Prévia do material em texto
O Direito Comercial e o Direito Empresarial SST Trindade, Boaz O Direito Comercial e o Direito Empresarial / Boaz Trindade Ano: 2021 nº de p.: 8 Copyright © 2021. Delinea Tecnologia Educacional. Todos os direitos reservados. O Direito Comercial e o Direito Empresarial 3 Apresentação Este material tem o objetivo de estimular o desenvolvimento de habilidades profissionais e acadêmicas ao apresentar as características do Direito Comercial e do Direito Empresarial, bem como a evolução histórica das questões jurídicas ligadas ao tema. Direito Comercial e o Direito Empresarial O termo Direito Comercial é originário da expressão latina commutatio mercium, que significa a troca de mercadorias por mercadorias. Sua origem remonta às antigas corporações de ofício, que, já no final da Idade Média, viam a necessidade de amparo para as negociações visando regular a atividade mercantil. De acordo com Fabio Ulhôa Coelho (2016), esse ramo do Direito surge por meio de contratos bilaterais entre as pessoas que comercializavam. Em sua fase inicial, o Direito Comercial praticado pelos artesãos organizados corporativamente não tinha regras rígidas, mas um regramento próprio, cotidiano, cujo objetivo principal era livrar os comerciantes da dominação dos poderosos monarcas. Figura 1: É necessário regras comerciais para prosperar Fonte: Plataforma Deduca (2020). 4 Com o passar dos anos, como veremos adiante, o Direito sentiu a necessidade de expandir o escopo de ação do Direito Comercial. Surge, então, o Direito Empresarial, de sentido mais amplo e que abarca diversas atividades, seja do comércio, indústria ou serviços. Hoje, o Direito Comercial e o Empresarial não teriam força não fosse pelo Estado de Direito, que, com os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, cuida da aplicação prática dos princípios norteadores das questões jurídicas. Em nossa sociedade, a lei deve ser feita por representantes do povo, de maneira aberta e transparente. Sua administração está sujeita a críticas de toda a população, que deve se reunir sem medo de retaliações. Justamente pela existência e manutenção do Direito Positivo no Estado Democrático de Direito, as leis devem ser aplicadas de forma igual e justa, de modo que ninguém, nem empresa nem indivíduo, esteja acima da legislação. O sistema de proteção jurídica, de características complexas, é um elemento essencial em todas as ordens legais – seja para o indivíduo, seja para a empresa – na medida em que permite fazer valer os direitos e obter reparação. O Direito Comercial Antes da Idade Média, os dados históricos apontam que a normatização sobre o assunto era tímida e a única forma de regulamentação mais próxima de uma norma de que se tem registro, mesmo que sem estrutura normativa, é o código, como o de Hamurabi, que remonta a aproximadamente 1780 a.C., na Babilônia, e o de Manu, na Índia de 1000 a.C. (TOMAZETTE, 2016). O Direito Romano, conjunto de regras e normas vigentes em Roma desde sua fundação (753 a.C.) até a elaboração do Código de Justiniano (529 a.C.), dá origem ao termo Jus Civile, ou Direito Civil. Naquela época, de acordo com Coelho (2016), ainda não havia a designação de regras próprias ao comércio. A palavra commercium era utilizada apenas para a troca de produtos entre pessoas como um ato jurídico, a expressão negotiatio (negociação) era utilizada para a indústria (produção de algo), enquanto mercatura nomeava a mercadoria, com sentido restrito ao objeto em si. 5 Nesse sentido, de acordo com Requião (2010), a atividade comercial tal como a conhecemos hoje tem início com a aquisição e venda de mercadorias diversas por qualquer pessoa. Como vimos, as corporações de ofício foram as organizações que primeiro empreenderam a tentativa de regular a comercialização de produtos. Naquelas organizações, as ordens não eram aplicadas aos indivíduos que trocavam mercadorias entre si, mas apenas aos que praticavam atos de comércio. As regras do Direito Comercial nascem por meio dos costumes essencialmente profissionais, que regiam muito as ações dos comerciantes. O regime jurídico dos atos de comércio Os atos de comércio são regulados pelo Estado, inicialmente, para controle das ações dos cidadãos. Na França de Napoleão (século XIX), por exemplo, o Direito Privado e o Comercial foram distinguidos, este último destinado ao controle dos atos comerciais dos burgueses. A melhor explicação para o surgimento dos atos de comércio é a que justifica sua existência devido à necessidade de se definir as ações que seriam reguladas pelo Direito Comercial. Os atos que não estivessem abarcados na lei deveriam ser atendidos pelo Direito Privado (TOMAZETTE, 2016). Atos de comércio Era necessário nomear aquilo que seria contemplado pelo Direito Comercial. Surge, então, no Código Comercial francês de 1807, o termo atos de comércio. A teoria francesa dos atos de comércio Após o surgimento da teoria francesa, os atos especificados na lei começam a ser regulados pelo Direito Comercial e todos os comerciantes têm a obrigação de seguir as normas que regem o assunto. 6 Os atos de comércio no Brasil Em 1850, o Brasil estipulou as regras dos atos de comércio, seguindo a tradição francesa. O surgimento dos atos de comércio marca a passagem do Direito pautado no costume para o Direito unificado, baseado na norma escrita e regido por regras gerais e abstratas. O Direito Empresarial Para muitos, o Direito Comercial e o Direito Empresarial são sinônimos; um mesmo ramo do Direito. Entretanto, não se pode concebê-los como iguais. A empresa não é constituída de um ato isolado, mas sim de um conjunto de atos de forma reiterada. A atividade empresarial em caráter profissional gera atos vinculados e coordenados que se coadunam com um objetivo final: a obtenção de lucro. Atenção O Direito Comercial é tido como o princípio da Teoria dos Atos de Comércio e foi somente após o surgimento da Teoria da Empresa, em meados do século XX, que surgiu o chamado Direito Empresarial, com um entendimento mais completo para abarcar a atividade comercial como um todo (TOMAZETTE, 2016). O Direito Empresarial não se preocupa unicamente com a mercancia e troca de mercadorias, mas com toda e qualquer forma de atividade organizada que vise ao ganho de capital. Houve não apenas a divisão entre o Direito Comercial e o Empresarial, mas, acima de tudo, uma alteração nos paradigmas e entendimentos enquanto ramificações do Direito. Nesse passo, o Direito Empresarial preocupa-se em basear sua atuação e defesa sobre a atividade econômica organizada, seja no comércio, indústria ou serviços. 7 Sendo assim, todos os que exercem alguma prática empresarial são empresários e, portanto, sujeitos do Direito Empresarial. Figura 2 – O Direito Comercial e o Direito Empresarial Teoria dos Atos de Comércio Direito Comercial Teoria da Empresa Direito Empresarial Sentido irrestrito que abrange mais características Fonte: Elaborada pelo autor (2020). O Direito Empresarial abrange, então, todas as esferas do ramo, o que inclui não só as empresas, enquanto organizações formais, mas, em uma percepção integral, qualquer ação mercantil. Sabemos que a empresa é um ente fictício do mundo jurídico que adquire personalidade para que possa desempenhar seus objetivos e, por esse motivo, é uma atividade e não um sujeito de direitos e deveres. Se analisarmos o Código Civil de 2002, veremos que o texto não se preocupa em conceituar o termo empresa, limitando-se a tratar unicamente da organização dos dispositivos que são utilizados pelo intérprete para o entendimento e aplicação das leis (BRASIL, 2002). Diante dessa omissão legislativa do conceito, podemos então apontara nossa concepção: uma empresa pressupõe uma atividade organizada e não um sujeito acobertado de direitos personificados. 8 Fechamento Neste material, vimos que o Direito Comercial e o Empresarial são confundidos entre si e para muitospoderiam ser sinônimos. Entretanto, o Direito Empresarial tomou forma após o surgimento da Teoria da Empresa, que tornou necessário um ramo jurídico que abarcasse a atividade comercial como um todo. Referências BRASIL. Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Brasília: Congresso Nacional, 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ leis/2002/l10406.htm. Acesso em: 30 jun. 2020. COELHO, F. U. Curso de direito comercial: direito de empresa. v. 1. São Paulo: Saraiva, 2016. TOMAZETTE, M. Curso de direito empresarial: teoria geral e direito societário. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2016. REQUIÃO, R. Curso de direito comercial. 29. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm