro, a GM vem perdendo terreno para seus compe tidores há décadas; segundo, a empresa conta com excesso de ma rcas com desempenho sofrível; terceiro, parte considerável d os lucros da empresa vem de SUVs, um segmento ameaçado pela pref erência por veículos mais econômicos; quarto, os consumidores v êem os carros da GM como produtos de qualidade inferior, o que de manda descontos e corrói as margens de lucro; quinto, a G M está pelo menos uma geração atrás da Toyota no desenvolviment o de carros “verdes”; e sexto, os passivos legados atingirão ní veis insustentáveis nos próximos anos. Não é pouco! Os autores do relatório reconhecem o progresso feit o pela empresa nos últimos anos, porém consideram o esforço insufi ciente para criar um modelo viável de negócio. Primeira consequ ência: a saída de Rick Wagoner, à frente da empresa desde 2000. Ag ora, a GM terá mais 60 dias para apresentar um plano mais agressiv o. O que virá pela frente? Difícil prever. Quiçá surja no horizon te uma figura salvadora, como Carlos Ghosn, que reverteu um proce sso similar na Nissan, alguém capaz de dobrar a complicada rede de grupos de interesse que envolve a empresa. O caminho alternat ivo é a bancarrota, na qual a recuperação da empresa, ou o que sobrar dela, ficará a cargo de juízes e interventores. Quem perde e quem ganha com a situação? As mudanças terão efeitos devastadores sobre empregados e cidades nas quais a GM tem atividades. O choque também atingirá a cadeia produ tiva espalhada pelo mundo. O impacto sobre as subsidiárias européi as, chinesa e brasileira é difícil de avaliar. Por outro lado, co ncorrentes diretos, como Toyota, Honda, Ford e Nissan terão um a oportunidade para avançar no mercado. A GM foi fundada em 1908. Nos anos 1920, ultrapasso u a Ford em vendas. Enquanto a Ford permanecia focada em técnic as de produção, a GM criava o novo modelo de organização para a corporação multinacional contemporânea. Seguiram-se décadas de expansão, até os anos 1980, quando os carros japone ses iniciaram sua entrada no mercado norte-americano. Como outras grandes empresas, a GM foi diversas vez es denunciada por condutas duvidosas. O documentário Taken for a Ride (1996), dirigido por Jim Klein e Martha Olson, conta a prim eira grande trama. Nos anos 1920, a empresa orquestrou o desman telamento do sistema de transporte público baseado em bondes elé tricos. A iniciativa levou à substituição do transporte de ma ssa pelo transporte individual, com as consequências para a vida urbana que todos conhecemos. Em 1938, um alto executivo da empresa ganhou uma me dalha de Hitler em reconhecimento pela tecnologia que permit iu à Alemanha invadir a Polônia. Em 1939, Alfred Sloan defendeu a continuidade dos negócios (sólidos e lucrativos) com os nazistas . Michael Moore, o espalhafatoso documentarista, cutu caria a empresa em 1989, em Roger & Me . O filme mostra os efeitos dramáticos do fechamento de fábricas da GM sobre a cidade de Flint. Um novo ataque à empresa seria engendrado po r outro documentarista, Chris Paine, em Who Killed the Electric Car? O filme trata do EV-1, projeto abortado na década de 1990. Entretanto, o mais ácido retrato da empresa está no livro On A Clear Day You Can See General Motors, de Patrick J. Wright, baseado nas memórias do controvertido executivo Joh n Z. DeLorean. Para DeLorean, a incapacidade da empresa para compe tir se devia a falhas de gestão e pura irresponsabilidade, a perme ar um sistema que cerceava a iniciativa e tornava a liderança e a inovação impossíveis. O livro foi publicado em 1979. Empresas nascem, crescem e morrem. Grandes empresas criam casulos para si próprias e rejeitam mudanças, mesmo quando sua sobrevivência depende delas. Seus executivos pilota m sem olhar à frente, mirando pelo retrovisor as glórias passadas , No Brasil, a lenta agonia da Varig oferece lições similares. O q uartel general da GM fica em Detroit, no Renaissance Center. Signi ficativo, muito significativo! Depois de horas Trabalhos científicos investigam porque as jornadas de trabalho são tão longas, quais as conseqüências e o que pode ser feito a respeito. Imagine o prezado leitor a seguinte pesquisa: toma- se uma amostra de executivos de empresas pequenas, médias e grande s. Então, pergunta-se a eles sobre a duração de suas jornadas de trabalho. Boas chances há de, entre resmungos e olhares de de sânimo, ouvir o pesquisador histórias de terror sobre jornadas di árias de 12, 14 horas, notebooks e smartphones a invadir lares,noites e finais de semana; e ainda relatos de frustrações, c rises de estresse e úlceras. Como chegamos a este ponto? O senso comum aponta o início do flagelo para os pr imeiros anos da década de 1990. Com a abertura de mercado, as em presas viram- se diante de ameaças e oportunidades nunca dantes e xperimentadas. Acossadas, elas correram aos oráculos e gurus, e de les receberam dietas amargas e urgentes. Níveis hierárquicos fora m cortados, quadros foram extirpados e áreas inteiras foram ter ceirizadas. Os sobreviventes foram brindados com o duvidoso privil égio de produzir gordos desempenhos com magros recursos. Su a reação automática à ampliação das demandas e das responsab ilidades foi acrescentar mais velocidade e mais horas de trabalh o. Entretanto, quem se der ao trabalho de olhar os bas tidores pode detrás dos frenéticos palcos corporativos se depara rá com uma realidade curiosa. Tome o caso de uma conhecida emp resa de consultoria, famosa por seus serviços e célebre por seu exigente regime de trabalho. Em seu despojado escritório, a jornada tem início oficial às nove horas da manhã. Porém, quem ali aportar neste horário, somente encontrará estagiários. Os g arbosos consultores chegarão depois das 10 horas, para segu ir um ritual preciso de leitura de jornais, reuniões imprecisas e conversas etéreas. Pouco trabalho de fato ocorre antes do alm oço, que é precedido de discussões detalhadas sobre culinária Thai, opções fusion e japoneses tradicionais. Às 15 horas, a trupe est ará de volta para mais reuniões e conversas desnorteadas. N’algum momento, algum trabalho deverá ser feito. Então, al guns consultores entrarão em transe e, por horas, dedica r-se-ão à pirotecnia das apresentações PowerPoint e das plani lhas Excel. Tresloucados, concorrerão entre si pelo reconhecime nto público destinado ao “último a deixar o escritório”, fato q ue será comentado nas manhãs seguintes. O caso pode ser ext remo, mas não é exceção. Remova-se, em uma jornada de 12 ou 14 ho ras de um executivo, rituais de postergação e embromação, e r estará pouco tempo para trabalho realmente útil. Passadas quase duas décadas, as longas jornadas de trabalho passaram a integrar o cotidiano de milhares de empr esas em Pindorama e alhures. O que poderia ter sido um perí odo transitório de adaptação a uma nova ordem, consolid ou-se como prática corporativa, que combina muitas horas no tr abalho com poucas horas de trabalho. Outros oráculos e gurus v ieram, agora para alertar para as conseqüências nefastas do esta do das coisas. Seu bloco de receitas infalíveis agora inclui técni cas para gestão do tempo, fórmulas para conduzir reuniões ma is produtivas e até mesmo dicas para enfrentar as avalanches diár ias de mensagens eletrônicas. Tudo lógico e razoável, poré m insuficiente para reduzir as longas jornadas. O assunto também entrou na agenda de pesquisadores, que em 2008 pariram dois interessantes conjuntos de estudos sob re o tema. No início do ano, o Journal of Business Ethics lhe dedicou uma edição especial, organizada por Ronald J. Burke. No segundo semestre, foi lançado o livro The Long Hours Culture: Causes, Consequences and Choices, uma coletânea também organizada por Burke, em parceria com Cary L. Cooper. Os textos pr ocuram examinar os efeitos das longas jornadas sobre a saú de do indivíduo, da família e da organização. Hoje, parte considerável das organizações opera em regime 24/7, sob intensa pressão competitiva. As tecnologias de comunicação e informação permitem trabalhar em qualquer lugar, a qualquer momento. Ao mesmo tempo, com as estruturas mais enx utas, há menos oportunidades para promoção, o que conflita com a c rescente ambição dos executivos. Tais condições geram uma cu ltura de trabalho perversa, que estimula as longas jornadas. A situação se perpetua porque indivíduos e organizações percebem os benefícios imediatos das longas jornadas, em termos de aumento das tarefas realizadas, porém não percebem as conseqüências de médio prazo: estresse, problemas familiares e queda da produtivi dade. Reverter a cultura das longas jornadas envolve um esforço co letivo, que compreende reinventar o trabalho, enfrentar o faz d e conta corporativo e fazer algumas escolhas pessoais, dura s escolhas, sobre o que queremos e sobre quanto estamos dispost os a pagar. A armadilha do groupthink Nas empresas e em outras organizações, a coesão gru pal e a uniformidade de opiniões podem provocar o isolament o da realidade e gerar decisões temerárias. Wall Street, o centro financeiro norte-americano, f oi eleito sem concorrência o vilão da crise atual. Em uma entrevi sta concedida ao jornal The Washington Post , Warren Bennis, decano professor de liderança da Universidade do Sul da Califórnia, exa mina as raízes comportamentais do drama econômico. Para Bennis, os líderes das instituições financeiras perderam o contato com a r ealidade. O problema não está nas “maçãs podres”, mas na seleçã o contínua dos gananciosos mais espertos das melhores escolas de n egócios, a criar um sistema fechado, uma cultura corporativa a uto-centrada, que perdeu a capacidade de perceber a realidade for a de seus limites. Toda organização socializa seus funcionários, prove ndo-lhes definições, explícitas ou implícitas, do que é cons iderado certo e errado. Empresas industriais valorizam o perfecci onismo dos engenheiros. Agências de propaganda estimulam a agr essividade dos vendedores. Instituições financeiras promovem a amb ição pelo dinheiro e o desejo de riqueza. Sem a contraposição de controles e princípios éticos, estas características podem ge rar comportamentos patológicos, isolando os gestores do ambiente externo e tornando-os auto-referenciados. É a armad ilha do groupthink, ou pensamento grupal . O termo groupthink foi cunhado na década de 1950 pelo sociólogo William H. Whyte, para explicar como grupos se torn avam reféns de sua própria coesão, tomando decisões temerárias e c ausando grandes fracassos. Na literatura de gestão, o caso da tentativa de invasão da Baía dos Porcos é tido como exemplo c lássico. Em abril de 1961, um grupo de exilados cubanos, treina dos e equipados nos Estados Unidos, tentaram invadir a il ha e derrubar o jovem governo de Fidel Castro. A CIA e o governo norte- americano apostavam no sucesso rápido de mais uma a ventura caribenha. O ataque durou menos de uma semana, resu ltou em centenas de mortes de lado a lado e azedou de forma irremediável a relação entre Cuba e os Estados Unidos. Análises posteriores atribuíram o fracasso da opera ção à incompetência da CIA. A agência teria superestimado o apoio dos cubanos à causa dos rebeldes e baseado suas decisõe s em premissas otimistas, que não se concretizariam. Após o episód io, diretores importantes foram forçados a renunciar. Consta que Che Guevara, irônico, chegou a enviar uma mensagem ao presidente John F. Kennedy, agradecendo pela invasão, que teria fortal ecido substancialmente a causa revolucionária. Os manuais de gestão definem groupthink como um processo mental coletivo que ocorre quando os grupos são uniformes, seus indivíduos pensam da mesma forma e o desejo de coes ão supera a motivação para avaliar alternativas diferentes das usuais. Os sintomas são conhecidos: uma ilusão de invulnerabil idade, que gera otimismo e pode levar a correr riscos; um esfo rço coletivo para neutralizar visões contrárias às teses dominan tes; uma crença absoluta na moralidade das ações dos membros do grupo; e uma visão distorcida dos “inimigos”, comumente vist os como iludidos, fracos ou simplesmente estúpidos. Organizações marcadas pelo groupthinking exercem enorme pressão sobre seus membros. Diante de ameaças à conformidad e, elas neutralizam ou expulsam os mais rebeldes. Com o tem po, desenvolvemsofisticados sistemas de auto-censura, inibindo visões críticas. Essas organizações podem se tornar ambientes silenciosos, caracterizados pelo cinismo ou pelo me do de expor posições que contradigam a visão oficial. Tão antigo quanto o conceito são as receitas para c ontrapor a patologia: primeiro, é preciso estimular o pensamen to crítico e as visões alternativas à visão dominante; segundo, é necessário adotar sistemas transparentes de governança e proce dimentos de auditoria; e, terceiro, é desejável renovar constan temente o grupo, de forma a oxigenar as discussões e o proces so de tomada de decisão. Os estudos clássicos sobre groupthink foram feitos sobre grandes fiascos militares norte-americanos: a citada tentat iva de invasão da Baía dos Porcos, em 1961, a escalada da Guerra d o Vietnã, de 1964 a 1967, e a Guerra do Iraque, iniciada em 2003 . Para cada uma destas grandes catástrofes há centenas de peque nas tragédias, que ocorreram, e continuam a ocorrer, no mundo dos negócios. Este escriba desconhece estudos realizados em Pindo rama sobre o tema. Perdem os pesquisadores locais a chance de ex plorar riquíssimo material, nas hostes corporativas e, esp ecialmente, nos chamados poderes do descampado central. Quiçá a capital federal possa entrar inteira para o Livro dos Recor des, como o maior caso de groupthink do mundo. Déficit de atenção Do cruzamento das modernas tecnologias com a ansied ade por acompanhar tudo o que acontece a nossa volta ganha força uma nova patologia corporativa. O Distúrbio do Déficit de Atenção (DDA) é um mal co nhecido. Comumente, vem acompanhado de hiperatividade. Estim a-se que atinja 5% da população. Indivíduos vitimados pelo D DA apresentam comportamentos como falta de foco, impulsividade e inquietação. A lista de sintomas inclui dificuldade para concentra r-se, falta de atenção a detalhes, incapacidade para ouvir os outr os, dificuldade para seguir instruções, desorganização, dificuldade para realizar atividades que exigem esforço mental contínuo e incapacidade para planejar tarefas. Agora, aplique a lista aos seus colegas de trabalho e provavelmente constatará que boa parte deles aprese nta alguns, ou talvez a maioria, desses sintomas. Isso não equival e a um diagnóstico médico e não faz de seus colegas portad ores do DDA, mas revela muito sobre a vida nos ambientes de trab alho contemporâneos. Então, imagine a cena: você chegou mais cedo ao esc ritório, determinado a finalizar aquele projeto que repousa há semanas em sua mesa. Avança corajoso para a sua sala, liga seu computador e se põe a abrir planilhas e textos. Sua determinação dura exatos 14 minutos. Surge uma pequena dúvida técnica: qual métrica será usada para avaliar o retorno sobre o investimento? Concentração. A tela imóvel a sua frente começa a incomodar. Dist raidamente, você abre um site de notícias. Corre os olhos pelas manchetes e já vai voltar para sua tarefa. Entretanto, uma notí cia lhe chama a atenção: mais um maníaco embriagado dirigindo pel a contramão. Impressionante! Os links trazem mais um, dois casos, uma epidemia! 12 minutos depois, você finalmente se lem bra de sua tarefa. Volta constrangido à planilha, desiste de e scolher a métrica e começa a trabalhar nas justificativas qua litativas. Seguem-se seis minutos de produtivo “corta e cola”. Repentinamente, toca o telefone: um cliente desespe rado pede sua ajuda para resolver um problema urgente que, aliás, não é urgente nem tampouco justifica o desespero. Cinco telefonem as e 45 minutos depois, o problema está resolvido, seu humo r um pouco abalado e a concentração perdida. Mas você não desi ste. Retoma, com um pouco de angústia, sua tarefa. Estuda uma es tratégia para avançar o que puder antes da reunião com a diretori a. Passam-se mais sete minutos de valiosos avanços, quando você nota que o ícone de chegada de mensagens, no canto da tela, pi sca seguidas vezes. Talvez alguma coisa realmente urgente. Segue m-se 32 minutos de eliminação de SPAMs, leituras de longas mensagens que não lhe deveriam ser destinadas e respostas a pergu ntas que não lhe deveriam ter sido feitas. Irritado, você finalm ente volta a sua tarefa, mas tem apenas tempo para fechar os doc umentos e se preparar para a reunião. Seu projeto? Fica para out ro dia. Meses reproduzindo esta frustrante rotina e você pr ovavelmente estará preparado para um livro de auto-ajuda. Soluç ão para as suas dores talvez não encontre, mas ao menos você n ão irá se sentir tão sozinho e desamparado. O livro Distracted: The Erosion of Attention and the Coming Dark Age, de Maggie Jackson, é mais uma peça do vasto arsenal editorial visando tirar d inheiro das angústias executivas. Marci Alboher, do New York Ti mes, teve a paciência de ler o livro, do qual extraiu a seguint e lista de efeitos da nova, ou não tão nova, praga corporativa : profissionais trocam de tarefas a cada três minutos e, uma vez distraídos, levam meia hora para retomar o foco ori ginal; interrupções e seus respectivos tempos de retomada consomem 28% do dia de trabalho; funcionários que são rotineiram ente interrompidos e não conseguem focar adequadamente s uas tarefas são mais aptos a se sentirem frustrados, pressionad os e estressados; em reuniões nas quais todos estão veri ficando seus emails , as oportunidades para fazer um trabalho coletivo crítico e criativo são perdidas. Triste, não? Será a tecnologia a grande culpada? Somente se nos contentarmos com um bode expiatório. A tecnologia pode piorar as coisas, porém a verdadeira raiz talvez seja nossa ansiedade por a companhar tudo o que acontece a nossa volta. Para enfrentar o prob lema, alguns profissionais adotaram há algum tempo espaços “sagr ados” na agenda, no qual se isolam de seus pares e se deslig am temporariamente dos meios de comunicação. Alboher l embra que funcionários da IBM adotaram as “Think Fridays”, na s quais são evitados o correio eletrônico, as reuniões e outros tipos de interrupções. Outras empresas têm criado salas “sil enciosas”; leia-se, sem conexões telefônicas ou informáticas. O passo essencial no sentido de recuperar a capacidade de f oco cabe, obviamente, à auto-disciplina dos indivíduos. O futuro em cores Pesquisa da consultoria PricewaterhouseCoopers, fei ta com apoio da Universidade de Oxford, revela três cenários par a o mundo corporativo nas próximas décadas. A fascinação pelo futuro já reuniu seita mais numer osa. O século XX, inundado por grandes inovações tecnológicas, nu triu incontáveis devaneios. As viagens espaciais, por ex emplo, alimentaram gerações de sonhadores. Porém, o ciclo de grandes utopias – tecnológicas, políticas e sociais – encer rou-se pouco antes do final do milênio. As gerações seguintes fo ram germinadas nos fornos do individualismo, do conformismo e do h edonismo. Vivem para o presente. Miram o passado com relutânc ia. Vêem o futuro sem grande interesse. Comparadas às grandes inovações disseminadas nas gerações passadas, as atuais são i nsípidas, inodoras e incolores. Poder comunicar-se em tempo r eal, por meio de uma linha de telefone fixo, com outra pessoa a m ilhares de quilômetros de distância, representou uma enorme ru ptura. Fazer o mesmo por uma conexão móvel ou por um computador é apenas fazer o mesmo de uma outra forma. A fascinação com o futuro também perdeu espaço no m undo corporativo. As técnicas de formulação de cenários para planejamento estratégico conheceram seu apogeu nos anos 1970. A equipe da Shell, ao conseguir antever a crise do pe tróleo do início daquela década, ganhou merecida fama e ajudo u a atrair outras grandes empresas para a prática. Algumas mul tinacionais chegaram a mobilizar centenas de funcionários em ex ercícios detalhados e demorados de análise de cenários. No e ntanto,com o passar do tempo, o interesse pelos exercícios futur ológicos declinou, mantendo-se apenas como atividade esporád ica e assessória. Em uma Era que cultua o presente, cujos gestores raramente desviam os olhos além dos resultados do t rimestre, não é fácil mobilizar corações e mentes para mirar uma ou duas décadas à frente. Um estudo, realizado pela consultoria Pricewaterhou seCoopers (PWC), com apoio do Instituto James Martin para a C iência e a Civilização, da Universidade de Oxford, contrapõe e ste quadro de pouco entusiasmo para o com o porvir. O trabalho id entificou uma série de forças que terão influência sobre o contex to empresarial nas próximas décadas, formulando um modelo que se a ssenta em dois eixos de tendências: “individualismo versus coletiv ismo” e “integração corporativa versus fragmentação”. A par tir destes eixos, foram criados três cenários, para os quais f oram designadas cores: o mundo azul, o mundo verde e o m undo laranja. No mundo azul, as grandes empresas se consolidam ao longo de uma década de fusões e aquisições. Elas dominam o mundo , fazendo sombra a muitos países. A tecnologia determina a ag enda e as preocupações ambientais tornam-se secundárias. O au mento do poder das grandes corporações gera um abismo entre os pro fissionais que trabalham em grandes empresas e aqueles que tem que se sujeitar a condições de instabilidade e poucos benefícios em p equenas empresas. O adestramento de funcionários começa aos 16 anos de idade. Aos 18, muitos já estão ligados a uma empres a e a formação universitária é gerida pela corporação. No topo da hierarquia, os executivos comportam-se como celebridades do show business, com agentes a representá-los no mercado de trabalho. No mundo verde, a responsabilidade social domina a agenda corporativa, com preocupações ligadas a mudanças de mográficas, clima e sustentabilidade. Tais questões transformam -se em direcionadores para a estratégia. Negócios “verdes” tornam-se centrais para as empresas. O lobby ambientalista ganha poder e os consumidores direcionam o comportamento corporativo . Regulamentação e controle social determinam o grau de liberdade das empresas. A responsabilidade social corporativa deixa de ser altruísmo ou comportamento de fachada e se torna um imperativo dos negócios. Empresas e empregados passam a se ele ger de acordo com as credenciais sócio-ambientais. No mundo laranja, as empresas se subdividem em rede s de colaboração, compostas por empresas menores, especi alizadas. A fragmentação é compensada pelo emprego maciço de mo delos de cooperação, apoiados pela tecnologia. As carreiras passam a ser caracterizadas pela autonomia e por contratos de cu rto prazo, flexíveis. Cada indivíduo torna-se responsável por sua carreira e por seu desenvolvimento. Associações profissionais emergem como locus de suporte mútuo. O estudo não aposta em um ou outro mundo, advoga qu e os três cenários provavelmente ocorrerão, com predominância de um ou outro em certas regiões geográficas ou determinados setores da economia. Por razões metodológicas e didáticas, o t rabalho revela apenas três cores. A paleta do mundo real, como se sabe, apresenta muitas outras possibilidades, assim como a trajetória humana. O encontro das águas O fenômeno amazônico tem um (imperfeito) análogo co rporativo: as grandes fusões e aquisições envolvem rios caudaloso s, que levam algum tempo para se misturarem, quando se misturam. Para os turistas que visitam a Amazônia, um passeio tradicional é o encontro das águas. A atração acontece na confluê ncia entre o rio Negro, de água preta, escura, e o rio Solimões, de água barrenta. Em lugar de se misturarem no ponto da jun ção, as águas dos dois rios correm separadas, lado a lado, por ma is de seis quilômetros. O fenômeno se deve à diferença entre a densidade, a temperatura e a velocidade das águas dos dois rios. O rio Negro corre a cerca de 2 km/h, a uma temperatura de 22°C, enquanto que o rio Solimões corre a cerca de 4 a 6 km/h, a uma t emperatura de 28°C. Fenômeno similar está acontecendo longe da (por enq uanto) verdejante Amazônia, nos domínios corporativos do m undo industrializado e também entre grandes empresas da emergente Pindorama,. Trata-se da integração entre empresas, processo que segue fusões e aquisições. O marco inicial costuma ter data certa, mas a integração efetiva demanda, como no ca so do rio Negro e do rio Solimões, bons e acidentados quilôme tros de convivência. Cumpre registrar que não se trata de fato novo. Des de os anos 1980, aumentaram consideravelmente os casos de enco ntros de águas. Como tudo no mundo contemporâneo, também des ta feita a causa foi a tal da globalização. Afinal, foi a cria da dupla Thatcher & Reagan que originou as pressões competit ivas, facilitou o acesso ao capital e decretou a necessid ade de consolidação industrial. A balburdia competitiva gerou fortes reflexos nas h ostes corporativas. Tome-se um caso célebre. Em 1998, foi anunciada a fusão entre a alemã Daimler-Benz e a norte-american a Chrysler, dando origem a Daimler-Chrysler. A retórica oficial falava em fusão de iguais, em complementaridade estratégica e grandes sinergias a explorar. Propagandas nas revistas de n egócios mostravam o lado humano da nova empresa, com fotos de operários felizes dos dois lados do Atlântico. Na prática, os dois rios nunca se misturaram. Frustrações e atritos marcaram a breve história da empresa. Em 2007, cada empresa voltou a seguir o seu curso. Agora, é a italiana Fiat que se apresenta co mo salvadora da combalida empresa norte-americana. Serão as água s do rio Pó miscíveis com as águas do rio Detroit? Acionistas, consumidores e trabalhadores torcem para que sejam, e que a mistur a seja muito, muito rápida. Loquazes executivos costumam fazer eco ao discurso dos gurus da gestão: expressões tais como “DNA corporativo”, “co mpartilhamento de valores”, “cultura forte” e “identidade forte” p assaram a integrar o jargão corporativo. Por detrás do palavr ório de sentido nebuloso encontra-se a busca da uniformidad e e de fundamentos comuns. Na prática, entretanto, os suce ssivos processos de fusão e aquisição promovidos pelas emp resas estão dando origem a organizações extremamente fragmentad as, caracterizadas pelo que começa a ser denominado de hibridismo. O termo hibridismo deriva da palavra latina hybrida , hibrida ou ibrida, que tem o sentido de insulto ou ultraje. Tal sentid o se deve ao fato de que plantas ou animais de raças ou espécies diferentes não serem capazes de produzir descendent es comuns. Daí ser o produto do cruzamento considerado um insulto ou ultraje ao ciclo natural. Semelhanças com certos casos de fusã o ou aquisição podem ser mais do que coincidência. Nas empresas que passam por fusões e aquisições, o hibridismo pode se manifestar de diversas formas: na existênci a de sistemas e processos redundantes; no canibalismo entre marca s e produtos; e, principalmente, no choque entre diferentes cultu ras de trabalho e na disputa por cargos e funções. Para os gestores, a questão do ritmo de integração tem sido um grande f oco de atenção. Apressar os rios pode gerar conflitos, per das de quadros qualificados e riscos para os negócios. Deixar que os próprios rios determinem a velocidade de integração pode res ultar em acomodação ao status quo e gerar processos lentos, incapazes de produzir resultados. Achar o ritmo certo é o grande desafio. Em 2009, Pindorama oferece, além do fenômeno das ág uas amazônicas, diversos espetáculos corporativos. E ou tros provavelmente virão. Em jogo, está a consolidação d e grandes grupos econômicos brasileiros. Para aqueles diretam ente envolvidos, os desafios e as emoções serão fortes. Para a audiência, será uma boa oportunidadepara aprender sobre um processo cada vez mais comum nas empresas. No traje to, talvez o discurso da identidade, da cultura e do DNA corpora tivo dê lugar para uma postura mais realista, que aceite a realid ade múltipla, instável e híbrida das organizações contemporâneas; uma postura que busque mais a convivência entre as diferenças d o que a uniformização. Homo mobilis Avanços nas tecnologias de comunicação e informação estão viabilizando novos arranjos organizacionais e novas formas de trabalho. No início da década de noventa, William H. Davidow e Michael S. Malone aproveitaram o fascínio com a tecnologia de informação e fizeram de seu livro The Virtual Corporation um best seller. Para revitalizar as corporações, bradavam os autores, er a preciso reinventar a gestão e reinventar o trabalho. Com ar gumento similar, muitas outras obras se seguiram. Alguns te rmos permaneceram, outros sucumbiram: e-business, e-commerce , tele- trabalho, cadeia virtual de valor... a lista é long a. Agora, um novo conceito-fetiche parece ter emergido , tentando capturar o fugidio espírito da época. O argumento é que os avanços recentes das tecnologias de comunicação (le ia-se: telefonia celular) e de informação (leia-se: Intern et) estão viabilizando novas configurações organizacionais e mudando a forma como trabalhamos. Em suma, a convergência tec nológica está nos transformando em “novos nômades”. Os nômades originais compunham – e ainda compõem – comunidades itinerantes, que se movem em lugar de se fixarem em um local. Estima-se que existam hoje de 30 a 40 milhões deles circulando pelo mundo. Sobre os novos nômades não há estimativ as. No entanto, acredita-se que eles estejam se multiplica do mais do que os leporídeos . Um novo nômade é fácil de reconhecer: ele, ou ela, não tem horário ou local fixo de trabalho. Seu escritório é o mundo, ou qualquer local que proporcione acesso à Internet. S ua ferramenta de trabalho é BlackBerry, do qual não se separa nem em audiências papais. Aliás, como alerta a revista The Economist, em uma matéria sobre o tema, o que define o novo nômade nã o é o que ele carrega, mas o que ele deixa para trás. Como seu pr imo beduíno, que não carrega grande quantidade de água, porque s abe como encontrá-la, nos oásis, o novo nômade não carrega d ocumentos ou arquivos, porque pode ter acesso a eles aonde estiv er. O novo nômade descende do tele-trabalhador dos anos 1990. A principal diferença é que seu antecessor ficava pre so a uma base, em sua casa, enquanto que o novo espécime tem liber dade de movimentação. O novo nomadismo eleva a um novo pata mar a flexibilidade de uso do espaço e do tempo. Naturalm ente, isso enfraquece ainda mais a separação entre família e t rabalho, e faz com que o batente invada as mais improváveis horas de descanso e lazer. Modismo ou não, algumas manifestações do fenômeno s ão notáveis. Muitas empresas têm sido criadas sem local físico d e trabalho. Seus sócios e funcionários trabalham a partir de su as casas e dos escritórios de clientes. As reuniões internas acont ecem em cafés e restaurantes. O arranjo pode funcionar muito bem, desde que os indivíduos sejam autônomos e auto-motivados. O fenômeno também é percebido nas empresas tradicio nais. Muitas delas estão esvaziando seus escritórios e incentiva ndo que seus funcionários a trabalhar de forma remota. O enxugam ento dos escritórios, aliás, traz uma série de benefícios. G randes escritórios tendem a se converter em bolhas, que se isolam do mundo e parecem regidas por regras e rituais própri os. Ambientes deste tipo consomem muito recurso, produzem process os inúteis, reuniões intermináveis e disputas de poder entre gr upos. O novo nomadismo está também reduzindo os encontros pessoais. Progressivamente, profissionais da mesma empresa ou de diferentes empresas estão diminuindo a demanda por reuniões fa ce-a-face e as substituindo por contatos mais constantes, e menos estruturados, por intermédio de meios eletrônicos. A influência, também segundo The Economist, chega até a arquitetura. As construções do século XX foram marc adas pela especialização. O espaço de trabalho era ser projet ado especificamente para este fim. Com a nova tendência , novos espaços estão sendo criados para abrigar trabalho, vida social e lazer. A sede da Google, na Califórnia, e um novo p rédio criado pelo arquiteto Frank Gehry para o Massachusetts Ins titute of Technology, em Boston, são celebrados exemplos dess a onda. Naturalmente, nem tudo são flores neste admirável m undo novo. O novo nomadismo significa maior liberdade de ação. P orém, se não aprendermos rapidamente a lidar com ela, nos tornar emos algozes de nós mesmos, trabalhando em ritmo 24/7. James Kat z, professor e pesquisador da Rutgers University, explica seu pess imismo. Segundo ele, hoje os indivíduos não avaliam mais o que deveriam atingir, mas o que poderiam atingir. Como as tecnol ogias dão a impressão de abrir oportunidades infinitas, os indi víduos sentem- se inadequados e infelizes, pois crêem que não apro veitam as enormes possibilidades que lhes são oferecidas. A v ida de oásis em oásis pode não ser paradisíaca quanto fazem crer as propagandas de celulares. PARTE 3: FALANDO MAL DA GESTÃO A vida como extensão da empresa Um modesto ensaio sobre como uma centenária invençã o ianque ganhou o mundo, chegou a Pindorama nos anos 1990 e está mudando nossos comportamentos e atitudes. O humor é um conceito geralmente aplicado aos indiv íduos. Dizemos, de nossos pares, que são bem-humorados, qu e tem senso de humor ou que estão de mau humor. O conceito de humo r também pode ser aplicado, correndo-se certo risco de fazer gene ralizações indevidas, a países. Se aceitarmos tal risco, então podemos afirmar que nosso instável país já experimentou vár ios humores. Pindorama já teve a alcunha de tristes trópicos, lo cal de exílio e desterro, já foi a varonil nação do futuro, a ter ra ufanista do “ame-o ou deixe-o” e o eufórico e barulhento país d o carnaval. Nos anos 1980, nosso humor mal resistiu às más notí cias do front econômico. Flertamos com a depressão (depois da rec essão), tornamo-nos violentos e quase enterramos nossa comb alida cordialidade. Na década seguinte, nosso humor sofre u com as turbulências das mudanças econômicas, perdemos noss as ilusões políticas e ficamos mais céticos. Agora, por obra d a providência divina e do mercado de commodities , vivemos um interlúdio bem- aventurado, catalisado por boas novas, milagrosamen te enfileiradas e cuidadosamente exploradas. Aqui e ac olá, tentam nos convencer que nunca fomos tão felizes. Este modesto ensaio propõe uma singela contribuição ao entendimento das variações do humor nacional. Espec ula este escriba que a nação pindoramense abraçou, desde mea dos da última década, um novo humor, um humor catalisado pela ado ção da cartilha neo-liberal na economia e pela ascensão do gerencialismo no mundo das empresas e do trabalho. Como noutras plagas, o novo humor incentivou o indi vidualismo, transformou reclusos executivos em celebridades e i ncentivou profissionais a se verem como marcas de sabão, a se rem incessantemente promovidas e vendidas, pela melhor oferta, no mercado de trabalho. E não ficou por aí. O novo hum or ultrapassou as fronteiras corporativas, ganhou as ruas, a vida social, o governo e as artes. Nada lhe escapou. Talvez ele nã o seja, ainda, o humor oficial, absoluto, como ao norte do Rio Gra nde, mas já é um humor de referência, cujos desígnios não são seq uer discutidos, porque foram assimilados e tornados “na turais”. Veremos, a seguir, uma singela evidência de sua exi stência. Em seguida, exploraremos suas origens e suas manifesta ções. Um antropólogo que decida passar alguns quartos de hora emum escritório executivo poderá observar in loco alguns traços curiosos do mundo corporativo. Quiçá possa até mesm o estabelecer hipóteses sobre o imaginário e o comportamento de s eus habitantes. Pelas estantes e mesas, o visitante enc ontrará pitorescos livros de gestão e vistosas revistas de negócios. Provavelmente, se assombrará com o exotismo e a cri atividade dos títulos e das manchetes. A literatura de negócios e de gestão mistura a estrutura das fábulas infantis, a liberda de criativa da ficção científica e o apelo pseudo-psicológico da a uto-ajuda. Os autores do ramo parecem ter especial apreço por hip érboles e metáforas. Não temem o ridículo. Alguns parecem agi r sob inspiração messiânica, seguros de que serão compree ndidos, e imitados, por seus rebanhos. Qualquer gerente, ou candidato a gerente, sabe que a ascensão profissional está condicionada ao domínio de um int rincado vocabulário, um palavrório cheio de anglicismos, ne ologismos e siglas. Aos desavisados, as idéias parecem densas e significativas, porém os conceitos são irritantemen te imprecisos, vagos. Parece ser este o segredo do encontro entre a destrambelhada oferta com a não menos destrambelhad a demanda. Alguns gestores contemporâneos apresentam comportam ento maníaco- depressivo: seu humor oscila entre momentos marcado s por temores e preocupações com a própria sobrevivência e moment os de euforia, marcados por sonhos de grandeza e pela elaboração d e estratégias de ascensão. Muitos leitores adotam a literatura de negócios e gestão com fervor religioso. Tratam-na como guia es piritual para enfrentar chagas e oportunidades da vida corporativ a. Nem sempre foi assim. O espetáculo da vida corporat iva já mais sóbrio, sem a apelação e a pirotecnia atuais. Há du as décadas, quem visitasse o escritório de um executivo, se dep araria com um ambiente diferente do atual, com decoração mais com portada e sóbria. No centro, uma mesa de madeira escura, as g avetas trancadas à chave. Ao lado, um arquivo metálico de pastas suspensas, de cor verde oliva, igualmente fechado. Junto à parede, uma estante impecavelmente arrumada, a exib ir manuais técnicos e, vez por outra, biografias de Winston Ch urchill e do General Patton. No meio do papelório, a conferir po mpa e circunstância ao ambiente, pastas, desenhos e cader nos de folhas quadriculadas, repleto de números e contas. Há duas décadas, o ocupante da alcova burocrática era um austero empre sário, preocupado com problemas da linha de produção, com os controles de preço impostos pelo governo e com a inflação. Se u dia era ocupado com a leitura e análise de relatórios, a re alização de cálculos. A mudança ocorridas nas duas últimas décadas nos es critórios corporativos reflete mais do que tendências decorat ivas. O que ocorreu nas últimas décadas foi uma mudança de form a e conteúdo do trabalho gerencial. Faz parte da história do que os especialistas chamam hoje de gerencialismo, uma his tória ainda mais ampla e antiga, de mais de 100 anos, cujos efe itos são sentidos no nosso dia a dia, porém nem sempre são n otados ou compreendidos. O gerencialismo é usualmente entendido como um conj unto de teorias, métodos e práticas, as quais evoluem ao lo ngo do tempo e destinam-se a garantir o melhor desempenho possível para as empresas. O gerencialismo é também visto como uma i deologia, prima-irmã do neo-liberalismo, que tem na base a cr ença de que a aplicação de melhores ferramentas de gestão pode re solver problemas empresariais, sociais e econômicos. Seu surgimento ocorreu no início do século XX, com a criação das escolas de gestão. Nas primeiras escolas norte-amer icanas, o corpo de professores era formado por gestores trazi dos diretamente das fábricas, para partilhar sua experi ência prática com os pupilos. Embora parecesse um caminho natural , este expediente passou, com o tempo, a ser criticado. Af inal, uma solução que funciona bem em uma empresa pode causar um desastre em outra empresa. A primeira tentativa de escapar dos limites do conh ecimento estritamente prático e trazer ciência para a gestão se deu pela adoção dos princípios de “gerenciamento científico” , de Frederick Winslow Taylor (1856-1915), o mestre dos cronômetro s e dos estudos de tempos e movimentos. Taylor foi um engen heiro obcecado por eficiência industrial, que legou ao mundo ao mu ndo os famosos estudos de tempos e movimentos. Também é de sua lav ra o princípio da separação entre o trabalho de planejamento, real izado pelos gerentes, e o trabalho de execução, realizado pelos trabalhadores. Consta que ele próprio fracassou, em várias oportunidades, como consultor industrial. Entretant o, seus princípios e métodos perduraram, marcando gerações de administradores e fundamentando métodos de gestão n os mais variados setores de atividades. Semelhanças entre a cozinha das lanchonetes fast food, os escritórios de empresas estatais, as linhas de montagem de automóveis e os call centers são bem mais do que coincidências. Nas décadas posteriores, ocorreram novas tentativas para envernizar a tosca estrutura conceitual do gerencia lismo e lhe conferir ar de ciência respeitável. O esforço surti u efeito: a administração se tornou uma profissão reconhecida e popular, e o seu campo científico ganhou reputação e respeito en tre outras comunidades. As escolas norte-americanas de gestão tornaram-se elas próprias grandes negócios e se espalharam pelo mundo. Comunidades de pesquisadores, inspiradas pelo model o ianque, espalharam-se pelo planeta e geraram clones até mes mo em Pindorama. No entanto, não faltam crises e críticos, a denunci ar a inutilidade das pesquisas científicas realizadas na s universidades e a incapacidade das escolas de prepa rar gestores capazes de atuar no mundo real. Outra praga que afe ta o campo é o gosto dos executivos por modas gerenciais, incessan temente promovidas por consultores, jornalistas especializa dos e professores. Por sua vez, historiadores do gerencialismo critica m sua falsa neutralidade e o seu conservadorismo. Segundo tais críticos, além de constituir per se uma ideologia do capital, o gerencialismo teria consolidado princípios de hierarquia, planeja mento e racionalidade próprios das organizações militares. Isso teria ocorrido após o final da Segunda Guerra Mundial, co m o retorno dos militares norte-americanos e sua incorporação à vida civil, havendo depois se propagado e consolidado ao longo de toda a Guerra Fria. A partir dos anos 1980, o gerencialismo sofreu fort e impulso, decorrente da adoção das chamadas políticas neo-lib erais. O movimento, como se sabe, teve início no Reino Unido e nos Estados Unidos. Pontificando sob um país decadente, a prime ira ministra Margareth Thatcher apostou seu mandato na recuperaç ão de valores vitorianos de trabalho duro, motivação, ambição cri ativa e independência, adaptando-os ao momento. Do outro la do do Atlântico, Ronald Reagan cruzou o desfiladeiro que partia da depressiva Era Carter, buscando a salvação no indiv idualismo e no empreendedorismo. O novo humor alimentou e foi alimentado pela adoção de políticas neo-liberais. Cada um em seu nível de atuação, eles se casaram, se complementaram e iniciaram uma feliz vida a dois . O gerencialismo estava para as empresas e para os ind ivíduos assim como o neo-liberalismo estava para as instituições e para os países. Reformado pelo humor emergente, o gerencialismo pas sou a ser visto como a melhor resposta aos desafios da global ização, senão a única resposta para evitar o declínio econômico d e empresas, de regiões e de países. Seus valores, modelos e técnic as migraram rapidamente do Reino Unido e dos Estados Unidos par a outros países desenvolvidos e, então, para a Europa do Les te, para a Ásia e para aAmérica Latina. Empresas e governos abraçaram rapidamente o novo cr edo. Cinco princípios compuseram um ideário que rapidamente se consolidou: primeiro, a crença inabalável na liberdade de merca do (o retorno da “mão invisível”); segundo, a visão dos indivíduo s como empreendedores de si mesmos (you Inc., copiado no B rasil como você S.A., que se tornou título de revista de auto -ajuda); terceiro, o culto da excelência como meio para o de senvolvimento individual e coletivo; quarto, a crença que as tecn ologias gerenciais são válidas em todas as latitudes, longi tudes e altitudes; e quinto, que estas mesmas tecnologias g erenciais, por suas qualidades (e também por seus poderes mágicos) são capazes de garantir os melhores resultados para as empresas . Com o tempo, o novo humor ganhou status de credo, e este organizou uma igreja em torno de si. A sustentá-la, três vistosos pilares: as empresas de consultoria, as escolas de negócios e a mídia de negócios. Cada um destes pilares contribui u, a sua maneira, para o aperfeiçoamento do novo credo. Aben çoados na união, os componentes desta sagrada trindade cresce ram e se multiplicaram. Pindorama absorveu o novo credo com algum atraso, p orém abraço-o com vigor de noviço. Como em outros países, aqui ta mbém o grande impulso veio das reformas econômicas neo-liberais. Desde o início do século XX, a condução da economia local foi marc ada pela falta de apreço à ortodoxia. No entanto, no final dos ano s 1980 e início dos anos 1990, o Brasil passou a liberalizar a economia e a seguir as cartilhas recomendadas pelos organismos internacionais. As mudanças decorrentes – os progra mas de privatização, o movimento de fusões e aquisições, o aumento da competição entre empresas e a terceirização – gerar am, como em outros países, forte demanda de serviços de consult oria e educação, e contribuíram para criar um terreno fert ilíssimo para o avanço do novo credo. Consultores, educadores e editores responderam pron tamente à nova demanda. As maiores empresas mundiais de consultori a aqui se instalaram ou, se já instaladas, aumentaram seus qu adros e ampliaram suas atividades. Durante toda a década de 1990, a indústria do conselho instigou corações e mentes a abraçar as novas ondas gerenciais que iam surgindo no horizont e. As escolas de negócios também cresceram vertiginosamente. Um d e seus mais vistosos produtos, o MBA, foi associado a proprieda des mágicas, como um passaporte capaz de levar seu titular para posições de destaque no topo da pirâmide corporativa. A mídia d e negócios não ficou atrás. Ela cresceu e prosperou, traduzindo, a daptando e criando incansavelmente novos títulos. A mídia de negócios é, aliás, o melhor ponto de obs ervação do novo humor e do novo credo. O leitor que se dispuse r a um breve mergulho nas revistas de negócios e nos livros de g estão, notará facilmente a homogeneidade de conteúdo e estilo. Co mo uma companhia teatral de peça única e carreira ininterr upta, a mídia especializada replica edição após edição, livro apó s livro, seus conteúdos. Aqui e ali, pequenas adaptações e mudanç as, apenas para garantir o sabor de novidade a um modelo que é considerado um grande sucesso. No teatro corporativo retratado na mídia, o palco é sempre o mundo globalizado, habitado por empresas transnacio nais e profissionais cosmopolitas. Os personagens são freq üentemente gerentes heróis que, por seus feitos extraordinário s, transformam-se em celebridades. Suas realizações sã o validadas por experts acima de qualquer suspeita, gurus da consultoria o u professores de grandes escolas de negócios. As saga s são narradas à moda das fábulas infantis, temperadas com grandes desafios e impressionantes vitórias. Não há espaço para ambigü idades e meios tons: certo e errado, bom e ruim, superior e inferi or, velho e são noções sempre claras e bem definidas. Paradoxos e contradições não existem e o pragmatismo resolve to dos os dilemas: “vivemos em um mercado livre e vitorioso, de destino irreversível, no qual as empresas buscam constante renovação para se manterem competitivas, e seus funcionários devem pensar e agir como empreendedores autônomos e responsáveis”. Como em toda igreja, também no templo do gerenciali smo uma prática de cultos se estabeleceu. Em lugar de padre s e sacerdotes, subiram ao púlpito gurus e curandeiros. Em lugar de elegias e preces, passaram a ser compilados e disse minados pungentes testemunhos de sucesso empresarial. Em lu gar de histórias de redenção individuais, foram identifica das histórias de redenção empresarial. Pouco pão e muito circo. P ara manter o público em contínuo êxtase, foram adicionados gurus locais aos já renomados, porém algumas vezes envelhecidos, gurus estrangeiros. Para adornar os templos, foram providenciados ícone s, ídolos recém canonizados, por façanhas reais ou fabricadas , à frente de grandes corporações. Embora o novo credo seja único, monolítico, seus cu ltos são sempre renovados. Os sacerdotes do gerencialismo es tão sempre próximos de seus fiéis; aliás, eles confundem-se co m seu rebanho. Consultores aperfeiçoam permanentemente seus modelo s e ferramentas durante os projetos realizados nas empr esas. Jornalistas mantêm amplas redes de contatos, das qu ais extraem as “últimas novidades”, editando-as e dourando-as para seu público. Professores, em cursos executivos, ensinam tanto qu anto aprendem com seus estudantes. Sólida, a nova igreja avançou firme e forte na troc a de milênios. Ela passou quase incólume pelo estouro da bolha da Internet e, em Pindorama, superou com tranqüilidade o avanço da es trela vermelha. Acreditou na onisciência, na inevitabilid ade das eternas forças do mercado; não se abalou. Apostou n a neutralidade, reformou aqui e acolá seu discurso e seguiu imperturbável seu curso. Alguns gurus perderam sua aura, mas foram prontamente substituídos. Algumas modas fenec eram, sob o peso de seu fracasso, mas outras rapidamente surgir am. O novo humor e o novo credo ultrapassaram as fronte iras da economia e dos negócios. Avançaram pelos órgãos de governo, pela educação, pela saúde e pelas artes. Sua presença é discreta, porém visível. Empreendedorismo, sucesso e carreira são hoje temas recorrentes nos jornais, nas revistas semanai s e até nas publicações femininas. As revistas de celebridades e as revistas de negócios tornaram-se primas próximas, a partilha r valores e estilos, e, eventualmente, editores e jornalistas. Jovens vestibulandos hoje tomam decisões de escolha de carreira com base em na avaliação futura do mercado e em con ceitos de retorno sobre o investimento. Profissionais recém f ormados sentem-se cada vez mais atraídos por ganhos rápidos no mercado financeiro. Em todas as faixas etárias, cresce o fa scínio por criar negócios, tornar-se executivo ou empresário. A paixão pela carreira (rápida) substituiu a paixão pelo trabalho (sério). A conversa de negócios segue invadindo a vida social, as rodas de amigos, as relações. Talvez tenhamos que aceitar a chateação como efeito colateral associado ao progresso econômico. Ou, quem sabe, te nhamos apenas que esperar pacientemente até que seu ciclo se comp lete e um novo humor lhe tome o lugar. E desejar que seja menos ab orrecido do que o atual. Na turma do fundão Pesquisa científica compara as práticas gerenciais de mais de 4.000 empresas de 12 países. Pindorama faz companhi a para Grécia e Índia no fundo da classe. Não é preciso ser um gênio consultor para saber que as empresas locais são mal geridas. As patologias corporativas são visíveis e notórias: os intrincados jogos de poder da alta ges tão, a letargia e o permanente estado de confusão mental d os administradores, e o frenesi amalucado dos profissi onais, sempreapagando incêndios criados ou imaginários. A má ges tão vitima consumidores, cidadãos e funcionários. Das pequenas às grandes empresas, das organizações sociais às burocracias e statais, quem conhece por dentro as empresas locais, costuma se p erguntar: como pode tal despautério funcionar? Não deve servir de consolo, mas as empresas locais não estão sozinhas no fundo da classe. Elas têm a companhia d e congêneres indianas, gregas, chinesas e até mesmo suecas e nor te-americanas. Um estudo, conduzido pelos economistas Nick Bloom, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e Joh n Van Reenen, da London School of Economics, no Reino Unido, proc ura iluminar o fundo, o meio e a frente da classe. Revela que maus comportamentos existem em todo lugar, mas a incidên cia em Pindorama está além do tolerável. Os pesquisadores partiram de uma questão antiga: co mo explicar as diferenças de produtividade entre empresas? Economi stas costumam atribuir tais diferenças a uma “caixa preta”, na qu al repousariam as misteriosas “práticas gerenciais”. Administrador es, por sua vez, são hábeis em escrever livros sobre as “melhor es práticas gerenciais”, mas têm incrível dificuldade para prov ar cientificamente que o que propõem realmente gera ef eitos positivos duradouros. Bloom e Van Reenen pesquisaram mais de 4.000 empres as industriais em 12 países, incluindo Pindorama. Para garantir a consistência científica, eles desenvolveram um questionário com 18 práticas gerenciais, agrupadas em três temas: o primeiro tem a é o monitoramento , ou quão bem as empresas acompanham suas próprias atividades e as aperfeiçoam de forma contínua; o se gundo tema é o estabelecimento de metas , ou quão bem as empresas definem seus objetivos e as ações para atingi-los; e o terceiro tema é o sistema de incentivo, ou quão bem as empresas gerenciam seus funcionários, premiando e mantendo aqueles que tem melhor desempenho. Cada prática gerencial foi avaliada a p artir de uma escala de 1 (pior prática) a 5 (melhor prática), po r entrevistadores treinados. Tomando-se o conjunto de 18 práticas, agrupadas nos três temas, os pesquisadores obtiveram índices gerais para os 1 2 países. Na frente da classe, com uma média de 3,3, surgiu os E stados Unidos, a pátria mãe do management . Em seguida, com médias superiores a 3,1, vieram Alemanha, Suécia e Japão. O Brasil fico u no fundo da classe, com uma média de 2,7, pouco a frente da Gré cia, China e Índia. Além de variar entre países, o índice varia entre a s empresas dentro de um mesmo país, o que não deve surpreender . Mesmo os países melhor colocados, como Estados Unidos e Alem anha, têm algumas empresas no fundo da classe, fazendo compan hia para o batalhão de empresas brasileiras e indianas. Mas o que condiciona a qualidade das práticas geren ciais? Bloom e Van Reenen identificaram três fatores. O primeiro f ator é a competição : um mercado mais aberto e competitivo elimina as empresas mais incompetentes e induz a melhoria cont ínua das práticas gerenciais das empresas mais competentes. É o velho e bom darwinismo, aplicado ao mundo dos negócios. O s egundo fator é o controle e a gestão familiar . Empresas que são controladas e gerenciadas por famílias tendem a apresentar piores práticas e pior desempenho, especialmente quando o critério de escolha do primeiro executivo é o de primogenitura, ou seja, o herdeiro do comando é o filho mais velho. O terceiro favor é o grau de internacionalização . Empresas multinacionais e até mesmo empresas domésticas que exportam costumam freqüentar a frent e da classe. Para as empresas, boas práticas gerenciais estão re lacionadas com produtividade, lucratividade e perenidade dos negóc ios. Uma gestão mais avançada também tem reflexos positivos sobre a qualidade de vida dos empregados e até mesmo do con sumo de energia. Os resultados da pesquisa levam a uma conclusão e u ma indagação. A conclusão é que, apesar de Pindorama ter um grand e contingente de firmas no fundão, trazê-las para frente da class e não requer milagres. De fato, as práticas gerenciais avaliadas na pesquisa são simples, conhecidas e consagradas. A indagação é a seguinte: o que estarão ensinando os milhares programas de gr aduação e pós- graduação de administração do país? Para explicar t al mistério, talvez seja necessária uma nova pesquisa. RH negativo Empreendedor inglês destila ironia contra a área de Recursos Humanos. Em foco: a notável capacidade de inventar trabalho para garantir e aumentar o próprio espaço. Luke Johnson é um empreendedor inglês de múltiplos interesses e habilidades. Entre os negócios que dirige, ou dirig iu, encontram- se restaurantes, pizzarias, redes varejistas, o mai or sistema inglês dedicado a cirurgias odontológicas, uma empr esa de recrutamento de pessoal, uma agência de propaganda e design, o Channel 4 e uma empresa de private equity. Além da carteira, aprendeu também a usar a pena. Foi, por oito anos, colunista do Sunday Telegraph. Hoje, publica suas provocações no Financial Times. Em uma coluna publicada em 2008, Johnson destila ma ldades contra a área de Recursos Humanos. A abertura e o trecho i nicial dão o tom do texto: “O brilhante chefão da Avis Robert To wnsend, em seu livro Up the Organisation, sugere despedir todo o departamento de pessoal. De fato, eu reduzi radicalmente o RH em di versas empresas que dirigi, e tudo nos negócios melhorou”. Em seguida, o escriba-empresário consubstancia a su a lógica de ataque. Para ele, a legislação trabalhista, abundan te e complexa, precisa ser cuidada por alguém; leia-se: os gestore s de recursos humanos. Assim, eles se tornam um mal necessário pa ra viabilizar os negócios. Como outras partes da estrutura de ges tão, recursos humanos é mais uma despesa nas costas dos trabalhad ores produtivos. Outras áreas produzem e vendem. Os “amo rfos serviços de apoio apenas consomem”, declara o britânico. Terceirizar tais serviços pode ser uma saída inteli gente. Se os sub-contratados não tiverem bom desempenho, basta s ubstituí-los. O problema, segundo Johnson, é a fascinação que mui tos executivos parecem nutrir pelo RH. O resultado é conhecido: co m estrutura e orçamento para gastar, a área expande seu trabalho e gera um espiral movido pela criação de necessidades e o des envolvimento de sistemas. Então, consultores são contratados para criticar os sistemas existentes (ou a falta deles), especialistas são tr azidos para desenvolver soluções complexas para problemas inexi stentes e o quadro de pessoal é ampliado para dar conta do trab alho inventado. Somam-se meses de reuniões e workshops, a gerar mais reuniões e mais workshops. Com o passar do tempo, uma gigantesca parafernália se instala, em nome das mais modernas práticas gerenciais. Para promovê-las e disseminá-las, pode- se contar com uma extensa rede externa de consultores de panacéia s, especialistas em receitas mágicas, organizadores de eventos surreais, professores da ciência das brisas e vento s e editores de publicações de auto-ajuda. Aparentemente, as primeiras empresas a embarcar nas sucessivas ondas de novidades de RH usufruem os benefícios do pioneirismo. Não em termos de melhoria na gestão, mas em duvidos os prêmios e garantia de fotos de seus sorridentes executivos na s revistas especializadas. Johnson observa que os executivos conhecem o poder do RH. Afinal, a área controla avaliações de desempenho, salários e bônus, e pode influenciar promoções, demissões e mudanças na estrutura organizacional. Enfrentá-la pode ser politicamente arriscado, especialmente para alpinistas ambiciosos, a investi r suor e sangue na escalada da pirâmide organizacional. Por outro lado, cultivar uma política de “boa vizinhança” e seguir as ondas pode embalar docemente a ascensão.A provocação do mordaz Johnson pode facilmente ser ampliada. Gerar burocracia inútil, com o objetivo de garantir o emprego ou ampliar o espaço, não é privilégio de RH. Profissio nais de tecnologia de informação, de marketing e comunicaçã o são também habilíssimos em justificar a sua própria existência e tem habilidades especiais de crescimento e multiplicaçã o. Entretanto, há de se reconhecer que o fenômeno ocor re em toda a pirâmide organizacional. Na base, grupos organizado s e sindicatos fazem o que podem para garantir seu espaço, seja ou não legítimo. O meio da pirâmide, ocupado por profissionais quali ficados e gerentes, depois de sofrer por anos com reengenhari as e downsizings, adquiriu notável capacidade de defesa, que alimenta a propensão ao inchaço. O topo, mais escassamente p ovoado que as bases, sempre operou, e continua operando, por regr as próprias, geralmente orientadas a preservar seus ocupantes. Johnson deposita esperanças na reversão do quadro e conômico. Para ele, os períodos de expansão econômica, como o que vivemos nos últimos anos, facilitam o crescimento da burocracia e o inchaço das áreas de apoio. Entretanto, quando a atividade econômica desacelera, as empresas são obrigadas e se livrar d os excessos. Leia-se: cortar os gordurosos quadros de RH e seus mirabolantes sistemas. Será? Clonagem arriscada Na pátria-mãe do management , avança a crítica contra o ensino e a pesquisa em Administração. Enquanto isso, Pindorama emula práticas anacrônicas. Analisada a superfície, o campo da Administração de Empresas é um grande sucesso. Nos Estados Unidos, pátria-mãe do management , os indicadores são invejáveis. Em 1975, existiam 35.75 8 programas de MBA. Em 2.000, o número havia subido para 112.258. A demanda por conhecimento na área fez florescer um ramo da indús tria editorial, com livros e revistas especializados. A Harvard Business Review, título mais popular do gênero, tem uma circulação estimada de 500.000 exemplares, sendo 50 % fora dos Estados Unidos. Com a globalização, cresceram també m as empresas de consultoria e os programas de educação executiva , um filão lucrativo para as escolas de negócios. Em paralelo, surgiu uma vigorosa comunidade acadêmica, voltada para o desen volvimento do conhecimento no campo. A Academy of Management, pri ncipal organização, conta, hoje, com quase 18.000 membros, e suas revistas científicas estão entre as mais citadas no meio. Nas últimas décadas, o modelo norte-americano ganho u o mundo. A sigla MBA passou a ser vendida como passaporte para o sucesso profissional nas mais diversas latitudes. Os livros de pop- management e os gurus da gestão cruzaram oceanos, encontraram platéias dóceis e fascinadas, e produziram clones l ocais. Até mesmo o modelo de organização científica foi export ado. Existe, hoje, uma European Academy of Management, uma Asian Academy of Management e até uma Ibero-american Academy of Mana gement. Curiosamente, não há encontro científico sério que não discuta a crise no campo. Primeiro, veio o ilustríssimo Henry Mintzberg, a desancar o modelo MBA, acusando-o de formar atores perigosos, capazes de causar grandes prejuízos às empresas. De pois, vieram Jeffrey Pfeffer e Christina T. Fong, a sugerir que os programas de MBA significavam mais uma interrupção de carreir a do que um impulso na carreira. Seguiram-se críticas à comunid ade científica e sua forte tendência a torre de marfim, auto-centr ada, incapaz de produzir pesquisa relevante para a prática, e ig norada pelos executivos. Em um ensaio publicado no Academy of Management Journal , Rita G. McGrath, da Columbia University, admite e disseca a crise. Segundo a pesquisadora, o sistema criou e instituci onalizou práticas que se tornaram anacrônicas. A crise é con firmada pelo aumento das críticas, pela perda de prestígio dos p rogramas de MBA e pela crescente percepção de que a pesquisa no campo tende a ser inútil para a prática gerencial. Pindorama, entre outras nações, também mimetizou o modelo em crise, com adaptações e distorções. Nos anos 1990, por aqui explodiu o número de programas de Administração de Empresas. A qualidade, como era esperado, não acompanhou a quan tidade. Nas escolas-hotel, preocupadas em extrair a máxima ocup ação de suas salas de aula, os professores são contratados em re gime precário e induzidos a longas jornadas, em troca de pequenos salários. Sorte similar tiveram os programas de MBA. A sigla foi tão usada e abusada que perdeu o sentido original; transformo u-se em um contrato de compra de diploma a prestação: uns fing em que aprendem, outros fingem que ensinam, algumas moedas trocam de mãos e a vida segue seu curso. Enquanto isso, a academia local, como outras, tenta simular os vizinhos do norte. A cada ano, são gerados milhares de artigos de duvidoso rigor e improvável utilidade. Aqui como lá , críticos há, geralmente entre os mais experientes. Aqui como lá, também não faltam bons propósitos e inovações. Aqui como lá, e ntretanto, mantém o sistema uma anacrônica malha de práticas e processos, alimentada pelo baixo clero burocrático e por outra s tantas almas, amantes do status-quo . De seu lado, nem sempre atendidas pelas instituições de ensino, as empresas ensaiam, com resultados heterogêneos, soluções para suas demandas de treina mento e desenvolvimento: criam universidades corporativas e contratam pequenas empresas e profissionais autônomos. Qual o futuro das escolas de negócios? McGrath e co legas sugerem medidas práticas para mudar o quadro, tais como atr air para as escolas professores de tempo parcial, com experiênc ia executiva, incentivar a pesquisa aplicada, desenvolver program as mais curtos e afinados com as demandas dos estudantes e das emp resas, e aproximar a pesquisa do ensino. Lá como cá, motivos para mudar não faltam. Porém, os daqui são mais prementes. Pin dorama permanece um rincão mal gerido, suas organizações d e todos os naipes a desperdiçar recursos e perder oportunidade s. Os primeiros 50 anos da Administração de Empresas no p aís não estiveram à altura das necessidades. Talvez os próx imos possam ser um pouco melhores. Salsicheiros e pasteleiros Em um texto injurioso, o escriba utiliza uma metáfo ra gastronômica para descrever o pálido estado das coi sas da geração de conhecimento sobre gestão. O mês de outubro tem lugar reservado na agenda cien tífica: é o mês de distribuição do conhecido prêmio Ig Nobel, u ma paródia do prêmio Nobel. A premiação é organizada pela revista Annals of Improbable Research e apresentada em uma cerimônia em Harvard, nos Estados Unidos. Em 2008, dois brasileiros receb eram a duvidosa láurea, por seus estudos sobre o impacto d os tatus nas escavações arqueológicas. Merecido! A área de gestã o nunca recebeu um prêmio Ig Nobel, o que é uma grande inju stiça, dada a quantidade de inutilidades curiosas produzidas pelo campo. Hoje, a pesquisa científica em gestão é uma ativida de globalizada, organizada na forma de uma grande e co mplexa linha de montagem. Curiosamente, este sofisticado sistema produtivo, freqüentemente movido por recursos públicos, produz apenas para si mesmo. Funciona como uma grande fábrica de salsi chas, gerida por doutores salsicheiros, que produzem suas tripas recheadas nas mais variadas qualidades, mas sempre para consumo p róprio. O Sistema Internacional de Salsichas (SIS) se organ izou a partir dos Estados Unidos e continua sendo dominado pelos ianques (sempre eles!). Três componentes dominam o modelo: os centros de pesquisa, sediados nas escolas de negócios, os even tos acadêmicos e as revistas científicas. Nos centros de pesquisa trabalham os PhDs. São tipo s sofisticados, que zelam pelos mais rigorosos método s de produção de salsichas.De tempos em tempos, eles selecionam noviços, que serão socializados nas artes e artimanhas da produç ão de salsichas. Formados, eles darão continuidade aos ri tuais e tradições do métier . Quando o sol dá as caras e a temperatura se torna m ais amena, os doutores salsicheiros internacionais se deslocam pa ra os mais aprazíveis locais do planeta, hospedam-se em bons h otéis e apresentam orgulhosos aos colegas e admiradores, su as mais belas criações. Nestas ocasiões, bebem, dançam e, apresen tando-se a ocasião, cometem adultério. O principal objetivo de vida dos doutores salsichei ros é revelar ao mundo suas salsichas científicas, o que acontece nos principais periódicos acadêmicos. Tais periódicos, sabe-se bem, raramente são lidos. De fato, nem mesmo os próprios doutores salsicheiros costumam ler estes volumosos e impenet ráveis compêndios. Porém, isso é de importância menor, já que o que movimenta as carreiras dos doutores salsicheiros sã o as publicações, não a utilidade de suas idéias. Enquanto isso, o mundo real das empresas segue seu ritmo enfurecido de mudanças, algumas substantivas e radi cais, outras aparentes ou efêmeras. Como os doutores salsicheiro s não lhes atendem as necessidades de conhecimento e análise, recorre-se a um outro oráculo, formado pelos mestres pasteleiros . Os mestres pasteleiros são diferentes dos doutores salsicheiros. Eles não se prendem a questões de rigor e desconhec em métodos científicos. Gostam mesmo é de falar de sua experiê ncia prática, nem sempre comprovada, e de suas maravilhosas poçõe s mágicas, capazes de curar qualquer mal corporativo. O produt o principal dos mestres pasteleiros é o pastel de vento, que é oferecido na forma de palestras, livros ou artigos em revista de grande circulação. A falta de recheio é amplamente compens ada com simpatia, pirotecnia e obviedades. O sucesso dos me stres pasteleiros foi tanto que, à semelhança do Sistema Internacional de Salsichas (SIS), criou-se também um Sistema Inte rnacional de Pastéis (SIP), com seus gurus, congressos, revistas e livros. Pindorama, nos últimos anos, produziu clones dos do is sistemas. Temos tanto um Sistema Nacional de Salsichas (SNS) quanto um Sistema Nacional de Pastéis (SNP). Nossos doutores salsicheiros desenvolvem suas salsichas nas nossas melhores univ ersidades, formam noviços e encontram-se anualmente, a beira-m ar ou no campo, para trocar receitas e dançar ao som de New York, New York. A produção de salsichas é acompanhada com cui dado nos nossos mais afamados templos do saber. O foco é a p rodutividade. Para aumentar a produção, empregam-se as mais varia das artimanhas. Enquanto isso, fora das torres de marfi m, os mestres pasteleiros espalham palestras motivacionais e técn icas infalíveis de gestão. Eventualmente, um doutor sals icheiro torna- se mestre pasteleiro ou um mestre pasteleiro entra para a confraria dos doutores salsicheiros. E, por que não ? Nota : o escriba reconhece que a metáfora pode ser consi derada ofensiva e conta com a compreensão com dos verdadei ros produtores de salsichas e pastéis (mesmo os de vento), do tipo utilizado para alimentação. Leituras fugazes No próximo verão, esqueça os livros populares de ge stão e suas receitas de pedra filosofal. É melhor ocupar com a mente com diversão de qualidade que entupi-la com pseudo-ciên cia. In Search of Excellence (Vencendo a Crise, no Brasil) é um dos mais populares livros de gestão de todos os tempos. No final da década de 1970, a consultoria McKinsey havia lançad o dois grandes projetos de pesquisa. O primeiro e mais importante foi alocado ao escritório de Nova Iorque e teve como tema estratég ia. O segundo projeto, o primo pobre, foi destinado ao escritório de São Francisco e teve como tema estrutura e pessoas. Curiosamente, foi este projeto de segunda classe qu e entraria para a posteridade. Thomas J. Peters e Robert H. Wa terman Jr., os consultores responsáveis, não tinham teoria ou mode lo em mente, mas contaram com um orçamento generoso para viajar pelo mundo e conversar com executivos. Os registros dos dois consultores teriam terminado em um arquivo morto, não fosse uma solicitação para que os result ados fossem apresentados para a Siemens. Consta que Peters prod uziu um massacre de 700 slides que durou dois dias. Os sobr eviventes ficaram tão impressionados (ou estupefatos), que pr opagaram a fama de Peters de volta para os Estados Unidos, ori ginando uma segunda apresentação para a PepsiCo. Este segundo c ompromisso fez com que Peters sintetizasse os resultados da pesqui sa em oito tópicos, supostamente as condições responsáveis pel o sucesso das melhores empresas: orientação para ação, proximidad e com o consumidor, empreendedorismo, foco nas pessoas, foc o na geração de valor, conhecimento do negócio, estrutura enxuta e combinação astuta entre centralização e autonomia. Lançado como livro em um momento em que a auto-esti ma norte- americana andava em baixa, devido ao avanço dos pro dutos japoneses, In Search of Excellence encontrou um público ansioso por ouvir que a América ainda tinha grandes empresa s. O livro foi traduzido em dezenas de idiomas e vendeu milhões de cópias. Entretanto, o tempo encarregou-se de mostrar que as companhias excelentes não eram tão excelentes e que a receita não era infalível. De fato, várias empresas citadas enfrent aram dificuldades financeiras, o que levou alguns crític os a apontar a falta de rigor científico da obra. Em 2001, surgiu um rival para In Search of Excellence. Em Good to Great (Empresas Feitas para Vencer, no Brasil), o autor J im Collins imitou e aperfeiçoou a pseudo-ciência de Pe ters e Waterman, atingindo sucesso comparável. Em seu “est udo”, Collins identificou 11 organizações que haviam conseguido p assar de boas empresas para grandes empresas, espécimes excepcion ais da fauna corporativa. Para o autor, estas 11 grandes empresa s exibiam traços comuns, relacionados a liderança, gestão de talentos, tomada de decisão, foco e visão. Para convencer as mentes mais exatas, Collins provou que todas elas haviam experi mentado 15 anos de desempenho excepcional no mercado de ações. Agora, nos chegam dois estudos, publicados na revis ta acadêmica Academy of Management Perspectives, que analisam os métodos e as conclusões de Collins. O primeiro estudo foi conduz ido por Bruce G. Resnick e Timothy L. Smunt, da Wake Forest Unive rsity; o segundo estudo foi conduzido por Bruce Niendorf e K ristine Beck, da University of Wisconsin. A conclusão é contunden te, porém não é surpreendente. O método usado por Collins não é s ustentado por uma análise criteriosa do desempenho das empresas, ou seja, as “11 grandes” não são melhores do que seus pares. Va le registrar que no seleto grupo estavam a cadeia Circuit City, concordatária desde novembro de 2008, e a Fannie Mae, uma das pro tagonistas da crise imobiliária atual. De fato, há mais em comum entre In Search of Excellence e Good to Great, além de venderem milhões de exemplares e adornarem as estantes de executivos em todo o Planeta. Ambos par ecem estudos científicos, mas não são. Ambos sugerem receitas ce rtas para o sucesso, porém seus resultados não são generalizáve is. Ora, a lógica de produção e venda de best-sellers de gestão é conhecida: uma idéia sedutora, embalada por uma red ação charmosa, algum senso comum e profusão de dados. Difícil mesm o é entender o comportamento de centenas de executivos, que adquir em tiragens inteiras para distribuir a seus liderados, e profes sores, que usam os duvidosos volumes em suas aulas. Neste verão, se o prezado leitor foi presenteado co m um best- seller de gestão, sugere-se enterrá-lo a sete palmos e uti lizar o tempo de lazer com boa literatura de entretenimento . Aliás, não há escassezde bons títulos de ficção. É melhor ocu par com a mente com diversão de qualidade que entupi-la com p seudo-ciência e idéias imperfeitas. O futuro do management Distantes das grandes ondas de novidades da gestão empresarial, os monges de New Skete desenvolveram uma abordagem revolucionária para treinamento e desenvolvimento. A gestão de empresas é, ao mesmo tempo, um campo ci entífico e uma atividade prática. O campo científico é habitado po r pesquisadores apaixonados por teorias de notória el egância e ínfima utilidade. A prática é dominada por profissi onais fascinados por técnicas de apelo fácil e eficácia p ouca. A década passada foi pródiga em novidades para as duas tribo s. Porém, pouca coisa sobreviveu à troca dos noves por zeros. No vazio instalado pelo novo milênio, talvez seja o momento para as abordagens cross-over, que trazem conhecimentos e técnicas de outras áreas e às adaptam ao universo corporativo. Se o prezado leitor está entre os devotos de Peter Drucker, não perde as palestras dos curandeiros internacionais e de seus clones locais, busca nos grandes líderes empresaria is modelos para a sua carreira e acredita que as empresas pode m mudar o mundo, então uma leitura recomendável para este fin al de verão talvez seja “How to be your dog’s best friend”, esc rito pelos monges de New Skete. Bem estruturada e escrita em p rosa fácil, a obra vem particularmente de encontro às necessidade s dos gestores de recursos humanos de grandes empresas. Os livros e vídeos dos monges de New Skete já venderam centenas de milhare s de exemplares e os autores vêm recebendo reconheciment o internacional. Sua abordagem para o treinamento e o desenvolvimento, refinada por décadas de árduo trab alho fundamenta-se em uma sólida filosofia, segundo a qu al “o entendimento é a chave para a comunicação, a compai xão e a comunhão”. O volume supra citado trata, em mais de 300 páginas , de temas clássicos no campo: seleção, análise de pedigree, treinamento, uso adequado de incentivo e disciplina, e qualidade de vida. A leitura certamente inspirara os leitores. O conceit o de pedigree, por exemplo, amplia consideravelmente a idéia de curriculum vitae , pois inclui informações genéticas, dados sobre antepassados e um amplo rol de certificados de apti dão física e mental. O livro é bem vindo também pelos alertas co ntra certas práticas temerárias, como a aquisição de filhotes e m lojas. Segundo os autores, não há garantias para a procedê ncia de tais filhotes, que são produzidos em verdadeiras fábrica s e tratados como gado de corte. Eles seriam, deduz-se, os equiv alentes de recém-formados vindos de escolas fast-food de Administração ou de MBAs, flagelos que grassam aqui como n’outras plaga s. No capítulo oito, dedicado ao treinamento, merecem destaque as aulas de obediência. Os autores chamam a atenção pa ra importância da escolha de um bom treinador e para as atividades de counseling. Os capítulos seguintes tratam dos incentivos e da disciplina, uma questão ainda tabu, mas que, segund o os monges, deve ser encarada. A polêmica é marcada por posiçõe s contraditórias: alguns especialistas tomam como pre missa que os métodos de treinamento devem compreender somente re forço positivo; outros, no entanto, advogam que, eventual mente, o uso da força pode constituir uma abordagem razoável e a dequada, harmonizando-se com a dinâmica natural. Assim como em alcatéias e matilhas o macho alfa disciplina, pela força, os de mais membros da comunidade, em centrais de atendimento e mesas d e operação, um capataz robusto ou um diretor autoritário podem gar antir o atendimento das metas corporativas. Para os gestores que enfrentam problemas crônicos com o ambiente organizacional, mal conseguem gerir os conflitos de sua equipe e tem como desafio incluir a organização na lista das “melhores empresas para se trabalhar”, a sexta parte do livro – com o título de “Problemas” – certamente abrirá trilhas. O capítulo 43, por exemplo, traz uma interessante tipologia de com portamentos agressivos, incluindo a agressão por medo, a agress ão territorial, a agressão entre machos e a agressão g enética e agressão treinada. A leitura deveria ser obrigatóri a para aqueles que trabalham em diretorias de grandes empresas ind ustriais. Além de bons conselhos e fotografias elucidativas, o livro traz histórias exemplares, como a do Chow Chow Boris e a do Rottweiler Sasha. Muito leitores certamente se identificarão c om esses simpáticos personagens. Em tempo: os monges de New Skete são especializados em pastores alemães. Porém, suas téc nicas se aplicam a outras raças e certamente seduzirão gesto res interessados em transformar seus colaboradores em u ma matilha corporativa bem disciplinada e produtiva. Muitos le itores provavelmente reconhecerão no livro práticas há mui to disseminadas em suas empresas. Revolução química Estão em desenvolvimento centenas de drogas para a melhoria da cognição. As que vingarem poderão revolucionar a ge stão empresarial... ou não. Deu no The Economist: “Preparem-se para drogas que vão melhorar a memória, a concentração e o aprendizado”. Se os ing leses escreveram, deve ser coisa séria. A linha lógica é irretocável. As fontes são irrepreensíveis. Há milhares de anos, buscamos substâncias para melhorar nossa mente e nossa resis tência. Tentamos de tudo: folhas, raízes e qualquer coisa q ue pudesse ser mastigada, cheirada ou injetada. No século passado, cadeias produtivas complexas se organizaram em torno das ma is diversas substâncias legais e ilegais. Na ponta da produção: a motivação das grandes margens de lucro. Na ponta do consumo: o inconformismo com as restrições da mente humana. Agora, além dos guerrilheiros colombianos, das gang ues mexicanas e dos senhores feudais afegãos, os grandes laborató rios farmacêuticos também prometem nos liberar de nossos restritos limites. As novas drogas atendem pelo nome de cognition enhancers , ou drogas que melhoram a cognição. Segundo The Economist, as novas drogas atuam nos processos neur ais relacionados a atividades mentais tais como atenção , percepção, aprendizado, memória, linguagem, planejamento e tom ada de decisão. Citando fontes científicas, a revista brit ânica revela que pesquisadores estão trabalhando em mais de 600 drogas para o tratamento de distúrbios neurológicos. Nem todas ch egarão aos estágios finais de desenvolvimento e de comercializ ação, mas é razoável supor que um bom número delas chegará nos próximos anos às farmácias, trazendo inegáveis benefícios para os doentes e despertando a cobiça dos não doentes. Oficialmente, elas estão sendo desenvolvidas para t ratar os efeitos do Mal de Alzheimer, os Distúrbios de Défic it de Atenção, o Mal de Parkinson e a esquizofrenia. Entretanto, é certo que o uso não irá se limitar aos doentes. Como em outros casos, a mão invisível do mercado, com a providencial ajuda de g erentes de produto, unirá a “boa vontade” dos grandes laborató rios com a voracidade consumista das hordas populares. Ainda que a nova “revolução química” seja primariam ente focada nos consumidores individuais, os grandes laboratóri os provavelmente encontrarão nas aplicações corporativ as um valioso nicho de mercado. O impacto das novas drogas sobre a vida nas empresas não é difícil de imaginar. Dentro de 10 ou 15 anos, as gerências de recursos humanos serão ocupadas majori tariamente por médicos. Eles distribuirão ansiolíticos fartamente a todos os executivos, facilitando jornadas diárias de 16 hora s, sem ansiedade ou estresse. Medicamentos de efeito diret o sobre os neurotransmissores serão usados para aguçar o foco e a concentração, características inexistentes nas dire torias das empresas de Pindorama, o que facilitará a realização de atividades hoje raras, como o planejamento estratég ico. Executivos indecisos e gerentes inertes receberão d rogas especialmente projetadas para aguçar sua capacidade de tomar decisões. Procurados por empresas estatais e órgãos públicos, fabricantes se mobilizarão para atender gigantescos pedidos, em regime de urgência. Além de impactos sobre os indivíduos e sobre a gest ão das empresas, as novas drogas provocarão grandes mudanç as sobre as escolas de negócios e as empresas de consultoria. P ara tentar sobreviver, elas estabelecerão parcerias com os gra ndes laboratórios e com as escolas de medicina. As fábri cas de MBAs perderão pouco a pouco sua função e as aulas serão substituídas por pílulas de supressão da criatividade para geren tes de produção, drágeas de embotamento ético para especia listas em finanças, e xaropes de indução de bipolaridade para executivos de marketing. As aulas de recursos humanos serão subst ituídas, com vantagens, por tratamentos com Florais de Bach. Igu almente ameaçadas, as empresas de consultoria tentarão subs tituir seus administradores por médicos e psiquiatras. Clientes depressivos, que se acham vítimas eternas do mercado e do govern o, receberão poderosos estimulantes. Empresas envolvidas no pass ado em grandes falcatruas receberão drogas para inibição de memóri as ruins, tornando seus funcionários mais felizes e produtivo s. Paradoxalmente, as empresas-cliente concluirão que não precisam mais de consultores ou de MBAs, mas apenas de bons convênios farmacêuticos. Com isso, as fábricas de atores e a indústria do conselho entrarão em depressão. Neste caso, não hav erá droga capaz de salvá-las. Nota do autor: este capítulo não foi escrito sob o efeito de drogas de melhoria da cognição. Portanto, este escr iba não se responsabiliza pela qualidade das previsões aqui re gistradas, fruto de sinapses aleatórias e neurotransmissores d escontrolados. Revolución Chegou nossa hora! Vamos aproveitar a erupção de latinidad e seqüestrar de vez os arreios do destino. Nacionaliz emos as escolas de administração! “Desde el Amazonas brasileño nos ha llegado un mens aje. El eco viene de los Andes y la Patagonia. De las aguas del Caribe los vientos la traen. Lo repiten los tambores en Nortea mérica y veloces correos atraviesan Argentina, Uruguay, Para guay y Chile. En Bolivia sale la voz de las minas, la misma que b aja de las alturas de Machu Picchu. En Ecuador, Colombia y Ven ezuela lo cantan. Nicaragua lo hace poema y es serio manifies to en El Salvador, Honduras, Guatemala y Panamá. Las Antilla s lo bailan. La palabra sale del Amazonas y se echa a andar por toda la América y en todos los pueblos se preparan largos v iajes, como esos que se emprenden desde el dolor a la esperanza . Y de todos los continentes del continente Americano, de todos los mundos que lo pueblan, hombres y mujeres se echan a andar.” É isso, leitores. Fidel, Chavez e Morales estão a d ar o tom. Chegou a hora de tirar do baú os discos da Mercedez Soza e Geraldo Vandré. Ponham a girar o prato da velha vit rola e ignorem a chiadeira. Apurem novamente os ouvidos para os me lodiosos sopros andinos. Ressuscitem o Tarancón, o Raíces de América e o Francisco Buarque. Não esqueçam de desfraldar o vel ho poste do Che, quiçá perdido n’algum canto poeirento da estan te, entre os tomos de Cortázar, Galeano, Garcia Marques e Neruda . E preparem o triunfal retorno das chinelas franciscanas e das ba tas indianas (agora, naturalmente, todas elas made in China). Não podemos ficar para trás e perder novamente o bo nde da história. Caracas, La Paz e Quito deram o exemplo: a ordem é estatizar. Mas, não! O petróleo já é nosso e o gás também. Controle dos meios de produção? Coisa do passado. A verdadeira revolución está nos corações e mentes. Estamos na Era do Conhecimento. Então, vamos nacionalizar as escolas de Administração. Isso mesmo. Pindorama já conta aos m ilhares os cursos de gestão. Os MBAs, fascínio dos ingênuos e incautos, se espalharam do Oiapoque ao Chuí. É a hora para criar a GesBras, a grande estatal de gestão brasileira. O momento é esse. Chega de marionetes a serviço de ideologias ianques. Daqui para frente, tudo vai ser diferente. Tomaremos o controle efetivo dos conteúdos e dos métodos. Afina l, é uma questão de soberania. Não podemos mais tolerar o ab uso do jargão alienígena e o domínio das teorias distantes da nos sa realidade. Doravante, as aulas serão proferidas na língua pátr ia. Basta de benchmarking, Masters in Business Administration , mentoring, coaching e outros anglicismos de efeito pirotécnico. Revogar emos todas as panacéias e modas gerenciais. Será termina ntemente proibido citar casos da Disney, da Procter&Gamble, da General Elektric e do Wal-Mart. Leitores da Harvard Busines s Review serão enquadrados. Admiradores de Michael Porter e Jack W elch serão reeducados em Sierra Maestra e em Chiapas. Vamos cu ltuar os heróis da terra e as grandes marcas locais, tais co mo ... bem, com o tempo vamos achar alguma coisa. Instituiremos a Comandancia General del Ejército de Liberación Organizacional . Baniremos os Druckers e os Kotlers, os Fords e os Sloans. Promoveremos os autênticos líderes nativos. Estudaremos os feitos de Bolívar, Zapata e Zumbi. Do exterior, apenas a nata da intelligentsia Bolchevique. Melhores práticas de organização do trabalho? Inspiraremos-nos nas fazendas coletiva s chinesas. Comunicação em equipes de alta performance? Recorre remos à práxis gramsciniana. Governança corporativa? Assimilaremos as lições históricas da nomemklatura soviética. Change management? Estudaremos as lições do Sub-comandante Marcos, o h erói mascarado das serras mexicanas. Convergência estratégica? Mir aremos a vasta obra literária dos grandes líderes norte-coreanos. Sob a liderança de uma sagaz vanguarda revolucionár ia, transformaremos radicalmente os métodos e as prátic as corporativas. O quéchua e o tupi farão florescer um novo jargão pós-monetarista. Contra as nefastas forças do neo-l iberalismo e da qualidade total, promovermos reflexões estratégi cas em Machu Picchu e no Titicaca. Ali, na terra dos mais altivo s condores, os executivos do futuro se encontrarão para discutir r umos e dialéticas. Avançaremos com o timoneiro glauberiano , que há mais de três décadas nos exortava: “Em Eldorado não existe fome, nem desemprego, nem miséria, nem violência, nem feiúra. Nós somos um povo belo, forte e viril como nossos índios ... Abr amos trilhas nas florestas, fundemos mil cidades onde antes eram países selvagens! E pontes entre os rios, estradas cortand o desertos, máquinas arrancando o minério da terra!” Avante! Tributos em fúria Pesquisa revela retrato dos impostos incidentes sob re as empresas em 178 países e sugere caminhos para o aperfeiçoame nto dos sistemas de tributação. O mundo corporativo é cheio de palavras-fetiche, às quais costuma se creditar poderes sobrenaturais. É o caso do conc eito de competitividade. Se uma empresa for competitiva, in vestidores disputarão suas ações, clientes procurarão seus ser viços e executivos lhes oferecerão seus préstimos. Em suma: a vida lhe sorrirá. Porém, se uma empresa não for competitiva, poderá ser tragada para o lado escuro do mercado, declinar e d esaparecer nas trevas. De onde vem esse conceito mágico? Segundo os bons manuais do ramo, a competitividade é fruto de três conjuntos d e fatores: primeiro, os fatores internos à empresa, tais como a estratégia, a gestão, a capacidade de produção, a tecnologia e os quadros profissionais; segundo, os fatores estruturais, tai s como a existência de concorrência e o nível de maturidade do mercado; e terceiro, os fatores sistêmicos, tais como o contex to econômico e a infra-estruturado país. Conclusão número um: par a que uma empresa seja competitiva, não basta ser excelente n os fatores internos; é preciso contar com os bons ventos do am biente empresarial e econômico. Assim é que muitas empresas esmeram-se, vertem suor e sangue. Porém, sofrem as conseqüências de se encontrarem em um ambiente econômico desfavorável, que lhes corrói a competiti vidade com impostos elevados, estradas intransitáveis e juros impagáveis. Outras, mais afortunadas, assustariam o observador mais cuidadoso com suas temerárias práticas de gestão. Entretanto, repousam em um ambiente favorável, tem acesso a capital e não d ependem de portos e aeroportos congestionados . Daí, mesmo con duzidas com proverbial incompetência, geram lucros com facilida de. Conclusão número dois: o mundo corporativo é, de fato, injust o! Bem, como a competitividade não depende somente das empresas, então melhorar o ambiente de negócios deve ser uma missão coletiva. Melhor o ambiente de negócios, mais compe titivas serão as empresas, o que é melhor para elas e, portanto, melhor para todos. Patriótico, não? Pois bem, o fato é que o am biente econômico brasileiro vem se tornando, gradualmente, mais ameno, com a estabilidade econômica e a elevação do poder de compra. No entanto, entre alguns outros, um tópico continua se ndo objeto de preocupação: a questão dos impostos. Em sua carta de número 305, o IEDI – Instituto de E studos para o Desenvolvimento Industrial – sumariza a pesquisa Paying Taxes 2008: The Global Picture, realizada pelo Banco Mundial em associação com a consultoria PricewaterhouseCoopers . O estudo envolveu 178 países, avaliando três indicadores pri ncipais: o peso da carga tributária, o número de pagamentos re alizados e as horas despendidas para cumprir os requisitos da leg islação tributária. Os três indicadores, combinados, gerara m um ranking . Entre os dez países melhor colocados, encontram-se Cingapura, Hong Kong, Irlanda e Nova Zelândia. Entre os dez úl timos colocados, encontram-se a Venezuela, a Bolívia, a B ielorússia e a Jamaica. O Brasil, sempre varonil, ocupa uma desabo nadora 137ª. Conclusão número três: podemos melhorar muito. A disparidade entre países é notável: em Hong Kong, as empresas pagam apenas quatro impostos, com alíquotas baixas. Na Bielorússia, há 11 impostos, sendo dez pagos mensal mente e um trimestralmente, totalizando 124 pagamentos por ano . Na Síria, os formulários devem se entregues pessoalmente ao fisc o, para verificação pelos funcionários. Na Suécia, em contr apartida, tudo pode ser feito por um formulário único, on-line. O estudo conclui que seria vantajoso para os govern os e para as empresas simplificar os sistemas tributários e redu zir a carga de impostos. A arrecadação aumentaria se o número de tributos fosse reduzido e se o sistema fosse racionalizado e infor matizado. De fato, esta é a tendência: nos últimos três anos, 65 países aperfeiçoaram seus sistemas tributários, sendo a re dução de alíquotas de imposto de renda das empresas a reform a mais freqüente. Resultado, a tributação total caiu, poré m a arrecadação aumentou. Este e outros estudos indicam tendências e caminhos para mudanças. A equação a ser resolvida não é trivial. Entretanto, na raiz das dificuldades para mudar o sistema não estã o questões técnicas, mas um amálgama indigesto que reúne desin teresse político, múltiplas incompetências, inércia burocrá tica e a ação (ou falta de ação) de grupos de interesse. Segundo a frase atribuída a Benjamim Franklin, não se pode ter cert eza de nada nesta vida, exceto a morte e os impostos. A morte, por enquanto, não é negociável. Os impostos podem, ao menos, sere m racionalizados. Corrida de obstáculos Pesquisa revela as barreiras enfrentadas pelas empr esas exportadoras brasileiras. No alvo de empresários e executivos está a inoperância e a ineficácia do governo. Comércio internacional é tema constante na agenda c orporativa. Exportações criam fontes de receitas, viabilizam a expansão dos negócios e ajudam a fortalecer a imagem e a marca. O comércio internacional é também tema estratégico na agenda d o poder público. Alterações nas regras que governam as tran sações entre países podem estimular o desenvolvimento e gerar ri quezas. Podem também impactos negativos sobre setores inteiros, c om conseqüências sociais e políticas nefastas. A cobertura da mídia leva a crer que o comércio mun dial já viveu dias mais esperançosos. Segundo o noticiário econôm ico, o fracasso da Rodada de Doha, no final de julho, teri a espalhado ceticismo por todas as latitudes, representando um lamentável revés para o causa do livre comércio. O esforço em questão teve início em 2001, com o objetivo de flexibilizar as r egras de comércio. A reunião de Genebra, ocorrida em julho, tinha uma agenda de 20 pontos. Nada menos do que 18 pontos fo ram vencidos. O desacordo sobre o 19º ponto, relacionado a mecani smos de proteção para agricultores de países em desenvolvim ento, selou o fim do encontro. Ainda que o colapso tenha gerado frustração, o paci ente segue firme. A progressiva liberalização comercial vem fa zendo com que o comércio entre nações cresça a um ritmo superior ao do PIB mundial. O Brasil ainda é um participante modesto. Segundo dados de 2006, da Organização Mundial do Comércio, o Bras il detém uma fatia de 1,1% das exportações de mercadorias (23ª p osição no ranking ) e 0,6% das exportações de serviços (35ª posição n o ranking ). Então, cabe perguntar: que barreiras e dificulda des enfrentam as empresas brasileiras? O que as impede de ter maior presença no comércio mundial. Manoel de Andrade e Silva Reis, professor da FGV-EA ESP e coordenador do Centro de Excelência em Logística e Cadeias de Abastecimento, divulgou uma ampla pesquisa sobre a competitividade de empresas brasileiras. O trabalho compilou percepções de 258 empresas, gerando a identificaçã o dos principais entraves ao aumento das exportações. Para contrapor o tratamento usual do tema, que cost uma refletir interesses políticos e econômicos, o estudo estabel eceu como primeiro passo a identificação de todos os fatores que podem constituir barreiras para a exportação. O levantame nto originou nada menos do que 172 gargalos, organizados em oito categorias gerais: das condições macro-econômicas à atrativida de dos mercados, da qualidade da gestão à estrutura logíst ica, dos sistemas de informação às dificuldades com a legisl ação, e da onisciente burocracia à mal resolvida questão tribu tária. Segundo o coordenador da pesquisa, a identificação dos garg alos é um resultado importante, pois mostra a amplitude da qu estão e sugere que medidas de aperfeiçoamento devem envolver esfor ços coordenados das empresas e do governo. Outra constatação relevante da pesquisa é que as di ficuldades encontradas pelas empresas exportadoras são similar es, independentemente do porte, segmento de atuação, ex periência de exportação ou tipo de carga. Quase todas as empresa s pesquisadas apontaram como principais barreiras à exportação a inoperância ou ineficácia do governo, a dificuldade de oferecer pr eços competitivos (devido à infra-estrutura precária e a burocracia), os tributos excessivos e o anacronismo da legislaçã o. Na outra ponta, entre os fatores que menos afetam as exporta ções, foram identificadas as ineficiências internas e a dificul dade de acesso a recursos financeiros. Em suma, nossos executivos e empresários acreditam que fizeram a lição de casa e que gerenci am empresas competitivas, mas que continuam sendo prejudicados pela má vontade do governo. Haveria nessa percepção uma ausência de senso críti co em relação às próprias limitações e uma certa nostalgia do est ado protetor? Manoel Reis declarou a este escriba que parece estar ainda muito presente na memória empresarial o paternalismo do e stado. Portanto, pode ainda haver “uma expectativa das emp resas de que o governo faça mais por elas, em detrimento das mesma s assumirem que depende mais delas próprias o desempenho”. Por outro lado, solicitado a comparar o Brasil com outros países, o coordenador da pesquisa chama a atenção para a ausência de plan ejamento integrado e para a falta de continuidade das ações voltadas para o estímulo ao comércio exterior em nosso país. Se f alta às nossas empresas um esforço mais incisivo de melhoria da qu alidade de sua própria gestão, falta ao governo implantar diretriz es mais inteligentes e perenes, que facilitem a vida das em presas. Empregos vitalícios Em meio a um mar de empregos precários e incertezas , ainda existem ilhas de estabilidade. Perguntar ofende: de veriam existir? As posições em torno da proteção ao emprego materia lizam-se em um debate em preto e branco. Defensores apontam as van tagens dos vínculos duradouros e postam-se a favor de leis que garantam a estabilidade e coíbam os abusos dos empregadores. C ríticos alinham-se pela flexibilidade e advertem que o emar anhado legal existente prejudica empregadores e empregados. Argu mentam que barreiras para demitir resultam em inibições para c ontratar. Na vida real, prevalecem os tons de cinza. A inform alidade persiste. Para vastas camadas da população, nunca h ouve outra condição. Arranjos quase-informais, operando nas ma rgens da legislação, passaram também a fazer parte da paisag em profissional. No extremo oposto, algumas categorias , invejadas pelas demais, tem amplas garantias e perpetuam vant agens e privilégios. Um passeio pelo mundo revela enorme variedade de co ntextos institucionais e sistemas de proteção. Em todas as latitudes, sistemas mais flexíveis ganham espaço. Entretanto, alguns rincões ainda conservam fartos sistemas de proteção. Temper am-no com robustas doses de ética e comprometimento com o tra balho. Em uma edição do jornal britânico Financial Times , Peter Lorange publicou uma diatribe contra os empregos vitalícios para professores nas escolas de administração: a chamada tenure . Lorange fez doutorado em Harvard, foi professor em Wharton e no MIT e dirigiu por muitos anos o IMD (International Institute for Management Development). O conceito de tenure (na prática, uma garantia de emprego vitalício) tem origens na Idade Média, quando os pr ofessores necessitavam de proteção contra políticos, de forma a garantir liberdade de trabalho e de expressão. Do ponto de v ista das escolas, o sistema traz dois benefícios: atrai jove ns profissionais, que procuram ter o melhor desempenho possível durante o período probatório, e estimula um comprom etimento em longo prazo entre professores e a instituição. Para conquistar tenure, um acadêmico deve provar-se digno, superando um calvário que inclui aulas, pesquisas e atividades administrativas. A condição fundamental, entretanto , é a publicação de artigos em periódicos científicos de primeira linha. O sistema é central nas carreiras acadêmicas nos Estados Unidos, sendo adotado, com variações, em outras par tes do mundo. Nos últimos anos, no entanto, perdeu espaço. Nas es colas de administração, assim como em outras faculdades, o n úmero de posições sem garantira de emprego vem crescendo mai s do que o número de posições com garantia de emprego. Em paralelo, crescem as críticas ao sistema. Lorang e lista duas delas: primeiro, o sistema favorece o individualism o em lugar de trabalhos em parceria, que são essenciais para expl icar os fenômenos empresariais atuais; e segundo, o sistema induz os candidatos a se conformarem ao status-quo e “jogarem para ganhar”, em lugar de correr riscos com temas releva ntes, porém ainda novos. Lorange acredita que acadêmicos devem contribuir para o desenvolvimento do campo continuamente. Port anto, seu desempenho deve ser medido em uma base regular e nã o somente durante o período probatório que antecede a concess ão de estabilidade. Outro antigo crítico do sistema é Russell L. Ackoff , um pioneiro em educação em gestão. Segundo Ackoff, muitos acadê micos se aposentam intelectualmente após conseguir a garanti a de emprego, eles simplesmente param de pensar. Assim, o sistema torna-se uma proteção para a incompetência e para a acomodação. Pindorama reproduz a situação com os tons carregado s. Aqui nos trópicos, a maioria dos professores de gestão tem e mpregos precários, com jornadas longas. Do outro lado da cu rva de graças do destino encontra-se uma casta de eleitos, que pa ssa poucas horas em sala de aula e tem garantia de emprego. De veria retribuir o privilégio com contribuições para o pro gresso científico e para a melhoria da gestão das organiza ções. Na prática, não é o que ocorre. Faz sentido manter o sistema de privilégios? Do pon to de vista dos resultados, não. Remover as proteções tornaria as condições de trabalho uniformemente ruins? Não, se no lugar d os privilégios fosse implementado um sistema de avaliação, que med isse continuamente a contribuição de cada professor e se rvisse de base para a renovação de suas condições de trabalho. As críticas de Lorange e Ackoff se aplicam a profes sores de administração e também a outros profissionais, na a cademia e fora dela. A questão é espinhosa e esbarra em interesses corporativos. No entanto, a história insinua que anacronismos pod em persistir por algum tempo, porém terminam soterrados. PARTE 4: FALANDO MAL DA CRISE A crise e os bodes Será o combalido homo economicus a próxima vítima das convulsões financeiras? O leitor que correr os olhos pelas capas da revista britânica The Economist dos últimos 20 meses terá o desprazer de observar u ma crise sendo anunciada, aliás, sendo repetidamente a nunciada. Vejamos as manchetes: 24 de março de 2007 – “O prob lema com o mercado imobiliário americano”; 22 de setembro de 2 007– “A crise de crédito provocará uma recessão?”; 17 de novembro de 2007 – “A vulnerável economia americana”; 5 de abril de 2008 – “Concertando o mercado financeiro... e o risco de errar”. No seg undo semestre de 2008, começa o mergulho: 20 de setembro, a image m mostra um rodamoinho sugando Wall Street – manchete: “O que v irá a seguir?”; 4 de outubro, a capa traz uma figura huma na, solitária, que observa o abismo à sua frente – manchete: “O mu ndo no limite”. O capitalismo sempre viveu aos trancos e barrancos. A períodos de grande crescimento seguem-se tempos de ajustes, fre qüentemente marcados por recessões. O purgatório iniciado tem c ausas conhecidas e amplamente comentadas: dinheiro aos bo rbotões, vindo da Ásia e do Oriente Médio, apetite por riscos do l ado de cá do Atlântico e controles que não acompanharam a imagin ação dos magos financeiros. Fruto das circunstâncias, a bolha da vez estourou, vitimando pessoas físicas e jurídicas. Como efeito colateral, entupiu as artérias vitais da economia, que provém a força vit al do planeta material: o crédito. Como se não bastasse, dinamito u a etérea base de confiança e fé que sustenta as atividades e conômicas. Acordados de longo sono, os patrões de bancos centr ais ensaiaram titubeante contra-ofensiva. Usaram armas bem conhec idas e outras ainda pouco testadas. O paciente tremeu, gemeu e es boçou alguns sinais vitais. Os familiares acompanham preocupados , alternando estados de desengano e alívio. Enquanto isso, emergentes preparam-se para submergi r, assistindo os bem aventurados picos de otimismos se transforma rem em vales de pessimismo. Diante das lentes e das telas, econo mistas maravilhosos exibem suas teorias voadoras. O que de u errado? O que fez mutuários, investidores e ingênuos de toda classe tomarem decisões insensatas eengrossarem a manada que levo u o mundo às cordas? Das explicações e evocações, uma fila de bodes expi atórios é empurrada cena adentro: primeiro, os vilões especul adores de Wall Street, de olhares circunspetos e gravatas irrepree nsíveis; seguem-lhes os desatentos donos da política monetár ia, acossados, porém ainda cheios de fleugma e perícia; logo atrás vêm os sonolentos legisladores, com ar atônico e retórica evasiva; e os chineses; e os árabes... haja palco para tanto bode . Observando o picadeiro, os nostálgicos entoam o clássico refrão “eu avisei” e taxam o esquisito rebanho de chibarrada neo-liberal . Pudera! Atento à lotação caprina, o colunista David Brooks, do New York Times, quis logo adicionar seu próprio bode. E o fe z com apuro: para Brooks, o culpado da grande celeuma não é outr o senão o próprio homo economicus , o ser mítico da economia, o homem racional e perfeitamente informado que toma decisõe s analíticas para maximizar sua riqueza e minimizar seu esforço. Brooks evoca as máximas do provocador Nassim Nichol as Taleb, professor da Universidade de Nova Iorque e autor de textos visionários sobre a crise atual. Taleb sintetiza al gumas décadas de reconhecimento sobre a racionalidade limitada do homo economicus e advoga que nossos cérebros não são mais capazes d e dar conta da complexidade do ambiente. Os fatos da vida: primeiro, damos mais atenção as i nformações que comprovam o que já sabemos do que aquelas que contr adizem o que achamos; segundo, ao olhar para o futuro, somos mai s influenciados por eventos recentes do que por event os ocorridos há mais tempo; terceiro, gostamos de simplificar e torcer os fatos em torno de uma única causa; e quarto, tendem os a celebrar nossa suposta capacidade de decisão e ação, mesmo q uando os resultados são apenas fruto da sorte. A estes, outr os fatos da vida poderiam ser acrescentados: quinto, seguimos a turba, pois acreditamos que algo é melhor quando muita gente es tá fazendo; sexto, damos maior peso para pequenos ganhos obtido s no curto prazo do que para maiores ganhos obtidos no longo p razo; e sétimo, confiamos excessivamente em nossas próprias previsões. Com tanto viés a turvar as decisões, não é difícil entender a celeuma atual, e fica fácil afirmar que outros abal os virão. Em seu website , Taleb declara: “O meu maior hobby é provocar as pessoas que levam muito a sério a si mesmas e à qua lidade de seu conhecimento, e que não tem coragem de dizer: eu nã o sei...”. Entre economistas e executivos não lhe faltarão alv os. Humores em transe Ao norte, a crise avança e empresas vão à lona. Ao sul, é preciso cautela para evitar que ações defensivas, por parte das empresas, agravem o quadro já desfavorável. Ler manchetes econômicas ameaçava tornar-se uma ati vidade enfadonha. Nunca tantas notícias boas chegaram a ta ntos leitores otimistas por tanto tempo: emprego em alta, inflaçã o sob controle, taxa de juros em baixa, fábricas fabrican do e consumidores consumindo. Finalmente, seguiríamos a ordem natural das coisas, rumo a um destino glorioso. Então, começaram os revezes. Ao contrário das frent es frias, que vêm do sul, as más notícias vieram do norte: dinhei ro em fuga, banqueiros em pânico e executivos de pires na mão. Nosso recém conquistado otimismo relutou, mas acabou se rendend o aos fatos e às fotos. Recolheu-se, contrariado, e deixou que o pessimismo lhe tomasse o lugar nas primeiras páginas. Nos domínios corporativos, até meados de 2008, um c lima de euforia emoldurava decisões sobre estratégias de ex pansão e sobre investimentos. Executivos em frenesi corriam atrás das oportunidades e lutavam como podiam para superar os obstáculos ao crescimento: os gargalos de produção, os atrasos na s entregas dos fornecedores e a falta crônica de recursos humanos capacitados. NO final de 2008, em poucas semanas, o novo humor s e instalou: investimentos foram adiados e projetos de expansão foram paralisados; contratações foram suspensas e planos de demissão começaram a ser articulados. O frenesi executivo se manteve, porém agora orientado para amenizar a queda e mitig ar o prejuízo. Gerenciar empresas em períodos de desaceleração eco nômica não é simples nem agradável. Envolve contrariar interesse s e tomar decisões amargas. As empresas locais – as que sobre viveram às turbulências das últimas décadas – têm ampla experi ência com situações de crise. Durante os anos 1980, elas enfr entaram um longo inverno, que alternou períodos de magras taxa s de crescimento com períodos de recessão. A cada sinal de crise, seus executivos acionavam as alavancas conhecidas: demit iam operários e reprimiam despesas. Nos anos 1990, a abertura de mercado mudou as regra s do jogo. Atônitas, as empresas locais foram ao norte buscar novas caixas de ferramentas. Foi a época áurea das grandes panac éias gerenciais, de muito brilho e pouco efeito. Neófito s, seus executivos trouxeram martelos inadequados para os n ossos pregos e chaves-de-fenda que espanavam nossos parafusos. Mas algo ficou. Para as empresas, a situação atual apresenta peculi aridades. A principal diferença, em relação às situações anteri ores, é que a crise atual chega a empresas que, durante muitos an os, investiram no enxugamento dos quadros e na racionalização dos processos internos. Hoje, elas estão mais sólidas e, supostam ente, mais aptas a enfrentar as dificuldades. Porém, tem menos gordura para cortar. As primeiras vítimas dos cortes de custos são os al vos de praxe: verbas para viagem e treinamento, e atividades cons ideradas não essenciais. Programas de responsabilidade social e patrocínios podem também ser afetados. Outro alvo usual é o cus to das sedes corporativas. Ao longo do tempo, as sedes costumam exibir um comportamento de sanfona: crescem e diminuem ao sab or das pressões internas e dos ventos externos. Em épocas de bonança, elas incham, sob a pressão constante dos executivos pela criação de novas áreas e de novos postos. Quando o horizont e se torna sombrio, áreas inteiras são dizimadas e cabeças são cortadas. Além dessas medidas profiláticas, crises também exi gem decisões estratégicas, sobre quais projetos e investimentos deverão ser paralisados, adiados ou eliminados. Uma decisão foc ada no curto prazo poderá melhorar o fluxo de caixa no ano segui nte, porém impedirá que a empresa aproveite o momento de recup eração que virá após a crise. Paradoxalmente, as ações individuais tomadas para g arantir a sobrevivência em curto prazo têm como efeito colate ral a piora do quadro geral. Ao deixar de investir, as empresas nã o apenas comprometem seu próprio futuro, como também reduzem a atividade econômica no presente, aprofundando a crise e torna ndo sua superação ainda mais difícil para todos. Crises geram movimentos contundentes no ambiente em presarial, com ganhadores e perdedores. As empresas fracas costuma m ser condenadas ao inferno, donde sairão apenas pela ben esse d’algum anjo salvador. As empresas medianas seguem para o p urgatório, onde pagarão suas penas e rezarão pela abertura de uma porta para o andar superior. Às empresas fortes estará reserva do o paraíso. Com disponibilidade de caixa, elas poderão sair ain da mais fortes e maiores da turbulência. Tragédia nórdica A euforia, seguida de catástrofe, vivida pela dista nte e hiper- desenvolvida Islândia, faz refletir sobre a susceti bilidade humana ao consumo inconsequente. Para o apreciador de estereótipos, a Islândia se re sume à cantora Björk e gelo, muito gelo. Entretanto, o país situad o no extremo norte do oceano Atlântico tem uma história milenar, cultura marcante e uma das sociedades mais desenvolvidas do planeta. Infelizmente, a Islândia está sendo palco de uma hi stória coletiva de horror,relacionada à crise financeira mundial. O povoamento da Islândia teve início no remoto ano de 874. Ao longo dos séculos, povos nórdicos e celtas lá se es tabeleceram. De 1262 a 1918, o país foi parte das monarquias da Noruega e da Dinamarca. No século passado, com a independência, a Islândia se desenvolveu rapidamente, dando ênfase para um siste ma de bem estar social que se tornou exemplar. Na década de 1990, o país de aproximadamente 300 mi l habitantes exibia invejáveis índices econômicos e de desenvolv imento humano. Era o primeiro do mundo em gastos de saúde, segundo em expectativa de vida e segundo em uso per capta de eletricidade. Toda a sua energia vinha de 200 vulcões ativos e su a principal atividade econômica era a indústria da pesca. A ren da média por habitante situava-se em estupendos 25 mil dólares. Porém, em 2000, teve início um processo de mudança que culminaria com a crise atual. Uma edição da revista The Atlantic sintetiza os passos. Na virada do milênio, os bancos foram pr ivatizados e assumidos por executivos com boas conexões política s, porém pouca experiência no ramo. A regulação e os requisitos de reservas eram mínimos. Resultado: os bancos tiveram grande liberd ade para captar recursos (frequentemente no exterior) e empr está-los. O impacto foi espetacular, influenciando o mercado de ações, que cresceu a uma taxa média de 44%, de 2001 a 2007. A população participou da festa, usando o crédito f ácil para comprar carros e casas. A renda per capta atingiu, em 2007, a marca de 65 mil dólares por habitante. Naturalmente , junto com a renda cresceram os débitos, frequentemente tomados em moeda estrangeira. Enquanto a coroa islandesa, a moeda lo cal, permanecesse forte, não haveria problemas. Então, em 2008, com a crise financeira, os bancos e investidores deram-se conta de que os bancos islandeses estavam a tal ponto “alavancados” que nem mesmo o governo local poderia salvá-los. As dívidas não tinham a mais remota correspondência co m ativos reais, capazes de sustentá-las. Consequência: a tor neira de crédito começou a ser fechada e a coroa islandesa e ntrou em queda livre, levando os devedores à bancarrota. Após a falência do Lehman Brothers, no segundo seme stre, os empréstimos interbancários congelaram. Então, os tr ês maiores bancos islandeses, que somavam dívidas superiores a 10 vezes o PIB do país, entraram em colapso e foram nacionaliz ados. E mais: o mercado de ações foi temporariamente fechado, a d ívida do país foi rebaixada e a coroa islandesa deixou de funcion ar como moeda internacional. Seguiu-se uma intrincada operação de salvamento, envolvendo a Noruega, a Dinamarca, a Rússia e o Fun do Monetário Internacional. Em janeiro de 2009, a coalizão que sustentava o governo entrou em colapso, e um novo grupo assumiu o poder. Para observadores distantes, como este escriba, a t ragédia islandesa traz à mente questões incômodas. O que fa z um país, rico, socialmente equilibrado e culturalmente avanç ado entrar em tal fria? O que teria motivado os sofisticados isla ndeses a abraçar tão entusiasticamente a ciranda financeira? Terá sido a luxúria e o deslumbre com a possibilidade de ter di nheiro fácil? Terá sido uma pandemia de consumismo? Ou a simples vontade de sair do marasmo de uma vida excessivamente previsív el? Afinal, se a tragédia vitimou a bem educada e bem informada Is lândia, o que poderia ocorrer se populações menos esclarecidas fo rem expostas a condições similares? Comportar-se-iam tal qual infe lizes aborígines no primeiro contato com o álcool? O desd obramento da situação talvez traga algumas respostas, mas para a lgumas questões talvez tenhamos que esperar até a próxima crise. Enquanto isso, os consternados islandeses enfrentam um duplo desafio: vencer uma dura recessão e buscar de uma s olução para uma equação insolúvel, já que a dívida acumulada é impagável. O que deveriam fazer os islandeses? Nigel Holmes e Me gan McArdle, autores da matéria veiculada na revista The Atlantic listam, com ironia, quatro alternativas. Embolsar o empréstimo do FMI, seguir para Las Vegas e tentar a sorte nas cartas? Entrar o mais rápido possível para União Européia e adotar o Euro como m oeda? Pedir a Björk que organize um concerto beneficente? Ou simp lesmente voltar a pescar? Escolha difícil. Marolas e vagalhões Um breve balanço das reações das empresas brasileir as ao contexto da crise revela alguns acertos e velhos erros. Um turista que deixasse Pindorama no verão de 2008 e retornasse no inverno de 2009 notaria sensíveis mudanças nos d omínios corporativos: os planos de expansão deram lugar a c enários de contenção, os projetos de investimento cederam espa ço para a austera administração do fluxo de caixa e a busca p or pessoal qualificado foi trocada pela redução de quadros. A crise, de matriz ianque, atingiu os trópicos. Afi nal, no mundo financeiro, ninguém é inocente. Algumas empresas so freram com vagalhões; outras, mais afortunadas, foram atingida s por pequenas marolas. Em uma mesa redonda, organizada em 2009 po r este escriba na FGV-EAESP, Eduardo Dal Lago, sócio-diretor da co nsultoria Synthese, discutiu os efeitos da crise e as reações das empresas. A crise elevou o grau de imprevisibilidade, antítes e da estabilidade e da confiança, matérias primas essenc iais para os negócios. A nova condição de navegação, com nevoeir o espesso, mar revolto e ameaças de icebergs, parece ter surpreend ido capitães e tripulações. Enquanto o crédito se esvaia, a inadim plência de clientes crescia. Enquanto a valorização do dólar a umentava o preço dos insumos importados, concorrentes lançavam -se em guerras de preços. Além de provocar estragos nos fluxos de caixa, a cr ise também afetou as operações. Uma empresa de embalagens, que dividia sua produção entre clientes da indústria farmacêutica e clientes da indústria de cosméticos, observou os pedidos dos pr imeiros declinarem, enquanto os últimos mantinham os níveis anteriores à crise. Em uma maternidade e hospital paulistano, o efeito da crise foi similar. Enquanto a maternidade perdeu cl ientes, que provavelmente adiaram o crescimento da família para um momento mais propício, o hospital assistiu a um aumento do número de cirurgias, programadas por pacientes temerosos que seus empregos, e portanto seus planos de saúde, não resistissem à crise. Mudanças deste tipo desorganizam as operações e exi gem reações rápidas, podendo afetar negativamente os prazos de entrega e a qualidade do atendimento. E como as empresas reagiram ao novo contexto? Dal L ago apontou quatro grupos de ações. O primeiro foi adotar soluç ões de curto prazo, em detrimento de visões de médio e longo pra zo. Em uma situação de crise, é esperado que as empresas traba lhem com cenários negativos, congelem investimentos e evitem contratações. Porém, quando se acredita piamente na catástrofe, p ode-se estimular, inadvertidamente, o pior cenário. Ao int erromper projetos quase terminados e bloquear de forma compl eta contratações, algumas empresas podem ter comprometi do receitas que superariam os investimentos realizados. O segundo foi priorizar questões financeiras e de m ercado, em detrimento de questões relacionadas a pessoas e com unicação. Obviamente, quando a solvência da empresa é colocad a em risco, é preciso controlar cuidadosamente os sinais vitais. Conforme observou Dal Lago: “se o navio corre risco de afund ar, primeiro é preciso cuidar dos botes salva-vidas; o bem estar d os passageiros fica para depois”. Porém, a falta de atenção, por p eríodos prolongados, com o clima organizacional e com a com unicação pode levar à deterioração da gestão, à perda de talentos e a prejuízos irreversíveis. O terceiro foi centralizar o poder, reduzindo a aut onomia do níveloperacional e da linha de frente. A medida fa z sentido. A centralização da tomada de decisão aumenta a agilid ade. No entanto, o efeito positivo pode ser anulado se os t omadores de decisão tentarem ampliar sua alçada, resolvendo não apenas “o que deve ser feito”, mas também “como deve ser feito”. O quarto foi adotar fórmulas clássicas e pretensame nte testadas de redução de custos, em lugar de soluções mais cri ativas, voltadas para questões estratégicas. Diante da retr ação do mercado, muitas empresas foram rápidas nos cortes d e custos e nas demissões. Algumas aproveitaram o momento para faze r ajustes que deveriam ter sido feitos há muito tempo. Por outro lado, deixaram de ver que a crise, como todo momento de mudança, g era também oportunidades. Infelizmente, a atenção dos capitães parece estar focada demais nos problemas do momento, impedindo-o s de pensar em rotas alternativas. Infelizmente, além de seus efeitos materiais óbvios , a crise trouxe muitas empresas e muitos executivos de volta a uma conhecida e anacrônica zona de conforto, caracteriz ada pelo foco no curto prazo, pela agitação em torno de ações de efeito apenas cosmético e pela falta de visão estratégica. Para a s organizações que caírem nessa armadilha restará apenas uma boa d esculpa para os maus resultados. Aquelas que a evitarem provavel mente sairão da crise mais fortes e mais aptas a lidar com a inc erteza. [Quarta capa] COMO FAZER INIMIGOS E AFASTAR PESSOAS Os livros de gestão, especialmente aqueles voltados para o público executivo, costumam tratar do “mundo ideal” , das experiências bem sucedidas e da “coisa certa a ser feita”. Neles, não há decisões erradas, gestores que falham ou cor porações que fracassam. Falta-lhes, pode-se dizer, realidade. Como fazer inimigos e afastar pessoas reúne uma coleção de ensaios escritos sob a perspectiva crítica. Esta obra está organizada em quatro blocos: o Falando mal dos gentios o Falando mal das corporações o Falando mal da gestão o Falando mal da crise Sobre o autor Thomaz Wood Jr. é professor da FGV-EAESP e sócio da Matrix- Consultoria e Desenvolvimento Empresarial. Atualmen te, pesquisa a internacionalização de empresas brasileiras e as in dústrias criativas. Sua prática de consultoria inclui a coor denação de projetos de transformação organizacional e de estra tégia empresarial. Ele publicou mais de 50 artigos acadêm icos e 15 livros na área de gestão, incluindo Organizações espetaculares , Gurus, curandeiros e modismos empresariais e Mudança organizacional . O autor colabora desde 1996 com a revista CartaCapital , na qual os textos deste livro foram originalmente publicados. Aplicação Leitura indicada a empresários, executivos e estuda ntes de Administração de Empresas interessados em uma visão crítica sobre as organizações e sobre a vida executiva. View publication statsView publication stats https://www.researchgate.net/publication/279886703