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SEMÂNTICA
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I- O que é semântica? Qual o seu objeto?
A semântica é o estudo do significado (linguístico). Mas o que se entende por significado? Onde ele é encontrado na
língua? Quais são as suas fontes?
Defina língua. Defina significado. Reserve.
Leitura
No terceiro parágrafo deste trecho de As Viagens de Gulliver, temos uma ideia bastante popular de como a língua
funciona. Que ideia é essa?
As viagens de Gulliver - Parte II - CAPÍTULO V
O autor visita a academia e descreve-a.
Depois de ter visitado o edifício das artes, passei a um outro corpo da
casa, onde estavam os fatores dos sistemas em relação às ciências.
Entramos primeiro na escola de linguagem, onde nos encontramos com
três acadêmicos que discutiam juntos o modo de embelezar a língua. Um
deles era de opinião, para abreviar o discurso, que se reduzissem todas
as palavras a simples monossílabos e se banissem todos os verbos e
particípios.
O outro ia mais longe e propunha um modo de abolir todas as palavras,
de maneira que se discutisse sem falar, o que seria favorável ao peito,
porque está claro que, à força de falar, os pulmões se gastam e a saúde
se altera. O expediente, por ele achado, era trazer cada qual consigo
todas as coisas de que quisesse tratar. Este novo sistema, dizia-se, seria seguido, se as mulheres
se lhe não tivessem oposto. Muitos espíritos superiores desta academia não deixavam, no
entanto, de conformar-se com essa maneira de exprimir as coisas, o que só se tornava
embaraçoso quando tinham de falar em diversos assuntos, porque então lhes era preciso trazer
às costas enormes fardos, salvo se eles tivessem dois criados bastante robustos para se pouparem
esse trabalho; supunham que, se esse sistema se generalizasse, todas as nações poderiam
facilmente compreender-se (o que seria de grande comodidade), pois não se perderia muito
tempo em aprender línguas estrangeiras).
Fonte: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/gulliver.html#b
Discussão:
A proposta dos sábios daria certo? Como carregar objetos para palavras como ‘paz’, ‘que’, ‘sobre’, ‘encontrar’,
‘ligeiramente’? A língua é uma coleção de palavras? Será que as palavras de uma língua nomeiam coisas no mundo? E
nesse caso, será que elas equivalem aos objetos que nomeiam?
Vamos debater sobre as definições de língua e significado dadas na sua turma. Você quer rever as suas?
Exercício 1
Tome uma folha de papel. Olhando à sua volta, anote rapidamente os nomes de tudo o que estiver percebendo. Quem
anotará o maior número de palavras? Daqui a 5min vamos comparar as anotações de cada um.
Após o exercício:
Há itens em comum nas listas da classe? Há sentenças, sintagmas (fraseados, pedaços de sentenças) ou apenas
palavras? Observe as classes de palavras que aparecem em sua lista. Há itens funcionais (conjunções, artigos) ou
apenas lexicais (substantivos)? Há mais nomes abstratos ou concretos? Há mais nomes contáveis (que nomeiam
http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/gulliver.html#b
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unidades discretas, como ‘janela’, ‘aluno’) ou de massa (que nomeiam substância, como ‘água’, ‘vidro’)? O que isso nos
diz sobre a natureza da língua, e sobre a noção dos sábios de Gulliver? Como haveria de ser a tradução de uma língua
para a outra, se os sábios tivessem razão? Tente fazer um texto só com as palavras de sua lista. Dá?
Há dois pontos cruciais aqui. O primeiro é que nem toda palavra nomeia um objeto no mundo. Considere palavras como
‘se’, em ‘ele se chama Gulliver’, ou ‘que’, em ‘o aluno que passou de ano’. O outro (não menos importante) é que a língua
não é uma mera coleção de palavras. Ela tem estrutura, uma armação invisível, regras combinatórias que não podem
ser desobedecidas. A isso chamamos sintaxe. O significado de uma língua depende da sintaxe, da interpretação de
objetos estruturados. Uma mudança na ordem das palavras de uma sentença vai corresponder a estruturas diferentes,
ganhando interpretações distintas (i); e ainda as mesmas palavras, na mesma sequência, podem receber mais de uma
interpretação, conforme seja sua estrutura (ii):
(i) a. O gato mordeu o cão.
b. O cão mordeu o gato.
(ii) a. João enviou para Maria a foto de Salvador.
= enviou de Salvador (para cá) a foto (do Rio)?
ou
= enviou (de Brasília para cá) a foto de Salvador?
Então a semântica está imbrincada com a sintaxe? Teremos de responder que sim, se concordarmos com o fato de que
interpretamos objetos das línguas naturais que já foram dotados de estrutura, e que a estrutura dada influenciará o
significado atribuído ao tal objeto. Esses objetos terão tamanhos diferentes, como ‘a foto’ (sem ambiguidade), ‘a foto de
Salvador’ (com duas interpretações: numa Salvador é o ponto de partida da remessa, noutra é o tema da foto), ou ‘João
enviou para Maria a foto de Salvador’ (com a mesma ambiguidade já apontada) etc. Podemos tratar então na semântica
de palavras ou da semântica lexical, em que a estrutura só interfere na composição interna: podemos formar ‘mord-ida’,
‘mord(e)-ção’, ‘mord(e)-dura’, ‘mord(e)-ndo’ etc., na ordem raiz-afixo, mas não *ida-mord(e), *ção-mord(e), ou
qualquer outra combinação na ordem afixo-raiz; nem podemos formar *cãomente, porque o afixo _mente se combina a
adjetivos para formar um advérbio de maneira, e ‘cão’ é um nome. Podemos tratar na semântica dos sintagmas ou
fraseados ou das sentenças (que depende da estrutura), falando de como cada parte contribui para a compreensão do
todo. Podemos tratar da contribuição dada por um fraseado escolhido pelo falante, entre as opções disponibilizas pela
língua. Por exemplo, não é a mesma coisa dizer que João não estuda e dizer que João parou de estudar. Só a segunda
opção faz a gente assumir que João estudou em algum momento anterior. Esse significado é contribuição de ‘parar’.
(Tanto que a versão sem o verbo parar pode ser empregada para falar de alguém que nunca estudou na vida, mas a que
tem ‘parar’ não pode!) Podemos também tratar das relações entre sentenças, como homonímia, hiperonímia,
acarretamento, contrariedade...
Bem, Chomsky tentou desfazer o nó que amarra a sintaxe à semântica, argumentando a favor de sua independência,
ao apresentar a versão em inglês da seguinte sentença:
(1) Ideias verdes incolores dormem furiosamente.
Você consegue interpretar essa sentença? Observe que ela satisfaz todas as regras sintáticas. O verbo ‘dormir’ pede
um único argumento, realizado por ‘ideais verdes incolores’. E recebe um advérbio de maneira, ‘furiosamente’, numa
posição possível na língua para ele. O sujeito é formado de um nome (substantivo), ‘ideias’, seguido de dois
modificadores (adjetivos), o que também é uma boa formação na língua. A concordância de gênero e número foi realizada
entre o núcleo nominal e os modificadores, assim como a concordância de pessoa e número entre o sujeito e o verbo. A
formação morfológica dos vocábulos seguiu todas as regras. A flexão foi afixada ao verbo após a raiz, por exemplo.
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Porém, embora esteja de acordo com as regras sintáticas, a sentença desrespeita a seleção semântica. Daí sua
estranheza. Por exemplo, ‘ideias’ é um nome abstrato, e um objeto sem superfície física não pode refletir a luz, daí não
poder exibir cor alguma. Daí ‘ideais verdes’ ser estranho. Além disso, um objeto, caso seja verde, tem uma cor, e não
poderá ser também considerado incolor, o que faz de ‘verdes incolores’ uma contradição. ‘Dormir’ é uma atividade restrita
a animais; como ‘ideias’ não dormem, não atendem à seleção semântica desse verbo. Por fim, o sono pode ser tranquilo
ou agitado, mas não pode serfurioso, pois há uma intencionalidade em agir com fúria que quem dorme não pode
apresentar. Daí a sentença (1) ser um famoso exemplo de anomalia semântica: ela é bem formada sintaticamente, mas
não semanticamente. O que Chomsky defendia é que sentenças desse tipo podem ser interpretadas (ainda que poética
ou fantasiosamente) mais facilmente do que sentenças com má formação sintática, que não poderiam sequer ser
processadas, como:
(2) De cama mentetranquila na dorme bruços Maria.
Essa versão embaralhada de Maria dorme de bruços tranquilamente na cama faz menos sentido que (1): é
improcessável, por não seguir as regras sintáticas, embora a seleção semântica não tenha sido desrespeitada em
nenhum ponto. Para percebermos como é mais fácil compreender sentenças sintaticamente bem formadas, mas
semanticamente falhas (as tais anomalias semânticas), basta lermos Manoel de Barros:
Leitura
Os deslimites da palavra
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas
Uma didática da invenção - I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm
devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num
fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais
ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.
Então a sintaxe tem primazia sobre a semântica? Na medida em que a compreensão de um objeto depende de qual seja
o objeto que se quer compreender, sim, já que o tal objeto foi construído com as regras da língua a que chamamos de
gramática ou sintaxe. Mas existem significados que não dependem da sintaxe? Sim. Quando examinamos objetos
maiores ou distintos de sentenças e de suas partes, tais como enunciados, textos ou discursos, chegamos a sentidos
que não vieram (inteiramente) do material linguístico presente. O mesmo material linguístico, com a mesma sintaxe, sem
anomalia semântica, pode constituir significados distintos em condições diversas. Pense na sentença ‘A porta está
aberta’. Dita pela mulher ao marido, durante uma discussão, após ele ter dito que não sabe como consegue conviver
com ela, significa ‘Se é assim, vá embora da minha vida’. Mas essa ideia de separação conjugal não é um significado do
material linguístico da sentença. Ela não está presente, por exemplo, quando o médico, de dentro de seu consultório, a
pronuncia para o paciente que aguarda do lado de fora da porta. Nessa outra situação, o enunciado é entendido como
um convite para o paciente entrar no consultório. Imaginemos uma terceira cena, em que ladrões estão procurando meios
de invadir uma loja inexpugnável, protegida por cadeados, travas, grades, cães bravos, muros... ao tentar explodir a
grossa parede sem sucesso, eles chamam a atenção da polícia, e acabam presos. Pouco antes de ser detido, um deles
mexe na maçaneta da porta e diz ‘A porta está aberta...’ Nesse caso, ele está expressando seu desconsolo pelo
insucesso da empreitada, por ter desconsiderado processos mais fáceis de entrada. Independentemente, um chefe que
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se despede de uma funcionária muito capaz, que decidiu parar de trabalhar para ter um filho, ao dizer ‘A porta está
aberta’ na despedida está comunicando a ele que, quando decidir voltar a trabalhar, o emprego será dado a ela de volta.
Para cada nova situação de uso, teremos um novo significado, e perderemos os demais. O único significado que
independe da situação é o de que estamos falando de uma porta (e não de uma mesa), um objeto que, por sua natureza,
pode se apresentar aberto ou fechado; a sentença diz que está num desses estados, e não no outro; logo, alguém pode
passar pela abertura, ingressando num local interno ou indo para o lado de fora dele. Os demais significados são
construídos sobre esse, que é o único permanente, indissociável do material linguístico. É obvio que uma sentença como
‘A mesa está posta’ não serviria para veicular os significados mencionados. Porém, eles não estão sempre ligados à
sentença ‘A porta está aberta’; a situação de uso influencia na interpretação.
Leitura
Nos trechos de Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, como o que está fora da língua interfere na
compreensão / criação dos sentidos?
- Veja, agora a senhora está bem melhor! Mas, francamente, acho que a senhora
devia ter uma dama de companhia!
- Aceito-a com todo prazer! — disse a Rainha. - Dois pence por semana e doce
todos os outros dias.
Alice não pôde deixar de rir, enquanto respondia:
- Não estou me candidatando... e não gosto tanto assim de doces.
- É doce de muito boa qualidade — afirmou a Rainha.
- Bom, hoje, pelo menos, não estou querendo.
- Hoje você não poderia ter, nem pelo menos nem pelo mais — disse a Rainha. - A
regra é: doce amanhã e doce ontem — e nunca doce hoje.
- Algumas vezes tem de ser “doce hoje” - objetou Alice.
- Não, não pode - disse a Rainha. Tem de ser sempre doce todos os outros dias; ora,
o dia de hoje não é outro dia qualquer, como você sabe.
Num dado momento, Alice encontrou muitos caminhos, que seguiam em
diferentes direções. Então ela perguntou a um gato, que estava sentado
numa árvore:
- Pode me dizer, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
- Isso depende muito de para onde você quer ir — respondeu o gato.
- Eu não sei.
O gato, então, respondeu sabiamente:
- Sendo assim, qualquer caminho serve.
(Carroll, Levis. As aventuras de Alice.3 ed. São Paulo, Summus, p.182. In: FIORIN.
Introdução à Linguística II. p.161).
Exercícios
_ Que dia é amanhã? Que dia é ontem? De que depende essa resposta?
_ Como definir o caminho por que Alice procura?
Há contribuições para aquilo que entendemos numa comunicação com palavras que não se restringem ao que é dito,
mas dependem também de informações não-linguísticas, ligadas à situação de uso. Há várias fontes de significação.
Uma boa forma de identificá-las é procurar o responsável pela ambiguidade. Dê os vários significados dos exemplos
abaixo e indique o “culpado” pela diversidade de sentidos:
(1) O irmão de Maria bateu seu carro.
(2) Os estudantes revoltados reclamaram da nota na prova.
(3) O marido pegou o amigo da mulher entrando pela janela.
(4) No programa de hoje, Jô Soares vai discutir sexo com o Dr. Dráuzio Varella.
(5) Uma mulher gosta de um homem romântico.
(6) Quando tirei a foto das crianças, elas estavam subindo a escada.
(7) O cliente prefere frango ao molho de mostarda.
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(8) Os coelhos estão prontos para comer.
(9) Júnior não trabalha oito horas por dia.
(10) Maria perdeu um papel da peça.
(11) Ontem vi a cadela da sua irmã na rua.
(12) João não pode nem passar perto de um bar.
(13) A crítica do autor foi dura.
(14) Romeu não chora mais porque Julieta partiu.
(15) A vaca foi pro brejo.
(16) Todas as setas atingiram um alvo.
(17) Não comprei os livros porque custavam R$120,00.
(18) Ele não vai à praia duas vezes na semana.
(19) Flamenguistas e Botafoguenses vivem felizes naquela rua.
(20) Ele chutou o balde!
(21) Maria foi à universidade.
(22) Relógio que atrasa não adianta.
(23) Acabou a festa, os músicos foram embora.
(24) Eles cobriram o chão de rosa.
(25) João ficou de esperar Maria ao lado do banco.
(26) As mangasforam cortadas.
(27) Maria vai à praia duas vezes por semana.
(28) Pedro pediu a José para sair.
(29) Crianças que comem doce frequentemente têm cáries.
(30) Macarrão levou Eliza Samudio para ser morta por amar Bruno.
(31) Doutro Pedro operou o nariz.
(32) Maria cortou o cabelo.
(33) Dois alunos tomaram quatro garrafas de cerveja.
(34) Estando atrasado, João não entrou.
(35) A vaca se diverte sujando a pata na lama.
(36) A Maria saiu do banco.
(37) Macaco esquecido no porta-malas é motivo de confusão.
(38) A rede caiu.
Há nomes para classificar os tipos de ambiguidade: ambiguidade lexical, ambiguidade sintática, ambiguidade de escopo,
ambiguidade situacional, ambiguidade semântica. Procure exemplos de cada uma nos exercícios, e tente distinguir uma
da outra. Qual elemento é o responsável por mais de uma interpretação?
Neste curso, vamos estudar em separado as várias fontes de significado. Começando pelas previsíveis, indissociáveis
da expressão linguística, do nível da sentença, e chegando ao texto, que pode ter tantas interpretações quantas forem
as ouvidas/leituras.
A semântica nos níveis de descrição linguística
Nesta faculdade, os cursos de Língua Portuguesa seguem um caminho entre os níveis de descrição e análise linguística
ou gramatical: fonologia, morfologia, morfossintaxe, sintaxe e semântica. A esta altura, você já completou todos eles, à
exceção de semântica. Portanto, você já sabe dizer de que fenômenos e que aspectos da língua cada um deles ocupa.
Proponho que você encontre, no material linguístico abaixo, aspectos de interesse de cada um desses níveis (adaptação
de Perini, 1996):
fonologia:
morfologia:
‘Ana despreza Ricardo’ morfossintaxe:
sintaxe:
semântica:
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Não é possível estudar todos os aspectos e componentes de uma gramática ao mesmo tempo. O pesquisador tem de
eleger um fenômeno, olhá-lo pelo ponto de vista de determinado nível e definir um problema de pesquisa. Isso você já
sabia. A questão que proponho é: onde está a semântica em cada um desses níveis?
Por exemplo, em fonologia, você aprendeu que nem todos os sons que o sistema fonador produz constituem fonemas.
Fonemas são as unidades do sistema linguístico capazes de distinguir significados. Por exemplo, a distinção entre as
palavras ‘pata’, ‘bata’, ‘cata’, ‘chata’, ‘data’, ‘gata’, ‘lata’, ‘mata’, ‘nata’, ’pata’, e ‘rata’ se baseia na troca do fonema inicial.
Um experimento sobre reconhecimento de palavras (Ting e Snedeker, 2011) mostrou que a visão (ou audição) do
primeiro pedaço de uma palavra aciona em nossa memória não só aquelas que começam com os mesmos fonemas
(ativadas por associação fonológica), mas também aquelas que estão ligadas às possíveis continuações sonoras pelo
significado (ativadas por associação semântica). Por exemplo, os falantes de inglês participantes do experimento viam
num painel quatro figuras: um tronco (‘log’), uma chave (‘key’), uma maçã (‘apple’) e uma corsa (‘deer’). Quando instruídos
a tocar no tronco, pensavam em cadeado (em inglês ‘lock’), por associação fonológica, e olhavam por mais tempo para
a chave do que para a maçã ou a corsa, por associação semântica. Então a semântica já importa quando ainda estamos
no meio do processamento de uma palavra.
Ilustração retirada de: HUANG, Yi Ting; SNEDEKER, Jesse. Cascading activation across levels
of representation in children's lexical processing. Journal of child language, v. 38, n. 03, p. 644-
661, 2011.
Yee & Sedivy (2006): ouvir uma palavra não só ativa outras
fonologicamente semelhantes, mas também ativa associações
semânticas.
Yee, E. & Sedivy, J. (2006). Eye movements to pictures reveal transient semantic activation
during spoken word recognition. Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory,
and Cognition 32, 1–14.
Um constituinte morfológico, um morfema gramatical, é definido como o fragmento mínimo capaz de expressar significado
ou a menor unidade significativa que se pode identificar. Por exemplo, o prefixo _in é associado à negação (‘incerto’), o
sufixo _(i)dade a estados ou propriedades (‘tranquilidade’) etc.
Até aqui, recordamos que os critérios usados para distinguir unidades fonológicas e morfológicas são semânticos. Em
morfossintaxe, estudamos as relações combinatórias entre as palavras num sintagma e/ou numa frase, como nos
fenômenos de concordância nominal e verbal. À primeira vista, não é evidente como o significado é operacional aí. Mas
há, por exemplo, formas exclusivas, dedicadas, como o pronome ‘eu’, que significa invariavelmente primeira pessoa,
número singular e caso nominativo. Outros pronomes, como ‘você’, podem vir como sujeito ou complemento verbal, por
não terem se especializado num caso só, valendo por nominativo ou por acusativo. As conjunções que ligam orações
num período composto também apresentam significados especializados: por exemplo, ‘mas’, ‘porém’, ‘contudo’,
‘entretanto’ indicam oposição entre as ideias veiculadas pelas orações que ligam. Mas talvez o ângulo mais interessante
para examinar a ligação entre semântica e morfossintaxe seja o de examinar como mecanismos do tipo da concordância
e da marcação de caso estão a serviço da interpretação. Numa sentença como ‘João disse a seu amigo que viu o vizinho
saindo com a sua mulher’ não sabemos se essa mulher é a esposa de João, a do amigo ou a do vizinho, porque o
pronome ‘sua’ pode tomar qualquer desses sintagmas nominais como antecedente. E mais: se essa frase é dita por
Maria a José, o falante (Maria) pode estar se referindo à esposa da pessoa a quem se dirige (José). Entretanto, a dúvida
não se coloca na sentença, dirigida a uma moça, ‘João e Maria disseram a suas amigas que viram o vizinho saindo com
a sua mulher’, em que fica claro que o fato testemunhado foi a saída de um casal de vizinhos, ou seja, que o vizinho saiu
na companhia da própria esposa.
Na sintaxe, a ambiguidade de uma sentença ou de um sintagma é apontada como evidência de que a mesma expressão
tem duas ou mais estruturas subjacentes. Por exemplo, o fato de entendermos de dois jeitos o segmento ‘Eu li a notícia
sobre a greve na faculdade’ mostra que sob essa forma há duas estruturas possíveis. Numa, ‘a greve na faculdade’ está
na função de complemento da preposição ‘sobre’, e a notícia, lida por mim, por exemplo, na sala de espera do dentista,
versa sobre o fato de a faculdade estar em greve. Na outra, o complemento da preposição ‘sobre’ é apenas ‘a greve’, e
‘na faculdade’ é adjunto adverbial, resultando na interpretação de que, enquanto estava no prédio da faculdade, eu li
uma notícia sobre a greve (a dos bancários). O diagnóstico da ambiguidade também indica estruturas distintas
subjacentes à forma ‘os alunos acharam o filme chato’. Numa interpretação, temos um verbo ‘achar’ sinônimo de
https://pt.wikipedia.org/wiki/Significado
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‘encontrar’. Imaginemos que, para passar o tempo, os alunos decidiram ver um filme; havia dois filmes (em DVD)
guardados na sala, um chato e outro divertido. O filme chato foi localizado, só o divertido é que não. Essa leitura provém
de o verbo ter um complemento do tipo sintagma nominal, que faz o papel da coisa encontrada. Em outra interpretação
possível, ‘achar’ é sinônimo de ‘considerar’, e toma uma minioração (um conjunto de sujeito e predicado, sem verbo de
ligação) como complemento. Entendemos daí que, na opinião dos alunos, determinado filme é chato.
Está visto que a semântica desempenha um importante papel em todos os níveis de descrição e análise linguística. No
curso de semântica, em vez de tomar a interpretação e o entendimento que temos de expressões linguísticas como
diagnóstico para fenômenos fonológicos, sintáticos etc., vamos examinar o significado por interesse nele próprio. Mas o
que é significado? Um mistério é: como os falantes de umalíngua se entendem? Uma das faces desse mistério é o
aspecto criativo das línguas naturais (CHOMSKY, 2002:66), que é a nossa capacidade de produzirmos e
compreendermos, sem esforço, expressões linguísticas nunca antes ouvidas. Outro ponto de interesse é o impacto dos
usos da língua sobre a vida em sociedade: se a língua é vista como “um conjunto de práticas sociais e cognitivas
historicamente situadas”, (MARCUSCHI 2005:31), então se pode “agir por meio de palavras”. Como abordar o significado
depende do recorte, e, portanto, da teoria adotada.
II- As escolas, as perguntas-guia e as ferramentas da investigação semântica
Há uma diversidade de escolas ou linhas teóricas para análise semântica. Por vezes, elas se debruçam sobre o
mesmo fenômeno semântico, analisando-o a seu modo. Em outras vezes, a diferença na abordagem cria recortes
diferentes, resultando em objetos de interesse distintos. Vamos examinar um pouco três dessas escolas.
Leitura complementar
PIRES DE OLIVEIRA, Roberta. Capítulo I: Semântica. In: MUSSALIN, Fernanda: BENTES, Anna Christina (orgs.).
Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. Vol 2. São Paulo, Cortez, 2001.
Exercícios
Resolver e entregar as respostas dos “intervalos” do texto, três por aula, aqui copiados para sua conveniência:
Intervalo I: - Diga qual a referência de: (i) a capital da França, (ii) Paris, (iii) Paris é a capital da França.
- Descreva o Rio de Janeiro através de vários sentidos.
Intervalo II: 1. Identifique argumentos e predicados nas sentenças abaixo, segundo Frege:
(a) João é casado com Maria / (b) Maria é brasileira / (c) Oscar é jogador de basquete.
2. A partir dos conceitos de quantificador universal e existencial e da noção de escopo, descreva as sentenças abaixo:
(a) Todo homem é casado com alguma mulher./ (b) Um homem é casado com todas as mulheres / (c) A Maria não dançou só
com o Pedro.
Intervalo III: - Partindo das noções de escopo e operador descreva a ambiguidade da sentença O rei da França não é calvo.
- Determine se há pressuposição na sentença João lamenta a morte do pai e justifique sua resposta.
Intervalo IV: - Descreva as leituras possíveis do enunciado Meu livro não foi reeditado, segundo a Semântica da Enunciação.
- Descreva a ambiguidade da mesma sentença, por meio da noção de escopo da Semântica Formal.
Intervalo V: - O mas de cada sentença é PA ou PN? Justifique.
(1) João não está cansado, mas deprimido. / (2) João foi ao cabelereiro, mas não cortou o cabelo.
- Descreva a negação dos exemplos: (1) O João não saiu./ (2) O céu não está azul.
Intervalo VI - Em termos de valor de verdade, as sentenças abaixo são idênticas. No entanto, do ponto de vista argumentativo, elas
se comportam de forma bem diferente. Procure descrever a contribuição de sentido proporcionada pelo até nas sentenças.
(1) O presidente do Brasil esteve na festa. / (2) Até o presidente do Brasil esteve na festa.
- A partir da análise de pouco e um pouco, reflita sobre o par: (1) João dormiu um pouco. / (2) João dormiu pouco.
Intervalo VII - Descreva as sentenças conforme a Semântica Cognitiva.
(1) Gastei cinco horas para chegar aqui./ (2) Economizei duas horas vindo por este caminho.
- Dê exemplos da metáfora conceitual ARGUMENTAÇÃO É UMA GUERRA.
Intervalo VIII - Mostre que a propriedade “voar” não é nem necessária nem suficiente para que algo pertença à categoria AVE.
- Descreva, a partir do conceito de protótipo, a categoria MÃE.
- Explique por que a sentença A Maria saiu com o seu animal de estimação é uma metonímia.
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A- O olhar da Semântica Formal
A.1- A língua como instrumento de raciocínio e ampliação do conhecimento
A geração de inferências data da Grécia Antiga. Aristóteles via em raciocínios baseados em processos inferenciais
fornecidos pela língua um instrumento de conhecimento científico e filosófico. Por meio de inferência baseadas em
proposições encadeadas, faz-se um processo de raciocínio lógico que gera uma conclusão. Proposições (sentenças
declarativas) são manifestações de juízos sobre propriedades e indivíduos. Partindo de afirmações verdadeiras e de
relações lógicas entre elas, chega-se a novas proposições verdadeiras. Tomando a língua como uma estrutura do
pensamento lógico, capaz de produzir conhecimento, há duas direções de raciocínio: partindo do (mais) particular e
chegando ao (mais) geral, o raciocínio é indutivo; na direção inversa, partindo do (mais) geral para chegar ao (mais)
particular, o raciocínio é dedutivo. O método indutivo é típico das ciências empíricas. Podemos, por exemplo, pensar num
biólogo. Para estudar os macacos bonobos (uma espécie de chimpanzés), esse pesquisador vai até o Congo e fica
observando o comportamento de alguns indivíduos de um certo grupo, por determinado tempo. Ele observa que o bonobo
1 pode andar sobre a terra ou pular de galho em galho, que o bonobo 2 faz a mesma coisa, o bonobo 3 também e assim
sucessivamente. Obviamente, esse biólogo não observou todos os bonobos do mundo, nem os de outros tempos,
aqueles que já morreram ou os que ainda não nasceram. Ainda assim, ele vai generalizar para toda a espécie o
comportamento dos indivíduos observados. Como fruto desse raciocínio indutivo, lemos o seguinte na Wikipedia:
Os bonobos são tanto terrestres como arborícolas. São animais quadrúpedes,
podendo locomover-se de forma bípede quando têm as mãos ocupadas. A espécie
distingue-se por uma postura ereta, uma organização social matriarcal, e o papel
proeminente da atividade sexual em sua sociedade.
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bonobo
O método dedutivo procede de proposições (mais) universais para proposições (mais) particulares, proporcionando o
que chamamos de demonstração, pois que sua inferência (a conclusão que é extraída das premissas) é a inclusão de
um termo menos extenso em outro com maior extensão. O exemplo mais comum é o silogismo: “Todo homem é mortal
(premissa maior); Sócrates é homem (premissa menor); logo, Sócrates é mortal (conclusão)”. Se as premissas são
verdadeiras, a conclusão é inescapavelmente verdadeira. Toda a informação ou conteúdo presente na conclusão já
estava, ao menos implicitamente, nas premissas. Tanto no método indutivo quanto no indutivo, é a estrutura da língua
que cria relações entre sentenças, libertando o pensador de esperar pelos fatos do mundo para que seu conhecimento
avance. Não é preciso passar pela experiência de observar cada bonobo para se saber algo sobre a espécie; nem é
preciso ter testemunhado a morte de Sócrates para saber que ele era mortal.
Exercício 1
Classifique os raciocínios abaixo ou como indutivos ou como dedutivos:
(1) O sol nasceu no último domingo. O sol nasceu ontem. O sol nasceu hoje. Logo, o sol nasce todos os dias.
(2) Tiramos uma amostra do sangue do paciente para examinar. Os testes feitos com ela mostraram que a presença
proporcional de hemoglobina na composição sanguínea está abaixo dos valores de referência. Logo, diagnosticamos
que o paciente está com anemia.
(3) Cada criança colocou seu grão de feijão num potinho vazio e o cobriu com algodão molhado. Mantendo a umidade e
deixando o potinho exposto à luz, depois de alguns dias as crianças observaram que um caule verde cresceu, e foram
projetadas raízes; assim, as crianças concluíram que, em condições apropriadas, todo grão de feijão germina e dá uma
planta.
(4) A receita dizia para levar o bolo ao forno médio por 45min. A massa que eu preparei já está no forno há 44 min.
Portanto, em um minuto meu bolo estará assado
(5) Em 1995, conheci o Gilberto, um paulista antipático. Em 1998, me apresentaram Darcy e Fabíola, dois paulistas muito
antipáticos. Em 2001, trabalhei com Marcela, Plínio,Marta e Nilson, quatro paulistas antipáticos e grosseiros. E ontem
conheci mais um paulista antipático, o Raul. Tenho de concluir que todo paulista é antipático.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Terrestre
https://pt.wikipedia.org/wiki/Arbor%C3%ADcola
https://pt.wikipedia.org/wiki/Quadr%C3%BApede
https://pt.wikipedia.org/wiki/B%C3%ADpede
https://pt.wikipedia.org/wiki/Atividade_sexual
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sociedade
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A.2- A visão aristotélica
Sentenças estabelecem relações entre particulares e categorias. Um particular é um indivíduo existente no mundo, como
Sócrates. Categorias são conjuntos. Os particulares são elementos. As sentenças declarativas afirmam que os
particulares são elementos do conjunto dado pelo predicado.
Sócrates é mortal = s M
Sócrates é um elemento do conjunto dos seres mortais
A capacidade humana de se comunicar pela linguagem envolve julgamentos sobre a verdade de proposições.
Como sabemos o que significa ser mortal, podemos decidir que elementos pertencem ao conjunto dos seres mortais e
quais não pertencem. Isso nos permite afirmar muitas coisas:
- Sabemos que a sentença ‘A carpa é mortal’ é verdadeira por podermos decidir quais são os elementos do conjunto
dos mortais; dado entendermos o critério (só viventes podem morrer), julgamos que c M.
- Sabemos que a sentença ‘O garfo é mortal’ é falsa por podermos decidir quais são os elementos do conjunto dos
mortais; dado entendermos o critério (só viventes podem morrer), julgamos g M.
- Uma sentença negativa significa que afirmamos que o particular está fora do conjunto. Assim, sabemos que a
sentença ‘O garfo não é mortal’ é verdadeira por julgarmos g M.
Nessa visão, a estrutura mais transparente das sentenças é sujeito + verbo de ligação + predicado nominal:
Sócrates é mortal
nome do
elemento
relação de pertencimento (positiva ou negativa) nome do
conjunto
As sentenças com predicado verbal são menos transparentes e precisam ser reanalisadas:
‘Sócrates corre’ é uma abreviação para ‘Sócrates é um corredor’.
Sócrates corre
Sócrates é alguém que corre
Sócrates é um corredor
nome do
elemento
relação de pertencimento (positiva ou negativa) nome do
conjunto
.......................................................
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B
Exercício 2
Represente na anotação de conjuntos as sentenças abaixo.
(1) Ana é professora.
(1) Ana ensina.
(3) Ana é paulista.
(4) Ana não é carioca.
(5) Ana é brasileira.
(6) Ana está na Ilha do Fundão.
(7) Ana está no Rio de Janeiro.
(8) Ana é mulher.
(9) Ana é gente.
(10) Ana é mortal.
As relações entre as sentenças podem ser expressas como relações entre conjuntos. Primeiramente, as verdades de
todas as sentenças de (1) a (10) são compatíveis, isto é, Ana pode pertencer a diversos conjuntos ao mesmo tempo.
Vamos relacionar (1) a (2). Todos os elementos do conjunto designado por professora pertencem necessariamente ao
conjunto designado por ‘ensina’, desde que professor e “ensinante” sejam considerados a mesma coisa. Assim, se eu
julgo (1) verdadeira, necessariamente vou julgar (2) verdadeira; se uma for falsa, as duas são falsas. Isso porque as duas
afirmam a mesma coisa: que certo particular, Ana, é elemento de certo conjunto, o dos ensinantes ou professores.
Dizemos que uma sentença acarreta outra quando, se a primeira for verdadeira, a segunda necessariamente tiver de ser
verdadeira. Podemos dizer que (1) acarreta (2), pois, assumindo a verdade de (1), teremos de tomar (2) como verdadeira.
Inversamente, se partirmos da ideia de que (2) é verdadeira, necessariamente julgaremos (1) como verdadeira. Nesse
caso, dizemos que temos duplo acarretamento entre as sentenças (1) e (2). Podemos entender duplo acarretamento
como formas diferentes de expressar a mesma verdade, ou seja, a mesma relação entre um elemento e um conjunto.
Agora vamos relacionar (3) a (4). Sabemos que não é possível para uma pessoa nascer em dois lugares diferentes. Ou
bem Ana nasceu no Rio, ou bem nasceu em São Paulo. Portanto, assumindo a verdade de (3), tem de ser falso que Ana
tenha nascido em qualquer outro lugar, o que significa que (3) acarreta (4). Isso significa que sabemos que quem nasceu
no Rio não pode pertencer ao conjunto dos que nasceram em São Paulo.
Consideremos agora (3) e (5). São Paulo é um pedaço do Brasil, ou seja, o conjunto dos paulistanos é parte do conjunto
dos brasileiros. Não é possível pertencer ao subconjunto, o conjunto interno, sem pertencer ao superconjunto, o maior,
em que ele está contido. Logo, (3) acarreta (5). Por que (5) não acarreta (3)? Por que é possível estar dentro do conjunto
dos brasileiros e ainda assim fora do conjunto dos paulistas. Baianos são brasileiros, mas não são paulistas. Isso indica
que o acarretamento acontece do mais geral (superconjunto, hiperônimo) para o mais particular (subconjunto, hipônimo).
Essa direção do acarretamento pode ser verificada pela relação entre (6) e (7). A Ilha do Fundão é uma parte do Rio, ou
seja, o conjunto daqueles que estão na Ilha do Fundão está contido no conjunto daqueles que estão no Rio. Se Ana é
elemento do conjunto menor, tem de ser elemento do maior, que o contém. Assim, (6) acarreta (7). Mas (7) não acarreta
(6). Isso porque alguém pode estar no Rio mas não no Fundão. É o caso da pessoa que está em Ipanema, por exemplo.
Também verificamos a direção do acarretamento em subconjuntos ligando (8) a (9) e a (10). Sabemos que toda mulher
é gente. Logo, o conjunto das mulheres está contido no das pessoas. Sabemos também que toda gente é mortal. Logo,
o conjunto das pessoas está contido no conjunto dos seres mortais. Assim, (8) acarreta (9) e (8) também acarreta (10);
além disso, (9) acarreta (10). Mas (10) não acarreta (9), pois há seres mortais que não são gente, como a carpa, por
exemplo. Nem (9) acarreta (8), pois há pessoas que não são mulheres.
Uma linguagem formal, como a matemática conjuntística, pode ser adotada como metalinguagem semântica para evitar
a ambiguidade das línguas naturais. A anotação dos conjuntos é um dos exemplos da formalização em semântica. Vimos
que mais de uma sentença pode expressar uma mesma relação entre certo particular e certo conjunto, o que vai se
manifestar no fato de as condições de verdade serem as mesmas para essas duas (ou mais) sentenças distintas.
Vejamos, por exemplo, como representar em forma de relações entre conjuntos algumas estruturas sentenciais:
(i) Todo A é B
A
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(ii) Nenhum A é B
(iii) Algum A é B ---------------------------------------------
Exercícios 3
Desenhe, usando diagramas circulares para conjuntos/classes e pontinhos para elementos/particulares, as relações
descritas por cada sentença. Depois, diga se o silogismo é válido ou não (ou seja, se, considerando a premissa 1 e a
premissa 2 verdadeiras, é inescapável a verdade da sentença dada como conclusão).
Premissa 1 Todo metal é matéria.
Premissa 2 Todo ferro é metal.
Premissa 1 Nenhum mamífero é pássaro.
Premissa 2 Algum mamífero é animal que voa
Conclusão Todo ferro é matéria. Conclusão Algum pássaro é animal que voa.
Premissa 1 Alguns sapos são venenosos.
Premissa 2 Alguns peixes são venenosos.
Premissa 1 Todo peixe nada.
Premissa 2 A baleia nada.
Conclusão Alguns sapos são peixes.Conclusão A baleia é um peixe.
Premissa 1 Schwarzenegger é australiano.
Premissa 2 Estrangeiros não podem concorrer a cargos públicos nos EUA.
Conclusão Schwarzenegger nunca foi governador da Califórnia.
Agora que já sabemos como verificar se um raciocínio lógico é válido, vamos nos concentrar em como demonstrações
estão ligadas a uma concepção de língua. Para checarmos se, dadas a verdade da premissa 1, e da premissa 2, a
conclusão tem de ser verdadeira, precisamos assumir uma semântica veridicacional /denotacional para a sentença.
Precisamos assumir que a verdade de uma sentença pode ser determinada pela sua adequação para representar nosso
juízo sobre um estado de coisas. Não se trata de um juízo pessoal, mas de um mesmo juízo para todos os falantes. A
compreensão do significado de uma sentença envolve e afeta a compreensão de outras expressões linguísticas. Isso
significa enxergar uma estrutura lógica nas línguas naturais que confira às sentenças condições de verdade.
Exercícios 4
Verifique se a primeira sentença do par acarreta ou não a segunda. Se a resposta for não, descreva pelo menos uma
situação em que a primeira sentença seja verdadeira e a segunda, falsa:
(1) a. A carta chegou hoje de manhã.
b. A carta chegou hoje.
(2) a. Maria é irmã de João.
b. João é irmão de Maria.
(3) a. O copo caiu.
b. O copo quebrou.
(4) a. Está fazendo sol.
b. Está chovendo.
Verifique se a primeira sentença do par contraria ou não a segunda. Se a resposta for não, descreva pelo menos uma
situação em que a primeira sentença seja verdadeira e a segunda também:
(1) a. A carta não chegou hoje de manhã.
b. A carta chegou hoje de tarde.
(2) a. Maria é casada.
b. Maria é solteira.
(3) a. O copo não caiu.
b. O copo não quebrou.
(4) a. Está fazendo sol.
b. Não está fazendo sol.
A
B
A B
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A.3- Julgamentos de valor de verdade
Ele está nadando? A Semântica Formal se ocupa de como temos uma resposta para casa situação (foto).
A.4- Pressuposição
Vamos considerar uma palavra: ‘inventar’. Em que situações podemos usá-la? Vejamos:
(1) a. Santos Dumont inventou o avião em 1906, com o 14 bis.
b. Graham Bell inventou o telefone em 1876.
Tomando as sentenças (1) como verdadeiras, temos de aceitar que não existiam aviões antes de 1906, nem existiam
telefones antes de 1876. ‘Inventar’ significa criar o que ainda não existe, e que passará a existir pela primeira vez.
Dizemos que ‘inventar’ pressupõe que a referência de seu complemento esteja existindo pela primeira vez. Por exemplo,
os norte-americanos diriam que (1a) é falsa, porque os irmãos Wright realizaram um voo antes, em 1903. Brasileiros
afirmam que o voo dos irmãos Wright não conta, porque foi catapultado. Quer dizer, para os americanos, o avião não foi
inventado em 1906 porque já existia em 1903; para os brasileiros, o avião propriamente dito não existia antes de 1906.
A briga pela glória de ser o país inventor do avião gira em torno de definir a data correta do início de sua existência. E o
telefone? Bell teve oportunidade de ver a invenção do professor italiano Antonio Meucce em 1856, e pode comprar os
direitos dele em 1870. Os escoceses e os italianos discordam sobre quem inventou o telefone. A briga é sobre a data
em que aquilo que se entende por telefone começou a existir. Logo, inventar é dar existência a alguma coisa. Se trocamos
o verbo ‘inventar’ por outro, a disputa entre americanos e brasileiros, sobre o avião, e entre italianos e escoceses, sobre
o telefone, desaparece:
(1) c. Santos Dumont usou o avião em 1906, com o 14 bis.
d. Graham Bell patenteou o telefone em 1876.
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Certamente todos os nacionalistas estarão de acordo com as sentenças (1c) e (1d), porque os verbos usados aí não
pressupõem que o avião e o telefone passaram a existir nesse momento. Quem acha que já existiam antes não terá
problema com essas sentenças. ‘Usar’ e ‘patentear’ não carregam a pressuposição de que os objetos usados e
patenteados nunca existiram antes, mas ‘inventar’ carrega sim a pressuposição de que os objetos inventados nunca
existiram antes de sua invenção. Observe que as sentenças (1a) e (1b) não trazem as palavras “o objeto inventado não
existia antes”, mas mesmo não estando expresso, esse significado está preso ao verbo ‘inventar’, é parte do seu
significado, e não pode ser separado desse verbo.
Vamos considerar agora a palavra: ‘descobrir’. Vocês concordam com a afirmação em (2)?
(2) O Brasil foi descoberto em 22 de abril de 1500 por Pedro Álvares Cabral.
O Descobrimento do Brasil (tela de Oscar Pereira da Silva)
Por que não estamos de acordo com (2)?
Como pode o Brasil ter sido descoberto em 1500, se antes
da chegada dos portugueses, e desde milhares de anos
antes, já havia milhões de indígenas habitando as terras
brasileiras? As histórias oficiais/ escolares portuguesa e a
brasileira afirmam (2) por etnocentrismo. Há outras formas
de contar o que aconteceu nessa data que não ofendem os
indígenas:
(2) b. O Brasil foi dominado em 22 de abril de 1500 por
Pedro Álvares Cabral.
c. O Brasil foi invadido em 22 de abril de 1500 por
Pedro Álvares Cabral.
d. Os portugueses, liderados por Pedro Álvares
Cabral, chegaram ao Brasil pela primeira vez em 22 de
abril de 1500.
Qual a diferença entre (2a) e as outras sentenças (2)? O verbo ‘descobrir’ pressupõe que não existia aquilo que foi
descoberto. Mas ‘dominar’, ‘invadir’ e ‘chegar’ não carregam essa pressuposição. Vejamos mais alguns exemplos:
(3) a. João descobriu que hoje é o aniversário de Pedro.
b. Maria descobriu que está grávida.
c. Cientistas descobriram a cura para a AIDS.
d. A roda foi descoberta pela humanidade antes de 3.500 a.C.
e. A pólvora foi descoberta no Século I, na China, por acidente: os alquimistas misturaram certos materiais
procurando pelo elixir da longa vida.
Os exemplos em (3) mostram que ‘descobrir’ traz a pressuposição de que não se sabia da existência do referente do
sintagma nominal complemento até o momento da descoberta. Em (3a), foi surpresa para João que Pedro fazia
aniversário naquele dia; em (3b), foi surpresa para Maria que ela tinha engravidado; de (3c), entende-se que a doença
não tinha cura até o momento; (3d) afirma que houve um tempo em que os seres humanos não usavam rodas, até que
ela fosse inventada; e (3e) diz que não havia pólvora antes do Século I. Vejam como essas interpretações desaparecem
se usamos outro verbo no lugar de ‘descobrir’:
(4) a. João ouviu dizer que hoje é o aniversário de Pedro.
b. Maria me contou que está grávida.
c. Cientistas administram a cura para a AIDS.
d. A roda foi usada pela humanidade antes de 3.500 a.C.
e. A pólvora apareceu no Século I, na China, por acidente: os alquimistas misturaram certos materiais procurando
pelo elixir da longa vida.
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A.5- Distinguindo entre acarretamento e pressuposição
Tanto acarretamento quanto pressuposição são significados capturados pelo ouvinte sem que tenham sido ditos
abertamente, mas são tipos distintos um do outro. A noção de acarretamento não envolve o contexto, mas se limita à
relação entre a verdade/ falsidade de duas sentenças. A noção de pressuposição envolve as suas condições de uso, a
relação com o discurso. O conteúdo pressuposto não pode ser debatido ou questionado pelo ouvinte que aceita
prosseguir com a conversa de que faz parte a sentença. O único jeito de rejeitar a pressuposição é quebrar a continuidade
dessa conversa. O falante escolhe usar uma expressão na construção da sentença, em vez de outra com significado
semelhante, por quererincluir a pressuposição no que está dizendo. A informação pressuposta é condição de emprego
da oração que a pressupõe. Há uma expressão linguística, chamada de gatilho da pressuposição, que é quem contribui
com esse conteúdo pressuposto. Enquanto o gatilho estiver presente, a sentença continuará vinculada àquela
pressuposição, mesmo que seu valor de verdade seja suspenso ou alterado. Vamos examinar alguns dados:
(5) Maria comeu duas pizzas acarreta...
a. Alguém comeu duas pizzas.
b. Maria fez alguma coisa com as duas pizzas.
c. Maria comeu duas unidades de alguma coisa.
d. Algo ocorreu.
Se o interlocutor discordar da verdade de (5), ele pode negá-la, dizendo: Você está errado, Maria não comeu duas
pizzas, comeu uma só; ou Maria não comeu duas pizzas, comeu dois pasteis; ou Maria não comeu duas
pizzas, Pedro comeu duas pizzas. Nenhuma dessas novas sentenças acarreta (5a, 5b, 5c, 5d). Por quê? Porque a
negação de uma sentença P (~P ou P) muda o valor de verdade dela para o seu contrário: sempre que P = V, ~P = F;
sempre que P = F, ~P = V.
Há maneiras diferentes de construir (5), usando clivagem (ensanduichando um constituinte entre o verbo ‘ser’
flexionado e a conjunção ‘que’):
(6) a. Foi a Maria que comeu as duas pizzas. (e não o João)
b. Foi comer o que a Maria fez com as duas pizzas. (e não vender)
c. Foram duas as pizzas que Maria comeu. (e não quatro)
d. Foram as duas pizzas que Maria comeu. (e não os três bifes)
e. O que aconteceu foi que Maria comeu duas pizzas. (e não que ela quebrou o braço.)
Por que alguém usaria as construções de (6) em lugar de (5)? Ao que parece, em (6) temos alguma polêmica ou
discussão. Há dúvida ou desacordo sobre a identidade do comedor das duas pizzas (6a), ou sobre o que Maria fez deles
(dar, jogar fora, congelar, comer...) (6b), ou sobre quantas eram (6c), ou sobre o que Maria consumiu (uma lasanha, duas
maçãs, três amendoins...) (6d), ou sobre que acontecimento ou ocorrência está em debate (6e). Já (5) não está associado
a polêmica ou discórdia alguma. Aquilo sobre o qual há discórdia ou debate em (6) é o constituinte clivado. O resto da
sentença é dado como certo, não passível de discussão, ou seja, é aceito tacitamente como fato pelos falantes. Ou seja,
o material a direita do ‘que’ numa construção clivada tem sua existência ou verdade pressuposta.
Pergunta: (6a) acarreta (5a)?
Sim. Se for verdade que ‘Foi a Maria que comeu as duas pizzas’, será necessariamente verdade que ‘Alguém
comeu as duas pizzas’. Mas há uma diferença crucial na relação entre (5) e (5a), quando comparada à relação entre
(6a) e (5a): a negação de (5) não acarreta (5a). Vejamos:
Se de fato Maria não comeu as duas pizzas, não será necessariamente verdade que alguém comeu as duas pizzas.
O acarretamento não se mantém se mexemos na verdade da primeira sentença. Agora examinemos como a negação
de (6a) afeta sua relação com (5a): assumindo que ‘Não foi Maria que(m) comeu as duas pizzas’, continua sendo
necessariamente verdade que ‘Alguém comeu as duas pizzas’. A ligação entre (6a) e (5a) não depende da verdade
de (6a). A clivagem obriga a assumir como verdadeira (5a). A negação inverteu o valor de verdade de (6a) sem que
pudéssemos deixar de considerar (5a) como verdadeira.
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Vejamos outras situações em que o valor de verdade de (6a) fica suspenso:
- Interrogação (perguntas podem receber resposta positiva ou negativa)
(7) Foi Maria quem comeu as duas pizzas?
Para fazer a pergunta em (7), o falante ainda precisa considerar que alguém comeu as duas pizzas, ou seja, (6a) continua
verdadeiro.
- Condicional (hipotético: não se assume o antecedente como factual, há incerteza ou se dá alternativas à realidade)
(8) Se foi Maria quem comeu as duas pizzas, então ela saiu da dieta.
(8’) Caso tenha sido Maria quem comeu as duas pizzas, então vamos fazer com que seja ela a pagar a conta.
Para dizer a condicional em (8), o falante ainda precisa considerar que alguém comeu as duas pizzas, ou seja, (6a)
continua verdadeiro.
Os exemplos da negação, da interrogação e da condicional estabelecem que a relação entre o conteúdo proposicional
de (6a) e (5a) não depende do valor de verdade da primeira sentença, mas é desencadeado pela presença da clivagem.
Enquanto a construção for uma clivagem, será preciso assumir (6a); dizemos então que (6a) pressupõe (5a), e que a
clivagem é o gatilho da pressuposição. Observe que o falante tem a escolha de expressar-se usando clivagem (6a) ou
não (5). Ao decidir usar (6a) em lugar de (5), ele está escolhendo trazer o conteúdo de (5a) como pressuposição, como
algo que o seu interlocutor não pode cancelar.
Exercícios:
Verifique se a primeira sentença do par pressupõe ou não a segunda, suspendendo a verdade da primeira sentença e
mantendo seu conteúdo proposicional:
(i) a. Foi comer o que a Maria fez com as duas pizzas.
b. Maria fez alguma coisa com as duas pizzas.
(ii) a. Foram duas as pizzas que Maria comeu.
b. Maria comeu duas unidades de alguma coisa.
(iii) a. O que aconteceu foi que Maria comeu duas pizzas.
b. Algo ocorreu.
Gatilhos de pressuposição
(9) a. João parou de fumar pressupõe que __________________________________________
b. João continua fumando pressupõe que ________________________________________
c. João começou a fumar pressupõe que ________________________________________
Os verbos acima operam sobre uma das fases de um processo (início, meio ou fim); eles pressupõem a existência desse
processo. É impossível não assumir o processo como verdade quando um desses verbos é usado. Por exemplo, afirmar
que ‘Pedro parou de bater na mulher’ estabelece que ele batia na mulher. Perguntar ‘Quando foi que você parou
de cheirar cocaína’ estabelece que o interlocutor fumava cocaína. E não adianta só negar: quem responder ‘Eu não
parei de cheirar cocaína’ não conseguirá se livrar da acusação de ter cheirado cocaína por algum tempo. Será preciso
cortar a conversa de outro jeito, mais contundente: ‘Pera aí! O quê disse? Eu nunca cheirei cocaína na minha vida,
pare de falar bobagem!’.
(10) Bin Laden (não) morreu. (pressupõe: ele vivia)
Fonte: semântica do verbo (só viventes podem morrer)
(11) Luís (não) voltou a beber. (pressupõe: ele bebia e tinha parado)
Fonte: voltar a, recomeçar a, reatar com etc. significam que isso já foi feito antes
(12) Eu percebi que estava sem dinheiro. (pressupõe: eu estava sem dinheiro)
Fonte: perceber que, descobrir que, dar-se conta de, saber que tomam fatos como argumento interno
(13) Estou feliz por você ter vindo. (pressupõe: você veio)
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Fonte: expressões da reação emocional de um falante a um acontecimento tomam como argumento interno um fato.
Assim é com ‘Lamento que Pedro tenha sido demitido’, ‘Sinto muito pela morte de seu gato’, ‘Adorei sua visita’, ‘Não
gostei de ele ter telefonado pra casa a essa hora’, ‘Detestei o fim do filme’ etc.
(14)a. Quando você terminou seu doutorado? (pressupõe: você terminou seu doutorado)
b. Onde você comprou esse vestido? (pressupõe: você comprou esse vestido)
c. Por que João parou de fumar? (pressupõe: João parou de fumar)
d. Pra que você quer um carro? (pressupõe: você quer um carro)
e. Quando João chegou, eu estava em casa. (pressupõe que João chegou e que eu estava em casa)
f. Sempre que João sai, Maria dorme. (pressupõe que João sai e afirma que Maria dorme)
g. Estudei a fim de passar na prova. (pressupõe: estudei)
Fonte: adjuntos adverbiais exprimem “circunstâncias” (local, tempo etc.) de um acontecimento (evento), por isso seu
uso assume que esse acontecimento é fato. Vale para subordinadas adverbiais.
Pressuposições desencadeadas ou subordinadastemporais
(15) P a. Maria já estava dormindo quando José chegou.
a'. Maria ainda não estava dormindo quando José chegou.
a''. Maria já estava dormindo quando José chegou?
a'''. Se Maria já estava dormindo quando José chegou, então Maria dorme cedo.
Q. José chegou. (P pressupõe Q)
(16) Se eu fosse rica, moraria no Leblon. (pressupõe: eu não sou rica)
Fonte: condicionais apresentam como “antecedente” (a parte entre ‘se’ e ‘então’) uma fantasia, uma hipótese, que, caso
se realizasse, teria certamente como consequência a segunda parte, a que viria depois de ‘então’, conhecida como
“consequente”. Normalmente os antecedentes apresentam uma situação alternativa à realidade, portanto, algo que não
é um fato.
Pressuposições desencadeadas por comparativas
(17) P a. Ele está bem mais pobre do que eu.
a'. É ele quem está bem mais pobre do que eu.
a’’. Ele está bem mais pobre do que eu?
á’’. Se ele está bem mais pobre do que eu, ele não ter como pagar a dívida.
Q. Eu estou pobre (P pressupõe Q)
(18) Porto Alegre é bem mais longe do Rio que São Paulo pressupõe _______________________
Predicados factivos: certos predicados só podem ocorrer com complementos associados a um valor de verdade:
(19) a. Maria descobriu/ pediu/ quis saber/ sabe o meu número de telefone.
b. *Maria acredita em/ duvida de/ assume/ comprova o meu número de telefone.
c. *O meu número de telefone é verdadeiro / falso.
d. Maria acredita em / duvida de/ assume/ comprova a minha história.
e. A minha história é verdadeira / falsa.
f. Alice descobriu a que horas o metrô para de funcionar.
g. *Alice assume/ rechaça/ lamenta a que horas o metrô para de funcionar.
h. O fato de o metro parar de funcionar às 23h incomoda Maria.
i. *O fato de o metro parar de funcionar às 23h é verdadeiro/é falso.
Gatilhos são expressões linguísticas que acionam conteúdos pressupostos; se o falante não quer veicular
esses conteúdos, precisa deixar de lado os gatilhos, usando formas alternativas, equivalente ou sinônimas,
que não constituam gatilhos pressuposicionais, para se expressar.
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Existem sentenças entre as quais há tanto acarretamento quanto pressuposição:
(20)Q: Foi João quem escreveu o livro.
P: Alguém escreveu o livro.
Q acarreta P e Q pressupõe P
Existem sentenças entre as quais há acarretamento, mas não pressuposição:
(21)Q: João ama Maria.
P: Maria é amada por João.
Q acarreta P mas Q não pressupõe P
Existem sentenças entre as quais há pressuposição, mas não há acarretamento:
(22)Q: Antes de sair, João checou se a janela estava fechada.
P: A janela estava fechada.
Embora Q não acarrete P, Q pressupõe P
O acarretamento e a contrariedade dependem do valor de verdade da primeira sentença;
Já a pressuposição, não. A pressuposição é gerada pela presença do gatilho no discurso.
Exercícios:
Indique o conteúdo pressuposto e seu gatilho nas sentenças:
(1) Cristiano Ronaldo lançou seu filme em Londres.
(2) Foi a mesma equipe responsável pelos filmes de Senna e Amy Winehouse que cuidou do documentário estrelado por
Cristiano Ronaldo.
(3) A diretora de uma escola salvou 58 crianças do desastre em Mariana.
(4) Lima Duarte virou editor do Meia Hora por um dia.
(5) Ator revelou que gostaria que seu personagem de “I love Paraisópolis” se casasse.
(6) Por que você comeu o meu doce?
(7) Morte de menino de 7 anos foi confirmada em Mariana.
(8) A Apple vai continuar revistando a bolsa de funcionários, diz Justiça dos EUA.
(9) Do underground ao palco principal, as drag queens conquistam espaço na cena cultural de BH.
(10) Os conservadores vencem na Croácia.
(11) Neymar disse: “Estou feliz pelos gols”.
(12) Os moradores tentam recuperar seus pertences após a tragédia em Minas.
(13) Aguerrilha colombiana do ELN disse estar disposta a libertar seus sequestrados.
(14) Jennifer Lawrence esclareceu que sempre lava as mãos após usar o banheiro e postou um vídeo zoando rumores
(15) Houve dois novos ataques com faca em Jerusalém.
(16) Cunha disse que vai provar que não mentiu na CPI da Petrobras.
A.6- Frege: Sentido e Referência
Se alguém lhe disser: ‘foi feito um filme com o melhor jogador de futebol todos os tempos’, você vai entender
que o filme é sobre... Cristiano Ronaldo, Pelé, Messi, Maradona, Neymar, Figo, Garrincha, Zidane, Roberto Baggio ou
outro? Será que todos os seus colegas vão achar a mesma coisa?
Nos anos de chumbo, qualquer crítica ao governo estava proibida. Para escapar
à fúria dos censores, que viravam do avesso qualquer obra sua, Chico criou a
personagem Julinho da Adelaide, um sambista ingênuo do morro. Canções
assinadas por Julinho da Adelaide passavam facilmente pelo crivo da censura.
Só na época da abertura política viria a público que Julinho da Adelaide e Chico
Buarque de Holanda eram a mesma pessoa.
https://br.noticias.yahoo.com/diretora-escola-salva-58-crian%C3%A7as-desastre-em-mariana-155621264--finance.html
http://www.tecmundo.com.br/apple/89104-apple-continuar-revistando-bolsa-funcionarios-diz-justica-eua.htm?ref=yfp
http://divirta-se.uai.com.br/app/noticia/arte-e-livros/2015/10/11/noticia_arte_e_livros,172829/do-underground-ao-palco-principal-drag-queens-conquistam-espaco-na-ce.shtml?ref=yfp
https://br.noticias.yahoo.com/video/conservadores-vencem-na-cro%C3%A1cia-012917896.html
https://esportes.yahoo.com/noticias/neymar-estou-feliz-pelos-gols-194645104.html
https://br.noticias.yahoo.com/video/moradores-tentam-recuperar-pertences-ap%C3%B3s-023956040.html
https://br.noticias.yahoo.com/video/guerrilha-colombiana-eln-disposta-libertar-225454110.html
https://br.noticias.yahoo.com/video/dois-novos-ataques-com-faca-131500000.html
https://br.noticias.yahoo.com/cunha-diz-que-vai-provar-que-n%C3%A3o-mentiu-na-cpi-da-petrobras-110710646.html
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(1) Julinho da Adelaide é autor de “Acorda Amor”. (sucesso da MPB de 1974)
(2) Na década de 70, as músicas de Chico Buarque eram censuradas, mas as de Julinho da Adelaide passavam pelos
censores.
(3) Mario Prata entrevistou Julinho da Adelaide em 1970 e afirmou que Julinho, ao contrário do Chico, não era tímido.
(4) O Chico já havia topado e marcado [a entrevista] para aquela noite na casa dos pais dele, na rua Buri. Chico subiu.
Quando desceu, não era mais o Chico. Era o Julinho.
(5) Chico Buarque era Julinho da Adelaide. (mesma referência)
O que acontece quando há substituição de um nome pelo outro?
(1a) Chico Buarque é autor de “Acorda Amor”. (sucesso da MPB de 1974)
(2a)# Na década de 70, as músicas de Julinho da Adelaide eram censuradas, mas as de Julinho da Adelaide
passavam pelos censores.
(3a) #Mario Prata afirmou que Chico, ao contrário do Chico, não era tímido.
(4a) #Quando [Chico] desceu, não era mais o Julinho. Era o Julinho.
(5a) Julinho da Adelaide era Chico Buarque. (mesma referência)
(5b) #Julinho da Adelaide era Julinho da Adelaide.
Por que não se pode trocar Julinho da Adelaide por Chico Buarque em qualquer contexto, com o mesmo efeito, se
estamos tratando da mesma pessoa? Os censores que deixavam passar as músicas de Julinho mas não as de Chico
se comportariam do mesmo modo se soubessem que se tratava do mesmo compositor?
Dois tipos de equativa: identificacional (mesma referência, como (5)) e predicativa (6):
(6) Chico é um compositor popular.
Mesma referência, sentidos diferentes:
(i)
Para que sentido/conceito?
Sentido 1 de ‘o presidente do Brasil’ = “Chefe de Estado da República do Brasil” (qualquer das opções acima)
Sentido 2 de ‘o presidente do Brasil’ = “pessoa eleita para exercer mandato no Poder Executivo” (exclui Figueiredo
(ii) [[ Está nevando no Rio]] e [[ Eunasci hoje]] têm como referência a FALSIDADE
tanto para x(x – 4) = 0 quanto para x2 – 4x = 0, x =2
(iii) {x | é um bípede naturalmente desprovido de penas} = {x | é um animal racional}
(iv) A estrela d’alva é a estrela Vésper.
Diversos sentidos para a mesma referência: Lula é ...
... o presidenciável com maior intenção de voto para 2018 (IBOPE)
... a versão piorada do São Jorge do Bordel (José Tomaz)
... o chefe do petrolão (Ronaldo Caiado)
... o trigésimo quinto presidente do Brasil
... o pai de Fábio Lula da Silva, Luís Cláudio, Marcos Cláudio Lula da Silva, Lurian Cordeiro Lula da Silva e Sandro Luís
... o líder operário do ABC paulista
... o dono de 27 títulos de doutor Honoris Causa
...o candidato que não tem competência nem pra falar português direito, quanto mais pra governar
...o torcedor mais fanático do Corinthians
https://www.google.com.br/search?biw=1536&bih=758&q=luis+claudio&stick=H4sIAAAAAAAAAOPgE-LQz9U3KEi2LFTiArGyTMssTdK0pLKTrfQLUvMLclKBVFFxfp5VckZmTkpRah4ASDtjPDQAAAA&sa=X&ved=0CI8BEJsTKAIwGmoVChMIidLfgoWHyQIVRQ6QCh0hMAFX
https://www.google.com.br/search?biw=1536&bih=758&q=sandro+luis&stick=H4sIAAAAAAAAAOPgE-LQz9U3KEi2LFTiArGyTMssTUq0pLKTrfQLUvMLclKBVFFxfp5VckZmTkpRah4ABQSkfDQAAAA&sa=X&ved=0CJIBEJsTKAUwGmoVChMIidLfgoWHyQIVRQ6QCh0hMAFX
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...o sapo barbudo
...o político de 9 dedos que rouba mais do que os que tem 10
... o palestrante que proferiu a conferência de abertura do CLACSO (Conselho Latino-americano de Ciências Sociais,
órgão deliberativo da ONU) em 2015
Exercícios:
A - Dê dois sentidos/conceitos para a mesma referência:
(a) Dilma; (b) Rio de Janeiro; (c) UFRJ
B - Dê a referência comum às intensões / aos conceitos:
(a) revolução de 1964, golpe militar
(b) maior mamífero do planeta, gigante do mar, animal dentro do qual o profeta Jonas viveu
(c) uma compulsiva colecionadora de jóias, a filha famosa de Sara Viola Rosemond Warmbrodt, a agraciada de 2001
com a medalha Presidential Citizens Medal, a atriz principal de Cleópatra (1963), uma grande amiga do cantor pop
Michael Jackson, a esposa de Richard Burton.
O problema do valor de verdade em sentenças encaixadas:
(7) a. Édipo queria desposar Jocasta.
b. Jocasta era a mãe de Édipo.
c. Édipo queria desposar sua mãe.
Tem algo de errado com (7c), apesar de aceitarmos (7a) e (7b) como verdadeiras, já que Édipo não sabia que Jocasta
era a sua mãe. Enquanto a referência de expressões como ‘Jocasta’ ou ‘o trigésimo quinto presidente do Brasil’ são o
indivíduo para que cada uma delas aponta no mundo, a referência de uma sentença declarativa é o seu valor de
verdade, falso ou verdadeiro. Assim, a referência de (7a) e a de (7b) são a verdade. Mas, como (7c) não parece ser
uma descrição justa daquilo que Édipo desejava, não sabemos qual a sua referência. Vejamos um par de sentenças:
(8) a. O Papai Noel vai trazer uma bicicleta para Jorginho.
b. Jorginho acredita que o Papai Noel vai lhe trazer uma bicicleta.
As pessoas que não acreditam em papai Noel tenderiam a dizer que (8a) é uma sentença falsa (porque são os pais de
Jorginho que vão lhe dar uma bicicleta no Natal, não o bom velhinho), mas e quanto a (8b)? Não parece tão fácil dizer
que a sentença é falsa em decorrência de não ser o Papai Noel quem de fato traz o presente. Se Jorginho realmente
acredita que a bicicleta vem de Papai Noel, tendemos a dar (8b) como verdadeira. Isso indica que a verdade de uma
sentença complexa não depende da verdade da oração interna, da encaixada (o complemento de ‘acreditar’). Estamos
diante de um contexto opaco: entendemos a ideia da oração encaixada, mas não exigimos que seja verdadeira,
bastando que ela represente uma crença de Jorginho para que toda a (8b) seja verdadeira. Ou seja: a oração
encaixada, a parte que vem depois da conjunção ‘que’, ‘o Papai Noel vai lhe trazer uma bicicleta’, tem sentido, mas não
tem referência. Para Frege, ‘Papai Noel’ é uma expressão sem referência, pois não aponta para nenhum indivíduo
existente no mundo, mas tem sentido, pois sabemos bem qual figura o representa entre as opções abaixo:
Ao separar sentido de referência, Frege cria o conceito de “expressão saturada”. ‘Chico Buarque’ é uma expressão
saturada, pois tem sentido (o conceito, a ideia que temos desse indivíduo) e referência (aponta para uma pessoa no
mundo). Já ‘Saci Pererê’ tem sentido (menino pretinho de uma perna só e barrete vermelho que faz diabruras), mas não
http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Presidential_Citizens_Medal&action=edit&redlink=1
http://pt.wikipedia.org/wiki/Michael_Jackson
http://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Burton
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têm referência (não aponta para ninguém no mundo real). Toda sentença tem sentido. Para chegarmos à referência de
uma sentença, precisamos fazer com que os argumentos, que são as expressões saturadas, saturem os predicados,
que só têm sentido, mas não referência (predicados são insaturados). Por exemplo, ‘correr’ não aponta para nada no
mundo, mas sabemos que ideia é essa: é um movimento veloz sobre superfície terrestre, diferente de andar ou nadar ou
voar. ‘Correr’ é, como todo e qualquer predicado’, uma expressão insaturada. Mas quando damos a ele o número de
argumentos requerido, ela se torna saturada. Não podemos dizer se ‘ correr’ é falso ou verdadeiro, a não ser com respeito
a alguém. ‘Ana está correndo’ sim, será uma expressão saturada, com sentido (o de que esse indivíduo de nome Ana se
movimenta rapidamente sobre superfície terrestre agora) e referência (verdade se de fato houver essa situação no
mundo, falsidade se não houver). Portanto, se o contexto não for opaco, isto é, se estivermos falando de uma sentença
principal, e não de complementos oracionais de verbos como ‘acreditar’, ‘querer’, ‘procurar’, será o argumento que vai
satura o predicado: de certo modo, a referência do argumento contaminará o predicado. Assim sendo, temos uma
composicionalidade: temos partes de uma sentença que são saturadas e partes que são insaturadas, até que todas se
combinem. Por outro lado, se o argumento não tiver referente, ele não terá a capacidade de saturar o predicado, e não
poderemos decidir se a sentença é verdadeira ou falsa. Vamos comparar a reação da turma diante das seguintes
afirmações da professora:
(9) a. O elevador da Faculdade de Letras está quebrado.
b. A escada rolante da Faculdade de Letras está quebrada.
O que a teoria de Frege prediz é que a turma saberá dizer sem hesitação que (9a) é falsa ou verdadeira, dependendo
da situação do elevador no dia desse proferimento. Tendo referente, o argumento ‘o elevador da Letras’ irá saturar o
predicado de um lugar ‘está quebrado’, que, sem o argumento, tem sentido (significa uma coisa diferente de ‘está em
funcionamento’), mas não tem referente. Já em (9b) ‘a escada rolante da Letras’ tem sentido (entendemos o conceito),
mas não tem referente, pois não existe isso no nosso prédio. Assim, ‘a escada rolante da Letras’ é uma expressão
insaturada, sem capacidade de saturar o predicado ‘está quebrada’. Toda a sentença (9b) é insaturada, e não podemos
dizer se ela é falsa ou verdadeira. A reação seria de espanto: “Quê?! Mas de que você está falando? Não temos escada
rolante na Letras!!”
Expressões (in)saturadas e saturação de predicados:
Devemos a Frege o conceito moderno de combinação entre predicado e argumento (s). Predicados são insaturados,
pois têm conceito, mas não referente; só quando recebem todos os argumentos requeridos, ciclicamente, é que formar
uma sentença saturada (verdadeira ou falsa). Um argumento pode saturar um predicado se, além do sentido, tiver um
referente. O predicado é alimentado com um argumento por vez:
comprou
predicado de 2 lugares ou de valência 2(precisa de 2 argumentos)
+ o livro
expressãosaturada
= comprou o livro
= predicado de 1 lugar ou de valência 1(precisa de mais um argumento)
João +
expressão saturada
= João comprou o livro
um predicado saturado ou de valência zero (não precisa de mais nenhum argumento)
= sentença com sentido e referência (falsidade ou verdade)
Exercícios:
A - Em cada sentença, separe a parte saturada da insaturada, recortando argumentos e predicados com as diversas
valências:
i. Maria viajou de Belo Horizonte para São Paulo.
ii. Pedro telefonou.
iii. Sócrates é mortal.
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iv. Jocasta é a mãe de Édipo.
v. Édipo furou os próprios olhos.
vi. Diretora de escola salva 58 crianças de desastre em Mariana.
vii. Sertanejo Marrone gasta mais de R$ 1,5 milhão em festa.
viii. Tragédia em Minas: equipes levam água e mantimentos aos isolados.
B - Dê exemplos de predicados de um lugar, de dois lugares e de três lugares.
A.7- As pressuposições de unicidade, familiaridade e existência (artigo definido)
Ao escolher usar o artigo definido (em vez do indefinido), o falante se compromete com um conteúdo pressuposicional,
o de que ele vai fazer referência a algo que existe, que é único e familiar. O indefinido não carrega tias pressuposições.
Veja o texto de Luís Fernando Veríssimo com esses olhos:
Era uma vez... numa terra muito distante...uma princesa linda, independente e cheia de autoestima.
Ela se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago
do seu castelo era relaxante e ecológico...
Então, a rã pulou para o seu colo e disse: linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito.
Uma bruxa má lançou-me um encanto e transformei-me nesta rã asquerosa.
Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e
constituir lar feliz no teu lindo castelo.
A tua mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavar as minhas roupas,
criar os nossos filhos e seríamos felizes para sempre...
Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã sautée, acompanhadas de um cremoso molho
acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria, pensando consigo mesma:
- Eu, hein?... nem morta!
A.7.1 Familiaridade: artigo definido versus indefinido:
Na primeira vez em que se fala de um lugar ou de um indivíduo, quando esse indivíduo ou lugar é introduzido na história,
usa-se o artigo indefinido: ‘uma vez’, ‘uma terra distante’, ‘uma princesa linda’, ‘uma rã’...
Quando o autor retoma a personagem ou local, quando menciona o que já foi apresentado, já é familiar para o leitor, ele
usa o artigo definido: ‘a rã’, ‘esta rã asquerosa’, ‘a princesa’.
A.7.2 Unicidade: artigo definido versus indefinido:
(A princesa saboreava) pernas de rã sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um
finíssimo vinho branco... Ela não tomou nessa noite o único vinho branco fino que existia no mundo. Havia mais, além
do que ela bebeu nessa ocasião.
Ela se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu
castelo era relaxante e ecológico...
O maravilhoso lago do seu castelo era o único lago junto ao castelo da princesa.
O artigo definido, além da pressuposição de existência, é gatilho de uma pressuposição de unicidade. Compare as
interpretações:
(10) a. Um gato entrou. O gato miou. (o mesmo gato entrou e miou?)
b. O gato entrou. Um gato miou. (o mesmo gato entrou e miou?)
c. Um gato entrou. Um gato miou. (o mesmo gato entrou e miou?)
d. O gato entrou. O gato miou. (o mesmo gato entrou e miou?)
(11) a. Um professor está dentro da sala e um professor está fora da sala. (contradição?)
b. O professor está dentro da sala e o professor está fora da sala. (contradição?)
https://br.noticias.yahoo.com/diretora-escola-salva-58-crian%C3%A7as-desastre-em-mariana-155621264--finance.html
http://br.celebridades.yahoo.com/post/132936309640/sertanejo-marrone-gasta-mais-de-r-15-milh%C3%A3o-em
https://br.noticias.yahoo.com/video/trag%C3%A9dia-em-minas-equipes-levam-010643724.html
http://pensador.uol.com.br/autor/luis_fernando_verissimo/
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(12) a. Maria precisa ver um médico. (ela precisa de cuidados médicos - qualquer profissional serve)
b. Maria precisa ver o médico. (ela não precisa de cuidados médicos – ela está em perfeita saúde, mas tem uma
mensagem secreta urgente para esse médico, confiada a ela por um espião da resistência francesa na II Grande Guerra)
Voltemos ao exemplo (9b): A escada rolante da Faculdade de Letras está quebrada. Para Frege, já que não existe uma
escada rolante na Letras, há uma falha de pressuposição nessa sentença. Expressões definidas como ‘a escada rolante
da Letras’ carregam pressuposição de existência e unicidade. Já que essa pressuposição não é satisfeita, não vamos
reagir a essa sentença e do mesmo modo que reagimos a outra em que a pressuposição seja satisfeita: (9a): O elevador
da Faculdade de Letras está quebrado.
A falha da pressuposição de unidade causa efeitos semelhantes. Se, numa sala com trinta cadeiras e uma única mesa,
o professor pede aos alunos, sem destacar nenhuma delas com gestos nem olhares: ‘Por favor, coloquem a cadeira para
fora da sala’, os alunos não saberão como atender a esse pedido. Eles vão perguntar: ‘Que cadeira?’/ Qual delas?. Mas
quando o professor pedir: ‘Por favor, levem a mesa para fora’, não haverá desconforto, pois há só uma mesa na sala, e
a pressuposição de unicidade foi satisfeita. Vejamos a sentença (13), proferida hoje, quando a França é uma república:
(13) O rei da França é calvo.
Para Frege, a sentença (13) pressupõe a existência do rei da França (que exista um rei na França) e sua unicidade (que
ele seja o único rei da França) e afirma desse indivíduo que ele é calvo. Porém, há falha de pressuposição: já que a
França é uma república, não há um rei que a governe hoje. Sem referente, ‘o rei da França’ permanece uma expressão
insaturada. Daí a sentença inteira permanecer insaturada, já que o predicado ‘é calvo’, de um lugar, não recebe um
argumento saturado que possa lhe transmitir referência. Assim, (3 não é nem falsa nem verdadeira, mas causa
estranheza. A reação do falante à falha de pressuposição seria algo como: “Mas do que você está falando? A França
não tem rei!” Não caberia discutir se um indivíduo que não existe pertence ou não à classe dos calvos. Muito diferente
seria a reação a uma declaração como:
(14) O presidente da França é calvo.
Em (14), a pressuposição de existência da descrição definida ‘o presidente da França’ é satisfeita. Frege separou sentido
de referência para dar conta de um emaranhado de problemas semânticos tais como o papel exercido pelas variáveis,
pela quantificação e pelos condicionais. Por exemplo:
(15) O quadrado de um número par é par.
(16) Se um número é par, então seu quadrado é par.
(17) x [par (x) → par (x2)](Para todo x, se esse x é par, então o quadrado dele é par.)
Tanto (15) quanto (16) precisam ser lidos como (27): qualquer número pode substituir a variável (x), e temos de usar o
mesmo número em todos os lugares em que a variável aparece. Nessa análise, (15) tem (16) e (17) como estrutura
subjacente. Ora, uma variável não tem um referente fixo, mas tem sentido: podemos substituir x por 2, 4, 8 etc., e as
sentenças de (16) e (17) serão sempre verdadeiras. Em (17), precisamos entender que há duas sentenças, uma
funcionando como antecedente e a outra como consequente do condicional, cada uma com uma lacuna ou valor não
saturado (a variável), e que o mesmo número par tem de ser alimentado no antecedente e no consequente, pois estão
ligados. A condicional não é lida como dizendo, porexemplo, que se 8 for par, o quadrado de 2 será par; vamos de
substituir ‘número par’ e a base do quadrado com o mesmo referente: se usarmos 8 na parte de se..., também usaremos
8 na parte de então...
Vemos de (15) a (17) a representação de uma verdade matemática, indisputável, incontestável. Mas como chegamos a
interpretá-la? Sem separar sentido de referência, teria sido impossível concluir que o conteúdo da parte iniciada por
então... é uma consequência lógica da parte iniciada por se... (ou seja, que não encontraremos nenhum número par cujo
quadrado seja ímpar).
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A.7.3 A pressuposição de existência
(18) Aqueles alunos (não) faltaram à aula (pressupõe: existem esses alunos)
Uma declaração acarreta a referência do argumento sobre o qual se predica.
Quando uma asserção é feita, pressupõe-se obviamente que os nomes próprios usados, simples ou compostos, têm
referência. Na asserção de que 'Kepler morreu na miséria', pressupõe-se que o nome ‘Kepler’ designa alguém existente
(Frege, 1892 (1978: 75)).
Nomes próprios (‘Kepler’), descrições definidas (‘o astrônomo, matemático e astrólogo alemão do século XVII que
formulou as três leis fundamentais da mecânica celeste’) e pronomes (‘ele’) são usados para representar diretamente um
indivíduo existente no mundo, isto é, para referir.
A proposição P pressupõe a proposição Q se, e somente se, todos os membros da família de P acarretarem a verdade
de Q. Família de uma proposição (P): todas as forças ilocutórias em que ela pode vir revestida: asserção, interrogação,
negação, restrição de condicional (se P então...), avaliação de P (lamento / adorei / é pena/ é ótimo que P) e clivagem
(Não foi/ Foi x que P).
(P) Kepler morreu na miséria → Existiu uma pessoa de nome Kepler
(Q) Kepler não morreu na miséria → Existiu uma pessoa de nome Kepler
(R) Kepler morreu na miséria? → Existiu uma pessoa de nome Kepler
(S) Se Kepler morreu na miséria, então ele sofre uma grande injustiça → Kepler
(T) Não foi Kepler quem morreu na miséria → Existiu uma pessoa de nome Kepler
(U) É lamentável que Kepler tenha morrido na miséria → Kepler
Segundo Frege:
(i) expressões referenciais e certas subordinadas (temporais) carregam a pressuposição de que elas de fato referem
(ii) uma sentença e sua contraparte negativa compartilham o mesmo conjunto de pressuposições
(iii) para que uma asserção sobre um referente ou uma sentença complexa, com subordinada adverbial temporal, seja
verdadeira ou falsa, suas pressuposições devem ser verdadeiras ou estar satisfeitas.
Não se sabe como julgar a verdade de uma sentença que tenha um argumento sem existência. Como decidir se um
particular que não existe está ou não dentro de um conjunto?
(19) Papai Noel está aguardando o médico na sala de espera. (# Não existe Papai Noel)
(20) O médico sabe que Papai Noel está esperando por ele. (# Não existe Papai Noel)
B- A Semântica da Enunciação ou da Argumentação
A Semântica da Enunciação ou da Argumentação tem como principais expoentes Oswald Ducrot e Jean Claude
Anscombe. Ela assume uma perspectiva imanente à língua, propondo que a atividade argumentativa é inerente à
atividade linguística. Sempre que alguém fala, esse alguém está argumentando para conduzir a certa conclusão,
direcionar sentidos, ou seja, a língua serve para orientar argumentativamente. Apresenta-se o argumento A para fazer
com que o interlocutor concluir C. O conteúdo de A é dado como a razão para se crer em C. Os elementos da gramática
de uma língua que marcam a força argumentativa em enunciados são chamados de operadores argumentativos
(DUCROT, 1987).
Falando em conjunções, fica claro que o valor de verdade de uma sentença não dá conta de como ela será
interpretada em termos de qual é a conclusão C o falante quer seu interlocutor aceite. Vejamos uma tabela de valor de
verdade:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Astronomia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Matem%C3%A1tico
http://pt.wikipedia.org/wiki/Astr%C3%B3logo
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alemanha
http://pt.wikipedia.org/wiki/Mec%C3%A2nica_celeste
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P Q P & Q
V V V
F V F
V F F
F F F
A tabela lógica acima diz que, sempre que as duas orações ligadas pela conjunção aditiva forem verdadeiras, o complexo
todo (o período composto) também será verdadeiro; em todos os outros casos, ou seja, na condição de que uma ou
ambas das sentenças seja falsa, o conjunto (o período composto) será falso. Por exemplo, vamos considerar que P seja
o nome da sentença ‘Dorotheia é mulher’, e Q seja o nome da sentença ‘Dorotheia é inteligente’. Se P for V (No caso de
Dorotheia ser mesmo mulher) e também Q for V (caso Dorotheia seja mesmo inteligente), será P & Q = V (Será
necessariamente verdadeira a sentença ‘Dorotheia é mulher e é inteligente’). É isso que diz a linha um da tabela. A linha
dois da tabela diz que, se Dorotheia for homem, então ‘Dorotheia é mulher e é inteligente’ será uma sentença falsa. A
terceira linha diz que, se Dotrotheia for mulher, mas for burra, ‘Dorotheia é mulher e é inteligente’ será falsa. E a última
linha diz que, se Dorotheia não for mulher nem for inteligente, então ‘Dorotheia é mulher e é inteligente’ será falsa. Essa
tabela de verdade serve indistintamente para todas as sentenças compostas abaixo:
(24) a. Dorotheia é mulher e é inteligente. (P & Q)
b. Dorotheia é mulher, mas é inteligente. (P mas Q)
c. Dorotheia é inteligente, pois é mulher. (Q, pois P)
Embora seja preciso, para assumir qualquer das sentenças em (24), considerar tanto P quanto Q verdadeiras, isso não
diz nada sobre a diferença de significado que há entre elas: (24b) implica que o falante não espera das mulheres em
geral que sejam inteligentes, mas que Dorotheia é uma exceção; já (24c) implica que o falante acredita que todas as
mulheres sejam tipicamente inteligentes, e que a inteligência observada por ele em Dorotheia decorre naturalmente de
seu sexo. Isto é, é perfeitamente claro para qualquer falante de nossa língua que quem enuncia (24b) e quem enuncia
(24c) têm opiniões contrárias sobre a relação entre ser mulher e ter inteligência. A tabela de verdade não faz essa
distinção importante. Em 1989, pela primeira vez, o Brasil teve uma mulher chefiando o Ministério da Economia. No
exercício do cargo, ela participou de um grupo de trabalho na FIESP (Federação da Indústrias de São Paulo), que era
Amato foi também muito criticado por, quando, terminada a reunião, ao pedirem sua opinião sobre a competência da
ministra, ter dito: “Ela é inteligente, apesar de ser mulher”. não teria havido protesto caso ele tivesse dito algo como (24a)
ou (24c). Mas houve indignação por ele ter dito (24b).
B.1- Polifonia na conjunção adversativa: a metáfora da balança
Para a semântica da enunciação, ao argumentar, as pessoas
assumem vozes diferentes, favoráveis ou desfavoráveis a uma
conclusão. Assim, o enunciado (27b) se desdobra em dois,
correspondentes às nossas sentenças P e Q da tabela lógica. O
enunciado um (P) é desfavorável à conclusão de que Dorotheia é
competente, mas o enunciado dois (Q) é favorável.
O conjunto todo (P mas Q) favorece a conclusão de que a ministra é
competente. A balança sempre se inclina para o enunciado que é
colocado depois do mas: por estar aí, ele é visto como o de maior
peso. Isso quer dizer que quem fala está pesando os prós e os contras para a conclusão C, e que conclui por C
ao apresentar o argumento de E2 como mais forte que o argumento E1, que levaria à conclusão contrária. Uma
voz, a do enunciador um, defende o argumento desfavorável, e outra voz, a do enunciador dois, defende o
argumento favorável. Ganha o favorável.
Esse mas, operador discursivo, que apresenta um argumento desfavorável só para desbancá-lo com um
argumento favorável mais forte, conduzindo à conclusãodesejada, é chamado de mas PA, ou de mas parataxe.
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Mas PA e mas SN
Mas pode também ligar dois argumentos que estejam na mesma direção argumentativa, mas apresentem forças
diferentes. Nesse caso, o falante expressa sua discordância do grau de força do primeiro argumento (E1), e apresenta
o segundo argumento (E2) como a descrição mais apropriada. Exemplos:
(25) Einstein não era inteligente, mas brilhante!
E1 = Einstein era inteligente
E2 = Einstein era brilhante
O falante de (25) discorda de E1, por achar que dizer que Einstein era inteligente é pouco: a descrição correta para
Einstein (apresentada como E2) precisa ser mais forte. Observe-se que tanto E1 quanto E2 são julgamentos favoráveis
à pessoa de Einstein. Tanto E1 quanto E2 conduzem a uma mesma conclusão (ambos equivaleriam a uma resposta
afirmativa para a pergunta “Einstein era inteligente?”). Observe-se ainda que a diferença entre E1 e E2 é apenas a troca
do adjetivo (tudo o mais permanece igual). Daí esse mas ser conhecido como mas SN: opera apenas a troca de um
sintagma nominal. Os dois argumentos podem ainda estar na mesma direção argumentativa sendo desfavoráveis a quem
descrevem.
(26) Ela não é feia, é horrorosa!
E1 = Ela é feia.
E2 = Ela é horrorosa.
O falante de (26) discorda de E1, por achar que dizer que certa mulher é feia não lhe faz justiça: na sua opinião, a
descrição correta (apresentada como E2) precisa ser mais forte. Observe-se que tanto E1 quanto E2 são julgamentos
desfavoráveis a essa mulher. Tanto E1 quanto E2 conduzem a uma mesma conclusão (ambos equivaleriam a uma
resposta negativa para a pergunta “João deve sair com ela?”). Observe-se novamente que a diferença entre E1 e E2 é
apenas a troca do adjetivo (tudo o mais permanece igual): estamos diante de um mas SN. Os dois argumentos estão na
mesma direção argumentativa, ambos desfavoráveis àquela que descrevem. O antagonismo entre E1 e E2 quando temos
mas SN não é causado por direções argumentativas opostas, mas apenas pro diferentes graus de força argumentativa.
Exercícios: classifique o mas nas sentenças abaixo como PA ou SN. Apresente os dois enunciados e a conclusão a
que cada um conduz.
(1) Av. Vieira Souto com fluxo intenso, mas sem retenções, nos dois sentidos (O Globo, 23/09/2013)
(2) CENÁRIOS-TIM precisará ser vendida no Brasil, mas há comprador? (O Globo, 23/09/2013)
(4) Ele é gay, mas é legal.
(5) Bonitinha, mas ordinária! (Nelson Rodrigues)
(6) Rir de tudo é coisa dos tontos, mas não rir de nada é coisa dos estúpidos. (Erasmo de Rotterdam)
(7) O dinheiro não dá felicidade, mas paga tudo o que ela gasta.... (Millôr Fernandes)
(8) Eu sou firme; você é obstinado; mas ele é teimoso como uma mula. (Russel)
(9) É claro que uma relação platônica é possível; mas só entre marido e mulher.
(10) Devo tudo a minha mãe, mas já estou negociando.
(11) A democracia neste país é relativa, mas a corrupção é absoluta. (Paulo Brossard)
(12) A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa. (Jô Soares)
(13) Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor. (Millôr)
(14) Quem perde seus bens perde muito; quem perde um amigo perde mais; mas quem perde a coragem perde tudo.
(M. de Cervantes)
(15) “Eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo” (Voltaire nunca disse isso)
(17) Nunca comece uma briga, mas sempre a termine.
(18) Ela não anda, mas desfila.
http://oglobo.globo.com/transito/av-vieira-souto-com-fluxo-intenso-mas-sem-retencoes-nos-dois-sentidos-10131412
http://oglobo.globo.com/economia/cenarios-tim-precisara-ser-vendida-no-brasil-mas-ha-comprador-10129477
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B.2- Conjunções
Em 10/12/2015, os jornais noticiaram um episódio de grande repercussão, ocorrido na noite anterior. A ministra Katia
Abreu e o senador José Serra estavam na casa de um amigo comum. Aproximando-se da roda em que a ministra
conversava com outros senadores, Serra disparou: “Kátia, dizem por aí que você é muito namoradeira”. A ministra contou
que, sentindo-se ofendida na honra, jogou seu vinho na cara de Serra e lhe respondeu: “Você é um homem deselegante,
descortês, arrogante, prepotente. É por isso que você nunca chegará à Presidência da República. E, de mais a mais,
nunca traí ninguém na minha vida. Nunca lhe dei esse direito nem essa ousadia. Por favor, saia dessa roda, saia daqui
imediatamente”.
Exercícios:
I- Considerando os fatos expressos por P e Q, dê forma aos enunciados abaixo, construindo sentenças que os relacionem
de formas diversas. Faça os ajustes requeridos por cada conjunção para que o período composto fique bem formado:
P = José Serra chamou Kátia Abreu de namoradeira.
Q = Kátia Abreu jogou vinho na cara de Serra.
(1) P mas Q
(2) Q mas P
(3) Q porém P
(4) Q entretanto P
(5) Tanto P que Q
(6) Nem P nem Q
(7) Q, pois P
(8) Porque P, Q
(9) Q porque P
(10) Q, contudo P
(11) Quanto mais Q, mais P
(12) Se Q, então P
(13) Se P, então Q
(14) Quando P, Q
(15) Após P, Q
(16) P, apesar de Q
(17) P, consequentemente Q
(18) Uma vez que P, Q
(19) P, a fim de que Q
(20) P, a menos que Q
II- Entre as sentenças que você elaborou no exercício anterior, escolha uma que demonstre claramente que quem a
enuncia está a favor de Serra, e outra que indique que seu enunciador simpatiza com Kátia Abreu. Descreva a relação
que cada uma das conjunções escolhidas cria entre os fatos.
B.3- Um pouco versus pouco
Tenho sede (Gil)
Traga-me um copo d'água, tenho sede
E essa sede pode me matar
Minha garganta pede um pouco d'água
E os meus olhos pedem teu olhar
(...)
Muito Gelo e Pouco Whisky (Wesley Safadão)
Diz que ia me pegar
E hoje tinha sacanagem
Que era maluca, que era da malandragem
Mas na hora “h”, virxii
Tô vendo que você é muito gelo e pouco whisky
(...)
http://www.vagalume.com.br/wesley-safadao/
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Todo Camburão Tem um Pouco de Navio
Negreiro (O Rappa)
(...)
É mole de ver
Que para o negro
Mesmo a aids possui hierarquia
Na África a doença corre solta
E a imprensa mundial
Dispensa poucas linhas
Comparado, comparado
Ao que faz com qualquer
Figurinha do cinema
Comparado, comparado
Ao que faz com qualquer
Figurinha do cinema
Ou das colunas sociais
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro
Muito e do pouco (Zé Ramalho - Oswaldo Montenegro)
(...)
É muito quadro pr'uma parede
É muita tinta pr'um só pincel
É pouca água pra muita sede
Muita cabeça pr'um só chapéu
Muita cachaça pra pouco leite
Muito deleite pra pouca dor
É muito feio pra ser enfeite
Muito defeito pra ser amor
É muita rede pra pouco peixe
Muito veneno pra se matar
Muitos pedidos pra que se deixe
Muitos humanos a proliferar
Exercícios:
Examinando as letras de canções acima, especialmente quanto ao uso das expressões um pouco / pouco, qual discurso
vai na direção da falta de algo, e qual discurso vai na direção da presença de alguma coisa (mesmo que essa coisa
esteja em baixa quantidade)?
Exercícios:
I- Dê a conclusão para a qual o operador argumentativo orienta
(1) Grifar é forma de estudo pouco eficiente.
(2) São notícias pouco animadoras.
(3) Você acha que dorme pouco?
(4) Antes de viajar, eu preciso dormir um pouco.
(5) O produto está um pouco caro.
(6) ‘É muito pouco para ele', diz irmã de professora sobre pena de 16 anos e 8 meses dada ao assassino.
(7) Empresas investem pouco em condições de acessibilidade .
(8) Entrada de estrangeiros pouco qualificados divide governo.
(9) Ponha um pouco de arte para sua vida.
(10) “É mais fácil dirigir de madrugada porque tem pouco movimento, masé muito mais perigoso” (motorista de ônibus)
(11) Crianças com doença celíaca crescem pouco.
(12) Brasil ainda investe pouco em ensino superior, avalia OCDE.
II- Nas sentenças acima, substitua pouco por um pouco e vice-versa. E agora? A conclusão continua sendo a mesma?
Exemplo: “Esse mignon está um pouco duro.”
Argumentação contra o consumo da carne: isso dito pela esposa ao marido, que indicou a ela os restos de refeições
anteriores estocados na geladeira como o que tem para o jantar, é uma argumentação contrária a que se consuma essas
sobras na refeição que estão por fazer, pois diz que ao grau de rigidez é considerável.
Após a troca do operador argumentativo: “Esse mignon está pouco duro.”
Argumentação a favor do consumo da carne: isso dito pelo marido à esposa, como resposta à proposta dela de que se
jogue fora as sobras e se peça comida a domicilio, pode entrar numa argumentação contrária a que se gaste dinheiro, e
favorável a que se coma as sobras de filé, pois diz que ao grau de rigidez é desprezível, e, portanto, suportável.
http://educacao.uol.com.br/noticias/2013/05/15/grifar-e-forma-de-estudo-pouco-eficiente-confira-melhores-tecnicas.htm
http://www.linguee.com.br/portugues-alemao/traducao/not%EDcias+pouco+animadoras.html
http://gnt.globo.com/bem-estar/noticias/Voce-acha-que-dorme-pouco--Cinco-horas-pode-ser-o-suficiente-para-alguns.shtml
http://www.protecao.com.br/noticias/geral/empresas_investem_pouco_em_condicoes_de_acessibilidade/A5jiA5yJ
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/05/130502_imigrante_sem_qualificacao_cc_lk.shtml
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B.4- A Negação
Para a semântica formal, a negação é um operador que inverte o valor de verdade da sentença. Por exemplo, numa
situação em que a referência de ‘Está chovendo’ for a verdade, a referência de sua negação (‘Não está chovendo’) será
necessariamente a falsidade. Quando, pelo contrário, a referência de ‘Está chovendo’ for a falsidade, a referência de sua
negação (‘Não está chovendo’) será a verdade. Mas, como já vimos, o valor de verdade não informa nada sobre a direção
argumentativa. Numa perspectiva como a da semântica enunciativa, a negação expressa a discordância de um dos
enunciados. Portanto, devemos considerar o tema em debate e a conclusão a que o enunciador quer que seu interlocutor
chegue para entender melhor essa operação.
Caso 1: negação descritiva
Ao sair de casa num dia muito bonito, a caminho do trabalho, João olha para o céu e comenta com o porteiro do seu
prédio:
(1) Não há nenhuma nuvem no céu.
Quem proferiu essa sentença acabou de descobrir essa qualidade do dia. Não há qualquer debate em andamento, não
houve nenhum comentário anterior que tenha apresentado um enunciado de que essa pessoa pudesse discordar. Esse
tipo de negação é chamado de “negação descritiva”. Em lugar de ‘Não há nenhuma nuvem no céu’, o falante poderia ter
dito ‘O céu está azul’.
Caso 2: negação metalinguística
Ao provar o feijão, o marido diz:
(1) O feijão está salgado.
Ao que a esposa retruca:
(2) O feijão não está salgado. Está como sempre. Você é que está com a boca ruim.
Ao enunciar (2), a esposa expressa seu desacordo com o enunciado (1). Esse tipo de negação é chamado de “negação
metalinguística”. Observe-se que não é preciso que haja pessoas em carne e osso, distintas, debatendo. Num outro
cenário, a cozinheira, preparando o almoço, pode desconfiar de que tenha colocado sal demais da conta, e pensar (1).
Ao provar, ela pode descobrir que estava enganada, que a dosagem do sal está correta, e dizer o enunciado (2) em
pensamento para expressar que sua suspeita não foi confirmada. A concepção de negação aqui é polifônica, ou seja, há
várias vozes presentes em cada pedaço do discurso, e elas nem sempre concordam uma com a outra.
Caso 3: negação polêmica – a negação da pressuposição
Um enunciado com conteúdo pressuposto é tratado na semântica da enunciação como se desdobrando em vozes ou
enunciados distintos. Por exemplo, temos dois enunciados em (1):
(1) João parou de fumar.
E1 = João fumava.
E2 = João parou de fazer isso.
Pode haver discordância tanto com o primeiro quanto com o segundo enunciado. Entretanto, essa discordância só pode
ser expressa pela negação do enunciado complexo, assim:
(2) João não parou de fumar.
Em (2), a negação pode estar incidindo tanto sobre E2...
E1 = João fumava.
E2 = João não parou de fazer isso.
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... o que vai gerar uma negação metalinguística, quanto a negação pode incidir sobre E1...
(2) João não parou de fumar.
E1 = João não fumava.
E2 = João parou de fazer isso.
... formando uma negação mais forte, porque, recusando E1, não é possível concordar com E2. Era perfeitamente
possível aceitar E1 e recusar E2; mas o contrário não dá. A negação de E1 impede que se efetive a aceitação de E2.
Essa negação do conteúdo pressuposto, mais forte, ao impedir a aceitação do outro enunciado, é chamada de “negação
polêmica”.
B.5 - Escalas argumentativas: Até / Nem mesmo
‘Até’ tem propriedades muito peculiares. Se alguém teve insônia e ficou acordado das 4h até às 7h, a qualquer momento
dentro desse intervalo, digamos, por exemplo, às 5h40min, essa pessoa estava acordada. O que vale até às 7h vale
continuamente entre 4h e 7h. Mas é possível não mencionar a hora inicial da insônia, bastando dar a hora final da insônia
após ‘até’: ‘Eu fiquei acordada até às 7h’. ‘Até’ precede o nome do ponto final de trajetórias não só no tempo, mas também
no espaço. Se ‘João empurrou o carro do quilômetro 37 até o quilômetro 39 da estrada’, então ele permaneceu
empurrando o carro por cada fração dos 2 quilômetros compreendidos entre o ponto inicial e o final desse trajeto. Posso
expressar isso nomeando apenas o ponto final do trajeto imediatamente após ‘até’: ‘João empurrou o carro até o
quilômetro 39 da estrada’. A incorporação de toda a trajetória, ainda que apenas o ponto final seja mencionado sem
seguida a ‘até’, ocorre também na escala argumentativa. Comparemos as duas sentenças a seguir:
(i) Maria faltou à aula.
(ii) Até Maria faltou à aula.
A sentença (i) fala apenas sobre Maria. Ela seria verdadeira se todos os demais alunos tivessem comparecido àquela
aula, e Maria fosse a única ausente. Mas (ii) é diferente: ela nos diz que todos os alunos faltaram, não apenas Maria. E
ainda fica subentendido que Maria era a aluna que menos esperávamos que faltasse a aula. Como a inserção de uma
palavrinha como ‘até’ na sentença pode fazer tanta diferença? Para a semântica da enunciação, ‘até’ é um operador
argumentativo que introduz uma escala. Essa escala é uma ordem contínua, organizada em graus. Por exemplo, digamos
que a turma de Maria seja composta por 6 pessoas: João, Pedro, Marcelo, Laura, Maria e Bianca. Até hoje, Maria nunca
faltou a uma aula sequer. Por isso, ela é a aluna que o professor menos espera que falte. Maria nunca falta. Pedro é
assíduo, mas já faltou certa vez. Laura falta razoavelmente. Então uma véspera de feriado seria propícia para mais uma
falta. Porém, Laura vem mais à aula que Marcelo; e Marcelo é mais assíduo que Bianca. João mais falta do que vem.
Com esse conhecimento, podemos ordenar os alunos conforme nossa expectativa de que faltassem na aula em questão,
que é uma véspera de feriado, chegando ao seguinte arranjo:
ao menos provável que falte Maria
Pedro
Laura
Marcelo
Bianca
do mais provável que falte João
A escala acima mostra os alunos da turma ordenados segundo o grau de expectativa de que faltassem à aula. Depois
de ‘até’, temos apenas um aluno nomeado, Maria, que é aquela que menos esperamos que faltasse. Dado que
mencionamos o ponto final dessa trajetória metafórica, estamos incluindo todos os demais como ausentes da aula, assim
como em ‘fiquei acordado até às 7h’ entendemos que a insônia se estendeudas 4h até as 7h, e não ocupou apenas um
instante. Em outras palavras, se até o que menos provavelmente faltaria faltou hoje, que dirá daqueles com maior
probabilidade de faltar?
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Outro operador argumentativo escalar é ‘nem mesmo’. Comparemos:
(iii) João não faltou à aula.
(iv) Nem mesmo João faltou à aula.
A sentença (iii) afirma apenas que João estava presente em certo dia do curso. Pode ser que todos os outros alunos
tenham faltado. De (iv), porém, entendemos que ninguém faltou: nessa aula, todos estiveram presentes. Como a
presença de ‘nem mesmo’’ constrói essa negação tão abrangente? Tomando a mesma escala que construímos para as
chances de os alunos da turma faltarem, constatamos que ‘nem mesmo’ precede o nome do aluno com o maior grau de
probabilidade de faltar. Ao observarmos que nem ele faltou, implicamos que os alunos com menor probabilidade de faltar
também compareceram. Ou seja, ‘nem mesmo’ trabalha na mesma escala de ‘até’, só que na ponta oposta.
Exercícios:
Crie escalas que expliquem o modo abrangente como compreendemos as seguintes sentenças:
(1) Até uma criança saberia a resposta para essa pergunta!
(2) Nem mesmo um gênio saberia a resposta para essa pergunta!
III- Pragmática
A- Implícitos e implicaturas: significado da sentença X significado da enunciação
Grice defendeu que se distinguisse entre o conteúdo literal da sentença (semântica) e uma gama de inferências que os
ouvintes faziam a partir do uso daquela expressão em dado contexto (pragmática). É preciso distinguir entre
acarretamento e pressuposição, de um lado (que são indissociáveis da expressão linguística ou da verdade da sentença),
de inferências de outro tipo: os implícitos ou implicaturas conversacionais, que são altamente dependentes do contexto
de uso. Pensemos no emprego de uma sentença como A porta está aberta. Dita pela mulher ao marido, durante uma
discussão, após ele ter dito que não sabe como consegue conviver com ela, significa Se é assim, vá embora da minha
vida. Mas essa ideia de separação conjugal não é um significado do material linguístico da sentença. Ela não está
presente, por exemplo, quando o médico, de dentro de seu consultório, a pronuncia para o paciente que aguarda do lado
de fora da porta. Nessa outra situação, o enunciado é entendido como um convite para o paciente entrar no consultório.
Imaginemos uma terceira cena, em que ladrões estão procurando meios de invadir uma loja inexpugnável, protegida por
cadeados, travas, grades, cães bravos, muros... depois de tentar explodir a grossa parede sem sucesso, chamando a
atenção da polícia, pouco antes de ser detido, um deles mexe na maçaneta da porta e diz A porta está aberta... Nesse
caso, ele está expressando seu desconsolo pelo insucesso da empreitada, ao desconsiderarem processos mais fáceis
de entrada. Um chefe que se despede de uma funcionária muito capaz, que decidiu parar de trabalhar para ter um filho,
ao dizer A porta está aberta na despedida está comunicando que, se ela decidir voltar a trabalhar, o emprego será
dado a ela de volta. Para cada nova situação de uso, teremos um novo significado, e perderemos os demais. O único
significado que independe da situação é o de que estamos falando de uma porta (e não de uma mesa), um objeto que,
por sua natureza, pode se apresentar aberto ou fechado; a sentença diz que está num desses estados, e não no outro;
logo, alguém pode passar pela abertura, ingressando num local interno ou indo para o lado de fora dele. Os demais
significados são construídos sobre esse, que é o único permanente, indissociável do material linguístico. É obvio que
uma sentença como A mesa está posta não serviria para veicular os significados mencionados. Mas eles não estão
sempre ligados à sentença A porta está aberta.
Vamos olhar agora para entendimentos que dependem da situação de enunciação, os que variam com o contexto.
B - Atos de fala
Austin e Searle criticaram a semântica aristotélica. Primeiramente, houve uma distinção entre usar a linguagem para
descrever o mundo e usos da linguagem em que não se pode atribuir um valor de verdade à sentença. Como estabelecer
se uma sentença no subjuntivo/imperativo é falsa ou verdadeira? Por exemplo, “Saia já daqui” certamente não descreve
um acontecimento no mundo. Se o ouvinte atender o falante, ele vai se retirar do recinto; mas o ouvinte pode desobedecer
à ordem. Seja como for, quem usa um modo diferente do indicativo em português não descreve um fato ou
acontecimento, mas dá instruções que podem ou não resultar num acontecimento futuro. Daí a proposta inicial de que
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há duas situações gerais de uso da linguagem: uma, correspondente à visão aristotélica, descreve coisas e fatos pré-
existentes no mundo (os enunciados são constativos); na outra, a linguagem é que cria novos fatos no mundo (os
enunciados são performativos). Por exemplo, os dizeres “Saia já daqui” (caso sua ordem seja obedecida) causam a
saída do ouvinte daquele recinto. Para ilustrar essa divisão, vamos imaginar que uma esposa, desconfiada de que seu
marido a trai com outra mulher, contrata um detetive para segui-lo o tempo todo. Todos os dias, o detetive entrega à
esposa um relatório pormenorizado das atividades do marido. Hoje, a esposa solicitou ao marido que fosse às compras,
entregando a ele a seguinte lista, com suas anotações:
De posse da lista da esquerda, o marido vai ao supermercado, pega uma cesta, e vai colocando
3 tomates maduros
1 litro de leite
6 ovos
1 kg de café
2 cebolas
ali os produtos, à medida que os vai retirando das prateleiras. Nesse caso, as ações desse
homem no supermercado foram claramente guiadas por um ato de linguagem, representado
pela lista de compras. Antes dessa lista, não havia esses produtos nem na cesta dele nem na
dispensa/ geladeira do casal. Conduzido pela lista, o marido produziu uma mudança de estado
nos produtos, que, de localizados nas prateleiras da loja, passaram a estar na sua cesta, e,
mais tarde, na sua casa. Conduzido pela lista, o marido também mudou a situação de
abastecimento de sua casa. Temos aí, então, um ato performativo.
Mas o detetive estava seguindo o marido, de uma distância segura para não ser notado, e
registrando tudo o que ele fazia, para depois fazer um relatório bem minucioso para a esposa ciumenta. Assim, o
detetive também entrou no supermercado, e foi tomando nota de tudo aquilo que o seu
alvo de observação colocava no carrinho. A lista produzida pelo detetive, intitulada “coisas
coladas no carrinho de supermercado”, está reproduzida aqui à direita. É claro que os dois
documentos, a lista produzida pela esposa, com itens a comprar, e a lista produzida pelo
detetive, são idênticos. Porém, no caso do detetive, ele estava descrevendo um fato que
se desenrolava perante seus olhos. Trata-se, então, de um ato de linguagem constativo.
A conclusão é que, em alguns casos, dizer é fazer.
3 tomates maduros
1 litro de leite
6 ovos
1 kg de café
2 cebolas
Eu não perco dez quilos quando digo “agora estou perdendo 10 quilos”.
Um político não convence quem o ouve a elegê-lo quando profere as palavras: “vocês devem votar em mim”. Mas um
documento que diz “nomeio Fulano de Tal meu bastante procurador” torna Fulano capaz de me representar legalmente
para as finalidades explicitadas. As palavras apropriadas têm de ser proferidas pela autoridade socialmente reconhecida
e autorizada às pessoas que devem ouvi-la/lê-la, no lugar e momento apropriado aos rituais sociais, no suporte certo,
para ter validade. Mas sim, a publicação de minha nomeação no D.O.U. muda a minha vida, pois passo de alguém que
não é funcionário público, no período anterior à data de publicação, para alguém que é funcionáriopúblico, a partir da
edição em que aparece minha nomeação. Chamamos a isso agir por meio de palavras, por atos de fala bem-sucedidos
ou felizes.
Austin: “How to Do Things with Words” – Dizer é fazer (?)
Num segundo momento, a teoria dos atos de fala defende que dizer é sempre fazer. Mesmo nos atos que chamávamos
de constativos, pois estamos trabalhando para convencer os outros de que essa descrição dos fatos é correta e
apropriada. Nesse caso, estamos agindo para persuadir e convencer. Então, podemos dizer que estamos sempre agindo
por meio de palavras.
C- Independência entre força e conteúdo proposicional
- Frege (1879) distinguiu entre o conteúdo de uma proposição assertiva (aquilo que é assertado), e os juízos sobre a
veracidade desse conteúdo. Juízos sempre contêm pensamentos ou conceitos, e podem ser complexos. Leis da lógica
podem levar a concluir um juízo a partir de outro:
Asserção: se Φ então Ψ (sentença condicional)
Asserção de Φ conduz à asserção de Ψ
- Wittgenstein (1922): uma proposição mostra um possível estado de coisas, aquele que vale caso ela seja verdadeira.
- O modo (indicativo, imperativo, interrogativo) é separado do conteúdo proposicional (STENIUS, 1967; SEARLE, 1968):
só use o modo indicativo se você se compromete com a verdade do conteúdo proposicional.
Paradoxo de Moore: #está chovendo, mas eu não acredito que esteja chovendo.
Não é um paradoxo de conteúdo, mas de ação: usar o indicativo viola as regras do Jogo de Reportar.
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Divisão entre o mundo dos conceitos/ pensamentos (conteúdos proposicionais) e o mundo das ações (por meio de
dizeres), ou seja, entre semântica e pragmática.
O ato de fala assertivo afirma algo sobre algo. O ato de fala performativo muda situação de alguém no mundo por meio
do proferimento de certas palavras rituais na situação. As palavras “eu vos declaro marido e mulher” transformam um
homem e uma mulher solteiros em marido e mulher. Quem profere as palavras tem de ser alguém imbuído de autoridade
pela sociedade para performar certo ato de fala (por exemplo, para casar duas pessoas por meio dessas palavras, quem
as profere tem de ser um padre ou um juiz de paz; a mãe da noiva não tem o poder de tornar a filha casada dizendo
isso). As condições (os rituais e as convenções envolvidos) de proferimento precisam ser respeitadas (se o padre disser
as mesmas palavras debaixo da ducha do chuveiro, ninguém vai se tornar casado). Mesmo dentro da igreja, saindo da
boca do padre, se estiver acontecendo um ensaio do casamento, essas palavras não serão consideradas como oficiando
o casamento, não irão valer.
Exercícios
Veremos alguns atos performativos abaixo. Diga qual a mudança no mundo (que ação) pode ser obtida pelo proferimento.
Descreva a autoridade a quem a sociedade conferiu o poder de performar tal ato. E descreva as condições de sucesso
(onde as palavras devem ser ditas, quando, para quem etc.)
Ato de fala autoridade ação/ mudança no mundo condições de sucesso
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Ato de fala autoridade ação/ mudança no mundo condições de sucesso
ATOS DE FALA (AUSTIN, 1962; SEARLE, 1969).
Ao se comunicarem, os falantes usam proposições para performar atos com consequências sociais, tais como declarar
que certos conteúdos proposicionais são verdadeiros, questionar se outros conteúdos proposicionais são verdadeiros ou
não, expressar estranheza, surpresa etc.
proposições
operadores ilocucionais
atos de fala
“Camadas” de um ato de fala
Ao analisarmos um ato de fala, podemos separá-lo em três camadas. Já que é preciso proferir certas palavras, as
palavras escolhidas para agir aquela situação, por seu conteúdo, são a primeira camada: o ato locucionário, em que o
locutor dá voz a algo que deseja que aconteça no mundo. O ato locucionário é o proferimento de uma frase que respeite
as regras gramáticas e faça sentido. Caso esse proferimento seja feito em tom adequado, de acordo com o a sociedade
convencionou usar nesse ato de fala, terá uma força: sua entonação, curva melódica, o tempo e o modo verbais, a
modulação da voz, sua altura, enfim, o modo como a frase é proferida, constituirão a segunda camada: o ato
ilocucionário. Por exemplo, um cumprimento a um recém-chegado não é pronunciado da mesma maneira que um grito
de socorro. O ato ilocucionário dá as características que as palavras escolhidas devem ter para constituir um ato de fala
adequado: tempo verbal, modo verbal, exclamação, interrogação etc. Uma pergunta é uma forma adequada a um pedido,
mas não a uma ordem/um comando. A terceira e última camada é chamada de ato perlocucionário. São os certos
resultados obtidos no mundo por meio do uso daquelas palavras (convencer, persuadir, impedir, convidar, casar etc.). É
a parte que vai além da linguagem, é a ação no mundo realizada por meio do proferimento. Muitas vezes, os atos de fala
falham, ou seja, o resultado esperado não é obtido. Diz-se que o ato de fala não foi feliz. As condições de felicidade de
um ato envolvem a escolha certa das palavras (ato locucionário), as condições convencionalizadas de proferimento (ato
ilocucionário, mais intenção do falante, mais rituais sociais, autoridade etc.) e a aceitação social e do interlocutor. Um ato
de fala bem-sucedido/feliz alcança os resultados esperados, isto é, produz a mudança desejada no estado de coisas.
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Exercícios
Analise um ato de fala por tirinha, dizendo se foram ou não bem-sucedidos, e descrevendo suas camadas (ato locutório,
ilocutório e perlocutório).
(a) Chico Bento
(b) Mônica
(c) Chico Bento
(d) Armandinho
(e) Por que o ato de fala do caçador, no texto abaixo, não foi feliz? Explique a não-comunicação entre o caçador e
Deus, segundo o modelo de Searle: que intenções tinha o caçador; o que ele esperava que acontecesse; e o
que ele efetivamente disse. Classifique o ato de fala, em suas três camadas.
CUIDADO COM O QUE VOCÊ PEDE!
Encurralado, sem munição, e percebendo que o leão já se preparava para devorá-lo, o caçador rezou:
– Senhor, minha vida está em suas mãos: transforme esse leão em cristão!
Ouviu-se um estrondo. Imediata e milagrosamente, o leão interrompeu seu salto diante do caçador, ajoelhou-se e
começou a falar:
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– Senhor, dou graças pela refeição de hoje e peço que abençoe este alimento!
A seguir, devorou o caçador.
D- As máximas conversacionais de Grice
Ao estudarmos atos de fala, vimos que, desse viés semântico, Searle e Austin defendem que a linguagem cria fatos
novos e relações sociais no mundo. A sociedade humana opera ritos sociais que dependem do proferimento de
determinadas palavras, por alguém que detém a autoridade para presidir tal rito, na situação requerida e com o respeito
a diversos detalhes ritualísticos. No texto “Performativo-Constativo” (AUSTIN, 1958) o termo “performativo” designa
enunciados que, sendo uma forma de agir por meio de palavras, não poderiam ser falsos nem verdadeiros; os enunciados
declarativos, que descrevessem um pedaço de uma realidade, podendo ter valor de verdade, foram chamados de
constativos. Entre os exemplos corriqueiros de atos performativos estão: convite, cumprimento, ameaça, promessa,
advertência, pedido, demissão, proposta de casamento, orçamento de serviços etc. Atos performativos não podem ser
avaliados quanto ao seu valor de verdade, mas podem muito bem ser avaliados segundo seu sucesso ou felicidade.
Quando aquilo que se desejava que ocorresse como resultado do ato não acontece, quando o ato é malogrado, diz-se
que houve sua infelicidade ou seu insucesso.O insucesso pode se dar por nulidade, quando o enunciador não tem
autoridade social para operar o rito social. Por exemplo, numa festa junina, o folião fantasiado de padre, ainda que
pronuncie direitinho as palavras “eu vos declaro marido e mulher” para os foliões fantasiados de noivos, não os tornará
casados perante a sociedade. Outra razão para o insucesso é o abuso. O vendedor que firma um contrato verbal de
venda de um carro com outro cidadão recebe um sinal de 40% e some no mundo sem entregar o veículo ao comprador,
em sua desonestidade, não permitiu que a transação fosse concluída. Ao prometer o carro pela quantia ajustada, o
vendedor não foi sincero. Há também nesse exemplo um terceiro fator que impede o sucesso do ato de fala performativo:
a quebra de compromisso. É possível prometer e não cumprir, mesmo tendo sido sincero ao fazer a promessa. Posso
combinar ver um filme com uma amiga e não estar na hora marcada na porta do cinema porque algo escapou ao meu
controle, embora eu quisesse estar lá. Posso ter ficado presa no trânsito por causa de uma passeata, por exemplo. Toda
essa abordagem semântica já é bastante “antropológica”. Ela será levada ainda mais longe, na proposta de que todos
os atos de fala, sem exceção, são performativos: convencer alguém da verdade do que eu digo é também um agir com
a linguagem.
Searle e Austin partiram do trabalho de outro filósofo, Paul Grice, que também tratou do contrato social da linguagem,
por meio de convenções culturais. Grice refletiu sobre a relação entre os conteúdos ditos ou explícitos de um enunciado
e os seus conteúdos implícitos. Ele queria explicar como é possível entender mais do que aquilo que o significado literal
de uma sentença informa. Esses entendimentos ou subentendidos são muito comuns nas nossas interações sociais do
dia a dia, além de apresentarem um caráter coletivo, e não individual. Por exemplo, se alguém diz ‘Eu vi o João ontem
jantando no Leblon com uma mulher muito bonita’, qualquer ouvinte com bom domínio da língua e da cultura vai perceber
aí a insinuação de que João estava num encontro romântico ilícito, não obstante o fato de que “uma mulher”, do ponto
de vista lógico, pode descrever a esposa, a irmã, a filha ou a mãe de João, e apesar de nenhuma palavra do que foi dito
classificar o jantar de João como extraconjugal ou escuso. Parafraseando Levinson (2000), o conteúdo associado aos
enunciados que proferimos é apenas uma fração daquilo que realmente comunicamos nesses proferimentos. A
interpretação de enunciados envolve interações complexas entre (i) o conteúdo semântico; (ii) o contexto de enunciação;
e (iii) pressões gerais pragmáticas complexas (das quais as máximas de Grice são apenas uma concepção). O ponto de
partida da pragmática formal é a observação de que os falantes convergem num grau impressionante quanto às
interpretações dos enunciados que ouvem, sugerindo que há profundas regularidades entre os falantes, contextos de
enunciação, tipos de sentença e nos modos como (i)–(iii) interagem.
Para além daquilo que as palavras dizem claramente, há muitos conteúdos comunicados na enunciação. As informações
que não correspondem ao que dizemos explicitamente são os implícitos. Há diversos tipos de implícitos: os lógicos, como
o acarretamento e a contrariedade, valem para todas as enunciações em que aquela sentença seja tida como verdadeira,
e, por isso, não podem ser cancelados. A pressuposição também não poderá ser cancelada enquanto seu gatilho, seja
uma palavra (‘começar’, na sentença “Meu filho começou a falar aos 18 meses”, pressupõe que o bebê não falava até
essa idade) ou uma construção sintática (A construção de foco em “Foi o seu filho que bateu no meu?” pressupõe que
o filho de quem faz a pergunta apanhou de alguém – mesmo se a reposta seja “Não”, vamos entender que outra criança
é responsável pela agressão, mas não há como negar a ocorrência dessa agressão; sem o foco, a resposta negativa
admite a negação da agressão. “Seu filho bateu no meu?” pode ser respondida assim: “Não. Na verdade, ninguém bateu
no seu filhinho. Ele mesmo se machucou batendo a cabeça, numa das diversas vezes em que pulou da cadeira,
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desobedecendo as nossas instruções para que parasse de fazer isso.”) estiver presente na sentença. Mas há implícitos
canceláveis. Por exemplo, quem disse ‘Eu vi o João ontem jantando no Leblon com uma mulher muito bonita’ pode falar,
em seguida: ‘Era a filha caçula dele. Como está linda!’. Pronto, a suspeita da relação extraconjugal se dissipou. Depois
dessa segunda parte, ninguém mais poderá acusar o enunciador de estar envenenando seu ouvinte com a crença de
uma conduta marital infiel de João.
Wittgenstein (sempre lembrado em associação com o slogan “o significado está no uso”) já havia falado de “jogos” de
representação. Para Grice, a comunicação humana é estabelecida por meio de interações conversacionais, e a
conversação é um jogo praticado em sociedade por meio da observação de regras inconscientes. Como todo jogo, esse
também tem de ser praticado em cooperação pelos adversários: só se considera que os jogadores estão praticando um
jogo se as partes estão observando as regras desse jogo. Não se pode jogar futebol jogando a bola com a mão, nem
jogar xadrez manipulando cartas de baralho. Todo jogo envolve a aceitação tácita e prévia de suas regras, antes de
iniciada uma partida. Nesse sentido, jogar um jogo, seja ele qual for, envolve cooperação.
Para o jogo da conversação, Grice formula o seguinte Princípio:
E.1- O Princípio da Cooperação: “faça sua contribuição conversacional tal como requerida, no momento em que for
requerida, pelo propósito e na direção do intercâmbio conversacional em que está engajado.” (GRICE, 1989: 26).
Isso quer dizer que, quando alguém aborda você para propor uma conversação, você pode recusar a proposta. Se você
ignorar o proponente, nenhuma conversa irá se desenrolar; você pode aceitar falar com o proponente, mas recusar o
tema proposto. Se um tema não for mantido e desenvolvido, a interação linguística não vai contar como uma
conversação. Cada mudança de tema vale por uma conversa nova. Observe os diálogos a cada quadrinho, na tirinha de
Quino (o pai de Mafalda). É uma conversa? Por quê?
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O Princípio da Conversação, mais geral, se desdobra em diversas máximas:
➢ A máxima da relevância/ relação: mantenha o assunto/ seja relevante.
➢ A máxima da qualidade: não diga nada que acredite ser falso; não afirme coisas para as quais não tem evidência.
➢ A máxima da quantidade: faça sua contribuição tão informativa quanto o requerido (para os propósitos da
conversação).
➢ A máxima do modo: evite a obscuridade, procure ser claro, seja breve, seja ordenado.
E.2- A implicatura conversacional (o significado que não é literal) pode ser gerada por meio da...
...observação das máximas.
(Contexto: um passante aborda um homem parado junto ao carro, com o capô aberto e cara de contrariado)
A: – O que aconteceu?
B: – Acabou a gasolina.
A: – Tem um posto 2km mais à frente.
Comentário: ninguém disse que o posto está em funcionamento, nem que o percurso dos 2km pode ser percorridos a
pé, nem que o motorista do carro consegue carregar alguma gasolina num galão do posto até o lugar em que está parado
seu carro, mas tudo isso é inferido, pois, de outra maneira (considerando que o posto fosse inacessível vindo da estrada,
ou que estivesse fechado, ou que não tivesse embalagens para portar gasolina ou que seja proibido por lei de vender
gasolina para ser transportada fora do carro), a segunda fala de A deixaria de apontar uma solução para o problema de
B e não seria relevante. Assumindo que A é cooperativo, precisamos assumir que aquilo que ele disse tem ligação com
o assunto proposto por B. Assim, preenchemos as entrelinhas com implicaturasconversacionais.
....violação das máximas
A: – Como C está se saindo no seu novo cargo no banco?
B: – Acho que ele está indo bem... ele gosta dos colegas, e ainda não foi preso.
Comentário: ninguém disse que C não é um funcionário exemplar, mas A tem de assumir que B deseja que se entenda
que C não é a pessoa mais talhada do mundo para a função, visto que suas maiores qualidades profissionais, as dignas
de menção, são evitar a prisão (ser honesto) e apreciar a companhia daqueles que trabalham com ele. Assumindo que
B é cooperativo, precisamos assumir que ele mencionou as melhores qualidades profissionais de C. Assumimos também
que B sabe que, para ser um funcionário de sucesso num banco, é preciso ter outras habilidades: ser bom de contas,
ser rápido na solução de conflitos, vender produtos com facilidade, entender de informática etc. As qualidades que ele
nomeou são pouco importantes: todo mundo exibe tais qualidades, e elas não garantem o destaque nem a progressão
de ninguém. Caso C possua as qualidades de maior destaque, B estará violando a Máxima da Quantidade ao dizer
coisas menos importantes, deixando de lado as mais importantes. Uma vez que B é cooperativo, A raciocina que B deve
ter uma razão para não ter falado em qualidades mais apropriadas a descrever C como estando bem encaminhado e
tendo futuro no novo emprego. O motivo só pode ser o seguinte: B fez isso por ser cooperativo. Se B mencionasse
alguma das qualidades de maior impacto, estaria violando a máxima da qualidade, C não tem as qualidades requeridas
para ter sucesso no novo emprego. Então, sendo impossível a B observar todas as máximas, ele tem de escolher qual
infringir. Ele escolhe infringir a máxima da quantidade para não infringir a da qualidade. Assim, inferimos, do fato de B
ter falado apenas em qualidades desimportantes, que C não terá uma carreira promissora à frente.
E.3- Cálculo das implicaturas
“Ele disse p; não há razão para supor que ele não esteja sendo cooperativa, ou tentando observar as máximas; ele não
diria isso a menos que ele pensasse q; ele sabe (e sabe que eu sei que ele sabe) que eu posso ver que a suposição de
que ele pensa q é requerida; ele não fez nada para me demover de supor que q; então ele pretende que eu pense, ou
ao menos está disposto a permitir que eu pense que q; assim ele está implicando q.”
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Exercícios: calcule a(s) implicatura dos exemplos abaixo. Depois, diga como elas poderiam ser canceladas.
(i) Crônica de LFV
Dois homens se encontram.
A – Êpa! Mas há quanto tempo!
B – 27 dias, 14 horas e dezessete minutos!
A – O quê?
B – Que não nos vemos.
A – Ah… Mas, como é? Começando a esfriar, não?
B – Vinte e um graus e um décimo.
A – Mas eu não perguntei a temperatura.
B – Você disse “começando a esfriar”. Eu confirmei. A temperatura é de…
(ii) Tirinha do Hagar
Aplicações: escalas
O significado do conectivo ‘ou’: inclusivo ou exclusivo?
P Q P Q P Q
V V V F
V F V V
F V V V
F F F F
Leitura exclusiva de ‘ou’:
(1) Ana está no Rio ou Ana está em São Paulo. (mutuamente exclusivos: ela só pode estar num desses dois
lugares, nunca em ambos ao mesmo tempo)
(1’) Ana está no Rio e em São Paulo neste momento. (contradição)
Leitura inclusiva de ‘ou’:
(2) Ana tem um filho ou uma filha. (os dois são possíveis)
(2’) Ana tem um filho e uma filha. (não é contraditório)
Será que o exemplo (2), com a leitura inclusiva, mostra que ‘ou’ das línguas naturais é ambíguo?
Segundo Grice, não. A máxima da quantidade diz: “faça a sua contribuição tão informativa quanto o requerido”. Se o
falante tivesse evidência sobre Ana ter um casal de filhos, ele poderia ter dado uma informação mais forte, usando (2’’).
Se ele é cooperativo e decidiu não usar a forma mais informativa, é porque ou isso não importava no contexto ou ele não
podia afirmar isso com certeza. Caso ele usasse (2’’), na segunda opção, poderia estar dando uma informação falsa, que
violaria a máxima da qualidade. Ele escolheu violar a máxima da quantidade para evitar violar a da qualidade.
Sempre que o falante tem uma escolha entre dar uma informação mais forte (específica) e uma mais fraca (vaga), se
todas as demais condições forem as mesmas, ele opta pela mais forte. O uso da mais fraca implica que ele não tem
evidência suficiente para usar a mais forte. Inversamente, em contextos nos quais se presume que o falante tenha
evidencia suficiente, a escolha da forma mais fraca cria a implicatura de que a forma mais forte é falsa.
ou + presunção de que o falante sabe tudo a respeito = “mas não e” (Ana tem um filho, mas não uma filha)
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Argumento da Negação:
(1’’) Ana não está no Rio ou em São Paulo. = Ana nem está no Rio nem em São Paulo.
(2’’) Ana não tem um filho ou uma filha. = Ana nem tem um filho nem uma filha.
Se ‘ou’ fosse ambíguo entre uma leitura inclusiva e uma exclusiva, sua negação também deveria ser. Mas entendemos
de (1’’) que Ana está em algum lugar distinto dos dois mencionados, e de (2’’) que ela não é mãe de ninguém. É o mesmo
resultado que a negação de P & Q. Então a semântica de ‘ou’ não é ambígua. O outro sentido é derivado
pragmaticamente. Veja como a negação preserva ambiguidades reais:
(i) João achou seu canto.
(ii) João não achou seu canto.
Tanto em (i) quanto em (ii) ‘canto’ pode ser entendido como sua forma de cantar, ou como o seu lugar de moradia ou
trabalho. Compare. No caso de (1’’) e (2’’), as formas afirmativas têm interpretação inclusiva e exclusiva, mas a negativa
só tem uma interpretação.
E.4- Implicaturas escalares
alguns + presunção de que o falante sabe tudo a respeito = nem todos (‘Maria comeu alguns biscoitos’ = (‘Maria
comeu alguns biscoitos, mas não todos eles’).
todos = 20
muitos = 14
metade = 10
vários = 6
alguns = 4
poucos = 2
nenhum = 0
Se, num pacote, vierem 20 biscoitos, até comer ‘todos’ o comensal terá de passar por diversos estágios: ele vai comer
primeiro 2 (até esse momento ele comeu ‘poucos’), depois 4 (até esse ponto ele comeu ‘alguns’), depois 6 (quando ele
terá comido ‘vários’), depois 10 (metade), depois 14 (‘muitos’) e depois muitos mais, até chegar ao último biscoito do
pacote. Só então será possível dizer que ela comeu todos os biscoitos. Por isso, do ponto de vista lógico, se for verdade
que João comeu 10 biscoitos, tem de ser verdade que ele comeu 2; se João comeu metade do pacote, então
necessariamente é verdade que ele comeu alguns biscoitos. Quantidades maiores incluem as menores. Nesse raciocínio,
‘todos’ inclui ‘alguns’. Logo, do ponto de vista lógico haveria um acarretamento entre (3) e (3’),ou seja, se (3) for
verdadeiro, (3’) necessariamente seria verdadeiro:
(3) João comeu todos os biscoitos.
(3’) João comeu alguns biscoitos.
No outro sentido, de (3’) para (3), não há uma relação de acarretamento, mas há compatibilidade ou verdade contingente:
João pode ter comido alguns biscoitos e continuado a comer até acabar o pacote, ou pode ter parado no 4º. biscoito. No
primeiro cenário, ele começou comendo alguns e terminou comendo todos os biscoitos. Aí, tanto (3) quanto (3’) são
verdadeiras. Já no segundo cenário, só (3’) é verdadeira, e (3) é falsa. Entretanto, mesmo com essa lógica, a maior parte
das pessoas vê (3’) como sinônimo de (4), que é o contrário, a negação de (3):
(3’) João comeu alguns biscoitos. = (4) João não comeu todos os biscoitos (= ~(3))
Por que se infere (4) de (3’) (mas não se infere (3))? Por causa da máxima da quantidade de Grice. Dado que o falante
cooperativo deve dar sempre a informação mais forte, no caso em que João tivesse comido os 20 biscoitos dizer que ele
comeu 4 seria dizer muito pouco, embora (3) e (3’) sejam logicamente compatíveis. Assumindo que o falante é
cooperativo, temde haver uma razão para ele ter optado pela informação mais fraca. Essa razão só pode ser uma: o
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falante teve de infringir uma máxima para evitar a infração de outra, já que seria impossível observar as duas. O ouvinte
infere que o falante optou por (3’) porque, caso o falante dissesse que João comeu 20 biscoitos (3), estaria violando a
máxima da qualidade. Isto é, ele não tem evidências que sustentem a informação mais forte. Nesse caso, fica entendido
que, dado o que ele sabe, ele só pode se comprometer com a informação mais fraca: com João ter comido alguns, mas
não todos os biscoitos.
De acordo a teoria pragmática das implicaturas conversacionais, expressões de quantidade presentes nos enunciados
são entendidas como informando a máxima quantidade apenas em alguns contextos. Esse entendimento é cancelável:
(5) A – João comeu algum biscoito hoje?
B – João comeu alguns biscoitos hoje sim. Na verdade, ele comeu todos, o pacote inteiro, alguns no café
da manhã e o restante depois do almoço.
Implicaturas generalizadas:
Há entendimentos que são culturais, compartilhados por toda a sociedade, independentemente do contexto específico
de uso, mas que dependem do uso de uma expressão mais fraca.
Encontre as implicaturas nos exemplos abaixo. Explique como elas são criadas, usando as máximas de Grice. Que
continuação de conversa cancelaria as implicaturas encontradas?
(6) Ontem à noite eu vi o José na festa com certa pessoa...
(7) Chega! Eu vou pra casa!
(8) Você soube? Maria caiu, bateu a cabeça e precisou levar pontos!
(9) A – Você vai terminar o artigo no prazo?
B – Eu vou tentar...
Em (6), não dar o nome da pessoa específica que estava com José cria a sensação de que é um segredo, uma relação
escusa. Em (7), entenderemos que o falante vai para a própria residência, e não para a casa de outra pessoa, apesar
de não haver possessivo algum na sentença. Em (8), entendemos que Maria bateu a própria cabeça. Em (9), o uso de
‘tentar’ implica que B não tem certeza de conseguir.
Exercícios: uma máxima é violada para que a outra não o seja.
Diga qual foi a máxima preservada, priorizada, e qual a máxima sacrificada para isso.
(10) A – Que significa “implicatura conversacional”?
B – Consulte uma obra de pragmática.
(11) A – Que horas são?
B – Ainda é cedo!
(12) Julieta diz para Romeu: – Você já vai partir? Não vá ainda... O dia ainda demora. Não foi a cotovia, foi
o rouxinol ... foi ele que cantou, foi sim, amor.
(13) A – Você me ama?
B – Eu gosto muito de você.
(14) (uma professora pergunta à colega:)
A– O que achou da prova do meu sobrinho?
B – Bom, ele tem uma letra linda!
(15) (a namorada pergunta ao namorado, querendo planejar filhos:)
A – Você gosta de crianças?
B – Ô, se gosto! Ensopado, com batatas, então, é uma de-lí-ci-a!
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F- Steven Pinker sobre atos de falas indiretos (relacionamentos governam a interação linguística)
Para assistir (desenhado): https://www.youtube.com/watch?v=3-son3EJTrU
Para a Teoria da Polidez, a língua serve a dois propósitos: veicular uma proposição (de suborno, comando,
oferecimento) e negociar ou manter um relacionamento. A forma literal da sentença é consistente com uma relação
assegurada entre falante e ouvinte. Por outro lado, contando com o entendimento de implícitos por parte do ouvinte, o
falante pode iniciar uma relação diferente. Por exemplo, “Se você pudesse me buscar em casa seria maravilhoso” viola
as máximas conversacionais de Grice por ser irrelevante e por não ser verídico (é exagerado). O ouvinte calcula que, se
o falante declara que o resultado de uma ação futura do ouvinte seria positivo para o falante, o falante deve estar lhe
fazendo um pedido. Com efeito, o conteúdo da intenção (um imperativo) é transmitido, mas sem a presunção de
dominância que costuma vir junto.
Vou tratar de como os tipos de relacionamento que governam a interação social humana, novamente, como refletida na
linguagem. E vou começar com um problema: o problema dos atos de fala indireta. Estou certo que a maioria de vocês
viu o filme “Fargo”. E vocês podem se lembrar da cena na qual o sequestrador é parado por um policial, que pede a ele
que mostre sua carteira de motorista; o sequestrador segura a carteira para fora do carro com uma nota de 50 dólares
escapando um pouquinho para fora da carteira. E ele diz: “Eu estava pensando que talvez nós pudéssemos resolver isso
aqui em Fargo”, o que todo mundo, inclusive a plateia, interpreta como um suborno velado. Este tipo de fala indireta é
abundante na linguagem.
O exemplo mais simples disso está no pedido educado. Se você expressa seu pedido de forma condicional: “Se você
pudesse abrir a janela, seria ótimo”, mesmo embora o conteúdo seja um imperativo, o fato de que você não está usando
a voz imperativa significa que você não está atuando como se estivesse num relacionamento de dominância, onde você
poderia pressupor a obediência da outra pessoa. Por outro lado, você quer que a janela seja aberta. Expressando-o
como “se-então”, você transmite a mensagem sem parecer que quer mandar na outra pessoa.
E de uma maneira mais sutil, eu acho, isto funciona para todos os atos velados da fala envolvendo negação plausível:
os subornos, ameaças, proposições, solicitações e assim por diante. Uma maneira de pensar sobre isso é imaginar como
seria se a linguagem só pudesse ser usada literalmente. E você pode pensar nisso em termos de uma matriz de ganhos
da teoria dos jogos. Ponha-se na posição do sequestrador querendo subornar o policial. Há muito em jogo nas duas
possibilidades de se ter um policial desonesto ou um policial honesto. Se você não subornar o policial, então você vai
levar uma multa ou, no caso de “Fargo”, pior seja o policial honesto ou desonesto: quem não arrisca, não petisca.
Naquele caso, as consequências são bastante severas. Por outro lado, se você oferece o suborno, e o policial for
desonesto, você obtém um enorme ganho de ficar livre. Se o policial for honesto, você toma uma grande penalidade de
ser preso por suborno. Então esta é uma situação bastante preocupante.
Por outro lado, com linguagem indireta, se você oferece um suborno velado, então o policial desonesto poderia interpretá-
lo como um suborno, o que no caso você obteria o ganho de ficar livre, o policial honesto não pode te prender por ser
tentativa de suborno, e, portanto, você fica com o incômodo da multa. Então você tem o melhor dos dois mundos. E uma
análise similar, penso eu, pode ser aplicada ao desconforto potencial de uma solicitação sexual, e em outros casos onde
a negação plausível é uma possibilidade. Acho que isso afirma algo que é conhecido há bastante tempo por diplomatas,
a saber: a vagueza, a indeterminação da linguagem, longe de ser um erro ou imperfeição, pode realmente ser uma
característica da linguagem que exploramos para tirar vantagem em interações sociais. (Palavras de Pinker)
Escolha racional: a atitude mais barata é a linguagem indireta
chance de 50% chance de 50% cálculo
guarda honesto guarda desonesto risco médio
suborno aberto detenção por suborno: $1000 suborno aceito: $50 $525
suborno velado multa (excesso de velocidade): $100 suborno aceito: $50 $75
não tentar subornar multa (excesso de velocidade): $100 multa: $100 $100
Nessa visão, a linguagem é uma criação coletiva humana, que reflete a natureza humana – espelha como nós
conceitualizamos a realidade, como nós nos relacionamos uns com os outros.
https://www.youtube.com/watch?v=3-son3EJTrU
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F.1- Tipos de relação social
(i) Relação de dominação ou autoridade: governada pelo ethos “Não mexa comigo”. No reino animal já há hierarquias
de poder; entre humanos,elas são muito mais complexas.
(ii) O compartilhamento ou comunitarismo segue o ethos “O que e meu é seu; e o que é seu é meu”. É o
relacionamento de afinidades, de associações por interesses em comum, de casais monogâmicos, de grupos de amigos,
de famílias.
(iii) o relacionamento de reciprocidade ou paridade obedece ao ethos “Uma mão lava a outra”, baseado em altruísmo
e reciprocidade, negociado explicitamente por contratos.
F.2- Conhecimento mútuo ou compartilhado?
A sabe x e B sabe x, e ainda A sabe que B sabe x, e B sabe tanto que A
sabe x quanto que A sabe que B sabe que A sabe x... ao infinito.
A língua é um instrumento eficiente de gerar conhecimento compartilhado.
Atos de fala indiretos permitem a transmissão de um conhecimento
individual para outra pessoa, enquanto que atos de fala diretos produzem
o compartilhamento do conhecimento (por muita gente); ora,
relacionamentos podem ser mantidos ou aniquilados pelo fato de o seu
pensamento íntimo se tornar de conhecimento compartilhado.
– O rei está nu!
http://web.stanford.edu/~cgpotts/entries/potts-routledge08-formal-pragmatics.pdfPragmatics
Processos de elaboração da face (Goffman): preservação da face X ameaça à face
Mais uma máxima conversacional: a Máxima da Polidez (BROWN, LEVISON, 1987)
Lakoff (1973): não imponha, dê opções, seja amigável
Efeitos linguísticos: pesquisas sobre diminutivos mostram que os chamados redutores/ minimizadores (os que
expressam um grau baixo da propriedade), como a little, a bit, slightly, são usados mais frequentemente antes de
adjetivos de avaliação negativa (um pouquinho gordo, um tantinho chato), para atenuar a crítica negativa (ameaça à
face alheia). No Brasil também usamos em pedidos:
(16) A – Quer mais cerveja?
B – Só mais um pouquinho, por favor...
(17) A – Pode falar um pouquinho mais baixo, por favor? O bebê está dormindo...
(18) A – Fazia tempo que eu não via a Maria! Ela está um bocadinho menos magra, não acha?
(19) A – Gostou do meu feijão?
B – Gostei. Só está um tantinho salgado pro meu paladar...
Exercícios
Dê a implicatura conversacional e quais as máximas conversacionais envolvidas; explique se cada máxima é preservada
ou violada.
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G- A dêixis na semântica da enunciação
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Identifique o referente de ‘você’ e ‘aqui’ (1a. coluna, 1ª. linha), de ‘hoje’ e ‘meu’ (2a. coluna, 1ª. linha), de ‘amanhã’ (3a.
coluna, 1ª. linha), de ‘nós’, ‘aqui’ e ‘vós’ (4a. coluna, 1ª. linha), do sujeito nulo e do evento de ficar cansado (2a. coluna,
2ª. linha), do sujeito nulo e do pronome ‘sua’(2a. coluna, 2ª. linha), do sujeito de ‘acredite’, do evento de acreditar e de
‘você’ (3a. coluna, 3ª. linha), e do sujeito nulo da forma verbal ‘respeite’ (4a. coluna, 2ª. linha). Esses referentes não são
fixos, mas variam conforme a situacão de uso dessa expressão linguística. Como descobrimos a que uma expressão
dêitica se refere? Precisamos conhecer o contexto de enunciação. Por exemplo, para saber que dia é ‘amanhã’, temos
de saber em que dia essa palavra foi usada; para sabermos quem é você, temos de ver a quem se dirige o falante que
proferiu o pronome de segunda pessoa.
Dêixis - faculdade que tem a linguagem de designar mostrando, em vez de conceituar. A designação dêitica, ou
mostrativa, figura assim ao lado da designação simbólica ou conceptual em qualquer sistema linguístico. (...). O pronome
é justamente o vocabulário que se refere aos seres por dêixis em vez de o fazer por simbolização como os nomes. Essa
dêixis se baseia no esquema linguístico das três pessoas gramaticais que norteia o discurso: a que fala, a que ouve e
todos os mais situados fora do eixo falante-ouvinte. (CÂMARA JUNIOR, 2002:90)
Benveniste estudou os pronomes detalhadamente: Estrutura das relações de pessoa no verbo (1946), A natureza dos
pronomes (1956), Da subjetividade na linguagem (1958) e A linguagem e a experiência humana (1965) entre outros.
Para a semântica da enunciação, a ideia de uma realidade extralinguistica ou prelinguística, ou seja, fora da lingua, é
uma ilusão criada pela dêixis. A referência dêitica é entendida como sui-referencial, ou seja, como fazendo referencia
aos próprios participantes da enunciação. O contexto dêitico não é exterior (ontológico), mas subjetivo. A dêixis comporta
as categorias de pessoa, espaço e tempo.
Para Barthes (1988: 182): “(...) Benveniste (...) funda uma linguística nova (...), da interlocução; a linguagem, e, portanto,
o mundo inteiro, articula-se sobre essa forma eu-tu.”
Exemplo
Um novo gerente, determinado a fazer subir a produtividade, queria punir os vagabundos e
recompensar os muito aplicados. Em certo departamento, todos estavam ocupados, menos um jovem, que não
fazia nada de útil, só olhava o celular, encostado à parede, junto à porta. Pensando em fazer dele um caso
exemplar, o gerente o chamou e propôs: –
– Eu te dou agora R$1.000,00 e você vai para casa, o.k.?
– Só se for agora! - respondeu o rapaz.
O gerente tirou o dinheiro da carteira e deu ao jovem, dizendo bem alto, para que todos os demais
ouvissem:
– É isso o que ganha quem não faz nada aqui!
O rapaz pegou o dinheiro e saiu rapidinho, bem contente.
O gerente ficou bem satisfeito, pensando que agora todos os acomodados teriam medo de demissão e
não encostariam mais o corpo. Por curiosidade, perguntou a um funcionário, que estava mais próximo:
– Ei, você! Pode me dizer o que aquele jovem fazia aqui na empresa?
– Ele veio entregar uma pizza, respondeu o funcionário.
Identifique, nos momentos de discurso direto sublinhados, as marcas linguísticas que permitem completar a tabela
fornecida.
Questões Marcas Linguísticas Identificação Referencial
Quem fala? Eu (implícito no diálogo) Designa o Gerente.
Com quem fala? Teu (Tu)
Você
Designa o entregador de pizzas.
Designa o trabalhador mais próximo dele.
Onde fala? Aqui, daqui Designa a sala da empresa em que o gerente estava (espaço na
vizinhança do locutor).
Quando fala? Agora Designa o momento em que a frase é produzida, pelo locutor (o
gerente).
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G.1- Eu, aqui e agora
(...) como se coloca a língua em funcionamento? Alguém assume a palavra e dirige-se a outra pessoa e, ao fazer isso,
instaura-se como um eu e erige a pessoa a quem se endereça como “tu” (que, na maior parte do Brasil, é realizado como
“você”). Esse ato de dizer realiza-se num tempo (agora) e num espaço (aqui). Por isso, a enunciação é a instância,
denominada por Benveniste, do ego, hic et nunc, ou seja, do eu, do aqui e do agora. A partir dessa instância do falante,
do seu espaço e do seu tempo, criam-se todas as distinções de pessoa, espaço e tempo na língua. O linguista francês
nomeia as categorias da enunciação com palavras latinas, para indicar que elas existem em todas as línguas, em todas
as linguagens (por exemplo, as visuais).
Benveniste vai chamar aparelho formal da enunciação as categorias de pessoa, de espaço e de tempo, que são centrais
no exercício da língua. Os elementos dessas categorias foram denominados embreadores, termo tirado da mecânica.
Embreagem é um mecanismo que permite unir um motor em rotação ao sistema de rodas que não estão girando.
Palavras como “eu”, “tu”, “aqui”, “aí”, “ali”, “agora”, “então” são chamados embreadores, embreantes ou dêiticos, porque
só ganham referência quando se conecta a língua à situação de comunicação. Se lermos, num quadro de recados, o
seguinte texto: “Estive procurando-o hoje.Esteja lá amanhã sem falta”, não saberemos quem é que esteve procurando,
quem ele esteve buscando, quando esteve fazendo isso, quando e onde a pessoa procurada deve estar sem falta. Isso,
porque alguém deve ter apagado os elementos da situação de comunicação que permitiriam ancorar os dêiticos: nome
do destinatário do recado, local e data em que a mensagem foi escrita, nome do destinador. Esses dados são
obrigatórios, por exemplo, numa carta, exatamente para que possamos saber os referentes dos dêiticos que aparecem
no texto.
Benveniste (1995) mostra que a enunciação é a instância do “ego, hic et nunc”. O “eu” é instaurado no ato de dizer: “eu”
é quem diz “eu”. A pessoa a quem o “eu” se dirige é estabelecida como “tu”. O “eu” e o “tu” são os participantes da ação
enunciativa. “Ele” é a não-pessoa, aquele ausente sobre quem se fala. “Aqui” é o espaço do “eu”, a partir do qual todos
os espaços são ordenados “aí”, “lá” etc.; “agora” é o momento em que o “eu” toma a palavra e, a partir dele, toda a
temporalidade linguística é organizada. A enunciação deixa marcas no enunciado e, com elas, pode-se reconstruir o ato
enunciativo. O enunciado é o produto da enunciação, despido das marcas enunciativas. A enunciação é a instância
linguística logicamente pressuposta pela existência do enunciado. Se existe um dito, obviamente há um dizer que o
produziu.
O mecanismo básico com que se instauram no texto pessoas, tempos e espaços é a debreagem. Ela pode ser de dois
tipos: a enunciativa e a enunciva. A primeira projeta no enunciado o “eu-aqui-agora” da enunciação, ou seja, instala no
interior do enunciado os actantes enunciativos “eu/tu”, os espaços enunciativos “aqui, aí etc.” e os tempos enunciativos
(presente, pretérito perfeito 1, futuro do presente2). A debreagem enunciva constrói-se com o “ele, o alhures e o então”,
o que significa que, nesse caso, ocultam-se os actantes, os espaços e os tempos da enunciação. A debreagem
enunciativa produz, basicamente, um efeito de sentido de subjetividade, enquanto a enunciva gera, fundamentalmente,
um efeito de sentido de objetividade. Como se vê, A debreagem enunciativa produz, basicamente, um efeito de sentido
de subjetividade, enquanto a enunciva gera, fundamentalmente, um efeito de sentido de objetividade. (Trecho do artigo
“Maravilhas da enunciação”, de José Fiorin – http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12024).
H- A categoria de tempo
É preciso distinguir bem entre três noções de tempo:
Tempo físico: intervalo entre o princípio e o fim de um movimento
Tempo cronológico: sucessão de acontecimentos desde um marco
Tempo linguístico: estabelecido em função do momento da enunciação
Só nos interessa o tempo linguístico. Quando alguém está falando sobre um acontecimento, todos nós compreendemos
quando ele ocorreu. Como isso funciona? Como localizamos no tempo os eventos/acontecimentos sobre os quais
conversamos? Tempo é a categoria linguística que localiza os acontecimentos na fala. O ponto de partida é o momento
em que se fala. A enunciação estabelece um eu-tu, um aqui e um agora. Os acontecimentos são localizados a partir
desse agora: ou o fato é simultâneo à conversa /concomitante ou não é. Se o fato não é concomitante à conversa, é
preciso sinalizar sua anterioridade ou posteridade. Temos assim três tempos linguísticos gerais: PRESENTE (evento
concomitante à conversa), PASSADO (evento não concomitante à conversa, anterior a ele – primeiro acontece algo,
depois falamos sobre aquilo que ainda vai acontecer).
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Na tirinha, no primeiro quadrinho, a multidão fala de uma pegada / um evento de pegar que não é concomitante com o
momento da fala, que não ocorreu ainda. O evento ocorre depois. No segundo quadrinho, vemos o autor da façanha
informando em sua fala justamente isso: que a pegada ocorreu num momento anterior a ele contar isso aos outros (a
pegada é posterior à fala do quadrinho um, mas anterior à do quadrinho dois). O mesmo acontecimento é FUTURO no
primeiro quadrinho, e PASSADO no segundo quadrinho.
No primeiro verso do poema “motivo”, de Cecília Meireles, temos um acontecimento, um cantar, que acontece enquanto
o poema se desenvolve: o eu lírico fala do motivo de seu canto no próprio canto. A fala é simultânea com o ato de cantar.
O tempo linguístico é o PRESENTE.
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Temos de tomar cuidado para não confundir as formas da língua (e aqueles nomes do nosso sistema de conjugação
verbal) com o tempo linguístico. Na teoria de Benveniste, há 9 tempos linguísticos possíveis, em qualquer língua natural.
A mesma forma linguística (um verbo conjugado de certo jeito) pode ser interpretada como tempos diferentes. Para
chegar a essas possibilidades lógicas, combina-se um momento de referência a um momento do evento e ao momento
da fala. O Momento de Referência é um marco temporal da concomitância (presente), da anterioridade (passado) ou da
posteridade (futuro), geralmente realizado na forma de um adjunto adverbial de tempo, como, por exemplo, ‘agora’ em
‘O ônibus está saindo agora’. Nesse caso, o momento do evento (a saída do ônibus) o momento da fala (um agora
instaurado pela conversação) e o momento de referência dado pelo adjunto adverbial ‘agora’ são concomitantes. Temos
então o esquema: MR = MF = ME. O momento de referência pode não vir explícito, mas implícito no texto, como na
sentença ‘O ônibus está saindo’; aí não vemos a palavra ‘agora’, mas podemos entender as duas sentenças da mesma
maneira, quanto à localização temporal do evento de saída, o que indica a utilidade de considerar que é como se aí
estivesse um MR implícito simultâneo ao ME.
Relação entre o MF e o MR:
MR = MF (concomitantes) resulta em MR presente (ex.: ‘agora’)
MR < MF (anterioridade) resulta em MR passado (ex.: ‘ontem’)
MR MF (posterioridade) resulta em MR futuro (ex.: ‘amanhã’)
Tempos formados com MR presente (ex.: ‘agora’)
MA = MR presente (concomitantes) resulta em PRESENTE DO PRESENTE (ex.: ‘Estou no Rio agora’)
MA < MR presente (anterioridade) resulta em PASSADO DO PRESENTE (ex.: ‘Agora já gastei o dinheiro’)
MA MR presente (posterioridade) resulta em FUTURO DO PRESENTE (ex.: ‘Eu vou dormir’)
Acima, vemos que a estada no Rio ocorre ao mesmo tempo em que se fala nela, que o gasto do dinheiro ocorreu antes
de se falar sobre ele e que a dormida será depois de ela ser mencionada.
Tempos formados com MR passado (ex.: ‘ontem’)
MA = MR passado (concomitantes) resulta em PRESENTE DO PASSADO (ex.: ‘Fui à praia ontem’)
MA < MR passado (anterioridade) resulta em PASSADO DO PASSADO (ex.: ‘Em 1985, ao completar 15 anos, ele já
tinha escrito 32 poemas’)
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MA MR passado (posterioridade) resulta em FUTURO DO PASSADO (ex.: ‘Dois anos depois, com 17 anos, ele
publicaria seu segundo livro’)
Acima, vemos que a ida à praia coincide com o marco temporal passado (‘ontem’); que, em 1985) (um marco temporal
passado), a escrita de 32 poemas já estava concluída; e que a publicação do segundo livro ocorreu depois de um marco
temporal passado (1985): essa publicação saiu em 1987, quando o poeta tinha 17 anos.
Tempos formados com MR futuro (ex.: ‘amanhã’)
MA = MR futuro (concomitantes) resulta em PRESENTE DO FUTURO (ex.: ‘Amanhã, às 15h30, estarei chegando ao
Rio’)
MA < MR futuro (anterioridade) resulta em PASSADO DO FUTURO (ex.: ‘Quando ela casar, já terá engravidado)
MA MR futuro (posterioridade) resulta em FUTURO DO FUTURO (ex.: ‘Quando o bebê nascer, já terei comprado todo
o enxoval)
Acima, vemos que a chegada no Rio coincide com o momento de referência futuro (três e meia da tarde de amanhã),
que a gravidez precede o casamento (emboraos dois sejam futuros), e que o nascimento do bebê é posterior a outro
fato futuro, que é a compra do enxoval do bebê.
São então nove as possibilidades lógicas de tempo linguístico. Tempo é a localização de um acontecimento (MA) em
relação a um MR estabelecido em relação ao MF. Cada tempo pode ser expresso por mais de uma forma verbal. A
mesma forma verbal pode servir para a expressão de mais de um tempo.
Tempos do momento de referência presente
1 Presente - Concomitante em relação a um momento de referência presente:
“O ator emociona a todos”
A emoção ocorre no momento da enunciação.
Temos um presente que coincide com o momento da enunciação, o presente pontual (Um raio risca o céu); um
presente, em que o tempo do acontecimento é maior do que o momento da enunciação (nesse caso, a
coincidência diz respeito ao fato de que o acontecimento engloba o momento da enunciação), o presente durativo
(No século 20, a pesquisa brasileira dá um salto de qualidade); um presente que indica que a duração do
acontecimento é ilimitada, o presente omnitemporal ou gnômico (As placas tectônicas são subdivisões da crosta
terrestre que se movimentam de forma lenta e contínua e, às vezes, se chocam).
2 Pretérito perfeito 1 - Anterior a um momento de referência presente:
“Emagreci trinta e dois quilos”
O emagrecimento se dá num momento anterior ao agora.
3 Futuro do presente - Posterior a um momento de referência presente:
“O Brasil será uma grande potência”
O país se tornará uma potência num momento posterior ao agora.
Tempos do momento de referência pretérito
1 Presente do pretérito: Concomitante a um momento de referência pretérito. Esse tempo é expresso pelas
formas que denominamos “pretérito perfeito”, aqui chamadas “pretérito perfeito 2”, para distinguir do tempo
anterior do presente, e “pretérito imperfeito”; a distinção entre elas é aspectual: a primeira assinala um aspecto
limitado, acabado, pontual, dinâmico; a segunda marca um aspecto não limitado, inacabado, durativo, estático:
“Quando você entrou na Faculdade, eu já estava no
último ano”
“No mês de janeiro, choveu muito”
A chuva é concomitante ao marco temporal pretérito “mês de
janeiro” e denota um acontecimento acabado.
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Estar no último ano é concomitante ao marco temporal pretérito
“quando você entrou na Faculdade” e indica uma duratividade no
passado.
2 Pretérito mais-que-perfeito simples ou composto - Anterior a um momento de referência pretérito:
“Ele viajou para o exterior com o dinheiro que
juntara em seu trabalho”
Juntar dinheiro é anterior ao momento de referência passado
“viajar para o exterior”.
“Quando cheguei, ele já tinha saído”
A saída é anterior ao marco temporal pretérito “quando cheguei.
3 Futuro do pretérito - Posterior a um momento de referência pretérito. É expresso pelas formas que
denominamos “futuro do pretérito simples” e “futuro do pretérito composto”; a diferença é aspectual: o primeiro
indica a imperfectividade (o não acabamento); o segundo indica a perfectividade (o acabamento):
“Naquele jogo, senti que meu time não ganharia o
campeonato”.
Não ganhar é ação que se realizaria posteriormente ao marco
temporal pretérito “naquele jogo”; é ação não realizada e, portanto,
não acabada no momento do marco temporal.
“No início da CPI, estava previsto que, no começo
do recesso legislativo, ela teria terminado os
trabalhos”.
O término dos trabalhos é posterior ao marco temporal pretérito
“início” da CPI, mas é anterior em relação a outro marco temporal
“começo do recesso legislativo”, indicando, portanto, uma ação
acabada em referência a ele.
Tempos do momento de referência futuro
1 Presente do futuro - Concomitante a um momento de referência futuro:
“No ano que vem, trabalharei e estudarei”
Trabalhar e estudar são ações que ocorrem concomitantemente ao momento de referência futuro “no ano que vem”; observe-se que o
verbo aqui não indica uma posterioridade em relação ao momento presente, como no caso do futuro do presente.
2 Futuro anterior - Anterior em relação a um momento de referência futuro (expresso pela forma que
denominamos futuro do presente composto):
“No ano que vem, terei terminado o curso”
O término do curso é anterior ao marco temporal futuro “no ano que vem”.
3 Futuro do futuro - Posterior ao marco temporal futuro:
“Viajaremos, depois que o ano letivo terminar”
Exercícios:
(A) Indique o MR, o MA e a relação entre eles nas sentenças abaixo:
(1) Presidente do clube promete apresentar reforços na próxima semana.
(2) No final do ano passado, o presidente do clube prometera apresentar reforços no mês seguinte.
(3) Pelé é considerado o maior jogador da história do futebol.
(4) Pelé foi apelidado de “O Rei” pela imprensa francesa, em 1961.
(5) Vinte anos depois de ter recebido o apelido de “O Rei”, Pelé receberia na França o título de Atleta do Século (20).
(6) O milésimo gol foi marcado em 19 de novembro de 1969, às 23h11, no Maracanã.
(7) O último jogo pela seleção também foi no Maracanã, em 18 de julho de 1971.
(8) Depois que pendurou as chuteiras número 39, Pelé se tornou embaixador para Ecologia e Meio ambiente (ONU
1992), embaixador da Boa Vontade (UNESCO 1993) e embaixador para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco 1994).
(9) Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, foi Ministro dos Esportes do Brasil - de 1995 a 1998.
(10) Eu queria um café, por favor.
(12) Eu lhe daria o céu meu bem, e o meu amor também.
(13) Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar...
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(14) Eu só sei que nada sei.
(15) Ela era uma criança muito bonita.
(16) Fazia um sol de rachar.
(17) Ninguém conseguia dormir.
(18) Vou sair agora.
(19) Ele foi embora nesse minuto.
(20) Se isso acontecesse comigo, eu morreria de susto.
(B) Vamos analisar a letra da canção ’Saiba’, de Arnaldo Antunes
Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem
Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu
Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar
Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano
Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé
Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você
I- Aspecto verbal
(5) a. Ele é cozinheiro.
b. Ele está cozinhando.
Embora as duas sentenças (5) estejam no mesmo tempo (presente), as condições de verdade são diferentes, pois
elas diferem em aspecto. O aspecto interage com o tempo verbal (tense), que trata da localização temporal de
uma eventualidade na linha do tempo e em relação ao momento da fala. Segundo Comrie (1976), o aspecto se
define em função dos diferentes modos de observar a constituição temporal interna de uma situação (durativo X
instantâneo). Klein (1994) propõe que o aspecto corresponda à relação de inclusão ou não entre ME e MR,
enquanto que o tempo dependo do MF.
I.1-Tipos de eventualidades: classes acionais (Vendler 1967)
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I.1.1-- Verbos de estado: alguns verbos valem por uma fotografia.
Olhando para uma cena parada, podemos descrever vários detalhes dela.
(1) Ele está na praia.
(2) Ele está vestindo uma camisa laranja.
(3) Ele está usando um boné cor de laranja.
(4) Ele está carregando um latão.
(5) Ele é um vendedor de mate
(6) Ele está de braços erguidos.
(7) Há um menino entrando no mar.
(8) Tem mais gente dentro da água.(9) As ondas estão baixas.
(10) O céu está limpo.
(11) O céu está azul.
(12) Não há nuvens no céu.
As sentenças de (1) a (12) apresentam
estados de coisas.
Atividade 1: Descreva a cena ao lado:
B- Verbos eventivos: outros verbos valem por um filme.
Eles falam de uma mudança de estado. Antes, as cosias eram de um jeito, mas depois, ficaram diferentes.
Ex.: (13) João e Maria se casaram.
Um estado antes...
(14) João é solteiro.
(15) Maria é solteira.
...outro depois:
(16) João é casado.
(17) Maria é casada.
Ex.: (18) João completou 8 anos de vida.
(19) João nasceu em 2009.
(20) João começou a andar em 2010.
(21) João fez aniversário.
(22) João cresceu.
2009 -----------------------------------------------2017
Antes de nascer João não existia; antes de 2010 não andava; antes de seu aniversário não tinha a mesma idade
que tem hoje; antes de crescer não tinha esse tamanho...
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Atividade 2: diga o que mudou com o evento descrito pelo verbo, nomeando tanto um estado de antes do
evento que não permaneceu depois, quanto outro estado, de após o evento, que não existia antes:
(23) Choveu.
(24) Maria fez um bolo.
(25) Pedro comprou uma casa.
(26) Luís atravessou a rua.
(27) João trabalhou até tarde hoje.
(28) Júlia chegou.
(29) Ana viajou.
(30) Ele tomou banho.
(31) Ela viu televisão.
(32) Eles se apaixonaram um pelo outro.
(33) Nós almoçamos.
(34) Eles estudaram..
(35) Eu telefonei pra você.
B – Acionalidade
Vendler (1967) discutiu diferenças entre os verbos, pela maneira como se comportam.
Primeiramente, há verbos de estado. Os verbos de estado mostram uma fotografia.
B.1- Verbos de Estado
Os estados podem perdurar por algum tempo, ou para sempre.
(36) a. Maria está sentada. b. Maria está com 32 anos.
c. Maria está cansada. d. Maria está na sala de aula.
e. Maria está com fome. f. Maria está de vestido.
(37) a. João é mineiro. b. Totó é um cachorro.
c. Os seres humanos são mortais. d. Vitamina C faz bem à saúde.
Dá pra imaginar um estado diferente de ‘sentada’ pra Maria (36a) – algumas vezes ela fica de pé, outras vezes
está deitada, outras ainda ajoelhada...A idade dela não foi sempre essa, e vai mudar (36b). Depois de
descansar, ela não estará mais cansada (36c). Ela não vai ficar na sala de aula até o dia seguinte (36d). Quando
ela comer, a fome vai passar (36e). E ela tem de trocar de roupa em algum momento (36f). Esses estados (36),
associados ao verbo ‘estar’, em PB, são passageiros.
São chamados Stage Level, pois dizem respeito a uma fase ou estágio do indivíduo, não a todas. Vamos pensar
na transformação da larva em borboleta:
Nenhuma das sentenças acima vale para toda a vida desse inseto, mas vale só para um estágio.
Outros estados, como os de (37), são permanentes. Se João nasceu em Minas, ele sempre será mineiro (37a).
Se Totó é o nome do meu cachorro, ele sempre vai ser um exemplar dessa espécie de animal, nunca se
transformando num urso ou peixe (37b). Nenhum ser humano vai viver pra sempre (37c). E a vitamina C não vai
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prejudicar a saúde de ninguém (37d). Essas são propriedades Individual Level: elas duram tanto quanto o
indivíduo a que se aplicam. Mas isso porque é impossível para um indivíduo se separar de algumas
propriedades, enquanto outras são transitórias.
O verbo ‘estar’ é associado a estados Stage Level e o verbo ‘ser’ a estados Individual Level.
Mas há outros verbos que estão associados a estados:
(38) a. João sabe a resposta para a sua pergunta.
b. Maria ama João.
c. Maria tem medo de barata.
d. Maria quer conhecer Manaus.
e. Maria sente muito calor.
f. João detesta esperar.
Em todos os exemplos de (38), estamos olhando para uma fotografia. As situações podem não ter sido sempre
assim. Mas não estamos nos comprometendo com nenhuma mudança de estado. Por exemplo, ao dizer (38c), o
falante não promete que Maria vai deixar de ter medo de barata. Numa fotografia, não vemos o antes nem o
depois, só aquele momento está fixo.
Um teste para separar estados de outros eventos é usar o imperativo. Não faz nenhum sentido dizer:
(39) Seja brasileiro.
(40) Sinta calor.
(41) Tenha sede.
(42) Saiba a resposta para a pergunta que ela vai fazer.
(43) Esteja cansada.
(44) Seja um cachorro.
(45) Esteja de vestido agora.
A pessoa a quem o falante se dirige não vai poder atender ao comando.
Caso ela seja estrangeira, não pode se transformar em brasileira só por força do pensamento (39); se estiver
muito frio, o ouvinte não vai sentir calor só porque alguém mandou (40); se o ouvinte não tiver medo de barata,
não vai ficar com medo depois de ouvir (41); se eu não sei a resposta para a pergunta que alguém me fez, não
vou passar a saber depois de ouvir (42); quem acabou de acordar depois de 9h de sono, bem repousado, não
vai se sentir cansado ao ouvir (43); um gato não vai se transformar num cachorro - as palavras em (44) não são
mágicas; e o menino que está enrolado na toalha, depois do banho, não vai se ver vestido num passe de
mágica, a ouvir o comando de (45).
Veja a diferença, quando o imperativo é usado com verbos que não são de estado:
(46) Saia já daqui!
(47) Coma tudo o que está no prato!
(48) Feche a porta!
(49) Pare!
(50) Cale a boca!
(51) Corra!
(52) Limpe os pés antes de entrar.
Dá para começar imediatamente a fazer o que está comandado de (46) a (52), caso o ouvinte queira mesmo
obedecer.
Outro teste para separar os verbos da classe dos estados dos outro é a pergunta: “O que João está fazendo?” ou
“O que João fez ontem?” Veja como ficam estranhas respostas como “João está sentindo calor”, “João detestou
esperar”, “João quis visitar Manaus” etc.
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Os pronomes são substitutos de nomes (‘João veio’ = ‘Ele veio’); ‘fazer’ é uma proforma verbal, que substitui
apenas verbos eventivos, com mudança de estado, mas não pode ser usado no lugar de verbos de estado.
Podemos dizer “o que o João fez foi correr/ esperar/ telefonar/ dormir”; mas não *“O que o Joao fez foi saber a
resposta”/* “O que o João fez foi ser brasileiro”.
O tempo mais comum a se usar com verbos de estado é o presente simples.
I.1.2- Verbos de Atividade
Os verbos de atividade mostram mais que uma fotografia: mostram uma sequência filmada. Mas, nessa
sequência, a personagem fica fazendo sempre a mesma coisa, continuadamente.
(53) Pedro nadou das 8h às 9h.
Podemos tirar muitas fotografias de Pedro nadando das 8h às 9h. Os registros fotográficos iriam mostrá-lo com o
braço em posições diferentes, cabeça dentro ou fora d’água, mais no começo, mais no meio ou no fim da piscina.
Mas nenhuma dessas posturas, isoladamente, sozinha, é ‘nadar’. ‘Nadar’ envolve uma série de movimentos dentro
da água, que acabam levando o nadador a se mover dentro da piscina. Em qualquer intervalo dessa uma hora de
natação, a resposta à pregunta “O que Pedro está fazendo?” vai ser: “Pedro está nadando” (53).
As atividades que fazemos habitualmente, com certa frequência, ou como rotina ou como hobby, ou
profissionalmente, são atividades: caminhar, dançar, correr, jogar futebol, lavar roupa, limpar a casa, trabalhar,
andar de ônibus, ver televisão, ir ao cinema etc.
Vamos falar um pouco dos seus hábitos:
(i) O que você faz às terças-feiras, das 8h às 9h?
_____________________________________________________________________________
(ii) O que você faz às terças-feiras, das 13h às 14h?
_____________________________________________________________________________
(iii) O que você faz às quartas-feiras, das 20h às 22h?
_____________________________________________________________________________(iv) O que você faz às quintas-feiras, das 2h às 4h da manhã?
_____________________________________________________________________________
(v) O que você faz aos sábados, das 21h às 23h?
_____________________________________________________________________________
Vamos falar um pouco dos hábitos no exercício de profissões:
(i) O que faz um professor?
_____________________________________________________________________________
(ii) O que um motorista?
_____________________________________________________________________________
(iii) O que faz um vendedor?
_____________________________________________________________________________
(iv) O que faz um garçom?
____________________________________________________________________________
(v) O que faz um cantor?
____________________________________________________________________________
(vi) O que faz um médico?
____________________________________________________________________________
(vii) O que faz um juiz?
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____________________________________________________________________________
As atividades não têm uma culminância, que é um momento em que elas chegam naturalmente e obrigatoriamente
ao seu fim. Por exemplo, se eu vou dormir, por quanto tempo eu vou dormir? Vou dormir o tempo que puder ou
quiser, dependendo dos meus compromissos no dia seguinte, de ter muito barulho perturbando meu sono, de
alguém me chamar... Nada de dentro da própria atividade de dormir me leva a ter de parar de dormir. Não existe
uma fase do sono em que dormir acabe por si mesmo. Posso encompridar meu sono o quanto eu quiser. Isso
muito é diferente de ‘comer uma banana’. Eu dou uma mordida, dou outra, dou mais algumas... chega uma hora
em que a banana acabou. Então, mesmo que eu queira, não posso continuar comendo aquela banana, a mesma,
por que ela não existe mais para ser comida. Eventualidades do tipo de comer certa banana chegam
necessariamente ao fim quando a banana termina.
I.1.3-- Verbos de Accomplishment
Como os verbos de atividade, os de ‘accomplishment’ mostram mostram uma sequência filmada. Mas, nessa
sequência, a personagem não fica fazendo sempre a mesma coisa, continuadamente: ela passa por etapas
diferentes e alguma coisa passa a existir ou desaparece como produto. ‘Accomplishment’ quer dizer ter sucesso
em cumprir todas as etapas de um processo até o fim e atingir seu resultado. Por exemplo, para fazer um bolo, é
preciso ter os ingredientes e cumprir sucessivamente certas fases de preparação: bater as claras com o açúcar,
bater as gemas com a manteiga, peneirar a farinha, untar a forma, aquecer o forno, colocar o bolo pra assar...
Nada disso pode ser pulado, mas em nenhum desses momentos eu tenho um bolo pronto. O bolo passa a existir
como produto de toda essa sequência de eventualidades menores ser feita direitinho, na ordem certa. As fases
de ‘accomplishments’ são diferentes umas das outras. Se Maria começou a fazer o bolo de chocolate às 12h e o
bolo ficou pronto às 13h20, num momento (12h15) Maria está derretendo a manteiga, no outro está peneirando a
farinha (12h25), no outro está aquecendo o forno (12h30). Isso é bem diferente de uma atividade como nadar,
em que todos os intervalos do tempo máximo são iguais: se Pedro nadou das 8hàs 9h, às 8h10 ele estava
nadando, às 8h30 também e às 8h45 também.
Dê o produto desses accomplishments abaixo (coisas ou fatos que podem passar a existir ou deixar de existir
pós a culminância do evento)
(i) O engenheiro construiu uma ponte.____________________________________________
(ii) A empreiteira demoliu a casa velha.___________________________________________
(iii) Pedro pintou um quadro.____________________________________________________
(iv) Maria escreveu uma tese.___________________________________________________
(v) Luís bebeu uma garrafa de vinho._____________________________________________
(vi) Maria leu o artigo que o professor recomendou.__________________________________
Nomeie algumas fases diferentes dos accomplishments acima.
I.1.4-- - Verbos de Achievement
Os achievements são aqueles feitos, aquelas realizações, que são momentos de virada, são conquistas
imediatas impactantes. Esses eventos não têm duração interna: são instantâneas. Ocorrem num átimo de
segundo. Só a culminância, o momento da virada, da mudança de estado (ocorrida de repente), está indicada/o.
(54) a. A samambaia morreu.
b. Trump venceu as eleições para presidente dos EUA.
c. Jemima Sumgong se sagrou campeã na Corrida de São Silvestre de 2017.
d. Wesley Safadão se casou com Thyane Dantas em 2016.
e. Angelina Jolie e Brad Pitt se separaram em 2016.
f. Marília chegou!
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g. Pedro adormeceu.
h. O pneu furou.
i. O cachorro entrou na igreja.
Dê o estado anterior ao evento e o estado posterior.
Ex.: (54a): anterior: a samambaia está viva. / posterior: a samambaia está morta.
(54b) anterior: _______________________________________________________________
posterior: ______________________________________________________________
(54c) anterior: _______________________________________________________________
posterior: ______________________________________________________________
(54d) anterior: _______________________________________________________________
posterior: ______________________________________________________________
(54e) anterior: _______________________________________________________________
posterior: ______________________________________________________________
(54f) anterior: _______________________________________________________________
posterior: ______________________________________________________________
(54g) anterior: _______________________________________________________________
posterior: ______________________________________________________________
(54h) anterior: _______________________________________________________________
posterior: ______________________________________________________________
(54i) anterior: _______________________________________________________________
posterior: ______________________________________________________________
Qual foi o momento em que ocorreram os eventos em (54)? Vamos comparar os acarretamentos:
(55) a. Estado: João amava Maria ACARRETA João amou Maria.
b. Atividade: Maria estava nadando ACARRETA Maria nadou.
c. Accomplishment: Ana estava construindo uma casa NÃO ACARRETA Maria construiu uma casa.
(porque a casa inteira pode nunca ter sido terminada – pode ser que só uma parte tenha sido erguida)
d. Achievement: Jemima está vencendo a corrida NÃO ACARRETA Jemima venceu a corrida (porque
alguém pode ter passado na frente dela depois).
O teste mostra que estados e atividades são homogêneos/iguais (suas partes são repetições iguais); mas
accomplishments têm partes heterogêneas/desiguais (construir uma casa é sucessivamente colocar a fundação,
o encanamento, levantar as paredes etc.) e todas as fases têm de ser completadas para que o produto fique
pronto; e achievements não tem parte interna (se a corrida levou 2h, quem ficou na frente nos primeiros 110
minutos não conta como vencedor: o vencedor é quem atravessar a linha de chegada primeiro, ou seja, estar
participando da corrida não basta para ganhar a corrida.)
Combinação com advérbios de tempo:
(i) Por x tempo: mede a duração de uma eventualidade, combinando-se a eventualidades que têm duração
interna
(ii) Em x tempo: mede a progressão de uma eventualidade em direção à sua culminância, ao seu fim,
combinando-se a eventualidades que têm ponto de culminância.
(iii) Às x horas e tantos minutos: marca o instante de culminação de uma eventualidade sem duração interna
Predições:
(i) Por x tempo: vai ficar bom com estados (stage level) e atividades;se combinado a um accomplishment, cria
uma leitura de atividade para ele, por não dar certeza de que a culminância foi alcançada.
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(ii) Em x tempo: só pode se combinar com accomplishments e achievements; com accomplishments, informa o
tempo necessário para progredir até a culminância; com achievements, informa quanto tempo foi gasto em
atividades preparatórias para a eventualidade.
(iii) Às x horas e tantos minutos: só pode ser combinada a achievements
(56) a. João amou Maria por muitos anos. (= durante muitos anos)
b. Maria nadou por uma hora. = durante uma hora)
c. # Maria construiu uma casa por muitos meses. (= durante muitos meses)
d. *Jemima venceu a corrida por muitos minutos. (= durante muitos minutos)
(57) a. *João amou Maria em um dia.
b. *Maria nadou em uma hora.
c. Maria construiu uma casa em 18 meses. (= a construção levou 18 meses)
d. *Jemima venceu a corrida em meia hora.
(58) a. *João amou Maria às 10h da manhã de hoje.
b. #Maria nadou às 10h da manhã de hoje. (= começou a nadar)
c. *Maria construiu uma casa às 10h da manhã de hoje.
d. Jemima venceu a corrida às 10h da manhã de hoje.
C- O argumento-evento (Davidson 1967 – Parsons 1990)
Verbos significam espécies de eventos. ‘Nadar’ é diferente de ‘dormir’, mas não temos aí uma nadada ou uma
soneca de alguém em certa data e lugar. São conjuntos, como os nomes comuns, e não fazem referência direta,
como os nomes próprios. Se os verbos significam tipos de eventualidades (eventos/ações/ estados) então
podemos ter a ideia de uma eventualidade, um evento, que é do tipo dado pelo verbo e tem como participantes
os argumentos que ele toma. Essa ideia de acontecimento (o argumento-evento) explicaria fatos como o
acarretamento de sentenças, da mais detalhada para a menos detalhada:
(59) Acarretamentos: (59a) acarreta (59b,c e d); (59b) acarreta (59c, d); (59c) acarreta (59d)
a. Brutus feriu Cesar violentamente com uma faca
b. Brutus feriu Cesar com uma faca
c. Brutus feriu Cesar violentamente
d. Brutus feriu Cesar
Por quê? Como ligar as peças?
Fórmula: (e)[ Ferir(e) Agente/Causador(e,Brutus) Afetado(e,César) Instrumento (e,faca) Modo
(e,violentamente)
Leitura: existe um evento, esse evento é do tipo ferir, Brutus é o participante agente desse evento (é ele quem
fere) e César é o participante afetado por esse evento (é ele quem fica ferido) e a faca foi o instrumento usado no
evento (Brutus usou a faca para ferir César) e o evento foi executado de modo violento (as facadas dadas por
Brutus em César foram violentas).
Ou seja: se aceitamos a existência de um indivíduo do tipo “evento”, o verbo diz de que tipo ele é, e os
participantes e o modo, o lugar, o momento... todos são modificadores desse evento particular.
Sentenças coordenadas acarretam seus componentes:
(60) A sentença (60a) acarreta a sentença (60b) e também a (60c) e também a (60d)
a. Hoje eu estou alegre e hoje está fazendo sol e hoje temos aula.
b. Hoje eu estou alegre.
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c. Hoje está fazendo sol.
d. Hoje temos aulas.
VIII- Modalidade
(61) Qual a diferença entre as sentenças abaixo?
a. Hoje está chovendo.
b. Hoje vai chover.
c. Pode ser que chova hoje.
d. Precisa chover hoje.
e. Gostaria que estivesse chovendo.
f. Tem que chover hoje.
g. Deve chover hoje.
h. Talvez chova hoje.
i. Quero muito que chova hoje.
j. É capaz de chover hoje.
k. É possível que chova hoje.
l. É necessário que chova hoje.
m. É certo que chova hoje.
n. Tenho certeza de que hoje vai chover.
o. Há fortes probabilidades de chuvas e trovoadas hoje.
p. Disseram que vai chover.
q. Podia estar chovendo.
r. Devia estar chovendo.
s. Receio que chova hoje.
t. Espero que chova hoje.
Qual das sentenças (61) é verdadeira apenas se cai água das nuvens no momento de sua fala? Quais sentenças
não descrevem diretamente o dia de hoje como chuvoso?
Podemos falar sobre coisas que não estão acontecendo na situação relevante, mas são alternativas,
possibilidades, coisas que desejamos que aconteçam ou que não aconteçam, ou que tivessem acontecido em
vez do que vemos. Chamamos de modalidade esse modo de apresentar alternativas ao que acontece. Por
exemplo, (61e), dita num dia sem chuva, mostra que o desejo do falante era por outra condição climática,
diferente da verdadeira. Modais são as expressões da língua que usamos para falar de alternativas para a
realidade.
Atividade 4: Encontre nas sentenças (61) as expressões modais.
Também em condicionais falamos de como a realidade poderia ser:
(62) a. Se eu não tivesse feito o doutorado, (então) não seria professora de faculdade hoje. (dito por um falante
que é professor de faculdade)
b. Se eu soubesse que a prova era hoje, (então) eu teria estudado. (dito por um aluno que não estudou para
a prova de hoje)