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CONCEITOS BÁSICOS DO MOVIMENTO ARTICULAR: ARTROCINEMÁTICA Fonte: Exercícios terapêuticos: fundamentos e técnicas Carolyn Kisner; Lynn Allen Colby; John Borstad https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786555765670 Formas articulares O tipo de movimento que ocorre entre as partes ósseas dentro de uma articulação é influenciado pela forma das superfícies articulares. A forma pode ser descrita como ovoide ou em sela.13,17,19,33 Nas articulações ovoides, uma superfície é convexa e a outra é côncava (Fig. 5.1A). Nas articulações em sela, uma superfície é côncava em uma direção e convexa na outra, com a superfície oposta convexa e côncava, respectivamente; assemelhando-se a um cavaleiro em oposição complementar à forma da sela (Fig. 5.1B). Tipos de movimento Quando uma alavanca óssea se move em torno de um eixo de movimento, ocorre também movimento na superfície óssea do osso oposto na articulação. Figura 5.1 (A) Nas articulações ovoides, uma superfície é convexa e a outra é côncava. (B) Nas articulações em sela, uma superfície é côncava em uma direção e convexa na outra, com a superfície oposta convexa e côncava, respectivamente. O movimento da alavanca óssea é chamado balanço e é classicamente descrito como flexão, extensão, abdução, adução e rotação. A quantidade de movimento pode ser medida em graus com um goniômetro e é chamada ADM. O movimento das superfícies ósseas dentro da articulação é uma combinação variável de rolamento e deslizamento ou giro.13,17,19,33 Esses movimentos acessórios permitem uma https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786555765670 maior angulação do osso durante o balanço. Para que ocorra rolamento, deslizamento ou giro, é preciso haver folga capsular adequada ou mobilidade intra-articular. Rolamento As características de um osso rolando sobre o outro (Fig. 5.2) são: As superfícies são incongruentes. Novos pontos de uma superfície encontram novos pontos da superfície oposta. O rolamento resulta em movimento angular do osso (balanço). O rolamento é sempre na mesma direção que o movimento de balanço do osso, não importando se a superfície é convexa (Fig. 5.3A) ou côncava (Fig. 5.3B). Quando ocorre sozinho, o rolamento causa compressão das superfícies no lado para o qual o osso está balançando e separação no outro lado. O alongamento passivo que utiliza apenas a angulação óssea pode causar forças compressivas prejudiciais em partes da superfície articular, levando potencialmente a dano articular. Em articulações com funcionamento normal, o rolamento puro não ocorre sozinho, mas em combinação com deslizamento e giro articular. Figura 5.2 Representação de uma superfície rolando sobre a outra. Novos pontos de uma superfície encontram novos pontos da superfície oposta. Deslizamento/translação As características de um osso deslizando (realizando a translação) sobre o outro incluem: Para um deslizamento puro, as superfícies precisam ser congruentes, planas (Fig. 5.4A) ou curvas (Fig. 5.4B). O mesmo ponto sobre uma superfície entra em contato com novos pontos na superfície oposta. O deslizamento puro não ocorre nas articulações, pois as superfícies não são completamente congruentes. A direção na qual ocorre o deslizamento depende de se a superfície que se move é côncava ou convexa. O deslizamento é na direção oposta ao movimento angular do osso quando a superfície articular que se move é convexa (Fig. 5.5A). O deslizamento é na mesma direção do movimento angular do osso quando a superfície que se move é côncava (Fig. 5.5B). Observação: essa relação mecânica é conhecida como regra côncavo-convexa e é a base teórica para se determinar a direção da força mobilizadora ao usar técnicas de mobilização articular com deslizamento.15 Figura 5.3 O rolamento é sempre na mesma direção do movimento do osso, seja o osso em movimento (A) convexo ou (B) côncavo. Figura 5.4 Representação de uma superfície deslizando sobre a outra, sendo elas (A) planas ou (B) curvas. O mesmo ponto de uma superfície fica em contato com novos pontos da superfície oposta. Figura 5.5 Representação da regra côncavo-convexa. (A) Quando a superfície do osso em movimento é convexa, o deslizamento é na direção oposta ao movimento angular do osso. (B) Quando a superfície do osso em movimento é côncava, o deslizamento é na mesma direção do movimento angular do osso. Evidências em foco Vários estudos11,14,16 examinaram o movimento de translação da cabeça do úmero durante os movimentos de ombro e documentaram translações opostas às previstas pela regra convexo- côncava. Hsu et al.15 propuseram que essa aparente contradição com a regra convexo-côncava é resultado de um encurtamento assimétrico da cápsula articular do ombro durante o movimento, resultando na translação do osso que se move na direção oposta à da retração capsular. Eles documentaram que o alongamento da cápsula encurtada com translações que afetavam os tecidos limitantes aumentou a ADM nas articulações de ombro de cadáveres. Essa aparente contradição será discutida com maior profundidade em um editorial que enfatiza a possível interpretação equivocada dos resultados de estudos que, aparentemente, contradizem os descritores artrocinemáticos da regra convexo-côncava: que é importante ter conhecimento das dimensões das superfícies articulares e da posição inicial/relação da superfície articular, e não apenas da posição final, bem como do efeito da retração capsular.28 Rolamento-deslizamento combinado em uma articulação Quanto mais congruentes as superfícies articulares, maior o deslizamento de uma parte óssea sobre a outra durante o movimento. Quanto mais incongruentes as superfícies articulares, maior o rolamento de uma parte óssea sobre a outra durante o movimento. Quando os músculos se contraem ativamente para mover um osso, alguns dos músculos podem causar ou controlar o movimento de deslizamento das superfícies articulares. Por exemplo, o movimento de deslizamento caudal da cabeça do úmero durante a abdução do ombro é causado pelos músculos do manguito rotador, e o deslizamento posterior da tíbia durante a flexão do joelho é causado pelos músculos posteriores da coxa. Se essa função é perdida, a mecânica articular anormal resultante pode causar microtraumas e disfunção articular. As técnicas de mobilização articular descritas neste capítulo usam o componente de deslizamento do movimento articular para restaurar a mobilidade intra-articular e reverter a hipomobilidade articular. O rolamento (alongamento angular passivo) não é usado para alongar cápsulas articulares encurtadas, pois causa compressão articular. Recomendação clínica Quando o fisioterapeuta aplica um movimento acessório passivo na superfície articular usando o componente de deslizamento do movimento articular, a técnica é chamada de deslizamento translatório, translação ou simplesmente deslizamento.17 É usado para controlar a dor quando aplicado suavemente ou para alongar a cápsula quando aplicado com uma força de alongamento. Giro As características de um osso girando sobre o outro incluem: Há uma rotação de um segmento em torno de um eixo mecânico estacionário (Fig. 5.6). O mesmo ponto na superfície que se move cria o arco de um círculo enquanto o osso gira. O giro raramente ocorre sozinho nas articulações, mas em combinação com rolamento e deslizamento. Três exemplos de giros que ocorrem nas articulações do corpo são o ombro durante a flexão/extensão, o quadril durante a flexão/extensão e a articulação umerorradial durante a pronação/supinação (Fig. 5.7). Figura 5.6 Representação do giro. Ocorre a rotação do segmento em torno de um eixo mecânico estacionário. Figura 5.7 Exemplos de locais no corpo onde ocorre giro na articulação. (A) Úmero na flexão/extensão.(B) Fêmur na flexão/extensão. (C) Cabeça do rádio na pronação/supinação. Alongamento passivo-angular versus alongamento com deslizamento articular Os procedimentos de alongamento passivo-angular, como quando a alavanca óssea é usada para alongar uma cápsula articular encurtada, podem causar aumento de dor ou trauma articular porque: O uso de uma alavanca amplia significativamente a força na articulação. A força causa compressão das superfícies articulares na direção do osso que está rolando (ver Fig. 5.3). O rolamento sem deslizamento não reproduz a mecânica articular normal. Os procedimentos de alongamento com deslizamento articular, como quando o componente de deslizamento de translação dos ossos é usado para alongar uma cápsula encurtada, são mais seguros e seletivos porque: A força é aplicada perto da superfície articular e controlada em uma intensidade compatível com a patologia. A direção da força reproduz o componente de deslizamento da mecânica articular e não comprime a cartilagem. A amplitude do movimento é pequena e, contudo, específica para a porção encurtada ou aderente da cápsula ou ligamentos. Assim, as forças são aplicadas seletivamente no tecido desejado. Outros movimentos acessórios que afetam a articulação Compressão Compressão é a diminuição no espaço articular entre as partes ósseas. A compressão normalmente ocorre nas articulações dos membros e da coluna durante o apoio de peso. Ocorre alguma compressão enquanto os músculos se contraem, o que proporciona estabilidade às articulações. À medida que um osso rola sobre o outro (ver Fig. 5.3), ocorre também alguma compressão no lado para onde o osso está angulando. As cargas compressivas intermitentes normais ajudam a mover o líquido sinovial e, assim, manter a saúde da cartilagem. Cargas compressivas mais altas do que as normais podem levar a alterações e deterioração da cartilagem articular.19 Tração e separação não são sinônimos. Tração é uma força longitudinal. Separação é um distanciamento ou força de afastamento. A separação das superfícies articulares (distração) nem sempre ocorre quando uma força de tração é aplicada ao eixo longo de um osso. Por exemplo, se a tração é aplicada no corpo do úmero, estando o braço ao lado do corpo, essa resulta em um deslizamento da superfície articular (Fig. 5.8A). A separação da articulação glenoumeral requer que a força seja aplicada em ângulo reto com a cavidade glenoidal (Fig. 5.8B). Esclarecendo, sempre que houver uma força de tração aplicada ao eixo longo de um osso, será usado o termo tração no eixo longo. Sempre que as superfícies forem afastadas, será usado o termo separação, tração articular ou separação articular. Recomendação clínica Nas técnicas de mobilização/manipulação articular, a separação é usada para controlar ou aliviar a dor quando aplicada suavemente ou para alongar a cápsula quando aplicada com uma força de alongamento. Para conforto do paciente, uma leve força de separação é usada ao aplicar técnicas de deslizamento para alongamento. Figura 5.8 (A) A tração aplicada ao corpo do úmero resulta em deslizamento caudal da superfície articular. (B) A separação da articulação glenoumeral requer separação em ângulo reto com a cavidade glenoidal. Efeitos da mobilização articular A mobilização articular estimula a atividade biológica pelo movimento do líquido sinovial, que traz nutrientes para a cartilagem articular avascular das superfícies articulares e para a fibrocartilagem intra-articular dos meniscos.19 A atrofia da cartilagem articular começa logo após a imobilização ser imposta às articulações.1,8,9 A extensibilidade e a força de tração dos tecidos articulares e periarticulares são mantidas com o movimento articular. Com a imobilização ocorre proliferação fibroadiposa, que causa aderências intra-articulares, assim como alterações biomecânicas nos tecidos do tendão, do ligamento e da cápsula articular, o que, por sua vez, causa contraturas articulares e enfraquecimento ligamentar.1 Impulsos nervosos aferentes dos receptores articulares transmitem informações para o sistema nervoso central e, portanto, fornecem a percepção de posição e de movimento. Com lesão, inchaço intra-articular ou degeneração articular, ocorre a diminuição potencial de fonte importante de feedback proprioceptivo que pode afetar a resposta de equilíbrio de uma pessoa.13,34 A mobilidade articular fornece impulsos sensoriais relativos a:36,37 Posição estática e senso de velocidade do movimento (receptores do tipo I encontrados na cápsula articular superficial). Mudança da velocidade do movimento (receptores do tipo II encontrados nas camadas profundas da cápsula articular e coxins adiposos articulares). Senso de direção do movimento (receptores dos tipos I e III; o tipo III é encontrado nos ligamentos articulares). Regulação do tônus muscular (receptores tipos I, II e III). Estímulos nociceptivos (receptores do tipo IV encontrados na cápsula fibrosa, ligamentos, coxins adiposos articulares, periósteo e paredes dos vasos sanguíneos). INDICAÇÕES E LIMITAÇÕES PARA O USO DA MOBILIZAÇÃO/MANIPULAÇÃO ARTICULAR Mobilizações suaves podem ser usadas para tratar dor e defesa muscular, enquanto as técnicas de alongamento são usadas para tratar limitações nos movimentos, de modo a melhorar a mobilidade funcional. Dor, mecanismo de defesa muscular e espasmo Articulações dolorosas, mecanismo de defesa muscular reflexo e espasmo muscular podem ser tratados com técnicas de mobilização intra-articular suave para estimular efeitos neurofisiológicos e mecânicos.12 Efeitos neurofisiológicos Movimentos de oscilação e separação de pequena amplitude são usados para estimular os mecanorreceptores que podem inibir a transmissão de estímulos nociceptivos no nível da medula espinal ou tronco encefálico.30,33 Efeitos mecânicos Movimentos de separação ou deslizamento de pequena amplitude da articulação são usados para produzir movimento do líquido sinovial, o veículo que transporta nutrientes para as porções avasculares da cartilagem articular (e para a fibrocartilagem intra-articular, quando presente). Técnicas suaves de mobilização intra-articular ajudam a manter a troca de nutrientes e, assim, prevenir os efeitos dolorosos e degenerativos da estagnação quando uma articulação está edemaciada ou dolorosa e não pode mover-se em sua ADM. Quando usadas para tratar dor, mecanismo de defesa muscular ou espasmo muscular, essas técnicas não devem alongar os tecidos reativos (ver Seção Contraindicações e precauções). Hipomobilidade articular reversível A hipomobilidade articular reversível pode ser tratada com técnicas de alongamento intra- articular progressivamente vigoroso para alongar tecido conjuntivo capsular e ligamentar hipomóvel. São usadas forças de alongamento sustentado ou oscilatório para distender mecanicamente o tecido encurtado.12,17 Falhas de posicionamento/subluxações O mau posicionamento de uma parte óssea com relação a sua superfície oponente pode resultar em limitação de movimento ou dor. Isso pode ocorrer com uma lesão traumática, após períodos de imobilidade ou em razão de desequilíbrios musculares. O mau posicionamento pode ser perpetuado por um controle neuromuscular mal adaptado na articulação, de modo que, ao tentar uma ADM ativa, as superfícies articulares seguem um curso defeituoso, resultando em dor ou limitação de movimento. As técnicas de MM tentam realinhar as partes ósseas enquanto a pessoa move ativamente a articulação ao longo da ADM.26 São usadas técnicas em alta velocidade para reposicionar uma subluxação óbvia, tal como uma subluxação distal de cotovelo ou de capitato-semilunar. Limitação progressiva Doenças que limitam progressivamente o movimento podem ser tratadas com técnicas de mobilização intra-articular para mantera mobilidade disponível ou retardar restrições mecânicas progressivas. A dosagem de separação ou deslizamento é ditada pela resposta do paciente ao tratamento e pelo estado de desenvolvimento da doença. Imobilidade funcional Quando um paciente não pode mover funcionalmente uma articulação por certo período, a articulação pode ser tratada com técnicas de deslizamento ou separação sem alongamento para manter a mobilidade articular disponível e prevenir os efeitos degenerativos e limitadores da imobilidade.