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1 BIOQUÍMICA LORRAN MIRANDA ANDRADE DE FREITAS IGOR ANTÔNIO DE ARAÚJO PINTO EDUCAÇÃO A DISTÂNCIAFACULDADE ÚNICA 1 BIOQUÍMICA LORRAN MIRANDA ANDRADE DE FREITAS IGOR ANTÔNIO DE ARAÚJO PINTO 1 FACULDADE ÚNICA EDITORIAL Diretor Geral: Diretor Executivo: Ger. do Núcleo de Educação à Distância: Coord. Pedag. da Equipe Multidisciplinar: Revisão Gramatical e Ortográfica: Revisão/Diagramação/Estruturação: Design: Valdir Henrique Valério William José Ferreira Cristiane Lelis dos Santos Gilvânia Barcelos Dias Teixeira Izabel Cristina da Costa Bárbara Carla Amorim O. Silva Carla Jordânia G. de Souza Rubens Henrique L. de Oliveira Brayan Lazarino Santos Élen Cristina Teixeira Oliveira Maria Luiza Filgueiras © 2021, Faculdade Única. Este livro ou parte dele não podem ser reproduzidos por qualquer meio sem Autoriza- ção escrita do Editor. Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Melina Lacerda Vaz CRB – 6/2920. NEaD – Núcleo de Educação a Distância FACULDADE ÚNICA Rua Salermo, 299 Anexo 03 – Bairro Bethânia – CEP: 35164-779 – Ipatinga/MG Tel (31) 2109 -2300 – 0800 724 2300 www.faculdadeunica.com.br 2 BIOQUÍMICA 1° edição Ipatinga, MG Faculdade Única 2020 3 4 LEGENDA DE Ícones Trata-se dos conceitos, definições e informações importantes nas quais você precisa ficar atento. Com o intuito de facilitar o seu estudo e uma melhor compreensão do conteúdo aplicado ao longo do livro didático, você irá encontrar ícones ao lado dos textos. Eles são para chamar a sua atenção para determinado trecho do conteúdo, cada um com uma função específica, mostradas a seguir: São opções de links de vídeos, artigos, sites ou livros da biblioteca virtual, relacionados ao conteúdo apresentado no livro. Espaço para reflexão sobre questões citadas em cada unidade, associando-os a suas ações. Atividades de multipla escolha para ajudar na fixação dos conteúdos abordados no livro. Apresentação dos significados de um determinado termo ou palavras mostradas no decorrer do livro. FIQUE ATENTO BUSQUE POR MAIS VAMOS PENSAR? FIXANDO O CONTEÚDO GLOSSÁRIO 5 SUMÁRIO 1.1 Bioquímica como ciência e no cotidiano...........................................................................................8 1.2 Ligações e interações moleculares......................................................................................................10 1.3 Propriedades da água..................................................................................................................................12 1.4 Isomeria ótica.....................................................................................................................................................13 2.1 Introdução............................................................................................................................................................19 2.2 Estrutura dos ácidos nucleicos..............................................................................................................19 2.3 Estrutura do RNA e do DNA..................................................................................................................20 2.4 Duplicação do DNA.....................................................................................................................................24 2.5 Transcrição do DNA para RNA..............................................................................................................25 2.6 Tradução de RNA para proteínas........................................................................................................26 3.1 Estrutura...............................................................................................................................................................32 3.2 Função...................................................................................................................................................................35 3.3 Desaminação....................................................................................................................................................36 3.4 Ciclo da Uréia...................................................................................................................................................38 UNIDADE 1 UNIDADE 2 UNIDADE 3 INTRODUÇÃO À BIOQUÍMICA ÁCIDOS NUCLEICOS 4.1 Estrutura..............................................................................................................................................................45 4.2 Função..................................................................................................................................................................47 4.3 Cinética enzimática.....................................................................................................................................49 4.4 Inibição enzimática......................................................................................................................................51 UNIDADE 4 PROTEÍNAS ENZIMAS UNIDADE 5 CARBOIDRATOS 5.1 Estrutura...............................................................................................................................................................57 5.2 Função...................................................................................................................................................................62 5.3 Glicólise.................................................................................................................................................................65 5.4 Fermentação....................................................................................................................................................67 UNIDADE 6 LIPÍDEOS 6.1 Introdução............................................................................................................................................................71 6.2 Lipídeos de Armazenamento.................................................................................................................71 6.3 Lipídeos constituintes de membranas biológicas..................................................................73 6.4 Estrutura das membranas biológicas.............................................................................................76 6.5 Ciclo de Lynen.................................................................................................................................................78 UNIDADE 7 CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO E CADEIA TRANSPORTADORA DE ELÉTRONS 7.1 Introdução...........................................................................................................................................................85 7.2 Ciclo do ácido cítrico....................................................................................................................................85 7.3 Cadeia transportadora de elétrons....................................................................................................88 Referências Bibliográficas................................................................................................................................95 6 UNIDADE 1 Nesta unidade serão abordados a bioquímica como ciência e no cotidiano do discente, as ligações e as interações moleculares entre os átomos, as propriedades da molécula de água que a tornam um sovente universal indispensável para a vida e o evento de isomeria ótica como fonte de variação estrutural molecular. UNIDADE 2 Nesta unidade serão abordados as estruturas dos ácidos desoxirribonucleotídeos (DNA) e dos ácidos ribonucleotídeos (RNA), suas conformações estruturais em procariotos e em eucariotos e os eventos de replicação do DNA, transcrição de DNA para RNA e os de tradução do RNA mensageiro para proteínas apresentando as diferenças essenciais entre organismos eucariotos e procariotos. UNIDADE 3 Nesta unidade serão abordadosa estrutura básica dos aminoácidos, as propriedades individuais dos aminoácidos atribuídas por sua cadeia lateral, as reações de síntese e degradação de proteínas, as interações moleculares que atribuem o formato das proteínas, as funções associadas as estruturas proteicas e as vias metabólicas de Desaminação e ciclo da uréia. UNIDADE 4 Nesta unidade serão abordados a importância das enzimas para os organismos vivos, como as enzimas são capazes de acelerar a velocidade de uma reação química, a classificação, estruturas e função das enzimas, os princípios que regulam a atividade e velocidade das reações enzimáticas assim como os princípios envolvidos na inibição das reações enzimáticas. UNIDADE 5 Nesta unidade serão abordados as estruturas básicas dos carboidratos, as reações de ciclização das moléculas de carboidratos, a classificação das estruturas de carboidratos de acordo com o número de monossacarídeos, as reações de síntese e degradação de polissacarídeos, as principais funções dos carboidratos e as reações metabólicas de glicólise, gliconeogênese e fermentação. UNIDADE 6 Nesta unidade serão abordados as estruturas dos lipídeos, suas principais funções associadas ao armazenamento energético, como constituintes das membranas biológicas e como precursores de moléculas biologicamente ativas, a estrutura geral e funções das membranas biológicas e a principal via metabólica de degração de lipídeos de armazenamento energético de cadeia longa. C O N FI R A N O L IV R O UNIDADE 7 Nesta unidade serão abordados os princípios dos eventos metabólicos, o metabolismo como eventos interconectados, o ciclo do ácido cítrico como ponte central metabólica, a cadeia transportadora de elétrons como principal contribuinte para produção de energia química na forma de Adenosina Trifosfato (ATP) e a produção energética geral de todos os eventos metabólicos discutidos nas unidades anteriores. 7 INTRODUÇÃO À BIOQUÍMICA UNIDADE 01 8 1.1 BIOQUÍMICA COMO CIÊNCIA E NO COTIDIANO A Bioquímica pode ser definida como o estudo da química de organismos vivos e da química relacionada com estes, formando uma ponte entre a Biologia e a Química pois estuda como complexas reações e estruturas químicas originam vida e processos relacionados com a vida. Podemos também definir Bioquímica como o estudo da vida em nível molecular, tendo como finalidade principal definir como um conjunto de moléculas inanimadas, que compõem os organismos vivos, interagem entre si para conservar e perpetuar o estado vital (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; CLARK; CHOI; DOUGLAS, 2018; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). A disciplina de Bioquímica é fundamental para a formação dos profissionais de áreas das Ciências Biológicas e Saúde uma vez que possibilita ao discente compreender os processos biológicos a nível molecular, viabilizando o entendimento dos mecanismos celulares envolvidos no desenvolvimento dos processos evolutivos e patológicos em micro e macro sistemas (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019). Dessa forma bacharéis em biologia fazem uso do conhecimento de bioquímica para realizarem pesquisas na área de bioquímica ou em outras áreas que tenham como base a bioquímica, como por exemplo a própria biologia molecular, a genética, as fisiologias vegetal e animal, inclusive a imunologia, além de outras. Além disso através da compreensão das estruturas e interações bioquímicas podem ser realizadas diversas intervenções biológicas com o objetivo de prevenir, tratar e curar doenças, assim como de aumentar a produtividade industrial e na agricultura. Cada organismo, por mais simples ou complexo que seja, é meramente um sistema bioquímico. A incrível habilidade de crescer e reproduzir parece colocar os diversos organismos à parte do mundo dos sólidos, líquidos e dos gases, notoriamente conhecidos na Química. A vida depende quase que exclusivamente de reações bioquímicas que ocorrem o tempo todo desde a origem da vida, incluindo nossa respiração no âmbito celular e até mesmo a fotossíntese no âmbito global. 9 BUSQUE POR MAIS A Figura 1 mostra o experimento de Miller. Miller, acreditando que a Terra primitiva era composta de amônia, metano, hidro- gênio e vapor de água – segundo o modelo de Oparin - criou, em 1952, um dispositi- vo no qual tais compostos eram aquecidos e resfriados ciclicamente, além de sub- metidos a descargas elétricas. Com este experimento ele pretendia explicar como compostos inorgânicos poderiam dar origem a compostos orgânicos por meio de reações químicas em uma demonstração que remete a origem da vida. Com isso, ele foi capaz de produzir moléculas orgânicas como os aminoácidos. O link a seguir nos tras um vídeo bastante interessante que realiza uma explicação ilustrada bá- sica sobre o experimento de Miller. LINK: https://bit.ly/2RRW6dX Neste outro vídeo caro (a) aluno (a) temos uma explicação sobre os campos de apli- cação da Química em nosso cotidiano, considerando principalmente a química dos seres vivos. LINK: https://bit.ly/3kIk0Fg Leia mais sobre o assunto no segundo capítulo do livro “Princípios da Bioquímica para Universitários, Técnicos e Profissionais da Saúde” intitulado “Bases Molecula- res da Vida” de Galante e Araújo (2018). LINK: https://bit.ly/3njDa6d Fi g u ra 1: E xp er im en to d e M ill er Fo n te : A d ap ta d o d e N el so n e C ox (2 0 19 ) 10 1.2 LIGAÇÕES E INTERAÇÕES MOLECULARES Para compreender como os seres vivos são formados a partir de matéria inanimada, é essencial saber como são formadas as ligações que mantêm os átomos das moléculas unidos. Todos os organismos, do mais simples ao mais complexo são formados por átomos, em organismos vivos, somente parte desses átomos são utilizados, com destaque para as moléculas de carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, fósforo e enxofre, que apresentam maior abundância nas moléculas orgânicas. Dessa forma, a compreensão das interações entre os átomos é necessária para a compreensão da bioquímica. A interação entre os átomos em sistemas orgânicos ocorre através dos elétrons, uma vez que os prótons e nêutrons são firmemente ligados ao próprio átomo, apenas os elétrons podem ser compartilhados (Figura 2). Esses átomos são relativamente instáveis devido a não possuírem sua camada eletrônica mais externa, ou camada de valência, completa. Assim, ao compartilhar elétrons, eles buscam estabilizar essa camada eletrônica, sendo que átomos diferentes precisam compartilhar números diferentes de elétrons de acordo com qual camada eletrônica é a mais ex-terna e de quantos elétrons ele possui nessa camada, por exemplo o carbono precisa de 4 elétrons, o oxigênio de 2 e o hidrogênio de 1. Dessa maneira ocorrem as interações entre átomos iguais e diferentes entre si. Porém existem interações que levam a ligações com propriedades diferentes (ALBERTS et al., 2011). Figura 2: Distribuição de elétrons nas camadas eletrônicas de alguns elementos Fonte: Adaptado de Alberts et. al., (2011) Assim, as principais ligações químicas que precisamos conhecer são as ligações covalentes, interações iônicas e as pontes de hidrogênio (ou ligações de hidrogênio). Quando há um compartilhamento de elétrons entre dois átomos a fim de atingirem uma maior estabilidade é chamada de Ligação Covalente. Já nas Interações Iônicas alguns átomos preferem perder seus elétrons da camada mais externa, realizando uma doação de elétrons para atingir sua estabilidade, enquanto outros podem aceitar esses elétrons atingindo também a sua estabilidade, realizando uma cooperação eletrônica (Figura 3). As ligações covalentes polares têm enorme importância biológica, pois criam dipolos permanentes, permitindo, assim, que a interação entre as moléculas ocorra por meio de forças elétricas. Qualquer molécula grande, que contenha muitos grupos polares, terá uma superfície com um padrão de distribuição de cargas parcialmente positivas e parcialmente negativas. Quandouma molécula dessas encontrar uma segunda molécula que possua um padrão semelhante (complementar), as duas poderão sofrer uma atração recíproca por meio de interações eletrostáticas que se assemelham (mas são mais fracas) às ligações iônicas (ALBERTS et al., 2011; BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; MARZZOCO; TORRES, 1999). 11 Figura 3: Exemplificação das ligações químicas por compartilhamento e trans- ferência de elétrons em sua camada de valência. Fonte: Alberts et. al., (2011, p. 43) Em resumo, quando os elétrons são doados de um átomo a outro, há a formação de uma ligação iônica; quando dois átomos compartilham um mesmo par de elétrons, há a formação de uma ligação covalente. Quando há um compartilhamento parcial de elétrons dessa última camada entre dois átomos temos as Pontes de Hidrogênio (Figura 4). Esse último tipo de interação molecular é característico nos átomos considerados eletronegativos, dentre eles, principalmente o oxigênio, nitrogênio e enxofre. Quando um desses átomos se liga a um hidrogênio para atingir sua estabilidade ocorre o fenômeno de formação de polos temporários, fazendo com que o elétron passe mais tempo com o átomo eletronegativo, que fica com carga negativa temporária, enquanto o hidrogênio fica com carga positiva enquanto o elétron está fora de sua orbita eletrônica. Através da interação entre esses polos temporários são formadas as pontes de hidrogênio (ALBERTS et al., 2011). Figura 4: Modelo de pontes (ligações) de hidrogênio (linhas tracejadas em vermelho) típi-cas em moléculas como o DNA Fonte: Adaptado de Alberts et. al., (2011) 12 Na tabela periódica temos 89 elementos de ocorrência natural, entretanto, os organismos vivos são feitos somente de uma pequena seleção de elementos, sendo que 4 deles – carbono (C), hidrogênio (H), oxigênio (O) e nitrogênio (N) – perfazem 96,5% do peso seco de um organis- mo. As células são formadas por poucos tipos de átomos, porém que interagem de diversas maneiras entre si. Em células vivas, os átomos que geralmente completam suas respectivas camadas mais ex- ternas de oito elétrons são: C, O e N (possuem a segunda camada incompleta) e P e S (pos- suem a terceira camada de átomos incompleta). O número de elétrons que um átomo precisa (pode adquirir ou perder) para se tornar estável, tanto por transferência quanto por compar- tilhamento, é conhecido como valência. FIQUE ATENTO 1.3 PROPRIEDADES DA ÁGUA A água é a molécula mais abundante das substâncias presentes nas células. A célula é a unidade básica da vida, sendo formada pela interações de diversas moléculas de ácidos nucleicos, carboidratos, proteínas e lipídeos, as unidades básicas, também chamadas de unidades monoméricas, como exemplo os aminoácidos ou os monossacarídeos que são unidos para a formação das macromoléculas de proteínas ou monossacarídeos respectivamente, que por sua vez se combinam formando estruturas maiores chamadas de unidades macromoleculares, como o DNA se combinando a proteínas para a formação dos cromossomos, sendo as diversas unidades macromoleculares que em combinação formam a célula (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; VIEIRA; GAZZINELLI; MARES-GUIA, 2002). A água é formada pela união de um átomo de oxigênio e dois de hidrogênio (Figura 5), dando a essa molécula assimétrica a capacidade de formar polos temporários. Esse evento não é exclusivo da molécula de água, sendo a polaridade molecular a capacidade de uma molécula de formar polos e interagir por pontes de hidrogênio. Sendo assim temos a água como uma substância polar e por tal característica temos as substâncias hidrofílicas àquelas que se dissolvem bem em água além dos solutos. Entretanto, mesmo sendo polar, a água consegue interagir em pequena proporção com substâncias apolares (ou hidrofóbicas), sendo dessa forma considerada um solvente universal (ALBERTS et al., 2011). Figura 5: Fórmula e estrutura linear da água (H20) e do oxigênio (02) denotando suas caracte- rísticas polares e apolares devido às suas peculiaridades dimensionais Fonte: Alberts et. al., (2011, p. 48) 13 Sugerimos que assista o vídeo a seguir sobre as propriedades da água, o qual descreve mais detalhes sobre essas propriedades além das citadas acima. Veja a explicação e os exemplos de: Coesão, Adesão, Tensão Superficial, Calor Específico e Calor de Vaporização. LINK: https://bit.ly/3063bw2 BUSQUE POR MAIS Outro vídeo bastante ilustrativo é o de como as pontes de hidrogênio realizam na prática as interações moleculares tão comumente descritas em bioquímica. Nes- te caso veremos as interações nas moléculas de água e em proteínas. LINK: https://bit.ly/2Gau9LC Leia mais sobre o assunto no segundo capítulo, “Água”, do livro “Princípios de Bio- química de Lehninger” de Nelson e Cox (2019). LINK: https://bit.ly/3d3tJDy 1.4 ISOMERIA ÓTICA As moléculas interagem formando estruturas diversas de acordo com suas inte-rações moleculares definidas por seus átomos e suas estruturas. Entretanto algumas moléculas têm como característica poderem formar estruturas diferentes mesmo quando são ligadas aos mesmos átomos. Tal capacidade é chamada de isomeria ótica. Essa característica é limitada a átomos que compartilham no mínimo 4 elétrons quando ligados a grupos moleculares diferentes (SOLOMONS; FRYHLE, 2012). O carbono é um átomo que pode resultar em uma molécula isomérica, pois realiza o compartilhamento de quatro elétrons. Quando esses elétrons são compartilhados en-tre grupos diferentes ocorre a possibilidade da formação de duas moléculas com os mesmos grupos moleculares, porém arranjados de maneira diferentes, dando origem a duas moléculas distintas. Um comum exemplo disso são as mãos humanas (Figura 6), que apesar de possuírem os mesmos dedos, são espelhadas, ou seja, não possuem a mesma sequência de formação, sendo consideradas isômeros óticos, uma vez que são o espelho uma da outra (enantiômeros) (NELSON; COX, 2019; SOLOMONS; FRYHLE, 2012). Fi g u ra 6 : I so m er ia ó ti ca r ep re se n ta d a p el a m ol éc u la d e g lic er al d eí d o (C _3 H _6 O _3 ) Fo n te : A d ap ta d o d e N el so n e C ox ( 20 19 ) e So lo m on s e Fr yh le (2 0 12 ) Se observamos atentamente veremos a imagem especular da mão direita e da mão esquerda na Figura 6. Além disso, também podemos ver que as mãos direita e esquerda não são sobreponíveis, tal como moléculas de enantiômeros também não são (SOLOMONS; FRYHLE, 2012). 14 O medicamento Talidomida foi lançado no mercado, na década de 1950, por uma pequena empresa alemã, a fim de controlar sintomas como náuseas e ansiedade. Isso fez com que esse medicamento ficasse bastante popular entre gestantes, já que possuía eficácia no com- bate aos recorrentes sintomas do período gestacional. Por possuir um carbono quiral em sua molécula, a talidomida possui isômeros óticos, sendo que a molécula destro ou enantiômero (R) desvia o plano de luz polarizada para a direita, e a molécula levo ou enantiômero (S) desvia o plano de luz polarizada para a esquerda (Figura 7). Assim, o medicamento era uma mistura racêmica, que é oticamente inativa porque contém partes iguais desses dois enantiômeros. O isômero dextrogiro era responsável pelas propriedades analgésicas e sedativas, enquanto a talidomida levogira é teratogênica, isto é, provoca mutações no feto. VAMOS PENSAR? Figura 7: Representação dos enantiômeros presentes na talidomida Fonte: Oliveira e Quadros (2020, p. 487) No final da década de 50, o produto já era comercializado em 147 países. Entretanto nos anos de 1959 e 1960, diversos casos de má formação congênita levaram ao estudo dessa droga, descobrindo seus efeitos teratogênicos. Estima-se que cerca de oito mil crianças tenham nas- cido com deformidades congênitas graves em função do consumo de talidomida pelas mães, durante a gravidez. No Brasil esses efeitos do medicamento foram ainda mais trágicos, pois além da droga ter sido retirada do mercadocom certo “atraso”, e seu uso no tratamento de outras doenças como Lúpus, Câncer e Tuberculose, associado à desinformação, acarretaram duas outras gerações de crianças vitimadas pela droga. Trata-se, portanto, de um fato histó- rico marcante, em nível mundial, tanto pelo seu impacto quanto pela noção que ele nos traz sobre a importância de estudos bioquímicos especializados na área de medicamentos e prin- cipalmente da isomeria ótica das moléculas. 15 1 - Responsável por 70 a 85% da massa corpórea de maior parte dos seres vivos, a água possui propriedades físico-químicas peculiares. Considere as afirmativas: I. A molécula de água é polarizada, ou seja, apesar de ter carga elétrica total igual a zero, possui carga elétrica parcial negativa na região do oxigênio e carga elétrica parcial positiva na região de cada hidrogênio. II. Na água em estado líquido, a atração entre moléculas vizinhas cria uma espécie de rede fluida, em contínuo rearranjo, com pontes de hidrogênio se formando e se rompendo a todo momento. III. A tensão superficial está presente nas gotas de água, sendo responsável pela forma peculiar que elas possuem. IV. O calor específico é definido como a quantidade de calor absorvida durante a vaporização de uma substância em seu ponto de ebulição. Assinale a alternativa que contenha todas as afirmativas CORRETAS. a) I, II e IV. b) I, III e IV. c) I, II e III. d) I e III. e) II e IV. 2 - Sobre a água, assinale a sequência de V (para verdadeiro) ou F (para falso) que mais se adequa para as seguintes afirmações: ( ) A água é considerada uma solução universal. ( ) As moléculas de água são dipolares. ( ) A coesão entre as moléculas de água só é possível em razão da presença de pontes de hidrogênio. ( ) A água apresenta baixos valores de calor específico, evitando variações bruscas na temperatura dos organismos. ( ) Reações químicas em que ocorre união entre moléculas, com formação de água como produto, são chamadas reações de hidrólise. a) V,V,V,V,V. b) F,F,F,F,F. c) V,F,V,F,V. d) F,V,V,F,F. e) F,V,V,V,F. 3 - Moléculas anfipáticas ou anfifílicas, são moléculas que apresentam características hidrofílicas (solúvel em meio aquoso), e hidrofóbicas (insolúvel em água, porém solúvel em lipídios e solventes orgânicos). A atividade de um detergente é atribuída a seu comportamento anfipático, apresentando em sua molécula duas regiões distintas, uma FIXANDO O CONTEÚDO 16 polar e uma apolar, quanto maiores e mais distintas essas regiões, maior sua capacidade emulsificante. Além dessa propriedade, a presença de cargas na molécula é outro fator que contribui em sua atividade. Marque a alternativa que corresponde a molécula de detergente com maior atividade emulsificante. a) CH3(CH2)10O2Na b) CH3(CH2)15O2Na c) CH3(CH2)12O2Na d) CH3(CH2)11O2Na e) CH3CH2O2Na 4 - Complete a frase corretamente. “A água, substância essencial para a vida no planeta...”] a) apresenta-se em quantidade invariável, de espécie para espécie. b) tende a aumentar seu percentual nos tecidos humanos com o passar da idade. c) em geral é mais abundante em células com maior metabolismo. d) é considerado um solvente universal por ser uma substância apolar. e) é uma molécula linear. 5 - A condição necessária para a ocorrência de isomeria ótica é que a substância apresente assimetria. Considere as representações espaciais das estruturas a seguir: Em relação às estruturas I, II, III e IV afirma-se, corretamente a) todas apresentam atividade ótica. b) somente a I e a II apresentam atividade ótica. c) somente a I e a III apresentam atividade ótica. d) somente a III e a IV apresentam atividade ótica. e) somente a II e a IV apresentam atividade ótica. 6 - Sobre as ligações iônicas e ligações covalentes, analise as afirmativas abaixo, dê Verdadeiro (V) ou Falso (F). ( ) As ligações iônicas são atrações entre moléculas com íons de cargas opostas. ( ) Os compostos iônicos podem ser formados por elementos do mesmo lado da tabela periódica, ou seja, entre elementos metálicos e não metálicos. ( ) As ligações covalentes podem ocorrer entre dois elementos eletronegativos e são responsáveis pela existência de íons e moléculas poliatômicas. ( ) Nas ligações covalentes, os elementos tendem a ligar-se de modo a completar o seu octeto, com isso compartilham seus elétrons na formação das moléculas. Assinale a alternativa que demonstre a sequência correta. 17 a) V, V, V, V. b) V, F, V, V. c) V, F, F, V. d) V, V, V, F. e) V, F, V, F. 7 - As células são estruturas conhecidas como unidades estruturais e funcionais dos organismos vivos. Elas são formadas basicamente por substâncias orgânicas e inorgânicas. São consideradas substâncias inorgânicas: a) lipídios e proteínas. b) proteínas e água. c) sais minerais e vitaminas. d) água e sais minerais. e) lipídios e carboidratos. 8 - Analise os compostos a seguir: 1. CH3COCH3 2. CH3COOCH3 3. CH3CH2CHO 4. CH3CH2COOH 5. CH3CH2CH2OH 6. CH3OCH2CH3 São isômeros os pares a) 1 e 5; 2 e 4. b) 2 e 4; 3 e 5. c) 1 e 3; 2 e 4. d) 3 e 6; 1 e 5. e) 2 e 4; 3 e 6. 18 ÁCIDOS NUCLEICOS UNIDADE 02 19 Os ácidos nucleicos são responsáveis pelo armazenamento e utilização de informação genética para realizar respostas celulares mediantes a estímulos internos e externos, assim como pela transmissão dessa informação para os descendentes de um indivíduo. Serão discutidos a estrutura do ácido ribonucleico (RNA) e do ácido desoxirribonucleico (DNA), a interação entre as bases nitrogenadas complementares, a estrutura conformacional adotada pelo RNA e pelo DNA e os mecanismos de transcrição de DNA para RNA e de tradução de RNA para polipeptídeos. O assunto traz uma análise crítica sobre a importância da estrutura dos ácidos nucleicos e dos mecanismos envolvidos em sua aplicação biológica para a evolução das espécies e manutenção da vida. 2.1 INTRODUÇÃO 2.2 ESTRUTURA DOS ÁCIDOS NUCLEICOS Os ácidos nucleicos são constituídos por três elementos distintos (Figura 8), um grupo fosfato (PO4), uma pentose, um carboidrato contendo cinco carbonos apresentando duas formas que diferenciam o DNA, que contém desoxirribose, e o RNA, que contém a ribose, e por último uma base nitrogenada (NELSON; COX, 2019). Figura 8: Estrutura geral dos ácidos nucleicos Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 281) Existem um total de cinco bases nitrogenadas que compões a estrutura dos ácidos nucleicos (Figura 9). Adenina e guanina são classificadas como purinas, es-tando presente no DNA e no RNA, as classificadas como pirimidinas são a citosina, presente no DNA e no RNA, a timina, que é exclusiva do DNA e a uracila que é exclu-siva do RNA (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). 20 Figura 9: Estrutura das bases nitrogenadas que compõem os ácidos nucleicos Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 283) As bases nitrogenadas possuem uma conformação estrutural que permite sua ligação com uma base nitrogenada correspondente (Figura 10), assim, no DNA a adenina se liga à timina, enquanto a guanina se liga a citosina, enquanto no RNA a uracila assume a posição da timina ao se ligar a adenina de forma complementar (NELSON; COX, 2019; MARQUES; BALDINI, 2017; VOET; VOET; PRATT, 2014). A complementariedade específica entre as bases purínicas e pirimídicas depende de sua ca- pacidade de formação de pontes de hidrogênio. Enquanto Adenina, timina e uracila possuem a capacidade de formar duas pontes de hidrogênio, citosina e guanina possuem a capacida- de de formar três pontes de hidrogênio. FIQUE ATENTO 2.3 ESTRUTURA DO RNA E DO DNA Durante a duplicação do DNA e durante a síntese de RNA os ácidos nucleicos são unidos pela atividade das enzimas DNA e RNA polimerase, realizando a conexão entre o grupo fosfato, ligado ao quinto carbono da pentose, e a pentose de outro ácido nucleico através de uma ligação fosfodiéster ao terceiro carbono (Figura 3), dessa forma, pode se dizer que a síntese do DNA e do RNA ocorre entre o a posição 5’ e 3’ (leia-se cinco linhae três linha), das pentoses (MARQUES; BALDINI, 2017; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). 21 Fi g u ra 10 : L ig aç ão fo sf od ié st er e n tr e ác id os n u cl ei co s Fo n te : N el so n e C ox ( 20 19 , p . 2 85 ) Após a síntese do RNA a partir do molde de DNA, chamada transcrição, o RNA será direcionado a eventos celulares de acordo com a necessidade biológica. O RNA é um filamento único de ácidos nucleicos, entretanto, devido a complementariedade das bases nitrogenadas, estruturas organizacionais tridimensionais podem ser formadas, podendo apresentar as estruturas de fita simples, protuberâncias, alças internas, grampos e até mesmo de dupla hélice em forma de grampo (Figura 11). Essa interação entre os ácidos nucleicos do RNA atribui maior estabilidade a molécula, que pode exercer sua atividade com risco relativamente inferior devido a menor chance de quebra ou degradação (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019). Figura 11: Estruturas tridimensionais adotadas pela molécula de RNA Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 295) Dependendo a conformação adotada pelo RNA, atribuído a sequência do mesmo, ele poderá assumir função enzimática como no caso do ribossomo, função na regulação genética, atuando como promotores, controladores ou inibidores, ou serem traduzidos para proteínas. Por sua vez, o DNA possui o formato de uma dupla hélice, onde as bases purínicas e pirimídicas estão ligadas de maneira complementar em uma fita dupla que 22 se contorce no formato de hélice devido a pontes de hidro-gênio formadas ao longo da estrutura (Figura 12) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Fi g u ra 12 : E st ru tu ra tr id im en si on al ad ot ad a p el o D N A Fo n te : N el so n e C ox ( 20 19 , p . 2 98 ) Essa estrutura tridimensional é chamada de cromatina, que irá ser combinada a proteínas especificas para a formação da estrutura cromossômica. Os procariotos possuem um cromossomo único circular combinado a proteínas e a moléculas estruturais de RNA, entretanto, devido a sua elevada atividade de transcrição, o cromossomo procarioto é pouco condensado (Figura 13). Além do cromossomo, os procariotos apresentam uma pequena estrutura de DNA circular que contém genes associados a características específicas do organismo, chamados plasmídeos Figura 13: Estruturas do DNA de procariotos Fonte: Adaptado de Nelson e Cox (2019) Os eucariotos possuem um genoma muito maior e mais complexo, o que é refletido em sua organização estrutural. A cromatina se combina com proteínas em dois estados distinto, a heterocromatina, onde ocorre super condensação da cromatina, tornando o genoma da região inacessível a transcrição imediata, e a eucromatina, onde ocorre a condensação moderada, com acesso praticamente imediato as informações gênicas contidas no local (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). A distribuição das regiões mais ou menos condensadas de cromatina está relacionada ao tipo de tecido e fase celular, uma vez que alguns genes não são necessários para determinadas células ou em determinadas fases do ciclo celular, a região onde eles se encontram são super condensados em heterocromatina (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Os cromossomos dos eucariotos possuem uma estrutura linear com regiões distintas, apresentando extremidades chamadas de telômeros, com função de proteção, e uma região onde as cromátides irmãs são conectadas, chamado centrômero. Além disso, alguns cromossomos possuem outras estruturas chamadas de satélites, unidos por hastes a região cromossômica principal (Figura 14) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; MARQUES; BALDINI, 2017; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). 23 Fi g u ra 14 : E st ru tu ra d os c ro m os so m os d os e u ca ri ot os Fo n te : A d ap ta d o d e N el so n e C ox ( 20 19 ) Sugerimos a leitura de dois artigos e um livro para que você conheça um pouco mais sobre os telômeros: O 1ª Artigo é o da A Drª Maria Isabel Nogueira Cano (2006), publicado na Revista “Ciência Hoje”, um importante portal de divulgação cientifica da CAPES (Coorde- nação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). LINK: https://bit.ly/3hXGO1J BUSQUE POR MAIS O outro artigo foi escrito pelo médico e professor da Universidade de Ottawa (Ca- nadá) Henrique Parsons (2003) sobre a importância do conhecimento acerca dos telomeros e sua relação com o câncer. LINK: https://bit.ly/3i0MqZp Leia mais sobre o assunto no segundo capítulo, “Genes e Cromossomos”, do livro “Princípios de Bioquímica de Lehninger” de Nelson e Cox (2019). LINK: https://bit.ly/33vFy1U 24 2.4 DUPLICAÇÃO DO DNA A replicação do DNA (Figura 15) ocorre durante a interfase celular, sendo iniciada pela desespiralização da dupla hélice pela enzima topoisomerase, em sequência as bases complementares são separadas pela enzima helicase, separando a dupla fita de DNA em duas fitas simples, uma fita chama “sense” e uma “antisense”. A replicação do DNA é realizada pela enzima DNA polimerase, que adiciona as bases nitrogenadas correspondentes a fita molde. Entretanto, as fitas de DNA originais possuem sentidos diferentes de síntese, sendo que a DNA polimerase só consegue adicionar bases nitrogenadas no sentido 5” 3’, ou seja, o grupo fosfato ligado ao quinto carbono da desoxirribose do DNA é ligado ao terceiro carbono da desoxirribose de outra molécula de DNA (MARQUES; BALDINI, 2017; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Assim, a replicação do DNA ocorre de duas formas diferentes, uma replicação contínua e uma descontínua. Durante a replicação contínua a primase adiciona um “primer” ou iniciador de RNA, que serve como local de ligação para a DNA polimera-se, que adiciona as bases nitrogenadas correspondentes a fita molde de maneira ininterrupta logo após o rompimento da dupla fita original, dando origem a uma nova dupla fita de DNA idêntico ao original, o primer é removido e a DNA ligase realiza a ligação fosfodiéster entre os ácidos nucleicos da nova fita, dando origem a uma fita dupla de DNA idêntica a original (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; MARQUES; BALDINI, 2017; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Durante a replicação descontínua, a DNA polimerase não consegue adicionar as bases de maneira contínua, sendo necessária a adição de vários primers pela enzima primase, após a ligação do iniciador a DNA polimerase entra em atividade, adicionando “fragmentos” de DNA correspondentes a fita molde. Para cada iniciador de RNA são adicionados entre 100 e 200 bases nitrogenadas a fita molde, chamado de fragmentos de Okazaki. Após a adição dos fragmentos de Okazaki, os iniciadores de RNA são removidos e a enzima DNA ligase realiza a ligação fosfodiéster entre os ácidos nucleicos da nova fita, dando origem a uma fita dupla de DNA idêntica a original (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; MARQUES; BALDINI, 2017; NELSON; COX, 2019). Ș Fi g u ra 15 : E sq u em at iz aç ão d a re p lic aç ão d o D N A Fo n te : C ab ra l, H em er ly e M as u d a (2 0 17 , p . 5 1) 25 A evolução das espécies é baseada na variabilidade genética mediada por mutações. Esse mecanismo evolutivo pode ser influenciado pelo meio ou ocorrer ao acaso devido a erros as- sociados a replicação do DNA, é previsto que a cada dez mil bases de DNA adicionadas a uma fita molde ocorra um erro. Apesar de diversos mecanismos de correção desses erros existirem, principalmente em eucariotos, alguns erros são destinados a permanecer na sequência, dan- do origem as mutações, entretanto, essas mutações podem possuir efeitos maléficos, benéfi- cos ou em alguns casos podem não exercer nenhum impacto para a o indivíduo. VAMOS PENSAR? 2.5 TRANSCRIÇÃO DO DNA PARA RNA A transcrição dos genes de um organismo ocorre em duas situações distintas, na primeiraa expressão é constante, refletindo na produção contínua de determinada proteína que, geralmente, possui função estrutural ou metabólica fundamental para a manutenção da homeostasia celular, na segunda situação a expressão ocorre mediante a um estímulo interno ou externo, refletindo na expressão mediada ou temporal, que ocorrerá para responder a uma situação celular transitória, após a qual a transcrição será interrompida (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; MARQUES; BALDINI, 2017; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Para aprofundar um pouco mais seu conhecimento sobre genes sugerimos a lei- tura do artigo de Joaquim e El-Hani (2010) “A genética em transformação: crise e revisão do conceito de gene” LINK: https://bit.ly/33QVueh BUSQUE POR MAIS Leia mais sobre o assunto no décimo segundo capítulo “Bases Nitrogenadas: Puri- nas e Pirimidinas” do livro Princípios da Bioquímica para Universitários, Técnicos e Profissionais da Saúde de Galante e Araújo (2018). LINK: https://bit.ly/2GxZZ5N Assim como no processo de duplicação do DNA, a transcrição é iniciada pela com a desespiralização do DNA seguida da atividade do rompimento da dupla fita complementar de DNA, expondo assim a fita molde de DNA a qual a enzima RNA polimerase irá se ligar dando início a adição de bases de RNA complementares a fita molde, essas atividades ocorrem pela ação de enzimas com ação idênticas a da Topoisomerase e helicase, respectivamente, presentes no complexo da bolha de transcrição. Os genes possuem diferentes regiões especializadas que controlam sua expressão e a atividade enzimática da RNA polimerase, como regiões ativadoras, promotoras e inibidoras (Figura 16) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; MARQUES; BALDINI, 2017; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). 26 Figura 16: Representação de diferentes regiões de um gene Fonte: Marques e Baldini (2017, p. 117) Em procariotos todo material transcrito corresponde ao RNA mensageiro (RNAm), que será direcionado para a tradução em proteínas, entretanto, os eucariotos possuem duas regiões distintas além das regiões controladoras da expressão gênica, as regiões chamadas de éxons correspondem as sequências de DNA transcritas para RNA que serão utilizadas para a tradução em proteínas, enquanto as regiões chamadas de íntrons serão removidas em um processo de amadurecimento do RNAm (Figura 17). Após o processo de amadurecimento, o RNAm agora maduro será direcionado ao citosol para que o processo de tradução possa ser iniciado (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; MARQUES; BALDINI, 2017; NELSON; COX, 2019). Figura 17: Representação de éxons e íntrons presentes em genes de eucariotos Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 984) 2.6 TRADUÇÃO DE RNA PARA PROTEÍNAS O processo de tradução (Figura 18) ocorre em uma estrutura mista de proteína e RNA chamada de ribossomo, nos procariotos essas estruturas ficam dispersas na célula enquanto nos eucariotos podem ser encontradas dispersas no citosol ou associadas ao reticulo endoplasmático rugoso. O início da transcrição ocorre através da ligação do RNAm ao RNA ribossômico (RNAr), após essa interação uma sequência de três bases nitrogenadas, “AUG”, será reconhecida como a sequência iniciadora. Cada sequência de três bases nitrogenadas é chamada de códon, assim, a sequência iniciadora é chamada de códon iniciador, ou start códon, sendo cada códon seguinte ao start códon corresponde a um aminoácido. O ribossomo reconhece essas sequências equivalentes, o RNA transportador (RNAt) capta os aminoácidos equivalentes dispersos na célula e os adiciona em sequência até o códon de interrompimento ou stop códon ser reconhecido. 27 Figura 18: Representação do processo de tradução de RNA para proteínas Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 1114) O processo de tradução (Figura 18) ocorre em uma estrutura mista de proteína e RNA chamada de ribossomo, nos procariotos essas estruturas ficam dispersas na célula enquanto nos eucariotos podem ser encontradas dispersas no citosol ou associadas ao retículo endoplasmático rugoso. O início da transcrição ocorre através da ligação do RNAm ao RNA ribossômico (RNAr), após essa interação uma sequência de três bases nitrogenadas, “AUG”, será reconhecida como a sequência iniciadora. Cada sequência de três bases nitrogenadas é chamada de códon, assim, a sequência iniciadora é chamada de códon iniciador, ou start códon, sendo cada códon seguinte ao start códon corresponde a um aminoácido. O ribossomo reconhece essas sequências equivalentes, o RNA transportador (RNAt) capta os aminoácidos equivalentes dispersos na célula e os adiciona em sequência até o códon de interrompimento ou stop códon ser reconhecido. Fi g u ra 19 : C ód on s e su as re sp ec ti va s tr ad u çõ es Fo n te : N el so n e C ox (2 0 19 , p . 1 10 7) 28 1 - Os ácidos nucleicos possuem uma estrutura básica formada por um grupo carboidrato, um grupo base nitrogenada e um grupo fosfato. Uma das diferenças encontradas entre as moléculas de DNA e de RNA é relacionada ao grupo carboidrato da molécula. Marque a alternativa que corresponde ao nome do carboidrato do DNA e do RNA respectivamente. a) Desoxorribose e ribose. b) Ribose e desoxirribose. c) Desoxiglicose e glicose. d) Desoxirribose e ribose. e) Glicose e desoxiglicose. 2 - As bases nitrogenadas púricas e pirimídicas possuem complementariedade específica, ocorrendo a ligação entre adenina e timina e entre citosina e guanina no DNA, no RNA timina é substituída por uracila, realizando a complementariedade entre adenina e uracila. Marque a alternativa que corresponde ao motivo da complementariedade específica entre as bases nitrogenadas. a) As bases púricas se ligam apenas as pirimídicas devido ao tamanho de sua estrutura. b) As bases nitrogenadas são complementares devido ao número de pontes de hidrogênio, sendo formadas duas pontes entre adenina e timina ou uracila e três pontes entre guanina e citosina. c) As bases nitrogenadas são complementares devido ao número de pontes de hidrogênio, sendo formadas três pontes entre adenina e timina ou uracila e duas pontes entre guanina e citosina. d) As bases nitrogenadas são complementares devido ao reconhecimento da DNA polimerase, que realiza a ligação covalente entre as bases nitrogenadas durante a replicação do DNA. e) Devido a estrutura tridimensional das bases nitrogenadas bases púricas se ligam a bases pirimídicas através do encaixe molecular, mantido por ligações covalentes entre as moléculas. 3 - Os ácidos nucleicos são unidos linearmente por ligações fosfodiéster no sentido 5’ 3’, e as bases púricas e pirimídicas se ligam de maneira complementar para que o DNA e o RNA assumam estruturas tridimensionais características. Marque a alternativa que corresponde as estruturas organizacionais que podem ser adotadas pela molécula de RNA. a) Fitas simples, protuberâncias, alças internas, grampos e dupla hélice em forma de grampo. b) Fitas simples, alças internas, grampos e dupla hélice em forma de grampo. c) Fitas simples, protuberâncias, alças internas e grampos. d) Fitas simples, protuberâncias, alças internas e dupla hélice em forma de grampo. e) Fitas simples, protuberâncias, grampos e dupla hélice em forma de grampo. 4 - Os processos relacionados às moléculas de ácidos nucleicos são altamente regulados, FIXANDO O CONTEÚDO Ș 29 tanto para replicação como para a transcrição. O controle da expressão gênica está associado a um conjunto de sequências reguladores que inibem ou promovem a transcrição. Além dos fatores intrínsecos das sequências DNA, outro fator que auxilia no controle da expressão gênica de eucariotos é o estado de condensação da cromatina. Marque a alternativa que corresponde ao nome dado ao estado da cromatina transcricionalmente inativa. a) Hipercromatina. b) Eucromatina. c) Homocromatina. d) Hipocromatina. e) Heterocromatina 5 - Novas células só podem surgir a partir de células pré-existentes, dessa forma, a replicação detodo o conteúdo celular é necessária, incluindo a informação genética da célula. Após a sinalização para o início do processo de replicação do DNA é necessária a reorganização de sua estrutura. Marque a alternativa que corresponde a enzima responsável pela desespiralização do DNA. a) Helicase. b) DNA polimerase. c) Topoisomerase. d) RNA polimerase. e) DNA ligase. 6 - O processo de replicação do DNA depende da atividade da DNA polimerase, que identifica a base da fita original e adiciona a base complementar, formando duas moléculas de dupla fita de DNA idênticas a molécula original, entretanto, a DNA polimerase só possui atividade no sentido 5’ 3’. Marque a alternativa que corresponde ao nome dos fragmentos formados durante a replicação antisense, no sentido 3’ 5’. a) Fragmentos de Okazaki. b) Fragmentos de Nagazaki. c) Fragmentos de Omozaki. d) Fragmentos de Nagashima. e) Fragmentos de Shirozaki. 7 - O processo de transcrição do RNA ocorre mediado por sinais, que controlam o número de cópias a serem realizadas de determinado gene, quanto maior a intensidade e a duração de um sinal, maior a produção de RNAm de determinado gene. Marque a alternativa correta sobre o processo de transcrição. a) Os procariotos possuem regiões de íntrons que são removidas antes do início da tradução. b) Vários genes podem ser transcritos pela mediação de um único sinal devido a possuírem a mesma região responsável por controlar sua expressão. c) Em eucariotos existe sempre uma região repressora e uma região promotora para cada gene. d) Durante o processe de transcrição do DNA de eucariotos, toda sequência de RNAm Ș Ș 30 produzida será transcrita para proteínas. e) Durante a transcrição podem ocorrer erros onde as bases são colocadas de forma não complementar a fita molde de DNA, entretanto a RNA polimerase realiza a conferência durante a transcrição para identificar possíveis erros. 8 - Os aminoácidos são adicionados em sequência correspondente dos códons, um conjunto de três ácidos nucleicos de RNAm, os ribossomos realizam a montagem da sequência e a formação das ligações peptídicas entre os aminoácidos adjacentes. Marque a alternativa que corresponde ao número de mensagens transmitidas pelos códons. a) 20. b) 21. c) 22. d) 23. e) 24. 31 PROTEÍNAS UNIDADE 03 32 3.1 ESTRUTURA A unidade básica (monômeros) das proteínas são moléculas orgânicas peculiares, os aminoácidos. Cada um desses aminoácidos possui uma estrutura em comum, chamada de estrutura básica dos aminoácidos, a qual apresenta um carbono central ou carbono alfa que é tetraédrico (Figura 20). Uma das quatro ligações desse C é com uma região amina, chamada de amino terminal ou N-terminal, composta por um átomo de nitrogênio e dois de hidrogênio. Esse carbono alfa também está ligado a um outro grupo chamado carboxila, também conhecido como carboxiterminal ou C-Terminal, formado por um carbono ligado a uma hidroxila (OH) e a um oxigênio. Este C alfa tem como característica também ter uma ligação a uma molécula de hidrogênio. A quarta e última ligação deste carbono tetraédrico é com a chamada grupo R ou cadeia lateral, que representa a região molecular dos aminoácidos que irá diferenciar esses aminoácidos e que atribuem suas características distintas. Existem apenas 20 aminoácidos que compõem a estrutura de todas as proteínas conhecidas (Tabela 1) (NELSON; COX, 2019). Figura 20: Estrutura básica dos aminoácidos Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 76) 33 Valores de pKa Aminoácido Abrev./ Simb. Mr pK1 (-COOH) pK2 (-NH3+) pKR (Grupo R) pl Índ. de hidropatia Ocorr. em proteínas (%) G ru p os R a lif át ic os , ap ol ar es Glicina Gly G 75 2,34 9,60 5,97 –0,4 7,2 Alanina Ala A 89 2,34 9,69 6,01 1,8 7,8 Prolina Pro P 115 1,99 10,96 6,48 –1,6 5,2 Valina Val V 117 2,32 9,62 5,97 4,2 6,6 Leucina Leu L 131 2,36 9,60 5,98 3,8 9,1 Isoleucina Il e I 131 2,36 9,68 6,02 4,5 5,3 Metionina Met M 149 2,28 9,21 5,74 1,9 2,3 G ru p os R A ro m át ic os Fenilalanina Phe F 165 1,83 9,13 5,48 2,8 3,9 Tirosina Tyr Y 181 2,20 9,11 10,07 5,66 –1,3 3,2 Triptofano Trp W 204 2,38 9,39 5,89 –0,9 1,4 G ru p os R p ol ar es , n ão c ar re g ad os Serina Ser S 105 2,21 9,15 5,68 –0,8 6,8 Treonina Thr T 119 2,11 9,62 5,87 –0,7 5,9 Cisteína Cys C 121 1,96 10,28 8,18 5,07 2,5 1,9 Asparagina Asn N 132 2,02 8,80 5,41 –3,5 4,3 Glutamina Gln Q 146 2,17 9,13 5,65 –3,5 4,2 G ru p os R ca rr eg ad os p os it iv am en te Lisina Lys K 146 2,18 8,95 10,53 9,74 –3,9 5,9 Histidina His H 155 1,82 9,17 6,00 7,59 –3,2 2,3 Arginina Arg R 174 2,17 9,04 12,48 10,76 –4,5 5,1 G ru p os R ca rr eg ad os n eg at iv am en te Aspartato Asp D 133 1,88 9,60 3,65 2,77 –3,5 5,3 Glutamato Glu E 147 2,19 9,67 4,25 3,22 –3,5 6,3 Tabela 1: Propriedades e convenções associadas a aminoácidos comuns encontrados em proteínas Fonte: Adaptado Nelson e Cox (2019) Devido ao fato de realizar quatro ligações simples com quatro grupos diferentes, o carbono alfa, quase sempre é um carbono quiral, com uma única exceção sendo o aminoácido glicina, que possui em sua cadeia lateral um simples Hidrogênio. De acordo com o grupo R ou cadeia lateral, os aminoácidos possuem características que os diferenciam, como massa molecular, ponto isoelétrico, índice de hidropatia, polaridade, carga e presença de grupos aromáticos. Através da união de todas essas características em sequência, tem- se as propriedades e características das proteínas formadas e consequentemente suas interações e funções (NELSON; COX, 2019; SOLOMONS; FRYHLE, 2012). Durante a síntese de proteínas, os aminoácidos são unidos por ligações covalentes por condensação, ou seja, com a remoção de uma molécula de água, o contrário também é válido, para a degradação de proteínas os aminoácidos são clivados ou quebrados por reações de hidrólise, ou seja, a cada quebra da ligação covalente entre aminoácidos é adicionado uma molécula de água. Essa ligação entre aminoácidos é chamada ligação peptídica pela união do N-terminal de um aminoácido a um C-terminal de outro aminoácido (Figura 21) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019). 34 Figura 21: ligação peptídica pela união do N-terminal de um aminoácido a um C-terminal de outro aminoácido Fonte: Adaptado Nelson e Cox (2019) As ligações peptídicas entre aminoácidos geram um polo elétrico formado pela eletronegatividade do grupamento carboxila e a eletropositividade apresentada pelo grupo amino. Desta maneira, pode-se afirmar que o grupo carboxila possui a tendência de doar H^+ enquanto o grupo amino de receber H+ em um pH neutro (Figura 22) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019). Figura 21: ligação peptídica pela união do N-terminal de um aminoácido a um C-terminal de outro aminoácido Fonte: Adaptado Nelson e Cox (2019) As proteínas são formadas basicamente através da sequência de ligações peptídicas entre aminoácidos diferentes e com complexidade progressiva. As chamadas estruturas primárias são representadas pela sequência de aminoácidos no sentido do N-terminal para o C-terminal linearmente. Continuamente, as prováveis estruturas secundárias e terciarias que essa proteína irá assumir dependem diretamente de quais os aminoácidos serão ligados ao peptídeo em construção durante a síntese proteica (Figura 23) (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Figura 23: Resumo da sequência progressiva dos níveis estruturais du- rante a síntese proteica Fonte: Adaptado Nelson e Cox (2019, p. 96) A conformação estrutural tridimensional das proteínas geralmente pode ser dividida em três estruturas secundárias relativamente fixas. As alfa-hélices são formadas por uma disposição de aminoácidos em espiral, sendo a estrutura mantida pela formação de pontes de hidrogênio pela cadeia lateral dos aminoácidos a cada 3 ou 4 aminoácidos de distância, sendo considerada a mais estável das estruturas secundárias. As folhas betas também sãoformadas por pontes de hidrogênio, mas de maneira linear e não sequencial como nas alfa-hélices, podendo sequências relativamente distantes interagirem para formar essas 35 estruturas. A última estrutura fixa é chama de volta beta ou loops, formadas por pontes de hidrogênio entre dois aminoácidos, forçando a estrutura a uma dobra de 180°. Para que essa estrutura possa ser formada é necessária a presença de um aminoácido prolina ou glicina, que permitem esse giro devido a compactação de sua cadeia lateral (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). A construção progressiva da sequência de aminoácidos gera uma conformação específica terciária, definida por um arranjo espacial de todos átomos constituintes de uma proteína. A conformação existente sob um determinado conjunto de condições é a forma termodinamicamente mais estável, tendo menor energia livre de Gibbs (G) – também denominadas como proteínas nativas. A ativação da função proteica se dá através estruturação da conformação ativa da proteína. Assista o vídeo sobre a formação e características das interações moleculares dos níveis estruturais tridimensionais das proteínas. LINK: https://bit.ly/3j7WO2I BUSQUE POR MAIS Leia mais sobre o assunto no terceiro (Aminoácidos, Peptídeos e Proteínas) e quar- to Estrutura Tridimensional das Proteínas) capítulos do livro Princípios de Bioquí- mica de Lehninger de Nelson e Cox (2019). LINK: https://bit.ly/2I3kVlB 3.2 FUNÇÃO As proteínas podem ser classificadas de acordo com sua estrutura terciária e sua respectiva função derivada da sequência de aminoácidos e as respectivas interações intermoleculares. Há uma restrita relação entre a estrutura da proteína e sua função ativa. Além disso existem classificações proteicas de acordo com a estrutura espacial das proteínas, dentre elas as fibrosas, que possuem função estrutural, de força e elasticidade, como as fibras musculares ou o colágeno, apresentando uma estrutura constituída basicamente por alfa-hélices. Além delas temos as proteínas em estruturas globulares, que apresentam todas as interações moleculares formando uma estrutura compacta com as demais funções, incluindo enzimática, hormonal, sinali-zadora, transportadora, entre outras (Figura 24) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019). Figura 24: Estruturas terciárias compostas por conjunto de estruturas secundária Fonte: Adaptado Nelson e Cox (2019) 36 Algumas estruturas terciárias não possuem função ativa de forma isolada, como no caso da mioglobina ou da hemoglobina, que precisam combinar diferentes proteínas para formar um complexo proteico com a função de transportar o oxigênio pelo músculo e pela corrente sanguínea de mamíferos, por exemplo. Essas estruturas que combinam diferentes proteínas para exercer sua função são chamadas de estruturas quaternárias. Um bom exemplo desse tipo de estrutura é o da hemoglobina (Figura 25) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; MARZZOCO; TORRES, 1999; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Figura 25: Estrutura quaternária da proteína hemoglobina humana Fonte: Adaptado Nelson e Cox (2019) 3.3 DESAMINAÇÃO A desaminação é um processo importante na degradação das proteínas durante o catabolismo, mais especificamente dos aminoácidos, uma vez que não conseguimos armazenar os aminoácidos da maneira que são adquiridos pela alimentação devido à presença das aminas, precursoras da molécula de amônia, substância tóxica ao nosso organismo. Para tal se faz necessário transformá-los retirando os seus grupamentos amina, a fim de serem utilizáveis na respiração celular produzindo energia em forma de ATP’s, ou como carboidratos ou ácidos graxos na forma de armazenamento de energia e eliminar a amônia que será transformada em ureia posteriormente (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). A desaminação em si é um passo no catabolismo quando os aminoácidos chegam ao fígado, no qual ocorre a remoção dos grupos amino em forma de amônia e se transforma em um cetoácido correspondente que continuará na via metabólica. Exemplificando, é através desse processo de catabolismo que temos a transformação das proteínas adquiridas na alimentação em aminoácidos aproveitáveis no organismo (Figura 26). Dentre os processos catabolíticos temos a desaminação, caracterizada pela liberação do grupo amino dos aminoácidos para a molécula de alfa-cetoglutarato formando glutamato. Essa reação é catalisada pelas enzimas desaminases ou desidrogenases. O restante do aminoácido, um esqueleto carbônico (alfa-cetoácido), é encaminhado a diferentes vias de metabolização até chegar a uma das moléculas convergentes do ciclo do ácido cítrico a fim de produzir energia, em uma das vias metabólicas do corpo humano. Ao final do processo de desaminação ocorre também a produção de glutamato, que poderá atuar como um fornecedor de grupo amino para vias de síntese ou para as vias de excreção de metabólitos nitrogenados (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VIEIRA; GAZZINELLI; MARES-GUIA, 2002; VOET; VOET; PRATT, 2014). 37 Figura 26: Reação de transaminação de um aminoácido no fígado através da ação da Aminotransferase resultando em glutamato e um alfa-cetoácido que continuará pela via metabólica Fonte: Adaptado Nelson e Cox (2019) Veja um vídeo que descreve com mais detalhes as reações de Desaminação e Transaminação. LINK: https://bit.ly/2HxExOr BUSQUE POR MAIS Leia mais sobre o assunto no vigésimo segundo capítulo “Metabolismo do Nitro- gênio” do livro Princípios da Bioquímica para Universitários, Técnicos e Profissio- nais da Saúde de Galante e Araújo (2018). LINK: https://bit.ly/2GxZZ5N Mais especificamente, para a excreção de metabólitos nitrogenados produzidos no catabo- lismo, o grupamento amino pode ser ligado ao glutamato para a síntese de glutamina, no interior da mitocôndria, a glutamina ou o glutamato sofrem um processo de desaminação, ou seja, a remoção de grupo amino, pela enzima Glutamato-desidrogenase, liberando o al- fa-cetoglutarato, ou uma transaminação, transferindo seu grupo amino a um oxaloacetato formando aspartato pela atividade da Aspartato-aminotransferase. No caso da Desamina- ção, a enzima cabamoil-fosfato-sintetase-1 utiliza duas moléculas de ATP, uma molécula de bicarbonato (HCO3) e o grupamento amino (NH2) para sintetizar uma molécula de carbamoil- -fosfato, ainda dentro da matriz mitocondrial, essa molécula se liga a outra, chamada orniti- na, dando início ao ciclo da ureia pela formação e externalização para o citosol da molécula de citrulina. FIQUE ATENTO No citosol, a citrulina é associada ao AMP de maneira temporária gastando uma molécula de ATP, rapidamente essa ligação é substituída pela ligação da citrulina a um aspartato, formando arginino-succinato, a cadeira carbônica do aspartato é clivada, liberando fumarato e resultando em uma molécula de arginina, cujos grupos aminos são hidrolizados liberando uma molécula de ornitina, que pode reiniciar o ciclo, e uma molécula de ureia, que pode ser direcionada para filtração renal e excreção. O ciclo da ureia veremos com mais detalhes adiante (NELSON; COX, 2019). 38 3.4 CICLO DA URÉIA Há diferentes formas de excreção de compostos nitrogenados nos diversificados grupos animais. Dentre eles, os animais ureotélicos, compostos por muitos vertebrados, incluindo também tubarões, porém excluindo os demais grupos de peixes. É a principal forma de excreção em animais terrestres, entretanto em animais aquáticos a produção de ureia não é necessária, sendo a amônia a forma de excreção adotada. O intuito disso é sempre viabilizar a maneira mais eficiente de excretar substâncias tóxicas ao corpo do animal de acordo com o seu organismo e habitat (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Nos ureotélicos, que incluem os seres humanos, os grupos amino que não são destinados à síntese de novos produtos nitrogenados são destinados àprodução de ureia. A amônia (NH_4^+) é convertida em ureia nas mitocôndrias dos hepatócitos, nos quais é realizado o ciclo da ureia (Figura 27) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). A atividade do ciclo da ureia pode ser regulada em dois níveis, sendo em uma dieta rica em proteínas ou em processos de desnutrição severos, o que acarretam uma alta velocidade de produção das enzimas envolvidas no ciclo da ureia. Defeitos genéticos no ciclo da ureia podem ameaçar a vida de seus portadores, ou, no mínimo, acarretar a eles intolerância a dietas ricas em proteínas, já que o excesso de aminoácidos ingeridos, serão desaminados no fígado e a amônia livre não poderá ser convertida em ureia, gerando um grave acúmulo de amônia no organismo do portador. 39 Figura 27: Representação do ciclo da ureia completo Fonte: Adaptado Nelson e Cox (2019, p. 705) 40 A relação entre estrutura e função proteica é um dos conceitos mais bem estabelecidos da bioquímica e biologia molecular, correto? Apesar da existência de evidências de mais de um século de estudos, somente no início da década de 90 começaram a surgir trabalhos mostrando de forma conclusiva a existência de proteínas funcionalmente ativas, mas incapazes de manter uma conformação estável em condições fisiológicas. Tais proteínas, hoje conhecidas como IUPs (do inglês Intrinsically Uns- tructured Proteins) desempenham um repertório funcional vasto e importante, tal como nos processos de transcrição e tradução, sinalização, transdução de sinais, histonas, proteínas ri- bossomais, entre outras funções. Pesquisas também apontam que as IUPs estão relaciona- das a doenças neurodegenerativas, câncer e até mesmo infecções parasitárias. A descoberta e consolidação da existência desta nova classe de proteína chamou a atenção da comunidade científica no começo do século XXI, e desde então um esforço contínuo é rea- lizado para entender melhor as implicações das IUPs nos organismos vivos. Para tal, a bioin- formática é a grande aliada de pesquisadores quando o assunto é o processamento massivo de dados biológicos preditivos, como análises de sequências, para identificar genes, predizer suas funções e demonstrar relações entre genes e proteínas; prever a conformação tridimen- sional das proteínas; estudar as funções biológicas; design de drogas e etc. VAMOS PENSAR? 41 1 - Nos dias atuais sabemos que as moléculas de proteínas são formadas por dezenas, centenas ou milhares de outras moléculas, ligadas em sequência como os elos de uma corrente. Assinale a alternativa que menciona quais moléculas formam as proteínas. a) Moléculas de proteínas. b) Moléculas de aminoácidos. c) Moléculas de glicose. d) Moléculas de polissacarídeos. e) Moléculas de quitina. 2 - Para que uma célula possa produzir suas proteínas, ela precisa de aminoácidos, que podem ser obtidos de duas formas: ingeridos em alimentos ricos em proteínas, ou produzidos pelas células a partir de outras moléculas orgânicas. Nas alternativas abaixo marque respectivamente como são chamados os aminoácidos que um organismo não consegue produzir, e como são chamados os aminoácidos produzidos a partir de outras substâncias. a) Aminoácidos naturais e aminoácidos essenciais. b) Aminoácidos proteicos e aminoácidos não essenciais. c) Aminoácidos primários e aminoácidos secundários. d) Aminoácidos globulares e aminoácidos secundários. e) Aminoácidos essenciais e aminoácidos naturais. 3 - As proteínas são formadas pela união de moléculas de aminoácidos e desempenham diversos papéis no organismo, como função estrutural, enzimática, imunológica, dentre outras. De acordo com os seus conhecimentos sobre as proteínas, marque a alternativa errada . a) As proteínas podem diferir uma das outras nos seguintes aspectos: quantidade de aminoácidos na cadeia polipeptídica; tipos de aminoácidos presentes na cadeia polipeptídica e sequência de aminoácidos na cadeia polipeptídica. b) Os aminoácidos essenciais são aqueles que um organismo não consegue produzir. c) A ligação entre dois aminoácidos vizinhos em uma molécula de proteína é cha-mada de ligação peptídica e se estabelece sempre entre um grupo amina de um aminoácido e o grupo carboxila do outro aminoácido. d) Com exceção das ribozimas, todas as enzimas são proteínas, sendo que muitas são proteínas simples e outras conjugadas. e) No final da reação, a molécula do produto se separa da enzima, que é descartada pelo organismo. 4 - Num polipeptídeo que possui 84 ligações peptídicas existem a) 82 aminoácidos. b) 83 aminoácidos. FIXANDO O CONTEÚDO 42 c) 84 aminoácidos. d) 85 aminoácidos. e) 86 aminoácidos. 5 - Dentre as afirmações abaixo, assinale a(s) que caracteriza(m) corretamente as proteínas. I. São essencialmente formadas por C, H, O, N. II. São macromoléculas formadas pela união sucessiva de carboidratos de diversos tipos. III. Podem formar estruturas diferenciadas, denominadas primária, secundária, terciária e quaternária. IV. Seu constituinte básico é o aminoácido. a) I, II e III. b) II, III e IV. c) I, III e IV. d) II e IV. e) Apenas I. 6 - Um camundongo foi alimentado com uma ração contendo proteínas marcadas com um isótopo radioativo. Depois de certo tempo, constatou-se a presença de hemoglobina radioativa no sangue do animal. Isso aconteceu porque as proteínas do alimento foram: a) absorvidas pelas células sanguíneas. b) absorvidas pelo plasma sanguíneo. c) digeridas e os aminoácidos marcados foram utilizados na síntese de carboidratos. d) digeridas e os aminoácidos marcados foram utilizados na síntese de lipídios. e) digeridas e os aminoácidos marcados foram utilizados na síntese de proteínas. 7 - As proteínas, formadas pela união de aminoácidos, são componentes químicos fundamentais na fisiologia e na estrutura celular dos organismos. Em relação às proteínas, assinale a proposição correta. a) O colágeno é a proteína menos abundante no corpo humano apresentando forma globular como a maioria das proteínas. b) A ligação peptídica entre dois aminoácidos acontece pela reação do grupo carboxila de um aminoácido com o grupo amino de outro aminoácido. c) A ptialina, enzima produzida pelas glândulas salivares, atua na digestão de proteínas. d) A anemia falciforme, causada por fatores nutricionais, é atribuída ao rompimento das hemácias em função da desnaturação da molécula protéica de hemoglobina em decorrência do aumento da temperatura corporal. e) As proteínas são constituídas de moléculas ricas em átomos de fósforo. 8 - Importantes compostos orgânicos dos seres vivos as proteínas (cadeia polipeptídica) diferem entre si, nos seguintes aspectos: I. Quais aminoácidos estão presentes na cadeia. II. Quantidade de aminoácidos presentes na cadeia. III. Sequência em que os aminoácidos estão unidos na cadeia. 43 IV. Pelos nucleotídeos presentes na cadeia. Analisadas as proposições, assinale a alternativa correta. a) Somente as afirmativas II, III e IV são verdadeiras. b) Somente as afirmativas II e III são verdadeiras. c) Somente as afirmativas I, II e IV são verdadeiras. d) Somente as afirmativas III e IV são verdadeiras. e) Somente as afirmativas I, II e III são verdadeiras. 44 ENZIMAS UNIDADE 04 45 4.1 ESTRUTURA A maioria das enzimas são proteínas, e como tais são formadas por longas cadeias lineares de aminoácidos que sofrem um enovelamento que tem como resultado um produto com estrutura tridimensional. Cada sequência única de aminoácidos produz também uma estrutura tridimensional única que possui propriedades específicas. Da mesma forma que as proteínas, elas podem ter tamanhos variados desde algumas dezenas de aminoácidos, até um tamanho de 2.500 aminoácidos, como é o caso da sintase de ácidos graxos (Figura 28). A exceção é representada por um pequeno grupo de moléculas de RNA com propriedades catalíticas, denominadas RIBOZIMAS e de grande importância na síntese proteica (CLARK; CHOI; DOUGLAS, 2018; VIEIRA; GAZZINELLI; MARES-GUIA, 2002). Figura 28: Exemplificaçãoda progressão das estruturas proteicas às moléculas globulares complexas ca- racterísticas das enzimas Fonte: Adaptado de Mendes (2013) Se observamos bem a Figura 28, veremos à direita um modelo da sequência de reação de catálise de uma apoenzima, destacando-se o sítio ativo no qual o substrato se liga a fim de catalisado em moléculas menores. Sendo assim enzimas são moléculas capazes de acelerar a velocidade de uma atividade biológica, possuindo atividade catalisadora, atuando em condições físico- químicas específicas. Durante sua ação, a enzima não é perdida, podendo exercer sua atividade catalítica sucessivamente. Todas as enzimas possuem alta especificidade por seus substratos, ou seja, elas se ligam apenas às moléculas as quais elas irão modificar. Grande parte dessas moléculas catalisadoras são maiores do que o substrato sobre o qual atuam, justamente por apenas uma pequena região da enzima (cerca de 3-4 aminoácidos) estar envolvida na catálise. Essa região em questão que se liga ao substrato e que desempenha a reação, é conhecida como sítio ativo das enzimas (Figura 28) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Existem quatro tipos estruturais de enzimas: enzimas simples (apoenzimas formadas apenas pelos aminoácidos), enzimas alostéricas (que dependem de moduladores alostéricos), holoenzimas (que dependem de cofatores ou coenzimas) e as iso-enzimas (enzimas diferentes que catalisam a mesma reação química) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). 46 Além da ação isolada da enzima, em alguns casos somente a interação entre a estrutura básica da enzima e o substrato não é o suficiente para que a atividade catalítica ocorra. Desta maneira, além dos sítios ativos das reações catalíticas, as moléculas de enzima podem possuir outros sítios, nos quais se ligam cofatores, que são necessários às reações catalíticas, porém sem serem o alvo da reação (Figura 29). Os cofatores possuem origem inorgânica, sendo formatos geralmente por átomos como magnésio, cálcio ou ferro. Além dos cofatores, outras moléculas que se fazem necessárias em algumas ocasiões são as coenzimas. De origem orgânica, as coenzimas servem o propósito de aceitar ou de doar grupos químicos ou átomos durante a atividade enzimática, também sem serem o alvo da reação em si. Existem também os moduladores alostéricos que regulam a atividade das enzimas alostéricas através de ligações não covalentes (que possuem regiões próprias de regulação). Todas essas moléculas servem para aumentar ou diminuir a atividade da enzima, providenciando um meio de regulação ou até mesmo serem indispensáveis à atividade enzimática (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Figura 29: Representação esquemática simplificada dos diferentes componentes de uma enzima conju- gada. Fonte: Fernandes (2017, online) Como toda proteína, as enzimas também são sensíveis a variações de pH e temperatura. Tais condições físico-químicas podem alterar fatores como a ligação do substrato ao sítio ativo ou demais sítios, afetando sua atividade catalítica, ou até mesmo modificando a estrutura do substrato, o que também afetará a reação. Portanto, tais variações externas da solução influenciam na atividade enzimática, e, consequentemente, na velocidade das reações. É importante ressaltar que as estruturas das enzimas são influenciadas por outros fatores como regulação da enzima, presença ou ausência de cofatores, que também influenciarão em suas atividades catalíticas. Também existem as isoenzimas que diferem na sequência de aminoácidos, mas que catalisam a mesma reação química. Entretanto, tais enzimas podem mostrar diferentes características cinéticos, ou propriedades de regulação diferentes da atividade catalítica (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Sendo assim, as enzimas são altamente dependentes de sua conformação estrutural tridimensional, sendo em sua maioria proteínas globulares. Devido a ligação específica das enzimas por seus substratos, a perda da estrutura nativa das enzimas impede sua interação com o substrato, fazendo com que a mesma perca sua função. Assim, todos os fatores que influenciam a manutenção estrutural de uma proteína podem influenciar em maior ou menor intensidade a atividade de uma enzima (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). 47 O que são enzimas? Neste vídeo é abordado brevemente em uma visão geral o que são as enzimas e suas principais funções em geral. LINK: https://bit.ly/309006D BUSQUE POR MAIS Leia mais sobre o assunto no nono capítulo “Enzimas” do livro Princípios da Bio- química para Universitários, Técnicos e Profissionais da Saúde de Galante e Araújo (2018) LINK: https://bit.ly/2GxZZ5N 4.2 FUNÇÃO As enzimas são proteínas com atividade intra ou extracelulares com funções catalisadoras em reações químicas que, sem a sua presença, dificilmente aconteceriam ou seriam lentas por demais. A função catalisadora das enzimas ocorre através da diminuição da energia de ativação necessária para que se dê início a uma reação química, sem alterar o equilíbrio desta e resultando no aumento da velocidade da reação, tornando possível o metabolismo dos seres vivos (Figura 30). A presença da atividade enzimática proporciona uma maior eficiência das reações reduzindo a energia de ativação torna-as imprescindíveis para aplicações industriais, como na indústria farmacêutica ou na alimentar. Figura 30: Gráfico de energia de ativação da reação química não-catalisada (preto) e catalisada (azul) por uma enzima Fonte: Adaptado de Nelson e Cox (2019) Na reação S→P da Figura 30 temos que os intermediários ES e EP ocupam o nível mínimo na curva de energia de por onde o “caminho” da reação percorre. A energia de ativação para a reação não catalisada é muito maior do que a energia necessária quando a reação é catalisada por uma enzima. Logo, conclui-se que a energia de ativação é menor quando a reação é catalisada por uma enzima, aumentando a eficiência da reação. Sendo assim a principal função desse grupo de proteínas é viabilizar a atividade celular e metabólica acelerando reações termodinamicamente possíveis. Em sistemas vivos, a maioria das reações bioquímicas ocorrem em vias metabólicas, que são sequências 48 de reações em que o produto de uma reação é utilizado como reagente na reação seguinte. Diferentes enzimas catalisam diferentes passos de vias metabólicas, agindo de forma concertada de modo a não interromper o fluxo nessas vias. Cada enzima pode sofrer regulação da sua atividade, aumentando-a, diminuindo-a ou mesmo interrompendo-a, de modo a modular o fluxo da via metabólica em que se insere (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Na formação das estruturas secundária e terciária de uma enzima acabam surgindo certos locais na molécula que servirão de encaixe para o alojamento de um ou mais substratos, os chamados sítios ativos, os quais possuem alta especificidade para substratos. Uma vez que as enzimas exibem estruturas flexíveis, os sítios ativos alteram sua forma de maneira continuada durante a catálise. As enzimas interagem com os substratos enquanto esse mesmo substrato vai interagindo com a enzima formando com eles, temporariamente, complexos transitórios chamados de complexos enzima-substrato. Assim que ocorre a reação química com os substratos, a enzima se modifica em um complexo enzima- substrato, o qual é desfeito posteriormente liberando-se os produtos. A enzima continua a atrair novos substratos para a formação de outros complexos de transição. É importante ressaltar que como catalisador de uma reação química, a enzima não é consumida durante a reação que ela catalisa (Figura 31) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2014; VOET; VOET; PRATT, 2014). Para que a atividade enzimática possa ocorrer a enzima não pode ser complementar a estrutura do substrato, e sim a estruturado estado de transição da molécula. Caso ela fosse complementar ao substrato a molécula obteria ainda mais estabilidade, aumento a energia necessária para se atingir o estado de transição (ALBERTS, et al., 2011; BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2014; VOET; VOET; PRATT, 2014). Figura 31: Esquema representativo da sequência catalítica de uma reação enzimática de uma apoenzima Fonte: Adaptado de Clark, Choi e Douglas (2018) 49 As enzimas possuem um importante papel na digestão de alimentos já que ace- leram a quebra de grandes moléculas para melhor absorção no nosso intestino e para nutrir e gerar energia para nossas células. Quando há falta ou deficiência de alguma dessas enzimas no organismo, elas podem gerar doenças e complica- ções que acabam por diminuir a qualidade de vida e restringir a dieta. Na doença celíaca, por exemplo, uma enzima presente nas células do intestino delgado de- sencadeia uma resposta imune que altera a absorção do glúten no organismo, o tratamento para essa doença geralmente, se dá pela restrição alimentar, porém segundo recente pesquisa realizada pelo Laboratório de Química Medicinal da Universidade Federal do Ceará, foi descoberto enzimas capazes de quebrar o glú- ten presentes na fruta “noni”. Segue abaixo o link da notícia, o artigo dos resulta- dos da pesquisa realizada e outro artigo intitulado “Doença Celíaca” que explica um pouco mais a fisiopatologia da doença. LINK: https://bit.ly/2G6VaQg BUSQUE POR MAIS O vídeo a seguir descreve mais detalhes sobre a ação de enzimas na natureza, inclusive no nosso dia a dia LINK: https://bit.ly/367SfSv Leia mais sobre o assunto no sexto capítulo “Enzimas” do livro Princípios de Bio- química de Lehninger de Nelson e Cox (2019). LINK: https://bit.ly/3lcuKvE 4.3 CINÉTICA ENZIMÁTICA As moléculas orgânicas geralmente possuem uma forte estabilidade estrutural, o que impede que ocorram modificações espontâneas sobre condições normais de temperatura e pressão, dessa forma a redução da energia de uma reação, mediada pela atividade de uma enzima, é fundamental para a vida. Por exemplo, os organismos podem utilizar a glicose para a síntese de energia orgânica formando gás carbônico e água, porém, por mais tempo que essa molécula permaneça no ambiente, essa reação nunca irá ocorrer normalmente devido a estabilidade da molécula de glicose, refletida na quantidade elevada de energia necessária para que a molécula atinja seu estado de transição. Dessa forma, quanto menor a energia necessária para que uma molécula atinja seu estado de transição, mais rápida será a velocidade dessa reação (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VIEIRA; GAZZINELLI; MARES-GUIA, 2002; VOET; VOET; PRATT, 2014). A cinética enzimática é o estudo do mecanismo pelo qual as enzimas se ligam aos substratos e os transformam em produtos. Para uma reação enzimática que possui um substrato sendo catalisado em um produto, a velocidade da reação V dependerá diretamente da concentração do substrato [S], quanto mais substrato maior a velocidade inicial da reação. O fator k é uma constante que reflete a probabilidade de uma reação ocorrer sob um conjunto de condições específicas como temperatura (T) e pressão. Além disso, o fator k depende diretamente da energia necessária para atingir o estado de 50 transição do substrato, onde kB em negrito é constante de Boltzmann e h a constante de Planck, como mostra a equação (1) (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). (1) Ou seja, a velocidade de uma reação enzimática esta baseada na concentração de substrato e por condições específicas descritas pela constante k, a qual dependerá de especificamente de condições externas e específicas a enzima em questão. Durante uma reação enzimática a enzima é encontrada em livre ou combinada, formando o complexo enzima/substrato. Em baixas concentrações de substrato existem várias enzimas livres, assim, com a adição de substrato a velocidade enzimática aumente quase exponencialmente (Figura 06). A velocidade inicial máxima (Vmáx) descreve o cenário em que todas as enzimas estão ligadas ao substrato, nesse caso, o aumento da concentração do substrato não acarreta no aumento da velocidade enzimática, já que foi atingido um platô de velocidade. Os pesquisadores Michaelis e Menten deduziram a equação (2) que determina essa velocidade com a hipótese de que a etapa limitante da velocidade em uma reação enzimática é a quebra do complexo enzima/substrato (ES) em produto e enzima livre. Através da equação é definida a relação quantitativa entre a velocidade inicial (V0), a velocidade máxima (Vmáx), e a concentração inicial de substrato ([S]), em relação à constante de Michaelis (Km). A equação descreve o comportamento da grande maioria das enzimas, para quando Km é igual a concentração de substrato quando a velocidade inicial é metade da velocidade máxima (Figura 32) (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). (2) Figura 32: Dependência da velocidade inicial da concentração Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 203) 51 A atividade das enzimas também pode ser regulada por modificações covalentes alostéricas ou não, tais como a adição de grupos fosfato a resíduos de serina, treonina ou tirosina. A fos- forilação é um mecanismo muito comum na regulação da atividade enzimática, a adição de grupos fosfato estimula ou inibe as atividades de muitas enzimas. A regulação da atividade enzimática pode ser controlada pela própria célula, na codificação de proteínas, como por ela mesma, variando de acordo com alguma molécula que se liga a ela. Por exemplo, em cená- rios de feedback negativo, o produto de uma via metabólica se liga a um sítio da enzima que está catalisando tal reação, inibindo-a e reduzindo sua atividade. Em compensação também se tem a indução enzimática que é uma elevação dos níveis de enzimas ou da velocidade dos processos enzimáticos. Alguns fármacos têm essa capacidade, por exemplo. FIQUE ATENTO 4.4 INIBIÇÃO ENZIMÁTICA Inibidores são moléculas capazes de interromper ou limitar a atividade de uma enzima, sendo divididos em inibidores irreversíveis ou reversíveis. Estes últimos são subdivididos em competitivos, não-competitivos ou mistos de acordo com a maneira que eles interferem na reação enzimática (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019). Os inibidores irreversíveis, como o nome já o diz, são àqueles que o inibidor geralmente se liga de forma covalente, bloqueando o sítio catalítico da enzima ou alterando sua conformação estrutural natural. Desta maneira a enzima fica impossibilitada de realizar a reação após a inibição que não tem como ser desfeita, inutilizando a enzima nas reações. Estes inibidores, comumente são muito tóxicos para o organismo já que alguns não são específicos, sendo capazes de inativar qualquer enzima. O ácido cianídrico (HCN) e grande número de pesticidas, como o DDT, são exemplos de inibidores irreversíveis de enzimas que intervêm na respiração (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Diferentemente, os inibidores reversíveis são moléculas que impedem temporariamente a ação da enzima que possuem afinidade ao respectivo sítio ativo. Neste caso o inibidor estabelece com a enzima um complexo com uma ligação instável, não covalente. A inibição reversível competitiva ocorre quando o inibidor se liga diretamente ao sítio ativo da enzima, competindo pela ligação nesse local com o substrato. Já a inibição reversível não competitiva ocorre quando o inibidor se liga a enzima após a formação do complexo enzima-substrato, impedindo a continuidade da reação. Enquanto na inibição reversível mista, assim como na não competitiva, o inibidor se liga fora do sítio ativo da proteína, entretanto, nesse caso não precisa aguardar a formação do complexo enzima/ substrato, podendo se ligar tanto ao complexo transitório quanto à enzima livre. Tanto os inibidores não competitivos, quanto os mistos não bloqueiam a ligação com o substrato,mas causam outras alterações na enzima de forma que ela não consiga mais catalisar a reação de forma eficiente (Figura 33) (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014) 52 Fi g u ra 3 3: E sq u em as d os t ip os d e in ib id or es re ve rs ív ei s: a ) I n ib id or es c om p et it iv os ; b ) I n ib id or es n ão c om p et it iv os e c ) I n ib id or es m is to s Fo n te : N el so n e C ox (2 0 19 , p . 2 0 8) A indústria, juntamente com o agronegócio tem utilizado de maneira ampla enzimas exóge- nas diversas para melhorar e até mesmo evitar desperdícios da produção. A própria inclusão de enzimas artificialmente produzidas na indústria farmacêutica em dietas de pessoas com restrições alimentares também se tornou comum nas últimas décadas. Consegue-se imagi- nar os pontos positivos dessas ações, redução nos custos da alimentação por meio da dimi- nuição da utilização de ingredientes onerosos tanto para o setor primário quanto para o seu consumidor final. Em compensação tal utilização em larga escala desses artifícios enzimáti- cos não acarretariam consequências à produção, ou até mesmo aos consumidores? Inspirados por esse prisma, tem-se o filme “Óleo de Lorenzo”, que fez muito sucesso no início da década de 90 em todo mundo. Baseado em uma história real, o filme mostra a angús- tia de uma família quando o filho Lorenzo, é diagnosticado com adrenoleucodistrofia (ALD), uma doença degenerativa extremamente rara e incurável, em que ocorre o desgaste da mie- lina (presente no neurônio), provocado pelo acúmulo de gorduras saturadas devido a falhas congênitas no cromossomo X. No entanto é descoberta uma forma exógena de amenizar a doença através da produção do óleo de Lorenzo que é a designação de uma mistura de deri- vados dos ácidos oleico e erúcico, preparados a partir dos óleos de oliva e canola, entretanto ainda existem muitas controvérsias sobre seu real benefício, e sua eficácia ainda está sendo avaliada. VAMOS PENSAR? 53 1 - As enzimas estão presentes em pequenas quantidades no organismo. Elas são moléculas extremamente específicas, atuando somente sobre um determinado composto e efetuam sempre o mesmo tipo de reação. Em relação às enzimas, foram feitas quatro afirmações: I. Enzimas são proteínas que atuam como catalisadores de reações químicas. II. Cada reação química que ocorre em um ser vivo, geralmente é catalisada por um tipo de enzima. III. A velocidade de uma reação enzimática independe de fatores como a temperatura e o pH do meio. IV. As enzimas sofrem um processo de desgaste durante a reação química da qual participam. São verdadeiras as afirmações: a) Apenas I e II. b) Apenas I e III. c) Apenas I, II IV. d) Apenas III e IV. e) I, II, III e IV. 2 - Enzimas são moléculas que participam ativamente dos processos biológicos. Sobre as enzimas, é CORRETO afirmar que a) se desgastam durante a reação. b) são catalisadores orgânicos de natureza lipídica. c) aumentam a velocidade da reação e diminuem a energia de ativação. d) suportam altas temperaturas sem sofrer desnaturação. e) atuam apenas no âmbito celular. 3 - O ADH requer NAD+ para sua atividade catalítica. Na reação catalisada pela ADH, um álcool é oxidado a um aldeído e o NAD+ é reduzido a NADH e dissociado da enzima. O NAD+ funciona como um(a) a) Apoenzima; b) Coenzima, cosubstrato; c) Coenzima, grupo prostético; d) Cofator; e) Efetor heterotrópico. 4 - As enzimas biocatalisadoras da indução de reações químicas reconhecem seus substratos através da a) temperatura do meio. FIXANDO O CONTEÚDO 54 b) forma tridimensional das moléculas. c) energia de ativação. d) concentração de minerais. e) reversibilidade da reação. 5 - As enzimas são, na sua grande maioria, proteínas altamente especializadas que catalisam as mais diversas reações químicas. Em relação à atividade dessas moléculas é correto afirmar que a) aumentando-se gradativamente a concentração do substrato, observa-se um aumento da velocidade da reação até um platô máximo, independente da enzima. b) um aumento da concentração do substrato causa uma diminuição da velocidade da reação, pois o substrato passa a inibir a ação da enzima. c) o aumento da temperatura sempre provoca um aumento na velocidade da reação enzimática até uma temperatura crítica, quando ocorre uma queda na atividade da enzima em consequência de sua desnaturação. d) a velocidade de uma determinada reação enzimática está associada apenas ao pH, sendo que cada enzima tem um pH ótimo de atuação. e) a atividade de uma determinada enzima é inibida irreversivelmente por um mecanismo chamado de inibição competitiva, na qual o inibidor tem a forma semelhante ao substrato. 6 - O gráfico a seguir mostra como a concentração do substrato afeta a taxa de reação química: O modo de ação das enzimas e a análise do gráfico permitem concluir que a) todas as moléculas de enzimas estão unidas às moléculas de substrato quando a reação catalisada atinge a taxa máxima. b) com uma mesma concentração de substrato, a taxa de reação com enzima é menor que a taxa de reação sem enzima. c) a reação sem enzima possui energia de ativação menor do que a reação com enzima. d) o aumento da taxa de reação com enzima é inversamente proporcional ao aumento da concentração do substrato. e) a concentração do substrato não interfere na taxa de reação com enzimas porque estas são inespecíficas. 7 - O gráfico abaixo mostra a taxa de digestão de um alimento em diferentes pH. 55 Com base nesses dados, podem ser substrato e enzima, respectivamente a) amido e amilase da saliva. b) proteína e pepsina. c) proteína e tripsina. d) gordura e lipase intestinal. e) amido e amilase intestinal. 8 - Qual é a função primária dos cofatores? a) Para ajudar na função da enzima. b) Para sintetizar as enzimas. c) Para inibir as enzimas. d) Para quebrar enzimas velhas. e) Para cooperar com as enzimas na produção de substrato. 56 CARBOIDRATOS UNIDADE 05 57 Carboidratos são moléculas orgânicas amplamente distribuídas na natureza, compostas basicamente por moléculas de carbono hidratadas, tendo como sua fórmula básica estrutural (CH2O)n. Desta maneira em uma estrutura básica de um carboidrato contendo três carbonos teríamos (CH2O)3 ou C3H6O3, sempre com no formato de uma hidroxila e um átomo de hidrogênio, para cada átomo de carbono (ALBERTS et al., 2011; BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Além de seu formato básico, modificações como a remoção ou adição grupos específicos podem ocorrer, como no caso da desoxirribose da notória molécula de DNA, que possui um oxigênio a menos, ou da quitina, açúcar que compõem a carapaça de diversos invertebrados, constituída de uma molécula de glicose com um grupo acetamida ligada ao segundo carbono substituindo uma hidroxila (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014) Assim como no caso de outras moléculas orgânicas, os açucares também possuem isomeria ótica quando um ou mais carbonos realizam quatro ligações simples com grupos químicos diferentes. Dessa forma, quanto mais carbonos em sua estrutura, mais isômeros a molécula de carboidratos irá possuir. Mas independentemente do número de isômeros óticos, as moléculas possuem a tendência de girarem para esquerda ou direita quando incindidas por luz polarizada, sendo classificados os isômeros óticos destros ou levos (Figura 34). No metabolismo, apenas os isômeros destros de carboidratos são utilizados. Os carboidratos podem ser classificados de acordo com a posição da dupla ligação com o oxigênio em aldoses, que possuem a dupla ligação na extremidade da cadeia ou em cetoses, que possuem a dupla ligação no meio da cadeia carbônica. Outra classificação utilizada para carboidratos leva em consideração o número de carbonos de sua estrutura, sendo os carboidratos mais simples as trioses, possuindo três carbonos, em sequência existem as tetroses com quatro carbonos,as pentoses com cinco carbonos, as hexoses com seis carbonos, e assim por diante. Essas estruturas são consideradas as unidades monoméricas, chamadas monossacarídeos, que podem formar estruturas mais complexas (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). De acordo com o número de unidades monoméricas presentes na estrutura de um carboidrato, ele pode ser classificado em monossacarídeo, contendo uma unidade monomérica, dissacarídeo, contendo duas unidades monoméricas, oligossacarídeo, contendo entre três e dezenove unidades monoméricas ou em polissacarídeos, contendo vinte ou mais unidades monoméricas. 5.1 ESTRUTURA Figura 34: representação do isômero ótico Destro (A) e Levo (B) da glicose, destacando o local do grupo carbonila Fonte: Adaptado de Constantino (2005) Apesar de poderem ser representados em sua estrutura linear, os carboidratos tendem a formar estruturas cíclicas em condições normais de temperatura e pressão. O processo de ciclização (Figura 35) ocorre de forma semelhante para aldoses e cetoses, através do ataque nucleofílico do oxigênio presente na dupla ligação geralmente ao penúltimo carbono da sequência linear, entretanto, para que a ciclização ocorra, são necessários, no mínimo três carbonos de distância, o que implica em apenas pentoses ou monossacarídeos com mais carbonos sendo encontrados em sua estrutura cíclica na natureza, as aldoses formam estruturas cíclicas chamadas acetais 58 enquanto as cetoses formam os cetais. Durante a ciclização o carbono anteriormente realizando uma dupla ligação com o oxigênio se torna um carbono quiral, fazendo quatro ligações simples com grupos químicos diferentes, dessa forma a ciclização da origem aos anômeros de ciclização alfa e beta, isômeros óticos. Figura 35: Esquematização do processo de ciclização de carboidratos Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 283) Durante esse processo de ciclização, o grupo carbonila é desfeito, e o carbono anteriormente associado por dupla ligação ao oxigênio passa a realizar quatro ligações simples com grupos diferentes, se tornado um carbono quiral. Esse centro quiral de ciclização é chamado de anômero alfa ou anômero beta dependendo da conformação estrutural adotada (Figura 36). A diferença entre os anômeros está relacionada a posição dos grupos hidroxila da molécula, em especial da hidroxila presente agora no carbono que anteriormente formava o grupo carbonila. Essa diferença estrutural atribui propriedades específicas as moléculas ciclizadas quanto a posição das pontes de hidrogênio que podem ser formadas, podendo ser utilizada para distinguir a função da molécula de acordo com o tipo de anômero em casos como o da glicose (Figura 37), que será discutido posteriormente (SOLOMONS; FRYHLE, 2012; NELSON; COX, 2014; VOET; VOET; PRATT, 2014). Figura 36: Processo de ciclização da D-Glicose e formação dos anômeros alfa e beta de Glicopiranose Fonte: Adaptado de Nelson e Cox (2019) Figura 37: Representação dos anômeros alfa e beta da glicose, destacando a diferença na posição do grupo hidroxila no carbono 1 Fonte: Adaptado de Nelson e Cox (2019) 59 A celulose apesar de amplamente distribuída na natureza e de ser considerada o carboidrato mais abundante, é um produto renovável. Ela é o principal componente da parede celular das células vegetais, o que confere rigidez para as plantas. Industrialmente, é processada para produção de papéis e fibras. Ela também pode sofrer outros tipos de modificações e servir para a elaboração de plásticos. Esse processamento industrial da celulose é uma importante atividade econômica no Brasil. Porém é importante ressaltar que a utilização de celulose para a fabricação de papel e seus derivados gera diversos resíduos. A possibilidade de reutilizar esse polissacarídeo em suas implicações industriais ainda é relativamente pouco explorada, principalmente devido à resistência do mercado, mesmo com a elevada qualidade do mate- rial obtido. Assim, cabe a cada indivíduo realizar ações que visem a minimização dos impac- tos que a utilização indiscriminada, não só do papel, mas de todos os materiais renováveis e não renováveis causam ao meio ambiente. FIQUE ATENTO Assim como a celulose a quitina é um polissacarídeo não ramificado, entretanto é baseado em um monômero de glicose modificado, sendo a diferença a substituição do grupo hidroxila (OH) por um grupo amina acetilado, ou acetamina (R-NH-CO-CH3), no segundo carbono (Figura 38). A quitina é o segundo polissacarídeo de maior abundância do planeta, presente na parede celular dos fungos, no exoesqueleto dos artrópodes, em alguns crustáceos entre outros invertebrados (ALBERTS et al., 2011; NELSON; COX, 2019; SOLOMONS; FRYHLE, 2012). Nos insetos, a quitina oferece proteção, suporte e sustentação ao corpo através do exoesqueleto. No caso dos fungos, a quitina é parte constituinte da parede celular que proporciona rigidez às células. Além disso, a quitina também evita a perda de água em ambos grupos de seres vivos. Atualmente, a quitina também apresenta potencial para uso biotecnológico por ser uma substância não alergênica e biodegradável, podendo ser transformada em fibras para fabricação de tecidos, embalagens descartáveis, suturas cirúrgicas e até mesmo como aditivo alimentar a fim de reduzir a ingestão de calorias e colesterol em dietas. Figura 38: Representação da quitina com destaque para a subs- tituição do grupo hidroxi-la (OH) por um grupo amina acetilado Fonte: Adaptado de Nelson e Cox (2019) Para a formação das estruturas macromoleculares de carboidratos os monossacarídeos realizam ligações por condensação, ou seja, realizam uma ligação covalente onde um grupo hidroxila de um monossacarídeo e um hidrogênio de outro monossacarídeo são removidos liberando uma molécula de água (H2O), dando origem a um dissacarídeo. Por sua vez a degradação dos polissacarídeos ocorre através da hidrólise, ou seja, a degradação enzimática adiciona a hidroxila e o hidrogênio anteriormente removidos (Figura 39). Dentre os dissacarídeos de maior importância biológica e comercial se destacam: a maltose, formada por duas moléculas de glicose, advinda da molécula de amido. A sacarose, formada por uma molécula de glicose e uma de frutose, em abundância alimentos como cana-de- açúcar, frutas e na beterraba. E a lactose, formada por uma molécula de glicose e uma de galactose, é o açúcar presente no leite e seus derivados (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). 60 Figura 39: Representação dos processos de síntese por condensação e de de- gradação por hidrólise Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 252) Os monossacarídeos, aldoses e cotoses, não possuem apenas uma conformação baseada na fórmula estrutural básica dos carboidratos, podendo apresentar inúmeras variações. Um exemplo clássico são as pentoses ribose e desoxirribose, que constituem o RNA e o DNA respectivamente, enquanto a ribose apresenta em sua estrutura uma relação direta com a fórmula básica dos carboidratos a desoxirribose possui uma molécula de oxigênio a menos (Figura 40). FIQUE ATENTO Figura 40: Representação da ribose (A) e Desoxirribose (B) destacando o grupo carbonila (em preto) e a diferença entre as estruturas (em vermelho) Fonte: Adaptado de Nelson e Cox (2019) A família da glicose (Figura 41) pode ser utilizada para representar essa imensa diversidade, apresentando grupos associados a diferentes posições que atribuem propriedades específicas à molécula. Essa grande diversidade baseada em moléculas relativamente simples torna os carboidratos moléculas de escolha para a formação de uma estrutura celular importante chamada de glicocálice, presente no lado externo da membrana plasmática de eucariotos. Através dessa estrutura, formada por moléculas de carboidratos associadas a moléculas proteicas (Proteoglicanos e glicoproteínas) e lipídicas (glicoesfingolipídeos), as células realizam o procedimento de autorreconhecimento,participando na defesa imunológica célula-célula. Um exemplo clássico desse reconhecimento celular é o sistema sanguíneo baseado nos antígenos A, B e O, cuja atividade ocorre devido a alterações no gene das glicosiltransferases (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). 61 O vídeo a seguir realiza uma explicação básica sobre o sistema de classificação sanguínea A, B e O. LINK: https://bit.ly/3iiIZ0l BUSQUE POR MAIS Leia o artigo publicado por Batissoco e Novaretti (2003) com informações detalha- das sobre os diversos aspectos moleculares envolvendo o sistema de classificação sanguínea A, B e O. LINK: https://bit.ly/2FLEoXi Leia mais sobre o assunto no sétimo capítulo “Carboidratos e glicobiologia” do livro “Princípios de Bioquímica de Lehninger” de Nelson e Cox (2019). LINK: https://bit.ly/3jA9cJa Figura 41: A Glicose e algumas das moléculas baseadas em sua estrutura básica Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 249) Através da ligação de mais de vinte moléculas de monossacarídeos, ocorre a formação de estruturas macromoleculares chamadas polissacarídeos, podendo ser formadas por uma mesma unidade monomérica (ex: glicose) formando os homopolissacarídeos, ou por diferentes unidades monoméricas (ex: glicose, frutose e galactose) formando os heteropolissacarídeos. As ligações de condensação para a formação dos polissacarídeos podem ou não ser lineares, caso a estrutura apresente uma ligação não linear, ela é dita ramificada. Assim, através dessas ligações de condensação podem ser formados homopolissacarídeos ramificados, homopolissacarídeos não-ramificados, heteropolissacarídeos ramificados ou heteropolissacarídeos não-ramificados (Figura 42) (ALBERTS et al., 2011; BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). 62 Figura 42: Representação de homopolissacarídeos e heteropolissacarídeos com e sem ramificação Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 249) 5.2 FUNÇÃO Dentre os diversos polissacarídeos, os mais abundantes são os homopolissacarídeos de glicose e derivados, atuando com funções estruturais e de reserva energética. O amido, utilizado como reserva energética por plantas e bactérias é formado por dois polissacarídeos de glicose combinados, sendo um homopolissacarídeo não ramificado. A amilopectina também é um homopolissacarídeo, porém ramificado. Da mesma forma que a amilopectina, o glicogênio utilizado pelos animais e fungos como reserva energética é um homopolissacarídeo ramificado, apresentando como principal diferença o seu maior tamanho em relação a amilopectina (ALBERTS et al., 2011; BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). O glicogênio é um anômero alfa ( ), sendo que a ciclização ocorre no carbono 1, ela passa a ser chamado de 1 , a reação de condensação da glicose ocorre entre o carbono 1 de uma unidade monomérica e o carbono 4 de outra unidade monomérica, realizando assim a ligação de condensação chamada 1 4 (Figura 43A). Suas ligações de condensação que formam as ramificações ocorrem entre o carbono 1 de uma unidade monomérica e o carbono 6 de outra unidade monomérica, lembrando que esse carbono 6 está fora da estrutura de ciclização, e por isso apresenta um formato de ramificação da estrutura linear através da ligação de condensação 1 6 (Figura 43B) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Fi g u ra 4 3: L ig aç ão d e co n d en sa çã o 1 4 (A ) e lig aç ão d e co n d en sa çã o 1 6 Fo n te : N el so n e C ox (2 0 19 ) 63 Outro importante exemplo de polissacarídeo de armazenamento baseado na unidade monomérica de glicose é o amido, sendo o polissacarídeo de armazenamento preferencialmente utilizado pelas plantas, é formado por dois polissacarídeos combinados, a amilopectina, um homopolissacarídeo ramificado, que possui as ligações 1 4 e 1 6, e a amilose, um homopolissacarídeo não-ramificado, que possui apenas a ligação 1 4 (Figura 44) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VIEIRA; GAZZINELLI; MARES- GUIA, 2002). Figura 44: Representação da formação do amido e a relação entre a amilopectina e amilose Fonte: Adaptado de Nelson e Cox (2019) Um problema associado ao armazenamento energético de carboidratos é seu peso associado a molécula de água, para cada grama de carboidratos são associados aproximadamente 3 gramas de água. Para as plantas, organismos imóveis, essa associação não gera problemas, uma vez que seus depósitos ocorrem geralmente nas raízes, entretanto, para animais, o exces- so de peso relacionado a esse armazenamento impossibilita sua utilização exclusiva, uma vez que o custo energético de deslocamento do peso seria elevado. Assim, os animais possuem um limite máximo de armazenamento de glicogênio, sendo seu excesso convertido a triacilglice- rídeos, o lipídeo de armazenamento energético. Mesmo com o excesso de peso relacionado a seu armazenamento, o glicogênio é de extrema importância para os animais, uma vez que o tecido neural e as hemácias dependem dos níveis plasmáticos de glicose para seu metabolis- mo. FIQUE ATENTO Por sua vez, a o homopolissacarídeo não ramificado de glicose chamado celulose possui função estrutural, formando a parede celular vegetal, a diferença estrutural da celulose quando comparada a estrutura da amilose é encontrada na ciclização dos monossacarídeos em formato de anômero beta. Enquanto os anômeros alfa da amilose possuem uma estrutura tridimensional em formato de espiral, os anômeros beta da celulose possuem uma conformação estrutural mais espalhada, formando lâminas altamente rígidas (Figura 45) o que gera essa característica as células vegetais (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). 64 Figura 45: Representação da reação de condensação 1 4 e as pontes de hidrogênio formadas entre as moléculas na celulose Fonte: Adaptado de Nelson e Cox (2019, p. 257) As propriedades do anômero beta diferem esse polissacarídeo dos de armazenamento devido a posição das ligações por ponte de hidrogênio formadas entre os monômeros de glicose (Figura 46). Os anômeros alfa apresentam uma disposição de pontes de hidrogênio que favorece a formação de hélices tridimensionais, por sua vez, os anômeros beta distribuem suas pontes de hidrogênio de maneira a formar estruturas mais lineares e finas, em formato de folhas, com uma maior proximidade entre os grupos hidroxila, aumentando a força de interação molecular, resultando em uma estrutura rígida (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). β Figura 46: Representação das interações moleculares e conformação tridimensional de homopolissacarídeos não ramificados de glicose em anômero alfa (A) e beta (B) Fonte: Adaptado de Nelson e Cox (2019) A seguir, um vídeo sobre o processo de utilização da celulose para a produção de papel. LINK: https://bit.ly/3jbVzQb BUSQUE POR MAIS Leia mais sobre o assunto no décimo capítulo “Carboidratos” do livro “Princípios da Bioquímica para Universitários, Técnicos e Profissionais da Saúde”, de Galan- te e Araújo (2018) LINK: https://bit.ly/2F6qNJz 65 Além dos polissacarídeos os carboidratos podem se ligar a outros tipos de moléculas? Claro que sim, temos os Glicoconjugados, de suma importância nas estruturas das membranas celulares, sendo os proteoglicanos e as glicoproteínas (carboidratos ligados a proteínas), além dos glicoesfingolipídeos (carboidratos ligados a lipídios). Tem como principal função serem transportadores de informação no organismo. Para buscar-se tais informações a glicômica é um levantamento que determina a totalidade das moléculas contendo açúcar em uma cé- lula ou tecido, assim como a determin-ção da função de cada uma dessas moléculas. Além disso, aprofundando neste assunto temos a glicobiologia, que é o estudo da estrutura e da função dos glicoconjugados. Cada vez fica mais claro que as células utilizam oligossacarídeos específicos para codificar importantes informações sobre o destinode proteínas, as intera- ções célula-célula, a diferenciação celular e o desenvolvimento de tecidos, além de os utiliza- rem como sinais extracelulares. VAMOS PENSAR? 5.3 GLICÓLISE O processo inicial de degradação da glicose para obtenção de energia chamado glicólise é altamente conservado evolutivamente, desde arqueobactérias a mamíferos. Esse processo metabólico consiste em dez etapas enzimáticas que ocorrem no citoplasma celular, podendo ser dividido em duas fases. Na primeira, chamada de fase de preparação ou preparatória (Figura 47), o processo de degradação é iniciado pela fosforilação mediada pela hexocinase, sendo adicionado um grupo fosfato ao sexto carbono formando a glicose-6-fosfato, que em sequência é convertida a cetose pela fosfo-hexose-isomerase à frutose-6-fosfato, que agora possui mais um carbono livre na posição 1, que é fosforilado fosfofrutocinase-1, formando frutose-1,6-bifosfato. Ambos os grupos fosfatos são originados de moléculas de adenosina trifosfato (ATP), ocorrendo assim o gasto de duas moléculas de ATP durante a fase de preparação (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019). Fi g u ra 4 7: E sq u em at iz aç ão d a fa se d e p re p ar aç ão d a g lic ól is e Fo n te : A d ap ta d o d e N el so n e C ox (2 0 19 ) 66 A fase de preparação continua pela clivagem da molécula pela aldolase, formando duas moléculas contendo três carbonos cada, um gliceroldeido-3-fosfato e uma di- hidroxiacetona-fosfato, entretanto apenas o gliceroldeido-3-fosfato é utilizado na próxima fase do processo, para isso a di-hidroxiacetona-fosfato é convertida a gliceroldeido-3-fosfato pela enzima tiosefosfato-isomerase (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Na segunda fase, chamada de pagamento (Figura 48), o processo continua agora com duas moléculas de gliceroldeido-3-fosfato, advindas da clivagem da glicose, assim, todos os processos descritos a seguir devem ser analisados em dobro. No início da fase de pagamento, o gliceroldeido-3-fosfato é oxidado e fosforilado pela gliceroldeido-3-fosfato- desidrogenase, ocorrendo a adição de um fosfato inorgânico ao primeiro carbono e a síntese de uma molécula de Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo (NADH), a liberação de um hidrogênio na forma de H^+ para o meio e a formação da molécula de 1,3-bifosfoglicerato (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Fi g u ra 4 8: E sq u em at iz aç ão d a fa se d e p ag am en to d a g lic ól is e Fo n te : A d ap ta d o d e N el so n e C ox (2 0 19 ) A continuação da fase de pagamento ocorre pela fosforilação de uma molécula de Adenosina difosfato (ADP) pela ação da enzima fosfoglicerato-cinase, formando uma molécula de ATP e liberando 3-fosfoglicerato, transformada em 2-fosfoglicerato pela fosfoglicerato-mutase. A enzima enolase remove uma molécula de H2O, gerando fosfoenolpiruvato, utilizado para a fosforilação de outra molécula de ADP, formando mais uma molécula de ATP e o produto final da glicólise, a molécula de piruvato (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Como o início do processo da fase de pegamento corresponde a utilização de duas moléculas de gliceroldeido-3-fosfato para cada molécula de glicose, pode-se dizer que durante a fase de preparação ocorre o gasto de duas moléculas de ATP e durante a fase de pagamento a produção de quatro moléculas de ATP, duas moléculas de NADH e duas moléculas de H2O restando ao final do processo duas moléculas de piruvato para cada 67 molécula de glicose utilizada (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). A continuação do processo metabólico da glicose pode seguir três vias principais, com certa variação em alguns procariotos, sendo utilizada na produção das pentoses que constituem os ácidos nucleicos, em organismos anaeróbicos ou em estados de hipóxia e anóxia em aeróbicos, é direcionada à fermentação, e em organismos aeróbicos na presença de oxigênio é direcionada ao ciclo do ácido cítrico, que será discutido na unidade 07 de bioquímica (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). 5.4 FERMENTAÇÃO A principal função atribuída á fermentação é anular o hidrogênio livre e o NADH produzidos durante a glicólise dispersos no citoplasma, uma vez que são moléculas altamente reativas que podem danificar a estrutura de outras moléculas citosólicas. Dependo do organismo a fermentação ocorre por dois processos distintos. Mais comum em procariotos e leveduras a fermentação alcoólica (Figura 49) ocorre em duas etapas, sendo muito explorada na indústria panificadora, de bebidas alcoólicas e de combustíveis (ALBERTS et al., 2011; BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019). Figura 49: Representação do processo de fermentação alcoólica Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 565) O processo é iniciado com descarboxilação do piruvato, liberando uma molécula de CO2 e formando acetaldeído que em sequência é desidrogenado pela álcool-desidrogenase em etanol, consumindo o NADH e o H+ produzidos durante a glicólise. Por sua vez, em alguns procariotos e nos demais eucariotos ocorre a fermentação lática (Figura 17) pela atividade da enzima lactato-desidrogenase, consumindo o NADH e o H+ produzidos durante a glicólise para a formação de ácido lático ou lactato (NELSON; COX, 2019). Figura 50: Representação do processo de fermentação lática Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 563) 68 1 - Sobre os carboidratos é correto afirmar: a) são biomoléculas encontradas principalmente nas carnes. b) são classificados em dois tipos: carboidratos maiores e menores. c) são classificados de acordo com o número de carbonos. d) são essenciais para as reações físicas do corpo humano. e) são considerados nocivos aos seres humanos. 2 - Complete a frase abaixo com as palavras corretas descritas nas opções. Os carboidratos, também chamados de _________________ ou hidratos de carbono, são moléculas orgânicas que constituem a principal fonte de energia para os seres vivos. Com exceção do __________, todos os carboidratos são de origem vegetal, e eles podem ser classificados em monossacarídeos, dissacarídeos e ________________. Os ___________ apresentam átomos de carbono em sua molécula e seus principais representantes são a glicose, frutose e ___________. a) energéticos, carne, polissacarídeos, dissacarídeos, lactose. b) açúcares, mel, polissacarídeos, monossacarídeos, galactose. c) hidratos, ovos, oligossacarídeos, polissacarídeos, ácidos nucleicos. d) substâncias estruturais, peixes, polissacarídeos, monossacarídeos, galactose. e) polímeros, ovos, polissacarídeos, monossacarídeos, lactose. 3 - Durante a união de duas unidades monoméricas ocorre uma reação de condensação, também chamada de glicosídica, onde uma molécula de água é produzida através da união de um grupo hidroxila e um hidrogênio. Marque a alternativa que corresponde ao número de moléculas de água gastas para a hidrólise completa de um polissacarídeo contendo 100 unidades monoméricas de glicose. a) 50. b) 99. c) 100. d) 101. e) 200. 4 - Algumas unidades monoméricas básicas são encontradas de maneira mais abundante na natureza, dentre elas se destacam as hexoses glicose, frutose e galactose. Marque a alternativa que corresponde corretamente aos dissacarídeos formados pela ligação entre essas unidades monoméricas. a) Glicose + Frutose = Manose. b) Glicose + Glicose = Lactase. c) Glicose + Galactose = Sacarose. d) Glicose + Galactose = Lactose. FIXANDO O CONTEÚDO 69 e) Glicose + Frutose = Sacarase. 5 - O papel comum é formado, basicamente, pelo polissacarídeo mais abundante no planeta. Este carboidrato, nas células vegetais, tem a seguinte função: a) Revestir as organelas. b) Formar a membrana plasmática. c) Compor a estrutura da parede celular. d) Acumular reserva energética no hialoplasma. e) Servir de transportadorde informações. 6 - As plantas e animais utilizam diversos componentes químicos na formação de partes importantes de seus organismos ou na construção de estruturas importantes em sua sobrevivência. A seguir estão citados alguns: I. O esqueleto externo dos insetos é composto de um polissacarídeo. II. As células vegetais possuem uma parede formada por polipeptídeos. III. Os favos das colmeias são constituídos por lipídios. IV. As unhas são impregnadas de polissacarídeos que as deixam rígidas e impermeabilizadas. Estão corretas as afirmativas: a) I e II. b) I e III. c) I e IV. d) II e III. e) II e IV. 7 - As moléculas de carboidratos estão amplamente distribuídas no planeta, estando presentes em todos os organismos. Suas funções são as mais diversas, desde armazenamento de informação genética à função estrutural. Dentre os diversos tipos e subtipos de carboidratos, marque a alternativa que corresponde ao polissacarídeo mais abundante no planeta. a) Glicose. b) Celulose. c) Glicogênio. d) Amido. e) Quitina. 8 - As fibras musculares estriadas armazenam um carboidrato a partir do qual se obtém energia para a contração. Essa substância de reserva se encontra na forma de a) Amido. b) Glicose. c) Maltose. d) Sacarose. e) Glicogênio. 70 LIPÍDEOS UNIDADE 06 71 6.1 INTRODUÇÃO Os lipídeos são moléculas que possuem características apolares e uma grande variedade estrutural, refletida em diversas funções biológicas exercidas por essas moléculas como armazenamento e produção de energia, sinalizadora, hormonal, estrutural, de coenzima, entre outras. Serão abordadas as estruturas gerais associadas a função de armazenamento energético, constituinte das membranas biológicas e as estruturas gerais das mesmas, assim como funções hormonais associadas aos compostos lipídicos. Ainda, será abordado o processo de produção energética pela degradação de lipídeos de armazenamento através do ciclo de Lynen, também chamado de oxidação beta ( ), responsável pela produção de produtos que serão utilizados em outras etapas metabólicas para a produção de energia química. β 6.2 LIPÍDEOS DE ARMAZENAMENTO Os hidrocarbonetos, formados por átomos de carbono e hidrogênio, são a base estrutural formadora das moléculas orgânicas. Por definição, os lipídeos são formados pela junção de uma ou mais cadeias carbônicas de hidrocarbonetos associadas a um ou mais grupos moleculares, que definem o tipo e a função do lipídeo. Os lipídeos de armazenamento, são formados por duas moléculas distintas, ácidos graxos e glicerol. Os ácidos graxos são compostos por uma cadeia carbônica longa de hidrocarbonetos ligada a um grupo carboxílico (R - COOH) em uma das extremidades, por sua vez o glicerol possui três carbonos, cada um associado a um grupo álcool (Figura 51). Assim, através da reação de condensação entre a região carboxila de três ácidos graxos com os grupos álcool do glicerol é formada a molécula de triacilglicerídeo (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; CONSTANTINO, 2005; SOLOMONS; FRYHLE, 2012). Fi g u ra 5 1: E st ru tu ra d os á ci d os g ra xo s (A ), g lic er ol (B ) e d os t ri ac ilg lic er íd eo s (C ) Fo n te : N el so n e C ox (2 0 19 , p . 5 63 ) 72 Apesar de ser considerada a molécula lipídica mais simples, os ácidos graxos possuem uma peculiaridade, a capacidade de formar ligações duplas entre os carbonos constituintes do esqueleto carbônico da porção referente aos hidrocarbonetos. Assim, eles são classificados de acordo com a presença ou ausência dessa dupla ligação entre carbonos em ácidos graxos insaturados ou saturados respectivamente (Figura 52). A dupla ligação entre carbonos de um ácido graxo ou insaturação gera a perda de linearidade molecular, o que faz com que a molécula possua um volume relativo superior a moléculas saturadas. Ainda, a insaturação pode ocorrer em qualquer posição da cadeia carbônica e mais de uma vez, entretanto, nunca ocorre duas vezes no mesmo carbono, ou seja, nenhum lipídeo apresenta a configura eletrônica de um carbono realizando duas duplas ligações com carbonos dentro da sequência da cadeia carbônica nos ácidos graxos (R = C = R) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; SOLOMONS; FRYHLE, 2012). Figura 52: Exemplo de ácidos graxos saturados e insaturados Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 359) Para entender sobre a absorção de absorção de lipídeos da dieta leia o artigo publicado Sant´Ana (2004). LINK: https://bit.ly/2ErNsQe BUSQUE POR MAIS Leia mais sobre o assunto no décimo capítulo “Lipídeos” do livro “Princípios da Bioquímica para Universitários, Técnicos e Profissionais da Saúde”, de Galante e Araújo (2018) LINK: https://bit.ly/2F6qNJz 73 Lipídeos saturados e insaturados são encontrados em diversos alimentos, apesar da discus- são sobre o consumo de lipídeos apontar para a necessidade de diminuição do consumo dessas moléculas por grande parte da população, a American Heart Association recomenda que entre 20 a 35% das calorias diárias devem possuir origem lipídica, dando preferência para o consumo de lipídeos saturados, entretanto, diversos autores apontam que o consumo de lipídeos insaturados, com ausência de lipídeos saturados na dieta pode causar complicações cardíacas. Os lipídeos saturados são encontrados, principalmente, em na carne de animais como boi, porco e frango, produtos lácteos e em alguns óleos vegetais como óleo de coco. Os lipídeos insaturados são encontrados em peixes, óleos vegetais como o de soja ou canola, e em frutas como o abacate. VAMOS PENSAR? 6.3 LIPÍDEOS CONSTITUINTES DE MEMBRANAS BIOLÓGICAS As membranas biológicas são constituídas por uma combinação de diferentes moléculas, entretanto, todas possuem em comum uma constituição lipídica essencial, uma vez que a capacidade de organização de uma membrana biológica é baseada na formação de uma dupla camada de substâncias anfipáticas. Apesar de sua natureza essencialmente apolar, os lipídeos podem possuir grupos polares associados, formando substâncias anfipáticas. Os lipídeos constituintes de membranas biológicas podem ser classificados de acordo com seu tipo de estrutura básica em cinco grandes classes: Glicerofosfolipídeos, Lipídeos éter, Galactolipídeos, Esfingolipídeos e Esteróis (ALBERTS et al., 2011; CLARK; CHOI; DOUGLAS, 2018). Os glicerofosfolipídeos são constituídos por um grupo fosfato e duas cadeias de ácidos graxos associados a um glicerol, sendo um grupo polar ligado ao grupo fosfato, dependendo desse grupo polar e do tamanho e tipo de ácido graxo diferentes glicerofosfolipídeos são constituídos possuindo diferentes propriedades (Figura 53). Em células animais, os glicerofosfolipídeos representam um dos lipídeos constituintes de membrana mais abundantes (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019). Fi g u ra 5 3: R ep re se n ta çã o d a es tr u tu ra d os g lic er of os fo lip íd eo s e ti p os d e ca b eç a p ol ar a ss oc ia d as Fo n te : N el so n e C ox (2 0 19 ) 74 Quando esse glicerofosfolipídeos apresentam uma ligação do tipo éter, ou seja, a presença de um átomo de oxigênio ligado entre dois carbonos, são formados os lipídeos éter. Além da função como constituinte de membranas, os lipídeos éter são representados pelo plasminogênio e pelo fator ativador de plaquetas, moléculas envolvidas na cascata de coagulação sanguínea (Figura 54) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Figura 54: Representação de lipídeos éter Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 365) As plantas são dependentes de bactérias fixadoras de nitrogênio para obterem esse átomo. Devido a essa capacidade limitada de obtenção, as plantas utilizam carboidratos no lugar do grupo fosfato para formação de seus lipídeos constituintes de membrana, dando origem aos galactolipídeos, constituídos por duas moléculas de ácidos graxos associados a um glicerol, que também é ligado a uma ou duas moléculasde galactose (Figura 55) (ALBERTS et al., 2011; BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019). Figura 55: Representação de galactolipídeos Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 359) Por sua vez, os esfingolipídeos são constituídos pela união de uma molécula de ácido graxo e uma molécula de esfingosina ou outra estruturalmente semelhante, e um grupo polar que caracteriza sua função, formando moléculas de ceramida. Dependendo de seu grupo polar, essas moléculas são subdivididas em esfingomielinas, gangliosídeos e lipídeos neutros (Figura 56) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). O principal representante das esfingomielinas é a bainha de mielina, uma membrana com função de isolamento elétrico que envolve o axônio neuronal de animais. Os gangliosídeos possuem função associada a diferenciação tecidual, enquanto os lipídeos neutros ou glicoesfingolipídeos estão associados principalmente a formação do glicocálix, localizado na lâmina externa da membrana plasmática de células cujo papel no 75 reconhecimento célula-célula é de extrema importância para resposta imune (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Fi g u ra 5 6: R ep re se n ta çã o d os d ife re n te s ti p os d e es fi n g ol ip íd eo s Fo n te : N el so n e C ox (2 0 19 , p . 3 67 ) Leia o artigo de Cruvinel et. al., (2010). LINK: https://bit.ly/3cocKv4 BUSQUE POR MAIS Leia mais sobre o assunto no décimo capítulo “Lipídeos” do livro Princípios de Bio- química de Lehninger. De Nelson e Cox (2019). LINK: https://bit.ly/3jD4pq6 Os esteróis possuem funções associadas a manutenção da fluidez das membranas biológicas e como moléculas precursoras de hormônios esteroides. Essas moléculas são caracterizadas pela presença de um núcleo esteroide (Figura 57), constituído por quatro anéis carbônicos, três contendo cinco carbonos e um contendo quatro carbonos. Em animais o principal representante é colesterol, em plantas o estigmasterol e em fungos o ergosterol. Em animais o colesterol serve como precursor dos hormônios esteroides, representados pelos hormônios responsáveis pela diferenciação das características sexuais, pelo cortisol e pela aldosterona (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). 76 Figura 57: Representação do núcleo esteroide Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 368) 6.4 ESTRUTURA DAS MEMBRANAS BIOLÓGICAS Cada célula ou organela membranosa possuem diferentes composições estruturais, o que reflete diretamente em suas funções. Independente dessa constituição, todas as membranas biológicas possuem uma organização em mosaico fluido (Figura 58), ou seja, são constituídas por diferentes moléculas de lipídeos, carboidratos e proteínas que se movimentam constantemente e se adaptam as necessidades celulares (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2014; VOET; VOET; PRATT, 2014). Figura 58: Representação do mosaico fluido das membranas biológicas Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 387) A capacidade de formar a dupla camada lipídica constituinte das membranas biológicas é associada ao formato cilíndrico dos constituintes lipídicos estruturais. Em ambiente aquoso, a região apolar dos lipídeos anfipáticos tende a se agrupar, mantendo sua região polar em contato com a água. Caso possua um formato em cone, associado a presença de somente uma molécula apolar, os lipídeos assumem o formato de miscelas, gotículas de moléculas anfipáticas agrupadas, sem conter uma região aquosa em seu interior. Em lipídeos anfipáticos com formato cilíndrico, associado a presença de duas moléculas apolares na estrutura, as regiões apolares se unem, formando uma estrutura de bicamada lipídica, caso as extremidades dessa bicamada sejam unidas é formada a estrutura de vesícula, composta por uma região aquosa interna e uma externa separadas pela bicamada em todos os pontos (Figura 59) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Fi g u ra 5 9: R ep re se n ta çã o d a es tr u tu ra d e m is ce la s, b ic am ad as e v es íc u la s Fo n te : N el so n e C ox (2 0 19 , p . 3 87 ) 77 Além dos lipídeos, outras moléculas são associadas as membranas biológicas. As proteínas associadas a membrana são classificadas de acordo com o tipo de interação em proteínas transmembrana, proteínas associadas a membrana e proteínas ancoradas a membrana. As proteínas transmembrana (Figura 60) atravessam a membrana biológica, possuindo regiões polares, localizadas no exterior das lâminas internas e externas, e regiões apolares, localizadas no interior das membranas biológicas. O número de domínios polares e apolares de uma proteína transmembrana pode ser utilizados para prever a quantidade de interações dessa proteína com a região polar e apolar da membrana (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014) Figura 60: Representação da estrutura de proteínas transmembrana Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 391) Proteínas associadas a membrana possuem interações não covalentes com uma molécula estrutural presente nas membranas biológicas, enquanto as proteínas ancoradas possuem uma ligação covalente com uma molécula de membrana, podendo ser ancoradas por moléculas lipídicas, formando um proteolipídeos, ou a moléculas de carboidratos, formando proteoglicanos ou glicoproteínas (Figura 61) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2014; VOET; VOET; PRATT, 2014). Figura 61: Representação da estrutura de moléculas associadas e ancoradas a membranas biológicas Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 389) 78 6.5 CICLO DE LYNEN O ciclo de Lynen, também chamado de oxidação beta ( ), é a principal via de degradação metabólica de ácidos graxos de cadeia longa. Antes de iniciar o processo de oxidação, os ácidos graxos provindos da dieta ou dos adipócitos (células de armazenamento de lipídeos) são absorvidos pelas células e direcionados à mitocôndria, para que os mesmo sejam internalizados pela mitocôndria é necessária a adição da Coenzima A (CoA) ao ácido graxo, que através da ação da Carnitina-aciltransferase I, remove a CoA e a substitui por uma Carnitina, que será utilizada para realizar o transporte até a matriz mitocondrial, dentro da matriz, a molécula de carnitina é substituída por uma nova molécula de CoA (Figura 62) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). β Figura 62: Exemplificação do transporte de ácidos graxos para a matriz mitocondrial com auxílio da carnitina Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 672) Os ácidos graxos ligados a CoA iniciam o processo de oxidação pela atividade da enzima Acetil-CoA-desidrogenase, que promove a formação de uma dupla ligação entre o primeiro carbono (alfa) e o segundo carbono (beta) do ácido graxo, removendo dois hidrogênios (H+) e produzindo uma molécula de Flavina Adenina Dinucleotídeo (FADH2). Em sequência, a Enoil-CoA-hidratase remove a dupla ligação anteriormente formada e adiciona um H+ no carbono alfa e uma hidroxila (OH-) no carbono beta, consumindo uma molécula de H2O. A enzima -hidroxiacil-CoA-desidrogenase remove o H+ ligado ao carbono beta e o H+ presente na hidroxila, formando uma dupla ligação entre o oxigênio que anteriormente formava a hidroxila e produzindo uma molécula de Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo (NADH) e um H+ livre. Por fim, a Acil-CoA-acetiltransferase (tiolase) rompe a ligação covalente entre o carbono alfa e o carbono beta e adiciona uma nova molécula de CoA ao carbono beta, liberando uma molécula de Acetil-CoA, formada pelo carbono da carboxila, pelo carbono alfa e pelo grupo Coenzima A (CoA) (Figura 63) ( (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). β β 79 Fi g u ra 6 2: E xe m p lifi ca çã o d o tr an sp or te d e ác id os g ra xo s p ar a a m at ri z m it oc on d ri al c om a u xí lio d a ca rn it in a Fo n te : N el so n e C ox (2 0 19 ) Esse processoocorre sucessivamente até que toda a molécula de ácido graxo seja transformada em produtos metabólicos que serão utilizados para a síntese de novas moléculas ou para a produção de energia química pela continuação da oxidação pelo ciclo do ácido cítrico e pela ação da cadeia transportadora de elétrons (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). No caso da presença de uma ou mais insaturações presentes no ácido graxo, é necessário que a insaturação seja removida pela atividade da enzima Enoil-CoA-isomerase e da Dienoil-CoA-redutase, que com o gasto de uma molécula de NADH e de um H+ são capazes que romper a dupla ligação entre os carbonos do ácido graxo (insaturação) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Após o término da oxidação de ácidos graxos que contém um número ímpar de carbonos, o produto final formado será constituído por três carbonos associados a CoA, ou Propionil-CoA. Diferente do Acetil-CoA, que é utilizado diretamente no ciclo do ácido cítrico, o Propionil-CoA precisa da atividade de três enzimas, da Propionil-CoA-carboxilase, da Metilmalonil-CoA-epimerase e da Metilmalonil-CoA-mutase, que iram gerar a molécula de Succinil-CoA, utilizada no ciclo do ácido cítrico. Durante esse processo é gasta uma molécula de Adenina Trifosfato (ATP) a uma molécula de bicarbonato (HCO3) (Figura 64) (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). β 80 Figura 64: Esquematização do processo de transforma do Propionil-CoA em Succinil-CoA Fonte: Nelson e Cox (2019) A oxidação beta pode ser realizada a cada dois carbonos da sequência de uma ácido graxo, ou seja, em um ácido graxo contendo 16 carbonos (palmitoil) podem ser realizadas sete beta oxidações, sendo produzidas oito moléculas de Acetil-CoA. Lembre-se de que a última beta oxidação de um ácido graxo com um número par de carbonos libera simultaneamente duas moléculas de Acetil-CoA. Caso o ácido graxo possua 17 carbonos, o número beta oxidações per- manece o mesmo, ou seja, seta beta oxidações, porém o número de moléculas de Acetil-CoA formadas serão 7, com a adição de uma molécula de Propionil-CoA que será transformada em Succinil-CoA. FIQUE ATENTO 81 1 - Grande parte dos ácidos graxos possuem entre 4 e 36 carbonos ligados a um grupo carboxila, a partir de sua estrutura básica outros lipídeos podem ser produzidos. Assinale a alternativa que corresponde a estrutura lipídica mais simples que pode ser formada possuindo ácidos graxos como base. a) Glicerofosfolipídeos. b) Esfingolipídeos. c) Esteróis. d) Lipídeos éter. e) Triacilgliceróis. 2 - Os lipídeos são fonte alimentar essencial, fornecendo fonte de energia química, vitaminas e outras moléculas indispensáveis para a manutenção da vida. Entretanto, o consumo exagerado de alimentos lipídicos hipercalóricos pode trazer para um indivíduo diversos problemas de saúde como obesidade, hipertensão, entre outros. Marque a alternativa correta sobre a utilização de lipídeos na dieta. a) Devem ser ingeridos apenas fontes de lipídeos insaturados, como óleos vegetais e frutas. b) O consumo de lipídeos na dieta não deve ser superior a 20% do total de calorias ingeridas diariamente. c) O consumo de lipídeos na dieta deve ser minimizado, limitando a ingestão a valores inferiores a 10% do total calórico diário. d) A ingestão de lipídeos saturados e insaturados, de diversas fontes alimentares é necessária para a manutenção das concentrações lipídicas ideais. e) O consumo de lipídeos na dieta deve ser superior a 30% do total calórico ingerido diariamente. 3 - Os esfingolipídeos possuem uma região polar constituída pela molécula de esfingosina ou um de seus derivados, essas moléculas são formadas por uma ligação glicosídica ou fosfodiéster entre um grupo polar e um ácido graxo. Marque a opção que corresponde a estrutura do subtipo de esfingolipídeos chamado cerebrosídeo. a) Os cerebrosídeos são caracterizados pela presença de um oligossacarídeo em sua região polar associado a um ou mais grupos de ácido siálico, atribuindo a esses lipídeos carga negativa em pH 7. b) Os cerebrosídeos são caracterizados pela presença de um núcleo esterol, constituído por quatro estruturas ciclizadas fundidas, uma com quatro carbonos e as outras três com cinco carbonos. c) Os cerebrosídeos possuem apenas um monossacarídeo em sua região polar, sendo os ligados à galactose encontrados nos tecidos neurais e os ligados à glicose encontrados em tecidos não neurais. d) Os cerebrosídeos possuem uma região polar constituída pela molécula de esfingosina ou um de seus derivados, essas moléculas são formadas por uma ligação glicosídica ou fosfodiéster entre um grupo polar e um ácido graxo. FIXANDO O CONTEÚDO 82 e) Os cerebrosídeos são caracterizados pela ligação de um oxigênio a dois carbonos, muito abundante no tecido cardíaco animal e em alguns microrganismos. 4 - A formação das membranas biológicas permitiu a delimitação de regiões internas e externas, fazendo com que moléculas pudessem ser acumuladas seletivamente dentro de um espaço delimitado para uma melhor interação. Marque a opção que corresponde ao fator determinante para a composição lipídica presente na membrana biológica. a) A disponibilidade de lipídeos para a síntese da membrana. b) O consumo de ácidos graxos saturados ou insaturados. c) A composição lipídica das membranas biológicas é idêntica para cada tipo de organela membranosa. d) A função exercida pela membrana biológica. e) A concentração de proteínas e lipídeos associados à membrana. 5 - As membranas biológicas são formadas pela combinação de diversas moléculas, dentre elas, os lipídeos estruturais apresentam classificação de acordo com a sua estrutura e função. Marque a alternativa que corresponde ao nome do lipídeo estrutural que possui galactose ligada ao glicerol como cabeça polar. a) Glicerofosfolipídeos. b) Lipídeos éter. c) Esteróis. d) Galactolipídeos. e) Esfingolipídeos. 6 - Devido a especialização celular em organismos pluricelulares, os componentes celulares são adaptados para que cada uma dessas células possa exercer melhor sua função, refletindo incluindo na composição lipídica estrutural. A formação da bainha de mielina é um exemplo desse acontecimento. Marque a alternativa que corresponde ao tipo de lipídeo que forma a bainha de mielina. a) Triacilglicerídeos. b) Fosfolipídeos. c) Lipídeos éter. d) Esfingolipídeos. e) Galactolipídeos. 7 - Antes de serem utilizados para a produção de energia, os ácidos graxos precisam ser transportados para o interior da mitocôndria, processo facilitado por uma molécula associada a membrana mitocondrial. Marque a alternativa que corresponde ao nome da molécula que se liga ao ácido graxo para facilitar seu transporte pela membrana mitocondrial. a) Coenzima A. b) Carnitina. c) Serina. d) Acetil-CoA. 83 e) Carbapemida. 8 - O ciclo de Lynen ou oxidação realiza a remoção de dois carbonos de um ácido graxo a cada etapa para a produção de moléculas que serão posteriormente utilizadas em outras vias metabólicas, como no ciclo do ácido cítrico e na cadeia transportadora de elétrons. Marque a alternativa que corresponde aos produtos que serão formados a partir da oxidação de um ácido graxo contendo 18 carbonos. a) 1 Acetil-CoA, 1 NADH e 1 FADH2. b) 9 Acetil-CoA, 9 NADH e 9 FADH2. c) 10 Acetil-CoA, 9 NADH e 9 FADH2. d) 10 Acetil-CoA, 1 NADH e 1 FADH2. e) 9 Acetil-CoA, 10 NADH e 10 FADH2. β β 84 CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO E CADEIA TRANSPORTADORA DE ELÉTRONS UNIDADE 07 85 7.1 INTRODUÇÃO O metabolismo de eucariotos, sejam fungos, vegetais ou animais, possui como foco central o ciclo do ácido cítrico, principal responsável pelo direcionamento do catabolismo e do anabolismo. Pode ser afirmado que todas as vias metabólicas podem ser ligadas a algum ponto desse ciclo. Por sua vez, a cadeia transportadora de elétrons é a responsável de fato pela produção de maciça de Adenosina Trifosfato (ATP) pela oxidação de moléculas orgânicas.Nesse capítulo serão abordados o ciclo do ácido cítrico e pontos de conexão entre o ciclo e diferentes vias metabólicas, assim como a cadeia transportadora de elétrons realiza o processo de síntese de ATP a partir das moléculas transportadoras Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo (NADH) e Flavina Adenina Dinucleotídeo (FADH2). 7.2 CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO O ciclo do ácido cítrico possui oito etapas mediadas por atividades enzimáticas, podendo ser iniciado a partir da utilização de qualquer um dos substratos utilizados, oriundos de diferentes processos metabólicos. Ao observarmos o processo de degradação da glicose pela via da glicólise, o produto final formado é o piruvato, que sob condições aeróbicas será transportado para a matriz mitocondrial, onde será desidrogenado a Acetil-CoA pela atividade do complexo enzimático da piruvato desidrogenase, liberando uma molécula de CO2 e produzindo uma molécula de NADH (Figura 65). Esse complexo enzimático é formado por três enzimas combinas de atividade sequencial, a piruvato-desidrogenase (E1), di-hidropolil-transacetilase (E2) e di-hidrolipoil-desidrogenase (E3) (Figura 66) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VIEIRA; GAZZINELLI; MARES-GUIA, 2002; VOET; VOET; PRATT, 2014). Figura 65: Esquematização da desidrogenação do piruvato Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 634) 86 Figura 66: Estrutura e atividade do complexo enzimático da piruvato desidrogenase Fonte: Nelson e Cox (2019, p. 637) Iniciando o ciclo a partir desse ponto, o Acetil-CoA produzido é combinado com a molécula de oxaloacetato pela enzima citrato sintase, produzindo citrato e removendo a coenzima A anteriormente ligada, a molécula de citrato sofre a ação da enzima aconitase, que inverte o posicionamento de seu grupo hidroxila, formando isocitrato. A molécula de isocitrato é oxidada formando o primeiro NADH, e dando origem a primeira descarboxilação, liberando CO2, formando -cetoglutarato, que passa por um novo processo de oxidação e de descarboxilação pelo complexo enzimático da -cetoglutarato-desidrogenase, produzindo a segunda molécula de NADH e liberando a segunda molécula de CO2, gerando succinil-CoA após a ligação de uma coenzima A à molécula (NELSON; COX, 2019; VIEIRA; GAZZINELLI; MARES-GUIA, 2002; VOET; VOET; PRATT, 2014). α α Fi g u ra 6 7: E sq u em at iz aç ão d o ci cl o d o ác id o cí tr ic o Fo n te : N el so n e C ox (2 0 19 , p . 6 39 ) 87 A coenzima A ligada a Succinil-CoA é removida pela atividade da succinil-CoA- sintetase, produzindo uma molécula de Guanosina Trifosfato (GTP), energeticamente equivalente ao ATP, ocorrendo a formação da molécula de succinato, que é desidrogenado pela succinato-desidrogenase à fumarato, produzindo uma molécula de FADH2, fumarato é transformado em malato pela enzima fumarase, que será transformado novamente na molécula de oxaloacetato pela malato-desidrogenase, produzindo a terceira molécula de NADH. Devido a molécula inicial de oxaloacetato ser recuperada ao final do ciclo, e as moléculas de coenzima A também não serem gastas, podemos afirmar que o processo envolve apenas a oxidação completa da molécula de acetato (Figura 04) (ALBERTS et al., 2011; BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). Fi g u ra 6 8: E sq u em at iz aç ão d a re la çã o d o ci cl o d o ác id o cí tr ic o co m o u tr as v ia s m et ab ól ic as Fo n te : N el so n e C ox (2 0 19 , p . 6 51 ) Além de poder ser utilizada para síntese de Acetil-CoA, a glicose pode ser utilizada para formação de oxaloacetato passando por fosfoenolpiruvato. Assim como a molécula de glicose é transformada em duas moléculas de Acetil-CoA, dando início ao ciclo do ácido cítrico, a cada oxidação beta de um ácido graxo ocorre a formação de uma molécula de Acetil-CoA, que passa pelo mesmo processo. Apenas no caso de um ácido graxo de número ímpar ocorre a formação de um succinil-CoA a partir dos três últimos carbonos da sequência. Por sua vez, a degradação do esqueleto carbônico das proteínas ocorre de maneira única para cada aminoácido, entretanto existem dois pontos em comum, passando pela formação de -cetoglutarato ou de oxaloacetato, que também participam do ciclo do ácido cítrico (Figura 68). Ainda, o piruvato pode ser direcionado para a produção de malato em diversas espécies, essas reações são conhecidas como reações anapleróticas (GAZZINELLI; MARES-GUIA, 2002; BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2014; VOET; VOET; PRATT, 2014). α 88 Leia o artigo de mestrado de Silva (2016) e se inteire acerca da deficiência das en- zimas do ciclo do ácido cítrico.. LINK: https://bit.ly/3mNYhO0 BUSQUE POR MAIS Leia mais sobre o assunto no décimo nono capítulo “Fosforilação oxidativa“ do livro Princípios de Bioquímica de Lehninger de Nelson e Cox (2019). LINK: https://bit.ly/2StTS4M 7.3 CADEIA TRANSPORTADORA DE ELÉTRONS O metabolismo aeróbico produz a maciça parte de sua energia através da síntese de ATP mediada pela fosforilação oxidativa, enquanto a fotofosforilação é o processo de síntese de ATP mediada pela energia solar, em eucariotos, o primeiro evento ocorre nas mitocôndrias e o segundo nos cloroplastos. Ambos processos envolvem o transporte de elétrons pela membrana da organela em direção oposta ao transporte de prótons, ambos contra o gradiente de concentração, produzindo um potencial eletroquímico na membrana. O retorno dos prótons a favor do gradiente de concentração fornece energia para síntese de ATP (Figura 69) (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; NELSON; COX, 2019). Figura 69: Esquematização do fluxo de pró- tons e elétrons durante a síntese de ATP em mitocôndrias e em cloroplastos Fonte: Adaptado de Nelson e Cox (2019) As desidrogenases são responsáveis pelo início da cadeia transportadora de elétrons, em todo processo metabólico, a energia em excesso é captada pelas coenzimas transportadoras Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo (NAD+) ou Fosfato de Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo (NADP+) e Flavina Adenina Dinucleotídeo (FAD+). Enquanto NADP+ auxilia durante a síntese de moléculas, NAD+ e FAD+, em suas formas reduzidas NADH e FADH2, fornecem a força motriz para a fosforilação oxidativa (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). A cadeia de transporte de elétrons durante a fosforilação oxidativa tem continuidade pela transferência de elétrons das coenzimas transportadoras ou de outra fonte doadora de elétrons para a ubiquinona na mitocôndria, plastoquinona em cloroplastos ou para menaquinona em bactérias. As quinonas hidrofóbicas transportam esse elétron para o citocromo, que transfere posteriormente para uma proteína ferro enxofre, chegando ao aceptor final de elétrons, o oxigênio. Cada átomo de oxigênio é capaz de atuar como aceptor de dois elétrons ao final da fosforilação oxidativa, formando uma molécula de H2O (NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014). 89 Esse processo gera energia eletroquímica, utilizada pelo complexo da ATP-sintetase. O processo de rendimento energético possui rendimentos distintos entre as espécies, principalmente ao se considerar entre animais, vegetais e bactérias. Em humanos, a diferença de potencial fornecido por uma molécula de NADH é o suficiente para a síntese de 2,5 moléculas de ATP, lembrando que a síntese ocorre pela ação do par de elétrons transportados, ou seja 2 NADH = 5 ATP’s, enquanto cada molécula de FADH2 fornece energia para síntese de 1,5 moléculas de ATP, ou seja 2 FADH2 = 3 ATP’s (BERG; TYMOCZKO; STRYER, 2014; MARZZOCO; TORRES, 1999; NELSON; COX, 2019; VOET; VOET; PRATT, 2014) Glicólise (Citosol) 1 glicose -2 ATP; +4 ATP; +2 NADH; +2 Piruvato. FIQUE ATENTO → → Fermentação (citosol) condições anaeróbicas -1 Piruvato; -1 NADH (alcoólica +1CO_2; +1eta- nol) (Lática +1 ácido lático). → → → 1 Piruvato matrix mitocondrial +1 Acetil-CoA; + 1 NADH. → →1 NADH (Glicólise) matrix mitocondrial -1 ATP → → Ciclo do ácido cítrico 1 Acetil-CoA + 3 NADH; + 1 FADH_2; +1 GTP → → Fosforilação oxidativa 1 NADH = 2,5 ATP / 1 FADH_2 = 1,5 ATP → Beta oxidação -2 Carbonos; +1 NADH; +1 FADH_2; +1 Acetil-CoA → Carbonos pares o último par (2carbonos) formam Acetil-CoA sem a beta oxidação → Carbonos impares os últimos 3 carbonos formam Succinil-CoA sem a beta oxidação (-1ATP → 90 Quantas moléculas de ATP são formadas a partir da degradação completa de 8 moléculas de glicose? VAMOS PENSAR? 1 Glicose +2NADH +4ATP +2Piruvato → 2 Piruvato +2Acetil-CoA +2NADH → 2Acetil-CoA +6NADH +2FADH_2 +2GTP (=ATP) → +4ATP = +4ATP +10 NADH = +25ATP +2FADH2 = +3ATP +2GTP = +2ATP +2GTP = +2ATP = total de 34 ATP por molécula de glicose 8x34= 272 ATP Qual o saldo biológico da oxidação de 4 moléculas de glicose após a fosforilação oxidativa? 1Glicose -2ATP fase de preparação e -2ATP no transporte dos 2NADH da glicólise → Total de -4ATP Produzido 34 ATP por glicose 34-4 = 30 ATP saldo biológico 4x30= 120 ATP Quais os produtos formados após a fermentação alcoólica de 3 moléculas de glicose? -2 carbonos +1NADH (2,5ATP) +1FADH2 (1,5) +1Acetil-CoA (+3NADH (7,5ATP) +1FADH2 (1,5ATP) +1GTP (1ATP) = 14ATP por beta oxidação → Últimos 2 carbonos +1Acetil-CoA (10 ATP) → (20/2)-1= 9 beta oxidações (9x14)+10 = 136 ATP → Qual a produção energética pela oxidação completa de um ácido graxo de 15 carbonos? (15/2)-1= 6 beta oxidações x 14 ATP (por beta oxidação) = 84 ATP 3 carbonos que sobram formam Succinil-CoA = 5ATP 84+5=89 ATP 91 Leia um pouco sobre inibidores da fotossíntese no artigo de Burger et. al., (2012). LINK: https://bit.ly/3iYIpWq BUSQUE POR MAIS Leia mais sobre o assunto no décimo nono capítulo “Cadeia Respiratória (Fosfori- lação Oxidativa) do livro Princípios da Bioquímica para Universitários, Técnicos e Profissionais da Saúde de Galante e Araújo (2018) LINK: https://bit.ly/2StTS4M 92 1 - Os aceptores de elétrons de todas as vias metabólicas exercem função como coenzimas ao aceitarem o H+ durante reações de desidrogenases. Marque a alternativa que corresponde ao nome dos dois principais aceptores de H+ das reações metabólicas. a) Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo e Flavina Adenina Dinucleotídeo. b) Nicotinamida Adenina Difosfato e Flavina Adenina Difosfato. c) Nicotinamida Glicina Dinucleotídeo e Flavina Glicina Dinucleotídeo. d) Nicotinamida Glicina Difosfato e Flavina Glicina Difosfato. e) Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo e Flavina Glicina Difosfato. 2 - Em situação aeróbica, após a formação das duas moléculas de piruvato para cada molécula de glicose através da glicólise, o piruvato é transportado para a mitocôndria para que possa ser desidrogenado e ter o grupo Coenzima A adicionado, dando origem a molécula de Acetil-CoA, que será oxidada completamente no ciclo do ácido cítrico. Marque a alternativa que corresponde ao número de subunidades enzimáticas que fazem parte do complexo da piruvato-desidrogenase. a) 1 enzima. b) 2 enzimas. c) 3 enzimas. d) 4 enzimas. e) 5 enzimas. 3 - O ciclo do ácido cítrico está conectado com diversas vias metabólicas dos organismos aeróbios, sendo constituído por oito eventos enzimáticos capazes de oxidar completamente a molécula de Acetil-CoA em gás carbônico e água. Marque a alternativa que corresponde ao número de moléculas energéticas produzidas durante o ciclo do ácido cítrico a partir da oxidação completa de 4 moléculas de Acetil-CoA. a) 3 NADH,1 FADH_2 e 1 GTP. b) 6 NADH,2 FADH_2 e 2 GTP. c) 9 NADH,3 FADH_2 e 3 GTP. d) 12 NADH,4 FADH_2 e 4 GTP. e) 15 NADH,5 FADH_2 e 5 GTP. 4 - Através de sua conexão com diferentes vias metabólicas, os produtos intermediários do ciclo do ácido cítrico podem dar origem a diversas moléculas orgânicas. Marque a alternativa que corresponde a molécula intermediária do ciclo que pode ser utilizada para a síntese de bases nitrogenadas púricas. a) Citrato. b) Oxaloacetato. c) -Cetoglutarato. d) Succinil-CoA. FIXANDO O CONTEÚDO α 93 e) Malato. 5 - Através da cadeia transportadora de elétrons é formado um potencial eletroquímico na membrana. O retorno dos prótons a favor do gradiente de concentração fornece energia para síntese de ATP. Marque a alternativa que corresponde a ordem correta dos aceptores de prótons envolvidos nesse processo em células animais. a) Ubiquinona Citocromo Proteína ferro enxofre Oxigênio. b) Proteína ferro enxofre Citocromo Ubiquinona Oxigênio. c) Ubiquinona Proteína ferro enxofre Citocromo Oxigênio. d) Citocromo Ubiquinona Proteína ferro enxofre Oxigênio. e) Citocromo Proteína ferro enxofre Ubiquinona Oxigênio. 6 - O ciclo do ácido cítrico é o principal responsável pela produção de moléculas transportadoras de H+, que serão utilizadas na fosforilação oxidativa para a síntese de ATP. Marque a alternativa que corresponde a quantidade de ATP é produzida a partir da oxidação completa e fosforilação oxidativa de 3 moléculas de Acetil-CoA. a) 3 ATP’s. b) 9 ATP’s. c) 10 ATP’s. d) 15 ATP’s. e) 30 ATP’s. 7 - A glicólise é um processo metabólico altamente conservado evolutivamente, desde arqueobactérias a mamíferos, quando associada a oxidação aeróbia no ciclo do ácido cítrico se torna uma das principais fontes na produção de ATP. Marque a alternativa que corresponde ao saldo energético da oxidação completa e fosforilação oxidativa de 5 moléculas de glicose. a) 30 ATP’s. b) 32 ATP’s. c) 34 ATP’s. d) 150 ATP’s. e) 160 ATP’s. 8 - A de oxidação é a principal via de degradação metabólica de ácidos graxos de cadeia longa. Marque a alternativa que corresponde ao saldo energético da oxidação completa após a oxidação , ciclo do ácido cítrico e fosforilação oxidativa de um ácido graxo contendo 16 carbonos. a) 70 ATP’s. b) 80 ATP’s. c) 98 ATP’s. d) 108 ATP’s. e) 118 ATP’s. → → → → → → → → → → → → → → → β β 94 RESPOSTAS DO FIXANDO O CONTEÚDO UNIDADE 1 UNIDADE 3 UNIDADE 5 UNIDADE 2 UNIDADE 4 UNIDADE 6 QUESTÃO 1 C QUESTÃO 2 D QUESTÃO 3 B QUESTÃO 4 C QUESTÃO 5 B QUESTÃO 6 C QUESTÃO 7 D QUESTÃO 8 C QUESTÃO 1 D QUESTÃO 2 B QUESTÃO 3 A QUESTÃO 4 E QUESTÃO 5 C QUESTÃO 6 A QUESTÃO 7 B QUESTÃO 8 C QUESTÃO 1 B QUESTÃO 2 E QUESTÃO 3 E QUESTÃO 4 D QUESTÃO 5 C QUESTÃO 6 E QUESTÃO 7 B QUESTÃO 8 E QUESTÃO 1 A QUESTÃO 2 C QUESTÃO 3 B QUESTÃO 4 B QUESTÃO 5 A QUESTÃO 6 A QUESTÃO 7 B QUESTÃO 8 A QUESTÃO 1 C QUESTÃO 2 B QUESTÃO 3 B QUESTÃO 4 D QUESTÃO 5 C QUESTÃO 6 B QUESTÃO 7 B QUESTÃO 8 E QUESTÃO 1 E QUESTÃO 2 D QUESTÃO 3 C QUESTÃO 4 D QUESTÃO 5 D QUESTÃO 6 D QUESTÃO 7 B QUESTÃO 8 C UNIDADE 7 QUESTÃO 1 A QUESTÃO 2 B QUESTÃO 3 D QUESTÃO 4 C QUESTÃO 5 A QUESTÃO 6 E QUESTÃO 7 E QUESTÃO 8 D 95 ALBERTS, B. et al. Fundamentos da biologia celular. Tradução de Ardala Elisa Breda Andrade et al. 3. ed. Porto: Artmed, 2011. BATISSOCO, A. C.; NOVARETTI, M. C. Z. Aspectos moleculares do Sistema Sangüíneo ABO. Rev. Bras. Hematol. Hemoter., São José do Rio Preto, v. 25, n. 01, p. 47-58, 2003. Disponível em: https://bit.ly/2FLEoXi. Acesso em: 12 set. 2020. BERG, J. M.; TYMOCZKO, J. L.; STRYER, L. Bioquímica. Tradução de Antonio José Magalhães da Silva Moreira et al. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. il. BURGER, M. C. D. M. et al. Ácido myrsinoico a e derivado: inibidores da fotossíntese in vitro. Quím. Nova, São Paulo, v. 37, n. 07, p. 1395-1400, 2012. Disponível em: https://bit.ly/3iYIpWq. Acesso em: 19 set. 2020. CABRAL, L. M.; HEMERLY, A. S.; MASUDA, H. P. Perpetuando a informação genética/ Processos de replicação do DNA. In: MENCK, C. F. M.; SLUYS, M.-A. V. Genética Molecular Básica: Dos Genes aos Genomas. 1. ed. RIo de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. p. 39-60. CANO, M. I. N. 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