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1 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S 2 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S 3 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Núcleo de Educação a Distância GRUPO PROMINAS DE EDUCAÇÃO Diagramação: Gildenor Silva Fonseca PRESIDENTE: Valdir Valério, Diretor Executivo: Dr. Willian Ferreira. O Grupo Educacional Prominas é uma referência no cenário educacional e com ações voltadas para a formação de profissionais capazes de se destacar no mercado de trabalho. O Grupo Prominas investe em tecnologia, inovação e conhecimento. Tudo isso é responsável por fomentar a expansão e consolidar a responsabilidade de promover a aprendizagem. 4 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Prezado(a) Pós-Graduando(a), Seja muito bem-vindo(a) ao nosso Grupo Educacional! Inicialmente, gostaríamos de agradecê-lo(a) pela confiança em nós depositada. Temos a convicção absoluta que você não irá se decepcionar pela sua escolha, pois nos comprometemos a superar as suas expectativas. A educação deve ser sempre o pilar para consolidação de uma nação soberana, democrática, crítica, reflexiva, acolhedora e integra- dora. Além disso, a educação é a maneira mais nobre de promover a ascensão social e econômica da população de um país. Durante o seu curso de graduação você teve a oportunida- de de conhecer e estudar uma grande diversidade de conteúdos. Foi um momento de consolidação e amadurecimento de suas escolhas pessoais e profissionais. Agora, na Pós-Graduação, as expectativas e objetivos são outros. É o momento de você complementar a sua formação acadêmi- ca, se atualizar, incorporar novas competências e técnicas, desenvolver um novo perfil profissional, objetivando o aprimoramento para sua atua- ção no concorrido mercado do trabalho. E, certamente, será um passo importante para quem deseja ingressar como docente no ensino supe- rior e se qualificar ainda mais para o magistério nos demais níveis de ensino. E o propósito do nosso Grupo Educacional é ajudá-lo(a) nessa jornada! Conte conosco, pois nós acreditamos em seu potencial. Vamos juntos nessa maravilhosa viagem que é a construção de novos conhecimentos. Um abraço, Grupo Prominas - Educação e Tecnologia 5 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S 6 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Olá, acadêmico(a) do ensino a distância do Grupo Prominas! . É um prazer tê-lo em nossa instituição! Saiba que sua escolha é sinal de prestígio e consideração. Quero lhe parabenizar pela dispo- sição ao aprendizado e autodesenvolvimento. No ensino a distância é você quem administra o tempo de estudo. Por isso, ele exige perseve- rança, disciplina e organização. Este material, bem como as outras ferramentas do curso (como as aulas em vídeo, atividades, fóruns, etc.), foi projetado visando a sua preparação nessa jornada rumo ao sucesso profissional. Todo conteúdo foi elaborado para auxiliá-lo nessa tarefa, proporcionado um estudo de qualidade e com foco nas exigências do mercado de trabalho. Estude bastante e um grande abraço! Professora: Maura Oliveira Martins 7 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S O texto abaixo das tags são informações de apoio para você ao longo dos seus estudos. Cada conteúdo é preprarado focando em téc- nicas de aprendizagem que contribuem no seu processo de busca pela conhecimento. Cada uma dessas tags, é focada especificadamente em partes importantes dos materiais aqui apresentados. Lembre-se que, cada in- formação obtida atráves do seu curso, será o ponto de partida rumo ao seu sucesso profisisional. 8 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Esta unidade aborda as possibilidades que os jornalistas têm den- tro de um ambiente digital, em que os veículos jornalísticos ganham opor- tunidades de nascimento e crescimento e os profissionais podem manter controle sobre a construção de sua própria carreira. Para envolver este tema, falaremos especificamente, dos seguintes assuntos: a) o atual pano- rama do sistema jornalístico, entendido como pós-industrial, em oposição a uma fase industrial; b) habilidades e deficiências potencializadas neste cenário do jornalismo pós-industrial; c) diferenças entre os profissionais for- mados nos contextos digital e analógico; d) perfil dos jornalistas atuantes no Brasil e lacunas apontadas para serem desenvolvidas; e) novos modelos de negócio no jornalismo e a postura de empreendedorismo do profissional desta área; e f) formas de financiamento das operações jornalísticas com seu público. A partir deste diagnóstico formado por vários aspectos, preten- de-se fornecer aos profissionais do jornalismo subsídios para que possam enfrentar os desafios e as oportunidades do mercado de trabalho de forma propositiva. Compreende-se, portanto, que o ambiente do jornalismo digital se revela como local de mudança e desenvolvimento para todos os profis- sionais que souberem enfrentá-lo de maneira criativa e empreendedora. Jornalismo; Jornalismo Digital; Empreendedorismo. 9 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S CAPÍTULO 01 O JORNALISMO RECONFIGURADO PELAS TECNOLOGIAS DIGITAIS Apresentação do Módulo ______________________________________ 11 14 24 28 O Jornalismo Pós-industrial – Como chegamos até aqui? _______ Deficiências Observadas entre os Profissionais que atuam neste Cenário ________________________________________________________ Recapitulando _________________________________________________ Habilidades Requisitadas para os Profissionais que estão no Mercado _______________________________________________________ 19 CAPÍTULO 02 CONSTRUINDO A PRÓPRIA CARREIRA NO JORNALISMO DIGITAL O Jornalista de hoje é o mesmo de antigamente? Alterações cen- trais no panorama da Comunicação ____________________________ Oportunidades e Riscos: Assumindo o Protagonismo e a Respon- sabilidade sobre a Própria Reputação __________________________ Riscos e Oportunidades: Encarando a Automatização e o Desafio das Novas Linguagens Jornalísticas ____________________________ Recapitulando _________________________________________________ 34 39 44 49 10 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S As Formas Atuais de Financiamento dos Negócios Jornalísticos __ Recapitulando __________________________________________________ Fechando a Unidade ____________________________________________ Referências _____________________________________________________ 63 69 73 79 Modalidades Jornalísticas com Possibilidade de Crescimento nos Próximos Anos __________________________________________________ 57 CAPÍTULO 03 NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO – O EMPREENDEDORISMO DENTRO DO JORNALISMO Por que os Jornalistas não costumam serem Donos de seus Negócios? _____________________________________________________ 54 11 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E NTO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S O ofício do jornalismo, tal como ele ocorre hoje, encontra-se atravessado por uma série de modificações históricas, que se manifes- tam em nossa vivência profissional sob múltiplos aspectos. Os jornalistas que atuam no mercado são muito diferentes dos que desempenhavam esta função há poucos anos. As demandas e habilidades requisitadas pelas empresas de comunicação são outras. Os desafios enfrentados por todos (instituições e sujeitos) são novos. No entanto, se há um panorama de mudanças e crises (que confronta todas as profissões modernas, é bom lembrar), é importante também pontuar que essas crises sinalizam oportunidades para os pro- fissionais que souberem se adaptar e tirar proveito das possibilidades trazidas pelo ambiente digital, hoje uma esfera onipresente em todas as áreas de atuação jornalística – uma vez que não se pode mais imaginar um fazer jornalístico que não seja perpassado, de uma forma ou outra, pelas lógicas do digital. É neste contexto que discutiremos, dentro desta unidade, as perspectivas que devem ser valorizadas pelos jornalistas que atuam dentro do contexto digital. A verdade é que a internet, a partir das pro- fundas transformações que trouxe à sociedade, reconfigurou também as atividades comunicacionais, em vários âmbitos. No aspecto técnico, podemos pensar nas diversas ferramentas tecnológicas (como compu- tadores, tablets, celulares, câmeras, gravadores, etc.) que tornaram a prática jornalística mais acessível a todos – inclusive a não jornalistas. Disso decorrem as mudanças sociais: os jornalistas passaram a dividir espaço com outros cidadãos, que também produzem conteúdos diver- sos, nem sempre com o mesmo compromisso ético que é requisito fun- damental à profissão. Por fim, pensamos, consequentemente, nos impactos institu- cionais e econômicos: a internet também reconfigurou os custos das operações jornalísticas e o modo de sustento mais tradicional deste ofício, que é a subvenção pela publicidade. Se, em outros tempos, a publicidade financiava o jornalismo, isso se dava por uma simples falta de opção: não havia outras formas de os anunciantes chegarem ao seu público que não fosse pelo intermédio da publicidade em veículos jorna- lísticos (ANDERSON, BELL e SHIRKY, 2013). Hoje, como sabemos, a publicidade foi pulverizada nos diferen- tes espaços da internet e se tornou direcionada de forma muito eficiente aos usuários de acordo com os dados1 que são disponibilizados por eles 1 Esta alta quantidade de dados, disponibilizados pelos usuários pelos sites a partir da utilização de internet, costuma ser chamada de big data ou megadados. Por meio de ferramentas digitais avançadas, as empresas conseguem usar estes dados para direcionar, por exemplo, o oferecimento de conteúdos e produtos para as pessoas a partir dos rastros que deixaram na web 12 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S o tempo todo e rastreados por empresas. Em virtude disso, a imprensa perdeu sua principal forma de sustento e hoje precisa se reinventar. Em poucas linhas, é este o cenário em que o jornalista atua profissionalmente e, diante disso, deve encontrar maneiras de fazer uso de suas expertises para contribuir à sociedade e ofertar uma informação de qualidade – algo que, como sabemos, outros autores sociais nem sempre serão capazes de produzir. Portanto, neste curso, entendemos o jornalismo digital como um espaço de oportunidades para a carreira jornalística, valorizando certas competências dos profissionais, como o protagonismo, a auto- nomia, a experimentação, a produção independente e a alternativa de criar o seu próprio negócio. Mais do que um momento de crise, propo- mos aqui um olhar voltado à chance de atuar no mercado de forma pro- positiva, criativa, fazendo um bom trabalho. E por que não planejando e executando novos negócios jornalísticos? Dentro desta perspectiva, entendemos então que a postura empreendedora deve ser valorizada na profissão, ainda que, historica- mente, os jornalistas não tenham sido formados para serem donos de seus negócios. Em um cenário de mudanças econômicas, os profissionais jornalistas estão testando novas possibilidades no mercado e assumindo iniciativas empre- endedoras, apesar do conhecimento sobre empreendedorismo e áreas afins não ser muito difundido na formação tradicional do profissional jornalista. (PANACIONI e ROCHA, 2017, p. 129). Ao longo deste módulo, discutiremos as diferentes nuances de aprimoramento que podem ser aproveitadas pelo jornalista nesta seara profissional. Isto diz respeito a pensar tanto nos nossos quesitos pes- soais (como as habilidades e competências requisitadas para atuar de maneira qualificada no jornalismo digital), nos elementos externos que não podem ser ignorados, e nos aspectos socioeconômicos que preci- sam ser considerados, caso se queira planejar novos modelos de negó- cios jornalísticos. Convidamos então os colegas jornalistas para que se aven- turem nas potencialidades deste novo ambiente profissional, de modo que consigam abraçar e absorver as nuances positivas que o mundo digital é capaz de trazer ao nosso trabalho. a partir de suas ações cotidianas. 13 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Neste primeiro capítulo, abordaremos, com maior profundida- de, quais as mudanças vivenciadas pelo jornalismo contemporâneo. Para iniciar uma discussão, é necessário assumir que encaramos hoje um cenário de mudanças, e que todo jornalista que pretende se inse- rir neste mercado precisa compreender sua profissão a partir de suas especificidades atuais. Ou seja, se há características que jamais se al- teram no perfil dos bons jornalistas (como a capacidade de interpretar a realidade, de apurar, de redigir um texto de forma clara, de cultivar fontes fidedignas), por outro, há novas demandas que não podem ser ignoradas. Para tanto, analisaremos aqui as características desse contex- to atual, conceituado por Anderson, Bell e Shirky (2013) como jorna- lismo pós-industrial – como o próprio nome sugere, uma etapa nas empresas jornalísticas que sucede uma etapa anterior, a qual possuía características tipicamente industriais. Compreender esta ideia é impor- tante para entendermos como chegamos até aqui, em um momento O JORNALISMO RECONFIGURADO PELAS TECNOLOGIAS DIGITAIS O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S 14 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S histórico em que as instituições jornalísticas estão pulverizadas, e o jor- nalismo não possui mais o monopólio informativo que um dia sustentou seu funcionamento. Esclarecido este conceito, falaremos então dos profissionais que adentram neste cenário pós-industrial, aos quais é requisitada uma série de demandas e expertises que, por vezes, eram pouco desenvol- vidas em outros momentos históricos. Isto nos levará, por outro lado, a pensar em possíveis lacunas destes profissionais – e nos conduzirá a sugerir, ao longo desta discussão, maneiras de trabalhá-las melhor. O JORNALISMO PÓS-INDUSTRIAL – COMO CHEGAMOS ATÉ AQUI? Para começo de conversa, precisamos contextualizar melhor quais são as características do atual panorama em que os jornalistas trabalham. Ao longo das últimas décadas, o cenário da comunicação, como um todo, foi atravessado por mudanças diversas. O jornalismo, como um ofício regido pelo tempo, é naturalmente atingido pelas modi- ficações que se desdobram na sociedade. Deste modo, pontuamos aqui que não há novidade em encarar o jornalismocomo uma atividade em constante mutação, conforme foi sendo transformado por todos os aspectos que o cercam. Dentre eles, há aqui uma forte participação das tecnologias, as quais sempre tensiona- ram readaptações nos fazeres jornalístico. Segundo Carlos Franciscato, Um modo necessário de perceber os efeitos da tecnologia sobre o jornalismo é identificar como fatores de ordem técnica estabeleceram possibilidades e limitações no tempo da produção jornalística. Aspectos tecnológicos condi- cionaram o ritmo e a velocidade da produção em diferentes épocas do de- senvolvimento do jornalismo. (FRANCISCATO, 2005, p. 48) Em outras palavras, podemos entender que o jornalismo é, ne- cessariamente, um produto de seu tempo, e seu contexto altera direta- mente tanto seu funcionamento técnico, quanto as suas características. Notemos aqui que isso não significa equivaler a profissão às tecnolo- gias que a cercam – como se as práticas jornalísticas se tornassem, por exemplo, mais rápidas e/ou mais superficiais apenas por decorrência da existência ou não da internet, por exemplo. O que pontuamos aqui, por outro lado, é que o jornalismo é um reflexo do mundo em que ele existe. Portanto, vale a pena apresentarmos, em linhas gerais, como é este mundo da comunicação e dos negócios em que o jornalismo está situado. Para tanto, emprestamos aqui o conceito de jornalismo pós- 15 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S -industrial, conforme explicado por Anderson, Bell e Shirky (2013) em um estudo de grande repercussão feito na Universidade de Columbia. Para capturarmos a profundidade dessa mudança, antes de delinear- mos o conceito, é importante indicar o que seria, antes deste período, um chamado jornalismo industrial. Conforme já assinalamos, o jornalismo hoje enfrenta um mo- mento de crise – aqui entendido como um momento histórico em que mudanças estruturais se sinalizam claramente em nossa profissão. Por- tanto, seria prudente nos questionarmos: se o jornalismo está mudando a passos largos, então como ele funcionava antes, e por que este mo- delo antigo se tornou decadente? A resposta é que o ofício até pouco tempo, se sistematizava de uma forma mais próxima às empresas com características indus- triais. Basicamente, a atividade jornalística se organizava em grandes (e poucos) grupos de comunicação, que dominavam a circulação em massa de mensagens informativas e eram dificilmente ameaçados por empresas menores. O conceito de notícia era mais claro e definitivo: tinha início, meio e fim. As funções desempenhadas pelo jornalismo, também. Em outras palavras, “o que o jornalista fazia na era industrial era definido pelo produto: um redator de títulos, um repórter, um editor, um colunista” (id, p. 51). As alterações históricas (dentre elas: a popularização das tec- nologias; as mudanças no ambiente profissional; a crise dos grandes monopólios; a “uberização” do trabalho2) impactaram todas as empre- sas de modelo industrial – e, consequentemente, o jornalismo também foi afetado. Conforme nos explicam Anderson, Bell e Shirky, Tanto em montadoras de veículos como em veículos de comunicação tradi- cionais, há bem menos ocupações do que antes, e em geral distintas. Em- bora compartilhe muitas das características de atividades que sofreram uma revolução, como a fabricação de veículos, o jornalismo passou por uma mu- dança muito mais profunda em sua constituição. (id) Claro está até aqui que o jornalismo produzido neste contexto essencialmente digital reconhece mudanças profundas em sua própria natureza, como se houvesse uma verdadeira mutação em seu “DNA” fundante. É esta a leitura feita por Jorge (2013), que descobre alguns elementos observáveis na notícia que nasce já em ambiente digital: ela muda do estado “sólido” (impresso), para um estado virtual (digital); ela agrega novos produtos, como entrevistas digitais, flashes, formatos es- 2 Por uberização do trabalho, entendemos aqui a emergência de relações mais informais e flexiveis, em que os trabalhadores prestam serviços sob demanda e não estão protegidos por boa parte das leis trabalhistas. 16 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S pecíficos para tablets e celulares; não tem mais a materialidade típica do papel, e não pode ser mais manuseada, mas em compensação pode ser compartilhada, armazenada, ouvida, alterada, enviada; ela registra uma mudança na energia que requer para a realização do seu trabalho, pois aumenta a pressão da velocidade (id, p. 161). Isto posto, podemos então desenvolver aqui quais são as ca- racterísticas desta nova fase que emerge após o fim da era industrial, dando espaço às empresas entendidas como pós-industriais. Destaca- remos, dentro deste tópico, alguns dos elementos mais importante des- te chamado jornalismo pós-industrial: a) Fim do monopólio: em outros momentos históricos, as em- presas jornalísticas possuíam uma espécie de monopólio da fala. A elas cabia a tarefa de falar coletivamente à população, sendo responsáveis pela distribuição de informações. Hoje, no entanto, este monopólio caiu, e os jornalistas e suas instituições dividem espaço com todo tipo de ator social: sejam os sujeitos políticos, religiosos, educacionais, e mesmo os cidadãos comuns, todos têm possibilidades reais de criar suas próprias mídias, sem depender diretamente da mediação jornalística. b) Fim do império das grandes empresas jornalísticas: conforme já abordamos, o sistema jornalístico, no mundo inteiro, foi es- truturado por meio de grandes conglomerados de comunicação (como o grupo Abril, a rede Globo, o grupo Folha), muitos deles nas mãos de uma administração familiar. Este era o grande espaço de atuação para os jornalistas no mercado de trabalho. Por necessitarem de um sistema industrial para seu bom fun- cionamento, boa parte dessas empresas entrou em crise – em parte, pela ascensão da internet, que descentralizou a produção e trouxe a possibilidade que os pequenos veículos adquirissem também relevân- cia. Por isso, compreendemos que o ambiente pós-industrial tende a valorizar empresas menores, de abordagem mais específica, que preci- sam de uma estrutura econômica mais reduzida para poderem operar. 17 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Figura 1: Jornalistas dividindo espaço com vários outros sujeitos Fonte: Pexels. Acesso em 2020. c) A notícia nunca acaba: se antes tínhamos uma noção ra- zoavelmente clara do que seria uma notícia, hoje a noção de finalização dela é bastante relativa, uma vez que há múltiplas vozes que disputam espaço para falar de alguma coisa. Com a onipresença do mundo digi- tal, todos nós estamos praticamente sempre online, e a temporalidade do jornalismo, que era de um dia (daí o termo “jornalismo”, que se re- laciona com a palavra “jour”, que significa “dia”, no francês), hoje é um contínuo. Por isso mesmo, Ramonet (2012) conceitua a notícia como um work in progress, uma espécie de conversação que nunca se encer- ra, e não um produto acabado. d) Fim da subvenção da publicidade e o surgimento de novas formas de sustento: conforme já comentamos, a história do jornalismo foi marcada basicamente por uma forma principal de sub- venção, realizada pelos anúncios publicitários. A renda adquirida com publicidade era o que sempre pagou as operações jornalísticas – com bem mais peso, por exemplo, que o valor captado pela venda de jornais em banca, ou então pela assinatura de revistas, diferentemente do que se possa imaginar. Neste sentido, a internet, com sua publicidade direcionada e sua centralização em espaços específicos (como sites de redes sociais) 18 O A U XÍ LI O D O S M E IOS D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S praticamente encerrou essa relação. Além disso, houve um erro crasso cometido pelos jornais logo no começo de sua migração para a internet, que foi o oferecimento de seus conteúdos de forma gratuita, levando à criação de uma cultura, difícil de ser desmontada, de que tudo que está na internet deve ser sempre ofertado de graça. Por isso mesmo, leito- res de jornais online tendem a ser pouco propensos a pagar por estes conteúdos, uma vez que foram familiarizados a receberem materiais jornalísticos sem serem cobrados por isto. Isto posto, o jornalismo pós-industrial – em que os negócios se pulverizam para além de grandes empresas e há espaço para iniciativas menores – enfrenta o desafio de ter que pensar em novas formas de custeio de suas operações. Várias iniciativas neste sentido já têm sido feitas, com sucesso, por veículos de jornalismo independente, conforme veremos mais adiante neste curso. No intuito de organizarmos os conteúdos já vistos até aqui, apresentamos agora um quadro que sistematiza as diferenças entre ambos os contextos. A ideia é que a visualização gráfica ajude a assen- tar melhor os conhecimentos adquiridos e traga uma noção mais clara de quais são as mudanças estruturais no ambiente em que os jornalis- tas atuam hoje. Vejamos: Figura 2: Diferenças entre o jornalismo industrial e pós-industrial Fonte: Elaborado pela autora, 2020. 19 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S A esta altura, talvez já tenha ficado claro que, mais do que si- nalizar uma crise, o cenário vigente no jornalismo ilumina possibilidades de uma atuação criativa na profissão, provavelmente de uma maneira nunca vista antes. O panorama é sim desafiador, mas cheio de possibi- lidades para os que estiverem abertos a encarar de forma propositiva as novas oportunidades que o mercado digital nos traz. Abaixo, disponibilizamos o documentário “Novo jornalismo, ve- lho jornalismo”, de 2017, que discute as mudanças de um jornalismo tido como “antigo”, em que o impresso era a espinha dorsal, e a transi- ção para um novo jornalismo em que o digital se torna a regra. Saiba mais: https://www.youtube.com/watch?v=R1KGx-6NBrw Esclarecido o contexto em que estamos hoje, no próximo tópico abordaremos as competências e habilidades mais desejadas para este ambiente profissional em franca renovação – discutindo, de maneira transparente, como os jornalistas atuantes no mercado podem aprimo- rá-las e, assim, se prepararem para serem trabalhadores requisitados pelas instituições (de novos e velhos modelos) e pelos próprios colegas. HABILIDADES REQUISITADAS PARA OS PROFISSIONAIS QUE ES- TÃO NO MERCADO Uma vez que encaramos que as mudanças são a regra em nossa profissão – e não reconhecer isso é entrar em uma luta infrutífera com a realidade – podemos, por fim, propor aqui uma discussão que busque identificar quais as áreas de atuação e as expertises que os jornalistas devem tentar aprimorar, tendo em vista o propósito de serem profissionais ativos neste chamado jornalismo pós-industriais. Muito se discute sobre as modificações dos fazeres jornalísti- cos ao longo do tempo, e que forma os jornalistas tiveram que adquirir novos conhecimentos múltiplos que não necessariamente possuíam em outros momentos da profissão. Em outras palavras, uma das conse- quências do mundo digital (sentidas não apenas no trabalho jornalístico, mas em todas as áreas do universo trabalhista) é uma popularização das tecnologias e uma multiplicação de funções desempenhadas pelos 20 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S mesmos profissionais. Isto significa dizer que, se em outros momentos históricos, os jornalistas executavam ações muito bem delimitadas, hoje eles precisam se aprimorar em várias ferramentas e linguagens. Pre- cisam redigir matérias, filmar vídeos, gravar podcasts, editá-los, domi- nar regras básicas de SEO3. Necessitam estar preparados para serem multimidiáticos, ou seja, prontos para apresentarem as informações em uma multiplicidade de formatos. Figura 3: Os jornalistas podem tirar proveito das ferramentas digitais em seu trabalho Fonte: Unsplash. Acesso em 2020. Obviamente, tudo isto pode ser discutido dentro de uma esfera da exploração do trabalho jornalístico, haja vista que, por vezes, extra- polam-se os limites para os quais um jornalista foi contratado por um veículo. Não obstante, não pretendemos aqui negar que o caráter mul- timídia é uma realidade no mercado profissional, decorrente, em parte, do fato de que as empresas comunicacionais se tornam menores e mais centralizadas, fazendo que os mesmos jornalistas passem a encarar o processo de produção da notícia não pelas suas partes (por exemplo, a produção da foto isolada da apuração e da redação do texto), mas como um todo. Além disso, acreditamos que este encolhimento das 3 Search Engine Optimization, ou Otimização para mecanismos de busca, são técnicas usadas em textos e conteúdos para que eles sejam encontrados de forma mais fácil em sites in- dexadores, como o Google. 21 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S instituições (no sentido de que o cenário torna possível que empresas menores ganhem relevância no panorama jornalístico, antes dominado apenas por grandes veículos) favorece o engajamento dos profissionais com os veículos e uma maior vigilância sobre as suas condições de trabalho. Neste sentido, as associações e sindicatos também adquirem uma frente importante, e podem ter um diálogo mais efetivo com as instituições, de forma a ajudar a pautar que essas relações sejam justas e éticas. A verdade é que esse é um dos principais desafios do jornalis- mo realizado em ambiente digital: ele tende a envolver os profissionais em todas as etapas do processo, fazendo que exercitem um olhar ho- lístico sobre a produção noticiosa. Por consequência, as rotinas produ- tivas jornalísticas se reconfiguram por meio de uma participação mais efetiva ao longo da cadeia de planejamento e execução de uma notícia, com separações menos marcadas entre as funções profissionais. Por outro lado, é importante deixar claro aqui que esta nova postura não decorre exclusivamente pela existência das tecnologias – como se a internet, juntamente aos aparatos nos quais ela se desen- volve, fosse a única responsável pelas novas reconfigurações da profis- são. O que há, na verdade, é uma interseccionalidade: entre um mundo que se transmuta e as tecnologias que potencializam tais mudanças. Além disso, é preciso esclarecer que a essência da profissão, para que ela siga imprescindível em um contexto democrático, é imutável: A essência da prática jornalística não mudou. O bom jornalista continua sen- do aquele capaz de apurar uma boa matéria, escrever um bom texto, fazer um bom título. Aquele que dá a informação rápida, objetiva, crítica, pluralista e independente. O papel do jornalista multimídia se expande, ele se torna mais flexível e completo, exige novas habilidades. Para trabalhar na internet, ele precisa ousar e tentar novas formas de comunicar; conhecer as especi- ficidades do meio, entender e aprender a usar as ferramentas; ser cada vez mais um contador de histórias (SCHIARETTA, apud JORGE e PEREIRA, 2009, p. 59). Ao contextualizarmos melhor este cenário, podemos então apontar aqui uma série de habilidades, competências e expertises que tendem a ser valorizadas no contexto pós-industrial. A ideia aqui é pro- vocar uma autorreflexão sobre como os jornalistas estão (ou não) de- senvolvendo tais elementos em sua vivência profissional. Vejamos:a) Jornalistas como coadjuvantes da notícia: uma das no- vidades mais impactantes no atual panorama como já sinalizou aqui, é que os jornalistas não são mais os produtores exclusivos das notícias. 22 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Eles dividem espaço com uma série de outros sujeitos – dentre eles, os amadores, que estão em todos os lugares, munidos de aparatos tecno- lógicos (como celulares, gravadores, etc.) e parecem dispostos a enca- minhar seus conteúdos (na maior parte das vezes, de forma voluntária e gratuita) a seus veículos jornalísticos. O mais óbvio seria enxergar este aspecto como uma ameaça à existência dos jornalistas. No entanto, podemos afirmar aqui que isso, de fato, reforça a importância dos profissionais do jornalismo, uma vez que os amadores não costumam ter domínio do processo noticioso e nem de suas responsabilidades (por exemplo, não têm noção clara so- bre o que seria de interesse público e o que configuraria exposição da vida privada, ou a espetacularização de uma imagem chocante). Os jornalistas, nesse sentido, se situam como os mediadores da produção noticiosa, fazendo uma espécie de curadoria, verificação e narrativização dos conteúdos enviados por fontes não especializadas. Nossa ideia aqui é propor que isto – a “migração” do jornalista, muitas vezes, para um papel coadjuvante na notícia, ao invés de ser o produtor primário dela – seja encarado de forma natural e produtiva. Uma vez que o jornalismo é uma profissão dinâmica, em cons- tante atualização, é fundamental que os jornalistas mantenham uma for- mação continuada para além de sua graduação, procurando aprender sobre novas técnicas. Dentre algumas áreas que podem ser investidas, sugerimos: técnicas de jornalismo de dados (a produção de reportagens a partir da análise de dados públicos); aprimoramento em softwares de edição de imagem e som; técnicas de otimização de busca de conteú- dos e para melhor ranqueamento em buscadores; formas de monetiza- ção de conteúdos online. Há vários locais que oferecem cursos e treinamentos. Um bom lugar é a plataforma Google News Iniciative, disponível em newsinitita- tive.withgoogle.com b) O jornalismo sob a ótica do negócio: outra abordagem bastante esperada aos jornalistas atuais é que procurem compreender o ofício para além dos seus limites tradicionais. Isso significa dizer que os profissionais precisam entender que hoje, o desempenho de sua fun- ção vai além da produção noticiosa. Por exemplo: precisamos analisar 23 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S as formas pelas quais os conteúdos jornalísticos podem gerar enga- jamento, compartilhamento e aplicá-las em nossa produção; necessi- tamos assimilar a inevitabilidade da reinvenção e experimentar novos negócios possíveis dentro de nossa profissão. Talvez alguns jornalistas entendam que tais preocupações es- tão mais próximas da função do Marketing ou da Administração – e não deixam de ter razão. No entanto, reiteramos aqui dois aspectos: conforme discutiremos mais adiante nesta unidade, as competências empreendedoras são hoje desejadas a todos os profissionais; além dis- so, a especificidade da formação jornalística (ou seja: uma noção clara da função social do jornalismo e dos parâmetros éticos da profissão) é um fator imprescindível para assegurar que um conteúdo possa ser trabalhado em seus fatores de engajamento, mas que ainda assim ga- ranta que os valores dentro de nossa produção noticiosa permaneçam ilibados. c) Intersecção com áreas tecnológicas: outro elemento cru- cial no jornalismo pós-industrial é que o saber jornalístico existe, cada vez mais, à medida que está em intersecção com outras áreas. Pode- mos dizer que sempre foi assim – que o jornalismo sempre foi uma área vizinha a outras – mas talvez vivenciamos hoje um período em que tais expertises nunca foram tão necessárias. Ora, se o jornalismo está inteiramente atravessado pelas ló- gicas digitais, é bastante justo imaginar que isso demanda de conhe- cimentos tecnológicos, como noções de programação, otimização de busca online, produção de jogos e infográficos, etc. Isso significa desen- volver tais habilidades ou trabalhar em parcerias com profissionais es- pecíficos, como designers, programadores, engenheiros, entre outros. Tendo em vista tais habilidades a serem desenvolvidas (que mais tem a ver, de fato, com posturas a serem assumidas pelos jornalis- tas durante o desempenho de sua profissão), podemos então observar quais os obstáculos ainda enfrentados por ele em prol de uma atuação mais eficiente neste panorama jornalístico. d) Postura do aprendizado constante: como ofício regido pe- las mudanças do tempo, o jornalismo sempre requisitou profissionais que fossem curiosos, motivados a aprenderem coisas novas. No entan- to, isto talvez nunca tenha sido tão importante quanto agora, neste mo- mento histórico, em que a velocidade é urgente e modifica o tempo todo os aparatos tecnológicos que acessamos em nosso trabalho. Por isso, é imprescindível que os jornalistas encarem o autoaprimoramento como uma postura permanente – e que, independente de sua formação ou de 24 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S sua idade, busquem estar atualizados com os saberes e as linguagens que estão sendo utilizadas nas mídias. Para pensar sobre isso, provocamos você a refletir sobre quais dessas técnicas você conhece ou domina (ao menos minimamente): produção de reportagens multimídia (em que as múltiplas linguagens se cruzam dentro de uma mesma reportagem); produção de vídeos; pro- dução de podcasts; criação de estratégias para redes sociais; gerencia- mento de ferramentas de publicação, como Wordpress; conhecimento de ferramentas de busca e linguagem para SEO; conhecimentos ra- zoáveis de fotografia e filmagem; conhecimento do funcionamento das redes sociais que existem (mesmo que você não as use pessoalmente); entre outros. Caso sua resposta envolva um baixo número de itens, vale a pena investigar o que está impedindo que você se mantenha atualizado dentro das tendências do mercado: será falta de tempo, de interesse, de dinheiro para investir em cursos? Se for algum desses fatores, tente pensar em estratégias que busquem driblar estes empecilhos (como o uso de cursos gratuitos, a organização melhor do tempo, etc.). DEFICIÊNCIAS OBSERVADAS ENTRE OS PROFISSIONAIS QUE ATUAM NESTE CENÁRIO É notório que, mesmo que enxerguemos aqui um horizonte de novas possibilidades para as empresas e os sujeitos que trabalham no jornalismo, isso não significa dizer que não existem lacunas sistêmicas na profissão (com um excesso de notícias espetacularizadas, investi- mento maciço em clickbaits4 em detrimento de conteúdos relevantes, dentre outras) que fogem das mãos dos indivíduos. No entanto, acredi- tamos que tais problemas não podem se tornar justificativas para que os jornalistas profissionais se “rendam” a um desempenho aquém das suas possibilidades, ou então para que assumam que a baixa qualidade seja um parâmetro aceitável no ofício. Dito em outras palavras, o fato de que o sistema jornalístico, em um sentido amplo, apresente deficiências, tal como ocorre em todas as demais profissões, não pode servir como desculpas para que um jor- nalista formado se conforme com uma performance mínima ou apenas confortável. É sempre preciso lembrar que o jornalismo é um serviço de interesse público, e o seu bom funcionamento está diretamente conec- 4 Em português, os chamados “caça-cliques” designam conteúdos gerados e disponibili- zados na internet com o intuito de fazer o usuário clicar num link e, por consequência, gerar renda por meio dapublicidade online. Normalmente, isso ocorre em detrimento da qualidade e da preci- são de uma informação. 25 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S tado com a saúde de uma sociedade. Isto se potencializa ainda mais nos tempos atuais, nos quais há uma explosão de informações de bai- xíssima qualidade, ou conteúdos distorcidos como as fake news5 – que sempre existiram, vale lembrar, mas que hoje, por intermédio das tec- nologias digitais, encontram um potencial gigantesco para sua difusão. Pode-se argumentar, e com razão, que a novidade não está nas fake news em si, mas na aparição de um instrumento capaz de reproduzi-las e disse- miná-las com amplitude e velocidade inauditas. Ainda aqui o ineditismo é relativo, pois algo parecido pode ser dito sobre o advento da imprensa de tipos móveis. Ao escrever sobre o fervilhante ambiente panfletário das pu- blicações impressas do século XVIII, o historiador Robert Darnton mostrou como era infestado de falsidades, plágios, imposturas e calúnias – de fake news, enfim –, cujos autores ficavam protegidos sob anonimato ou por pseu- dônimos. De forma semelhante ao que acontece hoje, era comum que os responsáveis por tais abusos escapassem a qualquer punição por estarem fora das fronteiras em que seus escritos haviam sido incriminados. (FRIAS FILHO, 2018, p. 42). Após esta contextualização, pretendemos abordar aqui os as- pectos que devem ser monitorados pelos jornalistas em seu desempe- nho, em prol da constituição de uma atuação eficiente, competente e construtora de um jornalismo de qualidade. a) Foco apenas nos conhecimentos tecnológicos: ao abor- darmos aqui a necessidade de reinvenção do jornalista contemporâneo, que deve estar aberto a outros saberes e aos conhecimentos tecnológi- cos de todas as áreas, não se sugere que as expertises tradicionais dos jornalistas deixaram de ser importantes. Por mais que as linguagens audiovisuais estejam em voga (em vídeos e podcasts, por exemplo), a ferramenta fundamental de um jornalista continua a mesma: a língua portuguesa. Este é o nosso conjunto de instrumentos mais essencial – e saber manejá-lo é, mais do que um diferencial, uma obrigação. E como resolver o problema de um baixo domínio e articulação da língua portuguesa? Há vários caminhos, mas sugere-se aqui o mais simples de todo: lendo muito e, preferencialmente, textos de qualidade (jornalís- ticos, literários, científicos). b) Não saber contar histórias: do tópico anterior, decorre aquela máxima de que “fazer jornalismo é saber contar histórias”. Ela certamente permanece verdadeira: os bons jornalistas têm a capaci- 5 O termo de fake news é bastante complexo, mas, de modo geral, compreende as no- tícias falsas ou os conteúdos mentirosos, descontextualizados ou distorcidos veiculados como se fossem verdadeiros, e reconhecidos pela população como tal. 26 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S dade de narrativizar bem as notícias, o que significa criar uma história envolvente, que dimensione o fato narrado perante o contexto social, que traga informações para além da superfície de um texto. Não obs- tante, ser um bom narrador não significa se render a vícios muitas vezes encontrados nos veículos jornalísticos, como a espetacularização e o sensacionalismo (quando um fato é extrapolado em seu caráter infor- mativo para causar sensações fortes no leitor ou espectador). É o que acontece, por exemplo, em boa parte do jornalismo policial, em que histórias são estendidas e muitos detalhes são especulados para que demorem a se esgotar, prendendo o público de forma desnecessária. c) Render-se a uma ditadura dos cliques: a “moeda” cor- rente do jornalismo digital, como sabemos, é a quantidade de cliques que um conteúdo é capaz de gerar, uma vez que a publicidade online é rentabilizada dessa forma. Isto levanta um grande risco de que os con- teúdos jornalísticos passam a ser avaliados de acordo com essa possi- bilidade de engajamento – fazendo com os profissionais e as empresas abram mão de parâmetros de qualidade para obter mais lucro. Em curto prazo, tal estratégia costuma dar resultado, mas isso ocorre a duras penas – em especial, à custa da reputação dos veículos e de seus profissionais, o que não se torna vantajoso em longo prazo. Por isso, é sempre preferível focar na construção de um veículo de conteúdo de qualidade, idôneo, do que apostar em conteúdos de retorno ágil, em termos de rentabilidade, mas que se esvai também rapidamente. d) Abrir mão de uma apuração “antiga”: o jornalismo digital, tal como ele transcorre atualmente, traz um grande risco aos profis- sionais, que é o de se acomodar a um tipo de apuração dependente exclusivamente do que está disponível da internet. Deste modo, concre- tiza-se uma série de projetos jornalísticos fundamentados muitas vezes apenas na divulgação de opinião, na réplica de conteúdos já veiculados por outros sites ou portais, ou com a produção de um jornalismo decla- ratório6 simples. Há uma frase bastante conhecida na profissão, e creditada ao experiente jornalista Gay Talese7, que pontua que jornalismo é a “arte de sujar os sapatos”. Dizer isso equivale a defender que a matéria-pri- 6 Por jornalismo declaratório, entendemos a prática de construir notícias apenas com base nas declarações de fontes de informação. Isso pode ser problemático por desconsidera que o jornalismo envolve uma síntese dos fatos narrados, indo além das versões atribuídas pelas fontes. Este tipo de jornalismo “aflora quando os jornalistas e veículos de comunicação não têm informa- ções ou tempo suficientes para uma apuração mais criteriosa” (OLIVEIRA, 2020, s/p). 7 Nascido em 1932, Gay Talese é conhecido como um dos grandes nomes do jornalismo literário. Dentre outras obras, é autor de “O reino e o poder”, que conta a história do jornal The New York Times, “A mulher do próximo” e “Fama e anonimato”. 27 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S ma essencial da profissão é a apuração in loco, por meio da observação e da conversa com as pessoas nas ruas. Por isso, uma das consequên- cias do jornalismo bem feito seria “sujar os sapatos”- o que, obviamente, é uma metáfora. As facilidades do meio digital, bem como os prazos apertados do ofício, fazem com que muitos repórteres acabem não priorizando esta apuração primária, contentando-se a coletar materiais via internet. Isto é um erro e tende a enfraquecer a qualidade da produção. Vale lembrar que os grandes repórteres, mesmo quando escrevem colunas – como Eliane Brum8 ou Monica Bergamo9 – baseiam suas opiniões em um longo processo de apuração jornalística e cultivo de fontes relevan- tes, o que vai muito além da consulta à internet. Documentário sobre o assunto: O Mercado de Notícias (Jor- ge Furtado, 98 min, 2014) Acesse o link e assista ao documentário completo: youtube.com/watch?v=_nIX8qQR70U&t=91s Observação: O documentário O Mercado de Notícias traz um panorama bastante claro de como o jornalismo foi se transformando ao longo das últimas décadas, ao ser permeado pelas mudanças tecnológicas e pe- las transformações sociais que elas trazem. Para isso, o filme ouve o depoimento de trezes jornalistas muito experientes – dentre eles, Mino Carta, José Roberto de Toledo, Luiz Nassif e Jânio de Freitas. 8 Eliane Brum é repórter, documentarista e escritora. É uma das mais premiadas jornalis- tas brasileiras. Desde 2013, é colunista do jornal El País. 9 Monica Bergamo é colunista do jornal Folha de São Paulo e da rádio Band News. É conhecida pela quantidade de furos jornalísticos que costuma obter no noticiário político. 28 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG ITA IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S QUESTÕES DE CONCURSO QUESTÃO 1 Ano: 2020 Banca: FCC Órgão: AL-AP Prova: Comunicador Social - Jornalismo O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, em seu artigo 17, aponta que aqueles que o descumprirem estão sujeitos a inúmeras penalidades, tais como a de observação, advertência e a) Aplicação de multa de acordo com a sua infração. b) Suspensão e exclusão do quadro de sócios do sindicato dos jorna- listas. c) Pena de prisão se for reincidente. d) Cassação do seu registro profissional. e) Suspensão do exercício profissional do jornalismo. QUESTÃO 2 Ano: 2019 Banca: UFPR Órgão: UFPR Prova: Jornalista O uso de câmeras escondidas em reportagens jornalísticas é uma prática relativamente usual em matérias do jornalismo investigati- vo, mas alguns autores, como Dalmonte (2002), condenam tal es- tratégia, pela seguinte razão: a) Em matérias investigativas, o jornalista deve entregar posteriormente toda a sua documentação à polícia – algo que não é possível fazer com gravações escondidas. b) Esse uso é ilegal, pois o jornalista coleta informações das fontes e as divulga sem o consentimento delas c) Pode ser considerada antiética, pois o repórter utiliza recursos ilícitos (como uma falsa identidade) para revelar ações ilícitas. d) O uso de equipamentos tecnológicos como câmera escondida extra- pola as funções para as quais os jornalistas são pagos. e) O jornalista sempre corre risco de morte quando usa uma câmera escondida. QUESTÃO 3 Ano: 2019 Banca: UFPR Órgão: UFPR Prova: Jornalista No que se refere aos parâmetros adequados para que o jornalismo ocorra de forma ética, há uma expressão que sustenta que a pro- fissão deve empregar o método da separação entre igreja e estado. Trata-se de uma metáfora que explica que, idealmente, o funciona- mento do jornalismo significa que: a) Toda matéria jornalística deve utilizar como meta a imparcialidade, ou seja, a separação entre o fato e os interesses das fontes. 29 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S b) Temas jornalísticos devem ser decididos à parte, pela própria empre- sa, sem levar em conta os argumentos das equipes que captam finan- ciamentos ou dos interesses dos anunciantes. c) As matérias jornalísticas (estado) não devem se contaminar com as opiniões pessoais dos jornalistas (igreja). d) A produção noticiosa deve sempre levar em consideração a manuten- ção dos subsídios financeiros. e) Os interesses das empresas jornalísticas não devem dialogar com os valores pessoais dos jornalistas por elas contratados. QUESTÃO 4 Ano: 2019 Banca: Quadrix Órgão: CRF-BA Prova: Jornalista Na evolução das tecnologias e dos meios de comunicação, o jor- nalismo desenvolveu características e se adaptou às diferentes de- mandas, tanto na linguagem quanto nas condições de produção. A respeito desse tema, julgue o item. As condições de produção da notícia, desenvolvidas pelo jorna- lismo profissional, impedem que distorções voluntárias ou invo- luntárias aconteçam no produto jornalístico, oferecendo ao leitor a garantia de um material de qualidade. ( ) Certo ( ) Errado QUESTÃO 5 Ano: 2019 Banca: UFPR Órgão: UFPR Prova: Jornalista A ética jornalística pressupõe um esforço de reflexão constante dentro das empresas de comunicação, uma vez que os próprios jornalistas, segundo Bucci (2000), evitam pensar seriamente nesse assunto. No entanto, um debate frequente sobre ética no jornalis- mo é imprescindível, uma vez que: a) As notícias sempre causam vítimas: as pessoas que perdem com a divulgação da informação que era guardada como segredo, mesmo que suas atitudes tenham sido condenáveis. b) As empresas precisam manter seus códigos éticos registrados e pú- blicos, para conseguir estabelecer contratos com anunciantes. c) Esse tema tem tratamento secundário nos currículos dos cursos de graduação. d) A rapidez da produção noticiosa faz com que os jornalistas se acostu- mem a desconsiderar valores éticos, sem pensarem nas consequências de suas ações. e) Os donos das empresas privilegiam uma gestão unilateral, tomando decisões que favorecem instituições parceiras, e a discussão ética pode 30 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S trazer subsídios legais para que os jornalistas possam questionar seus chefes. QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE Ao longo do primeiro capítulo, falamos sobre as mudanças no cenário jornalístico atual e de que forma estas novas configurações, daquilo que chamamos de jornalismo pós-industrial, estão em consonância com demais elementos que se expressam em outras áreas profissionais. Lis- tamos aqui algumas dessas modificações no texto (como a derrocada dos grandes monopólios e o surgimento de empresas menores, a dimi- nuição dos ganhos com publicidade e o processo contínuo de produ- ção). Para aumentar a compreensão deste cenário, sugerimos que você pesquise e aborde outras mudanças no mercado de trabalho (de forma geral), e que podem também atingir o campo do trabalho jornalístico. TREINO INÉDITO Por que usar os chamados clickbaits costumam significar falta de qua- lidade no jornalismo? a) Porque eles acabam por diminuir a renda publicitária das páginas jornalísticas. b) Porque os conteúdos que geram mais cliques geralmente são apela- tivos ou fazem um suspense desnecessário, em busca do engajamento do usuário. c) Porque manchetes chamativas – as que geram mais cliques – costu- mam levar muito tempo para serem elaboradas. d) Porque todos os conteúdos que geram muito engajamento dos usuá- rios são exemplos de mau jornalismo. e) Porque os chamados clickbaits costumam ser gerados por estagiá- rios dos veículos. NA MÍDIA ERROS, ACERTOS E EXPERIÊNCIAS NO JORNALISMO PÓS-INDUSTRIAL Hoje sabemos que o mundo é outro, que a publicidade por si só não paga o jornalismo na internet, e que, principalmente, o jornalista não está mais sozinho na produção de informação como em outros tempos. Muitas pessoas com o mínimo de acesso a internet podem cometer “atos de jornalismo” ao noticiar para milhares de pessoas em uma rede 31 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S social, por exemplo, que um acidente de carro ocorreu em frente a sua casa. Neste cenário, como “premiar”, que seja com a continuidade, as melhores iniciativas de pessoas que trazem informações importantes para a nossa vida cotidiana? Como sustentar e qualificar uma quanti- dade grande de produtores de informação para bancar uma “dieta sau- dável” de informação, não dependente apenas de notícias “industriali- zadas” e, não raras, carregadas de quantidades tóxicas de interesses disfarçados? Como promover a continuidade de um jornalismo que seja um pouco mais transparente em seus interesses, um pingo mais sincero em sua forma de comunicar e que consiga, ainda assim, ter condições de ir atrás de histórias interessantes e importantes para a nossa vivên- cia diária? Fonte: Site Baixa Cultura Data: 21 de setembro de 2015. Leia a notícia na íntegra: http://www.leofoletto.info/tag/jornalismo-pos-industrial/ NA PRÁTICA O artigo referenciado acima, do jornalista Leonardo Foletto, sugere que as contribuições feitas pelos amadores, quando produzem conteúdos (como uma foto, uma filmagem, a indicação de uma pauta), são “atos de jornalismo”, mas não jornalismo em si. Isso significa dizer que este material não deveria vir a público sem que houvesse uma mediação de jornalistas profissionais, os quais trabalharão com esta contribuição de forma a otimizar e qualificar a produção jornalística de um veículo. Dian- te disso, o jornalista esclarece em seu texto que, é preciso ter em men-te que o jornalismo está em frente a uma readequação de seu modus operandi, aproximando-se de outros modelos – como o da agricultura familiar, na analogia apresentada neste artigo. SAIBA MAIS A seguir, sugerimos dois vídeos que ajudarão a consolidar os conheci- mentos discutidos até aqui: - Vídeo: Você tem um smartphone? Comece a divulgar notícias Nesta palestra ocorrida no projeto TEDTalks, o jornalista brasileiro Bru- no Torturra discorre sobre as mudanças no jornalismo trazidas pela transmissão independente de vídeos. Sua reflexão faz pensar sobre os impactos da popularização da tecnologia para o jornalismo profissional. 32 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=2r_qTWYOIog - Vídeo: Jornalismo independente, com Natalia Viana Uma entrevista feita pelo escritor Marcelo Rubens Paiva com a jorna- lista Natalia Viana, da agência Pública, um dos principais veículos in- dependentes do Brasil. A conversa traz a oportunidade de compreen- der melhor o funcionamento das novas mídias pós-industriais que hoje emergem no país. Disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=OK0MNnCA3Kw 33 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Agora que já circundamos qual o panorama em que jornalismo se desenvolve nos dias atuais, podemos partir para outra discussão, qual seja: de que forma o jornalismo pós-industrial, marcado pela cen- tralidade dos processos digitais pode favorecer a consolidação de uma carreira profissional sólida? Para abordar isso, primeiramente falaremos, de modo geral, das mudanças no perfil dos profissionais requisitados pelo mercado, uma vez que temos hoje novas demandas no cenário da comunicação, mas, além disso, uma profunda alteração, de características demográfi- cas, sobre quem é o jornalista brasileiro. Em seguida, iremos nos debru- çar sobre como tais perspectivas podem trazer oportunidades (no caso dos jornalistas capazes de utilizar este novo contexto a seu favor) e pos- síveis riscos (especialmente aos profissionais que não encaram como cruciais a flexibilidade e o conhecimento de diferentes linguagens). CONSTRUINDO A PRÓPRIA CARREIRA NO JORNALISMO DIGITAL O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S 34 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S O JORNALISTA DE HOJE É O MESMO DE ANTIGAMENTE? ALTE- RAÇÕES CENTRAIS NO PANORAMA DA COMUNICAÇÃO É provável que você não saiba, mas, por muitos anos, o jornalista brasileiro tinha um perfil muito definido: era um homem, de baixa formação escolar, que passava boa parte do seu dia na rua ou numa redação apinhada de outros homens, cercado por uma nuvem de fumaça vinda dos cigarros de todos os presentes. O relato do experiente repórter José Hamilton Ribeiro10 é bastante ilustrativo dessas cenas: As empresas jornalísticas eram pensadas e construídas como ambiente de sauna brega: só para homem. Nem havia banheiro feminino. No Estadão, à noite, quando fervia o trabalho jornalístico, as mulheres não eram aceitas nem na mesa telefônica. Havia mulheres como telefonistas, mas só durante o dia. À noite, um homem é que operava. Mulher podia ser telefonista, faxineira ou servia para fazer o café: circulava na área de serviço (RIBEIRO, 1998, p. 31). Mais do que documentar que o jornalismo se desenvolvia em um ambiente machista, com características misóginas (o que de fato ocorria), a fala de Hamilton Ribeiro é rica, pois sinaliza que houve, ao longo das décadas, alterações significativas nas características deste grupo profissional: os jornalistas tornaram-se diferentes entre si, com formações e repertórios mais plurais e heterogêneos. As razões para isso são várias e podemos citar algumas delas aqui. Nestas décadas, consolidou-se a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista – legislação que perdurou de 1967 até 2009, quando foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal. Isto estimulou que o trabalhador jornalista se tornasse mais especializado, com uma formação mais sólida e, por isso, estivesse mais preparado para sua função. Sobre os impactos do diploma, José Hamilton Ribeiro também testemunha: Agora, se você me perguntar: o diploma é importante para o jornalista? Eu digo assim: não. O diploma é importante para o país. Para o jornalista pouco faz se precisa ou não diploma. Mas se o país exigir que para ser jornalista o cara tem que fazer quatro anos de universidade, o jornalista sempre será melhor do que era no meu tempo, em que o jornalista era recrutado a troco de um prato de comida. Por que quem era jornalista? Era o cara que entrava como porteiro, como office-boy, como motorista. (...) Hoje o cara começa com quatro anos de universidade. Olha, para o país é melhor ter um jornalista com 10 José Hamilton Ribeiro é um dos mais premiados jornalistas brasileiros, tendo mais de 60 anos de profissão. Já passou pelas redações de diversas publicações nacionais e é autor de vários livros. Há mais de 30 anos, é repórter do programa Globo Rural, na Rede Globo. 35 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S essa formação do que um pobre diabo que vai buscar emprego a troco de um prato de comida (RIBEIRO, 2020, s/p). Trazer estes dois testemunhos nos dá a oportunidade de veri- ficar as mudanças no perfil dos profissionais, o que nos traz pistas de quem é o sujeito hoje mais adequado para exercer a profissão. Outro elemento importante a ser observado nessa modificação de perfil foi o aumento do ingresso no ensino superior, nos anos 2000, e a maior ofer- ta de bolsas de estudo e programas de fomento ao ensino, fazendo com que um maior número de cidadãos das classes mais populares pudesse ingressar nas universidades. Isto tudo levou a uma alteração considerável no perfil do jor- nalista brasileiro, o qual foi mapeado por uma extensa pesquisa reali- zada nacionalmente em 2012, desenvolvida pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Ao todo, esta pesquisa levantou 2.371 respostas em todos os estados do Brasil, e consolidou um retrato do jornalista em nosso país, que teria as seguintes características: 36 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Quadro I – Perfil dos jornalistas brasileiros, segundo a pesquisa da UFSC Elemento mapeado Descrição dos resultados Faixa etária dos pro- fissionais 48% dos jornalistas no mercado têm de 23 a 30 anos. Divisão por sexo biológico 64% das jornalistas são mulhe- res, 36% são homens. Autodeclaração de raça 72% dos jornalistas se declaram brancos. Tem formação em ensino superior? 98% dos jornalistas em atuação no mercado têm formação supe- rior. Participação em en- tidades de classe 25% são associados a sindica- tos. Natureza do veículo em que trabalha 44% dizem desempenhar ativi- dades ligadas à internet 25% são associa- dos a sindicatos. Características do tipo de trabalho Há mais jornalistas trabalhando em mídia (veículos de comuni- cação) do que fora da mídia (em assessorias de imprensa). Quem trabalha fora da mídia tende a ter salários mais altos. Regime de trabalho 25% afirmam ser freelancers, contratados como pessoa jurídi- ca ou com contrato de prestação de serviço. Diferenças de traba- lho por gênero Há mais mulheres que homens no mercado; porém, elas ga- nham menos.Fonte: Elaborado pela autora, 2020. Ainda que os dados tenham sido mapeados em 2012 (o que significa que provavelmente sofreram alguma modificação nos últimos anos), a pesquisa continua muito relevante para fazer um diagnósti- co de como é o profissional brasileiro, apontando características tanto pessoais e demográficas deste jornalista, quanto elementos referentes 37 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Quadro I – Perfil dos jornalistas brasileiros, segundo a pesquisa da UFSC Elemento mapeado Descrição dos resultados Faixa etária dos pro- fissionais 48% dos jornalistas no mercado têm de 23 a 30 anos. Divisão por sexo biológico 64% das jornalistas são mulhe- res, 36% são homens. Autodeclaração de raça 72% dos jornalistas se declaram brancos. Tem formação em ensino superior? 98% dos jornalistas em atuação no mercado têm formação supe- rior. Participação em en- tidades de classe 25% são associados a sindica- tos. Natureza do veículo em que trabalha 44% dizem desempenhar ativi- dades ligadas à internet 25% são associa- dos a sindicatos. Características do tipo de trabalho Há mais jornalistas trabalhando em mídia (veículos de comuni- cação) do que fora da mídia (em assessorias de imprensa). Quem trabalha fora da mídia tende a ter salários mais altos. Regime de trabalho 25% afirmam ser freelancers, contratados como pessoa jurídi- ca ou com contrato de prestação de serviço. Diferenças de traba- lho por gênero Há mais mulheres que homens no mercado; porém, elas ga- nham menos. Fonte: Elaborado pela autora, 2020. Ainda que os dados tenham sido mapeados em 2012 (o que significa que provavelmente sofreram alguma modificação nos últimos anos), a pesquisa continua muito relevante para fazer um diagnósti- co de como é o profissional brasileiro, apontando características tanto pessoais e demográficas deste jornalista, quanto elementos referentes ao ambiente sistêmico em que ele está inserido. Para começar, vamos destacar algumas questões relevantes assinaladas na pesquisa e suas possíveis consequências: a) Pensamos hoje no ambiente jornalístico completamente di- ferente ao sinalizado por José Hamilton Ribeiro (1998) em sua fala: há mais mulheres que homens atuando nas mídias. Este dado é um reflexo direto da presença das mulheres no ensino superior em todo o país; b) Por outro lado, a quantidade de jornalistas que se autode- clara como branco (72%) difere totalmente dos dados demográficos brasileiros: segundo pesquisa recente do IBGE, de 2018, a população do país é majoritariamente negra ou parda, e 43% são brancos. Esta informação – que reflete o panorama de ingresso de brancos e negros no ensino superior do Brasil – é especialmente relevante no jornalis- mo, que depende da existência de um grupo com características plurais para que a abordagem que faz da realidade seja igualmente plural. Um jornalismo realizado majoritariamente por pessoas brancas e de classe média tende a reproduzir as visões de mundo desse grupo, silenciando outros; c) Outro dado importante é a idade média dos jornalistas (entre 23 e 30 anos), o que nos mostra um cenário de profissionais bastante jovens. Este fato se conjuga possivelmente com a quantidade de indi- víduos que trabalham com internet (44%) e não nas chamadas mídias tradicionais; d) A quantidade de jornalistas autônomos ou freelancers (25%), número que certamente se modificou nos últimos anos, é também con- dizente com a quantidade de horas trabalhadas (de 5 a 8 horas diárias, sendo que a jornada de trabalho da categoria é de 5 horas, o que pode significar que os jornalistas prestam serviços a várias empresas). Figura 4: Há pouca diversidade entre os jornalistas brasileiros Fonte: Nappy. Acesso em 2020. 38 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Isto posto, tentamos partir destes dados recortados da pesqui- sa, a qual foi organizada e publicada por Mick e Lima (2013), de modo a delimitarmos melhor as características pessoais e organizacionais dos profissionais em atuação no mercado jornalístico. Obviamente, há bem mais dados além dos selecionados aqui, e todas as informações levan- tadas pelo estudo podem gerar múltiplas interpretações. No entanto, pretendemos focar nos elementos pontuais que consideramos mais significativos para pensar nos traços essenciais dos jornalistas brasileiros. Em uma análise deste estudo, Fígaro (2013) de- finiu que: o perfil do jornalista profissional atualmente envolve jovens, brancos, de classes médias, mulheres a maioria sem filhos, multiplataformas, vínculo de emprego precário, com curso superior completo e com especialização em nível de pós-graduação. A maioria se formou de um a até 15 anos, ou seja, entrou na profissão quando as reformas trazidas pelo computador e a inter- net estavam se efetivando (FÍGARO, 2013p. 8). Portanto, podemos fazer algumas considerações sobre este trabalhador. Primeiramente, por ser uma maioria jovem, o jornalista pro- fissional que está no mercado é um chamado nativo digital, ou seja, um sujeito que já nasceu e cresceu em um ambiente regido pelas lingua- gens digitais – o que difere, por outro lado, dos chamados migrantes digitais, que são as pessoas que tiveram que se familiarizar com esta linguagem durante a sua vida, ou seja, não foi “alfabetizado” em internet depois de adulto. Por isso mesmo, não é de se estranhar que quase metade dos profissionais (número que certamente aumentou ao longo dos anos) declare desempenhar atividades vinculadas à internet. É importante também ressaltar que o ambiente digital levou à criação de novas po- sições que os jornalistas podem atuar. Por exemplo: podem trabalhar com social media, marketing digital, marketing de conteúdo, produção de conteúdos multimídia e audiovisuais, produção de branded content (conteúdos publicitários com características jornalísticas), como analis- ta de SEO, podem lançar startups, trabalhar com iniciativas de fact-che- cking, com jornalismo de dados, dentre tantas outras funções. Outro elemento importante é que os jornalistas que estão no mercado têm formação profissional – mostrando que, na prática, a que- da da obrigatoriedade do diploma, em 2009, não teve impactos pro- fundos no que já era visto no mercado. Além disso, os jornalistas não encerram seus estudos na graduação, e muitos rumam a pós-gradua- ções – que são importantes haja visto um ambiente em que as mu- danças na profissão são a norma. É preciso que o jornalista esteja em 39 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S um processo continuado de formação, uma vez que há sempre novas expertises e técnicas a serem desenvolvidas. Quer saber mais sobre a pesquisa sobre o perfil dos jornalistas brasileiros realizado pela UFSC? A equipe disponibilizou um resumo dos principais pontos desse levantamento e das constatações obtidas. Disponível em: https://perfildojornalista.ufsc.br/files/2013/04/ Perfil-do-jornalista-brasileiro-sintese.pdf Por todos estes pontos levantados, fica claro nesse momento que o jornalismo realizado em ambiente digital é uma esfera cheia de oportunidades para quem esteja propenso a encará-lo. No entanto, é claro que todas as chances potencializadas pela internet – que estão, teoricamente, ao alcance de todos, justamente por causa do caráter de- mocrático e acessível das ferramentas digitais – também podem signifi- car riscos para quem não souber manejar tais linguagens. Em seguida, falaremos sobre as possibilidades de se construir uma carreira sólida neste ambiente digital – e como ela pode ser desconstruída em caso de passos em falso. OPORTUNIDADES E RISCOS: ASSUMINDO O PROTAGONISMO E A RESPONSABILIDADESOBRE A PRÓPRIA REPUTAÇÃO Diante do que discutimos até aqui, já consolidamos a ideia de que o cenário de um jornalismo pós-industrial causou (e ainda está cau- sando) mudanças nos jornalistas e nas instituições em que o jornalismo é concretizado. Estamos, de fato, todos encarando estas novidades no exato momento em que elas transcorrem. Mais do que pensar no en- cerramento de uma etapa, o que se vê, na verdade, é o nascimento de um novo tipo de jornalismo, no qual a norma é justamente a fluidez e a capacidade de adaptação. E esta maleabilidade atinge tanto os profis- sionais, quanto as empresas. Em outras palavras, “o futuro da indústria jornalística será decidido não por aquilo que será extinto (...) mas pelo modo como novas instituições passam a ser velhas e estáveis e como velhas instituições se tornam novas e flexíveis” (Anderson; Bell; Shirky, 2013, p. 56). 40 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Por isto, já esclarecemos que o profissional que exerce suas funções em um ambiente regido pelo digital terá várias oportunidades de crescimento, caso entenda as lógicas deste universo e saiba expor um trabalho de qualidade. Uma das mudanças mais significativas deste cenário online é que, talvez pela primeira vez na história, os jornalistas não dependem mais tanto dos veículos jornalísticos para construir sua reputação. O que isso quer dizer? Para esclarecer esta possível dúvida, propomos aqui um exercício: liste o nome dos jornalistas que você mais admira. É provável que alguns nomes bastante conhecidos tenham vin- do à sua mente. E agora filtre sua “pesquisa”: identifique os jornalistas que você admira e cujo trabalho você acompanha diretamente nas mí- dias sociais. Talvez tenha visto em sua mente nomes de jornalistas (como Eliane Brum, Juca Kfouri, Luis Nassif, Ricardo Noblat, o já falecido Pau- lo Henrique Amorim) que são ou já foram bastante ativos nas redes sociais. Note, por fim, que o seu contato com esses profissionais se dá muito mais pelo respeito a eles do que, necessariamente, pelo contato que você tem com os veículos jornalísticos em que eles trabalham ou já trabalharam. Talvez você nem tenha muitas informações sobre suas trajetórias profissionais, mas ainda assim são jornalistas a quem você recorre para obter uma informação que sabe ser idônea e de qualidade. O que tentamos esclarecer aqui é que, no jornalismo pós-in- dustrial, um jornalista individual tem a possibilidade de equivaler a uma mídia independente – uma vez que, por si só, ele pode criar e manter uma mídia pessoal sua, na qual produz, edita e publica seu trabalho a uma audiência que ele mesmo criou. Há vários casos de jornalistas (no exterior e também no Brasil) que já custeiam seu sustento e suas operações a partir de uma renda obtida diretamente com seus leitores, sem a intermediação de empresas tradicionais. Ingram (2020), ao analisar o caso de um jornalista da área tecnológica que organizou um sistema de pagamento aos leitores do seu blog, destaca que a internet possibilita que existam operações mais simples e uma relação mais direta e transparente com o público. No entanto, o que talvez pareça uma “mina de ouro” a tantos que possam se seduzir por uma promessa de uma remuneração direta, também traz à tona a responsabilidade sobre sua própria carreira, uma vez que um erro pode colocar rapidamente a perder um trabalho cons- truído a duras penas. E aí está um grande paradoxo: a internet, com sua lógica horizontal e o empoderamento concedido a todos que estão nela, pode fazer com que uma carreira desmorone, às vezes, por conta de erros nem tão graves assim. 41 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Livro “Humilhado – Como a Era da Internet mudou o julgamen- to público”, de Jon Ronson (editora BestSeller) Nesta obra, o jornalista Jon Ronson investiga como o julga- mento feito por pessoas comuns na internet (que mais recentemente passou a ser chamado de “cultura do cancelamento”) reativa um tipo de punição exagerada e injusta que ocorria em tempos medievais, quando as pessoas eram condenadas em praça pública. Para tanto, a obra traz vários exemplos atuais e instigantes – casos de pessoas que deram entrevistas infelizes, postaram mensagens no Twitter ou tiraram fotos de mau gosto e jogaram em suas redes digitais e viram, em questão de minutos, suas vidas serem desmontadas e julgadas. O livro, desta forma, propõe uma reflexão cada vez mais ur- gente sobre as consequências de nossas ações no mundo digital – tan- to na nossa disponibilidade a apontar o dedo para o outro, quanto na facilidade com que nos expomos sem pensar nas consequências. Leia a resenha Disponível em: www.aescotilha.com.br/literatura/ponto-virgu- la/a-logica-perversa-da-humilhacao-online Deste modo, cabe dizer aqui que, embora o ambiente online seja uma espécie de “sonho dourado” a todos os profissionais que am- bicionam viver diretamente de seu próprio trabalho, tornando-se inde- pendentes de instituições tradicionais (mesmo quando trabalham como funcionários delas), é também uma espécie de “campo minado” em que os erros podem ter seus efeitos potencializados quando menos se es- pera. Vejamos aqui alguns cuidados a serem monitorados: a) A internet faz desmoronar as fronteiras das vidas pública e privada. Caso queria construir sua “persona” digital, faça um bom pen- te fino nas suas postagens antigas e atuais, deixando apenas aquelas condizentes com o perfil que você quer divulgar. É bastante comum que usuários “garimpem” tweets antigos de personalidades conhecidas e usem isso para expô-las e detoná-las. Evite também exibir-se demasia- damente ou postar fotos que possam ser entendidas como constrange- doras – a não ser que esse seja o tipo de perfil que você almeja conso- lidar. Mas lembre-se sempre: se você trabalha com internet, a internet inteira passa a funcionar como se fosse sua empresa, e sua postura profissional está em constante vigilância. 42 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S b) E se a internet é a sua empresa, trate-a como tal. Reflita muito sobre o que irá dizer quando postar alguma coisa. Há muito a perder a cada vez que se faz um post intempestivo, suscitado pelas emoções, e se é julgado pelos seguidores como preconceituoso, agres- sivo, racista, vingativo, ou qualquer outro problema. Separe, sempre que for possível, a sua vida na internet da sua vida “pessoal”: encare seus seguidores da mesma forma que você encararia seus colegas de trabalho, seus empregadores ou seus leitores. Ainda mantendo todos esses cuidados, sempre é possível pos- tar algo e “viralizar” negativamente, virando então um alvo para o es- crutínio público. Caso isso aconteça com você e seja “pego” num erro ou tenha algum conteúdo mal interpretado – reflita antes de responder. Neste tipo de situação, as lições tiradas nas estratégias de ge- renciamento de crise são essenciais. Sair respondendo de forma im- pensada a todos os críticos é uma maneira de colocar a perder uma carreira que foi construída ao longo de um tempo. Por vezes, responder ou dar muita atenção para uma crise momentânea só ajuda a aumentá- -la, demorando o tempo para que a polêmica se esvazie naturalmente. Todos estes cuidados são importantes também por uma razão essencial: o fato de que a internet opera a partir de uma memória infi- nita, documentada em ferramentas de busca, como o Google – e, por isso, um nome pode ficar conectado a um escândalo por muito tempo, a cada vez que é procurado. Certamente, um profissional não quer ficar “gravado” na memória digital pelos seus erros, mas por seus acertos. Texto: Como gerenciar uma crise em redes sociais?Nesta matéria do portal Meio & Mensagem há dicas bastante práticas de como fazer o gerenciamento de um escândalo que surge em redes sociais. São passos bem elucidativos que as empresas (dentre elas, as jornalísticas) devem trilhar para minimizar os danos. Leia a resenha disponível em: www.meioemensagem.com.br/home/marketing/ponto_de_vis- ta/2013/06/07/como-gerenciar-uma-crise-nas-midias-sociais.html 43 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S c) Da mesma forma que você deve se preparar para possíveis crises, também é necessário preparar-se emocionalmente. A internet é o ambiente dos haters, e quanto mais conhecido alguém se torna, mais acumulará desafetos e pessoas que gastam seu tempo para dei- xar comentários odiosos ou mesmo montar memes sobre este indiví- duo. Caso isso aconteça com você, encontre maneiras de lidar com o ódio (como fazer registro e processar casos mais graves), mas não alimente uma briga desnecessária. Lembre-se: o que os haters querem, bem no fundo, é a atenção das pessoas que eles ofendem. É preciso saber manter a calma, ao invés de responder impulsivamente a cada ataque. d) Caso pretenda consolidar-se em um canal de notícias, inde- pendente de qual a plataforma usada, crie uma periodicidade e man- tenha-se preso a ela. Ou seja, os seus conteúdos devem vir a público dentro de um espaço de tempo estabelecido, não importa o que acon- tecer. Largar alguma rede sem atualizações ou estender o prazo das publicações desfavorece a criação de um público sólido. e) Não abandone suas redes. É possível que você se sinta incitado a criar perfis em todas as redes sociais que existem, mas isso só vale a pena caso você atualizá-las, usando linguagens específicas (a linguagem do Instagram, por exemplo, é completamente diferente da do Twitter, por isso, simplesmente replicar o mesmo post em ambas as redes não é uma boa estratégica). f) Procure se concentrar em modalidades que façam a dife- rença dentro do mercado. O que se tenta dizer aqui é que talvez o tipo mais “fácil” de produzir – tendo em vista que não precisa de desloca- mentos ou apuração – seja o texto de opinião. Por isso mesmo há vá- rios jornalistas que investem no jornalismo de opinião, o que torna essa área um tanto saturada. Por isso, talvez o diferencial hoje dos veículos independentes seja outro: a apuração inédita, o furo de reportagem, a checagem, o investimento em modalidades como jornalismo de dados, criando análises originais, a abordagem de reportagens para nichos es- pecíficos, etc. Agora que você já tem uma boa noção de como deve se prepa- rar para ser um jornalista que trabalha em ambiente online, vamos por fim pensar aqui nos desafios que se sinalizam no mercado: a questão das novas linguagens e a divisão de parte do trabalho com as máquinas. 44 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S RISCOS E OPORTUNIDADES: ENCARANDO A AUTOMATIZAÇÃO E O DESAFIO DAS NOVAS LINGUAGENS JORNALÍSTICAS Vamos abrir esta parte do capítulo provocando-o com uma no- tícia que talvez seja um tanto incômoda: muito em breve, boa parte das atividades que são feitas por jornalistas serão realizadas por máquinas. Aliás, a verdade é que já há robôs que fazem isso – produzem tex- tos jornalísticos. Suas vantagens em relação aos humanos são várias: criam rápido, em várias línguas e com custo baixo. Certamente o parágrafo anterior soa assustador, e com alguma razão. Mas conforme ressaltamos várias vezes ao longo deste módulo, as mudanças estão aí – e as mudanças, quando ocorrem, são sempre difíceis de lidar. Entretanto, Anderson, Bell e Shirky (2013) trazem um lembrete interessante: também foi assustador para os artesãos gráficos quando Johannes Gutenberg inventou, no ano de 1450, a máquina ti- pográfica, estabelecendo uma forma de reproduzir mecanicamente os textos e revolucionando o jornalismo em seu alcance. Figura 5: A automatização no jornalismo se assemelha ao processo de insta- lação da imprensa de Gutenberg, no século XV Fonte: Pixabay. Acesso em 2020. De alguma forma, havia algo de bastante artesanal ou braçal naquilo que esses artesãos faziam, e esse trabalho foi facilitado e agili- 45 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S zado pelas novas máquinas – em um processo que, obviamente, levou um tempo considerável para transcorrer. Por isso, podemos pensar na automatização da produção das notícias com um processo inevitável, mas é preciso se atentar a um detalhe muito importante: não é todo tipo de notícia que uma máquina consegue criar. Para entender isso, precisamos verificar como são essas notí- cias automatizadas. Os softwares criadores de notícias costumam partir de um sistema e chegam a um mesmo resultado, que é a produção de notícias simples. Apesar de cada sistema ter uma especificidade, o funcionamento básico dos softwares NLG é bem parecido: produzir narrativas de fácil leitura a partir de informações e estatísticas extraídas de bancos de dados estruturados de te- máticas variadas, como jogos esportivos, balancetes financeiros, desempe- nho de ações na bolsa, pesquisas sismológicas, previsão do tempo, crimes e homicídios (D’ANDRÉA e DALBEN, 2017, p. 120). Em suma, o que vemos, como descrevem os autores, é que estes robôs partem de informações básicas (como resultado de jogos e previsão de tempo) e conseguem criar notícias que não se expandem muito além do lead, aquele formato textual que, embora essencial, pre- cisa ser dominado já desde a época de graduação. Em outras palavras, é possível dizer que a automatização ocupa as atividades jornalísticas mais simples – da mesma forma que a máquina tipográfica retirou o trabalho mais braçal dos artesãos e fez com que eles se dedicassem a atividades mais complexas. Portanto, os avanços tecnológicos associados à evolução da internet colocam um desafio aos jornalistas, que é o de encarar qual a verdadeira especificidade de seu ofício. A questão a ser feita aqui seria: o que um jornalista faz que uma máquina não é capaz de fazer? A res- posta a essa pergunta é válida e múltipla: um jornalista é capaz de fazer uma apuração complexa, cultivar fontes, negociar, criar interpretações, usar um vasto repertório para fazer referências e construir um texto in- formativo, mas que atraia o leitor por meio de uma estrutura poética. O que se sugere aqui é que nós, jornalistas, precisamos con- templar esse cenário como um momento crucial para encaramos, de fato, qual é a nossa potencialidade e de que forma podemos aprimorá- -la. Isso também significa entender que a flexibilidade, como já se disse, é um elemento importantíssimo para o profissional que intenta se inserir neste mercado. Sugere-se, por fim, algumas linguagens (que só podem ser ar- ticuladas por jornalistas, e não por máquinas) que tendem a ser valori- zadas no atual momento. A ideia é trazer pistas de assuntos sobre os 46 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S quais você deve procurar se informar e, possivelmente, tentar dominar: Figura 6: O formato podcast é bastante popular e exige pouco investimento. Fonte: Unsplash. Acesso em 2020. a) A linguagem dos newsgames: muitos veículos têm apos- tado no uso de linguagens mais interativas e divertidas para informar sobre um assunto. Há muitos sites que criam reportagens que contêm jogos, como quizzes, infográficos interativos, testes de diversa nature- za. Esta é uma forma, inclusive, de cativar usuários mais jovens e fazê- -los consumir mais jornalismo. b) O uso de podcasts: muitos especialistas defendem que vi- vemos atualmente a erados podcasts, que são programas em áudio, muito parecidos com os feitos em rádio, mas disponibilizados na inter- net para que o usuário escute quando quiser. No Brasil, inclusive, há uma grande quantidade de podcasts jornalísticos de muita qualidade e com um público muito cativo. Por isso, é bem importante fazer uma boa pesquisa de mercado nos concorrentes caso queira se aventurar neste formato, uma vez que fazer mais do que já está sendo feito não costuma ser uma boa ideia. 47 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Nesta matéria do canal TechTudo há um bom panorama sobre o que são os podcasts e como eles cresceram nos últimos anos. Além disso, há dicas de como produzir um. Acesse o link disponível em: https://www.techtudo.com.br/ noticias/2019/12/o-que-e-podcast-saiba-tudo-sobre-os-programas-de- -audio-online.ghtml Conheça alguns podcasts jornalísticos de destaque: Mamilos: podcast semanal no formato mesa redonda, que se propõe a discutir algum tema que gerou polêmica. Tem como marca a abordagem dialógica e não violenta, dessa forma se propondo a “cons- truir pontes”. Acesse o link: https://b9.com.br/shows/mamilos Café da Manhã: podcast do jornal Folha de São Paulo. Vai ao ar todas as manhãs, e pretende ser uma espécie de resumo do noticiá- rio do dia anterior. Acesse o link: www1.folha.uol.com.br/especial/2019/cafe-da- -manha Foro de Teresina: podcast semanal de política publicado pela revista Piauí. Reúne três jornalistas que debatem entre si a agenda po- lítica da última semana. Acesse o link: piaui.folha.uol.com.br/radio-piaui/foro-de-teresina Verifica: podcast da agência Lupa, primeira agência de fact- -checking (especializada em checagem de notícias) do país. Acesse o link: piaui.folha.uol.com.br/lupa/tag/podcast A terra é redonda: podcast de jornalismo científico que busca tratar de assuntos que estejam sendo discutidos nas últimas semanas e envolvam o esclarecimento sobre descobertas feitas a partir do conhe- cimento científico. Acesse o link: piaui.folha.uol.com.br/radio-piaui/terra-e-redonda 48 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S c) Uso das linguagens específicas das redes sociais: como todos sabemos, boa parte do tempo que os usuários gastam na internet é disponibilizado em redes sociais. Há cada vez menos pessoas que procuram diretamente os veículos para se informarem – eles entram nos veículos após serem impactados por postagens nas redes que par- ticipam. Uma estratégia interessante é explorar mais os recursos das redes de forma mais jornalística. Por exemplo: é possível fazer jornalis- mo dentro dos stories do Instagram? É possível divulgar uma reporta- gem completa a partir de uma thread11 no Twitter? d) Formas de branded content: historicamente, a publicidade e o jornalismo foram vistos como esferas diametralmente opostas – en- quanto a primeira trabalhava em prol das marcas e das instituições, a segunda tinha como tarefa denunciá-las caso cometessem erros. Como sabemos, hoje o panorama da comunicação está reconfigurado em vá- rias medidas, e uma delas envolve um possível ponto de encontro en- tre as duas áreas. Quando falamos em branded content, pensamos na produção de um conteúdo em formato editorial ou jornalístico em prol de alguma marca. Este tipo de atividade é cada vez mais produzido por jornalistas, que têm como vantagem, em relação a outros profissionais, os domínios da língua, da construção de conteúdos claros e acessíveis e das competências de apuração na hora de produzir um material. 11 Chama-se de thread uma postagem em sequência em que vários tweetssão interliga- dos, como se fossem costurados por uma linha, criando uma narrativa extensa e que deve ser lida inteira. 49 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S QUESTÕES DE CONCURSO QUESTÃO 1 Ano: 2018 Banca: UFMT Órgão: Prefeitura de Várzea Grande - MT Prova: Técnico de Desenvolvimento Econômico e Social - Jornalista NÃO é característica do podcasting aplicado ao jornalismo: a) Foco no factual. b) Análise de temas de interesse público. c) Conteúdo atemporal. d) Diversidade de conteúdo. QUESTÃO 2 Ano: 2018 Banca: INSTITUTO AOCP Órgão: ADAF - AM Prova: Jor- nalista Sobre a produção de conteúdo na internet, assinale a alternativa correta. a) Podcast é um formato de conteúdo em áudio divulgado pela internet. b) A redação de materiais audiovisuais para a internet deve ser simples, prolixa e isenta. c) O redator não precisa se preocupar com a navegabilidade ao produzir conteúdos para a internet. d) Em relação à estruturação do texto para mídias digitais, recomenda- -se sempre usar a pirâmide deitada. e) O uso da voz passiva contribui para a fluidez do texto na internet. QUESTÃO 3 Ano: 2015 Banca: CESPE/CEBRASPE Órgão: FUB Prova: Produção Multimídia Em relação a mídias digitais e Web, julgue o item. Wikis, blogs, Twitter e podcasts constituem plataformas digitais conhecidas como redes sociais. ( ) Certo ( ) Errado QUESTÃO 4 Ano: 2019 Banca: UFSC Órgão: UFSC Prova: Jornalista Podcasts sobre os mais diversos temas ganharam espaço nos últimos anos. Sobre esse tipo de mídia, assinale a alternativa correta. a) Podcasts precisam estar vinculados a uma emissora de rádio (broa- dcasting) para serem considerados jornalísticos. b) Podcasts jornalísticos podem ser encontrados em serviços de strea- https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/bancas/ufmt https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/institutos/prefeitura-de-varzea-grande-mt https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/provas/ufmt-2018-prefeitura-de-varzea-grande-mt-tecnico-de-desenvolvimento-economico-e-social-jornalista https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/bancas/instituto-aocp https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/institutos/adaf-am https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/provas/instituto-aocp-2018-adaf-am-jornalista https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/bancas/cespe-cebraspe https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/institutos/fub https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/provas/cespe-cebraspe-2015-fub-tecnologo-producao-multimidia https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/provas/cespe-cebraspe-2015-fub-tecnologo-producao-multimidia https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/bancas/ufsc https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/institutos/ufsc https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/provas/ufsc-2019-ufsc-jornalista 50 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S ming digital como o Spotify. c) Informações jornalísticas não podem ser apresentadas em podcasts. d) Podcasts jornalísticos são produzidos apenas a partir de programas de rádio ao vivo e lançados em formato MP3 na internet. e) Podcasts são uma modalidade sonora sincrônica, com emissão e recepção compartilhadas por emissor e receptor. QUESTÃO 5 Ano: 2015 Banca: CESPE/CEBRASPE Órgão: FUB Prova: Tecnólo- go - Produção Multimídia Em relação a mídias digitais e Web, julgue o item. Uma vez que streaming e podcasting são plataformas para trans- missão de dados, é correto afirmar que eles representam formas de publicação de arquivos de mídia digital pela Internet. ( ) Certo ( ) Errado QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE Neste segundo capítulo dissertamos sobre os desafios que cercam os jornalistas que habitam no “terreno” digital, local onde eles têm mais voz individual (pois dependem menos das mídias), ao mesmo tempo em que adquirem mais responsabilidades. Uma das questões a ser enfren- tada é a familiaridade com novas linguagens que, provavelmente, aindanão existiam em seu tempo de graduação. Tendo isto em vista, convi- damos você a pesquisar sobre outras linguagens e formatos que podem ser explorados por jornalistas, para além daqueles que já citamos aqui (uso de newsgame, branded content, podcasts, linguagens específicas para redes sociais). TREINO INÉDITO Por que o formato que conhecemos como branded content costuma ser rejeitado por jornalistas? a) Porque as empresas costumam pagar pouco por sua produção. b) Porque exige a gravação de vídeos engraçados, ao estilo de grandes canais do Youtube. c) Porque é um trabalho mais típico da graduação, devendo ser realizado por estagiários. d) Porque faz o jornalismo se aproximar de premissas da publicidade. e) Porque exige um conhecimento de programação de site que não é aprendido pelos jornalistas na faculdade. 51 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S NA MÍDIA TODO MUNDO ESTÁ DE MAL: O QUE A CULTURA DO CANCELAMENTO DIZ SOBRE NÓS A especialista em direitos da mulher Loretta Ross não é contra apontar ações e discursos preconceituosos. Ela só acredita que o linchamen- to virtual (antigamente, público e figurado) não é a melhor maneira de apontar erros alheios. Em um texto de opinião intitulado (em tradução livre) “Eu sou uma feminista negra. Eu acho que a cultura do cancela- mento é tóxica”, publicado no jornal New York Times, ela argumenta que há maneiras melhores de se fazer justiça social. Ela compara essa prática ao ativismo da década de 1970, com o qual ela se envolvia como feminista negra. “Criticava duramente mulheres brancas por não entenderem mulheres negras. (...) Raramente ques- tionava se a forma como eu abordava o privilégio branco delas era, na verdade, contraproducente”, reflete. Ela ainda lembra das vezes em que lhe passaram o pito publicamente (em inglês, usa-se o termo call- -out, além de cancel), ao usar linguagem inapropriada para se referir a alguém. “Faz parte da curva de aprendizagem de todo mundo, mas eu ainda me sentia machucada, envergonhada e na defensiva”. Fonte: Site Tab UOL Data: 20 de setembro de 2019. Leia a notícia na íntegra: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2019/09/20/todo-mundo-ta-de- -mal-o-que-a-cultura-do-cancelamento-diz-sobre-nos.htm NA PRÁTICA A reportagem multimídia “Todo mundo está de mal: o que a cultura de cancelamento diz sobre nós”, da jornalista Luiza Pollo, fala sobre as possíveis consequências práticas da chamada “cultura do cancelamen- to”, nome que se dá hoje a uma espécie de ativismo nas redes sociais em que pessoas são criticadas e têm sua reputação destruída. No caso do jornalismo, isso pode levar à perda da reputação (o bem imaterial mais precioso de um profissional) e dificultar que o jornalista volte a exercer seu ofício. Por isso, conforme a discussão trazida nesta repor- tagem, é preciso ter atenção redobrada às postagens que são feitas nas redes sociais. Mas, em caso de “cancelamento”, recomenda-se o lembrete: na internet, quase tudo é muito rápido e mesmo os “cancela- mentos” precisam ser encarados com certa leveza. 52 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S SAIBA MAIS A seguir, sugerimos dois vídeos que ajudarão a consolidar os conheci- mentos discutidos até aqui: - Vídeo: O futuro das notícias? Realidade virtual Nonny de la Peña, durante esta palestra do projeto TEDTalks, fala so- bre como funciona o jornalismo imersivo que combina reportagem com tecnologias de realidade virtual, possibilitando que o usuário sinta a vi- vência de uma notícia. Disponível no link: https://www.ted.com/talks/nonny_de_la_pena_the_future_of_news_vir- tual_reality?language=pt-br - Vídeo: Rodrigo Vizeu – jornalismo e podcasts Rodrigo Vizeu, jornalista responsável pelo podcast Café da Manhã, fala nesta entrevista sobre os processos de produção de um programa diá- rio, que trabalha na temporalidade do dia anterior e entrega um conteú- do bem cedo pela manhã. Disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=4pJb-X2qRJ0 53 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Agora que já discutimos as oportunidades que o ambiente digital pode trazer para os jornalistas individuais quando assumem a responsabilidade de gerir a sua própria carreira, chegamos por fim a um ponto mais delicado: a questão do empreendedorismo dentro deste cenário pós-industrial. Mencionamos este assunto como delicado pela simples razão de ser uma reflexão atípica entre os jornalistas, uma vez que nossa ca- tegoria, querendo ou não, foi habituada à ideia de trabalhar para os ou- tros – a serem empregados de instituições, e não empregadores. Mas o panorama atual requisita não apenas a nós, mas a todos os trabalha- dores, que encaremos nossas práticas também de outra forma, sob a égide dos negócios. Por isso, neste capítulo final, falaremos sobre alguns aspectos importantes a serem ponderados por aqueles que encaram este pon- NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO O EMPREENDEDORISMO DENTRO DO JORNALISMO O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S 54 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S to como uma realidade: o mundo da internet facilita que os jornalistas empreendam dentro de sua área e, como historicamente não fomos acostumados a pensar sobre isso, há ainda muitas lacunas a serem preenchidas. Em seguida, discutiremos algumas modalidades jornalísti- cas que tendem a ser valorizadas nos próximos anos e, por fim, aborda- remos as formas de financiamento destes negócios feitas diretamente com o público. POR QUE OS JORNALISTAS NÃO COSTUMAM SEREM DONOS DE SEUS NEGÓCIOS? O título desta seção pode parecer impactante, mas é uma ver- dade: nós, jornalistas, não somos formados para pensarmos em em- preender, ou seja, em criar novas possibilidades de trabalhos. A situa- ção, aliás, é bem mais complexa – historicamente, o próprio jornalismo, enquanto ofício, teve dificuldades de lidar com as mudanças que amea- çavam reconfigurar os seus modos de funcionamento. Talvez o exemplo mais claro para ilustrar isso seja apontarmos como os grandes jornais impressos lidaram com o surgimento da inter- net. As fases dessa “relação” entre impresso e digital foram várias: a) Primeiramente, houve a desconsideração com a nova tec- nologia (achar que nada mudaria e que o formato impresso era pilar inabalável do jornalismo); b) Em seguida, houve uma busca de “convivência” entre os meios (a migração de conteúdos do impresso para o digital sem se reconhecer que estes conteúdos teriam que ser adaptados para a nova linguagem); c) Logo mais, podemos dizer que foram tomadas uma série de más decisões na migração dos veículos para o ambiente online. Uma das questões mais nocivas dessa fase foi uma postura generalizada sobre a oferta de conteúdos gratuitos na internet como norma, criando uma cultura (hoje bem difícil de ser desconstruída) em que os consumi- dores foram familiarizados à ideia de não pagar por jornalismo online; d) Na sequência, fomos a uma fase de adequação ao jorna- lismo digital enquanto lógica independente do impresso, a partir de uma linguagem multimídia diversa e múltipla, construída em platafor- mas diferentes, e não mais encarando o texto escrito como o centro da produção. Assim, a convergência de mídias passa a ser a regra; e) Por fim, chegamos a uma fase atual, em que o jornalismo finalmente reconhece a mudança como uma realidade: a verdade é que a internet reconfigurou não apenas nas narrativas jornalísticas, mas 55 O A U XÍ LI O DO S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S mudou completamente a lógica do consumo do jornalismo e o modo de financiamento de suas operações, antes fundamentadas na publi- cidade; portanto, as empresas e os sujeitos que trabalham neste ofício precisam encarar isso e começar a estudar maneiras de subsidiar os negócios jornalísticos de forma mais adequadas ao atual cenário. Esta dificuldade que os veículos tradicionais tiveram de se ambientar ao online é bem ilustrada neste relato de Rodrigo Mesquita (2020), bisneto de Júlio Mesquita e filho de Ruy Mesquita, a família fun- dadora do jornal O Estado de São Paulo: A imprensa cruzou os braços em 1995, quando a web nascia comercialmen- te. O mundo andou, e os gigantes da tecnologia conquistaram o seu mercado e dominaram o centro de uma estrutura construída pelos cientistas da década de Woodstock, ungidos pelo espírito libertário dos anos 1960, com o objetivo de que ninguém tivesse o controle da nova infraestrutura, que cresce pelas beiradas e empodera a célula, o indivíduo. Essa infraestrutura, que gerou a nova mídia, é a internet, cujos fluxos de informações, em função do domínio dos gigantes da tecnologia, estão apoiados e formatados pela publicidade, deixando a audiência exposta a operações de manipulação informativa num nível que acadêmicos legisladores e mesmo jornalistas somente agora co- meçam a entender de fato. Em 2008, ano da crise financeira, quando já havia perdido o mercado de pequenos anúncios e começou a ficar sem os grandes anunciantes, a imprensa finalmente acordou (id, p. 26). Segundo Costa (2014), podemos afirmar que chegamos um pouco atrasados a esta terceira fase – para a qual, segundo argumen- ta Mesquita (2020), os jornais impressos só começaram a acordar em 2008. Há algumas possíveis razões para que isso tenha ocorrido. Pode ser que tenhamos muitos profissionais vocacionados apenas para o ambiente analógico, uma “velha geração” que estava despreparada (ou desmotivada) a pensar no negócio jornalístico como essencialmente di- gital. Pode ser ainda que tenhamos falhas na nossa formação: por muito tempo, as grades dos cursos de jornalismo não consideraram a possi- bilidade de imaginar o jornalista enquanto um gestor de comunicação. A indústria do jornalismo, seja por questões geracionais, seja por questões de negócio, seja por mera incompetência, levou muito mais tempo para en- tender o momento disruptivo pelo qual passa do que levaram, por exemplo, a indústria das telecomunicações, que soube recriar-se no ambiente sem fio; a indústria da música, que está se refazendo no ambiente digital; ou mesmo o varejo tradicional, que está se superando no comércio online (COSTA, 2014, p.61). Quando entendemos que o jornalismo é fundamentalmente uma prática profissional que se ocupa do tempo presente – e, por isso 56 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S mesmo, precisa encarar a mudança constante enquanto uma norma da qual não se pode fugir –, fica claro que os jornalistas precisam estar conectados com as tendências do mercado. Isto envolve aspectos di- versos, tais como: a) As novas formas de se consumir as notícias, no que diz respeito a linguagens inovadoras e novos formatos, que contemplam novas gerações de consumidores de jornalismo (aspectos que tratamos no capítulo 2 desta unidade); b) As mudanças no público: com a onipresença das mídias e a facilidade de seu acesso a partir de dispositivos tecnológicos (já que boa parte das pessoas hoje possui pelo menos um aparelho capaz de gravar e transmitir algo, como um smartphone), a população passa a se enxergar como “letrada” nas agendas midiáticas. Isso significa dizer que o público, que já cresceu inserido nos processos midiáticos, come- ça a se ver como “entendedor” do funcionamento do jornalismo, e se entende como crítico (não à toa, por exemplo, as emissoras e jornais têm sido cada vez mais criticados publicamente). Por consequência, “há uma percepção generalizada de desconfiança em relação aos meios de comunicação de massa” (MARTINS, 2017, p. 104), os quais são enten- didos como ideológicos12, no sentido de que carregam notícias distorci- das, cheios de interesses políticos e econômicos escusos; Figura 6: A popularização das tecnologias digitais possibilita que todos produzam conteúdos. Fonte: Pexels. Acesso em 2020. 12 Pode-se ressaltar aqui que a ascensão das mídias sociais e da circulação de conteúdos nelas (como fake news) ajudou a consolidar esse sentido de que os veículos jornalísticos seriam parciais e carregados de interesses políticos. 57 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S c) O aumento da participação deste público no jornalismo – com o envio de conteúdos diversos, como fotos, vídeos, pautas, etc.; e, consequentemente, com a expectativa em torno do uso destes mate- riais, vistos na maior parte das vezes como “autênticos e provindos do mundo exterior, escapando de uma (indesejada) interferência midiática” (id, p. 49). Isto quer dizer que os jornalistas precisam lidar com o fato de que, muitas vezes, o público tende a ver os conteúdos amadores como mais “genuínos” do que os produzidos por profissionais, em parte por conta da postura de desconfiança quanto à imprensa, abordada no tópico anterior; d) O custo das operações jornalísticas - com a crise do subsídio da publicidade, o jornalismo precisa reinventar suas lógicas, criando sistemas que custem menos do que custavam os modelos das tradicionais empresas do jornalismo industrial; e) A valorização de certas modalidades jornalísticas – jus- tamente as que se favorecem em cenários de crise econômica por te- rem custeio mais baixo e/ou possibilitarem práticas colaborativas; f) A busca de novos modelos de subvenção financeira – em especial, as que buscam arrecadamento direto com o público consumi- dor de um veículo. Diante desses fatores, seguiremos agora discutindo um dos pontos mais centrais deste panorama empreendedor: o foco em moda- lidades jornalísticas em ascensão no cenário industrial, tendo em vista elementos como os custos financeiros, as necessidades dos leitores e o empenho rumo à construção de um jornalismo de qualidade, que atue em favor de um ambiente democrático e plural. MODALIDADES JORNALÍSTICAS COM POSSIBILIDADE DE CRES- CIMENTO NOS PRÓXIMOS ANOS Como já apontamos em outros momentos deste curso, levou certo tempo para que “caísse a ficha” de que, diante das mudanças do digital, os veículos jornalísticos não tinham mais condições de permane- cerem imutáveis em suas lógicas de produção. O fato é que as coisas já mudaram (com o verbo em tempo passado mesmo) e a realidade reconfigurada já está aí. Em outras palavras, precisamos, sim, encarar o fazer jornalístico como um ofício essencial, mas que está sendo re- condicionado em razão de uma série de aspectos que se sinalizam no horizonte social. Muitos estudiosos da imprensa, como Costa (2014), falam que 58 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S entender essas novas nuances jornalísticas tem a ver com manter uma postura disruptiva – palavra que quer dizer, em parcas linhas, reconhe- cer um processo completamente novo, que “rompe” um processo an- terior, já envelhecido. Sendo assim, o digital, com suas novas lógicas, seria disruptivo diante do jornalismo que se organizava em torno do impresso. No entanto, acreditamos aqui que muitas das mudanças que enfrentamos hoje têm um pouco a ver com o resgate de formatos e prá- ticas que sempre existiram, mas que talvez não estivessem sendo tão valorizadas dentro de uma profissãoque, em muitos aspectos, automa- tizou o seu funcionamento ou então deixou de se repensar. Neste ponto do texto, nossa proposta é a de identificar e es- miuçar alguns ramos específicos de atuação que talvez indiquem bons caminhos a serem perseguidos e executados por jornalistas e institui- ções que enxergam este cenário atual de forma franca e propositiva – e entendem que as crises também trazem a oportunidade para uma rein- venção criativa, tendo como foco final a garantia de se estar fazendo um bom trabalho, que contribua à sociedade. Vejamos então algumas dessas modalidades: a) Jornalismo de dados: quando falamos em jornalismo de dados, nos referimos à prática jornalística que lida com a interpretação de dados públicos que estão disponíveis em sites e bancos de informa- ções públicas. Ou seja, neste tipo de modalidade de reportagem, lida-se com dados que já existem, ao invés de “cavoucar” informações novas (com fontes, por exemplo), para cruzá-las e gerar furos. Uma vez que este tipo de matéria é gerada prioritariamente por dados, também é chamada de “jornalismo de precisão” ou de “re- portagem assistida por computador” (RAC) (TRÄSEL, 2020). Esta mo- dalidade se torna emergente dentro do ofício porque é relativamente mais barata, uma vez que necessita de poucos recursos financeiros: basicamente, um computador e acesso à internet. No entanto, é uma área de grande responsabilidade, pois lida com dados públicos e qual- quer denúncia sem boa sustentação pode causar grandes danos – ao profissional, ao veículo e à população. Para se aventurar na área de jornalismo de dados, requer-se alguns conhecimentos específicos referentes à garimpagem de dados (geralmente feita por ferramentas avançadas de programação e algu- mas um pouco mais simples, como o uso profissional de técnicas de busca em sites como Google), ao trabalho, à interpretação e à visuali- zação destes dados de forma didática para o leitor. 59 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Site Livre.Jor O site paranaense Livre.Jor é um exemplo de iniciativa de tra- balho com jornalismo de dados. Os repórteres fazem algo que chamam de “jornalismo mosca”, ou seja, um jornalismo que incomoda as autori- dades oficiais ao revelar informações que elas não gostariam de vies- sem à tona, partindo da premissa de que a transparência é um direito do cidadão. Para isso, partem de documentos, pesquisas, levantamentos, diários oficiais e outras fontes para gerar reportagens. Na prática, fun- cionam como portal jornalístico e agência de notícias que vende pautas e reportagens para outros veículos. Acesse o site: Disponível em: livre.jor.br b) Jornalismo investigativo: obviamente, não há nada de novo na modalidade do jornalismo investigativo, que muitas vezes é vista como o próprio sinônimo de jornalismo (no sentido de que o ofício diz respeito a trazer a público informações que as autoridades têm in- teresse de esconder). Idealmente, é o tipo de reportagem mais visado pelos profissionais – pois imagina-se que todos que ingressam nesta profissão sonham em fazer denúncias que ajudem a promover a justiça social. No contexto pós-industrial, no entanto, o jornalismo investi- gativo se encontra em uma espécie de impasse. Por um lado, é uma modalidade cara, pois pode envolver custos diversos (como viagens, alimentação, hospedagem, formação avançada do repórter, tempo em que o profissional deixa de realizar outras pautas para se dedicar a uma investigação, gasto com processos, etc.). Por outro, o jornalismo investigativo pode tirar bom proveito das possibilidades tecnológicas e da digitalização de informações (em práticas de jornalismo de dados, já referidas anteriormente) e do trabalho cooperativo entre profissionais espalhados pelo mundo. 60 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Figura 7: O jornalismo independente pode fazer uso de recursos próprios dos jornalistas, em estruturas menores. Fonte: Unsplash. Acesso em 2020. c) Jornalismo independente: falamos ao longo deste curso sobre a crise de um chamado jornalismo industrial, dando espaço ao nascimento de um jornalismo pós-industrial, organizado por empresas mais enxutas, com foco mais específico e com uma relação mais pró- xima com seu público. Fazemos menção aqui à emergência de novas instituições de jornalismo independente, ou seja, veículos que, na maior parte das vezes, não são patrocinados por instituições grandes; não vi- sam se tornar fonte de lucro para acionistas ou donos; têm variada fon- te de renda, indo além da publicidade; tendem a contratar freelancers, uma vez que, pelo tamanho da operação, costumam ter dificuldades para custear salários fixos; mantêm-se independentes da relação com fontes de poder; costumam se manter fiéis à missão estipulada em seu plano editorial. O fenômeno do jornalismo independente não é recente, e ele tende a se revitalizar em contextos de crise – o que também ocorreu, por exemplo, no período de ditadura militar, quando os jornais e emis- soras brasileiras passaram a ser controlados e sofrer censura prévia. Nesta época, muitos veículos independentes começaram a surgir e con- cretizar uma imprensa alternativa, que fugia do crivo oficial. Do mesmo 61 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S modo, o atual contexto de crise (que se centra na questão do subsídio financeiro das grandes operações jornalísticas) tem inspirado o surgi- mento de iniciativas menores e autossustentáveis. Estas iniciativas são importantíssimas, pois ilustram a possibi- lidade de que os jornalistas hoje têm que iniciar seus próprios veículos, baseado em suas convicções. Com o alcance do digital, têm mais chan- ce de encontrar um público interessado em acompanhá-los, e mesmo financiá-los. Mapa da Agência Pública Em 2016, a Agência Pública (veículo independente de jorna- lismo investigativo) organizou um mapa do jornalismo independente no Brasil. Desde então, este mapa tem sido atualizado com instituições que foram surgindo nos últimos anos. Entre os dados reunidos, estão a linha editorial destes veículos, a área de abrangência, os endereços digitais e as formas de sustento. Acesse o site disponível em: apublica.com.br/mapa-do-jor- nalismo d) Jornalismo cooperativo: se um dos desafios do jornalismo atual é o de repensar os custos de sua operação e, ainda assim, con- tinuar entregando um bom trabalho, talvez seja o momento de quebrar um dos “tabus” referentes à profissão, que é a concorrência entre jorna- listas. Há ainda uma espécie de ideal romântico jornalístico na questão da busca do “furo”, ou seja, a publicação de uma informação nova antes que os colegas a divulguem. Na prática, o que sabemos é que, na era da informação, os furos têm se tornado mais raros e a disputa entre jornalistas tem perdido parte do seu sentido. A razão para isso é clara: se os jornalistas têm se tornado, em alguns aspectos já abordados aqui, “coadjuvantes” da notícia, não faz mais tanto sentido brigarem entre si, e unir esforços pode ser uma alternativa vantajosa a todos. Isto se dá especialmente em dois aspec- tos: na colaboração individual entre jornalistas que compartilham dados, fontes, informações, pautas; e na fundação de instituições que operam como cooperativas, aos moldes de outros tipos (como as cooperativas agrícolas), em que os profissionais se unem e criam instituições mais democráticas, em que o lucro de um proprietário do veículo não é o ob- 62 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S jetivo máximo da operação. Vale lembrar que as cooperativasjornalísti- cas ainda não são muito comuns no Brasil – e, por isso mesmo, podem ser um bom modelo de negócio a ser explorado. e) Jornalismo cidadão ou jornalismo participativo: por fim, seguimos falando aqui de um dos aspectos mais centrais do jornalis- mo pós-industrial, que diz respeito ao fato de que todos os cidadãos hoje têm condições de produzir algum tipo de informação – seja, por exemplo, na produção de imagens, na concepção de pautas ou mes- mo servindo como uma fonte. No entanto, vale lembrar que produzir informação bruta – também chamada de conteúdo gerado por usuários (CGUs)13 – não significa ter qualidade jornalística, a qual envolve uma série de responsabilidades e compromissos éticos, técnicos e narrati- vos. Quando falamos de jornalismo cidadão ou participativo, pensa- mos sobre as formas de tirar o melhor proveito desses materiais para a produção de conteúdos jornalísticos relevantes. Então o que se propõe aqui é assumir que hoje o cidadão pode sim fazer parte da notícia, mas que isso não significa que o jornalista profissional perca o seu papel. Muito pelo contrário: o fato de que todos hoje conseguem filmar, foto- grafar ou escrever na internet “não elimina a necessidade do jornalismo, mas altera sua função. Se o jornalista não entender bem este papel de coadjuvante, não vai conseguir trazer sua experiência para o palco no sentido de filtrar e contextualizar” (COSTA, 2014, p. 88). Podemos dizer então que a maioria dos veículos hoje já pratica alguma forma de jornalismo participativo, uma vez que é difícil encon- trar algum que não use algum tipo de material enviado pelo público. Entretanto, isto também impõe às instituições uma série de desafios. Propomos aqui algumas reflexões aos jornalistas individuais e aos veí- culos que pretendem fazer uso destes materiais: quais os canais pelos quais chegam estes conteúdos? Estes canais são monitorados cons- tantemente? As pessoas recebem algum tipo de retorno após enviar o material? Como se dá a verificação disso? Como assegurar que o que se recebe é verdadeiro, ou desatrelado de intenções escusas? O veícu- lo tem um organograma e um fluxograma claros de como este conteúdo será trabalhado? O veículo está priorizando este material (que é barato, vale dizer, pois chega gratuitamente) ou segue fazendo sua apuração original? Todas estas reflexões precisam ser feitas constantemente, pois ajudam a garantir que um veículo jornalístico está fazendo um uso inteligente destes CGUs. 13 O termo é uma tradução da expressão original, no inglês, user generated content (UGCs). 63 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S AS FORMAS ATUAIS DE FINANCIAMENTO DOS NEGÓCIOS JOR- NALÍSTICOS Chegamos por fim a um dos aspectos mais cruciais para pen- sarmos nos rumos que o jornalismo profissional está tomando. A esta altura, já está suficientemente esclarecido que as mudanças no jorna- lismo também se direcionam a encontrar novas maneiras de custear os negócios, uma vez que, diferente do que um dia se imaginou, a publici- dade online não seguiu os mesmos padrões financeiros da publicidade off-line. Se antes os anunciantes dependiam das empresas jornalísticas para atingir o seu público, hoje, por meio do digital, as marcas conse- guem chegar diretamente até o consumidor – o que significou quedas gigantescas nas verbas que eram arrecadadas pelos anúncios e que pagavam a maior parte dos custos dos jornais, por exemplo. Mas, como bem já sinalizamos até aqui, os tempos são outros, e empresas menores têm adquirido cada vez mais força no cenário jor- nalístico. É esta perda da influência dos grandes – e a consequente ascensão dos pequenos – que é apontada aqui por Klatell (2014): À medida que a notícia e a informação estão por toda a parte, o público raramente as categoriza e as classifica segundo alguma preferência pela marca, de modo que a importância de saber se o conteúdo recebido na in- ternet ou em plataformas móveis, ou por redes sociais, foi criado por veículo A ou B, ou por outra organização jornalística qualquer, só faz diminuir (id, p. 16). Por serem pequenas, mais sustentáveis, estas empresas (mui- tas delas, exemplos do jornalismo independente já tratado aqui neste curso) conseguem funcionar por meio de fontes financeiras mais en- xutas. O dado mais relevante aqui é que parte do sustento econômico destas instituições tem sido feito por meio do financiamento junto aos seus leitores, que pagam diretamente ao veículo de sua preferência e confiança e, assim, garantem as condições para que uma empresa jor- nalística siga funcionando. Pode parecer estranho para muitas pessoas (em especial, às que não são jornalistas), mas há vários veículos que estão hoje operan- do a partir do financiamento feito pelo seu público, ainda que disponibili- zem seus conteúdos gratuitamente nas plataformas digitais. A pergunta essencial a ser feita aqui talvez seja: por que alguém paga por algo que recebe de graça? A resposta a essa questão traz pistas importantes acerca da relação mantida pelos veículos independentes com seu pú- blico: uma ligação mais próxima, baseada na transparência, na confian- 64 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S ça e no reconhecimento da qualidade do produto que oferta. De certa forma, é como se a audiência pagasse não para consumir um produto jornalístico, mas para garantir que aquela instituição continue existindo. Há várias alternativas de financiamento coletivo (ou crowdfun- ding, no termo original) sendo exploradas nos veículos jornalísticos bra- sileiros e internacionais. Vejamos agora algumas delas: a) Paywal lrígido ou flexível: talvez a maneira mais tradicio- nal e conhecida de custear operações a partir do público seja o que se chama de paywall, que é a estratégia de fechar o conteúdo online e cobrar do leitor que quer acessá-lo. É a alternativa usada pela maior parte dos grandes jornais, como Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo: normalmente, os usuários conseguem acessar uma quantidade estipulada de matérias por mês; depois disso, o site “barra” o acesso e o leitor só conseguirá entrar caso pague pelo conteúdo unitário ou por uma assinatura mensal. O paywall (que quer dizer, literalmente, “parede de pagamen- to”, numa tradução livre) hoje enfrenta certos problemas – em especial, apontamos aqui os avanços tecnológicos que tornam possível burlar a “parede” e acessar as matérias mesmo assim. Além disso, muitos lei- tores costumam achar antipática essa barreira – o que reflete, como já discutimos neste curso, uma cultura estabelecida que considera normal não pagar por jornalismo, deixando claro que há uma falta de consciên- cia sobre quanto custa para executar o nosso ofício. Além disso, vale lembrar que existem diferentes modelos de paywall: existe a alternativa de fechar todo conteúdo ao usuário, forçan- do-o a pagar (paywall hard ou rígido); a de ofertar parte do conteúdo gratuito e, depois de entrar em uma quantidade de matérias, o site fecha (paywall flexível); existem ainda os veículos que ofertam todo o con- teúdo gratuito e colocam conteúdos extra para os usuários que pagam (uma versão premium). 65 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Figura 8: No modelo paywall, os conteúdos de um site são fechados para os não assinantes. Fonte: Unsplash. Acesso em 2020. b) Financiamento via doações de instituições: neste mode- lo, os veículos jornalísticos recebem recursos vindos de instituições ju- rídicas e não de pessoas físicas – geralmente, ocorre via institutos que têm interesse em apoiar as causas abordadas nestes veículos. Este tipo de financiamento é mais comum em outros países, como os EstadosUnidos, que no Brasil. Tem como revés uma possível desconfiança dos leitores sobre as relações estabelecidas com estas mantenedoras. c) Financiamento recorrente: o modelo paywall costuma ser mais usado por veículos maiores, provindos da lógica do jornalismo in- dustrial. Normalmente, são instituições que possuem outras fontes de renda (como a publicidade). Já nos veículos pós-industriais, o modelo mais comum é o financiamento, que se trata da organização de uma espécie de “vaquinha” virtual: os leitores pagam uma quantia mensal à instituição e, em troca, ela tem condições de funcionar. Ainda que possa parecer estranho, como já abordamos, esta é uma forma muito normal de financiar instituições jornalísticas (obvia- mente, nem todas têm o mesmo sucesso na arrecadação). Este paga- mento se dá com a intermediação por empresas que manejam o sis- 66 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S tema14 e ficam com uma parte do dinheiro. Deste modo, o modelo se fundamenta na transparência – pois se evidencia todo o valor que entra e no que ele é empregado. Na forma do financiamento recorrente, o veículo recebe um valor mensal de seus assinantes (normalmente, as contribuições variam de acordo com as possibilidades financeiras do usuário). Cabe à em- presa decidir se ofertará ou não alguma recompensa aos pagantes (que vão desde brindes à menção de seu nome no projeto). d) Financiamento pontual: outra forma de crowdfunding que costuma ser usada pelos veículos jornalísticos é o financiamento pon- tual, que é o custeio de um projeto específico (por exemplo, uma série de reportagens sobre tal assunto, um livro ou um documentário). Os or- ganizadores apresentam um plano de custos e pedem aos leitores que os apoiem, num modelo que, na maior parte das vezes, é de “tudo ou nada” (ou seja, se o veículo não arrecadar todo o dinheiro solicitado pelo projeto, o dinheiro é devolvido aos doadores). É um modelo “flexível” (se a meta não é atingida, o valor é revertido ao projeto que solicitou). Por fim, consolidamos as informações mencionadas aqui em um gráfico para organizar de forma mais visual o que foi discutido: 14 Exemplos de sites de crowdfunding brasileiros e estrangeiros: Benfeitoria, Catarse, Ki- ckante, Vakinha, Patreon, PicPay, dentre outras. 67 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Quadro II – Pontos essenciais sobre os tipos de financiamento com o público Tipo de financia- mento Descrição Vantagens Possíveis des- vantagens Paywall hard ou rígido Uma “parede de pagamento” que impede que o lei- tor acesse qual- quer conteúdo de um site caso não pague. Os leitores pre- cisam assinar o veículo para po- derem acessar o conteúdo – por isso, todas as operações jorna- lísticas são custe- adas. Muitas vezes, os leitores entendem o paywall hard como antipático e acabam desis- tindo de acessar o site. Paywall poroso ou flexível Uma “parede de pagamento” mas, diferente do modelo anterior, o leitor acessa parte do conteú- do que, em cer- to ponto, “fecha” para que ele pa- gue. Os leitores po- dem experimen- tar os conteúdos jornalísticos an- tes de decidirem se querem pagar por eles. Nem sempre re- ceber parte do conteúdo gratuito motiva os leitores a pagarem por ele – é possível que entendam que todo o con- teúdo deveria ser de graça e desis- tam de acessar o site quando ele fecha. Financiamento via doações de institutos Institutos doam valores para que uma empresa jornalística possa funcionar. Geralmente, es- tas instituições garantem uma fonte de renda mais alta do que as pessoas físi- cas que optam por doar valores aos veículos. A relação entre veículo/ instituto pode colocar a empresa jorna- lística sob des- confiança em relação a sua imparcialidade; a fonte financei- ra pode “secar” eventualmente e fazer o veículo fe- char; o modelo é pouco comum no Brasil. 68 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S Financiamento recorrente Os leitores fazem assinaturas em que doam men- salmente um va- lor estipulado, de acordo com suas possibilidades Os veículos pas- sam a ter uma renda relativa- mente fixa de en- trada e podem se planejar dentro de suas ações. Esse valor pode flutuar mensal- mente de acordo com vários fa- tores (como cri- se financeira do país, mudança no cartão de crédito dos assinantes, desistência), por isso talvez a en- trada financeira varie quando me- nos se espera. Financiamento pontual Os leitores doam para o financia- mento de projetos pontuais, como reportagens, do- cumentários e li- vros A relação entre veículo/ leitores é clara e transpa- rente: eles pagam por certo produto e precisam vê-lo concretizado nas condições estipu- ladas. É possível que os leitores paguem por um projeto mas não voltem para financiar ou- tros. Fonte: Elaborado pela autora, 2020. Podcast “Projeto Humanos” Lançado em 2015, o podcast jornalístico “Projeto Humanos” é um exemplo de projeto de grande sucesso em sua estratégia de finan- ciamento coletivo. Em sua atual temporada, de grande repercussão, tem se centrado na reconstituição de um caso criminal ocorrido no inte- rior do Paraná em 1992 e que até hoje não foi completamente desven- dado. Em junho de 2020, arrecadava mais de 10 mil reais em doações. Acesse o site disponível em: projetohumanos.com.br Informações sobre o financiamento: projetohumanos.com.br/ apoie 69 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S QUESTÕES DE CONCURSO QUESTÃO 1 Ano: 2018 Banca: INAZ do Pará Órgão: CORE-MS Prova: Jornalista “A reportagem é um texto jornalístico que comunica uma notícia ou informação, através dos meios de comunicação, como televisão, rádio, jornal impresso, revista e web. A transmissão da reportagem é feita por repórteres, profissionais dotados de técnicas e práticas no ramo do jornalismo.” Fonte: XAVIER & RODRIGUES, 2013. Com base no texto acima, qual a alternativa que não condiz com a função da reportagem jornalística? a) Propõe um debate sobre o assunto, por isso sua elaboração requer um tempo maior de repórter. b) Texto com caráter informativo que visa criar uma opinião nos leitores. c) A reportagem não é um produto social, tem o intuito de levar a infor- mação à população. d) Expõe sobre um determinado assunto, visando informar ao leitor. QUESTÃO 2 Ano: 2019 Banca: COPS-UEL Órgão: Prefeitura de Londrina - PR Prova: Gestor de Comunicação A criação, a produção e a edição de notícias online exigem conhe- cimento especializado, planejamento e equipe multidisciplinar e multimídia. A organização da informação por meio do hipertexto exige que um Gestor de Comunicação ofereça ao leitor/espectador a liberdade de escolher vários caminhos para acessar as informa- ções que acha relevante. Em relação às estratégias para publicação de conteúdo online, considere as afirmativas a seguir. I. É preciso ignorar o tempo que o usuário gasta na leitura da notícia. II. O que mais chama a atenção dos leitores na Internet é o título, depois a chamada e por fim o conteúdo. III. É necessário editar o texto pensando no público que se quer atin- gir, pensando sempre na possibilidade de buscar outros públicos. IV. Uma reportagem especial pode ser publicada no horário e no dia em que o site registra melhor audiência. Assinale a alternativa correta. a) Somente as afirmativas I e II são corretas. b) Somente as afirmativas I e IV são corretas. c) Somente as afirmativas III e IV são corretas. d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas. e) Somente as afirmativas II, III e IV sãocorretas. 70 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S QUESTÃO 3 Ano: 2019 Banca: COPS-UEL Órgão: Prefeitura de Londrina - PR Prova: Gestor de Comunicação Diante da urgência de publicação de informações nas mídias digi- tais, os critérios de apuração jornalística sofreram transformações significativas. Pensando na produção e na publicação de um determinado con- teúdo para a Internet, seja para instituições públicas ou privadas, assinale a alternativa correta. a) Diante da rapidez dos fatos e da necessidade urgente de publicação, a apuração dos dados prescinde de rigor. b) É aconselhável pensar na produção de vários formatos para uma mesma informação (texto, foto, vídeo, som) que será publicada em um ambiente multimídia. c) Levando-se em conta todas as plataformas em que a informação será publicada, ela deve necessariamente ser produzida de maneira padro- nizada, para ser consumida por todos os públicos. d) O jornalista responsável pelo conteúdo digital deve despreocupar-se com a hipertextualidade, ou seja, a ligação de conteúdos através de links, já que isso está fora de suas funções. e) Os critérios para a qualidade de fontes de informação de uma matéria devem se basear na instantaneidade da publicação do conteúdo. QUESTÃO 4 Ano: 2019 Banca: Quadrix Órgão: CRP - PR Prova: Jornalista Com relação ao desenvolvimento do webjornalismo, julgue o item. A noção de pirâmide deitada, no webjornalismo, abandona a tradi- cional estrutura da notícia, com lead e sublead, e assume um texto mais narrativo e envolvente, em modelo cíclico, criando expectati- vas no leitor. ( ) Certo ( ) Errado QUESTÃO 5 Ano: 2019 Banca: Quadrix Órgão: CRP - PR Prova: Jornalista Com relação ao desenvolvimento do webjornalismo, julgue o item. Quando aplicada ao webjornalismo, a ubiquidade favorece o de- senvolvimento de novos modelos de negócio, criando a possibi- lidade de que cidadãos participem do processo noticioso como financiadores de reportagens. ( ) Certo ( ) Errado 71 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE Neste último capítulo, discutimos sobre como os modelos tradicionais de financiamentos das empresas jornalísticas (fundamentalmente ba- seados em publicidade) não são mais suficientes no contexto pós-in- dustrial. Isto coloca aos jornalistas o desafio de pensarem outras formas de custear os veículos em que eles querem trabalhar ou os projetos que querem desenvolver. A parte boa é que isso traz liberdade aos pro- fissionais para pensarem no tipo de jornalismo que desejam e acredi- tam. Nesta questão, pedimos que você imagine qual veículo gostaria de criar. Defina: qual o foco (um veículo “guarda-chuva”, generalista, ou de nicho?); qual o tipo do veículo; quais as editorias; quanto capital hu- mano é necessário (quantos funcionários deve ter?); quem é o público; quais as ferramentas utilizadas para conhecer melhor esse público e suas demandas; qual o diferencial diante dos concorrentes. TREINO INÉDITO Em relação às iniciativas de jornalismo independente no Brasil, é pos- sível dizer: a) Elas contratam prioritariamente via CLT, para manter os jornalistas em vínculos de exclusividade. b) Costumam ser bancadas por partidos políticos. c) Concentram suas fontes de receita na publicidade. d) É um tipo de jornalismo que surge no país no contexto pós-industrial. e) Costumam possuir relações de proximidade com os seus leitores. NA MÍDIA QUEM FALOU QUE JORNALISTA NÃO PODE SER EMPREENDEDOR? “Jornalismo” e “empreendedorismo”. Até pouco tempo atrás, convenha- mos, essas duas palavras não combinavam. Eram quase antíteses. Afi- nal, em termos de sucesso e profissionalismo, o autêntico jornalista, de corpo e alma, era aquele que trabalhava em um grande veículo de notícias (é só fazer uma reflexão sobre quem são os jornalistas que você admira) e ponto. Falar em inovação nesse meio era raridade. Um preciosismo que só costumava dar as caras quando a pauta do dia era a história de algum engenheiro, economista, médico, advogado ou garoto prodígio que, fa- bulosamente, havia criado algo novo. Algo que rendesse, além de uma boa reportagem, comentários entre colegas de redação do tipo: “pô, bem que eu podia ter uma ideia como essa”. Claro, que alguns profis- 72 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S sionais já trabalhavam fora de redações, em agências de comunica- ção, assessorias de imprensa ou em corporações. Mas jornalistas não costumavam ser empreendedores. Sim. Os tempos mudaram. Estão mudando, e vão seguir mudando. Fonte: Projeto Draft Data: 03 de julho de 2015. Leia a notícia na íntegra: https://www.projetodraft.com/quem-falou-que-jornalista-nao-pode-ser- -empreendedor/ NA PRÁTICA No texto acima, o jornalista Filipe Callil discute como a revolução digital tem inspirado que jornalistas mudem a sua cultura de “empregados” e passem também a se ver como “empregadores”. Na reportagem, são ouvidos três profissionais que discutem suas experiências e dificulda- des enfrentadas até aqui. A reportagem esclarece pontos importantes: o empreendedorismo – ou seja, a criação de novos negócios – é uma realidade no jornalismo, embora não seja a vocação para todos os pro- fissionais; o jornalismo não está em crise, mas sim o seu modelo de negócio de estrutura industrial. SAIBA MAIS A seguir, sugerimos dois vídeos que ajudarão a consolidar os conheci- mentos discutidos até aqui: - Vídeo: Sobre a mídia – Financiamento coletivo no jornalismo Neste episódio do programa “Sobre a mídia”, da TV da Universidade Federal do Paraná (UFPR), dois professores discutem sobre as formas de financiamento coletivo no jornalismo e seu impacto na profissão. Disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=4zMt4_1f9yA - Vídeo: Palestra sobre Jornalismo Empreendedor – Núria Saldanha Palestra sobre jornalismo empreendedor na ESPM-Sul, com Núria Sal- danha, jornalista e editora de conteúdo da BrazilFoundation. É uma fala bastante esclarecedora sobre o panorama que torna possível que os jornalistas sejam empreendedores. Disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=AGI1FfNwgF4 73 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S GABARITOS CAPÍTULO 01 QUESTÕES DE CONCURSOS 1 2 3 4 5 B C B B A QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO DE RESPOSTA Esta questão requer que o estudante levante pesquisas e reportagens que o ajudem a entender melhor as novidades no mercado de trabalho como um todo. Esta é uma maneira eficaz de tomar ciência sobre como é o ambiente profissional em que estamos hoje vivenciando e executan- do nosso ofício – para, por fim, pensar nos melhores modos de otimizar os recursos desse cenário a favor da profissão. O padrão de resposta pode, por exemplo, listar os seguintes elementos: - Jornada de trabalho flexível, favorecendo um trabalho autônomo ou a realização de tarefas jornalísticas a partir de uma carga horária fechada; - Aumento de trabalho freelancer, com uma maior probabilidade de os jornalistas ofertarem seus serviços a vários clientes, ao invés de esta- rem em um único veículo; - Organograma mais horizontal – com o encolhimento do tamanho das empresas, favorece-se um tipo de gestão que priorize mais o diálogo e a troca entre os profissionais. Dentro do jornalismo, isso pode significar em mais jornalistas em funções administrativas, ao invés de profissio- nais de outras áreas, dando espaço a uma conversa mais efetiva sobre jornalismo enquanto produto de qualidade a ser ofertado no mercado; - Investimento em tecnologias – em todas as áreas,incluindo o jornalis- mo, deverá haver uma atenção cada vez maior com novas tecnologias e softwares que possam ser empregados para otimizar certos desem- penhos na empresa. TREINO INÉDITO Gabarito: B Justificativa das respostas: a) Na verdade, é o contrário: os clickbaits costumam justamente render 74 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S mais renda publicitária, pois levantam muitos cliques nas páginas. b) Os clickbaits se definem como “caça-cliques” justamente por serem apelativos e, por consequência, seduzirem o usuário para que entre no link indicado. Normalmente eles são gerados a partir de notícias pouco relevantes que não suscitariam interesse se não fosse por essa chamada. c) Na verdade, por vezes a chamada apelativa para um hipertexto é feita rapidamente, sem muita reflexão. d) Ao contrário: há vários exemplos de matérias profundas, sem chama- das apelativas, que geraram muita repercussão e engajamento. e) Não necessariamente. Esta resposta, inclusive, carrega um preconceito contra os estagiários de Jornalismo. 75 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S CAPÍTULO 02 QUESTÕES DE CONCURSOS 1 2 3 4 5 A A ERRADO B ERRADO QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO DE RESPOSTA Esta questão provoca o estudante do curso a pesquisar outras lingua- gens pelas quais o jornalismo tem sido trabalhado. É uma forma, por- tanto, de ficar atualizado sobre as novidades do mercado. Pontuamos aqui algumas possíveis linguagens que podem ser listadas: - Linguagem audiovisual – muitos jornalistas têm criado canais no You- tube, onde divulgam vídeos e programas próprios que fazem de modo independente; - Formatos diferenciados de vídeos – é comum imaginar que há apenas um tipo de produção audiovisual em que o jornalista mostra a sua cara e fala diretamente para a câmera, ou então faz algum tipo de entrevis- ta. No entanto, há vários formatos mais criativos que são explorados e podem dar ótimos resultados. Um deles é conhecido como vídeo en- saio – feito, por exemplo, por um canal jornalístico no Youtube chamado Meteoro Brasil; - Jornalismo imersivo – há hoje uma linguagem jornalística que cres- ce aos poucos no mercado conhecida como jornalismo imersivo, que envolve a criação de reportagens que exploram a realidade virtual, ou seja, usam tecnologia para fazer os leitores se sentirem dentro de uma experiência. Há, por exemplo, reportagens imersivas que levam o usuá- rio a sentir como se estivessem dentro de uma guerra. TREINO INÉDITO Gabarito: D Justificativa das respostas: a) Na verdade, é comum que os jornalistas recebam mais em agências de marketing de conteúdo do que em redação. b) O branded content não é concretizado necessariamente em vídeos: há exemplos de reportagens escritas, de podcast, de newsgames e vá- rios outros formatos em que alguma peça de branded contentfoi produ- zida. 76 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S c) Normalmente, esse tipo de trabalho pressupõe conhecimentos avan- çados de jornalismo, concernentes à apuração, adequação de lingua- gem, consolidação de um discurso de tom editorial que não escorregue para a propaganda explícita. d) Como historicamente jornalismo e publicidade têm sido vistos como polos opostos, os jornalistas costumam acreditar que fazer branded content desvirtua o seu ofício. e) Quando os conteúdos de branded content se aproximam de outras técnicas, como a programação, os jornalistas costumam trabalhar com outros profissionais. 77 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S CAPÍTULO 03 QUESTÕES DE CONCURSOS 1 2 3 4 5 C E B ERRADO ERRADO QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO DE RESPOSTA Esta questão provoca o aluno a pensar em diversos aspectos que são envolvidos quando se imagina uma nova instituição jornalística. A ideia, portanto, é que ele faça uma reflexão sobre o que precisa pesquisar mais. Alguns exemplos: - Foco do veículo: caso escolha um veículo generalista, qual a razão para tal? Em caso de veículos de nicho (por exemplo: jornalismo eco- nômico, esportivo, cultural, etc.), quais as razões que o fazem escolher esta área, além das preferências pessoais? - Tipo de veículo: aqui se provoca o estudante a pensar que o jornalismo digital é um território vasto e vai além dos formatos mais básicos (como portal, blog). Quais os outros tipos que se conhece? É possível pensar em algo completamente novo? (Alguns exemplos: canal no Youtube, uso jornalístico do Instagram, newsletter, podcast, etc.) - Editorias: pensar aqui na estrutura da organização do veículo de uma forma mais específica. Imaginar quantas seções o veículo terá possibili- ta que se tenha uma noção melhor do trabalho que o veículo requisitará. - Capital humano: é comum que os jornalistas pensem apenas nas fun- ções jornalísticas, por isso, esta parte sugere que se planeje todo o tipo de atuação necessária para que um veículo funcione. Por exemplo: quantos jornalistas precisam trabalhar nesta operação para garantir sua periodicidade? Haverá outros profissionais não jornalistas (exemplo: designers, diagramadores, social media, departamento comercial, ad- vogado, contador)? - Público: aqui, testa-se o quanto o aluno proponente conhece ou não o público de seu suposto veículo. Por exemplo: se o veículo imaginado é de jornalismo esportivo, provoca-o a pensar sobre quanto o conheci- mento de seu público é real ou baseia-se em achismos. É possível ainda planejar pesquisas (com uso de questionários, formulários, entrevistas, etc.) para entender melhor esse público consumidor e os seus hábitos. - Concorrentes: por fim, incita o estudante a pesquisar quais os veículos que já existem dentro do mesmo escopo e defender qual seria o grande 78 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S diferencial do seu. Afinal, podemos dizer que veículos independentes são muitos, mas poucos de fato “vingam” e sobrevivem ao entusiasmo inicial. TREINO INÉDITO Gabarito: E Justificativa das respostas: a) Ao contrário do que diz a alternativa, os veículos independentes cos- tumam chamar profissionais como freelancers, justamente por ainda es- tarem em constituição e terem fontes de renda instáveis. b) A proposta das iniciativas de jornalismo independentes é exatamente se manterem alheias às fontes de poder, como os partidos políticos. c) Na verdade, esse tipo de iniciativa costuma arrecadar renda de ou- tras formas, como o financiamento coletivo. d) O jornalismo independente costuma emergir em tempos de crise da profissão, como foi a época de ditadura militar, quando surgiram vários jornais alternativos. Por isso, é incorreto classificá-lo como fruto do con- texto pós-industrial. e) Por serem instituições menores, os veículos independentes costu- mam estabelecer relações de maior proximidade com seus leitores em comparação com os grandes veículos. 79 O A U XÍ LI O D O S M E IO S D IG IT A IS N O D E SE N V O LV IM E N TO P R O F IS SI O N A L - G R U P O P R O M IN A S ANDERSON, C.W.; BELL, Emily; SHIRKY, Clay. O jornalismo pós-in- dustrial: adaptação aos novos tempos. Revista de Jornalismo ESPM, São Paulo, n. 5, 2013. COSTA, Caio Túlio. Um novo modelo de negócio para o jornalismo digital. Revista de Jornalismo ESPM, São Paulo, n. 9, 2014. D’ANDREA, Carlos; DALBEN, Silvia. Redes sociotécnicas e controvér- sias na redação de notícias por robôs. Revista Contemporânea, v. 15, n. 1, 2017. FÍGARO, Roseli.Atividade de comunicação e trabalho dos profissio- nais. Revista E-Compós, v. 16, n. 1, 2013. FRANCISCATO, Carlos Eduardo. 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