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José Lins do Rego: lembranças de um menino de engenho Nas obras que compõem o ciclo da cana-de-açúcar, José Lins do Rego recria a realidade dos trabalhadores da região canavieira pernambucana a partir das suas recordações da infância na fazenda do avô. As narrativas deixam clara uma grande preocupação com a linguagem, construída para dar veracidade às cenas e às personagens. Menino de enge- nho é o romance que inaugura esse ciclo. O dia a dia de um engenho ganha realidade por meio do casamento perfeito entre a descrição do espaço e a fala das personagens, como no trecho a seguir. “Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu”, começa a contar o narrador de Menino de engenho, recriação literária da própria história do autor. As lembranças do protagonista dão vida a uma realidade econômica, política e social que foi se desgastando ao longo do tempo. O leitor sofre junto com esse menino desgarrado, que andava triste “por debaixo das árvores da horta, ouvindo sozinho a cantoria dos pássaros”. Na cena final, embarcado no trem que o levaria para a cidade, novo momento de ruptura: “Os olhos se encheram de lágrimas. Cortava-me a alma a saudade do meu engenho”. As lembranças pessoais estão na base do processo de criação de José Lins do Rego, o que define seus romances como narrativas memorialistas. O poeta Carlos Drummond de Andrade, em uma crônica escrita no dia da morte do amigo, afirmou que “os roman- ces mais autênticos de José Lins [...] continuam doendo depois de lidos, porque a narrativa foi além da simples dimensão aparente”. Estavam na limpa do partido da várzea. O eito bem pertinho do engenho. Da calçada da casa-grande viam-se no meio do canavial aquelas cabeças de chapéu de palha velho subindo e descendo, no ritmo do manejo da enxada: uns oitenta homens comandados pelo feitor José Felismino, de cacete na mão, reparando no serviço deles. [...] — Deixa de conversa, gente! — gritava seu José Felismino. — Bota pra diante o serviço. Com pouquinho o coronel está aqui gritando. [...] Manuel Riachão puxava o eito na frente, como um baliza. Era o mais ligeiro. [...] Sempre na dianteira, deixando na bagagem os companheiros. O moleque Zé Passarinho remanchando, o último do eito. Não havia grito que animasse aquela preguiça alcoolizada. Também, ganhava dois cruzados, davam-lhe a mesma diária das mulheres na apanha do algodão. — Tira a peia da canela, moleque safado! O diabo não anda! [...] REGO, José Lins do. Menino de engenho. 66. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997. p. 58-59. (Fragmento). Natural da Paraíba, órfão de mãe, criado pelo avô, dono de engenho, José Lins do Rego (1901-1957) buscou nas recordações da infân- cia a inspiração para seu mais conhecido conjunto de romances: Menino de enge- nho (1932), Doidinho (1933), Banguê (1934), O moleque Ricardo (1935), Usina (1936) e Fogo morto (1943). Essas narrativas representam a parte mais importante de sua obra e formam o ciclo da cana-de-açúcar, recrian- do literariamente a história dos engenhos na região Nor- deste. Também se interessou pelo cangaço, questão tipi- camente nordestina, que foi explorada em Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953). Escreveu, ainda, Pureza (1937) e Riacho doce (1939). A capacidade de trans- formar a própria história em matéria literária fez com que fosse considerado o Proust brasileiro, numa referência ao famoso escritor francês. Caricatura de José Lins do Rego por Loredano. Da esquerda para a direita: José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade, Candido Portinari, José Olympio e Manuel Bandeira. Foto tirada na década de 1950, no Rio de Janeiro. Partido: plantação de cana-de-açúcar. Eito: roça, local de trabalho dos escravos. Remanchando: andando vagarosamente. Peia: corda. 625 C ap ít u lo 2 7 • O r om an e de R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_literatura_cap27_C.indd 625 11/11/10 4:24:02 PM [...] O bater do martelo do mestre José Amaro cobria os rumores do dia que cantava nos passarinhos, que bulia nas árvores, açoitadas pelo vento. [...] O martelo do mestre era mais forte, mais alto que tudo. [...] Ouvia o gemer da filha. Batia com mais força na sola. [...] Tinha aquela filha triste, aquela Sinhá de língua solta. Ele queria mandar em tudo como mandava no couro que trabalhava, queria bater em tudo como batia naquela sola. A filha continuava chorando como se fosse uma menina. O que era que tinha aquela moça de trinta anos? Por que chorava, sem que lhe batessem? Bem que podia ter tido um filho, um rapaz como aquele Alípio, que fosse homem macho, de sangue quente, de força no braço. Um filho do mestre José Amaro que não lhe desse o desgosto daquela filha. [...] [...] O mestre José Amaro voltou outra vez para dentro de si mesmo. [...] Não tinha um filho que falasse alto com os grandes, que tivesse fibra para não aguentar desaforo. Então, muito de longe, começavam a soar as campainhas de um cabriolé. O mestre José Amaro se pôs de pé. Vinha passando pela sua porta a carruagem do senhor de suas terras, do dono de sua casa. Era o coronel Luís César de Holanda Chacon, senhor de engenho de Santa Fé, que passava com a família. [...] Era o cabriolé do coronel Lula enchendo de grandeza a pobre estrada que dava para o Pilar. [...] O mestre José Amaro sentou-se outra vez. O martelo estrondou na paz da tarde que chegava. [...] Batia forte na sola, batia para doer na sua perna que era torta. Que lhe importava o cabriolé do coronel Lula? Que lhe importava a riqueza do velho José Paulino? As filhas do rico morriam de parto. [...] Um silêncio medonho envolvia tudo, num instante, como se o mundo tivesse parado. Parara de bater o mestre José Amaro [...]. REGO, José Lins do. Fogo morto. 48. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997. p. 9-12. (Fragmento). O mestre José Amaro Tomado pela amargura e pela raiva, José Amaro lamenta sua sorte. 1. José Amaro é um homem insatisfeito com a própria vida. O que ele lamenta? Amaroff significa “amargo”. Qual é a relação entre o nome da personagem e sua perso- nalidade? 2. O trabalho executado por José Amaro contribui para apresentar seu temperamento. De que maneira essa relação é mostrada no trecho transcrito? 3. Releia e compare. “O bater do martelo do mestre José Amaro cobria os rumores do dia que cantava nos passarinhos, que bulia nas árvores, açoitadas pelo vento.” “Um silêncio medonho envolvia tudo, num instante, como se o mundo tivesse parado. Parara de bater o mestre José Amaro.” Qual é o impacto que a ação de José Amaro ff tem sobre o espaço? 4. José Amaro desejava ter tido um filho. Como ele imagina esse filho? Pode-se dizer que o filho simboliza o desejo do ff mestre de reagir diante daquilo que considera injustiça. Explique por quê. 5. No penúltimo parágrafo, aparece outra persona- gem importante do romance: o coronel Lula. De que forma o texto mostra a posição de subser- viência do mestre em relação ao coronel? a) Os elementos do espaço contribuem também para a caracterização das personagens. O que simboliza, nesse contexto, o cabriolé do coronel? b) “Era o cabriolé do coronel Lula enchendo de grandeza a pobre estrada que dava para o Pilar.” Explique de que maneira esse trecho indica a oposição entre o coronel e José Amaro. A morte de um engenho Ambientado no início do século XX, Fogo morto conta a história do engenho Santa Fé, desde sua fundação até o seu declínio. O título é uma expressão do Nordeste que faz referência aos engenhos que param de produzir. Nar- rada em 3a pessoa, a obra se divide em três partes: cada uma trata de uma per- sonagem, cujos destinos se entrelaçam pela ligação que têm com o Santa Fé. Mestre José Amaro é o seleiro (fabri- ca selas) que mora “de favor” nas terras do engenho e se amargura pela vida que tem; o coronel Lula de Holanda é odono do engenho em de- cadência; Capitão Vitorino é um pequeno proprietário que vive de maneira modesta e representa uma espécie de D. Quixote nordestino, lutan- do contra o poder e contra aquilo que considera injusto na sociedade. TEXTO PARA ANÁLISE Cabriolé: carruagem de duas rodas, pequena, leve e rápida. 626 U n id ad e 7 • O M od er ni sm o R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_literatura_cap27_C.indd 626 11/11/10 4:24:02 PM Rachel de Queiroz: um olhar feminino para o sertão Única mulher a figurar entre os escrito- res da geração de 1930, Rachel de Queiroz (1910-2003) era prima de José de Alencar pelo lado da mãe. Cedo manifestou a paixão pelos livros. Costumava contar que leu Ubirajara, de autoria do primo célebre, ao cinco anos: “obviamente sem entender nada”. A família Queiroz, fugindo dos horrores da seca de 1915, mudou-se de Fortaleza para o Rio de Janeiro. O episódio ficou gravado em sua memória. Anos mais tarde, ela utilizaria suas lembranças como inspiração para a narrativa de O quinze, que trata da terrível seca daquele ano. Publicado em 1930, O quinze foi escrito quando tinha somente 18 anos e ajudou a firmar a tradição dos romances do “ciclo nordestino”. Militante comunista, Rachel de Queiroz permaneceu três meses presa, em 1937, perseguida pela ditadura do Estado Novo. Como os escritores Jorge Amado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego, teve seus livros queimados na Bahia por serem considerados subversivos. Definindo-se como jornalista, Rachel de Queiroz escreveu crônicas em diver- sos jornais brasileiros até o fim da vida. Entre seus romances destacam-se, além de O quinze, João Miguel (1932), Caminho de pedras (1937), As três Marias (1939), Dôra, Doralina (1975) e Memorial de Maria Moura (1992). Foi a primeira escritora a conquistar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, em 1977. A seca como motivo literário Em O quinze, dois aspectos merecem atenção: a estrutura e a linguagem. A narrativa é construída em dois planos distintos. Em um deles, o leitor acompa- nha a história de Conceição, protagonista do livro. Mulher educada, professora que gosta de ler livros avançados para a época, a personagem foi desenvolvida para permitir a afirmação social da mulher em uma sociedade machista e or- ganizada em torno dos coronéis. No segundo plano, é narrada a trajetória do vaqueiro Chico Bento e sua família, que “arribam” para fugir da seca. A tragédia humana desencadeada pelo clima da região fica registrada em algumas passagens inesquecíveis, como a do enterro do filho mais novo do vaqueiro, que morre durante a viagem para a capital. Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra da mesma cruz. Cordulina, no entanto, queria-o vivo. Embora sofrendo, mas em pé, andando junto dela, chorando de fome, brigando com os outros... E quando reencetou a marcha pela estrada infindável, chamejante e vermelha, não cessava de passar pelos olhos a mão trêmula: — Pobre do meu bichinho! [...] QUEIROZ, Rachel de. O quinze. 14. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971. p. 71. (Fragmento). De olho no filme Glória Pires na minissérie Memorial de Maria Moura, 2 maio 1994. Maria Moura: a luta de uma mulher em um mundo masculino A minissérie Memorial de Maria Moura, inspirada no romance de mesmo nome de Rachel de Queiroz, faz uma excelente reconsti- tuição da vida no interior nordestino no século XIX e ilustra o questionamento do papel da mulher presente nas obras da escritora. Rachel de Queiroz Rachel de Queiroz lia mui- to. Entre seus autores prefe- ridos, aparecia com destaque Dostoiévski, de quem tradu- ziu várias narrativas para o português, inclusive os três volumes de Os irmãos Kara- mazov. Também vieram dos russos as leituras socialistas que seduziram a jovem a abraçar o trotskismo. Mas a escritora não pensava só em política e gostava de ler Bal- zac, Jane Austen, Emily Bron- të, Jack London, Júlio Verne e Edith Wharton. Todos esses autores tiveram algumas de suas obras traduzidas para o português por Rachel de Queiroz. A ESTANTE DE Rachel de Queiroz em sua residência. Fortaleza, 16 set. 1998. Reencetou: retomou. 627 C ap ít u lo 2 7 • O r om an e de R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_literatura_cap27_C.indd 627 11/11/10 4:24:05 PM