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Por sua morte: "Só, no mundo! Entregue à sorte! Pobre neta... Pesadelo, Que tanto a velhinha inquieta. Não ouvindo a dobadoira, Que gemia intermitente, Caindo da mão dormente O novelo... Com desvelo, A neta, cabeça loira, Vem à porta Ver o que foi; com susto olha: Uma lágrima inda molha A face à velhinha morta. (BRAGA, 1904, p.120) A um Crucifixo Pregado em uma cruz de ébano expira O alvor do corpo de marfim deslumbra A vista que divaga na penumbra Dentro de uma cela aonde a alma suspira. Cada pisada chaga é de safira; Reluz na sombra que o altar obumbra! São alforges as lágrimas... Ressumbra Em tudo a dor que em êxtase delira. Doce Jesus! sem conhecer a vida, E sem saber porquê, na flor da idade, Chora a teus pés a infância amortecida: Ver perder-se a alegria, a mocidade, Ou ver-te exangue nessa cruz erguida, Qual fará, bom Jesus, mais piedade ? (Visão dos Tempos, 1895) Os poemas de Teófilo Braga têm inspiração na tradição popular portuguesa, da qual foi dedicado pesquisador, conforme exemplifica "A dobadoira" e também na tradição clássica e barroca, exemplificado no jogo de contrastes e na dualidade do tema religioso presente no soneto "A um crucifixo". Entretanto, a releitura realista não deixar de se revelar na reflexão sobre a escolha humana entre as exigências da religião ou os prazeres da vida. 95