Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Professora Ana Paula Quadros Gomes _ 2020-1 _ anpola@gmail.com 
 
5 
 
se despede de uma funcionária muito capaz, que decidiu parar de trabalhar para ter um filho, ao dizer ‘A porta está 
aberta’ na despedida está comunicando a ele que, quando decidir voltar a trabalhar, o emprego será dado a ela de volta. 
Para cada nova situação de uso, teremos um novo significado, e perderemos os demais. O único significado que 
independe da situação é o de que estamos falando de uma porta (e não de uma mesa), um objeto que, por sua natureza, 
pode se apresentar aberto ou fechado; a sentença diz que está num desses estados, e não no outro; logo, alguém pode 
passar pela abertura, ingressando num local interno ou indo para o lado de fora dele. Os demais significados são 
construídos sobre esse, que é o único permanente, indissociável do material linguístico. É obvio que uma sentença como 
‘A mesa está posta’ não serviria para veicular os significados mencionados. Porém, eles não estão sempre ligados à 
sentença ‘A porta está aberta’; a situação de uso influencia na interpretação. 
 
Leitura 
Nos trechos de Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, como o que está fora da língua interfere na 
compreensão / criação dos sentidos? 
 
 
- Veja, agora a senhora está bem melhor! Mas, francamente, acho que a senhora 
devia ter uma dama de companhia! 
- Aceito-a com todo prazer! — disse a Rainha. - Dois pence por semana e doce 
todos os outros dias. 
Alice não pôde deixar de rir, enquanto respondia: 
- Não estou me candidatando... e não gosto tanto assim de doces. 
- É doce de muito boa qualidade — afirmou a Rainha. 
- Bom, hoje, pelo menos, não estou querendo. 
- Hoje você não poderia ter, nem pelo menos nem pelo mais — disse a Rainha. - A 
regra é: doce amanhã e doce ontem — e nunca doce hoje. 
- Algumas vezes tem de ser “doce hoje” - objetou Alice. 
- Não, não pode - disse a Rainha. Tem de ser sempre doce todos os outros dias; ora, 
o dia de hoje não é outro dia qualquer, como você sabe. 
Num dado momento, Alice encontrou muitos caminhos, que seguiam em 
diferentes direções. Então ela perguntou a um gato, que estava sentado 
numa árvore: 
- Pode me dizer, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui? 
- Isso depende muito de para onde você quer ir — respondeu o gato. 
- Eu não sei. 
O gato, então, respondeu sabiamente: 
- Sendo assim, qualquer caminho serve. 
 
(Carroll, Levis. As aventuras de Alice.3 ed. São Paulo, Summus, p.182. In: FIORIN. 
Introdução à Linguística II. p.161). 
 
 
 
Exercícios 
_ Que dia é amanhã? Que dia é ontem? De que depende essa resposta? 
_ Como definir o caminho por que Alice procura? 
 
Há contribuições para aquilo que entendemos numa comunicação com palavras que não se restringem ao que é dito, 
mas dependem também de informações não-linguísticas, ligadas à situação de uso. Há várias fontes de significação. 
Uma boa forma de identificá-las é procurar o responsável pela ambiguidade. Dê os vários significados dos exemplos 
abaixo e indique o “culpado” pela diversidade de sentidos: 
 
(1) O irmão de Maria bateu seu carro. 
(2) Os estudantes revoltados reclamaram da nota na prova. 
(3) O marido pegou o amigo da mulher entrando pela janela. 
(4) No programa de hoje, Jô Soares vai discutir sexo com o Dr. Dráuzio Varella. 
(5) Uma mulher gosta de um homem romântico. 
(6) Quando tirei a foto das crianças, elas estavam subindo a escada. 
(7) O cliente prefere frango ao molho de mostarda. 
 
 
Professora Ana Paula Quadros Gomes _ 2020-1 _ anpola@gmail.com 
 
6 
 
(8) Os coelhos estão prontos para comer. 
(9) Júnior não trabalha oito horas por dia. 
(10) Maria perdeu um papel da peça. 
(11) Ontem vi a cadela da sua irmã na rua. 
(12) João não pode nem passar perto de um bar. 
(13) A crítica do autor foi dura. 
(14) Romeu não chora mais porque Julieta partiu. 
(15) A vaca foi pro brejo. 
(16) Todas as setas atingiram um alvo. 
(17) Não comprei os livros porque custavam R$120,00. 
(18) Ele não vai à praia duas vezes na semana. 
(19) Flamenguistas e Botafoguenses vivem felizes naquela rua. 
(20) Ele chutou o balde! 
(21) Maria foi à universidade. 
(22) Relógio que atrasa não adianta. 
(23) Acabou a festa, os músicos foram embora. 
(24) Eles cobriram o chão de rosa. 
(25) João ficou de esperar Maria ao lado do banco. 
(26) As mangas foram cortadas. 
(27) Maria vai à praia duas vezes por semana. 
(28) Pedro pediu a José para sair. 
(29) Crianças que comem doce frequentemente têm cáries. 
(30) Macarrão levou Eliza Samudio para ser morta por amar Bruno. 
(31) Doutro Pedro operou o nariz. 
(32) Maria cortou o cabelo. 
(33) Dois alunos tomaram quatro garrafas de cerveja. 
(34) Estando atrasado, João não entrou. 
(35) A vaca se diverte sujando a pata na lama. 
(36) A Maria saiu do banco. 
(37) Macaco esquecido no porta-malas é motivo de confusão. 
(38) A rede caiu. 
 
Há nomes para classificar os tipos de ambiguidade: ambiguidade lexical, ambiguidade sintática, ambiguidade de escopo, 
ambiguidade situacional, ambiguidade semântica. Procure exemplos de cada uma nos exercícios, e tente distinguir uma 
da outra. Qual elemento é o responsável por mais de uma interpretação? 
Neste curso, vamos estudar em separado as várias fontes de significado. Começando pelas previsíveis, indissociáveis 
da expressão linguística, do nível da sentença, e chegando ao texto, que pode ter tantas interpretações quantas forem 
as ouvidas/leituras. 
 
A semântica nos níveis de descrição linguística 
Nesta faculdade, os cursos de Língua Portuguesa seguem um caminho entre os níveis de descrição e análise linguística 
ou gramatical: fonologia, morfologia, morfossintaxe, sintaxe e semântica. A esta altura, você já completou todos eles, à 
exceção de semântica. Portanto, você já sabe dizer de que fenômenos e que aspectos da língua cada um deles ocupa. 
Proponho que você encontre, no material linguístico abaixo, aspectos de interesse de cada um desses níveis (adaptação 
de Perini, 1996): 
 
 fonologia: 
 morfologia: 
‘Ana despreza Ricardo’ morfossintaxe: 
 sintaxe: 
 semântica: 
 
 
 
Professora Ana Paula Quadros Gomes _ 2020-1 _ anpola@gmail.com 
 
7 
 
Não é possível estudar todos os aspectos e componentes de uma gramática ao mesmo tempo. O pesquisador tem de 
eleger um fenômeno, olhá-lo pelo ponto de vista de determinado nível e definir um problema de pesquisa. Isso você já 
sabia. A questão que proponho é: onde está a semântica em cada um desses níveis? 
Por exemplo, em fonologia, você aprendeu que nem todos os sons que o sistema fonador produz constituem fonemas. 
Fonemas são as unidades do sistema linguístico capazes de distinguir significados. Por exemplo, a distinção entre as 
palavras ‘pata’, ‘bata’, ‘cata’, ‘chata’, ‘data’, ‘gata’, ‘lata’, ‘mata’, ‘nata’, ’pata’, e ‘rata’ se baseia na troca do fonema inicial. 
Um experimento sobre reconhecimento de palavras (Ting e Snedeker, 2011) mostrou que a visão (ou audição) do 
primeiro pedaço de uma palavra aciona em nossa memória não só aquelas que começam com os mesmos fonemas 
(ativadas por associação fonológica), mas também aquelas que estão ligadas às possíveis continuações sonoras pelo 
significado (ativadas por associação semântica). Por exemplo, os falantes de inglês participantes do experimento viam 
num painel quatro figuras: um tronco (‘log’), uma chave (‘key’), uma maçã (‘apple’) e uma corsa (‘deer’). Quando instruídos 
a tocar no tronco, pensavam em cadeado (em inglês ‘lock’), por associação fonológica, e olhavam por mais tempo para 
a chave do que para a maçã ou a corsa, por associação semântica. Então a semântica já importa quando ainda estamos 
no meio do processamento de uma palavra. 
 
 
 
Ilustração retirada de: HUANG, Yi Ting; SNEDEKER, Jesse. Cascading activation across levels 
of representation in children's lexical processing. Journal of child language, v. 38, n. 03, p. 644-
661, 2011. 
 
Yee & Sedivy (2006): ouvir uma palavra não só ativa outras 
fonologicamente semelhantes, mas tambémativa associações 
semânticas. 
 
Yee, E. & Sedivy, J. (2006). Eye movements to pictures reveal transient semantic activation 
during spoken word recognition. Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, 
and Cognition 32, 1–14. 
 
Um constituinte morfológico, um morfema gramatical, é definido como o fragmento mínimo capaz de expressar significado 
ou a menor unidade significativa que se pode identificar. Por exemplo, o prefixo _in é associado à negação (‘incerto’), o 
sufixo _(i)dade a estados ou propriedades (‘tranquilidade’) etc. 
Até aqui, recordamos que os critérios usados para distinguir unidades fonológicas e morfológicas são semânticos. Em 
morfossintaxe, estudamos as relações combinatórias entre as palavras num sintagma e/ou numa frase, como nos 
fenômenos de concordância nominal e verbal. À primeira vista, não é evidente como o significado é operacional aí. Mas 
há, por exemplo, formas exclusivas, dedicadas, como o pronome ‘eu’, que significa invariavelmente primeira pessoa, 
número singular e caso nominativo. Outros pronomes, como ‘você’, podem vir como sujeito ou complemento verbal, por 
não terem se especializado num caso só, valendo por nominativo ou por acusativo. As conjunções que ligam orações 
num período composto também apresentam significados especializados: por exemplo, ‘mas’, ‘porém’, ‘contudo’, 
‘entretanto’ indicam oposição entre as ideias veiculadas pelas orações que ligam. Mas talvez o ângulo mais interessante 
para examinar a ligação entre semântica e morfossintaxe seja o de examinar como mecanismos do tipo da concordância 
e da marcação de caso estão a serviço da interpretação. Numa sentença como ‘João disse a seu amigo que viu o vizinho 
saindo com a sua mulher’ não sabemos se essa mulher é a esposa de João, a do amigo ou a do vizinho, porque o 
pronome ‘sua’ pode tomar qualquer desses sintagmas nominais como antecedente. E mais: se essa frase é dita por 
Maria a José, o falante (Maria) pode estar se referindo à esposa da pessoa a quem se dirige (José). Entretanto, a dúvida 
não se coloca na sentença, dirigida a uma moça, ‘João e Maria disseram a suas amigas que viram o vizinho saindo com 
a sua mulher’, em que fica claro que o fato testemunhado foi a saída de um casal de vizinhos, ou seja, que o vizinho saiu 
na companhia da própria esposa. 
Na sintaxe, a ambiguidade de uma sentença ou de um sintagma é apontada como evidência de que a mesma expressão 
tem duas ou mais estruturas subjacentes. Por exemplo, o fato de entendermos de dois jeitos o segmento ‘Eu li a notícia 
sobre a greve na faculdade’ mostra que sob essa forma há duas estruturas possíveis. Numa, ‘a greve na faculdade’ está 
na função de complemento da preposição ‘sobre’, e a notícia, lida por mim, por exemplo, na sala de espera do dentista, 
versa sobre o fato de a faculdade estar em greve. Na outra, o complemento da preposição ‘sobre’ é apenas ‘a greve’, e 
‘na faculdade’ é adjunto adverbial, resultando na interpretação de que, enquanto estava no prédio da faculdade, eu li 
uma notícia sobre a greve (a dos bancários). O diagnóstico da ambiguidade também indica estruturas distintas 
subjacentes à forma ‘os alunos acharam o filme chato’. Numa interpretação, temos um verbo ‘achar’ sinônimo de 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Significado
 
 
Professora Ana Paula Quadros Gomes _ 2020-1 _ anpola@gmail.com 
 
8 
 
‘encontrar’. Imaginemos que, para passar o tempo, os alunos decidiram ver um filme; havia dois filmes (em DVD) 
guardados na sala, um chato e outro divertido. O filme chato foi localizado, só o divertido é que não. Essa leitura provém 
de o verbo ter um complemento do tipo sintagma nominal, que faz o papel da coisa encontrada. Em outra interpretação 
possível, ‘achar’ é sinônimo de ‘considerar’, e toma uma minioração (um conjunto de sujeito e predicado, sem verbo de 
ligação) como complemento. Entendemos daí que, na opinião dos alunos, determinado filme é chato. 
Está visto que a semântica desempenha um importante papel em todos os níveis de descrição e análise linguística. No 
curso de semântica, em vez de tomar a interpretação e o entendimento que temos de expressões linguísticas como 
diagnóstico para fenômenos fonológicos, sintáticos etc., vamos examinar o significado por interesse nele próprio. Mas o 
que é significado? Um mistério é: como os falantes de uma língua se entendem? Uma das faces desse mistério é o 
aspecto criativo das línguas naturais (CHOMSKY, 2002:66), que é a nossa capacidade de produzirmos e 
compreendermos, sem esforço, expressões linguísticas nunca antes ouvidas. Outro ponto de interesse é o impacto dos 
usos da língua sobre a vida em sociedade: se a língua é vista como “um conjunto de práticas sociais e cognitivas 
historicamente situadas”, (MARCUSCHI 2005:31), então se pode “agir por meio de palavras”. Como abordar o significado 
depende do recorte, e, portanto, da teoria adotada. 
 
 
II- As escolas, as perguntas-guia e as ferramentas da investigação semântica 
 
Há uma diversidade de escolas ou linhas teóricas para análise semântica. Por vezes, elas se debruçam sobre o 
mesmo fenômeno semântico, analisando-o a seu modo. Em outras vezes, a diferença na abordagem cria recortes 
diferentes, resultando em objetos de interesse distintos. Vamos examinar um pouco três dessas escolas. 
Leitura complementar 
PIRES DE OLIVEIRA, Roberta. Capítulo I: Semântica. In: MUSSALIN, Fernanda: BENTES, Anna Christina (orgs.). 
Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. Vol 2. São Paulo, Cortez, 2001. 
 
Exercícios 
Resolver e entregar as respostas dos “intervalos” do texto, três por aula, aqui copiados para sua conveniência: 
 
Intervalo I: - Diga qual a referência de: (i) a capital da França, (ii) Paris, (iii) Paris é a capital da França. 
 - Descreva o Rio de Janeiro através de vários sentidos. 
Intervalo II: 1. Identifique argumentos e predicados nas sentenças abaixo, segundo Frege: 
(a) João é casado com Maria / (b) Maria é brasileira / (c) Oscar é jogador de basquete. 
 2. A partir dos conceitos de quantificador universal e existencial e da noção de escopo, descreva as sentenças abaixo: 
 (a) Todo homem é casado com alguma mulher./ (b) Um homem é casado com todas as mulheres / (c) A Maria não dançou só 
com o Pedro. 
Intervalo III: - Partindo das noções de escopo e operador descreva a ambiguidade da sentença O rei da França não é calvo. 
 - Determine se há pressuposição na sentença João lamenta a morte do pai e justifique sua resposta. 
Intervalo IV: - Descreva as leituras possíveis do enunciado Meu livro não foi reeditado, segundo a Semântica da Enunciação. 
 - Descreva a ambiguidade da mesma sentença, por meio da noção de escopo da Semântica Formal. 
Intervalo V: - O mas de cada sentença é PA ou PN? Justifique. 
 (1) João não está cansado, mas deprimido. / (2) João foi ao cabelereiro, mas não cortou o cabelo. 
 - Descreva a negação dos exemplos: (1) O João não saiu./ (2) O céu não está azul. 
Intervalo VI - Em termos de valor de verdade, as sentenças abaixo são idênticas. No entanto, do ponto de vista argumentativo, elas 
se comportam de forma bem diferente. Procure descrever a contribuição de sentido proporcionada pelo até nas sentenças. 
(1) O presidente do Brasil esteve na festa. / (2) Até o presidente do Brasil esteve na festa. 
 - A partir da análise de pouco e um pouco, reflita sobre o par: (1) João dormiu um pouco. / (2) João dormiu pouco. 
Intervalo VII - Descreva as sentenças conforme a Semântica Cognitiva. 
 (1) Gastei cinco horas para chegar aqui./ (2) Economizei duas horas vindo por este caminho. 
 - Dê exemplos da metáfora conceitual ARGUMENTAÇÃO É UMA GUERRA. 
Intervalo VIII - Mostre que a propriedade “voar” não é nem necessária nem suficiente para que algo pertença à categoria AVE. 
 - Descreva, a partir do conceito de protótipo, a categoria MÃE. 
 - Explique por quea sentença A Maria saiu com o seu animal de estimação é uma metonímia.

Mais conteúdos dessa disciplina