Logo Passei Direto
Buscar

Nascimento da Literatura Portuguesa

Capítulo sobre o nascimento da literatura portuguesa e o Trovadorismo, que explica o galego‑português, analisa a “Cantiga da Ribeirinha” com tradução e questões, descreve cantigas líricas e satíricas (cantigas de amor e de amigo) e características formais e cancioneiros.

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

O nascimento da 
literatura portuguesa
Em 1140, Portugal se separou do reino de Leão e Castela para se tornar 
um estado independente. Essa separação política não rompeu seus profun-
dos laços econômicos, sociais e culturais com o resto da península Ibérica. 
O mais forte desses laços era a língua: o galego-português.
O nascimento da literatura portuguesa coincide com o do próprio 
país. É nas cortes dos reis e dos magnatas portugueses, galegos e cas-
telhanos que o lirismo galego-português germina. Os trovadores galego- 
-portugueses desenvolvem sua lírica amorosa claramente influenciados 
pela literatura provençal.
Acredita-se que o primeiro texto literário galego-português seja a “Cantiga 
da Ribeirinha” (também conhecida como “Cantiga da Guarvaia”), que se supõe 
ter sido composta em 1198.
 1. Qual é o estado de espírito do eu lírico? 
a) Que imagem se opõe ao seu estado?
b) De que maneira o uso dessa imagem contribui para caracterizar o 
sofrimento do eu lírico? Explique. 
 2. Na cantiga, o eu lírico caracteriza o objeto de seu amor. Que imagem 
de mulher é apresentada?
Explique de que maneira essa imagem é fundamental para carac-ff
terizar o amor cortês.
 3. Releia.
“Piedade já não pode haver
No universo para os mortais.” 
a) Por que o eu lírico faz tal afirmação?
b) De que maneira essa afirmação comprova a relação de subordinação 
dele em relação à dama que louva?
 4. Como mostra a linha do tempo, a Europa viveu um período de mui-
tas disputas territoriais. Discuta com seus colegas a relação entre 
as invasões e o aparecimento da produção literária do Trovadorismo 
mais de 500 anos após o início da Idade Média.
Trovadores com 
violino e guitarra do 
saltério da Rainha 
Maria, c. 1300. Os 
violinos usados nessa 
época deram origem 
aos violinos atuais.
92
U
n
id
ad
e 
2
 • 
O
ri
ge
ns
 e
ur
op
ei
as
R
ep
ro
du
çã
o 
pr
oi
bi
da
. A
rt
. 1
84
 d
o 
C
ód
ig
o 
P
en
al
 e
 L
ei
 9
.6
10
 d
e 
19
 d
e 
fe
ve
re
iro
 d
e 
19
98
.
I_plus_literatura_cap06_D.indd 92 13/09/10 3:28:29 PM
A “Cantiga da Ribeirinha” ilustra o tema mais frequente dessa produção 
literária: a coita de amor. Nela, o eu lírico masculino fala de seu sofrimento, 
que teve início no dia em que avistou, sem seu manto luxuoso, a bela senhora. 
Desde então, suspira por ela sem receber qualquer recompensa.
As cantigas galego-portuguesas se dividem em líricas e satíricas, de-
pendendo do tema que desenvolvem.
As cantigas líricas
As cantigas líricas são divididas em cantigas de amor e cantigas de 
amigo.
Cantigas de amor•	
Como as cantigas provençais, das quais se originam, as cantigas de amor 
galego-portuguesas exprimem a paixão infeliz, o amor não correspondido 
que um trovador dedica a sua senhora, como na “Cantiga da Ribeirinha”. 
Aspectos formais e de conteúdo
A cantiga de amor pode ser identificada por alguns elementos caracte-
rísticos. O eu lírico é sempre masculino e representa o trovador que dirige 
os elogios a uma dama. O trovador, que sofre com frequência, se autode-
nomina coitado, cativo, aflito, enlouquecido, sofredor. A dama é identificada 
por termos que destacam suas qualidades físicas (fremosa, delgada, de 
bem parecer), morais (bondade, lealdade, comprida de bem), sociais (bom 
sen, falar mui ben). Ao comparar sua dama às outras da mesma corte, o eu 
lírico a apresenta como superior. As comparações também são utilizadas 
para acentuar as características do trovador: sua dor é maior do que a de 
todos os outros e seus talentos superam os de seus rivais.
TAVEIROOS, Paay Soares de. In: VASCONCELOS, Carolina Michaëlis de. 
Cancioneiro da Ajuda. Reimpressão da edição de Halle (1904). 
Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1990. v. I. p. 82.
Não há no mundo ninguém que se compare 
a mim em infelicidade, enquanto a minha 
vida continuar assim, porque morro por 
vós e, ai, minha senhora branca e de faces 
rosadas, quereis que vos retrate quando vos 
vi sem manto. Mau dia foi esse em que me 
levantei, porque vos vi tão bela (ou seja: 
melhor seria se vos tivesse visto feia).
E, minha senhora, desde aquele dia, 
ai, tudo para mim foi muito mal, mas 
vós, filha de D. Paio Moniz, parece-vos mui-
to bem que eu tenha de vós uma garvaia 
[manto de luxo] quando nunca recebi de 
vós o simples valor de uma correia.
Tradução livre.
No mundo non me sei parelha,
mentre me for’ como me vay,
ca ja moiro por vos – e¡ ay
mia senhor branca e vermelha,
queredes que vos retraya
quando vus eu vi em saya!
¡Mao dia me levantei,
que vus enton non vi fea!
E, mia senhor, des aquel di’, ¡ay!
me foi a mi muyn mal,
e vos, filha de don Paay
Moniz, e ben vus semelha
d’aver eu por vós guarvaya,
pois eu, mia senhor, d’alfaya
nunca de vos ouve nem ei
valía dua correa.˜
 Página do cancioneiro 
Cantigas de Santa Maria, 
século XIII. Na miniatura 
da página o rei Alfonso é 
representado com músicos 
e escrivãos durante 
audiência pública.
Os cancioneiros 
medievais 
As cantigas foram preser-
vadas graças às coletâneas 
manuscritas, conhecidas 
como cancioneiros:
• Cancioneiro da Ajuda: acre-
dita-se que tenha sido 
compilado na corte de 
D. Alfonso X, no final do 
século XIII. Contém ape-
nas cantigas de amor dos 
poetas mais antigos.
• Cancioneiro da Vaticana: 
compilação encontrada 
na biblioteca do Vaticano 
(daí o nome que recebeu). 
Inclui cantigas de amor, de 
amigo e de escárnio e mal-
dizer galego-portuguesas.
• Cancioneiro da Biblioteca 
Nacional: o mais completo 
dos cancioneiros. Contém 
um pequeno tratado de 
poética trovadoresca, a 
“Arte de trovar”.
93
C
ap
ít
u
lo
 6
 • 
Li
te
ra
tu
ra
 n
a 
Id
ad
e 
M
éd
ia
R
ep
ro
du
çã
o 
pr
oi
bi
da
. A
rt
. 1
84
 d
o 
C
ód
ig
o 
P
en
al
 e
 L
ei
 9
.6
10
 d
e 
19
 d
e 
fe
ve
re
iro
 d
e 
19
98
.
I_plus_literatura_cap06_D.indd 93 13/09/10 3:28:30 PM
GARCIA DE GUILHADE, João. In: 
CORREIA, Natália (Sel., intr. e notas). 
Cantares dos trovadores galego-portugueses. 
2. ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1978. p. 124.
O servilismo amoroso é simbolizado, no texto, pela expressão mia senhor, 
presente em todas as produções do gênero. A coita de amor, nomeada no 
primeiro verso, é caracterizada principalmente pela declaração do desejo 
de morrer que toma conta dos amantes não correspondidos. O eu lírico 
dessa cantiga considera viver sem o amor de sua senhora um castigo pior 
que a morte. Afirma, por isso, a determinação de permanecer vivo, sofrendo, 
somente pela possibilidade de continuar vendo sua senhora.
Quantos an gran coita d’amor
eno mundo, qual og’ eu ei,
querrian morrer, eu o sei,
o averian én sabor.
Mais mentr’ eu vos vir’, mia senhor,
 sempre m’eu querria viver,
 e atender e atender!
Pero ja non posso guarir,
ca ja cegan os olhos meus
por vos, e non me val i Deus
nem vos; mais por vos non mentir,
enquant’ eu vos, mi senhor, vir’,
 sempre m’eu querria viver,
 e atender e atender!
E tenho que fazen mal-sen
quantos d’amor coitados son
de querer sa morte, se non
ouveron nunca d’amor ben,
com’ eu faç’. E, senhor, por én
 sempre m’eu querria viver,
 e atender e atender!
Os trovadores galego-portugueses utilizavam versos com sete sílabas 
métricas (redondilha maior). O refrão é uma inovação em relação aos pro-
vençais.
Definição do tema: o sofrimento 
(coita) de amor.
Vassalagem amorosa: os ter-
mos utilizados para identificar a 
dama fazem referência às relações 
de vassalagem da sociedade 
feudal.
Refrão: os versos repetidos no 
fim de cada estrofe reforçam a 
subordinação do eu lírico a sua 
senhora. Ele vive à espera de uma 
nova possibilidade de vê-la.
Cegueira do olhar: desdobra-
mento da temática do sofrimento 
amoroso. Após ver a amada, o eu 
lírico fica “cego” para todas as ou-
tras pessoas. 
Desejo de morrer: associado 
nessa cantiga ao comportamento 
de outros trovadores, também é 
uma expressão da coita de amor.
Comparação com os demais tro-
vadores: procedimento frequente 
nas cantigas de amor, como recurso 
expressivo pararessaltar uma prova 
de maior cortesia do eu lírico, porque 
ele sofre mais que todos os outros 
pelo amor de sua dama, ou está 
disposto a fazer o que ninguém mais 
faz. No caso dessa cantiga: conti-
nuar esperando ser recompensado 
com um olhar da dama. 
Cantiga de amor de refrão
Quantos o amor faz padecer
penas que tenho padecido,
querem morrer e não duvido
que alegremente queiram morrer.
Porém enquanto vos puder ver,
 vivendo assim eu quero estar
 e esperar, e esperar.
Sei que a sofrer estou condenado
e por vós cegam os olhos meus.
Não me acudis; nem vós, nem
[Deus. 
Mas, se sabendo-me abandonado,
ver-vos, senhora, me for dado,
 vivendo assim eu quero estar
 e esperar, e esperar.
Esses que veem tristemente
desamparada sua paixão,
querendo morrer, loucos estão.
Minha fortuna não é diferente;
porém eu digo constantemente:
 vivendo assim eu quero estar
 e esperar, e esperar.
CORREIA, Natália (Adap.). 
Cantares dos trovadores 
galego-portugueses. 2. ed. 
Lisboa: Editorial Estampa, 
1978. p. 125.
Cantiga d’amor de refran
94
U
n
id
ad
e 
2
 • 
O
ri
ge
ns
 e
ur
op
ei
as
R
ep
ro
du
çã
o 
pr
oi
bi
da
. A
rt
. 1
84
 d
o 
C
ód
ig
o 
P
en
al
 e
 L
ei
 9
.6
10
 d
e 
19
 d
e 
fe
ve
re
iro
 d
e 
19
98
.
I_plus_literatura_cap06_D.indd 94 13/09/10 3:28:30 PM

Mais conteúdos dessa disciplina